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Loss Adjustment (

March 31, 2014

When people say we should adapt to climate change, do they have any idea what that means?

By George Monbiot, published in the Guardian 1st April 2014

To understand what is happening to the living planet, the great conservationist Aldo Leopold remarked, is to live “in a world of wounds … An ecologist must either harden his shell and make believe that the consequences of science are none of his business, or he must be the doctor who sees the marks of death in a community that believes itself well and does not want to be told otherwise.”(1)

The metaphor suggests that he might have seen Henrik Ibsen’s play An Enemy of the People(2). Thomas Stockmann is a doctor in a small Norwegian town, and medical officer at the public baths whose construction has been overseen by his brother, the mayor. The baths, the mayor boasts, “will become the focus of our municipal life! … Houses and landed property are rising in value every day.”

But Dr Stockmann discovers that the pipes were built in the wrong place, and the water feeding the baths is contaminated. “The source is poisoned …We are making our living by retailing filth and corruption! The whole of our flourishing municipal life derives its sustenance from a lie!” People bathing in the water to improve their health are instead falling ill.

Dr Stockmann expects to be treated as a hero for exposing this deadly threat. After the mayor discovers that re-laying the pipes would cost a fortune and probably sink the whole project, he decides that his brother’s report “has not convinced me that the condition of the water at the baths is as bad as you represent it to be.” He proposes to ignore the problem, make some cosmetic adjustments and carry on as before. After all, “the matter in hand is not simply a scientific one. It is a complicated matter, and has its economic as well as its technical side.” The local paper, the baths committee and the business people side with the mayor against the doctor’s “unreliable and exaggerated accounts”.

Astonished and enraged, Dr Stockmann lashes out madly at everyone. He attacks the town as a nest of imbeciles, and finds himself, in turn, denounced as an enemy of the people. His windows are broken, his clothes are torn, he’s evicted and ruined.

Yesterday’s editorial in the Daily Telegraph, which was by no means the worst of the recent commentary on this issue, follows the first three acts of the play(3). Marking the new assessment by the Intergovernmental Panel on Climate Change, the paper sides with the mayor. First it suggests that the panel cannot be trusted, partly because its accounts are unreliable and exaggerated and partly because it uses “model-driven assumptions” to forecast future trends. (What would the Telegraph prefer? Tea leaves? Entrails?). Then it suggests that trying to stop manmade climate change would be too expensive. Then it proposes making some cosmetic adjustments and carrying on as before. (“Perhaps instead of continued doom-mongering, however, greater thought needs to be given to how mankind might adapt to the climatic realities.”)

But at least the Telegraph accepted that the issue deserved some prominence. On the Daily Mail’s website, climate breakdown was scarcely a footnote to the real issues of the day: “Kim Kardashian looks more confident than ever as she shows off her toned curves” and “Little George is the spitting image of Kate”.

Beneath these indispensable reports was a story celebrating the discovery of “vast deposits of coal lying under the North Sea, which could provide enough energy to power Britain for centuries.”(4) No connection with the release of the new climate report was made. Like royal babies, Kim’s curves and Ibsen’s municipal baths, coal is good for business. Global warming, like Dr Stockmann’s contaminants, is the spectre at the feast.

Everywhere we’re told that it’s easier to adapt to global warming than to stop causing it. This suggests that it’s not only the Stern review on the economics of climate change (showing that it’s much cheaper to avert climate breakdown than to try to live with it(5)) that has been forgotten, but also the floods which have so recently abated. If a small, rich, well-organised nation cannot protect its people from a winter of exceptional rainfall – which might have been caused by less than one degree of global warming – what hope do other nations have, when faced with four degrees or more?

When our environment secretary, Owen Paterson, assures us that climate change “is something we can adapt to over time”(6) or Simon Jenkins, in the Guardian yesterday, says that we should move towards “thinking intelligently about how the world should adapt to what is already happening”(7), what do they envisage? Cities relocated to higher ground? Roads and railways shifted inland? Rivers diverted? Arable land abandoned? Regions depopulated? Have they any clue about what this would cost? Of what the impacts would be for the people breezily being told to live with it?

My guess is that they don’t envisage anything: they have no idea what they mean when they say adaptation. If they’ve thought about it at all, they probably picture a steady rise in temperatures, followed by a steady rise in impacts, to which we steadily adjust. But that, as we should know from our own recent experience, is not how it happens. Climate breakdown proceeds in fits and starts, sudden changes of state against which, as we discovered on a small scale in January, preparations cannot easily be made.

Insurers working out their liability when a disaster has occurred use a process they call loss adjustment. It could describe what all of us who love this world are going through, as we begin to recognise that governments, the media and most businesses have no intention of seeking to avert the coming tragedies. We are being told to accept the world of wounds; to live with the disappearance, envisaged in the new climate report, of coral reefs and summer sea ice, of most glaciers and perhaps some rainforests, of rivers and wetlands and the species which, like many people, will be unable to adapt(8).

As the scale of the loss to which we must adjust becomes clearer, grief and anger are sometimes overwhelming. You find yourself, as I have done in this column, lashing out at the entire town.


1. Aldo Leopold, 1949. A Sand County Almanac. Oxford University Press.

2. Read at







Repercussões do novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC)

Brasil já se prepara para adaptações às mudanças climáticas, diz especialista (Agência Brasil)

JC e-mail 4925, de 02 de abril de 2014

Com base no relatório do IPCC,dirigente do INPE disse que o Brasil já revela um passo adiante em termos de adaptação às mudanças climáticas

Com o título Mudanças Climáticas 2014: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade, o relatório divulgado ontem (31) pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) sinaliza que os efeitos das mudanças do clima já estão sendo sentidos em todo o mundo. O relatório aponta que para se alcançar um aquecimento de apenas 2 graus centígrados, que seria o mínimo tolerável para que os impactos não sejam muito fortes, é preciso ter emissões zero de gases do efeito estufa, a partir de 2050.

“O compromisso é ter emissões zero a partir de 2040 /2050, e isso significa uma mudança de todo o sistema de desenvolvimento, que envolve mudança dos combustíveis”, disse hoje (1º) o chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestr,e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), José Marengo, um dos autores do novo relatório do IPCC. Marengo apresentou o relatório na Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro, e destacou que alguns países interpretam isso como uma tentativa de frear o crescimento econômico. Na verdade, ele assegurou que a intenção é chegar a um valor para que o aquecimento não seja tão intenso e grave.

Com base no relatório do IPCC, Marengo comentou que o Brasil já revela um passo adiante em termos de adaptação às mudanças climáticas. “Eu acho que o Brasil já escutou a mensagem. Já está começando a preparar o plano nacional de adaptação, por meio dos ministérios do Meio Ambiente e da Ciência, Tecnologia e Inovação”. Essa adaptação, acrescentou, é acompanhada de avaliações de vulnerabilidades, “e o Brasil é vulnerável às mudanças de clima”, lembrou.

A adaptação, segundo ele, atenderá a políticas governamentais, mas a comunidade científica ajudará a elaborar o plano para identificar regiões e setores considerados chave. “Porque a adaptação é uma coisa que muda de região e de setor. Você pode ter uma adaptação no setor saúde, no Nordeste, totalmente diferente do Sul. Então, essa é uma política que o governo já está começando a traçar seriamente”.

O plano prevê análises de risco em setores como agricultura, saúde, recursos hídricos, regiões costeiras, grandes cidades. Ele está começando a ser traçado como uma estratégia de governo. Como as vulnerabilidades são diferentes, o plano não pode criar uma política única para o país. Na parte da segurança alimentar, em especial, José Marengo ressaltou a importância do conhecimento indígena, principalmente para os países mais pobres.

Marengo afiançou, entretanto, que esse plano não deverá ser concluído no curto prazo. “É uma coisa que leva tempo. Esse tipo de estudo não pode ser feito em um ou dois anos. É uma coisa de longo prazo, porque vai mudando continuamente. Ou seja, é um plano dinâmico, que a cada cinco anos tem que ser reavaliado e refeito. Poucos países têm feito isso, e o Brasil está começando a elaborar esse plano agora”, manifestou.

Marengo admitiu que a adaptação às mudanças climáticas tem que ter também um viés econômico, por meio da regulação. “Quando eu falo em adaptação, é uma mistura de conhecimento científico para identificar que área é vulnerável. Mas tudo isso vem acompanhado de coisas que não são climáticas, mas sim, econômicas, como custos e investimento. Porque adaptação custa dinheiro. Quem vai pagar pela adaptação? “, indagou.

O IPCC não tem uma posição a respeito, embora Marengo mencione que os países pobres querem que os ricos paguem pela sua adaptação às mudanças do clima. O tema deverá ser abordado na próxima reunião da 20ª Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima COP-20, da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorrerá em Lima, no Peru, no final deste ano.

Entretanto, o IPCC aponta situações sobre o que está ocorrendo nas diversas partes do mundo, e o que poderia ser feito. As soluções, salientou, serão indicadas no próximo relatório do IPCC, cuja divulgação é aguardada para este mês. O relatório, segundo ele, apontará que “a solução está na mitigação”. Caso, por exemplo, da redução das emissões de gases de efeito estufa, o uso menor de combustíveis fósseis e maior uso de fontes de energia renováveis, novas opções de combustíveis, novas soluções de tecnologia, estabilização da população. “Tudo isso são coisas que podem ser consideradas”. Admitiu, porém, que são difíceis de serem alcançadas, porque alguns países estão dispostos a isso, outros não. “É uma coisa que depende de acordo mundial”.

De acordo com o relatório do IPCC, as tendências são de aumento da temperatura global, aumento e diminuição de precipitações (chuvas), degradação ambiental, risco para as áreas costeiras e a fauna marinha, mudança na produtividade agrícola, entre outras. A adaptação a essas mudanças depende do lugar e do contexto. A adaptação para um setor pode não ser aplicável a outro. As medidas visando a adaptação às mudanças climáticas devem ser tomadas pelos governos, mas também pela sociedade como um todo e pelos indivíduos, recomendam os cientistas que elaboraram o relatório.

Para o Nordeste brasileiro, por exemplo, a construção de cisternas pode ser um começo no sentido de adaptação à seca. Mas isso tem de ser uma busca permanente, destacou José Marengo. Observou que programas de reflorestamento são formas de mitigação e, em consequência, de adaptação, na medida em que reduzem as emissões e absorvem as emissões excedentes.

No Brasil, três aspectos se distinguem: segurança hídrica, segurança energética e segurança alimentar. As secas no Nordeste e as recentes enchentes no Norte têm ajudado a entender o problema da vulnerabilidade do clima, acrescentou o cientista. Disse que, de certa forma, o Brasil tem reagido para enfrentar os extremos. “Mas tem que pensar que esses extremos podem ser mais frequentes. A experiência está mostrando que alguns desses extremos devem ser pensados no longo prazo, para décadas”, salientou.

O biólogo Marcos Buckeridge, pesquisador do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e membro do IPCC, lembrou que as queimadas na Amazônia, apesar de mostrarem redução nos últimos anos, ainda ocorrem com intensidade. “O Brasil é o país que mais queima floresta no mundo”, e isso leva à perda de muitas espécies animais e vegetais, trazendo, como resultado, impactos no clima.

Para a pesquisadora sênior do Centro de Estudos Integrados sobre Meio Ambiente e Mudanças Climáticas – Centro Clima da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Carolina Burle Schmidt Dubeux, a economia da adaptação deve pensar o gerenciamento também do lado da demanda. Isso quer dizer que tem que englobar não só investimentos, mas também regulação econômica em que os preços reflitam a redução da oferta de bens. “Regulação econômica é muito importante para que a gente possa se adaptar [às mudanças do clima]. As políticas têm que refletir a escassez da água e da energia elétrica e controlar a demanda”, apontou.

Segundo a pesquisadora, a internalização de custos ambientais nos preços é necessária para que a população tenha maior qualidade de vida. “A questão da adaptação é um constante gerenciamento do risco das mudanças climáticas, que é desconhecido e imprevisível”, acrescentou. Carolina defendeu que para ocorrer a adaptação, deve haver uma comunicação constante entre o governo e a sociedade. “A mídia tem um papel relevante nesse processo”, disse.

(Agência Brasil)

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Mudanças climáticas ameaçam produtos da cesta básica brasileira (O Globo)

JC e-mail 4925, de 02 de abril de 2014

Dieta será prejudicada por queda das safras e da atividade pesqueira

Os impactos das mudanças climáticas no país comprometerão o rendimento das safras de trigo, arroz, milho e soja, produtos fundamentais da cesta básica do brasileiro. Outro problema desembarca no litoral. Segundo prognósticos divulgados esta semana pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), grandes populações de peixes deixarão a zona tropical nas próximas décadas, buscando regiões de alta latitude. Desta forma, a pesca artesanal também é afetada.

A falta de segurança alimentar também vai acometer outros países. Estima-se que a atividade agrícola da União Europeia caia significativamente até o fim do século. Duas soluções já são estudadas. Uma seria aumentar as importações – o Brasil seria um importante mercado, se conseguir nutrir a sua população e, além disso, desenvolver uma produção excedente. A outra possibilidade é a pesquisa de variedades genéticas que deem resistência aos alimentos diante das novas condições climáticas.

– Os eventos extremos, mesmo quando têm curta duração, reduzem o tamanho da safra – contou Marcos Buckeridge, professor do Departamento de Botânica da USP e coautor do relatório do IPCC, em uma apresentação realizada ontem na Academia Brasileira de Ciências. – Além disso, somos o país que mais queima florestas no mundo, e a seca é maior justamente na Amazônia Oriental, levando a perdas na agricultura da região.

O aquecimento global também enfraquecerá a segurança hídrica do país.

– É preciso encontrar uma forma de garantir a disponibilidade de água no semiárido, assim como estruturas que a direcione para as áreas urbanas – recomenda José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e também autor do relatório.

Marengo lembra que o Nordeste enfrenta a estiagem há três anos. Segundo ele, o uso de carros-pipa é uma solução pontual. Portanto, outras medidas devem ser pensadas. A transposição do Rio São Francisco também pode não ser suficiente, já que a região deve passar por um processo de desertificação até o fim do século.

De acordo com um estudo realizado em 2009 por diversas instituições brasileiras, e que é citado no novo relatório do IPCC, as chuvas no Nordeste podem diminuir até 2,5mm por dia até 2100, causando perdas agrícolas em todos os estados da região. O déficit hídrico reduziria em 25% a capacidade de pastoreiro dos bovinos de corte. O retrocesso da pecuária é outro ataque à dieta do brasileiro.

– O Brasil perderá entre R$ 719 bilhões e R$ 3,6 trilhões em 2050, se nada fizer . Enfrentaremos perda agrícola e precisaremos de mais recursos para o setor hidrelétrico – alerta Carolina Dubeux, pesquisadora do Centro Clima da Coppe/UFRJ, que assina o documento. – A adaptação é um constante gerenciamento de risco.

(Renato Grandelle / O Globo)

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Impactos mais graves no clima do país virão de secas e de cheias (Folha de S.Paulo)

JC e-mail 4925, de 02 de abril de 2014

Brasileiros em painel da ONU dizem que país precisa se preparar para problemas opostos em diferentes regiões

As previsões regionais do novo relatório do IPCC (painel do clima da ONU) aponta como principais efeitos da mudança climática no país problemas na disponibilidade de água, com secas persistentes em alguns pontos e cheias recordes em outros. Lançado anteontem no Japão, o documento do grupo de trabalho 2 do IPCC dá ênfase a impactos e vulnerabilidades provocados pelo clima ao redor do mundo. Além de listar os principais riscos, o documento ressalta a necessidade de adaptação aos riscos projetados. No Brasil, pela extensão territorial, os efeitos serão diferentes em cada região.

Além de afetar a floresta e seus ecossistemas, a mudança climática deve prejudicar também a geração de energia, a agricultura e até a saúde da população. “Tudo remete à água. Onde nós tivermos problemas com a água, vamos ter problemas com outras coisas”, resumiu Marcos Buckeridge, professor da USP e um dos autores do relatório do IPCC, em entrevista coletiva com outros brasileiros que participaram do painel.

Na Amazônia, o padrão de chuvas já vem sendo afetado. Atualmente, a cheia no rio Madeira já passa dos 25 m –nível mais alto da história– e afeta 60 mil pessoas. No Nordeste, que nos últimos anos passou por secas sucessivas, as mudanças climáticas podem intensificar os períodos sem chuva, e há um risco de que o semiárido vire árido permanentemente.

Segundo José Marengo, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e um dos autores principais do documento, ainda é cedo para saber se a seca persistente em São Paulo irá se repetir no ano que vem ou nos outros, mas alertou que é preciso que o Brasil se prepare melhor.

O IPCC fez previsões para diferentes cenários, mas, basicamente, indica que as consequências são mais graves quanto maiores os níveis de emissões de gases-estufa. “Se não dá para reduzir as ameaças, precisamos pelo menos reduzir os riscos”, disse Marengo, destacando que, no Brasil, nem sempre isso acontece. No caso das secas, a construção de cisternas e a mobilização de carros-pipa seriam alternativas de adaptação. Já nos locais onde deve haver aumento nas chuvas, a remoção de populações de áreas de risco, como as encostas, seria a alternativa.

Carolina Dubeux, da UFRJ, que também participa do IPCC, afirma que, para que haja equilíbrio entre oferta e demanda, é preciso que a economia reflita a escassez dos recursos naturais, sobretudo em áreas como agricultura e geração de energia. “É necessário que os preços reflitam a escassez de um bem. Se a água está escassa, o preço dela precisa refletir isso. Não podemos só expandir a oferta”, afirmou.

Neste relatório, caiu o grau de confiança sobre projeções para algumas regiões, sobretudo em países em desenvolvimento. Segundo Carlos Nobre, secretário do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, isso não significa que o documento tenha menos poder político ou científico.

Everton Lucero, chefe de clima no Itamaraty, diz que o documento será importante para subsidiar discussões do próximo acordo climático mundial. “Mas há um desequilíbrio entre os trabalhos científicos levados em consideração pelo IPCC, com muito mais ênfase no que é produzido nos países ricos. As nações em desenvolvimento também produzem muita ciência de qualidade, que deve ter mais espaço”, disse.

(Giuliana Miranda/Folha de S.Paulo)

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Relatório do IPCC aponta riscos e oportunidades para respostas (Ascom do MCTI)

JC e-mail 4925, de 02 de abril de 2014

Um total de 309 cientistas de 70 países, entre coordenadores, autores, editores e revisores, foram selecionados para produzir o relatório

O novo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) diz que os efeitos das mudanças climáticas já estão ocorrendo em todos os continentes e oceanos e que o mundo, em muitos casos, está mal preparado para os riscos. O documento também conclui que há oportunidades de repostas, embora os riscos sejam difíceis de gerenciar com os níveis elevados de aquecimento.

O relatório, intitulado Mudanças Climáticas 2014: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade, foi elaborado pelo Grupo de Trabalho 2 (GT 2) do IPCC e detalha os impactos das mudanças climáticas até o momento, os riscos futuros e as oportunidades para uma ação eficaz para reduzir os riscos. Os resultados foram apresentados à imprensa brasileira em entrevista coletiva no Rio de Janeiro nesta terça-feira (1º).

Um total de 309 cientistas de 70 países, entre coordenadores, autores, editores e revisores, foram selecionados para produzir o relatório. Eles contaram com a ajuda de 436 autores contribuintes e 1.729 revisores especialistas.

Os autores concluem que a resposta às mudanças climáticas envolve fazer escolhas sobre os riscos em um mundo em transformação, assinalando que a natureza dos riscos das mudanças climáticas é cada vez mais evidente, embora essas alterações também continuem a produzir surpresas. O relatório identifica as populações, indústrias e ecossistemas vulneráveis ao redor do mundo.

Segundo o documento, o risco da mudança climática provém de vulnerabilidade (falta de preparo), exposição (pessoas ou bens em perigo) e sobreposição com os riscos (tendências ou eventos climáticos desencadeantes). Cada um desses três componentes pode ser alvo de ações inteligentes para diminuir o risco.

“Vivemos numa era de mudanças climáticas provocadas pelo homem”, afirma o copresidente do GT 2 Vicente Barros, da Universidade de Buenos Aires, Argentina. “Em muitos casos, não estamos preparados para os riscos relacionados com o clima que já enfrentamos. Investimentos num melhor preparo podem melhorar os resultados, tanto para o presente e para o futuro.”

A adaptação para reduzir os riscos das mudanças climáticas começa a ocorrer, mas com um foco mais forte na reação aos acontecimentos passados do que na preparação para um futuro diferente, de acordo com outro copresidente do GT, Chris Field, da Carnegie Institution for Science, dos Estados Unidos.

“A adaptação às mudanças climáticas não é uma agenda exótica nunca tentada. Governos, empresas e comunidades ao redor do mundo estão construindo experiência com a adaptação”, explica Field. “Esta experiência constitui um ponto de partida para adaptações mais ousadas e ambiciosas, que serão importantes à medida que o clima e a sociedade continuam a mudar”.

Riscos futuros decorrentes das mudanças no clima dependem fortemente da quantidade de futuras alterações climáticas. Magnitudes crescentes de aquecimento aumentam a probabilidade de impactos graves e generalizados que podem ser surpreendentes ou irreversíveis.

“Com níveis elevados de aquecimento, que resultam de um crescimento contínuo das emissões de gases de efeito estufa, será um desafio gerenciar os riscos e mesmo investimentos sérios e contínuos em adaptação enfrentarão limites”, afirma Field.

Impactos observados da mudança climática já afetaram a agricultura, a saúde humana, os ecossistemas terrestres e marítimos, abastecimento de água e a vida de algumas pessoas. A característica marcante dos impactos observados é que eles estão ocorrendo a partir dos trópicos para os polos, a partir de pequenas ilhas para grandes continentes e dos países mais ricos para os mais pobres.

“O relatório conclui que as pessoas, sociedades e ecossistemas são vulneráveis em todo o mundo, mas com vulnerabilidade diferentes em lugares diferentes. As mudanças climáticas muitas vezes interagem com outras tensões para aumentar o risco”, diz Chris Field.

A adaptação pode desempenhar um papel-chave na redução destes riscos, observa Vicente Barros. “Parte da razão pela qual a adaptação é tão importante é que, devido à mudança climática, o mundo enfrenta uma série de riscos já inseridos no sistema climático, acentuados pelas emissões passadas e infraestrutura existente”.

Field acrescenta: “A compreensão de que a mudança climática é um desafio na gestão de risco abre um leque de oportunidades para integrar a adaptação com o desenvolvimento econômico e social e com as iniciativas para limitar o aquecimento futuro. Nós definitivamente enfrentamos desafios, mas compreender esses desafios e ultrapassá-los de forma criativa pode fazer da adaptação à mudança climática uma forma importante de ajudar a construir um mundo mais vibrante em curto prazo e além”.

O relatório do GT 2 é composto por dois volumes. O primeiro contém Resumo para Formuladores de Políticas, Resumo Técnico e 20 capítulos que avaliam riscos por setor e oportunidades para resposta. Os setores incluem recursos de água doce, os ecossistemas terrestres e oceânicos, costas, alimentos, áreas urbanas e rurais, energia e indústria, a saúde humana e a segurança, além dos meios de vida e pobreza.

Em seus dez capítulos, o segundo volume avalia os riscos e oportunidades para a resposta por região. Essas regiões incluem África, Europa, Ásia, Australásia (Austrália, a Nova Zelândia, a Nova Guiné e algumas ilhas menores da parte oriental da Indonésia), América do Norte, América Central e América do Sul, regiões polares, pequenas ilhas e oceanos.

Acesse a contribuição do grupo de trabalho (em inglês) aqui ou no site da instituição.

A Unidade de Apoio Técnico do GT 2 é hospedada pela Carnegie Institution for Science e financiada pelo governo dos Estados Unidos.

“O relatório do Grupo de Trabalho 2 é outro importante passo para a nossa compreensão sobre como reduzir e gerenciar os riscos das mudanças climáticas”, destaca o presidente do IPCC, RajendraPachauri. “Juntamente com os relatórios dos grupos 1 e 3, fornece um mapa conceitual não só dos aspectos essenciais do desafio climático, mas as soluções possíveis.”

O relatório do GT 1 foi lançado em setembro de 2013, e o do GT 3 será divulgado neste mês. O quinto relatório de avaliação (AR5) será concluído com a publicação de uma síntese em outubro.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima é o organismo internacional para avaliar a ciência relacionada à mudança climática. Foi criado em 1988 pela Organização Meteorológica Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnuma), para fornecer aos formuladores de políticas avaliações regulares da base científica das mudanças climáticas, seus impactos e riscos futuros, e opções para adaptação e mitigação.

Foi na 28ª Sessão do IPCC, realizada em abril de 2008, que os membros do painel decidiram preparar o AR5. O documento envolveu 837 autores e editores de revisão.

(Ascom do MCTI, com informações do IPCC)

James Lovelock: ‘enjoy life while you can: in 20 years global warming will hit the fan’ (The Guardian)

The climate science maverick believes catastrophe is inevitable, carbon offsetting is a joke and ethical living a scam. So what would he do? By Decca Aitkenhead

The GuardianSaturday 1 March 2008

James Lovelock

James Lovelock. Photograph: Eamonn McCabe

In 1965 executives at Shell wanted to know what the world would look like in the year 2000. They consulted a range of experts, who speculated about fusion-powered hovercrafts and “all sorts of fanciful technological stuff”. When the oil company asked the scientist James Lovelock, he predicted that the main problem in 2000 would be the environment. “It will be worsening then to such an extent that it will seriously affect their business,” he said.

“And of course,” Lovelock says, with a smile 43 years later, “that’s almost exactly what’s happened.”

Lovelock has been dispensing predictions from his one-man laboratory in an old mill in Cornwall since the mid-1960s, the consistent accuracy of which have earned him a reputation as one of Britain’s most respected – if maverick – independent scientists. Working alone since the age of 40, he invented a device that detected CFCs, which helped detect the growing hole in the ozone layer, and introduced the Gaia hypothesis, a revolutionary theory that the Earth is a self-regulating super-organism. Initially ridiculed by many scientists as new age nonsense, today that theory forms the basis of almost all climate science.

For decades, his advocacy of nuclear power appalled fellow environmentalists – but recently increasing numbers of them have come around to his way of thinking. His latest book, The Revenge of Gaia, predicts that by 2020 extreme weather will be the norm, causing global devastation; that by 2040 much of Europe will be Saharan; and parts of London will be underwater. The most recent Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) report deploys less dramatic language – but its calculations aren’t a million miles away from his.

As with most people, my panic about climate change is equalled only by my confusion over what I ought to do about it. A meeting with Lovelock therefore feels a little like an audience with a prophet. Buried down a winding track through wild woodland, in an office full of books and papers and contraptions involving dials and wires, the 88-year-old presents his thoughts with a quiet, unshakable conviction that can be unnerving. More alarming even than his apocalyptic climate predictions is his utter certainty that almost everything we’re trying to do about it is wrong.

On the day we meet, the Daily Mail has launched a campaign to rid Britain of plastic shopping bags. The initiative sits comfortably within the current canon of eco ideas, next to ethical consumption, carbon offsetting, recycling and so on – all of which are premised on the calculation that individual lifestyle adjustments can still save the planet. This is, Lovelock says, a deluded fantasy. Most of the things we have been told to do might make us feel better, but they won’t make any difference. Global warming has passed the tipping point, and catastrophe is unstoppable.

“It’s just too late for it,” he says. “Perhaps if we’d gone along routes like that in 1967, it might have helped. But we don’t have time. All these standard green things, like sustainable development, I think these are just words that mean nothing. I get an awful lot of people coming to me saying you can’t say that, because it gives us nothing to do. I say on the contrary, it gives us an immense amount to do. Just not the kinds of things you want to do.”

He dismisses eco ideas briskly, one by one. “Carbon offsetting? I wouldn’t dream of it. It’s just a joke. To pay money to plant trees, to think you’re offsetting the carbon? You’re probably making matters worse. You’re far better off giving to the charity Cool Earth, which gives the money to the native peoples to not take down their forests.”

Do he and his wife try to limit the number of flights they take? “No we don’t. Because we can’t.” And recycling, he adds, is “almost certainly a waste of time and energy”, while having a “green lifestyle” amounts to little more than “ostentatious grand gestures”. He distrusts the notion of ethical consumption. “Because always, in the end, it turns out to be a scam … or if it wasn’t one in the beginning, it becomes one.”

Somewhat unexpectedly, Lovelock concedes that the Mail’s plastic bag campaign seems, “on the face of it, a good thing”. But it transpires that this is largely a tactical response; he regards it as merely more rearrangement of Titanic deckchairs, “but I’ve learnt there’s no point in causing a quarrel over everything”. He saves his thunder for what he considers the emptiest false promise of all – renewable energy.

“You’re never going to get enough energy from wind to run a society such as ours,” he says. “Windmills! Oh no. No way of doing it. You can cover the whole country with the blasted things, millions of them. Waste of time.”

This is all delivered with an air of benign wonder at the intractable stupidity of people. “I see it with everybody. People just want to go on doing what they’re doing. They want business as usual. They say, ‘Oh yes, there’s going to be a problem up ahead,’ but they don’t want to change anything.”

Lovelock believes global warming is now irreversible, and that nothing can prevent large parts of the planet becoming too hot to inhabit, or sinking underwater, resulting in mass migration, famine and epidemics. Britain is going to become a lifeboat for refugees from mainland Europe, so instead of wasting our time on wind turbines we need to start planning how to survive. To Lovelock, the logic is clear. The sustainability brigade are insane to think we can save ourselves by going back to nature; our only chance of survival will come not from less technology, but more.

Nuclear power, he argues, can solve our energy problem – the bigger challenge will be food. “Maybe they’ll synthesise food. I don’t know. Synthesising food is not some mad visionary idea; you can buy it in Tesco’s, in the form of Quorn. It’s not that good, but people buy it. You can live on it.” But he fears we won’t invent the necessary technologies in time, and expects “about 80%” of the world’s population to be wiped out by 2100. Prophets have been foretelling Armageddon since time began, he says. “But this is the real thing.”

Faced with two versions of the future – Kyoto’s preventative action and Lovelock’s apocalypse – who are we to believe? Some critics have suggested Lovelock’s readiness to concede the fight against climate change owes more to old age than science: “People who say that about me haven’t reached my age,” he says laughing.

But when I ask if he attributes the conflicting predictions to differences in scientific understanding or personality, he says: “Personality.”

There’s more than a hint of the controversialist in his work, and it seems an unlikely coincidence that Lovelock became convinced of the irreversibility of climate change in 2004, at the very point when the international consensus was coming round to the need for urgent action. Aren’t his theories at least partly driven by a fondness for heresy?

“Not a bit! Not a bit! All I want is a quiet life! But I can’t help noticing when things happen, when you go out and find something. People don’t like it because it upsets their ideas.”

But the suspicion seems confirmed when I ask if he’s found it rewarding to see many of his climate change warnings endorsed by the IPCC. “Oh no! In fact, I’m writing another book now, I’m about a third of the way into it, to try and take the next steps ahead.”

Interviewers often remark upon the discrepancy between Lovelock’s predictions of doom, and his good humour. “Well I’m cheerful!” he says, smiling. “I’m an optimist. It’s going to happen.”

Humanity is in a period exactly like 1938-9, he explains, when “we all knew something terrible was going to happen, but didn’t know what to do about it”. But once the second world war was under way, “everyone got excited, they loved the things they could do, it was one long holiday … so when I think of the impending crisis now, I think in those terms. A sense of purpose – that’s what people want.”

At moments I wonder about Lovelock’s credentials as a prophet. Sometimes he seems less clear-eyed with scientific vision than disposed to see the version of the future his prejudices are looking for. A socialist as a young man, he now favours market forces, and it’s not clear whether his politics are the child or the father of his science. His hostility to renewable energy, for example, gets expressed in strikingly Eurosceptic terms of irritation with subsidies and bureaucrats. But then, when he talks about the Earth – or Gaia – it is in the purest scientific terms all.

“There have been seven disasters since humans came on the earth, very similar to the one that’s just about to happen. I think these events keep separating the wheat from the chaff. And eventually we’ll have a human on the planet that really does understand it and can live with it properly. That’s the source of my optimism.”

What would Lovelock do now, I ask, if he were me? He smiles and says: “Enjoy life while you can. Because if you’re lucky it’s going to be 20 years before it hits the fan.”

Transposição do Rio São Francisco: via de mão única (Agência Pública)

07/2/2014 – 12h13

por Marcia Dementshuk, para a Agência Pública

sertanejos Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Sertanejos convivem com a obra há quase sete anos sem soluções para as consequências da seca. Foto: Mano Carvalho

Na primeira matéria do projeto Reportagem Pública, a repórter viaja ao Eixo Leste – e mostra como a população está sendo afetada pelas obras

“Sem dúvida, com a transposição do rio São Francisco será oferecida segurança hídrica para o Nordeste”, garantiu o diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, durante nossa entrevista. A aposta do governo federal é alta: o orçamento atual da transposição é de R$,97 (o dobro do previsto inicialmente), financiados pelo Programa de Aceleração ao Crescimento (PAC I e II). Trata-se do maior empreendimento de infraestrutura hídrica já construído no Brasil, que mudará para sempre a cara da região.

Menos de 5% das reservas hídricas do país estão no Nordeste do país, que detém entre 12% e 16% das reservas de água doce no planeta. O clima semiárido, seco, quente e com poucas chuvas domina o sertão, território com mais de 22,5 milhões de habitantes (Censo IBGE/2010).

Neste cenário, a notícia de que seria possível transportar a água do Rio São Francisco para regiões mais secas transformou-se em esperança para os nordestinos de todas as épocas. Fala-se nessa obra desde os tempos do Império, quando, em 1877, o intendente do Crato, no Ceará, apresentou para dom Pedro II um projeto que levaria águas do Rio São Francisco até o rio Jaguaribe, no seu estado.

A obra foi iniciada 130 anos depois, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, com base no projeto elaborado no governo de Fernando Henrique Cardoso. Depois do investimento inicial, de cerca de R$ 4 bilhões, o rendimento dos trabalhos diminuiu em 2010 por problemas de adequação do Projeto-Base à realidade da execução , e novas licitações precisaram ser feitas. Somente no final de 2013, conforme o Ministério da Integração Nacional, responsável pelo projeto, as obras foram 100% retomadas.

Hoje, o empreendimento aponta 51% de avanço, e o orçamento dobrou. A nova previsão para a conclusão é em dezembro de 2015, quando as águas deverão alcançar afinal o leito do rio Paraíba, no Eixo Leste, e o reservatório Engenheiro Ávidos, pelo Eixo Norte, ambos na Paraíba.

Ali do lado, falta água

O projeto prevê que as águas captadas do Rio São Francisco em dois canais de aproximação (no Eixo Norte, em Cabrobó e no Eixo Leste, no reservatório de Itaparica, em Floresta,ambos em Pernambuco) serão conduzidas pelos canais até os reservatórios, de onde abastecerão dezenas de municípios dos estados de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, aproveitando a rede de saneamento existente. Projetos referentes a tomadas para uso difuso (pontos de tomada de água captadas ao longo dos canais para abastecer as comunidades instaladas nas proximidades) ainda estão em fase de elaboração. O Ministério da Integração ainda não definiu que pontos serão esses, nem os locais exatos de captação. Da mesma forma, os valores finais do custo desta água para a população ainda estão em estudo por parte do governo federal.

A realidade, porém, é que há mais de dois anos, muitos moradores dos municípios do semiárido nem sequer têm água nas torneiras; usam a água distribuída por caminhões-pipa, de poços particulares ou públicos (a maioria com água salobra) ou da chuva (quando chove).

Manoel Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Em Caiçara, distrito de Custódia, Maria Célia Rodrigues da Silva disse que falta água nas torneiras desde o início das obras do PISF. Foto: Mano Carvalho

Em Caiçara, distrito de Custódia, Pernambuco, próximo ao Lote 10, que corresponde a atual Meta 2L, da construção (veja o mapa), a população toma a água enviada pelo Exército, em caminhões-pipa, uma vez por semana. Toda semana é a mesma cena: a água é despejada em uma cisterna central, e cada morador tem que ir buscar – há carroceiros que cobram em torno de R$ 5,00 ou R$ 7,00 por viagem.

O riacho Custódia passa próximo da casa de Manoel Rodrigues de Melo, agricultor de 52 anos, mas o fio de água que resta é salobra, e só serve para lavar a casa ou os estábulos. “A água boa vem de Fátima, a uns 40 quilômetros daqui. O que a gente mais precisa aqui é água, que não tem”, suplica o agricultor. Nessas condições, ele e a esposas criaram oito filhos. Todos partiram em busca de melhores condições de vida. “É muito filho, até parece mentira! Mas antigamente os invernos eram melhores, chovia mais”.

Manoel Rodrigues de Melo, que nunca saiu da região onde nasceu, viu seu terreno ser dividido pelo canal do Eixo Leste: ficou com seis quilômetros de um lado do canal e com a mesma medida do outro. Dono de um sotaque sertanejo carregado, com poucos dentes na boca, as mãos calejadas e a pele castigada pelo sol, Manoel conta que agora os bichos têm de usar a ponte sobre o canal para passar. “Senão, eles ficam ou do lado de cá, ou do lado de lá, ou tem que fazer um volta tremenda lá por baixo, onde tem um lugar pra passar. Mas o que mais a gente espera é essa água que ‘tá’ pra vir. Isso vai mudar a nossa vida aqui. Vai ser muito bom”, diz o agricultor, ansioso.

“A gente tinha água pela torneira, era ruim, mas dava pra limpeza. Mas desde que começou essa construção (referindo-se à transposição) ela foi cortada”, lembra-se a vizinha de Manoel, a dona de casa Maria Célia Rodrigues da Silva, que cuida da mãe doente, com 82 anos. “Nem as cisternas não enchem. Estamos com dois anos de seca”, completou. A água encanada provinha de um poço escavado em outro vilarejo próximo de Caiçara, Fiúza, mas ela não sabe dizer se foi cortada em função das obras da transposição, ou se o poço secou. Mesmo com o encanamento de sua casa enferrujado e sem saber se terá água para beber no dia seguinte, a vida de Maria Célia continua. Ela não teve filhos. Cria alguns bodes, cabras e galinhas no quintal da casa e conta com o dinheiro da aposentadoria de sua mãe para o sustento das duas. Trabalhava na roça, mas nada mais resistiu à seca de dois anos.

Tradicional como a seca, o pífano de Zabé

Zabe Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Zabé da Loca. Foto: Mano de Carvalho

A tocadora de pífano Zabé da Loca nos recebeu às vésperas de completar 90 anos. Quando tinha 79 anos, 25 dos quais passados em uma gruta, na Serra do Tungão, próximo a Monteiro (PB), Zabé se tornou conhecida no mercado de música regional. Chegou a dividir o palco com músicos como Hermeto Pascoal e Gabriel Pensador em shows no Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Paraíba e Brasília.

Típica sertaneja, que jamais conheceu o conforto de abrir uma torneira de onde corresse água em abundância, Zabé teve 14 irmãos, oito dos quais morreram por doenças originadas pela falta de água e desnutrição. Fumante inveterada, persistiu no hábito mesmo depois do tratamento de combate a um enfisema pulmonar e à pneumonia e não deixou de enrolar um cigarrinho durante a visita, enquanto lembrava: “Nessa serra sempre teve água da chuva que empoçava nas pedras. Mas tinha anos que não encontrávamos água em canto nenhum. A gente tinha que ir até o rio (afluente do rio Paraíba, próximo da nascente) pegar”.

Quando comentamos sobre a transposição do rio São Francisco ela reagiu: “esse negócio existe mesmo?”

Para o ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, Luiz Gabriel Azevedo, o custo de operação da água da transposição é elevado e requer investimentos vultosos, quando comparado a outras alternativas. “Parte do pacto, quando se pensou esse projeto, é de que os estados fariam um trabalho forte de racionalizar o uso dentro de seus territórios, de melhorar o sistema de gestão; e os estados estão aquém dessa expectativa”, analisa. Ele alega que os estados deveriam investir mais em obras que garantissem os recursos hídricos, como manutenção e construção de açudes, estudos para perfurações de poços e principalmente em obras de saneamento e rede de distribuição de água.

“Não valerá à pena trazer uma água cara para se desperdiçar do outro lado. Não dá para executar um projeto complexo se os recursos dos açudes não forem bem usados, se não houver um sistema de distribuição, se não se tem um sistema de gestão eficiente nos estados que vão receber para gerir a água”, complementou Luiz Gabriel Azevedo.

Por Lei, o órgão competente que determinará como a água será distribuída é o Conselho Gestor do Projeto de Integração do Rio São Francisco, instituído pelo Decreto 5.995/2006. Esse Conselho é formado por representantes dos estados beneficiados com o empreendimento – Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará – e tem por objetivo, entre outros, tratar da alocação das águas e dos rateios dos custos correspondentes.

moradores Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Desalentados pela seca, moradores de cidades do Sertão nordestino aguardam a chegada das águas da transposição. Foto: Mano Carvalho

Para o diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA) destaca que o Nordeste ainda carece de um conjunto de soluções hídricas, como aproveitamento máximo da escassa água da chuva, o controle do uso das águas dos reservatórios ou a transposição de águas de outras bacias hidrográficas, já que a escavação de poços do semiárido é considerada inviável. De acordo com o relatório de impacto Ambiental do PISF, (RIMA), “a maioria do território semiárido (70% da região) dispõe de pouca água subterrânea e possui solo impermeável, ou seja, absorve pouca água, limitando sua capacidade de disponibilidade. Além desse aspecto, a água, em geral, é de baixa qualidade”.

Realocação de moradores e uma vila partida ao meio

Cerca de 800 famílias foram deslocadas e receberam indenizações entre cerca de R$ 10 mil a R$ 15 mil para dar passagem às obras da transposição – de acordo com a gerência de Comunicação da CMT Engenharia, empresa responsável pelo acompanhamento das ações de compensação socioambiental do PISF – ao longo dos eixos Norte e Leste, em Pernambuco e no Ceará. De acordo com o supervisor de obras da empresa Ecoplan, Adilson Leal, porém, as terras não entraram na avaliação das propriedades a serem indenizadas por possuírem baixo valor de mercado, segundo a empresa, em função da pouca qualidade da terra para o plantio ou para o pasto, em uma região onde a chuva é escassa. Só as benfeitorias foram ressarcidas.

abastecimento Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Abastecimento de água potável para a população em Rio da Barra (PE), por onde passam os canais da transposição, ocorre duas vezes por semana. Foto: Mano de Carvalho

Em Rio da Barra, distrito de Sertânia, em Pernambuco, comunidade que beira o canal na altura do Lote 11, que corresponde à Meta 2L, (veja o mapa), a população se encontra duas vezes por semana na cisterna pública para se abastecer de água potável proveniente de um poço artesiano cavado pela Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Um funcionário da prefeitura de Sertânia controla o abastecimento gratuito dos galões trazidos pela população na noite anterior. O local acaba se tornando o ponto de encontro do povoado. Mães carregando baldões chegam com as crianças arrastando baldes menores, carroças carregadas de galões estacionam ao lado e todos aguardam com paciência pelo precioso líquido. Maria José Araújo Pinheiro, uma dona de casa tímida, mas de olhos atentos, aguardava sua vez quando comentou que sua mãe, Creusa Davi da Silva, aceitou a oferta do governo para desocupar suas terras no sítio Chique-Chique. “Eles ofereceram pra ela R$ 14.400, ela pegou e foi morar em Sertânia. Como ela ganha aposentadoria, está bem. Mas pagaram só pela casa”, disse Maria José.

Marcia Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

O marido de Márcia Freire, Adilson Salvador, de Rio da Barra (PE,) é técnico ambiental nas obras da transposição. Foto: Mano de Carvalho

Márcia Maria Freire Araújo vem do outro lado do canal do Eixo Leste da transposição pegar água na cisterna pública de Rio da Barra. Ela chega sempre antes das seis da manhã, na companhia do cunhado que conduz uma carroça puxada a burro onde transportam os galões de água. Andam cerca de dois quilômetros, atravessam o canal por uma ponte provisória e os depositam em uma fila de recipientes que começou a ser formar no dia anterior. Sua família mora em outra propriedade pequena, que teve uma parte indenizada pelo Ministério da Integração Nacional. “Eu não acho que é justo perder um pedaço de terra, mas se é para fazer o bem pra tanta gente, então aceitamos”, conforma-se. Ela vê o lado bom: seu marido, Adilson Salvador, é empregado na construtora SA Paulista como técnico ambiental na transposição. “Ele conseguiu emprego desde o início da obra, primeiro por outra empresa, e agora pela Paulista”, orgulha-se Márcia Maria.

Em outra localidade, na zona rural de Sertânia, os moradores do Sítio Brabo Novo ficaram divididos pelo canal. Pelo menos treze famílias preferiram a remoção para terras acima do reservatório Barro Branco, ainda em fase de retirada da vegetação. Um número bem maior de famílias permaneceu do outro lado do reservatório.

Maria da Conceição Siqueira, viúva, de 51 anos, e seu filho, de 18 anos, deixarão a antiga moradia para trás e irão para Sertânia. “Já recebi R$ 7.500,00 por aquela casinha ali”, diz, apontando para uma casa que ficará submersa pelo reservatório, “e ganhei essa casa aqui. Mas vamos fechá-la e ir embora”. “Fiquei com um pedaço de terra muito pequeno, (cerca de 50m²) não dá pra nada. Meu filho está em tratamento, ele teve um derrame no cérebro e é melhor a gente ficar lá”, diz.

Lucineia Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

Lucinéia ferreira Florêncio não acredita em distribuição justa das águas da transposição. Foto: Mano de Carvalho

A família das irmãs Lucicléia e Lucinéia Ferreira Florêncio, vizinhas de Maria da Conceição, tomou uma decisão diferente. “Nossa primeira casa era onde agora vai ser o reservatório, e já foi indenizada em 2007. Mas esse reservatório ocupou quase a metade do nosso terreno. Como ainda sobraram terras desse outro lado e esta é uma área liberada, decidimos construir aqui, com o dinheiro da indenização”, contou Lucinéia. Ela não soube informar o tamanho do sítio, mas a nova casa é grande. No terreno persiste uma plantação de palmas (um tipo de cactos que serve para alimentar os animais) e algumas árvores frutíferas. O resto foi perdido: abacaxi, macaxeira, milho, feijão… A irmã, Luciclélia, casou-se e construiu uma casa menor ao lado, onde vive com o marido e uma bebê de nove meses.

Lucinéia, professora, duvida que no futuro haja uma distribuição justa das águas da transposição. “Tem os pontos positivos, mas acho que vão ter os negativos também. Eu penso que com essa água toda vão começar a fazer mais obras por aqui e eu não sei se toda a comunidade vai ter acesso a essa água quando quiser. O pequeno produtor nunca é beneficiado como os grandes proprietários, nunca tem igualdade. E acho que o crescimento vai ser desordenado. A comunidade já tem uma associação de moradores, mas ainda não sabe como abordar esse assunto”, lamentou Lucinéia, dizendo que não há orientação nenhuma dos governos sobre isso.

sitio Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

O Sítio Passagem da Pedra, em Sertânia, dividido para a construção do túnel; zeladores recuam cerca que delimita área da propriedade. Foto: Mano de Carvalho

Na área onde será construído o túnel entre Sertânia e Monteiro, no Lote 12, atual Meta 3L (veja mapa), a retomada das obras em dezembro significou a perda de mais 100 metros de terreno pelos agricultores, além dos 100 metros que já tinham recuado. “Fazer o quê? Os donos já receberam a indenização e agora que vieram construir pediram mais esse pedaço de terra”, explicam Lenilton Cordeiro dos Santos e Quitéria Araújo da Silva, zeladores do sítio Passagem da Pedra, cortado tanto pelo canal da transposição quanto pelo túnel.

Ailton Transposição do Rio São Francisco: via de mão única

“Ninguém sabe”, afirmou o capataz Aílton Ferreira falando sobre a data que deverá chegar as águas da transposição no túnel na divisa entre Pernambuco e Paraíba. Foto: Mano de Carvalho

No sítio ao lado, Aílton Ferreira de Oliveira cuida do terreno da sogra, que também foi reduzido. “Agora, o gado que sobrou, cinco cabeças, está no curral e come mandacaru, pois não tem mais o que comer por causa da seca, e o terreno ficou pequeno pro pasto”.

“E essa água, quando chega?”, interrompe o capataz do sítio, que prossegue, num monólogo: “Ninguém sabe…”.

Leia também as outras quatro reportagens da série e ainda um relato da repórter Márcia Dementshuk, onde ela conta os bastidores da reportagem.

Uma viagem ao canteiro de obras

Na Contramão da Transposição

O povo contra os areeiros

Leia os bastidores da reportagem

A Transposição, um projeto dos tempos do Império

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

Crônicas do Consumismo, à entrada de dezembro (Envolverde)

03/12/2013 – 12h14

por George Monbiot*

consumo Crônicas do Consumismo, à entrada de dezembro

Grafite anti-consumista. Foto: Edgar Fabiano

Publicidade ensina crianças a acariciar… o plástico. Jornais anunciam skates de mogno. E se “Admirável Mundo Novo” já não for ficção?

A culpa cumpre um papel. É o que distingue o resto da população dos psicopatas. Trata-se do sentimento que você tem quando é capaz de sentir empatia. Mas a culpa inibe o consumo. Para sufocá-la, surgiu uma indústria global que usa celebridades, personagens de desenhos animados e música de elevador. Ela procura nos convencer a não ver e a não sentir. Parece funcionar.

Os resultados da pesquisa Greendex 2012 (“Consumers Choice and the Environment”, ou “As Opções dos Consumidores e o Meio-ambinte”) mostram que nos países mais pobres as pessoas sentem-se, em geral, mais culpadas com relação aos impactos causados na natureza do que as populações dos países ricos. Os países onde as pessoas sentem menos culpa são Alemanha, Estados Unidos, Austrália e Grã-Bretanha, nessa ordem – enquanto Índia, China, México e Brasil são os países onde as pessoas estão mais preocupadas. Nossa culpa, revela o estudo, acontece na proporção inversa ao tamanho dos danos causados pelo consumo. Isso é o contrário do que nos dizem milhares de editoriais da imprensa corporativa: que as pessoas não podem dar-se ao luxo de cuidar da natureza até que se tornem ricas. As evidências sugerem que deixamos de cuidar justamente quando nos tornamos ricos.

“Consumidores em países como México, Brasil, China e Índia”, diz o estudo, “tendem a ser mais preocupados com as questões das mudanças climáticas, poluição do ar e da água, desaparecimento de espécies e escassez de água doce … Por outro lado, a economia e os custos de energia e combustível suscitam a maior preocupação entre os consumidores norte-americanos, franceses e britânicos.” Quanto mais dinheiro se tem, mais importante ele se torna. Meu palpite é que nos países mais pobres a empatia não foi tão entorpecida por décadas de consumo irracional.

Assista ao mais recente anúncio da Toys R Us nos EUA. Um homem vestido como guarda florestal arrebanha crianças em um ônibus verde em que se lê “Encontre a Fundação Árvores”. “Hoje nós estamos levando as crianças à viagem de campo que mais poderiam desejar”, diz o guarda dirigindo-se a nós. “E eles nem sabem disso.”

No ônibus ele começa a ensiná-las, mal, sobre as folhas. As crianças bocejam e se mexem nos bancos. De repente, ele anuncia: “Mas nós não estamos indo à floresta hoje …” Ele tira a camisa de guarda florestal. “Estamos indo para a Toys R Us, pessoal!” As crianças ficam alucinadas. “Vamos brincar com todos os brinquedos, e vocês podem escolher o brinquedo que quiserem!” As crianças correm, em câmera lenta, pelos corredores da loja, e quase desmaiam enquanto acariciam os brinquedos.

A natureza é um tédio, já o plástico é emocionante. Crianças que vivem no centro da cidade e que levei a um bosque, semanas atrás, contariam uma história diferente; mas a mensagem, martelada com suficiente frequência, acaba por tornar-se verdadeira.

O Natal permite que a indústria global de besteiras recrute os valores com os quais muitos de nós gostaríamos que a data estivesse associada – o amor, a vivacidade, uma comunidade espiritual –, com o único objetivo de vender coisas de que ninguém necessita ou mesmo deseja. Infelizmente, como todos os jornais, The Guardian participa dessa orgia. A revista de sábado trazia o que parecia ser uma lista de compras para os últimos dias do Império Romano. Há um relógio cuco inteligente para os que têm familiares estúpidos o suficiente, uma chaleira operada remotamente, um distribuidor de sabão líquido por 55 libras [R$ 210]; um skate de mogno (vergonhosamente, a origem da madeira não é mencionada nem pelo Guardian, nem pelo varejista), um “pino pappardelle de rolamento”, seja lá que diabo for isso, bugigangas de chocolate a 25 libras [R$ 96], uma caixa de… barbante de jardim (!) por 16 libras [R$ 61].

Estaremos tão entediados, tão carentes de afeto, que precisamos ganhar essas porcarias para acender uma última centelha de satisfação hedonista? Terão as pessoas se tornado tão imunes ao sentimento de irmandade a ponto de se prontificarem a gastar 46 libras [R$ 177] num pacote de petiscos para cães ou 6,50 libras [R$ 20] em incríveis biscoitos personalizados, em vez de dar o dinheiro a uma causa melhor? Ou isso é o potlatch do mundo ocidental, no qual gastam-se quantias ridículas em presentes ostensivamente inúteis, para melhorar nosso status social? Se assim for, devemos ter esquecido que aqueles que se deixam impressionar por dinheiro não merecem ser impressionados.

Para atender a essa forma peculiar de doença mental, devemos retalhar a Terra, abrir grandes buracos na superfície do planeta, ocupar-se fugazmente com os produtos da destruição e então despejar os materiais em outros buracos.Relatório da Fundação Gaia revela um crescimento explosivo no ritmo da mineração: a produção de cobalto aumentou 165% em 10 anos, a doo minério de ferro em 180% e, entre 2010 e 2011, houve um aumento de 50% na exploração de metais não-ferrosos.

Os produtos dessa destruição estão em tudo: eletroeletrônicos, plásticos, cerâmicas, tintas, corantes, a embalagem em que nossas besteiras vão chegar. À medida que os depósitos mais ricos se esgotam, cada vez mais terra deve ser rasgada para manter a produção. Mesmo os materiais mais preciosos e destrutivos são sucateados quando um novo nível de dopamina torna-se necessário: o governo do Reino Unido informa que uma tonelada de ouro, embutido em equipamentos eletrônicos, é depositada nos aterros a cada ano, neste país.

Em agosto, uma briga das mais instrutivas inflamou o Partido Conservador. O ministro do Meio Ambiente, Lord de Mauley, pediu às pessoas para consertar suas engenhocas em vez de atirá-las no lixo. Isso era necessário, argumentou, para reduzir a quantidade de aterros, seguindo as diretrizes da política europeia de resíduos. Para o The Telegraph, “as propostas poderiam alarmar as empresas que lutam para aumentar a demanda por seus produtos.” O parlamentar do Partido Conservador Douglas Carswell bradou: “desde quando precisamos do governo para nos dizer o que fazer com torradeiras quebradas?”…

Para ele, o programa de recuperação econômica do governo depende de consumo incessante: se as pessoas começarem a consertar as coisas, o esquema entra em colapso; skates de mogno e chaleiras wifi são respostas necessárias a um mercado saturado; o deus de ferro do crescimento, ao qual nos devemos curvar, demanda que gastemos o mundo dos vivos até o esquecimento fim dos tempos.

“‘Mas roupas velhas são estupidez’, continuou o sussurro incansável. ‘Nós sempre jogamos fora as roupas velhas. Descartar é melhor que consertar, descartar é melhor que consertar.’” O Admirável Mundo Novo parece menos fantástico, a cada ano.

George Monbiot é jornalista é escritor, acadêmico e ambientalista do Reino Unido. Escreve uma coluna semanal no jornal The Guardian./ Tradução: Inês Castilho.

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

Something Is Rotten at the New York Times (Huff Post)

By Michael E. Mann

Director of Penn State Earth System Science Center; Author of ‘Dire Predictions’ and ‘The Hockey Stick and the Climate Wars’

Posted: 11/21/2013 7:20 pm

Something is rotten at the New York Times.

When it comes to the matter of human-caused climate change, the Grey Lady’s editorial page has skewed rather contrarian of late.

A couple months ago, the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) publishedits 5th scientific assessment, providing the strongest evidence to date that climate change is real, caused by us, and a problem.

Among other areas of the science where the evidence has become ever more compelling, is the so-called “Hockey Stick” curve — a graph my co-authors and I published a decade and a half ago showing modern warming in the Northern Hemisphere to be unprecedented for at least the past 1000 years. The IPCC further strengthened that original conclusion, finding that recent warmth is likely unprecedented over an even longer timeframe.

Here was USA Today on the development:

The latest report from the Intergovernmental Panel on Climate Change, the internationally accepted authority on the subject, concludes that the climate system has warmed dramatically since the 1950s, and that scientists are 95% to 100% sure human influence has been the dominant cause. In the Northern Hemisphere, 1983 to 2012 was likely the warmest 30-year period of the past 1,400 years, the IPCC found.

And here was the Washington Post:

The infamous “hockey stick” graph showing global temperatures rising over time, first slowly and then sharply, remains valid.

And the New York Times? Well we instead got this:

The [Hockey Stick] graph shows a long, relatively unwavering line of temperatures across the last millennium (the stick), followed by a sharp, upward turn of warming over the last century (the blade). The upward turn implied that greenhouse gases had become so dominant that future temperatures would rise well above their variability and closely track carbon dioxide levels in the atmosphere….I knew that wasn’t the case.


Rather than objectively communicating the findings of the IPCC to their readers, the New York Times instead foisted upon them the ill-informed views of Koch Brothers-fundedclimate change contrarian Richard Muller, who used the opportunity to deny the report’s findings.

In fact, in the space of just a couple months now, the Times has chosen to grant Muller not just one, but two opportunities to mislead its readers about climate change and the threat it poses.

The Times has now published another op-ed by Muller wherein he misrepresented the potential linkages between climate change and extreme weather–tornadoes to be specific, which he asserted would be less of a threat in a warmer world. The truth is that the impact of global warming on tornadoes remains uncertain, because the underlying science is nuanced and there are competing factors that come into play.

The Huffington Post published an objective piece about the current state of the science earlier this year in the wake of the devastating and unprecedented Oklahoma tornadoes.

That piece accurately quoted a number of scientists including myself on the potential linkages. I pointed out to the journalist that there are two key factors: warm, moist air is favorable for tornadoes, and global warming will provide more of it. But important too is the amount of “shear” (that is, twisting) in the wind. And whether there will, in a warmer world, be more or less of that in tornado-prone regions, during the tornado season, depends on the precise shifts that will take place in the jet stream–something that is extremely difficult to predict even with state-of-the-art theoretical climate models. That factor is a “wild card” in the equation.

So we’ve got one factor that is a toss-up, and another one that appears favorable for tornado activity. The combination of them is therefore slightly on the “favorable” side, and if you’re a betting person, that’s probably what you would go with. And this is the point that I made in the Huffington Post piece:

Michael Mann, a climatologist who directs the Earth System Science Center at Pennsylvania State University, agreed that it’s too early to tell.

“If one factor is likely to be favorable and the other is a wild card, it’s still more likely that the product of the two factors will be favorable,” said Mann. “Thus, if you’re a betting person — or the insurance or reinsurance industry, for that matter — you’d probably go with a prediction of greater frequency and intensity of tornadoes as a result of human-caused climate change.”

Now watch the sleight of hand that Muller uses when he quotes me in his latest Times op-ed:

Michael E. Mann, a prominent climatologist, was only slightly more cautious. He said, “If you’re a betting person — or the insurance or reinsurance industry, for that matter — you’d probably go with a prediction of greater frequency and intensity of tornadoes as a result of human-caused climate change.”

Completely lost in Muller’s selective quotation is any nuance or context in what I had said, let alone the bottom line in what I stated: that it is in fact too early to tell whether global warming is influencing tornado activity, but we can discuss the processes through which climate change might influence future trends.

Muller, who lacks any training or expertise in atmospheric science, is more than happy to promote with great confidence the unsupportable claim that global warming will actuallydecrease tornado activity. His evidence for this? The false claim that the historical data demonstrate a decreasing trend in past decades.

Actual atmospheric scientists know that the historical observations are too sketchy and unreliable to decide one way or another as to whether tornadoes are increasing or not (see this excellent discussion by weather expert Jeff Masters of The Weather Underground).

So one is essentially left with the physical reasoning I outlined above. You would think that a physicist would know how to do some physical reasoning. And sadly, in Muller’s case, you would apparently be wrong…

To allow Muller to so thoroughly mislead their readers, not once, but twice in the space of as many months, is deeply irresponsible of the Times. So why might it be that the New York Times is so enamored with Muller, a retired physicist with no training in atmospheric or climate science, when it comes to the matter of climate change?

I discuss Muller’s history as a climate change critic and his new-found role as a media favorite in my book “The Hockey Stick and the Climate Wars” (the paperback was just released a couple weeks ago, with a new guest foreword by Bill Nye “The Science Guy”).

Muller is known for his bold and eccentric, but flawed and largely discredited astronomical theories. But he rose to public prominence only two years ago when he cast himself in theirresistible role of the “converted climate change skeptic”.

Muller had been funded by the notorious Koch Brothers, the largest current funders of climate change denial and disinformation, to independently “audit” the ostensibly dubious science of climate change. This audit took the form of an independent team of scientists that Muller picked and assembled under the umbrella of the “Berkeley Earth Surface Temperature” (unashamedly termed “BEST” by Muller) project.

Soon enough, Muller began to unveil the project’s findings: First, in late 2011, he admitted that the Earth was indeed warming. Then, a year later he concluded that the warming was not only real, but could only be explained by human influence.

Muller, in short, had rediscovered what the climate science community already knew long ago.

summarized the development at the time on my Facebook page:

Muller’s announcement last year that the Earth is indeed warming brought him up to date w/ where the scientific community was in the the 1980s. His announcement this week that the warming can only be explained by human influences, brings him up to date with where the science was in the mid 1990s. At this rate, Muller should be caught up to the current state of climate science within a matter of a few years!

The narrative of a repentant Koch Brothers-funded skeptic who had “seen the light” andappeared to now endorse the mainstream view of human-caused climate change, was simply too difficult for the mainstream media to resist. Muller predictably was able to position himself as a putative “honest broker” in the climate change debate. And he was granted a slew of op-eds in the New York Times and Wall Street Journal, headline articles in leading newspapers, and interviews on many of the leading television and radio news shows.

Yet Muller was in reality seeking to simply take credit for findings established by otherscientists (ironically using far more rigorous and defensible methods!) literally decades ago. In 1995 the IPCC had already concluded, based on work by Ben Santer and other leading climate scientists working on the problem of climate change “detection and attribution”, that there was already now a “discernible human influence” on the warming of the planet.

And while Muller has now admitted that the Earth had warmed and that human-activity is largely to blame, he has used his new-found limelight and access to the media to:

1. Smear and misrepresent other scientists, including not just me and various other climate scientists like Phil Jones of the UK’s University of East Anglia, but even the President of the U.S. National Academy of Sciences himself, Ralph Cicerone.

2. Misrepresent key details of climate science, inevitably to downplay the seriousness of climate change, whether it is the impacts on extreme weather and heat, drought, Arctic melting, or the threat to Polar Bears. See my own debunking of various falsehoods that Muller has promoted in his numerous news interviews e.g. here or here.

3. Shill for fossil fuel energy, arguing that the true solution to global warming isn’t renewable or clean energy. No, not at all! Muller is bullish on fracking and natural gas as the true solution.

To (a) pretend to accept the science, but attack the scientists and misrepresent so many important aspect of the science, downplaying the impacts and threat of climate change, while (b) acting as a spokesman for natural gas, one imagines that the petrochemical tycoon Koch Brothers indeed were probably quite pleased with their investment. Job well done. As I put it in an interview last year:

It would seem that Richard Muller has served as a useful foil for the Koch Brothers, allowing them to claim they have funded a real scientist looking into the basic science, while that scientist– Muller—props himself up by using the “Berkeley” imprimatur (UC Berkeley has not in any way sanctioned this effort) and appearing to accept the basic science, and goes out on the talk circuit, writing op-eds, etc. systematically downplaying the actual state of the science, dismissing key climate change impacts and denying the degree of risk that climate change actually represents. I would suspect that the Koch Brothers are quite happy with Muller right now, and I would have been very surprised had he stepped even lightly on their toes during his various interviews, which he of course has not. He has instead heaped great praise on them, as in this latest interview.

The New York Times does a disservice to its readers when it buys into the contrived narrative of the “honest broker”–Muller as the self-styled white knight who must ride in to rescue scientific truth from a corrupt and misguided community of scientists. Especially when that white knight is in fact sitting atop a Trojan Horse–a vehicle for the delivery of disinformation, denial, and systematic downplaying of what might very well be the greatest threat we have yet faced as a civilization, the threat of human-caused climate change.

Shame on you New York Times. You owe us better than this.

Michael Mann is Distinguished Professor of Meteorology at Pennsylvania State University and author of The Hockey Stick and the Climate Wars: Dispatches from the Front Lines (now available in paperback with a new guest foreword by Bill Nye “The Science Guy”)

Quinto relatório do IPCC: repercussão

Documento divulgado nesta sexta (27/09) afirma que a temperatura do planeta pode subir quase 5 °C durante este século, o que poderá elevar o nível dos oceanos em até 82 centímetros (foto do Oceano Ártico: Nasa)


Quinto relatório do IPCC mostra intensificação das mudanças climáticas


Por Karina Toledo, de Londres

Agência FAPESP – Caso as emissões de gases do efeito estufa continuem crescendo às atuais taxas ao longo dos próximos anos, a temperatura do planeta poderá aumentar até 4,8 graus Celsius neste século – o que poderá resultar em uma elevação de até 82 centímetros no nível do mar e causar danos importantes na maior parte das regiões costeiras do globo.

O alerta foi feito pelos cientistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU), que divulgaram no dia 27 de setembro, em Estocolmo, na Suécia, a primeira parte de seu quinto relatório de avaliação (AR5). Com base na revisão de milhares de pesquisas realizadas nos últimos cinco anos, o documento apresenta as bases científicas da mudança climática global.

De acordo com Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (USP) e um dos seis brasileiros que participaram da elaboração desse relatório, foram simulados quatro diferentes cenários de concentrações de gases de efeito estufa, possíveis de acontecer até o ano de 2100 – os chamados “Representative Concentration Pathways (RCPs)”.

“Para fazer a previsão do aumento da temperatura são necessários dois ingredientes básicos: um modelo climático e um cenário de emissões. No quarto relatório (divulgado em 2007) também foram simulados quatro cenários, mas se levou em conta apenas a quantidade de gases de efeito estufa emitida. Neste quinto relatório, nós usamos um sistema mais completo, que leva em conta os impactos dessas emissões, ou seja, o quanto haverá de alteração no balanço de radiação do sistema terrestre”, explicou Artaxo, que está em Londres para a FAPESP Week London, onde participou de um painel sobre mudança climática.

O balanço de radiação corresponde à razão entre a quantidade de energia solar que entra e que sai de nosso planeta, indicando o quanto ficou armazenada no sistema terrestre de acordo com as concentrações de gases de efeito estufa, partículas de aerossóis emitidas e outros agentes climáticos.

O cenário mais otimista prevê que o sistema terrestre armazenará 2,6 watts por metro quadrado (W/m2) adicionais. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre poderia variar entre 0,3 °C e 1,7 °C de 2010 até 2100 e o nível do mar poderia subir entre 26 e 55 centímetros ao longo deste século.

“Para que esse cenário acontecesse, seria preciso estabilizar as concentrações de gases do efeito estufa nos próximos 10 anos e atuar para sua remoção da atmosfera. Ainda assim, os modelos indicam um aumento adicional de quase 2 °C na temperatura – além do 0,9 °C que nosso planeta já aqueceu desde o ano 1750”, avaliou Artaxo.

O segundo cenário (RCP4.5) prevê um armazenamento de 4,5 W/m2. Nesse caso, o aumento da temperatura terrestre seria entre 1,1 °C e 2,6 °C e o nível do mar subiria entre 32 e 63 centímetros. No terceiro cenário, de 6,0 W/m2, o aumento da temperatura varia de 1,4 °C até 3,1 °C e o nível do mar subiria entre 33 e 63 centímetros.

Já o pior cenário, no qual as emissões continuam a crescer em ritmo acelerado, prevê um armazenamento adicional de 8,5 W/m2. Em tal situação, segundo o IPCC, a superfície da Terra poderia aquecer entre 2,6 °C e 4,8 °C ao longo deste século, fazendo com que o nível dos oceanos aumente entre 45 e 82 centímetros.

“O nível dos oceanos já subiu em média 20 centímetros entre 1900 e 2012. Se subir outros 60 centímetros, com as marés, o resultado será uma forte erosão nas áreas costeiras de todo o mundo. Rios como o Amazonas, por exemplo, sofrerão forte refluxo de água salgada, o que afeta todo o ecossistema local”, disse Artaxo.

Segundo o relatório AR5 do IPCC, em todos os cenários, é muito provável (90% de probabilidade) que a taxa de elevação dos oceanos durante o século 21 exceda a observada entre 1971 e 2010. A expansão térmica resultante do aumento da temperatura e o derretimento das geleiras seriam as principais causas.

O aquecimento dos oceanos, diz o relatório, continuará ocorrendo durante séculos, mesmo se as emissões de gases-estufa diminuírem ou permanecerem constantes. A região do Ártico é a que vai aquecer mais fortemente, de acordo com o IPCC.

Segundo Artaxo, o aquecimento das águas marinhas tem ainda outras consequências relevantes, que não eram propriamente consideradas nos modelos climáticos anteriores. Conforme o oceano esquenta, ele perde a capacidade de absorver dióxido de carbono (CO2) da atmosfera. Se a emissão atual for mantida, portanto, poderá haver uma aceleração nas concentrações desse gás na atmosfera.

“No relatório anterior, os capítulos dedicados ao papel dos oceanos nas mudanças climáticas careciam de dados experimentais. Mas nos últimos anos houve um enorme avanço na ciência do clima. Neste quinto relatório, por causa de medições feitas por satélites e de observações feitas com redes de boias – como as do Projeto Pirata que a FAPESP financia no Atlântico Sul –, a confiança sobre o impacto dos oceanos no clima melhorou muito”, afirmou Artaxo.

Acidificação dos oceanos

Em todos os cenários previstos no quinto relatório do IPCC, as concentrações de CO2 serão maiores em 2100 em comparação aos níveis atuais, como resultado do aumento cumulativo das emissões ocorrido durante os séculos 20 e 21. Parte do CO2 emitido pela atividade humana continuará a ser absorvida pelos oceanos e, portanto, é “virtualmente certo” (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar. No melhor dos cenários – o RCP2,6 –, a queda no pH será entre 0,06 e 0,07. Na pior das hipóteses – o RCP8,5 –, entre 0,30 e 0,32.

“A água do mar é alcalina, com pH em torno de 8,12. Mas quando absorve CO2 ocorre a formação de compostos ácidos. Esses ácidos dissolvem a carcaça de parte dos microrganismos marinhos, que é feita geralmente de carbonato de cálcio. A maioria da biota marinha sofrerá alterações profundas, o que afeta também toda a cadeia alimentar”, afirmou Artaxo.

Ao analisar as mudanças já ocorridas até o momento, os cientistas do IPCC afirmam que as três últimas décadas foram as mais quentes em comparação com todas as anteriores desde 1850. A primeira década do século 21 foi a mais quente de todas. O período entre 1983 e 2012 foi “muito provavelmente” (90% de probabilidade) o mais quente dos últimos 800 anos. Há ainda cerca de 60% de probabilidade de que tenha sido o mais quente dos últimos 1.400 anos.

No entanto, o IPCC reconhece ter havido uma queda na taxa de aquecimento do planeta nos últimos 15 anos – passando de 0,12 °C por década (quando considerado o período entre 1951 e 2012) para 0,05°C (quando considerado apenas o período entre 1998 e 2012).

De acordo com Artaxo, o fenômeno se deve a dois fatores principais: a maior absorção de calor em águas profundas (mais de 700 metros) e a maior frequência de fenômenos La Niña, que alteram a taxa de transferência de calor da atmosfera aos oceanos. “O processo é bem claro e documentado em revistas científicas de prestígio. Ainda assim, o planeta continua aquecendo de forma significativa”, disse.

Há 90% de certeza de que o número de dias e noites frios diminuíram, enquanto os dias e noites quentes aumentaram na escala global. E cerca de 60% de certeza de que as ondas de calor também aumentaram. O relatório diz haver fortes evidências de degelo, principalmente na região do Ártico. Há 90% de certeza de que a taxa de redução da camada de gelo tenha sido entre 3,5% e 4,1% por década entre 1979 e 2012.

As concentrações de CO2 na atmosfera já aumentaram mais de 20% desde 1958, quando medições sistemáticas começaram a ser feitas, e cerca de 40% desde 1750. De acordo com o IPCC, o aumento é resultado da atividade humana, principalmente da queima de combustíveis fósseis e do desmatamento, havendo uma pequena participação da indústria cimenteira.

Para os cientistas há uma “confiança muito alta” (nove chances em dez) de que as taxas médias de CO2, metano e óxido nitroso do último século sejam as mais altas dos últimos 22 mil anos. Já mudanças na irradiação solar e a atividade vulcânica contribuíram com uma pequena fração da alteração climática. É “extremamente provável” (95% de certeza) de que a influência humana sobre o clima causou mais da metade do aumento da temperatura observado entre 1951 e 2010.

“Os efeitos da mudança climática já estão sendo sentidos, não é algo para o futuro. O aumento de ondas de calor, da frequência de furacões, das inundações e tempestades severas, das variações bruscas entre dias quentes e frios provavelmente está relacionado ao fato de que o sistema climático está sendo alterado”, disse Artaxo.

Impacto persistente

Na avaliação do IPCC, muitos aspectos da mudança climática vão persistir durante muitos séculos mesmo se as emissões de gases-estufa cessarem. É “muito provável” (90% de certeza) que mais de 20% do CO2 emitido permanecerá na atmosfera por mais de mil anos após as emissões cessarem, afirma o relatório.

“O que estamos alterando não é o clima da próxima década ou até o fim deste século. Existem várias publicações com simulações que mostram concentrações altas de CO2 até o ano 3000, pois os processos de remoção do CO2 atmosférico são muito lentos”, contou Artaxo.

Para o professor da USP, os impactos são significativos e fortes, mas não são catastróficos. “É certo que muitas regiões costeiras vão sofrer forte erosão e milhões de pessoas terão de ser removidas de onde vivem hoje. Mas claro que não é o fim do mundo. A questão é: como vamos nos adaptar, quem vai controlar a governabilidade desse sistema global e de onde sairão recursos para que países em desenvolvimento possam construir barreiras de contenção contra as águas do mar, como as que já estão sendo ampliadas na Holanda. Quanto mais cedo isso for planejado, menores serão os impactos socioeconômicos”, avaliou.

Os impactos e as formas de adaptação à nova realidade climática serão o tema da segunda parte do quinto relatório do IPCC, previsto para ser divulgado em janeiro de 2014. O documento contou com a colaboração de sete cientistas brasileiros. Outros 13 brasileiros participaram da elaboração da terceira parte do AR5, que discute formas de mitigar a mudança climática e deve sair em março.

De maneira geral, cresceu o número de cientistas vindos de países em desenvolvimento, particularmente do Brasil, dentro do IPCC. “O Brasil é um dos países líderes em pesquisas sobre mudança climática atualmente. Além disso, o IPCC percebeu que, se o foco ficasse apenas nos países desenvolvidos, informações importantes sobre o que está acontecendo nos trópicos poderiam deixar de ser incluídas. E é onde fica a Amazônia, um ecossistema-chave para o planeta”, disse Artaxo.

No dia 9 de setembro, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC) divulgou o sumário executivo de seu primeiro Relatório de Avaliação Nacional (RAN1). O documento, feito nos mesmos moldes do relatório do IPCC, indica que no Brasil o aumento de temperatura até 2100 será entre 1 °C e 6 °C, em comparação à registrada no fim do século 20. Como consequência, deverá diminuir significativamente a ocorrência de chuvas em grande parte das regiões central, Norte e Nordeste do país. Nas regiões Sul e Sudeste, por outro lado, haverá um aumento do número de precipitações.

“A humanidade nunca enfrentou um problema cuja relevância chegasse perto das mudanças climáticas, que vai afetar absolutamente todos os seres vivos do planeta. Não temos um sistema de governança global para implementar medidas de redução de emissões e verificação. Por isso, vai demorar ainda pelo menos algumas décadas para que o problema comece a ser resolvido”, opinou Artaxo.

Para o pesquisador, a medida mais urgente é a redução das emissões de gases de efeito estufa – compromisso que tem de ser assumido por todas as nações. “A consciência de que todos habitamos o mesmo barco é muito forte hoje, mas ainda não há mecanismos de governabilidade global para fazer esse barco andar na direção certa. Isso terá que ser construído pela nossa geração”, concluiu.

*   *   *

JC e-mail 4822, de 27 de Setembro de 2013.

IPCC lança na Suécia novo relatório sobre as mudanças climáticas (O Globo)

O documento reúne previsões do aquecimento global até 2100 apontando aumento de temperatura superior a 2 graus. ‘A influência humana no clima é clara’, diz trabalho

A previsão do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) é que o aquecimento global até o final do século 21 seja “provavelmente superior” a 2 graus (com pelo menos 66% de chances disto acontecer), superando o limite considerado seguro pelos especialistas. Até 2100, o nível do mar deve aumentar perigosamente de 45 a 82 centímetros, considerando o pior cenário (ou de 26 a 55 centímetros, no melhor), e o gelo do Ártico pode diminuir até 94% durante o verão local.

Além disso, o relatório do IPCC — publicado na manhã desta sexta-feira em Estocolmo, na Suécia, com as bases científicas mais atualizadas sobre as mudanças climáticas — considera que há mais de 95% de certeza para afirmar que o homem causou mais da metade da elevação média da temperatura entre 1951 e 2010. Neste período, o nível dos oceanos aumentou 19 centímetros.

O documento, com o trabalho de 259 cientistas e representantes dos governos de 195 países, inclusive o Brasil, ressalta que parte das emissões de CO2 provocadas pelo homem continuará a ser absorvida pelos oceanos. Por isso, é praticamente certo (99% de probabilidade) que a acidificação dos mares vai aumentar, afetando profundamente a vida marinha.

– A mudança de temperatura da superfície do planeta deve exceder 1,5 grau, e, provavelmente, será superior a 2 graus – disse o copresidente do trabalho Thomas Stocker. – É muito provável que as ondas de calor ocorram com mais frequência e durem mais tempo. Com o aquecimento da Terra, esperamos ver regiões atualmente úmidas recebendo mais chuvas, e as áridas, menos, apesar de haver exceções.

Os especialistas fizeram quatro projeções considerando situações diferentes de emissões de gases-estufa. Em todas, há aumento de temperatura. As mais brandas ficam entre 0,3 ºC e 1,7 ºC. Nestes casos, seria necessário diminuir muito as emissões. Já no cenário mais pessimista, o aquecimento ficaria entre 2,6 ºC e 4,8 ºC.

– Na minha opinião, o relatório é muito bom, repleto de informações e todas muito bem fundamentadas – comentou a especialista brasileira Suzana Kahn, que faz parte do grupo de pesquisadores do IPCC em Estocolmo. – No fundo, o grande ganho é a comprovação do que tem sido dito há mais tempo, com muito mais informação sobre o papel dos oceanos, das nuvens e aerossóis. Isto é muito importante para o mundo científico, pois aponta para áreas que precisam ser mais investigadas.

Suzana conta que a dificuldade de fazer projeções e análises para o Hemisfério Sul causou muita polêmica. O grande problema é a falta de dados:

– Acho que isto foi interessante para comprovar que estávamos certos ao criar o Painel Brasileiro de Mudança Climática para suprir esta lacuna.

De acordo com Carlos Rittl, Coordenador do Programa de Mudanças Climáticas e Energias do WWF-Brasil, o relatório do IPCC deixa uma mensagem clara: o aquecimento global é incontestável. E é preciso começar agora contra os piores efeitos.

– O relatório do IPCC reafirma algumas certezas e vai além. Aponta a perda de massa de gelo, o aumento do nível dos oceanos, o incremento de chuvas onde já se chove muito, além da diminuição da umidade nas regiões mais áridas. No Brasil, o semiárido pode se tornar mais árido. Por outro lado, o Sul e Sudeste podem ter mais chuvas do que hoje – enumerou Rittl. – É importante ressaltar que o relatório fala de médias. Ou seja, em algumas regiões do país pode haver aumento de seis graus, com picos de mais de oito graus. A gente não está preparado para isso. E nossas emissões nos colocam numa trajetória de altíssimo risco, mais próxima dos piores cenários.

Para Rittl, a ciência está dando uma mensagem clara: é preciso diminuir as emissões. Isso significa levar os temas relacionados às mudanças climáticas para as decisões políticas:

– Hoje o aquecimento global ainda é um tema marginal. Os investimentos em infraestrutura, energia, o plano Safra, todos os grandes investimentos da escala de trilhões de reais não têm praticamente nenhuma vinculação com a lógica de baixo carbono. Estamos sendo pouco responsáveis.

Diplomacia e ciência
John Kerry, secretário de Estado dos EUA, ressalta que o relatório do IPCC não deve ser esquecido num armário, nem interpretado como uma peça política feita por políticos: “é ciência”, resume. De acordo com ele, os Estados Unidos estão “profundamente comprometidos em combater as mudanças climáticas”, reduzindo emissões de gases-estufa e investindo em formas eficientes de energia.

Este é mais um chamado de atenção: aqueles que negam a ciência ou procuram desculpas para evitar a ação estão brincando com fogo – afirmou Kerry. – O resumo do relatório do IPCC é este: a mudança climática é real, está acontecendo agora, os seres humanos são a causa dessa transformação, e somente a ação dos seres humanos pode salvar o mundo de seus piores impactos.

Lançado a cada seis anos, os relatórios do IPCC estão sob críticas de especialistas. O processo de análise dos documentos por representantes do governo acaba chegando a uma situação intermediária entre diplomacia e ciência, explica Emilio La Rovere, pesquisador da Coppe/UFRJ.

– O resultado é um meio termo entre diplomacia e ciência – afirmou Rovere.
Um dos pontos mais polêmicos são os chamados hiatos, períodos de cerca de 15 anos em que a temperatura média do planeta não aumenta. Por exemplo, a Agência Estatal de Meteorologia da Espanha anunciou, nesta semana, que o último trimestre na Península Ibérica foi o menos quente desde 2008. Entretanto, o relatório de 2007 do IPCC não citou estas pausas do aquecimento, dando argumento aos céticos.

Limite do aquecimento global
As informações do IPCC são importantes para a criação de estratégias de combate às mudanças climáticas. Na Convenção do Clima da Dinamarca (COP-15, realizada em 2009), foi criada a meta de limitar o aquecimento global em 2 graus. Para isso acontecer em 2050, explica Emilio La Rovere, da Coppe/UFRJ, seria necessário cortar 80% das emissões em comparação com 1990:

– Os modelos matemáticos simulando evolução demográfica, economia mundial, demanda e oferta de energia mostram que fica realmente quase impossível atingir este objetivo.

Este é o Quinto Relatório do IPCC, que será lançado em quatro partes, entre setembro de 2013 e novembro de 2014. Nesta sexta-feira, foi publicado o documento do Grupo de Trabalho I (sobre os aspectos científicos das mudanças climáticas). Entre os dias 25 e 29 de março de 2014, será a vez do Grupo de Trabalho II (analisando os impactos, a adaptação e a vulnerabilidade), que se reunirá em Yokohama, no Japão. O Grupo de Trabalho III (especializado na mitigação dos impactos das mudanças climáticas) está previsto para os dias 7 e 11 de abril em Berlim, na Alemanha. Por fim, será criado um relatório síntese, cujos trabalhos ocorrerão entre os dias 27 e 31 de outubro, em Copenhague, na Dinamarca.

(Cláudio Motta/O Globo)

Matéria complementar de O Globo:

Relatório destaca como a ação humana agrava o aquecimento

Veja mais em:

Folha de S.Paulo
Relatório sobe tom de alerta sobre aquecimento

Agência Estado
ONU culpa atividades humanas por aquecimento global

Zero Hora
Temperatura da Terra subirá entre 0,3°C e 4,8°C neste século, aponta IPCC

Correio Braziliense
Temperatura do planeta subirá entre 0,3 e 4,8ºC no século 21, diz IPCC,390388/temperatura-do-planeta-subira-entre-0-3-e-4-8-c-no-seculo-21-diz-ipcc.shtml


Vida de princesa nos relatórios de sustentabilidade (Envolverde)

02/9/2013 – 11h01

por Carla Stoicov e Wilson Bispo, da Tistu

sustentabilidadeempresas Vida de princesa nos relatórios de sustentabilidade

Empresas ainda não entendem o motivo de seus relatórios de sustentabilidade não serem objeto de leitura dos seus stakeholders. Produzido no tradicional modelo top-down de comunicação, ainda não se deram conta que esse produto deve ter seus temas escolhidos não por eles, mas pelos seus públicos, num processo de diálogo que deve se dar ao longo do ano. Mas isso pode estar prestes a mudar e você deveria ser parte disso.

No mês passado participamos de um dia onde foram apresentadas e dialogadas as novidades do G4 Sustainability Reporting Guidelines. Na formação (apesar de achar que o tema está muito cru para chamarmos de curso) estavam empresas, consultores e representantes de entidades/federações.

Os dois aspectos mais marcantes da nova versão – que passam a valer a partir de Janeiro de 2016 (1) – são a obrigatoriedade de ter uma matriz de materialidade e de demonstrar que a empresa tem conhecimento dos impactos dentro e fora dela, colocando na pauta o tema cadeia de fornecimento. Na pesquisa Materialidade Brasil, elaborada pela consultoria Report Sustentabilidade, foi constatado que 85% das empresas publicaram quais são os temas materiais, mas apenas 61% publicou sua matriz de materialidade. Um número menor ainda (45%) publicou metas atreladas aos temas materiais (ou seja, apesar de material, 55% das empresas entendeu que ainda não era o momento de atribuir metas).

Algumas lacunas ainda são imperdoáveis no G4. Nenhum avanço na proposição de metodologia para se fazer um processo de materialidade e em como equilibrar os aspectos trazidos pelos stakeholders internos x externos. A Takao Consultoria elaborou um Manual para Implementação de Engajamento com Stakeholders. O documento propõe matrizes de priorização e perfil de partes interessadas e também exemplifica uma matriz de priorização de temas em relação aos critérios internos e externos. Pode ser um ótimo modelo a ser seguido, mas quando lemos um relatório de sustentabilidade muitas vezes não está explícito como foi feita a seleção e priorização dos públicos a serem consultados, se todos participaram juntos ou não, se os temas foram dados ou abriu-se a opções para temas que emergiram no processo e como se chegou a priorização dos temas.

Outro ponto é que a materialidade deve envolver stakeholders, mas não obriga a participação de determinadas partes interessadas. Dá para ficar apenas com os funcionários ou até mesmo não incluí-los.

Aviary Photo 130224803379524387 Vida de princesa nos relatórios de sustentabilidade

Pesquisa Materialidade Brasil. Foto: Report Sustentabilidade

A nova versão, apesar de falar muito em cadeia de fornecimento, ainda está longe de propor um olhar mais sistêmico, amplo, envolvendo toda a cadeia de valor da organização (que contemple também a distribuição, clientes e consumidores). Ou seja, a empresa tem que ficar atenta de quem ela compra, onde estão estes fornecedores e onde estão localizados os impactos na cadeia de fornecimento. Contudo, ainda está livre para vender para quem quiser! Levaram o conceito de esfera de influência da Norma ISO 26000 apenas para parte da cadeia.

“Esfera de influência: amplitude/extensão de relações políticas, contratuais, econômicas ou outras relações por meio das quais uma organização tem a capacidade de afetar as decisões ou atividades de indivíduos ou organizações. – Norma ISO 26000″

Com isso, ficam de fora as preocupações da empresa com a comercialização de seus produtos ou serviços para, por exemplo, países que têm graves violações dos direitos humanos ou que estejam em guerra civil; organizações envolvidas em corrupção ou lavagem de dinheiro; empresas que desmatam, têm trabalho infantil ou análogo ao escravo em sua operação ou na sua cadeia, etc.

As organizações presentes na formação da qual participamos também questionaram se a GRI tem alguma sinalização sobre como tornar os relatórios mais atrativos, mais lidos. Bem, não entendemos que isso seja uma missão da GRI, mas sim, em primeira instância, das próprias empresas. O relatório será interessante pela qualidade e relevância das informações ali colocadas. Isso nos remete aos motivos de alguém “curtir” no Facebook a página oficial de uma empresa quando há interesse genuíno, e não quando é feito para participar de uma oferta comercial. Nós seguimos várias organizações e o que elas nos oferecem é informação de qualidade, independentemente do seu produto ou serviço.

O blog Testando os Limites da Sustentabilidade (um tipo de watchdog) lê e analisa relatórios de sustentabilidade das empresas e depois disso encaminha perguntas sobre informações incompletas ou imprecisas, apontando lacunas de temas que deveriam ser abordados conforme o negócio da empresa. Muitas respondem ao blog e deveriam ver os questionamentos feitos com bons olhos: afinal alguém está lendo seu relatório!

Contudo, há uma grande lacuna deixada por stakeholders imprescindíveis para a melhoria da qualidade das informações e da transparência do setor privado no Brasil, como organizações da sociedade civil, imprensa, academia, consultorias, organizações think tank, coletivos e formadores de opinião em geral. Céticos quanto ao conteúdo publicado nos relatos — em alguma medida, com razão –, esses públicos deixam de prestar um enorme serviço à sociedade ao não fazer leituras e análises críticas às informações dos relatórios de sustentabilidade, um dos poucos, se não os únicos, instrumentos de consulta de como as corporações contam estar conduzindo os negócios das empresas por aqui.

Acreditamos que existe um grande espaço para exercitar diferentes formas de se fazer a leitura desse tipo de documento. Esses stakeholders têm condições técnicas e informações complementares para “mastigar” o conteúdo dos relatórios e fazer cruzamentos com a real atuação da empresa, com o que a GRI determina, com práticas de outras empresas do mesmo setor, com políticas públicas, com Pactos e Compromissos voluntários, comparar com informações e práticas da matriz na busca por um duplo padrão (2), dentre outras dezenas de olhares possíveis.

Analisar as informações públicas do setor privado — ou evidenciar a falta delas — ajuda na geração de conhecimento crítico que pode ser um impulsionador de novas práticas por parte das empresas. É o caso do estudo Sustentabilidade do Setor Automotivo, produzido pela Tistu para o UniEthos, que vem sendo utilizado por uma montadora na sua estratégia de sustentabilidade.

Por isso, o que realmente importa nos relatórios são os dados relevantes para quem lê, não para quem escreve. Entretanto, as informações ainda vêm embaladas num pacote desnecessário de frases de efeito que dizem pouco, ou quase nada, e não agregam no momento da análise, repetindo histórias ano após ano sem demonstrar ou deixar clara qual foi a real evolução frente ao ano anterior. Daí a importância da análise crítica de formadores de opinião. Enquanto as empresas não avançam neste aspecto, iniciativas que capturem os dados e “limpem” as informações dos excessos, serão úteis para aumentar o conhecimento sobre os aspectos de sustentabilidade que as empresas estão colocando na sua cesta de prioridades.

Em tempo de manifestações onde cartazes levantam bandeiras como saúde (a ser melhorada), corrupção (a ser combatida), transporte (como forma de inclusão) e acesso à cidade (como forma de promoção da igualdade), quem não gostaria de saber quais empresas estão antenadas com essas necessidades e trabalham em convergência com as políticas públicas? Não passa pela nossa cabeça abrir o relatório da Siemens no ano que vem e não ver a questão da corrupção e cartel. Ou ler o relatório da Samsung e não encontrar nada sobre as condições degradantes dos trabalhadores. Mas não estamos falando daqueles textos sobre o quanto valorizam os processos, como os sistemas funcionam etc. Queremos saber justamente o contrário. Quais foram as lições aprendidas, onde estava o furo, quais desafios que entendem que estão longe de superar? As empresas são feitas de pessoas e portanto são cheias de falhas, inconsistências, dilemas. E é isso que falta aparecer nos seus relatos de vida de princesa.

Talvez esta deva ser a tendência dos relatos das empresas. Criar visões por assuntos de interesse pela ótica de quem busca a informação, com construções e atualizações dinâmicas (entenda aqui que elas não serão feitas de forma unilateral, apenas pelas empresas), com muito menos filtros e fotos de banco de imagens.

Mais Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação (NINJA) para os relatórios de sustentabilidade têm o potencial de torná-los muito mais interessantes e vivos. Se as empresas não fizerem, alguém vai fazer.

(1) Ou seja, o último ano de relato na versão G3 ou G3.1 será 2014 sendo que 2015 já será relatado na nova versão.

(2) Esta é uma metodologia que a Tistu vem adotando em alguns estudos. Isolar alguns assuntos e procurar por práticas e posicionamento na matriz e na operação do Brasil. Quando há divergência (i.e. a matriz tem políticas, programas ou é estratégico e aqui nem é citado) ocorre o que denominamos de Duplo Padrão.

Carla Stoicov é mestranda em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-SP. Sócia da Tistu, atua como consultora em projetos para o Desenvolvimento Sustentável e de Responsabilidade Social Empresarial. Foi coordenadora do Programa Tear do Instituto Ethos e é especialista do UniEthos.

Wilson Bispo é jornalista e desde de 2005 trabalha na cobertura de temas socioambientais e de RSE. Sócio da Tistu, foi produtor do Repórter Eco da TV Cultura de SP, editor do portal e agência Envolverde e consultor na Report Sustentabilidade.

** Publicado originalmente no site Tistu.

Rising Seas (Nat Geo)

Picture of Seaside Heights, New Jersey, after Hurricane Sandy

As the planet warms, the sea rises. Coastlines flood. What will we protect? What will we abandon? How will we face the danger of rising seas?

By Tim Folger

Photographs by George Steinmetz

September 2013

By the time Hurricane Sandy veered toward the Northeast coast of the United States last October 29, it had mauled several countries in the Caribbean and left dozens dead. Faced with the largest storm ever spawned over the Atlantic, New York and other cities ordered mandatory evacuations of low-lying areas. Not everyone complied. Those who chose to ride out Sandy got a preview of the future, in which a warmer world will lead to inexorably rising seas.

Brandon d’Leo, a 43-year-old sculptor and surfer, lives on the Rockaway Peninsula, a narrow, densely populated, 11-mile-long sandy strip that juts from the western end of Long Island. Like many of his neighbors, d’Leo had remained at home through Hurricane Irene the year before. “When they told us the tidal surge from this storm would be worse, I wasn’t afraid,” he says. That would soon change.

D’Leo rents a second-floor apartment in a three-story house across the street from the beach on the peninsula’s southern shore. At about 3:30 in the afternoon he went outside. Waves were crashing against the five-and-a-half-mile-long boardwalk. “Water had already begun to breach the boardwalk,” he says. “I thought, Wow, we still have four and a half hours until high tide. In ten minutes the water probably came ten feet closer to the street.”

Back in his apartment, d’Leo and a neighbor, Davina Grincevicius, watched the sea as wind-driven rain pelted the sliding glass door of his living room. His landlord, fearing the house might flood, had shut off the electricity. As darkness fell, Grincevicius saw something alarming. “I think the boardwalk just moved,” she said. Within minutes another surge of water lifted the boardwalk again. It began to snap apart.

Three large sections of the boardwalk smashed against two pine trees in front of d’Leo’s apartment. The street had become a four-foot-deep river, as wave after wave poured water onto the peninsula. Cars began to float in the churning water, their wailing alarms adding to the cacophony of wind, rushing water, and cracking wood. A bobbing red Mini Cooper, its headlights flashing, became wedged against one of the pine trees in the front yard. To the west the sky lit up with what looked like fireworks—electrical transformers were exploding in Breezy Point, a neighborhood near the tip of the peninsula. More than one hundred homes there burned to the ground that night.

The trees in the front yard saved d’Leo’s house, and maybe the lives of everyone inside—d’Leo, Grincevicius, and two elderly women who lived in an apartment downstairs. “There was no option to get out,” d’Leo says. “I have six surfboards in my apartment, and I was thinking, if anything comes through the wall, I’ll try to get everyone on those boards and try to get up the block. But if we’d had to get in that water, it wouldn’t have been good.”

After a fitful night’s sleep d’Leo went outside shortly before sunrise. The water had receded, but thigh-deep pools still filled parts of some streets. “Everything was covered with sand,” he says. “It looked like another planet.”

A profoundly altered planet is what our fossil-fuel-driven civilization is creating, a planet where Sandy-scale flooding will become more common and more destructive for the world’s coastal cities. By releasing carbon dioxide and other heat-trapping gases into the atmosphere, we have warmed the Earth by more than a full degree Fahrenheit over the past century and raised sea level by about eight inches. Even if we stopped burning all fossil fuels tomorrow, the existing greenhouse gases would continue to warm the Earth for centuries. We have irreversibly committed future generations to a hotter world and rising seas.

In May the concentration of carbon dioxide in the atmosphere reached 400 parts per million, the highest since three million years ago. Sea levels then may have been as much as 65 feet above today’s; the Northern Hemisphere was largely ice free year-round. It would take centuries for the oceans to reach such catastrophic heights again, and much depends on whether we manage to limit future greenhouse gas emissions. In the short term scientists are still uncertain about how fast and how high seas will rise. Estimates have repeatedly been too conservative.

Global warming affects sea level in two ways. About a third of its current rise comes from thermal expansion—from the fact that water grows in volume as it warms. The rest comes from the melting of ice on land. So far it’s been mostly mountain glaciers, but the big concern for the future is the giant ice sheets in Greenland and Antarctica. Six years ago the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) issued a report predicting a maximum of 23 inches of sea-level rise by the end of this century. But that report intentionally omitted the possibility that the ice sheets might flow more rapidly into the sea, on the grounds that the physics of that process was poorly understood.

As the IPCC prepares to issue a new report this fall, in which the sea-level forecast is expected to be slightly higher, gaps in ice-sheet science remain. But climate scientists now estimate that Greenland and Antarctica combined have lost on average about 50 cubic miles of ice each year since 1992—roughly 200 billion metric tons of ice annually. Many think sea level will be at least three feet higher than today by 2100. Even that figure might be too low.

“In the last several years we’ve observed accelerated melting of the ice sheets in Greenland and West Antarctica,” says Radley Horton, a research scientist at Columbia University’s Earth Institute in New York City. “The concern is that if the acceleration continues, by the time we get to the end of the 21st century, we could see sea-level rise of as much as six feet globally instead of two to three feet.” Last year an expert panel convened by the National Oceanic and Atmospheric Administration adopted 6.6 feet (two meters) as its highest of four scenarios for 2100. The U.S. Army Corps of Engineers recommends that planners consider a high scenario of five feet.

One of the biggest wild cards in all sea-level-rise scenarios is the massive Thwaites Glacier in West Antarctica. Four years ago NASA sponsored a series of flights over the region that used ice-penetrating radar to map the seafloor topography. The flights revealed that a 2,000-foot-high undersea ridge holds the Thwaites Glacier in place, slowing its slide into the sea. A rising sea could allow more water to seep between ridge and glacier and eventually unmoor it. But no one knows when or if that will happen.“That’s one place I’m really nervous about,” says Richard Alley, a glaciologist at Penn State University and an author of the last IPCC report. “It involves the physics of ice fracture that we really don’t understand.” If the Thwaites Glacier breaks free from its rocky berth, that would liberate enough ice to raise sea level by three meters—nearly ten feet. “The odds are in our favor that it won’t put three meters in the ocean in the next century,” says Alley. “But we can’t absolutely guarantee that. There’s at least some chance that something very nasty will happen.”

Even in the absence of something very nasty, coastal cities face a twofold threat: Inexorably rising oceans will gradually inundate low-lying areas, and higher seas will extend the ruinous reach of storm surges. The threat will never go away; it will only worsen. By the end of the century a hundred-year storm surge like Sandy’s might occur every decade or less. Using a conservative prediction of a half meter (20 inches) of sea-level rise, the Organisation for Economic Co-operation and Development estimates that by 2070, 150 million people in the world’s large port cities will be at risk from coastal flooding, along with $35 trillion worth of property—an amount that will equal 9 percent of the global GDP. How will they cope?

“During the last ice age there was a mile or two of ice above us right here,” says Malcolm Bowman, as we pull into his driveway in Stony Brook, New York, on Long Island’s north shore. “When the ice retreated, it left a heap of sand, which is Long Island. All these rounded stones you see—look there,” he says, pointing to some large boulders scattered among the trees near his home. “They’re glacial boulders.”

Bowman, a physical oceanographer at the State University of New York at Stony Brook, has been trying for years to persuade anyone who will listen that New York City needs a harbor-spanning storm-surge barrier. Compared with some other leading ports, New York is essentially defenseless in the face of hurricanes and floods. London, Rotterdam, St. Petersburg, New Orleans, and Shanghai have all built levees and storm barriers in the past few decades. New York paid a high price for its vulnerability last October. Sandy left 43 dead in the city, of whom 35 drowned; it cost the city some $19 billion. And it was all unnecessary, says Bowman.

“If a system of properly designed storm-surge barriers had been built—and strengthened with sand dunes at both ends along the low-lying coastal areas—there would have been no flooding damage from Sandy,” he says.

Bowman envisions two barriers: one at Throgs Neck, to keep surges from Long Island Sound out of the East River, and a second one spanning the harbor south of the city. Gates would accommodate ships and tides, closing only during storms, much like existing structures in the Netherlands and elsewhere. The southern barrier alone, stretching five miles between Sandy Hook, New Jersey, and the Rockaway Peninsula, might cost $10 billion to $15 billion, Bowman estimates. He pictures a six-lane toll highway on top that would provide a bypass route around the city and a light-rail line connecting the Newark and John F. Kennedy Airports.

“It could be an asset to the region,” says Bowman. “Eventually the city will have to face up to this, because the problem is going to get worse. It might take five years of study and another ten years to get the political will to do it. By then there might have been another disaster. We need to start planning immediately. Otherwise we’re mortgaging the future and leaving the next generation to cope as best it can.”

Another way to safeguard New York might be to revive a bit of its past. In the 16th-floor loft of her landscape architectural firm in lower Manhattan, Kate Orff pulls out a map of New York Harbor in the 19th century. The present-day harbor shimmers outside her window, calm and unthreatening on an unseasonably mild morning three months to the day after Sandy hit.

“Here’s an archipelago that protected Red Hook,” Orff says, pointing on the map to a small cluster of islands off the Brooklyn shore. “There was another chain of shoals that connected Sandy Hook to Coney Island.”

The islands and shallows vanished long ago, demolished by harbor-dredging and landfill projects that added new real estate to a burgeoning city. Orff would re-create some of them, particularly the Sandy Hook–Coney Island chain, and connect them with sluice gates that would close during a storm, forming an eco-engineered barrier that would cross the same waters as Bowman’s more conventional one. Behind it, throughout the harbor, would be dozens of artificial reefs built from stone, rope, and wood pilings and seeded with oysters and other shellfish. The reefs would continue to grow as sea levels rose, helping to buffer storm waves—and the shellfish, being filter feeders, would also help clean the harbor. “Twenty-five percent of New York Harbor used to be oyster beds,” Orff says.

Orff estimates her “oystertecture” vision could be brought to life at relatively low cost. “It would be chump change compared with a conventional barrier. And it wouldn’t be money wasted: Even if another Sandy never happens, you’d have a cleaner, restored harbor in a more ecologically vibrant context and a healthier New York.”

In June, Mayor Michael Bloomberg outlined a $19.5 billion plan to defend New York City against rising seas. “Sandy was a temporary setback that can ultimately propel us forward,” he said. The mayor’s proposal calls for the construction of levees, local storm-surge barriers, sand dunes, oyster reefs, and more than 200 other measures. It goes far beyond anything planned by any other American city. But the mayor dismissed the idea of a harbor barrier. “A giant barrier across our harbor is neither practical nor affordable,” Bloomberg said. The plan notes that since a barrier would remain open most of the time, it would not protect the city from the inch-by-inch creep of sea-level rise.

Meanwhile, development in the city’s flood zones continues. Klaus Jacob, a geophysicist at Columbia University, says the entire New York metropolitan region urgently needs a master plan to ensure that future construction will at least not exacerbate the hazards from rising seas.

“The problem is we’re still building the city of the past,” says Jacob. “The people of the 1880s couldn’t build a city for the year 2000—of course not. And we cannot build a year-2100 city now. But we should not build a city now that we know will not function in 2100. There are opportunities to renew our infrastructure. It’s not all bad news. We just have to grasp those opportunities.”

Will New York grasp them after Bloomberg leaves office at the end of this year? And can a single storm change not just a city’s but a nation’s policy? It has happened before. The Netherlands had its own stormy reckoning 60 years ago, and it transformed the country.

The storm roared in from the North Sea on the night of January 31, 1953. Ria Geluk was six years old at the time and living where she lives today, on the island of Schouwen Duiveland in the southern province of Zeeland. She remembers a neighbor knocking on the door of her parents’ farmhouse in the middle of the night to tell them that the dike had failed. Later that day the whole family, along with several neighbors who had spent the night, climbed to the roof, where they huddled in blankets and heavy coats in the wind and rain. Geluk’s grandparents lived just across the road, but water swept into the village with such force that they were trapped in their home. They died when it collapsed.

“Our house kept standing,” says Geluk. “The next afternoon the tide came again. My father could see around us what was happening; he could see houses disappearing. You knew when a house disappeared, the people were killed. In the afternoon a fishing boat came to rescue us.”

In 1997 Geluk helped found the Watersnoodmuseum—the “flood museum”—on Schouwen Duiveland. The museum is housed in four concrete caissons that engineers used to plug dikes in 1953. The disaster killed 1,836 in all, nearly half in Zeeland, including a baby born on the night of the storm.

Afterward the Dutch launched an ambitious program of dike and barrier construction called the Delta Works, which lasted more than four decades and cost more than six billion dollars. One crucial project was the five-mile-long Oosterscheldekering, or Eastern Scheldt barrier, completed 27 years ago to defend Zeeland from the sea. Geluk points to it as we stand on a bank of the Scheldt estuary near the museum, its enormous pylons just visible on the horizon. The final component of the Delta Works, a movable barrier protecting Rotterdam Harbor and some 1.5 million people, was finished in 1997.

Like other primary sea barriers in the Netherlands, it’s built to withstand a 1-in-10,000-year storm—the strictest standard in the world. (The United States uses a 1-in-100 standard.) The Dutch government is now considering whether to upgrade the protection levels to bring them in line with sea-level-rise projections.

Such measures are a matter of national security for a country where 26 percent of the land lies below sea level. With more than 10,000 miles of dikes, the Netherlands is fortified to such an extent that hardly anyone thinks about the threat from the sea, largely because much of the protection is so well integrated into the landscape that it’s nearly invisible.

On a bitingly cold February afternoon I spend a couple of hours walking around Rotterdam with Arnoud Molenaar, the manager of the city’s Climate Proof program, which aims to make Rotterdam resistant to the sea levels expected by 2025. About 20 minutes into our walk we climb a sloping street next to a museum designed by the architect Rem Koolhaas. The presence of a hill in this flat city should have alerted me, but I’m surprised when Molenaar tells me that we’re walking up the side of a dike. He gestures to some nearby pedestrians. “Most of the people around us don’t realize this is a dike either,” he says. The Westzeedijk shields the inner city from the Meuse River a few blocks to the south, but the broad, busy boulevard on top of it looks like any other Dutch thoroughfare, with flocks of cyclists wheeling along in dedicated lanes.

As we walk, Molenaar points out assorted subtle flood-control structures: an underground parking garage designed to hold 10,000 cubic meters—more than 2.5 million gallons—of rainwater; a street flanked by two levels of sidewalks, with the lower one designed to store water, leaving the upper walkway dry. Late in the afternoon we arrive at Rotterdam’s Floating Pavilion, a group of three connected, transparent domes on a platform in a harbor off the Meuse. The domes, about three stories tall, are made of a plastic that’s a hundred times as light as glass.

Inside we have sweeping views of Rotterdam’s skyline; hail clatters overhead as low clouds scud in from the North Sea. Though the domes are used for meetings and exhibitions, their main purpose is to demonstrate the wide potential of floating urban architecture. By 2040 the city anticipates that as many as 1,200 homes will float in the harbor. “We think these structures will be important not just for Rotterdam but for many cities around the world,” says Bart Roeffen, the architect who designed the pavilion. The homes of 2040 will not necessarily be domes; Roeffen chose that shape for its structural integrity and its futuristic appeal. “To build on water is not new, but to develop floating communities on a large scale and in a harbor with tides—that is new,” says Molenaar. “Instead of fighting against water, we want to live with it.”

While visiting the Netherlands, I heard one joke repeatedly: “God may have built the world, but the Dutch built Holland.” The country has been reclaiming land from the sea for nearly a thousand years—much of Zeeland was built that way. Sea-level rise does not yet panic the Dutch.

“We cannot retreat! Where could we go? Germany?” Jan Mulder has to shout over the wind—we’re walking along a beach called Kijkduin as volleys of sleet exfoliate our faces. Mulder is a coastal morphologist with Deltares, a private coastal management firm. This morning he and Douwe Sikkema, a project manager with the province of South Holland, have brought me to see the latest in adaptive beach protection. It’s called the zandmotor—the sand engine.

The seafloor offshore, they explain, is thick with hundreds of feet of sand deposited by rivers and retreating glaciers. North Sea waves and currents once distributed that sand along the coast. But as sea level has risen since the Ice Age, the waves no longer reach deep enough to stir up sand, and the currents have less sand to spread around. Instead the sea erodes the coast here.

The typical solution would be to dredge sand offshore and dump it directly on the eroding beaches—and then repeat the process year after year as the sand washes away. Mulder and his colleagues recommended that the provincial government try a different strategy: a single gargantuan dredging operation to create the sandy peninsula we’re walking on—a hook-shaped stretch of beach the size of 250 football fields. If the scheme works, over the next 20 years the wind, waves, and tides will spread its sand 15 miles up and down the coast. The combination of wind, waves, tides, and sand is the zandmotor.

The project started only two years ago, but it seems to be working. Mulder shows me small dunes that have started to grow on a beach where there was once open water. “It’s very flexible,” he says. “If we see that sea-level rise increases, we can increase the amount of sand.” Sikkema adds, “And it’s much easier to adjust the amount of sand than to rebuild an entire system of dikes.”

Later Mulder tells me about a memorial inscription affixed to the Eastern Scheldt barrier in Zeeland: “It says, ‘Hier gaan over het tij, de maan, de wind, en wij—Here the tide is ruled by the moon, the wind, and us.’ ” It reflects the confidence of a generation that took for granted, as we no longer can, a reasonably stable world. “We have to understand that we are not ruling the world,” says Mulder. “We need to adapt.”

With the threats of climate change and sea-level rise looming over us all, cities around the world, from New York to Ho Chi Minh City, have turned to the Netherlands for guidance. One Dutch firm, Arcadis, has prepared a conceptual design for a storm-surge barrier in the Verrazano Narrows to protect New York City. The same company helped design a $1.1 billion, two-mile-long barrier that protected New Orleans from a 13.6-foot storm surge last summer, when Hurricane Isaac hit. The Lower Ninth Ward, which suffered so greatly during Hurricane Katrina, was unscathed.

“Isaac was a tremendous victory for New Orleans,” Piet Dircke, an Arcadis executive, tells me one night over dinner in Rotterdam. “All the barriers were closed; all the levees held; all the pumps worked. You didn’t hear about it? No, because nothing happened.”

New Orleans may be safe for a few decades, but the long-term prospects for it and other low-lying cities look dire. Among the most vulnerable is Miami. “I cannot envision southeastern Florida having many people at the end of this century,” says Hal Wanless, chairman of the department of geological sciences at the University of Miami. We’re sitting in his basement office, looking at maps of Florida on his computer. At each click of the mouse, the years pass, the ocean rises, and the peninsula shrinks. Freshwater wetlands and mangrove swamps collapse—a death spiral that has already started on the southern tip of the peninsula. With seas four feet higher than they are today—a distinct possibility by 2100—about two-thirds of southeastern Florida is inundated. The Florida Keys have almost vanished. Miami is an island.

When I ask Wanless if barriers might save Miami, at least in the short term, he leaves his office for a moment. When he returns, he’s holding a foot-long cylindrical limestone core. It looks like a tube of gray, petrified Swiss cheese. “Try to plug this up,” he says. Miami and most of Florida sit atop a foundation of highly porous limestone. The limestone consists of the remains of countless marine creatures deposited more than 65 million years ago, when a warm, shallow sea covered what is now Florida—a past that may resemble the future here.

A barrier would be pointless, Wanless says, because water would just flow through the limestone beneath it. “No doubt there will be some dramatic engineering feats attempted,” he says. “But the limestone is so porous that even massive pumping systems won’t be able to keep the water out.”

Sea-level rise has already begun to threaten Florida’s freshwater supply. About a quarter of the state’s 19 million residents depend on wells sunk into the enormous Biscayne aquifer. Salt water is now seeping into it from dozens of canals that were built to drain the Everglades. For decades the state has tried to control the saltwater influx by building dams and pumping stations on the drainage canals. These “salinity-control structures” maintain a wall of fresh water behind them to block the underground intrusion of salt water. To offset the greater density of salt water, the freshwater level in the control structures is generally kept about two feet higher than the encroaching sea.

But the control structures also serve a second function: During the state’s frequent rainstorms their gates must open to discharge the flood of fresh water to the sea.“We have about 30 salinity-control structures in South Florida,” says Jayantha Obeysekera, the chief hydrological modeler at the South Florida Water Management District. “At times now the water level in the sea is higher than the freshwater level in the canal.” That both accelerates saltwater intrusion and prevents the discharge of flood waters. “The concern is that this will get worse with time as the sea-level rise accelerates,” Obeysekera says.

Using fresh water to block the salt water will eventually become impractical, because the amount of fresh water needed would submerge ever larger areas behind the control structures, in effect flooding the state from the inside. “With 50 centimeters [about 20 inches] of sea-level rise, 80 percent of the salinity-control structures in Florida will no longer be functional,” says Wanless. “We’ll either have to drown communities to keep the freshwater head above sea level or have saltwater intrusion.” When sea level rises two feet, he says, Florida’s aquifers may be poisoned beyond recovery. Even now, during unusually high tides, seawater spouts from sewers in Miami Beach, Fort Lauderdale, and other cities, flooding streets.

In a state exposed to hurricanes as well as rising seas, people like John Van Leer, an oceanographer at the University of Miami, worry that one day they will no longer be able to insure—or sell—their houses. “If buyers can’t insure it, they can’t get a mortgage on it. And if they can’t get a mortgage, you can only sell to cash buyers,” Van Leer says. “What I’m looking for is a climate-change denier with a lot of money.”

Unless we change course dramatically in the coming years, our carbon emissions will create a world utterly different in its very geography from the one in which our species evolved. “With business as usual, the concentration of carbon dioxide in the atmosphere will reach around a thousand parts per million by the end of the century,” says Gavin Foster, a geochemist at the University of Southampton in England. Such concentrations, he says, haven’t been seen on Earth since the early Eocene epoch, 50 million years ago, when the planet was completely ice free. According to the U.S. Geological Survey, sea level on an iceless Earth would be as much as 216 feet higher than it is today. It might take thousands of years and more than a thousand parts per million to create such a world—but if we burn all the fossil fuels, we will get there.

No matter how much we reduce our greenhouse gas emissions, Foster says, we’re already locked in to at least several feet of sea-level rise, and perhaps several dozens of feet, as the planet slowly adjusts to the amount of carbon that’s in the atmosphere already. A recent Dutch study predicted that the Netherlands could engineer solutions at a manageable cost to a rise of as much as five meters, or 16 feet. Poorer countries will struggle to adapt to much less. At different times in different places, engineering solutions will no longer suffice. Then the retreat from the coast will begin. In some places there will be no higher ground to retreat to.

By the next century, if not sooner, large numbers of people will have to abandon coastal areas in Florida and other parts of the world. Some researchers fear a flood tide of climate-change refugees. “From the Bahamas to Bangladesh and a major amount of Florida, we’ll all have to move, and we may have to move at the same time,” says Wanless. “We’re going to see civil unrest, war. You just wonder how—or if—civilization will function. How thin are the threads that hold it all together? We can’t comprehend this. We think Miami has always been here and will always be here. How do you get people to realize that Miami—or London—will not always be there?”

What will New York look like in 200 years? Klaus Jacob, the Columbia geophysicist, sees downtown Manhattan as a kind of Venice, subject to periodic flooding, perhaps with canals and yellow water cabs. Much of the city’s population, he says, will gather on high ground in the other boroughs. “High ground will become expensive, waterfront will become cheap,” he says. But among New Yorkers, as among the rest of us, the idea that the sea is going to rise—a lot—hasn’t really sunk in yet. Of the thousands of people in New York State whose homes were badly damaged or destroyed by Sandy’s surge, only 10 to 15 percent are expected to accept the state’s offer to buy them out at their homes’ pre-storm value. The rest plan to rebuild.

Dilma cede à pressão dos ruralistas e rifa os direitos indígenas, diz antropóloga da USP (Folha de S.Paulo)

14/07/2013 – 00h45


A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das mais influentes estudiosas da questão indígena no país, acusa a gestão Dilma Rousseff de promover um desenvolvimentismo de “caráter selvagem”, sem “barreiras que atendam a imperativos de justiça, direitos humanos e conservação”.

Para ela, Dilma “parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos”.

Após citar “uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios”, ela chama a atenção para um projeto de lei –alçado ao status de urgência “com o beneplácito do líder do governo”– que permitiria o uso de terras indígenas para diversas finalidades, da construção de hidrelétricas à reforma agrária. “Se passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas”, diz.

Outro alerta é para a proposta que tenta tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações, passando atribuições ao Congresso. Isso, diz, fará com que a demarcação “deixe de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico e passe a ser exclusivamente político”.

Professora titular aposentada da USP e emérita da Universidade de Chicago, Cunha também tem críticas ao Judiciário. Ela fala numa “tendência crescente e preocupante” de paralisar processos de demarcação em seu início. E estima que, hoje, 90% das terras em fase de demarcação estão judicializadas.

Marcelo Justo-12.jul.13/Folhapress
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo

Folha – O que distingue o governo Dilma dos anteriores na questão indígena?

Manuela Carneiro da Cunha – Já disse em outra ocasião que neste governo a mão direita e a mão esquerda parecem se ignorar. A esquerda promove uma maior justiça social; a direita promove um chamado desenvolvimento sem qualquer limite.

O problema não é o desenvolvimentismo em si, mas seu caráter selvagem: a ausência de barreiras que atendam a imperativos de justiça, de direitos humanos, de conservação. Custos humanos e ambientais não estão sendo considerados.

Assiste-se agora a uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios. São vários projetos que destroem garantias que a Constituição de 1988 assegurou. E a União, que é a tutora, portanto a protetora dos direitos indígenas, não se ergue contra isso.

A própria AGU (Advocacia-Geral da União), que se pautava por uma tradição de defesa dos direitos indígenas, se aliou à bancada ruralista quando editou a infeliz portaria 303 (norma que estende para todas as demarcações as 19 condicionantes criadas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, de Roraima).

Como interpretar as recentes ações do governo?

Adotando uma interpretação caridosa, eu diria que o governo cede a pressões dos ruralistas, e rifa os direitos indígenas em troca de apoio.

Assim, na última quarta deu-se uma manobra escandalosa na Câmara: aprovou-se colocar em votação por acordo de líderes, e com o beneplácito do líder do governo, o regime de urgência para o Projeto de Lei Complementar 227/2012, que regulamentaria o parágrafo 6 do artigo 231 da Constituição, aquele que trata das terras indígenas.

O que significa?

Esse parágrafo abre uma exceção nos direitos de posse e usufruto exclusivo dos índios quando se tratar de relevante interesse da União.

O projeto, de autoria do vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura, pretende definir o que seria relevante interesse público da União. É assombrosa essa definição: praticamente tudo nela cabe. Permitiria que em terras indígenas passassem estradas, oleodutos, linhas de transmissão, hidrelétricas, ferrovias.

Permitiria que se concedessem áreas a terceiros em faixas de fronteira, que se mantivessem posseiros, agrupamentos urbanos, assentamentos de reforma agrária e até novos assentamentos. Permitiria que se mantivessem todas as terras sob domínio privado quando da promulgação da Constituição de 1988.

Permitiria tudo?

Esta cláusula seria o equivalente da anistia que os ruralistas conseguiram no Código Florestal. Mas dessa vez não se trataria de escapar de multas e de ter de recompor paisagens degradadas. Seria legalizar e perpetuar o esbulho. Se uma lei como essa passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas.

As condicionantes do STF e a portaria da AGU que a senhora citou foram muito criticadas por indígenas e antropólogos. Quais são os problemas?

Várias dessas condicionantes surgiram como uma forma de permitir um consenso entre os ministros do STF em relação ao caso Raposa Serra do Sol. Quando a Advocacia-Geral da União quis estender a outros casos essas condicionantes, que ainda dependem de uma análise mais aprofundada do próprio Supremo, e que foram estabelecidas para aquele caso concreto, ela tentou consolidar abusivamente uma interpretação desfavorável aos índios.

Cite um exemplo

Um exemplo é a alegada proibição de ampliação de terras indígenas. Essa condicionante se referia ao caso da Raposa, cuja demarcação havia sido validada pelo tribunal: não caberia ampliação de uma área recém demarcada. Quando se aplica essa mesma condição às terras guaranis, demarcadas em outro contexto, décadas atrás, fica evidente o absurdo. Nesse sentido, a portaria 303 é muito grave, pois denota uma intenção evidente de prejudicar os direitos indígenas em favor de interesses econômicos, contrariando toda a história da própria AGU, que sempre se destacou na defesa desses direitos.

O governo quer envolver a Embrapa, entre outros órgãos, nos processos de demarcação. Para alguns, há uma tentativa de enfraquecer a Funai. Qual a opinião da senhora?

A presidenta parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos. Esse bloco se opõe ferozmente à demarcação e à desintrusão (retirada de invasores) das áreas indígenas.

Marta Azevedo (presidente da Funai que deixou o cargo em junho) anunciou desde sua posse que daria prioridade à situação nas regiões onde se concentram os interesses dos fazendeiros. Foi um feito no ano passado conseguir a desintrusão, após 20 anos, da área Xavante Marãiwatsede. Com isso, cutucou-se a onça com vara curta.

Há vários modos da mão direita do governo enfraquecer a causa dos índios. Uma é retirando atribuições da Funai. Outra é deixando-a sem dinheiro. E outra ainda é colocando como presidente alguém a serviço de outras agendas.
Corre o boato de que o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que firmou sua carreira política como presidente da Funai e cuja atuação foi muito criticada, gostaria de colocar no posto uma pessoa sua.

Ganha força no Congresso a ideia de tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações. Que tal?

Se a PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição) for aprovada, acabarão os processos de demarcação de terras indígenas, pois os direitos dessas minorias serão submetidos aos jogos de poder de todos os grupos de interesse representados no Congresso Nacional, sobretudo à poderosa bancada ruralista.

Seria colocar a raposa para cuidar do galinheiro. A demarcação deixa de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico, como é hoje, e passa ser exclusivamente política.

Mas o Projeto de Lei Complementar 227/2012 (que define bens de interesse da União para fins de demarcação) é muito mais grave. É um rolo compressor esmagando a Constituição Federal.

Em que medida o Poder Judiciário é corresponsável pela demora nas demarcações e pelos conflitos?

Estima-se que que pelo menos 90% das terras em processo de demarcação estão judicializadas. As demoras são às vezes absurdas. No sul da Bahia, o caso Pataxó levou quase 100 anos para ser julgado pelo STF. No Mato Grosso do Sul existem casos que estão há mais de 30 anos em processos judiciais.

Há uma tendência crescente e preocupante do Judiciário de paralisar processos de demarcação administrativa logo em seu início, com base na simples apresentação de títulos de propriedade dos fazendeiros. Teses que há alguns anos atrás não vingavam, por não serem condizentes com a Constituição, começam a ganhar espaço no Judiciário.

Isso tem atrasado muitos processos demarcatórios, em todas as regiões do país, e contribuído para aumentar o grau de conflito em muitos casos. É o que vem ocorrendo no Mato Grosso do Sul.

Justiça que tarda não é justiça. No caso dos guaranis e caiovás do Mato Grosso do Sul, há gerações inteiras que nunca puderam viver sua cultura. A organização social tradicional não tinha como ser mantida, costumes e rituais ligados à cultura do milho não puderam ser realizados. Isso não seria etnocídio?

Há relação entre a morte de um terena no Mato Grosso do Sul por forças policiais numa reintegração de posse de uma área já declarada indígena e os protestos de mundurucus em Belo Monte, no Pará?

Nos dois casos, a Polícia Federal atuou contra os índios, e isso é inédito. Mas a relação é mais profunda.

No Mato Grosso do Sul consumou-se um esbulho de terras que vitimou em particular os terenas e os caiovás. Estes, aliás, em situação muito pior do que a dos terenas. Esse mesmo processo, que já estava em vigor no chamado arco do desmatamento, no norte de Mato Grosso e sudeste do Pará, está agora atingindo o sudoeste do Pará e do Amazonas, ou seja, o Tapajós, onde vivem os mundurucus.

Em suma: os mundurucus podem bem ser os caiovás e terenas de amanhã. E os caiovás têm uma média de 0,5 hectare por família (índice considerado abaixo do mínimo necessário para a própria subsistência).

O governo anunciou que vai indenizar fazendeiros em Sidrolândia (MS) que estão em área já declarada de terenas. Antes, as autoridades diziam que não havia respaldo legal para esse tipo de solução. O que mudou?

Não se trata de comprar terras, mas de indenizar os detentores de títulos de propriedade que, décadas atrás, foram irregularmente emitidos pela União.

Os títulos eram irregulares na medida em que incidiam sobre terras indígenas. Portanto, não se aplica a todas as áreas onde exista conflito com particulares, mas só naquelas onde a União está na origem do conflito, repassando terras indígenas a terceiros.

Para isso não é necessário mudar uma vírgula da legislação vigente. Depende apenas da consolidação de um entendimento jurídico pela AGU e de vontade política de desembolsar os recursos.

O que o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) anunciou é a possibilidade de usar recursos do Tesouro para compensar por títulos de boa fé que alguns fazendeiros possuem em terras que estão judicializadas no Mato Grosso do Sul.

Os Estados também emitiram títulos sobre terras indígenas, e muito. No Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade a criação de um fundo para compensar em dinheiro títulos de boa fé em terras indígenas. É uma solução semelhante à que o governo federal está propondo. Mas o fundo do Mato Grosso do Sul não tem um tostão. No caso da União, já há uma emenda parlamentar aprovada que destina R$ 50 milhões para acordos.

O importante agora é priorizar os casos mais dramáticos que envolvem os caiovás. E impedir o favorecimento de grandes fazendeiros e a abertura de uma nova indústria de indenizações, que já sangrou o Tesouro na década de 80.

Gilberto Carvalho também disse que o Brasil está prestes a deixar a lista dos países acusados de desrespeitar a Convenção 169 da OIT, documento que prevê consulta prévia aos indígenas antes de decisões que possam afetar seus direitos, como a construção de hidrelétricas. Há motivo para comemorar?

A Secretaria Geral da Presidência vem fazendo um trabalho admirável dentro do governo, tentando promover a regulamentação da consulta prévia aos povos indígenas, como determina a Convenção 169. Mas falta combinar com o restante do governo, que age em sentido contrário.

Veja o caso da implantação de hidrelétricas goela abaixo dos povos indígenas no Tapajós: o governo diz que quer consultá-los sobre o complexo de hidrelétricas, mas ao mesmo tempo já marca data para o leilão e inclusive para a emissão da licença ambiental das que ele considera principais. Que consulta é essa?

Uma verdadeira consulta se dá nas comunidades -e não só com as lideranças ou organizações indígenas-, no tempo delas e em língua que elas entendam e possam se expressar. E não pode ser uma atividade pontual, e sim um processo que acompanhe todas as fases do projeto.

Se está tudo decidido de antemão, vai-se consultar os índios sobre o que? Se querem bolsa-pescado ou tanques de piscicultura depois que os peixes do rio sumirem? A cor da parede da barragem?

Houve um aumento significativo da população indígena entre 1991 e 2000, conforme os Censos desses anos. Mas de 2000 a 2010, o crescimento foi proporcionalmente menor do que na população em geral. Alguma hipótese para essa “volatilidade demográfica”?

Os demógrafos explicam esse fenômeno. A categoria “indígena” surgiu no Censo de 1991. Até então a maioria dos índios se declaravam pardos, e muitas vezes também negros ou brancos. Em 1991 e em 2000, houve uma grande migração: muitos que se declaravam anteriormente pardos passaram a se declarar indígenas.

Isso provavelmente incluía o que (o antropólogo) Darcy Ribeiro chamou de “índios genéricos”, aqueles que, sendo descendentes de índios, não viviam em aldeias nem conheciam os povos a que pertenciam seus pais ou avós. É o que explicaria 60 mil pessoas que se declararam indígenas em São Paulo no Censo de 2000.

Já no Censo de 2010, é possível que o fato de se perguntar também a etnia e a língua indígena que se falava tenha inibido a auto-declaração desses descendentes de índios. Uma parte da variação resultou, portanto, do próprio Censo.
Mas, desde 1991, observa-se um crescimento demográfico maior da população indígena do que aquele da população não indígena.

O crescimento entre 1991 e 2000 foi da ordem de 3,5% ao ano em média, e o ocorrido entre 2000 e 2010 foi também dessa mesma ordem. Mas mantem-se um diferencial na mortalidade infantil: os indígenas ainda possuem uma taxa de mortalidade infantil muito maior do que aquela verificada entre os negros e brancos e amarelos.

A ideia, como princípio, de que o índio tem direito à terra nunca foi muito questionada no Brasil, conforme a senhora mesmo já disse. A Constituição não só consolidou esse entendimento como estabeleceu prazo de cinco anos para todas as demarcações. Por que isso não foi resolvido até hoje?

A legislação colonial e todas as constituições do Brasil sempre reconheceram os direitos dos índios a suas terras. Mas uma coisa é o princípio, outra sua aplicação. Na fábula clássica, o lobo encontra justificações sucessivas para devorar o carneiro. É que, como diz La Fontaine (escritor francês do século 17), “a razão do mais forte é sempre a melhor”.

Estamos assistindo a um remake do Brasil passado, como se o século 20 nunca houvesse existido. Voltamos a ser exportadores de commodities, voltamos a explorar riquezas sem consideração pelos custos humanos e ambientais. E voltamos também ao expediente dos séculos 16 e 17: afirma-se o princípio, mas abrem-se exceções que o tornam inócuo.

É o que tenta fazer o Projeto de Lei 227/2012: define o relevante interesse da União com tal latitude que as garantias constitucionais dos índios se tornam letra morta.

The Science of Why We Don’t Believe Science (Mother Jones)

How our brains fool us on climate, creationism, and the end of the world.

By  | Mon Apr. 18, 2011 3:00 AM PDT

“A MAN WITH A CONVICTION is a hard man to change. Tell him you disagree and he turns away. Show him facts or figures and he questions your sources. Appeal to logic and he fails to see your point.” So wrote the celebrated Stanford University psychologist Leon Festinger [1] (PDF), in a passage that might have been referring to climate change denial—the persistent rejection, on the part of so many Americans today, of what we know about global warming and its human causes. But it was too early for that—this was the 1950s—and Festinger was actually describing a famous case study [2] in psychology.

Festinger and several of his colleagues had infiltrated the Seekers, a small Chicago-area cult whose members thought they were communicating with aliens—including one, “Sananda,” who they believed was the astral incarnation of Jesus Christ. The group was led by Dorothy Martin, a Dianetics devotee who transcribed the interstellar messages through automatic writing.

Through her, the aliens had given the precise date of an Earth-rending cataclysm: December 21, 1954. Some of Martin’s followers quit their jobs and sold their property, expecting to be rescued by a flying saucer when the continent split asunder and a new sea swallowed much of the United States. The disciples even went so far as to remove brassieres and rip zippers out of their trousers—the metal, they believed, would pose a danger on the spacecraft.

Festinger and his team were with the cult when the prophecy failed. First, the “boys upstairs” (as the aliens were sometimes called) did not show up and rescue the Seekers. Then December 21 arrived without incident. It was the moment Festinger had been waiting for: How would people so emotionally invested in a belief system react, now that it had been soundly refuted?

Read also: the truth about Climategate. [3]. Read also: the truth about Climategate [4].

At first, the group struggled for an explanation. But then rationalization set in. A new message arrived, announcing that they’d all been spared at the last minute. Festinger summarized the extraterrestrials’ new pronouncement: “The little group, sitting all night long, had spread so much light that God had saved the world from destruction.” Their willingness to believe in the prophecy had saved Earth from the prophecy!

From that day forward, the Seekers, previously shy of the press and indifferent toward evangelizing, began to proselytize. “Their sense of urgency was enormous,” wrote Festinger. The devastation of all they had believed had made them even more certain of their beliefs.

In the annals of denial, it doesn’t get much more extreme than the Seekers. They lost their jobs, the press mocked them, and there were efforts to keep them away from impressionable young minds. But while Martin’s space cult might lie at on the far end of the spectrum of human self-delusion, there’s plenty to go around. And since Festinger’s day, an array of new discoveries in psychology and neuroscience has further demonstrated how our preexisting beliefs, far more than any new facts, can skew our thoughts and even color what we consider our most dispassionate and logical conclusions. This tendency toward so-called “motivated reasoning [5]” helps explain why we find groups so polarized over matters where the evidence is so unequivocal: climate change, vaccines, “death panels,” the birthplace and religion of the president [6] (PDF), and much else. It would seem that expecting people to be convinced by the facts flies in the face of, you know, the facts.

The theory of motivated reasoning builds on a key insight of modern neuroscience [7] (PDF): Reasoning is actually suffused with emotion (or what researchers often call “affect”). Not only are the two inseparable, but our positive or negative feelings about people, things, and ideas arise much more rapidly than our conscious thoughts, in a matter of milliseconds—fast enough to detect with an EEG device, but long before we’re aware of it. That shouldn’t be surprising: Evolution required us to react very quickly to stimuli in our environment. It’s a “basic human survival skill,” explains political scientist Arthur Lupia[8] of the University of Michigan. We push threatening information away; we pull friendly information close. We apply fight-or-flight reflexes not only to predators, but to data itself.

We apply fight-or-flight reflexes not only to predators, but to data itself.

We’re not driven only by emotions, of course—we also reason, deliberate. But reasoning comes later, works slower—and even then, it doesn’t take place in an emotional vacuum. Rather, our quick-fire emotions can set us on a course of thinking that’s highly biased, especially on topics we care a great deal about.

Consider a person who has heard about a scientific discovery that deeply challenges her belief in divine creation—a new hominid, say, that confirms our evolutionary origins. What happens next, explains political scientist Charles Taber [9] of Stony Brook University, is a subconscious negative response to the new information—and that response, in turn, guides the type of memories and associations formed in the conscious mind. “They retrieve thoughts that are consistent with their previous beliefs,” says Taber, “and that will lead them to build an argument and challenge what they’re hearing.”

In other words, when we think we’re reasoning, we may instead be rationalizing. Or to use an analogy offered by University of Virginia psychologist Jonathan Haidt [10]: We may think we’re being scientists, but we’re actually being lawyers [11] (PDF). Our “reasoning” is a means to a predetermined end—winning our “case”—and is shot through with biases. They include “confirmation bias,” in which we give greater heed to evidence and arguments that bolster our beliefs, and “disconfirmation bias,” in which we expend disproportionate energy trying to debunk or refute views and arguments that we find uncongenial.

That’s a lot of jargon, but we all understand these mechanisms when it comes to interpersonal relationships. If I don’t want to believe that my spouse is being unfaithful, or that my child is a bully, I can go to great lengths to explain away behavior that seems obvious to everybody else—everybody who isn’t too emotionally invested to accept it, anyway. That’s not to suggest that we aren’t also motivated to perceive the world accurately—we are. Or that we never change our minds—we do. It’s just that we have other important goals besides accuracy—including identity affirmation and protecting one’s sense of self—and often those make us highly resistant to changing our beliefs when the facts say we should.

Modern science originated from an attempt to weed out such subjective lapses—what that great 17th century theorist of the scientific method, Francis Bacon, dubbed the “idols of the mind.” Even if individual researchers are prone to falling in love with their own theories, the broader processes of peer review and institutionalized skepticism are designed to ensure that, eventually, the best ideas prevail.

Scientific evidence is highly susceptible to misinterpretation. Giving ideologues scientific data that’s relevant to their beliefs is like unleashing them in the motivated-reasoning equivalent of a candy store.

Our individual responses to the conclusions that science reaches, however, are quite another matter. Ironically, in part because researchers employ so much nuance and strive to disclose all remaining sources of uncertainty, scientific evidence is highly susceptible to selective reading and misinterpretation. Giving ideologues or partisans scientific data that’s relevant to their beliefs is like unleashing them in the motivated-reasoning equivalent of a candy store.

Sure enough, a large number of psychological studies have shown that people respond to scientific or technical evidence in ways that justify their preexisting beliefs. In a classic 1979 experiment [12] (PDF), pro- and anti-death penalty advocates were exposed to descriptions of two fake scientific studies: one supporting and one undermining the notion that capital punishment deters violent crime and, in particular, murder. They were also shown detailed methodological critiques of the fake studies—and in a scientific sense, neither study was stronger than the other. Yet in each case, advocates more heavily criticized the study whose conclusions disagreed with their own, while describing the study that was more ideologically congenial as more “convincing.”

Since then, similar results have been found for how people respond to “evidence” about affirmative action, gun control, the accuracy of gay stereotypes [13], and much else. Even when study subjects are explicitly instructed to be unbiased and even-handed about the evidence, they often fail.

And it’s not just that people twist or selectively read scientific evidence to support their preexisting views. According to research by Yale Law School professor Dan Kahan [14] and his colleagues, people’s deep-seated views about morality, and about the way society should be ordered, strongly predict whom they consider to be a legitimate scientific expert in the first place—and thus where they consider “scientific consensus” to lie on contested issues.

In Kahan’s research [15] (PDF), individuals are classified, based on their cultural values, as either “individualists” or “communitarians,” and as either “hierarchical” or “egalitarian” in outlook. (Somewhat oversimplifying, you can think of hierarchical individualists as akin to conservative Republicans, and egalitarian communitarians as liberal Democrats.) In one study, subjects in the different groups were asked to help a close friend determine the risks associated with climate change, sequestering nuclear waste, or concealed carry laws: “The friend tells you that he or she is planning to read a book about the issue but would like to get your opinion on whether the author seems like a knowledgeable and trustworthy expert.” A subject was then presented with the résumé of a fake expert “depicted as a member of the National Academy of Sciences who had earned a Ph.D. in a pertinent field from one elite university and who was now on the faculty of another.” The subject was then shown a book excerpt by that “expert,” in which the risk of the issue at hand was portrayed as high or low, well-founded or speculative. The results were stark: When the scientist’s position stated that global warming is real and human-caused, for instance, only 23 percent of hierarchical individualists agreed the person was a “trustworthy and knowledgeable expert.” Yet 88 percent of egalitarian communitarians accepted the same scientist’s expertise. Similar divides were observed on whether nuclear waste can be safely stored underground and whether letting people carry guns deters crime. (The alliances did not always hold. Inanother study [16] (PDF), hierarchs and communitarians were in favor of laws that would compel the mentally ill to accept treatment, whereas individualists and egalitarians were opposed.)

Head-on attempts to persuade can sometimes trigger a backfire effect, where people not only fail to change their minds when confronted with the facts—they may hold their wrong views more tenaciously than ever.

In other words, people rejected the validity of a scientific source because its conclusion contradicted their deeply held views—and thus the relative risks inherent in each scenario. A hierarchal individualist finds it difficult to believe that the things he prizes (commerce, industry, a man’s freedom to possess a gun to defend his family [16]) (PDF) could lead to outcomes deleterious to society. Whereas egalitarian communitarians tend to think that the free market causes harm, that patriarchal families mess up kids, and that people can’t handle their guns. The study subjects weren’t “anti-science”—not in their own minds, anyway. It’s just that “science” was whatever they wanted it to be. “We’ve come to a misadventure, a bad situation where diverse citizens, who rely on diverse systems of cultural certification, are in conflict,” says Kahan [17].

And that undercuts the standard notion that the way to persuade people is via evidence and argument. In fact, head-on attempts to persuade can sometimes trigger a backfire effect, where people not only fail to change their minds when confronted with the facts—they may hold their wrong views more tenaciously than ever.

Take, for instance, the question of whether Saddam Hussein possessed hidden weapons of mass destruction just before the US invasion of Iraq in 2003. When political scientists Brendan Nyhan and Jason Reifler showed subjects fake newspaper articles [18] (PDF) in which this was first suggested (in a 2004 quote from President Bush) and then refuted (with the findings of the Bush-commissioned Iraq Survey Group report, which found no evidence of active WMD programs in pre-invasion Iraq), they found that conservatives were more likely than before to believe the claim. (The researchers also tested how liberals responded when shown that Bush did not actually “ban” embryonic stem-cell research. Liberals weren’t particularly amenable to persuasion, either, but no backfire effect was observed.)

Another study gives some inkling of what may be going through people’s minds when they resist persuasion. Northwestern University sociologist Monica Prasad [19] and her colleagues wanted to test whether they could dislodge the notion that Saddam Hussein and Al Qaeda were secretly collaborating among those most likely to believe it—Republican partisans from highly GOP-friendly counties. So the researchers set up a study [20] (PDF) in which they discussed the topic with some of these Republicans in person. They would cite the findings of the 9/11 Commission, as well as a statement in which George W. Bush himself denied his administration had “said the 9/11 attacks were orchestrated between Saddam and Al Qaeda.”

One study showed that not even Bush’s own words could change the minds of Bush voters who believed there was an Iraq-Al Qaeda link.

As it turned out, not even Bush’s own words could change the minds of these Bush voters—just 1 of the 49 partisans who originally believed the Iraq-Al Qaeda claim changed his or her mind. Far more common was resisting the correction in a variety of ways, either by coming up with counterarguments or by simply being unmovable:

Interviewer: [T]he September 11 Commission found no link between Saddam and 9/11, and this is what President Bush said. Do you have any comments on either of those?

Respondent: Well, I bet they say that the Commission didn’t have any proof of it but I guess we still can have our opinions and feel that way even though they say that.

The same types of responses are already being documented on divisive topics facing the current administration. Take the “Ground Zero mosque.” Using information from the political myth-busting site [21], a team at Ohio State presented subjects [22] (PDF) with a detailed rebuttal to the claim that “Feisal Abdul Rauf, the Imam backing the proposed Islamic cultural center and mosque, is a terrorist-sympathizer.” Yet among those who were aware of the rumor and believed it, fewer than a third changed their minds.

A key question—and one that’s difficult to answer—is how “irrational” all this is. On the one hand, it doesn’t make sense to discard an entire belief system, built up over a lifetime, because of some new snippet of information. “It is quite possible to say, ‘I reached this pro-capital-punishment decision based on real information that I arrived at over my life,'” explains Stanford social psychologist Jon Krosnick [23]. Indeed, there’s a sense in which science denial could be considered keenly “rational.” In certain conservative communities, explains Yale’s Kahan, “People who say, ‘I think there’s something to climate change,’ that’s going to mark them out as a certain kind of person, and their life is going to go less well.”

This may help explain a curious pattern Nyhan and his colleagues found when they tried to test the fallacy [6] (PDF) that President Obama is a Muslim. When a nonwhite researcher was administering their study, research subjects were amenable to changing their minds about the president’s religion and updating incorrect views. But when only white researchers were present, GOP survey subjects in particular were more likely to believe the Obama Muslim myth than before. The subjects were using “social desirabililty” to tailor their beliefs (or stated beliefs, anyway) to whoever was listening.

Which leads us to the media. When people grow polarized over a body of evidence, or a resolvable matter of fact, the cause may be some form of biased reasoning, but they could also be receiving skewed information to begin with—or a complicated combination of both. In the Ground Zero mosque case, for instance, a follow-up study [24] (PDF) showed that survey respondents who watched Fox News were more likely to believe the Rauf rumor and three related ones—and they believed them more strongly than non-Fox watchers.

Okay, so people gravitate toward information that confirms what they believe, and they select sources that deliver it. Same as it ever was, right? Maybe, but the problem is arguably growing more acute, given the way we now consume information—through the Facebook links of friends, or tweets that lack nuance or context, or “narrowcast [25]” and often highly ideological media that have relatively small, like-minded audiences. Those basic human survival skills of ours, says Michigan’s Arthur Lupia, are “not well-adapted to our information age.”

A predictor of whether you accept the science of global warming? Whether you’re a Republican or a Democrat.

If you wanted to show how and why fact is ditched in favor of motivated reasoning, you could find no better test case than climate change. After all, it’s an issue where you have highly technical information on one hand and very strong beliefs on the other. And sure enough, one key predictor of whether you accept the science of global warming is whether you’re a Republican or a Democrat. The two groups have been growing more divided in their views about the topic, even as the science becomes more unequivocal.

So perhaps it should come as no surprise that more education doesn’t budge Republican views. On the contrary: In a 2008 Pew survey [26], for instance, only 19 percent of college-educated Republicans agreed that the planet is warming due to human actions, versus 31 percent of non-college educated Republicans. In other words, a higher education correlated with an increased likelihood of denying the science on the issue. Meanwhile, among Democrats and independents, more education correlated with greater acceptance of the science.

Other studies have shown a similar effect: Republicans who think they understand the global warming issue best are least concerned about it; and among Republicans and those with higher levels of distrust of science in general, learning more about the issue doesn’t increase one’s concern about it. What’s going on here? Well, according to Charles Taber and Milton Lodge of Stony Brook, one insidious aspect of motivated reasoning is that political sophisticates are prone to be more biased than those who know less about the issues. “People who have a dislike of some policy—for example, abortion—if they’re unsophisticated they can just reject it out of hand,” says Lodge. “But if they’re sophisticated, they can go one step further and start coming up with counterarguments.” These individuals are just as emotionally driven and biased as the rest of us, but they’re able to generate more and better reasons to explain why they’re right—and so their minds become harder to change.

That may be why the selectively quoted emails of Climategate were so quickly and easily seized upon by partisans as evidence of scandal. Cherry-picking is precisely the sort of behavior you would expect motivated reasoners to engage in to bolster their views—and whatever you may think about Climategate, the emails were a rich trove of new information upon which to impose one’s ideology.

Climategate had a substantial impact on public opinion, according to Anthony Leiserowitz [27], director of the Yale Project on Climate Change Communication [28]. It contributed to an overall drop in public concern about climate change and a significant loss of trust in scientists. But—as we should expect by now—these declines were concentrated among particular groups of Americans: Republicans, conservatives, and those with “individualistic” values. Liberals and those with “egalitarian” values didn’t lose much trust in climate science or scientists at all. “In some ways, Climategate was like a Rorschach test,” Leiserowitz says, “with different groups interpreting ambiguous facts in very different ways.”

Is there a case study of science denial that largely occupies the political left? Yes: the claim that childhood vaccines are causing an epidemic of autism.

So is there a case study of science denial that largely occupies the political left? Yes: the claim that childhood vaccines are causing an epidemic of autism. Its most famous proponents are an environmentalist (Robert F. Kennedy Jr. [29]) and numerous Hollywood celebrities (most notably Jenny McCarthy [30] and Jim Carrey). TheHuffington Post gives a very large megaphone to denialists. And Seth Mnookin [31], author of the new book The Panic Virus [32], notes that if you want to find vaccine deniers, all you need to do is go hang out at Whole Foods.

Vaccine denial has all the hallmarks of a belief system that’s not amenable to refutation. Over the past decade, the assertion that childhood vaccines are driving autism rateshas been undermined [33] by multiple epidemiological studies—as well as the simple fact that autism rates continue to rise, even though the alleged offending agent in vaccines (a mercury-based preservative called thimerosal) has long since been removed.

Yet the true believers persist—critiquing each new study that challenges their views, and even rallying to the defense of vaccine-autism researcher Andrew Wakefield, afterhis 1998 Lancet paper [34]—which originated the current vaccine scare—was retracted and he subsequently lost his license [35] (PDF) to practice medicine. But then, why should we be surprised? Vaccine deniers created their own partisan media, such as the website Age of Autism, that instantly blast out critiques and counterarguments whenever any new development casts further doubt on anti-vaccine views.

It all raises the question: Do left and right differ in any meaningful way when it comes to biases in processing information, or are we all equally susceptible?

There are some clear differences. Science denial today is considerably more prominent on the political right—once you survey climate and related environmental issues, anti-evolutionism, attacks on reproductive health science by the Christian right, and stem-cell and biomedical matters. More tellingly, anti-vaccine positions are virtually nonexistent among Democratic officeholders today—whereas anti-climate-science views are becoming monolithic among Republican elected officials.

Some researchers have suggested that there are psychological differences between the left and the right that might impact responses to new information—that conservatives are more rigid and authoritarian, and liberals more tolerant of ambiguity. Psychologist John Jost of New York University has further argued that conservatives are “system justifiers”: They engage in motivated reasoning to defend the status quo.

This is a contested area, however, because as soon as one tries to psychoanalyze inherent political differences, a battery of counterarguments emerges: What about dogmatic and militant communists? What about how the parties have differed through history? After all, the most canonical case of ideologically driven science denial is probably the rejection of genetics in the Soviet Union, where researchers disagreeing with the anti-Mendelian scientist (and Stalin stooge) Trofim Lysenko were executed, and genetics itself was denounced as a “bourgeois” science and officially banned.

The upshot: All we can currently bank on is the fact that we all have blinders in some situations. The question then becomes: What can be done to counteract human nature itself?

We all have blinders in some situations. The question then becomes: What can be done to counteract human nature?

Given the power of our prior beliefs to skew how we respond to new information, one thing is becoming clear: If you want someone to accept new evidence, make sure to present it to them in a context that doesn’t trigger a defensive, emotional reaction.

This theory is gaining traction in part because of Kahan’s work at Yale. In one study [36], he and his colleagues packaged the basic science of climate change into fake newspaper articles bearing two very different headlines—”Scientific Panel Recommends Anti-Pollution Solution to Global Warming” and “Scientific Panel Recommends Nuclear Solution to Global Warming”—and then tested how citizens with different values responded. Sure enough, the latter framing made hierarchical individualists much more open to accepting the fact that humans are causing global warming. Kahan infers that the effect occurred because the science had been written into an alternative narrative that appealed to their pro-industry worldview.

You can follow the logic to its conclusion: Conservatives are more likely to embrace climate science if it comes to them via a business or religious leader, who can set the issue in the context of different values than those from which environmentalists or scientists often argue. Doing so is, effectively, to signal a détente in what Kahan has called a “culture war of fact.” In other words, paradoxically, you don’t lead with the facts in order to convince. You lead with the values—so as to give the facts a fighting chance.


Conservation without supervision: Peruvian community group creates and patrols its own protected area (Mongabay)

By:Jenny R. Isaacs

April 30, 2013

“Rural dwellers are not passive respondents to external conservation agents but are active proponents and executers of their own conservation initiatives.”—Noga Shanee, Projects Director forNeotropical Primate Conservation (NPC), in an interview with

When we think of conservation areas, many of us think of iconic National Parks overseen by uniformed government employees or wilderness areas purchased and run from afar by big-donor organizations like The Nature Conservancy, Wildlife Conservation Society, WWF, or Conservation International. But what happens to ecosystems and wildlife in areas where there’s a total lack of government presence and no money coming in for its protection? This is the story of one rural Peruvian community that took conservation matters into their own hands, with a little help from a dedicated pair of primate researchers, in order to protect a high biodiversity cloud forest.

On the 22nd of November, 2012, the Peruvian Andes village of Líbano celebrated the launch of the Hocicón Reserve, formed under an innovative conservation model in accordance with federal law which allows for local administration of lands by community organizations (in this case the Rondas Campesinas). The new reserve protects an area of tropical Andean cloud forest in one of the most diverse biomes on earth, home to many endangered and unique species including the endemic Andean night monkey (Aotus miconax), the Endangered white-bellied spider monkey (Ateles belzebuth), jaguars, tapirs and many more. Hocicón, a 505.9 hectare protected area, is on the border of the Amazonas and San Martin regions—two of the most densely populated rural regions in Peru with some of the highest deforestation rates in the country. The rural population in these regions—Campesinos or ‘peasant farmers’—are predominantly of mixed indigenous and European origin and, like the native wildlife, are also endangered, by land insecurity and degraded natural resources.

Noga and Sam Shanee have helped provide technical assistance to the creation of the Hocicón reserve. Ronda leader, Marcos Díaz Delgado, was instrumental in the reserve's creation. Photo courtesy of NPC.
Noga and Sam Shanee have helped provide technical assistance to the creation of the Hocicón reserve. Ronda leader, Marcos Díaz Delgado, was instrumental in the reserve’s creation. Photo courtesy of NPC.

Noga Shanee and her husband Sam, of the organizationNeotropical Primate Conservation (NPC), work primarily in Peru to support the connection between communities and conservation. They live most of each year not far from the Hocicón reserve they helped to create. “We created NPC as a result of our experience as conservation practitioners and the need we felt to finding efficient solutions to the grave situation in which we found the yellow tailed woolly monkey and its habitat,” Noga told

The Shanees’ work in primate conservation brought them in close contact with local residents, where it became clear that protection of nature might best be achieved by supporting grassroots community efforts. In the last few years, they have administratively assisted in registering seven conservation areas with the local and national governments before helping to establish the Hocicón reserve under the Ronda Campesina group in Libano. Through NPC they offer Libano residents technical support (GPS equipment, GIS mapping, basic biological assessment and the writing of a basic report), advice on quantifying the ecological importance of the area, and help with legal matters.

Such assistance is necessary because according to governmental demands for conservation projects “local initiators have to execute plans of economic activities and reserve maintenance involving factors which many rural campesinos don’t have the capacity and/or resources to undertake,” writes Noga Shanee in a forthcoming article, which details their fieldwork and the many obstacles that prohibit local community groups from establishing official protected areas. “The main restrictions found to Campesino conservation initiatives was a lack of access to support from governmental and non-governmental institutions and a lack of access to economic resources for the extended bureaucratic processes of registering these protected areas.”

The Andean night monkey (Aotus miconax) is endemic to Peruvian forests which are being protected not by the government or big NGOs, but local communities. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.
The Andean night monkey (Aotus miconax) is endemic to Peruvian forests which are being protected not by the government or big NGOs, but local communities. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.

Noga Shanee says that the bigger problem is disconnect between the state’s expressed desire for conservation and the overly restrictive process of providing for it.

“The Peruvian state presents itself as an enthusiastic promoter of conservation and public participation in environmental issues, taking pride in legislation that allows private and community conservation,” she notes. “However, our experience shows us that the process of legally registering privately run conservation areas is extremely complicated, expensive and slow, requiring teams of specialists and cost on average $20,000 US dollars, just up to the initial registration of the area. After completing this arduous process, the government does not provide any support for the conservation initiators; on the contrary, they require additional reports and economic investments. Therefore, this process is inaccessible to most of the rural population creating inequality and losing opportunities for local participation and conservation efficiency…most local people are unable to create their own reserves and need the help of NGOs. The creation of these reserves including the elaboration of the proposal and waiting for registration takes from 1.5 to 5 years. During this time the land is not legally protected and other land uses are possible which in some cases has led to conflicts.”

One effect of this long, and expensive process is the exclusion of non-experts, small groups, and those lacking connections to government officials or influential NGOs in the process of establishing reserves.

“Although it is perceived locally that broad inter-institutional cooperation would be the best way towards effective regional conservation, cooperation is rare, mainly due to competitiveness related to economic pressures,” Shanee writes.

Launching community reserves from the ground up has proven to be a great way to overcome these bureaucratic obstacles while combating a myriad of threats to both animals and local people.

Ronderos voting to create Hocicón Reserve. Photo by: Noga Shanee.
Ronderos voting to create Hocicón Reserve. Photo by: Noga Shanee.

“The area suffers from high levels of deforestation fueled by immigration, road construction, extractive industries, hydroelectric dams, cattle ranching and lately a boom of palm oil plantations. The Ronda Campesina [community group, which launched the reserve,] has been protesting for many years against this development model (aggressively promoted by the government) which is so destructive to natural habitats and to rural societies,” Noga Shanee, told

Such threats are caused by a number of actors, according to Shanee, including the federal government, international corporations, and even the rural campesinos [farmers] themselves.

“Severe economic and social pressures are found to force campesinos into unsustainable practices,” writes Noga Shanee, in a recently submitted paper.

Clown tree frog (Dendropsophus sarayacuensis) in the region. Nestor Allgas Marchena/NPC.
Clown tree frog (Dendropsophus sarayacuensis) in the region. Nestor Allgas Marchena/NPC.

In her PhD Thesis on the subject written for Kent University in the UK, Noga Shanee summarized that “current conservation efforts are far from sufficient to offset the mounting threats they face,” adding “an amalgam of contradicting agendas, power struggles, superficial-spectacular solutions, and prejudices towards rural populations hinder the efficiency of conservation interventions” as “the immense pressures impacting human populations transforms directly into environmentally degrading processes.”

The Hocicón conservation model is not your typical conservation solution to these problems. In contrast to uniformed park officials greeting visitors or teams of well-paid foreign biologists in the field monitoring wildlife populations, these reserves are organic extensions of the community—policed and patrolled by the local residents themselves; such projects bring, according to Shanee, “a sense of pride and inclusion to the rural people who implement them.”

The Rondas enjoy distinctive legal rights within Peruvian society because of long-standing traditional land claims by indigenous peoples in combination with large areas of territory devoid of governmental or NGO supervision.

“The areas we are working and living in (departments of Amazonas and San Martin in Northern Peru) are almost completely abandoned by the government and would be in complete anarchy if it wasn’t for the Rondas…The Ronda Campesina (Peasant Patrol) is a network of autonomous, civil organizations, aimed at self-protection,” Shanee explains. “They practice vigilance and civil justice in the rural Peruvian countryside where state control is insufficient.”

The royal sunangel (Heliangelus regalis) is listed as Endangered by the IUCN Red List. Photo by: Sachar Alterman/NPC.
The royal sunangel (Heliangelus regalis) is listed as Endangered by the IUCN Red List. Photo by: Sachar Alterman/NPC.

Ronda bases can be organized by any population (community, town, or village). Nationally, the Ronda has more than half a million active members, in more than 5,000 bases, mainly, but not only, in Northern Peru and solves about 180,000 civil justice cases per year. Rondas also protest against external environmental hazards, such as polluting mining operations. According to Noga Shanee’s thesis, “by criticism and setting examples, the Rondas pressure both the government and NGOs to act more efficiently and morally towards conservation.”

Sam Shanee, also of NPC, says Ronda self-government is purely for protective purposes. “The ronda is basically a neighborhood watch group in most villages (I myself am a ‘rondero’ in the village where we live). All that this new approach entails in its most basic form is a group of villagers (or the entire village) getting together a deciding to protect an area of forest or other natural habitat near where they live… there has been no use of force for the creation of this first ARCA and the Ronda is not really a militia organization except when necessary, for example in the face of terrorism, drug cartels, illegal mining/logging etc.”

White-bellied spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.
White-bellied spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.

In the absence of top-down support or supervision, the Rondas offer their own path to conservation. The Ronda-run Conservation Areas, known as ARCAs, are quick, extremely low-cost, and are uniquely tailored to the Ronda social structure, allowing for participation of local people in conservation efforts, according to the Shanees.

Marcos Díaz Delgado, a national Ronda leader, told that “The [Ronda-run Conservation Areas (ARCAs)] are an alternative to the state’s legal conservation system which is extremely slow, expensive and fails to reach many remote, rural parts of our country. As a special jurisdiction we don’t only defend our safety and our human rights, but we also defend the natural world inside our territories. We invite the state authorities and all social organizations to join us for the collective defense of our natural resources.”

The ARCAs were designed to streamline the process of establishing protected areas: because of the Rondas special legal status, they only necessitate the minimal process (mapping and basic biological info), and cost almost nothing. Therefore “the Ronda Campesina’s conservation initiatives are an honest and efficient answer to habitat and species loss in Peru as well as to the deficiencies of mainstream, non participative conservation,” Noga Shanee says, adding that while this project is a collaboration between NPC and the Ronda, “we are hoping that they will become more and more self sufficient with time…our help is trying to organize, augment and formalize this initiative”. Orin Starn, Chair and Professor of Cultural Anthropology at Duke University, and author of the book Night Watch, the Politics of Protest in the Andes, told that, “the Rondas are the largest, most influential grassroots movement in Peru’s northern mountains. Environmentalism is a relatively new development to this area, and it’ll be very interesting to see the directions that this new collaboration between an old peasant movement and the new NGO-driven green activism may take.”

Noga Shanee (in pink) with community members. Photo courtesy of NPC.
Noga Shanee (in pink) with community members. Photo courtesy of NPC.

The Shanees’ work in the Amazon continues to illustrate the close biocultural connection between nature and community. Noga sees this connection as a positive force for change when strengthened. In her thesis she writes that destructive pressures on local communities and forests “also create positive consequences by creating new conservation opportunities.” By turning local environmental and social crisis into opportunity, new collaborations and conservation without supervision, born of necessity, can emerge, offering real hope for biocultural diversity.

“All over the world there are small groups of local farmers and indigenous people that organize themselves in order to protect their neighboring forests,” Noga Shanee says. “These initiatives are rarely heard about as these people often lack resources and expertise to promote their successes through academic or popular publications.” But she adds that she hopes the Hocicón model will become increasingly common in Peru and even spread abroad.

“This initiative can inspire other grassroots organizations to organize themselves to administer conservation, which could benefit many different species and habitats around the world. “

She believes that community-run conservation will prosper, saying, “we might be naïve and of course this project can fail, but our work in Peru has shown us that local communities put huge efforts in conserving their forests, usually with no help from mainstream conservationists and sometimes even despite them. We believe that they deserve the chance.”

Cloud forest in Northeastern Peru. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.
Cloud forest in Northeastern Peru. Photo by: Andrew Walmsley/NPC.

Noga in front in purple with community leaders. Photo courtesy of NPC.
Noga in front in purple with community leaders. Photo courtesy of NPC.

White-fronted spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.
White-fronted spider monkey (Ateles belzebuth). Photo by: Shachar Alterman.


Shanee N (2012) The Dynamics of Threats and Conservation Efforts for the Tropical Andes Hotspot in Amazonas and San Martin, Peru. PhD Thesis (Kent University, Canterbury). Supervised by Prof. Stuart R. Harrop.

Shanee, Noga, Sam Shanee, and Robert H. Horwich (2012 in revision). “Locally run conservation initiatives in northeastern Peru and their effectiveness as conservation methods,” shared by permission of the authors

Starn O (1999) Nightwatch: the politics of protest in the Andes (Duke Univ Pr, Los Angeles) p 329.

Chapin, M. (2004) A Challenge to Conservationists. World Watch, 17, 17-31

Sobrevila, Claudia. (2008) “The Role of Indigenous Peoples in Biodiversity Conservation; The Natural but Often Forgotten Partners” World Bank Report.


Mainstream green is still too white (Color Lines)

By Brentin Mock; Cross-posted from ColorLines

We missing anything here?Last year was the hottest on record for the continental United States, and it wasn’t an outlier. The last 12 years have been the warmest years since 1880, the year the National Oceanic and Atmospheric Administration began tracking this information. And climate scientists predict that the devastating blizzards, droughts, hurricanes, and wildfires we’ve been experiencing lately will worsen due to climate change.

In many ways these punishing weather events feel like Mother Nature seeking revenge for our failure to reduce greenhouse gas emissions, the primary cause of global warming. Despite abundant evidence, the U.S. government has yet to pass a law that would force a reduction in these emissions.

During his first term, President Obama did make climate change a priority, both in his campaign and in office. The American Clean Energy and Security Act that Congress produced passed through the House in June 2009 by a narrow margin. Yet the bill never reached a vote in the Senate, and it died quietly.

Environmentalists have been flummoxed ever since. One prominent cause-of-death theory says that large mainstream (and predominantly white) environmental groups failed to mobilize grassroots support and ignored those who bear a disproportionate burden of climate change, namely poor people of color.

With Obama in for a second term and reaffirmed in his environmental commitments, climate legislation has another chance at life. Now, observers are wondering if mainstream environmentalists learned the right lessons from the first climate bill failure and how they’ll work with people of color this time around.

Anatomy of a conflict

To hear some environmental leaders tell it, their defeat wasn’t due to a lack of investment in black and brown people living in poor and working class communities, but to an over-investment in Obama. For example, Dan Lashof, climate and clean air director for Natural Resources Defense Council (NRDC), has blamed the president for having the audacity to push healthcare reform and he’s pointed the finger at green groups for being too patient with Obama.

Asked what environmental advocates who led the first climate bill effort could have done differently in 2009, Bill McKibben, founder of the online grassroots organizing campaign, says their game plan was too insular. “There was no chance last time because all the action was in the closed rooms, not in the streets,” he tells

Yet that “action” took place behind closed doors for a reason: Major mainstream green groups including the Environmental Defense Fund and The Nature Conservancy teamed up with oil companies and some of the biggest polluters and emitters in the nation to form the United States Climate Action Partnership (USCAP). This ad hoc alliance was the driving force behind the failed 2009 bill and there were no environmental justice, civil rights, or people-of-color groups at the USCAP table.

Obama can’t be blamed for the blind spots of major groups. As recent Washington Post and Politico articles have pointed out, their leadership and membership simply don’t reflect the race or socieconomic class of people most vulnerable to climate change’s wrath.

Sarah Hansen, former executive director of the Environmental Grantmakers Association, argued recently that the mainstream has been stingy with funding and resources and inept at engaging environmental justice communities. In a National Committee for Responsive Philanthropy (NCRP) study, “Cultivating the Grassroots: A Winning Approach for Environmental and Climate Funders,” Hansen reported that philanthropies awarded most of their environmental dollars to large, predominantly white groups but received little return in terms of law and policy. Meanwhile, wrote Hansen, too few dollars have been invested in community- and environmental justice-based organizations.

According to the NCRP report, environmental organizations with $5 million-plus budgets made up only 2 percent of green groups in general but in 2009 received half of all grants in the field. The NCRP also found that 15 percent of all green dollars benefited marginalized populations between 2007 and 2009. Only 11 percent went to social justice causes.

In January, Harvard professor Theda Skocpol released a study of the first climate bill campaign’s failure and faulted green groups involved for choosing direct congressional lobbying over grassroots organizing. Some of the major organizations did spend money on field organizers, wrote Skocpol, but only to push public messaging like billboards and advertisements.

“The messaging campaigns would not make it their business to actually shape legislation — or even talk about details with ordinary citizens or grassroots groups,” Skocpol wrote in the report. The public “is seen as a kind of background chorus that, hopefully, will sing on key.”

Take one for the team?

That the environmental movement thought billboards and ads could replace educating and organizing actual people was their biggest flaw, a position shared by Hansen and Skocpol. In comparison, health reform advocates took a lobbying and grassroots approach while the climate-change bill made the rounds and got a law passed.

“If you want to gain the trust of the emerging non-white majority, it’s not just a messaging thing,” explains Ryan Young, legal counsel for the California-based Greenlining Institute, a policy research nonprofit focused on economic, environmental, and racial justice. “It’s a values thing. You must understand the values of these communities and craft policy around that.”

Why does this matter?

Consider how the website of the National Wildlife Federation (NWF) recently featured an article on city bird sanctuaries from the group’s print magazine titled “Urban Renewal.”

Having people of color on staff might have helped NWF understand that for some, “urban renewal” signifies a historical legacy of black and Latino neighborhoods being effectively erased by development projects such as sports stadiums. Cultural snafus like this have led to white environmental groups being clowned in influential outlets including The Daily Show.

In an interview about the unintended message of “Urban Renewal,” Jim Lyon, NWF’s vice president for conservation policy, told that the group doesn’t “always get everything right” and that “he’d take it back to his staff.” (Ironically, one of the harshest critiques of urban renewal came from Jane Jacobs, a white conservationist.) On the topic of staff diversity, Lyon said the organization isn’t where they want it to be, but that they’ve made “good progress.” He would not release staff demographics, but said NWF achieves diversity through partnerships with other groups and programs like Eco-Schools USA, which he says “engages more than 1 million children of color” daily.

Beverly Wright, who heads the New Orleans-based Deep South Center for Environmental Justice, says racial oversights of traditionally white groups are the main reason black and Latino environmentalists have formed their own organizations. The culturally divided camps sometimes use the same words, but they’re often speaking different languages.

Take “cap-and-trade,” a scheme that would commodify greenhouse gas emissions for market-trading as a way to reduce those emissions. The first climate bill centered on cap-and-trade because most major environmental groups supported it. But cap-and-trade was anathema to environmental justice because it did nothing to curb local co-pollutants such as smog and soot, direct threats to communities of color. That’s not to mention that cap-and-trade was the brainchild of C. Boyden Gray, a conservative member of the Federalist Society and leader of FreedomWorks, today a major Tea Party funder.

Wright says major green groups tried to coax environmental justice organizations into supporting cap-and-trade by claiming it was for the “greater good.”

“But that meant white people get all the greater goods and we get the rest,” says Wright. “Until they want to have real discussions around racism, they won’t have our support. That’s what happened last time with the climate bill. It did not move, because they did not have diversity in their voices.”

“Diversity” doesn’t just mean hiring more people of color. As the 30-year-old Center for Health, Environment and Justice stated in March, the diversity conversation “really needs to be about resources and assistance to the front line communities rather than head counting.”

What’s next?

So in the new round of climate bill talks, will large environmental groups meaningfully engage community-based environmental justice groups?

The prognosis is mixed. Look at MomentUs, a mammoth collaborative started in January to ramp up support for new climate legislation. While MomentUs claims to be a game-changer, the strategy behind it seems very similar to that of USCAP’s — the one that failed to deliver a climate-change law the first time around. On its website, MomentUs describes its board of directors as “cultural, environmental, business, and marketing leaders who offer the diversity of viewpoints and keen insight vital to advancing MomentUs’s mission.” At press time, all of the directors are white. So is the staff, except for one office administrator.

Looking at MomentUs partners, it appears that the same traditionally white environmental organizations who teamed up for USCAP are now working with corporations including ALEC funder Duke Energy, predatory subprime mortgage king Wells Fargo, perennial labor union target Sodexho, and Disney. At press time there are no environmental justice or civil rights groups involved.

On the other side of the spectrum, The Sierra Club — one of the nation’s largest and whitest green groups — has had an expansive role in environmental justice and advocacy, particularly in the Gulf Coast. In January it joined the NAACP and labor unions in launching the Democracy Initiative, which will tackle voting rights, environmental justice, and other civil rights concerns.

To be sure, it’s way too early to make a conclusion about MomentUs or the Democracy Initiative, but the latter appears to be a step in the right direction in terms of highlighting the intersection between poor environmental outcomes and racism.

McKibben, the founder, has helped cultivate a multicultural fight against the Keystone XL pipeline project, but he admits that the overall environmental movement has “tons of work to do” on racial equity and inclusion.

“The sooner [mainstream environmentalists] absorb the message and are led by members of the environmental justice movement, the better,” he says.

In that case, the question is a matter of timing and power, of who decides when and which environmental justice activists get to lead.

Stay tuned.

Brentin Mock is a New Orleans-based journalist who serves as ColorLines’s reporting fellow on voting rights.     

How Science Can Predict Where You Stand on Keystone XL (Mother Jones)

Want to make sense of the feud between pipeline activists and “hippie-punching” moderates? Talk to the researchers.

—By  | Wed Apr. 17, 2013 3:00 AM PDT

Washington monument with protestors around itThe anti-Keystone “Forward on Climate” rally in Washington DC, February 17th, 2013. Jay Mallin/ZUMA Press

On February 17, more than 40,000 climate change activists—many of them quite young—rallied in Washington, DC, to oppose the Keystone XL pipeline, which will transport dirty tar sands oil from Canada across the heartland. The scornful response from media centrists was predictable. Joe Nocera of the New York Times, for one, quickly went on the attack. In a column titled “How Not to Fix Climate Change,” he wrote that the strategy of activists “who have made the Keystone pipeline their line in the sand is utterly boneheaded.”

Nocera, who accepts the science of climate change, made a string of familiar arguments: The tar sands will be exploited anyway, the total climate contribution of the oil that would be transported by Keystone XL is minimal, and so on. Perhaps inspired by Nocera-style thinking, a group of 17 Democratic senators would later cast a symbolic vote in favor of the pipeline, signaling that opposing industrial projects is not the brand of environmentalism that they, at least, have in mind.

The Keystone activists, not surprisingly, were livid. Not only did they challenge Nocera’s facts, they utterly rejected his claims as to the efficacy of their strategy: Opponents of the pipeline have often argued that it is vital to push the limits of the possible—in particular, to put unrelenting pressure on President Obama to lead on climate change. Van Jones, the onetime Obama clean-energy adviser and a close supporter of founder and Keystone protest leader Bill McKibben, has put it like this: “I think activism works…The lesbian, gay, bisexual, and transgender movement kept pushing on the question of marriage equality, and the president came out for marriage equality, which then had a positive effect on public opinion and helped that movement win at the ballot box and in a number of states, within months.”

This article is about the emotionally charged dispute between climate activists and environmental moderates, despite their common acceptance of the science of climate change. Why does this sort of rift exist on so many issues dividing the center from the left? And what can we actually say about which side is, you know, right?

Does Joe Nocera really have a sound basis for calling the pipeline opponents’ strategy boneheaded—or is that just his gut feeling as a centrist? Does Van Jones have any basis for claiming that activism works—or is it just his gut feeling as someone favorably disposed towards activism?

This line of inquiry should prove duly humbling to both activists and moderates—and help to unite them.

It’s high time we considered the science on these questions. There is, after all, considerable scholarly work on whether activists, by pushing the boundaries of what seems acceptable, create the conditions for progress or, instead, bring about backlashes that can complicate the jobs of sympathetic policymakers.

There’s also data that may shed light on why these rifts between “moderates” and “activists” are more the rule than the exception—across the ideological spectrum. “I can’t really think of any movement where there isn’t some internal dissent about goals and tactics,” says Carleton College political scientist Devashree Gupta, who studies social movements. The recurrence of this pattern on issues from civil rights to gun control to abortion suggests that there is something here that’s well worth understanding, preferably before the next rhetorical bloodbath around Keystone.

A chief benefit of this line of inquiry: It should prove duly humbling to activists and moderates alike—and thus might help to unite them.

FROM THE OUTSET, I think we can agree on one fundamental point: Over the past several years, driven by the failure of cap and trade and a worsening climate crisis, America’s environmental movement has become considerably more activist in nature—some might even say “radical.” Exhibit A is the successful attempt by inspirer-in-chief McKibben (who has written extensively about climate for Mother Jones) to create a grassroots protest movement rather than simply to work within the corridors of power.

“What Bill is doing is actually quite impressive—he’s the first one to create a social movement around climate change, and he’s done it by creating a common enemy, the oil industry, and a salient target, which is Keystone,” says Andrew Hoffman, a professor at the University of Michigan who studies environmental politics.

There’s really little doubt that the “dark greens” are on the ascendant.

One crucial aspect of this shift is a growing reluctance by environmentalists to work hand in hand with big polluters. The latter was a central feature of the US Climate Action Partnership, the industry-environmental collaboration that led an unsuccessful cap-and-trade push a few years back. Nowadays, the environmental movement is moving toward a more oppositional relationship with industry, as evidenced by its attempts to block a major industrial project (Keystone) and to get universities and cities to drop their investments in fossil fuel companies (another of McKibben’s goals).

The rival environmental factions are sometimes described as “dark greens” (the purists who want to force radical change) and “bright greens” (those who seek compromise and accept tradeoffs). There’s really little doubt that dark greens are on the ascendant. “He’s pulling the flank out,” Hoffman says of McKibben. “I do think he has a valuable role in creating a space where others can create a more moderate role.”

Then along come the moderates, unleashing flurries of “hippie punching” under the guise of being more rational than the activists they are criticizing.

It’s also fair to say that McKibben—the charismatic journalist-turned-organizer—lies a good way to the political left. Its centrist biases notwithstanding, a recent paper by American University communications professor Matthew Nisbet does capture McKibben’s “romantic” ideology: Like most people, he’s unhappy about environmental degradation, but he also seems opposed, in a significant sense, to the economic growth engine that drives it. He believes in living smaller, in going back to nature, in consuming less—not a position many politicians would be willing to espouse. (Indeed, President Obama’s comments about climate change often contain an explicit rejection of the idea that environmental and economic progress are mutually exclusive.)

So environmentalists are moving left and becoming more activist in response to political gridlock and scary planetary rumblings. Then along come the moderates, unleashing flurries of what Grist‘s David Roberts calls “hippie punching” under the guise of being more rational and reasoned than those they are criticizing. For example, Nisbet writes: “McKibben’s line-in-the-sand opposition to the Keystone XL oil pipeline, his skepticism of technology, and his romantic vision of a future consisting of small-scale, agrarian communities reflects his own values and priorities, rather than a pragmatic set of choices designed to effectively and realistically address the problem of climate change.”

You can see how an activist might find this just a tad irritating. For what is Nisbet’s statement if not a reflection of his own values and priorities? Words like “pragmatic” and “realistic” give away the game.

Carbon Dioxide Removal Can Lower Costs of Climate Protection (Science Daily)

Apr. 12, 2013 — Directly removing CO2 from the air has the potential to alter the costs of climate change mitigation. It could allow prolonging greenhouse-gas emissions from sectors like transport that are difficult, thus expensive, to turn away from using fossil fuels. And it may help to constrain the financial burden on future generations, a study now published by the Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK) shows. It focuses on the use of biomass for energy generation, combined with carbon capture and storage (CCS). According to the analysis, carbon dioxide removal could be used under certain requirements to alleviate the most costly components of mitigation, but it would not replace the bulk of actual emissions reductions. 

Directly removing CO2 from the air has the potential to alter the costs of climate change mitigation. It could allow prolonging greenhouse-gas emissions from sectors like transport that are difficult, thus expensive, to turn away from using fossil fuels. And it may help to constrain the financial burden on future generations, a new study shows. It focuses on the use of biomass for energy generation, combined with carbon capture and storage. (Credit: © Jürgen Fälchle / Fotolia)

“Carbon dioxide removal from the atmosphere allows to separate emissions control from the time and location of the actual emissions. This flexibility can be important for climate protection,” says lead-author Elmar Kriegler. “You don’t have to prevent emissions in every factory or truck, but could for instance plant grasses that suck CO2 out of the air to grow — and later get processed in bioenergy plants where the CO2 gets stored underground.”

In economic terms, this flexibility allows to lower costs by compensating for emissions which would be most costly to eliminate. “This means that a phase-out of global emissions by the end of the century — that we would need to hold the 2 degree line adopted by the international community — does not necessarily require to eliminate each and every source of emissions,” says Kriegler. “Decisions whether and how to protect future generations from the risks of climate change have to be made today, but the burden of achieving these targets will increase over time. The costs for future generations can be substantially reduced if carbon dioxide removal technologies become available in the long run.”

Balancing the financial burden across generations

The study now published is the first to quantify this. If bioenergy plus CCS is available, aggregate mitigation costs over the 21st century might be halved. In the absence of such a carbon dioxide removal strategy, costs for future generations rise significantly, up to a quadrupling of mitigation costs in the period of 2070 to 2090. The calculation was carried out using a computer simulation of the economic system, energy markets, and climate, covering a range of scenarios.

Options for carbon dioxide removal from the atmosphere include afforestation and chemical approaches like direct air capture of CO2 from the atmosphere or reactions of CO2 with minerals to form carbonates. But the use of biomass for energy generation combined with carbon capture and storage is less costly than chemical options, as long as sufficient biomass feedstock is available, the scientists point out.

Serious concerns about large-scale biomass use combined with CCS

“Of course, there are serious concerns about the sustainability of large-scale biomass use for energy,” says co-author Ottmar Edenhofer, chief-economist of PIK. “We therefore considered the bioenergy with CCS option only as an example of the role that carbon dioxide removal could play for climate change mitigation.” The exploitation of bioenergy can conflict with land-use for food production or ecosystem protection. To account for sustainability concerns, the study restricts the bioenergy production to a medium level, that may be realized mostly on abandoned agricultural land.

Still, global population growth and changing dietary habits, associated with an increased demand for land, as well as improvements of agricultural productivity, associated with a decreased demand for land, are important uncertainties here. Furthermore, CCS technology is not yet available for industrial-scale use and, due to environmental concerns, is controversial in countries like Germany. Yet in this study it is assumed that it will become available in the near future.

“CO2 removal from the atmosphere could enable humankind to keep the window of opportunity open for low-stabilization targets despite of a likely delay in international cooperation, but only under certain requirements,” says Edenhofer. “The risks of scaling up bioenergy use need to be better understood, and safety concerns about CCS have to be thoroughly investigated. Still, carbon dioxide removal technologies are no science fiction and need to be further explored.” In no way should they be seen as a pretext to neglect emissions reductions now, notes Edenhofer. “By far the biggest share of climate change mitigation has to come from a large effort to reduce greenhouse-gas emissions globally.”

Journal Reference:

  1. Elmar Kriegler, Ottmar Edenhofer, Lena Reuster, Gunnar Luderer, David Klein. Is atmospheric carbon dioxide removal a game changer for climate change mitigation? Climatic Change, 2013; DOI: 10.1007/s10584-012-0681-4

Everybody Knows. Climate Denialism has peaked. Now what are we going to do? (EcoEquity)

– Tom Athanasiou (  April 2, 2013.

It was never going to be easy to face the ecological crisis.  Even back in the 1970s, before climate took center stage, it was clear that we the prosperous were walking far too heavily.  And that “environmentalism,” as it was called, was only going to be a small beginning.  But it was only when the climate crisis pushed fossil energy into the spotlight that the real stakes were widely recognized.  Fossil fuels are the meat and potatoes of industrial civilization, and the need to rapidly and radically reduce their emissions cut right through to the heart of the great American dream.  And the European dream.  And, inevitably, the Chinese dream as well.

Decades later, 81% of global energy is still supplied by the fossil fuels: coal, gas, and oil.[1]  And though the solar revolution is finally beginning, the day is late.  The Arctic is melting, and, soon, as each year the northern ocean lies bare beneath the summer sun, the warming will accelerate.  Moreover, our plight is becoming visible.  We have discovered, to our considerable astonishment, that most of the fossil fuel on the books of our largest corporations is “unburnable” – in the precise sense that, if we burn it, we are doomed.[2]  Not that we know what to do with this rather strange knowledge.  Also, even as China rises, it’s obvious that it’s not the last in line for the promised land.  Billions of people, all around the world, watch the wealthy on TV, and most all of them want a drink from the well of modern prosperity.  Why wouldn’t they?  Life belongs to us all, as does the Earth.

The challenge, in short, is rather daunting.

The denial of the challenge, on the other hand, always came ready-made.  As Francis Bacon said so long ago, “what a man would rather were true, he more readily believes.”  And we really did want to believe that ours was still a boundless world.  The alternative – an honest reckoning – was just too challenging.  For one thing, there was no obvious way to reconcile the Earth’s finitude with the relentless expansion of the capitalist market.  And as long as we believed in a world without limits, there was no need to see that economic stratification would again become a fatal issue.  Sure, our world was bitterly riven between haves and have-nots, but this problem, too, would fade in time.  With enough growth – the universal balm – redistribution would never be necessary.  In time, every man would be a king.

The denial had many cheerleaders.  The chemical-company flacks who derided Rachel Carson as a “hysterical woman” couldn’t have known that they were pioneering a massive trend.  Also, and of course, big money always has plenty of mouthpieces.  But it’s no secret that, during the 20th Century, the “engineering of consent” reached new levels of sophistication.  The composed image of benign scientific competence became one of its favorite tools, and somewhere along the way tobacco-industry science became a founding prototype of anti-environmental denialism.  On this front, I’m happy to say that the long and instructive history of today’s denialist pseudo-science has already been expertly deconstructed.[3]  Given this, I can safely focus on the new world, the post-Sandy world of manifest climatic disruption in which the denialists have lost any residual aura of scientific legitimacy, and have ceased to be a decisive political force.  A world in which climate denialism is increasingly seen, and increasingly ridiculed, as the jibbering of trolls.

To be clear, I’m not claiming that the denialists are going to shut up anytime soon.  Or that they’ll call off their suicidal, demoralizing campaigns.  Or that their fogs and poisons are not useful to the fossil-fuel cartel.  But the battle of the science is over, at least as far as the scientists are concerned.  And even on the street, hard denialism is looking pretty ridiculous.  To be sure, the core partisans of the right will fight on, for the win and, of course, for the money.[4]  And they’ll continue to have real weight too, for just as long as people do not believe that life beyond carbon is possible.  But for all this, their influence has peaked, and their position is vulnerable.  They are – and visibly now – agents of a mad and dangerous ideology.  They are knaves, and often they are fools.[5]

As for the rest of us, we can at least draw conclusions, and make plans.

As bad as the human prospect may be – and it is quite bad – this is not “game over.”  We have the technology we need to save ourselves, or most of it in any case; and much of it is ready to go.  Moreover, the “clean tech” revolution is going to be disruptive indeed.  There will be cascades of innovation, delivering opportunities of all kinds, all around the world.  Also, our powers of research and development are strong.  Also, and contrary to today’s vogue for austerity and “we’re broke” political posturing, we have the money to rebuild, quickly and on a global scale.  Also, we know how to cooperate, at least when we have to.  All of which is to say that we still have options.  We are not doomed.

But we are in extremely serious danger, and it is too late to pretend otherwise.  So allow me to tip my hand by noting Jorgen Randers’ new book, 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years.[6]  Randers is a Norwegian modeler, futurist, professor, executive, and consultant who made his name as co-author of 1972’s landmark The Limits to Growth.  Limits, of course, was a global blockbuster; it remains the best-selling environmental title of all times.  Also, Limits has been relentlessly ridiculed (the early denialists cut their teeth by distorting it[7]) so it must be said that – very much contrary to the mass-produced opinions of the denialist age – its central, climate-related projections are holding up depressingly well.[8]

By 2012 (when he published 2052) Randers had decided to step away from the detached exploration of multiple scenarios that was the methodological core of Limits, and to make actual predictions.  After a lifetime of frustrated efforts, these predictions are vivid, pessimistic and bitter.  In a nutshell, Randers doesn’t expect anything beyond what he calls “progress as usual,” and while he expects it to yield a “light green” buildout (e.g., solar on a large scale) he doesn’t think it will suffice to stabilize the climate system.  Such stabilization, he grants, is still possible, but it would require concerted global action on a scale that neither he nor Dennis Meadows, the leader of the old Limits team, see on today’s horizon.  Let’s call that kind of action global emergency mobilization.  Meadows, when he peers forwards, sees instead “many decades of uncontrolled climatic disruption and extremely difficult decline.”[9]  Randers is more precise, and predicts that we will by 2052 wake to find ourselves on a dark and frightening shore, knowing full well that our planet is irrevocably “on its way towards runaway climate change in the last third of the twenty-first century.”

This is an extraordinary claim, and it requires extraordinary evidence.[10]  Such evidence, unfortunately, is readily available, but for the moment let me simply state the public secret of this whole discussion.  To wit: we (and I use this pronoun advisedly) can still avoid a global catastrophe, but it’s not at all obvious that we will do so.  What is obvious is that stabilizing the global climate is going to be very, very hard.  Which is a real problem, because we don’t do hard anymore.  Rather, when confronted with a serious problem, we just do what we can, hoping that it will be enough and trying our best not to offend the rich.  In truth, and particularly in America, we count ourselves lucky if we can manage governance at all.

This essay is about climate politics after legitimate skepticism.  Climate politics in a world where, as Leonard Cohen put it, “everybody knows.”  What does this mean?  In the first place, it means that we’ve reached the end of what might be called “environmentalism-as-usual.”  This point is widely understood and routinely granted, as when people say something like “climate is not a merely environmental problem,” but my concern is a more particular one.  As left-green writer Eddie Yuen astutely noted in a recent book on “catastrophism,” the problems of the environmental movement are to a very large degree rooted in “the pairing of overwhelmingly bleak analysis with inadequate solutions.”[11]  This is exactly right.

The climate crisis demands a “new environmentalism,” and such a thing does seem to be emerging.  It’s final shape is unknowable, but one thing is certain – the environmentalism that we need will only exist when its solutions and strategies stand up to its own analyses.  The problem is that this requires us to take our “overwhelmingly bleak” analyses straight, rather than soft-pedaling them so that our “inadequate solutions” might look good.  Pessimism, after all, is closely related to realism.  It cannot just be wished away.

Soft-pedaling, alas, has long been standard practice, on both the scientific and the political sides of the climate movement.  Examples abound, but the best would have to be the IPCC itself, the U.N’s Intergovernmental Panel on Climate Change.  The world’s premier climate-science clearinghouse, the IPCC is often attacked from the right, and has developed a shy and reticent culture.  Even more importantly, though, and far more rarely noted, is that the IPCC is conservative by definition and by design.[12]  It almost has to be conservative to do its job, which is to herd the planet’s decision makers towards scientific realism.  The wrinkle is that, at this point, this isn’t even close to being good enough, not at least in the larger scheme.  At this point, we need strategic realism as well as baseline scientific realism, and it demands a brutal honesty in which underlying scientific and political truths are clearly drawn and publicly expressed.

Yet when it comes to strategic realism, we balk.  The first impulse of the “messaging” experts is always to repeat their perennial caution that sharp portraits of the danger can be frightening, and disempowering, and thus lead to despair and passivity.  This is an excellent point, but it’s only the beginning of the truth, not the end.  The deeper problem is that the physical impacts of climate disruption – the destruction and the suffering – will continue to escalate.  “Superstorm Sandy” was bad, but the future will be much worse.  Moreover, the most severe suffering will be far away, and easy for the good citizens of the wealthy world to ignore.  Imagine, for example, a major failure of the Indian Monsoon, and a subsequent South Asian famine.  Imagine it against a drumbeat background in which food is becoming progressively more expensive.  Imagine the permanence of such droughts, and increasing evidence of tipping points on the horizon, and a world in which ever more scientists take it upon themselves to deliver desperate warnings.  The bottom line will not be the importance of communications strategies, but rather the manifest reality, no longer distant and abstract, and the certain knowledge that we are in deep trouble.  And this is where the dangers of soft-pedaling lie.  For as people come to see the scale of the danger, and then to look about for commensurate strategies and responses, the question will be if such strategies are available, and if they are known, and if they are plausible.  If they’re not, then we’ll all going, together, down the road “from aware to despair.”

Absent the public sense of a future in which human resourcefulness and cooperation can make a decisive difference, we assuredly face an even more difficult future in which denial fades into a sense of pervasive hopelessness.  The last third of the century (when Randers is predicting “runaway climate change”) is not so very far away.  Which is to say that, as denialism collapses – and it will – the challenge of working out a large and plausible response to the climate crisis will become overwhelmingly important.  If we cannot imagine such a response, and explain how it would actually work, then people will draw their own conclusions.  And, so far, it seems that we cannot.  Even those of us who are now climate full-timers don’t have a shared vision, not in any meaningful detail, nor do we have a common sense of the strategic initiatives that could make such a vision cohere.

The larger landscape is even worse.  For though many scientists are steeling themselves to speak, the elites themselves are still stiff and timid, and show few signs of rising to the occasion.  Each month, it seems, there’s another major report on the approaching crisis – the World Bank, the National Intelligence Council, and the International Energy Agency have all recently made hair-raising contributions – but they never quite get around to the really important questions.  How should we contrive the necessary global mobilization?  What conditions are needed to absolutely maximize the speed of the clean-tech revolution?  By what strategy will we actually manage to keep the fossil-fuels in the ground?  What kind of international treaties are necessary, and how shall we establish them?  What would a fast-enough global transition cost, and how shall we pay for it?  What about all those who are forced to retreat from rising waters and drying lands?  How shall they live, and where?  How shall we talk about rights and responsibilities in the Greenhouse Century?  And what about the poor?  How shall they find futures in a climate-constrained world?  Can we even imagine a world in which they do?

In the face of such questions, you have a choice.  You can conclude that we’ll just have to do the best we can, and then you can have a drink.  Or maybe two.  Or you can conclude that, despite all evidence to the contrary, enough of us will soon awaken to reality.  What’s certain is that, all around us, there is a vast potentiality – for reinvention, for resistance, for redistribution, and for renewal of all kinds – and that it could at any time snap into solidity.  And into action.

Forget about “hope.”  What we need now is intention.


About a decade ago, in San Francisco, I was on a PBS talk show with, among others, Myron Ebell, chief of climate propaganda at the Competitive Enterprise Institute.  Ebell is an aggressive professional, and given the host’s commitment to phony balance he was easily able to frame the conversation.[13]  The result was a travesty, but not an entirely wasted time, at least not for me.  It was instructive to speak, tentatively, of the need for global climate justice, and to hear, in response, that I was a non-governmental fraud that was only in it for the money.  Moreover, as the hour wore on, I came to appreciate the brutal simplicity of the denialist strategy.  The whole point is to suck the oxygen out of the room, to weave such a tangle of confusionism and pseudo-debate that the Really Big Question – What is to be done? – becomes impossible to even ask, let alone discuss.

When Superstorm Sandy slammed into the New York City region, Ebell’s style of hard denialism took a body blow, though obviously it has not dropped finally to the mat.  Had it done do, the Big Question, in all its many forms, would be buzzing constantly around us.  Clearly, that great day has not yet come.  Still, back in November of 2012, when Bloomberg’s Business Week blared “It’s Global Warming, Stupid” from its front cover, this was widely welcomed as a overdue milestone.  It may even be that Michael Tobis, the editor of the excellent Planet 3.0, will prove correct in his long-standing, half-facetious prediction that 2015 will be the date when “the Wall Street Journal will acknowledge the indisputable and apparent fact of anthropogenic climate change; the year in which it will simply be ridiculous to deny it.”[14]  Or maybe not.  Maybe that day will never come.  Maybe Ebell’s style of well-funded, front-group denialism will live on, zombie-like, forever.  Or maybe (and this is my personal prediction) hard climate denialism will soon go the way of creationism and far-right Christianity, becoming a kind of political lifestyle choice, one that’s dangerous but contained.  One that’s ultimately more dangerous to the right than it is to the reality-based community.

If so, then at some point we’re going to have to ask ourselves if we’ve been so long distracted by the hard denialists that we’ve missed the parallel danger of a “soft denialism.”  By which I mean the denialism of a world in which, though the dangers of climate change are simply too ridiculous to deny, they still – somehow – are not taken to imply courage, and reckoning, and large-scale mobilization.  This is a long story, but the point is that, now that the Big Question is finally on the table, we’re going to have to answer it.  Which is to say that we’re going to have to face the many ways in which political timidity and small-bore realism have trained us to calibrate our sense of what must be done by our sense of what can be done, which these days is inadequate by definition.

And not just because of the denialists.

George Orwell once said that “To see what is in front of one’s nose needs a constant struggle.”[15]  As we hurtle forward, this struggle will rage as never before.  The Big Question, after all, changes everything.  Another way of saying this is that our futures will be shaped by the effort to avoid a full-on global climate catastrophe.  Despite all the rest of the geo-political and geo-economic commotion that will mark the 21st Century (and there’ll be plenty) it will be most fundamentally the Greenhouse Century.  We know this now, if we care to, though still only in preliminary outline.  The details, inevitably, will surprise us all.

The core problem, of course, will be “ambition” – action on the scale that’s actually necessary, rather than the scale that is or appears to be possible.  And here, the legacies of the denialist age – the long-ingrained habits of soft-pedaling and strained optimism – will weigh heavily.  Consider the quasi-official global goal (codified, for example, in the Copenhagen Accord) to hold total planetary warming to 2°C (Earth surface average) above pre-industrial levels.  This is the so-called “2°C target.”  What are we to do with it in the post-denialist age?  Let me count the complications: One, all sorts of Very Important People are now telling us it’s going to all but impossible to avoid overshooting 2°C.[16]  Two, in so doing, they are making a political and not a scientific judgment, though they’re not always clear on this point.  (It’s probably still technically possible to hold the 2°C line – if we’re not too unlucky – though it wouldn’t be easy under the best of circumstances.)[17]  Three, the 2°C line, which was once taken to be reasonably safe, is now widely seen (at least among the scientists) to mark the approximate point of transition from “dangerous” to “extremely dangerous,” and possibly to altogether unmanageable levels of warming.[18]  Four, and finally, it’s now widely recognized that any future in which we approach the 2°C line (which we will do) is one in which we also have a real possibility of pushing the average global temperature up by 3°C, and if this were to come to pass we’d be playing a very high-stakes game indeed, one in which uncontrolled positive feedbacks and worst-case scenarios were surrounding us on every side.

The bottom line is today as it was decades ago.  Greenhouse-gas emissions were increasing then, and they are increasing now.  In late 2012, the authoritative Global Carbon Project reported that, since 1990, they had risen by an astonishing 58 percent.[19]  The climate system has unsurprisingly responded with storms, droughts, ice-melt, conflagrations and floods.  The weather has become “extreme,” and may finally be getting our attention.  In Australia, according to the acute Mark Thomson of the Institute for Backyard Studies in Adelaide, the crushing heatwave of early 2013 even pushed aside “the idiot commentariat” and cleared the path for a bit of 11th-hour optimism: “Another year of this trend will shift public opinion wholesale.  We’re used to this sort of that temperature now and then and even take a perverse pride in dealing with it, but there seems to be a subtle shift in mood that ‘This Could Be Serious.’”  Let’s hope he’s right.  Let’s hope, too, that the mood shift that swept through America after Sandy also lasts, and leads us, too, to conclude that ‘This Could Be Serious.’  Not that this alone would be enough to support a real mobilization – the “moral equivalent of war” that we need – but it would be something.  It might even lead us to wonder about our future, and about the influence of money and power on our lives, and to ask how serious things will have to get before it becomes possible to imagine a meaningful change of direction.

The wrinkle is that, before we can advocate for a meaningful change of direction, we have to have one we believe in, one that we’re willing to explain in global terms that actually scale to the problem.  None of which is going to be easy, given that we’re fast approaching a point where only tales of existential danger ring true.  (cf the zombie apocalypse).  The Arctic ice, as noted above, offers an excellent marker.  In fact, the first famous photos of Earth from space – the “blue marble” photos taken in 1972 by the crew of the Apollo 17 – allow us to anchor our predicament in time and in memory.  For these are photos of an old Earth now passed away; they must be, because they show great expanses of ice that are nowhere to be found.  By August of 2012 the Arctic Sea’s ice cover had declined by 40%,[20] a melt that’s easily large enough to be visible from space.  Moreover, beneath the surface, ice volume is dropping even more precipitously.  The polar researchers who are now feverishly evaluating the great melting haven’t yet pushed the entire scientific community to the edge of despair, though they have managed to inspire a great deal of dark muttering about positive feedbacks and tipping points.  Soon, it seems, that muttering will become louder.  Perhaps as early as 2015, the Arctic Ocean will become virtually ice free for the first time in recorded history.[21]  When it does, the solar absorptivity of the Arctic waters will increase, and shift the planetary heat balance by a surprisingly large amount, and by so doing increase the rate of  planetary warming.  And this, of course, will not be end of it.  The feedbacks will continue.  The cycles will go on.

Should we remain silent about such matters, for risk of inflaming the “idiot commentariat?”  It’s absurd to even ask.  The suffering is already high, and if you know the science, you also know that the real surprise would be an absence of positive feedbacks.  The ice melt, the methane plumes, the drying of the rainforests – they’re all real.  Which is to say that there are obviously tipping points before us, though we do not and can not know how much time will pass before they force themselves upon our attention.  The real question is what we must do if we would talk of them in good earnest, while at the same time speaking, without despair and effectively, about the human future.

[1] Jorgen Randers, 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years, Chelsea Green, 2012, page 99.

[2] Begin at the Carbon Track Initiative’s website.

[3] Two excellent examples: Naomi Oreskes, Erik M. M. Conway, Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming, Bloomsbury Press, 2011,  Chris Mooney, The Republican War on Science, Basic Books, 2006.

[4] See, for example, Suzanne Goldenberg, “Secret funding helped build vast network of climate denial thinktanks,” February 14, 2013, The Guardian.

[5] “Lord Monckton,” in particular, is fantastic.  See

[6] Randers, 2012.  See also Randers’ essay and video at the University of Cambridge 2013 “State of Sustainability Leadership,” at

[7] Ugo Bardi, in The Limits to Growth Revisited (Springer Briefs, 2011) offers this summary:

“If, at the beginning, the debate on LTG had seemed to be balanced, gradually the general attitude on the study became more negative. It tilted decisively against the study when, in 1989, Ronald Bailey published a paper in “Forbes” where he accused the authors of having predicted that the world’s economy should have already run out of some vital mineral commodities whereas that had not, obviously, occurred.

Bailey’s statement was only the result of a flawed reading of the data in a single table of the 1972 edition of LTG. In reality, none of the several scenarios presented in the book showed that the world would be running out of any important commodity before the end of the twentieth century and not even of the twenty-first. However, the concept of the “mistakes of the Club of Rome” caught on. With the 1990s, it became commonplace to state that LTG had been a mistake if not a joke designed to tease the public, or even an attempt to force humankind into a planet-wide dictatorship, as it had been claimed in some earlier appraisals (Golub and Townsend 1977; Larouche 1983). By the end of the twentieth century, the victory of the critics of LTG seemed to be complete. But the debate was far from being settled.”

[8] See, for example, Graham Turner, “A Comparison of The Limits to Growth with Thirty Years of Reality.” Global Environmental Change, Volume 18, Issue 3, August 2008, Pages 397–411.  An unprotected copy (without the graphics) can be downloaded at  Also

[9] In late 2012, Dennis Meadows said that “In the early 1970s, it was possible to believe that maybe we could make the necessary changes.  But now it is too late.  We are entering a period of many decades of uncontrolled climatic disruption and extremely difficult decline.”  See Christian Parenti, “The Limits to Growth’: A Book That Launched a Movement,” The Nation, December 24, 2012.

[11] Eddie Yuen, “The Politics of Failure Have Failed: The Environmental Movement and Catastrophism,” in Catastrophism: The Apocalyptic Politics of Collapse and Rebirth, Sasha Lilley, David McNally, Eddie Yuen, James Davis, with a foreword by Doug Henwood. PM Press 2012.  Yuen’s whole line is “the main reasons that [it] has not led to more dynamic social movements; these include catastrophe fatigue, the paralyzing effects of fear; the pairing of overwhelmingly bleak analysis with inadequate solutions, and a misunderstanding of the process of politicization.” 

[12] See Glenn Scherer, “Special Report: IPCC, assessing climate risks, consistently underestimates,” The Daily Climate, December 6, 2012.   More formally (and more interestingly) see Brysse, Oreskes, O’Reilly, and Oppenheimer, “Climate change prediction: Erring on the side of least drama?,” Global Environmental Change 23 (2013), 327-337.

[13] KQED-FM, Forum, July 22, 2003.

[14] Michael Tobis, editor of Planet 3.0, is amusing on this point.  He notes that “many data-driven climate skeptics are reassessing the issue,” that “In 1996 I defined the turning point of the discussion about climate science (the point where we could actually start talking about policy) as the date when theWall Street Journal would acknowledge the indisputable and apparent fact of anthropogenic climate change; the year in which it would simply be ridiculous to deny it.  My prediction was that this would happen around 2015… I’m not sure the WSJ has actually accepted reality yet.  It’s just starting to squint in its general direction.  2015 still looks like a good bet.”  See

[15] The Collected Essays, Journalism and Letters of George Orwell: In Front of Your Nose, 1945-1950, Sonia Orwell and Ian Angus, Editors / Paperback / Harcourt Brace Jovanovich, 1968, p. 125.

[16] See for example, Fatih Birol and Nicholas Stern, “Urgent steps to stop the climate door closing,” The Financial Times, March 9, 2011.  And see Sir Robert Watson’s Union Frontiers of Geophysics Lecture at the 2012 meeting of the American Geophysical Union, at

[17] I just wrote “probably still technically possible.”  I could have written “Excluding the small probability of a very bad case, and the even smaller probability of a very good case, it’s probably still technically possible to hold the 2°C line, though it wouldn’t be easy.”  This, however, is a pretty ugly sentence.  I could also have written “Unless we’re unlucky, and the climate sensitivity turns out be on the high side of the expected range, it’s still technically possible to hold the 2°C line, though it wouldn’t be easy, unless we’re very lucky, and the climate sensitivity turns out to be on the low side.”  Saying something like this, though, kind of puts the cart before the horse, since I haven’t said anything about “climate sensitivity,” or about how the scientists think about probability – and of course it’s even uglier.  The point, at least for now, is that climate projections are probabilistic by nature, which does not mean that they are merely “uncertain.”  We know a lot about the probabilities.

[18] See Kevin Anderson, a former director of Britain’s Tyndall Center, who has been unusually frank on this point.  His views are clearly laid out in a (non-peer-reviewed) essay published by the Dag Hammarskjold Foundation in Sweden.  See “Climate change going beyond dangerous – Brutal numbers and tenuous hope” in Development Dialog #61, September 2012, available at  For a peer-reviewed paper, see Anderson and Bows, “Beyond ‘dangerous’ climate change: emission scenarios for a new world.”  Philosophical Transactions of The Royal Society, (2011) 369, 20-44 and for a lecture, see “Are climate scientists the most dangerous climate skeptics?” a Tyndall Centre video lecture (September 2010) at

[19] “The challenge to keep global warming below 2°C,” Glen P. Peters, et. al., Nature Climate Change (2012) 3, 4–6 (2013) doi:10.1038/nclimate1783.  December 2, 2012.  This figure might actually be revised upward, as 2012 saw the second-largest annual  concentration increase on record (

[20] The story of the photos is on Wikipedia – see “blue marble.”  For the latest on the Arctic ice, see the “Arctic Sea Ice News and Analysis” page that the National Snow and Ice Data Center —

[21] Climate Progress is covering the “Arctic Death Spiral” in detail.  See for example Joe Romm, “NOAA: Climate Change Driving Arctic Into A ‘New State’ With Rapid Ice Loss And Record Permafrost Warming,” Climate Progress, Dec 6, 2012.  Give yourself a few hours and follow the links.

Latour: “No estaba escrito que la ecología fuera un partido” (El País)


“No estaba escrito que la ecología fuera un partido”

Sociólogo, antropólogo, filósofo y director científico del Instituto de Estudios Políticos de París.

Bruno Latour tiene una mirada ácida y provocadora de la sociedad y el medio ambiente.

MIGUEL MORA 25 MAR 2013 – 11:52 CET19

Bruno Latour. / MANUEL BRAUN

¿Ha servido para algo el activismo ecológico? ¿Han forjado los verdes una política común? ¿Escuchan los políticos a los científicos cuando alertan sobre el cambio climático? ¿Puede la Tierra soportar más agresiones? El sociólogo, antropólogo y filósofo francés Bruno Latour(Beaune, 1947) lleva más de 20 años reflexionando sobre estos asuntos, y su pronóstico es desolador. A su juicio, la llegada de los ecologistas a la política ha sido un fracaso porque los verdes han renunciado al debate inteligente, los políticos se limitan a aplicar viejas recetas sin darse cuenta de que la revolución se ha producido ya y fue “una catástrofe”: ocurrió en 1947, cuando la población mundial superó el número que garantizaba el acceso a los recursos. Según Latour, es urgente poner en marcha una nueva forma de hacer ecología política, basada en una constitución que comprometa a gobernantes, científicos y ciudadanos a garantizar el futuro de la Tierra. Esta idea es una de las propuestas de su libro Políticas de la naturaleza. Por una democracia de las ciencias, publicado en Francia en 1999 y que ahora edita en español RBA.

Latour, aire de sabio despistado, recibe a El País Semanal en su caótico y enorme despacho del Instituto de Estudios Políticos de París, del que es director científico y director adjunto desde 2007.

PREGUNTA: Este libro se publicó en Francia hace ya 14 años. ¿Sigue suscribiendo lo que escribió?

RESPUESTA: Casi todo, sí. Pero las cosas no han mejorado. He seguido trabajando en lo mismo, pero con otro tono. Hoy debo de ser el único que se ocupa de estas cuestiones, de una filosofía política que exige una verdadera política ecologista. Lo que no ha funcionado es que pensé que iba a ser un libro fundador para los ecologistas. ¡Y ha sido un fracaso total! Los ecologistas han desaparecido.

P: En Francia al menos hay verdes en el Gobierno.

R: Sí, pero tienen una visión muy estrecha de la ecología, no reflexionan ni sobre la economía ni sobre la sociedad. La ecología está limitada a las cuestiones de la naturaleza, cuando en realidad no tiene nada que ver con eso. Hay que elegir entre naturaleza y política. Desgraciadamente, se ha intentado hacer una política ecologista que no ha producido nada bueno porque se ha basado en la lucha tradicional, que tenía como objetivo torpedear la política o, mejor, someterla; en cierto modo, los verdes actúan como un tribunal que trata de definir una especie de soberanía.

P: ¿De superioridad moral o natural?

R: Sí, pero sobre todo de estupidez. Evidentemente, el tomar la naturaleza como un fin no ha hecho más que debilitar la posición de los ecologistas, que nunca han sido capaces de hacer política; en fin, auténtica política en el sentido de la tradición socialista, en la que se hubieran debido inspirar. No han hecho el trabajo que el socialismo primero, el marxismo después y luego la socialdemocracia hicieron. No ha habido, para nada, un trabajo de invención intelectual, de exploración; han preferido “el escaparate”. Puede que no hubiera otra solución, pues no estaba escrito que la ecología se fuera a convertir en un partido.

“Hay una ecología profunda con un gran papel en EE UU y alemania”

P: ¿Entonces el ecologismo es hoy una especie de ac­­tivismo sin conexión científica?

R: Ha habido movimientos interesantes gracias a una casuística muy concreta, importante en lo que concierne a los animales, las plantas, los dientes de los elefantes, el agua, los ríos, etcétera. Han mostrado además gran energía en las cuestiones locales, pero sin afrontar las cuestiones de la política, de la vida en común. Por eso el ecologismo sigue siendo marginal, justo en un momento en que las cuestiones ecológicas se han convertido en un asunto de todos. Y se da una paradoja: la ecología se ocupa de temas minúsculos relacionados con la naturaleza y la sociedad mientras que la cuestión de la Tierra, la presencia de la Tierra en la política, se hace cada vez más apremiante. Esa urgencia, que ya era acuciante hace 10 o 15 años, lo es mucho más ahora.

P: ¿Quizá ha faltado formar una Internacional Verde?

R: No se ha hecho porque los ecologistas pensaban que la Tierra iba a unificar todos estos movimientos. Han surgido un montón de redes, basadas en casos concretos, como Greenpeace. Hay asociaciones, pero nada a nivel político. La internacional sigue siendo la geopolítica clásica de los Estados nación. No ha habido reflexión sobre la nueva situación. Existe una ecología profunda, deep ecology, en Francia prácticamente inexistente, que ha tenido un papel importante en Alemania, en los países escandinavos y en Norteamérica. Pero está muy poco politizada.

P: Estamos ante un fracaso político y ante una mayor conciencia de los científicos. ¿Y los ciudadanos?

R: Paradójicamente, esa dolorosa pelea sobre el clima nos ha permitido progresar. En cierto modo, la querella ha tenido un papel importante en una “comprensión renovada” por parte del público de la realidad científica. El problema es que intentamos insertar las cuestiones ecológicas en el viejo modelo “ciencia y política”. Desde este punto de vista, incluso los científicos más avanzados siguen intentando poner estas cuestiones dentro del marco de esa situación superada que intento criticar. Este es el tema del libro, y en ese sentido sigue de actualidad.

P: En Francia hay una identificación entre ecologismo y territorio. José Bové, por ejemplo, es un proteccionista a ultranza. Es rara esta evolución de la ecología hacia el nacionalismo, ¿no?

R: Sí, pero al mismo tiempo es útil e interesante replantearse lo que es el territorio, el terruño, por usar la palabra francesa. Los ecologistas siempre se han mostrado indecisos sobre el carácter progresista o reaccionario de su apego a la tierra, porque la expresión en francés puede significar cosas muy distintas. Pero es importante, porque es una de las dimensiones de la cuestión ecológica, tanto de la progresista como de la arcaica. Ese era uno de los objetivos fundamentales del libro, saber si hemos sido realmente modernos alguna vez. Hay aspectos regresivos en el apego al terruño, y a la vez hay otros muy importantes sobre la definición de los límites, de los entornos en los cuales vivimos, que son decisivos para el porvenir. Una vez más, los verdes han omitido trabajar esa cuestión. Pero el problema de la orientación, de la diferencia entre el apego reaccionario o progresista a la tierra, es fundamental. Si vemos movimientos como Slow Food, nos preguntamos si están adelantados o retrasados, porque tienen aspectos regresivos. Pero si se piensa en el tema de los circuitos de distribución, ¿por qué las lasañas inglesas tendrían que estar hechas con caballo rumano y transitar por 25 intermediarios? No es una tontería: si tomamos caballo francés, rumano o turco, las cuestiones de pertenencia y de límites se convierten en cuestiones progresistas.

El antropólogo iconoclasta

Bruno Latour nació en la Borgoña, donde surgen los vinos más caros del planeta. Su padre era viticultor. De ahí sus pecualiares análisis sobre el terruño y la tradición. Cursó Antropología y Sociología. Su formación es tan variopinta como los centros donde ha impartido clase, desde la Escuela de Minas de París hasta la London School of Economics y la cátedra de Historia de Harvard.

Escritor incansable, es autor de una treintena de libros de ensayo, todos los últimos editados por Harvard, por los que circulan la tierra, la sociedad, la guerra, la energía, la ciencia, la tecnología, la modernidad y los medios de comunicación.

Su último proyecto está conectado con el llamado medialab, un espacio donde desarrollar conexiones entre las tecnologías digitales, la sociología y los estudios científicos.

P: Su libro llama a superar los esquemas de izquierda y derecha. Pero no parece que eso haya cambiado mucho.

R: El debate afronta un gran problema. Hay una inversión de las relaciones entre el marco geográfico y la política: el marco ha cambiado mucho más que la política. Las grandes negociaciones internacionales manifiestan esa inercia de la organización económica, legal y política, mientras que el marco, lo que antes llamábamos la Tierra, la geografía, cambia a velocidad asombrosa. Esa mutación es difícil de comprender por la gente acostumbrada a la historia de antes, en la cual había humanos que se peleaban, como en el siglo XX: hombres haciéndose la guerra dentro de un marco geográfico estable desde la última glaciación. Es una razón demasiado filosófica. Así que preferimos pensar que tenemos tiempo, que todo está en su sitio, que la economía es así, que el derecho internacional es así, etcétera. Pero incluso los términos para señalar las aceleraciones rápidas han cambiado, volcándose hacia la naturaleza y los glaciares. El tiempo que vivimos es el del antropoceno, y las cosas ya no son como antes. Lo que ha cambiado desde que escribí el libro es que en aquel momento no teníamos la noción del antropoceno. Fue una invención muy útil de Crutzen, un climatólogo, pero no existía entonces, me habría ayudado mucho.

P: ¿Y qué fue de su propuesta de aprobar una constitución ecológica?

R: Intenté construir una asociación de parlamentarios y lanzar una constitución para que las cuestiones de la energía empezaran a ser tratadas de otro modo. Intentaba abrir un debate, que naturalmente no ha tenido lugar. El debate sobre la Constitución empezó bien, se consideró una gran invención de la democracia europea. El problema es que ya no se trata de la cuestión de la representación de los humanos, sino que ese debate atañe a los innumerables seres que viven en la Tierra. Me parecía necesario en aquel momento, y ahora más incluso, hacer un debate constitucional. ¿Cómo sería un Parlamento dedicado a la política ecológica? Tendrá que crearse, pero no reflexionamos lo suficiente sobre las cuestiones de fondo.

P: ¿Las grandes conferencias medioambientales resuelven algo?

R: El problema es que la geopolítica organizada en torno a una nación, con sus propios intereses y nivel de agregación, está mal adaptada a las cuestiones ecológicas, que son transnacionales. Todo el mundo sabe eso, los avances no pueden plasmarse ya a base de mapas, no jugamos en territorios clásicos. Así, desde Copenhague 2009 hay una desafección por las grandes cumbres, no solo porque no se consigue decidir nada, sino también porque nos damos cuenta de que el nivel de decisión y agregación política no es el correcto. De hecho, las ciudades, las regiones, las naciones, las provincias, toman a menudo más iniciativas que los Estados.

P: Francia es uno de los países más nuclearizados del mundo. Los ecologistas braman. ¿Le parece bien?

R: Los ecologistas se han obstinado en la cuestión nuclear, pero nadie ha venido a explicarnos por qué lo nuclear es antiecológico, mientras mucha gente seria considera que el átomo es una de las soluciones, a largo plazo no, pero a corto plazo sí. De nuevo estamos ante la ausencia total de reflexión política por parte de los ecologistas, que militan contra lo nuclear sin explicar por qué. Por consiguiente, no hemos avanzado un centímetro. De hecho, en este momento hay un gran debate público sobre la transición energética, y los verdes siguen siendo incapaces de comprender nada, incluso de discutir, porque han moralizado la cuestión nuclear. Cuando se hace ética, no hay que hacer política, hay que hacer religión.

P: ¿Está realmente en cuestión la supervivencia de la especie?

R: La especie humana se las apañará. Nadie piensa que vaya a desaparecer, ¿pero la civilización? No se sabe lo que es una Tierra a seis u ocho grados, no lo hemos conocido. Hay que remontarse centenares de millones de años. El problema no se abordaba con la misma urgencia cuando escribí el libro en 1999, se hablaba aún de las generaciones futuras. Ahora hablamos de nuestros hijos. No hay una sola empresa que haga un cálculo más allá de 2050, es el horizonte más corto que ha habido nunca. La mutación de la historia es increíblemente rápida. Ahora se trata de acontecimientos naturales, mucho más rápidos que los humanos. Es inimaginable para la gente formada en el siglo XX, una novedad total.

P: ¿Es la globalización? ¿O más que eso?

R: Tiene relación con la globalización, pero no por la extensión de las conexiones entre los humanos. Se trata de la llegada de un mundo desagradable que impide la globalización real: es un conflicto entre globos. Nos hemos globalizado, y eso resulta tranquilizador porque todo está conectado y hace de la Tierra un planeta pequeño. Pero que un gran pueblo sea aplastado al chocar con otra cosa tranquiliza menos.

La especie humana se las apañará. nadie piensa que va a desaparecer”

P: ¿Y el malestar que sentimos, la indignación, tiene que ver con ese miedo?

R: Ese catastrofismo siempre ha existido; siempre ha habido momentos de apocalipsis, de literatura de la catástrofe; pero al mismo tiempo existe un sentimiento nuevo: no se trata del apocalipsis de los humanos, sino del final de recursos, en un sentido, creo, literal.

P: ¿Nos hemos zampado el planeta?

R: La gente que analiza el antropoceno dibuja esquemas de este tipo (muestra un famoso gráfico de población y recursos). Esto se llama “la gran aceleración”, ocurrió en 1947. La revolución ya ha tenido lugar, y es una de las causas de esa nueva ansiedad. La gente sigue hablando de la revolución, desesperándose porque no llega, pero ya está aquí. Es un acontecimiento pasado y de consecuencias catastróficas. Eso también nubla la mente de progresistas y reaccionarios. ¿Qué significa vivir en una época en la cual la revolución ha ocurrido ya y cuyos resultados son catastróficos?

P: ¿No querrá decir que la austeridad es la solución?

R: Ya existe el concepto del decrecimiento feliz, no sé si la tienen en España… ¡Sí! Ustedes están muy adelantados sobre decrecimiento.

P: Estamos en plena vanguardia, pero del infeliz.

R: Es uno de los grandes temas del momento, la crisis económica es decrecimiento no deseado, desigualmente repartido; y hay algo más: austeridad no es necesariamente la palabra, sino ascetismo. Sería la visión religiosa, o espiritual, de la austeridad. Eso se mezcla con las nuevas visiones geológicas de los límites que debemos imponernos…

P: ¿Habla del regreso al campo o de reconstruir el planeta?

R: No me refiero a volver al campo, sino a otra Tierra.

P: ¿La tecnología es la única brújula?

R: La tecnología se encuentra en esa misma situación. Existe una solución muy importante de la geoingeniería, que considera que la situación es reversible, que se pueden recrear artificialmente unas condiciones favorables tras haberlas destruido sin saberlo. Así ha surgido un inmenso movimiento de geoingeniería en todas partes. Ya que es la energía de la Tierra, podemos mandar naves espaciales, modificar la acidez de las aguas del mar, etcétera. Hacer algo que contrarreste lo que se hizo mal. Si hemos podido modificar la Tierra, podemos modificarla en el otro sentido, lo que es un argumento peligroso, porque la podemos destrozar por segunda vez.

P: ¿No se regenerará sola?

R: Sí, ¡pero sin humanos! Se regenerará sola mientras no haya humanos. Puede deshacerse de nosotros, es una de las hipótesis, volviéndose invivible, pero eso no sería muy positivo. La era de los límites puede llegar hasta la extinción.

P: ¿Acabaremos fatal?

R: La historia no está repleta de ejemplos favorables. No se sabe. No hay nada en la naturaleza humana que favorezca la reflexión, por lo cual la solución solo puede ser mala.

P: Algunos temen que acabaremos devorados por los chinos.

R: Los chinos tienen más problemas que nosotros y corren el peligro de comerse a sí mismos por el suelo, el agua y el aire. No nos amenazan, desaparecerán antes que nosotros.

P: Žižek dice que nuestros problemas provienen de la mediocridad intelectual de Alemania y Francia, que esa es la razón principal de la decadencia actual. ¿Qué piensa?

R: Es una estupidez. Ocurren muchas más cosas intelectualmente en Europa que en América, infinitamente más. Por ejemplo, en arte, en filosofía, en ciencias, en urbanismo. Es insensato decir cosas así, pero es que Žižek es un viejo cretino, una especie de cosa de extrema izquierda, fruto del agotamiento de la extrema izquierda, de su decadencia final, de la cual es el síntoma. Por otra parte, es un chico muy majo. La extrema izquierda se ha equivocado tanto sobre el mundo que al final todos estos viejos de extrema izquierda no tienen otra cosa que hacer salvo vomitar sobre el mundo, como hace Alain Badiou en Francia.

P: ¿Prefiere a Marine Le Pen?

R: No soy político, no puedo responder a esta pregunta, no me interesa.

P: ¿No le gusta hablar de política?

R: Sí hablo de política, he escrito un libro sobre política, ¡que yo sepa!,Las políticas de la naturaleza.

P: ¿No le interesa la política de todos los días?

R: La de todos los días sí, pero no la de los partidos, son agitaciones superficiales, sobre todo en Francia, donde ya no hay verdaderamente política.

P: Critica a la extrema izquierda, ¿y nada a la extrema derecha?

R: Se agita, intenta agarrarse a un clavo ardiendo, pero no tiene mucha importancia. No es ahí donde las cosas están en juego.

P: ¿Cree que es residual?

R: No, no es residual, puede desarrollarse y provocar daños, tanto como la extrema izquierda; el no pensar siempre provoca daños, pero no es eso lo que va a solucionar los problemas de la Tierra, la economía, las ciudades, el transporte y la tecnología.

P: ¿Qué escenario prevé para 2050? ¿Qué Tierra, qué humanidad?

R: Ese no es mi trabajo, mi trabajo consiste en prepararnos para las guerras. Las guerras ecológicas van a ser muy importantes y tenemos que preparar nuestros ejércitos de un modo intelectual y humano. Ese es mi trabajo.

P: ¿Habrá guerras violentas por el clima?

R: La definición misma de guerra va a cambiar, estamos en una situación en la cual no podemos ganar contra la Tierra, es una guerra asimétrica: si ganamos, perdemos, y si perdemos, ganamos. Así pues, esta situación crea obligaciones a multitud de gente y antes que nada a los intelectuales.

P: ¿La batalla principal es esa?

R: Si no tenemos mundo, no podemos hacer gran cosa, ni siquiera la revolución. Cuando se lee a Marx, uno se queda impresionado por lo que dice sobre los humanos. En esta época, la cuestión de la ciencia y del margen geográfico, más la presencia de miles de millones de personas, conforma un escenario crucial. Antes teníamos otros problemas, pero este no.

P: ¿Así que se trata de ser o no ser?

R: En cada informe científico, las previsiones son peores, el plan más pesimista siempre aparece. Hay que tener en cuenta eso. Son previsiones extremas, pero de momento son las únicas válidas. No se trata de una guerra mundial, sino de una acumulación de guerras mundiales. Es parecido al invierno nuclear de la guerra fría, una situación de cataclismo, pero con algunas ventajas: es más radical, pero más lento, tenemos mucha capacidad de invención, 9.000 millones de personas y muchas mentes inteligentes. Pero también es un reto. Por tanto, es una cuestión de alta política y no de naturaleza. La política viene primero.

P: ¿Tiene la sensación de estar solo?

R: Lo que era complicado en este libro era crear el vínculo entre ciencia y política, y no puedo decir que haya convencido a mucha gente. Si además se hace el vínculo entre la religión y las artes, es más difícil. Gente como Sloterdijk sería muy capaz de comprenderlo. Sin embargo, muchos intelectuales siguen en el siglo XX, como Žižek. Permanecen en un contexto, en un ideal revolucionario, de decepción. Están decepcionados con los humanos.

P: ¿Cree que los humanos se dejarán ayudar?

R: Primero hay que ayudar a la Tierra. En el antropoceno ya no se puede hacer la distinción entre los humanos y la Tierra.

P: ¿Y sus estudiantes están listos para la lucha?

R: En mi escuela soy el único en dar clases sobre cuestiones donde no entra la política en el sentido clásico. Hay un curso o dos sobre cuestiones ecológicas. Es culpa mía, no he trabajado lo suficiente como para cambiar las cosas. Llevamos mucho retraso.

A Scientist’s Misguided Crusade (N.Y.Times)



Published: March 4, 2013 

Last Friday, at 3:40 p.m., the State Department released its “Draft Supplemental Environmental Impact Statement” for the highly contentious Keystone XL pipeline, which Canada hopes to build to move its tar sands oil to refineries in the United States. In effect, the statement said there were no environmental impediments that would prevent President Obama from approving the pipeline.

Two hours and 20 minutes later, I received a blast e-mail containing a statement by James Hansen, the head of the Goddard Institute for Space Studies at NASA — i.e., NASA’s chief climate scientist. “Keystone XL, if the public were to allow our well-oiled government to shepherd it into existence, would be the first step down the wrong road, perpetuating our addiction to dirty fossil fuels, moving to ever dirtier ones,” it began. After claiming that the carbon in the tar sands “exceeds that in all oil burned in human history,” Hansen’s statement concluded: “The public must demand that the government begin serving the public’s interest, not the fossil fuel industry’s interest.”

As a private citizen, Hansen, 71, has the same First Amendment rights as everyone else. He can publicly oppose the Keystone XL pipeline if he so chooses, just as he can be as politically active as he wants to be in the anti-Keystone movement, and even be arrested during protests, something he managed to do recently in front of the White House.

But the blast e-mail didn’t come from James Hansen, private citizen. It specifically identified Hansen as the head of the Goddard Institute, and went on to describe him as someone who “has drawn attention to the danger of passing climate tipping points, producing irreversible climate impacts that would yield a different planet from the one on which civilization developed.” All of which made me wonder whether such apocalyptic pronouncements were the sort of statements a government scientist should be making — and whether they were really helping the cause of reversing climate change.

Let’s acknowledge right here that the morphing of scientists into activists is nothing new. Linus Pauling, the great chemist, was a peace activist who pushed hard for a nuclear test ban treaty. Albert Einstein also became a public opponent of nuclear weapons.

It is also important to acknowledge that Hansen has been a crucial figure in developing modern climate science. In 2009, Eileen Claussen, now the president of the Center for Climate and Energy Solutions, told The New Yorker that Hansen was a “heroic” scientist who “faced all kinds of pressures politically.” Today, his body of work is one of the foundations upon which much climate science is built.

Yet what people hear from Hansen today is not so much his science but his broad, unscientific views on, say, the evils of oil companies. In 2008, he wrote a paper, the thesis of which was that runaway climate change would occur when carbon in the atmosphere reached 350 parts per million — a point it had already exceeded — unless it were quickly reduced. There are many climate change experts who disagree with this judgment — who believe that the 350 number is arbitrary and even meaningless. Yet an entire movement,, has been built around Hansen’s line in the sand.

Meanwhile, he has a department to run. For a midlevel scientist at the Goddard Institute, what signal is Hansen sending when he takes the day off to get arrested at the White House? Do his colleagues feel unfettered in their own work? There is, in fact, enormous resentment toward Hansen inside NASA, where many officials feel that their solid, analytical work on climate science is being lost in what many of them describe as “the Hansen sideshow.” His activism is not really doing any favors for the science his own subordinates are producing.

Finally, and most important, Hansen has placed all his credibility on one battle: the fight to persuade President Obama to block the Keystone XL pipeline. It is the wrong place for him to make a stand. Even in the unlikely event the pipeline is stopped, the tar sands oil will still be extracted and shipped. It might be harder to do without a pipeline, but it is already happening. And in the grand scheme, as I’ve written before, the tar sands oil is not a game changer. The oil we import from Venezuela today is dirtier than that from the tar sands. Not that the anti-pipeline activists seem to care.

What is particularly depressing is that Hansen has some genuinely important ideas, starting with placing a graduated carbon tax on fossil fuels. Such a tax would undoubtedly do far more to reduce carbon emissions and save the planet than stopping the Keystone XL pipeline.

A carbon tax might be worth getting arrested over. But by allowing himself to be distracted by Keystone, Hansen is hurting the very cause he claims to care so much about.

Edward O. Wilson: The Riddle of the Human Species (N.Y.Times)

THE STONEFebruary 24, 2013, 7:30 pm


The task of understanding humanity is too important and too daunting to leave to the humanities. Their many branches, from philosophy to law to history and the creative arts, have described the particularities of human nature with genius and exquisite detail, back and forth in endless permutations. But they have not explained why we possess our special nature and not some other out of a vast number of conceivable possibilities. In that sense, the humanities have not accounted for a full understanding of our species’ existence.

So, just what are we? The key to the great riddle lies in the circumstance and process that created our species. The human condition is a product of history, not just the six millenniums of civilization but very much further back, across hundreds of millenniums. The whole of it, biological and cultural evolution, in seamless unity, must be explored for an answer to the mystery. When thus viewed across its entire traverse, the history of humanity also becomes the key to learning how and why our species survived.

A majority of people prefer to interpret history as the unfolding of a supernatural design, to whose author we owe obedience. But that comforting interpretation has grown less supportable as knowledge of the real world has expanded. Scientific knowledge (measured by numbers of scientists and scientific journals) in particular has been doubling every 10 to 20 years for over a century. In traditional explanations of the past, religious creation stories have been blended with the humanities to attribute meaning to our species’s existence. It is time to consider what science might give to the humanities and the humanities to science in a common search for a more solidly grounded answer to the great riddle.

To begin, biologists have found that the biological origin of advanced social behavior in humans was similar to that occurring elsewhere in the animal kingdom. Using comparative studies of thousands of animal species, from insects to mammals, they have concluded that the most complex societies have arisen through eusociality — roughly, “true” social condition. The members of a eusocial group cooperatively rear the young across multiple generations. They also divide labor through the surrender by some members of at least some of their personal reproduction in a way that increases the “reproductive success” (lifetime reproduction) of other members.

Leif Parsons

Eusociality stands out as an oddity in a couple of ways. One is its extreme rarity. Out of hundreds of thousands of evolving lines of animals on the land during the past 400 million years, the condition, so far as we can determine, has arisen only about two dozen times. This is likely to be an underestimate, due to sampling error. Nevertheless, we can be certain that the number of originations was very small.

Furthermore, the known eusocial species arose very late in the history of life. It appears to have occurred not at all during the great Paleozoic diversification of insects, 350 to 250 million years before the present, during which the variety of insects approached that of today. Nor is there as yet any evidence of eusocial species during the Mesozoic Era until the appearance of the earliest termites and ants between 200 and 150 million years ago. Humans at the Homo level appeared only very recently, following tens of millions of years of evolution among the primates.

Once attained, advanced social behavior at the eusocial grade has proved a major ecological success. Of the two dozen independent lines, just two within the insects — ants and termites — globally dominate invertebrates on the land. Although they are represented by fewer than 20 thousand of the million known living insect species, ants and termites compose more than half of the world’s insect body weight.

The history of eusociality raises a question: given the enormous advantage it confers, why was this advanced form of social behavior so rare and long delayed? The answer appears to be the special sequence of preliminary evolutionary changes that must occur before the final step to eusociality can be taken. In all of the eusocial species analyzed to date, the final step before eusociality is the construction of a protected nest, from which foraging trips begin and within which the young are raised to maturity. The original nest builders can be a lone female, a mated pair, or a small and weakly organized group. When this final preliminary step is attained, all that is needed to create a eusocial colony is for the parents and offspring to stay at the nest and cooperate in raising additional generations of young. Such primitive assemblages then divide easily into risk-prone foragers and risk-averse parents and nurses.

Leif Parsons

What brought one primate line to the rare level of eusociality? Paleontologists have found that the circumstances were humble. In Africa about two million years ago, one species of the primarily vegetarian australopithecine evidently shifted its diet to include a much higher reliance on meat. For a group to harvest such a high-energy, widely dispersed source of food, it did not pay to roam about as a loosely organized pack of adults and young like present-day chimpanzees and bonobos. It was more efficient to occupy a campsite (thus, the nest) and send out hunters who could bring home meat, either killed or scavenged, to share with others. In exchange, the hunters received protection of the campsite and their own young offspring kept there.

From studies of modern humans, including hunter-gatherers, whose lives tell us so much about human origins, social psychologists have deduced the mental growth that began with hunting and campsites. A premium was placed on personal relationships geared to both competition and cooperation among the members. The process was ceaselessly dynamic and demanding. It far exceeded in intensity anything similar experienced by the roaming, loosely organized bands of most animal societies. It required a memory good enough to assess the intentions of fellow members, to predict their responses, from one moment to the next; and it resulted in the ability to invent and inwardly rehearse competing scenarios of future interactions.

The social intelligence of the campsite-anchored prehumans evolved as a kind of non-stop game of chess. Today, at the terminus of this evolutionary process, our immense memory banks are smoothly activated across the past, present, and future. They allow us to evaluate the prospects and consequences variously of alliances, bonding, sexual contact, rivalries, domination, deception, loyalty and betrayal. We instinctively delight in the telling of countless stories about others as players upon the inner stage. The best of it is expressed in the creative arts, political theory, and other higher-level activities we have come to call the humanities.

The definitive part of the long creation story evidently began with the primitive Homo habilis (or a species closely related to it) two million years ago. Prior to the habilines the prehumans had been animals. Largely vegetarians, they had human-like bodies, but their cranial capacity remained chimpanzee-size, at or below 500 cubic centimeters. Starting with the habiline period the capacity grew precipitously: to 680 cubic centimeters in Homo habilis, 900 in Homo erectus, and about 1,400 in Homo sapiens. The expansion of the human brain was one of the most rapid episodes of evolution of complex organs in the history of life.

Still, to recognize the rare coming together of cooperating primates is not enough to account for the full potential of modern humans that brain capacity provides. Evolutionary biologists have searched for the grandmaster of advanced social evolution, the combination of forces and environmental circumstances that bestowed greater longevity and more successful reproduction on the possession of high social intelligence. At present there are two competing theories of the principal force. The first is kin selection: individuals favor collateral kin (relatives other than offspring) making it easier for altruism to evolve among members of the same group. Altruism in turn engenders complex social organization, and, in the one case that involves big mammals, human-level intelligence.

The second, more recently argued theory (full disclosure: I am one of the modern version’s authors), the grandmaster is multilevel selection. This formulation recognizes two levels at which natural selection operates: individual selection based on competition and cooperation among members of the same group, and group selection, which arises from competition and cooperation between groups. Multilevel selection is gaining in favor among evolutionary biologists because of a recent mathematical proof that kin selection can arise only under special conditions that demonstrably do not exist, and the better fit of multilevel selection to all of the two dozen known animal cases of eusocial evolution.

The roles of both individual and group selection are indelibly stamped (to borrow a phrase from Charles Darwin) upon our social behavior. As expected, we are intensely interested in the minutiae of behavior of those around us. Gossip is a prevailing subject of conversation, everywhere from hunter-gatherer campsites to royal courts. The mind is a kaleidoscopically shifting map of others, each of whom is drawn emotionally in shades of trust, love, hatred, suspicion, admiration, envy and sociability. We are compulsively driven to create and belong to groups, variously nested, overlapping or separate, and large or small. Almost all groups compete with those of similar kind in some manner or other. We tend to think of our own as superior, and we find our identity within them.

The existence of competition and conflict, the latter often violent, has been a hallmark of societies as far back as archaeological evidence is able to offer. These and other traits we call human nature are so deeply resident in our emotions and habits of thought as to seem just part of some greater nature, like the air we all breathe, and the molecular machinery that drives all of life. But they are not. Instead, they are among the idiosyncratic hereditary traits that define our species.

The major features of the biological origins of our species are coming into focus, and with this clarification the potential of a more fruitful contact between science and the humanities. The convergence between these two great branches of learning will matter hugely when enough people have thought it through. On the science side, genetics, the brain sciences, evolutionary biology, and paleontology will be seen in a different light. Students will be taught prehistory as well as conventional history, the whole presented as the living world’s greatest epic.

We will also, I believe, take a more serious look at our place in nature. Exalted we are indeed, risen to be the mind of the biosphere without a doubt, our spirits capable of awe and ever more breathtaking leaps of imagination. But we are still part of earth’s fauna and flora. We are bound to it by emotion, physiology, and not least, deep history. It is dangerous to think of this planet as a way station to a better world, or continue to convert it into a literal, human-engineered spaceship. Contrary to general opinion, demons and gods do not vie for our allegiance. We are self-made, independent, alone and fragile. Self-understanding is what counts for long-term survival, both for individuals and for the species.

Edward O. Wilson is Honorary Curator in Entomology and University Research Professor Emeritus, Harvard University. He has received more than 100 awards for his research and writing, including the U. S. National Medal of Science, the Crafoord Prize and two Pulitzer Prizes in non-fiction. His most recent book is “The Social Conquest of Earth.”

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Interview with Edward O. Wilson: The Origin of Morals (Spiegel)

February 26, 2013 – 01:23 PM

By Philip Bethge and Johann Grolle

American sociobiologist Edward O. Wilson is championing a controversial new approach for explaining the origins of virtue and sin. In an interview, the world-famous ant reseacher explains why he believes the inner struggle is the characteristic trait of human nature.

Edward O. Wilson doesn’t come across as the kind of man who’s looking to pick a fight. With his shoulders upright and his head tilting slightly to the side, he shuffles through the halls of Harvard University. His right eye, which has given him trouble since his childhood, is halfway closed. The other is fixed on the ground. As an ant researcher, Wilson has made a career out of things that live on the earth’s surface.

There’s also much more to Wilson. Some consider him to be the world’s most important living biologist, with some placing him on a level with Charles Darwin.

In addition to discovering and describing hundreds of species of ants, Wilson’s book on this incomparably successful group of insects is the only non-fiction biology tome ever to win a Pulitzer Prize. Another achievement was decoding the chemical communication of ants, whose vocabulary is composed of pheromones. His study of the ant colonization of islands helped to establish one of the most fruitful branches of ecology. And when it comes to the battle against the loss of biodiversity, Wilson is one of the movement’s most eloquent voices.

‘Blessed with Brilliant Enemies’

But Wilson’s fame isn’t solely the product of his scientific achievements. His enemies have also helped him to establish a name. “I have been blessed with brilliant enemies,” he says. In fact, the multitude of scholars with whom Wilson has skirmished academically is illustrious. James Watson, one of the discoverers of the double helix in DNA is among them, as is essayist Stephen Jay Gould.

At 83 years of age, Wilson is still at work making a few new enemies. The latest source of uproar is a book, “The Social Conquest of Earth,” published last April in the United States and this month in a German-language edition. In the tome, Wilson attempts to describe the triumphal advance of humans in evolutionary terms.

It is not uncommon for Wilson to look to ants for inspiration in his writings — and that proves true here, as well. When, for example, he recalls beholding two 90-million-year-old worker ants that were trapped in a piece of fossil metasequoia amber as being “among the most exciting moments in my life,” a discovery that “ranked in scientific importance withArchaeopteryx, the first fossil intermediary between birds and dinosaurs, and Australopithecus, the first ‘missing link’ discovered between modern humans and the ancestral apes.”

But that’s all just foreplay to the real controversy at the book’s core. Ultimately, Wilson uses ants to explain humans’ social behavior and, by doing so, breaks with current convention. The key question is the level at which Darwinian selection of human characteristics takes place. Did individuals enter into a fight for survival against each other, or did groups battle it out against competing groups?

Prior to this book, Wilson had been an influential champion of the theory of kin selection. He has now rejected his previous teachings, literally demolishing them. “The beautiful theory never worked well anyway, and now it has collapsed,” he writes. Today, he argues that human nature can only be understood if it is perceived as being the product of “group selection” — a view that Wilson’s fellow academics equate with sacrilege. They literally lined up to express their scientific dissent in a joint letter.

Some of the most vociferous criticism has come from Richard Dawkins, whose bestselling 1976 book “The Selfish Gene” first introduced the theory of kin selection to a mass audience. In a withering review of Wilson’s book in Britain’s Prospect magazine, Dawkins accuses a man he describes as his “lifelong hero” of “wanton arrogance” and “perverse misunderstandings”. “To borrow from Dorothy Parker,” he writes, “this is not a book to be tossed lightly aside. It should be thrown with great force.”

SPIEGEL recently sat down with sociobiologist Wilson to discuss his book and the controversy surrounding it.

SPIEGEL: Professor Wilson, lets assume that 10 million years ago some alien spacecraft had landed on this planet. Which organisms would they find particularly intriguing?

Wilson: Their interest, I believe, would not have been our ancestors. Primarily, they would have focused on ants, bees, wasps, and termites. Their discovery is what the aliens would report back to headquarters.

SPIEGEL: And you think those insects would be more interesting to them than, for example, elephants, flocks of birds or intelligent primates?

Wilson: They would be, because, at that time, ants and termites would be the most abundant creatures on the land and the most highly social creatures with very advanced division of labor and caste. We call them “eusocial,” and this phenomenon seems to be extremely rare.

SPIEGEL: What else might the aliens consider particularly interesting about ants?

Wilson: Ants engage in farming and animal husbandry. For example, some of them cultivate fungi. Others herd aphids and literally milk them by stroking them with their antennae. And the other thing the aliens would find extremely interesting would be the degree to which these insects organize their societies by pheromones, by chemical communication. Ants and termites have taken this form of communication to extremes.

SPIEGEL: So the aliens would cable back home: “We have found ants. They are the most promising candidates for a future evolution towards intelligent beings on earth?”

Wilson: No, they wouldn’t. They would see that these creatures were encased in exoskeletons and therefore had to remain very small. They would conclude that there was little chance for individual ants or termites to develop much reasoning power, nor, as a result, the capacity for culture. But at least on this planet, you have to be big in order to have sufficient cerebral cortex. And you probably have to be bipedal and develop hands with pulpy fingers, because those give you the capacity to start creating objects and to manipulate the environment.

SPIEGEL: Would our ancestors not have caught their eye?

Wilson: Ten million years ago, our ancestors indeed had developed a somewhat larger brain and versatile hands already. But the crucial step had yet to come.

SPIEGEL: What do you mean?

Wilson: Let me go back to the social insects for a moment. Why did social insects start to form colonies? Across hundreds of millions of years, insects had been proliferating as solitary forms. Some of them stayed with their young for a while, guided them and protected them. You find that widespread but far from universal in the animal kingdom. However, out of those species came a much smaller number of species who didn’t just protect their young, but started building nests that they defended …

SPIEGEL: … similar to birds.

Wilson: Yes. And I think that birds are right at the threshold of eusocial behaviour. But looking at the evolution of ants and termites again, there is another crucial step. In an even smaller group, the young don’t only grow up in their nest, but they also stay and care for the next generation. Now you have a group staying together with a division of labor. That is evidently the narrow channel of evolution that you have to pass through in order to become eusocial.

SPIEGEL: And our ancestors followed the same path?

Wilson: Yes. I argue that Homo habilis, the first humans, also went through these stages. In particular, Homo habilis was unique in that they already had shifted to eating meat.

SPIEGEL: What difference would that make?

Wilson: When animals start eating meat, they tend to form packs and to divide labor. We know that the immediate descendants of Homo habilis, Homo erectus, gathered around camp sites and that they actually had begun to use fire. These camp sites are equivalent to nests. That’s where they gathered in a tightly knit group, and then individuals went out searching for food.

SPIEGEL: And this development of groups drives evolution even further?

Wilson: Exactly. And, for example, if it now comes to staking out the hunting grounds, then group stands against group.

SPIEGEL: Meaning that this is the origin of warfare?

Wilson: Yes. But it doesn’t take necessarily the forming of an army or a battalion and meeting on the field and fighting. It was mostly what you call “vengeance raids”. One group attacks another, maybe captures a female or kills one or two males. The other group then counterraids, and this will go back and forth, group against group.

SPIEGEL: You say that this so called group selection is vital for the evolution of humans. Yet traditionally, scientists explain the emergence of social behavior in humans by kin selection.

Wilson: That, for a number of reasons, isn’t much good as an explanation.

SPIEGEL: But you yourself have long been a proponent of this theory. Why did you change your mind?

Wilson: You are right. During the 1970s, I was one of the main proponents of kin selection theory. And at first the idea sounds very reasonable. So for example, if I favored you because you were my brother and therefore we share one half of our genes, then I could sacrifice a lot for you. I could give up my chance to have children in order to get you through college and have a big family. The problem is: If you think it through, kin selection doesn’t explain anything. Instead, I came to the conclusion that selection operates on multiple levels. On one hand, you have normal Darwinian selection going on all the time, where individuals compete with each other. In addition, however, these individuals now form groups. They are staying together, and consequently it is group versus group.

SPIEGEL: Turning away from kin selection provoked a rather fierce reaction from many of your colleagues.

Wilson: No, it didn’t. The reaction was strong, but it came from a relatively small group of people whose careers are based upon studies of kin selection.

SPIEGEL: Isn’t that too easy? After all, 137 scientists signed a response to your claims. They accuse you of a “misunderstanding of evolutionary theory”.

Wilson: You know, most scientists are tribalists. Their lives are so tied up in certain theories that they can’t let go.

SPIEGEL: Does it even make a substantial difference if humans evolved through kin selection or group selection?

Wilson: Oh, it changes everything. Only the understanding of evolution offers a chance to get a real understanding of the human species. We are determined by the interplay between individual and group selection where individual selection is responsible for much of what we call sin, while group selection is responsible for the greater part of virtue. We’re all in constant conflict between self-sacrifice for the group on the one hand and egoism and selfishness on the other. I go so far as to say that all the subjects of humanities, from law to the creative arts are based upon this play of individual versus group selection.

SPIEGEL: Is this Janus-faced nature of humans our greatest strength at the end of the day?

Wilson: Exactly. This inner conflict between altruism and selfishness is the human condition. And it is very creative and probably the source of our striving, our inventiveness and imagination. It’s that eternal conflict that makes us unique.

SPIEGEL: So how do we negotiate this conflict?

Wilson: We don’t. We have to live with it.

SPIEGEL: Which element of this human condition is stronger?

Wilson: Let’s put it this way: If we would be mainly influenced by group selection, we would be living in kind of an ant society.

SPIEGEL: … the ultimate form of communism?

Wilson: Yes. Once in a while, humans form societies that emphasize the group, for example societies with Marxist ideology. But the opposite is also true. In other societies the individual is everything. Politically, that would be the Republican far right.

SPIEGEL: What determines which ideology is predominant in a society?

Wilson: If your territory is invaded, then cooperation within the group will be extreme. That’s a human instinct. If you are in a frontier area, however, then we tend to move towards the extreme individual level. That seems to be a good part of the problem still with America. We still think we’re on the frontier, so we constantly try to put forward individual initiative and individual rights and rewards based upon individual achievement.

SPIEGEL: Earlier, you differentiated between the “virtue” of altruism and the “sin” of individualism. In your book you talk about the “poorer and the better angels” of human nature. Is it helpful to use this kind of terminology?

Wilson: I will admit that using the terminology of “virtue” and “sin” is what poets call a “trope”. That is to say, I wanted the idea in crude form to take hold. Still, a lot of what we call “virtue” has to do with propensities to behave well toward others. What we call “sin” are things that people do mainly out of self-interest.

SPIEGEL: However, our virtues towards others go only so far. Outside groups are mainly greeted with hostility.

Wilson: You are right. People have to belong to a group. That’s one of the strongest propensities in the human psyche and you won’t be able to change that. However, I think we are evolving, so as to avoid war — but without giving up the joy of competition between groups. Take soccer …

SPIEGEL: … or American football.

Wilson: Oh, yes, American football, it’s a blood sport. And people live by team sports and national or regional pride connected with team sports. And that’s what we should be aiming for, because, again, that spirit is one of the most creative. It landed us on the moon, and people get so much pleasure from it. I don’t want to see any of that disturbed. That is a part of being human. We need our big games, our team sports, our competition, our Olympics.

SPIEGEL: “Humans,” the saying goes, “have Paleolithic emotions” …

Wilson: … “Medieval institutions and god-like technology”. That’s our situation, yeah. And we really have to handle that.


Wilson: So often it happens that we don’t know how, also in situations of public policy and governance, because we don’t have enough understanding of human nature. We simply haven’t looked at human nature in the best way that science might provide. I think what we need is a new Enlightenment. During the 18th century, when the original Enlightenment took place, science wasn’t up to the job. But I think science is now up to the job. We need to be harnessing our scientific knowledge now to get a better, science-based self-understanding.

SPIEGEL: It seems that, in this process, you would like to throw religions overboard altogether?

Wilson: No. That’s a misunderstanding. I don’t want to see the Catholic Church with all of its magnificent art and rituals and music disappear. I just want to have them give up their creation stories, including especially the resurrection of Christ.

SPIEGEL: That might well be a futile endeavour …

Wilson: There was this American physiologist who was asked if Mary’s bodily ascent from Earth to Heaven was possible. He said, “I wasn’t there; therefore, I’m not positive that it happened or didn’t happen; but of one thing I’m certain: She passed out at 10,000 meters.” That’s where science comes in. Seriously, I think we’re better off with no creation stories.

SPIEGEL: With this new Enlightenment, will we reach a higher state of humanity?

Wilson: Do we really want to improve ourselves? Humans are a very young species, in geologic terms, and that’s probably why we’re such a mess. We’re still living with all this aggression and ability to go to war. But do we really want to change ourselves? We’re right on the edge of an era of being able to actually alter the human genome. But do we want that? Do we want to create a race that’s more rational and free of many of these emotions? My response is no, because the only thing that distinguishes us from super-intelligent robots are our imperfect, sloppy, maybe even dangerous emotions. They are what makes us human.

SPIEGEL: Mr. Wilson, we thank you for this conversation.

Interview conducted by Philip Bethge and Johann Grolle

Why Are Environmentalists Taking Anti-Science Positions? (Yale e360)

22 OCT 2012

On issues ranging from genetically modified crops to nuclear power, environmentalists are increasingly refusing to listen to scientific arguments that challenge standard green positions. This approach risks weakening the environmental movement and empowering climate contrarians.

By Fred Pearce

From Rachel Carson’s Silent Spring to James Hansen’s modern-day tales of climate apocalypse, environmentalists have long looked to good science and good scientists and embraced their findings. Often we have had to run hard to keep up with the crescendo of warnings coming out of academia about the perils facing the world. A generation ago, biologist Paul Ehrlich’sThe Population Bomb and systems analysts Dennis and Donella Meadows’The Limits to Growth shocked us with their stark visions of where the world was headed. No wide-eyed greenie had predicted the opening of an ozone hole before the pipe-smoking boffins of the British Antarctic Survey spotted it when looking skyward back in 1985. On issues ranging from ocean acidification and tipping points in the Arctic to the dangers of nanotechnology, the scientists have always gotten there first — and the environmentalists have followed.

And yet, recently, the environment movement seems to have been turning up on the wrong side of the scientific argument. We have been making claims that simply do not stand up. We are accused of being anti-science — and not without reason. A few, even close friends, have begun to compare this casual contempt for science with the tactics of climate contrarians.

That should hurt.

Three current issues suggest that the risks of myopic adherence to ideology over rational debate are real: genetically modified (GM) crops, nuclear power, and shale gas development. The conventional green position is that we should be opposed to all three. Yet the voices of those with genuine environmental credentials, but who take a different view, are being drowned out by sometimes abusive and irrational argument.

In each instance, the issue is not so much which side environmentalists should be on, but rather the mind-set behind those positions and the tactics adopted to make the case. The wider political danger is that by taking anti-scientific positions, environmentalists end up helping the anti-environmental sirens of the new right.

The issue is not which side environmentalists should be on, but rather the mind-set behind their positions.

Most major environmental groups — from Friends of the Earth to Greenpeace to the Sierra Club — want a ban or moratorium on GM crops, especially for food. They fear the toxicity of these “Frankenfoods,” are concerned the introduced genes will pollute wild strains of the crops, and worry that GM seeds are a weapon in the takeover of the world’s food supply by agribusiness.

For myself, I am deeply concerned about the power of business over the world’s seeds and food supply. But GM crops are an insignificant part of that control, which is based on money and control of trading networks. Clearly there are issues about gene pollution, though research suggesting there is a problem is still very thin. Let’s do the research, rather than trash the test fields, which has been the default response of groups such as Greenpeace, particularly in my home country of Britain.

As for the Frankenfoods argument, the evidence is just not there. As the British former campaigner against GMs, Mark Lynas, points out: “Hundreds of millions of people have eaten GM-originated food without a single substantiated case of any harm done whatsoever.”

The most recent claim, published in September in the journal Food and Chemical Toxicology, that GM corn can produced tumors in rats, has been attacked as flawed in execution and conclusion by a wide range of experts with no axe to grind. In any event, the controversial study was primarily about the potential impact of Roundup, a herbicide widely used with GM corn, and not the GM technology itself.

Nonetheless, the reaction of some in the environment community to the reasoned critical responses of scientists to the paper has been to claim a global conspiracy among researchers to hide the terrible truth. One scientist was dismissed on the Web site GM Watch for being “a longtime member of the European Food Safety Authority, i.e. the very body that approved the GM corn in question.” That’s like dismissing the findings of a climate scientist because he sits on the Intergovernmental Panel on Climate Change — the “very body” that warned us about climate change. See what I mean about aping the worst and most hysterical tactics of the climate contrarians?

Stewart Brand wrote in his 2009 book Whole Earth Discipline: “I dare say the environmental movement has done more harm with its opposition to genetic engineering than any other thing we’ve been wrong about.” He will see nods of ascent from members of a nascent “green genes” movement — among them environmentalist scientists, such as Pamela Ronald of the University of California at Davis — who say GM crops can advance the cause of sustainable agriculture by improving resilience to changing climate and reducing applications of agrochemicals.

Yet such people are routinely condemned as apologists for an industrial conspiracy to poison the world. Thus, Greenpeace in East Asia claims that children eating nutrient-fortified GM “golden rice” are being used as “guinea pigs.” And its UK Web site’s introduction to its global campaigns says, “The introduction of genetically modified food and crops has been a disaster, posing a serious threat to biodiversity and our own health.” Where, ask their critics, is the evidence for such claims?

The problem is the same in the energy debate. Many environmentalists who argue, as I do, that climate change is probably the big overarching issue facing humanity in the 21st century, nonetheless often refuse to recognize that nuclear power could have a role in saving us from the worst.

For environmentalists to fan the flames of fear of nuclear power seems reckless and anti-scientific.

Nuclear power is the only large-scale source of low-carbon electricity that is fully developed and ready for major expansion.

Yes, we need to expand renewables as fast as we can. Yes, we need to reduce further the already small risks of nuclear accidents and of leakage of fissile material into weapons manufacturing. But as George Monbiot, Britain’s most prominent environment columnist, puts it: “To abandon our primary current source of low carbon energy during a climate change emergency is madness.”

Monbiot attacks the gratuitous misrepresentation of the risks of radiation from nuclear plants. It is widely suggested, on the basis of a thoroughly discredited piece of Russian head-counting, that up to a million people were killed by the Chernobyl nuclear accident in 1986. In fact, it is far from clear that many people at all — beyond the 28 workers who received fatal doses while trying to douse the flames at the stricken reactor — actually died from Chernobyl radiation. Certainly, the death toll was nothing remotely on the scale claimed.

“We have a moral duty,” Monbiot says, “not to spread unnecessary and unfounded fears. If we persuade people that they or their children are likely to suffer from horrible and dangerous health problems, and if these fears are baseless, we cause great distress and anxiety, needlessly damaging the quality of people’s lives.”

Many people have a visceral fear of nuclear power and its invisible radiation. But for environmentalists to fan the flames — especially when it gets in the way of fighting a far more real threat, from climate change — seems reckless, anti-scientific and deeply damaging to the world’s climate future.

One sure result of Germany deciding to abandon nuclear power in the wake of last year’s Fukushima nuclear accident (calamitous, but any death toll will be tiny compared to that from the tsunami that caused it) will be rising carbon emissions from a revived coal industry. By one estimate, the end of nuclear power in Germany will result in an extra 300 million tons of carbon dioxide reaching the atmosphere between now and 2020 — more than the annual emissions of Italy and Spain combined.

Last, let’s look at the latest source of green angst: shale gas and the drilling technique of hydraulic fracturing, or fracking, used to extract it. There are probably good reasons for not developing shale gas in many places. Its extraction can pollute water and cause minor earth tremors, for instance. But at root this is an argument about carbon — a genuinely double-edged issue that needs debating. For there is a good environmental case to be made that shale gas, like nuclear energy, can be part of the solution to climate change. That case should be heard and not shouted down.

Opponents of shale gas rightly say it is a carbon-based fossil fuel. But it is a much less dangerous fossil fuel than coal. Carbon emissions from burning natural gas are roughly half those from burning coal. A switch from coal to shale gas is the main reason why, in 2011, U.S. CO2 emissions fell by almost 2 percent.

Many environmentalists are imbued with a sense of their own exceptionalism and original virtue.

We cannot ignore that. With coal’s share of the world’s energy supply rising from 25 to 30 percent in the past half decade, a good argument can be made that a dash to exploit cheap shale gas and undercut this surge in coal would do more to cut carbon emissions than almost anything else. The noted environmental economist Dieter Helm of the University of Oxford argues just this in a new book, The Carbon Crunch, out this month.

But this is an unpopular argument. Carl Pope, executive director of the Sierra Club, was pilloried by activists for making the case that gas could be a “bridge fuel” to a low-carbon future. And when he stepped down, his successor condemned him for taking cash from the gas industry to fund the Sierra Club’s Beyond Coal campaign. Pope was probably wrong to take donations of that type, though some environment groups do such things all the time. But his real crime to those in the green movement seems to have been to side with the gas lobby at all.

Many environmentalists are imbued with a sense of their own exceptionalism and original virtue. But we have been dangerously wrong before. When Rachel Carson’s sound case against the mass application of DDT as an agricultural pesticide morphed into blanket opposition to much smaller indoor applications to fight malaria, it arguably resulted in millions of deaths as the diseases resurged.

And more recently, remember the confusion over biofuels? They were a new green energy source we could all support. I remember, when the biofuels craze began about 2005, I reported on a few voices urging caution. They warned that the huge land take of crops like corn and sugar cane for biofuels might threaten food supplies; that the crops would add to the destruction of rainforests; and that the carbon gains were often small to non-existent. But Friends of the Earth and others trashed them as traitors to the cause of green energy.
Well, today most greens are against most biofuels. Not least Friends of the Earth, which calls them a “big green con.” In fact, we may have swung too far in the other direction, undermining research into second-generation biofuels that could be both land- and carbon-efficient.

We don’t have to be slaves to science. There is plenty of room for raising questions about ethics and priorities that challenge the world view of the average lab grunt. And we should blow the whistle on bad science. But to indulge in hysterical attacks on any new technology that does not excite our prejudices, or to accuse genuine researchers of being part of a global conspiracy, is dishonest and self-defeating.

We environmentalists should learn to be more humble about our policy prescriptions, more willing to hear competing arguments, and less keen to engage in hectoring and bullying.

Cacique Cobra Coral rompe parceria com a prefeitura (O Globo)

Governo teria deixado de entregar, nos prazos previstos, relatórios com um balanço dos investimentos em prevenção realizados ano passado na cidade


Publicado:14/01/13 – 0h08

RIO — Em pleno verão carioca, o sistema de alerta e prevenção a enchentes do Rio perdeu um colaborador incomum. O porta-voz da Fundação Cacique Cobra Coral, Osmar Santos, anunciou no domingo que rompeu o convênio técnico-científico que mantinha com a prefeitura do Rio. O motivo é que a prefeitura deixou de entregar, nos prazos previstos, relatórios com um balanço dos investimentos em prevenção realizados ano passado na cidade. A ONG é comandada pela médium Adelaide Scritori, que afirma ter o poder de controlar o tempo. Desde a administração do ex-prefeito Cesar Maia, Adelaide esteve à disposição para prestar assistência espiritual a fim de tentar reduzir os estragos causados por temporais. Em janeiro de 2009, a prefeitura chegou a anunciar o fim da parceria, mas voltou atrás após uma forte chuva.

— Alguém da burocracia muito atarefado esqueceu da gente. Mas, caso a prefeitura queira continuar a receber nossa consultoria, que é gratuita, estamos à disposição — disse Osmar Santos.

Leia mais sobre esse assunto em © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Medo e tensão no Oeste (Rolling Stone)

Edição 49 – Outubro de 2010

Paraíso perdido na Amazônia, a região de Nova Olinda vive em conflito: de um lado, comunidades a favor da extração da madeira; de outro, aquelas que querem manter suas terras. O impasse continua

Medo e tensão no Oeste



O excesso de céu e águas que se abre à minha frente a partir da proa do barco é deslumbrante. A floresta é uma linha verdejante suave no horizonte, que marca a distinção entre o azul cósmico e o azul mais escuro do rio. Nas margens, praias com areias brancas. Dinael Cardoso, liderança indígena e uma das personalidades mais ativas no Movimento, me acompanha. Chegando a uma pequena comunidade estendida na beira do rio Arapiuns, ele aponta para uma dessas margens paradisíacas, que poderiam estar no Caribe, escoltadas pelo verde da mata: “Foi ali, ano passado. Vai fazer um ano agora que as balsas queimaram”.

É apenas uma ponta de areia, chamada São Pedro, que marca uma confluência. A partir daqui, cada vez mais o Arapiuns, afluente do Tapajós, se fecha, até culminar em uma bifurcação. De um lado, o Maró. Do outro, o Aruã. Essa terra em frente, para onde sigo, se chama Gleba Nova Olinda. O fogo de um ano antes selou a ligação política entre a insurgência presente na Nova Olinda e as comunidades ribeirinhas ao longo do Arapiuns, criando o Movimento em Defesa da Vida e da Cultura do Rio Arapiuns. Em oposição estariam os empresários que comercializam madeira da região, as comunidades que são ligadas a esses empresários e os agentes econômicos com interesse mais amplo: a mineradora Alcoa, que explora bauxita e faz prospecção em toda a área, e os produtores de soja.

Não apenas pelo significado político, mas também pela dimensão social de unir as comunidades, o protesto e o fogo rebelde em balsas carregadas de madeira marcou definitivamente essa curva do Arapiuns.

O fogo explodiu em chamas gigantes pelo meio do rio, de um tamanho nunca antes visto, em um calor nunca antes sentido. As labaredas invadiram o breu, seguiram o outro dia e queimaram por mais duas noites. As comunidades da beira do rio estavam unidas na revolta.

O sindicato dos trabalhadores rurais, que convocou a manifestação, havia abandonado a luta. O Procurador Federal declarou que havia indícios de extração irregular da madeira. A Secretaria de Meio Ambiente (Sema) veio fiscalizar a origem das toras e disse que tudo era legal e dentro dos conformes. Ou seja, a madeira continuaria saindo. “Sendo saqueada”, pensaram as lideranças que estavam no local. Não houve ordem de ninguém para dar início ao fogo, mas uma reação coletiva, em assembleias. “O motivador maior da queima foi a conivência do Estado com a exploração madeireira. O Estado não quis discutir com as comunidades, mandou apenas um técnico para fiscalizar. Isso revoltou os manifestantes, que esperaram por um mês”, afirmou uma liderança que não quis ser identificada.

Quase um ano atrás, no dia 10 de novembro, cansada de uma manifestação que já durava um mês, a multidão queimou duas balsas carregadas de madeira, avaliadas em R$ 5 milhões. Se a região vivia tempos de medo e tensão, o ato tornou-se um divisor, o momento em que as comunidades que lutam contra os empresários perceberam que poderiam se insurgir.

Neste último ano, sem a demarcação da terra indígena pretendida pelos índios borari, sem a regularização dos assentamentos das comunidades ribeirinhas, mas com as autorizações de corte de madeira na área e o patrimônio florestal sendo assim comercializado, o ambiente na Gleba Nova Olinda está tomado de medo e tensão.

“O medo sempre existiu. Mas eu não fiquei com medo de abandonar a luta. Fiquei com mais vontade de lutar”, diz Odair José Alves de Sousa, o Dadá, 28 anos, segundo cacique da aldeia borari Novo Lugar (o primeiro cacique é seu tio Higino, mais velho e experiente). À noite, a água do rio é ainda mais escura. Reflete as estrelas tão nitidamente que a sensação é a de que o barco levita. A aldeia Novo Lugar dorme na terra firme onde atracamos. Há calma no ar. Nessa hora, Dadá pode ficar tranquilo para conversar. Em 2007 ele foi sequestrado e espancado. Desde então faz parte do programa de proteção à testemunha e anda com seguranças. Mas, depois que surgiu o Movimento, a confiança na capacidade de luta aumentou. “O movimento está forte. Nossa luta é justa”, afirma.

Antes do episódio do fogo, escorriam semanalmente pelo Arapiuns cerca de 40 balsas carregadas de toras. Cada uma com uma média de dois mil metros cúbicos de madeira. Agora, diz Dadá, se passarem três balsas por mês é muito. Foi o fogo? “Questão de amedrontamento”, analisa o jovem cacique. O fogo transferiu, ao menos em parte, o medo para o “outro lado”. “A gente está falando no canal de rádio que não tem hora nem momento para ter outra manifestação, para pegar outra balsa. Então eles reduziram a quantidade”, explica. O foco da pressão é a empacada regularização fundiária da Gleba, estacionada em gabinetes e negociada entre audiências públicas e lobbies políticos.

Nova Olinda se divide em duas posições antagônicas. Para entrar na Gleba, é preciso estar de um lado. “A gente vai ter que discutir com a comunidade.” Minha recepção na aldeia Novo Lugar é permeada de desconfiança. Poucas semanas antes, eles haviam recebido uma jornalista que se mostrou envolvida com o tal “outro lado”. Para ter acesso, era preciso explicar que minha presença não implicava em vínculos diretos com o “lado de lá”, os empresários madeireiros, identificados pelo apoio que recebem de comunidades como Fé em Deus, Repartimento e Vista Alegre. Em todas as outras comunidades, o procedimento de abordagem foi o mesmo. Como iniciei a viagem pelo lado da resistência aos empresários, que se encontrava antes pela logística do rio, as comunidades opostas fecharam as portas.

Um daqueles paraísos perdidos na Amazônia, lugar de floresta altamente preservada, onde um sonho de éden ainda parece persistir, a região de Nova Olinda é banhada por rios de águas escuras, que escorrem de forma sinuosa, de difícil acesso, praticamente isolando a área na seca do acesso de barcos maiores – com o rio cheio, leva-se pelo menos um dia para se chegar de barco até Santarém, percurso feito em semanas nas canoas tradicionais.

Com 182 mil hectares, a Gleba integra um mosaico de terras, no Oeste do Pará, parte em Santarém e outra em Juriti, que está em lento processo de regularização fundiária: o conjunto de glebas Mamuru-Arapiuns, com 1,2 milhão de hectares. Seria a primeira de cinco glebas de terras públicas nessa região a ter o problema de destinação do uso resolvido – para exploração, preservação ou uso tradicional. O processo, assim que concluído, poderia servir de modelo de resolução para as demais terras. Algumas áreas de assentamento já foram regularizadas. Falta definir a situação dos assentamentos de duas comunidades, Prainha e Vista Alegre, e a demarcação da terra indígena. A conclusão estacionou, e a tensão cresceu.

Há cerca de 15 comunidades na área. Pela lei, elas devem ser ouvidas sobre sua ocupação e o uso que fazem da terra, e as necessidades devem ser respeitadas na hora da concessão do título, seja na forma de projeto de assentamento, que pode ser coletivo ou em lotes individuais, seja na forma de uma reserva indígena. Mas as interferências externas, ou seja, dos novos migrantes, mudaram a relação pacífica que existia entre as comunidades, que hoje não se comunicam.

Seria natural imaginar que todas demandariam direitos semelhantes. Mas há aquelas que querem a presença dos empresários, e as que refutam. Permeada por essa disputa, surge uma batalha por identidades: para marcar suas diferenças e posições políticas assumem cada uma suas raízes. A grande batalha acontece entre as que reivindicam a identidade indígena, do povo Borari, e aquelas que querem se ver brasileiras e modernas.

Foram os gaúchos (termo genérico para forasteiros) que trouxeram o sonho do progresso e os conflitos. Empresários madeireiros transferidos pelo governo do Pará, eles ocupavam uma área pública que havia sido transformada em terra indígena de ocupação dos índios caiapós no Sul do Estado. O governo paraense decidiu, à época, fazer uma espécie de permuta com os empresários, transferindo-os para outra área administrada pelo Instituto de Terras do Pará (Iterpa). Com a transferência dos títulos, veio junto a grilagem da terra. A partir de 2002, começaram a surgir “laranjas” e milhares de novos madeireiros permutados. Na floresta, cortes de lotes sobrepunham-se, enquanto as populações locais observavam tudo cada vez mais esmagadas nas margens.

Para as comunidades a favor da chegada dos madeireiros, da pesquisa mineral de bauxita ou da instalação da agricultura mecanizada de soja, deixar a vida dura da exclusão em que vivem tornou-se um objetivo urgente. Ainda que tenham se dividido entre grupos que passaram a apoiar a entrada dos empresários, recebendo benfeitorias para isso, e os que os enfrentaram, recebendo ameaças, mas mantendo o sonho da autonomia. A comunidade Repartimento, no rio Aruã, foi a primeira a ceder. No rio Maró, o povoado de Fé em Deus tomou a frente, liderado por Manoel Benezildo Sousa, que passou a agrupar lideranças com ações financiadas pelos empresários. Os benefícios imediatos como um gerador mais potente, alguns salários e alguns empregos na extração da madeira, são de grande importância para quem vive na área. Mas podem ser considerados baixos se comparados ao valor em potencial das terras que estão em jogo. A contrapartida exigida para a chegada do progresso é a demanda por terras menores no processo fundiário em curso.

Contrárias aos madeireiros, as outras comunidades se organizaram com o sindicato dos trabalhadores rurais e os movimentos sociais da região. Decidiram lutar para garantir a terra de uso tradicional. Pelo menos, a maior fatia possível do bolo que estava sendo dividido. Esse é o lado do chamado Movimento no conflito instaurado na Nova Olinda.

Em uma terça-feira pela manhã, estive em Fé em Deus, para conhecer as reivindicações, demandas e os benefícios que têm sido distribuídos. Chovia, ventava, e o dia tinha um aspecto antipático. Eu havia sido informado de que poderia não ser recebido quando o barco que faz a linha de transporte até Santarém, o Crê em Deus, que levava as lideranças aliadas aos madeireiros para uma audiência pública na cidade, atracou junto ao que eu estava para me avisar: a minha presença na área não estava autorizada.

Não souberam informar do que se tratava a audiência pública para a qual haviam sido convocados – no caso, era para discutir a situação ambiental de um porto construído em Santarém, pela Cargill, para o escoamento da soja. Mas o transporte era pago.

Chegando em Fé em Deus, percebi um clima de tensão. Pessoas assustadas, conversas em voz baixa sobre a presença do forasteiro, olhares preocupados. Até que jovens líderes vieram informar que não seria realmente possível o diálogo na ausência de Benezildo de Souza e outras lideranças políticas. No pátio da escola vi tremularem bandeirinhas coloridas que anunciam a festa junina, marcada para o sábado seguinte. A comunidade borari Novo Lugar não vai ser convidada. Na festa deles tampouco alguém de Fé em Deus foi chamado. Sequer fui convidado para entrar na comunidade. A justificativa: eu estaria comprometido com o “outro lado”. Nova Olinda, dividida, vive uma guerra fria.

“Não queremos conversa. Vocês vieram aqui criar índio. Nós queremos ficar em paz e resolver os problemas”, disse um dos líderes da Fé em Deus. Atrás da roda de homens, gritou uma senhora: “A gente fala com vocês, depois vocês vão embora e a gente fica aqui, correndo perigo”. O temor que ela expressa representa alguma repressão interna que aquele povo vive e sobre a qual não quiseram falar.

Em Fé em Deus e nas demais comunidades que se comportam como se tivessem sido pressionadas, também se desconfia de jornalistas. Quando têm interesse de que algo seja publicado, convidam aqueles vistos como pertencentes a “seu lado”. Assim foi com um jornal local, de Santarém, o Impacto, e a revista Veja, que publicaram reportagens sob a égide de progresso e desenvolvimento. Ambos veículos de imprensa deixaram naquelas terras um rastro de desconforto que atinge qualquer jornalista que for para a Gleba, tornando infrutíferas qualquer tentativa de contato com os produtores rurais e os empresários.

Acompanhando um antropólogo de um instituto federal de pesquisa, interessado em compreender a relação das populações tradicionais com o Estado e sem nenhuma relação com questões étnicas, eu não havia sido levado por quaisquer dos dois lados do conflito por terras na região. Da mesma forma que os que desejam o progresso consideram terem “seus” jornalistas, também pensam disporem de antropólogos que os defendem. Nesse caso, eles contrataram Edward Luz, um antropólogo missionário, cuja missão é provar que nessa área não existem índios. Engajado de corpo e alma em acabar com o assunto, jovem líder evangélico na faixa de 30 anos, casado e pai de família, filho do pastor e presidente da Missão Novas Tribos do Brasil e formado em antropologia pela Universidade de Brasília, Edward Luz “nasceu e cresceu em berço missionário”, o próprio me diz numa linda manhã de sol em São Paulo. Era o primeiro dia da primavera de 2009, a mesma época em que tinham início as revoltas no Arapiuns. Estávamos em uma sala confortável na Universidade Mackenzie, junto de uns 15 alunos. Ele ministrava um curso para ensinar outros missionários a traduzirem a Bíblia para línguas indígenas. A missão, aqui, é levar a palavra da religião protestante para povos indígenas de pouco contato ou mesmo isolados. Um caso de proselitismo, que causou ao pai de Edward Luz (os dois têm o mesmo nome) a expulsão do território dos índios Zo’é, quando o filho ainda era criança. Além do proselitismo, também foram acusados de genocídio pela Funai, em razão de epidemias que podem ter provocado. Os Luz, desde então, foram proibidos de entrar em terras indígenas na posição de missionários.

Contratado pela Associação Comunitária dos Trabalhadores Rurais do Aruã e Maró (Acutarm), que é ligada aos empresários, foi solicitado a Luz, segundo ele escreveu em uma carta à qual tive acesso, “que se inteirasse dos fatos que vinham transcorrendo na região da mesopotâmia do Maró e o Aruan” para orientar a associação. Ele esteve nas três comunidades que “se autointitulam indígenas”, mas o acesso lhe foi negado. Ele quer analisar a situação étnica dos borari, que vivem em Cachoeira do Maró, Novo Lugar e São José. Essa demanda fundiária dos indígenas, dependendo dos cálculos da Funai, pode ficar entre 35 e 80 mil hectares. Edward sabe como funciona a Funai – ele já foi contratado pela própria para identificar terras indígenas do povo Kokama, na região do rio Solimões. Mas ele derrubou as pretensões da própria Funai e hoje responde a um processo.

A mais recente disputa de antropólogos sobre o tema ocorreu em meados de agosto, em Santarém, numa audiência pública. De um lado estavam Edward e Inácio Regis – intelectual local que também se apresenta como pesquisador e que também quer provar que aqueles índios, na verdade, não são índios, e que a terra deve ser destinada ao desenvolvimento. Em oposição estavam a antropóloga Manoela Carneiro da Cunha, professora aposentada da Universidade de Chicago, e Maria Rosário Carvalho, da Universidade Federal da Bahia.

Régis, que, procurado por e-mail, não respondeu a tentativas de entrevista, afirmou que os índios do Tapajós estão sendo induzidos a se assumirem indígenas. Luz disse que os vizinhos e parentes dos índios do Maró afirmam que eles não são índios. As duas mulheres foram polidas, e disseram que não estavam na área fazendo pesquisas de campo e, portanto, não poderiam opinar sobre o caso específico. Deixaram no ar, no entanto, que consideram essas comunidades indígenas sem colocar em questão a legitimidade da identidade.

Assim como minha presença na área foi notada com rapidez, o mesmo ocorre quando os órgãos públicos aportam para debates fundiários. De acordo com o relatório de um funcionário do Ibama que participou de uma fiscalização em 2007, a embarcação da equipe foi interceptada por uma lancha conduzida por Edson Taparello, na qual também estava Fernando Belusso, dono e gerente, respectivamente, da empresa Rondobel: “Indagaram para onde ia a equipe”, escreveu o funcionário.

Os empresários estavam acompanhados de Manoel Benezildo e da repórter Gerciene Belo, do jornal Impacto. Convocaram uma reunião-surpresa, sem programação oficial – burocracia que se faz necessária para ter a presença de representantes públicos. A equipe do Iterpa cedeu à pressão e deslocou-se na lancha do empresário. O técnico do Ibama preferiu não comparecer, pois, segundo ele, tratava-se de transporte oferecido por uma empresa que tinha interesse direto no problema e isso poderia causar interferência na fiscalização.

O relatório do Ibama, cujo integrante não compareceu à reunião, descreve o que a funcionária do Iterpa lhe contou: “Os participantes decidiram pela regularização fundiária dos lotes comunitários na modalidade individual, conforme era desejo, também, dos empresários”. A Terra Indígena Cachoeira do Maró está em processo de demarcação pela Funai. A última visita de funcionários do órgão ocorreu em setembro deste ano e buscava identificar fisicamente o local de ocupação. Para a Funai, não está em questão a autenticidade da reivindicação dos índios. “Não cabe ao Estado, ou à Funai, dizer quem é índio e quem não é”, afirma Márcio Meira, presidente da entidade

A lei e a antropologia, segundo Meira, definem a legitimidade da afirmação étnica pela autodeclaração. “Índio é qualquer membro de uma comunidade indígena, que se reconhece como tal e é reconhecido pela comunidade como um membro”, explica. É questão de afirmação social, histórica, econômica e cultural.

Na complexa teia de demandas por terras da Gleba Nova Olinda, a bola da vez é a criação do Projeto de Assentamento Estadual Agroextrativista (Peaex), que envolve as comunidades Vista Alegre e Prainha. Os títulos podem ser regularizados em cinco ou 25 mil hectares, em lotes individuais ou coletivos. E, para cada possibilidade, surge uma pressão contrária. É onde ocorrem os maiores achaques, já que a demanda dos boraris está nas mãos da Funai. Em Vista Alegre e Prainha também há divisão. Um lado, liderado por Márcio Crispim, na Prainha, e Sidiclei Fernandes dos Santos, na Vista Alegre, presidentes de associações locais montadas pelos empresários, pede ao Iterpa uma pequena área de cinco mil hectares e lotes individuais, de forma que vão poder seguir vendendo madeira para os empresários. A maioria se mostra contra esse posicionamento, mas não sabe como se manifestar oficialmente. Pedem um assentamento de lote coletivo, com cerca de 25 mil hectares – número próximo ao definido por uma pesquisa realizada pelo Museu Paraense Emilio Goeldi, e que identifica a área realmente ocupada pelo uso tradicional, incluindo reservas de caça e terras para plantações de mandioca, como entre 15 e 20 mil hectares.

Algumas associações comunitárias, como a Acutarm, estão unidas para a luta por uma terra menor. No dia 18 de junho ocorreu uma reunião com os empresários, os presidentes das associações, equipes do Iterpa e da Sema. “Os funcionários públicos não estavam capacitados juridicamente para a discussão fundiária. Estavam ali apenas para fazer vistorias dos planos de manejo de madeira”, relatou um funcionário do Ministério Público que não quis se identificar. Isso não foi um empecilho, pois a reunião ocorreu, de acordo com um relatório do MP, inclusive com a presença dos madeireiros Rosenil Vaz, Francisco Souza e Alfredo Sippert.

Laurimar dos santos, o guariba, 63 anos, vive na Prainha e mostrou-se revoltado com a situação que está vivendo quando nos encontramos. Simpático, ele afirmou que não gosta de ir à cidade: “Lá nos tratam que nem bicho, nos chamam de índio”. Santos não aceita um terreno de cinco mil hectares para toda sua família e comunidade. “Estão nos espremendo, vamos comer areia”, esbraveja.

Contrário à posição de Santos está o desejo de Márcio Crispim, que me recebeu de uma forma também simpática, ainda que um tanto desconfiada. Crispim é presidente da associação da sua comunidade, mas ele não se lembra do nome. Diz que não precisam dessa terra toda. Sobre a associação que preside (mais tarde descobri que se trata da Ainorma), Crispim afirmou que nunca houve uma reunião ou assembleia, assumiu sem desconforto que é ligado aos madeireiros, e que por isso recebe um salário com carteira assinada. Está certo de estar contribuindo para o desenvolvimento da região. Mas em outra roda de conversa comentaram que ele deseja partir para Manaus com o dinheiro que tem recebido.

Crispim é amigo de Sidiclei, pastor evangélico da Vista Alegre, que por sua vez é amigo de Edward Luz, o antropólogo missionário. Sidiclei também luta para convencer sua comunidade a aceitar um território menor, ajudar os empresários e receber benefícios e investimentos em troca. Só que Sidiclei deu uma derrapada no terreno da ética, logo após o episódio do fogo no Arapiuns. E foi obrigado a retratar-se publicamente de seus atos, acusado de achacar sua própria comunidade. Ele havia escrito uma carta, “impulsionado pela raiva da informação que foi repassada para nós”, em suas palavras, e resolveu escrever outra em seguida, para as autoridades, desmentindo-se da primeira. As duas cartas estão com o Ministério Público do Estado. A primeira é um abaixo-assinado organizado por ele, no qual a comunidade abria mão de 20 mil hectares em favor das empresas madeireiras e do desenvolvimento regional. Mas a história não foi bem assim, segundo Sidiclei. Em 7 de dezembro passado, ele assinou a segunda carta, direcionada ao Iterpa, na qual constava: “A lista foi feita como um abaixo-assinado das pessoas que queriam um gerador e não dos que queriam a ampliação da área da comunidade… quem foi coletar essas assinaturas fui eu… quando conversava com os moradores, explicava que era uma lista para conseguir o gerador”. Resumo: o abaixo-assinado que ele mesmo organizou foi feito para pedir a diminuição de terras, e não para ganhar um gerador elétrico.

Sidiclei abriu para o Iterpa o jogo para reduzir o território comunitário. Mas seguiu lutando ao lado daqueles que ofereciam o gerador em troca de madeira de lei. As doações têm sido feitas, e a comunidade tem se mostrado receptiva com as benfeitorias. De acordo com o que se ouviu numa recente visita do MP à Vista Alegre, disseram que “receberam doações de seu Francisco Souza, ganharam um grupo gerador, fiação elétrica, vão construir um templo”. Eles “preferem ficar com os cinco mil hectares e ter certeza de que terão os empregos com os empresários madeireiros”. A promotora de justiça também os ouviu dizer que “há pessoas empregadas de carteira assinada e que recebem direitinho e que a vida melhorou bastante e acham que pode melhorar ainda mais”.

Desde que a indústria madeireira passou a sofrer com a repressão à extração ilegal, a partir de 2008, o Oeste paraense foi alçado à posição de um dos grandes fornecedores do mercado. No último ano houve um crescimento de 76% das autorizações de manejo florestal, segundo o jornal Folha de S. Paulo. Operações de fiscalização têm sido realizadas – inclusive, contando com apoio logístico dos madeireiros. Por vezes são distribuídas multas. Os bens apreendidos, como carretas, motosserras, tratores, quando pegos em flagrante, têm sido liberados pela Justiça Federal de Santarém. E, por mais que os fiscais do Ibama percebam que há algo estranho no ar, eles não têm conseguido comprovar. E, em ano eleitoral, um dos setores mais importantes da economia do estado, o setor madeireiro passou a ter ainda mais influência política. “A gente sabe que tem coisa errada, que extraem madeira fora do plano. O problema é que é difícil provar”, afirma um ex-funcionário do Ibama local que também não quer se identificar.

No caso do incêndio das balsas, como nem o IBAMA nem a Sema conseguiam provar as ações ilegais na região, e a demanda fundiária não foi resolvida, surgiu a revolta. Para reagir contra a retirada da madeira e a falta de definição dos títulos de terras, os moradores da Gleba Nova Olinda se juntaram com os ribeirinhos e indígenas do Arapiuns e apreenderam as duas balsas.

Diversas lideranças comunitárias estavam presentes. Agiam de forma coletiva. Mas uma personalidade, já de destaque no movimento social de resistência, foi acusada de ser uma das responsáveis e responde judicialmente pelo ato, junto de um grupo de líderes. É Dadá, do Novo Lugar. “Sou perseguido”, ele diz. Tem sido assim desde que ele fez um curso de agente ambiental do Ibama, em 2003, época em que teria iniciado sua luta política.

Foi nos tempos do Ibama que Dadá, com acesso a relatórios de fiscalização e autorizações de manejo de madeira, descobriu a chegada dos madeireiros na área e passou a organizar a resistência. Com ele estavam Edil e Valnei, líderes de suas respectivas comunidades (Novo Lugar, Cachoeira do Maró e Sociedade dos Parentes). Esses dois tiveram de fugir da região, sob escolta do programa de proteção, para não serem mortos. Dadá ficou: “O que adianta eu ter uma proteção fora, se na aldeia vão ficar meus filhos, minha esposa, minha mãe, meus tios? Se querem me proteger, que seja na minha casa, na aldeia”.

José Heder Benatti, presidente do Iterpa, diz que está informado das negociações por terra que estão ocorrendo sob pressão e achaque. Justifica que o Estado está tomando providências para regularizar a região e consertar os erros anteriores. “As comunidades estão sendo ouvidas, com prioridade, sobre o uso tradicional da terra”, afirma, lembrando que isso não ocorreu quando transferiram os madeireiros.

Se insistirem em trocar um gerador por 20 mil hectares, Benatti diz que o instituto vai negar a titulação. “Essa pressão vai ser inócua”, garante. “A área vai ser formalizada, junto ao Ministério Público, com referência ao estudo do Museu Goeldi. Eles vão ter direito à área que ocupam e usufruem.” Se a programação correr da maneira que ele espera, em três anos o Oeste do Pará, que era uma área esquecida, terá regularizado 1,3 milhão de hectares. No entanto, “período eleitoral não é muito favorável para esse tipo de conversa”, pondera o presidente do Iterpa. Outro problema é que, enquanto isso, a valiosa madeira que pertence em parte às comunidades, e em parte ao patrimônio público, terá sido escoada por mãos privadas.

“Eu tenho medo”, relata a mãe de dadá. Dona Edite assistiu seu filho chegar em casa ferido após o espancamento, a casa dele ser queimada na aldeia, e, neste ano, o outro filho, Poró, também chegar em casa espancado, em maio último. “Dizem por aí que não tem conflito”, ela diz, em alusão a declarações de lideranças de Fé em Deus e Vista Alegre. “Isso é mentira! Aqui tem conflito, e temo por meus filhos. Eu fico muito preocupada. Tem noite que não durmo. Fico tensa quando vão à cidade. Sonho que meu filho pode estar sendo morto”, desabafa a senhora. “Eu tenho muito medo.”

AL aprova lei que institui Sistema Estadual de REDD+ em MT (ICV)

André Alves – Especial para o Institutto Centro de Vida – ICV


A Assembleia Legislativa de Mato Grosso aprovou nesta quarta-feira (19/12) projeto de lei que cria o Sistema Estadual de REDD+ em Mato Grosso. O projeto, de autoria do poder executivo, segue agora para a sanção do governador Silval Barbosa (PMDB) e não deverá sofrer alterações no texto. O sistema tem como objetivo promover a redução das emissões dos gases de efeito estufa com origem no desmatamento e degradação florestal e também estimular o manejo florestal sustentável, além do aumento de estoques de carbono no estado.

“A aprovação desta lei representa um marco regulatório para o estado, pois vamos compartilhar os benefícios da conservação ambiental”, declarou o secretário estadual de Meio Ambiente Vicente Falcão. “É uma conquista do governo, mas também da sociedade civil que durante dois anos discutiu uma proposta que veio na maturidade certa”, complementou.

O texto aprovado na Assembleia prevê ainda a participação efetiva dos diferentes grupos sociais envolvidos ou afetados pelas ações de REDD. Ou seja, os projetos e programas de desmatamento evitado em áreas de assentamentos ou terras indígenas, por exemplo, terão que atender as demandas dessas comunidades, além de prever um mecanismo de distribuição justa de benefícios.

Para o secretário a implantação de um sistema de REDD+ consolida as políticas ambientais e significa um passo importante para cumprir a meta de reduzir o desmatamento no estado em 89% até o ano de 2020. “Agora há uma nova leitura, pois além do comando e controle vamos ter instrumentos de incentivo para inibir o desmatamento”, concluiu.

Laurent Micol, coordenador executivo do Instituto Centro de Vida – ICV, entidade que coordena o GT REDD no Fórum Mato-grossense de Mudanças Climáticas, explica que com a aprovação da lei, Mato Grosso assume um protagonismo nacional em relação a instrumentos de desmatamento evitado. “Os futuros projetos e programas de redução de desmatamento em andamento poderão se enquadrar na lei assim como os futuros projetos terão que assegurar as questões sociais e ambientais previstas na lei”, explicou. “Há também uma maior segurança para os investidores e doadores para estes projetos e programas”, completou. Micol usou como exemplo a recente doação do banco alemão KFW que repassou 8 milhões de reais ao governo do Acre, o primeiro estado na Amazônia a ter uma legislação com esta finalidade, como pagamento por serviços ambientais.

A discussão da proposta da lei começou com a instituição do Grupo de Trabalho REDD, em março de 2009, no âmbito do Fórum Mato-grossense de Mudanças Climáticas. O grupo trabalhou durante dois anos na elaboração da proposta, que foi debatida em consultas públicas e recebeu propostas de modificações pela internet. Ao todo foram 171 proposições que foram analisadas até a versão final da minuta ser validada pelo Fórum.

Assim que sancionada a lei, o governo deverá instituir o Conselho Gestor do Sistema Estadual de REDD+, que terá função deliberativa. O conselho terá 12 representantes e será paritário entre governo estadual e federal com a sociedade civil. Enquanto isso, o GT REDD está trabalhando na proposta de um programa setorial para o manejo florestal para ser apresentado a Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema).

Sobre o GT REDD

O GT REDD MT conta com 78 membros, incluindo a Sema e outras secretarias estaduais, a Procuradoria do Estado, a Assembleia Legislativa, representações de organizações dos setores agropecuário, florestal, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, a Ordem dos Advogados do Brasil e a Universidade Federal de Mato Grosso. O ICV foi eleito para coordenar e facilitar os trabalhos do grupo.


REDD+ é a sigla em inglês para Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal, incluindo a conservação e ao manejo das florestas e o aumento dos estoques de carbono.

Outras informações ICV: 65 3621-3148

Água marginalizada: O reflexo da sociedade (Envolverde)

9/12/2012 – 10h35

por Sarah Bueno Motter e Giovani de Oliveira, da EcoAgência

Diluvio Água marginalizada: O reflexo da sociedade

O Dilúvio é o maior riacho que corta a cidade de Porto Alegre. Foto: Divulgação/Internet

As margens são um limite. Até onde o Dilúvio vai, até onde ele pode ir. Balizado pelo concreto humano, o arroio que corta a capital faz parte da rotina da cidade. Em suas margens, estão os congestionamentos e a ansiedade de Porto Alegre. Nas suas beiradas, está, na hora do rush, o stress de querer chegar rápido ao outro lado da cidade e não conseguir a velocidade pretendida. A poluição que corre dentro do Dilúvio também passa nos seus limiares, os quais são contaminados pela exaustão da sociedade perante sua rotina.

As margens do Dilúvio transbordam o vazio de nossa civilização que corre apressada sem nem saber o motivo. Que deixa à sua margem aqueles que não têm o capital e as oportunidades iguais, aqueles que não têm o carro, aqueles que não têm a casa. Esses ficam às margens.

As bordas também refletem as novas tendências. O desejo da ciclovia, do transporte limpo. Elas falam de um novo caminho que a cidade “quer” abrir. Um caminho para o sustentável.

Mas a sustentabilidade não caminha junto da miséria e da desigualdade e ela não é parceira do descaso. A sustentabilidade não está nas aparências. Ela não é balizada por frágeis mudanças sem conteúdo maciço, sem a pretensão de uma metamorfose. Ela não parte do nada e não chega a lugar nenhum. Ela não se inaugura com uma quadra de ciclovia, ela é uma estrada inteira.

A água, quando cai no Dilúvio, faz o barulho característico dos riachos, aquele som que muitas vezes queremos levar para casa, comprando uma fonte de decoração. O barulho é tão bonito e característico, mas o concreto afasta a cidade da natureza, que suja de nossos resíduos, continua seu caminho. As margens do Dilúvio são uma síntese do que somos. Os carros, os excluídos, a sujeira, os “novos caminhos” e a natureza que teima e vive entre o cinza da ambição humana.

O Dilúvio é o símbolo de uma sociedade precária, individualista e agressiva. Como muitas das crianças que moram embaixo de suas pontes, suas águas são agredidas desde o começo de sua vida. Já em sua nascente, na Lomba do Sabão, o arroio é violentado pela ocupação irregular da área. Famílias, sem condições de moradia, ocupam um local protegido por lei, e jogam seus dejetos nas águas do Dilúvio. Pessoas violentadas pela sociedade do ter, sem espaço para tentar ser, violentam também o arroio e invadem seu espaço.

Espaço que cada vez existe menos. Espaço cada vez mais ocupado pelo lixo, espaço que nós não temos mais. O espaço que poderia ser de lazer, de contato com a natureza em meio à cidade, torna-se um espaço do qual fugimos. Não a toa, algumas pessoas defendem que se cubra o Dilúvio. Defendem uma grande tampa de concreto, que não cure a ferida, mas nos impeça de ver ou sentir.

Mas incrivelmente, violentado do começo ao fim, o Dilúvio segue vivo, suas águas, são a moradia de peixes, pescados por improváveis gaivotas porto-alegrenses. E suas margens, costeadas pelo cinza, ainda conservam um verde, que insiste em se manter vivo.

* Publicado originalmente no site EcoAgência.