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Eleição tem recorde de mulheres candidatas e, pela 1ª vez, mais negros que brancos (Folha de S.Paulo)

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Ranier Bragon, Guilherme Garcia e Flávia Faria – 27 de setembro de 2020


Os 526 mil pedidos de registro de candidatura computados até o momento para as eleições municipais de novembro já representam um recorde no número total de candidatos, de postulantes do sexo feminino e, pela primeira vez na história, uma maioria autodeclarada negra (preta ou parda) em relação aos que se identificam como brancos.

O crescimentos de negros e mulheres na disputa às prefeituras e Câmaras Municipais tem como pano de fundo o estabelecimento das cotas de gênero a partir dos anos 90 e as mais recentes cotas de distribuição da verba de campanha e da propaganda eleitoral, decisões essas tomadas pelos tribunais superiores em 2018, no caso das mulheres, e em 2020, no caso dos negros.

A cota eleitoral racial ainda depende de confirmação pelo plenário do STF (Supremo Tribunal Federal), o que deve ocorrer nesta semana.

Em relação à maior presença de negros, especialistas falam também no impacto do aumento de pessoas que se reconhecem como pretas e pardas após ações de combate ao racismo.

Apesar de o prazo de registro de candidatos ter se encerrado neste sábado (26), o Tribunal Superior eleitoral informou que um residual de registros feitos de forma presencial ainda levará alguns dias para ser absorvido pelo sistema.

Além disso, candidatos que não tiveram seu nome inscrito pelos partidos têm até quinta-feira (1º) para fazê-lo, mas isso normalmente diz respeito a um percentual ínfimo de concorrentes.

Os 526 mil pedidos computados até agora já representam 47 mil a mais do total de 2016 e 82% do que o tribunal espera receber este ano, com base nas convenções partidárias —cerca de 645 mil postulantes.

Até a noite deste domingo (27), o percentual de candidatas mulheres era de 34%, 177 mil concorrentes. Nas últimas três eleições, esse índice não passou de 32%. Pelas regras atuais, os partidos devem reservar ao menos 30% das vagas de candidatos e da verba pública de campanha para elas.

Em 2018, a Folha revelou em diversas reportagens que partidos, entre eles o PSL, lançaram candidatas laranjas com o intuito de simular o cumprimento da exigência, mas acabaram desviando os recursos para candidatos homens.

No caso dos negros, o TSE decidiu instituir a partir de 2022 a divisão equânime das verbas de campanha e da propaganda eleitoral entre candidatos negros e brancos.

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, porém, determinou a aplicação imediata da medida. Sua decisão, que é liminar, está sendo analisada pelo plenário da corte, com tendência de confirmação.

Até noite deste domingo, os autodeclarados pretos e pardos somavam 51% dos candidatos (264 mil) contra 48% dos brancos (249 mil). Entre os negros, 208 mil se declaravam pardos e 56 mil, pretos.

O TSE passou a perguntar a cor dos candidatos a partir de 2014. Nas três eleições ocorridas até agora, os brancos sempre foram superiores aos negros, ocupando mais de 50% das vagas de candidatos, apesar de pretos e pardos serem maioria na população brasileira (56%). Em 2016, brancos eram 51%.

Embora o TSE não tenha registrado cor ou raça dos candidatos nos pleitos anteriores, é muitíssimo improvável ter havido eleição anterior com maioria de candidatos negros.

Assim como no recenseamento da população feita pelo IBGE, os candidatos devem declarar a cor ou raça com base em cinco identificações: preta, parda (que formam a população negra do país), branca, amarela ou indígena.

Mais de 42 mil candidatos de todo o país que disputarão as eleições deste ano mudaram a declaração de cor e raça que deram em 2016.

O número equivale a 27% dos cerca de 154 mil que concorreram no último pleito e disputam novamente em 2020. Pouco mais de um terço (36%) alterou a cor de branca para parda. Outros 30% se declaravam pardos e agora se dizem brancos.

Apesar da possibilidade de fraude, especialistas falam no impacto do aumento de pessoas que se reconhecem como pretas e pardas após ações de combate ao racismo.

A decisão de adoção imediata das cotas raciais colocou em posições opostas os núcleos afros dos partidos políticos, favoráveis à decisão, e os dirigentes das siglas, majoritariamente brancos, que em reunião nesta semana com o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, chegaram a dizer ser inexequível o cumprimento da medida ainda neste ano.

Também há receio de fraudes em relação às candidaturas negras. E há de se ressaltar que, assim como a cota feminina não resultou até agora em uma presença nos postos de comando de Executivo e Legislativo de mulheres na proporção que elas representam da população, a cota racial também não é garantia, por si só, de que haverá expressivo aumento da participação de negros na política, hoje relegados a pequenas fatias de poder, principalmente nos cargos mais importantes. ​

Neutralidade é um lugar que não existe (Le Monde Diplomatique Brasil)

Acervo Online | Brasil por Carla Rodrigues 19 de agosto de 2020

A história da minha educação para o racismo me diz que fui racializada como branca para ser racista.

Sou branca e fui criada como branca. Mais do que isso, fui educada para saber identificar os fenótipos das pessoas negras, de modo a estabelecer rigorosas distinções entre pessoas brancas, pessoas então chamadas de “mulatas” e pessoas negras. Cresci aprendendo que pessoas negras são sujas e que a cor preta estava associada ao nojo, ao abjeto. Na escola progressista em que estudei, havia apenas duas pessoas negras, ambas filhas de funcionários. Durante décadas, escutei a exaltação dos ancestrais portugueses e italianos, que nos legaram pele branca, cabelos lisos e, no meu caso, olhos azuis, joia rara na família e objeto de disputa como  signo da herança materna portuguesa ou da herança paterna italiana.

Fui ensinada a ser superior porque branca, embora a superioridade de uma mulher branca de família pequeno burguesa estivesse fundamentada na cor, não em privilégios de classe ou gênero. Quando analiso para a minha educação para ser racista, vejo retrospectivamente que as pessoas brancas da minha família de imigrantes pobres talvez precisassem afirmar o privilégio de cor para escapar da subalternidade justo por não terem o privilégio de classe.

Por isso, inclusive, além de racistas, eram também classistas e repetiam os estereótipos que o racismo usa ainda hoje: pessoas pretas e pobres são igualmente perigosas, eventualmente preguiçosas, embora as mulheres negras tenham sido sempre alocadas nos trabalhos braçais do cuidado da casa e no cuidado de crianças. Esta divisão marcou a minha infância. Quando criança, nunca entendi a divisão subjetiva entre não poder gostar de pessoas pretas e adorar a mulher preta que cuidava de mim quando minha mãe não estava.

Há muito tempo quero escrever sobre minha experiência pessoal de ter sido educada para ser racista e, portanto, ter chegado à vida adulta naturalizando a desigualdade racial. Do debate que se seguiu ao artigo de Lilia Schwarcz a respeito do novo vídeo da Beyoncé, foi o texto de Lia Vainer Schucman que me motivou a escrever. Isso porque considero o argumento dela irrefutável: “nossa racialidade está sendo marcada, algo que acontece há alguns séculos com negros e indígenas no Brasil, ou seja: é quando o grupo antecede o indivíduo (o que nomeamos de processo de racialização).” A história da minha educação para o racismo me diz que fui racializada como branca para ser racista. Já Schucman defende uma racialização que, como reconhecimento de que todas as pessoas são marcadas, poderia nos levar ao fim do racismo. Parece contraditório, eu sei, mas vamos lá.

Há muitos anos tenho trabalhado para desconstruir as camadas de racismo que me foram sobrepostas. Aqui, uso o verbo descontruir como foi proposto pelo filósofo franco-argelino Jacques Derrida, a quem dediquei minhas pesquisas de mestrado e doutorado e com quem comecei a aprender que quem fala, o faz a partir de algum lugar. Isso porque um dos objetivos da desconstrução é a crítica à suposição da neutralidade dos discursos, que serve como anteparo a todas as premissas ocultas que os discursos de saber-poder contém.

Como mulher, experimentei inúmeras vezes – e infelizmente ainda experimento – a diferença de poder entre o discurso masculino de autoridade e o meu. Como pesquisadora, fui aprendendo a perceber e denunciar que esse discurso masculino obtém sua autoridade de uma suposição de neutralidade do saber. Daí para a leitura da filósofa Donna Haraway e seu clássico “Saberes localizados” foi um passo curto. No ensaio, Haraway desconstrói a suposição de neutralidade do discurso da ciência e confere às feministas a responsabilidade de produzir conhecimento como saber situado. É o que venho tentando fazer há algum tempo, tanto na minha escrita quanto no meu trabalho de orientadora de pesquisas acadêmicas que, muitas vezes, procuram a neutralidade em busca de autoridade, mesmo que para isso acabe abrindo mão da autoria do texto.

Neste processo, ainda em curso, precisei aprender que branco também é cor. Enxergar-se branca é enxergar-se marcada pela própria branquitude. É este aspecto que me mobiliza no debate sobre lugar de fala: a desconstrução da suposição de neutralidade de qualquer discurso. Quem continua pretendendo se ver como neutro ou neutra é quem, por acreditar que não tem cor, pode continuar oprimindo – seja as pessoas negras, seja as pessoas brancas subalternizadas – por uma suposta neutralidade do saber.

Não por acaso, o livro de Djamila Ribeiro (“O que é lugar de fala”, editora Letramento, 2017) tem como epígrafe trecho de um artigo de Lélia Gonzalez: “Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos) que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.”

Aqui posso fazer Djamila e Lélia conversarem com Achille Mbembe de “Crítica da razão negra” (N-1 Edições, 2019), em que ele divide a razão negra em dois momentos: o primeiro, o da consciência ocidental do negro, orientando pela interpelação do colonizador com perguntas como “quem é ele?; como o reconhecemos?; o que o diferencia de nós? poderá ele tornar-se nosso semelhante? como governá-lo e a que fins?”. No segundo momento, Mbembe percebe que as perguntas são as mesmas, a mudança está em quem as enuncia: “Quem sou eu?; serei eu, de verdade, quem dizem que eu sou?;  Será verdade que não sou nada além disto – minha aparência, aquilo que se diz de mim?; Qual o meu verdadeiro estado civil e histórico?”.

Ehimetalor Akhere Unuabona/ Unsplash

Quando me reconheço portadora de uma cor – branca – também posso enunciar estas perguntas, de tal modo a não precisar mais sustentar a posição de ter que repetir ao outro as perguntas do colonizador. Eu sou branca, e quanto a isso não há opção. Mas quanto a continuar sendo herdeira da violência da tradição colonizadora, acredito que haja escolha possível e que esta passa pelo desejo de cura da ferida colonial.

Retomo então minha experiência. Foi o racismo que me ensinou que sou branca. Fui marcada como branca a fim de que esta marcação funcionasse como signo de superioridade. Mas a mim hoje parece fácil perceber que a necessidade de marcação de superioridade só existe para aquele que se sente inferior, que se sabe fora do lugar de superioridade que almeja. Numa formação social marcada pela violência colonial, sobreviver é, entre tantas outras coisas, escapar do lugar de subalternidade.

Refletir sobre a experiência de ter sido marcada com a cor branca me ajudou a fazer a distinção que estou propondo aqui entre suposição de neutralidade do branco – a “branquitude” que não pretende se assumir como tal – e a admissão de que branco também é uma cor, uma marcação ou, para falar em termos interseccionais, um marcador que, se existe negativamente para a pessoa negra no racismo estrutural da sociedade brasileira, existe positivamente para a pessoa branca.

Com essa diferença, esboço uma hipótese: a maior rejeição à ideia de que todo discurso é situado, e que certos discursos estão autorizados por estarem situados a partir de um lugar de poder, e outros estão desautorizados por estarem situados fora desses lugares, a maior reação vem de quem ainda não vê a sua branquitude por se acreditar “neutra”. Para isso, é preciso negar que branco seja cor. É desse lugar de neutro que intelectuais, mesmos os/as mais respeitados/as, parecem não poder abrir mão. E aí caem na pior armadilha: “sou branco/a mas sou legal” (uma espécie de versão atualizada de “tenho até amigo gay”).

Fui racializada como branca porque fui educada para ser racista, o que me obrigou a assumir a minha cor e a carregar com ela o peso do racismo estrutural brasileiro. Se hoje penso, escrevo, pesquiso e ensino contra o racismo é por não suportar mais o sofrimento de viver num país em que pessoas negras são brutalmente excluídas, violentadas e exterminadas em nome da minha suposta superioridade branca. Esta é a cor da minha pele. Já o meu desejo tem sido destruir o racismo que me impôs uma suposição de superioridade branca na qual não me reconheço.

Carla Rodrigues é professora de Ética no Departamento de Filosofia da UFRJ, pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Filosofia e bolsista de produtividade da Faperj.

O que resta da crítica estrutural? – Estado da Arte (Estadão)

estadodaarte.estadao.com.br

Filipe Campello, 14 de agosto de 2020

O que mais chocou Hannah Arendt quando, a convite da New Yorker, cobria em 1963 o julgamento de Eichmann foi a incapacidade dos responsáveis pela barbárie do holocausto de pensar. Como seria possível que todos aqueles oficiais nazistas alegassem que estavam apenas seguindo regras, por mais absurdas e cruéis que fossem? E, se estavam obedecendo ordens, até que ponto seriam culpados?

Eichmann em Jerusalém

Arendt estava presenciando naqueles dias em Jerusalém uma pergunta que muitos alemães se fizeram após o fim da guerra. Foi a questão que, em 1946, ainda no calor dos acontecimentos, durante o tribunal de Nüremberg, o filósofo e psiquiatra Karl Jaspers, um dos principais mentores e depois grande amigo de Arendt, se coloca no livro A questão da culpa. Indo além do sentido de culpa estritamente penal, Jaspers traz um sentido também moral ligado à responsabilidade que temos perante nossos atos. “Eu, que não posso agir de outro modo a não ser como indivíduo”, escreve Jaspers, “sou moralmente responsável pelos meus atos, incluindo a execução de ordens militares e políticas. Não é simplesmente verdade que ‘ordens são ordens’”.

Mas Jaspers não se indaga apenas sobre a culpa daqueles indivíduos que estavam sendo julgados, mas sobre a responsabilidade de todo o povo alemão diante da barbárie daqueles anos. Para Jaspers, que era casado com uma judia, ainda que nem todos os alemães pudessem ser punidos por crimes de guerra, isso não os blindaria de reconhecer uma parcela de cumplicidade. O silêncio da indiferença, também ele, é político. Justamente aqueles indivíduos que se diziam apolíticos seriam acometidos por aquilo que Jaspers chama de culpa política. É nesse sentido que o ensaio traz uma reflexão autocrítica de responsabilização coletiva dos alemães com vistas à possibilidade de renovação cultural e política.

Jaspers

As reflexões de Arendt e Jaspers, ambas situadas durante processos de julgamentos penais, trazem então duas dimensões distintas da responsabilidade: a individual e a coletiva. O que é extremo naquele contexto representa um dos mais recorrentes dilemas filosóficos — a tensão entre regras que seguimos e a capacidade de nos responsabilizarmos por nossas escolhas. O problema é que, uma vez que várias dessas regras não estão sempre disponíveis à escolha do indivíduo, elas extrapolariam o âmbito da liberdade individual. Elas fariam parte daquilo que Wittgenstein chamou de jogo de linguagem: por tais regras serem socialmente compartilhadas, nosso horizonte de significações e visões de mundo esbarra no vocabulário que encontramos disponível.

Quando eu era criança, o que mais gostava de fazer era criar meus próprios jogos. Inventava as suas regras em detalhes: desenhava as cartas e o tabuleiro, definia as peças e como se ganharia o jogo. Gostava mais desse processo de criação do que dos jogos com regras já definidas. Talvez houvesse ali uma certa preferência pela subversão.

Acontece que criar novas regras sociais não é tão simples quanto a de um jogo para brincar. Várias dessas regras nos antecedem de um modo que sequer é possível participar do jogo se quisermos prescindir delas. É o que Wittgenstein argumenta em sua crítica à linguagem privada: eu já disponho de um vocabulário que não é propriedade minha; nele, não faria sentido nos referirmos a uma linguagem que fosse exclusivamente individual.

Wittgenstein em Swansea, 1947

É disso que se trata a crítica estrutural. Numa ampla tradição que em grande parte remete a Hegel, o objeto da crítica desloca-se do indivíduo para aquilo que o antecede: Padrões, práticas e hábitos sociais que traçam o horizonte de nossa relação com o mundo e que atravessam até mesmo a constituição de nossos desejos. Tal deslocamento vale desde a nossa referência cotidiana a objetos até a aspectos arraigados em práticas sociais que perpetuam relações de injustiça, como no que se chama de racismo estrutural.

A linguagem que compartilhamos já traz referências a uma semântica e a uma pragmática — um sentido e um uso de palavras e expressões. É o caso do termo “denegrir”, cujo teor racista tem sido alertado de algum tempo para cá. Acontece que enquanto uma pessoa não toma conhecimento deste sentido (não adentra, por assim dizer, o universo semântico implícito na expressão -, não se pode simplesmente acusá-la de usar o termo em um sentido intencionalmente racista. Em outro caso recente, um filho de imigrantes nos Estados Unidos foi fotografado fazendo o gesto de “OK” com a mão. Aparentemente, não haveria problema no gesto, não fosse o fato de ele ter sido apropriado na dark web por movimentos supremacistas brancos. Apesar de não ser possível exigir que ele tivesse consciência dessa apropriação (no caso, aliás, a acusação é ainda mais kafkiana porque ela estava apenas estalando os dedos), bastou uma postagem da foto no Twitter com a marcação da empresa onde ela trabalhava para sua vida virar de cabeça para baixo.

Enquanto há formas estruturais de racismo, qualquer um pode estar sujeito a práticas racistas já incorporadas em hábitos e normas sociais. Se formas de injustiça são estruturais, isso significa que a sociedade como um todo compartilha de uma responsabilidade em transformá-las. Poderíamos dizer, seguindo Jaspers, que o problema reside nas próprias regras a serem seguidas, e que por isso há também uma responsabilização coletiva na mudança delas.

O problema que surge, aqui, é justamente sobre o lugar da responsabilidade do indivíduo tal como posta no contexto extremo dos julgamentos do pós-guerra: Se não somos nós que escolhemos as regras do jogo, o que nos faz responsáveis por segui-las?

Gostaria de sugerir, aqui, duas ideias sobre este problema. A primeira é a de que aquilo que à primeira vista parece ser um limite da crítica estrutural é o que, na verdade, pode ser mais adequado para entender aquilo que cabe à responsabilidade individual; em segundo lugar, que alguns conceitos que tem assumido papel preponderante no debate ligado a pautas identitárias estão esvaziando o potencial da crítica estrutural, pois recam em uma lógica de punitivismo que paradoxalmente acaba por retirar do indivíduo uma dimensão que lhe cabe de responsabilidade.

Tomemos o exemplo do conceito de lugar de fala. O sentido por trás dele, que remete aos trabalhos de Gayatri Spivak, reside na noção de que nem as nossas formas de nos referir ao mundo nem o peso que eles terão no discurso são igualmente compartilhados. Como tem sido amplamente discutido pela literatura pós- e de(s)colonial, trata-se de uma crítica a uma suposta neutralidade epistêmica de nossas visões de mundo, onde questões de injustiça epistêmica são também políticas — quem está dentro e quem está fora, quem pode falar e quem é silenciado, quais falas, enfim, importam para o discurso — aquilo que no debate em línguas inglesa tem sido chamado de standpoint epistemology.

Gayatri Spivak

Como se vê, o que encontramos no centro desta discussão é a importância dada aos processos de aprendizado, à percepção e à tomada de consciência reflexiva de nossos discursos.

Quando usado, contudo, para fazer ataques pessoais baseados em questões identitárias, o sentido pretendido pelo conceito entra em contradição com o que ele pretende:  de um lado, ele pede por autocrítica e reflexão — ou seja, consciência do lugar a partir de onde se fala —, mas, de outro, acusa-se o indivíduo a partir de uma lógica identitária que justamente escamoteia a possibilidade do aprendizado e da reflexão. É o que se chama de contradição performativa: o próprio conceito, quando enunciado, perde a sua razão de ser.

Problema análogo vale para o sentido de punição no que tem sido chamado de cultura do cancelamento. Quem define quem é culpado e como deve ser punido?

Na genealogia moderna do Estado democrático de direito, o significado de punirmos socialmente alguém que cometeu um delito foi paulatinamente assumido pela esfera jurídica como sendo proporcional a esse delito. Qualquer pessoa que cometeu um crime deve responder por seus atos, mas antes disso ela tem que ter direito ao devido processo legal, que envolve presunção de inocência, direito ao contraditório e ampla defesa etc. A ideia básica do devido processo legal é que há uma pena correspondente a um crime. Não podemos simplesmente estampar um rótulo numa pessoa e taxa-la ad eternum de “criminoso”. É justamente esse tipo de postura que impede a reinserção social de quem foi preso e está novamente livre. Ao indivíduo também lhe é dado o direito a outras possibilidades de escolhas que também fazem parte do horizonte de sua narrativa, como arrepender-se e quer traçar sua biografia de uma outra maneira.

A assim chamada cultura do cancelamento acaba então assumindo dois pesos e duas medidas: ao mesmo tempo que pretende ser antipunitivista ou mesmo anticarcerária, pune socialmente sem conceder o que é previsto nas suas garantias legais. Cria-se uma espécie de antipunitivismo de ocasião, com a diferença de que a pena dada pelo cancelamento pode ser pior, pois não há mais a possibilidade de se pagar uma pena correspondente a um delito, mas enquanto viver a pessoa é condenada ao ostracismo.

(Reprodução: Twitter)

Apesar dos holofotes do cancelamento acabarem se voltando para casos envolvendo celebridades, que já tem mais visibilidade, a consequências dessa lógica punitivista e persecutória atinge mais duramente pessoas em condições de maior vulnerabilidade. E, aqui, as intuições por trás da crítica estrutural mostram-se novamente fecundas: Se há falhas na forma como as instituições da justiça atuam — seletividade e desproporcionalidade das punições, práticas extrajudiciais, ou mesmo limites do legalismo —, a crítica deve se voltar sobretudo a isso, sem precisarmos retroceder a práticas de condenações moral.

É por isso que tenho me posicionado contra qualquer forma de moralismo persecutório — ou seja, que pune o outro a partir de sua própria régua moral. Como entendo, o julgamento que faço a partir de minha régua moral diz mais sobre mim do que dos outros. Ele traça uma linha vertiginosa e arrogante sobre como os outros devem se comportar, e com ela, apenas escancara o narcisismo de minhas próprias convicções. Desconfio, portanto, tanto de quem exige do outro a perfeição quanto de quem se diz perfeito (a tal pessoa de bem) — o que não passa de uma forma ou ingênua ou cínica de autoengano.

Mesmo quem se diz tolerante, a depender da sinceridade de suas motivações, pode apenas esconder formas mais profundas de injustiças estruturais. É por isso que na língua alemã, além do vocábulo de variação latina “tolerieren”, há o verbo “dulden” — que quer dizer “suportar”: eu tenho que suportar quem pensa diferente de mim. Não por acaso, Goethe diz que “[a] tolerância deveria ser uma atitude apenas temporária: ela deve conduzir ao reconhecimento. Tolerar significa insultar.”

Detalhe do retrato de Goethe em 1828, óleo sobre tela de Stieler

Ao invés de voltar-se para a crítica a formas estruturais de injustiça — como tem enfatizado Silvio Almeida em seus trabalhos sobre o racismo estrutural —, o que o uso equivocado de conceitos como lugar de fala e outras práticas como linchamento virtual e cancelamento têm feito é o patrulhamento sobre quem pode ou não falar, muitas vezes assumindo um caráter cerceador da liberdade e de interdição do discurso. No limite, ele joga fora tanto as dimensões estruturais da crítica quanto a possibilidade de responsabilização individual — ou seja, a capacidade que cada um tem de rever suas próprias posições. Por isso, tenho usado o termo paradoxo, referindo-me a posições e posturas que entram em choque com aquilo que pretendem.

O que orienta a crítica estrutural, pelo contrário, não é o abandono da responsabilidade individual, senão confrontar o que podemos chamar de uma noção ingênua de liberdade: a de pressupor que os indivíduos são igualmente livres para perseguir suas próprias escolhas, sem justamente ter em mente um leque de condições estruturais que escrevem seu horizonte de liberdade –  a começar pelo país que nascemos, as condições econômicas de sua família, cor de sua pele, etc. Nada disso depende da liberdade individual. Ao jogar a responsabilidade apenas sobre o indivíduo, perde-se de vista o conjunto de práticas compartilhadas inclusive numa perspectiva histórica e intergeracional. Reconhecimentos públicos de perdão cumprem esse papel: ainda que não seja o chefe de Estado enquanto indivíduo o culpado, o gesto de reconhecimento de injustiças históricas traz um importante significado simbólico de elaboração da memória. É por isso que, até mesmo para libertários como Robert Nozick, é legítimo o reconhecimento de dívida históricas —o que, apesar de não querer indicar uma culpa individual, significa reconhecer que práticas institucionalizas do passado são causas de injustiça no presente.

Robert Nozick

Enquanto volta-se às estruturas sociais, a crítica tem a vantagem de pensar quais são as condições sociais de realização da liberdade individual, compreendendo aí também o que podemos confrontar e não determinar de maneira identitária.

A fixação essencialista e unilateral em condições de identidade acaba por reduzir o pensamento à identidade. Ela encapsula a reflexão, ditando tanto quem pode e quem não pode refletir sobre determinadas questões quanto assumindo uma espécie de relação dada a priori entre identidade e pensamento — como se houvesse um bloco homogêneo determinado identitariamente e não pessoas que podem ter posições diferentes. E não só: se se fragiliza a dimensão de nossa possibilidade de escolha justamente além da condição na qual nascemos, retira-se o sentido de responsabilidade individual. Somos sujeitos com responsabilidade moral justamente porque podemos nos posicionar diante da condição identitária em que nascemos.

O pensamento, a reflexão ou a crítica nunca estão dadas, senão se encontram sempre em disputa, e é isso que permite com que — individual ou coletivamente — confrontemos as instituições, nossas hábitos e práticas sociais. Voltar o foco à crítica estrutural significa reconhecer que, afinal, podemos pensar — ou seja, assumir a responsabilidade que temos pelas nossas escolhas e por aquilo que nos cabe dentro do horizonte e do vocabulário de nossa liberdade.

(Getty Images)

Filipe Campello é professor de filosofia da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador do CNPq. É Doutor em Filosofia pela Universidade de Frankfurt (Alemanha) e realizou pós-doutorado na New School for Social Research (Nova York).

How a Famous Harvard Professor Became a Target Over His Tweets (New York Times)

nytimes.com

By Michael Powell, July 15, 2020

The outcry over free speech and race takes aim at Steven Pinker, the best-selling author and well-known scholar.

Professor Steven Pinker, in his office in Cambridge, Mass., in 2018. He has been accused of racial insensitivity by people he describes as “speech police.”
Credit…Kayana Szymczak for The New York Times

Steven Pinker occupies a role that is rare in American life: the celebrity intellectual. The Harvard professor pops up on outlets from PBS to the Joe Rogan podcast, translating dense subjects into accessible ideas with enthusiasm. Bill Gates called his most recent book “my new favorite book of all time.”

So when more than 550 academics recently signed a letter seeking to remove him from the list of “distinguished fellows” of the Linguistic Society of America, it drew attention to their provocative charge: that Professor Pinker minimizes racial injustices and drowns out the voices of those who suffer sexist and racist indignities.

But the letter was striking for another reason: It took aim not at Professor Pinker’s scholarly work but at six of his tweets dating back to 2014, and at a two-word phrase he used in a 2011 book about a centuries-long decline in violence.

“Dr. Pinker has a history of speaking over genuine grievances and downplaying injustices, frequently by misrepresenting facts, and at the exact moments when Black and Brown people are mobilizing against systemic racism and for crucial changes,” their letter stated.

The linguists demanded that the society revoke Professor Pinker’s status as a “distinguished fellow” and strike his name from its list of media experts. The society’s executive committee declined to do so last week, stating: “It is not the mission of the society to control the opinions of its members, nor their expression.”

But a charge of racial insensitivity carries power in the current climate, and the letter sounded another shot in the fraught cultural battles now erupting in academia and publishing.

Also this month, 153 intellectuals and writers — many of them political liberals — signed a letter in Harper’s Magazine that criticized the current intellectual climate as “constricted” and “intolerant.” That led to a fiery response from opposing liberal and leftist writers, who accused the Harper’s letter writers of elitism and hypocrisy.

In an era of polarizing ideologies, Professor Pinker, a linguist and social psychologist, is tough to pin down. He is a big supporter of Democrats, and donated heavily to former President Barack Obama, but he has denounced what he sees as the close-mindedness of heavily liberal American universities. He likes to publicly entertain ideas outside the academic mainstream, including the question of innate differences between the sexes and among different ethnic and racial groups. And he has suggested that the political left’s insistence that certain subjects are off limits contributed to the rise of the alt-right.

Reached at his home on Cape Cod, Professor Pinker, 65, noted that as a tenured faculty member and established author, he could weather the campaign against him. But he said it could chill junior faculty who hold views counter to prevailing intellectual currents.

“I have a mind-set that the world is a complex place we are trying to understand,” he said. “There is an inherent value to free speech, because no one knows the solution to problems a priori.”

He described his critics as “speech police” who “have trolled through my writings to find offensive lines and adjectives.”

The letter against him focuses mainly on his activity on Twitter, where he has some 600,000 followers. It points to his 2015 tweet of an article from The Upshot, the data and analysis-focused team at The New York Times, which suggested that the high number of police shootings of Black people may not have been caused by racial bias of individual police officers, but rather by the larger structural and economic realities that result in the police having disproportionately high numbers of encounters with Black residents.

“Data: Police don’t shoot blacks disproportionately,” Professor Pinker tweeted with a link to the article. “Problem: Not race, but too many police shootings.”

The linguists’ letter noted that the article made plain that police killings are a racial problem, and accused Professor Pinker of making “dishonest claims in order to obfuscate the role of systemic racism in police violence.”

But the article also suggested that, because every encounter with the police carries danger of escalation, any racial group interacting with the police frequently risked becoming victims of police violence, due to poorly trained officers, armed suspects or overreaction. That appeared to be the point of Professor Pinker’s tweet.

The linguists’ letter also accused the professor of engaging in racial dog whistles when he used the words “urban crime” and “urban violence” in other tweets.

But in those tweets, Professor Pinker had linked to the work of scholars who are widely described as experts on urban crime and urban violence and its decline.

“‘Urban’ appears to be a usual terminological choice in work in sociology, political science, law and criminology,” wrote Jason Merchant, vice provost and a linguistics professor at the University of Chicago, who defended Professor Pinker.

Another issue, Professor Pinker’s critics say, is contained in his 2011 book, “The Better Angels of Our Nature: Why Violence Has Declined.” In a wide-ranging description of crime and urban decay and its effect on the culture of the 1970s and 1980s, he wrote that “Bernhard Goetz, a mild-mannered engineer, became a folk hero for shooting four young muggers in a New York subway car.”

The linguists’ letter took strong issue with the words “mild-mannered,” noting that a neighbor later said that Goetz had spoken in racist terms of Latinos and Black people. He was not “mild-mannered” but rather intent on confrontation, they said.

The origin of the letter remains a mystery. Of 10 signers contacted by The Times, only one hinted that she knew the identity of the authors. Many of the linguists proved shy about talking, and since the letter first surfaced on Twitter on July 3, several prominent linguists have said their names had been included without their knowledge.

Several department chairs in linguistics and philosophy signed the letter, including Professor Barry Smith of the University at Buffalo and Professor Lisa Davidson of New York University. Professor Smith did not return calls and an email and Professor Davidson declined to comment when The Times reached out.

The linguists’ letter touched only lightly on questions that have proved storm-tossed for Professor Pinker in the past. In the debate over whether nature or nurture shapes human behavior, he has leaned toward nature, arguing that characteristics like psychological traits and intelligence are to some degree heritable.

He has also suggested that underrepresentation in the sciences could be rooted in part in biological differences between men and women. (He defended Lawrence Summers, the former Harvard president who in 2005 speculated that innate differences between the sexes might in part explain why fewer women succeed in science and math careers. Mr. Summers’s remark infuriated some female scientists and was among several controversies that led to his resignation the following year.)

And Professor Pinker has made high-profile blunders, such as when he provided his expertise on language for the 2007 defense of the financier Jeffrey Epstein on sex trafficking charges. He has said he did so free of charge and at the request of a friend, the Harvard law professor Alan Dershowitz, and regrets it.

The clash may also reflect the fact that Professor Pinker’s rosy outlook — he argues that the world is becoming a better place, by almost any measure, from poverty to literacy — sounds discordant during this painful moment of national reckoning with the still-ugly scars of racism and inequality.

The linguists’ society, like many academic and nonprofit organizations, recently released a wide-ranging statement calling for greater diversity in the field. It also urged linguists to confront how their research “might reproduce or work against racism.”

John McWhorter, a Columbia University professor of English and linguistics, cast the Pinker controversy within a moment when, he said, progressives look suspiciously at anyone who does not embrace the politics of racial and cultural identity.

“Steve is too big for this kerfuffle to affect him,” Professor McWhorter said. “But it’s depressing that an erudite and reasonable scholar is seen by a lot of intelligent people as an undercover monster.”

Because this is a fight involving linguists, it features some expected elements: intense arguments about imprecise wording and sly intellectual put-downs. Professor Pinker may have inflamed matters when he suggested in response to the letter that its signers lacked stature. “I recognize only one name among the signatories,’’ he tweeted. Such an argument, Byron T. Ahn, a linguistics professor at Princeton, wrote in a tweet of his own, amounted to “a kind of indirect ad hominem attack.”

The linguists insisted they were not attempting to censor Professor Pinker. Rather, they were intent on showing that he had been deceitful and used racial dog whistles, and thus, was a disreputable representative for linguistics.

“Any resulting action from this letter may make it clear to Black scholars that the L.S.A. is sensitive to the impact that tweets of this sort have on maintaining structures that we should be attempting to dismantle,” wrote Professor David Adger of Queen Mary University of London on his website.

That line of argument left Professor McWhorter, a signer of the letter in Harper’s, exasperated.

“We’re in this moment that’s like a collective mic drop, and civility and common sense go out the window,” he said. “It’s enough to cry racism or sexism, and that’s that.”

68% Have Antibodies in This Clinic. Can Neighborhood Beat a Next Wave? (The New York Times)

nytimes.com

By Joseph Goldstein

Data from those tested at a storefront medical office in Queens is leading to a deeper understanding of the outbreak’s scope in New York.

Some neighborhoods, like Corona in Queens, were so hard hit during the peak of the coronavirus epidemic that they might now have herd immunity. 
Credit…Victor J. Blue for The New York Times

July 9, 2020; Updated 7:37 a.m. ET

At a clinic in Corona, a working-class neighborhood in Queens, more than 68 percent of people tested positive for antibodies to the new coronavirus. At another clinic in Jackson Heights, Queens, that number was 56 percent. But at a clinic in Cobble Hill, a mostly white and wealthy neighborhood in Brooklyn, only 13 percent of people tested positive for antibodies.

As it has swept through New York, the coronavirus has exposed stark inequalities in nearly every aspect of city life, from who has been most affected to how the health care system cared for those patients. Many lower-income neighborhoods, where Black and Latino residents make up a large part of the population, were hard hit, while many wealthy neighborhoods suffered much less.

But now, as the city braces for a possible second wave of the virus, some of those vulnerabilities may flip, with the affluent neighborhoods becoming most at risk of a surge. According to antibody test results from CityMD that were shared with The New York Times, some neighborhoods were so exposed to the virus during the peak of the epidemic in March and April that they might have some protection during a second wave.

“Some communities might have herd immunity,” said Dr. Daniel Frogel, a senior vice president for operations at CityMD, which plays a key role in the city’s testing program.

The CityMD statistics — which Dr. Frogel provided during an interview and which reflect tests done between late April and late June — appear to present the starkest picture yet of how infection rates have diverged across neighborhoods in the city.

As of June 26, CityMD had administered about 314,000 antibody tests in New York City. Citywide, 26 percent of the tests came back positive.

But Dr. Frogel said the testing results in Jackson Heights and Corona seemed to “jump off the map.”

While stopping short of predicting that those neighborhoods would be protected against a major new outbreak of the virus — a phenomenon known as herd immunity — several epidemiologists said that the different levels of antibody prevalence across the city are likely to play a role in what happens next, assuming that antibodies do in fact offer significant protection against future infection.

“In the future, the infection rate should really be lower in minority communities,” said Kitaw Demissie, an epidemiologist and the dean of the School of Public Health at SUNY Downstate Medical Center in Brooklyn.

Dr. Ted Long, the executive director of the city’s contact-tracing program, said that while much remained unknown about the strength and duration of the protection that antibodies offer, he was hopeful that hard-hit communities like Corona would have some degree of protection because of their high rate of positive tests. “We hope that that will confer greater herd immunity,” he said.

Neighborhoods that had relatively low infection rates — and where few residents have antibodies — are especially vulnerable going forward. There could be some degree of “catch up” among neighborhoods, said Prof. Denis Nash, an epidemiology professor at the CUNY School of Public Health.

But he added that even if infection rate were to climb in wealthier neighborhoods, “there are advantages to being in the neighborhoods that are hit later.” For one, doctors have become somewhat more adept at treating severe cases.

Many residents of neighborhoods like Elmhurst, in Queens, had to continue working during the peak. 
Credit…Brittainy Newman/The New York Times

Some epidemiologists and virologists cautioned that not enough data exists to conclude that any areas have herd immunity. For starters, the fact that 68.4 percent of tests taken at an urgent care center in Corona came back positive does not mean that 68.4 percent of residents had been infected.

“For sure, the persons who are seeking antibody testing probably have a higher likelihood of being positive than the general population,” said Professor Nash. “If you went out in Corona and tested a representative sample, it wouldn’t be 68 percent.”

So far, the federal government has released relatively little data from antibody testing — making the CityMD data all the more striking. The Centers for Disease Control and Prevention, for instance, has published limited data that suggested that 6.93 percent of residents in New York City and part of Long Island had antibodies. But that survey was based on samples collected mainly in March, before many infected New Yorkers might have developed antibodies.

New York State conducted a more comprehensive survey on antibody rates, which involved testing some 28,419 people across the state. That survey suggested that roughly 21.6 percent of New York City residents had antibodies. But it also revealed a much higher rate in some neighborhoods. While the state has released little data from Queens, its numbers showed that in Flatbush, Brooklyn, for example, about 45 percent of those tested had antibodies.

The CityMD data provides similar conclusions. At a location in Bushwick, a Brooklyn neighborhood which has a large Hispanic population and where the median household income is below the citywide average, some 35 percent of antibody tests were positive, according to Dr. Frogel.

More than 56 percent of patients at one clinic in Jackson Heights,  Queens, tested positive for coronavirus antibodies. 
Credit…Juan Arredondo for The New York Times

Dr. Frogel said that across the Bronx, which has had the city’s highest death rate from Covid-19, about 37 percent of antibody tests were turning up positive.

The CityMD in Corona, on Junction Boulevard, serves a predominantly Hispanic neighborhood whose residents include many construction workers and restaurant employees. Many had to work throughout the pandemic, raising their risk of infection.

Angela Rasmussen, a virologist at Columbia University, called the high positive rate in Corona “a stunning finding.” Epidemiologists said the rate showed the limits of New York’s strategy in curtailing the virus: While public health measures may have slowed the spread in some neighborhoods, they did far less for others.

There are reasons parts of Queens were hit so hard. Homes in Elmhurst and parts of Corona are especially crowded — the highest rate of household crowding in the city, according to census bureau data from 2014. Given that transmission among family members is a leading driver of the disease’s spread, it is unsurprising that crowded households have been associated with higher risk of infection.

For residents of Corona, the main sources of employment are jobs in hospitality, including restaurants, as well as construction and manufacturing, according to a 2019 report by the Citizens’ Committee for Children of New York. Many construction workers and restaurant employees showed up to work throughout the pandemic, elevating their risk of infection.

“Our plan did not really accommodate essential workers as it did people privileged enough — for lack of a better word — to socially distance themselves,” Professor Nash said. He said that one lesson of the past few months was that the city needed to better protect essential workers — everyone from grocery store employees to pharmacy cashiers — and make sure they had sufficient protective equipment.

Epidemiologists have estimated that at least 60 percent of a population — and perhaps as much as 80 percent — would need immunity before “herd immunity” is reached, and the virus can no longer spread widely in that community.

But scientists say it would be a mistake to base public health decisions off antibody rates across a population.

“Just looking at seroprevalence alone can’t really be used to make actionable public health decisions,” Dr. Rasmussen, the virologist at Columbia, said.

One reason is that the accuracy of the antibody tests is not fully known, nor is the extent of immunity conferred by antibodies or how long that immunity lasts. Dr. Rasmussen noted that the “magical number of 60 percent for herd immunity” assumes that everyone infected has complete protection from a second infection. “But what about people with partial protection?” she asked. “They may not get sick, but they can get infected and pass it along.”

“It is premature to discuss herd immunity, since we are still learning what the presence of Covid-19 antibodies means to an individual and whether, or for how long, that conveys immunity; and we don’t know how the level of immunity in a single community translates into herd immunity,” said Jonah Bruno, a spokesman for the state Department of Health.

He said he was unsurprised by the high rate in Corona, and senior officials with the city’s contact-tracing program and public hospital system agree. “We know this area was disproportionately affected,” said Dr. Andrew Wallach, a senior official in the city’s public hospital system, “so this just confirms what we’ve seen clinically.”

Joseph Goldstein covers health care in New York, following years of criminal justice and police reporting for the Metro desk. He also spent a year in The Times’ Kabul bureau, reporting on Afghanistan.  @JoeKGoldstein

Cientistas pedem paralização acadêmica em apoio ao movimento Vidas Negras Importam (GIZMODO)

Por Ryan F. Mandelbaum, 9 de junho de 2020. Tradução de Renzo Taddei; revisão de Fernando Martins.

Artigo original

A supremacia branca é parte da organização da ciência e da academia, desde a linguagem racista presente em livros didáticos até uma cultura que exclui cientistas negros do avanço e inovação profissional em ritmo similar ao de seus colegas brancos. Neste momento, no lugar de mais declarações tímidas de apoio e iniciativas de promoção de diversidade racial, os pesquisadores querem ação. Os organizadores do movimento #ShutDownSTEM estão pedindo à comunidade científica que participe de uma paralisação do trabalho na quarta-feira, 10 de junho, para chamar a atenção para o racismo no mundo da pesquisa.

Dois grupos de cientistas, tecnólogos e especialistas em diversidade e inclusão se reuniram para organizar uma paralisação e greve em 10 de junho, com as hashtags #ShutDownAcademia, #ShutDownSTEM e #Strike4BlackLives. Ambos os grupos solicitam aos pesquisadores e acadêmicos que paralisem suas atividades cotidianas e, concentrem-se em ações de longo prazo: educando-se nos problemas enfrentados pelos acadêmicos negros, protestando e elaborando planos com base no trabalho realizado pelos líderes negros para desmantelar o racismo entrincheirado em seus respectivos campos de atuação. Centenas de cientistas, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel e pesquisadores renomados, assinaram o compromisso de participar.

“Precisamos assumir a responsabilidade de acabar com o racismo contra pessoas negras em nossas comunidades nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (grupo de disciplinas designadas pela sigla STEM nos países de língua inglesa), e na academia em geral. Isso é extremamente importante por causa do nosso papel na sociedade”, disse Brittany Kamai, física experimental que atua na Universidade da Califórnia, Santa Cruz e no Caltech, ao Gizmodo,. “Vai ser difícil, e a comunidade crescerá com isso. Pedimos a toda a comunidade do STEM e da academia que se comprometam a crescer juntos para erradicar isso”, disse Kamai, organizadora da #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM e nativa do Havaí.

Os protestos contra a violência policial direcionada às pessoas negras nos EUA serviram como catalisador para o movimento #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM colaborar com uma iniciativa de pesquisadores do campo da física, o Partículas para a Justiça (Particles for Justice). Mas essas questões há muito vêm borbulhando na comunidade científica. Um relatório no início deste ano constatou que a já desanimadora percentagem de estudantes negros formados em física não mudou em 10 anos, em parte devido à falta de apoio e orientação, assim como decorrente do declínio no financiamento de faculdades e universidades historicamente negros.

A discriminação contra os cientistas negros também se faz presente de maneira insidiosa. Os laboratórios ainda se referem a parte de equipamentos como “mestre” e “escravo”, enquanto o marco mais comumente discutido na computação quântica é a “supremacia quântica”. Há poucos, se houver algum, periódicos científicos trabalhando de forma ativa para avaliar essa forma de linguagem. Os prédios nos campi das faculdades recebem o nome de pessoas racistas ou que foram proprietários de escravos, e pseudociência costuma ser usada para tentar racionalizar e justificar o racismo.

“Quando [a comunidade acadêmica] tenta mostrar o valor da diversidade e da inclusão, o faz transferindo às pessoas marginalizadas a responsabilidade por sua própria libertação”, comentou Brian Nord, pesquisador do Fermilab, “Eles fazem com que nós, que já estamos inseridos nesse sistema e que enfrentamos os problemas que o sistema criou, realizemos essas atividades e nos juntemos a esses comitês (de promoção de igualdade racial) e todas essas coisas, que acabaram servindo apenas como vitrines … Não há investimento real e compromisso com esta questão”.


Esse trabalho de ativismo coloca os acadêmicos negros em desvantagem e afeta as perspectivas de avanço na carreira, uma vez que os demais pesquisadores destinam período de tempo equivalente para publicar artigos,. Quando surgiram questões de violência policial contra negros, disse Kamai, seus colegas procuraram apoio em outros lugares que não a comunidade acadêmica, como coletivos acadêmicos liderados por negros.

“Não queremos mais seminários sobre diversidade, inclusão e equidade”, disse Chanda Prescod-Weinstein, professora assistente de física e integrante do corpo docente dos estudos de gênero da Universidade de New Hampshire, ao Gizmodo. “Queremos que as pessoas tomem medidas efetivas, incluindo a participação em protestos por justiça. Precisamos que as pessoas sejam ativas na reforma das instituições em que trabalham, em vez de esperar por uma solução de cima para baixo”. Prescod-Weinstein é uma das organizadoras do movimento Particles for Justice.

Tais grupos pedem a todos os cientistas que usem o dia 10 de junho para educar a si mesmos e a seus alunos, organizar protestos, entrar em contato com seus representantes locais e fazer planos de ação sobre como eles trabalharão para mudar a ciência e a academia, ao invés de simplesmente fazer um dia de greve. Igualmente importante, dizem os organizadores, é que os colegas negros usem o dia para priorizar suas necessidades e encontrar apoio em suas comunidades.

Kamai disse que o #ShutDownSTEM não se destina a cientistas diretamente envolvidos na mitigação da pandemia global de covid-19. Ainda assim, o grupo Particles for Justice incentiva os pesquisadores sobre a COVID-19 a tomar um momento na quarta-feira para refletir sobre como seu trabalho pode contribuir para esses pedidos de justiça.

Nord disse ao Gizmodo que espera que os físicos apliquem ao movimento a mesma paixão que eles trazem para descobrir as verdades fundamentais do universo, como se sua vida e a de todos os cientistas negros dependesse disso. “Essa energia e criatividade são o que precisamos. Precisamos que eles tragam sua compaixão e vontade de aprender novos métodos e coisas novas, de pessoas que já sabem como fazer isso. ”

Esses movimentos exigem a participação de aliados não-negros para que as mudanças ocorram, especialmente em campos como a física. “A física de partículas é uma das disciplinas acadêmicas com as mais baixas representações dos cientistas negros”, disse Tien-Tien Yu, professor assistente de física da Universidade do Oregon. “A greve trará atenção a esse fato, e é importante para nós, como comunidade, entender por que a situação está neste ponto, e mais crucialmente, propor soluções concretas. Mas, primeiro, esperamos que os físicos não-negros finalmente aprendam a ouvir o que os cientistas negros vêm dizendo durante todos esses anos”.

Mais de 3.100 acadêmicos se comprometeram a atuar com o Particles for Justice, incluindo os ganhadores do Prêmio Nobel de Física Adam Riess e Art McDonald.

Grupos científicos de primeira importância já declararam sua participação. A plataforma de artigos arXiv, onde os cientistas costumam postar seus trabalhos de pesquisa antes da publicação, não enviará sua comunicação diária. Grupos como o LSST Dark Energy Science Collaboration, o Dark Energy Survey e outros já concordaram em adiar reuniões regulares ou estão planejando discussões com os membros de seus grupos. A Associação Canadense de Físicos também anunciou sua participação.

Os movimentos Particles for Justice e #ShutDownAcademia/#ShutDownSTEM listaram ações que acadêmicos e profissionais da academia interessados em participar podem adotar para desmantelar o racismo em seus respectivos campos.

Ryan F. Mandelbaum, divulgador da ciências, fundador da Birdmodo

Breve reflexão sobre racismo estrutural nos institutos de produção de ciência no Brasil

Renzo Taddei e Fernando Martins – 10 de junho de 2020

Na data de hoje (10/06) aconteceu o enterro de George Floyd. Temos acompanhado as notícias de protestos e um crescimento da indignação social com relação ao racismo ao redor do mundo durante esta última semana. O portal GIZMODO publicou o artigo “Scientists Call for Academic Shutdown in Support of Black Lives” que tomamos a liberdade de traduzir para a língua portuguesa (ver abaixo).

Nosso intuito é promover uma reflexão e discussão sobre as questões raciais na comunidade acadêmica e como, nós professores/pesquisadores compreendemos a questão, e que propostas podemos apresentar para trabalhar esta temática de forma efetiva nas nossas ações, sejam na nossa rotina acadêmica, sejam em nossa vida particular.

Todas as organizações e institutos de produção científica existem dentro de um contexto maior social, cultural, político e econômico. De maneira geral, tais organizações refletem estes elementos do mundo social na forma como existem e levam a cabo suas atividades. Desta forma, disparidades e injustiças históricas que acabaram por transformar-se em parte das estruturas da sociedades maior se fazem presentes também em instituições científicas. Quando tais desigualdades e injustiças vinculam-se a questões raciais, têm-se o chamado racismo estrutural.

O racismo estrutural mantém-se presente mesmo que as pessoas não se comportem de forma intencionalmente racista. Basta que as coisas se reproduzam como são, e as injustiças presentes nas estruturas da realidade se propagam no tempo, mesmo que as pessoas envolvidas não sejam capazes de entender onde exatamente o racismo se encontra.

O fato de que a imensa maioria dos departamentos universitários no Brasil não possuem sequer um professor negro sugere uma de duas alternativas: 1) os acadêmicos negros não se interessam por temas ligados aos temas de pesquisa de tais departamentos; ou 2) o racismo estrutural está vivo e firme entre nós. Obviamente, a primeira opção não faz qualquer sentido, e estamos assumindo que não houve ação racista intencional nos concursos que proveram o corpo docente de cada departamento e instituição.

A ocasião dos movimentos antirracistas no Brasil, nos Estados Unidos e em outros países é propícia para que a campo da ciência no Brasil promova reflexões internas e busque entender se o problema do racismo estrutural existe dentro das instituições, e o que pode ser feito para que diagnósticos sejam elaborados e soluções sejam propostas. É muito provável que exista um componente de racismo estrutural nas formas de ingresso à universidade, tanto na graduação como na pós; nos critérios de avaliação de desempenho de estudantes, na questão das reprovações, no problema da evasão. Só saberemos a respeito com dados empíricos sobre estes temas, em que a variável racial seja tomada em conta.

Universidades, institutos e departamentos precisam formar grupos de trabalho, com docentes, técnicos administrativos e alunos, para debater o problema e propor encaminhamentos.

Segue o texto do artigo traduzido:

CIENTISTAS PEDEM PARALISAÇÃO ACADÊMICA EM APOIO AO MOVIMENTO VIDAS NEGRAS IMPORTAM (GIZMODO)

Por Ryan F. Mandelbaum, 9 de junho de 2020. Tradução de Renzo Taddei; revisão de Fernando Martins.

Artigo original

A supremacia branca é parte da organização da ciência e da academia, desde a linguagem racista presente em livros didáticos até uma cultura que exclui cientistas negros do avanço e inovação profissional em ritmo similar ao de seus colegas brancos. Neste momento, no lugar de mais declarações tímidas de apoio e iniciativas de promoção de diversidade racial, os pesquisadores querem ação. Os organizadores do movimento #ShutDownSTEM estão pedindo à comunidade científica que participe de uma paralisação do trabalho na quarta-feira, 10 de junho, para chamar a atenção para o racismo no mundo da pesquisa.

Dois grupos de cientistas, tecnólogos e especialistas em diversidade e inclusão se reuniram para organizar uma paralisação e greve em 10 de junho, com as hashtags #ShutDownAcademia, #ShutDownSTEM e #Strike4BlackLives. Ambos os grupos solicitam aos pesquisadores e acadêmicos que paralisem suas atividades cotidianas e, concentrem-se em ações de longo prazo: educando-se nos problemas enfrentados pelos acadêmicos negros, protestando e elaborando planos com base no trabalho realizado pelos líderes negros para desmantelar o racismo entrincheirado em seus respectivos campos de atuação. Centenas de cientistas, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel e pesquisadores renomados, assinaram o compromisso de participar.

“Precisamos assumir a responsabilidade de acabar com o racismo contra pessoas negras em nossas comunidades nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (grupo de disciplinas designadas pela sigla STEM nos países de língua inglesa), e na academia em geral. Isso é extremamente importante por causa do nosso papel na sociedade”, disse Brittany Kamai, física experimental que atua na Universidade da Califórnia, Santa Cruz e no Caltech, ao Gizmodo,. “Vai ser difícil, e a comunidade crescerá com isso. Pedimos a toda a comunidade do STEM e da academia que se comprometam a crescer juntos para erradicar isso”, disse Kamai, organizadora da #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM e nativa do Havaí.

Os protestos contra a violência policial direcionada às pessoas negras nos EUA serviram como catalisador para o movimento #ShutDownAcademia/# ShutDownSTEM colaborar com uma iniciativa de pesquisadores do campo da física, o Partículas para a Justiça (Particles for Justice). Mas essas questões há muito vêm borbulhando na comunidade científica. Um relatório no início deste ano constatou que a já desanimadora percentagem de estudantes negros formados em física não mudou em 10 anos, em parte devido à falta de apoio e orientação, assim como decorrente do declínio no financiamento de faculdades e universidades historicamente negros.

A discriminação contra os cientistas negros também se faz presente de maneira insidiosa. Os laboratórios ainda se referem a parte de equipamentos como “mestre” e “escravo”, enquanto o marco mais comumente discutido na computação quântica é a “supremacia quântica”. Há poucos, se houver algum, periódicos científicos trabalhando de forma ativa para avaliar essa forma de linguagem. Os prédios nos campi das faculdades recebem o nome de pessoas racistas ou que foram proprietários de escravos, e pseudociência costuma ser usada para tentar racionalizar e justificar o racismo.

“Quando [a comunidade acadêmica] tenta mostrar o valor da diversidade e da inclusão, o faz transferindo às pessoas marginalizadas a responsabilidade por sua própria libertação”, comentou Brian Nord, pesquisador do Fermilab, “Eles fazem com que nós, que já estamos inseridos nesse sistema e que enfrentamos os problemas que o sistema criou, realizemos essas atividades e nos juntemos a esses comitês (de promoção de igualdade racial) e todas essas coisas, que acabaram servindo apenas como vitrines … Não há investimento real e compromisso com esta questão”.

Esse trabalho de ativismo coloca os acadêmicos negros em desvantagem e afeta as perspectivas de avanço na carreira, uma vez que os demais pesquisadores destinam período de tempo equivalente para publicar artigos,. Quando surgiram questões de violência policial contra negros, disse Kamai, seus colegas procuraram apoio em outros lugares que não a comunidade acadêmica, como coletivos acadêmicos liderados por negros.

“Não queremos mais seminários sobre diversidade, inclusão e equidade”, disse Chanda Prescod-Weinstein, professora assistente de física e integrante do corpo docente dos estudos de gênero da Universidade de New Hampshire, ao Gizmodo. “Queremos que as pessoas tomem medidas efetivas, incluindo a participação em protestos por justiça. Precisamos que as pessoas sejam ativas na reforma das instituições em que trabalham, em vez de esperar por uma solução de cima para baixo”. Prescod-Weinstein é uma das organizadoras do movimento Particles for Justice.

Tais grupos pedem a todos os cientistas que usem o dia 10 de junho para educar a si mesmos e a seus alunos, organizar protestos, entrar em contato com seus representantes locais e fazer planos de ação sobre como eles trabalharão para mudar a ciência e a academia, ao invés de simplesmente fazer um dia de greve. Igualmente importante, dizem os organizadores, é que os colegas negros usem o dia para priorizar suas necessidades e encontrar apoio em suas comunidades.

Kamai disse que o #ShutDownSTEM não se destina a cientistas diretamente envolvidos na mitigação da pandemia global de covid-19. Ainda assim, o grupo Particles for Justice incentiva os pesquisadores sobre a COVID-19 a tomar um momento na quarta-feira para refletir sobre como seu trabalho pode contribuir para esses pedidos de justiça.

Nord disse ao Gizmodo que espera que os físicos apliquem ao movimento a mesma paixão que eles trazem para descobrir as verdades fundamentais do universo, como se sua vida e a de todos os cientistas negros dependesse disso. “Essa energia e criatividade são o que precisamos. Precisamos que eles tragam sua compaixão e vontade de aprender novos métodos e coisas novas, de pessoas que já sabem como fazer isso. ”

Esses movimentos exigem a participação de aliados não-negros para que as mudanças ocorram, especialmente em campos como a física. “A física de partículas é uma das disciplinas acadêmicas com as mais baixas representações dos cientistas negros”, disse Tien-Tien Yu, professor assistente de física da Universidade do Oregon. “A greve trará atenção a esse fato, e é importante para nós, como comunidade, entender por que a situação está neste ponto, e mais crucialmente, propor soluções concretas. Mas, primeiro, esperamos que os físicos não-negros finalmente aprendam a ouvir o que os cientistas negros vêm dizendo durante todos esses anos”.

Mais de 3.100 acadêmicos se comprometeram a atuar com o Particles for Justice, incluindo os ganhadores do Prêmio Nobel de Física Adam Riess e Art McDonald.

Grupos científicos de primeira importância já declararam sua participação. A plataforma de artigos arXiv, onde os cientistas costumam postar seus trabalhos de pesquisa antes da publicação, não enviará sua comunicação diária. Grupos como o LSST Dark Energy Science Collaboration, o Dark Energy Survey e outros já concordaram em adiar reuniões regulares ou estão planejando discussões com os membros de seus grupos. A Associação Canadense de Físicos também anunciou sua participação.

Os movimentos Particles for Justice e #ShutDownAcademia/#ShutDownSTEM listaram ações que acadêmicos e profissionais da academia interessados em participar podem adotar para desmantelar o racismo em seus respectivos campos.

Ryan F. Mandelbaum, divulgador da ciências, fundador da Birdmodo

Crédito: Antonio O. Silva

Saúde deve divulgar dados exclusivos sobre raça/cor de mortos por coronavírus (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Fernando Canzian, 9 de abril de 2020


O Ministério da Saúde passará a incluir a partir desta sexta (10) informações exclusivas sobre raça/cor dos infectados pela Covid-19 nas notificações que ingressarem em seu sistema, e que servem de base para as estatísticas de óbitos e demais dados sobre a epidemia.

A decisão partiu de um pedido do Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), que via com preocupação a possibilidade de subnotificação de casos entre essa população.

A SBMFC, que reúne 6.000 médicos que integram 47,7 mil equipes de atenção básica, pressiona também para que os dados sobre as mortes e casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave) sejam desagregados por bairros nos municípios.

Além disso, pedem que o mesmo seja feito em relação aos registros nos sistemas públicos e privados, de forma a ter um panorama socioeconômico mais completo dos afetados.

Entre os argumentos apresentados pela SBMFC que levaram à decisão do ministério está o fato de serem negros 67% dos brasileiros que dependem exclusivamente do SUS (Sistema Único de Saúde), além da maioria dos pacientes com diabetes, tuberculose, hipertensão e doenças renais crônicas no país.

“Assim como nos Estados Unidos fica evidente que a população periférica, majoritariamente composta por pessoas negras, é mais afetada pela Covid-19, é importante que tenhamos esses dados categorizados por raça e cor no Brasil para tomar providências”, afirma Denize Ornellas, diretora da SBMFC.

Segundo ela, os dados sobre os endereços dos afetados já fazem parte das fichas de notificação, e o que a entidade demanda é a divulgação completa dessas informações daqui em diante.

Nos EUA, o novo coronavírus está matando negros em taxas mais elevadas do que na população em geral, segundo números preliminares dos estados de Louisiana, Michigan e Illinois.

As autoridades dizem que isso aponta para disparidades no acesso a cuidados e atendimento de saúde nessa população —o que poderá ocorrer também no Brasil.

Segundo o governo da Louisiana, mais de 70% das 512 pessoas mortas pelo vírus no estado até segunda (6) eram negras, percentual muito acima da representatividade dos negros na população, de 33%. Em Michigan, os negros vêm respondendo por 40% das mortes, mas são apenas 14% da população.

Como duas pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil (BBC)

6 junho 2016

ciencia politica

Nara Pavão e Natália Bueno: pesquisadoras questionam chavões da política no Brasil 

O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?

A julgar pelos estudos de duas jovens pesquisadoras brasileiras em ciência política, não.

Natália Bueno e Nara Pavão, ambas de 32 anos, se destacam no meio acadêmico no exterior com pesquisas robustas que desmistificam chavões da política brasileira que alimentam debates em redes sociais e discussões de botequim.

Natural de Belo Horizonte (MG), Natália faz doutorado em Yale (EUA), uma das principais universidades do mundo. Em pouco mais de oito anos de carreira, acumula 13 distinções acadêmicas, entre prêmios e bolsas.

A pernambucana Nara é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Vanderbilt (EUA). Soma um doutorado (Notre Dame, EUA), dois mestrados em ciência política (Notre Dame e USP), 16 distinções.

Em comum, além da amizade e da paixão pela ciência política, está o interesse das duas em passar a limpo “verdades absolutas” sobre corrupção, comportamento do eleitor e políticas públicas no Brasil.

Eleitor é racista?

O Brasil é um país de desigualdades raciais – no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde. Atraída pelo tema desde a graduação, Natália Bueno verificou se isso ocorre também na representação política.

O primeiro passo foi confirmar o que o senso comum já sugeria: há, proporcionalmente, mais brancos eleitos do que na população, e os negros são subrepresentados. Por exemplo, embora 45% da população brasileira (segundo o IBGE) se declare branca, na Câmara dos Deputados esse índice é de 80%.

E como a diferença foi mínima na comparação entre população e o grupo dos candidatos que não se elegeram, a conclusão mais rasteira seria: o brasileiro é racista e privilegia brancos ao votar.

politica

Abertura dos trabalhos no Congresso em 2016; pesquisa investigou desigualdade racial na política nacional. FABIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

Para tentar verificar essa questão de forma científica, Natália montou um megaexperimento em parceria com Thad Dunning, da Universidade da Califórnia (Berkeley). Selecionou oito atores (quatro brancos e quatro negros), que gravaram um trecho semelhante ao horário eleitoral. Expôs 1.200 pessoas a essas mensagens, que só variavam no quesito raça.

Resultado: candidatos brancos não tiveram melhor avaliação nem respondentes privilegiaram concorrentes da própria raça nas escolhas.

Mas se a discrepância entre população e eleitos é real, onde está a resposta? No dinheiro, concluiu Natália – ela descobriu que candidatos brancos são mais ricos e recebem fatia maior da verba pública distribuída por partidos e também das doações privadas.

A diferença média de patrimônio entre políticos brancos (em nível federal, estadual e local) e não brancos foi de R$ 690 mil. E em outra prova do poder do bolso nas urnas, vencedores registraram R$ 650 mil a mais em patrimônio pessoal do que os perdedores.

Políticos brancos também receberam, em média, R$ 369 mil a mais em contribuições de campanha do que não brancos. A análise incluiu dados das eleições de 2008, 2010 e 2014.

“Se a discriminação tem um papel (na desigualdade racial na representação política), ela passa principalmente pelas inequidades de renda e riqueza entre brancos e negros que afetam a habilidade dos candidatos negros de financiar suas campanhas”, diz.

Corruptos estão no poder por que o eleitor é ignorante?

A corrupção é um tema central no debate político atual no Brasil. E se tantos brasileiros percebem a corrupção como problema (98% da população pensa assim, segundo pesquisa de 2014), porque tantos políticos corruptos continuam no poder?

A partir de dados de diferentes pesquisas de opinião – entre elas, dois levantamentos nacionais, com 2 mil e 1,5 mil entrevistados -, a recifense Nara Pavão foi buscar respostas para além do que a ciência política já discutiu sobre o tema.

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Ato contra corrupção no Congresso em 2011; estudo investiga por que corruptos se mantêm no poder. ANTONIO CRUZ/ABR

Muitos estudos já mostraram que a falta de informação política é comum entre a população, e que o eleitor costuma fazer uma troca: ignora a corrupção quando, por exemplo, a economia vai bem.

“Mas para mim a questão não é apenas se o eleitor possui ou não informação sobre políticos corruptos, mas, sim, o que ele vai decidir fazer com essa informação e como essa informação vai afetar a decisão do voto”, afirma a cientista política.

A pesquisa de Nara identificou um fator chave a perpetuar corruptos no poder: o chamado cinismo político – quando a corrupção é recorrente, ela passa ser vista pelo eleitor como um fator constante, e se torna inútil como critério de diferenciação entre candidatos.

Consequência: o principal fator que torna os eleitores brasileiros tolerantes à corrupção é a crença de que a corrupção é generalizada.

“Se você acha que todos os políticos são incapazes de lidar com a corrupção, a corrupção se torna um elemento vazio para você na escolha do voto”, afirma Nara, para quem o Brasil está preso numa espécie de armadilha da corrupção: quão maior é a percepção do problema, menos as eleições servem para resolvê-lo.

Quem recebe Bolsa Família não critica o governo?

O programa Bolsa Família beneficia quase 50 milhões de pessoas e é uma das principais bandeiras das gestões do PT no Planalto. Até por isso, sempre foi vitrine – e também vidraça – do petismo.

Uma das críticas recorrentes pressupõe que o programa, para usar a linguagem da economia política, altera os incentivos que eleitores têm para criticar o governo.

Famílias beneficiadas não se preocupariam, por exemplo, em punir um mau desempenho econômico ou a corrupção, importando-se apenas com o auxílio no começo do mês.

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Material de campanha em dia de votação em São Paulo em 2012; receber benefícios do governo não implica em conivência com Poder Público, conclui estudo. MARCELO CAMARGO/ABR

Deste modo, governos que mantivessem programas massivos de transferência de renda estariam blindados contra eventuais performances medíocres. Seria, nesse sentido, um arranjo clientelista – troca de bens (dinheiro ou outra coisa) por voto.

Um estudo de Nara analisou dados do Brasil e de 15 países da América Latina que possuem programas como o Bolsa Família e não encontrou provas de que isso seja verdade.

“Em geral, o peso eleitoral atribuído à performance econômica e à corrupção do governo é relativamente igual entre aqueles que recebem transferências de renda e aqueles que não recebem”, afirma.

A conclusão é que, embora esses programas proporcionem retornos eleitorais para os governantes de plantão, eles não representam – desde que sigam regras rígidas – incentivo para eleitores ignorarem aspectos ddo desempenho do governo.

ONGs são ralo de dinheiro público?

Organizações de sociedade civil funcionam como um importante instrumento para o Estado fornecer, por meio de parcerias e convênios, serviços à população.

Diferentes governos (federal, estaduais e municipais) transferem recursos a essas entidades para executar programas diversos, de construção de cisternas e atividades culturais.

Apenas em nível federal, essas transferências quase dobraram no período 1999-2010: de RS$ 2,2 bilhões para R$ 4,1 bilhões.

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Cisterna em Quixadá (CE), em serviço que costuma ser delegado a organizações civis; pesquisadora estudou distribuição de recursos públicos para essas entidades. FERNANDO FRAZÃO/ABR

Esse protagonismo enseja questionamentos sobre a integridade dessas parcerias – não seriam apenas um meio de canalizar dinheiro público para as mãos de ONGs simpáticas aos governos de plantão?

Com o papel dessas organizações entre seus principais de interesses de pesquisa, Natália Bueno mergulhou no tema. Unindo métodos quantitativos e qualitativos, analisou extensas bases de dados, visitou organizações e construiu modelos estatísticos.

Concluiu que o governo federal (ao menos no período analisado, de 2003 a 2011) faz, sim, uma distribuição estratégica desses recursos, de olho na disputa política.

“A pesquisa sugere que governos transferem recursos para entidades para evitar que prefeitos de oposição tenham acesso a repasses de recursos federais. Outros fatores, como implementação de políticas públicas para as quais as organizações tem expertise e capacidade únicas, também tem um papel importante.”

Ela não encontrou provas, porém, de eventual corrupção ou clientelismo por trás desses critérios de escolha – o uso das ONGs seria principalmente parte de uma estratégia político-eleitoral, e não um meio de enriquecimento ilícito.

“Esse tipo de distribuição estratégica de recursos é próprio da política e encontramos padrões de distribuição semelhantes em outros países, como EUA, Argentina e México”, diz Natália.

Corrupção é difícil de verificar, mas a pesquisadora usou a seguinte estratégia: comparou ONGs presentes em cidades com disputas eleitorais apertadas, checou a proporção delas no cadastro de entidades impedidas de fechar parcerias com a União e fez uma busca sistemática por notícias e denúncias públicas de corrupção.

De 281 ONGs analisadas, 10% estavam no cadastro de impedidas, e apenas uma por suspeita de corrupção.