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Apesar de efeitos negativos, pandemia deixa legado de solidariedade, dizem líderes comunitários (Folha de S.Paulo)

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Lalo de Almeida/Folha Press

Cresce preocupação com educação em comunidades pobres de grandes cidades

Thiago Amâncio, 20 de setembro de 2020

Apesar de pessimistas com o legado negativo de alto desemprego e fome que a pandemia da Covid-19 pode deixar, líderes de comunidades pobres país afora se dizem esperançosos com a solidariedade criada nesses lugares após a chegada da doença.

É o que aponta levantamento feito entre 17 e 30 de agosto pela Rede de Pesquisa Solidária, que monitora as respostas à Covid pelo país. É a quarta rodada de uma enquete feita com 64 lideranças comunitárias nas regiões metropolitanas de Manaus, Recife, Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Distrito Federal, Campinas (SP), Salvador, Joinville (SC) e Maringá (PR).

“Quando perguntamos sobre perspectiva para o futuro, houve essa percepção de que a pandemia gerou engajamento, foi uma surpresa para nós. Por um lado, é efeito de uma constatação negativa: as pessoas se sentiram abandonadas e aprenderam que tiveram que se reestruturar para reagir à pandemia”, diz Graziela Castello, diretora-administrativa e pesquisadora do Cebrap.

“Moradores que não tinham história de associativismo, relação com sindicato, com partido, começaram a se organizar. Dos entrevistados, 16%, acham que gerou algum tipo de consciência política na população e que a gestão da pandemia provocou a necessidade de avaliar o governo, pensar nas eleições. Dentro do cenário de abandono completo, talvez tenha impacto positivo de maior prática de cidadania política”, continua.

O principal problema apontado pelas lideranças, no entanto, ainda é a segurança alimentar: 62% dos entrevistados disseram se preocupar com a fome provocada pela pandemia. A falta de trabalho também foi citada por metade dos ouvidos.

Uma outra questão despontou no último questionário feito: a preocupação com a educação. Um em cada cinco entrevistados citou a volta às aulas como um dos problemas mais críticos atualmente.

E aí os líderes se dividem: parte deles se preocupa que o retorno das crianças às escolas possa aumentar a contaminação dentro das comunidades; outra parte se preocupa com o pouco acesso das crianças e adolescentes a ferramentas de ensino remoto, prejudicando a aprendizagem.

“Os familiares são terrivelmente contra o retorno às aulas, mesmo porque se trata de um governo e de um prefeito que não investiu na saúde, não fez um investimento na preparação da volta às aulas, nas salas de aula. Segundo, o governo e o prefeito lá vão colocar um frasco de álcool em gel e um ventilador para fazer a ventilação, e [afirmam que] isso é o suficiente para espantar o vírus. A gente sabe que precisa de um investimento muito maior do que isso”, diz um entrevistado do Tucuruvi, zona norte de São Paulo.

“As famílias não têm internet, telefone, computador em casa. E as crianças estão sem estudar, sem escola. E devido a essa situação elas ficam em casa sem fazer nada. Tem mães analfabetas que não sabem explicar e ajudar nas atividades, ficou muito difícil nas comunidades”, diz outro na Brasilândia, também em São Paulo.

Para Castello, “a diversidade de opiniões mostra o drama que é gerenciar essa situação”, diz. “De um lado, tem o medo da volta às aulas, do impacto nos parentes mais velhos, a preocupação de que as escolas não estão preparadas para voltar. Do outro lado, as lideranças apontam deficiências cognitivas, depressão nas crianças, todo esse processo que o distanciamento tem gerado.”

“As duas coisas são muito perversas. Os pais lidam com o medo da volta e com a impossibilidade da manutenção em casa”, diz a pesquisadora.

A Rede de Pesquisa Solidária reúne dezenas de pesquisadores de instituições públicas e privadas, como a USP, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Desde abril, eles têm produzido boletins semanais, que estão disponíveis no site da iniciativa.

Peter Sloterdijk: “O regresso à frivolidade não vai ser fácil” (El País)

Para o grande filósofo alemão é evidente a necessidade de um “escudo universal para a humanidade”

Ana Carbajosa, 09 may 2020 – 11:29 BRT

Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.
Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.Vicens Gimenez / © Vicens Gimenez

Do outro lado do telefone, a voz de Peter Sloterdijk está fraca. O grande filósofo alemão explica que não está muito bem neste dia, mas imediatamente desata a falar e lança as ideias que o novo universo da pandemia estruturam em sua cabeça. No centro, um conceito que já havia trazido à tona e que agora assume um novo significado, o da coimunidade, do compromisso individual voltado à proteção mútua, que marcará a nova maneira de estar no mundo, segundo o autor de Crítica da Razão Cínica e da trilogia de Esferas. Sloterdijk (72 anos, Karlsruhe) não acha que o mundo se tenha tornado grande demais para nós, nem que tenha chegado a hora do recolhimento nacional. Pelo contrário, acredita que a extrema interdependência ficou evidente e requer “uma declaração geral de dependência universal”.

PERGUNTA. A dimensão da pandemia paralisou e atordoou as sociedades. O que acontecerá quando despertarmos e o medo diminuir?

RESPOSTA. O mundo em sua concepção como gigantesca esfera de consumo se baseia na produção coletiva de uma atmosfera frívola. Sem frivolidade, não há público nem população que mostre inclinação ao consumo. O vínculo entre a atmosfera frívola e o consumismo foi rompido. Todo o mundo espera agora que esse vínculo volte a ser reconectado, mas vai ser difícil. Depois de uma disrupção tão grande, o retorno aos padrões de frivolidade não será fácil.

P. Nessa esfera frívola, pensávamos ser capazes de controlar a natureza com tecnologia sofisticada, mas o vírus nos deixou de joelhos. Nossa maneira de estar no mundo mudará?

R. O problema é a atmosfera frívola e que não aprendamos nada novo com esta pandemia. Se olharmos para a história das sociedades modernas, elas estiveram impregnadas de surtos relativamente regulares, mas, no passado, as pessoas tendiam a voltar aos seus hábitos comuns de existência. O novo agora é que vemos que, por causa da globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia.

P. Como essa ideia de proteção mútua se insere na situação atual?

R. O conceito de coimunidade implica aspectos de solidariedade biológica e de coerência social e jurídica. Essa crise revela a necessidade de uma prática mais profunda do mutualismo, ou seja, proteção mútua generalizada, como digo em Você Tem que Mudar a Sua Vida.“

A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia”

P. A comunidade internacional parece caminhar na direção oposta. Atualmente, vemos mais competição do que cooperação.

R. Vejo, no futuro, a competição pela imunidade ser substituída por uma nova consciência da comunidade, pela necessidade de promover a comunidade, fruto da observação de que a sobrevivência é indiferente às nacionalidades e às civilizações.

P. Hoje os países fecham as suas fronteiras e se recolhem a si mesmos.

R. Sim, mas as fronteiras são para os moradores de ambos os lados. Não devemos interpretar de modo errado. O bem-estar da saúde nacional também ajuda os vizinhos. Se controlamos nossos problemas de saúde, também ajudamos nossos vizinhos, e não devemos interpretar esse auto-cuidado como uma regressão nacionalista. Ao contrário, se todos forem cuidadosos em seu território, darão uma enorme contribuição aos demais.

P. O Estado-Nação reemerge com força no meio da emergência, mas, ao mesmo tempo, nunca os países dependeram tanto uns dos outros.

R. Nos dois últimos séculos, a maior preocupação das entidades políticas, dos Estados-nação, girou em torno da independência. No futuro, precisamos de uma declaração geral de dependência universal; a ideia básica de comunidade. A necessidade de um escudo universal que proteja todos os membros da comunidade humana não é mais algo utópico. A enorme interação médica em todo o mundo está provando que isso já funciona.

P. Nossas democracias correm perigo ou as liberdades serão reabilitadas após os estados de alarme?

R. Em todo o mundo, agora, estão lembrando que a necessidade de um Estado forte é algo que acompanhará nossa existência por um longo período, porque parece que é único disponível para solucionar problemas. Isso é complicado porque poderia corromper nossas demandas democráticas. No futuro, o público em geral e a classe política terão a tarefa de monitorar um retorno claro às nossas liberdades democráticas.

P. As forças populistas agora parecem deslocadas, mas cresce o medo de que se alimentem da frustração. Que impacto o senhor acha que a pandemia terá no populismo?

R. Todo mundo precisa entender que esses movimentos não são operacionais, que têm atitudes pouco práticas, que expressam insatisfações, mas que de modo algum são capazes de resolver problemas. Acho que serão os perdedores da crise. O público terá entendido que você não pode esperar nenhuma ajuda deles.

A corrente de humanização que se tece em tempos da pandemia da Covid -19 (Blog Cidadãos do Mundo)

25/05/2020 14:32

Por Sucena Shkrada Resk*

Campanhas pelo país impulsionam o exercício de empatia e desprendimento

Uma das características singulares que emerge em tempos de crise é a humanização, que vem carregada daquela palavra ‘aconchegante’ chamada empatia. Problemas da sociedade moderna já existentes se multiplicaram exponencialmente, em tempos de quarentena devido à pandemia da Covid-19, e potencializam hoje o que cada cidadão-solo ou em esforços coletivos pode contribuir aos mais vulneráveis. Assim, as campanhas se ampliam em diferentes regiões do Brasil, com doações de tempo em trabalho, de alimentos, produtos de limpeza, medicamentos para famílias e comunidades mais necessitadas. Como também, doações em itens ou dinheiro para asilos, hospitais públicos e instituições de pesquisa e a causas de PET abandonados.

Este é o mosaico formado por uma rede-cidadã que se forja dia a dia na resiliência às adversidades aqui e em outros lugares no mundo. Caso você se sinta sensibilizado por iniciativas realizadas por organizações idôneas, não se acanhe, parta para as ações dentro de suas possibilidades! É a filosofia do ganha-ganha!

Caso não tenha ideia do ponto de partida, faça um levantamento de entidades em seu bairro ou município, que mantêm trabalhos permanentes assistenciais credenciados ou sobre causas que tenha mais afinidade em suas congregações religiosas ou não. Verifique suas necessidades. Ou quem sabe, se bem mais perto de você, o seu próprio vizinho não está precisando de ajuda? Uma palavra amiga, uma divisão de mantimento, que não faz falta em sua casa, ou se oferecer a fazer uma compra de alimentos, fazem parte deste exercício.

Aqui, em São Caetano do Sul, SP, pesquisei algumas campanhas locais e doei pequenas quantias ao Abrigo Irmã Tereza e ao Lar Bom Repouso. Também a catadores de materiais recicláveis de São Paulo, a indígenas de São Paulo (pelo Instituto Akhanda) e à Campanha Existe Amor, de Milton Nascimento e Criolo e aos franciscanos.  E continuo, neste propósito, também no papel de comunicadora. Cada um vai encontrar ferramentas próprias que dão sentido nesta engrenagem.

Para facilitar a interação entre os elos de quem quer contribuir e quem precisa receber, alguns sites têm feito pontes nestas relações.  Confira alguns:
– Ação da Cidadania: https://www.acaodacidadania.com.br/formas-de-doar
– Agência da ONU para Refugiados: https://doar.acnur.org/acnur/coronavirus.html
– Amigos do Bem (atuação no sertão de Alagoas, Ceará e Pernambuco):  amigosdobem.org/acaoemergencial/
– Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB): https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas
– Central Única das Favelas: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-a-cufa-a-ampliar-seu-combate-ao-coronavirus
– Caritas Brasileira: https://caritas.org.br/
– Cruz Vermelha Brasileira: https://www.cruzvermelha.org.br/pb/category/noticias/covid-19/
– Projeto Mãe das Favelas: https://www.maesdafavela.com.br/
– Campanha p/Comunidade de Paraisópolis (SP): https://www.esolidar.com/en/crowdfunding/detail/3-g10-apoie-paraisopolis-a-combater-o-corona-virus?lang=br/
– Fundo Emergencial para a Saúde – Coronavírus: https://www.bsocial.com.br/causa/fundo-emergencial-para-a-saude-coronavirus-brasil
– Meu Rio (Covid nas Favelas): https://www.covid19nasfavelas.meurio.org.br/
– Defesas civis do seu município e/ou Estado
– Fundos Sociais de Solidariedade dos municípios e estados
– Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): https://secure.unicef.org.br/Default.aspx?origem=covid19
– Hospital das Clínicas de São Paulo: https://viralcure.org/hc
– Médicos Sem Fronteiras: https://coronavirus.msf.org.br/
– Movimento Família apoia Família: https://benfeitoria.com/canal/familias
– Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR: https://solidariedadeaoscatadores.com.br/

É preciso sempre estar atento quanto à transparência das informações sobre as quantias e destinações desses recursos. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) criou a página https://www.monitordasdoacoes.org.br/, que tem apurado o levantamento de doações à causa da Covid-19, com dados de doadores como também de mais de 350 campanhas em andamento no país. Nos informes, há dados de quanto estão recebendo (com no mínimo R$ 10 mil angariados à causa). É mais uma maneira interessante de possibilitar uma certa transparência deste universo, que tem de existir de forma autônoma nos canais de comunicação das instituições envolvidas.

– Plataforma Para Quem Doar: https://redeglobo.globo.com/Responsabilidade-Social/pra-quem-doar/
– Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: https://www.santacasasp.org.br/portal/site/pub/16267/lista-de-doacoes—campanha-de-combate-a-covid-19
– Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras): https://www.sefras.org.br/novo/acao-e-solidariedade-franciscana-covid-19/
– Universidade de São Paulo – USP (plataforma para colaborações a ações de pesquisa): www.usp.br/uspvida

O que importa, no final das contas, é encontrar nestes pequenos gestos, o sentido de pertencimento, pelo qual conseguimos dividir e compartilhar, se possível, de palavras a elementos de necessidade básica. E ter a percepção de que todos estamos juntos em um mesmo barco, mas alguns precisam de mais apoio do que outros, em momentos de crise.

*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Leia mais: https://cidadaosdomundo.webnode.com/news/parte-7-a-corrente-de-humanizacao-que-se-tece-em-tempos-da-pandemia-da-covid-19/

Promotoria pede a Covas 8 mil vagas para acolhimento de pessoas em situação de rua (Estadão)

politica.estadao.com.br

Paulo Roberto Netto e Pedro Venceslau

20 de maio de 2020 | 11h20

O Ministério Público de São Paulo emitiu recomendação ao prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), pela criação de 8 mil vagas para acolhimento de pessoas em situação de rua durante a pandemia do novo coronavírus. A proposta inclui o uso da rede hoteleira da cidade e dos prédios públicos municipais ociosos.

Edital da Prefeitura Municipal previa a disponibilização de 500 vagas em hotéis para idosos em situação de rua que estejam acolhidos nos serviços da rede assistencial do município. De acordo com o MP, a oferta é ‘tímida e claramente insuficiente’, visto que haveria cerca de 25 mil pessoas em situação de rua em toda a capital, segundo censo realizado em 2019.

“Destas, estão acolhidas aproximadamente 17.000, que são as vagas disponíveis de acordo com o mesmo censo” afirmou a Promotoria. “Tendo em conta o avanço do vírus e o alto risco de contágio entre a população em situação de rua, é preciso que a Prefeitura Municipal adote providências emergenciais, ainda que provisórias, destinadas à oferta de vagas a todas as pessoas em situação de rua. É preciso, pois, providenciar com urgência a criação de no mínimo 8 mil vagas”.

A recomendação foi determinada após representação do ex-presidenciável Guilherme Boulos, da deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) e do Padre Júlio Lancellotti.

A Promotoria pede a utilização de mais vagas na rede hoteleira, que se encontra ociosa devido à retratação econômica, ‘inclusive como garantia de manutenção dos estabelecimentos comerciais e de emprego aos trabalhadores’.

Moradores em situação de rua na região da Avenida Paulista, em São Paulo (SP). Foto: Felipe Rau/Estadão

Outra opção é o uso de prédios públicos municipais ociosos, como escolas e centros esportivos.

“É preciso lembrar que a hipótese de confinamento compulsório (dito lockdown), que vem sendo cogitado pelo Governo Estadual e pelo Governo Municipal, tornará a providência aqui discutida indiscutivelmente necessária”, apontou o Ministério Público.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE SÃO PAULO

A Prefeitura de São Paulo vem promovendo diversas ações de combate ao Coronavírus voltadas para a população em situação de vulnerabilidade, sempre seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde (MS) e das secretarias Estadual e Municipal da Saúde. O foco do Município é ampliar a rede de apoio para que todas as comunidades sejam atendidas. Com esse objetivo, a Administração já distribuiu cerca de 170 mil refeições à população em situação de rua, e mais de 280 mil cestas básicas foram entregues a famílias em extrema situa de vulnerabilidade. Na região central, diversas famílias recebem mantimentos, como itens de alimentação, limpeza e higiene. Em toda cidade, foram distribuídos, apenas no último mês,  mais de 50 mil kits de higiene e alimentação. Outra ação em andamento é o cartão alimentação, já entregue a mais 350 mil crianças matriculadas na rede municipal.

ACOLHIMENTOS

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que criou oito novos equipamentos emergenciais, com funcionamento 24h, para acolhimento de pessoas em situação de rua, totalizando 680 novas vagas. Outras 400 vagas serão criadas nos Centros de Educação Unificado (CEUs).

Os Centros de Acolhida têm suas estruturas higienizadas constantemente e são mantidos com as janelas abertas. Nos quartos as camas foram colocadas em distância segura. Todos os eventos agendados nos serviços foram cancelados e as visitas suspensas. Todas essas medidas contribuem para diminuir o risco de contágio.

Neste período de pandemia, a SMADS ampliou a oferta de serviços nos quais as pessoas em situação de rua têm acesso a refeições, banheiros, kits de higiene e orientações. Na região da Luz, por exemplo, desde 26/03 foi instalado um Núcleo de Convivência de caráter emergencial, para servir 200 refeições à população local (almoço e café da tarde). No dia 03/04, outro núcleo começou a funcionar, na região do Cambuci, com capacidade de oferecer café da manhã, almoço e café da tarde para 200 pessoas. A rede municipal conta com 10 Núcleos de Convivência, com 3.172 vagas. Para os Núcleos de Convivência da Sé, Prates, Porto Seguro, Complexo Boracea, Helvetia foram aditados em caráter emergencial mais 1.260 vagas.

A Secretaria informa também que já planeja a utilização de hotéis para abrigar pessoas em situação de rua. Tanto que foi publicada hoje (20) a prorrogação do Edital de Credenciamento nº 002/2020/SMADS, para 500 vagas, até o dia 29/5 para convocar os estabelecimentos hoteleiros, localizados no município, para prestarem serviços de hospedagem às pessoas em situação de rua. A data da sessão pública também foi alterada para o dia 01/06. O objetivo é disponibilizar vagas para idosos que estão nos Centros de Acolhida para Adultos e promover o distanciamento social e aumentar os espaços nos centros de acolhidas para pessoas mais vulneráveis.

Somadas as mais de 1.500 vagas de centros emergenciais e do edital de credenciamento de hotéis às 17,2 mil vagas regulares de acolhimento à população em situação de rua dos 89 serviços de SMADS, a cidade chega próximo das 20 mil vagas de para atendimento a esse público.

O edital e o comunicado estão disponíveis no link abaixo:

Coronavírus e as quebradas: 16 perguntas ainda sem resposta sobre impacto da pandemia nas periferias (Periferia em Movimento)

Publicado porThiago Borges –

Precisamos falar sobre o novo coronavírus, mas sem pânico.

Nesta quinta-feira (12/03), o Brasil acordou com 52 pessoas infectadas pelo coronavírus e foi dormir com 69 casos confirmados. Em todo o mundo, são 122 mil casos confirmados e mais de 4.500 mortes registradas. A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou pandemia, isto é, o vírus deixou de ser restrito determinadas regiões e passa a ser uma questão de saúde pública global.

A taxa de mortalidade do novo vírus, ainda sem vacina, é considerada baixa – em torno de 3% dos casos – e atinge principalmente pessoas com maior vulnerabilidade, como idosos ou com doenças pré-existentes (como diabetes, câncer, etc.).

Com mais de 50 casos no País, o Ministério da Saúde do governo de Jair Bolsonaro alerta que a transmissão deve se dar de forma geométrica – isto é, deixa de ser restrita a pessoas que se infectaram em outras regiões do mundo e passa a acontecer no próprio território.

Segundo o Instituto Pensi do Hospital Infantil Sabará, após atingir 50 casos confirmados o total de infectados no Brasil pode aumentar para 4.000 casos em 15 dias e cerca de 30.000 depois de 21 dias.

Com isso, o vírus deve se expandir rapidamente nas próximas semanas e o Sistema Único de Saúde (SUS) precisaria de 3.200 novos leitos em UTI (Unidade de Terapia Intensiva) para dar conta da demanda – 95% dos 16.000 leitos de hoje já estão ocupados.

Dito isso, nós moradoras e moradores de periferias urbanas, povos da floresta e marginalizados em geral, precisamos nos atentar com as medidas de prevenção (confira no gráfico abaixo) mas também com efeitos colaterais dessa pandemia no nosso dia a dia.

Muito se fala no impacto da pandemia sobre a economia global. Mas em um País marcado por desigualdade social, machismo, racismo e LGBTfobia, com cortes em políticas públicas e desemprego recorde, o coronavírus tem potencial de impactar não apenas nossa saúde como também nossa frágil convivência em sociedade. Precisamos de solidariedade e vigilância nesse momento.

Por isso, a Periferia em Movimento faz 16 perguntas ainda sem resposta (a lista continua em atualização) sobre esse novo cenário:

1. As periferias vão receber recursos da saúde de forma proporcional às nossas necessidades?

2. O governo vai adotar medidas de confinamento ou restrição de circulação de pessoas?

3. Como fazer quarentena em área de aglomeração, como periferias e favelas?

4. Os governantes vão acionar a Polícia Militar pra controlar a população nas periferias?

5. Se rolar quarentena, quem vai dirigir os ônibus, fazer o pão de cada dia e entregar a comida do ifood no apartamento da classe média?

6. Com o desemprego recorde e o mercado informal em alta, pessoas que vivem de bico vão conseguir fazer dinheiro como?

7. Se as aulas forem suspensas, com quem ficarão as crianças que frequentam creches em período integral?

8. Sem aulas, sem merenda: estudantes em situação de insegurança alimentar vão passar fome se não forem pra escola?

9. Ainda sobre a suspensão das aulas, qual é o risco da explosão de casos de violência sexual contra crianças e adolescentes – que passarão mais tempo em casa?

10. O maior tempo em casa também aumenta o risco de mulheres sofrerem violência de seus companheiros?

11. E com mais pessoas com circulação restrita, o risco de conflitos em comunidades também aumenta?

12. Como os governantes avaliam as possibilidades de aumento em todos os tipos de violência com essa pandemia?

13. Como idosos em situação de vulnerabilidade serão assistidos pelo governo?

14. De que forma, a pandemia deve impactar a população em situação de rua?

15. Como ficam os presidiários, que já vivem em situações de aglomeração, tortura e com doenças que estão controladas no mundo externo?

16. E como serão atendidos os indígenas, que necessitam de estratégias específicas de saúde devido à menor imunidade a doenças transmitidas desde a invasão europeia ao continente americano?

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