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Dário contra a xawara (ECOA/UOL)

uol.com.br

Marcos Candido, 15 de junho de 2020

Liderança indígena, Dário Kopenawa é ameaçado de morte enquanto luta para manter os yanomami vivos.

Dário Vitório Kopenawa, 38, escondeu-se assustado por entre as pernas do pai e da mãe quando viu o homem branco pela primeira vez. Ele tinha cinco anos e acreditou que via um fantasma. Mas seu pai, o xamã Davi Kopenawa e um dos maiores propagadores da cultura indígena no mundo, já conhecia bem os visitantes. Explicou ao filho que eram pessoas com uma língua e características diferentes. A versão detalhada veio anos mais tarde.

Na tradição yanomami, as doenças foram enterradas no fundo da terra por Omama, criador da humanidade. Em busca de riquezas, os homens brancos escavaram onde estavam os males e espalharam as doenças entre os povos indígenas. Davi entendeu que era preciso lutar para preservar o subsolo sobre onde viveram seus antepassados. “Quando você crescer mais, seguirá a minha linha e a minha luta”, disse o pai para o filho.

As doenças enterradas têm um nome: xawara. Hoje, Dário luta contra garimpeiros invasores que persistem em “desenterrar” o xawara na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e a propagar a Covid-19 entre os povos indígenas. Vice-presidente da Associação Yanomami desde 2004, Dário encabeça a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid!”, lançada no início de junho para coletar assinaturas e pressionar Brasília contra a extração ilegal. Desde o início o ano, ele tem convivido com o aumento das ameaças de morte, mas isso não o abala. “Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer”, diz em entrevista a Ecoa via videochamada.

Imagens de satélite mostram extensas áreas abertas no território yanomami. Acredita-se que 20 mil garimpeiros estejam na região e transitem com vírus entre Boa Vista e o território. Até agora, quatro yanomamis foram vítimas da Covid-19, entre eles um líder reverenciado, uma gestante e um adolescente de 15 anos.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais e Instituto Socioambiental (ISA) estima que até 40% dos yanomami podem ser infectados, tornando-os o povo indígena mais vulnerável do país. O Serviço Especial de Saúde Indígena (Sesai) estima 26 mil indígenas na Terra Indígena Yanomami, onde vivem 8 povos diferentes; alguns isolados.

Dário começou a estudar português em 1995 e, dois anos depois, já era professor bilíngue e propagador da escrita da língua yanomami. No início dos anos 2000, visitou o Xingu no Mato Grosso, os Makuxi e Wapixana em Roraima e os povos indígenas no Acre. Viajou para os Estados Unidos e Europa. “Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda”, diz.

Na conversa abaixo, Dário Kopenawa fala sobre identidade, rituais, o perigo real enfrentado pelos indígenas hoje e a relação do homem branco com a natureza. Ele acredita que, com o fim da pandemia, o mundo não indígena – o mesmo que estimula a busca pela xawara — vai compreender que a terra mãe é viva e se vinga

Victor Moriyama / ISA/Victor Moriyama / ISA Victor Moriyama / ISA/Victor Moriyama / ISA

Doença do homem branco

Por que na leitura dos yanomami, estamos enfrentando a Covid-19?

Na língua yanomami, as doenças a gente chama de xawara: a gripe, a malária, a diarreia. Covid-19 também é xawara. Na década de 1970, a doença já tinha chegado às terras yanomami e mais de 20% dos yanomami morreram com o sarampo. O xawara mata as pessoas. Não é uma situação simples: ficamos em alerta

Por que acontecem as xawaras?

Antes dos europeus invadirem nosso país, vivíamos em muita tranquilidade. Sem doença, sem gripe. Sem coisa que ataca a gente. Os rios limpos, os animais vivos. Nosso criador Omama enterrou a epidemia e ela se transformou em ouro, diamante, petróleo. O que está lá embaixo é a xawara, escavada pelo homem branco, o mesmo que destrói a floresta e pegam a doença lá no fundo da terra mãe. Depois queimam o ouro para fazer riqueza. É assim que a fumaça de xawara sai pela terra. Os xamãs têm conhecimento de como evitá-las.

Nós, povos da floresta, yanomami, não criamos doenças. A gente lida com respeito à natureza, conhecemos o sistema da floresta, como funciona o meio ambiente. Sabemos que não podemos causar problemas a ela, sabemos da vida yanomami com a mãe terra.

Vocês têm medo que os yanomami despareçam com as repetidas xawaras?

A gente não tem medo, mas não queremos mais morrer. Somos sobreviventes, nossa população aumentou após diminuir na década de 70 e 80. As lideranças mais velhas dizem que a doença é muito grave. Mas agora não é só a gente que não quer mais morrer, o mundo todo está com medo.

Você está em Boa Vista (RR) agora. Tem medo de ser infectado e não voltar?

Não tenho medo de pegar, tenho medo de levar a doença ao meu povo e matá-los. Preciso respeitar a hierarquia da terra mãe e não posso entrar lá enquanto houver a xawara.

Seu pai, Davi Kopenawa, está com o povo. Vocês estão se falando?

Meu pai está trabalhando com xamãs e os espíritos da floresta para enfraquecer o xawara contra a doença que se chama coronavírus. Está mais protegido do que eu, meu povo está protegido. Ele está longe, mas as lideranças sabem que estou na luta e espiritualmente me lideram. No momento, estou na luta e não quero retornar.

Uma das vítimas foi uma liderança de 64 anos. O que significa perder um idoso na cultura yanomami?

Machuca muito. Um idoso já sobreviveu a muito, cuidou de muitas famílias, organizou nossa sociedade. O idoso é o cabeça das gerações e repassa a história yanomami. Quando morre, perdemos uma pedaço história dos primeiros criadores filhos da floresta, mas outras lideranças vão continuar a ensinar às novas gerações que estão nascendo.

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O “novo normal”

Vocês destroem a terra, as florestas, matam os povos indígenas, provocam mudanças climáticas no mundo inteiro. O que está acontecendo é resultado do homem branco não deixar a mãe terra em paz. Quando a doença voltar para debaixo da terra, ela já vai ter comido os não indígenas e indígenas e vamos viver como restos de comida. Para vocês, será uma nova vida. Mas nós já sabemos que tudo foi resultado da vingança da mãe terra. Nós já a entendemos. A pandemia vai deixar uma mensagem para vocês entenderem que é uma vingança universal. Vocês, como brancos, vão aprender que estão na nossa casa.

Dário Kopenawa

A cultura yanomami

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Há muitos anos você convive com outras culturas, outros povos e sempre há uma situação conflituosa. Você acha que o homem branco está condenado à destruição ou você ainda tem esperança entre harmonia entre os povos?

Como vocês sonham, nós sonhamos também. Nós queremos viver em paz. Sem brigas com lideranças não indígenas. Os brancos querem a riqueza, a economia, mesmo que isso destrua a natureza, escavar a terra indígena, derrubar milhares de árvores na Amazônia. Particularmente, espero que as novas gerações falem com as antigas, com seus parlamentares, senadores e governos para interromper a destruição da mãe terra. Mas o problema não vai parar. A gente está lutando e defendendo a mãe terra, mas os brancos brincam de desenvolvimento. São 520 anos de briga. Querem mais economia, mais fábricas, buscar por riqueza. Nós queremos paz, mas isso não vai acontecer. Nós, povos da floresta, vamos continuar a falar só sobre como somos discriminados e assassinados.

O que é riqueza para os povos yanomami?

Riqueza para nós é terra boa, sem destruição, sem desmatamento, ar limpo, muito alimento. Terra com muito buriti, muitas frutas, muito açaí. Para nós, isso é riqueza. É onde vivemos em paz, sem doença, onde tem alimento para nossos filhos, para criar nossos parentes, sem a contaminação dos rios, sem malária, sem problemas no ar. Para o homem branco, a riqueza é derrubar as árvores, fumaça, atmosfera poluída por máquinas, trator, carro. Esse é o pensamento do não indígena.

Diferentemente dos indígenas, o homem branco discute pouco sobre a própria identidade?

O homem branco não pensa como a gente pensa. É diferente. Ele é um desconhecido. Por isso, não se dá muito a amizade com o índio. É difícil compreender a sociedade não indígena, mas é fácil ver que no homem branco entra o preconceito contra os povos da floresta. Quando você conhece um pouco da cultura yanomami, por exemplo, você já passar a respeitar. Você já visitou os guarani em São Paulo?

Não, mas é mais ou menos perto de onde vivo.

É por isso. Você mora em capital grande. Os guarani kaiowá estão aí, mas muitos brancos não se interessam em conhecê-los. Por isso é difícil ao homem branco conhecer a cultura dos povos indígenas.

Você viajou a outros países, outros povos e culturas. O que você aprendeu sobre sua própria identidade indígena e a si mesmo ao conhecer tantas pessoas diferentes?

Conheço vários de nossos parentes no Brasil — considero como parentes todos povos da floresta. A gente luta junto, fala nossas próprias línguas. Eu viajei a outros países, mas não fui turista. Na Noruega, conheci nossos parentes indígenas: os sámi. Fiquei impressionado e triste com o histórico deles. Foi muito importante e interessante, mas a minha cultura não se muda. Eu não integrei a sociedade não indígena para me tornar um não indígena. Isso não existe. As lideranças mais velhas, como meu pai Davi Kopenawa, Raoni Metuktire e Ailton Krenak são grandes mestres e nos ensinam caminhos bons para a luta, para defesa e de diálogo com autoridades. Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda. Sou Dário. Sou yanomami.

Queria saber se há um intercâmbio de culturas. A cultura do homem branco também influencia os yanomami? Dá para ser feminista, ou LGBT, por exemplo, especialmente quando há presença de yanomamis nas cidades e nas redes sociais?

A cultura não se muda. Na sociedade não indígena, a gente participa errado, por exemplo, podendo achar que vai ser rico se morrer de trabalhar, esquecer de sua cultura e achar mais fácil ter comida e dinheiro na cidade. Nós podemos querer morar na cidade, conhecer outras coisas, mas a cultura yanomami se perde muito com isso. A escola também é muito boa, mas às vezes acaba com a linguagem. Na Terra Yanomami, nós corremos atrás dos macacos, vivemos lá, flecho animais, ainda falamos na minha língua — e também uso a língua de vocês como arma de defesa. A tecnologia consome muito nosso pensamento e atrapalha a visão do povo originário. Nossas memórias também se adoecem e temos problemas de saúde. Por outro lado, é importante usar as redes sociais, ter acesso à diversidade e a cultura para ocupar as tecnologias e fazer vocês conhecerem a nossa cultura. O pensamento do branco nos manipula muito forte, e isso às vezes nos atrapalha muito, mas a cultura não morre e continua.

É possível ser yanomami e evangélico, por exemplo?

Nós temos regras e normas de cada aldeia. Nossas lideranças podem ou não autorizar uma manifestação. Particularmente, eu respeito o religioso, mas não quero ser pastor ou evangelizar meus pais. É a cultura do povo não indígena e já tenho minha religião no xapiri yanomami.

E dá para ser yanomami e feminista?

Isso é uma visão do branco, não é a nossa. A gente não pensa nisso. É um pensamento da cultura de vocês e isso não se encaixa na cultura do povo da floresta, então não consigo responder.

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Luta contra o garimpo

O garimpo existe há décadas na região. Por que nunca vai embora?

Os garimpos são como o sarampo. Não querem sair, não querem largar a nossa terra. Para mim, são pragas. Ele não existiria sem o preço do ouro: o garimpo não trabalha de graça e o preço do ouro é alto. Se derrubar o preço do ouro, duvido que garimpeiros vão trabalhar de graça e arriscar a vida, morrendo com seus colegas, para tirar ouro da terra yanomami. Esperamos que as autoridades os tirem, mas sem ouro eles não iriam trabalhar.

O garimpo é mais perigoso pelo desmatamento ou pela Covid-19?

Os dois. O garimpo é perigoso e a Covid-19 é perigoso. Os dois matam pessoas, destroem a terra e não respeitam nossa cultura, nossa terra que está homologada pelo próprio governo federal. Os dois são perigosos. Não vejo muita diferença.

O governo federal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu algum posicionamento, em relação ao garimpo?

Olha, ele é o chefe. Bolsonaro apoia a exploração da mineração em terras indígenas. Ele apoia o garimpo ilegal. Por isso, nós encaminhamos documentos ao governo federal e ele não nos respondeu sobre a retirada dos garimpeiros da terra yanomami. Não respondeu, mas está cada vez mais violentando, pressionando o Congresso nacional para reabrir Terras Indígenas e prejudicar a vida dos povos indígenas.

O que mudou para vocês com a presidência de Bolsonaro? Porque o garimpo não é uma situação nova.

Os governos anteriores pelo menos respeitavam um pouco a questão indígena, nossos direitos, nosso direito à floresta. Na época, quando ele ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro, sempre falava sobre a mineração em terra indígena e em projetos de lei. Quando o povo brasileiro o elegeu, ele se ergue e desrespeita a hierarquia da autoridade brasileira. Desrespeita a Constituição. Ele acha que, por ser presidente da república, pode desrespeitar todo mundo. O negro, o branco. Imagina os indígenas! É pior! É querer acabar com a vida dos povos indígenas. Para mim, Bolsonaro tem o pensamento doente. Vivemos uma desorganização no país e mais problemas ainda são criados. Ele fala besteira, tipo como criança. Ele tem um “pensamento muito desperdício”.

O presidente Jair Bolsonaro já disse que a demarcação do território indígena é abusivo no Brasil, e que há uma indústria de demarcação de terras. A demarcação de terras indígena é abusiva?

As terras indígenas estão demarcadas por lei. Mas Bolsonaro pensa que é fácil desmanchar nossos territórios. Por isso, nós lutamos. O mais valioso é nosso território yanomami. É fundamental e mais importante do que a fala do presidente. Sem o território, como nós vamos viver?

Mas elas são excessivamente grandes, como fala o presidente?

Na visão do povo indígena, isso não existe. Temos pedaços. Perdemos muito no território brasileiro e as cidades são muito grandes. O que temos é um rascunho. Para nós, o que temos não é um território grande. É pequeno, mas é uma conquista. Na visão do Bolsonaro, nossos territórios são grandes, maiores do que Portugal ou Rio de Janeiro. Para nós isso não existe, o que temos veio da luta e da conquista. Nossos territórios não são grandes, são pequenos.

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Guerreiro não tem medo de morrer

Como o garimpo consegue entrar nas terras indígenas?

O garimpo é como formiga. Entram como entram nos quartos dos brancos, nas mochilas, nos carros. É a mesma coisa. Chegam de avião, de barco, pelo mato. Nosso território tem 9 milhões de hectares, então os garimpeiros chegam nos limites da terra indígena, usam barcos e aviões pagos com ouro para entrar no nosso território. O garimpo entra em qualquer território como se fosse o dono, como se fosse o sítio deles. A eles, a terra não tem dono.

O garimpo tornou-se mais organizado?

Os garimpeiros não são organizados. Os empresários é que são organizados e roubam dos garimpeiros, que são mão-de-obra. Os garimpeiros correm risco e morrem entre eles, se matam entre si. Mesmo sem organização, eles entram com barracões e destroem muito as terras.

E quem são esses empresários?

Não conheço nenhum, mas sabemos que são eles que financiam a venda e compra de ouro no Brasil e também vendem para fora do país.

Você já sofreu ameaça de morte?

Fisicamente, não. Mas meus parentes já receberam mensagens dizendo que garimpeiros queriam saber meu endereço, onde eu estava, onde vivo e o onde fica meu trabalho. As ameaças já são de muitos anos. Pioraram [nos últimos meses], mas não são mais fortes no sentido fisicamente. Mas por mensagem, aumenta cada vez mais.

Por que acha que as ameaças estão chegando cada vez mais?

Nós estamos denunciando, brigando e perturbando os garimpeiros. Eles pensam que estou atrapalhando o trabalho deles no garimpo ilegal na terra indígena yanomami. Por isso, querem acabar comigo e com meu pai quando fazemos uma denúncia nacional e internacional.

Você tem medo de morrer?

Não tenho medo. Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer. Quem rouba é que tem que ter medo. Não sei o que pode acontecer, mas não tenho medo e não quero fugir.

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‘A Queda do Céu – Palavras de um xamã yanomami’. Entrevista com Bruce Albert (National Geographic Brasil)

ENTREVISTA 29/09/2015

“A produção indígena na cena cultural é, de fato, cada vez mais importante no Brasil, mas ainda muito aquém de suas imensas possibilidades”, afirma Bruce Albert, um dos autores do livro. Confira uma entrevista com o etnólogo francês

por Felipe Milanez 
Capa do livro A Queda do Céu

Da amizade de 30 anos entre o etnólogo francês Bruce Albert e o xamã e porta-voz do povo YanomamiDavi Kopenawa nasceu A Queda do Céu, lançado agora pela Companhia das Letras no Brasil. 720 páginas, R$ 69,90). Publicado originalmente em francês em 2010, na prestigiosa coleção Terre Humaine, o livro é um libelo contra a destruição da Floresta Amazônica e traz as meditações do xamã a respeito do contato com o homem branco, ameaça constante para seu povo desde os anos 1960.

Davi Kopenawa nasceu por volta de 1956, em Marakana, grande casa comunal situada na floresta tropical de piemonte do alto Rio Toototobi, no norte do estado do Amazonas, próximo à fronteira com a Venezuela. A vocação de xamã desde a primeira infância, fruto de um saber cosmológico adquirido graças ao uso de potentes alucinógenos, é o primeiro dos três pilares que estruturam o livro. O segundo é o relato do avanço dos brancos pela floresta e seu cortejo de epidemias, violência e destruição. Por fim, os autores trazem a odisseia do líder indígena para denunciar a destruição de seu povo. Recheada de visões xamânicas e meditações etnográficas sobre os brancos, A Queda do Céu não é apenas uma porta de entrada para um universo complexo e revelador. É uma ferramenta crítica poderosa para questionar a noção de progresso e desenvolvimento defendida por aqueles que os Yanomami – com intuição profética e precisão sociológica – chamam de “povo da mercadoria”.

Na entrevista abaixo, o jornalista Felipe Milanez entrevista Bruce Albert, doutor em antropologia pela Université de Paris X-Nanterre e pesquisador sênior do Institut de Recherche pour le Développement (IRD, Paris). Albert participou em 1978 da fundação da ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY), que conduziu com Davi Kopenawa uma campanha de 14 anos até obter, em 1992, a homologação da Terra Indígena Yanomami. Viaja à terra yanomami praticamente todos os anos, há quatro décadas.

Como surgiu a ideia do livro e como ele pode inspirar novos trabalhos literários de lideranças indígenas?

Bruce Albert A ideia do livro nasceu durante a invasão garimpeira da terra yanomami no fim dos anos 1980. O caos sanitário e ambiental era total. A sobrevivência do povo Yanomami no Brasil estava em jogo. Davi estava profundamente angustiado e revoltado. Pensou que, para evitar o fim de seu povo devia contar sua história e transmitir seus conhecimentos. Ele sabia que, para os brancos, o que não está escrito não existe. Queria, portanto, que as palavras yanomami, inaudíveis nas cidades, saíssem da floresta e se espalhassem pelo mundo afora na forma de um livro. Nós já éramos amigos, engajados contra o garimpo, eu falava yanomami o suficiente. Ele decidiu pedir minha ajuda para escrever suas palavras, que são também as antigas palavras do seu povo. Inventamos assim juntos este livro “falado-escrito” que acabou tecendo uma mensagem xamânico-política com um projeto de descolonização da escrita etnográfica.

O que acho fundamental nesta parceria, foi justamente essa vontade de cruzar, em pé de igualdade, nossas perspectivas intelectuais num projeto político-etnográfico comum. Eu acho que esta forma de etnografia colaborativa tem bastante potencial para divulgar a história e o pensamento de muitos povos sem acesso à escrita. Mas trata-se de uma forma transitória. Muitos letrados indígenas já surgiram e continuam surgindo e estão hoje, Brasil afora, inventando seus próprios gêneros de autoetnografia, estilos de escrita e formas literárias. É um movimento de reapropriação da etnografia que tem como pano de fundo o surgimento progressivo dos povos indígenas como sujeitos políticos desde os anos 1970.

O que mais marcou a sua vida na sua relação com os yanomami e como o pensamento deles se situa em meio a grande diversidade de pensamentos indígenas no Brasil?

Bruce Albert Encontrei os yanomami muito jovem, há mais de três décadas, e obviamente marcaram muito minha vida intelectual e pessoal em muitos aspectos. Acho que a lição mais interessante que podem nos dar os yanomami – os povos indígenas em geral – não remete nem as experiências individuais, necessariamente anedóticas, nem a saberes específicos, inevitavelmente recortados ao sabor de nossas fantasias utilitaristas.

O que os índios nos ensinam fundamentalmente é que existem outros universos humanos e não humanos possíveis e pensáveis, e que o nosso mundo, tão arbitrário quantos os outros e consideravelmente mais mortífero, não é necessariamente o mais digno de apreço. Este efeito de comparação perturbador constitui uma contribuição fundamental para destabilizar a cegueira de nosso narcisismo autodestrutivo e assim, tal vez, garantir nossa sobrevivência intelectual e física. Sem isso, estamos condenados à morte dos xamãs e à queda do céu, como nos ensina Davi Kopenawa. Esta é a vocação do livro, além de sua dimensão etnobiográfica.

O que era “ecologia” para o senhor, na época em que conheceu Davi? E o que é ecologia hoje?

Bruce Albert Conheci Davi em 1978, tinha 26 anos e “ecologia” era ainda um tema muito incipiente. Suponho que, na época, eu não pensava muito além das noções de senso comum da minha sociedade de origem. Inventamos a noção de “natureza” como um vasto espaço exterior a humanidade ocidental – um espaço “selvagem” dedicado ao desbravamento e à exploração sem limites. Este imenso espaço misterioso e ameaçador circundava o espaço outrora restrito da (boa) sociedade e da “civilização”. Mais tarde a perspectiva se inverteu. Com o avanço da industrialização, chegamos à noção de “meio ambiente”, uma “natureza” vencida e transformada em uma variedade de espaços cada vez mais residuais, englobados pela sociedade dominante (reservas, parques, etc).

São estas nossas categorias que a contra-etnografia do Davi Kopenawa contribui a descontruir com muita perspicácia. Ele desafia, por um lado, nossa velha categoria de natureza através de sua tradução da urihi a pree, a “terra-floresta mundo”, que engloba uma fervilhante sociedade de seres visíveis ou invisíveis, humanos e não-humanos. Ele sugere que nossa noção de “ecologia” deveria hoje se aproximar desta perspectiva anti-antropocêntrica para poder conversar com a tradição xamânica indígena. Por outro lado, ele reduz nossa categoria de “meio ambiente” a uma fórmula impiedosa : “é o resto do que vocês ainda não destruíram”.

Vivemos hoje uma crise política e econômica, e sobretudo uma grande crise ecológica. Que perspectivas de saída podemos vislumbrar através do ponto de vista yanomami?

Bruce Albert Davi Kopenawa propõe uma poética, humorada e muito certeira etnografia de nosso absurdo fascínio por mercadorias que ironiza chamando de “mercadorias-namoradas”. Além disso, ele nos oferece um sábio diagnóstico xamânico sobre a queda do céu cujas conclusões são basicamente as mesmas que a dos cientistas do IPCC: se persistimos com nosso mito do crescimento infinito e nossa economia predadora de combustíveis fósseis, chegaremos a um catástrofe socioambiental de magnitude ainda pouco imaginável para o público em geral, porém já muito bem pensada pelo xamãs dos povos indígenas. A mensagem é, portanto : ter a audácia de pensar/construir um novo mundo para deixar de ser o grotesco e perigoso “Povo da Mercadoria” descrito pelos xamãs yanomami.

Como o senhor analisa a atual conjuntura dos povos indígenas no Brasil?

Bruce Albert A situação é a pior possível. Da novela do genocídio dos guarani à mortalidade infantil subsaariana dos yanomami ou dos povos do Vale do Javari, assistimos hoje a uma volta inquietante aos tempos do indigenismo sombrio da ditadura. O modelo de economia de commodities, apresentado como novo milagre desenvolvimentista pelos governos recentes, não passou de um lamentável remake – em versão chinesa – dos sonhos falidos da ditadura. Sob a fachada de um “progressismo” traído, os velhos tempo neocoloniais vigoram como nunca para os povos indígenas.

A antropologia às vezes é vista como uma ciência que fala de situações muito específicas, e difíceis de serem generalizadas. No livro, a crítica da Davi parece estender-se para um plano geral, e somos convidados a refletir sobre o mundo através da visão yanomami. Há uma mudança, nesse sentido, de rumos na antropologia?

Bruce Albert A (nossa) antropologia escreve em nome dos outros e idealmente o faz (ou deveria fazê-lo) com empatia, solidariedade política e com um esforço de tradução à altura intelectual de seus interlocutores. Resta que, mesmo assim, guarda um indevido monopólio sobre a descrição e a publicação dos mundos vividos alheios e sobre a antropologia dos outros. Esse caminho não é mais sustentável. Como falei, os povos indígenas da Amazônia emergiram, há algumas décadas, enquanto sujeitos políticos no cenário nacional e internacional. Esta situação está aos poucos abrindo espaço não somente às crescentes experiências de autoetnografia e de etnografia colaborativa, como mencionei, mas também à possibilidade de uma contra-etnografia indígena sobre nosso mundo, portanto de uma antropologia reversa, como a elaborada por Davi Kopenawa. A (nossa) antropologia, ao dialogar cada vez mais com os intelectuais indígenas num pé de igualdade, deveria portanto tornar-se cada vez mais simétrica e fonte de cruzamentos conceituais.

Nos últimos anos os povos indígenas têm sido responsáveis por uma grande e intensa produção cultural. O que tem impedido que a produção seja ainda maior e qual o papel da academia nesse sentido?

Bruce Albert A produção indígena na cena cultural é, de fato, cada vez mais importante no Brasil, mas ainda muito aquém de suas imensas possibilidades : existem no pais 243 povos falando mais de 150 línguas. A razão essencial, me parece, é que, no Brasil de 2015, a maior parte dos povos indígenas tem ainda que lutar para sobreviver fisicamente face a espoliações e violências. Acho portanto que os antropólogos, além da sua solidariedade política, têm mesmo, nestes tempos críticos, que intensificar os seus esforços para apoiar o movimento indígena de expressão autônoma na escrita, artes plásticas, música, vídeos, etc. Existem experiências históricas neste sentido no Brasil, como o projeto Vídeos nas Aldeias ou a série Narradores do Rio Negro, do Instituto Socioambiental. Me parece que o mundo acadêmico poderia se abrir mais à novas experiências etnográficas centradas na autoria indígena. Espero que A Queda do Céu seja um incentivo para isto.

Nesse ano também foi lançado o livro de Ailton Krenak, alguns anos atrás foi Álvaro Tukano. São alguns exemplos de livros produzido por indígenas de uma mesma geração (hoje com 50 a 70 anos), que foram jovens lideranças nos anos 1980 e que lutaram para alcançar os direitos que estão hoje na Constituição Federal. Como o senhor vê essa geração, o que mudaram e romperam com a anterior, e o que deixam para as próximas?

Bruce Albert As lideranças indígenas da geração do Davi Kopenawa, formam uma geração histórica, de pioneiros das lutas e da organização do movimento indígena. É uma geração de líderes carismáticos, cujas singularidades fora do comum foi capaz de representar simultaneamente seus povos e os povos indígenas da Amazônia de maneira mais ampla. A partir dos anos 1990, estas figuras emblemáticas, até então solitárias, começaram a abrir espaço para as gerações mais novas, que passaram por experiências diversas de escolarização e constituíram o viveiro das inúmeras associações indígenas que se formaram desde então. A trajetória do Davi é exemplar nesta geração. Sua pequena infância se desenvolveu longe do brancos, foi depois alfabetizado por missionários evangélicos, trabalhou em sua juventude na FUNAI como intérprete, tornou-se uma liderança de destaque nacional e internacional no anos 1980-1990 e, enfim, promoveu a fundação da Hutukara Associação Yanomami em 2004. No livro, Davi relata com uma emoção vibrante todos os momentos chaves desta incrível odisseia entre dois mundos, do medo que teve dos primeiros brancos vistos na infância, até sua primeira visita a Nova York. É realmente um depoimento fundamental para a história dos Índios no Brasil, mas também, simplesmente, para a história do Brasil contemporâneo.