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Medo da morte na pandemia oferece uma chance de reconsiderar a vida, diz professor de filosofia (Folha de S.Paulo)

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Pedro Duarte, 1 de agosto de 2020

[RESUMO] Professor de filosofia analisa a sensação de medo da morte e de angústia intensificada nos últimos meses pelo coronavírus, o que nos leva a pensar na finitude da vida e em nossa liberdade no mundo, no significado do que fazemos e queremos, processo no qual a escrita tem papel essencial de dar forma ao que vivemos e anunciar o que está por vir.

“Para mim, em breve, será só escuridão.” Essas foram as palavras que Sérgio Sant’Anna escolheu para terminar seu conto publicado na Folha no dia 26 de abril. O texto recorda um treino de futebol do seu amado Fluminense nos anos 1950 e impressiona pelos detalhes. O golpe de mestre, entretanto, está no narrador: a trave. Quem nos conta o conto é a trave do gol.

Ela já está velha. Confessa que funcionários do clube foram vê-la e deram um veredicto: tem que trocar, pode até dar cupim. “Em breve meu tempo terá passado”, diz.

Sérgio morreu no dia 10 de maio em decorrência do coronavírus. É assustador ler o conto sabendo disso, parece que a trave falava por ele, uma profecia assombrosa. É sempre perturbadora a ideia de que alguém pressente a própria morte, mesmo alguém que estava doente.

Sérgio fazia muitos posts no Facebook, o que dava uma sensação de proximidade. Em um deles, semanas antes de morrer, admitia achar aterrorizante essa peste que nos assola e afirmava que só sabia responder a isso escrevendo. Foi o que fez até o fim. Isso é um escritor.

Mesmo quem não é, porém, pode entender a pressa que parecia ter o Sérgio. A consciência de que vamos morrer, a consciência da nossa finitude, pode ter esse efeito. Uma pressa que é desejo de viver. É que, para ele, viver era escrever, e escrever talvez fosse mais até que viver.

O que está em jogo, contudo, é a mesma coisa: o tempo finito que temos, ou melhor, que nós somos. Com a pandemia, é provável que ela, de quem tentamos manter distância, chegue perto de nós: não a morte em si apenas, mas a mortalidade que nos constitui.

Logo antes disso tudo começar, havia falecido Max von Sydow, ator sueco que deu vida, no filme “O Sétimo Selo” (1957), de Ingmar Bergman, ao cavaleiro Antonius Block.

O enredo se passa na Idade Média. O filme narra o retorno do cavaleiro da Cruzada da Fé para a terra natal, onde está a peste, o que suscita uma consciência da morte. O cavaleiro engaja-se em um jogo de xadrez com ela, que aparece como um personagem, vestida de preto. Block descobre no fim, e Sydow anos depois, que ninguém vence a morte. Mas ganhou uns dias de vida enquanto jogava com ela.

Para boa parte de nós, a pandemia de Covid-19 infunde um medo da morte. Isso enseja medidas concretas que ajudam a evitá-la: distanciar-se das outras pessoas que podem portar o vírus, lavar as mãos e até os produtos, usar máscaras no rosto.

São medidas objetivas de proteção, que podem ajudar a preservar a vida. O medo nos oferece o que fazer, pois ele possui um objeto definido ao qual se dirige, mesmo que seja algo invisível, como o vírus.

No entanto, além do medo, a pandemia também pode despertar a angústia. Não me refiro só ao quadro clínico patológico da angústia, e sim à disposição que a filosofia, desde Kierkegaard no século 19, distingue do medo precisamente porque não se refere a um objeto específico no interior do mundo, mas à nossa própria presença finita nele.

O que angustia na angústia somos nós mesmos. Por isso, a angústia nos deixa meio perdidos, sem ter o que fazer. Com ela, não se trata mais de evitar a morte, mas de compreender a vida mortal que temos.

Nesse sentido, o medo pode ser vencido sem que mudemos nada em nós, enquanto a angústia, que não pode ser vencida, mas apenas experimentada, exige a reconsideração da liberdade de nossa presença no mundo. Em outras palavras, o medo nos dá o que fazer, e a angústia coloca em jogo o nosso ser.

Talvez, e só talvez, a parada obrigatória que a pandemia forçou para todos possa fazer pensar. Não digo pensar só nos destinos do mundo, do Estado, do capitalismo e da modernidade, como os filósofos têm feito, embora isso tenha o seu interesse.

Refiro-me a pensar, cada um em seu íntimo, o sentido do que fazemos e queremos a partir dessa interrupção do que vínhamos fazendo e querendo. Um amigo querido se perguntou outro dia o valor de tanta filosofia que aprendeu até aqui. Por angustiante que seja, é uma chance de reconsiderar a vida.

O esvaziamento de nossas ocupações diárias anteriores ou a sua exacerbação sem as folgas e respiros de antigamente podem trazer à tona a questão de seu sentido, do que elas valem para nós. Por falta ou excesso, por tédio ou fartura, podemos perder a naturalidade familiar com nós mesmos e nos estranhar, até mesmo ao ponto de pensar o que antes não se pensava.

Pode ser cedo ainda para formular bem que tipo de suspensão é esta, mas ela está aí. Pois a morte não é o oposto da vida, é seu avesso. Ela é que nos faz ver a finitude da existência. Por isso mesmo, também há a possibilidade de fugirmos da angústia, pois ela nos lança cara a cara conosco e com o mundo em que não temos muitos amparos.

Desconfio inclusive que o apelo dos motes de retorno ao trabalho e volta à normalidade —para além de necessidades reais e dos desejos pujantes, já que nos foi subtraído o próprio convívio amoroso com as outras pessoas— tem força não apenas por causa da economia, mas porque carrega a esperança de acabar com a angústia, de tapar o buraco que foi cavado por um reles vírus.

O problema é que não foi o vírus que cavou esse buraco. Ele já estava lá, e sempre está, como sabiam os filósofos existencialistas. As condições da pandemia podem fazer olharmos para ele. É um vazio, mas cuja abertura nos faz livres.

Ou seja, se tudo fosse preenchido, não haveria margem de liberdade. O nada, que mora no coração do ser, permite deixarmos de ser o que éramos e nos tornarmos outros (na sua poesia, Fernando Pessoa falava de um “outrar-se”). Esse nada impede que nos definamos de uma vez por todas: põe aventura na vida.

Evidentemente, essa especulação um tanto metafísica convive com pressões ordinárias e terríveis que são as pessoas morrendo, como o próprio Sérgio: deixando de ser. Mas o resto de nós, muitos reclusos em casa, é afetado também às vezes por essa “clara noite” da angústia.

É como se a abrupta e radical desarrumação do sentido do mundo deixasse um vazio ou um nada que, por não estar ocupado, permite que o sentir e o pensar se refaçam de outra forma, diferentemente de antes. Nada mais é tão certo. O futuro está perigosamente em aberto.

Como se ignora ainda a duração da pandemia no tempo e os estragos dela na sociedade, há um abismo, como diria o teórico Reinhart Koselleck, entre como concebemos nosso espaço de experiência e nosso horizonte de expectativa. Isso é o que causa angústia, essa espécie de soltura incerta do presente.

Quantos de nós têm segurança de que seus empregos, ou até suas profissões, ainda estarão aí em dois anos? Quantos estão convictos de que vão continuar querendo viver do mesmo jeito? Tudo isso pode significar uma fissura no ser.

Continuaremos a ter perdas. Não somente em relação aos que morrem, mas a um certo modo de viver. Teremos que incorporá-las, achar um lugar no qual a dor dispense a sua cura. Elizabeth Bishop, a poeta norte-americana que viveu no Brasil, tem conhecidos versos nos quais tenta, justamente, apresentar “uma arte”, ou seja, um ofício, um saber, sobre o perder. Na ótima tradução de Paulo Henriques Britto, o poema pode nos ensinar alguma coisa.

A arte de perder não é nenhum [mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder [não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. [Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta [bestamente.
A arte de perder não é [nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais [critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. [Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem [quero
Lembrar a perda de três casas [excelentes.
A arte de perder não é [nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um [império
Que era meu, dois rios, e mais um [continente.
Tenho saudade deles. Mas [não é nada sério.

—Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. [Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser [mistério
por muito que pareça [(Escreve!) muito sério.

Essa pedagogia pode nos fazer aprender exatamente que, em cada perda, da menor até a maior, insinua-se a morte. E que, portanto, a morte não é apenas aquele “depois da vida” sobre o qual tanto se especula, mas também o elemento interno que dá à vida seu tempo, que faz da vida algo no tempo. Esses versos talvez possam vir a constituir o epílogo do que está por vir. Escreve!

De novo, Sérgio Sant’Anna. Ele queria escrever enquanto houvesse tempo. E penso na quantidade enorme de textos, como este aqui, que desde o começo do ano são escritos sobre a pandemia. Por um lado, é claro, o tema se impõe e convoca compreensão para nos aproximarmos dele.

Por outro, acredito que há uma vontade de escrever sobre ele no sentido do poema da Bishop: um misto de testemunho e aviso, de lembrança e recomendação. Escrevendo, retemos aquilo que está se passando e advertimos sobre o que ainda pode estar por vir.

Desde os primórdios, a escrita teve essa dupla função: guardar e anunciar. Nos dois casos, ela era uma tentativa de vencer o esquecimento, do passado e no futuro. Para não esquecer o que se passou ontem, registramos. Uma salvaguarda. (Na Grécia, Platão condenou a escrita porque, com ela, nos desincumbiríamos de lembrar as coisas por nós mesmos: a memória deixaria de se localizar dentro de nós e ficaria guardada fora.) Já para não esquecermos o que devemos fazer amanhã, anotamos, como quando usamos um post-it.

Escrever deve ser ainda a forma de se tentar confirmar o que vivemos, já que parece inacreditável. Isso: escrever é uma forma de acreditar, de fazer crer. É de fato o que está acontecendo. Como se precisássemos dar forma a um conteúdo que ainda nos escapa, nos desafia, nos estarrece. É um modo de, a cada dia, saber que estamos de fato acordados, não dormindo ou sonhando. Pois essas duas coisas às vezes parecem se misturar confusamente na rotina insólita.

Vimos, no século 21, guerras, atentados e crises financeiras que dificultavam a vida acordada. Assistimos, no cinema, a sonhos com alienígenas, asteroides, zumbis, aquecimentos, congelamentos e até epidemias que acabam com o mundo.

Filmes de Hollywood nos deram diversas versões de causas não humanas para o fim dos humanos. Como afirmou Fredric Jameson, a julgar pela produção do cinema comercial, parece que ficou mais fácil conceber o fim do mundo do que o fim do capitalismo, já que revoluções sociais foram raramente encenadas.

Entre os filmes sobre o fim do mundo, um que se destaca é “Melancolia” (2011), de Lars von Trier. O diretor dinamarquês pôs em cena dois personagens com modos de vida opostos diante da iminente colisão de um planeta com a Terra: uma melancólica, interpretada por Kirsten Dunst, e um pragmático, interpretado por Kiefer Sutherland (o ator que encarnara o agente antiterrorista americano Jack Bauer na série “24 Horas”, um ícone do pragmatismo).

Ela lida melhor com o desastre. Já era versada na arte de perder; ele, somente na de ganhar. O sujeito se prepara, estoca mantimentos e tudo o mais —contudo, quando fica claro que não dá para vencer o jogo de xadrez, suicida-se. Já ela encontra um conforto simbólico: faz uma cabana imaginária na qual se abriga com a irmã e o sobrinho. O mundo acaba.

Trata-se de um raro filme sobre o fim do mundo no qual o mundo de fato acaba. Na maior parte das vezes, um herói ou super-herói salva a pátria, quer dizer, o planeta, ou então um grupo de pessoas consegue escapar e caberá a ele recomeçar a aventura humana na Terra. Filmes sobre o fim do mundo costumam ser filmes sobre o quase fim do mundo. Não o de Lars von Trier. Tudo acaba mesmo.

Como eu não tenho qualquer simpatia por ele e tampouco por essa ideia, embora goste muito do filme, devo dizer que outro dia, lendo um texto bastante triste de um amigo sobre a pandemia, só consegui me ater a uma frase, no meio daquela tristeza: a pandemia vai passar. Ele a tinha escrito como um mero detalhe. Para mim, a frase diz muito, mesmo que a pandemia não passe tão cedo.

Pois, embora a morte seja o nosso destino certo e irrevogável, nossa presença no mundo não ganha o seu sentido por causa disso. O medo da morte pode acordar certa lucidez, mas, como observou o filósofo José Gil, não deve nos dominar na pandemia, pois ele encolhe o espaço, suspende o tempo, paralisa o corpo.

É preciso ter um medo desse medo. Mesmo a angústia, que nos coloca em relação com a finitude, não o faz em nome da morte, e sim da vida e de sua liberdade no tempo breve em que existimos. Como escreveu Hannah Arendt, os seres humanos, “embora devam morrer, não nascem para morrer, mas para começar”.

Sérgio Sant’Anna parecia saber bem das duas coisas. No dia 5 de abril, publicou um post no Facebook em que dizia que Jorge Luis Borges tem um conto no qual o personagem, um escritor à beira da morte, consegue de Deus que o seu tempo final seja elástico o suficiente para terminar um romance. “Queria isso para a minha novelinha e todo o livro a que ela pertence”, disse Sérgio, “e confesso que rezo todo dia”.

É esse o valor da vida que a morte traz. Sérgio morreu começando. Só queria mais tempo para escrever. Foi-se, dando início. Aos 78 anos.

Não se combate covid sem as ciências sociais, diz Paulo Saldiva (Jornal da Ciência)

6441, 14 de julho de 2020

Estágio atual das pesquisas científicas sobre a covid-19 foi tema de exposição no primeiro painel da Mini Reunião Anual Virtual da SBPC

A mortalidade por covid-19 no Estado de São Paulo está concentrada na periferia, tendo como fatores principais as condições precárias de saneamento, habitação e transporte coletivo. Foi o que afirmou ontem o médico patologista Paulo Saldiva, durante o primeiro painel da Mini Reunião Anual Virtual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Com o tema “A Situação da Pandemia da Covid-19”, coordenado pela bioquímica Selma Bezerra Jeronimo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o painel teve como expositores, além de Saldiva, o pneumologista Marcelo Amato, da Universidade de São Paulo (USP), a biocientista Daniela Barretto Barbosa Trivella, do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) e o infectologista Estevão Portela Nunes, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Na linha de frente do enfrentamento à covid-19, estes profissionais apresentaram seus estudos e as últimas descobertas sobre a pandemia. Saldiva explicou que o perfil dos mais atingidos pela doença na cidade foi obtido em entrevistas com as famílias de 70 pessoas mortas, da qual foram feitas autópsias para pesquisa sobre o coronavírus.

As vítimas fatais, relatou, estavam cientes da necessidade de isolamento, mas não conseguiram “pagar o preço”, pois, ou não tinham condições de evitar o convívio com outras pessoas por habitarem casas pequenas, ou foram obrigados a frequentar o transporte público já que “têm que trabalhar de manhã para comprar o almoço”.

Ao fazer uma análise histórica, Saldiva frisou que a desigualdade e as condições de saneamento da população sempre estiveram na raiz da disseminação de epidemias no mundo. Ele explicou que os vírus sempre mutaram e se disseminaram devido ao adensamento populacional e aos fluxos migratórios. No entanto, alertou que o fenômeno está se acelerando. “De duas pandemias virais no século passado, passamos a duas por década, isso impõe desafios à ciência que são, primeiro, testagem e verificação de vírus em todos os países”, afirmou o médico.

Saldiva disse que, embora torça para que se encontre uma vacina, não será o suficiente, visto que algumas doenças para as quais já se havia encontrado vacina – como sarampo e poliomielite – voltaram a circular no mundo devido à falta de estrutura de saúde nos países onde elas são endêmicas e que tornaram a vacina ineficaz.

Apontou a influência dos aspectos culturais antivacina e anticiência – “o antavirus (sem ‘h’) da ignorância circula enormemente e é transmitido pelas redes sociais”, ironizou. Ele chamou a atenção para a necessidade de investimentos constantes no sistema de produção de vacinas que, no Brasil, foi em grande parte sucateado. Além da vacina que, para Saldiva, “não pode ser tratada como commodity, mas sim como um bem comum”, tem que haver maior cooperação internacional, financiamento e ocupação dos espaços de saúde que envolve as humanidades. “Não se controla as epidemias sem antropologia, história e urbanismo”, concluiu.

Medicamentos

A pesquisadora no Laboratório Nacional de Biociências (LNBio), Daniela Barretto Barbosa Trivella, relatou a evolução dos estudos sobre o vírus que estão sendo desenvolvidos no Sirius, o maior acelerador de elétrons da América Latina, e as estratégias farmacológicas adotadas para combater os sintomas da covid-19. O acelerador, sediado no CNPEM em Campinas (SP) e vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), realizou semana passada os primeiros experimentos em uma nova estação de trabalho chamada Manacá, capaz de revelar detalhes da estrutura de moléculas biológicas, como proteínas virais.

“Uma das coisas importantes quando a gente se coloca frente a uma pandemia como essa é entender o máximo possível do agente causador da doença, como o ciclo de vida ocorre e como podemos, a partir dessa informação, racionalizar e interferir nesse ciclo de vida do vírus”, comentou Trivella.

Segundo ela, os estudos visam encontrar substâncias capazes de bloquear a maturação das proteínas que envolvem o material genético do vírus e que viabilizam sua interação com o corpo humano. “Isso nos dá a visão de raio x do vírus que traz nossa pesquisa para outro patamar”, comentou.

Enquanto as pesquisas tentam desvendar os mecanismos de ataque do coronavírus, a primeira estratégia da comunidade científica, segundo Trivella, tem sido o reposicionamento de fármacos, o que envolve medicamentos já aprovados para outras doenças, com eficácia comprovada em evitar a replicação dos vírus em células. Atualmente, de acordo com a pesquisadora, há dez substâncias em estudo no mundo, entre elas a cloroquina e a hidroxicloroquina. “A hidroxicloroquina foi retirado da iniciativa porque não vem mostrando bons resultados”, afirmou.

Ventiladores

O médico pneumologista Marcelo Brito, do HC/USP, explicou como um dos equipamentos mais importantes no combate à covid-19 e às demais síndromes respiratórias agudas graves (SRAG), os ventiladores, podem causar lesões posteriores. “Os pacientes sobreviventes da covid, que precisaram do auxílio de ventiladores, têm fibrose pulmonar muito extensa, seis meses depois”, relatou.

Para Brito, a pandemia trouxe desafios enormes, tanto para quem está fora, quanto para quem está dentro do ventilador porque a força que o paciente faz para respirar não é visível e pode causar lesões.

No entanto, afirmou, não é possível generalizar as respostas, elas têm que ser individualizadas de acordo com as condições do paciente. “Percebemos que quando a gente vai mapear os doentes, existe uma variabilidade individual tremenda”. Ele defendeu que se apliquem terapias adequadas às condições de cada pessoa, porque cada um tem uma fisiologia própria que deve ser respeitada, “mais ainda na covid-19, que é uma doença inflamatória na qual o erro do ventilador se soma à doença.”

Testagem

Ao analisar os testes existentes para detecção da doença, o infectologista Estevão Portela Nunes, da Fiocruz, disse que os mais utilizados, os PCR, têm mais eficácia nos primeiros dias da doença. “A partir do sétimo, oitavo dia, a gente tem dificuldade de ter o diagnóstico pelo PCR e vamos precisar de outras ferramentas para identificar os pacientes”.

Ele criticou a grande quantidade de testes sorológicos aprovados pela Anvisa hoje disponíveis no varejo e que, na visão dele, não trazem resultados confiáveis. “Fomos invadidos por diversos métodos, todos com sensibilidade não tão boa e que vai caindo com o tempo”, afirmou.

Assista ao debate na íntegra no canal da SBPC no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=CToWjIWSluk&t=110s

A Mini Reunião Anual Virtual da SBPC segue por toda a semana e maiores informações podem ser obtidas acessando este link: http://ra.sbpcnet.org.br/mini-ravirtual/

Jornal da Ciência

This Year Will End Eventually. Document It While You Can (New York Times)

nytimes.com

Lesley M. M. Blume

Museums are working overtime to collect artifacts and ephemera from the pandemic and the racial justice movement — and they need your help.

A journal submitted to the Autry Museum by Tanya Gibb, who came down with Covid-19 symptoms on March 5. The donor thought the canceled plans were also representative of the pandemic.
Credit…The Autry Museum of the American West

July 14, 2020, 5:00 a.m. ET

A few weeks ago, a nerdy joke went viral on Twitter: Future historians will be asked which quarter of 2020 they specialize in.

As museum curators and archivists stare down one of the most daunting challenges of their careers — telling the story of the pandemic; followed by severe economic collapse and a nationwide social justice movement — they are imploring individuals across the country to preserve personal materials for posterity, and for possible inclusion in museum archives. It’s an all-hands-on-deck effort, they say.

“Our cultural seismology is being revealed,” said Anthea M. Hartig, the director of the Smithsonian’s National Museum of American History of the events. Of these three earth-shaking events, she said, “The confluence is unlike mostanything we’ve seen.”

Museums, she said, are grappling “with the need to comprehend multiple pandemics at once.”

Last August, Dr. Erik Blutinger joined the staff of Mt. Sinai Queens as an emergency medicine physician. He knew that his first year after residency would be intense, but nothing could have prepared him for the trial-by-fire that was Covid-19.

Aware that he was at the epicenter not only of a global pandemic, but of history, Dr. Blutinger, 34, began to take iPhone videos of the scenes in his hospital, which was one of New York City’s hardest hit during the early days of the crisis.

“Everyone is Covid positive in these hallways,” he told the camera in one April 9 recording which has since been posted on the Mount Sinai YouTube channel, showing the emergency room hallways filled with hissing oxygen tanks, and the surge tents set up outside the building. “All you hear is oxygen. I’m seeing young patients, old patients, people of all age ranges, who are just incredibly sick.”

He estimated that he has recorded over 50 video diaries in total.

In Louisville, Ky., during the protests and unrest that followed the killings of George Floyd and Breonna Taylor, a Louisville resident, filmmaker named Milas Norris rushed to the streets to shoot footage using a Sony camera and a drone.

“It was pretty chaotic,” said Mr. Norris, 24, describing police in riot gear, explosions, and gas and pepper bullets. He said thatat first he didn’t know what he would do with the footage; he has since edited and posted some of it on his Instagram and Facebook accounts. “I just knew that I had to document and see what exactly was happening on the front lines.”

NPR producer Nina Gregory collects "personal ambi," or ambient noise from her home in Hollywood, Calif. "It's another form of diary," she said.
Credit…Kemper Bates

About 2,000 miles west, in Los Angeles, NPR producer Nina Gregory, 45, had set up recording equipment on the front patio of her Hollywood home. In March and April, she recorded the absence of city noise. “The sound of birds was so loud it was pinging red on my levels,” she said.

Soon the sounds of nature were replaced by the sounds of helicopters from the Los Angeles Police Department hovering overhead, and the sounds of protesters and police convoys moving through her neighborhood. She recorded all this for her personal records.

“It’s another form of diary,” she said.

Museums have indicated that these kinds of private recordings have critical value as public historical materials. All of us, curators say, are field collectors now.

In the spirit of preservation, Ms. Hartig from the National Museum of American History — along with museum collectors across the country — have begun avid campaigns to “collect the moment.”

“I do think it’s a national reckoning project,” she said. There are “a multitude of ways in which we need to document and understand — and make history a service. This is one of our highest callings.”

Some museums have assembled rapid response field collecting teams to identify and secure storytelling objects and materials. Perhaps the most widely-publicized task force, assembled by three Smithsonian museums working in a coalition, dispatched curators to Lafayette Square in Washington, D.C., to identify protest signs for eventual possible collection.

A demonstrator who was photographed by Jason Spear of the National Museum of African American History and Culture in Lafayette Square in June. Mr. Spear is part of the rapid response team working to identify protest signs for possible future collection.
Credit…Jason Spear/NMAAHC Public Affairs Specialist

The collecting task force went into action after June 1, when President Trump ordered Lafayette Square cleared of protesters so he could pose for photos in front of St. John’s Episcopal Church, clutching a bible. Shield-bearing officers and mounted police assailed peaceful protesters there with smoke canisters, pepper bullets, flash grenades and chemical spray. The White House subsequently ordered the construction of an 8-foot-high chain link fence around the perimeter, which protesters covered in art and artifacts.

Taking immediate moves to preserve these materials — much of which was made of paper and was vulnerable to the elements — amounted to a curatorial emergency for the Smithsonian’s archivists.

Yet with many museums still closed, or in the earliest stages of reopening, curatorial teams largely cannot yet bring most objects into their facilities. It isfalling to individuals to become their own interim museums and archives.

While some curators are loath to suggest a laundry list of items that we should be saving — they say that they don’t want to manipulate the documentation of history, but take their cues from the communities they document — many are imploring us to see historical value in the everyday objects of right now.

“Whatever we’re taking to be ordinary within this abnormal moment can, in fact, serve as an extraordinary artifact to our children’s children,” said Tyree Boyd-Pates, an associate curator at the Autry Museum of the American West, which is asking the public to consider submitting materials such as journal entries, selfies and even sign-of-the times social media posts (say, a tweet about someone’s quest for toilet paper — screengrab those, he said)

Credit…Lisa Herndon/The Schomburg Center for Research in Black Culture

To this end, curators said, don’t be so quick to edit and delete your cellphone photos right now. “Snapshots are valuable,” said Kevin Young, the director of New York City’s Schomburg Center for Research in Black Culture. “We might look back at one and say, ‘This picture tells more than we thought at the time.’”

At the National Civil Rights Museum in Memphis, the curatorial team will be evaluating and collecting protest materials such as placards, photos, videos and personalized masks — and the personal stories behind them.

“One activist found a tear-gas canister, and he gave it to us,” said Noelle Trent, a director at the museum. “We’re going to have to figure out how to collect items from the opposing side: We have to have theracist posters, the ‘Make America Great’ stuff. We’re going to need that at some point. The danger is that if we don’t have somebody preserving it, they will say this situation was notas bad.”

And there is perhaps no article more representative of this year than the mask, which has “become a really powerful visual symbol,” said Margaret K. Hofer, the vice president and museum director of the New-York Historical Society, which has identified around 25 masks that the museum will collect, including an N95 mask worn by a nurse in the Samaritan’s Purse emergency field hospital set up in New York’s Central Park in the spring. (The museum also collected a set of field hospital scrubs, and a cowbell that the medical team rang whenever they discharged a patient.)

A cowbell that was rung at the Samaritan’s Purse field hospital in Central Park each time a Covid patient was discharged is now in the archives of the New-York Historical Society.
Credit…New-York Historical Society

“The meaning of masks has shifted over the course of these past several months,” Ms. Hofer said. “Early on, the ones we were collecting were being sewn by people who were trying to aid medical workers, when there were all those fears about shortage of P.P.E. — last resort masks.And they’ve more recentlybecome a political statement.”

Curators say that recording the personal stories behind photos, videos and objects are just as crucial as the objects themselves — and the more personal, the better. Museums rely on objects to elicit an emotional reaction from visitors, and that sort of personal connection requires knowing the object’s back story.

“For us, really the artifact is just a metaphor, and behind that artifact are these voices, and this humanity,” said Aaron Bryant, who curates photography and visual culture at the Smithsonian’s National Museum of African American History and Culture, and who isleading the Smithsonian’s ongoing collection response in Lafayette Square.

Curatorial teams from many museums are offering to interview donors about their materials and experiences,and encourage donors to include detailed descriptions and back stories when submitting objects and records for consideration. Many are also collecting oral histories of the moment.

Many museums have put out calls for submissions on social media and are directing would-be donors to submission forms to their websites. The National Museum of African American History and Culture site has a thorough form that covers items’ significance, dimensions, condition and materials. The Civil Rights Museum is looking for “archival materials, books, photographs, clothing/textiles, audio visual materials, fine art and historic objects” that share civil rights history. The New-York Historical Society is seeking Black Lives Matter protest materials.

“We review material, we talk about it, and we respond to everyone,” said William S. Pretzer, a senior curator of history at the National Museum of African American History and Culture. “We can’t collect everything, but we’re not limiting ourselves to anything.”

Gathering materials from some communities is proving challenging, and curators are strategizing collection from individuals who may be unlikely to offer materials to historical institutions.

An anti-racism poster by 14-year-old Kyra Yip. It will be on display at New York’s Museum of Chinese in America when they reopen.
Credit…Kyra Yip

“A lot of our critical collecting and gathering of diverse stories we’ve been able to do because of directed outreach,” said Ms. Hofer of the New-York Historical Society. “We’re trying to capture the experience of all aspects of all populations in the city, including people experiencing homelessness and the incarcerated.”

“We want to make the barrier to entry on this very low,” said Nancy Yao Maasbach, the president of New York’s Museum of Chinese in America, which began collecting materials relating to pandemic-related racist attacks on Asians and Asian-Americans in late winter, and personal testimonies about experiences during the pandemic and protests. Because museums may not necessarily be obvious repositories for many immigrant communities, Ms. Maasbach said, the museum is making translators available to those who want to tell their stories.

“We’re trying to make sure we’re being accessible in creating this record,” Ms. Maasbach said.

Curators recognize that their story-of-2020 collecting will continue for years; we are in the midst of ongoing events. They are asking us to continue to document the subsequent chapters — and to be as posterity-minded as one can be when it comes to ephemera.

“We don’t know what the puzzle looks like yet,” said Ms. Hartig of the National Museum of American History. “Yet we know that each of these pieces might be an important one.”

Some museums are exhibiting submitted and accepted items right away on websites or on social media; others are planning virtual and physical exhibits for as early as this autumn. The Eiteljorg Museum of American Indians and Western Art, for example, is collecting masks and oral history testimonies from Native American communities and is considering the creation of a “rapid response gallery,” said the museum’s vice president and chief curator Elisa G. Phelps.

“If art is being sparked by something very timely, we want to have a place where we can showcase works and photos,” she said, adding that this process differed from “the elaborate, formal exhibit development process.”

Some donors, however, may not be among those to view their materials once they become part of institutionalized history — at least not right away. Even though Dr. Blutinger said that he sees the historical value of his emergency room video diaries,he has yet to revisit the peak-crisis videos himself.

“I’m almost scared to look back at them,” he said. “I’m worried that they’ll reignite a set of emotions that I’ve managed to tuck away. I’m sure one day I’ll look back and perhaps open up one or two clips, but I have never watched any of them all the way through.”

Lesley M.M. Blume is a journalist, historian andthe author of “Fallout: The Hiroshima Cover-Up and the Reporter Who Revealed It to the World,” which will be published on August 4.

Counting the Lives Saved by Lockdowns—and Lost to Slow Action (The Scientist)

the-scientist.com

David Adan, July 6, 2020

On May 20, disease modelers at Columbia University posted a preprint that concluded the US could have prevented 36,000 of the 65,300 deaths that the country had suffered as a result of COVID-19 by May 3 if states had instituted social distancing measures a week earlier. In early June, Imperial College London epidemiologist Neil Ferguson, one of the UK government’s key advisers in the early stages of the pandemic, came to a similar conclusion about the UK. In evidence he presented to a parliamentary committee inquiry, Ferguson said that if the country had introduced restrictions on movement and socializing a week sooner than it did, Britain’s official death toll of 40,000 could have been halved.

On a more positive note, Ferguson and other researchers at Imperial College London published a model in Nature around the same time estimating that more than 3 million deaths had been avoided in the UK as a result of the policies that were put in place.

These and other studies from recent months aim to understand how well various social-distancing measures have curbed infections, and by extension saved lives. It’s a big challenge to unravel and reliably understand all the factors at play, but experts say the research could help inform future policies. 

The most effective measure, one study found, was getting people not to travel to work, while school closures had relatively little effect.

“It’s not just about looking retrospectively,” Jeffrey Shaman, a data scientist at Columbia University and coauthor of the preprint on US deaths, tells The Scientist. “All the places that have managed to get it under control to a certain extent are still at risk of having a rebound and a flare up. And if they don’t respond to it because they can’t motivate the political and public will to actually reinstitute control measures, then we’re going to repeat the same mistakes.”

Diving into the data

Shaman and his team used a computer model and data on how people moved around to work out how reduced contact between people could explain disease trends after the US introduced social distancing measures in mid-March. Then, the researchers looked at what would have happened if the same measures had been introduced a week earlier, and found that more than half of total infections and deaths up to May 3 would have been prevented. Starting the measures on March 1 would have prevented 83 percent of the nation’s deaths during that period, according to the model. Shaman says he is waiting to submit for publication in a peer-reviewed journal until he and his colleagues update the study with more-recent data. 

“I thought they had reasonably credible data in terms of trying to argue that the lockdowns had prevented infections,” says Daniel Sutter, an economist at Troy University. “They were training or calibrating that model using some cell phone data and foot traffic data and correlating that with lockdowns.”

Sébastien Annan-Phan, an economist at the University of California, Berkeley, undertook a similar analysis, looking at the growth rate of case numbers before and after various lockdown measures were introduced in China, South Korea, Italy, Iran, France, and the US. Because these countries instituted different combinations of social distancing measures, the team was able to estimate how well each action slowed disease spread. The most effective measure, they found, was getting people not to travel to work, while school closures had relatively little effect. “Every country is different and they implement different policies, but we can still tease out a couple of things,” says Annan-Phan.  

In total, his group estimated that combined interventions prevented or delayed about 62 million confirmed cases in the six countries studied, or about 530 million total infections. The results were published in Naturein June alongside a study from a group at Imperial College London, which had compared COVID-19 cases reported in several European countries under lockdown with the worst-case scenario predicted for each of those countries by a computer model in which no such measures were taken. According to that analysis, which assumed that the effects of social distancing measures were the same from country to country, some 3.1 million deaths had been avoided. 

It’s hard to argue against the broad conclusion that changing people’s behavior was beneficial, says Andrew Gelman, a statistician at Columbia University. “If people hadn’t changed their behavior, then it would have been disastrous.” 

Lockdown policies versus personal decisions to isolate

Like all hypothetical scenarios, it’s impossible to know how events would have played out if different decisions were made. And attributing changes in people’s behavior to official lockdown policies during the pandemic is especially difficult, says Gelman. “Ultimately, we can’t say what would have happened without it, because the timing of lockdown measures correlates with when people would have gone into self-isolation anyway.” Indeed, according to a recent study of mobile phone data in the US, many people started to venture out less a good one to four weeks before they were officially asked to. 

A report on data from Sweden, a country that did not introduce the same strict restrictions as others in Europe, seems to support that idea. It found that, compared with data from other countries, Sweden’s outcomes were no worse. “A lockdown would not have helped in terms of limiting COVID-19 infections or deaths in Sweden,” the study originally concluded. But Gernot Müller, an economist at the University of Tubingen who worked on that report, now says updated data show that original conclusion was flawed. Many Swedes took voluntary actions in the first few weeks, he says, and this masked the benefits that a lockdown would have had. But after the first month, the death rate started to rise. “It turns out that we do now see a lockdown effect,” Müller says of his group’s new, still unpublished analyses. “So lockdowns do work and we can attach a number to that: some 40 percent or 50 percent fewer deaths.”

Some critics question the assumption that such deaths have been prevented, rather than simply delayed. While it can appear to be a semantic point, the distinction between preventing and delaying infection is an important one when policymakers assess the costs and benefits of lockdown measures, Sutter says. “I think it’s a little misleading to keep saying these lockdowns have prevented death. They’ve just prevented cases from occurring so far,” he says. “There’s still the underlying vulnerability out there. People are still susceptible to get the virus and get sick at a later date.”

Shaman notes, however, that it’s really a race against the clock. It’s about “buying yourself and your population critical time to not be infected while we try to get our act together to produce an effective vaccine or therapeutic.”

See “It’s So Hard to Know Who’s Dying of COVID-19—and When

See “The Effects of Physical Isolation on the Pandemic Quantified

68% Have Antibodies in This Clinic. Can Neighborhood Beat a Next Wave? (The New York Times)

nytimes.com

By Joseph Goldstein

Data from those tested at a storefront medical office in Queens is leading to a deeper understanding of the outbreak’s scope in New York.

Some neighborhoods, like Corona in Queens, were so hard hit during the peak of the coronavirus epidemic that they might now have herd immunity. 
Credit…Victor J. Blue for The New York Times

July 9, 2020; Updated 7:37 a.m. ET

At a clinic in Corona, a working-class neighborhood in Queens, more than 68 percent of people tested positive for antibodies to the new coronavirus. At another clinic in Jackson Heights, Queens, that number was 56 percent. But at a clinic in Cobble Hill, a mostly white and wealthy neighborhood in Brooklyn, only 13 percent of people tested positive for antibodies.

As it has swept through New York, the coronavirus has exposed stark inequalities in nearly every aspect of city life, from who has been most affected to how the health care system cared for those patients. Many lower-income neighborhoods, where Black and Latino residents make up a large part of the population, were hard hit, while many wealthy neighborhoods suffered much less.

But now, as the city braces for a possible second wave of the virus, some of those vulnerabilities may flip, with the affluent neighborhoods becoming most at risk of a surge. According to antibody test results from CityMD that were shared with The New York Times, some neighborhoods were so exposed to the virus during the peak of the epidemic in March and April that they might have some protection during a second wave.

“Some communities might have herd immunity,” said Dr. Daniel Frogel, a senior vice president for operations at CityMD, which plays a key role in the city’s testing program.

The CityMD statistics — which Dr. Frogel provided during an interview and which reflect tests done between late April and late June — appear to present the starkest picture yet of how infection rates have diverged across neighborhoods in the city.

As of June 26, CityMD had administered about 314,000 antibody tests in New York City. Citywide, 26 percent of the tests came back positive.

But Dr. Frogel said the testing results in Jackson Heights and Corona seemed to “jump off the map.”

While stopping short of predicting that those neighborhoods would be protected against a major new outbreak of the virus — a phenomenon known as herd immunity — several epidemiologists said that the different levels of antibody prevalence across the city are likely to play a role in what happens next, assuming that antibodies do in fact offer significant protection against future infection.

“In the future, the infection rate should really be lower in minority communities,” said Kitaw Demissie, an epidemiologist and the dean of the School of Public Health at SUNY Downstate Medical Center in Brooklyn.

Dr. Ted Long, the executive director of the city’s contact-tracing program, said that while much remained unknown about the strength and duration of the protection that antibodies offer, he was hopeful that hard-hit communities like Corona would have some degree of protection because of their high rate of positive tests. “We hope that that will confer greater herd immunity,” he said.

Neighborhoods that had relatively low infection rates — and where few residents have antibodies — are especially vulnerable going forward. There could be some degree of “catch up” among neighborhoods, said Prof. Denis Nash, an epidemiology professor at the CUNY School of Public Health.

But he added that even if infection rate were to climb in wealthier neighborhoods, “there are advantages to being in the neighborhoods that are hit later.” For one, doctors have become somewhat more adept at treating severe cases.

Many residents of neighborhoods like Elmhurst, in Queens, had to continue working during the peak. 
Credit…Brittainy Newman/The New York Times

Some epidemiologists and virologists cautioned that not enough data exists to conclude that any areas have herd immunity. For starters, the fact that 68.4 percent of tests taken at an urgent care center in Corona came back positive does not mean that 68.4 percent of residents had been infected.

“For sure, the persons who are seeking antibody testing probably have a higher likelihood of being positive than the general population,” said Professor Nash. “If you went out in Corona and tested a representative sample, it wouldn’t be 68 percent.”

So far, the federal government has released relatively little data from antibody testing — making the CityMD data all the more striking. The Centers for Disease Control and Prevention, for instance, has published limited data that suggested that 6.93 percent of residents in New York City and part of Long Island had antibodies. But that survey was based on samples collected mainly in March, before many infected New Yorkers might have developed antibodies.

New York State conducted a more comprehensive survey on antibody rates, which involved testing some 28,419 people across the state. That survey suggested that roughly 21.6 percent of New York City residents had antibodies. But it also revealed a much higher rate in some neighborhoods. While the state has released little data from Queens, its numbers showed that in Flatbush, Brooklyn, for example, about 45 percent of those tested had antibodies.

The CityMD data provides similar conclusions. At a location in Bushwick, a Brooklyn neighborhood which has a large Hispanic population and where the median household income is below the citywide average, some 35 percent of antibody tests were positive, according to Dr. Frogel.

More than 56 percent of patients at one clinic in Jackson Heights,  Queens, tested positive for coronavirus antibodies. 
Credit…Juan Arredondo for The New York Times

Dr. Frogel said that across the Bronx, which has had the city’s highest death rate from Covid-19, about 37 percent of antibody tests were turning up positive.

The CityMD in Corona, on Junction Boulevard, serves a predominantly Hispanic neighborhood whose residents include many construction workers and restaurant employees. Many had to work throughout the pandemic, raising their risk of infection.

Angela Rasmussen, a virologist at Columbia University, called the high positive rate in Corona “a stunning finding.” Epidemiologists said the rate showed the limits of New York’s strategy in curtailing the virus: While public health measures may have slowed the spread in some neighborhoods, they did far less for others.

There are reasons parts of Queens were hit so hard. Homes in Elmhurst and parts of Corona are especially crowded — the highest rate of household crowding in the city, according to census bureau data from 2014. Given that transmission among family members is a leading driver of the disease’s spread, it is unsurprising that crowded households have been associated with higher risk of infection.

For residents of Corona, the main sources of employment are jobs in hospitality, including restaurants, as well as construction and manufacturing, according to a 2019 report by the Citizens’ Committee for Children of New York. Many construction workers and restaurant employees showed up to work throughout the pandemic, elevating their risk of infection.

“Our plan did not really accommodate essential workers as it did people privileged enough — for lack of a better word — to socially distance themselves,” Professor Nash said. He said that one lesson of the past few months was that the city needed to better protect essential workers — everyone from grocery store employees to pharmacy cashiers — and make sure they had sufficient protective equipment.

Epidemiologists have estimated that at least 60 percent of a population — and perhaps as much as 80 percent — would need immunity before “herd immunity” is reached, and the virus can no longer spread widely in that community.

But scientists say it would be a mistake to base public health decisions off antibody rates across a population.

“Just looking at seroprevalence alone can’t really be used to make actionable public health decisions,” Dr. Rasmussen, the virologist at Columbia, said.

One reason is that the accuracy of the antibody tests is not fully known, nor is the extent of immunity conferred by antibodies or how long that immunity lasts. Dr. Rasmussen noted that the “magical number of 60 percent for herd immunity” assumes that everyone infected has complete protection from a second infection. “But what about people with partial protection?” she asked. “They may not get sick, but they can get infected and pass it along.”

“It is premature to discuss herd immunity, since we are still learning what the presence of Covid-19 antibodies means to an individual and whether, or for how long, that conveys immunity; and we don’t know how the level of immunity in a single community translates into herd immunity,” said Jonah Bruno, a spokesman for the state Department of Health.

He said he was unsurprised by the high rate in Corona, and senior officials with the city’s contact-tracing program and public hospital system agree. “We know this area was disproportionately affected,” said Dr. Andrew Wallach, a senior official in the city’s public hospital system, “so this just confirms what we’ve seen clinically.”

Joseph Goldstein covers health care in New York, following years of criminal justice and police reporting for the Metro desk. He also spent a year in The Times’ Kabul bureau, reporting on Afghanistan.  @JoeKGoldstein

America’s huge stimulus is having surprising effects on the poor (The Economist)

Though severe deprivation is rising, not everyone is worse off.

Jul 6th 2020

NO ONE WELCOMES a recession, but downturns are especially difficult when you are poor. Rising unemployment means rising poverty: the recession of 2007-09 prompted the share of Americans classified as poor, on a widely used measure, to jump from 12% to 17%, as jobs vanished by the million and businesses went bust. That economic shock, as bad as it was, pales in comparison with what America is seeing today under the coronavirus pandemic. The jobs report for June, published on July 2nd, showed that unemployment remained well above the peak of a decade ago.

Severe deprivation is certainly on the rise. According to a new survey from the Census Bureau, since the pandemic began the share of Americans who “sometimes” or “often” do not have enough to eat has grown by two percentage points, representing some 4m households. An astonishing 20% of African-American households with children are now in this position. Meanwhile, the proportion of Americans saying that they are able to make the rent is falling. More people are typing “bankrupt” into Google.

Yet these trends, as shocking as they are, do not appear to be part of a generalised rise in poverty. The official data will not be available for some time. A new paper from economists at the University of Chicago and the University of Notre Dame, however, suggests that poverty, as measured on an annual basis, may have actually fallen a bit in April and May, continuing a trend seen in the months before the pandemic hit (see chart 1).

Why? The main reason is that fiscal policy is helping to push poverty down. The stimulus plan passed by Congress is twice the size of the one passed to fight the recession of a decade ago. Much of it, including cheques worth up to $1,200 for a single person and a $600-a-week increase in unemployment insurance (UI) for those out of work, is focused on helping households through the lockdowns. At the same time, unemployment now looks unlikely to rise to 25% or higher, as some economists had predicted in the early days of the pandemic, thereby exerting less upward pressure on poverty than had been feared.

The upshot is that the current downturn looks different from previous ones. Household income usually falls during a recession—as it did the last time, pushing up poverty. But a paper in mid-June from Goldman Sachs, a bank, suggests that this year nominal household disposable income will actually increase by about 4%, pretty much in line with its growth rate before the pandemic hit (see chart 2). The extra $600 in UI ensures, in theory, that three-quarters of job losers will earn more on benefits than they had done in work.

By international standards, America’s unexpected success at reducing poverty nonetheless remains modest. Practically every other rich country has a lower poverty rate. It is also a fragile accomplishment. The extra $600-a-week payments are supposed to expire at the end of July. The authors of a recent paper from Columbia University argue that poverty could rise sharply in the second half of the year, a valid concern if unemployment has not decisively fallen by then. Goldman’s paper assumes that Congress will extend the extra unemployment insurance, but for the value of the payment to drop to $300. Even then, household disposable income would probably fall next year.

Whether extra stimulus would help those at the very bottom of America’s socio-economic ladder—including people not able to buy sufficient food—is another question. Six per cent of adults do not have a current (checking), savings or money-market account, making it difficult for them to receive money from Uncle Sam. Some may have been caught up in the delays which have plagued the UI system, and a small number may be undocumented immigrants not entitled to fiscal help at all. Others report not being able to gain access to shops, presumably closed under lockdowns. A surefire way to improve the lot of people in such unfortunate positions is to get the virus under control and the economy firing on all cylinders once again. But, for now, that looks some way off.

“Como pesquisadores, precisamos ter a humildade de assumir que nos deparamos com os limites da técnica e da ciência” (Revista Pesquisa Fapesp)

Depoimento concedido a Christina Queiroz. 5 de julho de 2020

“A chegada da Covid-19 causou um impacto muito forte em todos os meus colegas na Universidade Federal do Amazonas [Ufam]. Com minha esposa, estou fazendo um isolamento rigoroso em Manaus, porque tenho quase 60 anos, tomo remédios para controlar pressão e diabetes. Vivemos semanas muito tristes, marcadas por muita dor e sofrimento. Como indígena, sigo perdendo amigos, familiares e lideranças de longa data. Fomos pegos de surpresa. Não acreditávamos na possibilidade de uma tragédia humanitária como essa. Faço parte de uma geração de indígenas que tem fé no poder da ciência, da tecnologia e acredita nos avanços proporcionados pela modernidade. No nosso pensamento, o vírus representa um elemento a mais da natureza. E, por causa da nossa fé no poder da ciência e da medicina científica, não esperávamos uma submissão tão grande da humanidade a um elemento tão pequeno e invisível. Assim, a primeira consequência da chegada da pandemia foi pedagógica e causou reflexões sobre nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. 

Como pesquisadores acadêmicos, também precisamos ter a humildade de assumir que nos deparamos com os limites da técnica e da ciência. Ter humildade não significa se apequenar, mas, sim, buscar complementar os conhecimentos acadêmicos com outros saberes, para além da ciência eurocêntrica, e isso inclui as ciências indígenas. Ficou evidente o quanto é perigosa a trajetória que a humanidade está tomando, um caminho à deriva, sem lideranças, sem horizonte claro à possibilidade da própria existência humana. Somos uma sociedade que caminha para sua autodestruição. A natureza mostrou sua força, evidenciou que a palavra final é dela, e não dos humanos. 

Com o passar das semanas, essa ideia foi sendo incorporada em nossa maneira de compreender, explicar, aceitar e conviver com a nova realidade. Os povos indígenas apresentam cosmovisões milenares, mas que são atualizadas de tempos em tempos, como tem acontecido na situação atual. Passamos a olhar para a nova situação como uma oportunidade para empreender uma revisão cosmológica, filosófica, ontológica e epistemológica da nossa existência e buscar formas pedagógicas para sofrer menos. Nós, indígenas, somos profundamente emotivos. Amamos a vida e nossa existência não é pautada pela materialidade. O momento atual representa uma situação única de formação, pois afeta nossas emoções e valores. Ficamos surpresos com o pouco amor à vida das elites econômicas e de parte dos governantes, mas também de uma parcela significativa da população. A pandemia revelou essas deficiências. 

Por outro lado, um dos elementos que emergiu desse processo é uma profunda solidariedade, que tem permitido aos povos indígenas sobreviver no contexto atual. Identificamos fragilidades e limites. Também potencializamos nossas fortalezas. Uma delas, a valorização do conhecimento tradicional, considerado elemento do passado. Redescobrimos o valor do Sistema Único de Saúde [SUS], com toda a fragilidade que foi imposta a ele por diferentes governos. O SUS tem sido um gigante em um momento muito difícil para toda a sociedade.

Coordeno o curso de formação de professores indígenas da Faculdade de Educação da Ufam e me envolvo diariamente em discussões como essas com os alunos. São mais de 300 estudantes que fazem parte desse programa, divididos em cinco turmas. Recentemente, um deles morreu por conta de complicações causadas pelo novo coronavírus. No Amazonas, há mais de 2 mil professores indígenas atuando nas escolas das aldeias. Tenho muito trabalho com atividades burocráticas, para atualizar o registro acadêmico dos alunos e analisar suas pendências. Estamos planejando como fazer a retomada das atividades presenciais de ensino, mas essa retomada só deve acontecer em 2021. Enquanto isso, seminários on-line permitem dar continuidade ao processo de ensino-aprendizagem e ajudam a fomentar a volta de um espírito de solidariedade entre os estudantes indígenas, a valorização da natureza e a recuperação de saberes tradicionais sobre plantas e ervas medicinais. Em condições normais, a possibilidade de participar de tantos seminários e discussões não seria possível. Essas reflexões realizadas durante os encontros virtuais vão se transformar em material didático e textos publicados. Escrever esses textos me ajuda na compreensão da realidade e permite que esse saber seja compartilhado. 

Estamos realizando uma pesquisa para identificar quantos alunos do programa dispõem de equipamentos e acesso à internet. Muitos estão isolados em suas aldeias, alguns deles se refugiaram em lugares ainda mais remotos e só acessam a internet em situações raras e pontuais, quando precisam ir até as cidades. Em Manaus, constatamos que apenas 30% dos estudantes da Faculdade de Educação da Ufam dispõem de equipamento pessoal para utilizar a internet. No interior, entre os alunos dos territórios, esse percentual deve ser de menos de 10%. Devemos ter os resultados desse levantamento nas próximas semanas. Sou professor há 30 anos e trabalho com organizações e lideranças indígenas e vejo como esse fator dificulta o planejamento de qualquer atividade remota. Quando tivermos os resultados dessa pesquisa, a ideia é ter uma base de dados para que o movimento indígena se organize para solucionar o problema. Essa situação de ensino remoto pode se prolongar e precisamos estar preparados para não prejudicar os direitos dos alunos e vencer a batalha da inclusão digital.

Há 50 dias, vivíamos o pico da pandemia em Manaus. Estávamos apavorados, com 140 mortes diárias e as pessoas sendo enterradas em valas coletivas. Essa semana foi a primeira que sentimos um alívio. Hoje, 25 de junho, foi o primeiro dia em que nenhuma morte por coronavírus foi registrada na cidade. O medo agora é que pessoas desinformadas, ou menos sensíveis à vida, com o relaxamento das regras de isolamento, provoquem uma segunda onda de contaminação. Percebemos que as pessoas abandonaram as práticas de isolamento e muitas nem sequer utilizam máscaras. Mas começamos a sair do fundo do poço, inclusive o existencial. As estruturas montadas para o caos, como os hospitais de campanha, estão sendo desmontadas. 

Tivemos perdas de lideranças e pajés indígenas irreparáveis e insubstituíveis. Com a morte desses sábios, universos de sabedoria milenar desapareceram. Os pajés são responsáveis por produzir e manter o conhecimento tradicional, que só é repassado para alguns poucos herdeiros escolhidos, que precisam ser formados em um processo ritualístico longo e repleto de sacrifícios. As gerações mais jovens apresentam dificuldades para seguir esses protocolos e, por causa disso, o conhecimento tradicional tem enfrentado dificuldades em ser repassado. Eu e meus colegas da Ufam e dos movimentos indígenas estamos incentivando a nova geração a criar estratégias para absorver essa sabedoria, porque muitos sábios seguirão vivos. Escolas e universidades também podem colaborar com o processo, reconhecendo a importância desses saberes. Com os jovens, estamos insistindo que chegou a hora de garantir a continuidade dos saberes tradicionais. 

Com a melhoria da situação em Manaus, minha preocupação agora se voltou para o interior, onde foram notificadas 24 mortes nas últimas 24 horas. A população do interior representa menos de 50% da do Amazonas, estado onde as principais vítimas têm sido indígenas, do mesmo modo que acontece em Roraima. Toda minha família vive em São Gabriel da Cachoeira, incluindo minha mãe de 87 anos. A cidade já registrou mais de 3 mil casos e 45 mortes e ainda não atingiu o pico da pandemia. Há cerca de 800 comunidades no entorno do município e sabemos que o vírus já se espalhou por quase todas elas.

Porém há algo que nos alivia. Inicialmente ficamos apavorados, pensando que o vírus causaria um genocídio na população da cidade e seus entornos. O único hospital de São Gabriel não possui leitos de UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. Passados 45 dias da notificação do primeiro caso na cidade, apesar das perdas significativas, vemos que as pessoas têm conseguido sobreviver à doença se cuidando em suas próprias casas, com medicina tradicional e fortalecendo laços de solidariedade. Minha mãe ficou doente, apresentou os sintomas da Covid-19. Também meus irmãos e uma sobrinha de minha mãe de 67 anos. Eles não foram testados. Decidiram permanecer em suas casas e cuidar uns dos outros, se valendo de ervas e cascas de árvores da medicina tradicional. Sobreviveram. Sabiam que ir para o hospital lotado naquele momento significaria morrer, pois a estrutura é precária e eles ficariam sozinhos. Ao optar por permanecer em casa, possivelmente transmitiram a doença um ao outro, mas a solidariedade fez a diferença. Um cuidou do outro. Culturalmente, a ideia de isolar o doente é algo impossível para os indígenas, pois seria interpretado como abandono, falta de solidariedade e desumanidade, o que é reprovável. Os laços de solidariedade vão além do medo de se contaminar.”

Coronavírus chega à reserva indígena do Xingu, e Kuarup é cancelado pela 1ª vez (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Lígia Mesquita, 12 de junho de 2020

Todos os anos, os povos do chamado Alto do Xingu, no Parque Nacional do Xingu, passam seis meses se preparando para a festa mais importante do ano, o Kuarup. A celebração que normalmente se estende de julho a setembro é o ritual sagrado no qual todos os mortos do último ano são homenageados. É a maneira que os índios das 11 etnias do Alto Xingu têm de celebrá-los. Com o Kuarup, as famílias que passaram os últimos 12 meses em luto, podem voltar à rotina normal.

Numa decisão histórica ocorrida no início desta semana, em conversas via rádio amador, os caciques das etnias participantes do Kuarup decidiram cancelar o ritual pela primeira vez. Aquilo que já era temido se confirmou: o coronavírus chegou ao Parque do Xingu, reserva indígena no norte do Mato Grosso, com mais de 7.000 habitantes de 16 etnias.

No último fim de semana, o cacique Vanité Kalapalo e seu Yarurú, da aldeia Sapezal, foram internados no Hospital Regional de Água Boa (MT), a 736 Km de Cuiabá, com sintomas agudos da Covid-19.

Outras pessoas da aldeia Sapezal, uma das mais próximas da cidade de Querência (MT), também fizeram testes com suspeita da doença.

O povo Kalapalo foi isolado, mas segundo especialistas e lideranças de outros povos, a previsão é que o coronavírus se espalhe pela primeira grande terra indígena demarcada pelo governo federal, em 1961, e considerada patrimônio nacional.

Em abril, reportagem do caderno especial Sebastião Salgado na Amazônia – Xingu, da Folha, já alertava para a chegada da Covid-19 àquela terra indígena.

“O cenário é de possível genocídio”, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que há 40 anos trabalha no Xingu. “Se a taxa de transmissão do vírus seguir em alta como aconteceu nas aldeias da Amazônia, num pior cenário teremos 2.000 infectados e poderemos chegar a cem óbitos.”

Segundo o sanitarista, o potencial de propagação do coronavírus no Xingu dependerá da organização dos próprios índios, da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), e da Funai (Fundação Nacional do Índio).

“Mesmo com orientação e avisos sobre a pandemia, pedindo para que a circulação fosse evitada, não foi possível fazer com que alguns índios, principalmente os mais jovens, não deixassem suas aldeias. Parte das pessoas não acreditou no potencial da pandemia, há também desinformação e fake news circulando”, diz Rodrigues. “Também nesta época do ano são comuns surtos de gripe e de infecções respiratórias no parque. Há quase dois meses, quando muitos começaram a ficar doentes em uma das aldeias Kalapalo, pedimos à Sesai testes para Covid-19, mas isso não foi feito. Então não sabemos se a doença chegou ali há mais tempo.”

O professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Antonio Guerreiro, que pesquisa os Kalapalo desde 2006, também vê com muita preocupação a chegada do coronavírus ao Xingu e o risco de um possível genocídio.

“Os riscos do coronavírus se espalhar são enormes se compararmos a situação atual com a última grande epidemia que atingiu o Xingu, a de sarampo, em 1954, que dizimou ao menos 20% da população. Com a criação do Parque do Xingu em 1961, as aldeias ficaram mais próximas e hoje há uma intensa circulação entre seus habitantes e com a cidade, onde comprar alimentos, combustível, material para pesca. E o coronavírus tem uma propagação rápida”, diz Guerreiro, atualmente pesquisador na Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os dois Kalapalo com Covid-19 receberam alta no fim da tarde desta terça (9) e foram encaminhados para a Casai (Casa de Saúde e Apoio ao Índio) em Canarana (MT). A recomendação era que ficassem por lá para cumprir a quarentena, já que os primeiros sintomas surgiram no dia 3 de junho. O isolamento recomendado pelas principais organizações de saúde, no entanto, esbarra em resistência cultural.

Os índios não aceitaram fazer a quarentena por lá e voltaram para a aldeia com a promessa de ficarem numa casa isolada e usando máscaras. “Índio é muito complicado. Eles disseram que estavam bem e precisavam voltar para casa”, diz o também indígena e técnico de enfermagem Tafuraki Nahukuá, que trabalha na Casai.

Para Guerreiro, não dá para fazer uma simplificação dessa escolha em voltar para a aldeia apenas como sendo uma vontade ou capricho. Há questões culturais complexas que podem explicar o fato dos dois índios terem optado por voltar para casa.

“Estou especulando, porque não consegui contato com eles ainda. Mas, pelo que já pesquisei e ouvi dos Kalapalo, eles não gostam de ficar na Casai, porque além de ter uma infraestrutura péssima, eles ficam afastados da família e dos cuidados e supervisão que os parentes têm de perto com os doentes. E também porque temem feitiçaria por parte de algum índio de outra etnia que pode estar eventualmente internado ali”, diz.

Rodrigues explica como é complicado o cenário de isolamento social dentro do Xingu. Os indígenas da região moram em ocas coletivas, com 30, 40 pessoas dentro e compartilham objetos e comida. Muitos não têm acesso à água e sabão para lavar as mãos.

“Faltam EPI [equipamento de proteção individual], treinamento, comunicação, faltam testes e cilindros maiores de oxigênio para os atendimentos que precisarem de mais cuidados e para possíveis remoções até a cidade mais próxima, entre outras coisas.”

A Unifesp, o ISA (Instituto SocioAmbiental), a SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), o DSEI Xingu, a Coordenação Nacional do Xingu, da Funai, e Atix (Associação da Terra Indígena Xingu) montaram um comitê de crise e com realocação de recursos próprios estão enviando testes para Covid-19, concentradores de oxigênio, oxímetros, EPIs, equipamentos de pesca, máscaras e alimentos.

A universidade, por meio de seu Projeto Xingu, da Escola Paulista de Medicina, está dando treinamento a distância para agentes de saúde e também enviará 500 testes para Covid-19. O ISA mandará outros 380 testes.

“Faltariam no mínimo mais mil”, diz Paulo Junqueira, coordenador do projeto Xingu no ISA, que há 20 anos trabalha na região.

Para Junqueira, a questão agora é ganhar tempo até que as aldeias consigam se organizar melhor e receber equipamentos necessários para conter a doença. Existem dez casas de apoio para isolamento sendo construídas no parque.

O povo Kuikuro está construindo numa aldeia uma oca específica para colocar possíveis infectados em isolamento. Também preparou uma cartilha com informações sobre o coronavírus, em português e na língua Kuikuro.

A AIKAX (Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu) recebeu 28 mil libras (cerca de R$ 176 mil) de ajuda por meio de uma iniciativa comandada pela People’s Palace Project (PPP), organização vinculada à Universidade Queen Mary, de Londres, que trabalha há seis anos com os Kuikuro. “Estamos organizando o envio de suprimentos para evitar ao máximo a exposição das pessoas dali ao vírus”, diz Thiago Jesus, da PPP.

O cacique Yanama Kuikuro, da aldeia Ipatse, diz que a preocupação é grande e que estão correndo contra o tempo para conseguir equipamentos e construir a casa de quarentena rapidamente. Ele conta que com a ajuda do doutor Rodrigues, da Unifesp, está fazendo a compra dos suprimentos necessários e orientando o seu povo. “É uma tristeza enorme termos que cancelar o Kuarup, isso nunca aconteceu. Mas todas lideranças conversaram e vimos que é muito perigoso fazer aglomeração”, fala Yanama.

O povo Yawalapiti também está devastado com o cancelamento do Kuarup. “É o ritual mais sagrado do povo do Alto Xingu. Mas não teve outro jeito”, diz Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana e uma das lideranças locais.

Ele conta que há dois meses vinham pedindo para as pessoas da aldeia evitarem ir à cidade por causa do vírus, mas que os mais jovens não acreditavam que a doença era grave e poderia atingir os índios. “Eles pegavam as motos e iam escondido. Agora está proibido, precisa de autorização.”

Tapi também conta que na segunda eles fecharam de vez a estrada próxima à aldeia que vai até a cidade. “Ontem já não deixamos nem o carro da Funai passar.”

Segundo ele, nas aldeias Yawalapiti não há máscaras, álcool em gel, remédios ou equipamentos básicos.

O técnico indígena de enfermagem Leonardo Kamaiurá também relata falta de suprimentos e equipamentos de prevenção nas Unidades Básicas de Saúde. “Temos poucas máscaras, o álcool em gel temos que dividir metade do pote para mandar para outros postos. Falta o básico.”

O profissional conta que ouve de muitos índios que o coronavírus seria uma doença apenas de não-indígenas, que seriam mais fracos. “Há uma resistência grande por aqui também para acreditar na pandemia, como acontece no resto do Brasil.”

Todas lideranças indígenas e profissionais de saúde ouvidos pelas Folha dizem que o governo não tem ajudado e que falta informação correta.

A disseminação de notícias falsas ou incorretas, segundo alguns indígenas, está levando medo à população. Em um áudio ao qual a Folha teve acesso, o presidente da Atix, Ianukulá Kaiabi Suiá, diz que há pessoas falando em não reportar sintomas aos agentes de saúde, porque, se isso acontecer, “eles serão levados aos hospitais, serão entubados e vão morrer”.

A médica Daphne Andrade, do DSEI Xingu, diz que não ouviu isso nas aldeias do Alto Xingu nas quais ela trabalha. “Rodei muitas aldeias levando informação sobre corona, fazendo alguns testes e não ouvi isso. Eles falam sim que têm medo de intubar, porque isso todos nós temos, né? Mas não ouvi isso de não reportar sintomas.”

A reportagem tentou contato com alguma liderança dos Kalapalo, mas por problemas de comunicação no local, não conseguiu.

Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), diz trabalhar em articulação com o estado, tanto que está prevista a instalação de ala indígena em hospital do Mato Grosso. E que o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu já recebeu 720 testes para Covid-19 e que estão sendo enviados mais mil. E que enviará mais 36 cilindros de 50 litros de oxigênio.

Refazer o luto: Como construir novos rituais diante de uma doença que deixa meio milhão de brasileiros sem despedida? (ECOA/UOL)

uol.com.br

Carina Martins, 30 de junho de 2020

Quando o irmão da psicóloga Marília Gabriela morreu, três meses atrás, a pandemia no Brasil ainda era chamada de gripezinha. Saudável, ativo e aos 39 anos, Alexandre prestou sua peregrinação pelo sistema de saúde por alguns dias, até que não considerassem mais sua condição tão benigna. Quando finalmente foi internado, apenas o irmão que o conduziu ao hospital o viu entrar. Nunca mais ninguém da família pôde falar com ele. Um dia depois, ligaram pedindo os seus documentos, e os parentes já entenderam.

Acabou assim, no ar. “A gente foi até o local da cremação, mas você só vai para assinar papel. E tem a coisa de não poder tocar no outro. Na hora, minha mãe acabou abraçando algumas pessoas. Tentei impedir, mas me disseram que deixasse”, conta Marília.

Não foi suficiente para aplacar o rompimento inesperado do vínculo que o jovem filho, irmão, amigo tinha com os seus. A mãe de Alexandre não sabia, mas decidiu fazer exatamente o que aconselham os especialistas: criar um ritual possível. “Ela ligou para um amigo muito querido dele e falou, me ajuda a pensar, não sei o que faço com as cinzas”. A atitude desencadeou um movimento em rede entre pessoas que amavam Alexandre e que começaram a falar sobre ele e rememorar – a viver seu luto. Os amigos sugeriram espalhar as cinzas na praça ao lado da casa onde cresceram e passaram muitos momentos. Uma amiga da mãe pensou em plantar uma árvore e fazer uma oração.

Criaram então, juntos, seu próprio ritual. Escolheram uma árvore – flamboyant – e chamaram poucas pessoas para uma celebração. Na véspera, Marília teve medo de remexer nos sentimentos. Mas foi em frente. “Procurei o jardineiro da praça, ele preparou o buraco com todo cuidado para a muda”. No dia seguinte, cerca de 10 pessoas, afastadas e de máscara, mas juntas, estavam lá. “Nosso irmão mais novo disse algumas palavras, falou o quanto Alexandre amava essas pessoas e fizemos uma oração”. Um ritual simples, mas fundamental. Agora, a mãe de Alexandre sempre visita a mudinha quando passeia com a cachorra que era do filho. Anda achando que a planta está mirrada, quer ver a árvore mais vigorosa. De vez em quando, vai lá cuidar do canteiro.

“Sentimos acho que uma calma, uma coisa que se fecha. A dor existe, mas está bem diferente”, diz Marília. “Não é algo banal”.

Linoca Souza/UOL

Meio milhão sem adeus

Todas as culturas têm um ritual próprio para despedir-se de seus mortos. Todos, até onde sabemos, desde sempre, desde o momento mais primitivo da história humana. A unanimidade dessa necessidade é incomum, e um bom indicativo do quanto ela é, literalmente, uma necessidade. Nem mesmo os rituais de nascimento têm essa incidência absoluta. “Porque a morte desorganiza”, explica a doutora em psicologia Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP. “O nascimento, nem tanto. A morte desorganiza um grupo, uma sociedade, e em extensão, uma cultura. E o ritual tem essa função de reorganizar”.

Desde o início da pandemia, no entanto, os ritos tradicionais foram suspensos pela imposição de uma realidade em que a despedida tornou-se um risco. Os rituais existem em diversidade inumerável, mas quase sempre envolvem o toque, a presença ou a manipulação do corpo. Essa proximidade não é mais possível, já que, por questões de segurança sanitária, as vítimas de covid-19 chegam às suas famílias envoltas em três camadas protetoras, dentro de urnas lacradas, com a orientação de velórios muito curtos e funerais sem aglomeração.

Uma série de estudos sobre luto antes da pandemia, e outros realizados também com o viés do coronavírus, estima que, em média, cada vida deixa até dez enlutados. Dez pessoas com vínculo significativo com a pessoa que se foi, e que passarão pelo processo do luto. É o número com que trabalham especialistas como Maria Helena, embora ela o considere “conservador” para a realidade brasileira. Isso significa que, dentro dessa estimativa conservadora, os (também conservadores) mais de 50 mil mortos oficiais por Covid, somados aos mortos suspeitos que também são submetidos aos mesmos cuidados, deixaram para trás uma multidão de mais de meio milhão de brasileiros que não puderam se despedir de seus entes queridos. E essa multidão segue crescendo.

“Estamos vivendo um desastre. Mas é um desastre diferente, porque é lento. Em um tsunami, numa barragem que estoura, a onda vem, passa, e fica a destruição. O coronavírus é uma onda em câmera lenta. Você olha para fora e não tem destruição”, diz Elaine Gomes Alves, doutora e pesquisadora da área de Psicologia de Emergências e Desastres do Laboratório de Estudos sobre a Morte da USP.

A gente tem que desconstruir uma coisa que já existe há gerações para colocar no lugar uma realidade que tá aqui, agora, imposta. Não foi nem construída, foi imposta. E é natural que a gente proteste e tenha dificuldade de aceitar isso

Maria Helena Franco, coordenadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto da PUC-SP

Diferentemente da maior parte dos desastres, a pandemia não tem a vivência do luto coletivo, que é um recurso muito útil de acolhimento. “As pessoas se aglomeram, ofertam apoio, vivenciam junto. Em Brumadinho, por exemplo, você pode chegar na cidade e falar dos mortos com qualquer um. Na situação atual, a pessoa morre, é enterrada e vai cada um para sua casa, fica sozinho, isolado”, aponta Elaine.

“Não é a pessoa, é o corpo da pessoa. Mas nós, humanos, trabalhamos com símbolos, e para os enlutados falta como simbolizar”, concorda Maria Helena.

Além de ser uma nuance comovente dentro da situação que vivemos, esse obstáculo ao luto é, por si, um potencial problema para cada um que passa por isso e, na proporção que está sendo construído, para a sociedade. Quando o processo do luto não é bem vivido, ele pode tornar-se o que os especialistas chamam de “luto complicado”, que é um luto com possibilidade de adoecimento. As duas especialistas ouvidas pela reportagem, assim como a OMS, esperam uma enormidade de aumento na demanda de saúde mental no porvir da pandemia. Aliás, da saúde como um todo, já que nenhuma das duas dissocia totalmente as saúdes física e mental.

“O luto é um processo de dor intensa. Não existe na existência humana nenhum processo que seja pior do que o luto. Você precisa de um tempo primeiro para entender que a pessoa morreu, para chorar com ela, entrar em contato com a falta, buscar ferramentas internas parta sair do sofrimento. Cada um vai ter um tempo de luto para terminar seu processo”, explica Elaine. O problema é que, sem os rituais, os enlutados muitas vezes sequer conseguem começar adequadamente. “Você pode empacar em algumas coisas. Por exemplo, na negação – como não viu o corpo, pode dizer que ele não morreu. Algumas pessoas que passam por isso dizem coisas como ‘Sabe o que eu penso? Que ele está viajando’. E isso é um problema. É importante fechar o ciclo. Não importa quanto tempo leve.”

Em busca de um símbolo

A construção de uma despedida possível feita pela família de Marília Gabriela não é banal, como ela apontou. Fazer um ritual, ainda que não seja seguindo a tradição, é a recomendação unânime dos psicólogos. Mas não é fácil encontrar os recursos internos para isso, muito menos em um momento de dor. “A racionalidade não tem tido muito efeito. Porque o ritual é tão antigo, é tão arraigado, que a gente saber por quê não pode – por quê não pode aglomeração, por quê tem que enterrar rapidamente – não surte muito efeito”, diz Maria Helena.

No caso de Alexandre, colaborou o fato de que ele não seguia nenhuma religião específica – os ritos a seguir, portanto, eram menos rígidos, mais fáceis de serem adaptados. Mas esse é o caso de apenas 10% dos brasileiros, segundo o IBGE. Nem todos os detalhes religiosos e culturais precisam ser impossíveis na pandemia, mas, para que isso seja avaliado, seria preciso uma cartilha de manejo com mais nuances do que as publicadas até agora.

Na região metropolitana de São Paulo como no Alto Xingu, tem sido difícil. Pela primeira vez em sua milenar história, este ano foi cancelado o Kuarup. Talvez a mais conhecida entre as manifestações indígenas brasileiras, o Kuarup é um grande ritual sagrado que celebra os mortos de todo um ano, e envolve onze etnias do Alto Xingu. É no Kuarup que os parentes encerram o período de luto pelos que morreram. O coronavírus chegou ao Alto Xingu, e este ano não tem Kuarup.

Quando se encerrarão esses milhares de lutos?

O líder indígena Dário Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, em Roraima, tem sido uma das vozes ativas sobre tudo que envolve a questão do coronavírus entre os povos das florestas. Em sua etnia, uma das tradições fundamentais é de que o corpo, cremado, permaneça na aldeia. Mas os yanomamis mortos estão sendo enterrados em cemitérios de Boa Vista, sem a participação ou autorização de seus entes queridos. “Estamos seguindo os protocolos do mundo não-indígena, como os da Organização Mundial da Saúde, das prefeituras, do governo. E isso atrapalha muito em nossa cerimônia [fúnebre]. Sabemos que, neste momento, não é bom pegar o corpo de nosso parente e transmitir a doença. Mas não nos despedimos das vítimas que foram enterradas. É uma falta de respeito, um preconceito contra a nossa cultura”, diz.

O deslocamento dos corpos é uma ruptura grande demais no rito para que a comunidade consiga criar alternativas. “É muito longe, a comunicação é difícil, mas os familiares estão muito tristes de não enterrar os corpos onde ele nasceu, cresceu e viveu. É muito importante o corpo retornar para a aldeia. É muito ruim para nossa cultura e para o familiar fora da comunidade ter o corpo em um cemitério. As lideranças acionaram o Ministério Público Federal questionando que não pode colocar nossos parentes longe da família. Precisamos mais ainda dos médicos, dos epidemiologistas, para nos dizer: quantos dias a doença fica no corpo morto? Isso não é claro ainda. Nós não somos médicos, e acionamos o órgãos públicos para desenterrar o corpo e levá-los para as aldeias, ou cremá-los na cidade e levar as cinzas para as aldeias”.

Quando os yanomamis morrem sem doenças e problemas, conversam com a família e guardam as cinzas em uma vasilha. Reúnem muita comida, muitos alimentos para fazer festa, despedir novamente. Normalmente, parentes de outras aldeias vão ao cerimonial. Riem, choram. “Depois pega as cinzas em uma vasilha e devolvemos à mãe terra com respeito. É tradicional.”

Também liderança, Milena Kokama chorava os então 55 mortos de seu povo sepultados em cova coletiva em Manaus. “Na nossa cultura, a gente não sepulta. A gente crema”, diz, sobre seu luto, agravado pelos entraves das autoridades. “E ainda sai assim no atestado de óbito: pardo. Eu não sei o que é pardo, eu sou Kokama.”

É uma questão muito difícil. Eu não sei o que você entende como parente, mas meu povo é meu parente independentemente de laços sanguíneos

Milena Kokama, liderança indígena

Promessa do encontro

O babalorixá e antropólogo Pai Rodney de Oxóssi sabe o que os enlutados estão sentindo. “Nós, do candomblé, já tínhamos que pensar em alternativas desde antes da doença, sempre tivemos nossos ritos impedidos por intolerância e o racismo religioso”. As restrições a religiões de matrizes africanas acontecem desde famílias que não seguem a denominação e impedem que um familiar iniciado seja tratado segundo sua crença, até hospitais que não permitem a entrada dos sacerdotes – ainda que os de outras religiões circulem sem problemas. “Já tomei chá de cadeira para visitar minha própria mãe, já tive gente de hospital me ligando no dia seguinte a uma visita dizendo que fosse mais discreto e não usasse ‘aquelas roupas'”.

A assistência religiosa é uma garantia legal dos cidadãos brasileiros, mas o babalorixá diz que começou a sentir melhora a partir da lei estadual, sancionada no ano passado, que proíbe a discriminação religiosa. “A lei tem garantido a gente tomar o caminho da cidadania. E isso não permite que as pessoas te impeçam do que a lei te assegura”.

Mesmo com vivência desses complicadores, o candomblé não passou imune às restrições da covid. Com rituais fúnebres muito específicos que incluem o comunitário axexê e um preparo do corpo feito pelo babalorixá, seus enlutados estão, como todos, sem poder exercer seus símbolos tradicionais. “Essas despedidas fazem com que a gente consiga acomodar a morte. Sem elas, há essa sensação de vazio, porque a morte continua fora do lugar. O luto acomoda as dores para que você consiga se recuperar”, diz.

Como os terreiros se organizam como uma espécie de família expandida, todos eles têm hoje seu grupo de WhatsApp. Na ausência da homenagem tradicional, é nesses espaços que os enlutados têm encontrado seus símbolos. “É uma religião essencialmente comunitária, cada terreiro é uma família extensa, então a vivência comunitária para nós é essencial. Sempre que alguém morre há um momento de solidariedade, mandam muitas mensagens, fazem suas homenagens, postam suas fotos com os falecidos”, explica.

O axexê com toda a comunidade, suspenso, também está se tornando, em si, um símbolo, com a promessa de que será feito no momento oportuno em que seja possível a aglomeração, a reunião que o ritual demanda. Quando ele vier, será um grande momento de comemoração.

Claro que a humanidade sempre acha uma maneira de compensar isso. Sempre há, depois que tudo isso passa, um florescimento – das artes, da religiosidade, das coisas que fazem o imaginário humano fluir para que compense esse período de obscuridade. A religião e as culturas têm um papel . Os rituais são inventados na medida em que a gente tem necessidade de preencher uma lacuna que a ciência e racionalidade não preenchem

Pai Rodney de Oxóssi, babalorixá e antropólogo

É preciso sensibilidade

Os enlutados nem sempre vão conseguir criar esses novos símbolos sozinhos. As alternativas podem vir de seus líderes religiosos, dos hospitais, dos próprios serviços funerários. Mas as especialistas recomendam que não se espera que os outros façam: que venham de todos nós que tivermos contato com quem perdeu um ente querido.

“Vamos possibilitar que as pessoas façam seus rituais. Que a gente não fique naquele lugar de ‘ah, mas não é a mesma coisa’. É fato, não é a mesma coisa, e a gente não ganha muito ficando nesta tecla. Vamos ver que outra coisa a gente vai fazer”, diz Maria Helena. “Acho que aí a gente pode ser criativo, ajudar as pessoas a honrar a memória do seu amado, honrar uma tradição, de uma outra forma. Que não terá menos valor. Que será diferente. Acho importante a gente entender por aí, e não como algo que não pôde ser feito. Mas sim o que pôde ser feito, e o quão importante é o que pode ser feito.”

A psicóloga Elaine Alves tem dado várias sugestões práticas para as famílias que tem encontrado. “Que as famílias se unam, que possam fazer juntas um rito religioso que faça sentido para elas. Podem pegar uma caixa onde colocam coisas da pessoa que morreu que sejam significativas, fechar e colocar num lugar importante, por exemplo. Falar palavras de despedida. Escrever cartas – a escrita é muito importante, ajuda muito. Ver fotos. Usar a rede social da pessoa que morreu e ali postar coisas para se comunicar com os amigos da pessoa. Os amigos podem postar fotos que a família nunca viu, isso é um presente para os familiares”, diz. São infinitas opções, que funcionarão de acordo com o vínculo e os valores de cada um.

Mas é preciso sensibilidade. “Não deixem os enlutados sozinhos. E liguem logo, não tem que esperar um tempo, uma hora boa”, explica. E seja generoso. “Tem aquela coisa do ‘mas depois que morreu virou santo’? A verdade é que os enlutados não merecem ouvir coisas ruins de seus mortos”, diz. Se, por vício, perguntar se está tudo bem, acolha a resposta. “Entenda que o outro não está bem, e que é para o outro falar. E a parte mais fácil é de quem não está passando por aquilo e só precisa escutar. O enlutado conta várias vezes a mesma história, porque ele precisa entender o que aconteceu. Quando dizem que não aguentam mais escutar, respondo que essa é a parte mais fácil. Você não precisa passar pelo que outro está passando. Só precisa escutar. Escute”.

A fala encontra eco na de Maria Helena. “Eu queria muito pedir a quem tiver acesso a pessoas enlutadas que busque oferecer a elas possibilidades criativas de fazer seus rituais, que não terão menos valor. Terão valor, sim, porque serão feitos. Sem eles é que a gente vai ter problemas”, afirma. “Vamos respeitar algumas requisições religiosas que são necessárias, que fazem falta. Vamos buscar isso. Vamos proporcionar. Isso não precisa ser só a psicologia que faz, não. É a gente que faz com as pessoas que estão próximas a nós. Tendo essa sensibilidade, a gente consegue fazer. Vamos cuidar. E cuidar da gente também.”

Mathias Pape / Arte UOL. Edição de arte: René Cardillo; Edição de texto: Adriana Terra; Ilustração: Linoca Souza; Reportagem: Carina Martins.

Circulação para trabalho explica concentração de casos de Covid-19 (UOL/Blog Raquel Rolnik)

raquelrolnik.blogosfera.uol.com.br

Raquel Rolnik 30/06/2020 19h09

Por Aluizio Marino², Danielle Klintowitz³, Gisele Brito², Raquel Rolnik¹, Paula Santoro¹, Pedro Mendonça²

Foto: Roberto Moreyra (Agência O Globo)

Desde o início da pandemia no Brasil muito tem se debatido acerca dos impactos nos diferentes territórios e segmentos sociais. Algo fundamental tanto para encontrar os melhores meios de prevenir a difusão da doença como de proteger aqueles que estão mais vulneráveis. Entretanto, a forma como as informações e os dados têm sido divulgados não auxilia na análise dos impactos territoriais e da difusão espacial da pandemia, dificultando também o seu devido enfrentamento.

Na cidade de São Paulo, a escala de análise da pandemia ainda são os distritos, que correspondem a porções enormes do território e com população maior do que muitas cidades de porte médio. Essa visão simplificadora ignora as heterogeneidades e desigualdades territoriais existentes na cidade. Conforme apontamos anteriormente, infelizmente a dimensão territorial não é considerada de forma adequada, prevalecendo uma leitura simplificada e, até mesmo, estigmatizada, como por exemplo quando se afirma “onde tem favela tem pandemia”.

Em artigo anterior, apresentamos o resultado de pesquisa em outra escala, a da rua. Para tanto, mapeamos as hospitalizações e óbitos pós internação por Covid-19 a partir do CEP – informação fornecida nas fichas dos pacientes hospitalizados com Síndrome Respiratória Aguda e Grave (SRAG) incluindo Covid-19 e disponibilizadas pelo DATASUS até aquele momento (18 de maio de 2020). Esse procedimento permitiu olhar mais detalhadamente para a distribuição territorial da pandemia, e assim evidenciar a complexidade de questões que explicam a sua difusão espacial, não apenas a precariedade habitacional e a presença de favelas.

A partir desta constatação passamos a investigar outros possíveis elementos explicativos, entre eles, a mobilidade urbana durante o período da pandemia, especificamente compreendendo o fluxo de circulação das pessoas na cidade e como isso influencia na difusão espacial da Covid-19. Com base nos dados disponibilizados pela SPTrans sobre dados de GPS dos ônibus, e a partir do roteamento de viagens selecionadas da Pesquisa Origem Destino de 2017, buscamos identificar de onde saíram e para onde foram as pessoas que circularam de transporte coletivo no dia 5 de junho, dia em que, segundo a SPTrans, cerca de 3 milhões de viagens foram realizadas usando os ônibus municipais.
Ao mesmo tempo, fizemos uma leitura territorial sobre a origem das viagens durante o período de pandemia. Para esta análise identificou-se na Pesquisa Origem Destino (2017) as pessoas que usam transporte público como modo principal para chegar ao seu destino, motivadas pela ida ao local de trabalho. Consideramos apenas as viagens realizadas por pessoas sem ensino superior e em cargos não executivos. Esse perfil foi selecionado considerando que pessoas com ensino superior, em cargos executivos e profissionais liberais tenham aderido ao teletrabalho e que viagens com outras motivações, como educação e compras, pararam de ocorrer. Esses dados de mobilidade foram correlacionados com os dados de hospitalizações por SRAG não identificada, e Covid-19, até o dia 18 de maio, última data para qual o dado do CEP no DATASUS estava disponibilizado pelo Ministério da Saúde.

Desta forma produzimos um mapa que ilustra a distribuição dos lugares de origem das viagens diárias, a partir de uma distribuição que considera número de viagens nas zonas origem-destino e distribuição populacional dentro dessas zonas. O resultado mostra uma forte associação entre os locais que mais concentraram as origens das viagens com as manchas de concentração do local de residência de pessoas hospitalizadas com Covid-19 e Síndrome Respiratória Grave (SRAG) sem identificação, possivelmente casos de Covid-19, mas que não foram testados ou não tiveram resultado confirmado.

Mapa: Pedro Mendonça/ LabCidade

Com base neste estudo, pode-se dizer que, em síntese, quem está sendo mais atingido pela Covid-19 são as pessoas que tiveram que sair para trabalhar. Embora tenhamos mapeado os locais que concentram os maiores números de origens ou destinos dos fluxos de circulação por transporte coletivo, não é possível ainda afirmar se o contágio ocorreu no percurso do transporte, no local de trabalho ou no local de moradia, o que vai exigir análises futuras, que serão realizadas no âmbito desta pesquisa. Mas o que está evidente é que quem saiu para trabalhar e realizou percursos longos de transporte coletivo é que quem foi mais impactado pelos óbitos ocorridos. Enquanto esse fator mostrou associação forte com os casos de hospitalizações por SRAG não identificada e Covid-19, a densidade demográfica — frequentemente associada a áreas favelizadas e bairros populares — apresentou associação fraca.

Ainda que preliminares, esses dados apontam para a incoerência e inconsequência da abertura planejada pelas prefeituras e governo do estado. A reabertura de comércios e restaurantes implica em aumentar significativamente o número de áreas de origens com mais densidades de viagens e maior circulação de pessoas no transporte público. Se o maior número de óbitos está nos territórios que tiveram mais pessoas saindo para trabalhar durante o período de isolamento, temos que pensar tanto em políticas que as protejam em seus percursos como ampliar o direito ao isolamento paras as pessoas que não estão envolvidas com serviços essenciais mais precisam trabalhar para garantir seu sustento, o que reforça a importância de políticas de garantia de renda e segurança alimentar, subsídios de aluguel e outras despesas, e ações articuladas a coletivos e organizações locais para a proteção dos que mais estão ameaçados durante a pandemia.

Embora esses dados sejam públicos, nos parece que estão sendo ignorados para a definição de estratégias de enfrentamento a pandemia. É urgente repensar a forma como a política de mobilidade na cidade tem sido pensada, já que foram cometidos equívocos tal como o mega rodízio para veículos individuais, que durou apenas alguns dias e provocou uma superlotação nos transportes públicos ampliando os riscos das pessoas que precisavam sair para trabalhar. Ainda não foram implementadas medidas que garantam condições seguras para que as pessoas dos serviços essenciais pudessem fazer as viagens necessárias para exercer seus trabalhos sem ampliar a difusão da infecção do coronavírus. Bem como não existe uma leitura sobre a mobilidade metropolitana — inclusive não existem dados abertos sobre isso — ignorando as dinâmicas pendulares de pessoas que moram e trabalham em municípios diferentes da região metropolitana.

¹ Coordenadoras do LabCidade e professoras da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP
² Pesquisadores do LabCidade
³ Pesquisadora do Instituto Pólis

How Epidemics End (Boston Review)

bostonreview.net

Jeremy A. Greene, Dora Vargha

Jun 30, 2020

Death Table from Tuberculosis in the United States, prepared for the International Congress on Tuberculosis, September 21 to October 12, 1908. Image: U.S. National Library of Medicine

Contrary to hopes for a tidy conclusion to the COVID-19 pandemic, history shows that outbreaks of infectious disease often have much murkier outcomes—including simply being forgotten about, or dismissed as someone else’s problem.

Recent history tells us a lot about how epidemics unfold, how outbreaks spread, and how they are controlled. We also know a good deal about beginnings—those first cases of pneumonia in Guangdong marking the SARS outbreak of 2002–3, the earliest instances of influenza in Veracruz leading to the H1N1 influenza pandemic of 2009–10, the outbreak of hemorrhagic fever in Guinea sparking the Ebola pandemic of 2014–16. But these stories of rising action and a dramatic denouement only get us so far in coming to terms with the global crisis of COVID-19. The coronavirus pandemic has blown past many efforts at containment, snapped the reins of case detection and surveillance across the world, and saturated all inhabited continents. To understand possible endings for this epidemic, we must look elsewhere than the neat pattern of beginning and end—and reconsider what we mean by the talk of “ending” epidemics to begin with.

The social lives of epidemics show them to be not just natural phenomena but also narrative ones: deeply shaped by the stories we tell about their beginnings, their middles, their ends.

Historians have long been fascinated by epidemics in part because, even where they differ in details, they exhibit a typical pattern of social choreography recognizable across vast reaches of time and space. Even though the biological agents of the sixth-century Plague of Justinian, the fourteenth-century Black Death, and the early twentieth-century Manchurian Plague were almost certainly not identical, the epidemics themselves share common features that link historical actors to present experience. “As a social phenomenon,” the historian Charles Rosenberg has argued, “an epidemic has a dramaturgic form. Epidemics start at a moment in time, proceed on a stage limited in space and duration, following a plot line of increasing and revelatory tension, move to a crisis of individual and collective character, then drift towards closure.” And yet not all diseases fit so neatly into this typological structure. Rosenberg wrote these words in 1992, nearly a decade into the North American HIV/AIDS epidemic. His words rang true about the origins of that disease—thanks in part to the relentless, overzealous pursuit of its “Patient Zero”—but not so much about its end, which was, as for COVID-19, nowhere in sight.

In the case of the new coronavirus, we have now seen an initial fixation on origins give way to the question of endings. In March The Atlantic offered four possible “timelines for life returning to normal,” all of which depended the biological basis of a sufficient amount of the population developing immunity (perhaps 60 to 80 percent) to curb further spread. This confident assertion derived from models of infectious outbreaks formalized by epidemiologists such as W. H. Frost a century earlier. If the world can be defined into those susceptible (S), infected (I) and resistant (R) to a disease, and a pathogen has a reproductive number R0 (pronounced R-naught) describing how many susceptible people can be infected by a single infected person, the end of the epidemic begins when the proportion of susceptible people drops below the reciprocal, 1/R0. When that happens, one person would infect, on average, less than one other person with the disease.

These formulas reassure us, perhaps deceptively. They conjure up a set of natural laws that give order to the cadence of calamities. The curves produced by models, which in better times belonged to the arcana of epidemiologists, are now common figures in the lives of billions of people learning to live with contractions of civil society promoted in the name of “bending,” “flattening,” or “squashing” them. At the same time, as David Jones and Stefan Helmreich recently wrote in these pages, the smooth lines of these curves are far removed from jagged realities of the day-to-day experience of an epidemic—including the sharp spikes in those “reopening” states where modelers had predicted continued decline.  

In other words, epidemics are not merely biological phenomena. They are inevitably framed and shaped by our social responses to them, from beginning to end (whatever that may mean in any particular case). The questions now being asked of scientists, clinicians, mayors, governors, prime ministers, and presidents around the world is not merely “When will the biological phenomenon of this epidemic resolve?” but rather “When, if ever, will the disruption to our social life caused in the name of coronavirus come to an end?” As peak incidence nears, and in many places appears to have passed, elected officials and think tanks from opposite ends of the political spectrum provide “roadmaps” and “frameworks” for how an epidemic that has shut down economic, civic, and social life in a manner not seen globally in at least a century might eventually recede and allow resumption of a “new normal.”

To understand possible endings for this epidemic, we must look elsewhere than the neat pattern of beginning and end—and reconsider what we mean by the talk of “ending” epidemics to begin with.

These two faces of an epidemic, the biological and the social, are closely intertwined, but they are not the same. The biological epidemic can shut down daily life by sickening and killing people, but the social epidemic also shuts down daily life by overturning basic premises of sociality, economics, governance, discourse, interaction—and killing people in the process as well. There is a risk, as we know from both the Spanish influenza of 1918–19 and the more recent swine flu of 2008–9, of relaxing social responses before the biological threat has passed. But there is also a risk in misjudging a biological threat based on faulty models or bad data and in disrupting social life in such a way that the restrictions can never properly be taken back. We have seen in the case of coronavirus the two faces of the epidemic escalating on local, national, and global levels in tandem, but the biological epidemic and the social epidemic don’t necessarily recede on the same timeline.

For these sorts of reasons we must step back and reflect in detail on what we mean by ending in the first place. The history of epidemic endings has taken many forms, and only a handful of them have resulted in the elimination of a disease.

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History reminds us that the interconnections between the timing of the biological and social epidemics are far from obvious. In some cases, like the yellow fever epidemics of the eighteenth century and the cholera epidemics of the nineteenth century, the dramatic symptomatology of the disease itself can make its timing easy to track. Like a bag of popcorn popping in the microwave, the tempo of visible case-events begins slowly, escalates to a frenetic peak, and then recedes, leaving a diminishing frequency of new cases that eventually are spaced far enough apart to be contained and then eliminated. In other examples, however, like the polio epidemics of the twentieth century, the disease process itself is hidden, often mild in presentation, threatens to come back, and ends not on a single day but over different timescales and in different ways for different people.

Campaigns against infectious diseases are often discussed in military terms, and one result of that metaphor is to suggest that epidemics too must have a singular endpoint. We approach the infection peak as if it were a decisive battle like Waterloo, or a diplomatic arrangement like the Armistice at Compiègne in November 1918. Yet the chronology of a single, decisive ending is not always true even for military history, of course. Just as the clear ending of a military war does not necessarily bring a close to the experience of war in everyday life, so too the resolution of the biological epidemic does not immediately undo the effects of the social epidemic. The social and economic effects of the 1918–1919 pandemic, for example, were felt long after the end of the third and putatively final wave of the virus. While the immediate economic effect on many local businesses caused by shutdowns appears to have resolved in a matter of months, the broader economic effects of the epidemic on labor-wage relations were still visible in economic surveys in 1920, again in 1921, and in several areas as far as 1930.

The history of epidemic endings has taken many forms, and only a handful of them have resulted in the elimination of a disease.

And yet, like World War One with which its history was so closely intertwined, the influenza pandemic of 1918–19 appeared at first to have a singular ending. In individual cities the epidemic often produced dramatic spikes and falls in equally rapid tempo. In Philadelphia, as John Barry notes in The Great Influenza (2004), after an explosive and deadly rise in October 1919 that peaked at 4,597 deaths in a single week, cases suddenly dropped so precipitously that the public gathering ban could be lifted before the month was over, with almost no new cases in following weeks. A phenomenon whose destructive potential was limited by material laws, “the virus burned through available fuel, then it quickly faded away.”  

As Barry reminds us, however, scholars have since learned to differentiate at least three different sequences of epidemics within the broader pandemic. The first wave blazed through military installations in the spring of 1918, the second wave caused the devastating mortality spikes in the summer and fall of 1918, and the third wave began in December 1918 and lingered long through the summer of 1919. Some cities, like San Francisco, passed through the first and second waves relatively unscathed only to be devastated by the third wave. Nor was it clear to those still alive in 1919 that the pandemic was over after the third wave receded. Even as late as 1922, a bad flu season in Washington State merited a response from public health officials to enforce absolute quarantine as they had during 1918–19. It is difficult, looking back, to say exactly when this prototypical pandemic of the twentieth century was really over.

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Who can tell when a pandemic has ended? Today, strictly speaking, only the World Health Organization (WHO). The Emergency Committee of the WHO is responsible for the global governance of health and international coordination of epidemic response. After the SARS coronavirus pandemic of 2002–3, this body was granted sole power to declare the beginnings and endings of Public Health Emergencies of International Concern (PHEIC). While SARS morbidity and mortality—roughly 8,000 cases and 800 deaths in 26 countries—has been dwarfed by the sheer scale of COVID-19, the pandemic’s effect on national and global economies prompted revisions to the International Health Regulations in 2005, a body of international law that had remained unchanged since 1969. This revision broadened the scope of coordinated global response from a handful of diseases to any public health event that the WHO deemed to be of international concern and shifted from a reactive response framework to a pro-active one based on real-time surveillance and detection and containment at the source rather than merely action at international borders.

This social infrastructure has important consequences, not all of them necessarily positive. Any time the WHO declares a public health event of international concern—and frequently when it chooses not to declare one—the event becomes a matter of front-page news. Since the 2005 revision, the group has been criticized both for declaring a PHEIC too hastily (as in the case of H1N1) or too late (in the case of Ebola). The WHO’s decision to declare the end of a PHEIC, by contrast, is rarely subject to the same public scrutiny. When an outbreak is no longer classified as an “extraordinary event” and no longer is seen to pose a risk at international spread, the PHEIC is considered not to be justified, leading to a withdrawal of international coordination. Once countries can grapple with the disease within their own borders, under their own national frameworks, the PHEIC is quietly de-escalated.

At their worst, epidemic endings are a form of collective amnesia, transmuting the disease that remains into merely someone else’s problem.

As the response to the 2014–16 Ebola outbreak in West Africa demonstrates, however, the act of declaring the end of a pandemic can be just as powerful as the act of declaring its beginning—in part because emergency situations can continue even after a return to “normal” has been declared. When WHO Director General Margaret Chan announced in March 2016 that the Ebola outbreak was no longer a public health event of international concern, international donors withdrew funds and care to the West African countries devastated by the outbreak, even as these struggling health systems continued to be stretched beyond their means by the needs of Ebola survivors. NGOs and virologists expressed concern that efforts to fund Ebola vaccine development would likewise fade without a sense of global urgency pushing research forward.

Part of the reason that the role of the WHO in proclaiming and terminating the state of pandemic is subject to so much scrutiny is that it can be. The WHO is the only global health body that is accountable to all governments of the world; its parliamentary World Health Assembly contains health ministers from every nation. Its authority rests not so much on its battered budget as its access to epidemic intelligence and pool of select individuals, technical experts with vast experience in epidemic response. But even though internationally sourced scientific and public health authority is key to its role in pandemic crises, WHO guidance is ultimately carried out in very different ways and on very different time scales in different countries, provinces, states, counties, and cities. One state might begin to ease up restrictions to movement and industry just as another implements more and more stringent measures. If each country’s experience of “lockdown” has already been heterogeneous, the reconnection between them after the PHEIC is ended will likely show even more variance.

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So many of our hopes for the termination of the present PHEIC now lie in the promise of a COVID-19 vaccine. Yet a closer look at one of the central vaccine success stories of the twentieth century shows that technological solutions rarely offer resolution to pandemics on their own. Contrary to our expectations, vaccines are not universal technologies. They are always deployed locally, with variable resources and commitments to scientific expertise. International variations in research, development, and dissemination of effective vaccines are especially relevant in the global fight against epidemic polio.

The development of the polio vaccine is relatively well known, usually told as a story of an American tragedy and triumph. Yet while polio epidemics that swept the globe in the postwar decades did not respect national borders or the Iron Curtain, the Cold War provided context for both collaboration and antagonism. Only a few years after the licensing of Jonas Salk’s inactivated vaccine in the United States, his technique became widely used across the world, although its efficacy outside of the United States was questioned. The second, live oral vaccine developed by Albert Sabin, however, involved extensive collaboration in with Eastern European and Soviet colleagues. As the success of the Soviet polio vaccine trials marked a rare landmark of Cold War cooperation, Basil O’Connor, president of the March of Dimes movement, speaking at the Fifth International Poliomyelitis Conference in 1960, proclaimed that “in search for the truth that frees man from disease, there is no cold war.”

Two faces of an epidemic, the biological and the social, are closely intertwined, but they are not the same.

Yet the differential uptake of this vaccine retraced the divisions of Cold War geography. The Soviet Union, Hungary, and Czechoslovakia were the first countries in the world to begin nationwide immunization with the Sabin vaccine, soon followed by Cuba, the first country in the Western Hemisphere to eliminate the disease. By the time the Sabin vaccine was licensed in the United States in 1963, much of Eastern Europe had done away with epidemics and was largely polio-free. The successful ending of this epidemic within the communist world was immediately held up as proof of the superiority of their political system.

Western experts who trusted the Soviet vaccine trials, including the Yale virologist and WHO envoy Dorothy Horstmann, nonetheless emphasized that their results were possible because of the military-like organization of the Soviet health care system. Yet these enduring concerns that authoritarianism itself was the key tool for ending epidemics—a concern reflected in current debates over China’s heavy-handed interventions in Wuhan this year—can also be overstated. The Cold War East was united not only by authoritarianism and heavy hierarchies in state organization and society, but also by a powerful shared belief in the integration of paternal state, biomedical research, and socialized medicine. Epidemic management in these countries combined an emphasis on prevention, easily mobilized health workers, top-down organization of vaccinations, and a rhetoric of solidarity, all resting on a health care system that aimed at access to all citizens.

Still, authoritarianism as a catalyst for controlling epidemics can be singled out and pursued with long-lasting consequences. Epidemics can be harbingers of significant political changes that go well beyond their ending, significantly reshaping a new “normal” after the threat passes. Many Hungarians, for example, have watched with alarm the complete sidelining of parliament and the introduction of government by decree at the end of March this year. The end of any epidemic crisis, and thus the end of the need for the significantly increased power of Viktor Orbán, would be determined by Orbán himself. Likewise, many other states, urging the mobilization of new technologies as a solution to end epidemics, are opening the door to heightened state surveillance of their citizens. The apps and trackers now being designed to follow the movement and exposure of people in order to enable the end of epidemic lockdowns can collect data and establish mechanisms that reach well beyond the original intent. The digital afterlives of these practices raise new and unprecedented questions about when and how epidemics end.

Like infectious agents on an agar plate, epidemics colonize our social lives and force us to learn to live with them, in some way or another, for the foreseeable future.

Although we want to believe that a single technological breakthrough will end the present crisis, the application of any global health technology is always locally determined. After its dramatic successes in managing polio epidemics in the late 1950s and early 1960s, the oral poliovirus vaccine became the tool of choice for the Global Polio Eradication Initiative in the late 1980s, as it promised an end to “summer fears” globally. But since vaccines are in part technologies of trust, ending polio outbreaks depends on maintaining confidence in national and international structures through which vaccines are delivered. Wherever that often fragile trust is fractured or undermined, vaccination rates can drop to a critical level, giving way to vaccine-derived polio, which thrives in partially vaccinated populations.

In Kano, Nigeria, for example, a ban on polio vaccination between 2000 and 2004 resulted in a new national polio epidemic that soon spread to neighboring countries. As late as December 2019 polio outbreaks were still reported in fifteen African countries, including Angola and the Democratic Republic of the Congo. Nor is it clear that polio can fully be regarded as an epidemic at this point: while polio epidemics are now a thing of the past for Hungary—and the rest of Europe, the Americas, Australia, and East Asia as well—the disease is still endemic to parts of Africa and South Asia. A disease once universally epidemic is now locally endemic: this, too, is another way that epidemics end.

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Indeed, many epidemics have only “ended” through widespread acceptance of a newly endemic state. Consider the global threat of HIV/AIDS. From a strictly biological perspective, the AIDS epidemic has never ended; the virus continues to spread devastation through the world, infecting 1.7 million people and claiming an estimated 770,000 lives in the year 2018 alone. But HIV is not generally described these days with the same urgency and fear that accompanied the newly defined AIDS epidemic in the early 1980s. Like coronavirus today, AIDS at that time was a rapidly spreading and unknown emerging threat, splayed across newspaper headlines and magazine covers, claiming the lives of celebrities and ordinary citizens alike. Nearly forty years later it has largely become a chronic disease endemic, at least in the Global North. Like diabetes, which claimed an estimated 4.9 million lives in 2019, HIV/AIDS became a manageable condition—if one had access to the right medications.

Those who are no longer directly threatened by the impact of the disease have a hard time continuing to attend to the urgency of an epidemic that has been rolling on for nearly four decades. Even in the first decade of the AIDS epidemic, activists in the United States fought tooth and nail to make their suffering visible in the face of both the Reagan administration’s dogged refusal to talk publicly about the AIDS crisis and the indifference of the press after the initial sensation of the newly discovered virus had become common knowledge. In this respect, the social epidemic does not necessarily end when biological transmission has ended, or even peaked, but rather when, in the attention of the general public and in the judgment of certain media and political elites who shape that attention, the disease ceases to be newsworthy.

Though we like to think of science as universal and objective, crossing borders and transcending differences, it is in fact deeply contingent upon local practices.

Polio, for its part, has not been newsworthy for a while, even as thousands around the world still live with polio with ever-decreasing access to care and support. Soon after the immediate threat of outbreaks passed, so did support for those whose lives were still bound up with the disease. For others, it became simply a background fact of life—something that happens elsewhere. The polio problem was “solved,” specialized hospitals were closed, fundraising organizations found new causes, and poster children found themselves in an increasingly challenging world. Few medical professionals are trained today in the treatment of the disease. As intimate knowledge of polio and its treatment withered away with time, people living with polio became embodied repositories of lost knowledge.

History tells us public attention is much more easily drawn to new diseases as they emerge rather than sustained over the long haul. Well before AIDS shocked the world into recognizing the devastating potential of novel epidemic diseases, a series of earlier outbreaks had already signaled the presence of emerging infectious agents. When hundreds of members of the American Legion fell ill after their annual meeting in Philadelphia in 1976, the efforts of epidemiologists from the Centers for Disease Control to explain the spread of this mysterious disease and its newly discovered bacterial agent, Legionella, occupied front-page headlines. In the years since, however, as the 1976 incident faded from memory, Legionella infections have become everyday objects of medical care, even though incidence in the U.S. has grown ninefold since 2000, tracing a line of exponential growth that looks a lot like COVID-19’s on a longer time scale. Yet few among us pause in our daily lives to consider whether we are living through the slowly ascending limb of a Legionella epidemic.  

Nor do most people living in the United States stop to consider the ravages of tuberculosis as a pandemic, even though an estimated 10 million new cases of tuberculosis were reported around the globe in 2018, and an estimated 1.5 million people died from the disease. The disease seems to only receive attention in relation to newer scourges: in the late twentieth century TB coinfection became a leading cause of death in emerging HIV/AIDS pandemic, while in the past few months TB coinfection has been invoked as a rising cause of mortality in COVID-19 pandemic. Amidst these stories it is easy to miss that on its own, tuberculosis has been and continues to be the leading cause of death worldwide from a single infectious agent. And even though tuberculosis is not an active concern of middle-class Americans, it is still not a thing of the past even in this country. More than 9,000 cases of tuberculosis were reported in the United States in 2018—overwhelmingly affecting racial and ethnic minority populations—but they rarely made the news.

There will be no simple return to the way things were: whatever normal we build will be a new one—whether many of us realize it or not.

While tuberculosis is the target of concerted international disease control efforts, and occasionally eradication efforts, the time course of this affliction has been spread out so long—and so clearly demarcated in space as a problem of “other places”—that it is no longer part of the epidemic imagination of the Global North. And yet history tells a very different story. DNA lineage studies of tuberculosis now show that the spread of tuberculosis in sub-Saharan Africa and Latin America was initiated by European contact and conquest from the fifteenth century through the nineteenth. In the early decades of the twentieth century, tuberculosis epidemics accelerated throughout sub-Saharan Africa, South Asia, and Southeast Asia due to the rapid urbanization and industrialization of European colonies. Although the wave of decolonizations that swept these regions between the 1940s and the 1980s established autonomy and sovereignty for newly post-colonial nations, this movement did not send tuberculosis back to Europe.

These features of the social lives of epidemics—how they live on even when they seem, to some, to have disappeared—show them to be not just natural phenomena but also narrative ones: deeply shaped by the stories we tell about their beginnings, their middles, their ends. At their best, epidemic endings are a form of relief for the mainstream “we” that can pick up the pieces and reconstitute a normal life. At their worst, epidemic endings are a form of collective amnesia, transmuting the disease that remains into merely someone else’s problem.

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What are we to conclude from these complex interactions between the social and the biological faces of epidemics, past and present? Like infectious agents on an agar plate, epidemics colonize our social lives and force us to learn to live with them, in some way or another, for the foreseeable future. Just as the postcolonial period continued to be shaped by structures established under colonial rule, so too are our post-pandemic futures indelibly shaped by what we do now. There will be no simple return to the way things were: whatever normal we build will be a new one—whether many of us realize it or not. Like the world of scientific facts after the end of a critical experiment, the world that we find after an the end of an epidemic crisis—whatever we take that to be—looks in many ways like the world that came before, but with new social truths established. How exactly these norms come into being depends a great deal on particular circumstances: current interactions among people, the instruments of social policy as well as medical and public health intervention with which we apply our efforts, and the underlying response of the material which we applied that apparatus against (in this case, the coronavirus strain SARS-CoV-2). While we cannot know now how the present epidemic will end, we can be confident that it in its wake it will leave different conceptions of normal in realms biological and social, national and international, economic and political.

Though we like to think of science as universal and objective, crossing borders and transcending differences, it is in fact deeply contingent upon local practices—including norms that are easily thrown over in an emergency, and established conventions that do not always hold up in situations of urgency. Today we see civic leaders jumping the gun in speaking of access to treatments, antibody screens, and vaccines well in advance of any scientific evidence, while relatively straightforward attempts to estimate the true number of people affected by the disease spark firestorms over the credibility of medical knowledge. Arduous work is often required to achieve scientific consensus, and when the stakes are high—especially when huge numbers of lives are at risk—heterogeneous data give way to highly variable interpretations. As data moves too quickly in some domains and too slowly in others, and sped-up time pressures are placed on all investigations the projected curve of the epidemic is transformed into an elaborate guessing game, in which different states rely on different kinds of scientific claims to sketch out wildly different timetables for ending social restrictions.

The falling action of an epidemic is perhaps best thought of as asymptotic: never disappearing, but rather fading to the point where signal is lost in the noise of the new normal—and even allowed to be forgotten.

These varied endings of the epidemic across local and national settings will only be valid insofar as they are acknowledged as such by others—especially if any reopening of trade and travel is to be achieved. In this sense, the process of establishing a new normal in global commerce will continue to be bound up in practices of international consensus. What the new normal in global health governance will look like, however, is more uncertain than ever. Long accustomed to the role of international scapegoat, the WHO Secretariat seems doomed to be accused either of working beyond its mandate or not acting fast enough. Moreover, it can easily become a target of scapegoating, as the secessionist posturing of Donald Trump demonstrates. Yet the U.S. president’s recent withdrawal from this international body is neither unprecedented nor unsurmountable. Although Trump’s voting base might not wish to be grouped together with the only other global power to secede from the WHO, after the Soviet Union’s 1949 departure from the group it ultimately brought all Eastern Bloc back to task of international health leadership in 1956. Much as the return of the Soviets to the WHO resulted in the global eradication of smallpox—the only human disease so far to have been intentionally eradicated—it is possible that some future return of the United States to the project of global health governance might also result in a more hopeful post-pandemic future.

As the historians at the University of Oslo have recently noted, in epidemic periods “the present moves faster, the past seems further removed, and the future seems completely unpredictable.” How, then, are we to know when epidemics end? How does the act of looking back aid us in determining a way forward? Historians make poor futurologists, but we spend a lot of time thinking about time. And epidemics produce their own kinds of time, in both biological and social domains, disrupting our individual senses of passing days as well as conventions for collective behavior. They carry within them their own tempos and rhythms: the slow initial growth, the explosive upward limb of the outbreak, the slowing of transmission that marks the peak, plateau, and the downward limb. This falling action is perhaps best thought of as asymptotic: rarely disappearing, but rather fading to the point where signal is lost in the noise of the new normal—and even allowed to be forgotten.

Donna Haraway: We are living in dangerous but also generative transformational times

Facebook, 24 June 2020

We are living in dangerous but also generative transformational times at the confluence of (at least) 3 emergencies:

1) covid 19 pandemic (not to mention other diseases of both humans and nonhumans rampaging through the living world), but also in the midst of powerful emergent practices of collective care and refusal of death-denial and transcendentalism

2) racial capitalism/neofascism run rampant, but also anti-racist & indigenous justice&care movements surging in the context of world wide economic & environmental crises

3) multispecies extermination/extinction/genocide in the web of climate injustice, extractionism, and catastrophe capitalism, but also widespread revulsion at human exceptionalism and growing affirmation of the earth & earthlings of powerful kinds

Science and technology matter in all of these. “Science for the People” has never been more relevant (especially if the “people” are both human and more than human).
No more business as usual. These times are more dangerous than ever, but maybe, just maybe, there is a chance for something better. So, the old question for the left, what is to be done?

That’s what I want to talk about. What is it like to live in times of possibilities, when just a year ago many of us thought nothing was possible?

Peter Sloterdijk: “O regresso à frivolidade não vai ser fácil” (El País)

Para o grande filósofo alemão é evidente a necessidade de um “escudo universal para a humanidade”

Ana Carbajosa, 09 may 2020 – 11:29 BRT

Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.
Peter Sloterdijk em uma foto de 2019.Vicens Gimenez / © Vicens Gimenez

Do outro lado do telefone, a voz de Peter Sloterdijk está fraca. O grande filósofo alemão explica que não está muito bem neste dia, mas imediatamente desata a falar e lança as ideias que o novo universo da pandemia estruturam em sua cabeça. No centro, um conceito que já havia trazido à tona e que agora assume um novo significado, o da coimunidade, do compromisso individual voltado à proteção mútua, que marcará a nova maneira de estar no mundo, segundo o autor de Crítica da Razão Cínica e da trilogia de Esferas. Sloterdijk (72 anos, Karlsruhe) não acha que o mundo se tenha tornado grande demais para nós, nem que tenha chegado a hora do recolhimento nacional. Pelo contrário, acredita que a extrema interdependência ficou evidente e requer “uma declaração geral de dependência universal”.

PERGUNTA. A dimensão da pandemia paralisou e atordoou as sociedades. O que acontecerá quando despertarmos e o medo diminuir?

RESPOSTA. O mundo em sua concepção como gigantesca esfera de consumo se baseia na produção coletiva de uma atmosfera frívola. Sem frivolidade, não há público nem população que mostre inclinação ao consumo. O vínculo entre a atmosfera frívola e o consumismo foi rompido. Todo o mundo espera agora que esse vínculo volte a ser reconectado, mas vai ser difícil. Depois de uma disrupção tão grande, o retorno aos padrões de frivolidade não será fácil.

P. Nessa esfera frívola, pensávamos ser capazes de controlar a natureza com tecnologia sofisticada, mas o vírus nos deixou de joelhos. Nossa maneira de estar no mundo mudará?

R. O problema é a atmosfera frívola e que não aprendamos nada novo com esta pandemia. Se olharmos para a história das sociedades modernas, elas estiveram impregnadas de surtos relativamente regulares, mas, no passado, as pessoas tendiam a voltar aos seus hábitos comuns de existência. O novo agora é que vemos que, por causa da globalização, a interconectividade das vidas humanas na Terra é mais forte e precisamos de uma consciência compartilhada da imunidade. A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia.

P. Como essa ideia de proteção mútua se insere na situação atual?

R. O conceito de coimunidade implica aspectos de solidariedade biológica e de coerência social e jurídica. Essa crise revela a necessidade de uma prática mais profunda do mutualismo, ou seja, proteção mútua generalizada, como digo em Você Tem que Mudar a Sua Vida.“

A imunidade será a grande questão filosófica e política após a pandemia”

P. A comunidade internacional parece caminhar na direção oposta. Atualmente, vemos mais competição do que cooperação.

R. Vejo, no futuro, a competição pela imunidade ser substituída por uma nova consciência da comunidade, pela necessidade de promover a comunidade, fruto da observação de que a sobrevivência é indiferente às nacionalidades e às civilizações.

P. Hoje os países fecham as suas fronteiras e se recolhem a si mesmos.

R. Sim, mas as fronteiras são para os moradores de ambos os lados. Não devemos interpretar de modo errado. O bem-estar da saúde nacional também ajuda os vizinhos. Se controlamos nossos problemas de saúde, também ajudamos nossos vizinhos, e não devemos interpretar esse auto-cuidado como uma regressão nacionalista. Ao contrário, se todos forem cuidadosos em seu território, darão uma enorme contribuição aos demais.

P. O Estado-Nação reemerge com força no meio da emergência, mas, ao mesmo tempo, nunca os países dependeram tanto uns dos outros.

R. Nos dois últimos séculos, a maior preocupação das entidades políticas, dos Estados-nação, girou em torno da independência. No futuro, precisamos de uma declaração geral de dependência universal; a ideia básica de comunidade. A necessidade de um escudo universal que proteja todos os membros da comunidade humana não é mais algo utópico. A enorme interação médica em todo o mundo está provando que isso já funciona.

P. Nossas democracias correm perigo ou as liberdades serão reabilitadas após os estados de alarme?

R. Em todo o mundo, agora, estão lembrando que a necessidade de um Estado forte é algo que acompanhará nossa existência por um longo período, porque parece que é único disponível para solucionar problemas. Isso é complicado porque poderia corromper nossas demandas democráticas. No futuro, o público em geral e a classe política terão a tarefa de monitorar um retorno claro às nossas liberdades democráticas.

P. As forças populistas agora parecem deslocadas, mas cresce o medo de que se alimentem da frustração. Que impacto o senhor acha que a pandemia terá no populismo?

R. Todo mundo precisa entender que esses movimentos não são operacionais, que têm atitudes pouco práticas, que expressam insatisfações, mas que de modo algum são capazes de resolver problemas. Acho que serão os perdedores da crise. O público terá entendido que você não pode esperar nenhuma ajuda deles.

Paraisópolis controla melhor a pandemia do que a cidade de São Paulo (Galileu)

Graças às iniciativas dos moradores da favela, taxa de mortalidade por Covid-19 é menor do que no resto da capital paulista. Em outras regiões pobres, porém, o cenário é diferente

Redação Galileu

25 Jun 2020 – 14h44 Atualizado em 25 Jun 2020 – 14h51

Paraisópolis tem melhor controle da pandemia do que a cidade de São Paulo (Foto: Wikimedia Commons)
Paraisópolis tem melhor controle da pandemia do que a cidade de São Paulo (Foto: Wikimedia Commons)

A favela de Paraisópolis, em São Paulo, tem melhor controle da pandemia de Covid-19 do que outros bairros da capital paulista. Em 18 de maio de 2020, a taxa de mortalidade pelo novo coronavírus na região era de 21,7 pessoas por 100 mil habitantes, enquanto a média municipal era de 56,2. Os números são do Instituto Pólis, organização da sociedade civil que realiza pesquisas no Brasil e no exterior.

“Desde a confirmação dos primeiros casos em São Paulo, logo em março, a associação de moradores de Paraisópolis desenvolveu estratégias para suprir a falta de políticas públicas para a comunidade”, explicam os responsáveis pelo estudo em um relatório publicado em junho.

Logo no início da pandemia, os moradores da favela criaram o sistema de “presidentes de rua”, em que uma pessoa de cada rua ficou responsável por monitorar e ajudar as outras, orientando sobre os sintomas da doença, distribuindo cestas básicas e até combatendo a disseminação de fake news.

Além disso, a comunidade contratou ambulâncias para atender os sintomáticos e recrutou médicos e enfermeiros para suprir a favela 24 horas. Outros 240 moradores foram treinados como socorristas para apoiar as 60 bases de emergência criadas com a presença de bombeiros civis.

Com mais de 70 mil habitantes, a densidade demográfica de Paraisópolis chega a 61 mil hab/km². Tendo isso em vista, a associação de moradores pediu ao governo estadual para utilizar duas escolas públicas como centro de isolamento de pessoas infectadas. A medida possibilitou que os sintomáticos se isolassem de forma eficaz, sem colocar pessoas próximas e familiares em perigo.

Para os pesquisadores, as ações tomadas pelos moradores de Paraisópolis deixam claro que iniciativas de atenção básica à saúde e ações voltadas para garantir a segurança alimentar e outras despesas são essenciais em tempos de pandemia. “A favela, apesar das condições de precariedade e vulnerabilidade, tem sido eficiente em baixar a média de mortalidade do distrito como um todo”, afirma o relatório.

Outras regiões, outra realidade
Enquanto em Paraisópolis a situação parece estar menos preocupante, em outras regiões pobres da capital paulista o cenário não é o mesmo. Um documento divulgado também neste mês pelo Instituto Pólis indica que as áreas com maior situação de precariedade urbana são as mais castigadas pela Covid-19. As mais afetadas são Brasilândia, Sapopemba, Grajaú, Capão Redondo e Jardim Ângela.

Dentre as explicações para isso está a impossibilidade de distanciamento social, tanto pela alta densidade demográfica quanto pelo fato de que os trabalhos exercidos pelos moradores dessas regiões não pemitiram que ficassem em casa. a precariedade do saneamento básico, a baixa renda e a falta de acesso à saúde também contribuem para a realidade preocupante. 

Número de óbitos por Covid-19 a cada 100 mil habitantes nos bairros de São Paulo (Foto: Instituto Pólis)
Número de óbitos por Covid-19 a cada 100 mil habitantes nos bairros de São Paulo (Foto: Instituto Pólis)

Em relação às taxas de óbitos a cada 100 mil habitantes, o mapa de Covid-19 se concentra em outras regiões de São Paulo, nos bairros Pari, Brás, Belém, Campo Belo e Limão. “Por haver mais pessoas morando nas regiões periféricas, o maior número de mortes absoluto pode fazer com que se pense que apenas a periferia está vulnerável”, disse Danielle Klintowitz, do Instituto Pólis, em comunicado. “Mas há de se analisar o contágio em territórios precários mais centrais para que a situação não fuja do controle.”

How ‘vaccine nationalism’ could block vulnerable populations’ access to COVID-19 vaccines (The Conversation)

June 17, 2020 8.16am EDT

Ana Santos Rutschman, Assistant Professor of Law, Saint Louis University

Hundreds of COVID-19 vaccine candidates are currently being developed. The way emerging vaccines will be distributed to those who need them is not yet clear. The United States has now twice indicated that it would like to secure priority access to doses of COVID-19 vaccine. Other countries, including India and Russia, have taken similar stances. This prioritization of domestic markets has become known as vaccine nationalism.

As a researcher at Saint Louis University’s Center for Health Law Studies, I have been following the COVID-19 vaccine race. Vaccine nationalism is harmful for equitable access to vaccines – and, paradoxically, I’ve concluded it is detrimental even for the U.S. itself.

Vaccine nationalism during COVID-19

Vaccine nationalism occurs when a country manages to secure doses of vaccine for its own citizens or residents before they are made available in other countries. This is done through pre-purchase agreements between a government and a vaccine manufacturer.

In March, the White House met with representatives from CureVac, a German biotech company developing a COVID-19 vaccine. The U.S. government is reported to have inquired about the possibility of securing exclusive rights over the vaccine. This prompted the German government to comment that “Germany is not for sale.” Angela Merkel’s chief of staff promptly stated that a vaccine developed in Germany had to be made available in “Germany and the world.”

On June 15, the German government announced it would be investing 300 million euros (nearly US$340 million) in CureVac for a 23% stake in the company.

In April, the CEO of Sanofi, a French company whose COVID-19 vaccine work has received partial funding from the U.S Biomedical Advanced Research and Development Authority, announced that the U.S. had the “right to the largest pre-order” of vaccine.

Following public outcry and pressure from the French government, Sanofi altered its stance and said that it would not negotiate priority rights with any country.

In India, the privately held Serum Institute is developing one of the leading COVID-19 vaccine candidates. The Serum Institute signaled that, if development of the vaccine succeeds, most of the initial batches of vaccine will be distributed within India.

At the same time, India, alongside the U.S. and Russia, chose not to join the Access to COVID-19 Tools Accelerator, which was launched by the World Health Organization to promote collaboration among countries in the development and distribution of COVID-19 vaccines and treatments.

Vaccine nationalism is not new

Vaccine nationalism is not new. During the early stages of the 2009 H1N1 flu pandemic, some of the wealthiest countries entered into pre-purchase agreements with several pharmaceutical companies working on H1N1 vaccines. At that time, it was estimated that, in the best-case scenario, the maximum number of vaccine doses that could be produced globally was 2 billion. The U.S. alone negotiated and obtained the right to buy 600,000 doses. All the countries that negotiated pre-purchase orders were developed economies.

Only when the 2009 pandemic began to unwind and demand for a vaccine dropped did developed countries offer to donate vaccine doses to poorer economies.

The problems posed by nationalism

The most immediate effect of vaccine nationalism is that it further disadvantages countries with fewer resources and bargaining power. It deprives populations in the Global South from timely access to vital public health goods. Taken to its extreme, it allocates vaccines to moderately at-risk populations in wealthy countries over populations at higher risk in developing economies.

Vaccine nationalism also runs against the fundamental principles of vaccine development and global public health. Most vaccine development projects involve several parties from multiple countries.

With modern vaccines, there are very few instances in which a single country can claim to be the sole developer of a vaccine. And even if that were possible, global public health is borderless. As COVID-19 is illustrating, pathogens can travel the globe. Public health responses to outbreaks, which include the deployment of vaccines, have to acknowledge that reality.

How nationalism can backfire in the US

The U.S. in notorious for its high drug prices. Does the U.S. government deserve to obtain exclusive rights for a vaccine that may be priced too high? Such a price may mean that fewer U.S. citizens and residents – especially those who are uninsured or underinsured – would have access to the vaccine. This phenomenon is a form of what economists call deadweight loss, as populations in need of a welfare-enhancing product are priced out. In public health, deadweight loss costs lives.

This is not a hypothetical scenario. U.S. Secretary of Health and Human Services Alex Azar has told Congress that the government will not intervene to guarantee affordability of COVID-19 vaccines in the U.S.

Secretary Azar has said the U.S. government wants the private sector to invest in vaccine development and manufacturing; if the U.S. sets prices, companies may not make that investment because the vaccines won’t be profitable. This view has been widely criticized. A commentator has called it “bad public health policy,” further pointing out that American taxpayers already fund a substantial amount of vaccine research and development in the U.S. Moreover, as legal scholars have pointed out, there are many regulatory perks and other incentives available exclusively to pharmaceutical companies.

If COVID-19 vaccines are not made available affordably to those who need them, the consequences will likely be disproportionately severe for poorer or otherwise vulnerable and marginalized populations. COVID-19 has already taken a higher toll on black and Latino populations. Without broad access to a vaccine, these populations will likely continue to suffer more than others, leading to unnecessary disease burden, continued economic problems and potential loss of life.

What needs to be done

Nationalism is at odds with global public health principles. Yet, there are no provisions in international laws that prevent pre-purchase agreements like the ones described above. There is nothing inherently wrong with pre-purchase agreements of pharmaceutical products. Vaccines typically do not generate as much in sales as other medical products. If used correctly, pre-purchase agreements can even be an incentive for companies to manufacture vaccines that otherwise would not commercialized. Institutions like Gavi, an international nonprofit based in Geneva, use similar mechanisms to guarantee vaccines for developing countries.

But I see vaccine nationalism as a misuse of these agreements.

Contracts should not trump equitable access to global public health goods. I believe that developed countries should pledge to refrain from reserving vaccines for their populations during public health crises. The WHO’s Access to COVID-19 Tools Accelerator is a starting point for countries to test collaborative approaches during the current pandemic.

But more needs to be done. International institutions – including the WHO – should coordinate negotiations ahead of the next pandemic to produce a framework for equitable access to vaccines during public health crises. Equity entails both affordability of vaccines and access opportunities for populations across the world, irrespective of geography and geopolitics.

Insofar as the U.S. can be considered a leader in the global health arena, I believe it should stop engaging in overly nationalistic behaviors. Failure to do so harms patient populations across the globe. Ultimately, it may harm its own citizens and residents, and perpetuate structural inequalities in our health care system.

Data fog: Why some countries’ coronavirus numbers do not add up (Al Jazeera)

Reported numbers of confirmed cases have become fodder for the political gristmill. Here is what non-politicians think.

By Laura Winter – 17 Jun 2020

Students at a university in Germany evaluate data from COVID-19 patients [Reuters]
Students at a university in Germany evaluate data from COVID-19 patients [Reuters]

Have you heard the axiom “In war, truth is the first casualty?”

As healthcare providers around the world wage war against the COVID-19 pandemic, national governments have taken to brawling with researchers, the media and each other over the veracity of the data used to monitor and track the disease’s march across the globe.

Allegations of deliberate data tampering carry profound public health implications. If a country knowingly misleads the World Health Organization (WHO) about the emergence of an epidemic or conceals the severity of an outbreak within its borders, precious time is lost. Time that could be spent mobilising resources around the globe to contain the spread of the disease. Time to prepare health systems for a coming tsunami of infections. Time to save more lives.

No one country has claimed that their science or data is perfect: French and US authorities confirmed they had their first coronavirus cases weeks earlier than previously thought.

Still, coronavirus – and the data used to benchmark it – has become grist for the political mill. But if we tune out the voices of politicians and pundits, and listen to those of good governance experts, data scientists and epidemiological specialists, what does the most basic but consequential data – the number of confirmed cases per country – tell us about how various governments around the globe are crunching coronavirus numbers and spinning corona-narratives?

What the good governance advocates say

Similar to how meteorologists track storms, data scientists use models to express how epidemics progress, and to predict where the next hurricane of new infections will batter health systems.

This data is fed by researchers into computer modelling programmes that national authorities and the WHO use to advise countries and aid organisations on where to send medical professionals and equipment, and when to take actions such as issuing lockdown orders.

The WHO also harnesses this data to produce a daily report that news organisations use to provide context around policy decisions related to the pandemic. But, unlike a hurricane, which cannot be hidden, epidemic data can be fudged and manipulated.

“The WHO infection numbers are based on reporting from its member states. The WHO cannot verify these numbers,” said Michael Meyer-Resende, Democracy Reporting International’s executive director.

To date, more than 8 million people have been diagnosed as confirmed cases of COVID-19. Of that number, more than 443,000 have died from the virus, according to Johns Hopkins University.

Those numbers are commonly quoted, but what is often not explained is that they both ultimately hinge on two factors: how many people are being tested, and the accuracy of the tests being administered. These numbers we “fetishise”, said Meyer-Resende, “depend on testing, on honesty of governments and on size of the population”.

“Many authoritarian governments are not transparent with their data generally, and one should not expect that they are transparent in this case,” he said. To test Meyer-Resende’s theory that less government transparency equals less transparent COVID-19 case data, Al Jazeera used Transparency International’s Corruption Perceptions Index and the Economist Intelligence Unit’s Democracy Index as lenses through which to view the number of reported cases of the coronavirus.

Transparency International’s Corruption Perceptions Index

The examination revealed striking differences in the number of confirmed COVID-19 cases that those nations deemed transparent and democratic reported compared to the numbers reported by nations perceived to be corrupt and authoritarian.

Denmark, with a population of roughly six million, is ranked in the top 10 of the most transparent and democratic countries. The country reported on May 1 that it had 9,158 confirmed cases of COVID-19, a ratio of 1,581 confirmed cases per million. That was more than triple the world average for that day – 412 cases per million people – according to available data.

Data Fog graphic 2/Laura Winter

Meanwhile, Turkmenistan, a regular in the basement of governance and corruption indexes, maintains that not one of its roughly six million citizens has been infected with COVID-19, even though it borders and has extensive trade with Iran, a regional epicentre of the pandemic.

Also on May 1, Myanmar, with a population of more than 56 million, reported just 151 confirmed cases of infection, a rate of 2.8 infections per million. That is despite the fact that every day, roughly 10,000 workers cross the border into China, where the pandemic first began.

On February 4, Myanmar suspended its air links with Chinese cities, including Wuhan, where COVID-19 is said to have originated last December (however, a recent study reported that the virus may have hit the city as early as August 2019).

“That just seems abnormal, out of the ordinary. Right?” said Roberto Kukutschka, Transparency International’s research coordinator, in reference to the numbers of reported cases.

“In these countries where you have high levels of corruption, there are high levels of discretion as well,” he told Al Jazeera. “It’s counter-intuitive that these countries are reporting so few cases, when all countries that are more open about these things are reporting way more. It’s very strange.”

While Myanmar has started taking steps to address the pandemic, critics say a month of preparation was lost to jingoistic denial. Ten days before the first two cases were confirmed, government spokesman Zaw Htay claimed the country was protected by its lifestyle and diet, and because cash is used instead of credit cards to make purchases.

Turkmenistan’s authorities have reportedly removed almost all mentions of the coronavirus from official publications, including a read-out of a March 27 phone call between Uzbek President Shavkat Mirziyoyev and Turkmen President Gurbanguly Berdimuhamedov.

It is unclear if Turkmenistan even has a testing regime.

Russia, on the other hand, touts the number of tests it claims to have performed, but not how many people have been tested – and that is a key distinction because the same person can be tested more than once. Transparency International places Russia in the bottom third of its corruption index.

On May 1, Russia, with a population just above 145 million, reported that it had confirmed 106,498 cases of COVID-19 after conducting an astounding 3.72 million “laboratory tests”. Just 2.9 percent of the tests produced a positive result.

Data fog feature graphic 3/Laura Winter

Remember, Denmark’s population is six million, or half that of Moscow’s. Denmark had reportedly tested 206,576 people by May 1 and had 9,158 confirmed coronavirus cases, a rate of 4.4 percent. Finland, another democracy at the top of the transparency index, has a population of 5.5 million and a positive test result rate of 4.7 percent.

This discrepancy spurred the editors of PCR News, a Moscow-based Russian-language molecular diagnostics journal, to take a closer look at the Russian test. They reported that in order to achieve a positive COVID-19 result, the sample tested must contain a much higher volume of the virus, or viral load, as compared to the amount required for a positive influenza test result.

In terms of sensitivity or ability to detect COVID-19, the authors wrote: “Is it high or low? By modern standards – low.”

They later added, “The test will not reveal the onset of the disease, or it will be decided too early that the recovering patient no longer releases viruses and cannot infect anyone. And he walks along the street, and he is contagious.”

Ostensibly, if that person then dies, COVID-19 will not be certified as the cause of death.

Good governance experts see a dynamic at play.

Countries who test less will be shown as less of a problem. Countries that test badly will seem as if they don’t have a problem. Numbers are very powerful.

Michael Meyer-Resende, Democracy Reporting International

“In many of these countries, the legitimacy of the state depends on not going into crisis,” said Kukutschka, adding that he counts countries with world-class health systems among them.

“Countries who test less will be shown as less of a problem. Countries that test badly will seem as if they don’t have a problem,” said Meyer-Resende. “Numbers are very powerful. They seem objective.”

Meyer-Resende highlighted the case of China. “The Chinese government said for a while that it had zero new cases. That’s a very powerful statement. It says it all with a single digit: ‘We have solved the problem’. Except, it hadn’t. It had changed the way of counting cases.”

China – where the pandemic originated – recently escaped a joint US-Australian-led effort at the World Health Assembly to investigate whether Beijing had for weeks concealed a deadly epidemic from the WHO.

China alerted the WHO about the epidemic on December 31, 2019. Researchers at the University of Hong Kong estimated that the actual number of COVID-19 cases in China, where the coronavirus first appeared, could have been four times greater in the beginning of this year than what Chinese authorities had been reporting to the WHO.

“We estimated that by Feb 20, 2020, there would have been 232,000 confirmed cases in China as opposed to the 55,508 confirmed cases reported,” said the researchers’ report published by the Lancet.

The University of Hong Kong researchers attribute the discrepancy to ever-changing case definitions, the official guidance that tells doctors which symptoms – and therefore patients – can be diagnosed and recorded as COVID-19. China’s National Health Commission issued no less than seven versions of these guidelines between January 15 and March 3.

All of which adds to the confusion.

“Essentially, we are moving in a thick fog, and the numbers we have are no more than a small flashlight,” said Meyer-Resende.

What the epidemiological expert thinks

Dr Ghassan Aziz monitors epidemics in the Middle East. He is the Health Surveillance Program manager at the Doctors Without Borders (MSF) Middle East Unit. He spoke to Al Jazeera in his own capacity and not on behalf of the NGO.

“I think Iran, they’re not reporting everything,” he told Al Jazeera. “It’s fair to assume that [some countries] are underreporting because they are under-diagnosing. They report what they detect.”

He later added that US sanctions against Iran, which human rights groups say have drastically constrained Tehran’s ability to finance imports of medicines and medical equipment, could also be a factor.

“Maybe [it’s] on purpose, and maybe because of the sanctions and the lack of testing capacities,” said Aziz.

Once China shared the novel coronavirus genome on January 24, many governments began in earnest to test their populations. Others have placed limits on who can be tested.

In Brazil, due to a sustained lack of available tests, patients using the public health network in April were tested only if they were hospitalised with severe symptoms. On April 1, Brazil reported that 201 people had died from the virus. That number was challenged by doctors and relatives of the dead. A month later, after one minister of health was fired and another resigned after a week on the job, the testing protocols had not changed.

On May 1, Brazil reported that COVID-19 was the cause of death for 5,901 people. On June 5, Brazil’s health ministry took down the website that reported cumulative coronavirus numbers – only to be ordered by the country’s Supreme Court to reinstate the information.

Right-wing President Jair Bolsonaro has repeatedly played down the severity of the coronavirus pandemic, calling it “a little flu”. Brazilian Supreme Court Justice Gilmar Mendes accused the government of attempting to manipulate statistics, calling it “a manoeuvre of totalitarian regimes”.

Brazil currently has the dubious distinction of having the second-highest number of COVID-19 deaths in the world, behind the US. By June 15, the COVID-19 death toll in the country had surpassed 43,300 people.

Dr Aziz contends that even with testing, many countries customarily employ a “denial policy”. He said in his native country, Iraq, health authorities routinely obfuscate health emergencies by changing the names of outbreaks such as cholera to “endemic diarrhoea”, or Crimean-Congo hemorrhagic fever to “epidemic fever”.

“In Iraq, they give this idea to the people that ‘We did our best. We controlled it,'” Dr Aziz said. “When someone dies, ‘Oh. It’s not COVID-19. He was sick. He was old. This is God’s will. It was Allah.’ This is what I find so annoying.”

What the data scientist says

Sarah Callaghan, a data scientist and the editor-in-chief of Patterns, a data-science medical journal, told Al Jazeera the numbers of confirmed cases countries report reflect “the unique testing and environmental challenges that each country is facing”.

But, she cautioned: “Some countries have the resources and infrastructure to carry out widespread testing, others simply don’t. Some countries might have the money and the ability to test, but other local issues come into play, like politics.”

According to Callaghan, even in the best of times under the best circumstances, collecting data on an infectious disease is both difficult and expensive. But despite the difficulties presented by some countries’ data, she remains confident that the data and modelling that is available will indeed contribute much to understanding how COVID-19 spreads, how the virus reacts to different environmental conditions, and discovering the questions that need answers.

Her advice is: “When looking at the numbers, think about them. Ask yourself if you trust the source. Ask yourself if the source is trying to push a political or economic agenda.”

“There’s a lot about this situation that we don’t know, and a lot more misinformation that’s being spread, accidentally or deliberately.”

Dário contra a xawara (ECOA/UOL)

uol.com.br

Marcos Candido, 15 de junho de 2020

Liderança indígena, Dário Kopenawa é ameaçado de morte enquanto luta para manter os yanomami vivos.

Dário Vitório Kopenawa, 38, escondeu-se assustado por entre as pernas do pai e da mãe quando viu o homem branco pela primeira vez. Ele tinha cinco anos e acreditou que via um fantasma. Mas seu pai, o xamã Davi Kopenawa e um dos maiores propagadores da cultura indígena no mundo, já conhecia bem os visitantes. Explicou ao filho que eram pessoas com uma língua e características diferentes. A versão detalhada veio anos mais tarde.

Na tradição yanomami, as doenças foram enterradas no fundo da terra por Omama, criador da humanidade. Em busca de riquezas, os homens brancos escavaram onde estavam os males e espalharam as doenças entre os povos indígenas. Davi entendeu que era preciso lutar para preservar o subsolo sobre onde viveram seus antepassados. “Quando você crescer mais, seguirá a minha linha e a minha luta”, disse o pai para o filho.

As doenças enterradas têm um nome: xawara. Hoje, Dário luta contra garimpeiros invasores que persistem em “desenterrar” o xawara na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e a propagar a Covid-19 entre os povos indígenas. Vice-presidente da Associação Yanomami desde 2004, Dário encabeça a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid!”, lançada no início de junho para coletar assinaturas e pressionar Brasília contra a extração ilegal. Desde o início o ano, ele tem convivido com o aumento das ameaças de morte, mas isso não o abala. “Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer”, diz em entrevista a Ecoa via videochamada.

Imagens de satélite mostram extensas áreas abertas no território yanomami. Acredita-se que 20 mil garimpeiros estejam na região e transitem com vírus entre Boa Vista e o território. Até agora, quatro yanomamis foram vítimas da Covid-19, entre eles um líder reverenciado, uma gestante e um adolescente de 15 anos.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais e Instituto Socioambiental (ISA) estima que até 40% dos yanomami podem ser infectados, tornando-os o povo indígena mais vulnerável do país. O Serviço Especial de Saúde Indígena (Sesai) estima 26 mil indígenas na Terra Indígena Yanomami, onde vivem 8 povos diferentes; alguns isolados.

Dário começou a estudar português em 1995 e, dois anos depois, já era professor bilíngue e propagador da escrita da língua yanomami. No início dos anos 2000, visitou o Xingu no Mato Grosso, os Makuxi e Wapixana em Roraima e os povos indígenas no Acre. Viajou para os Estados Unidos e Europa. “Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda”, diz.

Na conversa abaixo, Dário Kopenawa fala sobre identidade, rituais, o perigo real enfrentado pelos indígenas hoje e a relação do homem branco com a natureza. Ele acredita que, com o fim da pandemia, o mundo não indígena – o mesmo que estimula a busca pela xawara — vai compreender que a terra mãe é viva e se vinga

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Doença do homem branco

Por que na leitura dos yanomami, estamos enfrentando a Covid-19?

Na língua yanomami, as doenças a gente chama de xawara: a gripe, a malária, a diarreia. Covid-19 também é xawara. Na década de 1970, a doença já tinha chegado às terras yanomami e mais de 20% dos yanomami morreram com o sarampo. O xawara mata as pessoas. Não é uma situação simples: ficamos em alerta

Por que acontecem as xawaras?

Antes dos europeus invadirem nosso país, vivíamos em muita tranquilidade. Sem doença, sem gripe. Sem coisa que ataca a gente. Os rios limpos, os animais vivos. Nosso criador Omama enterrou a epidemia e ela se transformou em ouro, diamante, petróleo. O que está lá embaixo é a xawara, escavada pelo homem branco, o mesmo que destrói a floresta e pegam a doença lá no fundo da terra mãe. Depois queimam o ouro para fazer riqueza. É assim que a fumaça de xawara sai pela terra. Os xamãs têm conhecimento de como evitá-las.

Nós, povos da floresta, yanomami, não criamos doenças. A gente lida com respeito à natureza, conhecemos o sistema da floresta, como funciona o meio ambiente. Sabemos que não podemos causar problemas a ela, sabemos da vida yanomami com a mãe terra.

Vocês têm medo que os yanomami despareçam com as repetidas xawaras?

A gente não tem medo, mas não queremos mais morrer. Somos sobreviventes, nossa população aumentou após diminuir na década de 70 e 80. As lideranças mais velhas dizem que a doença é muito grave. Mas agora não é só a gente que não quer mais morrer, o mundo todo está com medo.

Você está em Boa Vista (RR) agora. Tem medo de ser infectado e não voltar?

Não tenho medo de pegar, tenho medo de levar a doença ao meu povo e matá-los. Preciso respeitar a hierarquia da terra mãe e não posso entrar lá enquanto houver a xawara.

Seu pai, Davi Kopenawa, está com o povo. Vocês estão se falando?

Meu pai está trabalhando com xamãs e os espíritos da floresta para enfraquecer o xawara contra a doença que se chama coronavírus. Está mais protegido do que eu, meu povo está protegido. Ele está longe, mas as lideranças sabem que estou na luta e espiritualmente me lideram. No momento, estou na luta e não quero retornar.

Uma das vítimas foi uma liderança de 64 anos. O que significa perder um idoso na cultura yanomami?

Machuca muito. Um idoso já sobreviveu a muito, cuidou de muitas famílias, organizou nossa sociedade. O idoso é o cabeça das gerações e repassa a história yanomami. Quando morre, perdemos uma pedaço história dos primeiros criadores filhos da floresta, mas outras lideranças vão continuar a ensinar às novas gerações que estão nascendo.

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O “novo normal”

Vocês destroem a terra, as florestas, matam os povos indígenas, provocam mudanças climáticas no mundo inteiro. O que está acontecendo é resultado do homem branco não deixar a mãe terra em paz. Quando a doença voltar para debaixo da terra, ela já vai ter comido os não indígenas e indígenas e vamos viver como restos de comida. Para vocês, será uma nova vida. Mas nós já sabemos que tudo foi resultado da vingança da mãe terra. Nós já a entendemos. A pandemia vai deixar uma mensagem para vocês entenderem que é uma vingança universal. Vocês, como brancos, vão aprender que estão na nossa casa.

Dário Kopenawa

A cultura yanomami

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Há muitos anos você convive com outras culturas, outros povos e sempre há uma situação conflituosa. Você acha que o homem branco está condenado à destruição ou você ainda tem esperança entre harmonia entre os povos?

Como vocês sonham, nós sonhamos também. Nós queremos viver em paz. Sem brigas com lideranças não indígenas. Os brancos querem a riqueza, a economia, mesmo que isso destrua a natureza, escavar a terra indígena, derrubar milhares de árvores na Amazônia. Particularmente, espero que as novas gerações falem com as antigas, com seus parlamentares, senadores e governos para interromper a destruição da mãe terra. Mas o problema não vai parar. A gente está lutando e defendendo a mãe terra, mas os brancos brincam de desenvolvimento. São 520 anos de briga. Querem mais economia, mais fábricas, buscar por riqueza. Nós queremos paz, mas isso não vai acontecer. Nós, povos da floresta, vamos continuar a falar só sobre como somos discriminados e assassinados.

O que é riqueza para os povos yanomami?

Riqueza para nós é terra boa, sem destruição, sem desmatamento, ar limpo, muito alimento. Terra com muito buriti, muitas frutas, muito açaí. Para nós, isso é riqueza. É onde vivemos em paz, sem doença, onde tem alimento para nossos filhos, para criar nossos parentes, sem a contaminação dos rios, sem malária, sem problemas no ar. Para o homem branco, a riqueza é derrubar as árvores, fumaça, atmosfera poluída por máquinas, trator, carro. Esse é o pensamento do não indígena.

Diferentemente dos indígenas, o homem branco discute pouco sobre a própria identidade?

O homem branco não pensa como a gente pensa. É diferente. Ele é um desconhecido. Por isso, não se dá muito a amizade com o índio. É difícil compreender a sociedade não indígena, mas é fácil ver que no homem branco entra o preconceito contra os povos da floresta. Quando você conhece um pouco da cultura yanomami, por exemplo, você já passar a respeitar. Você já visitou os guarani em São Paulo?

Não, mas é mais ou menos perto de onde vivo.

É por isso. Você mora em capital grande. Os guarani kaiowá estão aí, mas muitos brancos não se interessam em conhecê-los. Por isso é difícil ao homem branco conhecer a cultura dos povos indígenas.

Você viajou a outros países, outros povos e culturas. O que você aprendeu sobre sua própria identidade indígena e a si mesmo ao conhecer tantas pessoas diferentes?

Conheço vários de nossos parentes no Brasil — considero como parentes todos povos da floresta. A gente luta junto, fala nossas próprias línguas. Eu viajei a outros países, mas não fui turista. Na Noruega, conheci nossos parentes indígenas: os sámi. Fiquei impressionado e triste com o histórico deles. Foi muito importante e interessante, mas a minha cultura não se muda. Eu não integrei a sociedade não indígena para me tornar um não indígena. Isso não existe. As lideranças mais velhas, como meu pai Davi Kopenawa, Raoni Metuktire e Ailton Krenak são grandes mestres e nos ensinam caminhos bons para a luta, para defesa e de diálogo com autoridades. Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda. Sou Dário. Sou yanomami.

Queria saber se há um intercâmbio de culturas. A cultura do homem branco também influencia os yanomami? Dá para ser feminista, ou LGBT, por exemplo, especialmente quando há presença de yanomamis nas cidades e nas redes sociais?

A cultura não se muda. Na sociedade não indígena, a gente participa errado, por exemplo, podendo achar que vai ser rico se morrer de trabalhar, esquecer de sua cultura e achar mais fácil ter comida e dinheiro na cidade. Nós podemos querer morar na cidade, conhecer outras coisas, mas a cultura yanomami se perde muito com isso. A escola também é muito boa, mas às vezes acaba com a linguagem. Na Terra Yanomami, nós corremos atrás dos macacos, vivemos lá, flecho animais, ainda falamos na minha língua — e também uso a língua de vocês como arma de defesa. A tecnologia consome muito nosso pensamento e atrapalha a visão do povo originário. Nossas memórias também se adoecem e temos problemas de saúde. Por outro lado, é importante usar as redes sociais, ter acesso à diversidade e a cultura para ocupar as tecnologias e fazer vocês conhecerem a nossa cultura. O pensamento do branco nos manipula muito forte, e isso às vezes nos atrapalha muito, mas a cultura não morre e continua.

É possível ser yanomami e evangélico, por exemplo?

Nós temos regras e normas de cada aldeia. Nossas lideranças podem ou não autorizar uma manifestação. Particularmente, eu respeito o religioso, mas não quero ser pastor ou evangelizar meus pais. É a cultura do povo não indígena e já tenho minha religião no xapiri yanomami.

E dá para ser yanomami e feminista?

Isso é uma visão do branco, não é a nossa. A gente não pensa nisso. É um pensamento da cultura de vocês e isso não se encaixa na cultura do povo da floresta, então não consigo responder.

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Luta contra o garimpo

O garimpo existe há décadas na região. Por que nunca vai embora?

Os garimpos são como o sarampo. Não querem sair, não querem largar a nossa terra. Para mim, são pragas. Ele não existiria sem o preço do ouro: o garimpo não trabalha de graça e o preço do ouro é alto. Se derrubar o preço do ouro, duvido que garimpeiros vão trabalhar de graça e arriscar a vida, morrendo com seus colegas, para tirar ouro da terra yanomami. Esperamos que as autoridades os tirem, mas sem ouro eles não iriam trabalhar.

O garimpo é mais perigoso pelo desmatamento ou pela Covid-19?

Os dois. O garimpo é perigoso e a Covid-19 é perigoso. Os dois matam pessoas, destroem a terra e não respeitam nossa cultura, nossa terra que está homologada pelo próprio governo federal. Os dois são perigosos. Não vejo muita diferença.

O governo federal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu algum posicionamento, em relação ao garimpo?

Olha, ele é o chefe. Bolsonaro apoia a exploração da mineração em terras indígenas. Ele apoia o garimpo ilegal. Por isso, nós encaminhamos documentos ao governo federal e ele não nos respondeu sobre a retirada dos garimpeiros da terra yanomami. Não respondeu, mas está cada vez mais violentando, pressionando o Congresso nacional para reabrir Terras Indígenas e prejudicar a vida dos povos indígenas.

O que mudou para vocês com a presidência de Bolsonaro? Porque o garimpo não é uma situação nova.

Os governos anteriores pelo menos respeitavam um pouco a questão indígena, nossos direitos, nosso direito à floresta. Na época, quando ele ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro, sempre falava sobre a mineração em terra indígena e em projetos de lei. Quando o povo brasileiro o elegeu, ele se ergue e desrespeita a hierarquia da autoridade brasileira. Desrespeita a Constituição. Ele acha que, por ser presidente da república, pode desrespeitar todo mundo. O negro, o branco. Imagina os indígenas! É pior! É querer acabar com a vida dos povos indígenas. Para mim, Bolsonaro tem o pensamento doente. Vivemos uma desorganização no país e mais problemas ainda são criados. Ele fala besteira, tipo como criança. Ele tem um “pensamento muito desperdício”.

O presidente Jair Bolsonaro já disse que a demarcação do território indígena é abusivo no Brasil, e que há uma indústria de demarcação de terras. A demarcação de terras indígena é abusiva?

As terras indígenas estão demarcadas por lei. Mas Bolsonaro pensa que é fácil desmanchar nossos territórios. Por isso, nós lutamos. O mais valioso é nosso território yanomami. É fundamental e mais importante do que a fala do presidente. Sem o território, como nós vamos viver?

Mas elas são excessivamente grandes, como fala o presidente?

Na visão do povo indígena, isso não existe. Temos pedaços. Perdemos muito no território brasileiro e as cidades são muito grandes. O que temos é um rascunho. Para nós, o que temos não é um território grande. É pequeno, mas é uma conquista. Na visão do Bolsonaro, nossos territórios são grandes, maiores do que Portugal ou Rio de Janeiro. Para nós isso não existe, o que temos veio da luta e da conquista. Nossos territórios não são grandes, são pequenos.

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Guerreiro não tem medo de morrer

Como o garimpo consegue entrar nas terras indígenas?

O garimpo é como formiga. Entram como entram nos quartos dos brancos, nas mochilas, nos carros. É a mesma coisa. Chegam de avião, de barco, pelo mato. Nosso território tem 9 milhões de hectares, então os garimpeiros chegam nos limites da terra indígena, usam barcos e aviões pagos com ouro para entrar no nosso território. O garimpo entra em qualquer território como se fosse o dono, como se fosse o sítio deles. A eles, a terra não tem dono.

O garimpo tornou-se mais organizado?

Os garimpeiros não são organizados. Os empresários é que são organizados e roubam dos garimpeiros, que são mão-de-obra. Os garimpeiros correm risco e morrem entre eles, se matam entre si. Mesmo sem organização, eles entram com barracões e destroem muito as terras.

E quem são esses empresários?

Não conheço nenhum, mas sabemos que são eles que financiam a venda e compra de ouro no Brasil e também vendem para fora do país.

Você já sofreu ameaça de morte?

Fisicamente, não. Mas meus parentes já receberam mensagens dizendo que garimpeiros queriam saber meu endereço, onde eu estava, onde vivo e o onde fica meu trabalho. As ameaças já são de muitos anos. Pioraram [nos últimos meses], mas não são mais fortes no sentido fisicamente. Mas por mensagem, aumenta cada vez mais.

Por que acha que as ameaças estão chegando cada vez mais?

Nós estamos denunciando, brigando e perturbando os garimpeiros. Eles pensam que estou atrapalhando o trabalho deles no garimpo ilegal na terra indígena yanomami. Por isso, querem acabar comigo e com meu pai quando fazemos uma denúncia nacional e internacional.

Você tem medo de morrer?

Não tenho medo. Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer. Quem rouba é que tem que ter medo. Não sei o que pode acontecer, mas não tenho medo e não quero fugir.

Victor Moriyama / ISA/Victor Moriyama / ISA

Slowing the Coronavirus Is Speeding the Spread of Other Diseases (New York Times)

nytimes.com

By Jan Hoffman and Ruth Maclean – June 14, 2020

Many mass immunization efforts worldwide were halted this spring to prevent spread of the virus at crowded inoculation sites. The consequences have been alarming.

Three-year-old Allay Ngandema, who contracted measles, ate lunch with his mother, Maboa Alpha, in the measles isolation ward in Boso-Manzi hospital  in the Democratic Republic of Congo in late February.
Three-year-old Allay Ngandema, who contracted measles, ate lunch with his mother, Maboa Alpha, in the measles isolation ward in Boso-Manzi hospital  in the Democratic Republic of Congo in late February. Credit: Hereward Holland/Reuters.

As poor countries around the world struggle to beat back the coronavirus, they are unintentionally contributing to fresh explosions of illness and death from other diseases — ones that are readily prevented by vaccines.

This spring, after the World Health Organization and UNICEF warned that the pandemic could spread swiftly when children gathered for shots, many countries suspended their inoculation programs. Even in countries that tried to keep them going, cargo flights with vaccine supplies were halted by the pandemic and health workers diverted to fight it.

Now, diphtheria is appearing in Pakistan, Bangladesh and Nepal.

Cholera is in South Sudan, Cameroon, Mozambique, Yemen and Bangladesh.

A mutated strain of poliovirus has been reported in more than 30 countries.

And measles is flaring around the globe, including in Bangladesh, Brazil, Cambodia, Central African Republic, Iraq, Kazakhstan, Nepal, Nigeria and Uzbekistan.

Of 29 countries that have currently suspended measles campaigns because of the pandemic, 18 are reporting outbreaks. An additional 13 countries are considering postponement. According to the Measles and Rubella Initiative, 178 million people are at risk of missing measles shots in 2020.

The risk now is “an epidemic in a few months’ time that will kill more children than Covid,” said Chibuzo Okonta, the president of Doctors Without Borders in West and Central Africa.

As the pandemic lingers, the W.H.O. and other international public health groups are now urging countries to carefully resume vaccination while contending with the coronavirus.

A Doctors Without Borders motorcycle convoy carrying measles vaccine crossed a log bridge in Mongala Province of the Democratic Republic of Congo in February.
A Doctors Without Borders motorcycle convoy carrying measles vaccine crossed a log bridge in Mongala Province of the Democratic Republic of Congo in February. Credit: Hereward Holland/Reuters.

“Immunization is one of the most powerful and fundamental disease prevention tools in the history of public health,” said Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, director general of the W.H.O., in a statement. “Disruption to immunization programs from the Covid-19 pandemic threatens to unwind decades of progress against vaccine-preventable diseases like measles.”

But the obstacles to restarting are considerable. Vaccine supplies are still hard to come by. Health care workers are increasingly working full time on Covid-19, the infection caused by the coronavirus. And a new wave of vaccine hesitancy is keeping parents from clinics.

Many countries have yet to be hit with the full force of the pandemic itself, which will further weaken their capabilities to handle outbreaks of other diseases.

“We will have countries trying to recover from Covid and then facing measles. It would stretch their health systems further and have serious economic and humanitarian consequences,” said Dr. Robin Nandy, chief of immunization for UNICEF, which supplies vaccines to 100 countries, reaching 45 percent of children under 5.

The breakdown of vaccine delivery also has stark implications for protecting against the coronavirus itself.

At a global summit earlier this month, Gavi, the Vaccine Alliance, a health partnership founded by the Bill and Melinda Gates Foundation, announced it had received pledges of $8.8 billion for basic vaccines to children in poor and middle-income countries, and was beginning a drive to deliver Covid-19 vaccines, once they’re available.

But as services collapse under the pandemic, “they are the same ones that will be needed to send out a Covid vaccine,” warned Dr. Katherine O’Brien, the W.H.O.’s director of immunization, vaccines and biologicals, during a recent webinar on immunization challenges.

Children waited to be registered for the measles vaccine in Mbata-Siala, in western Democratic Republic of Congo, in March.
Children waited to be registered for the measles vaccine in Mbata-Siala, in western Democratic Republic of Congo, in March. Credit: Junior Kannah/Agence France-Presse — Getty Images.

Three health care workers with coolers full of vaccines and a support team of town criers and note-takers recently stepped into a motorized wooden canoe to set off down the wide Tshopo River in the Democratic Republic of Congo.

Although measles was breaking out in all of the country’s 26 provinces, the pandemic had shut down many inoculation programs weeks earlier.

The crew in the canoe needed to strike a balance between preventing the transmission of a new virus that is just starting to hit Africa hard and stopping an old, known killer. But when the long, narrow canoe pulled in at riverside communities, the crew’s biggest challenge turned out not to be the mechanics of vaccinating children while observing the pandemic’s new safety strictures. Instead, the crew found themselves working hard just to persuade villagers to allow their children to be immunized at all.

Many parents were convinced that the team was lying about the vaccine — that it was not for measles but, secretly, an experimental coronavirus vaccine, for which they would be unwitting guinea pigs.

In April, French-speaking Africa had been outraged by a French television interview in which two researchers said coronavirus vaccines should be tested in Africa — a remark that reignited memories of a long history of such abuses. And in Congo, the virologist in charge of the coronavirus response said that the country had indeed agreed to take part in clinical vaccine trials this summer. Later, he clarified that any vaccine would not be tested in Congo until it had been tested elsewhere. But pernicious rumors had already spread.

The team cajoled parents as best they could. Although vaccinators throughout Tshopo ultimately immunized 16,000 children, 2,000 others eluded them.

This had been the year that Congo, the second-largest country in Africa, was to launch a national immunization program. The urgency could not have been greater. The measles epidemic in the country, which started in 2018, has run on and on: Since this January alone, there have been more than 60,000 cases and 800 deaths. Now, Ebola has again flared, in addition to tuberculosis and cholera, which regularly strike the country.

Vaccines exist for all these diseases, although they are not always available. In late 2018, the country began an immunization initiative in nine provinces. It was a feat of coordination and initiative, and in 2019, the first full year, the percentage of fully immunized children jumped from 42 to 62 percent in Kinshasa, the capital.

This spring, as the program was being readied for its nationwide rollout, the coronavirus struck. Mass vaccination campaigns, which often mean summoning hundreds of children to sit close together in schoolyards and markets, seemed guaranteed to spread coronavirus. Even routine immunization, which typically occurs in clinics, became untenable in many areas.

The country’s health authorities decided to allow vaccinations to continue in areas with measles but no coronavirus cases. But the pandemic froze international flights that would bring medical supplies, and several provinces began running out of vaccines for polio, measles and tuberculosis.

When immunization supplies finally arrived in Kinshasa, they could not be moved around the country. Domestic flights had been suspended. Ground transport was not viable because of shoddy roads. Eventually, a United Nations peacekeeping mission ferried supplies on its planes.

Still, health workers, who had no masks, gloves or sanitizing gel, worried about getting infected; many stopped working. Others were diverted to be trained for Covid.

The cumulative impact has been particularly dire for polio eradication — around 85,000 Congolese children have not received that vaccine.

But the disease that public health officials are most concerned about erupting is measles.

Health workers immunizing against measles in Manila last month.
Health workers immunizing against measles in Manila last month. Credit: Aaron Favila/Associated Press.

Measles virus spreads easily by aerosol — tiny particles or droplets suspended in the air — and is far more contagious than the coronavirus, according to experts at the Centers for Disease Control and Prevention.

“If people walk into a room where a person with measles had been two hours ago and no one has been immunized, 100 percent of those people will get infected,” said Dr. Yvonne Maldonado, a pediatric infectious disease expert at Stanford University.

In poorer countries, the measles mortality rate for children under 5 ranges between 3 and 6 percent; conditions like malnutrition or an overcrowded refugee camp can increase the fatality rate. Children may succumb to complications such as pneumonia, encephalitis and severe diarrhea.

In 2018, the most recent year for which data worldwide has been compiled, there were nearly 10 million estimated cases of measles and 142,300 related deaths. And global immunization programs were more robust then.

Before the coronavirus pandemic in Ethiopia, 91 percent of children in the capital, Addis Ababa, received their first measles vaccination during routine visits, while 29 percent in rural regions got them. (To prevent an outbreak of a highly infectious disease like measles, the optimum coverage is 95 percent or higher, with two doses of vaccine.) When the pandemic struck, the country suspended its April measles campaign. But the government continues to report many new cases.

“Outbreak pathogens don’t recognize borders,” said Dr. O’Brien of the W.H.O. “Especially measles: Measles anywhere is measles everywhere.”

Wealthier countries’ immunization rates have also been plunging during the pandemic. Some American states report drops as steep as 70 percent below the same period a year earlier, for measles and other diseases.

Once people start traveling again, the risk of infection will surge. “It keeps me up at night,” said Dr. Stephen L. Cochi, a senior adviser at the global immunization division at the C.D.C. “These vaccine-preventable diseases are just one plane ride away.”

Hawa Hamadou, a health worker at the Gamkalé health center in Niamey, Niger, has seen a drop in visits by mothers, who are afraid to bring their children for immunizations.
Hawa Hamadou, a health worker at the Gamkalé health center in Niamey, Niger, has seen a drop in visits by mothers, who are afraid to bring their children for immunizations. Credit: Juan Haro/UNICEF.

After the W.H.O. and its vaccine partners released the results of a survey last month showing that 80 million babies under a year old were at risk of missing routine immunizations, some countries, including Ethiopia, the Central African Republic and Nepal, began trying to restart their programs.

Uganda is now supplying health workers with motorbikes. In Brazil, some pharmacies are offering drive-by immunization services. In the Indian state of Bihar, a 50-year-old health care worker learned to ride a bicycle in three days so she could take vaccines to far-flung families. UNICEF chartered a flight to deliver vaccines to seven African countries.

Dr. Cochi of the C.D.C., which provides technical and program support to more than 40 countries, said that whether such campaigns can be conducted during the pandemic is an open question. “It will be fraught with limitations. We’re talking low-income countries where social distancing is not a reality, not possible,” he said, citing Brazilian favelas and migrant caravans.

He hopes that polio campaigns will resume swiftly, fearing that the pandemic could set back a global, decades-long effort to eradicate the disease.

Dr. Cochi is particularly worried about Pakistan and Afghanistan, where 61 cases of wild poliovirus Type 1 have been reported this year, and about Chad, Ghana, Ethiopia and Pakistan, where cases of Type 2 poliovirus, mutated from the oral vaccine, have appeared.

Thabani Maphosa, a managing director at Gavi, which partners with 73 countries to purchase vaccines, said that at least a half dozen of those countries say they cannot afford their usual share of vaccine costs because of the economic toll of the pandemic.

If the pandemic cleared within three months, Mr. Maphosa said, he believed the international community could catch up with immunizations over the next year and a half.

“But our scenarios are not telling us that will happen,” he added.

Jan Hoffman reported from New York, and Ruth Maclean from Dakar, Senegal.

Updated June 12, 2020

The Coronavirus Outbreak

Frequently Asked Questions and Advice

  • What’s the risk of catching coronavirus from a surface? Touching contaminated objects and then infecting ourselves with the germs is not typically how the virus spreads. But it can happen. A number of studies of flu, rhinovirus, coronavirus and other microbes have shown that respiratory illnesses, including the new coronavirus, can spread by touching contaminated surfaces, particularly in places like day care centers, offices and hospitals. But a long chain of events has to happen for the disease to spread that way. The best way to protect yourself from coronavirus — whether it’s surface transmission or close human contact — is still social distancing, washing your hands, not touching your face and wearing masks.
  • Does asymptomatic transmission of Covid-19 happen? So far, the evidence seems to show it does. A widely cited paper published in April suggests that people are most infectious about two days before the onset of coronavirus symptoms and estimated that 44 percent of new infections were a result of transmission from people who were not yet showing symptoms. Recently, a top expert at the World Health Organization stated that transmission of the coronavirus by people who did not have symptoms was “very rare,” but she later walked back that statement.
  • How does blood type influence coronavirus? A study by European scientists is the first to document a strong statistical link between genetic variations and Covid-19, the illness caused by the coronavirus. Having Type A blood was linked to a 50 percent increase in the likelihood that a patient would need to get oxygen or to go on a ventilator, according to the new study.
  • How many people have lost their jobs due to coronavirus in the U.S.? The unemployment rate fell to 13.3 percent in May, the Labor Department said on June 5, an unexpected improvement in the nation’s job market as hiring rebounded faster than economists expected. Economists had forecast the unemployment rate to increase to as much as 20 percent, after it hit 14.7 percent in April, which was the highest since the government began keeping official statistics after World War II. But the unemployment rate dipped instead, with employers adding 2.5 million jobs, after more than 20 million jobs were lost in April.
  • Will protests set off a second viral wave of coronavirus? Mass protests against police brutality that have brought thousands of people onto the streets in cities across America are raising the specter of new coronavirus outbreaks, prompting political leaders, physicians and public health experts to warn that the crowds could cause a surge in cases. While many political leaders affirmed the right of protesters to express themselves, they urged the demonstrators to wear face masks and maintain social distancing, both to protect themselves and to prevent further community spread of the virus. Some infectious disease experts were reassured by the fact that the protests were held outdoors, saying the open air settings could mitigate the risk of transmission.
  • How do we start exercising again without hurting ourselves after months of lockdown? Exercise researchers and physicians have some blunt advice for those of us aiming to return to regular exercise now: Start slowly and then rev up your workouts, also slowly. American adults tended to be about 12 percent less active after the stay-at-home mandates began in March than they were in January. But there are steps you can take to ease your way back into regular exercise safely. First, “start at no more than 50 percent of the exercise you were doing before Covid,” says Dr. Monica Rho, the chief of musculoskeletal medicine at the Shirley Ryan AbilityLab in Chicago. Thread in some preparatory squats, too, she advises. “When you haven’t been exercising, you lose muscle mass.” Expect some muscle twinges after these preliminary, post-lockdown sessions, especially a day or two later. But sudden or increasing pain during exercise is a clarion call to stop and return home.
  • My state is reopening. Is it safe to go out? States are reopening bit by bit. This means that more public spaces are available for use and more and more businesses are being allowed to open again. The federal government is largely leaving the decision up to states, and some state leaders are leaving the decision up to local authorities. Even if you aren’t being told to stay at home, it’s still a good idea to limit trips outside and your interaction with other people.
  • What are the symptoms of coronavirus? Common symptoms include fever, a dry cough, fatigue and difficulty breathing or shortness of breath. Some of these symptoms overlap with those of the flu, making detection difficult, but runny noses and stuffy sinuses are less common. The C.D.C. has also added chills, muscle pain, sore throat, headache and a new loss of the sense of taste or smell as symptoms to look out for. Most people fall ill five to seven days after exposure, but symptoms may appear in as few as two days or as many as 14 days.
  • How can I protect myself while flying? If air travel is unavoidable, there are some steps you can take to protect yourself. Most important: Wash your hands often, and stop touching your face. If possible, choose a window seat. A study from Emory University found that during flu season, the safest place to sit on a plane is by a window, as people sitting in window seats had less contact with potentially sick people. Disinfect hard surfaces. When you get to your seat and your hands are clean, use disinfecting wipes to clean the hard surfaces at your seat like the head and arm rest, the seatbelt buckle, the remote, screen, seat back pocket and the tray table. If the seat is hard and nonporous or leather or pleather, you can wipe that down, too. (Using wipes on upholstered seats could lead to a wet seat and spreading of germs rather than killing them.)
  • How do I take my temperature? Taking one’s temperature to look for signs of fever is not as easy as it sounds, as “normal” temperature numbers can vary, but generally, keep an eye out for a temperature of 100.5 degrees Fahrenheit or higher. If you don’t have a thermometer (they can be pricey these days), there are other ways to figure out if you have a fever, or are at risk of Covid-19 complications.
  • Should I wear a mask? The C.D.C. has recommended that all Americans wear cloth masks if they go out in public. This is a shift in federal guidance reflecting new concerns that the coronavirus is being spread by infected people who have no symptoms. Until now, the C.D.C., like the W.H.O., has advised that ordinary people don’t need to wear masks unless they are sick and coughing. Part of the reason was to preserve medical-grade masks for health care workers who desperately need them at a time when they are in continuously short supply. Masks don’t replace hand washing and social distancing.
  • What should I do if I feel sick? If you’ve been exposed to the coronavirus or think you have, and have a fever or symptoms like a cough or difficulty breathing, call a doctor. They should give you advice on whether you should be tested, how to get tested, and how to seek medical treatment without potentially infecting or exposing others.
  • How do I get tested? If you’re sick and you think you’ve been exposed to the new coronavirus, the C.D.C. recommends that you call your healthcare provider and explain your symptoms and fears. They will decide if you need to be tested. Keep in mind that there’s a chance — because of a lack of testing kits or because you’re asymptomatic, for instance — you won’t be able to get tested.

Coronavírus atropela ano em que artistas indígenas tomariam os museus de SP (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Clara Balbi, 7 de junho de 2020

A cauda de um manto com estampa de onça desliza pelo chão do Pavilhão da Bienal, no parque Ibirapuera. Envolto nele, está um homem de pés descalços e dorso nu, o rosto coberto por uma máscara de tigre. Numa mão, ele sacode um chocalho. Na outra, traz flores, que ele deita uma a uma em frente a certas fotografias e esculturas.

O homem era o artista Denilson Baniwa, indígena do povo baniwa, da região amazônica. A exposição, a Bienal de São Paulo de dois anos atrás. E a performance, conta Baniwa, por telefone, um protesto contra a forma como os povos originários apareciam naquelas obras —figuras sem voz, presas a um passado imemorial, que não foram convidadas a representar a si mesmas, ele descreve. Seu pajé-onça servia, assim, como “uma energia ancestral, que abre verdades”.

Menos de dois anos depois, Baniwa participaria, desta vez oficialmente, da Bienal, numa mostra da programação estendida do evento no Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM.

Organizada por Jaider Esbell, artista da etnia makuxi que participa do evento principal, com os pesquisadores Paula Berbert e Pedro Cesarino, “Moquém – Surarî Arte Indígena Contemporânea” reuniria trabalhos de mais de 50 artistas e coletivos, num esforço de mapear a diversidade da produção indígena pelo país e divulgar artistas sem acesso a esse circuito.

Com a pandemia do novo coronavírus, no entanto, a exposição foi cancelada pelo museu. Em nota, o MAM afirma que a decisão foi motivada pelos ajustes no orçamento e na programação ocasionados pela interrupção das suas atividades nesses meses de quarentena.

Já a Bienal diz que vem negociando cada uma dessas exposições paralelas individualmente, de modo a encontrar soluções que levem em conta as necessidades e potenciais de todos os envolvidos. Segundo Esbell, a mostra deve acontecer numa outra configuração, ainda a ser anunciada.

“Moquém – Surarî Arte Indígena Contemporânea” não foi a única exposição de arte indígena afetada pela pandemia.

O ano veria essa produção tomar a cidade, com mostras na Pinacoteca e no Sesc Ipiranga e a presença confirmada de três artistas indígenas na Bienal —além do próprio Esbell, Gustavo Caboco, wapichana, e o colombiano Abel Rodríguez, nonuya —, antecedendo um ciclo de exposições sobre o tema no Masp em 2021.

Mas o Masp adiou suas “Histórias Indígenas” para 2023, em razão das dificuldades para fazer empréstimos internacionais no contexto da pandemia e da alta do dólar, que encareceu as operações. “Não queríamos perder a amplitude, a complexidade e a potência da programação, então decidimos adiá-la”, afirma Tomás Toledo, curador-chefe do museu.

Além disso, mesmo os eventos mantidos, caso dos demais citados, podem ver uma redução significativa de público. Seja porque os museus devem limitar a quantidade de visitantes no pós-pandemia, ou por causa da chance de a população ter medo de frequentar espaços fechados.

Com isso, é possível que o espaço que os artistas indígenas vinham conquistando nos museus diminua, diz Sandra Benites, curadora do Masp —ela foi a primeira indígena convidada para uma função do tipo no país.

“Vai haver um certo apagamento, um apagamento que afeta o ser e o pensamento indígena desde a colonização, desde 1500. Mas quem vai perder não somos nós, e sim os brasileiros, que deveriam ter mais diálogo conosco”, ela afirma.

Mais do que um enfraquecimento, porém, Denilson Baniwa diz achar que as formas como ele e outros artistas negociam essa presença pode sofrer mudanças.

Ele conta que, até o início do ano, sua obra tinha um foco muito combativo em relação à história da arte oficial. “Hoje, isso não faz mais sentido. Tenho passado por situações complicadas, de perder amigos e mestres. Depois da pandemia, o que vai sobrar é a reconstrução desse mundo a partir do nosso conhecimento, que é de compartilhar, curar. Mostrar que asfalto, ferro e poluição não combinam com saúde.”

Ao mesmo tempo, continua Baniwa, essa revisão sistemática que ele e seus pares vinham empreendendo não tem mais volta. “Este ano, estaríamos escrevendo novos parágrafos, que dariam mais densidade ao nosso pensamento. Mas o parágrafo que já escrevemos não dá mais para apagar.”

Jaider Esbell, que num dos trabalhos que exibe na Bienal pretende justamente confrontar essa narrativa oficial da arte, também considera que o lugar que a produção indígena conquistou até agora é inegociável. O artista diz que a situação pode servir, na verdade, para sensibilizar o planeta de que sem os povos indígenas, não há futuro.

“Todo o mundo foi englobado nessas advertências que viemos fazendo, de que o céu vai desabar. Demorou muito tempo, mas agora estamos diante do abismo, e qualquer movimento em falso pode nos fazer pular ou nos segurar ainda mais. Temos tudo para nos segurarmos. E a questão é exatamente como as pessoas vão construir isso”, completa Esbell.

Enquanto isso, o artista participa da organização de uma série de seminários virtuais para o início de julho, que aproveitam a suspensão da agenda do que ele chama de sistemão para ouvir as demandas da comunidade indígena. “É um convite para essas instituições também. Ao menos, de escuta”, ele afirma.

Ele ainda trabalha em dois grandes eventos, para 2022, quando se comemora o centenário da Semana de Arte Moderna, e em 2028, centenário da publicação de “Macunaíma”, de Mário de Andrade —o mito que deu origem ao romance é do seu povo, os makuxi, e o artista usa no seu trabalho a ideia de que é neto do herói.

Diretor da Pinacoteca, que abrirá “Véxoa – Nós Sabemos” ainda neste ano, Jochen Volz diz que é preciso lembrar que a presença da arte indígena no museu foi fruto de um longo processo, que incluiu seminários e atividades como os encontros com líderes durante a retrospectiva de Ernesto Neto no ano passado. “Ela não está vindo do nada, mas de uma pesquisa e uma forma de escuta que o museu tem adotado.”

Tanto é que “Véxoa” será inaugurada junto de uma nova exposição permanente, incorporando trabalhos de artistas como Esbell e Baniwa à linha do tempo da arte brasileira, prossegue Volz.

“Para nós, não é um evento, é um paradigma de uma ideia de diálogo. Então não vejo como fazer isso no ano que vem. É essencial que o museu abra a nova montagem de acervo”, afirma o diretor, acrescentando que a exposição, adiada para o final de agosto, teve a duração estendida até março do ano que vem, de modo a garantir a visibilidade que merece.

Sandra Benites também diz que, mais do que fazer uma ou outra exposição, o importante é as instituições pensarem junto com os povos indígenas. “Há várias formas de estarmos presentes, enquanto curadores, palestrantes, artistas”, ela diz. “São imagens que não estão congeladas, e sim em movimento.”

Impacto da Covid-19 nas mostra de arte indígena em São Paulo

Histórias Indígenas
Tema que guiaria exposições no Masp em 2021 foi adiado para 2023

Moquém – Surarî Arte Indígena Contemporânea
Mostra no MAM, que integraria 34ª Bienal, foi cancelada, mas pode ser retomada em novo formato

Sawé
Exposição sobre lideranças indígenas no Sesc Ipiranga foi paralisada, mas será retomada quando sistema S reabrir

Véxoa – Nós Sabemos
Mostra na Pinacoteca organizada por Naine Terena foi adiada para final de agosto, mas durará mais

UN-Habitat data mapping ensures assistance reaches the most vulnerable in Brazil’s slums (ReliefWeb)

UN-HABITAT

3 Jun 2020

Rio de Janeiro, Brazil, June 2020 – Some 2,500 vulnerable and sick older people living in the slums of Brazil’s largest city, received hygiene kits to support them during the COVID-19 pandemic. The Social Territories Programme, implemented by the City of Rio de Janeiro, with the support of UN-Habitat, organized the distribution of the kits in 10 informal settlements known as favelas.

The kits, which include sanitizer, liquid soap, deodorant, shampoo and toothbrushes, donated by UNICEF, the United Nations Children’s Fund, were given to older vulnerable people, those who are bedridden and with heart problems in Alemão, Maré, Chapadão, Pedreira ,Vila Kennedy, Lins, Penha, Cidade de Deus, Jacarezinho and Rocinha. The materials were distributed alongside food baskets of staple goods.

The delivery and distribution was supported by professionals from the health department of the municipality of Rio de Janeiro. The selection of those eligible to receive assistance was made using data produced under the Social Territories Programme during which UN-Habitat Brazil has organized community data gathering to ensure the poorest and most vulnerable receive assistance.

All the elderly, sick and bedridden people who received the kits continue to be monitored by the programme over the phone during the pandemic.

UN-Habitat’s Regional Representative for Latin America and the Caribbean, Elkin Velásquez said it was important that the data bases were a result of surveys and mappings managed by community members.

“The data plays a key role in helping the municipalities target the delivery of humanitarian assistance during the COVID-19 crisis to really make sure it reaches the right people,” he said.

Since last year UN-Habitat has worked with the city of Rio de Janeiro on the Social Territories Programme to identify the vulnerable families living in the favelas. UN-Habitat hired 66 field agents, mostly women, from the city’s 10 largest slums who visited over 117,000 households between July 2019 and March 2020 to carry out interviews.

As a result some 25,000 families were identified as being the most vulnerable and during the COVID-19 pandemic, they are being monitored, and supported. About 8,000 families have been visited by health workers and approximately 4,000 have been provided with social assistance.

Since the pandemic, the team can no longer make field visits, but they have made over 6,100 phone calls to families in extreme poverty monitored by the programme including all those who received the kits.

New model predicts the peaks of the COVID-19 pandemic (Science Daily)

Date: May 29, 2020

Source: Santa Fe Institute

Summary: Researchers describe a single function that accurately describes all existing available data on active COVID-19 cases and deaths — and predicts forthcoming peaks.

As of late May, COVID-19 has killed more than 325,000 people around the world. Even though the worst seems to be over for countries like China and South Korea, public health experts warn that cases and fatalities will continue to surge in many parts of the world. Understanding how the disease evolves can help these countries prepare for an expected uptick in cases.

This week in the journal Frontiers in Physics, researchers describe a single function that accurately describes all existing available data on active cases and deaths — and predicts forthcoming peaks. The tool uses q-statistics, a set of functions and probability distributions developed by Constantino Tsallis, a physicist and member of the Santa Fe Institute’s external faculty. Tsallis worked on the new model together with Ugur Tirnakli, a physicist at Ege University, in Turkey.

“The formula works in all the countries in which we have tested,” says Tsallis.

Neither physicist ever set out to model a global pandemic. But Tsallis says that when he saw the shape of published graphs representing China’s daily active cases, he recognized shapes he’d seen before — namely, in graphs he’d helped produce almost two decades ago to describe the behavior of the stock market.

“The shape was exactly the same,” he says. For the financial data, the function described probabilities of stock exchanges; for COVID-19, it described daily the number of active cases — and fatalities — as a function of time.

Modeling financial data and tracking a global pandemic may seem unrelated, but Tsallis says they have one important thing in common. “They’re both complex systems,” he says, “and in complex systems, this happens all the time.” Disparate systems from a variety of fields — biology, network theory, computer science, mathematics — often reveal patterns that follow the same basic shapes and evolution.

The financial graph appeared in a 2004 volume co-edited by Tsallis and the late Nobelist Murray Gell-Mann. Tsallis developed q-statitics, also known as “Tsallis statistics,” in the late 1980s as a generalization of Boltzmann-Gibbs statistics to complex systems.

In the new paper, Tsallis and Tirnakli used data from China, where the active case rate is thought to have peaked, to set the main parameters for the formula. Then, they applied it to other countries including France, Brazil, and the United Kingdom, and found that it matched the evolution of the active cases and fatality rates over time.

The model, says Tsallis, could be used to create useful tools like an app that updates in real-time with new available data, and can adjust its predictions accordingly. In addition, he thinks that it could be fine-tuned to fit future outbreaks as well.

“The functional form seems to be universal,” he says, “Not just for this virus, but for the next one that might appear as well.”

Story Source:

Materials provided by Santa Fe Institute. Note: Content may be edited for style and length.

Journal Reference:

  1. Constantino Tsallis, Ugur Tirnakli. Predicting COVID-19 Peaks Around the World. Frontiers in Physics, 2020; 8 DOI: 10.3389/fphy.2020.00217

Face masks and the coronavirus: Masks probably slow the spread of covid-19 (The Economist)

But wearing one is mainly an act of altruism

Science & technology – May 28th 2020 edition

Editor’s note: Some of our covid-19 coverage is free for readers of The Economist Today, our daily newsletter. For more stories and our pandemic tracker, see our coronavirus hub

“THIS IS A, I would say, senseless dividing line,” said Doug Burgum, governor of North Dakota, his voice catching as he talked of the rows that have broken out in his state over the wearing of face-coverings. There are similar spats elsewhere in America, for masks have become the latest aspect of the culture war that has emerged there over how to deal with covid-19. Some shops refuse entry to maskwearers and Mike DeWine, the governor of Ohio, has rescinded an order requiring people to wear them, saying that he “went too far”.

Elsewhere in the world, by contrast, there is increasing acceptance that mask-wearing is a good thing. On May 5th, for example, the Royal Society, Britain’s top science academy, concluded that masks “could be an important tool for managing community transmission”. This is not so much because they protect the wearer—the normal reason people may put them on in times of pestilence—but rather because they stop the wearer infecting others.

In this context covid-19’s particular peculiarity—that people who test positive for it often do not have symptoms—is important. Research published last month in Nature Medicine, by Xi He of Guangzhou Medical University and Eric Lau of Hong Kong University, suggests that 44% of cases are caused by transmission from people without symptoms at the time of transmission.

Taking cover

Those who do have symptoms should not, of course, be out and about at all. In their case masks are irrelevant. But to break the chain, it behoves even the symptomless to assume that they might be infected. Covid-19 is transmitted, above all, by virus-laden droplets of spit. Experiments show that face-coverings as simple as tea-towels are effective. One study found that a tea-towel worn around the face captured 60% of droplets. At 75%, a surgical mask did better, but not overwhelmingly so.

Governments are beginning to take this on board. As part of the loosening their lockdown, the Dutch are required to wear face-coverings on public transport—but not ones of medical grade, which should be reserved for professionals. This encourages people to make their own.

Neither laboratory studies nor the data on asymptomatic transmission provide watertight evidence of the efficacy of masks. That would need randomised controlled trials, in which one group wore masks and the other did not. This would be ethically tricky, since it might condemn one of the groups to a higher death rate. Hamsters, which are susceptible to covid-19, are the next best thing to people. So researchers at Hong Kong University put cages of healthy hamsters next to cages of infected ones, with a fan in between drawing air from the infected to the healthy cage. They sometimes also placed a stretched-out face mask in the air stream. With no interposed mask, two-thirds of the healthy animals were infected within a week. With a mask interposed close to the healthy hamsters (the equivalent of a healthy person wearing a mask), one-third were. With the mask close to the infected hamsters, only a sixth were.

Although scientists cannot experiment on human beings deliberately, some wonder if the world is now carrying out a natural experiment that tests the value of mask-wearing. In many East Asian countries it was common practice to sport masks, even before covid-19, to protect against respiratory diseases and pollution. A lot of people in these places therefore took immediately to wearing masks when the epidemic started. Countries that adopted masks early on did not, by and large, shut their economies down. Yet they suppressed the disease more effectively than those that locked down but did not wear masks.

There is a correlation between mask-wearing and rapid suppression of covid-19. According to Patricia Greenhalgh, professor of primary health care sciences at Oxford University, “there is not a single country in which mask wearing was introduced early and with high compliance, where the disease wasn’t quickly brought under control.” Sceptics point out that this does not prove masks work, since countries in which they are widely worn also tend to be those which have been threatened by epidemics in the past, and therefore have well-established systems of testing and contact tracing.

In the West nobody normally wears a mask, though the practice is spreading. Universal masking started in the Czech Republic after Petr Ludwig, a Czech YouTube star, posted a video on March 14th recommending the practice, and it went viral. Other social-media influencers posted pictures of themselves wearing masks. “Mask trees”, where people would hang home-made masks for others to use, sprang up on street corners. By March 19th masks were mandatory in the country. Slovakia and Slovenia followed swiftly.

The World Health Organisation has not advocated widespread mask-wearing, and has received some criticism for this. Jeremy Howard, a research scientist at the University of San Francisco and co-founder of Masks4all, a charity, says “they did a good job of recommending handwashing and social distancing, but they have been slow on masks.”

In light of all this, regulations requiring people to wear masks have spread, as an increasing number of governments view the evidence as strong enough to warrant compulsion. India now requires them to be worn in crowded public spaces, as do France, Germany, Italy and Spain. In most of the world, people either wear them in such spaces without being told to, or are required to by their governments.

Among big countries, Britain and America are outliers. In Britain the government advises people to wear masks, but to little effect. On the London Underground around a third of travellers do so. On the Paris metro where people risk a €135 fine if they fail to cover their faces, everybody does. In America the Centres for Disease Control and Prevention, which previously recommended mask-wearing only for health workers, changed its mind in early April. It now recommends that everybody should wear them in places where it is hard for people to stay far enough apart. Several states have passed regulations along those lines, as has New York City. But, as Governor Burgum noted, the rows go on.■

This article appeared in the Science & technology section of the print edition under the headline “We interrupt this transmission…”

Volta às aulas após quarentena: veja 10 medidas adotadas em 7 países para a retomada do ensino (G1)

g1.globo.com

G1, 29 de maio de 2020

Alunos do ensino médio voltam à sala de aula em Wuham, província de Hubei, na China, nesta quarta-feira (6). Fonte: AFP.

Após decretarem o afrouxamento do isolamento social para conter a transmissão do novo coronavírus, países que estão voltando às aulas adotam medidas de prevenção para evitar uma nova onda de contaminação.

O G1 analisou a experiência de países como China, Coreia do Sul, Dinamarca, Finlândia, França, Portugal e Israel para saber quais cuidados estão sendo tomados na volta às aulas. No Brasil, as aulas estão suspensas em todos os estados e as escolas seguem fechadas.

Entre as medidas, estão:

  1. desinfecção de escolas
  2. tendas de desinfecção dos alunos na entrada
  3. controle de temperatura
  4. uso de máscaras
  5. lavagem de mãos e instalação de torneiras
  6. grupos menores de alunos
  7. distanciamento
  8. horários diferentes de entrada e saída
  9. arejar a sala
  10. afastar professores do grupo de risco

A reabertura das escolas é um marco no fim do isolamento porque permite que os pais possam voltar ao mercado de trabalho. Apesar dos esforços, ao menos dois dos países analisados voltaram a registrar casos de transmissão de coronavírus: Coreia do Sul e França.

Na Coreia do Sul, mais de 200 escolas foram fechadas nesta sexta-feira (29) dias após reabrirem, devido ao surgimento de novos casos de contaminação. Com isso, Seul adotou novas medidas para evitar a transmissão de casos, como limitar o número de alunos por sala, enquanto os demais ficam em casa, aprendendo por atividades remotas.

Na França, 40 mil escolas foram reabertas no início de maio. Uma semana depois, 70 registraram casos de coronavírus e tiveram que ser fechadas.

As regras de confinamento impostas para conter o avanço da disseminação do novo coronavírus deixaram mais de 1,5 bilhão de crianças e adolescentes fora da escola em 188 países, segundo balanço da Unesco divulgado em abril.

Desinfecção de escolas

20 de maio – trabalhador desinfeta escola em Parque Ivory, na África do Sul. — Foto: Siphiwe Sibeko/Reuters

Medidas extras de limpeza são uma recomendação comum. Em diversas partes do mundo, a desinfecção das escolas ocorre antes dos alunos chegarem e durante a permanência deles.

Em Portugal, 17 mil litros de desinfetantes e outros equipamentos de proteção e higiene foram distribuídos para centros educacionais.

Na França, as orientações do Ministério da Educação contêm inclusive quais produtos a serem utilizados para desinfecção das escolas e a frequência da higienização: o chão deve ser limpo uma vez por dia enquanto maçanetas, sanitários e interruptores devem ser higienizados várias vezes.

Tenda de desinfecção dos alunos

China tem volta às aulas do ensino médio com medidas de segurança e medo do coronavírus. — Foto: GREG BAKER / AFP

Na China, escolas instalaram tendas de desinfecção por onde os estudantes precisam passar antes de entrarem na escola.

Controle de temperatura

Termômetro usado para medir a temperatura das pessoas e fazer controle da Covid-19.. — Foto: Steve Parsons / Pool / AFP

O controle da temperatura para detectar se o aluno está com febre, um dos mais comuns sintomas da Covid-19, é uma preocupação em vários países.

Em Pequim,pulseiras inteligentes, que fazem essa medição em tempo real, estão sendo testadas. Os pais monitoram a situação por meio de um aplicativo. Caso a temperatura passe de 37ºC, um alerta é enviado para os professores, que são orientados a alertar a polícia.

Uso de máscara

China retoma aulas do ensino médio em Pequim e Xangai nesta segunda-feira (27). — Foto: GREG BAKER / AFP

O uso de máscaras em geral também é recomendado, mas os critérios variam de país para país.

Na China, as crianças utilizam máscaras o tempo todo, inclusive dentro da sala de aula.

Coronavírus na educação: na França, professora leciona com máscara nesta segunda-feira (18). — Foto: Sebastien Bozon/AFP

Em Israel, as crianças da 4ª série em diante tem que usar essa proteção. Na França, as crianças menores também estão dispensadas. No entanto, a escola deve ter máscaras à disposição dos alunos caso eles apresentem sintomas durante as aulas e estejam aguardando para serem retirados.

Uma exceção é a Dinamarca, país onde não existe a recomendação para utilização de máscaras em ambientes públicos.

Lavagem de mãos e instalação de torneiras

Crianças lavam as mãos na escola Gudenåskolen, na Dinamarca — Foto: Lone Mathiesen/ Divulgação/ Embaixada da Dinamarca no Brasil

O incentivo à higiene e lavagem de mãos está sendo constante nas escolas que voltam às aulas.

Na Dinamarca, as escolas chegaram a instalar torneiras fora dos edifícios para que as crianças lavem as mãos quando chegam à escola.

Em Portugal, é obrigatório a lavagem das mãos ao entrar e sair da escola. Na Coreia do Sul, os estudantes receberam material desinfetante para higienizar as mãos.

Grupos menores de alunos

18 de maio de 2020 – Alunos usam máscara em sala de aula no colégio D. Pedro V, em Lisboa, no dia em que parte dos estudantes volta a ter aula em meio à pandemia do novo coronavírus (COVID-19) em Portugal — Foto: Rafael Marchante/Reuters

Alguns países adotaram a medida de dividir os estudantes em grupos menores para evitar contatos mais próximos entre eles, como na Finlândia.

Na Dinamarca, as turmas, que têm entre 20 e 28 alunos, foram divididas para que os alunos possam interagir apenas dentro desse espectro menor.

Em Seul, na Coreia do Sul, os jardins de infância e escolas do ensino básico, fundamental e médio poderão receber apenas um aluno a cada três e os demais terão que seguir com o ensino a distância.

Distanciamento

15 de maio – Estudantes conversam enquanto praticam o distanciamento social no pátio de uma escola secundária durante sua reabertura em Bruxelas, na Bélgica, durante o surto do coronavírus (COVID-19) — Foto: Yves Herman/Reuters

Em geral, as salas de aula foram reorganizadas de maneira que as mesas dos alunos fiquem a pelo menos um metro de distância entre elas. A recomendação é feita pelo governos da França, Dinamarca. Em Israel, essa distância é de dois metros.

Na Dinamarca, além da distância de um metro entre as mesas dos alunos, o professor deve ficar a dois metros do estudante que senta mais próximo dele.

Alguns países adotam inclusive paredes acrílicas para evitar que gotículas da fala sejam trocadas entre os estudantes e entre estudantes e professores, como é o caso da Coreia do Sul.

Alunos retomam aulas na Coreia do Sul; em algumas escolas, carteiras têm divisórias — Foto: Yonhap / AFP Photo

Para estudantes menores, mantê-los afastados é um desafio. Uma solução lúdica, feita com asas de papelão, foi adotada na província de Shanxi, na China, para lembrá-los a distância que precisam ficar uns dos outros.

Alunos do ensino fundamental usam asas para manter o distanciamento na sala de aula em Taiyuan, na província de Shanxi, no norte da China. Foto tirada em 20 de maio de 2020 — Foto: AFP

Horários diferentes de entrada e saída

Em Portugal, alunos estão sendo organizados em grupos que terão horários de aula, intervalos e períodos de alimentação diferentes entre si, para minimizar o contato.

A mesma medida foi adotada pelos governo da Finlândia e Israel, que determinaram o estabelecimento de horários diferentes para intervalos, entrada e saída para evitar aglomeração.

Na Dinamarca, além dos horários variados, novos portões estão sendo utilizados para que a entrada e saída dos grupos não coincidam. Os pais também são orientados a se despedir dos filhos fora da escola e devem pedir permissão, caso necessitem entrar no estabelecimento.

Arejar a sala

Na França, as escolas são orientadas a manter as janelas abertas antes das aulas, durante o intervalo e depois da partida dos alunos.

Afastamento de professores do grupo de risco

27 de abril – Médicos de um hospital coletam amostras de professores do ensino médio para testes em uma escola após o surto da doença por coronavírus em Yichang, província de Hubei, na China — Foto: China Daily via Reuters

Em Israel, professoras com mais de 65 anos não retomaram as atividades. A medida é para evitar que eles fiquem expostos à uma possível nova onda de circulação do coronavírus.

The American way – How the world’s most powerful country is handling covid-19 (The Economist)

Contrary to what many Americans think, the death rate in America is about the same as in Europe

May 28th 2020 edition

Editor’s note: Some of our covid-19 coverage is free for readers of The Economist Today, our daily newsletter. For more stories and our pandemic tracker, see our coronavirus hub

AMERICA HAS passed a grim milestone: 100,000 deaths from a novel coronavirus that began to spread half a year and half a world away. Many Americans think their president has handled the epidemic disastrously, that their country has been hit uniquely hard and that there is a simple causal relationship between the two. The 100,000, which does not include excess deaths mistakenly attributed to other causes, is higher than any other country’s. It has routinely been compared with the 60,000 American casualties in the Vietnam war. A Trump Death Clock in Times Square purports to show how many lives the president’s ineptitude has cost: as we went to press it stood at 60,262. Yet this widespread conviction that America has failed because of Donald Trump is not supported by the numbers. Or, at least, not yet.

The official death rate in America is about the same as in the European Union—which also has excess deaths, but has less erratic leaders and universal health care. Overall, America has fared a bit worse than Switzerland and a bit better than the Netherlands, neither of which is a failed state. New York has been hit about as hard as Lombardy in northern Italy; California acted early and is currently similar to Germany; so far, rural states have, like central Europe, been spared the worst. This reflects two things, both of which will matter now that America is reopening before it has the virus fully under control.

The first is that covid-19, when it first hit, displayed an indifference to presidents and their plans. Around the world it has killed in large, dense and connected cities like New York, London and Paris, and where people are crammed together, including care homes, slaughterhouses and prisons. In some countries, including America, testing was snarled up in red tape.

Having seen what was happening in China, Mr Trump could have acted sooner—as Taiwan, Singapore and Vietnam did. He has failed to do things ordinarily expected of an American president in a crisis, such as giving clear government advice or co-ordinating a federal response. Instead, he has touted quack remedies and spent the days when America passed its sombre milestone spreading suspicion of the voting system and accusing a television host of committing a murder that never happened. All this is reprehensible and it may have been costly. Yet, tempting as it is to conclude that the president’s failures bear most of the blame for covid-19’s spread through America, the reality is more complicated (see Briefing).

That leads to the second feature of the country’s response to covid-19. The virus was always going to be hard on a population with high levels of poverty, obesity and diseases such as diabetes, especially among minorities (see Lexington). But, to a remarkable degree, other layers of government have adapted around the hole where the president should have been. The federal system has limited the damage, thanks to its decentralised decision-making. Lockdowns vary by state, city and county. California responded as soon as it saw cases. In the north-east governors largely ignored the White House and got on with coping with the disease, earning the Republican governors of Maryland and Massachusetts the president’s enmity, but high approval ratings. In Florida, though the governor was reluctant to impose a lockdown, county officials went ahead and did so anyway.

Contrary to demands for nationwide rules, this is a strength not a weakness, and will become more so as the pandemic runs its course. In the best-organised states, which have built up testing capacity, it helps ensure that flare-ups can be spotted quickly and rules adjusted accordingly. Because each region is different, that is more efficient than a nationwide approach.

One way democracies can deal with the virus is to draw on reserves of trust. People must behave in ways that protect fellow citizens whom they have never met, even if they themselves are feeling fine. Americans trust their local officials far more than the president or the federal government. And when it comes to public health those local officials have real power. Without this balancing feature, America might today look like Brazil, where a president with a similar love of hydroxychloroquine and distaste for face masks is wreaking havoc (see article).

If the public-health response in the United States so far matches Europe’s, its economic response to the virus may turn out better. True, the unemployment rate in America is 15%, double that in the EU. Yet in Europe most governments are protecting jobs that may no longer exist once lockdowns end rather than focusing help on the unemployed as America’s has. The EU is probably delaying a painful adjustment. Congress, not known for passing consequential legislation with big bipartisan majorities, agreed on a vastly bigger fiscal stimulus than in the financial crisis a decade ago. With a Democrat in the White House and a Republican-controlled Senate, America might not have mustered a response that was either so rapid or so large.

America still has a hard road ahead. Were daily fatalities to remain at today’s level, which is being celebrated as a sign that the pandemic is waning, another 100,000 people would die by the end of the year. To prevent that, America needs to work with the system it has, trusting local politicians to balance the risks of reopening against the cost of lockdowns.

In the next months the infrastructure built during the lockdown must prove itself. Because the virus has yet to decline in some states, it may flare up in new places, which will then need targeted lockdowns. The capacity to test, vital to spotting clusters of infection, has increased, but is still lacking in some places. Almost all the states lack the contact tracers needed to work out who needs testing and quarantining. When it considers how to withdraw fiscal support, Congress should remember this.

That America and Europe have fared similarly in the pandemic does not absolve Mr Trump. This is the first international crisis since 1945 in which America has not only spurned global leadership but, by cutting funds to the World Health Organisation, actively undermined a co-ordinated international response. That matters, as does Mr Trump’s inability to cleave to a consistent message or to speak to the country in words that do not enrage half of the population. Yet four years after Mr Trump was elected, the time to be surprised by his behaviour has long gone. Luckily, he has mattered less than most Americans think.■

This article appeared in the Leaders section of the print edition under the headline “The American way”