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IPCC: Já não há mais tempo para uma ecologia sutil – Outras Palavras (Outras Palavras)

outraspalavras.net

por Ricardo Abramovay – 13/08/2021 às 15:32 – Atualizado 13/08/2021 às 20:06


Relatório da ONU aponta: frear a crise climática exigirá novo paradigma ecológico e de bem-estar, que se sobreponha ao cálculo econômico. Um dos entraves será a indústria do cimento, altamente poluidora, que prepara novo boom da construção
Projeto “+1,5ºC Muda Tudo” , entre o Museu do Prado e a WWF, que atualiza obras clássicas sob a catástrofe climática

Nada indica que os mais importantes tomadores de decisão do planeta estejam preparados para enfrentar o horizonte traçado nesta semana pelo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que analisa a evolução e as perspectivas da relação entre as sociedades humanas e o sistema climático do qual a vida na Terra depende. Uma das mais importantes e promissoras conclusões do relatório é que ainda existe uma estreita janela de oportunidades para que a temperatura global média não suba além de 1,5ºC até o final do século.

Mas esta janela converte-se numa quase invisível fresta quando o mais importante jornal de economia do mundo, o Financial Times, retrata o entusiasmo de Jan Jenisch, presidente do maior grupo produtor global de cimento (Holcin), com o que ele chama de boom da construção, em função das necessidades de infraestrutura dos países em desenvolvimento. Sua alegria é compartilhada por Fernando Gonzales, o CEO da Cemex mexicana que fala em superciclo da construção.

O curioso é que a informação do Financial Times aparece num podcast do jornal, logo antes de um comentário sobre as enchentes na Alemanha e na China e a quebra de recorde de aumento de temperatura na América do Norte, sem que se faça qualquer relação entre cimento e eventos climáticos extremos. Ora, se fosse um país, o setor de cimento seria o terceiro maior emissor global. E não se pode dizer que o setor não esteja atento a seus impactos sobre o sistema climático.

Em 2021, cada tonelada de cimento é produzida com emissões 18% menores do que três décadas antes, mostra um trabalho do CarbonBrief. Neste período, porém, a demanda de cimento no mundo triplicou. O resultado é que, apesar dos avanços tecnológicos do setor, suas emissões continuam subindo.

O recente relatório conjunto da Agência Internacional de Energia e do Conselho Global de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, na sigla em inglês) corrobora esta informação. Até 2050, a produção global de cimento deve aumentar 12%, mas suas emissões crescem “somente” 4%. O relatório do IPCC lançado esta semana faz com que esta inegável conquista (emitir menos por unidade produzida) se converta tragicamente em componente decisivo da crise climática.

O cimento aqui é tomado como um exemplo que atinge o conjunto da vida econômica. Os dados do Painel Internacional de Recursos das Nações Unidas são claros a este respeito: as emissões vindas da produção de materiais (metais, madeira, construção e plástico, sem incluir combustíveis fósseis e alimentos) dobraram entre 1995 e 2016 e passaram de 15% a 23% das emissões globais. E, da mesma forma que no cimento, os avanços técnicos para descarbonizar a oferta de ferro, aço, plástico e borracha foram imensos.

Se a este quadro se acrescentam os planos de ampliação da produção de petróleo e mesmo de carvão e as emissões derivadas da agropecuária no mundo todo, a conclusão é que tanto as estratégias empresariais quanto os planos governamentais de combate à crise climática estão muito aquém da urgência colocada pelo relatório do IPCC. É o que explica a afirmação de Cristiana Figueres, que dirigiu a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e foi uma das responsáveis pelo Acordo de Paris de 2015, numa entrevista após a divulgação do relatório do IPCC: “Nós não estamos à altura do desafio de nosso tempo… Estamos ainda promovendo melhorias marginais e os tempos apelam para mudança drástica”.

O relatório do IPCC terá alcançado o objetivo de desencadear esta mudança drástica sob duas condições. A primeira é que cada cidadão e cada consumidor encare a crise climática contemporânea com a seriedade e a urgência que enfrentou a pandemia. É fundamental que a economia propicie bem-estar, conforto e condições para que as pessoas e suas comunidades floresçam, mas se não formos capazes de fazer escolhas orientadas pelas mensagens que o IPCC nos está transmitindo o resultado é que simplesmente não haverá futuro.

Neste sentido, enfrentar a crise climática consiste, antes de tudo, em combater as desigualdades, ou seja, em utilizar os recursos de que dispomos sob a orientação gandhiana de que o mundo é capaz de satisfazer as necessidades humanas, mas não o luxo, o desperdício e a cobiça. Nosso bem-estar tem que depender, cada vez mais, de bens comuns, de solidariedade, de sentido comunitário, de empatia e de cooperação social.

Nesta dimensão coletiva do bem-estar se fundamenta o vínculo entre combate à crise climática e sentimento democrático. Sociedades que cultivam o individualismo e a ideia de que a ascensão social é um esforço que depende estritamente das pessoas e não de suas relações comunitárias dificilmente terão condições de enfrentar a crise climática.

A segunda condição para que possamos nos aproximar do que Cristiana Figueres chamou de “mudança drástica” é que tanto as políticas econômicas como as decisões empresariais passem a se nortear por uma pergunta central: como isso vai impactar a relação entre sociedade e natureza e, especialmente, as mudanças climáticas? A urgência atual não permite mais que este tema seja encarado como “externo” à vida econômica, como uma espécie de consequência não antecipada, não prevista de nossas atividades e que será corrigida em algum momento. A luta contra a crise climática tem que estar no cerne da gestão econômica pública e privada.

União Europeia, China, Estados Unidos, Japão, Índia e inúmeras organizações empresariais dão claros sinais de que estão ao menos iniciando medidas nesta direção. A distância entre esta agenda e a dos fanáticos fundamentalistas que estão no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios não poderia ser maior. No centro da luta para superar as ameaças que pesam sobre a democracia brasileira agora e no ano que vem está a mudança radical que Cristiana Figueres preconiza e que exige uma vida econômica que regenere os tecidos sociais, e naturais que até aqui tem acompanhado sistematicamente nossa oferta de bens e serviços.

Wildfires, Heatwaves, And The IPCC Report: Yet Climate Policy Is Losing Steam (Forbes)

forbes.com

Nives Dolsak and Aseem Prakash – Aug 14, 2021,08:29pm EDT


The recent IPCC report is a grim reminder of the seriousness of the climate crisis. The wildfires in the Western United States and Canada, the zombie fires in Siberia, heatwaves in Southern Europe and the Pacific Northwest, and floods in Germany and China should motivate aggressive climate action.

Disasters are supposed to focus policy attention, which political scientist John Kingdon described as opening the “policy window.” As “focusing events,” drastic weather episodes could create opportunities to enact new climate policies. But, of course, a lot depends on the skill of policy entrepreneurs. As Rahm Immanuel had famously noted, politicians should not allow a serious crisis to go to waste.

And yet, climate policy seems to be losing steam. The U.S. Senate has substantially slashed Biden’s proposal for new climate spending. China continues to build coal-fired electricity plants. Brazil has announced a plan to support its coal industry.

And to top it all, Jake Sullivan, U.S. National Security Advisor, is imploring OPEC countries to pump more oil! The White House press release notes: “President Biden has made clear that he wants Americans to have access to affordable and reliable energy, including at the pump.” Yes, one can smell 2022 mid-term elections because Democrats do not want to be held responsible for high gas prices, a highly emotive pocketbook issue. However, these statements cause enormous policy confusion about Biden’s commitment to making tough choices on climate issues. If zero emissions are to be achieved by 2050, the White House should allow the prices to rise. Moreover, if Biden supports increasing oil supply abroad, why is he opposing it in the U.S., as Texas Governor Greg Abbott noted?

Models of Policy Change

There are different pathways to policy change. The “information deficit” model suggests that policy change is hampered when policy elites do not have sufficient information. Once these elites are “educated” and there is an “epistemic consensus,” policy change takes place. With easy accessibility to well-written and carefully crafted IPCC reports, it is difficult to accept that policy elites lack information about climate change. Perhaps, what is taking place is “motivated reasoning”: individuals seek information that coheres with their prior beliefs and leads them to their desired conclusions. This means that policy elites are not empty vessels waiting to be nourished by the nectar of new knowledge. Instead, they seek information that they want to hear. Information deficit explanations do not work well in highly polarized political contexts.

Political explanations begin with the premise that most policy institutions favor the status quo. This is partly due to the institutional design (such as the Senate Filibuster) that many democracies deliberately adopt to prevent concentration of power. But sometimes, dramatic events can shatter the status quo, as elites begin to rethink their priorities. If political entrepreneurs can stitch together a coalition, policy change can happen. And sometimes, even without policy windows opening up, these entrepreneurs can create policies that can appeal to multiple constituencies. After all, Baptists and Bootleggers came together to push for prohibition. Politics, rather than the lack of scientific information, is probably leading to policy sluggishness.  

Why is Climate Policy Stalling?

Additional issues are also contributing to climate policy lethargy. Humans have a limited attention span. Climate issues are getting neglected because the policy space is getting crowded by new and sensational non-climate issues. Taliban’s rapid advance in Afghanistan is stunning, and its aftermath is most disturbing. Western countries are in a panic mode to evacuate embassies with “Saigon type” exit from Kabul. The Afghanistan crisis is creating a new wave of refugees seeking safety in Europe, abetting a nationalist backlash. The debate on “who lost Afghanistan” will probably dominate the U.S. policy discourse with the usual blame game.  

Closer to home, the resurgence of COVID and the debate about masks and vaccines are igniting political passions. School and college reopening controversy will probably take a chunk of policy space and attention span.

Other dramatic issues will make demands on the attention span as well: crime waves in many cities (the top issue in the New York Mayoral race), the Cuomo scandal, and Newsom’s recall.

Is there Hope on the Climate Front?

The good news is that the renewable energy industry is growing despite COVID-induced recession. A key reason is that the prices of both solar and wind are now  competitive with coal. This means that electric utilities will deploy their political muscle to get favorable renewable policies at the state level. For example, the legislature in a Red state such as Indiana has prohibited county governments from using zoning ordinances against renewable energy.

The automobile industry seems to be pushing EVs as well. Although the Senate’s $1.2 trillion infrastructure plan has provided only $7.5 billion for E.V. charging stations (as opposed to $15 billion Biden had asked for), the automobile industry and electric utilities (with their massive new investments in renewables) are now getting locked into a new technological trajectory . This means that they have strong incentives to create a national charging station network.

Although the federal government may be underperforming on climate issues, the private sector has embraced them. Wall Street also seems to be keeping pace with Main Street and the Silicon Valley. Of course, one might view industry’s newfound love for Environmental-Social-Governance (ESG) issues as hype, simply replacing Corporate Social Responsibility (CSR). It remains to be seen if climate leaders such as BlackRock can bring about measurable change in corporate policies on climate issues.

In sum, the climate policy optimism of the first 100 days of the Biden administration seems to be wearing off. This is disturbing because Republicans are expected to retake the House (and possibly the Senate as well) in the 2022 midterm elections. Thus, the window of opportunity to enact aggressive federal climate policy is slowly closing. Climate policy requires vigorous political entrepreneurship to bring about policy change in the next 12 months.

Planeta queima, Folha assopra (Folha de S.Paulo)

Leitores pedem mais destaque para a crise do clima e demissão de colunista

José Henrique Mariante – Ombudsman

14.ago.2021 às 23h15

“A atividade humana está alterando o clima da Terra de maneira ‘sem precedentes’ em centenas de milhares de anos, com algumas mudanças já inevitáveis e ‘irreversíveis’, alertaram cientistas do clima.”

“Países atrasaram tanto a contenção de emissões de combustíveis fósseis que já não podem mais interromper a intensificação do aquecimento global pelos próximos 30 anos, ainda que exista uma janela para prevenir o futuro mais angustiante, concluiu um grande relatório científico da ONU.”

“Pela primeira vez, os cientistas do IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudança do Clima da ONU) quantificaram em um relatório o aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos ligados às mudanças climáticas.”

Se é pelo dedo que se conhece o gigante, os primeiros parágrafos do noticiário mais importante do ano sobre a crise do clima mostra como o assunto está longe de um senso comum. As três aberturas acima foram cometidas por, respectivamente, The Guardian, The New York Times e Folha. A diferença de tom não é pequena: o apocalipse está próximo para o diário britânico; políticos precisam acordar antes que seja tarde segundo o americano; a ciência mostra que algo ocorre, diz o brasileiro.

Ilustração Carvall publicada no dia 15 de agosto de 2021. Nela um globo terrestre amarelo e vermelho, esta dentro de uma frigideira que esta sobre o fogo.
Carvall

O destaque da notícia nos três jornais também apresentou muitas diferenças. Valendo-se do fuso horário, o Times deu a notícia como manchete na edição impressa de segunda-feira (9) e manteve o assunto na capa no dia seguinte. O tratamento no site foi semelhante. O Guardian apurou o conteúdo do relatório com políticos e ONGs e adiantou que o tom do alerta seria grave já no domingo. Deu duas manchetes seguidas no impresso e 12 títulos em seu site apenas na segunda, além de um vídeo.

A Folha foi bem mais econômica. Resolveu a questão em três textos. No site, na segunda de manhã, o assunto não aparecia nem no primeiro scroll, a parte de cima da Home Page, mais nobre e de maior audiência. Onde estava, a chamada tinha peso parecido com o dado para uma nota sobre venda de Porsches no Brasil. O título principal dizia apenas que a “crise climática já agrava secas, tempestades e temperaturas”.

Em crítica interna. este ombudsman observou que o tratamento não condizia com o tamanho da notícia e que a comparação com a mídia internacional e até com concorrentes locais não era favorável. O destaque aumentou um pouco nas horas seguintes e a palavra “irreversível” foi acrescida ao enunciado original.

Na terça, em seu impresso, a Folha preferiu dar manchete para o desfile militar no bananal de Jair Bolsonaro. Clima virou um título, na parte debaixo da Primeira Página, em uma coluna. O Bolsa Família reloaded do presidente candidato mereceu duas colunas. Há, é claro, problemas em demasia no país, mas a opção da Folha restou entre as exceções em um dia importante.

Dos concorrentes diretos O Globo e O Estado de S.Paulo aos grandes jornais de Estados Unidos, Reino Unido e Europa, incluindo os econômicos The Wall Street Journal e Financial Times, todas as manchetes foram ocupadas pelo documento do IPCC. Com ou sem alarmismo, mas refletindo corretamente a amplitude do problema, a dimensão da notícia.

Leitores reclamaram. Alguns em tom ativista, cobrando da Folha comprometimento com a causa ambiental. Outros com pura preocupação, aquela que se sente diante do noticiário já quase diário de incêndios florestais, ondas de calor, inundações e secas pelo planeta. O temor que várias cidades brasileiras já sentem diante do racionamento de água. E o que vamos sentir todos daqui a pouco diante da falta de energia se o governo federal mantiver a incompetência de hábito.

No meio de tudo isso, surgiu um prenúncio de mudança. O jornal, na terça, padronizou que os eventos extremos devem ser tratados preferencialmente como “crise do clima”. Na quarta, porém, mais uma revolta se instalou na caixa de entrada. Leandro Narloch, de volta à Folha, repetiu argumentos negacionistas para falar de “aquecimento global” em sua coluna de reestreia.

Leitores furiosos listaram as polêmicas que cercam o jornalista conservador. Chamaram-no de homofóbico e racista. Pediram sua demissão, anunciaram o cancelamento de assinaturas do jornal e do UOL.

O episódio reforça as contradições da Folha na cobertura do clima. Sua brava equipe de Ciência faz excelente trabalho, tem bons analistas e cobertura consistente da Amazônia, mas isso é pouco para enfrentar um desafio multidisciplinar.

Crise climática precisa virar real prioridade, pauta que se impõe ao público pelo simples fato de que ela irá se impor de qualquer maneira. Não é mais questão de acreditar ou não em cientistas ou de pirralhas anunciando o fim do mundo.

O país está na berlinda na questão ambiental. A Folha não precisa ficar junto.

‘How lucky do you feel?’: The awful risks buried in the IPCC report (Sydney Morning Herald)

smh.com.au

Peter Hannam

The latest landmark climate science report goes much further than previous ones in providing estimates of how bad things might get as the planet heats up, even if a lack of data may mean it underestimates the perils.

Scientists have used the seven years since the previous assessment report of the Intergovernmental Panel of Climate Change (IPCC) to narrow the uncertainties around major issues, such as how much the planet will warm if we double atmospheric levels of carbon dioxide and other greenhouse gases.

While temperatures have risen largely in lockstep with rising CO2, this IPCC report examines in much more detail the risks of so-called abrupt changes, when relatively stable systems abruptly and probably irreversibly shift to a new state.

Michael Mann, director of the Pennsylvania State University’s Earth System Science and one of the world’s most prominent climate researchers, says the models are not capturing all the risks as the climate heats up.

Running AMOC

Perhaps the most prominent of these threats is a possible stalling of the Atlantic Meridional Overturning Circulation (AMOC). Also known as the Gulf Stream, it brings tropic water north from the Caribbean, keeping northern Europe much warmer than its latitude might otherwise suggest, and threatening massive disruptions if it slows or stops.

“Where the models have underestimated the impact is with projections of ice melt, the AMOC, and – I argue in my own work – the uptick on extreme weather events,” Professor Mann tells the Herald and The Age.

Stefan Rahmstorf, head of research at the Potsdam Institute for Climate Impact Research, agrees that climate models have not done a good job of reproducing the so-called cold blob in the subpolar Atlantic that is forming where melting Greenland ice is cooling the subpolar Atlantic.

Breaking up: The US Coast Guard Icebreaker Healy on a research cruise in the Chukchi Sea of the Arctic Ocean.
Breaking up: The US Coast Guard Icebreaker Healy on a research cruise in the Chukchi Sea of the Arctic Ocean. Credit:AP

If they are not picking that blob up, “should we trust those models on AMOC stability?” Professor Rahmstorf asks.

The IPCC’s language, too, doesn’t necessarily convey the nature of the threat, much of which will be detailed in the second AR6 report on the impacts of climate change, scheduled for release next February.

“Like just stating the AMOC collapse by 2100 is ‘very unlikely’ – that was in a previous report – it sounds reassuring,” Professor Rahmstorf said. “Now the IPCC says they have ‘medium confidence’ that it won’t happen by 2100, whatever that means.”

West Antarctica has enough ice to raise global sea levels by more than 3 metres if it melts.
West Antarctica has enough ice to raise global sea levels by more than 3 metres if it melts.Credit:Ian Joughin

West Antarctic melt

Another potential tipping point is the possible disintegration of the West Antarctic ice sheet. Much of the sheet lies below sea level and as the Southern Ocean warms, it will melt causing it to “flow” towards the sea in a process that is expected to be self-sustaining.

This so-called marine ice sheet instability is identified in the IPCC report as likely resulting in ice mass loss under all emissions scenarios. There is also “deep uncertainty in projections for above 3 degrees of warming”, the report states.

Containing enough water to lift sea levels by 3.3 metres, it matters what happens to the ice sheet. As Andrew Mackintosh, an ice expert at Monash University, says, the understanding is limited: “We know more about the surface of Mars than the ice sheet bed under the ice.”

Permafrost not so permanent

Much has been made about the so-called “methane bomb” sitting under the permafrost in the northern hemisphere. As the Arctic has warmed at more than twice the pace of the globe overall, with heatwaves of increasing intensity and duration, it is not surprising that the IPCC has listed the release of so-called biogenic emissions from permafrost thaw as among potential tipping points.

These emissions could total up to 240 gigatonnes of CO2-equivalent which, if released, would add an unwanted warming boost.

The IPCC lists as “high” the probability of such releases during this century, adding there is “high confidence” that the process is irreversible at century scales.

“In some cases abrupt changes can occur in Earth System Models but don’t on the timescales of the projections (for example, an AMOC collapse),” said Peter Cox, a Professor of Climate System Dynamics at the UK’s University of Exeter. “In other cases the processes involved are not yet routinely included in ESMs [such as] CO2 and methane release from deep permafrost.”

“In the latter cases IPCC statements are made on the basis of the few studies available, and are necessarily less definitive,” he said.

Other risks

From the Amazon rainforest to the boreal forests of Russia and Canada, there is a risk of fire and pests that could trigger dieback and transform those regions.

Australia’s bush faces an increased risk of bad fire weather days right across the continent, the IPCC notes. How droughts, heatwaves and heavy rain and other extreme events will play out at a local level is also not well understood.

Ocean acidification and marine heatwaves also mean the world’s coral reefs will be much diminished at more than 1.5 degrees of warming. “You can kiss it goodbye as we know it,” says Sarah Perkins-Kirkpatrick, a climate researcher at the University of NSW, said.

Global monsoons, which affect billions of people including those on the Indian subcontinent, are likely to increase their rainfall in most parts of the world, the IPCC said.

Andy Pitman, director of the ARC Centre of Excellence for Climate Extremes, said policymakers need to understand that much is riding on these tipping points not being triggered as even one or two of them would have long-lasting and significant effects. “How lucky do you feel?” Professor Pitman says.

The Biggest uncertainty

Christian Jakob, a Monash University climate researcher, said that while there remain important uncertainties, science is honing most of those risks down.

Much harder to gauge, though, is which emissions path humans are going to take. Picking between the five scenarios ranging from low to high that we are going to choose is “much larger than the uncertainty we have in the science,” Professor Jakob said.

Crise do clima afeta saúde individual com mais dias de calorão e tempo seco; entenda (Folha de S.Paulo)

Aumento das inundações também está entre mudanças previstas por painel da ONU

Phillippe Watanabe – São Paulo

14.ago.2021 às 12h00

OK, você já entendeu que a crise do clima é para valer e causada pela atividade humana, como mostrou o relatório recente do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima). Agora, como isso pode afetar seu dia a dia?

O impacto do aumento da temperatura média na Terra é planetário, com elevação do nível do mar e alteração de ecossistemas inteiros, entre outras mudanças.

Alterações regionais do clima, com maior frequência de eventos extremos, já são percebidas e se intensificarão nos próximos anos, com consequências diretas na saúde de todos.

No Brasil, alguns estados conviverão com mais dias de calorão, que podem ser prejudiciais à saúde a ponto de provocar a morte de idosos.

Em outros, chuvas intensas se tornarão mais recorrentes, ocasionando inundações que aumentam o risco de doenças, quando não destroem bairros e cidades.

Por fim, as secas também devem ficar mais intensas, o que pode agravar problemas respiratórios.

Além disso, tanto as chuvas intensas quanto as secas prejudicam lavouras, aumentando o preço dos alimentos.

Um exemplo prático de aumento de temperatura está no Sudeste e no Sul do Brasil. Segundo o cenário mais otimista do IPCC, até 2040 os dias com termômetros acima de 35°C passarão de 26 por ano (média de 1995 a 2014) para 32. Num cenário intermediário, até o final do século esse número pode chegar a 43, um aumento de mais de 65% em relação à situação recente.

No Centro-Oeste, o aumento do calorão é ainda mais severo. No cenário intermediário, do IPCC, a média de 53 dias por ano com termômetros acima de 35°C salta para cerca de 72 até 2040 e para 108 até o fim do século, ou pouco mais de um trimestre de temperatura extrema.

​As consequências para a saúde são graves. Ondas de calor extremo podem causar hipertermia, que afeta os órgãos internos e provoca lesões no coração, nas células musculares e nos vasos sanguíneos. São danos que podem levar à morte.

Homem empurra carrinho com frutas em rua inundada em Manaus, que enfrentou, nos últimos meses, a maior cheia já registrada do rio Negro
Homem empurra carrinho com frutas em rua inundada em Manaus, que enfrentou, nos últimos meses, a maior cheia já registrada do rio Negro – Michael Dantas/AFP

Em junho, uma onda de calor nos estados de Oregon e Washington, nos Estados Unidos, custou a vida de centenas de pessoas. Segundo reportagem do jornal The New York Times, foram registrados cerca de 600 óbitos em excesso no período.

Além do calor, a crise do clima deve tornar mais frequentes os períodos de seca e os dias sem chuva em muitas regiões. É o caso da Amazônia.

Dados do IPCC apontam que, na região Norte, no período 1995-2014 eram em média 43 dias consecutivos sem chuva por ano, que podem aumentar para 51, com períodos 10% mais secos até 2040.

Situação similar deve ocorrer no Centro-Oeste, que tinha 69 dias consecutivos sem chuva por ano, que podem ir a 76, com períodos 13% mais secos.

Períodos mais secos nessas regiões preocupam por causa das queimadas. Na Amazônia, por exemplo, a época sem chuvas é associada à intensificação de processos de desmatamento e de incêndios.

As queimadas na região amazônica têm relação com piora da qualidade do ar e consequentes problemas respiratórios. A Fiocruz e a ONG WWF-Brasil estimam que estados amazônicos com índices elevados de queimadas tenham gastado, em dez anos, quase R$ 1 bilhão com hospitalizações por doenças respiratórias provavelmente relacionadas à fumaça dos incêndios.

No ano passado, o Pantanal passou por sua pior seca dos últimos 60 anos, estiagem que ainda pode continuar por até cinco anos, segundo afirmou à época a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. A situação fez explodir o número de queimadas na região.

O IPCC também aponta aumento da frequência e da intensidade de chuvas extremas e enchentes em diversas regiões do Brasil.

Além dos danos óbvios na infraestrutura das cidades, as inundações provocam problemas de saúde. Hepatite A (transmitida de modo oral-fecal, ou seja, por alimentos e água contaminada) e leptospirose (com transmissão a partir do contato com urina de ratos) são suspeitos conhecidos, mas há também o risco de acidentes com animais peçonhentos, já que cobras e escorpiões podem procurar abrigos dentro das casas.

Manaus tornou-se exemplo recente desse tipo de situação. A cidade enfrentou uma cheia histórica, a maior desde o início das medições, há 119 anos. As águas do rio Negro provocaram inundações com duração superior a um mês na principal capital da região amazônica. Seis das dez maiores cheias já registradas no rio ocorreram no século 21, ou seja, nas últimas duas décadas.

Ruas da região do porto de Manaus tiveram que ser interditadas e foi necessária a construção de passarelas sobre as vias alagadas. Enquanto isso, comerciantes fizeram barreiras com sacos de areia e jogaram cal na água parada para tentar neutralizar o cheiro de fezes.

Em meio à inundação em igarapés, houve acúmulo de lixo, que chegou a cobrir toda a área superficial da água. Dentro das casas, moradores usaram plataformas de madeira (chamadas de marombas) para suspender móveis e eletrodomésticos.

As enchentes não são exclusividade amazônica. Elas também ocorrem na região Sudeste, em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo.

Pouco tempo depois da cheia em Manaus, a Europa também viu chuvas intensas concentradas em um curto espaço de tempo causarem inundações severas, principalmente na Alemanha. Além da destruição de vias públicas e imóveis, houve mais de uma centena de mortes.

Também no mesmo período, a China teve que lidar com grandes precipitações e perda de vidas humanas pelas inundações, que chegaram a encher de água o metrô, deixando pessoas presas. Foram as piores chuvas em 60 anos em Zhengzhou, capital da província de Henan.

Em termos globais, um estudo recente apontou o aumento da população exposta a inundações. De 2000 a 2015, de 255 milhoes a 290 milhões de pessoas foram diretamente afetadas por enchentes.

Atlas

Umas das novidades do novo relatório do IPCC é o espaço dedicado às emergências climáticas regionais e, relacionado a isso, o Atlas interativo, uma ferramenta que permite o acesso às informações do clima de diferentes regiões do mundo .

Segundo Lincoln Alves, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e autor-líder do Atlas do IPCC, a ferramenta pretende facilitar o acesso a informações normalmente complexas. “É visível a mudança do clima”, afirma o pesquisador.

A partir do Atlas, diz Alves, é possível que comunidades, empresas e até esferas do governo consigam olhar de forma mais regional para os efeitos da crise do clima.

A ferramenta permite ver a história climática da Terra e observar as projeções para diferentes variáveis em diferentes cenários de emissões —e de aquecimento, como 1,5°C e 2°C— apontados pelo IPCC.


PRINCIPAIS CONCLUSÕES DO RELATÓRIO DO IPCC

  • Aumento de temperatura provocada pelo ser humano desde 1850-1900 até 2010-2019: de 0,8°C a 1,21°C
  • Os anos de 2016 a 2020 foram o período de cinco anos mais quentes de 1850 a 2020
  • De 2021 a 2040, um aumento de temperatura de 1,5°C é, no mínimo, provável de acontecer em qualquer cenário de emissões
  • A estabilização da temperatura na Terra pode levar de 20 a 30 anos se houver redução forte e sustentada de emissões
  • O oceano está esquentando mais rápido —inclusive em profundidades maiores do que 2.000 m— do que em qualquer período anterior, desde pelo menos a última transição glacial. É extremamente provável que as atividades humanas sejam o principal fator para isso
  • O oceano continuará a aquecer por todo o século 21 e provavelmente até 2300, mesmo em cenários de baixas emissões
  • O aquecimento de áreas profundas do oceano e o derretimento de massas de gelo tende a elevar o nível do mar, o que tende a se manter por milhares de anos
  • Nos próximos 2.000 anos, o nível médio global do mar deve aumentar 2 a 3 metros, se o aumento da temperatura ficar contido em 1,5°C. Se o aquecimento global ficar contido a 2°C, o nível deve aumentar de 2 a 6 metros. No caso de 5°C de aumento de temperatura, o mar subirá de 19 a 22 metros

The new IPCC Report includes – get this, good news (Yale Climate Connections)

Yale Climate Connections

By Dana Nuccitelli August 12, 2021

As the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) released its Sixth Assessment Report, summarized nicely on these pages by Bob Henson, much of the associated media coverage carried a tone of inevitable doom.

These proclamations of unavoidable adverse outcomes center around the fact that in every scenario considered by IPCC, within the next decade average global temperatures will likely breach the aspirational goal set in the Paris climate agreement of limiting global warming to 1.5 degrees Celsius (2.7 degrees Fahrenheit) above pre-industrial temperatures. The report also details a litany of extreme weather events like heatwaves, droughts, wildfires, floods, and hurricanes that will all worsen as long as global temperatures continue to rise.

While United Nations Secretary-General António Guterres rightly called the report a “code red for humanity,” tucked into it are details illustrating that if  BIG IF top-emitting countries respond to the IPCC’s alarm bells with aggressive efforts to curb carbon pollution, the worst climate outcomes remain avoidable.

The IPCC’s future climate scenarios

In the Marvel film Avengers: Infinity War, the Dr. Strange character goes forward in time to view 14,000,605 alternate futures to see all the possible outcomes of the Avengers’ coming conflict. Lacking the fictional Time Stone used in this gambit, climate scientists instead ran hundreds of simulations of several different future carbon emissions scenarios using a variety of climate models. Like Dr. Strange, climate scientists’ goal is to determine the range of possible outcomes given different actions taken by the protagonists: in this case, various measures to decarbonize the global economy.

The scenarios considered by IPCC are called Shared Socioeconomic Pathways (SSPs). The best-case climate scenario, called SSP1, involves a global shift toward sustainable management of global resources and reduced inequity. The next scenario, SSP2, is more of a business-as-usual path with slow and uneven progress toward sustainable development goals and persisting income inequality and environmental degradation. SSP3 envisions insurgent nationalism around the world with countries focusing on their short-term domestic best interests, resulting in persistent and worsening inequality and environmental degradation. Two more scenarios, SSP4 and SSP5, consider even greater inequalities and fossil fuel extraction, but seem at odds with an international community that has agreed overwhelmingly to aim for the Paris climate targets.

The latest IPCC report’s model runs simulated two SSP1 scenarios that would achieve the Paris targets of limiting global warming to 1.5 and 2°C (2.7 and 3.6°F); one SSP2 scenario in which temperatures approach 3°C (5.4°F) in the year 2100; an SSP3 scenario with about 4°C (7.2°F) global warming by the end of the century; and one SSP5 ‘burn all the fossil fuels possible’ scenario resulting in close to 5°C (9°F), again by 2100.

Projected global average surface temperature change in each of the five SSP scenarios. (Source: IPCC Sixth Assessment Report)

The report’s SSP3-7.0 pathway (the latter number represents the eventual global energy imbalance caused by the increased greenhouse effect, in watts per square meter), is considered by many experts to be a realistic worst-case scenario, with global carbon emissions continuing to rise every year throughout the 21st century. Such an outcome would represent a complete failure of international climate negotiations and policies and would likely result in catastrophic consequences, including widespread species extinctions, food and water shortages, and disastrous extreme weather events.

Scenario SSP2-4.5 is more consistent with government climate policies that are currently in place. It envisions global carbon emissions increasing another 10% over the next decade before reaching a plateau that’s maintained until carbon pollution slowly begins to decline starting in the 2050s. Global carbon emissions approach but do not reach zero by the end of the century. Even in this unambitious scenario, the very worst climate change impacts might be averted, although the resulting climate impacts would be severe.

Most encouragingly, the report’s two SSP1 scenarios illustrate that the Paris targets remain within reach. To stay below the main Paris target of 2°C (3.6°F) warming, global carbon emissions in SSP1-2.6 plateau essentially immediately and begin to decline after 2025 at a modest rate of about 2% per year for the first decade, then accelerating to around 3% per year the next decade, and continuing along a path of consistent year-to-year carbon pollution cuts before reaching zero around 2075. The IPCC concluded that once global carbon emissions reach zero, temperatures will stop rising. Toward the end of the century, emissions in SSP1-2.6 move into negative territory as the IPCC envisions that efforts to remove carbon from the atmosphere via natural and technological methods (like sequestering carbon in agricultural soils and scrubbing it from the atmosphere through direct air capture) outpace overall fossil fuel emissions.

Meeting the aspirational Paris goal of limiting global warming to 1.5°C (2.7°F) in SSP1-1.9 would be extremely challenging, given that global temperatures are expected to breach this level within about a decade. This scenario similarly envisions that global carbon emissions peak immediately and that they decline much faster than in SSP1-2.6, at a rate of about 6% per year from 2025 to 2035 and 9% per year over the following decade, reaching net zero by around the year 2055 and becoming net negative afterwards.

Global carbon dioxide emissions (in billions of tons per year) from 2015 to 2100 in each of the five SSP scenarios. (Source: IPCC Sixth Assessment Report)

For perspective, global carbon emissions fell by about 6-7% in 2020 as a result of restrictions associated with the COVID-19 pandemic and are expected to rebound by a similar amount in 2021. As IPCC report contributor Zeke Hausfather noted, this scenario also relies on large-scale carbon sequestration technologies that currently do not exist, without which global emissions would have to reach zero a decade sooner.

More warming means more risk

The new IPCC report details that, depending on the region, climate change has already worsened extreme heat, drought, fires, floods, and hurricanes, and those will only become more damaging and destructive as temperatures continue to rise. The IPCC’s 2018 “1.5°C Report” had entailed the differences in climate consequences in a 2°C vs. 1.5°C world, as summarized at this site by Bruce Lieberman.

Consider that in the current climate of just over 1°C (2°F) warmer than pre-industrial temperatures, 40 countries this summer alone have experienced extreme flooding, including more than a year’s worth of rain falling within 24 hours in Zhengzhou, China. Many regions have also experienced extreme heat, including the deadly Pacific Northwest heatwave and dangerously hot conditions during the Olympics in Tokyo. Siberia, Greece, Italy, and the US west coast are experiencing explosive wildfires, including the “truly frightening fire behavior” of the Dixie fire, which broke the record as the largest single wildfire on record in California. The IPCC report warned of “compound events” like heat exacerbating drought, which in turn fuels more dangerous wildfires, as is happening in California.

Western North America (WNA) and the Mediterranean (MED) regions are those for which climate scientists have the greatest confidence that human-caused global warming is exacerbating drought by drying out the soil. (Source: IPCC Sixth Assessment Report)
The southwestern United States and Mediterranean are also among the regions for which climate scientists have the greatest confidence that climate change will continue to increase drought risk and severity. (Source: IPCC Sixth Assessment Report)

The IPCC report notes that the low-emissions SSP1 scenarios “would lead to substantially smaller changes” in these sorts of climate impact drivers than the higher-emissions scenarios. It also points out that with the world currently at around 1°C of warming, the intensity of extreme weather will be twice as bad compared to today’s conditions if temperatures reach 2°C (1°C hotter than today) than if the warming is limited to 1.5°C (0.5°C hotter than today), and quadruple as bad if global warming reaches 3°C (2°C hotter than today). For example, what was an extreme once-in-50-years heat wave in the late-1800s now occurs once per decade, which would rise to almost twice per decade at 1.5°C,  and nearly three times per decade at 2°C global warming.

The increasing frequency and intensity of what used to be 1-in-50-year extreme heat as global temperatures rise. (Source: IPCC Sixth Assessment Report)

Climate’s fate has yet to be written

At the same time, there is no tipping point temperature at which it becomes “too late” to curb climate change and its damaging consequences. Every additional bit of global warming above current temperatures will result in increased risks of worsening extreme weather of the sorts currently being experienced around the world. Achieving the aspirational 1.5°C Paris target may be politically infeasible, but most countries (137 total) have either committed to or are in the process of setting a target for net zero emissions by 2050 (including the United States) or 2060 (including China).

That makes the SSP1 scenarios and limiting global warming to less than 2°C a distinct possibility, depending on how successful countries are at following through with decarbonization plans over the coming three decades. And with its proposed infrastructure bipartisan and budget reconciliation legislative plans – for which final enactment of each remains another big IF – the United States could soon implement some of the bold investments and policies necessary to set the world’s second-largest carbon polluter on a track consistent with the Paris targets.

As Texas Tech climate scientist Katharine Hayhoe put it,

Again and again, assessment after assessment, the IPCC has already made it clear. Climate change puts at risk every aspect of human life as we know it … We are already starting to experience those risks today; but we know what we need to do to avoid the worst future impacts. The difference between a fossil fuel versus a clean energy future is nothing less than the future of civilization as we know it.

Back to the Avengers: They had only one chance in 14 million to save the day, and they succeeded. Time is running short, but policymakers’ odds of meeting the Paris targets remain much better than that. There are no physical constraints playing the role of Thanos in our story; only political barriers stand between humanity and a prosperous clean energy future, although those can sometimes be the most difficult types of barriers to overcome.

Also see:    Key takeaways from the new IPCC report

Eight key takeaways from the IPCC report that prove we need to put in the work to fight climate change (Technology News, Firstpost)

firstpost.com


The new IPCC report is “a code red for humanity.”

Aug 13, 2021 20:25:56 IST

The new IPCC report is “a code red for humanity”, says UN Secretary-General António Guterres.

Established in 1988 by United Nations Environment Programme (UNEP) and the World Meteorological Organisation (WMO), the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) assesses climate change science. Its new report is a warning sign for policy makers all over the world.

On 26 October 2014, Peia Kararaua, 16, swims in the flooded area of Aberao village in Kiribati. Kiribati is one of the countries most affected by sea level rise. During high tides many villages become inundated making large parts of them uninhabitable.....On 22 March 2017, a UNICEF report projects that some 600 million children – or 1 in 4 children worldwide – will be living in areas where water demand far outstrips supply by 2040. Climate change is one of the key drivers of water stress, which occurs when more than 80 per cent of the water available for agriculture, industry and domestic use is withdrawn annually. According to the report “Thirsting for a Future”, warmer temperatures, rising sea levels, increased floods, droughts and melting ice affect the quality and availability of water. Population growth, increased water consumption, and an even higher demand for water largely due to industrialization, are also draining water resources worldwide, forcing children to use unsafe water, which exposes them to potentially deadly diseases like cholera and diahrroea. The poorest and most vulnerable children will be most impacted, as millions of them already live in areas with low access to safe water and sanitation. The impact of climate change on water sources is not inevitable, the report says, citing a series of recommendations that can help curb its effect on the lives of children.

In this picture taken on 26 October, 2014, Peia Kararaua, 16, swims in the flooded area of Aberao village in Kiribati. Kiribati is one of the countries worst hit by the sea level rise since high tides mean many villages are inundated, making them uninhabitable. Image credit: UNICEF/Sokhin

This was the first time the approval meeting for the report was conducted online. There were 234 authors from the world over who clocked in 186 hours working together to get this report released.

For the first time, the report offers an interactive atlas for people to see what has already happened and what may happen in the future to where they live.

“This report tells us that recent changes in the climate are widespread, rapid and intensifying, unprecedented in thousands of years,” said IPCC Vice-Chair Ko Barrett.

UNEP Executive Director Inger Andersen that scientists have been issuing these messages for more than three decades, but the world hasn’t listened.

Here are the most important takeaways from the report:

Humans are to be blamed

Human activity is the cause of climate change and this is an unequivocal fact. All the warming caused in the pre-industrial times had been generated by the burning of fossil fuels such as coal, oil, wood, and natural gas.

Global temperatures have already risen by 1.1 degrees Celsius since the 19th century. They have reached their highest in over 100,000 years, and only a fraction of that increase has come from natural forces.

Michael Mann told the Independent the effects of climate change will be felt in all corners of the world and will worsen, especially since “the IPCC has connected the dots on climate change and the increase in severe extreme weather events… considerably more directly than previous assessments.”

We will overshoot the 1.5 C mark

According to the report’s highly optimistic-to-reckless scenarios, even if we do everything right and start reducing emissions now, we will still overshoot the 1.5C mark by 2030. But, we will see a drop in temperatures to around 1.4 C.

Control emissions, Earth will do the rest

According to the report, if we start working to bring our emissions under control, we will be able to decrease warming, even if we overshoot the 1.5C limit.

The changes we are living through are unprecedented; however, they are reversible to a certain extent. And it will take a lot of time for nature to heal. We can do this by reducing our greenhouse gas (GHG) emissions. While we might see some benefits quickly, “it could take 20-30 years to see global temperatures stabilise” says the IPCC.

Sea level rise

Global oceans have risen about 20 centimetres (eight inches) since 1900, and the rate of increase has nearly tripled in the last decade. Crumbling and melting ice sheets atop Antarctica (especially in Greenland) have replaced glacier melt as the main drivers.

If global warming is capped at 2 C, the ocean watermark will go up about half a metre over the 21st century. It will continue rising to nearly two metres by 2300 — twice the amount predicted by the IPCC in 2019.

Because of uncertainty over ice sheets, scientists cannot rule out a total rise of two metres by 2100 in a worst-case emissions scenario.

CO2 is at all-time high

CO2 levels were greater in 2019 than they had been in “at least two million years.”  Methane and nitrous oxide levels, the second and third major contributors of warming respectively, were higher in 2019 than at any point in “at least 800,000 years,” reported the Independent.

Control methane

The report includes more data than ever before on methane (CH4), the second most important greenhouse gas after CO2, and warns that failure to curb emissions could undermine Paris Agreement goals.

Human-induced sources are roughly divided between leaks from natural gas production, coal mining and landfills on one side, and livestock and manure handling on the other.

CH4 lingers in the atmosphere only a fraction as long as CO2, but is far more efficient at trapping heat. CH4 levels are their highest in at least 800,000 years.

Natural allies are weakened

Since about 1960, forests, soil and oceans have absorbed 56 percent of all the CO2 humanity has released into the atmosphere — even as those emissions have increased by half. Without nature’s help, Earth would already be a much hotter and less hospitable place.

But these allies in our fight against global heating — known in this role as carbon sinks — are showing signs of saturatation, and the percentage of human-induced carbon they soak up is likely to decline as the century unfolds.

Suck it out

The report suggests that warming could be brought back down via “negative emissions.” We could cool down the planet by sucking out or sequestering the carbon from the atmosphere. While this is a viable suggestion that has been thrown around and there have been small-scale studies that have tried to do this, the technology is not yet perfect. The panel said that could be done starting about halfway through this century but doesn’t explain how, and many scientists are skeptical about its feasibility.

Cities will bear the brunt

Experts warn that the impact of some elements of climate change, like heat, floods and sea-level rise in coastal areas, may be exacerbated in cities. Furthermore, IPCC experts warn that low-probability scenarios, like an ice sheet collapse or rapid changes in ocean circulation, cannot be ruled out.

Also read: Leaders and experts speak up after the release of the new IPCC report

Clima nos apavora justamente quando conseguimos sobreviver a ele (Folha de S.Paulo)

Luta contra o aquecimento global precisa de inovadores, e não de ativistas obcecados com o apocalipse

Leandro Narloch – artigo original aqui.

11.ago.2021 às 8h56

Na sua opinião, o que aconteceu nos últimos cem anos com o número total de mortes causadas por furacões, inundações, secas, ondas de calor e outros desastres climáticos? Peço que escolha uma destas alternativas:

  • a) Aumentou mais de 800%
  • b) Aumentou cerca de 50%
  • c) Manteve-se constante
  • d) Diminuiu cerca de 50%
  • e) Diminuiu mais de 80%

Como a população mundial cresceu de 1,8 bilhão em 1921 para 8 bilhões em 2021, é razoável cravar as respostas B ou C, pois o fato de haver mais pessoas resultaria em mais vítimas. Muitos leitores devem ter escolhido a primeira opção, tendo em vista as notícias assustadoras do relatório do IPCC desta semana.

A alternativa correta, porém, é a última. As mortes por desastres naturais diminuíram 87% desde a década de 1920 até os anos 2010, segundo dados coletados pelo Our World in Data.

Passaram de 540 mil por ano para 68 mil. A taxa em relação à população teve picos de 63 mortes por 100 mil habitantes em 1921, e 176 em 1931. Hoje está em 0,15.

Esses números levam a dois paradoxos interessantes sobre a relação entre o homem e o clima. O primeiro lembra o Paradoxo de Spencer –referência a Herbert Spencer, para quem “o grau de preocupação pública sobre um problema ou fenômeno social varia inversamente a sua incidência”.

Assim como os ingleses se deram conta da pobreza quando ela começava a diminuir, durante a Revolução Industrial, a humanidade está apavorada com os infortúnios do clima justamente depois de conseguir sobreviver a eles.

O segundo paradoxo: ao mesmo tempo em que emitimos muito (mas muito mesmo) carbono na atmosfera e causamos um grave problema de efeito estufa, também nos tornamos menos vulneráveis à natureza. Na verdade, proteger-se do clima foi um dos principais motivos para termos poluído tanto.

Veja o caso da construção. Produzir cimento consiste grosseiramente em queimar calcário e liberar dióxido de carbono.

Se a indústria de cimento fosse um país, seria o terceiro maior emissor de gases do efeito estufa. Mas essa indústria poluidora permitiu que as pessoas deixassem casas de pau-a-pique ou madeira para dormirem abrigadas em estruturas mais seguras.

Já a fome originada pela seca, principal causa de morte por desastres naturais nos anos 1920, foi resolvida com a criação dos fertilizantes químicos, sistemas de irrigação e a construção de represas e redes de saneamento.

Todas essas atividades causaram aquecimento global –mas não deixam de ser grandes conquistas humanas, que merecem ser celebradas e difundidas entre os pobres que ainda vivem sob risco de morrer durante furacões, secas ou inundações.

Será que a queda histórica das mortes por desastres naturais vai se reverter nos próximos anos, tornando realidade os vaticínios apocalípticos de Greta Thunberg, para quem “bilhões de pessoas morrerão se não tomarmos medidas urgentes”?

O ativista climático Michael Shellenberger, autor do brilhante “Apocalipse Nunca”, que será lançado este mês no Brasil pela editora LVM, acha que não.

Pretendo falar mais sobre o livro de Shellenberger em outras colunas, mas já adianto um dos argumentos: o alarmismo ambiental despreza a capacidade humana de se adaptar e resolver problemas.

“Os Países Baixos, por exemplo, tornaram-se uma nação rica mesmo tendo um terço de suas terras abaixo do nível do mar, incluindo áreas que estão nada menos do que sete metros abaixo do mar”, diz ele.

A luta contra o aquecimento global não precisa de ativistas obcecados com o apocalipse (que geralmente desprezam soluções óbvias, como a energia nuclear). Precisa de tecnologia, de inovadores, de gente que dê mais conforto e segurança à humanidade interferindo na natureza cada vez menos.

We read the 4000-page IPCC climate report so you don’t have to (Quartz)

qz.com

Amanda Shendruk, Tim McDonnell, David Yanofsky, Michael J. Coren

Published August 10, 2021

[Check the original publication here for the text of the report with most important parts highlighted.]


The most important takeaways from the new Intergovernmental Panel on Climate Change report are easily summarized: Global warming is happening, it’s caused by human greenhouse gas emissions, and the impacts are very bad (in some cases, catastrophic). Every fraction of a degree of warming we can prevent by curbing emissions substantially reduces this damage. It’s a message that hasn’t changed much since the first IPCC report in 1990.

But to reach these conclusions (and ratchet up confidence in their findings), hundreds of scientists from universities around the globe spent years combing through the peer-reviewed literature—at least 14,000 papers—on everything from cyclones to droughts.

The final Aug. 9 report is nearly 4,000 pages long. While much of it is written in inscrutable scientific jargon, if you want to understand the scientific case for man-made global warming, look no further. We’ve reviewed the data,  summarized the main points, and created an interactive graphic showing a “heat map” of scientists’ confidence in their conclusions. The terms describing statistical confidence range from very high confidence (a 9 out of 10 chance) to very low confidence (a 1 in 10 chance). Just hover over the graphic [here] and click to see what they’ve written.

Here’s your guide to the IPCC’s latest assessment.

CH 1: Framing, context, methods

The first chapter comes out swinging with a bold political charge: It concludes with “high confidence” that the plans countries so far have put forward to reduce emissions are “insufficient” to keep warming well below 2°C, the goal enshrined in the 2015 Paris Agreement. While unsurprising on its own, it is surprising for a document that had to be signed off on by the same government representatives it condemns. It then lists advancements in climate science since the last IPCC report, as well as key evidence behind the conclusion that human-caused global warming is “unequivocal.”

Highlights

👀Scientists’ ability to observe the physical climate system has continued to improve and expand.

📈Since the last IPCC report, new techniques have provided greater confidence in attributing changes in extreme events to human-caused climate change.

🔬The latest generation of climate models is better at representing natural processes, and higher-resolution models that better capture smaller-scale processes and extreme events have become available.

CH 2: Changing state of the climate system

Chapter 2 looks backward in time to compare the current rate of climate changes to those that happened in the past. That comparison clearly reveals human fingerprints on the climate system. The last time global temperatures were comparable to today was 125,000 years ago, the concentration of atmospheric carbon dioxide is higher than anytime in the last 2 million years, and greenhouse gas emissions are rising faster than anytime in the last 800,000 years.

Highlights

🥵Observed changes in the atmosphere, oceans, cryosphere, and biosphere provide unequivocal evidence of a world that has warmed. Over the past several decades, key indicators of the climate system are increasingly at levels unseen in centuries to millennia, and are changing at rates unprecedented in at least the last 2000 years

🧊Annual mean Arctic sea ice coverage levels are the lowest since at least 1850. Late summer levels are the lowest in the past 1,000 years.

🌊Global mean sea level (GMSL) is rising, and the rate of GMSL rise since the 20th century is faster than over any preceding century in at least the last three millennia. Since 1901, GMSL has risen by 0.20 [0.15–0.25] meters, and the rate of rise is accelerating.

CH 3: Human influence on the climate system

Chapter 3 leads with the IPCC’s strongest-ever statement on the human impact on the climate: “It is unequivocal that human influence has warmed the global climate system since pre-industrial times” (the last IPCC report said human influence was “clear”). Specifically, the report blames humanity for nearly all of the 1.1°C increase in global temperatures observed since the Industrial Revolution (natural forces played a tiny role as well), and the loss of sea ice, rising temperatures, and acidity in the ocean.

🌍Human-induced greenhouse gas forcing is the main driver of the observed changes in hot and cold extremes.

🌡️The likely range of warming in global-mean surface air temperature (GSAT) in 2010–2019 relative to 1850–1900 is 0.9°C–1.2°C. Of that, 0.8°C–1.3°C is attributable to human activity, while natural forces contributed −0.1°C–0.1°C.

😬Combining the attributable contributions from melting ice and the expansion of warmer water, it is very likely that human influence was the main driver of the observed global mean sea level rise since at least 1970.

CH 4: Future global climate: Scenario-based projections and near-term information

Chapter 4 holds two of the report’s most important conclusions: Climate change is happening faster than previously understood, and the likelihood that the global temperature increase can stay within the Paris Agreement goal of 1.5°C is extremely slim. The 2013 IPCC report projected that temperatures could exceed 1.5°C in the 2040s; here, that timeline has been advanced by a decade to the “early 2030s” in the median scenario. And even in the lowest-emission scenario, it is “more likely than not” to occur by 2040.

Highlights

🌡️By 2030, in all future warming scenarios, globally averaged surface air temperature in any individual year could exceed 1.5°C relative to 1850–1900.

🌊Under all scenarios, it is virtually certain that global mean sea level will continue to rise through the 21st century.

💨Even if enough carbon were removed from the atmosphere that global emissions become net negative, some climate change impacts, such as sea level rise, will be not reversed for at least several centuries.

CH 5: Global carbon and other biochemical cycles and feedbacks

Chapter 5 quantifies the level by which atmospheric CO2 and methane concentrations have increased since 1750 (47% and 156% respectively) and addresses the ability of oceans and other natural systems to soak those emissions up. The more emissions increase, the less they can be offset by natural sinks—and in a high-emissions scenario, the loss of forests from wildfires becomes so severe that land-based ecosystems become a net source of emissions, rather than a sink (this is already happening to a degree in the Amazon).

Highlights

🌲The CO2 emitted from human activities during the decade of 2010–2019 was distributed between three Earth systems: 46% accumulated in the atmosphere, 23% was taken up by the ocean, and 31% was stored by vegetation.

📉The fraction of emissions taken up by land and ocean is expected to decline as the CO2 concentration increases.

💨Global temperatures rise in a near-linear relationship to cumulative CO2 emissions. In other words, to halt global warming, net emissions must reach zero.

CH 6: Short-lived climate forcers

Chapter 6 is all about methane, particulate matter, aerosols, hydrofluorocarbons, and other non-CO2 gases that don’t linger very long in the atmosphere (just a few hours, in some cases) but exert a tremendous influence on the climate while they do. In cases, that influence might be cooling, but their net impact has been to contribute to warming. Because they are short-lived, the future abundance and impact of these gases are highly variable in the different socioeconomic pathways considered in the report. These gases have a huge impact on the respiratory health of people around the world.

Highlights

⛽The sectors most responsible for warming from short-lived climate forcers are those dominated by methane emissions: fossil fuel production and distribution, agriculture, and waste management.

🧊In the next two decades, it is very likely that emissions from short-lived climate forcers will cause a warming relative to 2019, in addition to the warming from long-lived greenhouse gases like CO2.

🌏Rapid decarbonization leads to air quality improvements, but on its own is not sufficient to achieve, in the near term, air quality guidelines set by the World Health Organization, especially in parts of Asia and in some other highly polluted regions.

CH 7: The Earth’s energy budget, climate feedbacks, and climate sensitivity

Climate sensitivity is a measure of how much the Earth responds to changes in greenhouse gas concentrations. For every doubling of atmospheric CO2, temperatures go up by about 3°C, this chapter concludes. That’s about the same level scientists have estimated for several decades, but over time the range of uncertainty around that estimate has narrowed. The energy budget is a calculation of how much energy is flowing into the Earth system from the sun. Put together these metrics paint a picture of the human contribution to observed warming.

🐻‍❄️The Arctic warms more quickly than the Antarctic due to differences in radiative feedbacks and ocean heat uptake between the poles.

🌊Because of existing greenhouse gas concentrations, energy will continue to accumulate in the Earth system until at least the end of the 21st century, even under strong emissions reduction scenarios.

☁️The net effect of changes in clouds in response to global warming is to amplify human-induced warming. Compared to the last IPCC report, major advances in the understanding of cloud processes have increased the level of confidence in the cloud feedback cycle.

CH 8: Water cycle changes

This chapter catalogs what happens to water in a warming world. Although instances of drought are expected to become more common and more severe, wet parts of the world will get wetter as the warmer atmosphere is able to carry more water. Total net precipitation will increase, yet the thirstier atmosphere will make dry places drier. And within any one location, the difference in precipitation between the driest and wettest month will likely increase. But rainstorms are complex phenomenon and typically happen at a scale that is smaller than the resolution of most climate models, so specific local predictions about monsoon patterns remains an area of relatively high uncertainty.

Highlights

🌎Increased evapotranspiration will decrease soil moisture over the Mediterranean, southwestern North America, south Africa, southwestern South America, and southwestern Australia.

🌧️Summer monsoon precipitation is projected to increase for the South, Southeast and East Asian monsoon domains, while North American monsoon precipitation is projected to decrease. West African monsoon precipitation is projected to increase over the Central Sahel and decrease over the far western Sahel.

🌲Large-scale deforestation has likely decreased evapotranspiration and precipitation and increased runoff over the deforested regions. Urbanization has increased local precipitation and runoff intensity.

CH 9: Ocean, cryosphere, and sea level change

Most of the heat trapped by greenhouse gases is ultimately absorbed by the oceans. Warmer water expands, contributing significantly to sea level rise, and the slow, deep circulation of ocean water is a key reason why global temperatures don’t turn on a dime in relation to atmospheric CO2. Marine animals are feeling this heat, as scientists have documented that the frequency of marine heatwaves has doubled since the 1980s. Meanwhile, glaciers, polar sea ice, the Greenland ice sheet, and global permafrost are all rapidly melting. Overall sea levels have risen about 20 centimeters since 1900, and the rate of sea level rise is increasing.

Highlights

📈Global mean sea level rose faster in the 20th century than in any prior century over the last three millennia.

🌡️The heat content of the global ocean has increased since at least 1970 and will continue to increase over the 21st century. The associated warming will likely continue until at least 2300 even for low-emission scenarios because of the slow circulation of the deep ocean.

🧊The Arctic Ocean will likely become practically sea ice–free during the seasonal sea ice minimum for the first time before 2050 in all considered SSP scenarios.

CH 10: Linking global to regional climate change

Since 1950, scientists have clearly detected how greenhouse gas emissions from human activity are changing regional temperatures. Climate models can predict regional climate impacts. Where data are limited, statistical methods help identify local impacts (especially in challenging terrain such as mountains). Cities, in particular, will warm faster as a result of urbanization. Global warming extremes in urban areas will be even more pronounced, especially during heatwaves. Although global models largely agree, it is more difficult to consistently predict regional climate impacts across models.

Highlights

⛰️Some local-scale phenomena such as sea breezes and mountain wind systems can not be well represented by the resolution of most climate models.

🌆The difference in observed warming trends between cities and their surroundings can partly be attributed to urbanization. Future urbanization will amplify the projected air temperature change in cities regardless of the characteristics of the background climate.

😕Statistical methods are improving to downscale global climate models to more accurately depict local or regional projections.

CH 11: Weather and climate extreme events in a changing climate

Better data collection, modeling, and means scientists are more confident than ever in understanding the role of rising greenhouse gas concentration in weather and climate extremes.  We are virtually certain humans are behind observed temperature extremes.

Human activity is more making extreme weather and temperatures more intense and frequent, especially rain, droughts, and tropical cyclones. While even 1.5°C of warming will make events more severe, the intensity of extreme events is expected to at least double with 2°C of global warming compared today’s conditions, and quadruple with 3°C of warming. As global warming accelerates, historically unprecedented climatic events are likely to occur.

Highlights

🌡️It is an established fact that human-induced greenhouse gas emissions have led to an increased frequency and/or intensity of some weather and climate extremes since pre-industrial time, in particular for temperature extremes.

🌎Even relatively small incremental increases in global warming cause statistically significant changes in extremes.

🌪️The occurrence of extreme events is unprecedented in the observed record, and will increase with increasing global warming.

⛈️Relative to present-day conditions, changes in the intensity of extremes would be at least double at 2°C, and quadruple at 3°C of global warming.

CH 12: Climate change information for regional impact and for risk assessment

Climate models are getting better, more precise, and more accurate at predicting regional impacts. We know a lot more than we did in 2014 (the release of AR5). Our climate is already different compared ti the early or mid-20th century and we’re seeing big changes to mean temperatures, growing season, extreme heat, ocean acidification, and deoxygenation, and Arctic sea ice loss. Expect more changes by mid-century: more rain in the northern hemisphere, less rain in a few regions (the Mediterranean and South Africa), as well as sea-level rise along all coasts. Overall, there is high confidence that mean and extreme temperatures will rise over land and sea. Major widespread damages are expected, but also benefits are possible in some places.

Highlights

🌏Every region of the world will experience concurrent changes in multiple climate impact drivers by mid-century.

🌱Climate change is already resulting in significant societal and environmental impacts and will induce major socio-economic damages in the future. In some cases, climate change can also lead to beneficial conditions which can be taken into account in adaptation strategies.

🌨️The impacts of climate change depend not only on physical changes in the climate itself, but also on whether humans take steps to limit their exposure and vulnerability.


What we did:

The visualization of confidence is only for the executive summary at the beginning of each chapter. If a sentence had a confidence associated with it, the confidence text was removed and a color applied instead. If a sentence did not have an associated confidence, that doesn’t mean scientists do not feel confident about the content; they may be using likelihood (or certainty) language in that instance instead. We chose to only visualize confidence, as it is used more often in the report. Highlights were drawn from the text of the report but edited and in some cases rephrased for clarity.

‘Star Wars without Darth Vader’ – why the UN climate science story names no villains (Climate Home News)

Published on 12/01/2021, 4:10pm

As the next blockbuster science report on cutting emissions goes to governments for review, critics say it downplays the obstructive role of fossil fuel lobbying

Darth Vader: What would Star Wars be without its villain? (Pic: Pixabay)

By Joe Lo

On Monday, a weighty draft report on how to halt and reverse human-caused global warming will hit the inboxes of government experts. This is the final review before the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) issues its official summary of the science.

While part of the brief was to identify barriers to climate action, critics say there is little space given to the obstructive role of fossil fuel lobbying – and that’s a problem.

Robert Brulle, an American sociologist who has long studied institutions that promote climate denial, likened it to “trying to tell the story of Star Wars, but omitting Darth Vader”.

Tweeting in November, Brulle explained he declined an invitation to contribute to the working group three (WG3) report. “It became clear to me that institutionalized efforts to obstruct climate action was a peripheral concern. So I didn’t consider it worth engaging in this effort. It really deserves its own chapter & mention in the summary.”

In an email exchange with Climate Home News, Brulle expressed a hope the final version would nonetheless reflect his feedback. The significance of obstruction efforts should be reflected in the summary for policymakers and not “buried in an obscure part of the report,” he wrote.

His tweet sparked a lively conversation among scientists, with several supporting his concerns and others defending the IPCC, which aims to give policymakers an overview of the scientific consensus.

David Keith, a Harvard researcher into solar geoengineering, agreed the IPCC “tells a bloodless story, and abstract numb version of the sharp political conflict that will shape climate action”.

Social ecology and ecological economics professor Julia Steinberger, a lead author on WG3, said “there is a lot of self-censorship” within the IPCC. Where authors identify enemies of climate action, like fossil fuel companies, that content is “immediately flagged as political or normative or policy-prescriptive”.

The next set of reports is likely to be “a bit better” at covering the issue than previous efforts, Steinberger added, “but mainly because the world and outside publications have overwhelmingly moved past this, and the IPCC is catching up: not because the IPCC is leading.”

Politics professor Matthew Paterson was a lead author on WG3 for the previous round of assessment reports, published in 2014. He told Climate Home that Brulle is “broadly right” lobbying hasn’t been given enough attention although there is a “decent chunk” in the latest draft on corporations fighting for their interests and slowing down climate action.

Paterson said this was partly because the expertise of authors didn’t cover fossil fuel company lobbying and partly because governments would oppose giving the subject greater prominence. “Not just Saudi Arabia,” he said. “They object to everything. But the Americans [and others too]”.

While the IPCC reports are produced by scientists, government representatives negotiate the initial scope and have some influence over how the evidence is summarised before approving them for publication. “There was definitely always a certain adaptation – or an internalised sense of what governments are and aren’t going to accept – in the report,” said Paterson.

The last WG3 report in 2014 was nearly 1,500 pages long. Lobbying was not mentioned in its 32-page ‘summary for policymakers’ but lobbying against carbon taxes is mentioned a few times in the full report.

On page 1,184, the report says some companies “promoted climate scepticism by providing financial resources to like-minded think-tanks and politicians”. The report immediately balances this by saying “other fossil fuel companies adopted a more supportive position on climate science”.

One of the co-chairs of WG3, Jim Skea, rejected the criticisms as “completely unfair”. He told Climate Home News: “The IPCC produces reports very slowly because the whole cycle lasts seven years… we can’t respond on a 24/7 news cycle basis to ideas that come up.”

Skea noted there was a chapter on policies and institutions in the 2014 report which covered lobbying from industry and from green campaigners and their influence on climate policy. “The volume of climate change mitigation literature that comes out every year is huge and I would say that the number of references to articles which talk about lobbying of all kinds – including industrial lobbying and whether people had known about the science – it is in there and about the right proportions”, he said.

“We’re not an advocacy organisation, we’re a scientific organisation, it’s not our job to take up arms and take one side or another” he said. “That’s the strength of the IPCC. If if oversteps its role, it will weaken its influence” and “undermine the scientific statements it makes”.

A broader, long-running criticism of the IPCC is that it downplays subjects like political science, development studies, sociology and anthropology and over-relies on economists and the people who put together ‘integrated assessment models’ (IAMs), which attempt to answer big questions like how the world can keep to 1.5C of global warming.

Paterson said the IPCC is “largely dominated by large-scale modellers or economists and the representations of others sorts of social scientists’ expertise is very thin”. A report he co-authored on the social make-up of that IPCC working group found that nearly half the authors were engineers or economists but just 15% were from social sciences other than economics. This dominance was sharper among the more powerful authors. Of the 35 Contributing Lead Authors, 20 were economists or engineers,  there was one each from political science, geography and law and none from the humanities.

Wim Carton, a lecturer in the political economy of climate change mitigation at Lund University, said that the IPCC (and scientific research in general) has been caught up in “adulation” of IAMs and this has led to “narrow techno-economic conceptualisations of future mitigation pathways”.

Skea said that there has been lots of material on political science and international relations and even “quite a bit” on moral philosophy. He told Climate Home: “It’s not the case that IPCC is only economics and modelling. Frankly, a lot of that catches attention because these macro numbers are eye-catching. There’s a big difference in the emphasis in [media] coverage of IPCC reports and the balance of materials when you go into the reports themselves.”

According to Skea’s calculations, the big models make up only 6% of the report contents, about a quarter of the summary and the majority of the press coverage. “But there’s an awful lot of bread-and-butter material in IPCC reports which is just about how you get on with it,” he added. “It’s not sexy material but it’s just as important because that’s what needs to be done to mitigate climate change.”

While saying their dominance had been amplified by the media, Skea defended the usefulness of IAMs. “Our audience are governments. Their big question is how you connect all this human activity with actual impacts on the climate. It’s very difficult to make that leap without actually modelling it. You can’t do it with lots of little micro-studies. You need models and you need scenarios to think your way through that connection.”

The IPCC has also been accused of placing too much faith in negative emissions technologies and geo-engineering. Carton calls these technologies ‘carbon unicorns’ because he says they “do not exist at any meaningful scale” and probably never will.

In a recent book chapter, Carton argues: “If one is to believe recent IPCC reports, then gone are the days when the world could resolve the climate crisis merely by reducing emissions. Avoiding global warming in excess of 2°C/1.5°C now also involves a rather more interventionist enterprise: to remove vast amounts of carbon dioxide from the atmosphere, amounts that only increase the longer emissions refuse to fall.”

When asked about carbon capture technologies, Skea said that in terms of deployment, “they haven’t moved on very much” since the last big IPCC report in 2014. He added that carbon capture and storage and bio-energy are “all things that have been done commercially somewhere in the world.”

“What has never been done”, he said, “is to connect the different parts of the system together and run them over all. That’s led many people looking at the literature to conclude that the main barriers to the adoption of some technologies are the lack of policy incentives and the lack of working out good business models to put what would be complex supply chains together – rather than anything that’s standing in the way technically.”

The next set of three IPCC assessment reports was originally due to be published in 2021, but work was delayed by the coronavirus pandemic. Governments and experts will have from 18 January to 14 March to read and comment on the draft for WG3. Dates for a final government review have yet to be set.

Nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas (Pesquisa Fapesp)

05 de junho de 2017

Elton Alisson | Agência FAPESP – O nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas. No Brasil, contudo, onde mais de 60% da população vive em cidades costeiras, não há um estudo integrado da vulnerabilidade dos municípios litorâneos a este e a outros impactos decorrentes das mudanças climáticas, como o aumento da frequência e da intensidade de chuvas. Um estudo desse gênero possibilitaria estimar os danos sociais, econômicos e ambientais e elaborar um plano de ação com o intuito de implementar medidas adaptativas.

As conclusões são do relatório especial do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) sobre “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”, lançado nesta segunda-feira (05/06) durante um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro.

A publicação tem apoio da FAPESP e parte dos estudos nos quais se baseia são resultado do Projeto Metrópole e de outros projetos apoiados pela Fundação no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas, financiado pela Fundação e pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

“A ideia do relatório foi mostrar o estado da arte sobre mudanças de clima e cidades costeiras, baseado em uma exaustiva revisão de publicações internacionais e nacionais sobre o tema, e também identificar lacunas no conhecimento para que os formuladores de políticas públicas e tomadores de decisão no Brasil possam propor e implementar medidas de adaptação”, disse José Marengo, coordenador-geral de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e um dos autores e editores do relatório, à Agência FAPESP.

De acordo com dados do documento, entre 1901 e 2010 o nível médio do mar globalmente aumentou 19 centímetros – com variação entre 17 e 21 centímetros.

Entre 1993 e 2010, a taxa de elevação correspondeu a mais de 3,2 milímetros (mm) por ano – com variação entre 2,8 e 3,6 mm por ano.

No Brasil também há uma tendência de aumento do nível do mar nas regiões costeiras com algum grau de incerteza porque não há registros históricos contínuos e confiáveis, ponderam os autores.

“Ainda não conseguimos detectar o aumento do nível do mar no Brasil por conta das poucas observações existentes e de estudos de modelagem para avaliar os impactos. Mas já identificamos por meio de estudos regionais diversas cidades de médio e grande porte que apresentam alta exposição à elevação do nível relativo do mar e já têm sofrido os impactos desse fenômeno, particularmente na forma de ressacas e inundações”, disse Marengo.

Entre essas cidades, onde 60% da população reside na faixa de 60 quilômetros da costa, estão Rio Grande (RS), Laguna e Florianópolis (SC), Paranaguá (PR), Santos (SP), Rio de Janeiro (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA), Maceió (AL), Recife (PE), São Luís (MA), Fortaleza (CE) e Belém (PA).

Nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, por exemplo, têm sido registradas taxas de aumento do nível médio do mar de 1,8 a 4,2 mm por ano desde a década de 1950.

Na cidade de Santos, no litoral sul paulista, onde está situado o maior porto da América Latina, o nível do mar tem aumentado 1,2 mm por ano, em média, desde a década de 1940. Além disso, ocorreu um aumento significativo na altura das ondas – que alcançava 1 metro em 1957 e passou a atingir 1,3 m, em 2002 – e na frequência de ressacas no município.

Já no Rio de Janeiro, a análise dos dados da estação maregráfica da Ilha Fiscal – que tem a série histórica mais antiga do Brasil e fica no meio da Baía da Guanabara – indica uma tendência média de aumento do nível do mar de mais ou menos 1,3 mm por ano, com base nos dados mensais do nível do mar do período de 1963 a 2011 e com um índice de confiança de 95%.

Por sua vez, em Recife o nível do mar aumentou 5,6 mm entre 1946 e 1988 – o que corresponde a uma elevação de 24 centímetros em 42 anos. A erosão costeira e a ocupação do pós-praia provocaram uma redução da linha de praia em mais de 20 metros na Praia de Boa Viagem – a área da orla mais valorizada da cidade –, apontam os autores do relatório.

“Existem poucas observações como essas em outras regiões do país. Quando tentamos levantar dados dos últimos 40 ou 100 anos sobre o aumento do nível do mar em outras cidades do Nordeste, como Fortaleza, por exemplo, é difícil encontrar”, disse Marengo.

Impactos socioeconômicos

De acordo com os autores do relatório, as mudanças climáticas e um acelerado ritmo de elevação do nível do mar podem causar sérios impactos nas áreas costeiras do Brasil.

Os impactos socioeconômicos seriam mais restritos às vizinhanças das 15 maiores cidades litorâneas, que ocupam uma extensão de 1,3 mil quilômetros da linha costeira – correspondente a 17% da linha costeira do Brasil.

Entre as principais consequências da elevação do nível do mar, entre diversas outras, estão o aumento da erosão costeira, da frequência, intensidade e magnitude das inundações, da vulnerabilidade de pessoas e bens e a redução dos espaços habitáveis.

“Os impactos mais evidentes da elevação do nível do mar são o aumento da frequência das inundações costeiras e a redução da linha de praia. Mas há outros não tão perceptíveis, como a intrusão marinha, em que a água salgada do mar começa a penetrar aquíferos e ecossistemas de água doce”, ressaltou Marengo.

As projeções do quinto relatório (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) são que a elevação do nível do mar globalmente varie entre 0,26 e 0,98 metro até 2100 – em um cenário mais pessimista. O relatório apresenta estimativas similares para a costa brasileira.

Considerando que a probabilidade de inundações aumenta com a elevação do nível do mar pode ser esperada uma maior probabilidade de inundações em áreas que apresentam mais de 40% de mudanças no nível do mar observadas nos últimos 60 anos – como é o caso de várias metrópoles costeiras brasileiras, ressaltam os autores.

As inundações costeiras serão mais preocupantes no litoral do Nordeste, Sul e Sudeste, e também podem afetar o litoral sul e sudoeste da cidade do Rio de Janeiro. Os seis municípios fluminenses mais vulneráveis à elevação do nível do mar, de acordo com estudos apresentados no relatório, são Parati, Angra dos Reis, Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Magé e Campos dos Goytacazes.

“A combinação do aumento do nível do mar com tempestades e ventos mais fortes pode provocar danos bastante altos na infraestrutura dessas cidades”, estimou Marengo.

Exemplo de plano

O documento destaca o Plano Municipal de Adaptação à Mudança de Clima (PMAMC) da cidade de Santos como exemplo de plano de ação para adaptação às mudanças de clima e os seus impactos nas cidades [Leia mais sobre o assunto em http://agencia.fapesp.br/21997/].

A elaboração do plano foi baseada nos resultados do Projeto Metrópole, coordenado por Marengo.

O estudo internacional estimou que a inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.

O estudo é realizado por pesquisadores do Cemaden, dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.

“Nossa intenção é aplicar essa metodologia utilizada em Santos em outras cidades litorâneas brasileiras para termos pelo menos uma estimativa inicial do custo de adaptação à elevação do nível do mar”, disse Marengo.

‘Relatório sobre 1,5ºC trará dilema moral’ (Observatório do Clima)

Vice-presidente do IPCC afirma que próximo documento do grupo, em 2018, pode apresentar a escolha entre salvar países-ilhas e usar tecnologias incipientes de modificação climática

O próximo relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, encomendado para 2018, pode apresentar à humanidade um dilema moral: devemos lançar mão em larga escala de tecnologias ainda não testadas e potencialmente perigosas de modificação do clima para evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5oC? Ou devemos ser prudentes e evitar essas tecnologias, colocando em risco a existência de pequenas nações insulares ameaçadas pelo aumento do nível do mar?

Quem expõe a dúvida é Thelma Krug, 65, diretora de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente e vice-presidente do painel do clima da ONU. Ela coordenou o comitê científico que definiu o escopo do relatório e produziu, no último dia 20, a estrutura de seus capítulos. A brasileira deverá ter papel-chave também na redação do relatório, cujos autores serão escolhidos a partir de novembro.

O documento em preparação é um dos relatórios mais aguardados da história do IPCC. É também único pelo fato de ser feito sob encomenda: a Convenção do Clima, na decisão do Acordo de Paris, em 2015, convidou o painel a produzir um relatório sobre impactos e trajetórias de emissão para limitar o aquecimento a 1,5oC, como forma de embasar cientificamente o objetivo mais ambicioso do acordo. A data de entrega do produto, 2018, coincidirá com a primeira reunião global para avaliar a ambição coletiva das medidas tomadas contra o aquecimento global após a assinatura do tratado.

Segundo Krug, uma das principais mensagens do relatório deverá ser a necessidade da adoção das chamadas emissões negativas, tecnologias que retirem gases-estufa da atmosfera, como o sequestro de carbono em usinas de bioenergia. O problema é que a maior parte dessas tecnologias ou não existe ainda ou nunca foi testada em grande escala. Algumas delas podem envolver modificação climática, a chamada geoengenharia, cujos efeitos colaterais – ainda especulativos, como as próprias tecnologias – podem ser quase tão ruins quanto o mal que elas se propõem a curar.

Outro risco, apontado pelo climatólogo britânico Kevin Anderson em comentário recente na revista Science, é essas tecnologias virarem uma espécie de desculpa para a humanidade não fazer o que realmente precisa para mitigar a mudança climática: parar de usar combustíveis fósseis e desmatar florestas.

“Ficamos numa situação muito desconfortável com várias tecnologias e metodologias que estão sendo propostas para emissões negativas”, disse Krug. “Agora, numa situação em que você não tem uma solução a não ser esta, aí vai ser uma decisão moral. Porque aí você vai ter dilema com as pequenas ilhas, você vai ter um problema de sobrevivência de alguns países.”

Ela disse esperar, por outro lado, que o relatório mostre que existem tecnologias maduras o suficiente para serem adotadas sem a necessidade de recorrer a esquemas mirabolantes.

“Acho que há espaço para começarmos a pensar em alternativas”, afirmou, lembrando que, quanto mais carbono cortarmos rápido, menos teremos necessidade dessas novas tecnologias.

Em entrevista ao OC, concedida dois dias depois de voltar do encontro do IPCC na Tailândia e minutos antes de embarcar para outra reunião, na Noruega, Thelma Krug falou sobre suas expectativas para o relatório e sobre os bastidores da negociação para fechar seu escopo – que opôs, para surpresa de ninguém, as nações insulares e a petroleira Arábia Saudita.

A sra. coordenou o comitê científico que definiu o índice temas que serão tratados no relatório do IPCC sobre os impactos de um aquecimento de 1,5oC. A entrega dessa coordenação a uma cientista de um País em desenvolvimento foi deliberada?

O IPCC decidiu fazer três relatórios especiais neste ciclo: um sobre 1,5oC, um sobre oceanos e um sobre terra. O presidente do IPCC [o coreano Hoesung Lee] achou por bem que se formasse um comitê científico e cada um dos vice-presidentes seria responsável por um relatório especial. Então ele me designou para o de 1,5oC, designou a Ko Barrett [EUA] para o de oceanos e o Youba [Sokona, Mali] para o de terra. O comitê foi formado para planejar o escopo: número de páginas, título, sugestões para cada capítulo. E morreu ali. Por causa da natureza do relatório, que será feito no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, houve também a participação de duas pessoas da área de ciências sociais, de fora do IPCC. Agora, no começo de novembro, sai uma chamada para nomeações. Serão escolhidos autores principais, coordenadores de capítulos e revisores.

Quantas pessoas deverão produzir o relatório?

No máximo cem. Considerando que vai ter gente do birô também. Todo o birô do IPCC acaba envolvido, são 30 e poucas pessoas, que acabam aumentando o rol de participantes.

A sra. vai participar?

Participarei, e participarei bastante. Os EUA fizeram um pedido para que o presidente do comitê científico tivesse um papel de liderança no relatório. Isso porque, para esse relatório, eu sinto algo que eu não sentia tanto para os outros: se não fosse eu acho que seria difícil. Porque teve muita conversa política.

Quando um país levanta uma preocupação, eu tenho de entender mais a fundo onde a gente vai ter que ter flexibilidade para construir uma solução. Eu acho que foi muito positivo o fato de o pessoal me conhecer há muitos anos e de eu ter a liberdade de conversar com uma Arábia Saudita com muita tranquilidade, de chegar para as pequenas ilhas e conversar com muita tranquilidade e tentar resolver as preocupações.

Por exemplo, quando as pequenas ilhas entraram com a palavra loss and damage [perdas e danos], para os EUA isso tem uma conotação muito política, e inaceitável para eles no contexto científico. No fórum científico, tivemos de encontrar uma forma que deixasse as pequenas ilhas confortáveis sem mencionar a expressão loss and damage, mas captando com bastante propriedade aquilo que eles queriam dizer com isso. Acabou sendo uma negociação com os autores, com os cientistas e com o pessoal do birô do painel para chegar numa acomodação que deixasse a todos satisfeitos.

E qual era a preocupação dos sauditas?

Na reunião anterior, que definiu o escopo do trabalho, a gente saiu com seis capítulos bem equilibrados entre a parte de ciências naturais e a parte de ciência social. Por exemplo, essa parte de desenvolvimento sustentável, de erradicação da pobreza, o fortalecimento do esforço global para tratar mudança do clima. E os árabes não queriam perder esse equilíbrio. E as pequenas ilhas diziam que o convite da Convenção foi para fazer um relatório sobre impactos e trajetórias de emissões.

Mas as ilhas estavam certas, né?

De certa maneira, sim. O que não foi certo foi as ilhas terem aceitado na reunião de escopo que o convite fosse aceito pelo IPCC “no contexto de fortalecer o esforço global contra a ameaça da mudança climática, do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza”.

Eles abriram o escopo.

A culpa não foi de ninguém, eles abriram. A partir do instante em que eles abriram você não segura mais. Mas isso requereu também um jogo de cintura para tirar um pouco do peso do desenvolvimento sustentável e fortalecer o peso relativo dos capítulos de impactos e trajetórias de emissões.

Essa abertura do escopo enfraquece o relatório?

Não. Porque esse relatório vai ter 200 e poucas páginas, e cem delas são de impactos e trajetórias. Alguns países achavam que já havia muito desenvolvimento sustentável permeando os capítulos anteriores, então por que você ia ter um capítulo só para falar de desenvolvimento sustentável? Esse capítulo saiu de 40 páginas para 20 para justamente fortalecer a contribuição relativa de impactos e trajetórias do relatório. E foi uma briga, porque as pequenas ilhas queriam mais um capítulo de impactos e trajetórias. Esse relatório é mais para eles. Acima de qualquer coisa, os mais interessados nesse relatório são as pequenas ilhas.

Um dos desafios do IPCC com esse relatório é justamente encontrar literatura sobre 1,5oC, porque ela é pouca. Em parte porque 1,5oC era algo que as pessoas não imaginavam que seria possível atingir, certo?

Exato.

Porque o sistema climático tem uma inércia grande e as emissões do passado praticamente nos condenam a 1,5oC. Então qual é o ponto de um relatório sobre 1,5oC?

O ponto são as emissões negativas. O capítulo 4 do relatório dirá o que e como fazer. Faremos um levantamento das tecnologias existentes e emergentes e a agilidade com que essas tecnologias são desenvolvidas para estarem compatíveis em segurar o aumento da temperatura em 1.5oC. Vamos fazer uma revisão na literatura, mas eu não consigo te antecipar qualquer coisa com relação à forma como vamos conseguir ou não chegar a essas emissões negativas. Mas é necessário: sem elas eu acho que não dá mesmo.

A sra. acha, então, que as emissões negativas podem ser uma das grandes mensagens desse novo relatório…

Isso já ocorreu no AR5 [Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado em 2013 e 2014]. Porque não tinha jeito, porque você vai ter uma emissão residual. Só que no AR5 não tínhamos muita literatura disponível.

Quando se vai falar também da velocidade com a qual você consegue implementar essas coisas… o relatório também toca isso aí no contexto atual. Mas, no sufoco, essas coisas passam a ter outra velocidade, concorda? Se você demonstrar que a coisa está ficando feia, e está, eu acho que isso sinaliza para o mundo a necessidade de ter uma agilização maior no desenvolvimento e na implementação em larga escala de tecnologias que vão realmente levar a emissões negativas no final deste século.

Nós temos esse tempo todo?

Para 1,5oC é bem complicado. Em curto prazo, curtíssimo prazo, você precisa segurar as emissões, e aí internalizar o que você vai ter de emissões comprometidas. De tal forma que essas emissões comprometidas estariam sendo compensadas pelas tecnologias de emissões negativas. Esse é muito o meu pensamento. Vamos ver como isso acabará sendo refletido no relatório em si.

Haverá cenários específicos para 1,5oC rodados pelos modelos climáticos?

Tem alguma coisa nova, mas não tem muita coisa. Eles devem usar muita coisa que foi da base do AR5, até porque tem de ter comparação com 2oC. A não ser que rodem de novo para o 2oC. Precisamos entender o que existe de modelagem nova e, se existe, se ela está num nível de amadurecimento que permita que a gente singularize esses modelos para tratar essa questão nesse novo relatório.

Há cerca de 500 cenários para 2oC no AR5, e desses 450 envolvem emissões negativas em larga escala.

Para 1,5oC isso vai aumentar. Para 1,5oC vai ter de acelerar a redução de emissões e ao mesmo tempo aumentar a introdução de emissões negativas nesses modelos.

Há alguns dias o climatologista Kevin Anderson, diretor-adjunto do Tyndall Centre, no Reino Unido, publicou um comentário na revista Science dizendo que as emissões negativas eram um “risco moral por excelência”, por envolver competição por uso da terra, tecnologias não testadas e que vão ter de ser escaladas muito rápido. A sra. concorda?

Eu acho que essa questão de geoengenharia é uma das coisas que vão compor essa parte das emissões negativas. E aí talvez ele tenha razão: o mundo fica assustado com as coisas que vêm sendo propostas. Porque são coisas loucas, sem o amadurecimento necessário e sem a maneira adequada de se comunicar com o público. Mas vejo também que haverá tempo para um maior amadurecimento disso.

Mas concordo plenamente que ficamos numa situação muito desconfortável com várias tecnologias e metodologias que estão sendo propostas para emissões negativas. Mas esse é meu ponto de vista. Agora, numa situação em que você não tem uma solução a não ser esta, aí vai ser uma decisão moral. Porque aí você vai ter dilema com as pequenas ilhas, você vai ter um problema de sobrevivência de alguns países.

Deixe-me ver se entendi o seu ponto: a sra. acha que há um risco de essas tecnologias precisarem ser adotadas e escaladas sem todos os testes que demandariam num cenário ideal?

Fica difícil eu dizer a escala disso. Sem a gente saber o esforço que vai ser possível fazer para cortar emissões em vez de ficar pensando em compensar muito fortemente o residual, fica difícil dizer. Pode ser que já haja alguma tecnologia amadurecida antes de começar a pensar no que não está amadurecido. Acho que há espaço para começarmos a pensar em alternativas.

Agora, entre você falar: “Não vou chegar a 1,5oC porque isso vai exigir implementar tecnologias complicadas e que não estão amadurecidas” e isso ter uma implicação na vida das pequenas ilhas… isso também é uma preocupação moral. É um dilema. Eu tenho muita sensibilidade com a questão de geoengenharia hoje. E não sou só eu. O IPCC tem preocupação até em tratar esse tema. Mas é a questão do dilema. O que eu espero que o relatório faça é indicar o que precisa ser feito. Na medida em que você vai fazendo maiores reduções, você vai diminuindo a necessidade de emissões negativas. É essa análise de sensibilidade que os modelos vão fazer.

Observatório do Clima

O painel do clima quer falar com você (Observatório do Clima)

15/02/2016

O australiano John Cook, editor do site Skeptical Science, fala durante encontro do IPCC em Oslo. Foto: Claudio Angelo/OC

O australiano John Cook, editor do site Skeptical Science, fala durante encontro do IPCC em Oslo. Foto: Claudio Angelo/OC

IPCC faz sua primeira reunião sobre comunicação disposto a mudar a cultura do segredo e a linguagem arcana de seus relatórios – mas esbarra numa estrutura de governança conservadora.

Por Claudio Angelo, do OC, em Oslo –

Luís Bernardo Valença, protagonista do romance Equador, do português Miguel de Souza Tavares, recebe do rei de Portugal uma missão virtualmente impossível: assumir o governo de São Tomé e Príncipe para convencer os compradores ingleses de cacau de que não existe trabalho escravo nas ilhas – e, ao mesmo tempo, garantir que o sistema de trabalho escravo não mude, de forma a não prejudicar a economia local.

A história guarda uma analogia com o momento pelo qual passa o IPCC, o painel do clima da ONU, que na semana passada realizou em Oslo, na Noruega, a primeira reunião de sua história dedicada à comunicação. O comitê internacional de cientistas, agraciado com o Prêmio Nobel da Paz em 2007, reconhece que a forma como se comunica com seus diversos públicos precisa mudar: os sumários de seus relatórios de avaliação são indecifráveis para leigos e para os próprios formuladores de políticas públicas a quem supostamente se dedicam; as decisões são tomadas em reuniões fechadas, o que alimenta rumores de que o painel é ora uma conspiração de ambientalistas para distorcer a ciência, ora uma vítima de ações de governos para aguar conclusões impactantes sobre a gravidade das mudanças do clima; a maneira como a incerteza e o risco são expressos pelo painel é bizantina.

A vontade de abrir-se mais ao público, porém, esbarra no conservadorismo do próprio painel, que preserva um modo de operação da década de 1990, quando lançou seu primeiro relatório de avaliação). Os métodos, as regras e os rituais do IPCC precisam permanecer os mesmos – e seus líderes parecem não querer abrir mão disso. Ao mesmo tempo, eles mesmos pedem mais transparência e mais acessibilidade. Qual é a chance de isso dar certo?

O próprio encontro de Oslo pode ser um termômetro. Foram convidados a participar cerca de 50 especialistas em comunicação do mundo inteiro e mais duas dezenas de autoridades do próprio painel. A reunião foi a primeira em toda a história do IPCC a ser transmitida ao vivo pela internet. Mas isso que só aconteceu depois da cobrança de algumas personalidades da área, como o jornalista americano Andrew Revkin. Ela foi aberta também pela internet pelo presidente do painel, o sul-coreano Hoesung Hwang. Os co-presidentes dos três grupos de trabalho que cuidam de avaliar os três grandes aspectos da mudança do clima (a base física, impactos e vulnerabilidades e mitigação) estiveram presentes o tempo todo, assim como dois dos três vice-presidentes, a americana Ko Barrett e o malês Youba Sokona. Cientistas que coordenaram a produção do AR5, o quinto relatório do IPCC, também estiveram nos dois dias de encontro.

Um consenso importante formado em Oslo foi que a comunicação precisa integrar o processo de produção dos relatórios desde o início. O modelo atual seguido pelo IPCC consiste em preparar primeiro os relatórios e então divulgá-los aos diversos públicos – tomadores de decisão, imprensa e o público geral. É o que Paul Lussier, especialista em mídia da Universidade Yale, chamou de “passar batom num porco” durante sua apresentação.

Enfeitar o suíno, até aqui, tem sido a receita para o fiasco de comunicação do painel. Isso foi mais ou menos matematicamente demonstrado pelo cientista ambiental português Suraje Dessai, professor da Universidade de Leeds, no Reino Unido, e coautor do AR5 (Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado entre 2013 e 2014). Uma análise dos sumários do IPCC conduzida por Dessai e colegas com a ajuda de softwares que olham simplicidade e legibilidade foi publicada no ano passado no periódico Nature Climate Change. O trabalho mostrou que não apenas o IPCC é menos legível do que outras publicações científicas, como também o grau de compreensibilidade dos sumários despencou de 1990 para cá.

Uma das recomendações feitas ao final do encontro, e que serão encaminhadas à plenária do IPCC em abril, é para que se incorporem comunicadores profissionais, jornalistas de ciência, psicólogos e antropólogos desde a chamada fase de “definição do escopo” dos relatórios. Isso começaria no AR6, o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, que deverá ser publicado em algum momento entre 2020 e 2022. Essa própria definição, que hoje é feita pelas autoridades do painel e pelos governos, poderá vir a ser realizada numa espécie de consulta pública – na qual diferentes atores, desde a sociedade civil até empresários e mesmo crianças, digam o que querem que o painel avalie sobre a mudança climática. Tamanha abertura seria uma revolução no IPCC, rompendo a lógica professoral que impera hoje na definição das perguntas às quais os relatórios tentam responder.

Outra sugestão, apresentada por um grupo que discutiu as relações entre o IPCC e os meios de comunicação, foi para que os rascunhos dos sumários executivos sejam abertos para o público antes da aprovação final pelos governos. Cada sumário passa por uma série de rascunhos até chegar ao formato final de revisão, que é enviado aos governos para comentários. Os sumários são aprovados por governos e cientistas na plenária do IPCC, onde recebem alterações finais. A regra é que os governos modifiquem muito o texto, mas – e este é um “mas” importante, porque é o que define a credibilidade do IPCC – a palavra final é sempre dos cientistas.

Os rascunhos hoje não são públicos, mas qualquer pessoa pode solicitar ao IPCC fazer parte do comitê de revisores – e ganham, assim, acesso aos documentos. Em 2013, um negacionista do clima vazou em seu blog uma versão do AR5, alegando que o painel estava escondendo evidências de que o aquecimento global se devia a raios cósmicos (não estava). A proposta apresentada em Oslo foi para que os rascunhos de revisão fossem tornados públicos, de forma a minimizar o impacto de vazamentos e a conter desinformação na imprensa.

Outras recomendações feitas em Oslo vão de dar ao site do IPCC uma nova interface pública até produzir infográficos animados da ciência avaliada pelos relatórios.

Na prática, porém, a teoria é outra: um dos dogmas do IPCC é que ele não pode produzir prescrições políticas, ou seja, precisa se limitar a dizer aos países o que acontece com o mundo em cada cenário de emissões e o que é preciso fazer para atingir níveis de emissão x, y ou z no futuro. A rigor, o painel do clima não pode incitar as pessoas a combater a mudança climática – isso seria uma posição de militância. Pior, entre os mais de 150 governos que integram o IPCC e de fato mandam nele (daí a sigla significar Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) há os que não querem resolver o problema, porque vivem da sua causa – os combustíveis fósseis. Essas são amarras importantes à comunicação.

Outro problema é que o IPCC ainda vive no século XX, num sentido bem real. Enquanto a comunicação hoje é digital, o painel do clima decidiu, por consenso, que seus relatórios são aprovados linha por linha pelos governos – e isso significa caneta e papel. Não há nem sequer método para submeter um infográfico animado à plenária, caso alguém ache que é o caso usar esse tipo de recurso no AR6. Sugestões de ter uma equipe de vídeo acompanhando o “making of” dos relatórios foram rejeitadas no passado, porque algumas pessoas no painel não queriam que ninguém ficasse “espionando” seu trabalho. E por aí vai.

O IPCC foi criado em 1988, mas só ganhou uma estratégia de comunicação em 2012. Tem um longo aprendizado pela frente e precisa começar de algum lugar. Pessoas com quem conversei em Oslo disseram duvidar que a maior parte das recomendações seja acatada. Mas é auspicioso, num momento em que o mundo se prepara para implementar o Acordo de Paris, que o templo do conhecimento climático esteja disposto a embarcar na tarefa da comunicação. Ela é mais necessária do que nunca agora. (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* O jornalista viajou a convite do IPCC.

** Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

Conta das mudanças climáticas é mais alta para nações ricas (O Globo)

ActionAid calcula que países desenvolvidos devem doar 0,1% do PIB a fundo comum

POR O GLOBO

18/11/2015 6:00

 

Mulheres polonesas conversam em frente à usina: países desenvolvidos não pagam valores justos para atenuar mudanças climáticas, diz ONG – JOE KLAMAR/AFP

RIO — Um novo estudo da ONG ActionAid denunciou ontem a diferença abissal entre as quantias exigidas e as doadas pelos países desenvolvidos para que as nações mais pobres criem medidas de adaptação contra as mudanças climáticas. Em 2013, foram destinados cerca de US$ 5 bilhões para o combate ao aquecimento global. Na próxima década, serão necessários US$ 150 bilhões por ano para combater os eventos extremos. O debate sobre financiamento está entre as prioridades da Conferência do Clima de Paris, a partir do dia 30.

De acordo com o instituto, as nações ricas deveriam dedicar pelo menos 0,1% de seu PIB a um fundo climático internacional. É um índice 70 vezes menor do que o gasto em 2008 para a adoção de políticas contra a recessão econômica.

Os EUA deveriam aumentar suas contribuições aos países pobres em mais de 154 vezes, passando dos US$ 440 milhões gastos em 2013 para US$ 67,5 bilhões em 2025.

A União Europeia precisa multiplicar os seus investimentos em 11 vezes, passando dos US$ 3,2 bilhões vistos em 2013 para US$ 36,9 bilhões em 2025.

Os cálculos são baseados nas emissões históricas — a contribuição atribuída a cada país para provocar as mudanças climáticas — e em sua capacidade de ajudar financeiramente, levando em conta os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Especialista em financiamento climático da ActionAid, Brandon Wu acredita que os países em desenvolvimento estão enfrentando sozinhos “uma crise que não causaram”.

— O problema não é falta de dinheiro — assegura. — Os EUA, por exemplo, gastam muito mais em subsídios para os combustíveis fósseis do que em medidas de adaptação ao clima. É falta de vontade política.

IMPASSE HISTÓRICO

Wu avalia que o financiamento contra as mudanças climáticas pode ser o item mais polêmico entre os discutidos na Conferência do Clima. Tradicionalmente, os países ricos e pobres discordam sobre o tamanho do rombo, e as nações desenvolvidas não concordam em assumir totalmente as indenizações contra o aquecimento global, eximindo economias emergentes, como China e Brasil, de qualquer compromisso financeiro.

— Um novo acordo (global sobre o clima) não é possível sem esclarecimento sobre como serão as finanças — pondera. — Os países em desenvolvimento não podem adaptar suas economias, livrando-as das emissões de carbono, sem apoio internacional. Talvez não consigamos saber exatamente quanto será investido por cada país, mas precisamos impor novos prazos e objetivos. Aqueles discutidos até agora são vagos demais.

Já Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, acredita que as negociações financeiras não devem ser uma prioridade.

— O mais importante é discutir que metas podem impedir o avanço da temperatura global — defende. — O financiamento é um jogo político. Resistimos a abandonar o petróleo, da mesma forma como, antes, não queríamos largar o carvão. Mais do que abrir o cofre, precisamos pensar em um novo modelo econômico, que tipo de capitalismo devemos adotar.

Acordo da conferência de Paris sobre clima terá cumprimento obrigatório (Folha de S.Paulo)

Clóvis Rossi

23/11/2015

A COP21, a conferência global sobre o clima que se inicia no dia 30 em Paris, será de cumprimento obrigatório pelas partes, ao contrário do que tinha dito, na semana passada, o secretário de Estado norte-americano, John Kerry.

Kerry dissera que não sairia de Paris um tratado, mas seu chefe, o presidente Barack Obama, assinou nesta segunda-feira, 16, com seus pares do G20, texto em que afirmam “a determinação de adotar um protocolo, outro instrumento legal ou um desenlace acordado com força legal nos termos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas”.

É o acordo que prevê limitar o aumento da temperatura na Terra a 2°C até o final do século, em relação aos níveis da era pré-industrial.

Superar esse teto, dizem os especialistas, geraria consequências apocalípticas.

Berk Ozkan/AFP
Líderes do G20 posam para a tradicional foto do grupo durante a cúpula realizada em Antalya, na Turquia
Líderes do G20 posam para a tradicional foto do grupo durante a cúpula realizada em Antalya, na Turquia

Não por acaso, o comunicado final da cúpula do G20, encerrada nesta segunda-feira, 16, em Antalya, afirma que “a mudança climática é um dos grandes desafios de nosso tempo” e que “2015 é um ano crítico, que requer ação efetiva, forte e coletiva sobre a mudança climática e seus efeitos”.

É natural nessas circunstâncias que o tema tenha sido, depois de terrorismo, o que provocou debates mais agudos na cúpula das grandes economias do planeta.

Uma das polêmicas, não resolvida no comunicado final, girou em torno da revisão das INDCs (Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas), ou seja, os compromissos que cada país estabeleceu para si próprio e que levará à COP21.

Já são 160 os países que estabeleceram suas INDCs, Brasil inclusive (a meta brasileira prevê reduzir em 43% a emissão dos gases do efeito estufa até 2030, com base no nível registrado em 2005).

“Vamos cumprir”, assegurou a presidente Dilma Rousseff, “e, se não o fizermos, teremos que prestar contas”.

REVISÃO EM CINCO ANOS

O Brasil apoiou, no G20, a tese de revisão das metas de cinco em cinco anos, mas outros países foram contra, pelo que o comunicado final não a menciona.

Dilma explicou o apoio brasileiro: a revisão a cada cinco anos permitiria analisar a incorporação de tecnologias e modalidades de financiamento que, eventualmente, abreviassem a obtenção das metas.

A presidente se diz otimista sobre o resultado de Paris, entre outras razões porque o formato mudou na comparação com Copenhague, a outra grande cúpula climática: desta vez, serão os chefes de governo que estarão na conferência no momento inicial, indicando claramente as orientações a serem seguidas.

Em Copenhague, foram os negociadores que abriram o encontro, ao qual os chefes de governo compareceram apenas do meio para o fim, com impasses já cristalizados.

AMBIENTALISTAS CRITICAM

O otimismo de Dilma, no entanto, não é compartilhado pelas entidades ambientalistas, que criticaram duramente o comunicado do G20.

“Os chefes de Estado poderiam ter oferecido um claro e poderoso sinal ante a iminência da Cúpula do Clima, pondo uma data para o fim dos subsídios a combustíveis fósseis e concordando em parar de financiar projetos de combustível fóssil ao redor do mundo”, disse, por exemplo, Ümit Sahin, da ONG Pelo Clima.

“Em vez disso” –continuou– “recuperaram posições anteriores e, ao fazê-lo, correm o risco de ficar do lado errado da história.”

Conta das mudanças climáticas é mais alta para nações ricas (O Globo)

ActionAid calcula que países desenvolvidos devem doar 0,1% do PIB a fundo comum

POR O GLOBO

Mulheres polonesas conversam em frente à usina: países desenvolvidos não pagam valores justos para atenuar mudanças climáticas, diz ONG – JOE KLAMAR/AFP

RIO — Um novo estudo da ONG ActionAid denunciou ontem a diferença abissal entre as quantias exigidas e as doadas pelos países desenvolvidos para que as nações mais pobres criem medidas de adaptação contra as mudanças climáticas. Em 2013, foram destinados cerca de US$ 5 bilhões para o combate ao aquecimento global. Na próxima década, serão necessários US$ 150 bilhões por ano para combater os eventos extremos. O debate sobre financiamento está entre as prioridades da Conferência do Clima de Paris, a partir do dia 30.

De acordo com o instituto, as nações ricas deveriam dedicar pelo menos 0,1% de seu PIB a um fundo climático internacional. É um índice 70 vezes menor do que o gasto em 2008 para a adoção de políticas contra a recessão econômica.

Os EUA deveriam aumentar suas contribuições aos países pobres em mais de 154 vezes, passando dos US$ 440 milhões gastos em 2013 para US$ 67,5 bilhões em 2025.

A União Europeia precisa multiplicar os seus investimentos em 11 vezes, passando dos US$ 3,2 bilhões vistos em 2013 para US$ 36,9 bilhões em 2025.

Os cálculos são baseados nas emissões históricas — a contribuição atribuída a cada país para provocar as mudanças climáticas — e em sua capacidade de ajudar financeiramente, levando em conta os dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Especialista em financiamento climático da ActionAid, Brandon Wu acredita que os países em desenvolvimento estão enfrentando sozinhos “uma crise que não causaram”.

— O problema não é falta de dinheiro — assegura. — Os EUA, por exemplo, gastam muito mais em subsídios para os combustíveis fósseis do que em medidas de adaptação ao clima. É falta de vontade política.

IMPASSE HISTÓRICO

Wu avalia que o financiamento contra as mudanças climáticas pode ser o item mais polêmico entre os discutidos na Conferência do Clima. Tradicionalmente, os países ricos e pobres discordam sobre o tamanho do rombo, e as nações desenvolvidas não concordam em assumir totalmente as indenizações contra o aquecimento global, eximindo economias emergentes, como China e Brasil, de qualquer compromisso financeiro.

— Um novo acordo (global sobre o clima) não é possível sem esclarecimento sobre como serão as finanças — pondera. — Os países em desenvolvimento não podem adaptar suas economias, livrando-as das emissões de carbono, sem apoio internacional. Talvez não consigamos saber exatamente quanto será investido por cada país, mas precisamos impor novos prazos e objetivos. Aqueles discutidos até agora são vagos demais.

Já Osvaldo Stella, diretor do Programa de Mudanças Climáticas do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, acredita que as negociações financeiras não devem ser uma prioridade.

— O mais importante é discutir que metas podem impedir o avanço da temperatura global — defende. — O financiamento é um jogo político. Resistimos a abandonar o petróleo, da mesma forma como, antes, não queríamos largar o carvão. Mais do que abrir o cofre, precisamos pensar em um novo modelo econômico, que tipo de capitalismo devemos adotar.

Brasileira é eleita vice-presidente do IPCC (Observatório do Clima)

07/10/2015

Thelma Krug, pesquisadora do Inpe e ex-secretária nacional de Mudança Climática, dividirá função com uma americana e um malês; painel do clima se reúne na Croácia para eleger novos líderes

Thelma Krug, em foto de 2009 (Foto: IISD)

Thelma Krug, em foto de 2009 (Foto: IISD)

DO OC

A matemática Thelma Krug, 64, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, foi eleita na manhã desta quarta-feira para uma das três vice-presidências do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).

Ela dividirá a função com a americana Ko Barrett, da Noaa (Agência Nacional de Oceanos e Atmosfera) e com o malês Youba Sokona, diretor de Desenvolvimento Sustentável do South Centre, na Suíça.

Barrett é há 15 anos representante do governo americano no IPCC; Sokona foi um dos coordenadores do Grupo de Trabalho 3 (que produz os relatórios do IPCC sobre mitigação) durante o Quinto Relatório de Avaliação, o AR5, lançado em 2014. Krug chefia há 13 anos a força-tarefa do IPCC sobre inventários de emissões de gases-estufa.

Ex-secretária nacional de Mudança Climática (governo Lula), Thelma Krug trabalha no Inpe com monitoramento de mudança de uso da terra. Foi responsável pelo primeiro inventário brasileiro de emissões por desmatamento. Coordenou até 2001 o monitoramento por satélite da Amazônia, feito pelo sistema Prodes, que informa a taxa oficial de perda de floresta.

Com a eleição dos vice-presidentes, o IPCC tem na sua liderança uma maioria de representantes de países em desenvolvimento. Nesta terça-feira, o sul-coreano Hoesung Lee foi eleito presidente do painel do clima. Para a Convenção do Clima da ONU, a Coreia do Sul é considerada país em desenvolvimento.

A 42a reunião plenária do IPCC, que ocorre em Dubrovnik, Croácia, elegeria nesta quarta-feira ainda os seis co-presidentes dos grupos de trabalho 1 (que lida com a base física das mudanças do clima), 2 (que lida com impactos e vulnerabilidades) e 3 (mitigação).

Aquecimento extremo trará ‘mortes em massa’ (Observatório do Clima)

aquecimentoGrupo de elite da climatologia quer que governos considerem risco de planeta esquentar de 4 a 7 graus Celsius, o que causaria o colapso da civilização; análise começa a ser feita no Brasil

Por Claudio Angelo, do OC –

30/09/2015

Um vídeo exibido a uma plateia pequena na última segunda-feira, em Brasília, mostrava sem eufemismos o que poderia acontecer com o planeta caso o aquecimento global saísse de controle e atingisse o patamar de 4oC a 7oC. Imagens de florestas queimando, lavouras mortas e inundações se sucediam enquanto uma narradora vaticinava “mortes em massa para pessoas que não tiverem ar-condicionado 24 horas por dia” e “migrações forçadas”. “Nos tornaremos parte de um ambiente extinto”, sentenciou. O fato de que a cidade passava por uma onda de calor, tendo registrado dias antes a maior temperatura desde sua fundação, ajudava a compor a atmosfera.

Num pequeno palco, em poltronas brancas, um grupo formado em sua maioria por homens de meia idade assistia à exibição. Entre eles estavam alguns membros da elite da ciência do clima, como Carlos Afonso Nobre e José Marengo, membros do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, e Sir David King, representante para Mudanças Climáticas do Reino Unido.

Até não muito tempo atrás, esses mesmos homens descontariam como alarmismo ou ficção científica as afirmações do vídeo. Hoje, são as pesquisas deles que embasam os cenários de apocalipse pintados ali.

Os cientistas reunidos em Brasília fazem parte de um grupo internacional reunido por David King em 2013 para tentar produzir uma avaliação de riscos de mudanças climáticas extremas. O trabalho foi iniciado nos EUA, na Índia, na China e no Reino Unido e agora começa a ser feito no Brasil. Ele parte do princípio de que a probabilidade de que o aquecimento da Terra ultrapasse 4oC é baixa, mas as consequências potenciais são tão dramáticas que os governos deveriam considerá-las na hora de tomar decisões sobre corte de emissões e adaptação.

“Trata-se de uma visão muito diferente da mudança climática”, afirmou King, um físico sul-africano que serviu durante anos como conselheiro-chefe para ciência do primeiro-ministro Tony Blair. “O IPCC fez um ótimo trabalho, mas é preciso uma avaliação do risco de que aconteça algo catastrófico ligado à mudança climática.”

Ele citou como exemplo os piores cenários de mudança climática projetados para a China: elevações do nível do mar que afetassem a costa leste do país, lar de 200 milhões de pessoas, quebras da safra de arroz – que têm de 5% a 10% de chance de ocorrer mesmo com elevações modestas na temperatura – e ondas de calor que estejam acima da capacidade fisiológica de adaptação do ser humano.

“Com mais de três dias com temperaturas superiores a 40oC e muita umidade você não consegue compensar o calor pela transpiração e morre”, afirmou King.

Com um aquecimento de 4oC a 7oC, estresses múltiplos podem acontecer de uma vez em várias partes do mundo. “Estamos olhando para perdas maciças de vidas”, afirmou King. “Seria o colapso da civilização.”

Rumo ao 4°C

Os modelos climáticos usados pelo IPCC projetam diferentes variações de temperatura de acordo com a concentração de gás carbônico na atmosfera. Esses cenários se chamam RCP, sigla em inglês para “trajetórias representativas de concentração”, e medem quanto muda o balanço de radiação do planeta, em watts por metro quadrado. Eles vão de 2.6 W/m2 – o cenário compatível com a manutenção do aquecimento na meta de 2oC, considerada pela ONU o limite “seguro” – a 8.5 w/m2, que é para onde o ritmo atual de emissões está levando a humanidade.

“O RCP 8.5 nos dá quase 100% de probabilidade de o aquecimento ultrapassar os 4oC no fim deste século”, afirmou Sir David King. E quais seriam as chances de mais de 7oC? Até o fim do século, baixas. “Eu sou velho, então estou bem. Mas tenho dois netos que vão viver até o fim do século, e eles vão querer ter netos também. Não ligamos para o futuro?”

Segundo Carlos Nobre, avaliar e prevenir riscos de um aquecimento extremo é como comprar um seguro residencial: mesmo com probabilidade baixa de um desastre, é algo que não dá para não fazer, porque os custos do impacto são basicamente impossíveis de manejar.

Para o Brasil, esses riscos são múltiplos: vão desde a redução em 30% da vazão dos principais rios até o comprometimento do agronegócio e extinção de espécies. Cenários regionais traçados a partir dos modelos do IPCC já apontam para aquecimentos de até 8oC em algumas regiões do país neste século, o que tornaria essas áreas essencialmente inabitáveis por longos períodos.

“Mesmo se limitarmos as emissões a 1 trilhão de toneladas de CO2, [limite compatível com os 2oC] ainda podemos ultrapassar os 3oC”, afirmou o cientista, atualmente presidente da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Segundo ele, não há outro caminho a tomar que não seja limitar as concentrações de CO2 na atmosfera a 350 partes por milhão. Ocorre que já ultrapassamos as 400 partes por milhão em 2014, e os compromissos registrados pelos países para o acordo de Paris não são capazes nem mesmo de garantir o limite te 1 trilhão de toneladas.

Única mulher do painel, Beatriz Oliveira, da Fiocruz, apontou o risco de muita gente no Brasil literalmente morrer de calor, em especial nas regiões Norte e Nordeste. “Você poderia ficar exposto e realizar atividades externas no máximo por 30 minutos. O resto do dia teria de passar no ar-condicionado”, disse.

Questionada pela plateia ao final do evento, a pesquisadora mencionou um único lado positivo do aquecimento extremo: a redução na incidência de doenças transmitidas por insetos, como a dengue. “Nem o mosquito sobrevive”, disse. (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.

Suspeita de abuso derruba ‘chefão do clima’ da ONU (Estadão)

Rajendra Pachauri renuncia e IPCC fica sem uma direção permanente em momento crítico das negociações por um novo acordo mundial

Acusado de assédio sexual, o indiano Rajendra Pachauri abandonou a presidência do Painel Intergovernamental da ONU para Mudanças Climáticas (IPCC) em um momento crítico nas negociações para um acordo sobre emissões de CO 2.Em comunicado emitido ontem, a ONU aceitou sua renúncia.

O conteúdo na íntegra está disponível em: http://digital.estadao.com.br/download/pdf/2015/02/25/A15.pdf

(O Estado de S.Paulo)

IPCC: climate denial, fundamental restructuring of global economy and social structures, and vested interests and climate governance

IPCC AR5, WG III, Chapter 4

Sent by Robert J. Brulle

Climate Denial – pages 300 – 301 

Denial mechanisms that overrate the costs of changing lifestyles, blame others, and that cast doubt on the effectiveness of individual action or the soundness of scientific knowledge are well documented (Stoll-Kleemann et  al., 2001; Norgaard, 2011; McCright and Dunlap, 2011), as is the concerted effort by opponents of climate action to seed and amplify those doubts (Jacques et  al., 2008; Kolmes, 2011; Conway and Oreskes, 2011).

Fundamental restructuring of global economy and social structure – page 297

Third, effective response to climate change may require a fundamental restructuring of the global economic and social systems, which in turn would involve overcoming multiple vested interests and the inertia associated with behavioural patterns and crafting new institutions that promote sustainability (Meadows et  al., 2004; Millennium Ecosystem Assessment, 2005)

Vested Interests and Climate Governance – page 298

A defining image of the climate governance landscape is that key actors have vastly disproportionate capacities and resources, including the political, financial, and cognitive resources that are necessary to steer the behaviour of the collective within and across territorial boundaries (Dingwerth and Pattberg, 2009). A central element of governance therefore relates to huge asymmetry in such resources and the ability to exercise power or influence outcomes. Some actors, including governments, make use of negotiation power and/or lobbying activities to influence policy decisions at multiple scales and, by doing so, affect the design and the subsequent allocation and distribution of benefits and costs resulting from such decisions (Markussen and Svendsen, 2005; Benvenisti and Downs, 2007; Schäfer, 2009; Sandler, 2010) — see e.g., Section 15.5.2. The problem, however, also resides in the fact that those that wield the greatest power either consider it  against their interest to facilitate rapid progress towards a global low carbon economy or insist that the accepted solutions must be aligned to increase their power and material gains (Sæverud and Skjærseth, 2007; Giddens, 2009; Hulme, 2009; Lohmann, 2009, 2010; Okereke and McDaniels, 2012; Wittneben et  al., 2012). The most notable effect of this is that despite some exceptions, the prevailing organization of the global economy, which confers significant power on actors associated with fossil fuel interests and with the financial sector, has provided the context for the sorts of governance practices of climate change that have dominated to date (Newell and Paterson, 2010).

“Há tecnologia para redução de emissões”, diz pesquisador Paulo Artaxo (Zero Hora)

Considerado uma das principais autoridades em mudanças climáticas, físico afirma que o Protocolo de Kyoto “já é letra morta”

por Bruno Felin

24/01/2015 | 11h23

"Há tecnologia para redução de emissões", diz pesquisador Paulo Artaxo Anxo Lamela/Anxo Lamela

Camadas de gelo da Groelândia perdem aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao anoFoto: Anxo Lamela / Anxo Lamela

Paulo Artaxo é uma das principais autoridades em mudanças climáticas a representar o Brasil nas conferências da ONU. O físico da Universidade de São Paulo tem mais de 300 trabalhos publicados, parte deles nas grandes revistas científicas do mundo. É uma das pessoas a colocar o país como referência em estudos sobre o clima.

Como o mundo saiu da conferência em Lima, no Peru? Há um rascunho de acordo?
Paulo Artaxo: 
Não há um rascunho. Há, no máximo, uma tentativa de se fazer um acordo para redução de emissões, mas não há nenhum compromisso concreto com uma possivel verificação (de quem cumpre ou não). Isso, infelizmente, ainda não existe. O Protocolo de Kyoto foi uma ferramenta importante, mas já é letra morta, não foi cumprido pela falta de penalidade para quem não cumpre.

Evidências comprovam a urgência da luta contra o aquecimento global
Mudanças climáticas se tornam debate urgente em 2014
As técnicas mirabolantes da geoengenharia para conter o aquecimento global

O que emperrou para que esse encontro tivesse mais resultados concretos?
Paulo Artaxo: 
Obviamente, o que emperra são as velhas questões de sempre: quem paga a conta e como é que são divididas as responsabilidades do ponto de vista das reduções de emissões. Alguns países, como os Estados Unidos, não aceitam fazer nenhum tipo de redução se a China, por exemplo, que é o seu grande competidor, também não fizer uma redução. Essa é a questão.

Quanto ao proximo acordo, temos de ficar otimistas ou pessimistas?
Paulo Artaxo: Não é questão de ficar otimista, ou jogo de sim ou não. É fundamental que se façam políticas de redução de emissão de gases do efeito estufa, principalmente no setor de energia. Isso é fundamental, a estabilidade do clima no planeta no futuro depende disso. Agora, isso não é a única coisa relevante no nosso planeta, você tem questões econômicas, tecnológicas e políticas para tratar com isso. Então, não podemos simplesmente imaginar que vamos chegar em Paris, vamos sentar e redigir o novo acordo, e todo mundo vai ficar feliz. Não funciona desse jeito. É um longo processo, que esperamos que tenha sucesso, mas não se espera que saia um acordo para reduzir 80% das emissões. Talvez fique em 20% até 2050.

O que esperar da Cúpula do Clima
Relatório da Onu conclui que emissões de gases têm de zerar até 2100
“O Brasil é um dos exemplos mais importantes”

Temos tecnologia para reduzir a dependência dos combustíveis fósseis. O desafio é barateá-la?
Paulo Artaxo: Na verdade não é uma questão tecnológica. Há tecnologia para redução de emissões em todos os setores. Por exemplo, o setor mais óbvio é a indústria automotiva. Existe tecnologia para reduzir as emissões dos automóveis em pelo menos 50%. A questão é ter políticas públicas que ponham essas tecnologias em uso. Tem que obrigar as fábricas a fazer carros mais eficientes no menor prazo possível. Se isso não acontece, as fábricas vão continuar colocando no mercado carros extremamente ineficientes e totalmente inapropriados para a questão climática como a gente tem hoje.

Nos gráficos abaixo, as evidências demonstram a urgência por ações:

Níveis de CO2Os níveis de CO2 sempre variaram durante a história da Terra. Ao respirar, as plantas retiram o CO2 da atmosfera, ficam com o carbono e soltam oxigênio. Os animais puxam o oxigênio e soltam CO2. Um balanço perfeito. Durante centenas de milhares de anos, os seres vivos foram morrendo e esse material indo cada vez mais para o fundo da Terra. Ao ser exposto a calor e pressão, se transformou nos combustíveis fósseis: petróleo, gás e carvão. E aí mora o nosso problema: todo esse carbono que demorou centenas de milhares de anos para se formar está voltando para a atmosfera em apenas algumas centenas de anos.

Veja animação com o aumento do CO2 ao longo dos anos:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/co2.html

Aumento da temperatura

A temperatura oscilou durante toda a história do planeta acompanhando os níveis de CO2 na atmosfera. Cientistas estimam que os gases do efeito estufa emitidos pelo homem demorem 50 anos para começar a alterar os níveis de CO2 medidos. Por isso é perceptível que, após a revolução industrial, a temperatura tenha aumentado tanto.

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_arte_infograficos_imagem_estatica/index.html?img=http://zerohora.clicrbs.com.br/rbs/image/17179158.jpg


Em animação, veja onde a temperatura aumentou nos últimos anos:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/temperature.html

Aumento do nível dos oceanos

O aumento do nível do mar se dá por dois fatores relacionados ao aquecimento global: a água que vem do derretimento do gelo da terra e a expansão natural da água quando esquenta. Em média, o nível do mar está subindo 3.17 milímetros por ano. No último século, foram 17 centímetros.

Em gráfico, acompanhe o aumento do nível do mar:

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Desmatamento

Manter as florestas de pé é fundamental para combater o aquecimento, pois as plantas absorvem o CO2 e liberam oxigênio. O Brasil tem a segunda maior área de florestas do mundo, atrás apenas da Rússia, e já desmatou muito a Amazônia. Porém, os números vêm reduzindo, somos exemplo para outros países.

Em gráfico, veja o desmatamento da Amazônia nos últimos anos:

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Massa de gelo

As camadas de gelo da Antartica reduziram cerca de 147 bilhões de toneladas por ano enquanto as da Groelândia perderam aproximadamente 258 bilhões de toneladas ao ano. No Ártico, a média de declínio da camada de gelo é de 13,3% por década (relativo às médias de 1981 a 2010).

Veja como ficaram alguns pontos do globo antes e depois dos efeitos das mudanças climáticas:

http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/zh_grafico_aquecimentoglobal/antesdepois/index.html

COP 20 aprova base para novo acordo climático (Estadão)

Autoridades e ambientalistas de todas as partes do mundo estão com os olhos voltados para a 20ª Conferência do Clima da ONU, que começou nesta segunda-feira em Lima.

AFP – Autoridades e ambientalistas de todas as partes do mundo estão com os olhos voltados para a 20ª Conferência do Clima da ONU, que começou nesta segunda-feira em Lima.

Com atraso de 31 horas, a 20ª Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP 20) terminou na madrugada deste domingo (14), com a aprovação do conjunto de decisões essenciais para a negociação do novo acordo climático em novembro de 2015, em Paris. Reformado “cirurgicamente” para se adequar às exigências dos países emergentes e em desenvolvimento, entre os quais o Brasil, o documento final superou os impasses e obteve consenso imediato dos 195 países à 1h20 (4h20, no horário de Brasília).

“Vamos fazer de Paris um grande sucesso”, afirmou o presidente da COP-20 e ministro de Meio Ambiente do Peru, Manuel Pulgar-Vidal, ao referir-se a um possível acordo multilateral para dar ao mundo a chance de chegar ao final deste século com o aumento de até 2ºC em sua temperatura média. Sem o acordo, os termômetros subirão bem mais, conforme alertaram os estudos do Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC).

“Todos sabemos o que se passou em Copenhague (na fracassada tentativa de chegar ao acordo climático, na COP de 2009). Graças aos seus esforços, o fantasma de Copenhague está mais longe, e o sucesso de Paris, mais perto”, declarou o ministro de Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, que presidirá a COP 21.

Na tarde de sábado (13), Pulgar havia chamado para si a responsabilidade de elaborar um novo texto de decisão de Lima mais palatável ao bloco emergente e em desenvolvimento, sem gerar maior atrito com o mundo desenvolvido. Ele havia fracassado, horas antes, em sua tentativa de aprovar uma versão anterior, considerada “desequilibrada” e desprovida dos elementos basilares para uma negociação climática justa em 2015 pelo bloco em desenvolvimento.

Todas as 195 delegações estavam cientes de que o sucesso da COP de Paris dependia do documento de Lima. O acordo climático de Paris, se não cair nas mesmas armadilhas de Copenhague, substituirá o Protocolo de Kioto em 2020. O documento de Lima, ao final, traçou as bases sobre as quais os 195 países apresentarão, ao longo do primeiro semestre, seus compromissos de redução de emissões e de adaptação à mudança climática. Trata-se da espinha dorsal do acordo de Paris, a partir do qual serão decididas as obrigações adicionais de cada signatários.

“Em Lima foi fechado o acordo antes do acordo (definitivo)”, resumiu o especialista britânico Michael Jacobs, conselheiro sênior do New Climate Economy e professor da London School of Economics.

Nas negociações, os emergentes do Basic (Brasil, África do Sul, Índia e China) e os membros do G77 (grupo dos países em desenvolvimento e dos mais pobres) fizeram valer suas posições em favor a dois princípios caros. O primeiro é a necessidade de os compromissos dos países mais ricos abrangerem também os meios de financiamento, de capacitação e de transferência de tecnologia para os mais pobres cumprirem suas metas. Essa premissa consta da Convenção do Clima, de 1992.

Países como o Brasil, a China, a África do Sul, além dos mais pobres e vulneráveis à mudança climática, se mobilizaram para sublinhar esse tópico no documento e para impedir que a versão anterior, com menção frouxa a esse conceito, fosse aprovada. Europeus e americanos preferiam vê-lo apagado, para concentrarem-se apenas nas reduções de emissões de gases do efeito estufa (mitigação). Mas acabaram acatando, no final.>>O principal negociador brasileiro, embaixador José Antônio Marcondes Carvalho, considerou insuficiente a ênfase a esse princípio e sublinhou seu desapontamento.”Não fomos tão longe na decisão de hoje. Mas aceitamos o compromisso proposto e continuaremos a trabalhar por um acordo robusto e ambicioso com base na Convenção do Clima”, declarou.

O outro princípio registrado com ênfase no documento da COP-20 foi o da “responsabilidade comum, mas diferenciada”. Definido em 2011, na COP de Durban, ele prevê que os países desenvolvidos terão de assumir obrigações adicionais mais ambiciosas de redução de emissões de gases, compatíveis com o fato de os estarem despejando na atmosfera desde meados do século 18. Emergentes – mesmo os campeões de emissão China e Índia – e os países em desenvolvimento e pobres teriam uma carga menor.

O documento de Lima também trouxe de forma mais específica a obrigação de os 195 países apresentarem informações precisas sobre seus compromissos iniciais, a serem registrados ao longo do primeiro semestre de 2015. Entre eles, o ano-base para a comparação de seus compromissos de redução de emissões, essencial para uma noção mais clara de seus efeitos sobre a contenção do aquecimento global.

As economias emergentes e em desenvolvimento também conseguiram registrar de forma mais clara a necessidade de os países tomarem iniciativas entre 2016 e 2019 para acelerar a adoção do acordo de Paris, a partir de 2020.

Com o documento de Lima aprovado, começam agora as movimentações tornar viável o acordo climático de Paris. Novas rodadas de negociações já estão agendadas para Genebra, em fevereiro, e Bonn, em junho. Os países desenvolvidos, em princípio, deverão apresentar seus compromissos climáticos até março. Os demais, até junho. Atrasos poderão comprometer os cálculos do efeito dessas contribuições para impedir o aquecimento do planeta além de 2ºC, que precisam estar prontos até novembro.

Análise: Todos estão a bordo, certo, mas será um milagre se este barco chegar bem a Paris (Folha de S.Paulo)

MARCELO LEITE

DE SÃO PAULO

15/12/2014 02h00

Com dois dias de atraso, a Conferência de Lima pariu um rato. Espera-se agora o quase impossível: que o roedor aprenda a rugir em um ano e o faça com tanta força em Paris que consiga afugentar o espectro de uma mudança perigosa do clima.

Especialistas predizem que, para evitar um cenário de eventos extremos “”secas, enchentes, furacões””, o aquecimento global não pode ultrapassar 2°C neste século. Os compromissos nacionais de cortes nas emissões de CO2 (principal gás do efeito estufa) apresentados até aqui não representam mais que a metade do que seria necessário.

Como ocorre desde que se adotou a Convenção da ONU sobre Mudança do Clima no Rio, em 1992, Lima tropeçou na vala que separa países ricos e pobres. O maior avanço da conferência na capital peruana, contudo, se deu precisamente aí: agora, todas as nações ficam obrigadas a se comprometer com ações para conter o aquecimento.

É verdade que sobreviveu o princípio das “responsabilidades comuns, mas diferenciadas”, de que sempre se valeram os menos desenvolvidos para escapar de assumir metas. Todos têm de comparecer, daqui em diante, ainda que “à luz das diferentes circunstâncias nacionais”.

Traduzindo: China (maior emissor de CO2), Índia (terceiro, depois dos EUA) e Brasil (sexto) também estão obrigados a publicar planos para reduzir carbono. Uma vitória das nações desenvolvidas.

A União Europeia tem as metas mais ambiciosas: cortar 30% das emissões até 2020 e 40% até 2030, ante 1990. Os EUA prometem redução de 26% a 28% até 2025, mas na comparação com 2005.

O Brasil mantém que até 2020 reduzirá 36% a 39% do nível de suas emissões em 1990, graças à queda no desmatamento (nossa maior fonte de carbono). A China só fala em reduzir o ritmo de aumento da poluição, para zerá-lo em 2030. A Índia até aqui se fez de muda.

Há expectativa de que esses e outros países melhorem suas propostas nos próximos seis meses, de modo que se possa calcular, antes do encontro de Paris, a distância até a meta de 2°C. O problema é que, em Lima, não se chegou a um consenso sobre metodologia e anos-base –1990 ou 2005?

Assim fica difícil fazer a conta. Para piorar, se obteve um grau insuficiente de transparência nas comunicações que cada país ficou de fazer.

Por considerar qualquer tipo de monitoramento externo uma ameaça a sua soberania, a China vetou a obrigatoriedade de mecanismos para tornar as informações nacionais claras e verificáveis. Eles aparecem no acordo apenas como facultativos.

Não houve progresso, por fim, na eterna questão do dinheiro. Países pobres, que contribuíram menos historicamente para o aquecimento, mas sofrerão os piores impactos, exigem fundos dos ricos para prevenir catástrofes e adotar tecnologias limpas.

Com meros US$ 10 bilhões anuais comprometidos, nunca se esteve tão longe do objetivo anterior de levantar US$ 100 bilhões ao ano. O máximo que as nações menos desenvolvidas conseguiram foi cravar no texto as noções de fundos para adaptação e para “perdas e danos”.

Essa noção foi comemorada como vitória por países insulares como Tuvalu e Kiribati. Com territórios ameaçados de submergir com a elevação dos oceanos, precisam desesperadamente salvar o que for possível e, se inescapável, relocar sua população.

Na iminência de um naufrágio, Lima contentou-se com pouco, como sempre acontece nas reuniões do clima. Todos agora estão a bordo, mas com uma rota ainda por traçar e sem bons instrumentos para verificar o trajeto. Será um milagre se chegarem a bom porto em Paris.

2014 set to be world’s hottest year ever (The Guardian)

Record average temperatures highlight the urgent need to agree a deal on emissions at the UN climate change talks in Lima

2014 hottest year on record : 134-Foot-High Thermometer in Baker, California
 Vehicles drive by a 134ft-high thermometer in Baker, California. Average land and sea surface temperatures have reached record levels in 2014. Photograph: Ethan Miller/Getty Images

The world is on course for the hottest year ever in 2014, the United Nations weather agency said on Wednesday, heightening the sense of urgency around climate change negotiations underway in Lima.

Preliminary estimates from the World Meteorological Organisation (WMO) found global average land and sea surface temperatures for the first 10 months of 2014 had soared higher than ever recorded.

The findings – broadly in line with those of the US National Oceanic and Atmospheric Administration (Noaa) and other scientific agencies – indicate that by year-end 2014 will break all previous high temperature records.

The steady escalation of greenhouse gas emissions, caused by the burning of fossil fuels, have seen a succession of record-breaking years for temperature since the dawning of the 21st century and 2014 promises to be no exception, the WMO said.

“Fourteen of the 15 warmest years on record have all occurred in the 21st century,” said the WMO’s secretary-general Michel Jarraud. “What we saw in 2014 is consistent with what we expect from a changing climate.

“Record-breaking heat combined with torrential rainfall and floods destroyed livelihoods and ruined lives. What is particularly unusual and alarming this year are the high temperatures of vast areas of the ocean surface, including in the northern hemisphere,” he said.

The new evidence provided by the WMO report of the gathering risks of climate change undercut the optimism expressed by negotiators from industrialised countries at the opening of the Lima talks.

Christiana Figueres, the UN’s top climate official, said the findings drove home the urgency of reaching a deal. Negotiations have been grinding on for more than 20 years.

“Our climate is changing and every year the risks of extreme weather events and impacts on humanity rise,” she said.

Ed Davey, the UK climate secretary, said the UN climate talks were critical to stop temperatures rising to dangerous levels. “More record warm temperatures in the UK and across the world are yet more evidence that we need to act urgently to prevent dangerous climate change,” he said.

Officials from nearly 200 countries will spend the next two weeks in Lima working to agree on a plan to cut global greenhouse gas emissions fast enough and deeply enough to limit warming to 2C above pre-industrial times, the official objective of the UN talks.

But even that goal – which scientists say may not go far enough to prevent low-lying island states from drowning in rising seas – may be moving beyond reach.

“When confronted with numbers like these, the challenge to stablise global warming below dangerous levels can seem daunting indeed,” Michael Mann, the climate scientist, said. “The globe is warming, ice is melting, and our climate is changing, as a result. And the damage is being felt – in the forms of more destructive weather extremes, more devastating wildfires, and unprecedented threats to the survival of endangered animal species.”

He said the Lima climate talks – and a summit scheduled for Paris at the end of next year – were “perhaps our last real opportunity to stave off truly dangerous and irreversible world-wide changes in our climate.”

Bill McKibben, leader of the 350.org campaign group, saw the findings as a call to arms to climate activists. “If you thought 2014 was hot, wait ‘til you see 2015. This means we need to turn up the flame even higher under the fossil fuel companies that are frying our planet,” he said.

A runner passes people sitting on a bench in the sunshine in Green Park on October 31, 2014 in London, England.  Temperatures in London are forecasted to exceed 20 degrees making today the hottest Halloween on record.
 Londoners enjoying record temperatures at Halloween. Photograph: Rob Stothard/Getty Images

The WMO report found the global average air temperature over land and sea surface for January to October was about 0.57C above the average of 14C for the 1961-1990 reference period, and 0.09C above the average for the past 10 years (2004-2013).

The most striking evidence of warming was probably in the oceans, however. Most of the excess heat trapped in the atmosphere by greenhouse gas emissions ends up in the oceans.

The WMO said global sea surface temperatures were 0.45C higher than the average over the last 50 years.

If November and December continue on the same course, then 2014 will edge out 2010, 2005 and 1998 as the hottest years ever known – but only by a few hundredths of a degree. Different data sets also show slightly different rankings, the WMO said.

In any event, the trend line is clear. The world is getting warmer, especially the oceans. Those higher temperatures were already exacting a toll, in terms of heavy rainfall and flooding in some countries, and extreme drought in others, the WMO said.

The agency dismissed outright the notion posed by some climate deniers of a pause in the warming trend.

“There is no standstill in global warming,” Jarraud said.

The world’s big three emitters – the US, China, and the EU – have pledged new targets for cutting their use of fossil fuels, injecting optimism into the Lima talks.

But scientists say even those targets are not enough to limit warming to 2C, and other big carbon polluters such as India, Russia, and Australia have yet to come on board.

Meanwhile, there were early signs of tension between the US and EU over the legal structure of the agreement that is due to be adopted in Paris next year.

Campaign groups monitoring the talks called on negotiators to take the new WMO findings to heart.

“The fact that we’re tracking towards the hottest year on record should send chills through anyone who says they care about climate change – especially negotiators at the UN climate talks here in Lima,” said Samantha Smith, who heads WWF’s climate and energy initiative. “This is more scientific evidence of the real impact climate change is having on our world. The changes will be felt the most by the most vulnerable people, whose lives and livelihoods are already being affected.”

This picture taken on July 30, 2014 shows a girl and her father collecting water from an almost dried up resevoir, two kilometers from their home, in Pingdingshan, central China's Henan province. Severe drought and scorching heat has damaged over a million hectares of farmland in China's Henan and Inner Mongolia provinces, with no immediate relief in sight, a state news agency reported.
 An almost dried up reservoir in Pingdingshan, central China’s Henan province, where severe drought damaged vast areas of farmland. Photograph: STR/AFP/Getty Images

The WMO found western North America, Europe, eastern Eurasia, much of Africa, large areas of South America and southern and western Australia were especially warm. South Africa, Australia, and Argentina started the year with blistering heat waves.

However, the US and Canada ushered in 2014 with the chill Arctic winds of the polar vortex. Central Russia also recorded cooler than average conditions for the year.

Europe also experienced extreme weather, with the UK buffetted by storms. A separate temperature data set, the world’s longest continuous record, showed England was on track for the hottest year in over three centuries. Higher temperatures cause more evaporation and more rain, and 2014 began with England’s wettest winter in over 250 years, leading to widespread flooding.

In Serbia, Bosnia-Herzegovina and Croatia, more than two million people were caught up in severe flooding. Parts of Turkey saw five times the normal amount of rain, and France experienced its wettest summer since 1959.

South Asia also experienced heavy rains, with severe flooding in northern Bangladesh, northern Pakistan and India, affecting millions of people in August and September.

For other parts of the world, however, 2014 brought drought. Rainfall in parts of the Yellow River basin in China were less than half of the summer average. A large swathe of the western US continued under drought. New South Wales and southeast Queensland in Australia also went without rain.