- Cooperação técnica sem custos tem validade de 25 anos e prevê assistência meteorológica; prefeitura e fundação não comentam
- Fundação espírita a quem se atribui o poder de intervir em fenômenos climáticos estava com relação rompida com o Rio durante ventania de julho
14.ago.2026 às 6h00
Rio de Janeiro
A Prefeitura do Rio de Janeiro firmou o mais longo acordo já registrado entre o Executivo municipal e a Fundação Cacique Cobra Coral. A fundação representa a entidade espírita a quem se atribui o poder de intervir em fenômenos climáticos para mitigar os efeitos nas cidades.
A assistência do Cacique Cobra Coral à prefeitura vai durar 25 anos, segundo o acordo assinado em 6 de agosto, feito sem custos. A parceria, sob justificativa de “prestação de assistência técnica meteorológica”, foi feita pela Geo-Rio (Fundação Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro).

No dia seguinte à assinatura, cariocas receberam às 5h um alerta da Defesa Civil com risco de vendaval. As rajadas poderiam chegar a 90 km/h. Para evitar o que havia ocorrido duas semanas antes, quando a ventania causou estragos e mortes na cidade, município e estado fecharam parques públicos, suspenderam aulas e recomendaram a antecipação do expediente. Na ventania anterior, a fundação estava com a parceria rompida com a prefeitura.
Na segunda, os ventos chegaram a 84 km/h no sul fluminense, mas não passaram de 62 km/h na capital.
A fundação divulga que o Cacique Cobra Coral teria sido, em outras existências terrenas, o astrônomo Galileu Galilei e o presidente dos Estados Unidos Abraham Lincoln. A médium Adelaide Scritori diz incorporar o mentor espiritual.
A reportagem procurou Osmar Santos, porta-voz da fundação. Ele afirmou que o cacique suspendeu entrevistas. A fundação, localizada em Guarulhos, região metropolitana de São Paulo, não é aberta ao público e não dá consultas.
A prefeitura também não comentou.
No início de agosto, Santos afirmou à Folha que a entidade esotérica previu a ventania, mas não agiu porque o contrato com a prefeitura expirou e não havia renovado por Eduardo Cavaliere, sucessor de Eduardo Paes no cargo.
O serviço prestado pelo Cobra Coral é direcionado a empresas e ao poder público, nunca com cobrança em dinheiro. A contrapartida, diz a fundação, é investimento em obras de mitigação de efeitos climáticos.
A primeira manifestação do Cacique Cobra Coral teria ocorrido quando Adelaide era ainda criança e estava em um centro espírita frequentado pela família. O pai, Ângelo Scritori, foi quem criou a fundação.
A atuação pública começou no início dos anos 1980, quando o trabalho era feito em uma garagem, com mapas do país dispostos sobre a mesa. Naquela época, o serviço da Cacique Cobra Coral era oferecido aos estados por telegrafia. Bastava aos órgãos enviar mapas hidrográficos para que o serviço —redirecionar nuvens de chuva— fosse realizado.
Em 1988, a fundação já mantinha contatos com os governos de Santa Catarina, Paraná, Rio de Janeiro e Mato Grosso do Sul.
Nos anos 1990, a fundação começou a atribuir a si a previsão de atentados e tragédias de comoção nacional, como a morte de Ayrton Senna, em 1994, mas recuou na prática.
Hoje a fundação diz atender a questões climáticas de países de três continentes, incluindo China, Austrália e Estados Unidos. No último, diz ter ajudado a dissipar estragos do furacão Irene, em 2011.
No Rio, a fundação tem convênios oficiais com a prefeitura desde o primeiro mandato do prefeito Cesar Maia (1993-1996).
Até o acordo mais recente, o de 25 anos, as parcerias firmadas entre fundação e Prefeitura do Rio tinham validade de, no máximo, quatro anos, com prorrogações pontuais por mais um ano.
A parceria já acompanhou visitas de chefes de Estado, edições do Rock in Rio, Pan-Americano, Olimpíada e Copa do Mundo, além de Carnavais, Réveillons e shows na praia de Copacabana.
Fundação Cacique Cobra Coral não é mais parceira da prefeitura do Rio e diz que ventania foi só o princípio do caos (Folha de S.Paulo)
- Entidade que teria o poder de controlar fenômenos climáticos afirma que poderia ter mitigado efeitos, mas não foi acionada pelo município
- Médium prestava serviços à cidade há 25 anos e contrato não foi renovado após saída de Eduardo Paes; Rock in Rio também não deve contar com monitoramento

1º.ago.2026 às 9h17
Rio de Janeiro
O vendaval que deixou três mortos e um rastro de destruição no estado do Rio de Janeiro na quarta-feira (29) poderia ser evitado ou ter seu efeito mitigado? Sim, afirma o porta-voz da Fundação Cacique Cobra Coral, Osmar Santos.
Ele conta que a entidade esotérica, que teria o poder de controlar fenômenos climáticos, previu a ventania, mas não agiu porque o contrato com a prefeitura da cidade expirou e não foi renovado por Eduardo Cavaliere, sucessor de Eduardo Paes no cargo.

“Tem todo o planeta atrás de nós, temos que dar prioridade a quem nos procura”, afirma o porta-voz, que disse ao F5 estar a caminho da Europa, onde foi solicitada a atuação da médium Adelaide Scritori, que incorporaria o Cacique. Ele não especificou que países solicitaram seus serviços.
“Diante dessa omissão acima, foi decidido que estamos fora do Réveillon e do Carnaval. Adeus, Rio. Foi bom enquanto durou e havia reciprocidade, já que mesmo isento de ônus financeiro o convênio é uma mão dupla”, diz Osmar. A entidade era parceira da prefeitura da cidade desde 2001, na gestão de César Maia, com interrupção no monitoramento durante o governo de Marcelo Crivella.
Ele conta que o Rock in Rio, que tinha contrato vigente com a médium desde 2005 (com uma breve interrupção), também ainda não os procurou para a edição deste ano. O vendaval de dias atrás danificou estruturas da Cidade do Rock. Leia a entrevista a seguir.
A população do Rio de Janeiro foi pega de surpresa com a ventania. Por que a Fundação Cacique Cobra Coral não interveio? Porque não foi renovado o contrato. O convênio com a prefeitura do Rio está suspenso com a saída do Eduardo Paes para a candidatura ao governo. Isso nos preocupa pois estamos no inverno. E quando o verão e o período de chuvas de verão chegar? Vai sobrar o que do Rio?
A Fundação sabia do que estava por vir? Se sim, por que não avisou ou tentou evitar? Sim, já era esperada desde 29 de junho e alguns parceiros privados foram alertados e tomaram providências. Como não temos mais essa parceria, damos prioridade a quem nos procura ou está com convênio ou contrato vigente.
É possível dizer que fenômenos como esse serão recorrentes? Estamos as vésperas do verão do século e eventos semelhantes aos dos últimos dias vão ser corriqueiros a partir de agosto. Tivemos agora uma pequena amostra do que nos espera no verão, que vai começar na primavera. O clima e o tempo mudaram, nada será como antes foi um dia
O Rock in Rio, também parceiro de muitos anos, corre risco? Desta vez ninguém nos procurou e não vamos falar do que não fazemos parte, seria antiético. Temos de respeitar a decisão deles. Dezenas de países europeus e da Ásia atrás de nós, então temos que atuar onde somos chamados.
Alguma chance de a parceria com a prefeitura ser restabelecida? Não há mais o que conversar. Eles [prefeitura] precisam entender que não precisamos deles, eles que precisam de nós. Temos regras, deveres e obrigações e esse convênio é uma responsabilidade muito grande para nós ficando como está e sem fazerem a lição de casa. O povo é que paga o preço dessa omissão. Estamos fora a trabalho a caminho da Europa, onde alguns países estão precisando da nossa atuação.
Acabou de vez então a atuação do Cacique no Rio? Nós não temos tempo para ficar correndo atrás do que é interesse deles e do povo que eles representam. Diante da omissão, foi decidido que estamos fora do Réveillon e do Carnaval. Adeus, Rio. Foi bom enquanto durou e havia reciprocidade, já que mesmo isento de ônus financeiro, o convênio é uma mão dupla. Desculpem os cariocas, mas há seres humanos agradecidos pelas nossas interferências no clima em 17 países e 3 continentes.