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Brazil plans to stop the killing of pink dolphins (Washington Post)

FILE – In this Nov. 2005 FILE photo released by Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia (INPA), an Amazon river dolphin swims in the Airao River in Amazonas state, Brazil. Brazil will temporarily ban the catch of a type of catfish in an effort to halt the killing of the Amazon pink dolphin, whose flesh is used as bait, the Fishing and Aquaculture Ministry said Tuesday, June, 3, 2014. (Sefora Antela Violante, INPA, File/Associated Press)

 June 3

SAO PAULO — Brazil will temporarily ban the catch of a type of catfish in an effort to halt the killing of the Amazon pink dolphin, whose flesh is used as bait, the Fishing and Aquaculture Ministry said Tuesday.

Ministry spokesman Ultimo Valadares said the government is working out the details of a five-year moratorium on fishing of the species called piracatinga that is expected to go into effect early next year.

“That should give us enough time to find an alternative bait for the piracatinga,” Valadares said by phone.

Nivia do Campo, president of an environmental activist group in the northern jungle state of Amazonas, welcomed the news because more than 1,500 freshwater dolphins are killed annually in the Mamiraua Reserve where she studies the mammals.

She said that since 2000, when fishermen started slaughtering them for bait, the number of dolphins living on the reserve has been dropping by about 10 percent a year. The reserve currently has a population of about 13,000 dolphins.

Poor fishermen are encouraged to use dolphin flesh as bait by merchants from neighboring Colombia, a big market for that species, de Campo said.

Known as the “water vulture” because it thrives on decomposing matter in rivers, the piracatinga is not consumed by people living along the rivers of the Amazon region.

The pink dolphin is under threat, “and if nothing is done to stop the killing it will become extinct,” de Campo added. “That is why the moratorium is excellent news. It will allow us to discover other baits fishermen can and continue earning money selling piracatinga she said.

The moratorium will also help stop the killing of the Amazon caiman, whose flesh is also used as bait to catch piracatinga.

For centuries, the pink dolphins have been revered by locals and protected by myth. According to one tale, the dolphins transform into handsome men and leave the water at night, seducing local women before returning to the river. Many consider it bad luck to kill them.

Copyright 2014 The Associated Press. All rights reserved. This material may not be published, broadcast, rewritten or redistributed.

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De olho no gato (Fapesp)

Pesquisadores se mobilizam para aumentar em 20% a população de onças-pintadas na mata atlântica em cinco anos

CARLOS FIORAVANTI e RICARDO ZORZETTO | Edição 215 – Janeiro de 2014

O maior felino 
das Américas: 
com baixa diversidade genética e ameaçado pela caça intensiva

O maior felino 
das Américas: 
com baixa diversidade genética e ameaçado pela caça intensiva. © ADRIANO GAMBARINI

O veterinário Ronaldo Morato pretende sair logo atrás de onças-pintadas, se possível já em maio, quando passarem as chuvas do início de ano. Seu plano é colocar um colar especial em cinco onças dessa espécie que vivem nas florestas do sul do estado de São Paulo para acompanhar seus movimentos a distância e conhecer seus espaços favoritos. A definição de áreas prioritárias para a conservação desses animais faz parte de um plano estabelecido em setembro em Campinas para ampliar em 20% a população de onças-pintadas – os maiores felinos das Américas – na mata atlântica, o ambiente florestal em que são mais raras.

O plano propõe a redução da caça, o monitoramento das populações remanescentes, o uso de técnicas como inseminação artificial e a formação de um banco de sêmen de onças-pintadas da mata atlântica. Participantes da reunião – pesquisadores acadêmicos e representantes de empresas e de órgãos do governo – reconheceram que o esforço concentrado em um único ecossistema com metas de curto prazo deve facilitar o trabalho e aumentar a chance de sucesso do plano de ação. Já existe um plano nacional de preservação das onças-pintadas, publicado em dezembro de 2010 no Diário Oficial, com ações previstas até 2020. Em uma avaliação recente, os especialistas verificaram que parte dos objetivos tinha sido atingida e concluíram que trabalhar separadamente nos diferentes ambientes brasileiros poderia ser mais produtivo.

“Se conseguirmos reduzir as pressões atuais, como a caça e a fragmentação da floresta, pode já ser o bastante para aumentarmos a população de onça-pintada na mata atlântica”, diz Morato, coordenador do Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Em sua sala de trabalho, em um prédio de dois pisos com amplas janelas de vidro e vigas de madeira próximo à rodovia Dom Pedro I, em Atibaia, ele acompanha pelo computador o movimento de oito onças-pintadas nas matas do norte do pantanal. Várias vezes ele sentiu medo e fascínio ao se ver em campo diante desses felinos, que podem chegar a 2,70 metros de comprimento e podem atacar quando se sentem acuados. A primeira vez foi em 1992, recém-formado em veterinária, para anestesiar uma onça-preta e acompanhar outros pesquisadores colocando um colar de monitoramento no animal, ainda como estagiário do biólogo Peter Crawshaw, um dos pioneiros na preservação de felinos silvestres no Brasil. “E nunca mais me desprendi das onças”, diz Morato, aos 47 anos.

“Temos de trabalhar juntos e acreditar que o plano vai dar certo”, ele ressalta. Reduzir a caça e a fragmentação, como ele propõe, exigirá uma atenção permanente dos órgãos de fiscalização ambiental nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, por onde a mata atlântica se espalha. Em todo o país, a caça – para a retirada e venda de pele ou como retaliação, quando as onças atacam os rebanhos – ainda é intensa, embora proibida e classificada como crime inafiançável. Em 2013, ele e Elildo Carvalho Jr., outro pesquisador do Cenap, em colaboração com o Instituto Pró-Carnívoros, verificaram que pelo menos 60 onças-pintadas (Panthera onca) e pardas (Puma concolor) foram mortas por caçadores nos últimos dois anos, com base em informações de 100 gestores das unidades de conservação ambiental administradas pelo governo federal. Estima-se que 5.500 representantes dessa espécie se escondam nas florestas brasileiras, principalmente na Amazônia e no pantanal. Mesmo assim, a onça-pintada é considerada vulnerável ao risco de desaparecimento, por causa do declínio populacional.

Na reunião de setembro em Campinas e em uma carta publicada na revista Science em novembro, pesquisadores de várias instituições do país alertaram que a mata atlântica, se nada for feito, pode ser o primeiro ambiente florestal brasileiro a perder essa espécie de felino – ali, a onça-pintada já é classificada como criticamente ameaçada de extinção. Estima-se que a floresta atlântica abrigue apenas 250 onças-pintadas, total considerado baixo para a manutenção das populações. Além do pequeno número de animais, outro problema é a baixa diversidade genética. Os estudos do grupo de Eduardo Eizirik da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul indicaram que os 250 animais, em consequência de cruzamentos entre eles, correspondem a apenas 50 indivíduos efetivos, geneticamente distintos.

As onças-pintadas ocupam apenas 7% da área total da mata atlântica. Se houvesse mais animais dessa espécie – e também mais oferta de sua dieta favorita, as queixadas, uma espécie de porco selvagem bastante caçada por causa da carne, mas indesejada porque anda em bandos e destrói plantações –, a área ocupada poderia ser três vezes maior, de acordo com as pesquisas do grupo de Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Seus estudos indicaram que a falta de onças-pintadas, os predadores de topo de cadeia alimentar, pode causar vários tipos de desequilíbrios ecológicos, deixando animais herbívoros como a anta – ou mesmo roedores – se multiplicarem livremente ou favorecendo o crescimento de gramíneas e outras plantas baixas no lugar das árvores.

Região de Boqueirão da Onça

Região de Boqueirão da Onça. © CLAUDIA B. CAMPOS

Valéria Conforti, professora da Universidade de Franca (Unifran), disse que saiu otimista da reunião de setembro em Campinas. “Todos estavam chocados com a situação das onças-pintadas na mata atlântica e se mostraram dispostos a correr riscos e testar o que achamos que pode dar certo”, ela observou. Um de seus planos para este ano é testar, em onças-pintadas mantidas em zoológicos paulistas, uma técnica de inseminação artificial que ela aplicou experimentalmente em gatas domésticas e outros felinos no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos. Essa abordagem consiste em medir a variação hormonal das onças fêmeas por meio da análise de fezes, identificar o momento mais adequado, induzir a ovulação e fazer a inseminação artificial, depositando sêmen por meio de uma laparoscopia na tuba uterina, em vez do útero, como já se faz, para facilitar o acesso do espermatozoide ao óvulo e aumentar a chance de fertilização. A inseminação artificial já foi aplicada a outros felinos, mas ainda não a onças-pintadas. Se os testes derem certo, Valéria pretende aplicar essa técnica em animais de vida livre em 2015, como forma de aumentar a probabilidade de geração de filhotes sadios e evitar o risco de cruzamento entre animais aparentados.

A transferência de animais de uma mata para outra é uma possibilidade cogitada para repovoar as matas com onças-pintadas. Trata-se, porém, de uma alternativa de custo alto e muitas dificuldades, que exige o apoio de comunidades rurais e fazendeiros que aceitem ter uma onça perto de suas casas ou pastagens. Vários estudos, como os do biólogo Sílvio Marchini, pesquisador da Escola da Amazônia e da Universidade de São Paulo (USP), mostraram que o apoio dos moradores de áreas rurais próximas a matas ocupadas por onças é fundamental para os planos de ação funcionarem. No pantanal, com resultado de um experimento-piloto do Cenap com uma pousada, ganha adesões o argumento de que o lucro com o turismo de observação de onças pode ser maior que a perda de um ou outro boi.

Há relatos de êxito de transferência de felinos nos Estados Unidos e na Espanha, mas no Brasil as poucas tentativas feitas até agora, em florestas a serem cobertas por reservatórios de hidrelétricas, não deram certo. Os animais transferidos não se adaptaram, começaram a comer bois e foram mortos por caçadores ou voltaram a seus locais de origem, a dezenas de quilômetros de distância. Em um dos debates no encontro de setembro em Campinas, os pesquisadores observaram que, nos próximos cinco anos, talvez a criação de conexões – ou corredores – entre os fragmentos de floresta seja uma alternativa mais viável que a inseminação artificial ou a transferência de animais para ampliar as populações de onças-pintadas na mata atlântica. Todos concordaram que se trata de um problema urgente. “Não podemos esperar muito”, disse Valéria Conforti. A onça-pintada já é considerada extinta no Uruguai e nos pampas do Sul do Brasil.

Manuel Silva, morador da região de Boqueirão da Onça (acima), Alessandra e a filha Sara, Cailane Ferreira (ao fundo) e Claudia Campos: diálogo constante

Manuel Silva, morador da região de Boqueirão da Onça, Alessandra e a filha Sara, Cailane Ferreira e Claudia Campos: diálogo constante. © ALEXANDRE ANÉZIO

Um poço para salvar as onças

Mais apreensiva do que quando olhou para os examinadores 
de sua banca de doutorado, 
a bióloga Claudia Campos observou os 50 sertanejos à sua frente na igreja do povoado de Queixo Dantas, norte da Bahia, na tarde de um domingo de julho de 2012. Nervosa, mas com 
voz firme, ao lado dos amigos Claudia Martins, Carolina Esteves e Alexandre Anézio, 
ela sugeriu aos homens que fizessem cercados para manter suas cabras e ovelhas, em vez 
de deixar os animais soltos na caatinga na época de seca, sob 
o risco de serem atacados por onças. Os criadores reagiram: como poderiam deixar os animais presos sem água nem comida, se não chovia há três anos? Se eles aceitassem, ela disse, poderiam construir um poço para tirar água e cultivar plantas para alimentar os animais. Oito deles aderiram ao plano.

A perfuração do poço artesiano estava prevista para o final do mês passado, as plantas que serviriam de alimento para os caprinos seriam semeadas logo depois e os novos cercados, construídos a partir de fevereiro. Se tudo der certo, os animais terão alimento ao longo de todo o ano, como
já se faz em outras partes do sertão do nordeste, e não precisarão mais pastar nas áreas de mata nativa durante 
a seca, reduzindo as chances 
de encontro com as onças; 
os moradores as matam para evitar que ataquem seus animais de criação.

Claudia chegou a Petrolina, Pernambuco, em outubro de 2006, como pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas 
e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, um dos braços antigos do Ibama, 
para detalhar a distribuição geográfica e os hábitos da 
onça-pintada em uma região
 de 900 mil hectares conhecida como Boqueirão da Onça. 
Ao verem a forasteira chegando em um carro com o logotipo 
do Ibama, os moradores logo diziam que não caçavam bicho nenhum. Conversando muito, ela venceu a desconfiança. “Todos estão cansados de ouvir do governo coisas que poderiam ajudar a vida deles e nunca aconteceram”, ela observou. 
“Já visitei 140 dos quase 
150 povoados da região.”

Aos poucos ela concluiu 
que teria de cuidar dos conflitos entre os moradores e os 
animais silvestres. Em 2009, aos 76 anos, o zoólogo George Schaller, pioneiro mundial na conservação de grandes carnívoros e vice-presidente 
da Panthera, organização que apoia o trabalho na Bahia, percorreu a região e reforçou sua hipótese ao dizer que seria impossível preservar animais silvestres sem a participação dos moradores locais. Claudia estima que por ali vivam 
50 onças-pintadas – ainda não 
viu nenhuma, apenas vê as pegadas durante o dia e 
sente que os animais passam 
por perto quando ela tem 
de dormir no meio da caatinga.

Projetos
1. Uso e ocupação do espaço, movimentação e seleção de hábitat por onça-pintada (Panthera onca) na mata atlântica e caatinga: uma análise comparativa (2013/10029-6); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Ronaldo Gonçalves Morato – Cenap; Investimento R$ 110.627,80 (FAPESP). 2. O uso de método não invasivo para monitoramento da função ovariana em onças-pintadas (Panthera onca) via ensaio imunoenzimático e caracterização dos metabólitos de esteroides fecais por meio de cromatografia líquida de alta eficiência (13/12757-9); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Valeria Amorim Conforti – Unifran; Investimento R$ 35.780,00 (FAPESP).

Artigos científicos
CARVALHO Jr., E.A.R. de e MORATO, R.G. Factors affecting big cat hunting in Brazilian protected areasTropical Conservation Science. v. 6, n. 2, p. 303-10. 2013.
CONFORTI, V. A. et al. Laparoscopic oviductal artificial insemination improves pregnancy success in exogenous gonadotropin-treated domestic cats as a model for endangered felidsBiology of Reproduction. v. 88, p. 112.105353. 2013.

Animais, plantas, natureza: os direitos do meio ambiente. Entrevista com Philippe Descola (Unisinos)

Por Marino Niola

Philippe Descola herdou a cátedra de Lévi-Strauss em Paris. E conta como a disciplina está evoluindo: “Há muitas formas de vida. Temos que levar isso em conta”. Em alguns países, a proteção e o respeito pelos recursos vitais foram incluídos na Constituição. É preciso aprender a coabitar.

A antropologia de Lévi-Strauss era uma grande teoria sobre o ser humano. A antropologia de hoje, ao contrário, deve ir além do humano. O ser humano sozinho não lhe basta mais. Porque natureza e cultura são uma só coisa. Sociedade e meio ambiente, uma só casa. As neurociências, a etologia, a genética, a ecologia falam claramente. Nós, bípedes, com o dom da palavra, não somos o umbigo do mundo, mas sim parte da vida, quer gostemos ou não.

Philippe Descola sorri maliciosamente. Ele assumiu o lugar de Lévi-Strauss na cátedra de antropologia mais prestigiada do planeta. A do Collège de France. Tudo aqui ainda fala do mestre que revolucionou as ciências do ser humano. Livros, estantes, objetos exóticos descritos precisamente em Tristes Trópicos. “Obviamente, eu não sou o herdeiro de Claude Lévi-Strauss, mas só o seu sucessor”, explica, com bom humor.

Eis a entrevista.

Um homem que tinha uma imensa e preciosa erudição, de savant de outros tempos.

E que não é mais de hoje. A sua análise dos mitos é um virtuosismo acrobático. Obras como O Pensamento Selvagem e O cru e o cozido são o produto de um talento pessoal muito próximo ao de um artista. Ele era capaz de se lembrar de um fragmento de um conto japonês lido 20 anos antes e de conectá-lo aos mitos dos nativos da América ou da Grécia que ele estudava naquele momento. Ou a um acorde da tetralogia de Wagner.

Lévi-Strauss fez da antropologia um dos grandes saberes do século XX. Ele demonstrou que, por trás das diferenças entre as culturas, há analogias escondidas que permitem remeter a miríade de diversidades a poucas leis gerais, comuns a todos os seres humanos.

Ele tratava as diferenças entre as culturas como variações de um mesmo tema musical. E a sua grande lição é que a tarefa da antropologia é ir além das diferenças superficiais, além da etnografia, para alcançar aquilo que nos torna todos igualmente humanos.

Ou até todos seres vivos. Humanos e não humanos. Nisso, Lévi-Strauss antecipou aquele sentimento de unidade entre sociedade e natureza, que envolve milhões de cidadãos globais. Não é por acaso que o senhor preferiu rebatizar a sua cátedra como “Antropologia e natureza”, tornando-se assim continuador do Lévi-Strauss mais atual e profético.

O fato é que os homens não estão sozinhos no palco da humanidade. E o resto, aquilo que normalmente se chama de natureza ou meio ambiente, não é propriedade nossa, nem uma projeção nossa, muito menos um simples recurso à disposição do nosso desenvolvimento. As outras criaturas, animais, plantas, minerais, também são coinquilinos do mundo. Não são coisas ou formas de vida, mas sim verdadeiros agentes sociais, que têm os mesmos direitos que os seres humanos. E muitas vezes características em comum, que não são meramente biológicas, mas até culturais. É por isso que hoje a antropologia não pode mais se limitar ao ser humano, mas deve estender o seu olhar a todos os seres com os quais interagimos e convivemos.

E, além disso, a nossa ideia de natureza é relativamente recente.

Ela começa a se desenvolver só no século XVII, no início da modernidade, quando o mundo foi dividido em duas partes. De um lado, o universo das convenções e das regras, ou seja, a cultura. De outro, o mundo dos fenômenos e das leis da natureza.

De um lado, a pessoa humana, de outro, as não pessoas, isto é, todo o resto. Mas, desse modo, o ser vivo é cortado em dois e separados de uma parte de si mesmo. Essa foi a concepção que legitimou a dominação e a exploração do ser humano, assim como da natureza?

Certamente. Além de tudo isso, essa oposição entre cultura e natureza, entre ser humano e as outras criaturas, não é nem universal. Muitos povos não a compartilham. Basta pensar no primeiro capítulo da nova Constituição do Equador, que protege precisamente os direitos da natureza, em que a natureza, diferentemente de nós, aparece como uma espécie de pessoa viva. Justamente como a Pachamama, a mãe terra das religiões mesoamericanas.

Não por acaso, o presidente boliviano, Evo Morales, e uma cúpula latino-americana reconheceram que os ecossistemas enquanto tais têm direitos. Um modo diferente de sistematizar os problemas, que, também à luz de dramas como o do Chifre da África, deveria começar a influenciar a agenda política planetária, especialmente em matéria de bens comuns.

Em muitos países do mundo, é inconcebível que os recursos vitais sejam privatizados. A própria ideia de que existe um mercado dos bens de subsistência é um caso excepcional na história da humanidade. Aristóteles, na Crematística, a ciência da riqueza, já punha em questão a legitimidade da compra e venda dos bens indispensáveis para a sobrevivência. O que é interessante é que hoje cada vez mais pessoas tomam consciência do fato de que alguns recursos são intocáveis, porque não pertencem só aos seres humanos, mas a todos os seres vivos. E até ao conjunto dos ecossistemas inteiros.

Isto é, ao planeta na sua totalidade indivisível, na sua integridade vital que também nos compreende, enquanto nascidos da terra.

Nesse sentido, a antropologia tem uma tarefa importante, que é a de apresentar outros modelos de humanidade. Mostrar de que modo as outras civilizações enfrentaram e resolveram problemas análogos aos nossos.

Quais são as três grandes urgências do nosso tempo?

Ecologia, tecnologia e coexistência com as outras civilizações. Três questões que podem ser resumidas em uma, isto é, como fazer com que todos os ocupantes do planeta coabitem, sem muitos danos, renúncias e conflitos. E se não se chegar a isso, haverá uma catástrofe. Ambiental, demográfica e informática.

Por que informática?

Porque deveremos ser inundados por uma avalanche de informações cada vez mais incontroláveis, incongruentes, perigosas.

Também seremos inundados por montanhas de lixo digital, enfim. Mas a política lhe parece estar à altura da tarefa?

Infelizmente não. Hoje, eu vejo uma grande pusilanimidade nos políticos e nos vários G7 ou G20. Não possuem coragem e imaginação. Estão sempre atrasados com relação à realidade. Também porque subestimam o papel da cultura nas elaboração das políticas sociais e ambientais. E, frequentemente, não se vai muito além de alguns pequenos pensamentos politicamente corretos sobre a necessidade do diálogo entre as culturas. Mas não acredito nisso, verdadeiramente.

As pessoas comuns parecem acreditar nisso cada vez mais. Os movimentos que agitam o mundo neste período, que parecem fatos separados, não são talvez os sintomas de um novo sentido comum?

Sim, cada vez mais pessoas estão conscientes de que o modelo de desenvolvimento que tem governado o mundo nestes últimos dois séculos está se desfazendo. Eu diria que esses movimentos são exercícios no futuro, os primeiros passos para uma nova democracia global.

Aboriginal Hunting Practice Increases Animal Populations (Science Daily)

Oct. 24, 2013 — In Australia’s Western Desert, Aboriginal hunters use a unique method that actually increases populations of the animals they hunt, according to a study co-authored by Stanford Woods Institute-affiliated researchers Rebecca and Doug Bird. Rebecca Bird is an associate professor of anthropology, and Doug Bird is a senior research scientist.

Aboriginal hunters looking for monitor lizards as fires burn nearby. (Credit: Rebecca Bird)

The study, published today inProceedings of the Royal Society B, offers new insights into maintaining animal communities through ecosystem engineering and co-evolution of animals and humans. It finds that populations of monitor lizards nearly double in areas where they are heavily hunted. The hunting method — using fire to clear patches of land to improve the search for game — also creates a mosaic of regrowth that enhances habitat. Where there are no hunters, lightning fires spread over vast distances, landscapes are more homogenous and monitor lizards are more rare.

“Our results show that humans can have positive impacts on other species without the need for policies of conservation and resource management,” Rebecca Bird said. “In the case of indigenous communities, the everyday practice of subsistence might be just as effective at maintaining biodiversity as the activities of other organisms.”

Martu, the aboriginal community the Birds and their colleagues have worked with for many years, refer to their relationship with the ecosystem around them as part of “jukurr” or dreaming. This ritual, practical philosophy and body of knowledge instructs the way Martu interact with the desert environment, from hunting practices to cosmological and social organization. At its core is the concept that land must be used if life is to continue. Therefore, Martu believe the absence of hunting, not its presence, causes species to decline.

While jukurr has often been interpreted as belonging to the realm of the sacred and irrational, it appears to actually be consistent with scientific understanding, according to the study. The findings suggest that the decline in aboriginal hunting and burning in the mid-20th century, due to the persecution of aboriginal people and the loss of traditional economies, may have contributed to the extinction of many desert species that had come to depend on such practices.

The findings add to a growing appreciation of the complex role that humans play in the function of ecosystems worldwide. In environments where people have been embedded in ecosystems for millennia, including areas of the U.S., tribal burning was extensive in many types of habitat. Many Native Americans in California, for instance, believe that policies of fire suppression and the exclusion of their traditional burning practices have contributed to the current crisis in biodiversity and native species decline, particularly in the health of oak woodland communities. Incorporating indigenous knowledge and practices into contemporary land management could become important in efforts to conserve and restore healthy ecosystems and landscapes.

The study was funded by the National Science Foundation.

Journal Reference:

  1. R. B. Bird, N. Tayor, B. F. Codding, D. W. Bird. Niche construction and Dreaming logic: aboriginal patch mosaic burning and varanid lizards (Varanus gouldii) in AustraliaProceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, 2013; 280 (1772): 20132297 DOI:10.1098/rspb.2013.2297