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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

America’s huge stimulus is having surprising effects on the poor (The Economist)

Though severe deprivation is rising, not everyone is worse off.

Jul 6th 2020

NO ONE WELCOMES a recession, but downturns are especially difficult when you are poor. Rising unemployment means rising poverty: the recession of 2007-09 prompted the share of Americans classified as poor, on a widely used measure, to jump from 12% to 17%, as jobs vanished by the million and businesses went bust. That economic shock, as bad as it was, pales in comparison with what America is seeing today under the coronavirus pandemic. The jobs report for June, published on July 2nd, showed that unemployment remained well above the peak of a decade ago.

Severe deprivation is certainly on the rise. According to a new survey from the Census Bureau, since the pandemic began the share of Americans who “sometimes” or “often” do not have enough to eat has grown by two percentage points, representing some 4m households. An astonishing 20% of African-American households with children are now in this position. Meanwhile, the proportion of Americans saying that they are able to make the rent is falling. More people are typing “bankrupt” into Google.

Yet these trends, as shocking as they are, do not appear to be part of a generalised rise in poverty. The official data will not be available for some time. A new paper from economists at the University of Chicago and the University of Notre Dame, however, suggests that poverty, as measured on an annual basis, may have actually fallen a bit in April and May, continuing a trend seen in the months before the pandemic hit (see chart 1).

Why? The main reason is that fiscal policy is helping to push poverty down. The stimulus plan passed by Congress is twice the size of the one passed to fight the recession of a decade ago. Much of it, including cheques worth up to $1,200 for a single person and a $600-a-week increase in unemployment insurance (UI) for those out of work, is focused on helping households through the lockdowns. At the same time, unemployment now looks unlikely to rise to 25% or higher, as some economists had predicted in the early days of the pandemic, thereby exerting less upward pressure on poverty than had been feared.

The upshot is that the current downturn looks different from previous ones. Household income usually falls during a recession—as it did the last time, pushing up poverty. But a paper in mid-June from Goldman Sachs, a bank, suggests that this year nominal household disposable income will actually increase by about 4%, pretty much in line with its growth rate before the pandemic hit (see chart 2). The extra $600 in UI ensures, in theory, that three-quarters of job losers will earn more on benefits than they had done in work.

By international standards, America’s unexpected success at reducing poverty nonetheless remains modest. Practically every other rich country has a lower poverty rate. It is also a fragile accomplishment. The extra $600-a-week payments are supposed to expire at the end of July. The authors of a recent paper from Columbia University argue that poverty could rise sharply in the second half of the year, a valid concern if unemployment has not decisively fallen by then. Goldman’s paper assumes that Congress will extend the extra unemployment insurance, but for the value of the payment to drop to $300. Even then, household disposable income would probably fall next year.

Whether extra stimulus would help those at the very bottom of America’s socio-economic ladder—including people not able to buy sufficient food—is another question. Six per cent of adults do not have a current (checking), savings or money-market account, making it difficult for them to receive money from Uncle Sam. Some may have been caught up in the delays which have plagued the UI system, and a small number may be undocumented immigrants not entitled to fiscal help at all. Others report not being able to gain access to shops, presumably closed under lockdowns. A surefire way to improve the lot of people in such unfortunate positions is to get the virus under control and the economy firing on all cylinders once again. But, for now, that looks some way off.

Como falar sobre a antifa com quem surta com o movimento (Vice)

[Este artigo está postado neste blogue por tratar-se de material de pesquisa. Não sou apoiador dos métodos da antifa, ainda que esteja absolutamente alinhado com as sua agenda antifascista. RT]

Rachel Miller, 2 de julho de 2020

Quando você ouviu falar sobre a antifa pela primeira vez? Talvez foi com a filmagem viral onde uma figura mascarada socava o neonazista Richard Spencer no dia da posse de Donald Trump. Ou depois do protesto Unite the Right em Charlottesville, Virgínia, em 2017, onde supremacistas brancos gritaram “judeus não vão nos substituir” e espancaram um homem negro com barras de metal, e quando um neonazista assassinou uma mulher jogando seu carro contra uma multidão de contramanifestantes. Depois desse evento, Trump culpou os “dois lados” pelo caso e criticou a “anteeefa!

No mesmo ano, vários vídeos de ativistas antifascistas viralizaram, mostrando caçambas de lixo sendo incendiadas em protesto contra o troll de extrema-direita Milo Yiannopoulos fazendo um discurso racista e antitrans na Universidade da Califórnia, Berkeley. A presidente da Câmara Nancy Pelosi, uma democrata, condenou as “ações violentas de pessoas que se chamam de antifa”.

Muita gente conheceu a “antifa” através da obsessão de Trump com ela como seu bicho-papão favorito. Nas últimas semanas, os EUA viu um dos levantes liderado por negros mais poderosos de uma geração. Segundo o presidente americano, seu Departamento de Justiça e a Fox News, a antifa é um grupo terrorista bem organizado, responsável pelos aspectos mais violentos dos protestos recentes, guiado por um desejo de destruição.

“Os EUA vai designar a ANTIFA como uma Organização Terrorista”, Trump escreveu num tuíte no começo de junho.

Uma reportagem da Fox News ecoou que a antifa estava “supostamente comandando a turbulência violenta atual”.

Então não é surpresa que muitos dos seus parentes e entes queridos tenham absorvido a noção de que a “antifa” é uma força mascarada terrível, voltada apenas para destruição, que mais atrapalha que ajuda a causa da justiça social. Muitas pessoas bem-intencionadas temem ou condenam a antifa – enquanto apoiam o movimento pelas vidas negras e se opõem a Trump.

Se seus parentes e amigos caem nessa categoria, há razões para ser importante corrigir narrativas falsas sobre o movimento. Primeiro: as falas de Trump sobre a antifa estão sendo usadas para desacreditar o movimento negro atual e para distrair da violência policial racista, enquanto criminalizam ainda mais uma variedade de atividades de protesto. Segundo: se vamos conversar seriamente sobre os tipos de ações que trazem as mudanças sociais e políticas que queremos para o mundo, é importante entender os motivos para certas pessoas escolherem certas táticas, incluindo confronto agressivo e físico com membros da extrema-direita.

Aqui você tem algumas perguntas que podem aparecer conversando com entes queridos sobre o que é a antifa, e qual sua real abordagem para lutar contra a supremacia branca. Esperamos que isso ajude a esclarecer as coisas.

Então: o que realmente é a antifa?

“Antifa” é uma abreviação de “antifascista”. Mas isso pode criar alguma confusão: afinal de contas, fora alguns nacionalistas brancos e neonazistas declarados, muitas pessoas se sentiriam confortáveis em se descrever como “antifascista”, mas não participariam necessariamente de atividades associadas com a antifa. Mas a “antifa” não é apenas uma abreviação para antifascista: a abordagem do movimento é combativa, tomada contra grupos, indivíduos e instituições que perpetuam atos e ideologias fascistas.

Por “combativo”, quero dizer que participantes da antifa se comprometem com o uso de uma variedade de táticas, algumas consideradas violentas, como lutar fisicamente com grupos supremacistas brancos nas ruas e danificar propriedade de instituições dispostas a receber palestrantes e grupos fascistas. Para a antifa, o uso de violência física sempre pode ser chamada de “contra-violência”: eles entendem que há uma violência inerente na ideologia da supremacia branca, e estão disposto a ir contra isso com força física, como socar um neonazista! Um antifa pode ser o primeiro a dar um soco numa briga com uma gangue de extrema-direita, mas supremacistas brancos, por suas crenças, introduzem a violência na cena em primeiro lugar.

A antifa não é uma organização. Não há “líderes antifa” oficiais; não há membros oficiais. Não há uma liderança ou comitê centralizado. A antifa é melhor entendida como uma prática, ou um conjunto de práticas, que grupos podem usar; e às vezes certos coletivos usam o rótulo “antifa” para se descrever – para sinalizar que usam essas táticas e práticas, que incluem, mas não se limitam, a confronto físico com a extrema-direita. Grupos e indivíduos que se identificam como “antifa” em diferentes partes do país, do mundo, ou mesmo em uma cidade, geralmente não estão em contato uns com os outros, mas compartilham o compromisso comum de usar abordagens não-tolerantes similares quando confrontam racistas de extrema-direita se organizando em seu meio.

O historiador Mark Bray, que escreveu o excelente Antifa: O Manual Antifascista, oferece uma ótima analogia: Chamar a antifa de uma organização, ele escreveu, “é como chamar observação de pássaros de uma organização. Sim, há organizações de observação de pássaros, assim como há organizações antifa, mas nem observação de pássaros nem a antifa são organizações”.

Esquerdistas de todos os tipos – anarquistas, comunistas, socialistas democráticos e até liberais – já utilizaram práticas da antifa. Em termos práticos: a ação da antifa que chama mais a atenção do mainstream – lutar com supremacistas brancos nas ruas, ou acabar com comícios e palestras usando força física – é uma parte pequena, embora importante, do trabalho da antifa. Força física é apenas um fio do arco antifa. O arco é focado em fazer o que for necessário para impedir extremistas racistas de se reunir, organizar e espalhar suas ideologias de ódio.

Uma das atividades mais importantes da antifa não tem nada a ver com brigas de rua e protestos combativos. Ela envolve pesquisa: entrar em fóruns supremacistas brancos para descobrir que vozes e grupos estão ganhando tração e planejando eventos. O objetivo é expor as identidades de fascistas que atuam quase sempre anonimamente, e denunciar conteúdo racista em plataformas das redes sociais para que vozes fascistas sejam derrubadas desses sites. Nos melhores cenários, extremistas são removidos de plataformas como o YouTube, que já removeu as contas do ex-líder da Ku Klux Klan David Duke e do nacionalista branco canadense Stefan Molyneux, entre outros. Nessas plataformas, a extrema-direita pode ganhar mais seguidores entre jovens vulneráveis e confusos. É uma atividade antifa por excelência cortar o suprimento de oxigênio que permite que organizações fascistas respirem e se expandam.

Destacando esse aspecto do trabalho antifa, você pode ajudar parentes céticos a começar a entender o propósito da atividade antifa de maneira mais geral. Mesmo pessoas que não gostam de confronto físico vão apreciar que essas pessoas gastem horas e horas para expor a identidade de supremacistas brancos violentos, que podem morar no seu bairro, estar se organizando na sua faculdade e até, como muitas vezes é o caso, trabalhando em departamentos de polícia.

A maioria dos ativistas antifa que conheço tem um compromisso com outras atividades anticapitalistas e de organização para justiça social. Quando alguém veste sua máscara antifa (metaforicamente aqui – porque não existe uma máscara antifa oficial), é para expor e derrubar atividades de grupos supremacistas brancos, racistas, misóginos nacionalistas e anti-LGBTQ em seu meio.

As origens da antifa podem ser encontradas nos esquadrões que batalharam contra os capangas simpatizantes do líder fascista italiano Benito Mussolini e de Adolf Hitler no século passado. São coletivos como o 43 Group na Inglaterra: judeus britânicos que, depois da Segunda Guerra Mundial, formaram gangues para acabar com reuniões de fascistas antissemitas em Londres e outras cidades. Eles não usavam o termo “antifa” para se descrever. Mas usavam táticas que agora associamos com a antifa: eles pesquisavam, localizavam e expunham organizadores fascistas, e os confrontavam nas ruas, incluindo em brigas sangrentas. Acho o 43 Group um exemplo histórico útil, porque eles são considerados heróis por espancar fascistas do pós-guerra na Inglaterra. Mas eles realmente se envolviam em confrontos extremamente combativos, e arrebentavam a cara de fascistas.

Pode surgir a questão de como grupos antifa escolhem seus alvos para oposição combativa hoje. São decisões que essas comunidades precisam tomar no momento. O que não é algo ruim: isso significa levar a sério as ameaças que encaramos enquanto elas surgem. Não acho útil elaborar com antecedência uma lista totalmente clara de quem é ou não um fascista. O fascismo não funciona assim hoje – muitas vezes, simpatizantes de políticas fascistas, como fechar fronteiras, não se chamam de fascistas. Então precisamos entender o fascismo hoje como essas políticas e ideologias que visam exclusões racistas, nacionalistas e patriarcais. A antifa não espera um grupo ter todas as características tradicionais de um partido político fascista do século 20 para considerá-lo um inimigo. Nas últimas décadas, sob a faixa “antifa” pelo mundo todo, coletivos tomaram ações agressivas contra gangues, milícias, políticos e acadêmicos supremacistas brancos.

Por que um grupo antifascista não protesta pacificamente?

O aspecto mais espinhoso da ação antifa é a questão da violência. Debates sobre violência e não-violência dentro de movimentos de protesto continuam, sem acordo sobre uma resolução, há décadas. Tipicamente, defensores de protestos estritamente não-violentos argumentam que usar violência desacredita um movimento, tornando os manifestantes não melhores que as forças a que eles se opõem. Mas aqueles que estão dispostos a usar violência política tendem a também reconhecer a importância e sucessos de táticas de protesto não-violentas, mas acreditam que há ocasiões onde força física é necessária e benéfica: onde é necessário parecer uma ameaça real para as estruturas de poder existentes, ou, no caso da maioria das ações antifa, para criar consequências intoleráveis para fascistas tentando construir movimentos.

Acho que quando você tem esses debates, é necessário pensar sobre o que queremos dizer quando chamamos algo de “violência” e condenamos como tal. Qualquer discussão sobre violência e antifa deve apontar que, desde 1990, tivemos mais de 450 mortes causadas por violência supremacista branca, comparado com apenas uma supostamente relacionada com atividade da esquerda, nos EUA. Mais de 70% dos assassinatos extremistas entre 2008 e 2018 foram cometidos pela extrema-direita. Vale ressaltar isso para um parente que está seguindo a linha de Trump e chamando a “esquerda radical” de a força extremista mais violenta do país.

Como mencionei acima, aqueles que simpatizam com as táticas da antifa veem a abordagem do movimento como uma força radical de legítima defesa: uma ação preventiva para proteger a comunidade da violência inerente de uma organização fascista. O filósofo e ativista negro Cornel West, que participou de um contraprotesto no comício Unite the Right em Charlottesville, disse sobre a antifa: “Eles realmente salvaram nossas vidas. Teríamos sido completamente esmagados”. Ele disse sobre os supremacistas brancos: “Nunca vi esse tipo de ódio na vida”.

Quando surgem questões sobre o papel da antifa na onda atual de levantes negros, você pode explicar que, apesar de insistência sem fundamentos de Trump, grupos explicitamente identificados como antifa dificilmente estão tendo um papel neles. E mesmo que nem todo participante da antifa nos EUA seja branco, acredito que a maioria é – mas isso é difícil de verificar, porque a maior parte da antifa trabalha anonimamente. Conheço indivíduos brancos em Nova York e outras cidades que já se envolveram em ações e protestos da antifa, e que participaram dos protestos recentes mas não em papéis de liderança, apenas em solidariedade com a luta negra.

Neste momento histórico de protestos antirracismo, temos que lembrar que não são apenas grupos que se identificam como “antifa” que resistem de maneira radical a estruturas fascistas e supremacistas brancas. Esse é um legado da tradição radical negra. Num ensaio excelente de William C. Anderson e Zoé Samudzi – cujo trabalho recomendo para entender o antifascismo negro – eles apontam que “formações negras radicais são fundamentalmente antifascistas, apesar de funcionar fora dos espaços antifa ‘convencionais’, e pessoas negras se envolvem em resistência anarquista desde nossa chegada nas Américas”. Os autores fazem uma exigência crucial para aqueles que criticam ação combativa contra fascismo racista e supremacia branca nos EUA: “No mínimo”, ele escrevem, “uma conversa sobre legítima defesa que não confunda nossa sobrevivência como uma forma de violência é profundamente necessária”.

A antifa é eficaz?

Se estou conversando com alguém que é contra a ideia de recorrer a confronto físico ao interagir com extremismo racista ou violência policial, lembro que a pessoa não precisa gostar do uso de contra-violência. É preciso lembrar onde a violência real está nessas situações: com grupos se organizando para apoiar a ideologia assassina da supremacia branca.

As táticas da antifa têm suas limitações, como aqueles que as usam sabem: sabemos, por exemplo que não vamos destruir a história arraigada da supremacia branca nos EUA simplesmente acabando com comícios de extrema-direita e tirando a plataforma de supremacistas brancos. Essas figuras e grupos são a ponta do icebergue racista, mas são mortais, e se sentiram empoderadas com a eleição de Trump.

As táticas da antifa continuam mostrando sucesso em deter organizações racistas nas ruas, faculdades e na internet. Quando o neonazista Spencer cancelou sua turnê por universidades americanas, por exemplo, ele culpou explicitamente a antifa. Chamo isso de um sucesso. E ano passado, quando os misóginos fascistas do Proud Boys marcharam em Portland, eles foram ofuscados por uma multidão de mais de mil contramanifestantes antifascistas, numa intervenção em grande parte pacífica. Foi um exemplo de como a antifa pode usar seus números para humilhar alvos racistas.

Mas e a liberdade de expressão? Os antifascistas não deveriam respeitar o direito dos outros de expressar seus pontos de vista?

Na minha experiência, essa questão é a parte mais difícil de explicar sobre a antifa para parentes liberais. Algum parente pode perguntar se não era melhor a antifa trazer suas divergências com a extrema-direita para o tal “mercado de ideias”, ou levantar a questão do discurso de ódio no sistema judicial. Algumas pessoas ficam imaginando por que participantes da antifa acham que podem resolver as coisas com as próprias mãos.

A noção de que qualquer um, mesmo o racista mais vil, deve ter a permissão de desfrutar do direito de cuspir suas ideias em público é um princípio central do liberalismo americano. Há essa coisa de ver valor tático e moral em permitir que até neonazistas publiquem suas palestras e comícios, acreditando que as falácias de suas visões de ódio são melhores visíveis.

Há algumas maneiras de abordar isso. Primeiro e principalmente, todos vamos concordar que vidas negras e de imigrantes importam – o que um fascista negaria – e isso não é debatível. Isso não é uma questão acadêmica. É uma ameaça para as vidas de pessoas não-brancas.

Ativistas da antifa tomam ação direta e baseada na comunidade precisamente porque entendem que o estado (especialmente sob Trump), a polícia e o sistema legal são instituições racistas e muitas vezes fascistas.

Sempre achei que o aspecto da antifa que quero mais que meus parentes entendam é que o movimento é razoável, não sem noção; é uma resposta razoável para a natureza da organização fascista. As práticas da antifa entendem que o desejo por fascismo não é algo baseado na razão, então não dá pra argumentar com isso. O ponto no certe da ação antifa é trazer consequências desagradáveis na vida real para pessoa que se envolvem com organização fascista. Se a sensação de poder, dominação e pertencimento é o que torna o fascismo atraente – o motivo para jovens brancos estarem entrando nessa – ação antifascista combativa é uma questão de acabar com esse apelo.

A ação da antifa não é brigas e destruição pela própria destruição. Ela é baseada no entendimento de como o fascismo funciona, como o desejo por ele se espalha, e qual o melhor jeito de intervir nisso. As pessoas podem discordar sobre como e quando certas táticas são eficazes, mas as práticas da antifa são baseadas num entendimento estudado do fascismo, e na necessidade de que práticas fascistas simplesmente acabem.

Vou desafiar qualquer parente ou conhecido que exija que antirracistas respondam educadamente para quem está comprometido em manter e fortalecer o status quo da supremacia branca, que é mortal para negros e minorias. Se seu parente continuar mais preocupado com uma vitrine quebrada num protesto do Black Lives Matter, a divergência entre vocês pode não ser realmente sobre as táticas usadas pela antifa, mas sobre quais vidas importam. E, no espírito antifa, pode ser hora de acabar com a conversa.

Natasha Lennard é a autora de Being Numerous: Essays on Non-Fascist Life . Siga-a no Twitter.

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“Como pesquisadores, precisamos ter a humildade de assumir que nos deparamos com os limites da técnica e da ciência” (Revista Pesquisa Fapesp)

Depoimento concedido a Christina Queiroz. 5 de julho de 2020

“A chegada da Covid-19 causou um impacto muito forte em todos os meus colegas na Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. Com minha esposa, estou fazendo um isolamento rigoroso em Manaus, porque tenho quase 60 anos, tomo remédios para controlar pressão e diabetes. Vivemos semanas muito tristes, marcadas por muita dor e sofrimento. Como indígena, sigo perdendo amigos, familiares e lideranças de longa data. Fomos pegos de surpresa. Não acreditávamos na possibilidade de uma tragédia humanitária como essa. Faço parte de uma geração de indígenas que tem fé no poder da ciência, da tecnologia e acredita nos avanços proporcionados pela modernidade. No nosso pensamento, o vírus representa um elemento a mais da natureza. E, por causa da nossa fé no poder da ciência e da medicina científica, não esperávamos uma submissão tão grande da humanidade a um elemento tão pequeno e invisível. Assim, a primeira consequência da chegada da pandemia foi pedagógica e causou reflexões sobre nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. 

Como pesquisadores acadêmicos, também precisamos ter a humildade de assumir que nos deparamos com os limites da técnica e da ciência. Ter humildade não significa se apequenar, mas, sim, buscar complementar os conhecimentos acadêmicos com outros saberes, para além da ciência eurocêntrica, e isso inclui as ciências indígenas. Ficou evidente o quanto é perigosa a trajetória que a humanidade está tomando, um caminho à deriva, sem lideranças, sem horizonte claro à possibilidade da própria existência humana. Somos uma sociedade que caminha para sua autodestruição. A natureza mostrou sua força, evidenciou que a palavra final é dela, e não dos humanos. 

Com o passar das semanas, essa ideia foi sendo incorporada em nossa maneira de compreender, explicar, aceitar e conviver com a nova realidade. Os povos indígenas apresentam cosmovisões milenares, mas que são atualizadas de tempos em tempos, como tem acontecido na situação atual. Passamos a olhar para a nova situação como uma oportunidade para empreender uma revisão cosmológica, filosófica, ontológica e epistemológica da nossa existência e buscar formas pedagógicas para sofrer menos. Nós, indígenas, somos profundamente emotivos. Amamos a vida e nossa existência não é pautada pela materialidade. O momento atual representa uma situação única de formação, pois afeta nossas emoções e valores. Ficamos surpresos com o pouco amor à vida das elites econômicas e de parte dos governantes, mas também de uma parcela significativa da população. A pandemia revelou essas deficiências. 

Por outro lado, um dos elementos que emergiu desse processo é uma profunda solidariedade, que tem permitido aos povos indígenas sobreviver no contexto atual. Identificamos fragilidades e limites. Também potencializamos nossas fortalezas. Uma delas, a valorização do conhecimento tradicional, considerado elemento do passado. Redescobrimos o valor do Sistema Único de Saúde [SUS], com toda a fragilidade que foi imposta a ele por diferentes governos. O SUS tem sido um gigante em um momento muito difícil para toda a sociedade.

Coordeno o curso de formação de professores indígenas da Faculdade de Educação da Ufam e me envolvo diariamente em discussões como essas com os alunos. São mais de 300 estudantes que fazem parte desse programa, divididos em cinco turmas. Recentemente, um deles morreu por conta de complicações causadas pelo novo coronavírus. No Amazonas, há mais de 2 mil professores indígenas atuando nas escolas das aldeias. Tenho muito trabalho com atividades burocráticas, para atualizar o registro acadêmico dos alunos e analisar suas pendências. Estamos planejando como fazer a retomada das atividades presenciais de ensino, mas essa retomada só deve acontecer em 2021. Enquanto isso, seminários on-line permitem dar continuidade ao processo de ensino-aprendizagem e ajudam a fomentar a volta de um espírito de solidariedade entre os estudantes indígenas, a valorização da natureza e a recuperação de saberes tradicionais sobre plantas e ervas medicinais. Em condições normais, a possibilidade de participar de tantos seminários e discussões não seria possível. Essas reflexões realizadas durante os encontros virtuais vão se transformar em material didático e textos publicados. Escrever esses textos me ajuda na compreensão da realidade e permite que esse saber seja compartilhado. 

Estamos realizando uma pesquisa para identificar quantos alunos do programa dispõem de equipamentos e acesso à internet. Muitos estão isolados em suas aldeias, alguns deles se refugiaram em lugares ainda mais remotos e só acessam a internet em situações raras e pontuais, quando precisam ir até as cidades. Em Manaus, constatamos que apenas 30% dos estudantes da Faculdade de Educação da Ufam dispõem de equipamento pessoal para utilizar a internet. No interior, entre os alunos dos territórios, esse percentual deve ser de menos de 10%. Devemos ter os resultados desse levantamento nas próximas semanas. Sou professor há 30 anos e trabalho com organizações e lideranças indígenas e vejo como esse fator dificulta o planejamento de qualquer atividade remota. Quando tivermos os resultados dessa pesquisa, a ideia é ter uma base de dados para que o movimento indígena se organize para solucionar o problema. Essa situação de ensino remoto pode se prolongar e precisamos estar preparados para não prejudicar os direitos dos alunos e vencer a batalha da inclusão digital.

Há 50 dias, vivíamos o pico da pandemia em Manaus. Estávamos apavorados, com 140 mortes diárias e as pessoas sendo enterradas em valas coletivas. Essa semana foi a primeira que sentimos um alívio. Hoje, 25 de junho, foi o primeiro dia em que nenhuma morte por coronavírus foi registrada na cidade. O medo agora é que pessoas desinformadas, ou menos sensíveis à vida, com o relaxamento das regras de isolamento, provoquem uma segunda onda de contaminação. Percebemos que as pessoas abandonaram as práticas de isolamento e muitas nem sequer utilizam máscaras. Mas começamos a sair do fundo do poço, inclusive o existencial. As estruturas montadas para o caos, como os hospitais de campanha, estão sendo desmontadas. 

Tivemos perdas de lideranças e pajés indígenas irreparáveis e insubstituíveis. Com a morte desses sábios, universos de sabedoria milenar desapareceram. Os pajés são responsáveis por produzir e manter o conhecimento tradicional, que só é repassado para alguns poucos herdeiros escolhidos, que precisam ser formados em um processo ritualístico longo e repleto de sacrifícios. As gerações mais jovens apresentam dificuldades para seguir esses protocolos e, por causa disso, o conhecimento tradicional tem enfrentado dificuldades em ser repassado. Eu e meus colegas da Ufam e dos movimentos indígenas estamos incentivando a nova geração a criar estratégias para absorver essa sabedoria, porque muitos sábios seguirão vivos. Escolas e universidades também podem colaborar com o processo, reconhecendo a importância desses saberes. Com os jovens, estamos insistindo que chegou a hora de garantir a continuidade dos saberes tradicionais. 

Com a melhoria da situação em Manaus, minha preocupação agora se voltou para o interior, onde foram notificadas 24 mortes nas últimas 24 horas. A população do interior representa menos de 50% da do Amazonas, estado onde as principais vítimas têm sido indígenas, do mesmo modo que acontece em Roraima. Toda minha família vive em São Gabriel da Cachoeira, incluindo minha mãe de 87 anos. A cidade já registrou mais de 3 mil casos e 45 mortes e ainda não atingiu o pico da pandemia. Há cerca de 800 comunidades no entorno do município e sabemos que o vírus já se espalhou por quase todas elas.

Porém há algo que nos alivia. Inicialmente ficamos apavorados, pensando que o vírus causaria um genocídio na população da cidade e seus entornos. O único hospital de São Gabriel não possui leitos de UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Passados 45 dias da notificação do primeiro caso na cidade, apesar das perdas significativas, vemos que as pessoas têm conseguido sobreviver à doença se cuidando em suas próprias casas, com medicina tradicional e fortalecendo laços de solidariedade. Minha mãe ficou doente, apresentou os sintomas da Covid-19. Também meus irmãos e uma sobrinha de minha mãe de 67 anos. Eles não foram testados. Decidiram permanecer em suas casas e cuidar uns dos outros, se valendo de ervas e cascas de árvores da medicina tradicional. Sobreviveram. Sabiam que ir para o hospital lotado naquele momento significaria morrer, pois a estrutura é precária e eles ficariam sozinhos. Ao optar por permanecer em casa, possivelmente transmitiram a doença um ao outro, mas a solidariedade fez a diferença. Um cuidou do outro. Culturalmente, a ideia de isolar o doente é algo impossível para os indígenas, pois seria interpretado como abandono, falta de solidariedade e desumanidade, o que é reprovável. Os laços de solidariedade vão além do medo de se contaminar.”

Elogio da Profanação – Giorgio Agamben (Territórios de Filosofia)

Aurora Baêta

Os juristas romanos sabiam perfeitamente o que significa “profanar”. Sagradas ou religiosas eram as coisas que de algum modo pertenciam aos deuses. Como tais, elas eram subtraídas ao livre uso e ao comércio dos homens, não podiam ser vendidas nem dadas como fiança, nem cedidas em usufruto ou gravadas de servidão. Sacrílego era todo ato que violasse ou transgredisse esta sua especial indisponibilidade, que as reservava exclusivamente aos deuses celestes (nesse caso eram denominadas propriamente “sagradas”) ou infernais (nesse caso eram simplesmente chamadas “religiosas”). E se consagrar (sacrare) era o termo que designava a saída das coisas da esfera do direito humano, profanar, por sua vez, significava restituí-las ao livre uso dos homens. “Profano” — podia escrever o grande jurista Trebácio — “em sentido próprio denomina-se àquilo que, de sagrado ou religioso que era, é devolvido ao uso e à propriedade dos homens”. E “puro” era o lugar que havia sido desvinculado da sua destinação aos deuses dos mortos e já não era “nem sagrado, nem santo, nem religioso, libertado de todos os nomes desse gênero” (D. 11, 7, 2).

Puro, profano, livre dos nomes sagrados, é o que é restituído ao uso comum dos homens. Mas o uso aqui não aparece como algo natural; aliás, só se tem acesso ao mesmo através de uma profanação. Entre “usar” e “profanar” parece haver uma relação especial, que é importante esclarecer.

Pode-se definir como religião aquilo que subtrai coisas, lugares, animais ou pessoas ao uso comum e as transfere para uma esfera separada. Não só não há religião sem separação, como toda separação contém ou conserva em si um núcleo genuinamente religioso. O dispositivo que realiza e regula a separação é o sacrifício: através de uma série de rituais minuciosos, diferenciados segundo a variedade das culturas, e que Hubert e Mauss inventariaram pacientemente, ele estabelece, em todo caso, a passagem de algo do profano para o sagrado, da esfera humana para a divina. É essencial o corte que separa as duas esferas, o limiar que a vítima deve atravessar, não importando se num sentido ou noutro. O que foi separado ritualmente pode ser restituído, mediante o rito, à esfera profana. Uma das formas mais simples de profanação ocorre através de contato (contagione) no mesmo sacrifício que realiza e regula a passagem da vítima da esfera humana para a divina. Uma parte dela (as entranhas, exta: o fígado, o coração, a vesícula biliar, os pulmões) está reservada aos deuses, enquanto o restante pode ser consumido pelos homens. Basta que os participantes do rito toquem essas carnes para que se tornem profanas e possam ser simplesmente comidas. Há um contágio profano, um tocar que desencanta e devolve ao uso aquilo que o sagrado havia separado e petrificado.

O termo religio, segundo uma etimologia ao mesmo tempo insípida e inexata, não deriva de religare (o que liga e une o humano e o divino), mas de relegere, que indica a atitude de escrúpulo e de atenção que deve caracterizar as relações com os deuses, a inquieta hesitação (o “reler”) perante as formas — e as fórmulas — que se devem observar a fim de respeitar a separação entre o sagrado e o profano. Religio não é o que une homens e deuses, mas aquilo que cuida para que se mantenham distintos. Por isso, à religião não se opõem a incredulidade e a indiferença com relação ao divino, mas a “negligência”, uma atitude livre e “distraída” — ou seja, desvinculada da religio das normas — diante das coisas e do seu uso, diante das formas da separação e do seu significado. Profanar significa abrir a possibilidade de uma forma especial de negligência, que ignora a separação, ou melhor, faz dela um uso particular.

A passagem do sagrado ao profano pode acontecer também por meio de um uso (ou melhor, de um reuso) totalmente incongruente do sagrado. Trata-se do jogo. Sabe-se que as esferas do sagrado e do jogo estão estreitamente vinculadas. A maioria dos jogos que conhecemos deriva de antigas cerimônias sacras, de rituais e de práticas divinatórias que outrora pertenciam à esfera religiosa em sentido amplo. Brincar de roda era originalmente um rito matrimonial; jogar com bola reproduz a luta dos deuses pela posse do sol; os jogos de azar derivam de práticas oraculares; o pião e o jogo de xadrez eram instrumentos de adivinhação. Ao analisar a relação entre jogo e rito, Émile Benveniste mostrou que o jogo não só provém da esfera do sagrado, mas também, de algum modo, representa a sua inversão. A potência do ato sagrado — escreve ele — reside na conjunção do mito que narra a história com o rito que a reproduz e a põe em cena. O jogo quebra essa unidade: como ludus, ou jogo de ação, faz desaparecer o mito e conserva o rito; como jacus, ou jogo de palavras, ele cancela o rito e deixa sobreviver o mito. “Se o sagrado pode ser definido através da unidade consubstanciai entre o mito e o rito, poderíamos dizer que há jogo quando apenas metade da operação sagrada é realizada, traduzindo só o mito em palavras e só o rito em ações.”

Isso significa que o jogo libera e desvia a humanidade da esfera do sagrado, mas sem a abolir simplesmente. O uso a que o sagrado é devolvido é um uso especial, que não coincide com o consumo utilitarista. Assim, a “profanação” do jogo não tem a ver apenas com a esfera religiosa. As crianças, que brincam com qualquer bugiganga que lhes caia nas mãos, transformam em brinquedo também o que pertence à esfera da economia, da guerra, do direito e das outras atividades que estamos acostumados a considerar sérias. Um automóvel, uma arma de fogo, um contrato jurídico transformam-se improvisadamente em brinquedos. É comum, tanto nesses casos como na profanação do sagrado, a passagem de uma religio, que já é percebida como falsa ou opressora, para a negligência como vera religio. E essa não significa descuido (nenhuma atenção resiste ao confronto com a da criança que brinca), mas uma nova dimensão do uso que crianças e filósofos conferem à humanidade. Trata-se de um uso cujo tipo Benjamin devia ter em mente quando escreveu, em O novo advogado, que o direito não mais aplicado, mas apenas estudado, é a porta da justiça. Da mesma forma que a religio não mais observada, mas jogada, abre a porta para o uso, assim também as potências da economia, do direito e da política, desativadas em jogo, tornam-se a porta de uma nova felicidade.

O jogo como órgão da profanação está em decadência em todo lugar. Que o homem moderno já não sabe jogar fica provado precisamente pela multiplicação vertiginosa de novos e velhos jogos. No jogo, nas danças e nas festas, ele procura, de maneira desesperada e obstinada, precisamente o contrário do que ali poderia encontrar: a possibilidade de voltar à festa perdida, um retorno ao sagrado e aos seus ritos, mesmo que fosse na forma das insossas cerimônias da nova religião espetacular ou de uma aula de tango em um salão do interior. Nesse sentido, os jogos televisivos de massa fazem parte de uma nova liturgia, e secularizam uma intenção inconscientemente religiosa. Fazer com que o jogo volte à sua vocação puramente profana é uma tarefa política.

É preciso, nesse sentido, fazer uma distinção entre secularização e profanação. A secularização é uma forma de remoção que mantém intactas as forças, que se restringe a deslocar de um lugar a outro. Assim, a secularização política de conceitos teológicos (a transcendência de Deus como paradigma do poder soberano) limita-se a transmutar a monarquia celeste em monarquia terrena, deixando, porém, intacto o seu poder.

A profanação implica, por sua vez, uma neutralização daquilo que profana. Depois de ter sido profanado, o que estava indisponível e separado perde a sua aura e acaba restituído ao uso. Ambas as operações são políticas, mas a primeira tem a ver com o exercício do poder, o que é assegurado remetendo-o a um modelo sagrado; a segunda desativa os dispositivos do poder e devolve ao uso comum os espaços que ele havia confiscado.

Os filólogos não cansam de ficar surpreendidos com o dúplice e contraditório significado que o verbo profanare parece ter em latim: por um lado, tornar profano, por outro — em acepção atestada só em poucos casos — sacrificar. Trata-se de uma ambigüidade que parece inerente ao vocabulário do sagrado como tal: o adjetivo sacer, com um contra-senso que Freud já havia percebido, significaria tanto “augusto, consagrado aos deuses”, como “maldito, excluído da comunidade”. A ambigüidade, que aqui está em jogo, não se deve apenas a um equívoco, mas é, por assim dizer, constitutiva da operação profanatória (ou daquela, inversa, da consagração). Enquanto se referem a um mesmo objeto que deve passar do profano ao sagrado e do sagrado ao profano, tais operações devem prestar contas, cada vez, a algo parecido com um resíduo de profanidade em toda coisa consagrada e a uma sobra de sacralidade presente em todo objeto profanado.

Veja-se o termo sacer. Ele designa aquilo que, através do ato solene da sacratio ou da devotio (com que o comandante consagra a sua vida aos deuses do inferno para assegurar a vitória), foi entregue aos deuses, pertence exclusivamente a eles. Contudo, na expressão homo sacer, o adjetivo parece designar um indivíduo que, rendo sido excluído da comunidade, pode ser morto impunemente, mas não pode ser sacrificado aos deuses. O que aconteceu de fato nesse caso? Um homem sagrado, ou seja, pertencente aos deuses, sobreviveu ao rito que o separou dos homens e continua levando uma existência aparentemente profana entre eles. No mundo profano, é inerente ao seu corpo um resíduo irredutível de sacralidade, que o subtrai ao comércio normal com seus semelhantes e o expõe à possibilidade da morte violenta, que o devolve aos deuses aos quais realmente pertence; considerado, porém, na esfera divina, ele não pode ser sacrificado e é excluído do culto, pois sua vida já é propriedade dos deuses e, mesmo assim, enquanto sobrevive, por assim dizer, a si mesma, ela introduz um resto incongruente de profanidade no âmbito do sagrado. Sagrado e profano representam, pois, na máquina do sacrifício, um sistema de dois polos, no qual um significante flutuante transita de um âmbito para outro sem deixar de se referir ao mesmo objeto. Mas é precisamente desse modo que a máquina pode assegurar a partilha do uso entre os humanos e os divinos e pode devolver eventualmente aos homens o que havia sido consagrado aos deuses. Daí nasce a promiscuidade entre as duas operações no sacrifício romano, na qual uma parte da própria vítima consagrada acaba profanada por contágio e consumida pelos homens, enquanto outra é entregue aos deuses.

Nessa perspectiva, tornam-se talvez mais compreensíveis o cuidado obsessivo e a implacável seriedade de que, na religião cristã, deviam dar mostras teólogos, pontífices e imperadores, a fim de garantirem, na medida do possível, a coerência e a inteligibilidade da noção de transubstanciação no sacrifício da missa, e das noções de encarnação e omousia no dogma trinitário. Ali estava em jogo nada menos que a sobrevivência de um sistema religioso que havia envolvido o próprio Deus como vítima do sacrifício e, desse modo, havia introduzido nele a separação que, no paganismo, tinha a ver apenas com as coisas humanas. Tratava-se, portanto, de resistir, através da contemporânea presença de duas naturezas numa única pessoa, ou numa só vítima, à confusão entre divino e humano que ameaçava paralisar a máquina sacrificai do cristianismo.

A doutrina da encarnação garantia que a natureza divina e a humana estivessem presentes sem ambigüidade na mesma pessoa, assim como a transubstanciação garantia que as espécies do pão e do vinho se transformassem, sem resíduos, no corpo de Cristo. Acontece assim que, no cristianismo, com a entrada de Deus como vítima do sacrifício e com a forte presença de tendências messiânicas que colocaram em crise a distinção entre o sagrado e o profano, a máquina religiosa parece alcançar um ponto limítrofe ou uma zona de indecidibilidade, em que a esfera divina está sempre prestes a colapsar na esfera humana, e o homem já transpassa sempre para o divino.

O capitalismo como religião é o título de um dos mais profundos fragmentos póstumos de Benjamin. Segundo Benjamin, o capitalismo não representa apenas, como em Weber, uma secularização da fé protestante, mas ele próprio é, essencialmente, um fenômeno religioso, que se desenvolve de modo parasitário a partir do cristianismo. Como tal, como religião da modernidade, ele é definido por três características: 1. É uma religião cultual, talvez a mais extrema e absoluta que jamais tenha existido. Tudo nela tem significado unicamente com referência ao cumprimento de um culto, e não com respeito a um dogma ou a uma ideia. 2. Esse culto é permanente; é “a celebração de um culto sans trêve et sans merci” . Nesse caso, não é possível distinguir entre dias de festa e dias de trabalho, mas há um único e ininterrupto dia de festa, em que o trabalho coincide com a celebração do culto. 3. O culto capitalista não está voltado para a redenção ou para a expiação de uma culpa, mas para a própria culpa.

O capitalismo é talvez o único caso de um culto não expiador, mas culpabilizante […] Uma monstruosa consciência culpável que não conhece redenção transforma-se em culto, não para expiar com ele a sua culpa, mas para torná-la universal […] e para, ao final, envolver o próprio Deus na culpa […] Deus não está morto, mas foi incorporado ao destino do homem.

Precisamente porque tende com todas as suas forças não para a redenção, mas para a culpa, não para a esperança, mas para o desespero, o capitalismo como religião não tem em vista a transformação do mundo, mas a destruição do mesmo. E o seu domínio é em nosso tempo tão total que também os três grandes profetas da modernidade (Nietzsche, Marx e Freud) conspiram com ele, segundo Benjamin, sendo, de algum modo, solidários com a religião do desespero. “Esta passagem do planeta homem, através da casa do desespero, para a absoluta solidão do seu percurso é o ethos que define Nietzsche. Este homem é o Super-Homem, ou seja, o primeiro homem que começa conscientemente a realizar a religião capitalista.” Também a teoria freudiana pertence ao sacerdócio do culto capitalista: “o removido, a representação pecaminosa […] é o capital, sobre o qual o inferno do inconsciente paga os juros”. E em Marx, o capitalismo “com os juros simples e compostos, que são função da culpa […] transforma-se imediatamente em socialismo”.

Procuremos continuar as reflexões de Benjamin na perspectiva que aqui nos interessa. Poderíamos dizer então que o capitalismo, levando ao extremo uma tendência já presente no cristianismo, generaliza e absolutiza, em todo âmbito, a estrutura da separação que define a religião. Onde o sacrifício marcava a passagem do profano ao sagrado e do sagrado ao profano, está agora um único, multiforme e incessante processo de separação, que investe toda coisa, todo lugar, toda atividade humana para dividi-la por si mesma e é totalmente indiferente à cisão sagrado/profano, divino/humano. Na sua forma extrema, a religião capitalista realiza a pura forma da separação, sem mais nada a separar.

Uma profanação absoluta e sem resíduos coincide agora com uma consagração igualmente vazia e integral. E como, na mercadoria, a separação faz parte da própria forma do objeto, que se distingue em valor de uso e valor de troca e se transforma em fetiche inapreensível, assim agora tudo o que é feito, produzido e vivido — também o corpo humano, também a sexualidade, também a linguagem — acaba sendo dividido por si mesmo e deslocado para uma esfera separada que já não define nenhuma divisão substancial e na qual todo uso se torna duravelmente impossível. Esta esfera é o consumo. Se, conforme foi sugerido, denominamos a fase extrema do capitalismo que estamos vivendo como espetáculo, na qual todas as coisas são exibidas na sua separação de si mesmas, então espetáculo e consumo são as duas faces de uma única impossibilidade de usar. O que não pode ser usado acaba, como tal, entregue ao consumo ou à exibição espetacular. Mas isso significa que se tornou impossível profanar (ou, pelo menos, exige procedimentos especiais). Se profanar significa restituir ao uso comum o que havia sido separado na esfera do sagrado, a religião capitalista, na sua fase extrema, está voltada para a criação de algo absolutamente Improfanável.

O cânone teológico do consumo como impossibilidade do uso foi fixado no século XIII pela Cúria Romana no contexto do conflito em que ela se opôs à Ordem dos Franciscanos. Na sua reivindicação da “altíssima pobreza”, os franciscanos afirmavam a possibilidade de um uso totalmente desvinculado da esfera do direito, que eles, para o distinguir do usufruto e de qualquer outro direito de uso, chamavam de usus facti, uso de fato (ou do fato). Contra eles, João XXII, adversário implacável da Ordem, escreve a sua bula Ad conditorem canonum. Nas coisas que são objeto de consumo — argumenta ele —, como o alimento, as roupas etc., não pode haver um uso diferente daquele da propriedade, porque o mesmo se define integralmente no ato do seu consumo, ou seja, da sua destruição (abusus). O consumo, que destrói necessariamente a coisa, não é senão a impossibilidade ou a negação do uso, que pressupõe que a substância da coisa permaneça intacta (salva rei substantia). Não só isso: um simples uso de fato, distinto da propriedade, não existe naturalmente, não é, de modo algum, algo que se possa “ter”. “O próprio ato do uso não existe naturalmente nem antes de o exercer, nem durante o tempo em que se exerce, nem sequer depois de tê-lo exercido. O consumo, mesmo no ato do seu exercício, sempre é já passado ou futuro e, como tal, não se pode dizer que exista naturalmente, mas apenas na memória ou na expectativa. Portanto, ele não pode ter sido a não ser no instante do seu desaparecimento.”

Dessa maneira, com uma profecia inconsciente, João XXII apresenta o paradigma de uma impossibilidade de usar que iria alcançar seu cumprimento muitos séculos depois na sociedade dos consumos. Essa obstinada negação do USO percebe, porém, a sua natureza mais radicalmente do que eram capazes de fazê-lo os que o reivindicavam dentro da ordem franciscana. Isso porque o puro uso aparece, na sua argumentação, não tanto como algo inexistente — ele existe, de fato, instantaneamente no ato do consumo — quanto, sobretudo, como algo que nunca se pode ter, que nunca pode constituir uma propriedade (dominium). Assim, o uso é sempre relação com o inapropriável, referindo-se às coisas enquanto não se podem tornar objeto de posse. Desse modo, porém, o uso evidencia também a verdadeira natureza da propriedade, que não é mais que o dispositivo que desloca o livre uso dos homens para uma esfera separada, na qual é convertido em direito. Se hoje os consumidores na sociedade de massas são infelizes, não é só porque consomem objetos que incorporaram em si a própria não-usabilidade, mas também e sobretudo porque acreditam que exercem o seu direito de propriedade sobre os mesmos, porque se tornaram incapazes de os profanar.

A impossibilidade de usar tem o seu lugar tópico no Museu. A museificação do mundo é atualmente um dado de fato. Uma após outra, progressivamente, as potências espirituais que definiam a vida dos homens — a arte, a religião, a filosofia, a idéia de natureza, até mesmo a política — retiraram-se, uma a uma, docilmente, para o Museu. Museu não designa, nesse caso, um lugar ou um espaço físico determinado, mas a dimensão separada para a qual se transfere o que há um tempo era percebido como verdadeiro e decisivo, e agora já não é. O Museu pode coincidir, nesse sentido, com uma cidade inteira (Évora, Veneza, declaradas por isso mesmo patrimônio da humanidade), com uma região (declarada parque ou oásis natural), e até mesmo com um grupo de indivíduos (enquanto representa uma forma de vida que desapareceu). De forma mais geral, tudo hoje pode tornar-se Museu, na medida em que esse termo indica simplesmente a exposição de uma impossibilidade de usar, de habitar, de fazer experiência.

Por essa razão, no Museu, a analogia entre capitalismo e religião se torna evidente. O Museu ocupa exatamente o espaço e a função em outro tempo reservados ao Templo como lugar do sacrifício. Aos fiéis no Templo — ou aos peregrinos que percorriam a terra de Templo em Templo, de santuário em santuário — correspondem hoje os turistas, que viajam sem trégua num mundo estranhado em Museu. Mas enquanto os fiéis e os peregrinos participavam, no final, de um sacrifício que, separando a vítima na esfera sagrada, restabelecia as justas relações entre o divino e o humano, os turistas celebram, sobre a sua própria pessoa, um ato sacrifical que consiste na angustiante experiência da destruição de todo possível uso. Se os cristãos eram “peregrinos”, ou seja, estrangeiros sobre a terra, porque sabiam que tinham no céu a sua pátria, os adeptos do novo culto capitalista não têm pátria alguma, porque residem na forma pura da separação. Aonde quer que vão, eles encontrarão, multiplicada e elevada ao extremo, a própria impossibilidade de habitar, que haviam conhecido nas suas casas e nas suas cidades, a própria incapacidade de usar, que haviam experimentado nos supermercados, nos shopping centers e nos espetáculos televisivos. Por isso, enquanto representa o culto e o altar central da religião capitalista, o turismo é atualmente a primeira indústria do mundo, que atinge anualmente mais de 650 milhões de homens. E nada é mais impressionante do que o fato de milhões de homens comuns conseguirem realizar na própria carne talvez a mais desesperada experiência que a cada um seja permitido realizar: a perda irrevogável de todo uso, a absoluta impossibilidade de profanar.

É possível, porém, que o Improfanável, sobre o qual se funda a religião capitalista, não seja de fato tal, e que atualmente ainda haja formas eficazes de profanação. Por isso, é preciso lembrar que a profanação não restaura simplesmente algo parecido com um uso natural, que preexistia à sua separação na esfera religiosa, econômica ou jurídica. A sua operação — como mostra com clareza o exemplo do jogo — é mais astuta e complexa e não se limita a abolir a forma da separação para voltar a encontrar, além ou aquém dela, um uso não contaminado. Também na natureza acontecem profanações. O gato que brinca com um novelo como se fosse um rato — exatamente como a criança fazia com antigos símbolos religiosos ou com objetos que pertenciam à esfera econômica — usa conscientemente de forma gratuita os comportamentos próprios da atividade predatória (ou, no caso da criança, próprios do culto religioso ou do inundo do trabalho). Estes não são cancelados, mas, graças à substituição do novelo pelo rato (ou do brinquedo pelo objeto sacro), eles acabam desativados e, dessa forma, abertos a um novo e possível uso.

Mas de que uso se trata? Qual é, para o gato, o uso possível do novelo? Ele consiste em libertar um comportamento da sua inscrição genética em uma esfera determinada (a atividade predatória, a caça). O comportamento libertado dessa forma reproduz e ainda expressa gestualmente as formas da atividade de que se emancipou, esvaziando-as, porém, de seu sentido e da relação imposta com uma finalidade, abrindo-as e dispondo-as para um novo uso. O jogo com o novelo representa a libertação do rato do fato de ser uma presa, e é libertação da atividade predatória do fato de estar necessariamente voltada para a captura e a morte do rato; apesar disso, ele apresenta os mesmos comporta-mentos que definiam a caça. A atividade que daí resulta torna-se dessa forma um puro meio, ou seja, uma prática que, embora conserve tenazmente a sua natureza de meio, se emancipou da sua relação com uma finalidade, esqueceu alegremente o seu objetivo, podendo agora exibir-se como tal, como meio sem fim. Assim, a criação de um novo uso só é possível ao homem se ele desativar o velho uso, tornando-o inoperante.

A separação dá-se também e sobretudo na esfera do corpo, como repressão e separação de determinadas funções fisiológicas. Umas delas é a defecação, que, em nossa sociedade, é isolada e escondida através de uma série de dispositivos e de proibições (que têm a ver tanto com os comportamentos quanto com a linguagem). O que poderia querer dizer: profanar a defecação? Certamente não encontrar nisso uma pretensa naturalidade, nem simplesmente desfrutá-lo como forma de transgressão perversa (o que, aliás, é melhor do que nada). Trata-se, sim, de alcançar arqueologicamente a defecação como campo de tensões polares entre natureza e cultura, privado e público, singular e comum. Ou melhor, trata-se de aprender um novo uso das fezes, assim como as crianças estavam tentando fazer a seu modo antes que interviessem a repressão e a separação. As formas desse uso só poderão ser inventadas de maneira coletiva. Como observou certa vez Italo Calvino, também as fezes são uma produção humana como as outras, só que delas nunca se fez uma história. Por esse motivo, qualquer tentativa individual de profaná-las pode ter apenas valor de paródia, a exemplo da cena da defecação em volta de uma mesa de jantar no filme de Buñuel.

As fezes — é claro — aparecem aqui apenas como símbolo do que foi separado e pode ser restituído ao uso comum. Mas é possível uma sociedade sem separação? A pergunta talvez esteja mal formulada. Profanar não significa simplesmente abolir e cancelar as separações, mas aprender a fazer delas um uso novo, a brincar com elas. A sociedade sem classes não é uma sociedade que aboliu e perdeu toda memória das diferenças de classe, mas uma sociedade que soube desativar seus dispositivos, a fim de tornar possível um novo uso, para transformá-las em meios puros.

Nada é, porém, tão frágil e precário como a esfera dos meios puros. Também o jogo, na nossa sociedade, tem caráter episódico, depois do qual a vida normal deve retomar seu curso (e o gato a sua caça). E ninguém melhor do que as crianças sabe como pode ser atroz e inquietante um brinquedo quando acabou o jogo de que era parte. O instrumento de libertação converte-se então em um pedaço de madeira sem graça, e a boneca para a qual a menina dirigiu seu amor torna-se um gélido e vergonhoso boneco de cera que um mago malvado pode capturar e enfeitiçar para servir-se dele contra nós.

Esse mago malvado é o grande sacerdote da religião capitalista. Se os dispositivos do culto capitalista são tão eficazes é porque agem não apenas e nem sobretudo sobre os comportamentos primários, mas sobre os meios puros, ou seja, sobre comportamentos que foram separados de si mesmos e, assim, separados da sua relação com uma finalidade. Na sua fase extrema, o capitalismo não é senão um gigantesco dispositivo de captura dos meios puros, ou seja, dos comportamentos profanatórios. Os meios puros, que representam a desativação e a ruptura de qualquer separação, acabam por sua vez sendo separados em uma esfera especial. Exemplo disso é a linguagem. Certamente o poder sempre procurou assegurar o controle da comunicação social, servindo-se da linguagem como meio para difundir a própria ideologia e para induzir a obediência voluntária. Hoje, porém, tal função instrumental — ainda eficaz às margens do sistema, quando se verificam situações de perigo e de exceção — deu lugar a um procedimento diferente de controle, que, ao ser separado na esfera espetacular, atinge a linguagem no seu rodar no vazio, ou seja, no seu possível potencial profanatório. Mais essencial do que a função de propaganda, que diz respeito à linguagem como instrumento voltado para um fim, é a captura e a neutralização do meio puro por excelência, isto é, da linguagem que se emancipou dos seus fins comunicativos e assim se prepara para um novo uso.

Os dispositivos midiáticos têm como objetivo, precisamente, neutralizar esse poder profanatório da linguagem como meio puro, impedir que o mesmo abra a possibilidade de um novo uso, de uma nova experiência da palavra. A Igreja, depois dos dois primeiros séculos de esperança e de expectativa, já tinha concebido sua função com o objetivo essencial de neutralizar a nova experiência da palavra que Paulo, ao colocá-la no centro do anúncio messiânico, havia denominado pistis, fé. Da mesma maneira, no sistema da religião espetacular, o meio puro, suspenso e exibido na esfera midiática, expõe o próprio vazio, diz apenas o próprio nada, como se nenhum uso novo fosse possível, como se nenhuma outra experiência da palavra ainda fosse possível.

Essa aniquilação dos meios puros evidencia-se no dispositivo que, mais que qualquer outro, parece ter realizado o sonho capitalista da produção de um Improfanável. Trata-se da pornografia. Quem tem alguma familiaridade com a história da fotografia erótica sabe que, no seu início, as modelos mostram uma expressão romântica e quase sonhadora, como se a objetiva as tivesse surpreendido, e não visto, na intimidade do seu boudoir. Às vezes, preguiçosamente estendidas sobre um canapé, fingem estar dormindo ou até mesmo lendo, como acontece em alguns nus de Braquehais e de Camille d’Olivier; outras vezes, o fotógrafo indiscreto flagrou-as precisamente quando, sozinhas consigo mesmas, se estão olhando no espelho (é a mise-en-scène preferida por Auguste Belloc). Muito cedo, no entanto, acompanhando a absolutização capitalista da mercadoria e do valor de troca, a expressão delas se transforma e se torna desavergonhada; as poses ficam complicadas e adquirem movimento, como se as modelos exagerassem intencionalmente a sua indecência, exibindo assim a sua consciência de estarem expostas frente à objetiva. Mas é apenas em nosso tempo que tal processo alcança o seu estágio extremo. Os historiadores do cinema registram como novidade desconcertante a seqüência de Monika (1952) na qual a protagonista Harriet Andersson mantém improvisadamente fixo, por alguns segundos, o seu olhar voltado para a câmara (“aqui, pela primeira vez na história do cinema”, irá comentar retrospectivamente o diretor Ingmar Bergman, “estabelece-se um contato despudorado e direto com o espectador”). Desde então, a pornografia certamente banalizou o procedimento: as pornostars, no preciso momento em que executam suas carícias mais íntimas, olham resolutamente para a objetiva, mostrando maior interesse pelo espectador do que pelos seus partners.

Dessa maneira, realiza-se plenamente o princípio que Benjamin já havia enunciado em 1936, ao escrever o ensaio sobre Fuchs: “o que nestas imagens atua como estímulo sexual não é tanto a visão da nudez quanto a idéia da exibição do corpo nu frente à objetiva”. Um ano antes, a fim de caracterizar a transformação que a obra de arte sofre na época da sua reprodutibilidade técnica, Benjamin havia criado o conceito de “valor de exposição” (Ausstellun­gswert). Nada poderia caracterizar melhor a nova condição dos objetos e até mesmo do corpo humano na idade do capitalismo realizado do que esse conceito. Na oposição marxiana entre valor de uso e valor de troca, o valor de exposição sugere um terceiro termo, que não se deixa reduzir aos dois primeiros. Não se trata de valor de uso, porque o que está exposto é, como tal, subtraído à esfera do uso; nem se trata de valor de troca, porque não mede, de forma alguma, uma força-trabalho.

Mas é talvez só na esfera do rosto humano que o mecanismo do valor de exposição encontra o seu devido lugar. É uma experiência comum que o rosto de uma mulher que se sente olhada se torne inexpressivo. Saber que está exposta ao olhar cria o vazio na consciência e age como um poderoso desagregador dos processos expressivos que costumeiramente animam o rosto. Trata-se aqui da descarada indiferença que, antes de qualquer outra coisa, as manequins, as pornostars e as outras profissionais da exposição devem aprender a conquistar: não dar a ver nada mais que um dar a ver (ou seja, a própria e absoluta medialidade). Dessa forma, o rosto carrega-se até chegar a explodir de valor de exposição. Mas exatamente através dessa aniquilação da expressividade o erotismo penetra ali onde não poderia ter lugar: no rosto humano, que não conhece nudez, porque sempre já está nu. Exibido como puro meio para além de toda expressividade concreta, ele se torna disponível para um novo uso, para uma nova forma de comunicação erótica.

Uma pornostar, que presta seus serviços em performances artísticas, levou recentemente tal procedimento ao extremo. Ela se faz fotografar precisamente no momento de realizar ou sofrer os atos mais obscenos, mas sempre de tal maneira que o seu rosto fique bem visível em primeiro plano. E, em vez de simular o prazer, segundo a convenção comum nesses casos, ela simula e exibe — como as manequins — a mais absoluta indiferença, a mais estóica ataraxia. A quem fica indiferente Chloé des Lysses? Certamente ao seu partner. Mas também aos espectadores, que, com surpresa, se dão conta de que a star, mesmo sabendo perfeitamente estar exposta ao olhar, não tem com eles sequer a mínima cumplicidade. O seu semblante impassível rompe assim toda relação entre o vivido e a esfera expressiva; não exprime mais nada, mas se dá a ver como lugar imaculado da expressão, como puro meio.

O que o dispositivo da pornografia procura neutralizar é esse potencial profanatório. O que nele acaba sendo capturado é a capacidade humana de fazer andar em círculo os comportamentos eróticos, de os profanar, separando-os do seu fim imediato. Mas enquanto, dessa maneira, os mesmos se abriam para um possível uso diferente, que dizia respeito não tanto ao prazer do partner mas a uni novo uso coletivo da sexualidade, a pornografia intervém nessa altura para bloquear e para desviar a intenção profanatória. O consumo solitário e desesperado da imagem pornográfica acaba substituindo a promessa de um novo uso.

Todo dispositivo de poder sempre é duplo: por um lado, isso resulta de um comportamento individual de subjetivação e, por outro, da sua captura numa esfera separada. Em si mesmo, o comportamento individual não traz, muitas vezes, nada de reprovável e até pode expressar uma intenção liberatória; reprovável é eventualmente — quando não foi obrigado pelas circunstâncias ou pela força — apenas o fato de se ter deixado capturar no dispositivo. Não é o gesto impudente da pornostar nem o rosto impassível da manequim, como tais, que devem ser questionados; infames são, isso sim — política e moralmente — o dispositivo da pornografia, o dispositivo do desfile de moda, que os desviaram do seu uso possível.

O Improfanável da pornografia — qualquer improfanável — baseia-se no aprisionamento e na distração de uma intenção autenticamente profanatória. Por isso é importante toda vez arrancar dos dispositivos — de todo dispositivo — a possibilidade de uso que os mesmos capturaram. A profanação do improfanável é a tarefa política da geração que vem.

*Texto originalmente publicado em: AGAMBEN, Giorgio. Profanações. São Paulo: Boitempo, 2012.

Coronavírus chega à reserva indígena do Xingu, e Kuarup é cancelado pela 1ª vez (Folha de S.Paulo)

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Lígia Mesquita, 12 de junho de 2020

Todos os anos, os povos do chamado Alto do Xingu, no Parque Nacional do Xingu, passam seis meses se preparando para a festa mais importante do ano, o Kuarup. A celebração que normalmente se estende de julho a setembro é o ritual sagrado no qual todos os mortos do último ano são homenageados. É a maneira que os índios das 11 etnias do Alto Xingu têm de celebrá-los. Com o Kuarup, as famílias que passaram os últimos 12 meses em luto, podem voltar à rotina normal.

Numa decisão histórica ocorrida no início desta semana, em conversas via rádio amador, os caciques das etnias participantes do Kuarup decidiram cancelar o ritual pela primeira vez. Aquilo que já era temido se confirmou: o coronavírus chegou ao Parque do Xingu, reserva indígena no norte do Mato Grosso, com mais de 7.000 habitantes de 16 etnias.

No último fim de semana, o cacique Vanité Kalapalo e seu Yarurú, da aldeia Sapezal, foram internados no Hospital Regional de Água Boa (MT), a 736 Km de Cuiabá, com sintomas agudos da Covid-19.

Outras pessoas da aldeia Sapezal, uma das mais próximas da cidade de Querência (MT), também fizeram testes com suspeita da doença.

O povo Kalapalo foi isolado, mas segundo especialistas e lideranças de outros povos, a previsão é que o coronavírus se espalhe pela primeira grande terra indígena demarcada pelo governo federal, em 1961, e considerada patrimônio nacional.

Em abril, reportagem do caderno especial Sebastião Salgado na Amazônia – Xingu, da Folha, já alertava para a chegada da Covid-19 àquela terra indígena.

“O cenário é de possível genocídio”, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que há 40 anos trabalha no Xingu. “Se a taxa de transmissão do vírus seguir em alta como aconteceu nas aldeias da Amazônia, num pior cenário teremos 2.000 infectados e poderemos chegar a cem óbitos.”

Segundo o sanitarista, o potencial de propagação do coronavírus no Xingu dependerá da organização dos próprios índios, da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), e da Funai (Fundação Nacional do Índio).

“Mesmo com orientação e avisos sobre a pandemia, pedindo para que a circulação fosse evitada, não foi possível fazer com que alguns índios, principalmente os mais jovens, não deixassem suas aldeias. Parte das pessoas não acreditou no potencial da pandemia, há também desinformação e fake news circulando”, diz Rodrigues. “Também nesta época do ano são comuns surtos de gripe e de infecções respiratórias no parque. Há quase dois meses, quando muitos começaram a ficar doentes em uma das aldeias Kalapalo, pedimos à Sesai testes para Covid-19, mas isso não foi feito. Então não sabemos se a doença chegou ali há mais tempo.”

O professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Antonio Guerreiro, que pesquisa os Kalapalo desde 2006, também vê com muita preocupação a chegada do coronavírus ao Xingu e o risco de um possível genocídio.

“Os riscos do coronavírus se espalhar são enormes se compararmos a situação atual com a última grande epidemia que atingiu o Xingu, a de sarampo, em 1954, que dizimou ao menos 20% da população. Com a criação do Parque do Xingu em 1961, as aldeias ficaram mais próximas e hoje há uma intensa circulação entre seus habitantes e com a cidade, onde comprar alimentos, combustível, material para pesca. E o coronavírus tem uma propagação rápida”, diz Guerreiro, atualmente pesquisador na Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os dois Kalapalo com Covid-19 receberam alta no fim da tarde desta terça (9) e foram encaminhados para a Casai (Casa de Saúde e Apoio ao Índio) em Canarana (MT). A recomendação era que ficassem por lá para cumprir a quarentena, já que os primeiros sintomas surgiram no dia 3 de junho. O isolamento recomendado pelas principais organizações de saúde, no entanto, esbarra em resistência cultural.

Os índios não aceitaram fazer a quarentena por lá e voltaram para a aldeia com a promessa de ficarem numa casa isolada e usando máscaras. “Índio é muito complicado. Eles disseram que estavam bem e precisavam voltar para casa”, diz o também indígena e técnico de enfermagem Tafuraki Nahukuá, que trabalha na Casai.

Para Guerreiro, não dá para fazer uma simplificação dessa escolha em voltar para a aldeia apenas como sendo uma vontade ou capricho. Há questões culturais complexas que podem explicar o fato dos dois índios terem optado por voltar para casa.

“Estou especulando, porque não consegui contato com eles ainda. Mas, pelo que já pesquisei e ouvi dos Kalapalo, eles não gostam de ficar na Casai, porque além de ter uma infraestrutura péssima, eles ficam afastados da família e dos cuidados e supervisão que os parentes têm de perto com os doentes. E também porque temem feitiçaria por parte de algum índio de outra etnia que pode estar eventualmente internado ali”, diz.

Rodrigues explica como é complicado o cenário de isolamento social dentro do Xingu. Os indígenas da região moram em ocas coletivas, com 30, 40 pessoas dentro e compartilham objetos e comida. Muitos não têm acesso à água e sabão para lavar as mãos.

“Faltam EPI [equipamento de proteção individual], treinamento, comunicação, faltam testes e cilindros maiores de oxigênio para os atendimentos que precisarem de mais cuidados e para possíveis remoções até a cidade mais próxima, entre outras coisas.”

A Unifesp, o ISA (Instituto SocioAmbiental), a SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), o DSEI Xingu, a Coordenação Nacional do Xingu, da Funai, e Atix (Associação da Terra Indígena Xingu) montaram um comitê de crise e com realocação de recursos próprios estão enviando testes para Covid-19, concentradores de oxigênio, oxímetros, EPIs, equipamentos de pesca, máscaras e alimentos.

A universidade, por meio de seu Projeto Xingu, da Escola Paulista de Medicina, está dando treinamento a distância para agentes de saúde e também enviará 500 testes para Covid-19. O ISA mandará outros 380 testes.

“Faltariam no mínimo mais mil”, diz Paulo Junqueira, coordenador do projeto Xingu no ISA, que há 20 anos trabalha na região.

Para Junqueira, a questão agora é ganhar tempo até que as aldeias consigam se organizar melhor e receber equipamentos necessários para conter a doença. Existem dez casas de apoio para isolamento sendo construídas no parque.

O povo Kuikuro está construindo numa aldeia uma oca específica para colocar possíveis infectados em isolamento. Também preparou uma cartilha com informações sobre o coronavírus, em português e na língua Kuikuro.

A AIKAX (Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu) recebeu 28 mil libras (cerca de R$ 176 mil) de ajuda por meio de uma iniciativa comandada pela People’s Palace Project (PPP), organização vinculada à Universidade Queen Mary, de Londres, que trabalha há seis anos com os Kuikuro. “Estamos organizando o envio de suprimentos para evitar ao máximo a exposição das pessoas dali ao vírus”, diz Thiago Jesus, da PPP.

O cacique Yanama Kuikuro, da aldeia Ipatse, diz que a preocupação é grande e que estão correndo contra o tempo para conseguir equipamentos e construir a casa de quarentena rapidamente. Ele conta que com a ajuda do doutor Rodrigues, da Unifesp, está fazendo a compra dos suprimentos necessários e orientando o seu povo. “É uma tristeza enorme termos que cancelar o Kuarup, isso nunca aconteceu. Mas todas lideranças conversaram e vimos que é muito perigoso fazer aglomeração”, fala Yanama.

O povo Yawalapiti também está devastado com o cancelamento do Kuarup. “É o ritual mais sagrado do povo do Alto Xingu. Mas não teve outro jeito”, diz Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana e uma das lideranças locais.

Ele conta que há dois meses vinham pedindo para as pessoas da aldeia evitarem ir à cidade por causa do vírus, mas que os mais jovens não acreditavam que a doença era grave e poderia atingir os índios. “Eles pegavam as motos e iam escondido. Agora está proibido, precisa de autorização.”

Tapi também conta que na segunda eles fecharam de vez a estrada próxima à aldeia que vai até a cidade. “Ontem já não deixamos nem o carro da Funai passar.”

Segundo ele, nas aldeias Yawalapiti não há máscaras, álcool em gel, remédios ou equipamentos básicos.

O técnico indígena de enfermagem Leonardo Kamaiurá também relata falta de suprimentos e equipamentos de prevenção nas Unidades Básicas de Saúde. “Temos poucas máscaras, o álcool em gel temos que dividir metade do pote para mandar para outros postos. Falta o básico.”

O profissional conta que ouve de muitos índios que o coronavírus seria uma doença apenas de não-indígenas, que seriam mais fracos. “Há uma resistência grande por aqui também para acreditar na pandemia, como acontece no resto do Brasil.”

Todas lideranças indígenas e profissionais de saúde ouvidos pelas Folha dizem que o governo não tem ajudado e que falta informação correta.

A disseminação de notícias falsas ou incorretas, segundo alguns indígenas, está levando medo à população. Em um áudio ao qual a Folha teve acesso, o presidente da Atix, Ianukulá Kaiabi Suiá, diz que há pessoas falando em não reportar sintomas aos agentes de saúde, porque, se isso acontecer, “eles serão levados aos hospitais, serão entubados e vão morrer”.

A médica Daphne Andrade, do DSEI Xingu, diz que não ouviu isso nas aldeias do Alto Xingu nas quais ela trabalha. “Rodei muitas aldeias levando informação sobre corona, fazendo alguns testes e não ouvi isso. Eles falam sim que têm medo de intubar, porque isso todos nós temos, né? Mas não ouvi isso de não reportar sintomas.”

A reportagem tentou contato com alguma liderança dos Kalapalo, mas por problemas de comunicação no local, não conseguiu.

Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), diz trabalhar em articulação com o estado, tanto que está prevista a instalação de ala indígena em hospital do Mato Grosso. E que o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu já recebeu 720 testes para Covid-19 e que estão sendo enviados mais mil. E que enviará mais 36 cilindros de 50 litros de oxigênio.

Life-hack: Rituals spell anxiety relief (Science Daily)

Date: June 30, 2020

Source: University of Connecticut

Summary: Researchers are examining the important roles rituals play in reducing our anxiety levels.

With graduation ceremonies, weddings, funeral, annual parades, and many other gatherings called off, it is apparent that our lives are filled with rituals. UConn Assistant Professor of Anthropology Dimitris Xygalatas studies rituals and how they impact our health. In research published today in Philosophical Transactions of the Royal Society, Xygalatas and collaborators from Masaryk University, Czech Republic, including former UConn student Martin Lang, examine the important roles rituals play in reducing our anxiety levels.

“In the current context of the pandemic, if you were a completely rational being — perhaps an extraterrestrial who’s never met any actual humans — you would expect that given the current situation people wouldn’t bother doing things that do not seem crucial to their survival. Maybe they wouldn’t care so much about art, sports, or ritual, and they would focus on other things,” says Xygalatas. “If you were to think that, it would show you didn’t know much about human nature, because humans care deeply about those things.”

Further, Xygalatas says, rituals play an important role in people’s lives, helping them cope with anxiety and functioning as mechanisms of resilience.

This research started years ago, says Xygalatas. He explains that to study something as complex as human behavior, it is important to approach the question from multiple angles to collect converging evidence. First, in a laboratory study, they found that inducing anxiety made people’s behavior more ritualized, that is, more repetitive and structured. So the next step was to take this research out to real-life situations, where they examined whether performing cultural rituals in their natural context indeed helps practitioners cope with anxiety.

“This approach also goes to show the limitations of any study. One study can only tell us a tiny bit about anything, but by using a variety of methods like my team and I are doing, and by going between the highly controlled space of the lab and the culturally relevant place that is real life we are able to get a more holistic perspective.”

The experiment reported in their current publication took place in Mauritius, where the researchers induced anxiety by asking participants to prepare a plan for dealing with a natural disaster that would be evaluated by government experts. This was stressful, as floods and cyclones are very pertinent threats in that context. Following this stress-inducing task, one half of the group performed a familiar religious ritual at the local temple while the other half were asked to sit and relax in a non-religious space.

The researchers found that the speech was successful in inducing stress for both groups but those who performed the religious ritual experienced a greater reduction in both psychological and physiological stress, which was assessed by using wearable technology to measure heart rate variability.

Stress itself is important, says Xygalatas, “Stress acts as a motivation that helps us focus on our goals and rise to meet our challenges, whether those involve studying for an exam, flying a fighter jet, or scoring that game-winning goal. The problem is that beyond a certain threshold, stress ceases to be useful. In fact, it can even be dangerous. Over time, its effects can add up and take a toll on your health, impairing cognitive function, weakening the immune system, and leading to hypertension or cardiovascular disease. This type of stress can be devastating to our normal functioning, health, and well-being.”

This is where Xygalatas and his team believe ritual plays an important role in managing stress.

“The mechanism that we think is operating here is that ritual helps reduce anxiety by providing the brain with a sense of structure, regularity, and predictability.”

Xygalatas explains that in recent decades we have begun to realize the brain is not a passive computer but an active predictive machine, registering information and making predictions to help us survive.

“We come to expect certain things — our brain fills in the missing information for the blind spot in our vision, and prompts us to anticipate the next word in a sentence — all of these things are due to this effect because our brain makes active predictions about the state of the world.”

Well-practiced rituals, like the one included in the study, are repetitive and predictable and therefore the researchers believe they give our brains the sense of control and structure that we crave, and those feelings help alleviate stress. This stress reducing impact of rituals could be a way to cope with chronic anxiety.

In today’s stressful context, we see ritual taking different forms, from people gathering to applaud healthcare workers, to virtual choirs singing across the internet. Xygalatas also notes a recent study that tracked the increase in people typing ‘prayer’ in Google searches. In this unpredictable time, people are continuing to find relief in ritual.

“One thing I like to tell my students is that we as human beings are not as smart as we’d like to think. But thankfully, we are at least smart enough to be able to outsmart ourselves. We have many ways of doing this, for instance when we look at ourselves in the mirror before an interview and tell ourselves, ‘Ok I can do this’. Or when we take deep breaths to calm down. We have all of these hacks that we can use on our very brain. We could rationalize it and tell ourselves ‘Ok I’m going to lower my heartbeat now’. Well that doesn’t work. Ritual is one of those mental technologies that we can use to trick ourselves into doing that. That is what these rituals do — they act like life hacks for us.”

Going forward, Xygalatas points out that he and his colleagues intend to do more work on the exact mechanisms underlying these effects of ritual.

“Of course it is a combination of factors, and that is why ritual is so powerful: because it combines a number of mechanisms that have to do both with the behavior itself, the physical movements, and with the cultural context, the symbolism, and the expectations that go into that behavior. To be able to disentangle those things is what we are trying to do next: we are examining these factors one at a time. Those rituals have gone through a process of cultural selection and they are still with us because they fulfil specific functions. They are life hacks that have been with and have served us well since the dawn of our kind.”


Story Source:

Materials provided by University of Connecticut. Original written by Elaina Hancock. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. M. Lang, J. Krátký, D. Xygalatas. The role of ritual behaviour in anxiety reduction: an investigation of Marathi religious practices in Mauritius. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 2020; 375 (1805): 20190431 DOI: 10.1098/rstb.2019.0431

Refazer o luto: Como construir novos rituais diante de uma doença que deixa meio milhão de brasileiros sem despedida? (ECOA/UOL)

uol.com.br

Carina Martins, 30 de junho de 2020

Quando o irmão da psicóloga Marília Gabriela morreu, três meses atrás, a pandemia no Brasil ainda era chamada de gripezinha. Saudável, ativo e aos 39 anos, Alexandre prestou sua peregrinação pelo sistema de saúde por alguns dias, até que não considerassem mais sua condição tão benigna. Quando finalmente foi internado, apenas o irmão que o conduziu ao hospital o viu entrar. Nunca mais ninguém da família pôde falar com ele. Um dia depois, ligaram pedindo os seus documentos, e os parentes já entenderam.

Acabou assim, no ar. “A gente foi até o local da cremação, mas você só vai para assinar papel. E tem a coisa de não poder tocar no outro. Na hora, minha mãe acabou abraçando algumas pessoas. Tentei impedir, mas me disseram que deixasse”, conta Marília.

Não foi suficiente para aplacar o rompimento inesperado do vínculo que o jovem filho, irmão, amigo tinha com os seus. A mãe de Alexandre não sabia, mas decidiu fazer exatamente o que aconselham os especialistas: criar um ritual possível. “Ela ligou para um amigo muito querido dele e falou, me ajuda a pensar, não sei o que faço com as cinzas”. A atitude desencadeou um movimento em rede entre pessoas que amavam Alexandre e que começaram a falar sobre ele e rememorar – a viver seu luto. Os amigos sugeriram espalhar as cinzas na praça ao lado da casa onde cresceram e passaram muitos momentos. Uma amiga da mãe pensou em plantar uma árvore e fazer uma oração.

Criaram então, juntos, seu próprio ritual. Escolheram uma árvore – flamboyant – e chamaram poucas pessoas para uma celebração. Na véspera, Marília teve medo de remexer nos sentimentos. Mas foi em frente. “Procurei o jardineiro da praça, ele preparou o buraco com todo cuidado para a muda”. No dia seguinte, cerca de 10 pessoas, afastadas e de máscara, mas juntas, estavam lá. “Nosso irmão mais novo disse algumas palavras, falou o quanto Alexandre amava essas pessoas e fizemos uma oração”. Um ritual simples, mas fundamental. Agora, a mãe de Alexandre sempre visita a mudinha quando passeia com a cachorra que era do filho. Anda achando que a planta está mirrada, quer ver a árvore mais vigorosa. De vez em quando, vai lá cuidar do canteiro.

“Sentimos acho que uma calma, uma coisa que se fecha. A dor existe, mas está bem diferente”, diz Marília. “Não é algo banal”.

Linoca Souza/UOL

Meio milhão sem adeus

Todas as culturas têm um ritual próprio para despedir-se de seus mortos. Todos, até onde sabemos, desde sempre, desde o momento mais primitivo da história humana. A unanimidade dessa necessidade é incomum, e um bom indicativo do quanto ela é, literalmente, uma necessidade. Nem mesmo os rituais de nascimento têm essa incidência absoluta. “Porque a morte desorganiza”, explica a doutora em psicologia Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP. “O nascimento, nem tanto. A morte desorganiza um grupo, uma sociedade, e em extensão, uma cultura. E o ritual tem essa função de reorganizar”.

Desde o início da pandemia, no entanto, os ritos tradicionais foram suspensos pela imposição de uma realidade em que a despedida tornou-se um risco. Os rituais existem em diversidade inumerável, mas quase sempre envolvem o toque, a presença ou a manipulação do corpo. Essa proximidade não é mais possível, já que, por questões de segurança sanitária, as vítimas de covid-19 chegam às suas famílias envoltas em três camadas protetoras, dentro de urnas lacradas, com a orientação de velórios muito curtos e funerais sem aglomeração.

Uma série de estudos sobre luto antes da pandemia, e outros realizados também com o viés do coronavírus, estima que, em média, cada vida deixa até dez enlutados. Dez pessoas com vínculo significativo com a pessoa que se foi, e que passarão pelo processo do luto. É o número com que trabalham especialistas como Maria Helena, embora ela o considere “conservador” para a realidade brasileira. Isso significa que, dentro dessa estimativa conservadora, os (também conservadores) mais de 50 mil mortos oficiais por Covid, somados aos mortos suspeitos que também são submetidos aos mesmos cuidados, deixaram para trás uma multidão de mais de meio milhão de brasileiros que não puderam se despedir de seus entes queridos. E essa multidão segue crescendo.

“Estamos vivendo um desastre. Mas é um desastre diferente, porque é lento. Em um tsunami, numa barragem que estoura, a onda vem, passa, e fica a destruição. O coronavírus é uma onda em câmera lenta. Você olha para fora e não tem destruição”, diz Elaine Gomes Alves, doutora e pesquisadora da área de Psicologia de Emergências e Desastres do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP.

A gente tem que desconstruir uma coisa que já existe há gerações para colocar no lugar uma realidade que tá aqui, agora, imposta. Não foi nem construída, foi imposta. E é natural que a gente proteste e tenha dificuldade de aceitar isso

Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP

Diferentemente da maior parte dos desastres, a pandemia não tem a vivência do luto coletivo, que é um recurso muito útil de acolhimento. “As pessoas se aglomeram, ofertam apoio, vivenciam junto. Em Brumadinho, por exemplo, você pode chegar na cidade e falar dos mortos com qualquer um. Na situação atual, a pessoa morre, é enterrada e vai cada um para sua casa, fica sozinho, isolado”, aponta Elaine.

“Não é a pessoa, é o corpo da pessoa. Mas nós, humanos, trabalhamos com símbolos, e para os enlutados falta como simbolizar”, concorda Maria Helena.

Além de ser uma nuance comovente dentro da situação que vivemos, esse obstáculo ao luto é, por si, um potencial problema para cada um que passa por isso e, na proporção que está sendo construído, para a sociedade. Quando o processo do luto não é bem vivido, ele pode tornar-se o que os especialistas chamam de “luto complicado”, que é um luto com possibilidade de adoecimento. As duas especialistas ouvidas pela reportagem, assim como a OMS, esperam uma enormidade de aumento na demanda de saúde mental no porvir da pandemia. Aliás, da saúde como um todo, já que nenhuma das duas dissocia totalmente as saúdes física e mental.

“O luto é um processo de dor intensa. Não existe na existência humana nenhum processo que seja pior do que o luto. Você precisa de um tempo primeiro para entender que a pessoa morreu, para chorar com ela, entrar em contato com a falta, buscar ferramentas internas parta sair do sofrimento. Cada um vai ter um tempo de luto para terminar seu processo”, explica Elaine. O problema é que, sem os rituais, os enlutados muitas vezes sequer conseguem começar adequadamente. “Você pode empacar em algumas coisas. Por exemplo, na negação – como não viu o corpo, pode dizer que ele não morreu. Algumas pessoas que passam por isso dizem coisas como ‘Sabe o que eu penso? Que ele está viajando’. E isso é um problema. É importante fechar o ciclo. Não importa quanto tempo leve.”

Em busca de um símbolo

A construção de uma despedida possível feita pela família de Marília Gabriela não é banal, como ela apontou. Fazer um ritual, ainda que não seja seguindo a tradição, é a recomendação unânime dos psicólogos. Mas não é fácil encontrar os recursos internos para isso, muito menos em um momento de dor. “A racionalidade não tem tido muito efeito. Porque o ritual é tão antigo, é tão arraigado, que a gente saber por quê não pode – por quê não pode aglomeração, por quê tem que enterrar rapidamente – não surte muito efeito”, diz Maria Helena.

No caso de Alexandre, colaborou o fato de que ele não seguia nenhuma religião específica – os ritos a seguir, portanto, eram menos rígidos, mais fáceis de serem adaptados. Mas esse é o caso de apenas 10% dos brasileiros, segundo o IBGE. Nem todos os detalhes religiosos e culturais precisam ser impossíveis na pandemia, mas, para que isso seja avaliado, seria preciso uma cartilha de manejo com mais nuances do que as publicadas até agora.

Na região metropolitana de São Paulo como no Alto Xingu, tem sido difícil. Pela primeira vez em sua milenar história, este ano foi cancelado o Kuarup. Talvez a mais conhecida entre as manifestações indígenas brasileiras, o Kuarup é um grande ritual sagrado que celebra os mortos de todo um ano, e envolve onze etnias do Alto Xingu. É no Kuarup que os parentes encerram o período de luto pelos que morreram. O coronavírus chegou ao Alto Xingu, e este ano não tem Kuarup.

Quando se encerrarão esses milhares de lutos?

O líder indígena Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, em Roraima, tem sido uma das vozes ativas sobre tudo que envolve a questão do coronavírus entre os povos das florestas. Em sua etnia, uma das tradições fundamentais é de que o corpo, cremado, permaneça na aldeia. Mas os yanomamis mortos estão sendo enterrados em cemitérios de Boa Vista, sem a participação ou autorização de seus entes queridos. “Estamos seguindo os protocolos do mundo não-indígena, como os da Organização Mundial da Saúde, das prefeituras, do governo. E isso atrapalha muito em nossa cerimônia [fúnebre]. Sabemos que, neste momento, não é bom pegar o corpo de nosso parente e transmitir a doença. Mas não nos despedimos das vítimas que foram enterradas. É uma falta de respeito, um preconceito contra a nossa cultura”, diz.

O deslocamento dos corpos é uma ruptura grande demais no rito para que a comunidade consiga criar alternativas. “É muito longe, a comunicação é difícil, mas os familiares estão muito tristes de não enterrar os corpos onde ele nasceu, cresceu e viveu. É muito importante o corpo retornar para a aldeia. É muito ruim para nossa cultura e para o familiar fora da comunidade ter o corpo em um cemitério. As lideranças acionaram o Ministério Público Federal questionando que não pode colocar nossos parentes longe da família. Precisamos mais ainda dos médicos, dos epidemiologistas, para nos dizer: quantos dias a doença fica no corpo morto? Isso não é claro ainda. Nós não somos médicos, e acionamos o órgãos públicos para desenterrar o corpo e levá-los para as aldeias, ou cremá-los na cidade e levar as cinzas para as aldeias”.

Quando os yanomamis morrem sem doenças e problemas, conversam com a família e guardam as cinzas em uma vasilha. Reúnem muita comida, muitos alimentos para fazer festa, despedir novamente. Normalmente, parentes de outras aldeias vão ao cerimonial. Riem, choram. “Depois pega as cinzas em uma vasilha e devolvemos à mãe terra com respeito. É tradicional.”

Também liderança, Milena Kokama chorava os então 55 mortos de seu povo sepultados em cova coletiva em Manaus. “Na nossa cultura, a gente não sepulta. A gente crema”, diz, sobre seu luto, agravado pelos entraves das autoridades. “E ainda sai assim no atestado de óbito: pardo. Eu não sei o que é pardo, eu sou Kokama.”

É uma questão muito difícil. Eu não sei o que você entende como parente, mas meu povo é meu parente independentemente de laços sanguíneos

Milena Kokama, liderança indígena

Promessa do encontro

O babalorixá e antropólogo Pai Rodney de Oxóssi sabe o que os enlutados estão sentindo. “Nós, do candomblé, já tínhamos que pensar em alternativas desde antes da doença, sempre tivemos nossos ritos impedidos por intolerância e o racismo religioso”. As restrições a religiões de matrizes africanas acontecem desde famílias que não seguem a denominação e impedem que um familiar iniciado seja tratado segundo sua crença, até hospitais que não permitem a entrada dos sacerdotes – ainda que os de outras religiões circulem sem problemas. “Já tomei chá de cadeira para visitar minha própria mãe, já tive gente de hospital me ligando no dia seguinte a uma visita dizendo que fosse mais discreto e não usasse ‘aquelas roupas'”.

A assistência religiosa é uma garantia legal dos cidadãos brasileiros, mas o babalorixá diz que começou a sentir melhora a partir da lei estadual, sancionada no ano passado, que proíbe a discriminação religiosa. “A lei tem garantido a gente tomar o caminho da cidadania. E isso não permite que as pessoas te impeçam do que a lei te assegura”.

Mesmo com vivência desses complicadores, o candomblé não passou imune às restrições da covid. Com rituais fúnebres muito específicos que incluem o comunitário axexê e um preparo do corpo feito pelo babalorixá, seus enlutados estão, como todos, sem poder exercer seus símbolos tradicionais. “Essas despedidas fazem com que a gente consiga acomodar a morte. Sem elas, há essa sensação de vazio, porque a morte continua fora do lugar. O luto acomoda as dores para que você consiga se recuperar”, diz.

Como os terreiros se organizam como uma espécie de família expandida, todos eles têm hoje seu grupo de WhatsApp. Na ausência da homenagem tradicional, é nesses espaços que os enlutados têm encontrado seus símbolos. “É uma religião essencialmente comunitária, cada terreiro é uma família extensa, então a vivência comunitária para nós é essencial. Sempre que alguém morre há um momento de solidariedade, mandam muitas mensagens, fazem suas homenagens, postam suas fotos com os falecidos”, explica.

O axexê com toda a comunidade, suspenso, também está se tornando, em si, um símbolo, com a promessa de que será feito no momento oportuno em que seja possível a aglomeração, a reunião que o ritual demanda. Quando ele vier, será um grande momento de comemoração.

Claro que a humanidade sempre acha uma maneira de compensar isso. Sempre há, depois que tudo isso passa, um florescimento – das artes, da religiosidade, das coisas que fazem o imaginário humano fluir para que compense esse período de obscuridade. A religião e as culturas têm um papel . Os rituais são inventados na medida em que a gente tem necessidade de preencher uma lacuna que a ciência e racionalidade não preenchem

Pai Rodney de Oxóssi, babalorixá e antropólogo

É preciso sensibilidade

Os enlutados nem sempre vão conseguir criar esses novos símbolos sozinhos. As alternativas podem vir de seus líderes religiosos, dos hospitais, dos próprios serviços funerários. Mas as especialistas recomendam que não se espera que os outros façam: que venham de todos nós que tivermos contato com quem perdeu um ente querido.

“Vamos possibilitar que as pessoas façam seus rituais. Que a gente não fique naquele lugar de ‘ah, mas não é a mesma coisa’. É fato, não é a mesma coisa, e a gente não ganha muito ficando nesta tecla. Vamos ver que outra coisa a gente vai fazer”, diz Maria Helena. “Acho que aí a gente pode ser criativo, ajudar as pessoas a honrar a memória do seu amado, honrar uma tradição, de uma outra forma. Que não terá menos valor. Que será diferente. Acho importante a gente entender por aí, e não como algo que não pôde ser feito. Mas sim o que pôde ser feito, e o quão importante é o que pode ser feito.”

A psicóloga Elaine Alves tem dado várias sugestões práticas para as famílias que tem encontrado. “Que as famílias se unam, que possam fazer juntas um rito religioso que faça sentido para elas. Podem pegar uma caixa onde colocam coisas da pessoa que morreu que sejam significativas, fechar e colocar num lugar importante, por exemplo. Falar palavras de despedida. Escrever cartas – a escrita é muito importante, ajuda muito. Ver fotos. Usar a rede social da pessoa que morreu e ali postar coisas para se comunicar com os amigos da pessoa. Os amigos podem postar fotos que a família nunca viu, isso é um presente para os familiares”, diz. São infinitas opções, que funcionarão de acordo com o vínculo e os valores de cada um.

Mas é preciso sensibilidade. “Não deixem os enlutados sozinhos. E liguem logo, não tem que esperar um tempo, uma hora boa”, explica. E seja generoso. “Tem aquela coisa do ‘mas depois que morreu virou santo’? A verdade é que os enlutados não merecem ouvir coisas ruins de seus mortos”, diz. Se, por vício, perguntar se está tudo bem, acolha a resposta. “Entenda que o outro não está bem, e que é para o outro falar. E a parte mais fácil é de quem não está passando por aquilo e só precisa escutar. O enlutado conta várias vezes a mesma história, porque ele precisa entender o que aconteceu. Quando dizem que não aguentam mais escutar, respondo que essa é a parte mais fácil. Você não precisa passar pelo que outro está passando. Só precisa escutar. Escute”.

A fala encontra eco na de Maria Helena. “Eu queria muito pedir a quem tiver acesso a pessoas enlutadas que busque oferecer a elas possibilidades criativas de fazer seus rituais, que não terão menos valor. Terão valor, sim, porque serão feitos. Sem eles é que a gente vai ter problemas”, afirma. “Vamos respeitar algumas requisições religiosas que são necessárias, que fazem falta. Vamos buscar isso. Vamos proporcionar. Isso não precisa ser só a psicologia que faz, não. É a gente que faz com as pessoas que estão próximas a nós. Tendo essa sensibilidade, a gente consegue fazer. Vamos cuidar. E cuidar da gente também.”

Mathias Pape / Arte UOL. Edição de arte: René Cardillo; Edição de texto: Adriana Terra; Ilustração: Linoca Souza; Reportagem: Carina Martins.

Circulação para trabalho explica concentração de casos de Covid-19 (UOL/Blog Raquel Rolnik)

raquelrolnik.blogosfera.uol.com.br

Raquel Rolnik 30/06/2020 19h09

Por Aluizio Marino², Danielle Klintowitz³, Gisele Brito², Raquel Rolnik¹, Paula Santoro¹, Pedro Mendonça²

Foto: Roberto Moreyra (Agência O Globo)

Desde o início da pandemia no Brasil muito tem se debatido acerca dos impactos nos diferentes territórios e segmentos sociais. Algo fundamental tanto para encontrar os melhores meios de prevenir a difusão da doença como de proteger aqueles que estão mais vulneráveis. Entretanto, a forma como as informações e os dados têm sido divulgados não auxilia na análise dos impactos territoriais e da difusão espacial da pandemia, dificultando também o seu devido enfrentamento.

Na cidade de São Paulo, a escala de análise da pandemia ainda são os distritos, que correspondem a porções enormes do território e com população maior do que muitas cidades de porte médio. Essa visão simplificadora ignora as heterogeneidades e desigualdades territoriais existentes na cidade. Conforme apontamos anteriormente, infelizmente a dimensão territorial não é considerada de forma adequada, prevalecendo uma leitura simplificada e, até mesmo, estigmatizada, como por exemplo quando se afirma “onde tem favela tem pandemia”.

Em artigo anterior, apresentamos o resultado de pesquisa em outra escala, a da rua. Para tanto, mapeamos as hospitalizações e óbitos pós internação por Covid-19 a partir do CEP – informação fornecida nas fichas dos pacientes hospitalizados com Síndrome Respiratória Aguda e Grave (SRAG) incluindo Covid-19 e disponibilizadas pelo DATASUS até aquele momento (18 de maio de 2020). Esse procedimento permitiu olhar mais detalhadamente para a distribuição territorial da pandemia, e assim evidenciar a complexidade de questões que explicam a sua difusão espacial, não apenas a precariedade habitacional e a presença de favelas.

A partir desta constatação passamos a investigar outros possíveis elementos explicativos, entre eles, a mobilidade urbana durante o período da pandemia, especificamente compreendendo o fluxo de circulação das pessoas na cidade e como isso influencia na difusão espacial da Covid-19. Com base nos dados disponibilizados pela SPTrans sobre dados de GPS dos ônibus, e a partir do roteamento de viagens selecionadas da Pesquisa Origem Destino de 2017, buscamos identificar de onde saíram e para onde foram as pessoas que circularam de transporte coletivo no dia 5 de junho, dia em que, segundo a SPTrans, cerca de 3 milhões de viagens foram realizadas usando os ônibus municipais.
Ao mesmo tempo, fizemos uma leitura territorial sobre a origem das viagens durante o período de pandemia. Para esta análise identificou-se na Pesquisa Origem Destino (2017) as pessoas que usam transporte público como modo principal para chegar ao seu destino, motivadas pela ida ao local de trabalho. Consideramos apenas as viagens realizadas por pessoas sem ensino superior e em cargos não executivos. Esse perfil foi selecionado considerando que pessoas com ensino superior, em cargos executivos e profissionais liberais tenham aderido ao teletrabalho e que viagens com outras motivações, como educação e compras, pararam de ocorrer. Esses dados de mobilidade foram correlacionados com os dados de hospitalizações por SRAG não identificada, e Covid-19, até o dia 18 de maio, última data para qual o dado do CEP no DATASUS estava disponibilizado pelo Ministério da Saúde.

Desta forma produzimos um mapa que ilustra a distribuição dos lugares de origem das viagens diárias, a partir de uma distribuição que considera número de viagens nas zonas origem-destino e distribuição populacional dentro dessas zonas. O resultado mostra uma forte associação entre os locais que mais concentraram as origens das viagens com as manchas de concentração do local de residência de pessoas hospitalizadas com Covid-19 e Síndrome Respiratória Grave (SRAG) sem identificação, possivelmente casos de Covid-19, mas que não foram testados ou não tiveram resultado confirmado.

Mapa: Pedro Mendonça/ LabCidade

Com base neste estudo, pode-se dizer que, em síntese, quem está sendo mais atingido pela Covid-19 são as pessoas que tiveram que sair para trabalhar. Embora tenhamos mapeado os locais que concentram os maiores números de origens ou destinos dos fluxos de circulação por transporte coletivo, não é possível ainda afirmar se o contágio ocorreu no percurso do transporte, no local de trabalho ou no local de moradia, o que vai exigir análises futuras, que serão realizadas no âmbito desta pesquisa. Mas o que está evidente é que quem saiu para trabalhar e realizou percursos longos de transporte coletivo é que quem foi mais impactado pelos óbitos ocorridos. Enquanto esse fator mostrou associação forte com os casos de hospitalizações por SRAG não identificada e Covid-19, a densidade demográfica — frequentemente associada a áreas favelizadas e bairros populares — apresentou associação fraca.

Ainda que preliminares, esses dados apontam para a incoerência e inconsequência da abertura planejada pelas prefeituras e governo do estado. A reabertura de comércios e restaurantes implica em aumentar significativamente o número de áreas de origens com mais densidades de viagens e maior circulação de pessoas no transporte público. Se o maior número de óbitos está nos territórios que tiveram mais pessoas saindo para trabalhar durante o período de isolamento, temos que pensar tanto em políticas que as protejam em seus percursos como ampliar o direito ao isolamento paras as pessoas que não estão envolvidas com serviços essenciais mais precisam trabalhar para garantir seu sustento, o que reforça a importância de políticas de garantia de renda e segurança alimentar, subsídios de aluguel e outras despesas, e ações articuladas a coletivos e organizações locais para a proteção dos que mais estão ameaçados durante a pandemia.

Embora esses dados sejam públicos, nos parece que estão sendo ignorados para a definição de estratégias de enfrentamento a pandemia. É urgente repensar a forma como a política de mobilidade na cidade tem sido pensada, já que foram cometidos equívocos tal como o mega rodízio para veículos individuais, que durou apenas alguns dias e provocou uma superlotação nos transportes públicos ampliando os riscos das pessoas que precisavam sair para trabalhar. Ainda não foram implementadas medidas que garantam condições seguras para que as pessoas dos serviços essenciais pudessem fazer as viagens necessárias para exercer seus trabalhos sem ampliar a difusão da infecção do coronavírus. Bem como não existe uma leitura sobre a mobilidade metropolitana — inclusive não existem dados abertos sobre isso — ignorando as dinâmicas pendulares de pessoas que moram e trabalham em municípios diferentes da região metropolitana.

¹ Coordenadoras do LabCidade e professoras da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP
² Pesquisadores do LabCidade
³ Pesquisadora do Instituto Pólis

How Epidemics End (Boston Review)

bostonreview.net

Jeremy A. Greene, Dora Vargha

Jun 30, 2020

Death Table from Tuberculosis in the United States, prepared for the International Congress on Tuberculosis, September 21 to October 12, 1908. Image: U.S. National Library of Medicine

Contrary to hopes for a tidy conclusion to the COVID-19 pandemic, history shows that outbreaks of infectious disease often have much murkier outcomes—including simply being forgotten about, or dismissed as someone else’s problem.

Recent history tells us a lot about how epidemics unfold, how outbreaks spread, and how they are controlled. We also know a good deal about beginnings—those first cases of pneumonia in Guangdong marking the SARS outbreak of 2002–3, the earliest instances of influenza in Veracruz leading to the H1N1 influenza pandemic of 2009–10, the outbreak of hemorrhagic fever in Guinea sparking the Ebola pandemic of 2014–16. But these stories of rising action and a dramatic denouement only get us so far in coming to terms with the global crisis of COVID-19. The coronavirus pandemic has blown past many efforts at containment, snapped the reins of case detection and surveillance across the world, and saturated all inhabited continents. To understand possible endings for this epidemic, we must look elsewhere than the neat pattern of beginning and end—and reconsider what we mean by the talk of “ending” epidemics to begin with.

The social lives of epidemics show them to be not just natural phenomena but also narrative ones: deeply shaped by the stories we tell about their beginnings, their middles, their ends.

Historians have long been fascinated by epidemics in part because, even where they differ in details, they exhibit a typical pattern of social choreography recognizable across vast reaches of time and space. Even though the biological agents of the sixth-century Plague of Justinian, the fourteenth-century Black Death, and the early twentieth-century Manchurian Plague were almost certainly not identical, the epidemics themselves share common features that link historical actors to present experience. “As a social phenomenon,” the historian Charles Rosenberg has argued, “an epidemic has a dramaturgic form. Epidemics start at a moment in time, proceed on a stage limited in space and duration, following a plot line of increasing and revelatory tension, move to a crisis of individual and collective character, then drift towards closure.” And yet not all diseases fit so neatly into this typological structure. Rosenberg wrote these words in 1992, nearly a decade into the North American HIV/AIDS epidemic. His words rang true about the origins of that disease—thanks in part to the relentless, overzealous pursuit of its “Patient Zero”—but not so much about its end, which was, as for COVID-19, nowhere in sight.

In the case of the new coronavirus, we have now seen an initial fixation on origins give way to the question of endings. In March The Atlantic offered four possible “timelines for life returning to normal,” all of which depended the biological basis of a sufficient amount of the population developing immunity (perhaps 60 to 80 percent) to curb further spread. This confident assertion derived from models of infectious outbreaks formalized by epidemiologists such as W. H. Frost a century earlier. If the world can be defined into those susceptible (S), infected (I) and resistant (R) to a disease, and a pathogen has a reproductive number R0 (pronounced R-naught) describing how many susceptible people can be infected by a single infected person, the end of the epidemic begins when the proportion of susceptible people drops below the reciprocal, 1/R0. When that happens, one person would infect, on average, less than one other person with the disease.

These formulas reassure us, perhaps deceptively. They conjure up a set of natural laws that give order to the cadence of calamities. The curves produced by models, which in better times belonged to the arcana of epidemiologists, are now common figures in the lives of billions of people learning to live with contractions of civil society promoted in the name of “bending,” “flattening,” or “squashing” them. At the same time, as David Jones and Stefan Helmreich recently wrote in these pages, the smooth lines of these curves are far removed from jagged realities of the day-to-day experience of an epidemic—including the sharp spikes in those “reopening” states where modelers had predicted continued decline.  

In other words, epidemics are not merely biological phenomena. They are inevitably framed and shaped by our social responses to them, from beginning to end (whatever that may mean in any particular case). The questions now being asked of scientists, clinicians, mayors, governors, prime ministers, and presidents around the world is not merely “When will the biological phenomenon of this epidemic resolve?” but rather “When, if ever, will the disruption to our social life caused in the name of coronavirus come to an end?” As peak incidence nears, and in many places appears to have passed, elected officials and think tanks from opposite ends of the political spectrum provide “roadmaps” and “frameworks” for how an epidemic that has shut down economic, civic, and social life in a manner not seen globally in at least a century might eventually recede and allow resumption of a “new normal.”

To understand possible endings for this epidemic, we must look elsewhere than the neat pattern of beginning and end—and reconsider what we mean by the talk of “ending” epidemics to begin with.

These two faces of an epidemic, the biological and the social, are closely intertwined, but they are not the same. The biological epidemic can shut down daily life by sickening and killing people, but the social epidemic also shuts down daily life by overturning basic premises of sociality, economics, governance, discourse, interaction—and killing people in the process as well. There is a risk, as we know from both the Spanish influenza of 1918–19 and the more recent swine flu of 2008–9, of relaxing social responses before the biological threat has passed. But there is also a risk in misjudging a biological threat based on faulty models or bad data and in disrupting social life in such a way that the restrictions can never properly be taken back. We have seen in the case of coronavirus the two faces of the epidemic escalating on local, national, and global levels in tandem, but the biological epidemic and the social epidemic don’t necessarily recede on the same timeline.

For these sorts of reasons we must step back and reflect in detail on what we mean by ending in the first place. The history of epidemic endings has taken many forms, and only a handful of them have resulted in the elimination of a disease.

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History reminds us that the interconnections between the timing of the biological and social epidemics are far from obvious. In some cases, like the yellow fever epidemics of the eighteenth century and the cholera epidemics of the nineteenth century, the dramatic symptomatology of the disease itself can make its timing easy to track. Like a bag of popcorn popping in the microwave, the tempo of visible case-events begins slowly, escalates to a frenetic peak, and then recedes, leaving a diminishing frequency of new cases that eventually are spaced far enough apart to be contained and then eliminated. In other examples, however, like the polio epidemics of the twentieth century, the disease process itself is hidden, often mild in presentation, threatens to come back, and ends not on a single day but over different timescales and in different ways for different people.

Campaigns against infectious diseases are often discussed in military terms, and one result of that metaphor is to suggest that epidemics too must have a singular endpoint. We approach the infection peak as if it were a decisive battle like Waterloo, or a diplomatic arrangement like the Armistice at Compiègne in November 1918. Yet the chronology of a single, decisive ending is not always true even for military history, of course. Just as the clear ending of a military war does not necessarily bring a close to the experience of war in everyday life, so too the resolution of the biological epidemic does not immediately undo the effects of the social epidemic. The social and economic effects of the 1918–1919 pandemic, for example, were felt long after the end of the third and putatively final wave of the virus. While the immediate economic effect on many local businesses caused by shutdowns appears to have resolved in a matter of months, the broader economic effects of the epidemic on labor-wage relations were still visible in economic surveys in 1920, again in 1921, and in several areas as far as 1930.

The history of epidemic endings has taken many forms, and only a handful of them have resulted in the elimination of a disease.

And yet, like World War One with which its history was so closely intertwined, the influenza pandemic of 1918–19 appeared at first to have a singular ending. In individual cities the epidemic often produced dramatic spikes and falls in equally rapid tempo. In Philadelphia, as John Barry notes in The Great Influenza (2004), after an explosive and deadly rise in October 1919 that peaked at 4,597 deaths in a single week, cases suddenly dropped so precipitously that the public gathering ban could be lifted before the month was over, with almost no new cases in following weeks. A phenomenon whose destructive potential was limited by material laws, “the virus burned through available fuel, then it quickly faded away.”  

As Barry reminds us, however, scholars have since learned to differentiate at least three different sequences of epidemics within the broader pandemic. The first wave blazed through military installations in the spring of 1918, the second wave caused the devastating mortality spikes in the summer and fall of 1918, and the third wave began in December 1918 and lingered long through the summer of 1919. Some cities, like San Francisco, passed through the first and second waves relatively unscathed only to be devastated by the third wave. Nor was it clear to those still alive in 1919 that the pandemic was over after the third wave receded. Even as late as 1922, a bad flu season in Washington State merited a response from public health officials to enforce absolute quarantine as they had during 1918–19. It is difficult, looking back, to say exactly when this prototypical pandemic of the twentieth century was really over.

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Who can tell when a pandemic has ended? Today, strictly speaking, only the World Health Organization (WHO). The Emergency Committee of the WHO is responsible for the global governance of health and international coordination of epidemic response. After the SARS coronavirus pandemic of 2002–3, this body was granted sole power to declare the beginnings and endings of Public Health Emergencies of International Concern (PHEIC). While SARS morbidity and mortality—roughly 8,000 cases and 800 deaths in 26 countries—has been dwarfed by the sheer scale of COVID-19, the pandemic’s effect on national and global economies prompted revisions to the International Health Regulations in 2005, a body of international law that had remained unchanged since 1969. This revision broadened the scope of coordinated global response from a handful of diseases to any public health event that the WHO deemed to be of international concern and shifted from a reactive response framework to a pro-active one based on real-time surveillance and detection and containment at the source rather than merely action at international borders.

This social infrastructure has important consequences, not all of them necessarily positive. Any time the WHO declares a public health event of international concern—and frequently when it chooses not to declare one—the event becomes a matter of front-page news. Since the 2005 revision, the group has been criticized both for declaring a PHEIC too hastily (as in the case of H1N1) or too late (in the case of Ebola). The WHO’s decision to declare the end of a PHEIC, by contrast, is rarely subject to the same public scrutiny. When an outbreak is no longer classified as an “extraordinary event” and no longer is seen to pose a risk at international spread, the PHEIC is considered not to be justified, leading to a withdrawal of international coordination. Once countries can grapple with the disease within their own borders, under their own national frameworks, the PHEIC is quietly de-escalated.

At their worst, epidemic endings are a form of collective amnesia, transmuting the disease that remains into merely someone else’s problem.

As the response to the 2014–16 Ebola outbreak in West Africa demonstrates, however, the act of declaring the end of a pandemic can be just as powerful as the act of declaring its beginning—in part because emergency situations can continue even after a return to “normal” has been declared. When WHO Director General Margaret Chan announced in March 2016 that the Ebola outbreak was no longer a public health event of international concern, international donors withdrew funds and care to the West African countries devastated by the outbreak, even as these struggling health systems continued to be stretched beyond their means by the needs of Ebola survivors. NGOs and virologists expressed concern that efforts to fund Ebola vaccine development would likewise fade without a sense of global urgency pushing research forward.

Part of the reason that the role of the WHO in proclaiming and terminating the state of pandemic is subject to so much scrutiny is that it can be. The WHO is the only global health body that is accountable to all governments of the world; its parliamentary World Health Assembly contains health ministers from every nation. Its authority rests not so much on its battered budget as its access to epidemic intelligence and pool of select individuals, technical experts with vast experience in epidemic response. But even though internationally sourced scientific and public health authority is key to its role in pandemic crises, WHO guidance is ultimately carried out in very different ways and on very different time scales in different countries, provinces, states, counties, and cities. One state might begin to ease up restrictions to movement and industry just as another implements more and more stringent measures. If each country’s experience of “lockdown” has already been heterogeneous, the reconnection between them after the PHEIC is ended will likely show even more variance.

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So many of our hopes for the termination of the present PHEIC now lie in the promise of a COVID-19 vaccine. Yet a closer look at one of the central vaccine success stories of the twentieth century shows that technological solutions rarely offer resolution to pandemics on their own. Contrary to our expectations, vaccines are not universal technologies. They are always deployed locally, with variable resources and commitments to scientific expertise. International variations in research, development, and dissemination of effective vaccines are especially relevant in the global fight against epidemic polio.

The development of the polio vaccine is relatively well known, usually told as a story of an American tragedy and triumph. Yet while polio epidemics that swept the globe in the postwar decades did not respect national borders or the Iron Curtain, the Cold War provided context for both collaboration and antagonism. Only a few years after the licensing of Jonas Salk’s inactivated vaccine in the United States, his technique became widely used across the world, although its efficacy outside of the United States was questioned. The second, live oral vaccine developed by Albert Sabin, however, involved extensive collaboration in with Eastern European and Soviet colleagues. As the success of the Soviet polio vaccine trials marked a rare landmark of Cold War cooperation, Basil O’Connor, president of the March of Dimes movement, speaking at the Fifth International Poliomyelitis Conference in 1960, proclaimed that “in search for the truth that frees man from disease, there is no cold war.”

Two faces of an epidemic, the biological and the social, are closely intertwined, but they are not the same.

Yet the differential uptake of this vaccine retraced the divisions of Cold War geography. The Soviet Union, Hungary, and Czechoslovakia were the first countries in the world to begin nationwide immunization with the Sabin vaccine, soon followed by Cuba, the first country in the Western Hemisphere to eliminate the disease. By the time the Sabin vaccine was licensed in the United States in 1963, much of Eastern Europe had done away with epidemics and was largely polio-free. The successful ending of this epidemic within the communist world was immediately held up as proof of the superiority of their political system.

Western experts who trusted the Soviet vaccine trials, including the Yale virologist and WHO envoy Dorothy Horstmann, nonetheless emphasized that their results were possible because of the military-like organization of the Soviet health care system. Yet these enduring concerns that authoritarianism itself was the key tool for ending epidemics—a concern reflected in current debates over China’s heavy-handed interventions in Wuhan this year—can also be overstated. The Cold War East was united not only by authoritarianism and heavy hierarchies in state organization and society, but also by a powerful shared belief in the integration of paternal state, biomedical research, and socialized medicine. Epidemic management in these countries combined an emphasis on prevention, easily mobilized health workers, top-down organization of vaccinations, and a rhetoric of solidarity, all resting on a health care system that aimed at access to all citizens.

Still, authoritarianism as a catalyst for controlling epidemics can be singled out and pursued with long-lasting consequences. Epidemics can be harbingers of significant political changes that go well beyond their ending, significantly reshaping a new “normal” after the threat passes. Many Hungarians, for example, have watched with alarm the complete sidelining of parliament and the introduction of government by decree at the end of March this year. The end of any epidemic crisis, and thus the end of the need for the significantly increased power of Viktor Orbán, would be determined by Orbán himself. Likewise, many other states, urging the mobilization of new technologies as a solution to end epidemics, are opening the door to heightened state surveillance of their citizens. The apps and trackers now being designed to follow the movement and exposure of people in order to enable the end of epidemic lockdowns can collect data and establish mechanisms that reach well beyond the original intent. The digital afterlives of these practices raise new and unprecedented questions about when and how epidemics end.

Like infectious agents on an agar plate, epidemics colonize our social lives and force us to learn to live with them, in some way or another, for the foreseeable future.

Although we want to believe that a single technological breakthrough will end the present crisis, the application of any global health technology is always locally determined. After its dramatic successes in managing polio epidemics in the late 1950s and early 1960s, the oral poliovirus vaccine became the tool of choice for the Global Polio Eradication Initiative in the late 1980s, as it promised an end to “summer fears” globally. But since vaccines are in part technologies of trust, ending polio outbreaks depends on maintaining confidence in national and international structures through which vaccines are delivered. Wherever that often fragile trust is fractured or undermined, vaccination rates can drop to a critical level, giving way to vaccine-derived polio, which thrives in partially vaccinated populations.

In Kano, Nigeria, for example, a ban on polio vaccination between 2000 and 2004 resulted in a new national polio epidemic that soon spread to neighboring countries. As late as December 2019 polio outbreaks were still reported in fifteen African countries, including Angola and the Democratic Republic of the Congo. Nor is it clear that polio can fully be regarded as an epidemic at this point: while polio epidemics are now a thing of the past for Hungary—and the rest of Europe, the Americas, Australia, and East Asia as well—the disease is still endemic to parts of Africa and South Asia. A disease once universally epidemic is now locally endemic: this, too, is another way that epidemics end.

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Indeed, many epidemics have only “ended” through widespread acceptance of a newly endemic state. Consider the global threat of HIV/AIDS. From a strictly biological perspective, the AIDS epidemic has never ended; the virus continues to spread devastation through the world, infecting 1.7 million people and claiming an estimated 770,000 lives in the year 2018 alone. But HIV is not generally described these days with the same urgency and fear that accompanied the newly defined AIDS epidemic in the early 1980s. Like coronavirus today, AIDS at that time was a rapidly spreading and unknown emerging threat, splayed across newspaper headlines and magazine covers, claiming the lives of celebrities and ordinary citizens alike. Nearly forty years later it has largely become a chronic disease endemic, at least in the Global North. Like diabetes, which claimed an estimated 4.9 million lives in 2019, HIV/AIDS became a manageable condition—if one had access to the right medications.

Those who are no longer directly threatened by the impact of the disease have a hard time continuing to attend to the urgency of an epidemic that has been rolling on for nearly four decades. Even in the first decade of the AIDS epidemic, activists in the United States fought tooth and nail to make their suffering visible in the face of both the Reagan administration’s dogged refusal to talk publicly about the AIDS crisis and the indifference of the press after the initial sensation of the newly discovered virus had become common knowledge. In this respect, the social epidemic does not necessarily end when biological transmission has ended, or even peaked, but rather when, in the attention of the general public and in the judgment of certain media and political elites who shape that attention, the disease ceases to be newsworthy.

Though we like to think of science as universal and objective, crossing borders and transcending differences, it is in fact deeply contingent upon local practices.

Polio, for its part, has not been newsworthy for a while, even as thousands around the world still live with polio with ever-decreasing access to care and support. Soon after the immediate threat of outbreaks passed, so did support for those whose lives were still bound up with the disease. For others, it became simply a background fact of life—something that happens elsewhere. The polio problem was “solved,” specialized hospitals were closed, fundraising organizations found new causes, and poster children found themselves in an increasingly challenging world. Few medical professionals are trained today in the treatment of the disease. As intimate knowledge of polio and its treatment withered away with time, people living with polio became embodied repositories of lost knowledge.

History tells us public attention is much more easily drawn to new diseases as they emerge rather than sustained over the long haul. Well before AIDS shocked the world into recognizing the devastating potential of novel epidemic diseases, a series of earlier outbreaks had already signaled the presence of emerging infectious agents. When hundreds of members of the American Legion fell ill after their annual meeting in Philadelphia in 1976, the efforts of epidemiologists from the Centers for Disease Control to explain the spread of this mysterious disease and its newly discovered bacterial agent, Legionella, occupied front-page headlines. In the years since, however, as the 1976 incident faded from memory, Legionella infections have become everyday objects of medical care, even though incidence in the U.S. has grown ninefold since 2000, tracing a line of exponential growth that looks a lot like COVID-19’s on a longer time scale. Yet few among us pause in our daily lives to consider whether we are living through the slowly ascending limb of a Legionella epidemic.  

Nor do most people living in the United States stop to consider the ravages of tuberculosis as a pandemic, even though an estimated 10 million new cases of tuberculosis were reported around the globe in 2018, and an estimated 1.5 million people died from the disease. The disease seems to only receive attention in relation to newer scourges: in the late twentieth century TB coinfection became a leading cause of death in emerging HIV/AIDS pandemic, while in the past few months TB coinfection has been invoked as a rising cause of mortality in COVID-19 pandemic. Amidst these stories it is easy to miss that on its own, tuberculosis has been and continues to be the leading cause of death worldwide from a single infectious agent. And even though tuberculosis is not an active concern of middle-class Americans, it is still not a thing of the past even in this country. More than 9,000 cases of tuberculosis were reported in the United States in 2018—overwhelmingly affecting racial and ethnic minority populations—but they rarely made the news.

There will be no simple return to the way things were: whatever normal we build will be a new one—whether many of us realize it or not.

While tuberculosis is the target of concerted international disease control efforts, and occasionally eradication efforts, the time course of this affliction has been spread out so long—and so clearly demarcated in space as a problem of “other places”—that it is no longer part of the epidemic imagination of the Global North. And yet history tells a very different story. DNA lineage studies of tuberculosis now show that the spread of tuberculosis in sub-Saharan Africa and Latin America was initiated by European contact and conquest from the fifteenth century through the nineteenth. In the early decades of the twentieth century, tuberculosis epidemics accelerated throughout sub-Saharan Africa, South Asia, and Southeast Asia due to the rapid urbanization and industrialization of European colonies. Although the wave of decolonizations that swept these regions between the 1940s and the 1980s established autonomy and sovereignty for newly post-colonial nations, this movement did not send tuberculosis back to Europe.

These features of the social lives of epidemics—how they live on even when they seem, to some, to have disappeared—show them to be not just natural phenomena but also narrative ones: deeply shaped by the stories we tell about their beginnings, their middles, their ends. At their best, epidemic endings are a form of relief for the mainstream “we” that can pick up the pieces and reconstitute a normal life. At their worst, epidemic endings are a form of collective amnesia, transmuting the disease that remains into merely someone else’s problem.

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What are we to conclude from these complex interactions between the social and the biological faces of epidemics, past and present? Like infectious agents on an agar plate, epidemics colonize our social lives and force us to learn to live with them, in some way or another, for the foreseeable future. Just as the postcolonial period continued to be shaped by structures established under colonial rule, so too are our post-pandemic futures indelibly shaped by what we do now. There will be no simple return to the way things were: whatever normal we build will be a new one—whether many of us realize it or not. Like the world of scientific facts after the end of a critical experiment, the world that we find after an the end of an epidemic crisis—whatever we take that to be—looks in many ways like the world that came before, but with new social truths established. How exactly these norms come into being depends a great deal on particular circumstances: current interactions among people, the instruments of social policy as well as medical and public health intervention with which we apply our efforts, and the underlying response of the material which we applied that apparatus against (in this case, the coronavirus strain SARS-CoV-2). While we cannot know now how the present epidemic will end, we can be confident that it in its wake it will leave different conceptions of normal in realms biological and social, national and international, economic and political.

Though we like to think of science as universal and objective, crossing borders and transcending differences, it is in fact deeply contingent upon local practices—including norms that are easily thrown over in an emergency, and established conventions that do not always hold up in situations of urgency. Today we see civic leaders jumping the gun in speaking of access to treatments, antibody screens, and vaccines well in advance of any scientific evidence, while relatively straightforward attempts to estimate the true number of people affected by the disease spark firestorms over the credibility of medical knowledge. Arduous work is often required to achieve scientific consensus, and when the stakes are high—especially when huge numbers of lives are at risk—heterogeneous data give way to highly variable interpretations. As data moves too quickly in some domains and too slowly in others, and sped-up time pressures are placed on all investigations the projected curve of the epidemic is transformed into an elaborate guessing game, in which different states rely on different kinds of scientific claims to sketch out wildly different timetables for ending social restrictions.

The falling action of an epidemic is perhaps best thought of as asymptotic: never disappearing, but rather fading to the point where signal is lost in the noise of the new normal—and even allowed to be forgotten.

These varied endings of the epidemic across local and national settings will only be valid insofar as they are acknowledged as such by others—especially if any reopening of trade and travel is to be achieved. In this sense, the process of establishing a new normal in global commerce will continue to be bound up in practices of international consensus. What the new normal in global health governance will look like, however, is more uncertain than ever. Long accustomed to the role of international scapegoat, the WHO Secretariat seems doomed to be accused either of working beyond its mandate or not acting fast enough. Moreover, it can easily become a target of scapegoating, as the secessionist posturing of Donald Trump demonstrates. Yet the U.S. president’s recent withdrawal from this international body is neither unprecedented nor unsurmountable. Although Trump’s voting base might not wish to be grouped together with the only other global power to secede from the WHO, after the Soviet Union’s 1949 departure from the group it ultimately brought all Eastern Bloc back to task of international health leadership in 1956. Much as the return of the Soviets to the WHO resulted in the global eradication of smallpox—the only human disease so far to have been intentionally eradicated—it is possible that some future return of the United States to the project of global health governance might also result in a more hopeful post-pandemic future.

As the historians at the University of Oslo have recently noted, in epidemic periods “the present moves faster, the past seems further removed, and the future seems completely unpredictable.” How, then, are we to know when epidemics end? How does the act of looking back aid us in determining a way forward? Historians make poor futurologists, but we spend a lot of time thinking about time. And epidemics produce their own kinds of time, in both biological and social domains, disrupting our individual senses of passing days as well as conventions for collective behavior. They carry within them their own tempos and rhythms: the slow initial growth, the explosive upward limb of the outbreak, the slowing of transmission that marks the peak, plateau, and the downward limb. This falling action is perhaps best thought of as asymptotic: rarely disappearing, but rather fading to the point where signal is lost in the noise of the new normal—and even allowed to be forgotten.

Fundação Cacique Cobra Coral diz ter mudado o clima para barrar gafanhotos no Brasil (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Bruna Narcizo, 26 de junho de2020

A FCCC (Fundação Cacique Cobra Coral), entidade esotérico-científica que diz controlar o clima, afirmou que mudou a direção dos ventos para afastar a nuvem de gafanhotos que se aproximava no Brasil.

“Estávamos na região Sul em uma operação para elevar o nível dos reservatórios de água Curitiba e fomos chamados por uma empresa agropecuária para afastar os gafanhotos”, diz Osmar Santos, porta-voz da Fundação Cacique Cobral Coral.

Segundo ele, as mudanças efetuadas aceleraram o vento e criaram uma barreira de ar frio que fizeram com que os insetos não se aproximassem do Brasil. “Gafanhoto não gosta de frio”, afirma o porta-voz da entidade.

Na quinta-feira (25), o Ministério da Agricultura declarou estado de emergência fitossanitária nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina para que os governos possam adotar medidas de contenção de gafanhotos.

Com a medida, estados têm autorização para tomar medidas prioritárias de combate à praga, como utilização de agrotóxicos e chamamento de entidades que auxiliem nas ações.

A expectativa era de que os insetos poderiam chegar até o Paraná. Na última terça-feira (23), estavam concentrados na região argentina de Santa Fé, a 250 km da fronteira com o Rio Grande do Sul. No dia seguinte, a nuvem já estava a 150 km do Brasil.

O gafanhoto conhecido como sul-americano tem como hábito a formação de massas migratórias e pode viajar até 100 km por dia.

Um quilômetro quadrado da nuvem comporta cerca 40 milhões de insetos. Em apenas um dia, eles podem comer o equivalente ao alimento de 2.000 vacas. Em uma das áreas medidas pelo governo argentino, a nuvem de gafanhotos chegou a 10 km de extensão.

A fundação afirma ter começado a operação climática na quarta-feira (24).

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina, enviou nota para a reportagem da Folha na quinta-feira (25) afirmando que as condições climáticas estavam favoráveis. “Estamos monitorando, mas tudo indica que ela vai ficar mesmo no Uruguai por enquanto. Se o clima continuar favorecendo, ela nem chegará ao nosso território”, explicou a ministra.

Santos diz que as mudanças feitas pela entidade contrariaram as previsões. “O vento virou e mudou temporariamente a rota dos gafanhotos que viriam da Argentina para o sul do Brasil. Mas para nós foi um sinal de que não estamos fazendo a lição de casa com a mãe natureza”, diz Santos.

Ele diz que está prestando serviços para um cliente que procura manter o que chama de veranico durante a pandemia causada pelo novo coronavírus. “Fizemos um trabalho semelhante no hemisfério norte, onde as temperaturas elevaram antes do fim do inverno e seguirão altas até novembro.”

A FCCC diz que presta serviço para empresas e governos de várias partes do mundo. Os nomes são protegidos por sigilo contratual.

A emergência causada pela presença da gigantesca nuvem de gafanhotos também foi tema de três videoconferências na sexta-feira (26). Os encontros abrangeram diretores do Sindag (Sindicato Nacional das Empresas de Aviação Agrícola) e mais de 60 técnicos, pesquisadores e dirigentes, além de autoridades federais.

“A pauta foi no sentido de nivelarmos as informações e esclarecermos dúvidas de autoridades e dirigentes, principalmente nos órgãos federais e dos Estados de outras regiões”, afirmou o presidente do Sindag, Thiago Magalhães Silva.

O objetivo foi avaliar a situação atual do problema e definir os próximos passos na elaboração de um protocolo nacional de combate aos gafanhotos. O Sindag terá ainda outras duas reuniões sobre o tema, uma neste sábado (27) e outra na quinta-feira (2).

Segundo informações do Senasa (Serviço Nacional de Segurança e Qualidade Alimentar da Argentina), a nuvem de gafanhotos pousou na região de Sauce, na província de Corrientes, na sexta.

De acordo com o fiscal agropecuário da Secretaria de Agricultura gaúcha, Juliano Ritter, a atenção agora está sobre os ventos na região e a chegada do frio junto à fronteira brasileira, que podem impedir a nuvem de entrar no país. “Mas seguimos monitorando 300 quilômetros de fronteira a partir da Barra do Quaraí [extremo oeste gaúcho]”, afirmou.

A conversa deste sábado será com as três empresas aeroagrícolas situadas na região de Uruguaiana –na fronteira gaúcha com Argentina e Uruguai. Já na quinta (2), a conversa será com representantes dos ministérios da Agricultura dos três países e dirigentes das entidades de aviação agrícola da Argentina e Uruguai. “O foco será uma avaliação da crise e a costura de futuras ações conjuntas”, disse o diretor-executivo do Sindag, Gabriel Colle.

A nuvem de gafanhotos vem sendo monitorada desde maio por autoridades argentinas e já tinha percorrido mais de 1.000 quilômetros. Especialistas afirmam que a seca registrada nos últimos meses na região, com a consequente falta de alimentos para os insetos adultos, condicionou a migração dos gafanhotos. Pragas semelhantes já foram registradas na região em 1930 e 1940.

Representantes do grupo de aiação agrícola também ajustaram junto ao Sindag, na sexta-feira, o esboço da parte do setor agrícola para o plano de ação contra os gafanhotos.

“Embora estivéssemos prontos para agir na emergência, essa crise mostrou que tínhamos uma lacuna importante ainda aberta sobre protocolos, rede de apoio, produtos e outros aspectos. Resolvendo isso seremos mais eficientes desde o monitoramento até as ações em campo. Esse plano será um legado importante para a agricultura brasileira”, afirmou o presidente do sindicato, Thiago Magalhães.

Ainda segundo especialistas, ainda que as plantações de arroz já tenham sido colhidas na região gaúcha, os bichos poderiam prejudicar culturas de inverno e, principalmente, pastagens. Para eles, somente inseticidas podem combater o gafanhoto.


Entidade afirma ter mudado clima para barrar nuvem de gafanhotos no Brasil (Yahoo Notícias)

Colaboradores, 27 de junho de 2020

Baixa temperatura deve dificultar entrada de gafanhotos no Brasil
Nuvem de gafanhotos vista da cidade argentina Córdoba: insetos voam em direção à fronteira brasileira (Governo de Córdoba/Divulgação)

A nuvem de gafanhotos que se aproximava no Brasil alterou a rota por interferência humana no clima. A FCCC (Fundação Cacique Cobra Coral) afirmou ter mudado a direção dos ventos para afastar os insetos do país.

“Estávamos na região Sul em uma operação para elevar o nível dos reservatórios de água em Curitiba e fomos chamados por uma empresa agropecuária para afastar os gafanhotos”, explicou Osmar Santos, porta-voz da entidade, ao jornal Folha de S.Paulo.

Para afastar os insetos, a Fundação Cacique Cobra Coral disse ter alterado o clima para acelerar os ventos e criar uma barreira de ar. “Gafanhoto não gosta de frio”, afirmou o porta-voz.

O Ministério da Agricultura chegou a decretar estado de emergência fitossanitária no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina para que os governos estaduais pudessem adotar medidas de contenção dos gafanhotos, que poderiam chegar até o rio Paraná.

A FCCC alegou ter começado a operação climática na quarta-feira, quando a nuvem de gafanhotos estava a 150 quilômetros da fronteira da Argentina com o Rio Grande do Sul.

Donna Haraway: We are living in dangerous but also generative transformational times

Facebook, 24 June 2020

We are living in dangerous but also generative transformational times at the confluence of (at least) 3 emergencies:

1) covid 19 pandemic (not to mention other diseases of both humans and nonhumans rampaging through the living world), but also in the midst of powerful emergent practices of collective care and refusal of death-denial and transcendentalism

2) racial capitalism/neofascism run rampant, but also anti-racist & indigenous justice&care movements surging in the context of world wide economic & environmental crises

3) multispecies extermination/extinction/genocide in the web of climate injustice, extractionism, and catastrophe capitalism, but also widespread revulsion at human exceptionalism and growing affirmation of the earth & earthlings of powerful kinds

Science and technology matter in all of these. “Science for the People” has never been more relevant (especially if the “people” are both human and more than human).
No more business as usual. These times are more dangerous than ever, but maybe, just maybe, there is a chance for something better. So, the old question for the left, what is to be done?

That’s what I want to talk about. What is it like to live in times of possibilities, when just a year ago many of us thought nothing was possible?

Peter Sloterdijk: “O regresso à frivolidade não vai ser fácil” (El País)

Para o grande filósofo alemão é evidente a necessidade de um “escudo universal para a humanidade”

Ana Carbajosa, 09 may 2020 – 11:29 BRT

Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.
Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.Vicens Gimenez / © Vicens Gimenez

Do outro lado do telefone, a voz de Peter Sloterdijk está fraca. O grande filósofo alemão explica que não está muito bem neste dia, mas imediatamente desata a falar e lança as ideias que o novo universo da pandemia estruturam em sua cabeça. No centro, um conceito que já havia trazido à tona e que agora assume um novo significado, o da coimunidade, do compromisso individual voltado à proteção mútua, que marcará a nova maneira de estar no mundo, segundo o autor de Crítica da Razão Cínica e da trilogia de Esferas. Sloterdijk (72 anos, Karlsruhe) não acha que o mundo se tenha tornado grande demais para nós, nem que tenha chegado a hora do recolhimento nacional. Pelo contrário, acredita que a extrema interdependência ficou evidente e requer “uma declaração geral de dependência universal”.

PERGUNTA. A dimensão da pandemia paralisou e atordoou as sociedades. O que acontecerá quando despertarmos e o medo diminuir?

RESPOSTA. O mundo em sua concepção como gigantesca esfera de consumo se baseia na produção coletiva de uma atmosfera frívola. Sem frivolidade, não há público nem população que mostre inclinação ao consumo. O vínculo entre a atmosfera frívola e o consumismo foi rompido. Todo o mundo espera agora que esse vínculo volte a ser reconectado, mas vai ser difícil. Depois de uma disrupção tão grande, o retorno aos padrões de frivolidade não será fácil.

P. Nessa esfera frívola, pensávamos ser capazes de controlar a natureza com tecnologia sofisticada, mas o vírus nos deixou de joelhos. Nossa maneira de estar no mundo mudará?

R. O problema é a atmosfera frívola e que não aprendamos nada novo com esta pandemia. Se olharmos para a história das sociedades modernas, elas estiveram impregnadas de surtos relativamente regulares, mas, no passado, as pessoas tendiam a voltar aos seus hábitos comuns de existência. O novo agora é que vemos que, por causa da globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia.

P. Como essa ideia de proteção mútua se insere na situação atual?

R. O conceito de coimunidade implica aspectos de solidariedade biológica e de coerência social e jurídica. Essa crise revela a necessidade de uma prática mais profunda do mutualismo, ou seja, proteção mútua generalizada, como digo em Você Tem que Mudar a Sua Vida.“

A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia”

P. A comunidade internacional parece caminhar na direção oposta. Atualmente, vemos mais competição do que cooperação.

R. Vejo, no futuro, a competição pela imunidade ser substituída por uma nova consciência da comunidade, pela necessidade de promover a comunidade, fruto da observação de que a sobrevivência é indiferente às nacionalidades e às civilizações.

P. Hoje os países fecham as suas fronteiras e se recolhem a si mesmos.

R. Sim, mas as fronteiras são para os moradores de ambos os lados. Não devemos interpretar de modo errado. O bem-estar da saúde nacional também ajuda os vizinhos. Se controlamos nossos problemas de saúde, também ajudamos nossos vizinhos, e não devemos interpretar esse auto-cuidado como uma regressão nacionalista. Ao contrário, se todos forem cuidadosos em seu território, darão uma enorme contribuição aos demais.

P. O Estado-Nação reemerge com força no meio da emergência, mas, ao mesmo tempo, nunca os países dependeram tanto uns dos outros.

R. Nos dois últimos séculos, a maior preocupação das entidades políticas, dos Estados-nação, girou em torno da independência. No futuro, precisamos de uma declaração geral de dependência universal; a ideia básica de comunidade. A necessidade de um escudo universal que proteja todos os membros da comunidade humana não é mais algo utópico. A enorme interação médica em todo o mundo está provando que isso já funciona.

P. Nossas democracias correm perigo ou as liberdades serão reabilitadas após os estados de alarme?

R. Em todo o mundo, agora, estão lembrando que a necessidade de um Estado forte é algo que acompanhará nossa existência por um longo período, porque parece que é único disponível para solucionar problemas. Isso é complicado porque poderia corromper nossas demandas democráticas. No futuro, o público em geral e a classe política terão a tarefa de monitorar um retorno claro às nossas liberdades democráticas.

P. As forças populistas agora parecem deslocadas, mas cresce o medo de que se alimentem da frustração. Que impacto o senhor acha que a pandemia terá no populismo?

R. Todo mundo precisa entender que esses movimentos não são operacionais, que têm atitudes pouco práticas, que expressam insatisfações, mas que de modo algum são capazes de resolver problemas. Acho que serão os perdedores da crise. O público terá entendido que você não pode esperar nenhuma ajuda deles.

Cientistas planejam a ressurreição digital com bots e humanoides (Canal Tech)

Por Natalie Rosa | 25 de Junho de 2020 às 16h40 Reprodução

Em fevereiro deste ano, o mundo todo se surpreendeu com a história de Jang Ji-sung, uma sul-coreana que “reencontrou” a sua filha, já falecida, graças à inteligência artificial. A garota morreu em 2016 devido a uma doença sanguínea.

No encontro simulado, a imagem da pequena Nayeon é exibida para a mãe que está em um fundo verde, também conhecido como chroma key, usando um headset de realidade virtual. A interação não foi só visual, como também foi possível conversar e brincar com a criança. Segundo Jang, a experiência foi como um sonho que ela sempre quis ter.

Encontro de Jang Ji-sung com a forma digitalizada da filha (Imagem: Reprodução)

Por mais que pareça uma tendência difícil de ser executada em massa na vida real, além de ser uma preocupação bastante antiga das produções de ficção científica, existem pessoas interessadas nesta forma de imortalidade. A questão que fica, no entanto, é se devemos fazer isso e como irá acontecer.

Em entrevista ao CNET, John Troyer, diretor do Centre for Death and Society (Centro para Morte e Sociedade) da Universidade de Bath, na Inglaterra, e autor do livro Technologies of the Human Corpse, conta que o interesse mais moderno pela imortalidade começou ainda na década de 1960. Na época, muitas pessoas acreditavam na ideia do processo criônico de preservação de corpos, quando um cadáver ou apenas uma cabeça humana eram congelados com a esperança de serem ressuscitados no futuro. Até o momento, ainda não houve tentativa de serem revividas.

“Aconteceu uma mudança na ciência da morte naquele tempo, e a ideia de que, de alguma forma, os humanos poderiam derrotar a morte”, explica Troyer. O especialista conta também que ainda não há uma pesquisa revisada que prove que o investimento de milhões no upload de dados do cérebro, ou ainda manter um corpo vivo, valha a pena.

Em 2016, um estudo publicado na revista acadêmica Plos One descobriu que expor um cérebro preservado a sondas químicas e elétricas o faz voltar a funcionar. “Tudo isso é uma aposta do que é possível no futuro. Mas eu não estou convencido de que é possível da maneira que estão descrevendo ou desejando”, completa.

Superando o luto

O caso que aconteceu na Coreia do Sul não foi o único que envolve o luto. Em 2015, Eugenia Kuyda, co-fundadora e CEO da empresa de softwares Replika, sofreu com a perda do seu melhor amigo Roman após um atropelamento em Moscou, na Rússia. A executiva decidiu, então, criar um chatbot treinado com milhares de mensagens de texto trocadas pelos dois ao longo dos anos, resultando em uma versão digital de Roman, que pode conversar com amigos e família.

“Foi muito emocionante. Eu não estava esperando me sentir assim porque eu trabalhei naquele chatbot e sabia como ele foi construído”, relata Kuyda. A experiência lembra bastante um dos episódios da série Black Mirror, que aborda um futuro distópico da tecnologia. Em Be Right Back, de 2013, uma jovem mulher perde o namorado em um acidente de carro e se inscreve em um projeto para que ela possa se comunicar com “ele” de forma digital, graças à inteligência artificial.

Por outro lado, Kuyda conta que o projeto não foi criado para ser comercializado, mas sim como uma forma pessoal de lidar com a perda do melhor amigo. Ela conta que qualquer pessoa que tentar reproduzir o feito vai encontrar uma série de empecilhos e dificuldades, como decidir qual tipo de informação será considerada pública ou privada, ou ainda com quem o chatbot poderá interagir. Isso porque a forma de se conversar com um amigo, por exemplo, não é a mesma com integrantes da família, e Kuyda diz que não há como fazer essa diferenciação.

A criação de uma versão digital de uma pessoa não vai desenvolver novas conversas e nem emitir novas opiniões, mas sim replicar frases e palavras já ditas, basicamente, se encaixando com o bate-papo. “Nós deixamos uma quantidade insana de dados, mas a maioria deles não é pessoal, privada ou baseada em termos de que tipo de pessoa nós somos”, diz Kuyda. Em resposta ao CNET, a executiva diz que é impossível obter dados 100% precisos de uma pessoa, pois atualmente não há alguma tecnologia que possa capturar o que está acontecendo em nossas mentes.

Sendo assim, a coleta de dados acaba sendo a maior barreira para criar algum tipo de software que represente uma pessoa após o falecimento. Parte disso acontece porque a maioria dos conteúdos postados online são de uma empresa, passando a pertencer à plataforma. Com isso, se um dia a companhia fechar, os dados vão embora junto com ela. Para Troyer, a tecnologia de memória não tende a sobreviver ao tempo.

Imagem: Reprodução

Cérebro fresco

A startup Nectome vem se dedicando à preservação do cérebro, pensando na possível extração da memória após a morte. Para que isso aconteça, no entanto, o órgão precisa estar “fresco”, o que significaria que a morte teria que acontecer por uma eutanásia.

O objetivo da startup é conduzir os testes com voluntários que estejam em estado terminal de alguma doença e que permitam o suicídio assistido por médicos. Até o momento a Nectome coletou US$ 10 mil reembolsáveis para uma lista de espera para o procedimento, caso um dia a oportunidade esteja disponível. Por enquanto, a companhia ainda precisa se esforçar em ensaios clínicos.

A startup já arrecadou um milhão de dólares em financiamento e vinha colaborando com um neurocientista do MIT. Porém, a publicação da história gerou muita polêmica negativa de cientistas e especialistas em ética, e o MIT encerrou o seu contrato com a startup. A repercussão afirmou que o projeto da empresa não é possível de ser realizado. 

Veja a declaração feita pelo MIT na época:

“A neurociência não é suficientemente avançada ao ponto de sabermos se um método de preservação do cérebro é o suficiente para preservar diferentes tipos de biomoléculas relacionadas à memória e à mente. Também não se sabe se é possível recriar a consciência de uma pessoa”, disse a nota ainda em 2018.

Eternização com a realidade aumentada

Enquanto alguns pensam em extrair a mente de um cérebro, outras empresas optam por uma “ressurreição” mais simples, mas não menos invasiva. A empresa Augmented Reality, por exemplo, tem como objetivo ajudar pessoas a viverem em um formato digital, transmitindo conhecimento das pessoas de hoje para as futuras gerações.

O fundador e CEO da empresa de computação FlyBits e professor do MIT Media Lab, Hossein Rahnama, vem tentando construir agentes de software que possam agir como herdeiros digitais. “Os Millennials estão criando gigabytes de dados diariamente e nós estamos alcançando um nível de maturidade em que podemos, realmente, criar uma versão digital de nós mesmos”, conta.

Para colocar o projeto em ação, a Augmented Reality alimenta um mecanismo de aprendizado de máquina com emails, fotos e atividades de redes sociais das pessoas, analisando como ela pensa e age. Assim, é possível fornecer uma cópia digital de uma pessoa real, e ela pode interagir via chatbot, vídeo digitalmente editado ou ainda como um robô humanoide.

Falando em humanoides, no laboratório de robótica Intelligent Robotics, da Universidade de Osaka, no Japão, já existem mais de 30 androides parecidos com humanos, inclusive uma versão robótica de Hiroshi Ishiguro, diretor do setor. O cientista vem inovando no campo de pesquisa de interações entre humanos e robôs, estudando a importância de detalhes, como movimentos sutis dos olhos e expressões faciais.

Reprodução: Hiroshi Ishiguro Laboratory, ATR

Quando Ishiguro morrer, segundo o próprio, ele poderá ser substituído pelo seu robô para dar aulas aos seus alunos, mesmo que esta máquina nunca seja realmente ele e nem possa gerar novas ideias. “Nós não podemos transmitir as nossas consciências aos robôs. Compartilhamos, talvez, as memórias. Um robô pode dizer ‘Eu sou Hiroshi Ishiguro’, mas mesmo assim a consciência é independente”, afirma.

Para Ishiguro, no futuro nada disso será parecido com o que vemos na ficção científica. O download de memória, por exemplo, é algo que não vai acontecer, pois simplesmente não é possível. “Precisamos ter diferentes formas de fazer uma cópia de nossos cérebros, mas nós não sabemos ainda como fazer isso”, completa. 

Mãe “reencontra” filha morta graças a realidade virtual

Paraisópolis controla melhor a pandemia do que a cidade de São Paulo (Galileu)

Graças às iniciativas dos moradores da favela, taxa de mortalidade por Covid-19 é menor do que no resto da capital paulista. Em outras regiões pobres, porém, o cenário é diferente

Redação Galileu

25 Jun 2020 – 14h44 Atualizado em 25 Jun 2020 – 14h51

Paraisópolis tem melhor controle da pandemia do que a cidade de São Paulo (Foto: Wikimedia Commons)
Paraisópolis tem melhor controle da pandemia do que a cidade de São Paulo (Foto: Wikimedia Commons)

A favela de Paraisópolis, em São Paulo, tem melhor controle da pandemia de Covid-19 do que outros bairros da capital paulista. Em 18 de maio de 2020, a taxa de mortalidade pelo novo coronavírus na região era de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a média municipal era de 56,2. Os números são do Instituto Pólis, organização da sociedade civil que realiza pesquisas no Brasil e no exterior.

“Desde a confirmação dos primeiros casos em São Paulo, logo em março, a associação de moradores de Paraisópolis desenvolveu estratégias para suprir a falta de políticas públicas para a comunidade”, explicam os responsáveis pelo estudo em um relatório publicado em junho.

Logo no início da pandemia, os moradores da favela criaram o sistema de “presidentes de rua”, em que uma pessoa de cada rua ficou responsável por monitorar e ajudar as outras, orientando sobre os sintomas da doença, distribuindo cestas básicas e até combatendo a disseminação de fake news.

Além disso, a comunidade contratou ambulâncias para atender os sintomáticos e recrutou médicos e enfermeiros para suprir a favela 24 horas. Outros 240 moradores foram treinados como socorristas para apoiar as 60 bases de emergência criadas com a presença de bombeiros civis.

Com mais de 70 mil habitantes, a densidade demográfica de Paraisópolis chega a 61 mil hab/km². Tendo isso em vista, a associação de moradores pediu ao governo estadual para utilizar duas escolas públicas como centro de isolamento de pessoas infectadas. A medida possibilitou que os sintomáticos se isolassem de forma eficaz, sem colocar pessoas próximas e familiares em perigo.

Para os pesquisadores, as ações tomadas pelos moradores de Paraisópolis deixam claro que iniciativas de atenção básica à saúde e ações voltadas para garantir a segurança alimentar e outras despesas são essenciais em tempos de pandemia. “A favela, apesar das condições de precariedade e vulnerabilidade, tem sido eficiente em baixar a média de mortalidade do distrito como um todo”, afirma o relatório.

Outras regiões, outra realidade
Enquanto em Paraisópolis a situação parece estar menos preocupante, em outras regiões pobres da capital paulista o cenário não é o mesmo. Um documento divulgado também neste mês pelo Instituto Pólis indica que as áreas com maior situação de precariedade urbana são as mais castigadas pela Covid-19. As mais afetadas são Brasilândia, Sapopemba, Grajaú, Capão Redondo e Jardim Ângela.

Dentre as explicações para isso está a impossibilidade de distanciamento social, tanto pela alta densidade demográfica quanto pelo fato de que os trabalhos exercidos pelos moradores dessas regiões não pemitiram que ficassem em casa. a precariedade do saneamento básico, a baixa renda e a falta de acesso à saúde também contribuem para a realidade preocupante. 

Número de óbitos por Covid-19 a cada 100 mil habitantes nos bairros de São Paulo (Foto: Instituto Pólis)
Número de óbitos por Covid-19 a cada 100 mil habitantes nos bairros de São Paulo (Foto: Instituto Pólis)

Em relação às taxas de óbitos a cada 100 mil habitantes, o mapa de Covid-19 se concentra em outras regiões de São Paulo, nos bairros Pari, Brás, Belém, Campo Belo e Limão. “Por haver mais pessoas morando nas regiões periféricas, o maior número de mortes absoluto pode fazer com que se pense que apenas a periferia está vulnerável”, disse Danielle Klintowitz, do Instituto Pólis, em comunicado. “Mas há de se analisar o contágio em territórios precários mais centrais para que a situação não fuja do controle.”

The Ugly History of Climate Determinism Is Still Evident Today (Scientific American)

To fix climate injustice, we have to face our implicit biases about people living in different regions of the world

By Simon Donner on June 24, 2020

The Ugly History of Climate Determinism Is Still Evident Today
Boy swims in seawater in the flooded village of Eita in Kiribati. Credit: Jonas Gratzer Getty Images

When you perform a Google Image search for “victims of climate change,” the faces you see are those of Black and brown people in the tropics. The images depict small reef islands in the Pacific Ocean, arid landscapes in East Africa and flooded villages in South Asia.

At some level, this association seems to make sense: Climate change disproportionately affects indigenous people and people of color, both within North America and around the world. The people and the nations least responsible for the problem are, in many cases, the most threatened.

But the search results also reflect the assumption, common among individuals in the global north—notably Europe and North America—that people in tropical climates are helpless victims who lack the capacity to cope with climate change. Beneath that assumption lies a long, ugly history of climate determinism: the racially motivated notion that the climate influences human intelligence and societal development. In the wake of George Floyd’s death, we need to reckon with systemic racism in all forms. Understanding how climate determinism unfolded historically can reveal the racial biases in present-day conversations about climate change. And it can better prepare us to address the very real inequalities of climate injury and adaptation—which I have seen firsthand while working with colleagues in the Pacific island nation of Kiribati over the past 15 years.

The story starts with the term “climate.” It comes from the ancient Greek word klima, which describes latitude. Greek philosophers deduced that the temperature at a given time of year varies roughly with the klima, because latitude determines how much energy a region receives from the sun. Eratosthenes defined bands of klima, later to be called clim-ata, going from frigid belts in the high latitudes, where there was permanent night in winter, to a hot band near the equator.

That is the sanitized origin story in most old textbooks. Here’s the part you’re not told: Using the concept of the “golden mean,” the ideal balance between two extremes, Greek philosophers argued that civilization thrived the most in climates that were neither too hot nor too cold. Greece, not so coincidentally, happened to be in the middle climate. The Greek people used climate to argue that they were healthier and more advanced than their neighbors to the north and south.

Scan the ancient Greek and Roman texts taught in philosophy classes—from Aristotle, Herodotus, Hippocrates, Plato, Cicero, Ptolemy, Pliny the Elder—and you will find passages that use climate differences to make harsh claims about other races. Hippocrates, often called the father of modern medicine, argued that more equatorial civilizations to the south were inferior because the climate was too hot for creativity. In Politics, Aristotle argued that people in cold climates were “full of spirit, but wanting in intelligence and skill,” whereas those in warm climates were “wanting in spirit, and therefore they are always in a state of subjection and slavery.” These ideas were parroted by scholars across Europe and the Islamic world throughout the Middle Ages. Ibn al-Faqih, a Persian geographer in the 10th century, assertedpeople in equatorial climates were born “either like uncooked pastry or like things so thoroughly cooked as to be burnt.” Another suggested northerners tended toward albinism.

During the Enlightenment scientists used stories of heat and disease from tropical expeditions to build faux empirical evidence for racially loaded climate determinism. Scholars, as well as national leaders, advanced the European colonial view of tropical people and society as a lesser other, a practice referred to today as “tropicality.” Immanuel Kant argued in the late 1700s that a mix of warm and cold weather made Europeans smarter, harder-working, prettier, more civilized and wittier than the “exceptionally lethargic” people in the tropics. David Hume claimed that southern people were more sexual because their blood was heated. These arguments were also adapted to claim superiority over indigenous people of North America: writers such as Montesquieu claimed that the more extreme weather of the American colonies created degeneracy.

Blatant climate determinism persisted in the academic literature well into the last century. Geographer Ellsworth Huntington’s 1915 book Civilization and Climate featured tropicality-infused maps of “climatic energy” and “level of civilization”—which the journal Nature highlighted as showing “remarkably close agreement” when it published his 1947 obituary.

Although such claims no longer appear in textbooks, tropicality lives on in Western popular culture and everyday discourse. Think of how movies, books and vacation ads depict tropical islands as unsophisticated places where you can get your mind off the busy tasking of advanced society. The subtext: it is hot here, so no one works hard. Movies and TV programs also present certain tropical locations as dangerous, dirty and disease-ridden because of the climate. The 2020 Netflix film Extraction literally imposes a yellow filter on images of Bangladesh to disguise the blue skies.

Research and media coverage of climate are not immune from this cultural history. Well-intentioned efforts to document and spread stories about the inequalities of climate change inadvertently call up implicit climatic biases. For example, story after story presents the people of low-lying Pacific island nations such as Kiribati and Tuvalu as potential climate “refugees”—victims in need of hand-holding rather than resilient individuals able to make conscious and informed decisions about their future. Warnings that climate change could help trigger mass migration, violence and political instability focus almost exclusively on the global south—Latin American, Africa, and South and Southeast Asia—and ignore the likelihood of similar unrest in Europe and North America, despite current events. This implicit bias rears its head in coverage of climate change in the U.S. Deep South, too: Why were Black Americans who were moving to Houston after Hurricane Katrina called “refugees,” a word applied to international migrants, when they had not left the country?

The problem persists, in part, because predicting the impacts of climate change inevitably requires assumptions about people and society. Science can project future climate conditions and those conditions’ impacts on the environment at any latitude. But there is no formula for calculating how individuals, communities or society at large will respond. This inexactness opens the door for implicit biases, developed over hundreds of years of deterministic thinking, to influence conclusions about who is, and who is not, capable of adapting to climate change. For example, a 2018 study inNature Climate Change found that research on climate and conflict suffers from a “streetlight” effect: researchers tend to conclude that climate change will cause violence in Africa and the Middle East because that is where they choose to look.

This legacy of deterministic thinking matters because it can do real-world damage. Rhetoric about climate refugees robs people of agency in their own future. Adaptation is possible, even in low-lying atoll nations. But good luck to them in securing international investment, loans or assistance for adaptation when every story says their community is doomed. People across the tropics have been pushing back. The slogan of the Pacific islands’ youth groupthe Pacific Climate Warriors—“We are not drowning. We are fighting.”—is an explicit rebuke to reflexive, racially loaded assumptions that the people of the Pacificare not up to the challenge.

Climate change is about legacy. We are seeing the legacy of past greenhouse gas emissions in today’s warming climate. And we are seeing the legacy of systemic racism and inequality in the impacts of that warming: indigenous peoples in the Arctic losing a way of life; people of color in the U.S. being disproportionately affected by extreme heat; slum dwellers in Chennai, India, suffering from floods. We need to spread the word about the inequalities of climate change. To do so responsibly, we must be willing to check our implicit biases before drawing conclusions about people living in different places.

An ant-inspired approach to mathematical sampling (Science Daily)

Date: June 19, 2020

Source: University of Bristol

Summary: Researchers have observed the exploratory behavior of ants to inform the development of a more efficient mathematical sampling technique.

In a paper published by the Royal Society, a team of Bristol researchers observed the exploratory behaviour of ants to inform the development of a more efficient mathematical sampling technique.

Animals like ants have the challenge of exploring their environment to look for food and potential places to live. With a large group of individuals, like an ant colony, a large amount of time would be wasted if the ants repeatedly explored the same empty areas.

The interdisciplinary team from the University of Bristol’s Faculties of Engineering and Life Sciences, predicted that the study species — the ‘rock ant’ — uses some form of chemical communication to avoid exploring the same space multiple times.

Lead author, Dr Edmund Hunt, said:

“This would be a reversal of the Hansel and Gretel story — instead of following each other’s trails, they would avoid them in order to explore collectively.

“To test this theory, we conducted an experiment where we let ants explore an empty arena one by one. In the first condition, we cleaned the arena between each ant so they could not leave behind any trace of their path. In the second condition, we did not clean between ants. The ants in the second condition (no cleaning) made a better exploration of the arena — they covered more space.”

In mathematics, a probability distribution describes how likely are each of a set of different possible outcomes: for example, the chance that an ant will find food at a certain place. In many science and engineering problems, these distributions are highly complex, and they do not have a neat mathematical description. Instead, one must sample from it to obtain a good approximation: with a desire to avoid sampling too much from unimportant (low probability) parts of the distribution.

The team wanted to find out if adopting an ant-inspired approach would hasten this sampling process.

“We predicted that we could simulate the approach adopted by the ants in the mathematical sampling problem, by leaving behind a ‘negative trail’ of where has already been sampled. We found that our ant-inspired sampling method was more efficient (faster) than a standard method which does not leave a memory of where has already been sampled,” said Dr Hunt.

These findings contribute toward an interesting parallel between the exploration problem confronted by the ants, and the mathematical sampling problem of acquiring information. This parallel can inform our fundamental understanding of what the ants have evolved to do: acquire information more efficiently.

“Our ant-inspired sampling method may be useful in many domains, such as computational biology, for speeding up the analysis of complex problems. By describing the ants’ collective behaviour in informational terms, it also allows us to quantify how helpful are different aspects of their behaviour to their success. For example, how much better do they perform when their pheromones are not cleaned away. This could allow us to make predictions about which behavioural mechanisms are most likely to be favoured by natural selection.”


Story Source:

Materials provided by University of Bristol. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Edmund R. Hunt, Nigel R. Franks, Roland J. Baddeley. The Bayesian superorganism: externalized memories facilitate distributed sampling. Journal of The Royal Society Interface, 2020; 17 (167): 20190848 DOI: 10.1098/rsif.2019.0848

For Indigenous people, seeds are more than food — they’re ‘members of an extended family’ (CBC)

CBC News · Posted: Jun 19, 2020 4:00 AM ET | Last Updated: June 19

(Potato Park/Asociacion ANDES/Cusco, Peru)

About 1,000 kilometres south of the North Pole lies Svalbard, a Norwegian archipelago. Home to roughly 2,600 people, it also has another, larger, more famous population: that of 1,057,151 seeds.

This is the Svalbard Global Seed Vault (SGSV), an effort to preserve seeds from around the globe that could eventually be lost as a result of natural or human factors. The vault’s inventory includes everything from African varieties of wheat and rice to European and South American varieties of lettuce and barley.  

According to the Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), more than 75 per cent of genetic diversity has been lost because of farmers transitioning to varieties of high-yield, genetically uniform crops. 

In 2015, groups belonging to Parque de la Papa, a Peruvian organization that aims to preserve agricultural diversity and Indigenous culture, deposited 750 seeds of differing varieties of potatoes in the Svalbard seed vault, the first Indigenous group to do so. Last February, the Cherokee Nation became the first U.S. Indigenous group to make a deposit. 

In fact, Indigenous people have long preserved seeds because they have important cultural ties within the community.

“There’s this very strong relationship that people have with seeds,” said Alejandro Argumedo, director of programs at the U.S.-based Swift Foundation, which aims to preserve biocultural diversity. “In the place where I come from, for instance, seeds are considered to have feelings and heart. And so you’ve got to treat them with lots of love.” 

It’s a deeply reciprocal relationship, he said.

“There’s this big difference between just looking at seeds like biological materials that are important for farming,” said Argumedo, who is Quechua from Ayacucho, Peru. “Indigenous people see them more as members of an extended family and to which you have to [tend] with care. Because there will be a reciprocity — they will be providing you … food, will be caring about you.”

Argumedo cites the “qachun waqachi” potato variety used in a marriage ritual, where the bride (“qachun” in the Quechua language) gently peels the potato to show her love and caring for her husband-to-be as well as for Pacha Mama, or Mother Earth. 

“The ritual articulates the Andean belief that love and respect between humans depends on and is nurtured by the land and epitomizes the commitment of couples to protect their seeds and food systems,” he said. 

Terrylynn Brant, a Mohawk seed keeper from Ohsweken, Ont., has dedicated her life to this effort.

“I do a lot of work that supports other faith keepers in the work that they do. I support healers, seers, people like that … because sometimes people need to use a certain food for a certain ceremony,” she said. “I treat [seeds] with honour and respect.”

Argumedo said that the preservation of specific seeds is important in Indigenous communities where rituals require the best, purest form of seed.

“People are more interested in different features or characteristics of the seed. So people do selection for cultural reasons. And many of those traits are associated with taste, are associated with the colour and shape, because they will be used in rituals or social gatherings to create community cohesion,” he said. 

“And if you want to have a better relationship with your neighbours, you better have the right seeds, because you will be offering it as a way of respect.”

Hannes Dempewolf, senior scientist and head of global initiatives at Crop Trust, a German-based organization that’s involved with the Svalbard seed vault, said there’s another important reason for preserving genetic diversity of seeds.

“Every seed, every variety is unique in itself,” he said. “They have a unique set of genes that we have no idea what they could be useful for in the future.”

Nicole Mortillaro

How ‘vaccine nationalism’ could block vulnerable populations’ access to COVID-19 vaccines (The Conversation)

June 17, 2020 8.16am EDT

Ana Santos Rutschman, Assistant Professor of Law, Saint Louis University

Hundreds of COVID-19 vaccine candidates are currently being developed. The way emerging vaccines will be distributed to those who need them is not yet clear. The United States has now twice indicated that it would like to secure priority access to doses of COVID-19 vaccine. Other countries, including India and Russia, have taken similar stances. This prioritization of domestic markets has become known as vaccine nationalism.

As a researcher at Saint Louis University’s Center for Health Law Studies, I have been following the COVID-19 vaccine race. Vaccine nationalism is harmful for equitable access to vaccines – and, paradoxically, I’ve concluded it is detrimental even for the U.S. itself.

Vaccine nationalism during COVID-19

Vaccine nationalism occurs when a country manages to secure doses of vaccine for its own citizens or residents before they are made available in other countries. This is done through pre-purchase agreements between a government and a vaccine manufacturer.

In March, the White House met with representatives from CureVac, a German biotech company developing a COVID-19 vaccine. The U.S. government is reported to have inquired about the possibility of securing exclusive rights over the vaccine. This prompted the German government to comment that “Germany is not for sale.” Angela Merkel’s chief of staff promptly stated that a vaccine developed in Germany had to be made available in “Germany and the world.”

On June 15, the German government announced it would be investing 300 million euros (nearly US$340 million) in CureVac for a 23% stake in the company.

In April, the CEO of Sanofi, a French company whose COVID-19 vaccine work has received partial funding from the U.S Biomedical Advanced Research and Development Authority, announced that the U.S. had the “right to the largest pre-order” of vaccine.

Following public outcry and pressure from the French government, Sanofi altered its stance and said that it would not negotiate priority rights with any country.

In India, the privately held Serum Institute is developing one of the leading COVID-19 vaccine candidates. The Serum Institute signaled that, if development of the vaccine succeeds, most of the initial batches of vaccine will be distributed within India.

At the same time, India, alongside the U.S. and Russia, chose not to join the Access to COVID-19 Tools Accelerator, which was launched by the World Health Organization to promote collaboration among countries in the development and distribution of COVID-19 vaccines and treatments.

Vaccine nationalism is not new

Vaccine nationalism is not new. During the early stages of the 2009 H1N1 flu pandemic, some of the wealthiest countries entered into pre-purchase agreements with several pharmaceutical companies working on H1N1 vaccines. At that time, it was estimated that, in the best-case scenario, the maximum number of vaccine doses that could be produced globally was 2 billion. The U.S. alone negotiated and obtained the right to buy 600,000 doses. All the countries that negotiated pre-purchase orders were developed economies.

Only when the 2009 pandemic began to unwind and demand for a vaccine dropped did developed countries offer to donate vaccine doses to poorer economies.

The problems posed by nationalism

The most immediate effect of vaccine nationalism is that it further disadvantages countries with fewer resources and bargaining power. It deprives populations in the Global South from timely access to vital public health goods. Taken to its extreme, it allocates vaccines to moderately at-risk populations in wealthy countries over populations at higher risk in developing economies.

Vaccine nationalism also runs against the fundamental principles of vaccine development and global public health. Most vaccine development projects involve several parties from multiple countries.

With modern vaccines, there are very few instances in which a single country can claim to be the sole developer of a vaccine. And even if that were possible, global public health is borderless. As COVID-19 is illustrating, pathogens can travel the globe. Public health responses to outbreaks, which include the deployment of vaccines, have to acknowledge that reality.

How nationalism can backfire in the US

The U.S. in notorious for its high drug prices. Does the U.S. government deserve to obtain exclusive rights for a vaccine that may be priced too high? Such a price may mean that fewer U.S. citizens and residents – especially those who are uninsured or underinsured – would have access to the vaccine. This phenomenon is a form of what economists call deadweight loss, as populations in need of a welfare-enhancing product are priced out. In public health, deadweight loss costs lives.

This is not a hypothetical scenario. U.S. Secretary of Health and Human Services Alex Azar has told Congress that the government will not intervene to guarantee affordability of COVID-19 vaccines in the U.S.

Secretary Azar has said the U.S. government wants the private sector to invest in vaccine development and manufacturing; if the U.S. sets prices, companies may not make that investment because the vaccines won’t be profitable. This view has been widely criticized. A commentator has called it “bad public health policy,” further pointing out that American taxpayers already fund a substantial amount of vaccine research and development in the U.S. Moreover, as legal scholars have pointed out, there are many regulatory perks and other incentives available exclusively to pharmaceutical companies.

If COVID-19 vaccines are not made available affordably to those who need them, the consequences will likely be disproportionately severe for poorer or otherwise vulnerable and marginalized populations. COVID-19 has already taken a higher toll on black and Latino populations. Without broad access to a vaccine, these populations will likely continue to suffer more than others, leading to unnecessary disease burden, continued economic problems and potential loss of life.

What needs to be done

Nationalism is at odds with global public health principles. Yet, there are no provisions in international laws that prevent pre-purchase agreements like the ones described above. There is nothing inherently wrong with pre-purchase agreements of pharmaceutical products. Vaccines typically do not generate as much in sales as other medical products. If used correctly, pre-purchase agreements can even be an incentive for companies to manufacture vaccines that otherwise would not commercialized. Institutions like Gavi, an international nonprofit based in Geneva, use similar mechanisms to guarantee vaccines for developing countries.

But I see vaccine nationalism as a misuse of these agreements.

Contracts should not trump equitable access to global public health goods. I believe that developed countries should pledge to refrain from reserving vaccines for their populations during public health crises. The WHO’s Access to COVID-19 Tools Accelerator is a starting point for countries to test collaborative approaches during the current pandemic.

But more needs to be done. International institutions – including the WHO – should coordinate negotiations ahead of the next pandemic to produce a framework for equitable access to vaccines during public health crises. Equity entails both affordability of vaccines and access opportunities for populations across the world, irrespective of geography and geopolitics.

Insofar as the U.S. can be considered a leader in the global health arena, I believe it should stop engaging in overly nationalistic behaviors. Failure to do so harms patient populations across the globe. Ultimately, it may harm its own citizens and residents, and perpetuate structural inequalities in our health care system.

Data fog: Why some countries’ coronavirus numbers do not add up (Al Jazeera)

Reported numbers of confirmed cases have become fodder for the political gristmill. Here is what non-politicians think.

By Laura Winter – 17 Jun 2020

Students at a university in Germany evaluate data from COVID-19 patients [Reuters]
Students at a university in Germany evaluate data from COVID-19 patients [Reuters]

Have you heard the axiom “In war, truth is the first casualty?”

As healthcare providers around the world wage war against the COVID-19 pandemic, national governments have taken to brawling with researchers, the media and each other over the veracity of the data used to monitor and track the disease’s march across the globe.

Allegations of deliberate data tampering carry profound public health implications. If a country knowingly misleads the World Health Organization (WHO) about the emergence of an epidemic or conceals the severity of an outbreak within its borders, precious time is lost. Time that could be spent mobilising resources around the globe to contain the spread of the disease. Time to prepare health systems for a coming tsunami of infections. Time to save more lives.

No one country has claimed that their science or data is perfect: French and US authorities confirmed they had their first coronavirus cases weeks earlier than previously thought.

Still, coronavirus – and the data used to benchmark it – has become grist for the political mill. But if we tune out the voices of politicians and pundits, and listen to those of good governance experts, data scientists and epidemiological specialists, what does the most basic but consequential data – the number of confirmed cases per country – tell us about how various governments around the globe are crunching coronavirus numbers and spinning corona-narratives?

What the good governance advocates say

Similar to how meteorologists track storms, data scientists use models to express how epidemics progress, and to predict where the next hurricane of new infections will batter health systems.

This data is fed by researchers into computer modelling programmes that national authorities and the WHO use to advise countries and aid organisations on where to send medical professionals and equipment, and when to take actions such as issuing lockdown orders.

The WHO also harnesses this data to produce a daily report that news organisations use to provide context around policy decisions related to the pandemic. But, unlike a hurricane, which cannot be hidden, epidemic data can be fudged and manipulated.

“The WHO infection numbers are based on reporting from its member states. The WHO cannot verify these numbers,” said Michael Meyer-Resende, Democracy Reporting International’s executive director.

To date, more than 8 million people have been diagnosed as confirmed cases of COVID-19. Of that number, more than 443,000 have died from the virus, according to Johns Hopkins University.

Those numbers are commonly quoted, but what is often not explained is that they both ultimately hinge on two factors: how many people are being tested, and the accuracy of the tests being administered. These numbers we “fetishise”, said Meyer-Resende, “depend on testing, on honesty of governments and on size of the population”.

“Many authoritarian governments are not transparent with their data generally, and one should not expect that they are transparent in this case,” he said. To test Meyer-Resende’s theory that less government transparency equals less transparent COVID-19 case data, Al Jazeera used Transparency International’s Corruption Perceptions Index and the Economist Intelligence Unit’s Democracy Index as lenses through which to view the number of reported cases of the coronavirus.

Transparency International’s Corruption Perceptions Index

The examination revealed striking differences in the number of confirmed COVID-19 cases that those nations deemed transparent and democratic reported compared to the numbers reported by nations perceived to be corrupt and authoritarian.

Denmark, with a population of roughly six million, is ranked in the top 10 of the most transparent and democratic countries. The country reported on May 1 that it had 9,158 confirmed cases of COVID-19, a ratio of 1,581 confirmed cases per million. That was more than triple the world average for that day – 412 cases per million people – according to available data.

Data Fog graphic 2/Laura Winter

Meanwhile, Turkmenistan, a regular in the basement of governance and corruption indexes, maintains that not one of its roughly six million citizens has been infected with COVID-19, even though it borders and has extensive trade with Iran, a regional epicentre of the pandemic.

Also on May 1, Myanmar, with a population of more than 56 million, reported just 151 confirmed cases of infection, a rate of 2.8 infections per million. That is despite the fact that every day, roughly 10,000 workers cross the border into China, where the pandemic first began.

On February 4, Myanmar suspended its air links with Chinese cities, including Wuhan, where COVID-19 is said to have originated last December (however, a recent study reported that the virus may have hit the city as early as August 2019).

“That just seems abnormal, out of the ordinary. Right?” said Roberto Kukutschka, Transparency International’s research coordinator, in reference to the numbers of reported cases.

“In these countries where you have high levels of corruption, there are high levels of discretion as well,” he told Al Jazeera. “It’s counter-intuitive that these countries are reporting so few cases, when all countries that are more open about these things are reporting way more. It’s very strange.”

While Myanmar has started taking steps to address the pandemic, critics say a month of preparation was lost to jingoistic denial. Ten days before the first two cases were confirmed, government spokesman Zaw Htay claimed the country was protected by its lifestyle and diet, and because cash is used instead of credit cards to make purchases.

Turkmenistan’s authorities have reportedly removed almost all mentions of the coronavirus from official publications, including a read-out of a March 27 phone call between Uzbek President Shavkat Mirziyoyev and Turkmen President Gurbanguly Berdimuhamedov.

It is unclear if Turkmenistan even has a testing regime.

Russia, on the other hand, touts the number of tests it claims to have performed, but not how many people have been tested – and that is a key distinction because the same person can be tested more than once. Transparency International places Russia in the bottom third of its corruption index.

On May 1, Russia, with a population just above 145 million, reported that it had confirmed 106,498 cases of COVID-19 after conducting an astounding 3.72 million “laboratory tests”. Just 2.9 percent of the tests produced a positive result.

Data fog feature graphic 3/Laura Winter

Remember, Denmark’s population is six million, or half that of Moscow’s. Denmark had reportedly tested 206,576 people by May 1 and had 9,158 confirmed coronavirus cases, a rate of 4.4 percent. Finland, another democracy at the top of the transparency index, has a population of 5.5 million and a positive test result rate of 4.7 percent.

This discrepancy spurred the editors of PCR News, a Moscow-based Russian-language molecular diagnostics journal, to take a closer look at the Russian test. They reported that in order to achieve a positive COVID-19 result, the sample tested must contain a much higher volume of the virus, or viral load, as compared to the amount required for a positive influenza test result.

In terms of sensitivity or ability to detect COVID-19, the authors wrote: “Is it high or low? By modern standards – low.”

They later added, “The test will not reveal the onset of the disease, or it will be decided too early that the recovering patient no longer releases viruses and cannot infect anyone. And he walks along the street, and he is contagious.”

Ostensibly, if that person then dies, COVID-19 will not be certified as the cause of death.

Good governance experts see a dynamic at play.

Countries who test less will be shown as less of a problem. Countries that test badly will seem as if they don’t have a problem. Numbers are very powerful.

Michael Meyer-Resende, Democracy Reporting International

“In many of these countries, the legitimacy of the state depends on not going into crisis,” said Kukutschka, adding that he counts countries with world-class health systems among them.

“Countries who test less will be shown as less of a problem. Countries that test badly will seem as if they don’t have a problem,” said Meyer-Resende. “Numbers are very powerful. They seem objective.”

Meyer-Resende highlighted the case of China. “The Chinese government said for a while that it had zero new cases. That’s a very powerful statement. It says it all with a single digit: ‘We have solved the problem’. Except, it hadn’t. It had changed the way of counting cases.”

China – where the pandemic originated – recently escaped a joint US-Australian-led effort at the World Health Assembly to investigate whether Beijing had for weeks concealed a deadly epidemic from the WHO.

China alerted the WHO about the epidemic on December 31, 2019. Researchers at the University of Hong Kong estimated that the actual number of COVID-19 cases in China, where the coronavirus first appeared, could have been four times greater in the beginning of this year than what Chinese authorities had been reporting to the WHO.

“We estimated that by Feb 20, 2020, there would have been 232,000 confirmed cases in China as opposed to the 55,508 confirmed cases reported,” said the researchers’ report published by the Lancet.

The University of Hong Kong researchers attribute the discrepancy to ever-changing case definitions, the official guidance that tells doctors which symptoms – and therefore patients – can be diagnosed and recorded as COVID-19. China’s National Health Commission issued no less than seven versions of these guidelines between January 15 and March 3.

All of which adds to the confusion.

“Essentially, we are moving in a thick fog, and the numbers we have are no more than a small flashlight,” said Meyer-Resende.

What the epidemiological expert thinks

Dr Ghassan Aziz monitors epidemics in the Middle East. He is the Health Surveillance Program manager at the Doctors Without Borders (MSF) Middle East Unit. He spoke to Al Jazeera in his own capacity and not on behalf of the NGO.

“I think Iran, they’re not reporting everything,” he told Al Jazeera. “It’s fair to assume that [some countries] are underreporting because they are under-diagnosing. They report what they detect.”

He later added that US sanctions against Iran, which human rights groups say have drastically constrained Tehran’s ability to finance imports of medicines and medical equipment, could also be a factor.

“Maybe [it’s] on purpose, and maybe because of the sanctions and the lack of testing capacities,” said Aziz.

Once China shared the novel coronavirus genome on January 24, many governments began in earnest to test their populations. Others have placed limits on who can be tested.

In Brazil, due to a sustained lack of available tests, patients using the public health network in April were tested only if they were hospitalised with severe symptoms. On April 1, Brazil reported that 201 people had died from the virus. That number was challenged by doctors and relatives of the dead. A month later, after one minister of health was fired and another resigned after a week on the job, the testing protocols had not changed.

On May 1, Brazil reported that COVID-19 was the cause of death for 5,901 people. On June 5, Brazil’s health ministry took down the website that reported cumulative coronavirus numbers – only to be ordered by the country’s Supreme Court to reinstate the information.

Right-wing President Jair Bolsonaro has repeatedly played down the severity of the coronavirus pandemic, calling it “a little flu”. Brazilian Supreme Court Justice Gilmar Mendes accused the government of attempting to manipulate statistics, calling it “a manoeuvre of totalitarian regimes”.

Brazil currently has the dubious distinction of having the second-highest number of COVID-19 deaths in the world, behind the US. By June 15, the COVID-19 death toll in the country had surpassed 43,300 people.

Dr Aziz contends that even with testing, many countries customarily employ a “denial policy”. He said in his native country, Iraq, health authorities routinely obfuscate health emergencies by changing the names of outbreaks such as cholera to “endemic diarrhoea”, or Crimean-Congo hemorrhagic fever to “epidemic fever”.

“In Iraq, they give this idea to the people that ‘We did our best. We controlled it,'” Dr Aziz said. “When someone dies, ‘Oh. It’s not COVID-19. He was sick. He was old. This is God’s will. It was Allah.’ This is what I find so annoying.”

What the data scientist says

Sarah Callaghan, a data scientist and the editor-in-chief of Patterns, a data-science medical journal, told Al Jazeera the numbers of confirmed cases countries report reflect “the unique testing and environmental challenges that each country is facing”.

But, she cautioned: “Some countries have the resources and infrastructure to carry out widespread testing, others simply don’t. Some countries might have the money and the ability to test, but other local issues come into play, like politics.”

According to Callaghan, even in the best of times under the best circumstances, collecting data on an infectious disease is both difficult and expensive. But despite the difficulties presented by some countries’ data, she remains confident that the data and modelling that is available will indeed contribute much to understanding how COVID-19 spreads, how the virus reacts to different environmental conditions, and discovering the questions that need answers.

Her advice is: “When looking at the numbers, think about them. Ask yourself if you trust the source. Ask yourself if the source is trying to push a political or economic agenda.”

“There’s a lot about this situation that we don’t know, and a lot more misinformation that’s being spread, accidentally or deliberately.”

Innovation by ancient farmers adds to biodiversity of the Amazon (Science Daily)

Date: June 18, 2020

Source: University of Exeter

Summary: Innovation by ancient farmers to improve soil fertility continues to have an impact on the biodiversity of the Amazon, a major new study shows.

Innovation by ancient farmers to improve soil fertility continues to have an impact on the biodiversity of the Amazon, a major new study shows.

Early inhabitants fertilized the soil with charcoal from fire remains and food waste. Areas with this “dark earth” have a different set of species than the surrounding landscape, contributing to a more diverse ecosystem with a richer collection of plant species, researchers from the State University of Mato Grosso in Brazil and the University of Exeter have found.

The legacy of this land management thousands of years ago means there are thousands of these patches of dark earth dotted around the region, most around the size of a small field. This is the first study to measure the difference in vegetation in dark and non-dark earth areas in mature forests across a region spanning a thousand kilometers.

The team of ecologists and archaeologists studied abandoned areas along the main stem of the Amazon River near Tapajós and in the headwaters of the Xingu River Basin in southern Amazonia.

Lead author Dr Edmar Almeida de Oliveira said: “This is an area where dark earth lush forests grow, with colossal trees of different species from the surrounding forest, with more edible fruit trees, such as taperebá and jatobá.”

The number of indigenous communities living in the Amazon collapsed following European colonization of the region, meaning many dark earth areas were abandoned.

The study, published in the journal Global Ecology and Biogeography, reveals for the first time the extent to which pre-Columbian Amerindians influenced the current structure and diversity of the Amazon forest of the areas they once farmed.

Researchers sampled around 4,000 trees in southern and eastern Amazonia. Areas with dark earth had a significantly higher pH and more nutrients that improved soil fertility. Pottery shards and other artefacts were also found in the rich dark soils.

Professor Ben Hur Marimon Junior, from the State University of Mato Grosso, said: “Pre-Columbian indigenous people, who fertilized the poor soils of the Amazon for at least 5,000 years, have left an impressive legacy, creating the dark earth, or Terras Pretas de Índio”

Professor José Iriarte, an archaeologist from the University of Exeter, said: “By creating dark earth early inhabitants of the Amazon were able to successfully cultivate the soil for thousands of years in an agroforestry system

“We think ancient communities used dark earth areas to grow crops to eat, and adjacent forests without dark earth for agroforestry.”

Dr Ted Feldpausch, from the University of Exeter, who co-authored the study with Dr Luiz Aragão from the National Institute for Space Research (INPE) in Brazil, said: “After being abandoned for hundreds of years, we still find a fingerprint of the ancient land-use in the forests today as a legacy of the pre-Colombian Amazonian population estimated in millions of inhabitants.

“We are currently expanding this research across the whole Amazon Basin under a project funded by the UK Natural Environment Research Council (NERC) to evaluate whether historical fire also affected the forest areas distant from the anthropogenic dark earths.”

Many areas with dark earth are currently cultivated by local and indigenous populations, who have had great success with their food crops. But most are still hidden in the native forest, contributing to increased tree size, carbon stock and regional biodiversity. For this reason, the lush forests of the “Terra Preta de Índio” and their biological and cultural wealth in the Amazon must be preserved as a legacy for future generations, the researchers have said. Areas with dark earth are under threat due to illegal deforestation and fire.

“Dark earth increases the richness of species, an important consideration for regional biodiversity conservation. These findings highlight the small-scale long-term legacy of pre-Columbian inhabitants on the soils and vegetation of Amazonia,” said co-author Prof Beatriz Marimon, from the State University of Mato Grosso.


Story Source:

Materials provided by University of Exeter. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Edmar Almeida Oliveira, Ben Hur Marimon‐Junior, Beatriz Schwantes Marimon, José Iriarte, Paulo S. Morandi, S. Yoshi Maezumi, Denis S. Nogueira, Luiz E. O .C. Aragão, Izaias Brasil Silva, Ted R. Feldpausch. Legacy of Amazonian Dark Earth soils on forest structure and species composition. Global Ecology and Biogeography, 2020; DOI: 10.1111/geb.13116

Dário contra a xawara (ECOA/UOL)

uol.com.br

Marcos Candido, 15 de junho de 2020

Liderança indígena, Dário Kopenawa é ameaçado de morte enquanto luta para manter os yanomami vivos.

Dário Vitório Kopenawa, 38, escondeu-se assustado por entre as pernas do pai e da mãe quando viu o homem branco pela primeira vez. Ele tinha cinco anos e acreditou que via um fantasma. Mas seu pai, o xamã Davi Kopenawa e um dos maiores propagadores da cultura indígena no mundo, já conhecia bem os visitantes. Explicou ao filho que eram pessoas com uma língua e características diferentes. A versão detalhada veio anos mais tarde.

Na tradição yanomami, as doenças foram enterradas no fundo da terra por Omama, criador da humanidade. Em busca de riquezas, os homens brancos escavaram onde estavam os males e espalharam as doenças entre os povos indígenas. Davi entendeu que era preciso lutar para preservar o subsolo sobre onde viveram seus antepassados. “Quando você crescer mais, seguirá a minha linha e a minha luta”, disse o pai para o filho.

As doenças enterradas têm um nome: xawara. Hoje, Dário luta contra garimpeiros invasores que persistem em “desenterrar” o xawara na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e a propagar a Covid-19 entre os povos indígenas. Vice-presidente da Associação Yanomami desde 2004, Dário encabeça a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid!”, lançada no início de junho para coletar assinaturas e pressionar Brasília contra a extração ilegal. Desde o início o ano, ele tem convivido com o aumento das ameaças de morte, mas isso não o abala. “Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer”, diz em entrevista a Ecoa via videochamada.

Imagens de satélite mostram extensas áreas abertas no território yanomami. Acredita-se que 20 mil garimpeiros estejam na região e transitem com vírus entre Boa Vista e o território. Até agora, quatro yanomamis foram vítimas da Covid-19, entre eles um líder reverenciado, uma gestante e um adolescente de 15 anos.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais e Instituto Socioambiental (ISA) estima que até 40% dos yanomami podem ser infectados, tornando-os o povo indígena mais vulnerável do país. O Serviço Especial de Saúde Indígena (Sesai) estima 26 mil indígenas na Terra Indígena Yanomami, onde vivem 8 povos diferentes; alguns isolados.

Dário começou a estudar português em 1995 e, dois anos depois, já era professor bilíngue e propagador da escrita da língua yanomami. No início dos anos 2000, visitou o Xingu no Mato Grosso, os Makuxi e Wapixana em Roraima e os povos indígenas no Acre. Viajou para os Estados Unidos e Europa. “Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda”, diz.

Na conversa abaixo, Dário Kopenawa fala sobre identidade, rituais, o perigo real enfrentado pelos indígenas hoje e a relação do homem branco com a natureza. Ele acredita que, com o fim da pandemia, o mundo não indígena – o mesmo que estimula a busca pela xawara — vai compreender que a terra mãe é viva e se vinga

Victor Moriyama / ISA/Victor Moriyama / ISA Victor Moriyama / ISA/Victor Moriyama / ISA

Doença do homem branco

Por que na leitura dos yanomami, estamos enfrentando a Covid-19?

Na língua yanomami, as doenças a gente chama de xawara: a gripe, a malária, a diarreia. Covid-19 também é xawara. Na década de 1970, a doença já tinha chegado às terras yanomami e mais de 20% dos yanomami morreram com o sarampo. O xawara mata as pessoas. Não é uma situação simples: ficamos em alerta

Por que acontecem as xawaras?

Antes dos europeus invadirem nosso país, vivíamos em muita tranquilidade. Sem doença, sem gripe. Sem coisa que ataca a gente. Os rios limpos, os animais vivos. Nosso criador Omama enterrou a epidemia e ela se transformou em ouro, diamante, petróleo. O que está lá embaixo é a xawara, escavada pelo homem branco, o mesmo que destrói a floresta e pegam a doença lá no fundo da terra mãe. Depois queimam o ouro para fazer riqueza. É assim que a fumaça de xawara sai pela terra. Os xamãs têm conhecimento de como evitá-las.

Nós, povos da floresta, yanomami, não criamos doenças. A gente lida com respeito à natureza, conhecemos o sistema da floresta, como funciona o meio ambiente. Sabemos que não podemos causar problemas a ela, sabemos da vida yanomami com a mãe terra.

Vocês têm medo que os yanomami despareçam com as repetidas xawaras?

A gente não tem medo, mas não queremos mais morrer. Somos sobreviventes, nossa população aumentou após diminuir na década de 70 e 80. As lideranças mais velhas dizem que a doença é muito grave. Mas agora não é só a gente que não quer mais morrer, o mundo todo está com medo.

Você está em Boa Vista (RR) agora. Tem medo de ser infectado e não voltar?

Não tenho medo de pegar, tenho medo de levar a doença ao meu povo e matá-los. Preciso respeitar a hierarquia da terra mãe e não posso entrar lá enquanto houver a xawara.

Seu pai, Davi Kopenawa, está com o povo. Vocês estão se falando?

Meu pai está trabalhando com xamãs e os espíritos da floresta para enfraquecer o xawara contra a doença que se chama coronavírus. Está mais protegido do que eu, meu povo está protegido. Ele está longe, mas as lideranças sabem que estou na luta e espiritualmente me lideram. No momento, estou na luta e não quero retornar.

Uma das vítimas foi uma liderança de 64 anos. O que significa perder um idoso na cultura yanomami?

Machuca muito. Um idoso já sobreviveu a muito, cuidou de muitas famílias, organizou nossa sociedade. O idoso é o cabeça das gerações e repassa a história yanomami. Quando morre, perdemos uma pedaço história dos primeiros criadores filhos da floresta, mas outras lideranças vão continuar a ensinar às novas gerações que estão nascendo.

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O “novo normal”

Vocês destroem a terra, as florestas, matam os povos indígenas, provocam mudanças climáticas no mundo inteiro. O que está acontecendo é resultado do homem branco não deixar a mãe terra em paz. Quando a doença voltar para debaixo da terra, ela já vai ter comido os não indígenas e indígenas e vamos viver como restos de comida. Para vocês, será uma nova vida. Mas nós já sabemos que tudo foi resultado da vingança da mãe terra. Nós já a entendemos. A pandemia vai deixar uma mensagem para vocês entenderem que é uma vingança universal. Vocês, como brancos, vão aprender que estão na nossa casa.

Dário Kopenawa

A cultura yanomami

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Há muitos anos você convive com outras culturas, outros povos e sempre há uma situação conflituosa. Você acha que o homem branco está condenado à destruição ou você ainda tem esperança entre harmonia entre os povos?

Como vocês sonham, nós sonhamos também. Nós queremos viver em paz. Sem brigas com lideranças não indígenas. Os brancos querem a riqueza, a economia, mesmo que isso destrua a natureza, escavar a terra indígena, derrubar milhares de árvores na Amazônia. Particularmente, espero que as novas gerações falem com as antigas, com seus parlamentares, senadores e governos para interromper a destruição da mãe terra. Mas o problema não vai parar. A gente está lutando e defendendo a mãe terra, mas os brancos brincam de desenvolvimento. São 520 anos de briga. Querem mais economia, mais fábricas, buscar por riqueza. Nós queremos paz, mas isso não vai acontecer. Nós, povos da floresta, vamos continuar a falar só sobre como somos discriminados e assassinados.

O que é riqueza para os povos yanomami?

Riqueza para nós é terra boa, sem destruição, sem desmatamento, ar limpo, muito alimento. Terra com muito buriti, muitas frutas, muito açaí. Para nós, isso é riqueza. É onde vivemos em paz, sem doença, onde tem alimento para nossos filhos, para criar nossos parentes, sem a contaminação dos rios, sem malária, sem problemas no ar. Para o homem branco, a riqueza é derrubar as árvores, fumaça, atmosfera poluída por máquinas, trator, carro. Esse é o pensamento do não indígena.

Diferentemente dos indígenas, o homem branco discute pouco sobre a própria identidade?

O homem branco não pensa como a gente pensa. É diferente. Ele é um desconhecido. Por isso, não se dá muito a amizade com o índio. É difícil compreender a sociedade não indígena, mas é fácil ver que no homem branco entra o preconceito contra os povos da floresta. Quando você conhece um pouco da cultura yanomami, por exemplo, você já passar a respeitar. Você já visitou os guarani em São Paulo?

Não, mas é mais ou menos perto de onde vivo.

É por isso. Você mora em capital grande. Os guarani kaiowá estão aí, mas muitos brancos não se interessam em conhecê-los. Por isso é difícil ao homem branco conhecer a cultura dos povos indígenas.

Você viajou a outros países, outros povos e culturas. O que você aprendeu sobre sua própria identidade indígena e a si mesmo ao conhecer tantas pessoas diferentes?

Conheço vários de nossos parentes no Brasil — considero como parentes todos povos da floresta. A gente luta junto, fala nossas próprias línguas. Eu viajei a outros países, mas não fui turista. Na Noruega, conheci nossos parentes indígenas: os sámi. Fiquei impressionado e triste com o histórico deles. Foi muito importante e interessante, mas a minha cultura não se muda. Eu não integrei a sociedade não indígena para me tornar um não indígena. Isso não existe. As lideranças mais velhas, como meu pai Davi Kopenawa, Raoni Metuktire e Ailton Krenak são grandes mestres e nos ensinam caminhos bons para a luta, para defesa e de diálogo com autoridades. Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda. Sou Dário. Sou yanomami.

Queria saber se há um intercâmbio de culturas. A cultura do homem branco também influencia os yanomami? Dá para ser feminista, ou LGBT, por exemplo, especialmente quando há presença de yanomamis nas cidades e nas redes sociais?

A cultura não se muda. Na sociedade não indígena, a gente participa errado, por exemplo, podendo achar que vai ser rico se morrer de trabalhar, esquecer de sua cultura e achar mais fácil ter comida e dinheiro na cidade. Nós podemos querer morar na cidade, conhecer outras coisas, mas a cultura yanomami se perde muito com isso. A escola também é muito boa, mas às vezes acaba com a linguagem. Na Terra Yanomami, nós corremos atrás dos macacos, vivemos lá, flecho animais, ainda falamos na minha língua — e também uso a língua de vocês como arma de defesa. A tecnologia consome muito nosso pensamento e atrapalha a visão do povo originário. Nossas memórias também se adoecem e temos problemas de saúde. Por outro lado, é importante usar as redes sociais, ter acesso à diversidade e a cultura para ocupar as tecnologias e fazer vocês conhecerem a nossa cultura. O pensamento do branco nos manipula muito forte, e isso às vezes nos atrapalha muito, mas a cultura não morre e continua.

É possível ser yanomami e evangélico, por exemplo?

Nós temos regras e normas de cada aldeia. Nossas lideranças podem ou não autorizar uma manifestação. Particularmente, eu respeito o religioso, mas não quero ser pastor ou evangelizar meus pais. É a cultura do povo não indígena e já tenho minha religião no xapiri yanomami.

E dá para ser yanomami e feminista?

Isso é uma visão do branco, não é a nossa. A gente não pensa nisso. É um pensamento da cultura de vocês e isso não se encaixa na cultura do povo da floresta, então não consigo responder.

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Luta contra o garimpo

O garimpo existe há décadas na região. Por que nunca vai embora?

Os garimpos são como o sarampo. Não querem sair, não querem largar a nossa terra. Para mim, são pragas. Ele não existiria sem o preço do ouro: o garimpo não trabalha de graça e o preço do ouro é alto. Se derrubar o preço do ouro, duvido que garimpeiros vão trabalhar de graça e arriscar a vida, morrendo com seus colegas, para tirar ouro da terra yanomami. Esperamos que as autoridades os tirem, mas sem ouro eles não iriam trabalhar.

O garimpo é mais perigoso pelo desmatamento ou pela Covid-19?

Os dois. O garimpo é perigoso e a Covid-19 é perigoso. Os dois matam pessoas, destroem a terra e não respeitam nossa cultura, nossa terra que está homologada pelo próprio governo federal. Os dois são perigosos. Não vejo muita diferença.

O governo federal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu algum posicionamento, em relação ao garimpo?

Olha, ele é o chefe. Bolsonaro apoia a exploração da mineração em terras indígenas. Ele apoia o garimpo ilegal. Por isso, nós encaminhamos documentos ao governo federal e ele não nos respondeu sobre a retirada dos garimpeiros da terra yanomami. Não respondeu, mas está cada vez mais violentando, pressionando o Congresso nacional para reabrir Terras Indígenas e prejudicar a vida dos povos indígenas.

O que mudou para vocês com a presidência de Bolsonaro? Porque o garimpo não é uma situação nova.

Os governos anteriores pelo menos respeitavam um pouco a questão indígena, nossos direitos, nosso direito à floresta. Na época, quando ele ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro, sempre falava sobre a mineração em terra indígena e em projetos de lei. Quando o povo brasileiro o elegeu, ele se ergue e desrespeita a hierarquia da autoridade brasileira. Desrespeita a Constituição. Ele acha que, por ser presidente da república, pode desrespeitar todo mundo. O negro, o branco. Imagina os indígenas! É pior! É querer acabar com a vida dos povos indígenas. Para mim, Bolsonaro tem o pensamento doente. Vivemos uma desorganização no país e mais problemas ainda são criados. Ele fala besteira, tipo como criança. Ele tem um “pensamento muito desperdício”.

O presidente Jair Bolsonaro já disse que a demarcação do território indígena é abusivo no Brasil, e que há uma indústria de demarcação de terras. A demarcação de terras indígena é abusiva?

As terras indígenas estão demarcadas por lei. Mas Bolsonaro pensa que é fácil desmanchar nossos territórios. Por isso, nós lutamos. O mais valioso é nosso território yanomami. É fundamental e mais importante do que a fala do presidente. Sem o território, como nós vamos viver?

Mas elas são excessivamente grandes, como fala o presidente?

Na visão do povo indígena, isso não existe. Temos pedaços. Perdemos muito no território brasileiro e as cidades são muito grandes. O que temos é um rascunho. Para nós, o que temos não é um território grande. É pequeno, mas é uma conquista. Na visão do Bolsonaro, nossos territórios são grandes, maiores do que Portugal ou Rio de Janeiro. Para nós isso não existe, o que temos veio da luta e da conquista. Nossos territórios não são grandes, são pequenos.

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Guerreiro não tem medo de morrer

Como o garimpo consegue entrar nas terras indígenas?

O garimpo é como formiga. Entram como entram nos quartos dos brancos, nas mochilas, nos carros. É a mesma coisa. Chegam de avião, de barco, pelo mato. Nosso território tem 9 milhões de hectares, então os garimpeiros chegam nos limites da terra indígena, usam barcos e aviões pagos com ouro para entrar no nosso território. O garimpo entra em qualquer território como se fosse o dono, como se fosse o sítio deles. A eles, a terra não tem dono.

O garimpo tornou-se mais organizado?

Os garimpeiros não são organizados. Os empresários é que são organizados e roubam dos garimpeiros, que são mão-de-obra. Os garimpeiros correm risco e morrem entre eles, se matam entre si. Mesmo sem organização, eles entram com barracões e destroem muito as terras.

E quem são esses empresários?

Não conheço nenhum, mas sabemos que são eles que financiam a venda e compra de ouro no Brasil e também vendem para fora do país.

Você já sofreu ameaça de morte?

Fisicamente, não. Mas meus parentes já receberam mensagens dizendo que garimpeiros queriam saber meu endereço, onde eu estava, onde vivo e o onde fica meu trabalho. As ameaças já são de muitos anos. Pioraram [nos últimos meses], mas não são mais fortes no sentido fisicamente. Mas por mensagem, aumenta cada vez mais.

Por que acha que as ameaças estão chegando cada vez mais?

Nós estamos denunciando, brigando e perturbando os garimpeiros. Eles pensam que estou atrapalhando o trabalho deles no garimpo ilegal na terra indígena yanomami. Por isso, querem acabar comigo e com meu pai quando fazemos uma denúncia nacional e internacional.

Você tem medo de morrer?

Não tenho medo. Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer. Quem rouba é que tem que ter medo. Não sei o que pode acontecer, mas não tenho medo e não quero fugir.

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Slowing the Coronavirus Is Speeding the Spread of Other Diseases (New York Times)

nytimes.com

By Jan Hoffman and Ruth Maclean – June 14, 2020

Many mass immunization efforts worldwide were halted this spring to prevent spread of the virus at crowded inoculation sites. The consequences have been alarming.

Three-year-old Allay Ngandema, who contracted measles, ate lunch with his mother, Maboa Alpha, in the measles isolation ward in Boso-Manzi hospital  in the Democratic Republic of Congo in late February.
Three-year-old Allay Ngandema, who contracted measles, ate lunch with his mother, Maboa Alpha, in the measles isolation ward in Boso-Manzi hospital  in the Democratic Republic of Congo in late February. Credit: Hereward Holland/Reuters.

As poor countries around the world struggle to beat back the coronavirus, they are unintentionally contributing to fresh explosions of illness and death from other diseases — ones that are readily prevented by vaccines.

This spring, after the World Health Organization and UNICEF warned that the pandemic could spread swiftly when children gathered for shots, many countries suspended their inoculation programs. Even in countries that tried to keep them going, cargo flights with vaccine supplies were halted by the pandemic and health workers diverted to fight it.

Now, diphtheria is appearing in Pakistan, Bangladesh and Nepal.

Cholera is in South Sudan, Cameroon, Mozambique, Yemen and Bangladesh.

A mutated strain of poliovirus has been reported in more than 30 countries.

And measles is flaring around the globe, including in Bangladesh, Brazil, Cambodia, Central African Republic, Iraq, Kazakhstan, Nepal, Nigeria and Uzbekistan.

Of 29 countries that have currently suspended measles campaigns because of the pandemic, 18 are reporting outbreaks. An additional 13 countries are considering postponement. According to the Measles and Rubella Initiative, 178 million people are at risk of missing measles shots in 2020.

The risk now is “an epidemic in a few months’ time that will kill more children than Covid,” said Chibuzo Okonta, the president of Doctors Without Borders in West and Central Africa.

As the pandemic lingers, the W.H.O. and other international public health groups are now urging countries to carefully resume vaccination while contending with the coronavirus.

A Doctors Without Borders motorcycle convoy carrying measles vaccine crossed a log bridge in Mongala Province of the Democratic Republic of Congo in February.
A Doctors Without Borders motorcycle convoy carrying measles vaccine crossed a log bridge in Mongala Province of the Democratic Republic of Congo in February. Credit: Hereward Holland/Reuters.

“Immunization is one of the most powerful and fundamental disease prevention tools in the history of public health,” said Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, director general of the W.H.O., in a statement. “Disruption to immunization programs from the Covid-19 pandemic threatens to unwind decades of progress against vaccine-preventable diseases like measles.”

But the obstacles to restarting are considerable. Vaccine supplies are still hard to come by. Health care workers are increasingly working full time on Covid-19, the infection caused by the coronavirus. And a new wave of vaccine hesitancy is keeping parents from clinics.

Many countries have yet to be hit with the full force of the pandemic itself, which will further weaken their capabilities to handle outbreaks of other diseases.

“We will have countries trying to recover from Covid and then facing measles. It would stretch their health systems further and have serious economic and humanitarian consequences,” said Dr. Robin Nandy, chief of immunization for UNICEF, which supplies vaccines to 100 countries, reaching 45 percent of children under 5.

The breakdown of vaccine delivery also has stark implications for protecting against the coronavirus itself.

At a global summit earlier this month, Gavi, the Vaccine Alliance, a health partnership founded by the Bill and Melinda Gates Foundation, announced it had received pledges of $8.8 billion for basic vaccines to children in poor and middle-income countries, and was beginning a drive to deliver Covid-19 vaccines, once they’re available.

But as services collapse under the pandemic, “they are the same ones that will be needed to send out a Covid vaccine,” warned Dr. Katherine O’Brien, the W.H.O.’s director of immunization, vaccines and biologicals, during a recent webinar on immunization challenges.

Children waited to be registered for the measles vaccine in Mbata-Siala, in western Democratic Republic of Congo, in March.
Children waited to be registered for the measles vaccine in Mbata-Siala, in western Democratic Republic of Congo, in March. Credit: Junior Kannah/Agence France-Presse — Getty Images.

Three health care workers with coolers full of vaccines and a support team of town criers and note-takers recently stepped into a motorized wooden canoe to set off down the wide Tshopo River in the Democratic Republic of Congo.

Although measles was breaking out in all of the country’s 26 provinces, the pandemic had shut down many inoculation programs weeks earlier.

The crew in the canoe needed to strike a balance between preventing the transmission of a new virus that is just starting to hit Africa hard and stopping an old, known killer. But when the long, narrow canoe pulled in at riverside communities, the crew’s biggest challenge turned out not to be the mechanics of vaccinating children while observing the pandemic’s new safety strictures. Instead, the crew found themselves working hard just to persuade villagers to allow their children to be immunized at all.

Many parents were convinced that the team was lying about the vaccine — that it was not for measles but, secretly, an experimental coronavirus vaccine, for which they would be unwitting guinea pigs.

In April, French-speaking Africa had been outraged by a French television interview in which two researchers said coronavirus vaccines should be tested in Africa — a remark that reignited memories of a long history of such abuses. And in Congo, the virologist in charge of the coronavirus response said that the country had indeed agreed to take part in clinical vaccine trials this summer. Later, he clarified that any vaccine would not be tested in Congo until it had been tested elsewhere. But pernicious rumors had already spread.

The team cajoled parents as best they could. Although vaccinators throughout Tshopo ultimately immunized 16,000 children, 2,000 others eluded them.

This had been the year that Congo, the second-largest country in Africa, was to launch a national immunization program. The urgency could not have been greater. The measles epidemic in the country, which started in 2018, has run on and on: Since this January alone, there have been more than 60,000 cases and 800 deaths. Now, Ebola has again flared, in addition to tuberculosis and cholera, which regularly strike the country.

Vaccines exist for all these diseases, although they are not always available. In late 2018, the country began an immunization initiative in nine provinces. It was a feat of coordination and initiative, and in 2019, the first full year, the percentage of fully immunized children jumped from 42 to 62 percent in Kinshasa, the capital.

This spring, as the program was being readied for its nationwide rollout, the coronavirus struck. Mass vaccination campaigns, which often mean summoning hundreds of children to sit close together in schoolyards and markets, seemed guaranteed to spread coronavirus. Even routine immunization, which typically occurs in clinics, became untenable in many areas.

The country’s health authorities decided to allow vaccinations to continue in areas with measles but no coronavirus cases. But the pandemic froze international flights that would bring medical supplies, and several provinces began running out of vaccines for polio, measles and tuberculosis.

When immunization supplies finally arrived in Kinshasa, they could not be moved around the country. Domestic flights had been suspended. Ground transport was not viable because of shoddy roads. Eventually, a United Nations peacekeeping mission ferried supplies on its planes.

Still, health workers, who had no masks, gloves or sanitizing gel, worried about getting infected; many stopped working. Others were diverted to be trained for Covid.

The cumulative impact has been particularly dire for polio eradication — around 85,000 Congolese children have not received that vaccine.

But the disease that public health officials are most concerned about erupting is measles.

Health workers immunizing against measles in Manila last month.
Health workers immunizing against measles in Manila last month. Credit: Aaron Favila/Associated Press.

Measles virus spreads easily by aerosol — tiny particles or droplets suspended in the air — and is far more contagious than the coronavirus, according to experts at the Centers for Disease Control and Prevention.

“If people walk into a room where a person with measles had been two hours ago and no one has been immunized, 100 percent of those people will get infected,” said Dr. Yvonne Maldonado, a pediatric infectious disease expert at Stanford University.

In poorer countries, the measles mortality rate for children under 5 ranges between 3 and 6 percent; conditions like malnutrition or an overcrowded refugee camp can increase the fatality rate. Children may succumb to complications such as pneumonia, encephalitis and severe diarrhea.

In 2018, the most recent year for which data worldwide has been compiled, there were nearly 10 million estimated cases of measles and 142,300 related deaths. And global immunization programs were more robust then.

Before the coronavirus pandemic in Ethiopia, 91 percent of children in the capital, Addis Ababa, received their first measles vaccination during routine visits, while 29 percent in rural regions got them. (To prevent an outbreak of a highly infectious disease like measles, the optimum coverage is 95 percent or higher, with two doses of vaccine.) When the pandemic struck, the country suspended its April measles campaign. But the government continues to report many new cases.

“Outbreak pathogens don’t recognize borders,” said Dr. O’Brien of the W.H.O. “Especially measles: Measles anywhere is measles everywhere.”

Wealthier countries’ immunization rates have also been plunging during the pandemic. Some American states report drops as steep as 70 percent below the same period a year earlier, for measles and other diseases.

Once people start traveling again, the risk of infection will surge. “It keeps me up at night,” said Dr. Stephen L. Cochi, a senior adviser at the global immunization division at the C.D.C. “These vaccine-preventable diseases are just one plane ride away.”

Hawa Hamadou, a health worker at the Gamkalé health center in Niamey, Niger, has seen a drop in visits by mothers, who are afraid to bring their children for immunizations.
Hawa Hamadou, a health worker at the Gamkalé health center in Niamey, Niger, has seen a drop in visits by mothers, who are afraid to bring their children for immunizations. Credit: Juan Haro/UNICEF.

After the W.H.O. and its vaccine partners released the results of a survey last month showing that 80 million babies under a year old were at risk of missing routine immunizations, some countries, including Ethiopia, the Central African Republic and Nepal, began trying to restart their programs.

Uganda is now supplying health workers with motorbikes. In Brazil, some pharmacies are offering drive-by immunization services. In the Indian state of Bihar, a 50-year-old health care worker learned to ride a bicycle in three days so she could take vaccines to far-flung families. UNICEF chartered a flight to deliver vaccines to seven African countries.

Dr. Cochi of the C.D.C., which provides technical and program support to more than 40 countries, said that whether such campaigns can be conducted during the pandemic is an open question. “It will be fraught with limitations. We’re talking low-income countries where social distancing is not a reality, not possible,” he said, citing Brazilian favelas and migrant caravans.

He hopes that polio campaigns will resume swiftly, fearing that the pandemic could set back a global, decades-long effort to eradicate the disease.

Dr. Cochi is particularly worried about Pakistan and Afghanistan, where 61 cases of wild poliovirus Type 1 have been reported this year, and about Chad, Ghana, Ethiopia and Pakistan, where cases of Type 2 poliovirus, mutated from the oral vaccine, have appeared.

Thabani Maphosa, a managing director at Gavi, which partners with 73 countries to purchase vaccines, said that at least a half dozen of those countries say they cannot afford their usual share of vaccine costs because of the economic toll of the pandemic.

If the pandemic cleared within three months, Mr. Maphosa said, he believed the international community could catch up with immunizations over the next year and a half.

“But our scenarios are not telling us that will happen,” he added.

Jan Hoffman reported from New York, and Ruth Maclean from Dakar, Senegal.

Updated June 12, 2020

The Coronavirus Outbreak

Frequently Asked Questions and Advice

  • What’s the risk of catching coronavirus from a surface? Touching contaminated objects and then infecting ourselves with the germs is not typically how the virus spreads. But it can happen. A number of studies of flu, rhinovirus, coronavirus and other microbes have shown that respiratory illnesses, including the new coronavirus, can spread by touching contaminated surfaces, particularly in places like day care centers, offices and hospitals. But a long chain of events has to happen for the disease to spread that way. The best way to protect yourself from coronavirus — whether it’s surface transmission or close human contact — is still social distancing, washing your hands, not touching your face and wearing masks.
  • Does asymptomatic transmission of Covid-19 happen? So far, the evidence seems to show it does. A widely cited paper published in April suggests that people are most infectious about two days before the onset of coronavirus symptoms and estimated that 44 percent of new infections were a result of transmission from people who were not yet showing symptoms. Recently, a top expert at the World Health Organization stated that transmission of the coronavirus by people who did not have symptoms was “very rare,” but she later walked back that statement.
  • How does blood type influence coronavirus? A study by European scientists is the first to document a strong statistical link between genetic variations and Covid-19, the illness caused by the coronavirus. Having Type A blood was linked to a 50 percent increase in the likelihood that a patient would need to get oxygen or to go on a ventilator, according to the new study.
  • How many people have lost their jobs due to coronavirus in the U.S.? The unemployment rate fell to 13.3 percent in May, the Labor Department said on June 5, an unexpected improvement in the nation’s job market as hiring rebounded faster than economists expected. Economists had forecast the unemployment rate to increase to as much as 20 percent, after it hit 14.7 percent in April, which was the highest since the government began keeping official statistics after World War II. But the unemployment rate dipped instead, with employers adding 2.5 million jobs, after more than 20 million jobs were lost in April.
  • Will protests set off a second viral wave of coronavirus? Mass protests against police brutality that have brought thousands of people onto the streets in cities across America are raising the specter of new coronavirus outbreaks, prompting political leaders, physicians and public health experts to warn that the crowds could cause a surge in cases. While many political leaders affirmed the right of protesters to express themselves, they urged the demonstrators to wear face masks and maintain social distancing, both to protect themselves and to prevent further community spread of the virus. Some infectious disease experts were reassured by the fact that the protests were held outdoors, saying the open air settings could mitigate the risk of transmission.
  • How do we start exercising again without hurting ourselves after months of lockdown? Exercise researchers and physicians have some blunt advice for those of us aiming to return to regular exercise now: Start slowly and then rev up your workouts, also slowly. American adults tended to be about 12 percent less active after the stay-at-home mandates began in March than they were in January. But there are steps you can take to ease your way back into regular exercise safely. First, “start at no more than 50 percent of the exercise you were doing before Covid,” says Dr. Monica Rho, the chief of musculoskeletal medicine at the Shirley Ryan AbilityLab in Chicago. Thread in some preparatory squats, too, she advises. “When you haven’t been exercising, you lose muscle mass.” Expect some muscle twinges after these preliminary, post-lockdown sessions, especially a day or two later. But sudden or increasing pain during exercise is a clarion call to stop and return home.
  • My state is reopening. Is it safe to go out? States are reopening bit by bit. This means that more public spaces are available for use and more and more businesses are being allowed to open again. The federal government is largely leaving the decision up to states, and some state leaders are leaving the decision up to local authorities. Even if you aren’t being told to stay at home, it’s still a good idea to limit trips outside and your interaction with other people.
  • What are the symptoms of coronavirus? Common symptoms include fever, a dry cough, fatigue and difficulty breathing or shortness of breath. Some of these symptoms overlap with those of the flu, making detection difficult, but runny noses and stuffy sinuses are less common. The C.D.C. has also added chills, muscle pain, sore throat, headache and a new loss of the sense of taste or smell as symptoms to look out for. Most people fall ill five to seven days after exposure, but symptoms may appear in as few as two days or as many as 14 days.
  • How can I protect myself while flying? If air travel is unavoidable, there are some steps you can take to protect yourself. Most important: Wash your hands often, and stop touching your face. If possible, choose a window seat. A study from Emory University found that during flu season, the safest place to sit on a plane is by a window, as people sitting in window seats had less contact with potentially sick people. Disinfect hard surfaces. When you get to your seat and your hands are clean, use disinfecting wipes to clean the hard surfaces at your seat like the head and arm rest, the seatbelt buckle, the remote, screen, seat back pocket and the tray table. If the seat is hard and nonporous or leather or pleather, you can wipe that down, too. (Using wipes on upholstered seats could lead to a wet seat and spreading of germs rather than killing them.)
  • How do I take my temperature? Taking one’s temperature to look for signs of fever is not as easy as it sounds, as “normal” temperature numbers can vary, but generally, keep an eye out for a temperature of 100.5 degrees Fahrenheit or higher. If you don’t have a thermometer (they can be pricey these days), there are other ways to figure out if you have a fever, or are at risk of Covid-19 complications.
  • Should I wear a mask? The C.D.C. has recommended that all Americans wear cloth masks if they go out in public. This is a shift in federal guidance reflecting new concerns that the coronavirus is being spread by infected people who have no symptoms. Until now, the C.D.C., like the W.H.O., has advised that ordinary people don’t need to wear masks unless they are sick and coughing. Part of the reason was to preserve medical-grade masks for health care workers who desperately need them at a time when they are in continuously short supply. Masks don’t replace hand washing and social distancing.
  • What should I do if I feel sick? If you’ve been exposed to the coronavirus or think you have, and have a fever or symptoms like a cough or difficulty breathing, call a doctor. They should give you advice on whether you should be tested, how to get tested, and how to seek medical treatment without potentially infecting or exposing others.
  • How do I get tested? If you’re sick and you think you’ve been exposed to the new coronavirus, the C.D.C. recommends that you call your healthcare provider and explain your symptoms and fears. They will decide if you need to be tested. Keep in mind that there’s a chance — because of a lack of testing kits or because you’re asymptomatic, for instance — you won’t be able to get tested.

Cientistas pedem paralização acadêmica em apoio ao movimento Vidas Negras Importam (GIZMODO)

Por Ryan F. Mandelbaum, 9 de junho de 2020. Tradução de Renzo Taddei; revisão de Fernando Martins.

Artigo original

A supremacia branca é parte da organização da ciência e da academia, desde a linguagem racista presente em livros didáticos até uma cultura que exclui cientistas negros do avanço e inovação profissional em ritmo similar ao de seus colegas brancos. Neste momento, no lugar de mais declarações tímidas de apoio e iniciativas de promoção de diversidade racial, os pesquisadores querem ação. Os organizadores do movimento #ShutDownSTEM estão pedindo à comunidade científica que participe de uma paralisação do trabalho na quarta-feira, 10 de junho, para chamar a atenção para o racismo no mundo da pesquisa.

Dois grupos de cientistas, tecnólogos e especialistas em diversidade e inclusão se reuniram para organizar uma paralisação e greve em 10 de junho, com as hashtags #ShutDownAcademia, #ShutDownSTEM e #Strike4BlackLives. Ambos os grupos solicitam aos pesquisadores e acadêmicos que paralisem suas atividades cotidianas e, concentrem-se em ações de longo prazo: educando-se nos problemas enfrentados pelos acadêmicos negros, protestando e elaborando planos com base no trabalho realizado pelos líderes negros para desmantelar o racismo entrincheirado em seus respectivos campos de atuação. Centenas de cientistas, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel e pesquisadores renomados, assinaram o compromisso de participar.

“Precisamos assumir a responsabilidade de acabar com o racismo contra pessoas negras em nossas comunidades nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (grupo de disciplinas designadas pela sigla STEM nos países de língua inglesa), e na academia em geral. Isso é extremamente importante por causa do nosso papel na sociedade”, disse Brittany Kamai, física experimental que atua na Universidade da Califórnia, Santa Cruz e no Caltech, ao Gizmodo,. “Vai ser difícil, e a comunidade crescerá com isso. Pedimos a toda a comunidade do STEM e da academia que se comprometam a crescer juntos para erradicar isso”, disse Kamai, organizadora da #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM e nativa do Havaí.

Os protestos contra a violência policial direcionada às pessoas negras nos EUA serviram como catalisador para o movimento #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM colaborar com uma iniciativa de pesquisadores do campo da física, o Partículas para a Justiça (Particles for Justice). Mas essas questões há muito vêm borbulhando na comunidade científica. Um relatório no início deste ano constatou que a já desanimadora percentagem de estudantes negros formados em física não mudou em 10 anos, em parte devido à falta de apoio e orientação, assim como decorrente do declínio no financiamento de faculdades e universidades historicamente negros.

A discriminação contra os cientistas negros também se faz presente de maneira insidiosa. Os laboratórios ainda se referem a parte de equipamentos como “mestre” e “escravo”, enquanto o marco mais comumente discutido na computação quântica é a “supremacia quântica”. Há poucos, se houver algum, periódicos científicos trabalhando de forma ativa para avaliar essa forma de linguagem. Os prédios nos campi das faculdades recebem o nome de pessoas racistas ou que foram proprietários de escravos, e pseudociência costuma ser usada para tentar racionalizar e justificar o racismo.

“Quando [a comunidade acadêmica] tenta mostrar o valor da diversidade e da inclusão, o faz transferindo às pessoas marginalizadas a responsabilidade por sua própria libertação”, comentou Brian Nord, pesquisador do Fermilab, “Eles fazem com que nós, que já estamos inseridos nesse sistema e que enfrentamos os problemas que o sistema criou, realizemos essas atividades e nos juntemos a esses comitês (de promoção de igualdade racial) e todas essas coisas, que acabaram servindo apenas como vitrines … Não há investimento real e compromisso com esta questão”.


Esse trabalho de ativismo coloca os acadêmicos negros em desvantagem e afeta as perspectivas de avanço na carreira, uma vez que os demais pesquisadores destinam período de tempo equivalente para publicar artigos,. Quando surgiram questões de violência policial contra negros, disse Kamai, seus colegas procuraram apoio em outros lugares que não a comunidade acadêmica, como coletivos acadêmicos liderados por negros.

“Não queremos mais seminários sobre diversidade, inclusão e equidade”, disse Chanda Prescod-Weinstein, professora assistente de física e integrante do corpo docente dos estudos de gênero da Universidade de New Hampshire, ao Gizmodo. “Queremos que as pessoas tomem medidas efetivas, incluindo a participação em protestos por justiça. Precisamos que as pessoas sejam ativas na reforma das instituições em que trabalham, em vez de esperar por uma solução de cima para baixo”. Prescod-Weinstein é uma das organizadoras do movimento Particles for Justice.

Tais grupos pedem a todos os cientistas que usem o dia 10 de junho para educar a si mesmos e a seus alunos, organizar protestos, entrar em contato com seus representantes locais e fazer planos de ação sobre como eles trabalharão para mudar a ciência e a academia, ao invés de simplesmente fazer um dia de greve. Igualmente importante, dizem os organizadores, é que os colegas negros usem o dia para priorizar suas necessidades e encontrar apoio em suas comunidades.

Kamai disse que o #ShutDownSTEM não se destina a cientistas diretamente envolvidos na mitigação da pandemia global de covid-19. Ainda assim, o grupo Particles for Justice incentiva os pesquisadores sobre a COVID-19 a tomar um momento na quarta-feira para refletir sobre como seu trabalho pode contribuir para esses pedidos de justiça.

Nord disse ao Gizmodo que espera que os físicos apliquem ao movimento a mesma paixão que eles trazem para descobrir as verdades fundamentais do universo, como se sua vida e a de todos os cientistas negros dependesse disso. “Essa energia e criatividade são o que precisamos. Precisamos que eles tragam sua compaixão e vontade de aprender novos métodos e coisas novas, de pessoas que já sabem como fazer isso. ”

Esses movimentos exigem a participação de aliados não-negros para que as mudanças ocorram, especialmente em campos como a física. “A física de partículas é uma das disciplinas acadêmicas com as mais baixas representações dos cientistas negros”, disse Tien-Tien Yu, professor assistente de física da Universidade do Oregon. “A greve trará atenção a esse fato, e é importante para nós, como comunidade, entender por que a situação está neste ponto, e mais crucialmente, propor soluções concretas. Mas, primeiro, esperamos que os físicos não-negros finalmente aprendam a ouvir o que os cientistas negros vêm dizendo durante todos esses anos”.

Mais de 3.100 acadêmicos se comprometeram a atuar com o Particles for Justice, incluindo os ganhadores do Prêmio Nobel de Física Adam Riess e Art McDonald.

Grupos científicos de primeira importância já declararam sua participação. A plataforma de artigos arXiv, onde os cientistas costumam postar seus trabalhos de pesquisa antes da publicação, não enviará sua comunicação diária. Grupos como o LSST Dark Energy Science Collaboration, o Dark Energy Survey e outros já concordaram em adiar reuniões regulares ou estão planejando discussões com os membros de seus grupos. A Associação Canadense de Físicos também anunciou sua participação.

Os movimentos Particles for Justice e #ShutDownAcademia/#ShutDownSTEM listaram ações que acadêmicos e profissionais da academia interessados em participar podem adotar para desmantelar o racismo em seus respectivos campos.

Ryan F. Mandelbaum, divulgador da ciências, fundador da Birdmodo

Breve reflexão sobre racismo estrutural nos institutos de produção de ciência no Brasil

Renzo Taddei e Fernando Martins – 10 de junho de 2020

Na data de hoje (10/06) aconteceu o enterro de George Floyd. Temos acompanhado as notícias de protestos e um crescimento da indignação social com relação ao racismo ao redor do mundo durante esta última semana. O portal GIZMODO publicou o artigo “Scientists Call for Academic Shutdown in Support of Black Lives” que tomamos a liberdade de traduzir para a língua portuguesa (ver abaixo).

Nosso intuito é promover uma reflexão e discussão sobre as questões raciais na comunidade acadêmica e como, nós professores/pesquisadores compreendemos a questão, e que propostas podemos apresentar para trabalhar esta temática de forma efetiva nas nossas ações, sejam na nossa rotina acadêmica, sejam em nossa vida particular.

Todas as organizações e institutos de produção científica existem dentro de um contexto maior social, cultural, político e econômico. De maneira geral, tais organizações refletem estes elementos do mundo social na forma como existem e levam a cabo suas atividades. Desta forma, disparidades e injustiças históricas que acabaram por transformar-se em parte das estruturas da sociedades maior se fazem presentes também em instituições científicas. Quando tais desigualdades e injustiças vinculam-se a questões raciais, têm-se o chamado racismo estrutural.

O racismo estrutural mantém-se presente mesmo que as pessoas não se comportem de forma intencionalmente racista. Basta que as coisas se reproduzam como são, e as injustiças presentes nas estruturas da realidade se propagam no tempo, mesmo que as pessoas envolvidas não sejam capazes de entender onde exatamente o racismo se encontra.

O fato de que a imensa maioria dos departamentos universitários no Brasil não possuem sequer um professor negro sugere uma de duas alternativas: 1) os acadêmicos negros não se interessam por temas ligados aos temas de pesquisa de tais departamentos; ou 2) o racismo estrutural está vivo e firme entre nós. Obviamente, a primeira opção não faz qualquer sentido, e estamos assumindo que não houve ação racista intencional nos concursos que proveram o corpo docente de cada departamento e instituição.

A ocasião dos movimentos antirracistas no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países é propícia para que a campo da ciência no Brasil promova reflexões internas e busque entender se o problema do racismo estrutural existe dentro das instituições, e o que pode ser feito para que diagnósticos sejam elaborados e soluções sejam propostas. É muito provável que exista um componente de racismo estrutural nas formas de ingresso à universidade, tanto na graduação como na pós; nos critérios de avaliação de desempenho de estudantes, na questão das reprovações, no problema da evasão. Só saberemos a respeito com dados empíricos sobre estes temas, em que a variável racial seja tomada em conta.

Universidades, institutos e departamentos precisam formar grupos de trabalho, com docentes, técnicos administrativos e alunos, para debater o problema e propor encaminhamentos.

Segue o texto do artigo traduzido:

CIENTISTAS PEDEM PARALISAÇÃO ACADÊMICA EM APOIO AO MOVIMENTO VIDAS NEGRAS IMPORTAM (GIZMODO)

Por Ryan F. Mandelbaum, 9 de junho de 2020. Tradução de Renzo Taddei; revisão de Fernando Martins.

Artigo original

A supremacia branca é parte da organização da ciência e da academia, desde a linguagem racista presente em livros didáticos até uma cultura que exclui cientistas negros do avanço e inovação profissional em ritmo similar ao de seus colegas brancos. Neste momento, no lugar de mais declarações tímidas de apoio e iniciativas de promoção de diversidade racial, os pesquisadores querem ação. Os organizadores do movimento #ShutDownSTEM estão pedindo à comunidade científica que participe de uma paralisação do trabalho na quarta-feira, 10 de junho, para chamar a atenção para o racismo no mundo da pesquisa.

Dois grupos de cientistas, tecnólogos e especialistas em diversidade e inclusão se reuniram para organizar uma paralisação e greve em 10 de junho, com as hashtags #ShutDownAcademia, #ShutDownSTEM e #Strike4BlackLives. Ambos os grupos solicitam aos pesquisadores e acadêmicos que paralisem suas atividades cotidianas e, concentrem-se em ações de longo prazo: educando-se nos problemas enfrentados pelos acadêmicos negros, protestando e elaborando planos com base no trabalho realizado pelos líderes negros para desmantelar o racismo entrincheirado em seus respectivos campos de atuação. Centenas de cientistas, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel e pesquisadores renomados, assinaram o compromisso de participar.

“Precisamos assumir a responsabilidade de acabar com o racismo contra pessoas negras em nossas comunidades nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (grupo de disciplinas designadas pela sigla STEM nos países de língua inglesa), e na academia em geral. Isso é extremamente importante por causa do nosso papel na sociedade”, disse Brittany Kamai, física experimental que atua na Universidade da Califórnia, Santa Cruz e no Caltech, ao Gizmodo,. “Vai ser difícil, e a comunidade crescerá com isso. Pedimos a toda a comunidade do STEM e da academia que se comprometam a crescer juntos para erradicar isso”, disse Kamai, organizadora da #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM e nativa do Havaí.

Os protestos contra a violência policial direcionada às pessoas negras nos EUA serviram como catalisador para o movimento #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM colaborar com uma iniciativa de pesquisadores do campo da física, o Partículas para a Justiça (Particles for Justice). Mas essas questões há muito vêm borbulhando na comunidade científica. Um relatório no início deste ano constatou que a já desanimadora percentagem de estudantes negros formados em física não mudou em 10 anos, em parte devido à falta de apoio e orientação, assim como decorrente do declínio no financiamento de faculdades e universidades historicamente negros.

A discriminação contra os cientistas negros também se faz presente de maneira insidiosa. Os laboratórios ainda se referem a parte de equipamentos como “mestre” e “escravo”, enquanto o marco mais comumente discutido na computação quântica é a “supremacia quântica”. Há poucos, se houver algum, periódicos científicos trabalhando de forma ativa para avaliar essa forma de linguagem. Os prédios nos campi das faculdades recebem o nome de pessoas racistas ou que foram proprietários de escravos, e pseudociência costuma ser usada para tentar racionalizar e justificar o racismo.

“Quando [a comunidade acadêmica] tenta mostrar o valor da diversidade e da inclusão, o faz transferindo às pessoas marginalizadas a responsabilidade por sua própria libertação”, comentou Brian Nord, pesquisador do Fermilab, “Eles fazem com que nós, que já estamos inseridos nesse sistema e que enfrentamos os problemas que o sistema criou, realizemos essas atividades e nos juntemos a esses comitês (de promoção de igualdade racial) e todas essas coisas, que acabaram servindo apenas como vitrines … Não há investimento real e compromisso com esta questão”.

Esse trabalho de ativismo coloca os acadêmicos negros em desvantagem e afeta as perspectivas de avanço na carreira, uma vez que os demais pesquisadores destinam período de tempo equivalente para publicar artigos,. Quando surgiram questões de violência policial contra negros, disse Kamai, seus colegas procuraram apoio em outros lugares que não a comunidade acadêmica, como coletivos acadêmicos liderados por negros.

“Não queremos mais seminários sobre diversidade, inclusão e equidade”, disse Chanda Prescod-Weinstein, professora assistente de física e integrante do corpo docente dos estudos de gênero da Universidade de New Hampshire, ao Gizmodo. “Queremos que as pessoas tomem medidas efetivas, incluindo a participação em protestos por justiça. Precisamos que as pessoas sejam ativas na reforma das instituições em que trabalham, em vez de esperar por uma solução de cima para baixo”. Prescod-Weinstein é uma das organizadoras do movimento Particles for Justice.

Tais grupos pedem a todos os cientistas que usem o dia 10 de junho para educar a si mesmos e a seus alunos, organizar protestos, entrar em contato com seus representantes locais e fazer planos de ação sobre como eles trabalharão para mudar a ciência e a academia, ao invés de simplesmente fazer um dia de greve. Igualmente importante, dizem os organizadores, é que os colegas negros usem o dia para priorizar suas necessidades e encontrar apoio em suas comunidades.

Kamai disse que o #ShutDownSTEM não se destina a cientistas diretamente envolvidos na mitigação da pandemia global de covid-19. Ainda assim, o grupo Particles for Justice incentiva os pesquisadores sobre a COVID-19 a tomar um momento na quarta-feira para refletir sobre como seu trabalho pode contribuir para esses pedidos de justiça.

Nord disse ao Gizmodo que espera que os físicos apliquem ao movimento a mesma paixão que eles trazem para descobrir as verdades fundamentais do universo, como se sua vida e a de todos os cientistas negros dependesse disso. “Essa energia e criatividade são o que precisamos. Precisamos que eles tragam sua compaixão e vontade de aprender novos métodos e coisas novas, de pessoas que já sabem como fazer isso. ”

Esses movimentos exigem a participação de aliados não-negros para que as mudanças ocorram, especialmente em campos como a física. “A física de partículas é uma das disciplinas acadêmicas com as mais baixas representações dos cientistas negros”, disse Tien-Tien Yu, professor assistente de física da Universidade do Oregon. “A greve trará atenção a esse fato, e é importante para nós, como comunidade, entender por que a situação está neste ponto, e mais crucialmente, propor soluções concretas. Mas, primeiro, esperamos que os físicos não-negros finalmente aprendam a ouvir o que os cientistas negros vêm dizendo durante todos esses anos”.

Mais de 3.100 acadêmicos se comprometeram a atuar com o Particles for Justice, incluindo os ganhadores do Prêmio Nobel de Física Adam Riess e Art McDonald.

Grupos científicos de primeira importância já declararam sua participação. A plataforma de artigos arXiv, onde os cientistas costumam postar seus trabalhos de pesquisa antes da publicação, não enviará sua comunicação diária. Grupos como o LSST Dark Energy Science Collaboration, o Dark Energy Survey e outros já concordaram em adiar reuniões regulares ou estão planejando discussões com os membros de seus grupos. A Associação Canadense de Físicos também anunciou sua participação.

Os movimentos Particles for Justice e #ShutDownAcademia/#ShutDownSTEM listaram ações que acadêmicos e profissionais da academia interessados em participar podem adotar para desmantelar o racismo em seus respectivos campos.

Ryan F. Mandelbaum, divulgador da ciências, fundador da Birdmodo

Crédito: Antonio O. Silva