Arquivo mensal: janeiro 2022

Gente do campo: descubra quais são os 28 povos e comunidades tradicionais do Brasil (G1)

Indígenas, quilombolas, caatingueiros e quebradeiras de coco babaçu são alguns dos que integram o grupo. Direito à terra está no centro das lutas destas populações.

Artigo original

Por Vivian Souza, G1

29/01/2022 07h00

Quebradeiras de coco da região de São João do Arraial. — Foto: Divulgação

Você sabe quais são povos e comunidades tradicionais brasileiros? Talvez indígenas e quilombolas sejam os primeiros que passam pela cabeça, mas, na verdade, existem, além deles, 26 reconhecidos oficialmente e muitos outros ainda não foram incluídos na legislação, explicam especialistas do tema.

“Os povos indígenas são os primeiros do Brasil, considerados os donos da terra e fazem parte do arcabouço dos povos tradicionais. A partir da colonização, outros povos vão sendo agregados. Em 1574, tem o registro da entrada do primeiro cigano”, narra Kátia Favilla, antropóloga especialista no assunto e secretária-executiva da Rede Cerrado.

“A gente tem um processo, então, já de uns 400 anos de formação de povos e comunidades tradicionais, que não é um processo finalizado”, completa.

São pescadores artesanais, quebradeiras de coco babaçu, apanhadores de flores sempre-vivas, caatingueiros, extrativistas, para citar alguns (veja lista completa ao fim da reportagem). Todos considerados culturalmente diferenciados, capazes de se reconhecerem entre si.

Essas comunidades fazem uso dos recursos naturais, não apenas para seu sustento, mas também para reprodução cultural, social e religiosa, define Cristina Adams, uma das coordenadoras do livro “Povos tradicionais e biodiversidade no Brasil – contribuições dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a biodiversidade, políticas e ameaças”.

Parceria com a natureza

Cada uma das comunidades tem uma prática de sistema tradicional de uso, que, de forma generalizada, é conhecida como Sistema Agrícola de Produção (Sat).

“Essas práticas são muito importantes no modo como esses povos se autoidentificam. Muitas dessas comunidades tradicionais se identificam pelas práticas econômicas que são estruturantes do seu modo de vida”, explica Ana Tereza da Silva, professora do Mestrado Profissional em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais da Universidade de Brasília (MESPT/UNB).

Contudo nem todos os povos mantêm apenas um modo de produção. Uma comunidade pesqueira, por exemplo, pode também realizar o extrativismo sustentável, exemplifica Ana. Ou, como acrescenta Kátia, uma comunidade extrativista pode ter uma pequena roça.

Ainda assim, o Sat é fundamental para a manutenção dos povos em seus territórios.

Reportagem do Globo Rural de 2021 mostra quilombo que produz rapadura artesanal e aumenta renda com projeto Pró-Semiárido.
Reportagem do Globo Rural de 2021 mostra quilombo que produz rapadura artesanal e aumenta renda com projeto Pró-Semiárido.

Para Ana, essas populações, essas populações não veem o agro como um negócio. A terra é considerada uma mãe e há uma relação de reciprocidade com a natureza.

Nesta troca, a natureza fornece “alimento, um lugar saudável para habitar, para ter água. E eles se responsabilizam em cuidar dela, a tirar dela apenas o suficiente para viver bem e a respeitar os tempos de auto-organização, de regeneração da própria natureza”, diz.

Na prática, essas populações dependem, muitas vezes, de uma agricultura e tecnologia simples e intensiva mão de obra, ainda que, dentro do território, a densidade populacional seja baixa, descreve Cristina.

Além de terem pouco impacto ambiental, suas atividades contribuem para a manutenção e para a geração de biodiversidade, tanto da natureza quanto da “agrobiodiversidade”, ou seja, de variedade de espécies dentro da atividade agrícola, fundamental para a segurança alimentar.

Chega até sua mesa

As produções dessas populações não ficam apenas para a subsistência. Elas já foram abrangidas por algumas políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), voltado para ajudá-las a escoar os cultivos para as escolas próximas às comunidades.

Atualmente, as feiras locais são importantes para que esses alimentos sejam comercializados.

Algumas comunidades organizadas de maneira mais coletiva, através de associações, por exemplo, conseguem expandir a venda para outros estados e para o exterior.

Kátia, antropóloga especialista no assunto, mora em Lisboa e conta que o açaí é um grande exemplo disso. Boa parte vem de comunidades tradicionais e se tornou comum na capital portuguesa.

No Brasil, o umbu, a castanha do Brasil e o pequi são exemplos de comidas que vêm desses povos e chegam até as cidades.

Reconhecimento

O primeiro passo para um grupo ser considerado tradicional é a autoidentificação, que ele se declare como tal.

Depois vem a etapa dos processos judiciais, quando são feitos laudos que comprovem a historicidade da comunidade, há quanto tempo ela ocupa determinada área, suas produções sociais, políticas e econômicas, por exemplo.

“O que faz uma comunidade se autoidentificar como tradicional, normalmente, são as ameaças”, diz Ana.

Esses povos, que sempre estiveram em suas terras, quando sentem que podem perdê-las, seja para o grande agronegócio ou para grileiros, buscam esse reconhecimento para tentar manter o seu direito de permanecer no local.

Existem situações, inclusive, em que as vidas das lideranças são ameaçadas ou tiradas por quem visa tomar essas áreas.

Em relação aos indígenas e quilombolas, esse direito à terra está resguardado pela Constituição de 1988, resultado da mobilização dos movimentos sociais.

Com isso, essas pessoas contam com órgãos federais, como a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Fundação Cultural Palmares. Ambas têm função institucional e constitucional de reconhecer e demarcar as terras, explica Ana.

Os demais povos têm que recorrer a outros dispositivos jurídicos, como ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Eles também podem recorrer ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e solicitar que a área se torne uma reserva de desenvolvimento sustentável, diz a professora do MESPT.

Há ainda o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CONPCT) – composto majoritariamente por representantes desses povos -, que além de fazer parte deste processo de reconhecimento, também auxilia no diálogo entre comunidades e o Estado brasileiro.

Apesar disso, Kátia diz que, atualmente, esses órgãos estão enfraquecidos e o que realmente tem defendido esses povos são os movimentos sociais, caso da Rede de Comunidades Tradicionais, formada por mais de 30 segmentos, que atua em diálogo com o governo buscando uma legislação mais representativa.

demarcação de terras indígenas é alvo de discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), visando decidir se é preciso seguir o chamado “marco temporal”. Por esse critério, indígenas só podem reivindicar a demarcação de terras que já eram ocupadas por eles antes da data de promulgação da Constituição de 1988.

Saiba mais sobre a demarcação de terras indígenas com o vídeo:

Joenia Wapichana comenta sobre a demarcação das terras indígenas
Joenia Wapichana comenta sobre a demarcação das terras indígenas

Busca por direitos

A terra, de acordo com as especialistas, é a maior questão para essas comunidades.

“Muitas vezes eles estão em território de interesse para grandes fazendeiros, para mineração ou para madeireiras, de modo que eles são o elo mais fraco da corrente”, explica Cristina.

De acordo com a pesquisadora, há ainda o agravante de que existem comunidades cujo território acabou sendo sobreposto por unidades de conservação, o que também pode gerar muitos conflitos e impedimentos no uso tradicional dos recursos naturais.

Isso porque, nessas situações, a população deveria ser retirada da área e indenizada, mas a escritora disse que nunca soube de um caso em que isso aconteceu.

Porém essa não é a única luta dessas pessoas, há a busca por políticas públicas. Esses povos enfrentam, por exemplo, a dificuldade para acessar créditos agrícolas e para melhoria de moradias, diz Kátia.

Há também obstáculos para a comercialização dos produtos, com estradas em condições ruins para o escoamento ou mesmo sobrando apenas os rios para fazer isso, relata a antropóloga.

Para além do setor agrícola, há falta de acesso a educação e a saúde de qualidade.

“A modernidade chegou a elas (comunidades), mas isso não faz com que elas percam a sua ancestralidade, mas é claro que elas foram se adaptando ao mundo. Elas querem acesso, por exemplo, a educação e a universidades”, diz Kátia.

Veja a lista de povos e comunidades tradicionais:

  • Andirobeiras
  • Apanhadores de Sempre-vivas
  • Caatingueiros
  • Caiçaras
  • Castanheiras
  • Catadores de Mangaba
  • Ciganos
  • Cipozeiros
  • Extrativistas
  • Faxinalenses
  • Fundo e Fecho de Pasto
  • Geraizeiros
  • Ilhéus
  • Indígenas
  • Isqueiros
  • Morroquianos
  • Pantaneiros
  • Pescadores Artesanais
  • Piaçaveiros
  • Pomeranos
  • Povos de Terreiro
  • Quebradeiras de Coco Babaçu
  • Quilombolas
  • Retireiros
  • Ribeirinhos
  • Seringueiros
  • Vazanteiros
  • Veredeiros

Moeda poluente: uma transação de bitcoin é o equivalente a jogar dois iPhones no lixo (Yahoo! Finanças)

br.financas.yahoo.com

Redação Finanças – 20 de setembro de 2021


Woman using a smart phone displaying a bitcoin wallet screen.
A vida útil de dispositivos de mineração de bitcoin é limitada a 1,29 anos (Getty Image)
  • Criptomoeda foi apontada como uma das responsáveis pela poluição gerada no mundo digital
  • Tecnologia exigida pelas transações encurta vida útil de aparelhos
  • Em 2020 a rede de bitcoin processou 112,5 milhões de transações

Se engana quem pensa que moedas virtuais não geram lixo. Apesar de não existirem na versão física, as cédulas digitais podem ser tão poluentes quanto objetos que existem no mundo real. Uma única transação de bitcoin gera a mesma quantidade de lixo eletrônico que jogar dois iPhones no lixo, de acordo com uma análise feita por economistas do Banco Central holandês e do MIT.

O problema acontece devido à grande rotatividade de hardware de computador que a criptomoeda incentiva. Os chips de computador especializados são vendidos com o único propósito de executar os algoritmos que protegem a rede bitcoin, um processo chamado mineração, que recompensa aqueles que participam com pagamentos de bitcoin. 

Como apenas os chips mais novos são eficientes minerar de forma lucrativa, os ‘mineradores’ da criptomoeda precisam substituir constantemente seus equipamentos por outros mais novos e mais poderosos.

“A vida útil dos dispositivos de mineração de bitcoin permanece limitada a apenas 1,29 anos”, afirma os pesquisadores Alex de Vries e Christian Stoll em uma entrevista da para a revista Resources, Conservation and Recycling. “Como resultado, estimamos que toda a rede bitcoin atualmente utilize 30,7 quilos métricos de equipamentos por ano. Esse número é comparável à quantidade de pequenos resíduos de equipamentos de TI e telecomunicações produzidos por um país como a Holanda”.

Apenas no ano passado, a rede da criptomoeda processou 112,5 milhões de transações. Em cada uma delas, foi gerado o equivalente a 272g de lixo eletrônico. Essa quantidade de material é o equivalente ao peso de dois iPhone 12 minis.

This photographer-scientists collaboration shows the speed of climate change (MIT Technology Review)

technologyreview.com

Ian van Coller had scientists annotate his photos to show how climate change is warping geological time around the world.

Ian van Coller – June 30, 2021


Climate change is warping geological time, compressing the time scales of natural processes. In photographs taken around the world, Ian van Coller has documented these shifts, reflected in rocks, sediment, and the shrinking of glaciers. Van Coller collaborates with scientists who annotate his images, pointing out key geological features. He also uses historical photos to show changes, juxtaposing the black-and-white images taken by earlier expeditions with today’s landscapes; peaks once covered in snow are now bare rock.

Fairy Lake Mudcore
A mud core from Fairy Lake in Montana, superimposed against the surrounding mountains, reveals thousands of years of vegetative history. Geographer James Benes annotated the photo.
Quelccaya
Quelccaya Glacier in Peru, seen here in 2017, is receding. The foreground rocks show signs of glacial erosion and were likely still covered 10 years ago. Each layer in the ice represents a year’s worth of snow. Annotated by geographer Carsten Braun.
Rwenzori
A photograph taken in 2020 shows just how little is left of the glacier at Mount Stanley in Uganda. The photo from a 1906 expedition shows the glacier below Elena Peak; today what’s left is dirty ice, a sign the glacier will soon be gone. (Carsten Braun)
Mt Baker
At nearby Mount Baker, also in Uganda, the story is similar. Dotted lines are an attempt to estimate the ice seen in earlier expeditions on Semper Peak, which is now bare rock. There is no sign of what the 1906 photo labels Moore Glacier. (Carsten Braun)

How technology might finally start telling farmers things they didn’t already know (MIT Technology Review)

technologyreview.com

In the Salinas Valley, America’s “Salad Bowl,” startups selling machine learning and remote sensing are finding customers.

Rowan Moore Gerety – Dec. 18, 2020


As a machine operator for the robotics startup FarmWise, Diego Alcántar spends each day walking behind a hulking robot that resembles a driverless Zamboni, helping it learn to do the work of a 30-person weeding crew. 

On a Tuesday morning in September, I met Alcántar in a gigantic cauliflower field in the hills outside Santa Maria, at the southern end of the vast checkerboard of vegetable farms that line California’s central coast, running from Oxnard north to Salinas and Watsonville. Cooled by coastal mists rolling off the Pacific, the Salinas valley is sometimes called America’s Salad Bowl. Together with two adjacent counties to the south, the area around Salinas produces the vast majority of lettuce grown in the US during the summer months, along with most of the cauliflower, celery, and broccoli, and a good share of the berries. 

It was the kind of Goldilocks weather that the central coast is known for—warm but not hot, dry but not parched, with a gentle breeze gliding in from the coast. Nearby, a harvest crew in straw hats and long sleeves was making quick work of an inconceivable quantity of iceberg lettuce, stacking boxes 10 high on the backs of tractor-trailers lining a dirt road. 

In another three months, the same scene would unfold in the cauliflower field where Alcántar now stood, surrounded by tens of thousands of two- and three-leaf seedlings. First, though, it had to be weeded. 

The robot straddled a planted bed three rows wide with its wheels in adjacent furrows. Alcántar followed a few paces back, holding an iPad with touch-screen controls like a joystick’s. Under the hood, the robot’s cameras flashed constantly. Bursts of air, like the pistons in a whack-a-mole arcade game, guided sets of L-shaped blades in precise, short strokes between the cauliflower seedlings, scraping the soil to uproot tiny weeds and then parting every 12 inches so that only the cauliflower remained, unscathed.

Periodically, Alcántar stopped the machine and kneeled in the furrow, bending to examine a “kill”—spots where the robot’s array of cameras and blades had gone ever so slightly out of alignment and uprooted the seedling itself. Alcántar was averaging about an acre an hour, and only one kill out of every thousand plants. The kills often came in sets of twos and threes, marking spots where one wheel had crept out of the furrow and onto the bed itself, or where the blades had parted a fraction of a second too late.

Taking an iPhone out of his pocket, Alcántar pulled up a Slack channel called #field-de-bugging and sent a note to a colleague 150 miles away about five kills in a row, with a hypothesis about the cause (latency between camera and blade) and a time stamp so he could find the images and see what had gone wrong.

In this field, and many others like it, the ground had been prepared by a machine, the seedlings transplanted by a machine, and the pesticides and fertilizers applied by a machine. Irrigation crews still laid sprinkler pipe manually, and farmworkers would harvest this cauliflower crop when the time came, but it isn’t a stretch to think that one day, no person will ever lay a hand to the ground around these seedlings. 

Technology’s race to disrupt one of the planet’s oldest and largest occupations centers on the effort to imitate, and ultimately outdo, the extraordinary powers of two human body parts: the hand, able to use tweezers or hold a baby, catch or throw a football, cut lettuce or pluck a ripe strawberry with its calyx intact; and the eye, which is increasingly being challenged by a potent combination of cloud computing, digital imagery, and machine learning.

The term “ag tech” was coined at a conference in Salinas almost 15 years ago; boosters have been promising a surge of gadgets and software that would remake the farming industry for at least that long. And although ag tech startups have tended to have an easier time finding investors than customers, the boosters may finally be on to something. 

Ag tech boosters have been promising a surge of gadgets and software that would remake the farming industry for at least 15 years. They may finally be on to something. 

Silicon Valley is just over the hill from Salinas. But by the standards of the Grain Belt, the Salad Bowl is a relative backwater—worth about $10 billion a year, versus nearly $100 billion for commodity crops in the Midwest. Nobody trades lettuce futures like soybean futures; behemoths like Cargill and Conagra mostly stay away. But that’s why the “specialty crop” industry seemed to me like the best place to chart the evolution of precision farming: if tech’s tools can work along California’s central coast, on small plots with short growing cycles, then perhaps they really are ready to stage a broader takeover.

Alcántar, who is 28, was born in Mexico and came to the US as a five-year-old in 1997, walking across the Sonoran Desert into Arizona with his uncle and his younger sister. His parents, who are from the central Mexican state of Michoacán, were busily setting up the ingredients for a new life as farmworkers in Salinas, sleeping in a relative’s walk-in closet before renting a converted garage apartment. Alcántar spent the first year at home, watching TV and looking after his sister while his parents worked: there was a woman living in the main house who checked on them and kept them fed during the day, but no one who could drive them to elementary school.

workers harvest broccoli

Workers harvest broccoli as part of a joint project between NASA and the University of California.

In high school, Alcántar often worked as a field hand on the farm where his father had become a foreman. He cut and weeded lettuce, stacked strawberry boxes after the harvest, drove a forklift in the warehouse. But when he turned 22 and saw friends he’d grown up with getting their first jobs after college, he decided he needed a plan to move on from manual labor. He got a commercial driver’s license and went to work for a robotics startup. 

During this first stint, Alcántar recalls, relatives sometimes chided him for helping to accelerate a machine takeover in the fields, where stooped, sweaty work had cleared a path for his family’s upward mobility. “You’re taking our jobs away!” they’d say. 

Five years later, Alcántar says, the conversation has shifted completely. Even FarmWise has struggled to find people willing to “walk behind the machine,” he says. “People would rather work at a fast food restaurant. In-N-Out is paying $17.50 an hour.”


II

Even up close, all kinds of things can foul the “vision” of the computers that power automated systems like the ones FarmWise uses. It’s hard for a computer to tell, for instance, whether a contiguous splotch of green lettuce leaves represents a single healthy seedling or a “double,” where two seeds germinated next to one another and will therefore stunt each other’s growth. Agricultural fields are bright, hot, and dusty: hardly ideal conditions for keeping computers running smoothly. A wheel gets stuck in the mud and temporarily upends the algorithm’s sense of distance: the left tires have now spun a quarter-­turn more than the right tires. 

Other ways of digital seeing have their own challenges. For satellites, there’s cloud cover to contend with; for drones and planes, wind and vibration from the engines that keep them aloft. For all three, image-recognition software must take into account the shifting appearance of the same fields at different times of day as the sun moves across the sky. And there’s always a trade-off between resolution and price. Farmers have to pay for drones, planes, or any field machinery. Satellite imagery, which has historically been produced, paid for, and shared freely by public space agencies, has been limited to infrequent images with coarse resolution.

NASA launched the first satellite for agricultural imagery, known as Landsat, in 1972. Clouds and slow download speeds conspired to limit coverage of most of the world’s farmland to a handful of images a year of any given site, with pixels from 30 to 120 meters per side.

A half-dozen more iterations of Landsat followed through the 1980s and ’90s, but it was only in 1999, with the Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer, or MODIS, that a satellite could send farmers daily observations over most of the world’s land surface, albeit with a 250-meter pixel. As cameras and computing have improved side by side over the past 20 years, a parade of tech companies have become convinced there’s money to be made in providing insights derived from satellite and aircraft imagery, says Andy French, an expert in water conservation at the USDA’s Arid-Land Agricultural Research Center in Arizona. “They haven’t been successful,” he says. But as the frequency and resolution of satellite images both continue to increase, that could now change very quickly, he believes: “We’ve gone from Landsat going over our head every 16 days to having near-daily, one- to four-meter resolution.” 

“We’ve gone from Landsat going over our head every 16 days to having near-daily, one- to four-meter resolution.” 

Andy French

In 2014, Monsanto acquired a startup called the Climate Corporation, which billed itself as a “digital farming” company, for a billion dollars. “It was a bunch of Google guys who were experts in satellite imagery, saying ‘Can we make this useful to farmers?’” says Thad Simons, a longtime commodities executive who cofounded a venture capital firm called the Yield Lab. “That got everybody’s attention.” 

In the years since, Silicon Valley has sent forth a burst of venture-funded startups whose analytic and forecasting services rely on tools that can gather and process information autonomously or at a distance: not only imagery, but also things like soil sensors and moisture probes. “Once you see the conferences making more money than people actually doing work,” Simons says with a chuckle, “‘you know it’s a hot area.’’

A subset of these companies, like FarmWise, are working on something akin to hand-eye coordination, chasing the perennial goal of automating the most labor-intensive stages of fruit and vegetable farming—weeding and, above all, harvesting—against a backdrop of chronic farm labor shortages. But many others are focused exclusively on giving farmers better information. 

One way to understand farming is as a never­ending hedge against the uncertainties that affect the bottom line: weather, disease, the optimal dose and timing of fertilizer, pesticides, and irrigation, and huge fluctuations in price. Each one of these factors drives thousands of incremental decisions over the course of a season—decisions based on long years of trial and error, intuition, and hard-won expertise. So the tech question on farmers’ lips everywhere, as Andy French told me, is: “What are you telling us that we didn’t already know?”


III

Josh Ruiz, the vice president of ag operations for Church Brothers, which grows greens for the food service industry, manages more than a thousand separate blocks of farmland covering more than 20,000 acres. Affable, heavy-set, and easy to talk to, Ruiz is known across the industry as an early adopter who’s not afraid to experiment with new technology. Over the last few years, he has become a regular stop on the circuit that brings curious tech executives in Teslas down from San Francisco and Mountain View to stand in a lettuce field and ask questions about the farming business. “Trimble, Bosch, Amazon, Microsoft, Google—you name it, they’re all calling me,” Ruiz says. “You can get my attention real fast if you solve a problem for me, but what happens nine times out of 10 is the tech companies come to me and they solve a problem that wasn’t a problem.”

What everyone wants, in a word, is foresight. For more than a generation, the federal government has sheltered growers of corn, wheat, soybeans, and other commodities from the financial impact of pests and bad weather by offering subsidies to offset the cost of crop insurance and, in times of bountiful harvests, setting an artificial “floor” price at which the government steps in as a buyer of last resort. Fruits and vegetables do not enjoy the same protection: they account for less than 1% of the $25 billion the federal government spends on farm subsidies. As a result, the vegetable market is subject to wild variations based on weather and other only vaguely predictable factors.

Josh Ruiz with Big Red

Josh Ruiz, the vice president of ag operations at Church Brothers, a greens-growing concern, with “Big Red,” an automated broccoli harvester of his design.

When I visited Salinas, in September, the lettuce industry was in the midst of a banner week price-wise, with whole heads of iceberg and romaine earning shippers as much as $30 a box, or roughly $30,000 an acre. “Right now, you have the chance to lose a fortune and make it back,” Ruiz said as we stood at the edge of a field. The swings can be dramatic: a few weeks earlier, he explained, iceberg was selling for a fraction of that amount—$5 a box, about half what it costs to produce and harvest. 

In the next field over, rows of young iceberg lettuce seedlings were ribbed with streaks of tawny brown—the mark of the impatiens necrotic spot virus, or INSV, which has been wreaking havoc on Salinas lettuce since the mid-aughts. These were the early signs. Come back after a couple more weeks, Ruiz said, and half the plants will be dead: it won’t be worthwhile to harvest at all. As it was, that outcome would represent a $5,000 loss, based on the costs of land, plowing, planting, and inputs. If they decided to weed and harvest, that loss could easily double. Ruiz said he wouldn’t have known he was wasting $5,000 if he hadn’t decided to take me on a drive that day. Multiply that across more than 20,000 acres. Assuming a firm could reliably deliver that kind of advance knowledge about INSV, how much would it be worth to him? 

One firm trying to find out is an imagery and analytics startup called GeoVisual Analytics, based in Colorado, which is working to refine algorithms that can project likely yields a few weeks ahead of time. It’s a hard thing to model well. A head of lettuce typically sees more than half its growth in the last three weeks before harvest; if it stays in the field just a couple of days longer, it could be too tough or spindly to sell. Any model the company builds has to account for factors like that and more. A ball of iceberg watered at the wrong time swells to a loose bouquet. Supermarket carrots are starved of water to make them longer. 

When GeoVisual first got to Salinas, in 2017, “we came in promising the future, and then we didn’t deliver,” says Charles McGregor, its 27-year-old general manager. Ruiz, less charitably, calls their first season an “epic fail.” But he gives McGregor credit for sticking around. “They listened and they fixed it,” he says. He’s just not sure what he’s willing to pay for it.

“We came in promising the future, and then we didn’t deliver.”

Charles McGregor

As it stands, the way field men arrive at yield forecasts is decidedly analog. Some count out heads of lettuce pace by pace and then extrapolate by measuring their boots. Others use a 30-foot section of sprinkler pipe. There’s no way methods like these can match the scale of what a drone or an airplane might capture, but the results have the virtue of a format growers can easily process, and they’re usually off by no more than 25 to 50 boxes an acre, or about 3% to 5%. They’re also part of a farming operation’s baseline expenses: if the same employee spots a broken irrigation valve or an empty fertilizer tank and makes sure the weeding crew starts on time, then asking him to deliver a decent harvest forecast isn’t necessarily an extra cost. By contrast, the pricing of tech-driven forecasts tends to be uneven. Tech salespeople lowball the cost of service in order to get new customers and then, eventually, have to figure out how to make money on what they sell.

“At 10 bucks an acre, I’ll tell [GeoVisual] to fly the whole thing, but at $50 an acre, I have to worry about it,” Ruiz told me. “If it costs me a hundred thousand dollars a year for two years, and then I have that aha! moment, am I gonna get my two hundred thousand dollars back?”


IV

All digital sensing for agriculture is a form of measurement by proxy: a way to translate slices of the electromagnetic spectrum into understanding of biological processes that affect plants. Thermal infrared reflectance correlates with land surface temperature, which correlates with soil moisture and, therefore, the amount of water available to plants’ roots. Measuring reflected waves of green, red, and near-infrared light is one way to estimate canopy cover, which helps researchers track evapotranspiration—that is, how much water evaporates through a plant’s leaves, a process with clear links to plant health.

Improving these chains of extrapolation is a call and response between data generated by new generations of sensors and the software models that help us understand them. Before the launch of the EU’s first Sentinel satellite in 2014, for instance, researchers had some understanding of what synthetic aperture radar, which builds high-resolution images by simulating large antennas, could reveal about plant biomass, but they lacked enough real-world data to validate their models. In the American West, there’s abundant imagery to track the movement of water over irrigated fields, but no crop model sufficiently advanced to reliably help farmers decide when to “order” irrigation water from the Colorado River, which is usually done days ahead of time. 

As with any Big Data frontier, part of what’s driving the explosion of interest in ag tech is simply the availability of unprecedented quantities of data. For the first time, technology can deliver snapshots of every individual broccoli crown on a 1,000-acre parcel and show which fields are most likely to see incursions from the deer and wild boars that live in the hills above the Salinas Valley. 

The problem is that turning such a firehose of 1s and 0s into any kind of useful insight—producing, say, a text alert about the top five fields with signs of drought stress—requires a more sophisticated understanding of the farming business than many startups seem to have. As Paul Fleming, a longtime farming consultant in Salinas, put it, “We only want to know about the things that didn’t go the way they’re supposed to.”

“We only want to know about the things that didn’t go the way they’re supposed to.”

Paul Fleming

And that’s just the beginning. Retail shippers get paid for each head of cauliflower or bundle of kale they produce; processors, who sell pre-cut broccoli crowns or bags of salad mix, are typically paid by weight. Contract farmers, hired to grow a crop for someone else for a per-acre fee, might never learn whether a given harvest was a “good” or a “bad” one, representing a profit or a loss for the shipper that hired them. It’s often in a shipper’s interest to keep individual farmers in the dark about where they stand relative to their nearby competitors.

In Salinas, the challenge of making big data relevant to farm managers is also about consolidating the universe of information farms already collect—or, perhaps, don’t. Aaron Magenheim, who grew up in his family’s irrigation business and now runs a consultancy focused on farm technology, says the particulars of irrigation, fertilizer, crop rotations, or any number of variables that can influence harvest tend to get lost in the hubbub of the season, if they’re ever captured at all. “Everyone thinks farmers know how they grow, but the reality is they’re pulling it out of the air. They don’t track that down to the lot level,” he told me, using an industry term for an individual tract of farmland. As many as 40 or 50 lots might share the same well and fertilizer tank, with no precise way of accounting for the details. “When you’re applying fertilizer, the reality is it’s a guy opening a valve on a tank and running it for 10 minutes, and saying, ‘Well that looks okay.’ Did Juan block number 6 or number 2 because of a broken pipe? Did they write it down?” Magenheim says. “No! Because they have too many things to do.”

Then there are the maps. Compared with corn and soybean operations, where the same crops get planted year after year, or vineyards and orchards, where plantings may not change for more than a generation, growers of specialty crops deal with a never-ending jigsaw puzzle of romaine following celery following broccoli, with plantings that change size and shape according to the market, and cycles as short as 30 days from seed to harvest.

worker harvests celery crop

For many companies in Salinas, the man standing astride the gap between what happens in the field and the record-keeping needs of a modern farming business is a 50-year-old technology consultant named Paul Mariottini. Mariottini—who planned to become a general contractor until he got a computer at age 18 and, as he puts it, “immediately stopped sleeping”—runs a one-man operation out of his home in Hollister, with a flip phone and a suite of bespoke templates and plug-ins he writes for Microsoft Access and Excel. When I asked the growers I met how they handled this part of the business, the reply, to a person, was: “Oh, we use Paul.”

Mariottini’s clients include some of the largest produce companies in the world, but only one uses tablets so that field supervisors can record the acreage and variety of each planting, the type and date of fertilizer and pesticide applications, and other basic facts about the work they supervise while it’s taking place. The rest take notes on paper, or enter the information from memory at the end of the day. 

When I asked Mariottini whether anyone used software to link paper maps to the spreadsheets showing what got planted where, he chuckled and said, “I’ve been doing this for 20 years trying to make that happen.” He once programmed a PalmPilot; he calls one of his plug-ins “Close-Enough GPS.” “The tech industry would probably laugh at it, but the thing that the tech industry doesn’t understand is the people you’re working with,” he said.


V

The goal of automation in farming is best understood as all encompassing. The brief weeks of harvest consume a disproportionate share of the overall budget—as much as half the cost of growing some crops. But there are also efforts to optimize and minimize labor throughout the growing cycle. Strawberries are being grown with spray-on, biodegradable weed barriers that could eliminate the need to spread plastic sheeting over every bed. Automated tractors will soon be able to plow vegetable fields to a smoother surface than a human driver could, improving germination rates. Even as analytics companies race to deliver platforms that can track the health of an individual head of lettuce from seed to supermarket and optimize the order in which fields get harvested, other startups are developing new “tapered” varieties of lettuce—similar to romaine—with a compact silhouette and leaves that rest higher off the ground, in order that they might be more easily “seen” and cut by a robot.

Overall, though, the problems with the American food system aren’t about technology so much as law and politics. We’ve known for a long time that the herbicide Roundup is tied to increased cancer rates, yet it remains widely used. We’ve known for more than 100 years that the West is short on water, yet we continue to grow alfalfa in the desert, and use increasingly sophisticated drilling techniques in a kind of water arms race. These are not problems caused by a lack of technology.

On my last day in Salinas, I met a grower named Mark Mason just off Highway 101, which cuts the valley in two, and followed him to a nine-acre block of celery featuring a tidy tower of meteorological equipment in the center. The equipment is owned by NASA, part of a joint project with the University of California’s Agriculture and Natural Resources cooperative extension office, or UCANR.

Eight years ago, amid news of droughts and forest fires across the West, Mason felt a gnawing sense that he ought to be a more careful steward of the groundwater he uses to irrigate, even if the economics suggested otherwise. That led him to contact Michael Cahn, a researcher at UCANR.

Historically, water in Salinas has always been cheap and abundant: the downside of under-irrigating, or of using too little fertilizer, has always been far larger than the potential savings. “Growers want to sell product; efficient use is secondary. They won’t cut it close and risk quality,” Cahn said. The risk might even extend to losing a crop. 

Of late, though, nitrate contamination of drinking water, caused by heavy fertilizer use and linked to thyroid disease and some types of cancer, has become a major political issue in Salinas. The local water quality control board is currently developing a new standard that will limit the amount of nitrogen fertilizer growers can apply to their fields, and it’s expected to be finalized in 2021. As Cahn explained, “You can’t control nitrogen without controlling your irrigation water.” In the meantime, Mason and a handful of other growers are working with UCANR on a software platform called Crop Manage, designed to ingest weather and soil data and deliver customized recommendations on irrigation and fertilizer use for each crop.

Michael Cahn

Michael Cahn, a researcher at the University of California who’s developing software to optimize water and fertilizer use, at a water trial for artichokes.

Cahn says he expects technological advances in water management to follow a course similar to the one being set by the threat of tighter regulations on nitrogen fertilizer. In both cases, the business argument for a fix and the technology required to get there lie somewhere downstream of politics. Outrage over lack of access to clean groundwater brought forth a new regulatory mechanism, which unlocked the funding to figure out how to measure it, and which will, in turn, inform the management approaches farmers use. 

In the end, then, it’s political pressure that has created the conditions for science and technology to advance. For now, venture capital and federal research grants continue to provide an artificial boost for ag tech while its potential buyers—such as lettuce growers—continue to treat it with a degree of caution. 

But just as new regulations can reshape the cost-benefit analysis around nitrogen or water use from one day to the next, so too can a product that brings clear returns on investment. All the growers I spoke to spend precious time keeping tabs on the startup world: taking phone calls, buying and testing tech-powered services on a sliver of their farms, making suggestions on how to target analytics or tweak a farm-facing app. Why? To have a say in how the future unfolds, or at least to get close enough to see it coming. One day soon, someone will make a lot of money following a computer’s advice about how high to price lettuce, or when to spray for a novel pest, or which fields to harvest and which ones to abandon. When that happens, these farmers want to be the first to know. 

Ocean’s Largest Dead Zones Mapped by MIT Scientists (Eco Watch)

MIT scientists have generated an atlas of the world’s ocean dead zones.
Oxygen-deficient zones intensity across the eastern Pacific Ocean, where copper colors represent the locations of consistently lowest oxygen concentrations and deep teal indicates regions without sufficiently low dissolved oxygen. Jarek Kwiecinski and Andrew Babbin

By Olivia Rosane – Jan 26, 2022 12:11PM EST

When you think of the tropical Pacific, you might picture a rainbow of fish ribboning their way between pinnacles of coral, or large sea turtles swimming beneath diamonds of sunlight. But there are two mysterious zones in the Pacific Ocean where life like this cannot survive. 

That is because they are the two largest oxygen-deficient zones (ODZ) in the world, which means they are a no-go zone for most aerobic (oxygen-dependent) organisms. Two Massachusetts Institute of Technology (MIT) scientists recently succeeded in making the most detailed atlas to date of these important oceanic regions, revealing crucial new facts about them in the process. The new high-resolution atlas was described last month in the journal Global Biogeochemical Cycles

“We learned just how big these two zones in the Pacific are, reducing the uncertainty in the measurement, their horizontal extent, how much and where these zones are ventilated by oxygenated waters, and so much more,” Andrew Babbin told EcoWatch in an email. Babbin is one of the atlas’s two developers and Cecil and Ida Green Career Development Professor in MIT’s Department of Earth, Atmospheric and Planetary Sciences. “Being able to visualize in high resolution the low oxygen zones really is a necessary first step to fully understanding the processes and phenomena that lead to their emergence,” he said.

Natural Dead Zones

Oxygen-deficient zones can also be referred to as hypoxic zones or dead zones, as the National Oceanic and Atmospheric Administration explains. They can be caused by human activity, especially nutrient pollution. For example, the world’s second-largest dead zone is in the Gulf of Mexico, and is largely caused by the runoff of nitrogen and phosphorus from cities and factory farms.

The new atlas focuses on two naturally-occurring ODZs in the tropical Pacific, however. One is located off the coast of South America and measures about 600,000 cubic kilometers (approximately 143,948 cubic miles), or the equivalent of 240-billion Olympic swimming pools, MIT News reported. The second is around three times larger and located in the northern hemisphere, off the coast of Central America. 

Both natural and anthropogenic ODZs have something in common: too many nutrients. In the case of the Pacific ODZs, Babbin said, those nutrients build up because of wind patterns that push water offshore. 

“Deeper water then upwells to fill in this void, bringing higher nutrients to the surface,” Babbin told EcoWatch. “Those nutrients stimulate a massive amount of growth of phytoplankton, akin to how we fertilize crop lands and even our potted plants at home. When those phytoplankton then sink, heterotrophic bacteria act to decompose the organic material, consuming oxygen just like humans do to respire our food.” 

However, because of where these zones are located, it takes a long time for oxygen-rich waters to reach the area and replenish what the bacteria gobble up.

“In essence, the biological demand of oxygen outpaces the physical resupply,” Babbin concluded. 

While these specific zones aren’t caused by human pollution, understanding them is still important in the context of human activity. ODZs can emit the greenhouse gas nitrous oxide, and there is a concern that the climate crisis may cause them to expand.

“It’s broadly expected that the oceans will lose oxygen as the climate gets warmer. But the situation is more complicated in the tropics where there are large oxygen-deficient zones,” atlas co-developer Jarek Kwiecinski told MIT News. “It’s important to create a detailed map of these zones so we have a point of comparison for future change.”

A ‘Leap Forward’ 

The new atlas improves on previous attempts to measure the Pacific ODZs because of the amount of information it incorporates and the approach it took to measuring the oxygen content of the water. Instead of relying on direct measurements of the water’s oxygen content, the atlas designers looked for places in the water where the oxygen content did not change no matter the depth. They interpreted the lack of change as an absence of oxygen.

“This new approach, compiling tens of thousands of profiles and over 15 million individual measurements, is a leap forward in the representation of these climate critical regions,” Babbin and Kwiecinski wrote in Global Biogeochemical Cycles. 

The data Babbin and Kwiecinski used for the atlas was gathered by research cruisers and robotic floats over a period of more than 40 years, MIT News reported. Scientists have typically dropped bottles to various depths and measured the oxygen content of the water collected by the bottle. However, this measurement is not entirely accurate because the plastic from the bottle itself also contains oxygen. 

To avoid this problem, the team behind the atlas instead looked at data from sensors attached to the bottles or to robotic platforms, which allowed them to track oxygen content as the sensors descended through the water column. 

“This method then allows us to get around a bias that exists in the absolute data to only look at whether oxygen is increasing, decreasing, or staying the same,” Babbin said.

The result is a high-resolution atlas that maps the volume, shape and borders of the two ODZs, as well as places where the oxygen-deprived waters are thicker or thinner. They found that the lack of oxygen is more concentrated towards the middle, while more oxygen-rich waters enter towards the edges. 

Now that the atlas is complete, Babbin hopes to use it to plan more research in the area. Specifically, he intends to study the metabolism of the bacteria in the zones in order to better assess nitrous oxide pollution. But the atlas was not just designed to further one team’s research. 

“We hope the atlas will be used by everyone!” Babbin said. “We can anticipate oceanographers and climate scientists to use it to plan expeditions or relate some of their data to a broad atlas/compilation. We hope climate modelers might use it to validate their models that try to reproduce the extent of low oxygen in their models. We further think that this compilation will act as a comparison point against which future measurements can be compared to finally reveal how these zones respond in the face of a changing climate.”

If you are interested in checking it out, the atlas is available from the Biological and Chemical Oceanography Data Management Office (BCO-DMO), and the data can be downloaded from the Woods Hole Open Access Server.

Correction: A previous version of this article incorrectly stated that anaerobic organisms were oxygen-dependent. Aerobic organisms are oxygen-dependent. This page has been updated.

O que é racismo religioso. E qual seu efeito nas crianças (Nexo)

Iraci Falavina e Guilherme Gurgel

21 de jan de 2022 (atualizado 21/01/2022 às 20h39)

Pais que praticam religiões de matriz africana no Brasil relatam casos de preconceito, incluindo a perda da guarda de filhos sob a anuência da Justiça
Devotos do candomblé carregam cestas de flores em cerimônia religiosa, na Bahia
 DEVOTOS DO CANDOMBLÉ CARREGAM CESTAS DE FLORES EM CERIMÔNIA RELIGIOSA, NA BAHIA

Este conteúdo foi produzido pelos autores como trabalho final do Lab Nexo de Jornalismo Digital, que teve como tema “Primeira Infância e Desigualdades” e foi realizado no segundo semestre de 2021. O programa é uma iniciativa do Nexo Jornal em parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal e apoio da Porticus América Latina e do Insper.

Dados do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos apontam 645 registros de violações da liberdade de crença e religião no Brasil entre janeiro e dezembro de 2021, a maior parcela relacionada a religiões de matriz africana — incluindo Candomblé, Umbanda e outras. Levantamentos anteriores também refletem essa realidade.

INTOLERÂNCIA

Registros de violações de liberdade religiosa no Brasil, por gênero da vítima, de acordo com dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos

O preconceito que cerca quem pratica o Candomblé, a Umbanda, entre outras designações afro, integra o fenômeno do racismo religioso. Trata-se de um problema que, segundo especialistas, tem um impacto especialmente danoso para crianças.

Neste texto, o Nexo explica o que configura o racismo religioso, mostra o que a legislação prevê sobre o tema e traz relatos, que vão do preconceito no ambiente escolar a decisões judiciais que fazem com que filhos sejam separados dos pais.

O conceito e a legislação

A expressão “racismo religioso” não está no Código Penal, mas é algo que se enquadra na Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989, segundo o advogado especialista em crimes raciais Gilberto Silva.

Tal lei versa sobre crimes provocados por “discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”, com penas previstas de um a três anos de reclusão.

O termo “racismo religioso”, então, acaba sendo usado para reforçar um ponto central da sociedade brasileira: o racismo estrutural no Brasil.

Silva afirma que a lei ainda é vista por muitos como pouco eficiente e permissiva. Professor de história da África da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Alexandre Marcussi concorda que a punição ainda é ineficaz para os casos de racismo religioso. “A lei é extremamente leniente. Tem sido principalmente nos últimos anos no Brasil, com a ascensão ao poder e a influência de cultos religiosos pentecostais, que fazem ataques recorrentes a cultos de religiões africanas”, afirma.

“Se pode entender essas intolerâncias menos como intolerância contra as práticas dessas religiões e mais como uma intolerância às camadas da população que estão historicamente associadas a essas religiões” – Alexandre Marcussi, professor de história da África da UFMG

O Brasil viveu 300 anos de escravidão, período em que milhões de pessoas foram trazidas à força de regiões da África para serem usadas e negociadas como mercadoria. A cultura e a religião dessas pessoas sofreram um processo de tentativa de apagamento.

O artigo 5º da Constituição brasileira de 1824, por exemplo, instituiu o catolicismo como a religião oficial do Império. Já o artigo 276 do Código Criminal de 1830 proibia celebrar em casa, publicamente ou em templos “o culto de outra religião que não seja a do Estado”.

A abolição só foi proclamada em 1888 no Brasil e o Estado brasileiro só se tornou laico a partir de 1890, com o decreto nº 119-A, de 7 de janeiro daquele ano. A lei concedeu a todas as confissões religiosas “a faculdade de exercerem o seu culto, regerem-se segundo a sua fé e não serem contrariadas” e proibiu o Estado de definir uma religião oficial.

Mais tarde, na Constituição de 1988, conhecida como a Constituição Cidadã, o inciso 6 do Artigo 5º assegura ser inviolável a liberdade de crença e o livre exercício dos cultos religiosos.

Ainda assim, o preâmbulo da atual Carta Magna define a promulgação do documento “sob a proteção de Deus”, mostrando resquícios da ainda influente religião cristã no país.

“Ninguém se incomoda da mãe levar o filho para batizar no cristianismo quando é bebê. É uma cerimônia bonita, celebrada, lembrada. Agora, todo mundo incomoda com a iniciação das crianças no Candomblé e na Umbanda. Mesmo estando acompanhada de seus pais. Isso é o quê? Se não o racismo religioso?” – Makota Celinha, coordenadora geral do Cenarab (Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileira)

O racismo religioso na escola

As crianças de religiões de matriz africana sofrem preconceito na escola começando por suas brincadeiras, segundo Makota Kidoiale, líder da comunidade quilombola Manzo N’Gunzo Kaiango e coordenadora do programa Educa Quilombo, em Belo Horizonte.

“No primeiro ano de escola dos meus netos, eles iam para o parquinho e as brincadeiras deles eram muito diferentes do que a própria estrutura da escola foi programada para poder receber. Eles ficavam reproduzindo tudo aquilo que eles viviam dentro do terreiro”, conta.

Segundo Kidoiale, a administração da escola se incomodou com o comportamento das crianças. “Tinham medo de criar um problema com outras famílias, porque as outras crianças podiam reproduzir isso em casa. Eu questionei, porque da mesma forma que meu neto trazia outra cultura, outra tradição, outros conhecimentos para dentro da nossa casa, por que não transversalizar com tudo que ele vivenciava dentro da comunidade?”, afirma.

Em 2003 entrou em vigor a lei 10.639, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira no ensino fundamental e médio. Mas, para Kidoiale, a legislação não faz com que a temática tenha uma abordagem adequada na grade curricular. Ela acredita que o fato da educação brasileira ser muito baseada em princípios cristãos acaba por gerar uma exclusão da diversidade. “A escola não dá conta de trabalhar nem mesmo a história da população africana, quanto mais a religião.”

Segundo a psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus, da Abrapso (Associação Brasileira de Psicologia Social) e da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores Negros), o combate ao racismo religioso nas escolas é de responsabilidade dos profissionais de educação, dos pais e responsáveis.

“O desafio é que os adultos são formatados nessa sociedade racista, nessa sociedade que tenta formatar, principalmente em um contexto cristão, fundamentalista, crianças que não se enquadram em certos padrões até de roupa e de práticas, então isso é muito violento”.

O racismo religioso na Justiça

Além das diferentes violações de direitos de expressar ritos de matriz africana na escola, há casos em que os pais perdem a guarda das crianças por iniciá-los na religião.

Uma situação que ganhou grande destaque na mídia em 2021 foi a da manicure Kate Belintani, de Araçatuba (SP) que teve a guarda da filha — na época, com 11 anos — suspensa. Kate foi acusada de lesão corporal após raspar os cabelos da menina em um ritual religioso do Candomblé.

Outro caso, que chegou a ser citado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), é o da professora e jornalista Rosiane Rodrigues. Moradora de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro, ela conta que perdeu a guarda do filho em 2007 por causa do preconceito religioso, a partir de uma decisão judicial.

Marcus Rodrigues, chamado geralmente de Marquinhos, o mais novo dos três filhos de Rosiane, nasceu em 2004. No ano seguinte, ela se separou do pai da criança, Marcus Henriques, o que deu início a uma disputa sobre quantos dias cada um ficaria com o filho.

Em uma das audiências do processo, Rosiane estava “tomando obrigação de santo”, um costume religioso do Candomblé que determina o uso de roupas brancas, cabeça coberta e colar de contas. Ao ver a professora vestida dessa maneira, a juíza do caso determinou que o laudo psicológico da família fosse feito com urgência. Segundo Rosiane, “depois disso, a juíza concluiu que por eu ser do Candomblé eu tinha menos condições morais de criar o garoto do que o pai dele.”

Rosiane afirma que dois oficiais de Justiça foram retirar Marquinhos de casa acompanhados de um carro da polícia. No momento, o filho estava na escola, e Rosiane se recusou a informar a localização da criança. Ela foi levada para a delegacia.

Marquinhos foi inicialmente entregue ao pai. Mas depois de uma série de vaivéns que duraram quatro anos, Rosana conseguiu a guarda de volta. Ela então buscou auxílio do Nudem (Núcleo de Defesa da Mulher da Defensoria Pública). Três psicólogos e duas assistentes sociais trabalharam em um novo laudo psicossocial de Rosiane e seus filhos.

O garoto fez terapia com um psicólogo infantil durante um ano. “Logo que ele voltou para mim, que a gente consegue essa guarda provisória, ele volta muito assustado, com muito problema, com muito transtorno, uma criança muito agressiva”, conta Rosiane, que chegou a registrar um boletim de ocorrência contra o ex-marido por agressões ao filho.

O caso foi citado no relatório “Direito a uma vida livre de violência”, publicado em 2013 pela Secretaria Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos em parceria com a Unesco como um caso emblemático de intolerância religiosa no Brasil.

Os efeitos do racismo religioso nas crianças

“As crianças não sabem que estão sofrendo intolerância, não têm o discernimento, a capacidade de entender o racismo. Há uma vulnerabilidade de quem não consegue se defender”, ressalta Makota Celinha, do Cenarab.

Para a líder quilombola Makota Kidoiale, um dos passos importantes para lidar com o choque de tradições é ouvir o que as crianças vivenciam. “A gente vai direcionando tudo que elas descobriram lá fora a um determinado lugar da comunidade”, diz.

“Por exemplo, se elas aprendem na escola sobre as folhas, a fase da vegetação, do plantio, aqui a gente acrescenta: ‘essa aula está relacionada a Oxossi, que é deus das folhas, das plantas. E é delas também que a gente tira os remédios’. A gente faz um complemento do que elas aprenderam”, exemplifica.

Nos casos em que o racismo religioso é mais explícito, é difícil conseguir a garantia do bem-estar da criança. “A gente mostra que existem as diferenças das religiões e cada um tem um conceito, e que infelizmente o nosso direito de falar sobre nós é muito recente, então as pessoas poucos sabem sobre nós. Mas às vezes é muito difícil, muito violento. Violento de pegar e pôr pra fora, fazer chacota quando estão vestidas com as contas, ou de branco, as pessoas olham assustadas para eles”, diz Kidoiale.

A psicóloga Jaqueline Gomes de Jesus afirma que crianças que crescem em ambientes de discriminação religiosa se tornam adultos intolerantes, tornando a violência uma marca que molda a personalidade.

“A gente tem que lutar para que os profissionais de educação, de saúde, os que cuidam das crianças, permitam que elas sejam quem elas são, para que não gerem esses traumas que ficam para o resto da vida”, diz.

De acordo com o psicólogo Flávio Prata, pesquisador da área, é importante que a criança tenha um ambiente seguro. “Não há como dimensionar os efeitos do racismo especificamente, mas a influência está nos mecanismos que a criança encontra para lidar com essa discriminação”, afirma.

Everyday objects can run artificial intelligence programs (Science)

science.org

Nontraditional hardware could help neural networks operate faster and more efficiently than computer chips

Matthew Hutson – 26 Jan 2022 11:00 AM

The computational layers inside a neural network could be powered by any number of physical systems, researchers say. Philipp Jordan

Imagine using any object around you—a frying pan, a glass paperweight—as the central processor in a neural network, a type of artificial intelligence that loosely mimics the brain to perform complex tasks. That’s the promise of new research that, in theory, could be used to recognize images or speech faster and more efficiently than computer programs that rely on silicon microchips.

“Everything can be a computer,” says Logan Wright, a physicist at Cornell University who co-led the study. “We’re just finding a way to make the hardware physics do what we want.”

Current neural networks usually operate on graphical processing chips. The largest ones perform millions or billions of calculations just to, say, make a chess move or compose a word of prose. Even on specialized chips, that can take lots of time and electricity. But Wright and his colleagues realized physical objects also compute in a passive way, merely by responding to stimuli. Canyons, for example, add echoes to voices without the use of soundboards.

To demonstrate the concept, the researchers built neural networks in three types of physical systems, which each contained up to five processing layers. In each layer of a mechanical system, they used a speaker to vibrate a small metal plate and recorded its output using a microphone. In an optical system, they passed light through crystals. And in an analog-electronic system, they ran current through tiny circuits.

In each case, the researchers encoded input data, such as unlabeled images, in sound, light, or voltage. For each processing layer, they also encoded numerical parameters telling the physical system how to manipulate the data. To train the system, they adjusted the parameters to reduce errors between the system’s predicted image labels and the actual labels.

In one task, they trained the systems, which they call physical neural networks (PNNs), to recognize handwritten digits. In another, the PNNs recognized seven vowel sounds. Accuracy on these tasks ranged from 87% to 97%, they report in this week’s issue of Nature. In the future, Wright says, researchers might tune a system not by digitally tweaking its input parameters, but by adjusting the physical objects—warping the metal plate, say.

Lenka Zdeborová, a physicist and computer scientist at the Swiss Federal Institute of Technology Lausanne who was not involved in the work, says the study is “exciting,” although she would like to see demonstrations on more difficult tasks.

“They did a good job of demonstrating the idea in different contexts,” adds Damien Querlioz, a physicist at CNRS, the French national research agency. “I think it’s going to be quite influential.”

Wright is most excited about PNNs’ potential as smart sensors that can perform computation on the fly. A microscope’s optics might help detect cancerous cells before the light even hits a digital sensor, or a smartphone’s microphone membrane might listen for wake words. These “are applications in which you really don’t think about them as performing a machine-learning computation,” he says, but instead as being “functional machines.”

População de moradores de rua cresce 31% em São Paulo na pandemia (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Segundo censo, quantidade só de famílias sem-teto quase dobrou em relação a 2019

Isabela Palhares – 23 de janeiro de 2022


O número de pessoas que vivem nas ruas de São Paulo cresceu 31% durante a pandemia de Covid-19. Em 2021, segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), havia 31.884 pessoas sem-teto na cidade, são 7.540 a mais do que o registrado em 2019, quando eram 24.344 nessa situação.

Em relação a 2015, quando havia 15.905 moradores de rua, o número dobrou.

Os dados foram obtidos pela Folha com exclusividade e fazem parte do censo da população de rua encomendado pela prefeitura.

O levantamento, feito entre outubro e dezembro de 2021, ainda indica uma mudança do perfil daqueles que não têm um lar. O número de famílias que foram morar nas ruas quase dobrou durante a pandemia.

Dos 31.884 moradores de rua, 28% afirmaram viver com ao menos um familiar, somando 8.927 pessoas. Em 2019, esse percentual era de 20%, alcançando 4.868.

A quantidade de pessoas que preferem ocupar as ruas em vez dos abrigos também aumentou. Em 2019, 52% da população abordada pelos pesquisadores preferia as calçadas aos centros de acolhimento, em 2021, esse percentual subiu para 60%.

​”A crise econômica se agravou, o desemprego disparou, a inflação subiu e, nesse período, a política pública da prefeitura para essa população continuou a mesma. Os centros de acolhida não são pensados para as demandas de quem vive na rua”, diz o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua.

Carlos Bezerra, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social do município, reconhece a necessidade de reestruturação do sistema de acolhimento na cidade. Ele disse que a pasta pretende ampliar o número de centros para diversificar o perfil dos serviços e anunciou um programa que vai oferecer moradias temporárias para famílias em situação de rua.

“Quanto mais tempo a pessoa passa na rua, menores são as chances de conseguir recuperar a autonomia. Precisamos agir rápido para quebrar essa trajetória triste que começou na pandemia”, disse. O programa prevê a construção de casas de 18 m² destinadas a famílias que estão na rua, elas poderão ficar nas moradias temporárias por até 12 meses.

Fábio de Mello, 41, e Ângela Santos, 32, estão juntos há seis anos e foram despejados da casa onde moravam, na zona leste, no ano passado. Já são mais de dez meses vivendo nas ruas do centro de São Paulo e nunca recorreram aos abrigos.

“A gente enfrenta frio, chuva, calor, medo de ser roubado ou agredido, mas não vai para abrigo. Não vamos nos separar para ir a um lugar que somos ainda mais humilhados e corremos mais risco”, diz Mello.

Ele e a mulher vendem balas no semáforo e procuram bicos para se alimentar. “Ninguém dá emprego para quem não tem endereço. E sem emprego, eu nunca vou conseguir uma casa. Entramos numa situação que não tem saída.”

Ainda de acordo com o censo, houve aumento de 230% do número de barracas de camping e de barracos de madeira instalados em vias públicas como moradias improvisadas. Em 2019, o censo encontrou 2.051 pontos desse tipo. Em 2021, foram localizados 6.778.

Segundo especialistas, moradias improvisadas são normalmente ocupadas por famílias ou pessoas que foram para as ruas recentemente e, por isso, buscam formas de manter a privacidade e aumentar a sensação de segurança.

“Desde o início da pandemia, a gente já observava não só um aumento da população de rua, mas também essa mudança de perfil. Já era possível identificar que grupos mais vulneráveis, como mulheres, famílias e idosos, tiveram que ir morar nas ruas”, diz Juliana Reimberg, pesquisadora do CEM (Centro de Estudos da Metrópole), da USP.

É o caso de Rosângela dos Santos, 40, que vive nas ruas do centro com o pai, de 60 anos, e o filho, de 12. “As pessoas humilham, mandam a gente ir trabalhar, parar de ser vagabundo. Mas quem dá uma oportunidade? Ninguém me chama para trabalhar”, diz.

Ela diz que às vezes é chamada para fazer faxina em lojas ou casas da região, que pagam de R$ 30 a R$ 50 pelo serviço. “Ajuda muito, mas é um dinheiro que acaba rapidinho. Compro uma comida melhor para o meu menino ou uma roupa do tamanho dele e, pronto, acabou.”

Reimberg diz que há anos estudos nacionais e internacionais mostram que políticas eficientes para a população de rua não são aquelas que se concentram apenas em centros de acolhida, mas em ações para que as pessoas consigam deixar a situação, como acesso a emprego e moradia.

“A demanda dessa população não é por centro de acolhimento, mas sim por moradia. Sem um lugar para morar, essas pessoas não conseguem romper o ciclo porque não encontram emprego. A política de abrigamento não é solução”, diz a pesquisadora.

O censo perguntou aos moradores de rua o que os ajudaria a deixar a situação. Dos entrevistados, 45,7% disseram que seria encontrar um emprego fixo, e 23,1%, ter uma moradia permanente. Outros 8,1% declararam que seria retornar à casa de familiares e 6,7% responderam que seria superar a dependência de álcool e outras drogas.

Conseguir um emprego é o sonho de Bruna Felix, 23, desde que chegou a São Paulo no início do ano passado. Ela saiu de Paranaíba, no Mato Grosso do Sul, com a esperança de que a capital paulista teria mais oportunidades de emprego, o que não aconteceu.

“Cheguei aqui e não encontrei nada. O dinheiro foi acabando e eu não tive escolha, não tinha para onde ir e acabei ficando na rua”, conta. Nas ruas, conheceu Rodrigo Pereira, 38, que vive nas calçadas de São Paulo há mais de três anos.

O casal mora junto em uma barraca na praça do Correio, no centro da cidade. “Sonho em encontrar um lugar para morar em paz com a minha mulher, mas todo dia acordo e vejo que o mais urgente é resolver o que fazer para conseguir comer”, diz Pereira.

Quem acompanha a situação dos moradores de rua na cidade diz que o dado apontado pelo censo está subestimado, o que pode levar a elaboração de políticas públicas ineficazes.

A empresa Qualitest, contratada para fazer o censo, fez um relatório em que apontava uma série de dificuldades para abordar os sem-teto. O contrato custou R$ 1,7 milhão aos cofres municipais.

“Esse número é subestimado pela total inadequação com a qual foi feito esse censo. E a prefeitura foi alertada dos problemas metodológicos. Um número subestimado vai resultar, mais uma vez, em políticas públicas insuficientes e equivocadas, que não respondem quantitativamente nem qualitativamente às demandas da população de rua”, diz padre Julio Lancellotti.

O secretário Bezerra rejeita as críticas ao censo e diz que a metodologia utilizada é a única forma para se chegar ao número e perfil da população de rua. “Olhando apenas para os novos moradores de rua, são mais de 8.000, é mais do que toda a população de 70% dos municípios do interior paulista. Essa comparação nos mostra o tamanho do desafio que temos pela frente, o censo nos ajuda a desenhar políticas de forma célere, efetiva e com impacto”, diz.

Desde o início da pandemia é visível o aumento da população de rua principalmente na região central da cidade, onde há maior concentração de sem-teto pela facilidade de acesso a doações e equipamentos públicos. Por conta do crescimento, a prefeitura antecipou a realização do censo, que antes era feito a cada quatro anos.


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Relatório do censo da população de rua aponta dificuldade nas abordagens

Mariana Zylberkan – 3 de dezembro de 2021


A empresa contratada pela Prefeitura de São Paulo para atualizar o censo da população de rua elaborou um relatório preliminar em que cita uma série de dificuldades para abordar os sem-teto, o que pode comprometer a dimensão real de quantas pessoas vivem nas ruas da capital atualmente.

De acordo com o documento enviado à Secretaria de Assistência Social no dia 9 de novembro, e obtido com exclusividade pela Folha, as equipes de abordagem relataram situações de risco em áreas onde há concentração de usuários de drogas e até dificuldade em acessar barracas em trilhas no matagal.

Nesses casos, a contagem de pessoas foi feita de forma visual ou a partir de relatos de pessoas no entorno, como comerciantes, ambulantes e outros sem-teto, segundo o documento.

Na avenida Cruzeiro do Sul, no bairro de Santana, na zona norte, as equipes foram hostilizadas por um “pai de rua” que estava com sete crianças. Diante da situação, as respostas do questionário foram preenchidas “por observação”, segundo o relatório.

Na zona leste, em Guaianases, a presença de cachorros nas barracas afugentou as equipes. Na avenida Nordestina, em São Miguel Paulista, os recenseadores foram impedidos de entrar em uma trilha que dá acesso a oito barracas montadas no matagal.

Desde o início da pandemia é visível o aumento da população de rua principalmente na região central da cidade, onde há maior concentração de sem-teto pela facilidade de acesso a doações e equipamentos públicos.

Segundo cálculos informais do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral da Rua, vivem nas ruas da capital paulista, atualmente, 35 mil pessoas, número 40% maior do que o apontado pelo último censo, divulgado em 2019, quando havia 25 mil.

O número oficial só será divulgado após a avaliação da contagem dos sem-teto e a elaboração do perfil socioeconômico dessa população, o que tem previsão de ser concluído na terceira semana de dezembro. O contrato com a empresa Qualitest Ciência e Tecnologia foi assinado em setembro por R$ 1,7 milhão.

Previsto para ser entregue no último dia 24, o relatório preliminar com a análise do assunto está atrasado, assim como a entrega do relatório completo, prevista para o último dia 29.

Em nota, a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) afirmou que o cronograma de entrega está dentro dos prazos contratuais, “que sofreram alterações somente pontuais, exclusivamente em razão do calendário de feriados e do início da temporada de chuvas na cidade”.

Diante do aumento da população de rua durante a pandemia, a prefeitura contratou recentemente uma empresa para fazer o censo de crianças e adolescentes em situação de rua, levantamento inédito na capital paulista.

A metodologia usada no censo dos sem-teto, porém, é questionada por líderes de movimentos sociais ligados à população de rua, como o padre Lancellotti. “Muita gente é contada só visivelmente. Encontrei várias pessoas que não foram abordadas pelas equipes”, diz.

Ele também chama a atenção para o período em que as abordagens são feitas, sempre depois das 22h. “As pessoas dormem nesse horário e não querem abrir a barraca para responder às perguntas”, diz o padre.

Trechos no relatório preliminar confirmam registros de pessoas em situação de rua que se recusaram a sair das barracas ou das malocas para receber as equipes. Nesses casos, a contagem é feita a partir de relatos de pessoas do entorno, segundo o documento.

Na cracolândia, ponto de concentração de usuários de drogas na região central, por exemplo, a contagem foi feita de forma visual depois que a equipe recebeu ameaças de um traficante que reclamou de não ter sido avisado sobre a visita dos pesquisadores.

As falhas também são criticadas por Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo. Segundo ele, o censo não reflete a realidade. “Há pessoas que vivem em buracos dentro de viadutos que não são abordadas pelas equipes”, diz.

Em nota, a Smads afirmou que o trabalho de campo dos recenseadores obedece a critérios e metodologia científicos. “As equipes recebem treinamento e, de modo geral, têm experiência anterior de trabalho com população de rua.”

Após fazer a contagem dos sem-teto, os recenseadores têm que voltar às ruas e abrigos para fazer a pesquisa socioeconômica que consiste em cerca de 80 perguntas. A lista inclui questões sobre o local onde a pessoa costuma dormir e se alimentar, o grau de escolaridade e até se tem dependência de álcool ou drogas.

Conheça a rotina de quem vive em barracas nas ruas de São Paulo (Folha de S.Paulo)

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Número de moradias improvisadas cresceu 230% de 2019 para 2021, segundo prefeitura

Paulo Eduardo Dias – 26 de janeiro de 2022


Nos últimos anos, as barracas de camping se multiplicaram nas ruas de São Paulo. Segundo censo divulgado pela prefeitura no último dia 23, em 2021, havia 6.778 pontos na cidade com barracas de camping e barracos de madeira sendo utilizados como moradia improvisada. Em 2019, eram 2.051.

Antes do anúncio, no início do mês, a Folha percorreu a região central para ouvir os relatos de sem-teto sobre como é viver nessas barracas, sobretudo em época de chuvas.

“Isso representa a precariedade da situação da população em situação de rua”, afirma o psicanalista e professor da PUC-SP, Jorge Broide, que trabalha com a população de rua há mais de quatro décadas. “Acho muito triste, uma coisa que era utilizada como lazer por outra classe social, inclusive, torna-se agora uma precaríssima moradia.”

Em nota, a prefeitura disse que as barracas são “usadas pela população em situação de rua em São Paulo e outras cidades do Brasil e do mundo”.

Vivendo na praça da Sé há um ano, na altura do monumento de concreto que simboliza o Marco Zero, o casal Patrick Gomes Gonçalves, 32 anos, e Luisa Figueroa, 52, arrumava seu lar quando a reportagem da Folha chegou.

Eram por volta de 14h30 do último dia 4 quando a dupla se apressava em colocar lonas pretas por cima da barraca verde oliva, numa tonalidade igualmente usada na farda do Exército. Naquele momento já chovia na capital. A pressa era por dois motivos: evitar que a água infiltrasse tanto por cima como por baixo.

Após o término dos trabalhos, Luisa, ainda sob chuva, contou ser venezuelana. Com o desemprego em seu país, a técnica em veterinária decidiu buscar oportunidades no Brasil.

Há dois anos em São Paulo, disse que morava no Grajaú, na zona sul, com seu companheiro, que é pintor. Com ambos sem emprego e sem fonte de renda, ela contou ter se tornado inviável pagar o aluguel.

Na praça da Sé há um ano, Luisa afirmou que busca voltar a trabalhar na área em que se especializou. “Coloco currículo virtual, físico, mas nunca me chamam.”

Para sobreviver, ela vende água e café pelas ruas do centro, porém com o que ganha dá apenas para eles se alimentarem. Mesmo com a situação em que vivem, a venezuelana não se queixa da vida, mas dos ratos que proliferam à noite pela Sé e, às vezes, procuram comida dentro das barracas.

Poucos passos adiante, no sentido da Catedral, estava a barraca da desempregada Isabela Letícia Lopes, 25. Ela relatou estar há cerca de um mês na praça, após deixar Itu, no interior paulista. Segundo ela, que mora com o marido, a vida do casal mudou depois de ele perder o emprego de tatuador.

“Colocamos lona para proteger o cobertor, a roupa. A gente tem que colocar lona por cima e por baixo. A gente coloca em cima para fugir da chuva e no chão porque escorre água”, disse ela sobre a rotina para se proteger das chuvas de verão.

“Nunca tinha morado em uma barraca. Morava em casa ou abrigo. É diferente. É horrível, por ser apertado. Quando chove muito a gente não sabe se vai alagar, as barracas são frágeis.”

Outros moradores de rua, porém, não têm condições de adquirir uma barraca ou não tiveram a sorte ainda de receber uma como doação. Com isso, se viram como podem para se abrigar da chuva ou do sol.

Esse é o caso de Carlos Alexandre, 34. Ele está há quatro meses em São Paulo, após ter saído do Rio de Janeiro em razão de brigas familiares. Na hora da chuva, estava abrigado em uma marquise na praça do Patriarca.

“[Na hora da chuva] é procurar uma marquise. Mas o problema maior é o vento, que leva tudo”, disse, para, logo na sequência, perguntar ao repórter se não tinha como conseguir uma barraca para ele.

Em outra praça da região central, a da República, havia uma barraca prateada, bem diferente das demais vistas pela reportagem. O abrigo, segundo seu proprietário, o carroceiro André Paulo, 46, custou R$ 1.000, é impermeável, e com espaço suficiente para abrigar ele, a esposa e seus cães.

“Se eu não tivesse a barraca, eu estava na roça. A barraca é impermeável, mas sempre uso lona para proteger os cachorros”, disse Paulo. Ele afirmou morar ali há um ano.

Enquanto ele falava com a reportagem, Vilma Alves de Souza, 62, aproximou-se para se queixar de que a chuva havia molhado os pertences dela. Com uma barraca mais simples, ela não estava no local no momento do temporal.

“Minhas roupas estão todas molhadas. Eu estava no hospital, quando cheguei, estava toda molhada”, disse Vilma.

Durante a conversa, contou que passou a viver nas ruas após ser acometida por uma depressão, causada pela morte do marido, que, segundo ela, foi assassinado a tiros há três anos no Butantã, na zona oeste. “Não bebo, não fumo, não me drogo. Depois que mataram meu esposo, passei a morar na rua. Ele estava lavando o carro quando foi baleado.”

Em outro ponto da cidade, na avenida Paulista, o desempregado Almir Evangelista dos Santos, 62, contou ter comprado a sua barraca de um conhecido, após juntar R$ 400 obtidos com o auxílio emergencial. Ele disse viver há cinco meses em frente ao parque Tenente Siqueira Campos, o Trianon.

Santos afirmou que buscou a avenida pela visibilidade, na esperança de que alguém o ajudasse a conseguir uma fonte de renda. “Eu morava em uma pensão em Santana, mas achava muito monótono. O bom era o banho quente e carregar o celular. Eu quero uma coisa melhor, uma pessoa que me veja e possa me arrumar um trabalho.”

O relógio já marcava quase 18h quando o desempregado José Júlio Cesar Rosa, 33, estendeu suas roupas na proteção de ferro que separa a calçada da avenida Paulista. Mesmo com a lona colocada sobre a barraca, a chuva acumulada por dois dias foi mais forte do que a proteção que serve como telhado de sua moradia, no cruzamento com a rua Teixeira da Silva.

“A chuva foi muito forte. Molhou tudo. Mesmo com a lona não teve jeito, também infiltrou por baixo”, disse. Segundo ele, a solução seria colocar paletes no piso para erguer a barraca, mas não era uma tarefa fácil localizar os objetos de madeira sem desembolsar algum valor.

Além da chuva, Rosa, que vive nas ruas há 12 anos, queixou-se do sol, que torna sua moradia um forno. “A lona deixa muito abafado, quente, não tem ventilação. Mas é minha casa, tem colchão, minha coberta. É como se fosse meu quarto.”

Com a esposa grávida de três meses, sua vontade é juntar suas coisas, superar as desavenças com a família e voltar para os braços da mãe, que mora em Guaratinguetá, no interior paulista.

“Evidente que tem uma questão econômica, tem uma questão social, tem uma crise generalizada, mas também é necessário se buscar novas soluções, novas ações, novas políticas públicas, para enfrentar essas problemáticas”, disse Jorge Broide sobre o aumento na quantidade de moradores de rua e de suas barracas na cidade.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, informou que “mantém uma rede de atendimento socioassistencial voltada às pessoas em situação de rua e trabalha na criação e aprimoramento de políticas públicas em concordância com o Sistema Único de Assistência Social”.

Lideranças indígenas estão sob ataque em grupos de WhatsApp (Folha de S.Paulo)

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Monitoramento mostra que desinformação e mentiras servem como estratégia para enfraquecer pautas como a demarcação de terras

Fernanda Bassette – 26 de janeiro de 2022


Embaixo de uma das tendas instaladas em Brasília, no maior acampamento indígena da história da democracia brasileira, em setembro de 2021, o cacique Agnelo Xavante, 52, da Terra Indígena Etewawe (MT), assumiu o microfone e, por um momento, parou a mobilização.

Visivelmente consternado, o líder pediu a atenção dos quase 6.000 indígenas presentes. Ele precisava desmentir um vídeo compartilhado em grupos de WhatsApp que prejudicava todos ali.

A postagem tinha alcançado grupos indígenas de todo o país no aplicativo, disse Agnelo. Mas não só. O conteúdo já circulava em outros grupos públicos no Amazonas no WhatsApp, cujos interesses vão de política à religião, monitorados desde agosto pelo projeto Amazonas – Mentira tem Preço, do InfoAmazonia e da produtora FALA.

“O vídeo chegou em muitos grupos de WhatsApp. Aquilo doeu na gente. Você sabe o que são 320 aldeias xavantes irritadas? Isso nunca tinha acontecido. Eu, guerreiro do povo Xavante, não podia ouvir e ficar calado”, lembra.

Agnelo disparou um novo vídeo em suas redes de contato, desmentindo o anterior, que acusava, sem provas, a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) de usar recursos do acampamento para outros fins.

A mobilização aconteceu durante a apreciação do marco temporal no STF (Supremo Tribunal Federal), uma tese jurídica que defende que indígenas só têm direito à terra se nela estivessem em 1988.

“A demarcação de terras indígenas não interessa a muitos, por isso gravam esses vídeos mentirosos. Nosso confronto e a nossa divisão é tudo o que eles querem”, diz Agnelo. O julgamento foi suspenso após um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, que queria mais tempo para analisar o caso.

Enquanto Agnelo gravava o vídeo, a cacica Eronilde Fermin Omágua, do povo Kambeba de São Paulo de Olivença (AM), que também estava na mobilização nacional, precisou se defender de mensagens de ódio compartilhadas pelas redes.

“Uma pessoa jogou dois áudios contra mim num grupo de WhatsApp que possui mais de 300 mulheres do Amazonas, dizendo que eu não estava lutando pelos direitos coletivos, que não era comprometida com a causa e que não representava o meu povo”, recorda.

“Deixei de ser vista como uma lutadora e virei uma vilã. Sou atacada dia e noite e isso já adoeceu minha família.” Eronilde diz não conhecer a mulher indígena que a acusou.

Quem não estava em Brasília também foi alvo de ataques. Enquanto Milena Mura, liderança do povo Mura (Amazonas), e outras 400 pessoas, de 17 comunidades, protestavam contra a tese do marco temporal na rodovia estadual M254, que liga Manaus a Porto Velho, histórias distorcidas foram compartilhadas.

“Começaram a espalhar que estávamos em busca de briga política, que queríamos causar arruaça e que estávamos prejudicando o comércio e a saúde, por causa da pandemia de Covid-19”, diz.

“Com isso, até mesmo outras aldeias começaram a atacar nossa organização, questionando os objetivos do nosso movimento.”

Segundo Milena, o Conselho Indígena Mura teve de convocar uma reunião extraordinária e reunir lideranças de 34 aldeias para desmentir as notícias falsas.

Para Denise Dora, diretora-executiva da organização Artigo 19 no Brasil e na América do Sul, “a desinformação é uma estratégia”.

“No caso dos povos indígenas, ocorre para ter acesso à terra, aos recursos naturais e às áreas que são constitucionalmente protegidas por serem públicas e por respeitarem a histórica presença dos indígenas”, afirma.

Nos onze grupos públicos do Amazonas monitorados pela reportagem, histórias atacando a mobilização contra a tese do marco temporal também foram compartilhadas. Uma delas, por exemplo, creditava genericamente os protestos a ONGs e partidos de esquerda.

Leda Gitahy, professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e uma das coordenadoras do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais, diz que existe um ecossistema que cuidadosamente organiza estratégias de desinformação e de propaganda política para dividir as comunidades.

“O problema é o mesmo no país inteiro. A lógica que está por trás disso é soltar mensagens de difusão rápida e articulada para causar confusão e dúvida”, afirma.

“A estratégia das mentiras compartilhadas em grupos de WhatsApp é fazer os indígenas brigarem dentro do seu povo para desestruturar o movimento.”

Relatórios do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da Apib destacam que 2020 ficou marcado pelo alto número de mortes de indígenas ocorridas em decorrência da má gestão do enfrentamento à pandemia no Brasil, pautada pela desinformação e pela negligência do governo.

“O governo federal é o principal agente transmissor do vírus entre os povos indígenas”, diz o documento da Apib.

“As fake news diziam que a vacina era do diabo, que vem com um chip implantado, de um tudo que era para que as pessoas não tomassem. E tivemos resistência dentro do território: em uma calha [área no rio] onde há mais de mil pessoas só 160 quiseram tomar a vacina naquele momento”, contou o presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), no Amazonas, Marivaldo Baré.

Segundo ele, o governo federal não promoveu nenhuma campanha de informação sobre a vacina para combater a estratégia de desinformação que atingiu as aldeias do Alto Rio Negro. Pelo contrário, a descrença pública do presidente sobre as vacinas ajudou a piorar a situação.

“Tivemos que trabalhar muito para produzir, por nossa conta, áudios e cartilhas falando sobre a importância da vacinação e da prevenção para evitar contaminação.”

O Ministério da Saúde foi procurado, via assessoria de imprensa, para comentar os aspectos mencionados pela Apib e pela Foirn, mas não se manifestou até a publicação da reportagem.

A auxiliar de enfermagem indígena Vanda Ortega Witoto foi vítima de difamação e racismo em grupos públicos de WhatsApp e nas redes sociais após ser a primeira pessoa do Amazonas a ser vacinada contra a Covid, em janeiro de 2021.

“Diziam que eu era uma ‘índia fake’ por não vestir roupas tradicionais e por morar na cidade e não na aldeia. Diziam que deveriam vacinar índios de verdade e não eu”, conta. “Passei a receber inúmeras mensagens de ódio, foi horrível.”

Os conteúdos falsos, afirma Francesc Comelles, coordenador regional do Cimi, começaram a ter um impacto maior nas comunidades indígenas à medida que o acesso à internet chegou dentro dos territórios.

Se por um lado a tecnologia conectou lideranças e permitiu que denunciassem violações com agilidade, por outro expôs todos às fake news.

“Essa mistura de informação verdadeira com informação distorcida e mal-intencionada foi potencializada com as fake news em torno da pandemia, o que teve um impacto direto na saúde dos indígenas”, afirma.

Quem é alvo de conteúdos inverídicos distribuídos pelas mídias sociais deve buscar suporte. Segundo Denise Dora, a busca de ajuda deve ser feita sempre por meio da organização indígena majoritária da região ou da Defensoria Pública da União, do Ministério Público Federal e das organizações da sociedade civil. “É preciso buscar ajuda para reverter. E existem mecanismos para isso”, afirma.

Em nota, a Coiab afirmou que os indígenas vítimas de mentiras devem avaliar se o alcance da ação pode causar um mal injusto e dano direto à sua pessoa.

Em caso positivo, devem procurar a autoridade policial e “a sua organização regional com a finalidade de dar publicidade sobre o acontecido e buscar suporte.”

Procurada para comentar sobre ações de suporte aos indígenas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) disse que “em vez de trabalhar com assertivas falsas, tem atuado, efetivamente, com medidas práticas de apoio à população indígena, a exemplo do investimento de cerca de R$ 34 milhões em ações de fiscalização em Terras Indígenas de todo o país em 2021”.

A reportagem integra o projeto Amazonas – Mentira tem preço, publicado em parceria pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA.

Weaving Indigenous knowledge into the scientific method (Nature)

nature.com

Saima May Sidik

11 January 2022; Correction 24 January 2022


Dominique David-Chavez working with Randal Alicea, a Caribbean Indigenous farmer, in his tobacco drying shed in Cidra, Borikén.
Dominique David-Chavez works with Randal Alicea, an Indigenous farmer, in his tobacco-drying shed in Cidra, Borikén (Puerto Rico).Credit: Norma Ortiz

Many scientists rely on Indigenous people to guide their work — by helping them to find wildlife, navigate rugged terrain or understand changing weather trends, for example. But these relationships have often felt colonial, extractive and unequal. Researchers drop into communities, gather data and leave — never contacting the locals again, and excluding them from the publication process.

Today, many scientists acknowledge the troubling attitudes that have long plagued research projects in Indigenous communities. But finding a path to better relationships has proved challenging. Tensions surfaced last year, for example, when seven University of Auckland academics argued that planned changes to New Zealand’s secondary school curriculum, to “ensure parity between mātauranga Māori”, or Maori knowledge, and “other bodies of knowledge”, could undermine trust in science.

Last month, the University of Auckland’s vice-chancellor, Dawn Freshwater, announced a symposium to be held early this year, at which different viewpoints can be discussed. In 2016, the US National Science Foundation (NSF) launched Navigating the New Arctic — a programme that encouraged scientists to explore the wide-reaching consequences of climate change in the north. A key sentence in the programme description reflected a shift in perspective: “Given the deep knowledge held by local and Indigenous residents in the Arctic, NSF encourages scientists and Arctic residents to collaborate on Arctic research projects.” The Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada and New Zealand’s Ministry of Business, Innovation and Employment have made similar statements. So, too, have the United Nations cultural organization UNESCO and the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services.

But some Indigenous groups feel that despite such well-intentioned initiatives, their inclusion in research is only a token gesture to satisfy a funding agency.

There’s no road map out of science’s painful past. Nature asked three researchers who belong to Indigenous communities in the Americas and New Zealand, plus two funders who work closely with Northern Indigenous communities, how far we’ve come toward decolonizing science — and how researchers can work more respectfully with Indigenous groups.

DANIEL HIKUROA: Weave folklore into modern science

Daniel Hikuroa is an Earth systems and environmental humanities researcher at Te Wānanga o Waipapa, University of Auckland, New Zealand, and a member of the Māori community.

We all have a world view. Pūrākau, or traditional stories, are a part of Māori culture with great potential for informing science. But what you need to understand is that they’re codified according to an Indigenous world view.

For example, in Māori tradition, we have these things called taniwha that are like water serpents. When you think of taniwha, you think, danger, risk, be on your guard! Taniwha as physical entities do not exist. Taniwha are a mechanism for describing how rivers behave and change through time. For example, pūrākau say that taniwha live in a certain part of the Waikato River, New Zealand’s longest, running for 425 kilometres through the North Island. That’s the part of the river that tends to flood. Fortunately, officials took knowledge of taniwha into account when they were designing a road near the Waikato river in 2002. Because of this, we’ve averted disasters.

Sometimes, it takes a bit of explanation to convince non-Indigenous scientists that pūrākau are a variation on the scientific method. They’re built on observations and interpretations of the natural world, and they allow us to predict how the world will function in the future. They’re repeatable, reliable, they have rigour, and they’re accurate. Once scientists see this, they have that ‘Aha!’ moment where they realize how well Western science and pūrākau complement each other.

We’re very lucky in New Zealand because our funding agencies help us to disseminate this idea. In 2005, the Ministry of Research, Science and Technology (which has since been incorporated into the Ministry of Business, Innovation and Employment) developed a framework called Vision Mātauranga. Mātauranga is the Māori word for knowledge, but it also includes the culture, values and world view of Māori people. Whenever a scientist applies for funding, they’re asked whether their proposal addresses a Māori need or can draw on Māori knowledge. The intent of Vision Mātauranga is to broaden the science sector by unlocking the potential of Māori mātauranga.

In the early days of Vision Mātauranga, some Indigenous groups found themselves inundated with last-minute requests from researchers who just wanted Indigenous people to sign off on their proposals to make their grant applications more competitive. It was enormously frustrating. These days, most researchers are using the policy with a higher degree of sophistication.

Vision Mātauranga is at its best when researchers develop long-term relationships with Indigenous groups so that they know about those groups’ dreams and aspirations and challenges, and also about their skill sets. Then the conversation can coalesce around where those things overlap with the researchers’ own goals. The University of Waikato in Hamilton has done a great job with this, establishing a chief-to-chief relationship in which the university’s senior management meets maybe twice a year with the chiefs of the Indigenous groups in the surrounding area. This ongoing relationship lets the university and the Indigenous groups have high-level discussions that build trust and can inform projects led by individual labs.

We’ve made great progress towards bridging Māori culture and scientific culture, but attitudes are still evolving — including my own. In 2011, I published my first foray into using Māori knowledge in science, and I used the word ‘integrate’ to describe the process of combining the two. I no longer use that word, because I think weaving is a more apt description. When you weave two strands together, the integrity of the individual components can remain, but you end up with something that’s ultimately stronger than what you started with.

DOMINIQUE DAVID-CHAVEZ: Listen and learn with humility

Dominique David-Chavez is an Indigenous land and data stewardship researcher at Colorado State University in Fort Collins, and a member of the Arawak Taíno community.

People often ask how can we integrate Indigenous knowledge into Western science. But framing the question in this way upholds the unhealthy power dynamic between Western and Indigenous scientists. It makes it sound as though there are two singular bodies of knowledge, when in fact Indigenous knowledge — unlike Western science — is drawn from thousands of different communities, each with its own knowledge systems.

At school, I was taught this myth that it was European and American white men who discovered all these different physical systems on Earth — on land, in the skies and in the water. But Indigenous people have been observing those same systems for hundreds or thousands of years. When Western scientists claim credit for discoveries that Indigenous people made first, they’re stealing Indigenous people’s contributions to science. This theft made me angry, but it also drove me. I decided to undertake graduate studies so that I could look critically at how we validate who creates knowledge, who creates science and who are the scientists.

To avoid perpetuating harmful power dynamics, researchers who want to work in an Indigenous people’s homeland should first introduce themselves to the community, explain their skills and convey how their research could serve the community. And they should begin the work only if the community invites them to. That invitation might take time to come! The researchers should also build in time to spend in the community to listen, be humbled and learn.

If you don’t have that built-in relational accountability, then maybe you’re better off in a supporting role.

Overall, my advice to Western researchers is this: always be questioning your assumptions about where science came from, where it’s going and what part you should be playing in its development.

MARY TURNIPSEED: Fund relationship building and follow-ups

Mary Turnipseed is an ecologist and grantmaker at the Gordon and Betty Moore Foundation, Palo Alto, California.

I’ve been awarding grants in the Arctic since 2015, when I became a marine-conservation programme officer at the Gordon and Betty Moore Foundation. A lesson I learnt early on about knowledge co-production — the term used for collaborations between academics and non-academics — is to listen. In the non-Indigenous parts of North America, we’re used to talking, but flipping that on its end helps us to work better with Indigenous communities.

Listening to our Indigenous Alaskan Native partners is often how I know whether a collaboration is working well or not. If the community is supportive of a particular effort, that means they’ve been able to develop a healthy relationship with the researchers. We have quarterly check-ins with our partners about how projects are going; and, in non-pandemic times, I frequently travelled to Alaska to talk directly with our partners.

One way in which we help to spur productive relationships is by giving research teams a year of preliminary funding — before they even start their research — so that they can work with Indigenous groups to identify the questions their research will address and decide how they’re going to tackle them. We really need more funding agencies to set aside money for this type of early relationship-building, so that everyone goes into a project with the same expectations, and with a level of trust for one another.

People working on the Ikaaġvik Sikukun collaboration in the snow cutting on ice core samples.
Members of the Ikaaġvik Sikukun collaboration at the Native Village of Kotzebue, Alaska.Credit: Sarah Betcher/Farthest North Films

Developing relationships takes time, so it’s easiest when Indigenous communities have a research coordinator, such as Alex Whiting (environmental programme director for the Native Village of Kotzebue), to handle all their collaborations. I think the number of such positions could easily be increased tenfold, and I’d love to see the US federal government offer more funding for these types of position.

Funding agencies should provide incentives for researchers to go back to the communities that they’ve worked with and share what they’ve found. There’s always talk among Indigenous groups about researchers who come in, collect data, get their PhDs and never show up again. Every time that happens, it hurts the community, and it hurts the next researchers to come. I think it’s essential for funding agencies to prevent this from happening.

ALEX WHITING: Develop a toolkit to decolonize relationships

Alex Whiting is an environmental specialist in Kotzebue, Alaska, and a formally adopted member of the Qikiktagrukmiut community.

A lot of the time, researchers who operate in a colonial way aren’t aware of the harm they’re doing. But many people are realizing that taking knowledge without involving local people is not only unethical, but inefficient. In 1997, the Native Village of Kotzebue — a federally recognized seat of tribal government representing the Qikiktagrukmiut, northwest Alaska’s original inhabitants — hired me as its environmental programme director. I helped the community to develop a research protocol that lays out our expectations of scientists who work in our community, and an accompanying questionnaire.

By filling in the one-page questionnaire, researchers give us a quick overview of what they plan to do; its relevance and potential benefit to our community; the need for local involvement; and how we’ll be compensated financially. This provides us with a tool through which to develop relationships with researchers, make sure that our priorities and rights are addressed, and hold researchers accountable. Making scientists think about how they’ll engage with us has helped to make research a more equitable, less extractive activity.

We cannot force scientists to deal with us. It’s a free country. But the Qikiktagrukmiut are skilled at activities such as boating, travelling on snow and capturing animals — and those skills are extremely useful for fieldwork, as is our deep historical knowledge of the local environment. It’s a lot harder for scientists to accomplish their work without our involvement. Many scientists realize this, so these days we get 6–12 research proposals per year. We say yes to most of them.

The NSF’s Navigating the New Arctic programme has definitely increased the number of last-minute proposals that communities such as ours get swamped with a couple of weeks before the application deadline. Throwing an Indigenous component into a research proposal at the last minute is definitely not an ideal way to go about things, because it doesn’t give us time to fully consider the research before deciding whether we want to participate. But at least the NSF has recognized that working with Indigenous people is a thing! They’re just in the growing-pains phase.

Not all Indigenous groups have had as much success as we have, and some are still experiencing the extractive side of science. But incorporating Indigenous knowledge into science can create rapid growths in understanding, and we’re happy we’ve helped some researchers do this in a respectful way.

NATAN OBED: Fund research on Indigenous priorities

Natan Obed is president of Inuit Tapiriit Kanatami, and a member of the Inuit community.

Every year, funding agencies devote hundreds of millions of dollars to work that occurs in the Inuit homeland in northern Canada. Until very recently, almost none of those agencies considered Inuit peoples’ priorities.

These Indigenous communities face massive social and economic challenges. More than 60% of Inuit households are food insecure, meaning they don’t always have enough food to maintain an active, healthy life. On average, one-quarter as many doctors serve Inuit communities as serve urban Canadian communities. Our life expectancy is ten years less than the average non-Indigenous Canadian’s. The list goes on. And yet, very little research is devoted to addressing these inequities.

Last year, the Inuit advocacy organization Inuit Tapiriit Kanatami (the name means ‘Inuit are united in Canada’) collaborated with the research network ArcticNet to start its own funding programme, which is called the Inuit Nunangat Research Program (INRP). Funding decisions are led entirely by Inuit people to ensure that all grants support research on Inuit priorities. Even in the programme’s first year, we got more requests than we could fund. We selected 11 proposals that all relate directly to the day-to-day lives of Inuit people. For example, one study that we’re funding aims to characterize a type of goose that has newly arrived in northern Labrador; another focuses on how social interactions spread disease in Inuit communities.

Our goal with the INRP is twofold: first, we want to generate knowledge that addresses Inuit concerns, and second, we want to create an example of how other granting agencies can change so that they respect the priorities of all groups. We’ve been moderately successful in getting some of the main Canadian granting agencies, such as the Canadian Institutes of Health Research, to allocate more resources to things that matter to Inuit people. I’d like to think that the INRP gives them a model for how to become even more inclusive.

We hope that, over the next ten years, it will become normal for granting agencies to consider the needs of Indigenous communities. But we also know that institutions change slowly. Looking back at where we’ve been, we have a lot to be proud of, but we still have a huge task ahead of us.

These interviews have been edited for length and clarity.

For better science, increase Indigenous participation in publishing (Nature)

10 January 2022

Amending long-established processes to include fresh perspectives is challenging, but journal editor Lisa Loseto is trying to find a path forward.

Saima May Sidik

Lisa Loseto at a campfire, where she is shutting down a research site at a traditional whaling camp.
Lisa Loseto stands by a campfire.Credit: Oksana Schimnowski

Lisa Loseto is a research scientist at Fisheries and Oceans Canada, a federal government department whose regional offices include one in Winnipeg, where she is based. Some of Northern Canada’s Indigenous people have shaped her research into how beluga whales (Delphinapterus leucas) interact with their environments, and have taught her to rethink her own part in the scientific method. As co-editor-in-chief of the journal Arctic Science since 2017, she is looking at ways to increase Indigenous representation in scientific publishing, including the editorial and peer-review processes.

What got you thinking about the role of Indigenous people in scientific publishing?

In 2020, Arctic Science published a special issue centred on knowledge co-produced by Western scientists and Indigenous people. As production of that issue progressed, the peer-review and editorial processes stuck out as aspects lacking Indigenous representation. We were soliciting papers to highlight the contributions of Indigenous knowledge — but the peer-review process was led by non-Indigenous editors like myself, and academics to review the articles. A few members of the editorial board thought, ‘Let’s talk about this and think about ways to provide more balance.’ We discussed the issue in a workshop that included representatives from several groups that are indigenous to Canada’s Arctic.

What did the workshop reveal about the Indigenous participants’ perceptions of scientific publishing?

For a lot of people, publishing seemed like a distant concept, so we explained how the editorial and peer-review processes work. We described peer review as a method for validating knowledge before it’s published, and many Indigenous participants recognized similarities between that process and one in their own lives: in the Arctic, each generation passes down knowledge of how to live in a harsh environment, and over time this knowledge is tested and refined. The Indigenous workshop participants said, “We would die if we didn’t have the peer-review process.”

The scientific method used by Westerners is colonial: it emphasizes objectivity and performing experiments in the absence of outside influences. This mindset can feel alienating for many Indigenous people, who see themselves as integral parts of nature. This makes me think scientific publishing doesn’t fit an Indigenous framework.

The dense jargon and idiosyncratic structures of scientific publications make them difficult for people without a formal scientific education to jump into. Even people training to become scientists often don’t get involved in publishing until they’re in graduate school because there’s so much background knowledge that they need to have first.

If a journal article draws on Indigenous knowledge, should it include an Indigenous peer reviewer?

Perhaps, but trying to force Indigenous perspectives into a process that was created to advance Western priorities can come with its own problems. Scientific publications serve the dual purposes of disseminating information and acting as a tool of measure for scientists’ careers. Most members of Indigenous groups aren’t concerned with building up their academic CVs; in fact, some are uncomfortable with being named as authors because they see their knowledge as part of a collective body, rather than belonging solely to themselves. So do publications have the same weight for Indigenous people? Maybe not. In light of this, is participating in this system really the best use of time for Indigenous people who aren’t in academia — especially when their communities are already overtaxed with researchers’ requests for guidance through prepublication aspects of performing research in remote areas?

In Arviat, Nunavut, Canada, a local woman demonstrates historic tools used by Inuit, with a polar tent in background.
Indigenous communities hold a wealth of knowledge that can advance science.Credit: Galaxiid/Alamy

As an alternative to contributing to research articles, we’re considering starting a commentary section of Arctic Science. This could give more Indigenous people a venue to publish their views on the scientific process, and their observations of natural trends, in a less technical format.

Can Indigenous journal editors help to bridge the divide between Indigenous people and academic publications?

Yes, but there are very few Indigenous journal editors. Historically, editor positions have been reserved for senior scientists, and many senior scientists are white men. I’m trying to bring on more early-career scientists as editors, as this group is often more diverse. By moving away from offering these positions to only the most senior scientists, I think we’ll see a shift in demographics. At the same time, I don’t want to put the burden of bridging current divides entirely on Indigenous people. That job is for all of us.

What is Arctic Science planning to do moving forward?

My hope is to build an Indigenous advisory group that can advise Arctic Science on the peer-review process generally and consider, on a case-by-case basis, whether articles could benefit from an Indigenous peer reviewer. Beyond that, we’re still figuring out how to engage more people without being prescriptive about how they’re engaged.

What do you hope these actions will achieve?

Publications are power. Policy decisions are based on things that are written down and tangible: peer-reviewed papers and reports. Not only do scientific publications guide policy decisions, they also determine who gets money. The more you publish, and the better the journals you publish in, the more power you have.

Indigenous communities have tremendous knowledge, but much of it is passed down orally rather than published in written form. I think the fact that Indigenous representation is weak in academia, including in publishing, upholds the power imbalance that exists between Indigenous people and settlers. I want to find a better balance.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00058-x

This interview has been edited for length and clarity.

Opinião – Juliana de Albuquerque: Desconhecidos ensinam que é possível fazer o bem mesmo em situações de risco (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

25.jan.2022 às 4h00


Em “O Livro dos Seres Imaginários” (1967), Jorge Luis Borges nos oferece uma série de textos sobre personagens e criaturas fantásticas presentes nas mais diversas culturas. Algumas dessas criaturas, ao exemplo dos dragões, encontram expressão em variados contextos humanos. Outras, como o demônio Keteh Meriri e os golems, pertencem a um folclore específico.

Em coluna de novembro passado, escrevi sobre os golems, os gigantes de argila do folclore judaico, cuja lenda inspirou alguns dos mais célebres super-heróis das histórias em quadrinhos, como Ben Grimm, O Coisa, e Bruce Banner, o Poderoso Hulk.

Na ocasião, comentei que as narrativas sobre esses seres imaginários poderiam nos dar elementos para uma reflexão política, alertando-nos sobre o risco de apostarmos em soluções mágicas para os nossos problemas. Hoje, volto a escrever sobre política em sentido amplo, literatura e folclore judaico, a partir do que Borges relata sobre o mito dos “lamed wufniks”:

“Há na Terra, e sempre houve, trinta e seis homens retos cuja missão é justificar o mundo perante Deus. São os lamed wufniks. Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem chega a saber que é um lamed wufkinik, morre imediatamente, e um outro, talvez em outra região do planeta, toma seu lugar, sem suspeitar, esses homens são os pilares secretos do universo. Não fosse por eles, Deus aniquilaria o gênero humano. São nossos salvadores e não sabem”.

A expressão “lamed wufniks” vem do iídiche. Ela se refere ao valor numérico das letras hebraicas “lamed” e “vav” que, somadas, formam o número 36. Existem várias interpretações para esse número específico, muitas das quais foram elencadas por Gershom Scholem, filósofo e historiador do misticismo judaico, em ensaio publicado no volume “The Messianic Idea in Judaism” (1971).

Há quem diga que o número 36 tenha origem em um cálculo feito a partir da palavra que traduzimos por “nele” em Isaías, 30:18: “Como são felizes todos os que nele esperam”. Pois, em hebraico, a soma das letras que formam tal palavra resulta no número 36. De modo que a mesma passagem poderia ser lida da seguinte forma: “Como são felizes todos aqueles que esperam nos trinta e seis”.

Cálculos e elucubrações exegéticas à parte, o que há de interessante na história dos trinta e seis homens retos é a ideia de que a justiça é muitas vezes garantida por pessoas simples, alheias à própria bondade e desconhecidas entre si, cujas virtudes geralmente são expressas de modo paradoxal, em desarmonia com a primeira impressão que possuímos desses indivíduos.

De modo a ilustrar tal paradoxo, Scholem remete-nos a uma narrativa talmúdica do século 3o em que Rabi Abbahu questiona o empregado de um bordel, responsável por contratar e administrar prostitutas, se ele já havia praticado o bem.

Em resposta ao rabino, o homem, tido por “pentakaka” —​palavra de origem grega, a significar cinco más ações— comenta que, certa vez, chegou a vender a própria cama e as cobertas para ajudar a uma desconhecida a tirar o marido da prisão, evitando que ela tivesse de se prostituir para sobreviver.

Outra narrativa, dessa vez atribuída ao rabino Lawrence Kushner, nosso contemporâneo, se passa na cidade de Munique durante a ascensão do regime nazista. Uma senhora judia viajava de ônibus quando soldados da SS entram no veículo para conferir a identidade dos passageiros. Assustada, ela comenta a situação com o homem sentado ao seu lado. Este, alemão, levanta-se imediatamente e começa a ralhar com a mulher, chamando-a de tudo e mais um pouco.

Nisso, um dos soldados se aproxima, o homem entrega o documento de identificação e pede desculpas por protagonizar tamanha cena com a esposa, é que ela, uma cabeça de vento, sempre se esquecia de colocar os próprios documentos na bolsa. Resultado, o soldado sorri meio constrangido, confere a identidade do homem e deixa a mulher em paz.

Quem também parece explorar temas que podem remeter aos “lamed wufniks” é a filósofa Hannah Arendt. Em célebre entrevista de 1964 ao programa “Zur Person” apresentado pelo jornalista Günter Gauss, ela comenta quando, em 1933, foi presa em Berlim.

Na ocasião, Arendt havia aceitado o convite da Organização Sionista Alemã para colecionar declarações antissemitas publicadas em revistas especializadas por toda espécie de associação profissional. Esse material, conta-nos a biógrafa de Arendt, Samantha Rose Hill, seria enviado para agências internacionais de imprensa, em uma tentativa de conscientizar a comunidade internacional sobre o perigoso avanço do antissemitismo na Alemanha. Denunciada por um funcionário da Biblioteca do Estado, Arendt é presa —afinal, do que serviriam tantos jornais para uma jovem acadêmica.

Sobre a prisão, Arendt comenta com Gauss que fora poupada graças ao oficial encarregado do seu caso. Ele havia sido recentemente promovido da polícia criminal para uma divisão política e, segundo a filósofa, não sabia exatamente o que fazer com ela:

“Eu deixei a prisão depois de oito dias porque fiquei amiga do oficial que me prendeu […]. Ele sempre comentava: ‘Normalmente sempre tenho alguém diante de mim e basta checar os arquivos para saber do que se trata. Mas o que faço com você?’ […]. ‘Eu coloquei você aqui. Vou tirar você daqui’ […]. O homem que havia me prendido tinha o semblante aberto e decente. Eu confiei nele e pensei que com ele eu teria maiores chances do que com um advogado que, por sua vez, estaria com medo”.

Essas e outras histórias de coragem e protagonismo individual, fazem com que eu me questione se os “lamed wufniks” deveriam realmente integrar a lista de seres fantásticos idealizada por Borges. Afinal, entre as mais extraordinárias criações da nossa imaginação, os “lamed wufniks” talvez sejam uma das que mais encontram amparo na experiência.

Muitos de nós já contaram com a ajuda de desconhecidos ou conhecem pessoas comuns —quem sabe até mesmo um ou dois vizinhos— que não se deixam seduzir por abstrações intelectuais, preconceitos e fetiches ideológicos, optando por agir moralmente e fazer o bem mesmo em situações de risco.

Essas pessoas são os nossos “lamed wufniks” e estão aqui para lembrar-nos de que as coisas podem, sim, melhorar. Tudo só depende de sermos capazes de fazer a nossa parte. Pois, uma coisa é certa: “Quando passar o tufão, não mais se encontrará o ímpio, mas os justos continuarão sendo o sustentáculo do mundo” (Provérbios 10:25).

The ancient secrets revealed by deciphered tablets (BBC)

https://www.bbc.co.uk/ideas/videos/the-ancient-secrets-revealed-by-deciphered-tablets/p0bcq7gs/player

Made with academic consultant Dr Rodrigo Hernaiz-Gomez, Lecturer in Languages and Linguistics, The Open University

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU, Department of Archaeology, University of Cambridge: Holding a tablet that was written thousands of years ago and being able to read what it says is an amazing feeling.

DR IRVING FINKEL, Curator, Department of the Middle East, British Museum: If you see a cuneiform tablet for the first time you’re not likely to identify it as writing and you certainly wouldn’t know which way up it went.

DR SELENA WISNOM, Department of Archaeology and Ancient History, University of Leicester: It’s a form of time travel – it catapults you back in time, thousands of years and puts you directly into the shoes of somebody who lived so many years before us.

CAPTION: Four incredible secrets uncovered when ancient tablets were deciphered Made in partnership with the Open University

NARRATOR: The earliest known form of writing is called cuneiform. First used over 5000 years ago it’s believed to predate Egyptian hieroglyphs. Cuneiform was used by civilisations that lived in Mesopatamia. Several societies used cuneiform as their writing system including the Sumerians and the Akkadians. Pressed onto clay, cuneiform tablets are incredibly durable, they’re literally fireproof, but for thousands of years, no one was able to translate them. After much trial and error, cuneiform script was finally deciphered in the Victorian era. What they revealed was extraordinary.

DR IRVING FINKEL: Once cuneiform was deciphered lots of unexpected things came to light but probably none which had greater impact than the discovery by George Smith in 1872 of the 11th tablet of the Epic of Gilgamesh in which he encountered for the first time, the flood story.

CAPTION: (One) The story of Noah’s Ark predates the bible

NARRATOR: Finding an ancient tablet with the story of Noah’s Ark written hundreds of years before the Bible…

CAPTION: Make all living beings go up into the boat. The boat which you are to build.

NARRATOR: …shattered the Victorian’s understanding of the world.

DR IRVING FINKEL: When it arrived, it was a huge… …bang, thing like that. It was a very explosive matter. And the parallel was much more than a sort of, general similarity with a boat and water and animals. It was in the same order and there were many close points that compellingly showed that this same story had been current in Mesopotamia a millennium before the earliest date when the Hebrew text is likely to have come into existence.

CAPTION: (Two) The first known author in history was a woman

NARRATOR: It wasn’t easy being a woman in Mesopotamia but women in wealthy families were treated fairly well. The first known author in all of recorded history is actually a woman. The Akkadian priestess, Enheduanna.

DR SELENA WISNOM: The case of Enheduanna shows us that women could reach extremely high and important positions in Mesopotamian religion.

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU: We learn a lot about society, about beliefs relations between husband and wife business transactions going wrong. We know from cuneiform tablets that women had agency. We have contracts where they are allowed to buy houses and they retain control of their dowry. They can run and manage businesses in their own right as long as alongside their husbands.

CAPTION: (Three) We count time in an ancient way

NARRATOR: If you’ve ever wondered why there’s 60 seconds in a minute or 360 degrees in a circle it’s because the Sumerians and Akkadians used a numbering system that was sexagesimal.

DR IRVING FINKEL: Which means that they counted on a base of 60 and divisions of 60 and multiplications by 60 where we tend to use the decimal system. Our own time measurement into 60 seconds in a minute and 60 minutes in an hour is a direct inheritance from Mesopotamian scholarly tradition.

DR SELENA WISNOM: It’s amazing how many concepts we take for granted in our modern society can actually be found for the first time in ancient Mesopotamia. The whole concept of mathematical models the very idea that you can use data to predict things happening in the future and that’s foundational to all modern science.

CAPTION: (Four) They wrote letters like we write emails

NARRATOR: The Mesopotamians were keen letter writers sending sealed messages with traders and travellers. Reading these letters today, you realise that in many ways, not much has changed.

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU: We can see that there were specific formulae in their correspondence. As we start an email today by “I hope all is well” they also started with specific formulae. But when they were angry they forgot about this formulaic convention and they just started the letter very matter-of-factly.

CAPTION: tracking the distribution of barley NARRATOR: As well as writing about stock levels, taxes and receipts on their tablets cuneiform writers loved to gossip.

DR SELENA WISNOM: We do have letters from these women complaining that the men are not sending enough money home. We have a certain sense of keeping up with the Joneses saying “next door has built an extension to their house, when are we going to have the money to build an extension to our house?” So these kind of things really do come through and we see these little human concerns these little human squabbles desires, jealousies and so on.

CAPTION: Is it time to get more cuneiform?

NARRATOR: By studying the past we learn so much about ourselves and the world that we live in. But the secrets revealed in cuneiform tablets are only known to us today because of clay’s durability. The way that we record things is constantly evolving. Technological progress means things become obsolete very quickly. The messages we send every day are stored in the cloud. How likely is it that anyone will be able to read that in 20 years let alone a few thousand years?

DR SELENA WISNOM: There is a project in Austria which is inscribing 1000 of the most important books of our era onto ceramic tablets. So humanity has really come full circle from writing on clay at the very beginning of history to writing on clay again in a different way to preserve our information now.

NARRATOR: There are many initiatives trying to prevent digital data from being lost. Could it be that despite all the incredible technology we have at our fingertips ancient methods of recording information are the best way of preserving our secrets for generations to come.

Como a genética está reconstruindo a fascinante jornada dos primeiros humanos à América (BBC)

News Brasil

Artigo original

Lucía Blasco, BBC News Mundo – 20 de janeiro de 2022

Montagem de um crânio de homo sapiens com ilustrações de cientistas ao seu redor.

América. O último continente a ser povoado pelo ser humano. Uma parte do planeta Terra desconhecida do Homo sapiens por milhares de anos.

Até que uma mudança climática — entre muitas outras coisas — permitiu ao inquieto primata pisar naquela região.

Mas como a América foi povoada?

“É uma pergunta vital que ainda não resolvemos e continuamos fazendo porque pulsa em nossa curiosidade humana”, diz à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, Lawrence C. Brody, diretor do departamento de Genômica e Sociedade do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

“Os humanos anatomicamente modernos deixaram a África há pelo menos 100 mil anos e começaram a se espalhar. E em algum momento depois de 40 mil anos, os humanos desenvolveram a tecnologia necessária para começar a explorar mais ao norte”, acrescenta Víctor Moreno, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Geogenética da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, à BBC News Mundo.

Há várias teorias, mas a corrente dominante atual sustenta que houve uma única migração primeiro para a Ásia, depois para a Australásia e, mais tarde, para a Europa.

A América ainda estava muito longe e, sobretudo, bastante isolada.

Infográfico do mapa-múndi e das datas em que o Homo Sapiens saiu da África para se espalhar pelo mundo

Os estudos sobre o DNA foram fundamentais para mapear estas migrações ancestrais.

“Nosso DNA contém um arquivo enorme da história de nossos ancestrais. Um genoma pode representar a história de muitas pessoas diferentes de uma população inteira”, afirmou à BBC News Mundo a antropóloga e geneticista americana Jennifer Raff, especialista no povoamento inicial do continente americano.

Para aprender sobre a árvore genealógica de nossos ancestrais, os cientistas sequenciam o DNA humano que ainda pode ser encontrado em fósseis e esqueletos muito antigos, razão pela qual é chamado de “DNA antigo”.

DNA antigo

As tecnologias modernas de sequenciamento tornaram possível ter acesso a fragmentos de DNA sem ter que sequenciar um genoma inteiro.

“Os antropólogos tiram conclusões gerais a partir de amostras muito, muito pequenas de DNA antigo, como dentes ou fragmentos de ossos e, mais recentemente, argila e areia. Os algoritmos nos ajudam a interpretar os dados e saber se aquele DNA está contaminado”, explicou o geneticista humano Brody.

Infográfico sobre onde se pode encontrar DNA antigo

Isso deu a eles algumas respostas sobre o povoamento da América.

“Por exemplo, descobrimos que várias populações ancestrais contribuíram para a ascendência dos povos indígenas americanos, e não apenas uma como se acreditava anteriormente”, diz Raff.

“Graças a isso, agora sabemos que o cenário do povoamento da América foi muito mais complexo do que se pensava, mas também muito mais interessante.”

Para embarcar nesta jornada fascinante, devemos começar situando-nos há aproximadamente 25 mil anos na linha do tempo.

A última era do gelo

Estamos no período do Último Máximo Glacial (LGM, na sigla em inglês), a última era do gelo conhecida na história da Terra.

“O mapa-múndi era muito diferente do atual. A maior parte da América do Norte estava coberta por uma espessa camada de gelo que tornava a região inabitável”, diz Acuña-Alonzo, antropólogo geneticista da Escola Nacional de Antropologia e História (ENAH) do México.

GIF animado de como se criou um corredor de gelo entre 19.000 e 12.500 a.C.

“As condições eram bastante difíceis. Muitos lugares eram inacessíveis e cobertos de gelo. Fazia muito frio, os humanos tinham que caçar e coletar… e não sabiam quando poderia aparecer o próximo mamute!”, acrescenta o pesquisador Víctor Moreno.

Com o avanço do período glacial, o nível dos mares do mundo foi baixando, à medida que a água era armazenada nas camadas de gelo que cobriam os continentes.

“Toda a água estava sequestrada nas geleiras”, explica Moreno.

Por causa disso, havia duas grandes geleiras que cobriam quase todo o Canadá e tornavam praticamente impossível ir para o sul.

Mas no final desse período glacial, há cerca de 12 mil anos, as camadas de gelo começaram a derreter e surgiram alguns refúgios glaciares.

“Nesses locais, as condições não eram tão terríveis e ainda eram produtivas em termos de recursos para que os humanos pudessem se alimentar”, diz Moreno.

Um desses refúgios foi a Beríngia: uma ponte de terra que emergiu do mar congelado por meio da qual as primeiras populações de humanos entraram na América, segundo acredita a maioria dos pesquisadores.

Ela se estendia do que conhecemos hoje como o Alasca até a Eurásia — e era um território seco, cheio de vegetação e fauna.

Mapa de como era a ponte terrestre de Bering

Atualmente, está submersa — por isso não é possível encontrar vestígios arqueológicos —, mas há um consenso de que os ancestrais dos indígenas americanos saíram da Sibéria em direção ao Alasca por aquele trecho de terra e ficaram isolados na Beríngia durante algum tempo.

“À medida que as péssimas condições do Último Máximo Glacial melhoravam, foram abertas certas rotas — pelo litoral e pelo interior — que teriam permitido a entrada na América a partir da região da ponte terrestre de Bering”, diz Víctor Moreno.

Mas ainda há dúvidas sobre a rota que seguiram para entrar na América, sobre quantos grupos (ou quais grupos) fizeram este caminho e quando isso aconteceu.

Quando chegaram à América?

Há duas teorias sobre quando os primeiros seres humanos chegaram à América.

As duas principais correntes são a teoria do povoamento precoce (que diz que isso ocorreu há cerca de 30 mil ou 25 mil anos) e a teoria do povoamento tardio (segundo a qual isso teria acontecido há cerca de 12 mil ou 14 mil anos).

Por muito tempo, se pensou que o povoamento foi tardio. Esta hipótese também é conhecida como “teoria clássica do povoamento da América” ou “modelo Clóvis”.

Os Clóvis, considerados em meados do século 20 a cultura indígena mais antiga da América, usavam uma técnica de entalhe de pedra bastante aprimorada para caçar a fauna gigante que existia na Idade do Gelo com ferramentas que hoje conhecemos como “pontas de clóvis”.

Fotografia de uma 'ponta de clovis'

Fonte: Getty

Durante décadas, essas “pontas de clóvis” foram encontradas em sítios arqueológicos de cerca de 13 mil anos, espalhados por várias partes da América do Norte. Por isso, se pensava que eles foram os primeiros povoadores da América.

Mas, nos últimos anos, vários estudos genéticos refutaram essa ideia.

Embora não haja consenso, hoje há mais cientistas e arqueólogos que argumentam que a ocupação da América ocorreu muito antes do que se acreditava.

“A maioria dos cientistas e arqueólogos apoia a teoria do povoamento precoce, e não tardia, mas os pesquisadores não chegam a um acordo sobre uma data específica ou sobre que sítios arqueológicos são ‘autênticos'”, diz à BBC News Mundo Jennifer Raff.

A análise genética de populações contemporâneas e antigas foi fundamental para que a teoria do povoamento precoce ganhasse peso.

No entanto, ainda há pesquisadores — principalmente arqueólogos — que continuam a defender a teoria do povoamento tardio.

“Alguns arqueólogos são céticos a respeito dos primeiros sítios arqueológicos encontrados, sobretudo porque não aceitam os métodos de datação, as associações com a atividade humana e a estratigrafia (análise dos estratos arqueológicos) que foram reportados”, explica Acuña-Alonzo.

“A verdade é que demonstrar a antiguidade da presença humana é bastante complicado e difícil, por isso só sítios arqueológicos muito bem escavados e documentados servirão para ir mudando essas posições”, acrescenta o pesquisador.

Também segue aberto o debate sobre como os primeiros seres humanos entraram no continente depois que deixaram a ponte terrestre de Bering, ou Beríngia, mas os cientistas trabalham principalmente com duas possibilidades: uma rota marítima ou uma rota terrestre.

Teoria da via marítima

A hipótese da rota marítima está ligada à teoria do povoamento precoce e tem sido respaldada por estudos arqueológicos, linguísticos e genéticos relativamente recentes.

Segundo essa teoria dominante, os primeiros humanos teriam entrado na América margeando a costa do Pacífico, já que naquela época tão fria “o nível do mar era mais baixo, e as costas muito mais amplas. Eles não teriam conseguido atravessar grandes distâncias nem correntes marítimas que não os favorecessem”, explica o antropólogo Acuña-Alonzo.

Não sabemos a data exata, pode ser há cerca de 17 mil anos ou até mesmo 20 mil ou 30 mil anos.

Teoria da rota terrestre

Mais uma vez, não há consenso, embora menos cientistas digam que a rota foi feita por terra há cerca de 13 mil anos, coincidindo com a teoria do povoamento tardio.

“Os pesquisadores que defendem esse modelo acreditam que os primeiros humanos a chegar à América fizeram isso muito depois do Último Máximo Glacial, viajando por um corredor livre de gelo que abriu caminho nas Montanhas Rochosas canadenses enquanto as geleiras recuavam”, explica Raff.

Segundo essa teoria, os humanos teriam atravessado essa “passagem” entre as geleiras pelo interior da América do Norte e, posteriormente, se espalhado pela América do Sul.

Mas, o estudo de genomas antigos e contemporâneos, a descoberta de sítios arqueológicos pré-Clóvis e alguns estudos ambientais questionam essa teoria, por isso há mais cientistas que defendem que a travessia foi feita pelo mar.

Estas pegadas pertencem a crianças e adolescentes que viveram há pelo menos 21 mil anos.

Estas pegadas pertencem a crianças e adolescentes que viveram há pelo menos 21 mil anos. Fonte: Bournemouth University, Reino Unido

Um dos achados mais recentes foi a descoberta em setembro de 2021 de pegadas humanas em um lago do Novo México, nos Estados Unidos, com mais de 20 mil anos.

Essas pegadas sugerem que os primeiros humanos chegaram à América no auge da Última Era do Gelo e que pode ter havido grandes migrações sobre as quais ainda não sabemos muito.

A miscigenação

Mal sabemos que aparência tinham os primeiros seres humanos que chegaram à América.

Para tentar descobrir quem eram, recorremos novamente à genética.

Graças a ela sabemos que os ancestrais dos primeiros americanos se separaram de seus “primos asiáticos” quando entraram na ponte terrestre de Bering, e que se misturaram muito mais do que se supunha, sobretudo durante os últimos 10 mil anos.

Os geneticistas acreditam que houve uma miscigenação entre duas populações ancestrais humanas: os antigos paleo-siberianos e os antigos asiáticos do leste, segundo Acuña-Alonzo.

Infográfico mostrando a miscigenação ocorrida na Beríngia

Raff diz que um desses grupos habitava o que hoje é o Sudeste Asiático. Acredita-se que esse grupo tenha contribuído majoritariamente para a ancestralidade dos primeiros seres humanos que povoaram o continente americano — especificamente, cerca de 60%, indica Víctor Moreno.

O outro ramo ancestral surgiu há cerca de 39 mil anos no que hoje é o nordeste da Sibéria.

Esses dois grupos convergiram há cerca de 25 mil a 20 mil anos atrás.

Não sabemos exatamente como isso aconteceu, mas aconteceu durante uma migração da Sibéria”

diz Raff.

“Temos muito pouca ideia. O mais provável é que tenha ocorrido em algum lugar da Sibéria, mas quão perto da ponte terrestre de Bering isso aconteceu? Quão ao norte ou quão ao sul? Isso é algo que está sendo debatido porque o apoio genético, arqueológico e antropológico que temos é escasso”, diz Víctor Moreno.

O que a genética explica é o que aconteceu a seguir: houve uma série de eventos demográficos complexos e a população, novamente, se dividiu em duas.

Um ramo, o dos antigos beríngios (por sua possível conexão com a Beríngia) não teve descendentes conhecidos. O outro, dos antigos nativos americanos, sim.

Os cientistas chegaram a essas conclusões após descobrir uma afinidade genética muito grande entre grupos ancestrais da Sibéria e populações da Eurásia Oriental.

Pesquisador analisando pegadas de mais de 20 mil anos atrás encontradas nas margens de um lago no Novo México.

Pesquisador analisando pegadas de mais de 20 mil anos atrás encontradas nas margens de um lago no Novo México. Fonte: Universidade de Bournemouth, Reino Unido

“Sabemos, por exemplo, que os indígenas americanos estão relacionados geneticamente às populações do nordeste da Ásia por uma série de genes que permitiram a seus ancestrais economizar energia em condições climáticas muito difíceis”, acrescenta o geneticista.

Apesar dessas descobertas, eles ainda estão tentando determinar quantos povos antigos e atuais na América têm uma conexão com a linhagem genética desses antigos nativos americanos.

“Temos que aceitar que há muitas arestas dessa pergunta para as quais ainda não temos uma resposta”, diz Raff.

Na verdade, a última descoberta no Novo México deixa outra grande incógnita no ar: a possibilidade de que as primeiras populações tenham se extinguido sem deixar descendentes, sendo “substituídas” por outros povoadores quando o corredor de gelo foi formado.

Mas ainda não se sabe se foi esse o caso ou como teria acontecido.

“Não temos escolha a não ser abraçar a incerteza. Mas, ao mesmo tempo, é emocionante saber que estamos cada vez mais perto de reconstruir essa primeira viagem à América.”

Enquanto isso, os cientistas esperam que a herança genética nos dê mais respostas sobre a última grande expansão do Homo sapiens no planeta.


Créditos

Pesquisa e reportagem: Lucía Blasco
Design e infografia: Cecilia Tombesi
Mapa utilizado como base: Ron Blakey, NAU – NSF
Programação: Zoë Thomas, Adam Allen e Marcos Gurgel
Edição: Carol Olona e Ricardo Acampora
Com a colaboração de Hilda Badenes e Sally Morales
Projeto liderado por Carol Olona

Volta do Brasil ao Mapa da Fome é retrocesso inédito no mundo, diz economista (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Um dos criadores do Fome Zero, Walter Belik critica o desmonte da rede de segurança alimentar pelo governo Bolsonaro

Suzana Petropouleas – 23 de janeiro de 2022


Um dos criadores do Fome Zero e um dos principais pesquisadores em segurança alimentar no Brasil, Walter Belik, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, defende que o governo Bolsonaro conduz uma política deliberada de desmonte das iniciativas contra a fome no país.

Belik relembra a criação do Fome Zero como um projeto pluripartidário. Desenhado originalmente como um programa de distribuição de cupons para troca por alimentos, ele foi substituído pelo Bolsa Família, carro-chefe da política social de Lula, e o nome passou a designar uma estratégia de segurança alimentar. As iniciativas pavimentaram a saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação da Agricultura) em 2014.

O ​cenário mudou a partir de 2015, diz Belik, com a escalada inflacionária, a ausência de recomposição do valor de benefícios sociais e um desmonte das políticas de segurança alimentar, sobretudo no governo Bolsonaro. ​

O país voltou ao Mapa da Fome em 2018 e, em 2020, registrou 55,2% da população convivendo com a insegurança alimentar, segundo pesquisa da Rede Penssan. Cenas observadas em 2021, como pessoas buscando ossos e carcaças para se alimentar e os diversos protestos contra a fome, não podem ser creditadas só à crise provocada pela pandemia, diz ele.

A que o sr. atribui o avanço da fome nos últimos anos?

O aumento era previsível. Tivemos uma redução até 2014 e a subida começa a aparecer já em 2017. O ano de 2018 já configura uma volta do Brasil ao Mapa da Fome. Esse dado se confirma e agrava nos anos seguintes, segundo dados da Reden Penssan e ONU. Em 2022, a tendência é de continuidade nesse aumento.

A ONU associa a insuficiência alimentar grave e moderada a um quadro de fome. Tomando as duas porcentagens, chegamos a um quadro de aproximadamente 25% da população em situação vulnerável. É bastante crítico. É um quadro complicadíssimo, um quarto da população está passando fome no Brasil.

Os impactos para a economia são enormes, porque existe um custo social da fome. Esse custo deve ser gerenciado pelas políticas públicas. Ele impacta no sistema de segurança social, no Orçamento, na saúde, na educação —com atraso de aprendizagem das crianças—, e no mercado de trabalho, com redução da mão de obra e da produtividade.

Colocando na balança, prevenir seria mais barato. A fome custa caro.

O quanto a pandemia afetou a fome?

Não dá para atribuir a fome só à Covid, pois se tivéssemos uma rede de proteção social em funcionamento, não teríamos um quadro tão complicado quanto o que estamos vivendo.

O programa de estoques de regulação da Conab, por exemplo, baseado principalmente em compras da agricultura familiar, acabou. Boa parte da crise de desabastecimento e alta de preços em 2020 tem a ver com a ideia de que o Brasil não precisa de estoques reguladores de alimentos, o que é absurdo não só do ponto de vista de segurança alimentar, mas nacional.

O país depender de importações e da variação de preços internacionais é absurdo, diante do quadro de abundância que temos no Brasil.

O sr. fala em desmonte da rede de segurança alimentar no governo Bolsonaro. Quais políticas foram afetadas?

A lista é extensa. O Bolsa Família, desidratado, passou de um programa de transferência de renda com condicionalidades para um de doação. Com o Auxílio Brasil, a ideia de proteção e assistência social dessas famílias foi escanteada.

O Pronaf [Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar] foi desidratado e os valores cortados em 35%. O programa de reforma agrária, a Secretaria de Agricultura Familiar, o programa de estoques de regulação da Conab e o programa de cisternas, todos foram descontinuados.

O PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], que priorizava a compra de alimentos de agricultura familiar para doações ou alimentação escolar e chegou a comprar quase R$ 1 bilhão, garantindo renda para os pequenos produtores, acabou.

O programa de banco de alimentos virou o “Comida no Prato”, assistencialista e criado pelo governo para faturar em cima do trabalho feito há duas décadas pelos bancos de alimentos do Brasil, organizados pela sociedade civil, basicamente. O programa de restaurantes populares foi descontinuado, e hoje vivemos um congestionamento nos restaurantes populares de R$ 1, graças à perda de renda da população. O programa de cozinhas comunitárias acabou.

Agora, o governo quer mexer no PAT [Programa de Alimentação do Trabalhador] e reduzir a isenção fiscal das empresas que promovem o vale-alimentação ou tem restaurante na empresa. Todos os programas de abastecimento, como modernização ou mesmo privatização das Ceasas, também acabaram. Elas se tornaram obsoletas, mas têm papel importantíssimo no abastecimento urbano.

Uma coisa é consertar um programa, outro é extingui-lo. Tem uma lista enorme de programas finalizados em nome de resolver problemas fiscais e respeitar o teto de gastos, que depois foi furado.

Por que o sr. critica o programa Comida no Prato?

Esse caso é escandaloso. Em 2017, foi criada a Rede Brasileira de Banco de Alimentos, ideia de muito tempo atrás que visava melhorar a comunicação entre os mais de 200 bancos pelo país e reduzir custos. São na maioria ONGs e entidades civis.

O governo Bolsonaro centralizou os cadastros de doações de novos doadores, como supermercados ou indústrias, e promete isenção do ICMS a elas. Ora, esse imposto é estadual e a maioria dos alimentos doados são frescos. Estados como São Paulo não cobram ICMS sobre eles. É uma medida inócua e populista.

No caso dos industrializados, onde incide IPI, não há isenção nenhuma.

O governo quer concentrar as informações em torno dele para depois dizer que está fazendo uma ação de solidariedade, mas ele não faz nada, quem faz são as empresas que doam e as ONGS. É escandaloso. É para funcionar na propaganda política de 2022. Uma tristeza de ver.

Como a questão da fome pode afetar as eleições de 2022?

Se em campanhas anteriores os temas eram corrupção e segurança pública, esse ano vai ser saúde, em primeiro lugar, e alimentação.

Estamos numa situação de retrocesso que é única no mundo. Não há sequer um caso na história documentado pela FAO de um país que saiu do Mapa e voltou. Nenhum. Esse é o tamanho da tragédia que estamos vivendo.

A tragédia que estamos vivendo com a fome choca qualquer pessoa que trabalha na área ou vê a situação. Deve ser prioridade número um na cabeça de qualquer programa de governo. Lógico que, vindo do Bolsonaro, não é algo sério, é eleitoreiro. Mas diria que os outros têm uma preocupação com isso e, nas campanhas, será fundamental.

O sr. defende um Fome Zero 2.0 caso Lula, que lidera as pesquisas, seja eleito?

Não sou filiado ao PT. Não sei exatamente o que está sendo discutido hoje, em nível de programa de governo. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso vai ter que atacar esse problema como o número um.

Talvez não seja mais uma bandeira do PT, mas uma bandeira da sociedade civilizada como um todo. É uma questão civilizatória. Mais da metade da população vive em insegurança alimentar, segundo os últimos dados. Você não pode virar as costas para isso.

Não é possível que algum candidato, que tenha algum senso de solidariedade e uma certa empatia pelo povo brasileiro, possa conviver com uma situação como essa. Não é possível. Então não é um problema só do candidato Lula, mas de todos candidatos. ​

Por que o Fome Zero não conseguiu eliminar a fome de forma estrutural?

Programas de transferência de renda são o primeiro passo. Quem tem fome tem pressa. Tem que garantir uma cesta básica, alimentação na mesa dessas famílias.

O passo seguinte, de fato gigantesco, é atacar as questões da pobreza de forma multidimensional. Dados mostram que o gasto em transporte ultrapassou o gasto com alimentação, tradicionalmente o maior das famílias. Como garantir alimentação se o sujeito vai gastar uma parte da transferência de renda para pagar o transporte para trabalhar? Aproximadamente 30 milhões estão em trabalhos precários e não têm vale-transporte. Gasta-se para trabalhar.

Habitação é outro item de despesa que está no mesmo nível do gasto com alimentação, em torno de 20%.

Não dá para ter um programa de alimentação sem analisar essas outras dimensões que compõem a pobreza. O que que precisa ser feito? O que não foi feito? É passar dessa fase de programa ligados à segurança alimentar para programas mais gerais, que possam garantir a erradicação da pobreza, o objetivo número um do milênio da ONU. E erradicar a pobreza não é só renda, tem outras questões relacionadas.

O que um programa de combate à fome atual deve fazer de diferente do que foi feito no Fome Zero?

O programa número um agora seria de abastecimento dos centros urbanos, tema para o qual o programa não apresentou respostas de maior amplitude. Foram respostas pontuais.

Tem que modernizar as relações de abastecimento e comercialização, do campo ao consumidor final. Estamos numa era da economia digital e devemos aproveitar todos os elementos dados pelas plataformas digitais: reduzir a intermediação, agilizar sistemas, promover a padronização e classificação no campo e a definição de embalagem para redução do desperdício, melhorar sistemas de transporte e plataformas de comercialização, além de conectar centrais de distribuição com a agricultura familiar, principalmente os produtores mais pobres.

É possível fazer. Também é preciso estabelecer relações mais permanentes entre o consumidor e o produtor, por exemplo, através de modelo de assinatura de cestas de alimentos frescos e saudáveis.

A qualidade da alimentação também piorou na pandemia, com aumento do consumo de ultraprocessados. Como atacar esse problema?

Ultraprocessados são mais baratos e fáceis de encontrar.

Precisamos garantir melhoria da renda no campo e no abastecimento na cidade. Temos uma rede de Ceasas (Centrais de Abastecimento) maravilhosa, construída na década de 70, que está se deteriorando. Ela pode cumprir esse papel.

A Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), por exemplo, tem seu volume comercializado estagnado há dez anos. Está sendo comida pelas bordas pelo atacado moderno, que atua via supermercados. É importante prover este sistema de distribuição para feiras livres, de pequenos comércios, compra direta para o consumidor.

De nada adianta você fazer uma transferência de renda de R$ 600 e a pessoa comprar um alimento muito industrializado. Algumas áreas são verdadeiros desertos alimentares e isso piorou na pandemia: não tem feira, não tem distribuição, circulação de alimento fresco.

A ideia é que você possa reconectar as pessoas que recebem transferência de renda com uma alimentação saudável, garantindo renda também no campo.

No curto prazo, algo deve mudar no panorama da fome no Brasil?

Esse ano ainda será bastante complicado. Com a situação fiscal do Brasil se estabeleceram alguns tetos. As emendas parlamentares tratam de questões ligadas a infraestrutura. Então não há nenhum programa consistente voltado para combater este problema agora, no curto prazo. E a pandemia, que se imaginava controlada, passa por novo descontrole. Não vejo muita condição de resolver o problema.

Ainda mais porque teremos um ano de recessão, com previsões de crescimento em zero, 0,29%. E com crescimento zero tem-se a persistência do desemprego e queda de renda.

O quadro internacional também está relativamente complicado, então vamos continuar com aumentos de preços. Diria que 2022 não vai apresentar nenhum refresco. Em 2023, com seja lá quem ganhar a eleição, que não seja o Bolsonaro, teremos a possibilidade de atacar esse problema de frente.


Raio-x

Walter Belik, 66, é graduado em administração de empresas pela FGV, com mestrado pela mesma instituição e e doutorado em economia na Unicamp. Fez pós-doutorado no University College de Londres e no Departamento de Agricultura e Economia dos Recursos Naturais da University of California, em Berkeley, Estados Unidos. É professor aposentado de economia agrícola do Instituto de Economia da Unicamp e professor convidado na University of Kassel, Alemanha. Coordenou a Iniciativa América Latina e Caribe Sem Fome da FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas), até 2008 e desde 2013 é membro do Painel de Alto Nível da ONU de Experts para a Segurança Alimentar Mundial. Publicou mais de 200 artigos científicos, além de livros e textos de divulgação na área de agricultura e alimentação.

How next-gen satellites are transforming our view of climate change (CNET)

cnet.com

Megan Wollerton – Jan. 18 2022


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Robert Rodriguez/CNET
As more frequent and more severe storms erode coastlines, mapmakers must adapt quickly.

A shrinking swath of coastline in Washington state has a regrettable nickname: Washaway Beach. It’s named not for what’s there, but rather for what isn’t. Insatiable Pacific Ocean currents have taken greedy bites out of the land over the past century.

Washaway Beach’s disappearing shore isn’t measured in centimeters or inches. You can’t track the changes with a hardware store measuring stick. Residents of the area, roughly two and a half hours southwest of Seattle, are watching their homes and businesses get swallowed by the sea at an average rate of 100 feet per year; that’s about the height of a 10-story building. It’s the fastest-eroding place in the western United States.

Washaway Beach is an extreme case of erosion. Many factors contribute to its rapid decline. But the quickening march of climate change, including rising sea levels and more frequent and severe storms, poses a growing threat to coastal communities everywhere. 

I’ve never been to Washaway Beach. I’m hearing about it for the first time from Peter Doucette, the acting director for the Earth Resources Observation and Science Center at the US Geological Survey. Doucette is showing me over Zoom a colorful animated map of how the community changed between 1985 and 2017. The water eats away at the map’s multicolored patches. The brown beaches, red developed areas and light blue freshwater bogs evaporate in the Pacific’s 32-year sprint to wipe out the town. It’s jarring to watch how quickly the land dissolves into the deep blue as the ocean takes over. 

Watch Washaway Beach disappear. USGS

Scientists didn’t have the tech to visualize changes like this even five or 10 years ago, though they had the data. “This is the power of using the data from time; it’s taking advantage of the time dimension, which requires a lot of computing power … but we have that now,” Doucette explains. 

Faster satellites, sharper images taken in near real-time and advanced computing techniques are making it possible for mapmakers to redraw Washaway Beach as soon as coastal changes occur. Emerging technologies will help scientists predict what could happen to it in the future, just like a weather report. 

For coastal residents around the world, or anyone living in an area susceptible to extreme weather events, this type of mapping could save lives. Up-to-date maps can provide crucial information for first responders needing to traverse areas hit by natural disasters; residents and visitors need regular, ongoing updates to adapt to a changing landscape. 

For anyone living in areas less directly affected by the climate crisis, maps that show change over time provide a crucial bridge to understanding what’s really happening in other places, and how quickly. 

“By helping people visualize how the world is changing, maybe that will give them a better understanding of climate change as a whole,” says Tanya Harrison, director of science strategy at Planet, a private satellite imagery company. “How is your neighborhood being affected? How is your grandmother’s house being affected? Maybe she lives on the other side of the country or the other side of the world. In a way, that can kind of make this a little bit more personal.”

From clay tablets to satellites

Maps aren’t easy to define. They’re squishy things, molded by the minds of the people who create them. Imperfect representations of our world. One part art; one part science.

Still, they give us a baseline for decision-making, whether it’s finding the closest coffee shop, climbing a mountain or helping people understand something more serious, like climate change.

“[Maps are] such a great intuitive way to gather information and humans are really good at understanding spatial information presented in that way,” says Mike Tischler, director of the National Geospatial Program at the US Geological Survey. “You want to know what’s over the ridge, you want to know what’s around the bend, you want to know where things are.” That’s probably why maps have been around for thousands of years. 

A clay tablet known as the Babylonian Map of the World, or Imago Mundi, is the oldest known map of the world. It was discovered in Iraq and dates back to about 600 B.C.

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The Babylonian Map of the World is the oldest map of the world. The Trustees of the British Museum

Modern mapmaking got its start in 1852, when French army officer Aimé Laussedat created the first maps with photographs. Laussedat also experimented with aerial photography, sticking cameras on kites and balloons. As air travel became more sophisticated, aerial photography transitioned from balloons to planes in World War I and World War II and, eventually, to satellites in the 1970s. 

Nowadays, aerial photography is more automated than it was when ground crews launched unsteady balloons into the air, hoping to get the right shots. Hundreds or thousands of images are taken automatically from planes and satellites to make maps. Now planes and satellites visit the same place regularly, reliably showing how land changes over time.

“Land change is really complex. … Tying it to climate, I’m not sure we’re there yet,” says Jesslyn Brown, research geographer for the Earth Resources Observation and Science Center at the US Geological Survey. You can’t identify patterns that could point to climate change without monitoring the same places at regular intervals.

“This might be a little controversial, but my opinion is that governments don’t find monitoring very sexy,” Brown says. “But it’s an absolute necessity because you can’t manage what you can’t measure, so we need to take these measurements in order to have the information to monitor the Earth and to monitor the effects of climate change.”

Chasing change 

In the US, Landsat is the best-known Earth-observing satellite for monitoring and mapping purposes. Landsat 7 and Landsat 8 circle the globe once every 99 minutes, traveling at 17,000 miles per hour. Each satellite covers the entire planet in 16 days. Together, they cover the Earth in eight days because they’re in reverse orbit. 

The satellites are “roughly the size of a small school bus,” says Doucette, the USGS director who showed me the map of Washaway Beach, and have a 30-meter resolution, “about the size of a baseball diamond per pixel.”

Generations of Landsat satellites have been doing this since 1972. That 50-year record makes it extremely valuable for tracking changes over time.

“[50 years of data] provides researchers the ability to go back through time and monitor what kinds of changes are going on on the land surface,” Doucette says. “That really wasn’t possible until just the last five to 10 years with the big data compute capabilities that have become available.”

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This image of the Himalayan Mountains is one of the first shots taken by Landsat 9.  NASA

NASA launched its newest satellite, Landsat 9, on Sept. 27. Soon, it will hand over control of Landsat 9 to the USGS. Then, Landsat 7, which has been orbiting the planet for 22 years, will be retired. Most old Landsat satellites go into “disposal orbits,” destined to circle the planet until they eventually reenter the atmosphere and burn up. Landsat 7 won’t have the same fate; it will be moved into a different orbit to help test NASA’s robotic refueling project, Doucette explains. 

Landsat is still the gold standard for satellite imagery, says Terry Sohl, acting branch chief for the Integrated Science and Applications Branch and research scientist at the USGS Earth Resources Observation and Science Center. “To be honest, I’m not sure that’s going to be the case in five years,” Sohl adds.

Private satellite companies are making it easier than ever to visualize changes worldwide almost as soon as they happen for much less money than Landsat. 

Smaller, faster, cheaper, sharper

“If you’ve got a satellite right now that covers the Earth every two weeks, you can have homes and cities destroyed in that time,” says Tischler, the USGS director of the National Geospatial Program. Private companies are sending larger numbers of tiny satellites into orbit that cost less to build, launch and operate, have very high-resolution cameras and cover more ground more quickly. 

One of the private companies, Planet, has two different types of satellites: Dove and Sky satellites. The 180 Dove satellites are the size of a loaf of bread; they orbit the globe every 90 minutes and have a three- to five-meter resolution, or about 10 to 16 feet. 

Fifteen of the Sky satellites orbit at the poles like the Dove satellites. The remaining six Sky satellites orbit at latitudes closer to where people live to capture images of cities. Combined, the Sky satellites orbit Earth 12 times per day. Sky satellites are about the size of a dishwasher and have a resolution of just 50 centimeters, or a little over a foot and a half. They capture details that Landsat’s baseball-diamond-size resolutions can’t. 

Planet satellites show the Milne Ice Shelf breaking apart in July 2020. Planet Labs PBC

Smaller satellites are cheaper, too. It costs about a billion dollars to design, build, test and deploy one Landsat satellite. One Planet satellite costs in the “low hundreds of thousands of dollars,” although the company wouldn’t say exactly how much. 

Having a lot of smaller satellites also makes it easier for the San Francisco-based team to build them locally and experiment with new technologies quickly. 

“If there’s something new that comes to the market that could lead to better image quality … we have the option to just switch that out in-house where we’re actually building the satellites in the basement of our headquarters in San Francisco and just say, ‘Hey, let’s put in a new sensor. Let’s launch that,'” says Harrison, Planet’s director of science strategy. 

That way, if they want to test something, they can try it on one satellite and see how it works, without having to update all 200 satellites in their fleet.

Its various satellites have observed many events related to the climate crisis all over the world. The most significant changes they’ve seen have taken place in the coldest regions.

In July 2020, Planet satellites captured the collapse of the last intact Arctic ice shelf. “That was obviously a big tragedy. It’s not the kind of thing that you want to see, but it’s something that we managed to capture,” Harrison says.

Seeing is believing

Newer satellites are giving us more data, more quickly. Advancements in computing are changing how mapmakers use that data to show how our planet is changing right now and how it could change in the future.

Doucette is showing me another map now, this time a projection of what the land near Lubbock, Texas, will look like decades from now. At some point, the Ogallala Aquifer, which supports cotton and other key crops in the region, is going to dry up. Scientists at the USGS worked with other government agencies to create forecasts of Lubbock between 2014 and the end of the century, drawing from Landsat data, socio-economic data and climate data.

The map shows the cotton crop disappearing in tandem with the Ogallala’s water. The projections will vary based on how water usage continues, so scientists create best, middle and worst case scenarios because of the uncertainty. 

“Climate is actually much more predictable than people. I don’t worry about the variability in a climate scenario; I worry about the variability of how people behave,” says Sohl, the USGS scientist. “There are all these things that happen that are just so totally unpredictable, like a new government policy that can have a huge impact on the landscape.”

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What happens when the Ogallala Aquifer runs out of water? NOAA

Either way, the Ogallala’s water will disappear and it isn’t coming back.

Knowing this in advance gives people in Lubbock time to shift to other types of crops that don’t depend so heavily on water. Doucette suggests dryland wheat or returning the area to grassland.

“This is how we hope to use Landsat and other related Earth observation data so we can understand the causes of change in the past that kind of help us develop these models for projecting potential change going into the future,” Doucette says. 

Historic data from Landsat combined with sharper-resolution imagery from private satellite companies equips mapmakers to show climate change impacts now and model what could happen to the same areas decades or even centuries from now. “[Landsat and private satellite companies] really [are] a nice mix of where we’re going in the future,” says Sohl.

As Washaway Beach’s erosion cuts further into inland Washington state, the freshwater cranberry bogs the area is known for are increasingly threatened with contamination from salt water. But with these technologies, scientists can look at the models and make decisions before Washaway Beach, the Ogallala Aquifer and other places like them fall off the map. 

“Imagine being able to do this kind of projection … and doing it on a national scale or even a global scale,” Doucette adds. “That’s our hope; this is still kind of cutting-edge research.” 

A Project to Count Climate Crisis Deaths Has Surprising Results (WIRED)

wired.com

Matt Reynolds

01.18.2022 07:15 AM

Climate change is already killing people, but countries don’t have an easy way to count those deaths. A new project might change that.

Climate change can kill people in all kinds of ways. There are the obvious ones—wildfires, storms, and floods—yet rising temperatures may also lead to the increased spread of deadly diseases, make food harder to come by, and increase the risk of conflict.

Although we know about these wide-ranging but equally terrifying risks, attempts to pinpoint the number of deaths caused by climate change have been piecemeal. One recent study estimated that climate change was to blame for 37 percent of heat-related deaths over the past three decades. In 2021, Daniel Bressler, a PhD student at Columbia University in New York, estimated that every additional 4,400 metric tons of carbon dioxide emitted will cause one heat-related death later this century. He called this number the “mortality cost of carbon.”

Putting a number on climate deaths isn’t just an academic exercise. People are already dying because of extreme temperature and weather events, and we can expect this to become more common as the planet continues to heat up. If governments want to put in place policies to prevent these deaths, they need a way of accurately measuring the deaths and ill health linked to warming. The search is on for the true mortality cost of carbon.

As part of this search, the UK government has made its first attempt at putting a number on climate change deaths. The UK Office for National Statistics (ONS)—an independent government agency responsible for producing official data—has for the first time reported climate-related deaths and hospital admissions in England and Wales. The report covers the years 2001 to 2020, but future reports will be released annually, revealing for the first time detailed information about the impact that climate change is having on health in the two nations. (Statistics for Scotland and Northern Ireland are recorded separately.)

The main finding from this investigation is counterintuitive. The report found that the number of deaths associated with warm or cold temperatures actually decreased between 2001 and 2020. On average, 27,755 fewer people were dying each year due to unusually warm or cold temperatures. In other words, climate change might have actually prevented over half a million deaths in England and Wales over this period. In 2001 there were 993 climate-related deaths per 100,000 people in England and Wales. By 2019 that figure had fallen to 771.

But let’s not get ahead of ourselves. There are a number of reasons why the net number of temperature-related deaths appeared to decline over this period, says Myer Glickman, head of the epidemiological, climate, and global health team at the ONS. For a start, statisticians took a relatively narrow definition of climate-related deaths. They only included deaths from conditions where scientists had previously found a clear link between temperature and disease outcome, and they also excluded any health condition where their own analysis showed no link between temperature and outcome. This means that the mortality data doesn’t include deaths from violence or natural forces (such as storms, landslides, or flooding).

The analysis also excluded deaths from air pollution, which Public Health England estimates is equivalent to between 28,000 and 36,000 deaths each year in the UK. Glickman says that there is no accepted way to separate out the effect that temperature increases have on air pollution. Add all these caveats together and it’s likely that the ONS analysis is a little on the conservative side.

Then there is the big reason why climate change has not led to more deaths in England and Wales: the very mild climate. Although average temperatures in the UK have increased by 0.9 degrees compared to the period from 1961 to 1990, its residents are not some of the 3 billion people who face unlivable conditions if greenhouse gas emissions increase rapidly. And while deaths linked to cold weather were down in England and Wales, on warmer days there was a net increase in hospital admissions linked to warmer weather. This was particularly true when it comes to injuries, which may be because more people do outdoor activities when it’s warmer or might be linked to the increases in violence and mental health problems that are associated with warmer temperatures.

The lower rate of deaths might also be a sign that our attempts to fight back against cold weather are working. Widespread flu vaccinations, support for people to pay their heating bills, and increases in home insulation mean that the coldest days didn’t hit as hard as they might have without these mitigations in place, Glickman says. And warmer homes might be a good thing now, but as summers in the UK get hotter and air-conditioning remains rare, it may start to become a problem.

The ONS will now release this data on a yearly basis, but Glickman’s next project is to look more closely at how temperature changes affected different areas. “We’re going to drill down to a local level temperature,” he says. “That’s going to give us a lot more resolution on what’s happening and who it’s happening to.” The impact of climate change might depend on how wealthy an area is, for example, or whether its residents have easy access to health care or community support.

Glickman also wants to explore indirect impacts of climate on health. “What will be a big interest in the coming years is the lower-level health impacts of things like flooding,” he says. If someone’s home is flooded, it might increase their vulnerability to respiratory disease or worsen their mental health. Researchers from the UK have already found that people with mental illnesses are more at risk of death during hot weather. We don’t know why that is exactly, but researchers think it might be because people with mental illnesses are more likely to be socially isolated or already have poorer health, which makes them more vulnerable when temperatures rise.

The team behind the ONS report are also part of a wider effort to create a global system to count climate-related health impacts. “What we don’t have is a robust set of statistics to categorize the impact of climate on health,” says Bilal Mateen, a senior manager of digital technology at Wellcome Trust, the health charity funding the new climate change health impact initiative.

The first year of the project will be spent identifying countries to partner with before developing and testing different ways of measuring climate change deaths that work for specific countries, says Mateen. The idea is to use this data to help countries devise policies that lessen the health impact of climate change. “We can begin to tease out what works, what doesn’t, and what adaptation and mitigation interventions we should be supporting,” Mateen says.

If it’s true that warmer homes and flu vaccines helped reduce climate change deaths in England and Wales, it’s a sign that populations that are healthier on the whole might be better at surviving the ravages of a heating world. Other countries may want to take note. “All policies are health policies,” says Mateen. “There is a clear need to support job stability, to address fuel poverty and every other policy that’s outside of the mandate of the health minister, because we know that those social determinants of health have downstream impact.”

Your Medical History Might Someday Include ‘Climate Change’ (WIRED)

wired.com

Rose Eveleth

01.18.2022 07:00 AM

Last summer, a doctor wrote “climate change” in his patient’s chart. But is medicine really ready to address systemic health impacts?

Last June, a heat dome settled over British Columbia, shattering the region’s heat records for five consecutive days and hitting temperatures of over 120 degrees. The dome was responsible for at least 500 human deaths (and potentially a billion marine creature casualties) and stretched the health systems in the region to their breaking point.

And at one rural hospital in Nelson, British Columbia, doctor Kyle Merritt began to feel like there was more he should do than simply treat all the patients coming in with heat stroke and exhaustion. “I was upset with what I was seeing,” he says, “I felt like it should be documented in some way.” So when a 70-year-old woman arrived with heat stroke, he wrote “climate change” in her medical chart as the underlying reason she had to be admitted to the hospital.

It was the first and only time Merritt chose to include “climate change” as an underlying condition in a patient’s chart. “It was the first patient that I felt like it was really clear cut,” he says. Had the conditions outside not been so extreme, he might have been able to discharge her and let her recover at home. When we spoke, Merritt emphasized that it was a decision he made in the heat of the moment. He never expected it to become national news.

Months later, when speaking with the founders of a small organization called Doctors for Planetary Health, Merritt shared the story of his decision to write “climate change” in the patient’s chart. When they asked to use that story in a press release accompanying a planned climate rally, Merritt didn’t think anyone was going to read the press release about this little thing that happened.

But read it they did. Eventually, Merritt’s story was all over the news, often under erroneous headlines claiming he had “diagnosed” a patient with climate change (the phrase appears in her chart as an underlying cause, not a diagnosis). The story was covered by national publications like NBC News, The Hill, The Daily Mail, along with a host of right-wing news sites like GOP USA.

Some praised the decision for bringing necessary awareness to the connection between climate change and health. “When I saw this, I thought, ‘Yes, this is what we need. We need more attention to the social determinants of health,’” says Keisha Ray, an assistant professor at the McGovern Center for Humanities and Ethics at UTHealth. Others claimed this was “the latest example of team-left lunacy.” Some columnists argued, incorrectly, that the patient probably didn’t get proper treatment because her doctor “diagnosed her” with something incurable. (Merritt admitted the patient to the emergency room and she was treated for her condition.)

When I read the story, my question was less about Merritt and more about the patient herself. Did she know she was the center of this news blip? Had he talked to her about climate change, or the fact that he was writing it in her chart? Did she give permission to be in the press release? And what are the ethics of turning a patient into a public point?

Doctors use case studies all the time to communicate with one another, and with the press. And for good reason: People connect with and remember stories far better than generalized facts. But using a patient to explain a concept, or to help educate doctors on how to treat someone more effectively, is different from using a patient’s story to make this broader, public point about climate and health. Even Merritt admitted that writing “climate change” in this woman’s chart didn’t do much to help her or other patients suffering during the heat dome. “It’s not like some other doctor was going to look at it and make sure they were never exposed to climate change,” he says. “Practically speaking, it doesn’t really do that much.”

Medicine has a checkered history when it comes to using patient stories and protecting privacy. For decades, doctors paraded patients in front of the public without their consent. In 1906, for example, a famous doctor named Wilfred Grenfell published the story of a 9-year-old boy who had accidentally shot himself in the knee. Grenfell used the boy’s full name, image, and identity, telling the tale with gusto each time he spoke to the public and his colleagues—even distorting the facts of the case, turning “slight” bleeding in the original chart into “shocking” bleeding and a “heterogeneous mass of bloody rags”—in order to entertain donors, make himself seem more heroic, and maintain his status as a celebrity doctor. Fast forward to today, and issues of patient privacy are still very present. In 2012 the ABC show NY Med, which at the time starred celebrity doctor Mehmet Oz, broadcast the death of a patient without his family’s consent. His widow won $2.2 million in a suit against the hospital.

Given that history, the question of how much to anonymize a patient in these tales is well-trod territory for medical ethicists. “As long as the physician doesn’t give any kind of identifying information, then it would be ethical. You want to always maintain the patient’s privacy,” says Ray. “But you also have to think about how minor information can be pieced together, where someone can figure out who this patient is.”

In Merritt’s case, the details provided to the press go like this: We know the patient’s age, her background medical conditions, the type of home she lives in, and that she was admitted in June. Kootenay Medical Center, where Merritt works, serves less than 4,000 patients. “That’s a lot of identifying information,” Ray said, when I told her the facts that had been publicly confirmed. “Small towns don’t tend to have a lot of physicians, so you could very well be one of three physicians.”

This feels increasingly important when a story is used in a way that might be construed as political —calling for action on something like racism or climate change. In a world where private citizens can be outed and harassed for being associated with a cause or a side, doctors who want to use a patient’s sickness to make an activist point might need to be a little more cautious. “I worry that the sensationalism of this story may encourage people like journalists to go seek this patient out,” says Ray. “And I also worry that because climate change is still very political and it still is considered a left-leaning idea, that it may encourage conservative media to go and find this person and pit them against each other.”

That hasn’t happened in this case. But Merritt says that if he were to do it over, he might have done things differently. As it unfolded, he didn’t tell the patient he was writing “climate change” in her chart. In fact, they didn’t discuss climate change at all. “If I had known when I had written that in the chart that it was something that I was doing to try and tell the story, I don’t know. I may have talked to the patient more about it and asked their permission,” he says. “But of course, at that time when I did it, I had no idea that it would ever become a story of any kind.” To this day, Merritt believes that the patient has no idea she is the one in the story.

Beyond the specifics of Merritt and his patient, the story raises big questions about how medicine can and should handle systemic impacts on health.

Merritt wrote “climate change” in a bout of frustration, wanting to document what he was seeing in real time. Other doctors have taken different approaches. Nyasha Spears, a physician at St. Luke’s Hospital in Duluth, Minnesota, takes nearly the opposite tack that Merritt did—rather than quietly writing in a chart to make a broader point, she talks to her patients constantly about climate change and the environment. “As a family doctor, my jam is habit change. This is what I do,” she says. “So my thought with climate change is, can I start peppering my conversations with patients all the time with an argument that habit change is good for them on a personal level, but also good for the environment?

In the case of Merritt’s patient, this talk might not have done much. There was nothing she could do about her conditions, no habit change she could make to avoid the scorching heat. Like many in her community, she likely couldn’t afford to install air-conditioning in her trailer, and beyond that there was little to be done. In cases like these, Ray says that maybe a climate change talk isn’t warranted. “They can feel helpless because there’s nothing that they can do,” she says. “They are literally living, and just living is making them sick.”

This reality can make things feel bleak for both doctors and patients. And to address these connections between health and structural conditions like climate change and racism, doctors will need to ask not simply what they can do for each individual patient, but also what they can change about medicine to account for and reckon with these links. Today, there is no diagnostic code for climate change, no way to link these cases up or track them in any way, but perhaps there should be.

“There’s all sorts of ICD-10 codes that are completely inane,” says Spears. “If you ever want to entertain yourself, you just start looking at ICD 10 codes. ‘Fall from a spacecraft’ is one. And so it would make perfect sense that there would be an ICD-10 code for climate change illness.” Being able to track these additional, systemic determinants of health could make it easier to prove the links, and do something about them.

Having more data doesn’t always mean making change—the impact that race and income have on health have been well proven for years, but still haven’t adequately been addressed. And Ray says that adding these codes shouldn’t stop with climate. “If you live in a poor area, then you are likely living with more environmental impacts. Are we going to start now having a code for low income? Is there going to be a code for: You don’t have enough money to live in a safe home and so you are experiencing environmental toxins? Is improper housing also going to be coded? So I just wonder how far we are willing to take it.”

This might be the silver lining in the story of Merritt’s patient. When we spoke, he told me he had recently gotten an email from Health Canada, asking to talk to him about creating a diagnostic code for climate change that doctors could use to track these impacts.

Writing “climate change” in one patient’s chart isn’t going to save the world, or even a single life—Merritt is the first to admit that—but it can start a conversation about how much the medical system is willing to adapt to the threats that its patients truly face. “I’ve learned a lot about how big of an impact a story can make,” he says.

Becoming a centaur (Aeon)

Rounding up wild horses on the edge of the Gobi desert in Mongolia, 1964. Photo by Philip Jones Griffiths/Magnum
The horse is a prey animal, the human a predator. Our shared trust and athleticism is a neurobiological miracle

Janet Jones – 14 January 2022

Horse-and-human teams perform complex manoeuvres in competitions of all sorts. Together, we can gallop up to obstacles standing 8 feet (2.4 metres) high, leave the ground, and fly blind – neither party able to see over the top until after the leap has been initiated. Adopting a flatter trajectory with greater speed, horse and human sail over broad jumps up to 27 feet (more than 8 metres) long. We run as one at speeds of 44 miles per hour (nearly 70 km/h), the fastest velocity any land mammal carrying a rider can achieve. In freestyle dressage events, we dance in place to the rhythm of music, trot sideways across the centre of an arena with huge leg-crossing steps, and canter in pirouettes with the horse’s front feet circling her hindquarters. Galloping again, the best horse-and-human teams can slide 65 feet (nearly 20 metres) to a halt while resting all their combined weight on the horse’s hind legs. Endurance races over extremely rugged terrain test horses and riders in journeys that traverse up to 500 miles (805 km) of high-risk adventure.

Charlotte Dujardin on Valegro, a world-record dressage freestyle at London Olympia, 2014: an example of high-precision brain-to-brain communication between horse and rider. Every step the horse takes is determined in conjunction with many invisible cues from his human rider, using a feedback loop between predator brain and prey brain. Note the horse’s beautiful physical condition and complete willingness to perform these extremely difficult manoeuvres.

No one disputes the athleticism fuelling these triumphs, but few people comprehend the mutual cross-species interaction that is required to accomplish them. The average horse weighs 1,200 pounds (more than 540 kg), makes instantaneous movements, and can become hysterical in a heartbeat. Even the strongest human is unable to force a horse to do anything she doesn’t want to do. Nor do good riders allow the use of force in training our magnificent animals. Instead, we hold ourselves to the higher standard of motivating horses to cooperate freely with us in achieving the goals of elite sports as well as mundane chores. Under these conditions, the horse trained with kindness, expertise and encouragement is a willing, equal participant in the action.

That action is rooted in embodied perception and the brain. In mounted teams, horses, with prey brains, and humans, with predator brains, share largely invisible signals via mutual body language. These signals are received and transmitted through peripheral nerves leading to each party’s spinal cord. Upon arrival in each brain, they are interpreted, and a learned response is generated. It, too, is transmitted through the spinal cord and nerves. This collaborative neural action forms a feedback loop, allowing communication from brain to brain in real time. Such conversations allow horse and human to achieve their immediate goals in athletic performance and everyday life. In a very real sense, each species’ mind is extended beyond its own skin into the mind of another, with physical interaction becoming a kind of neural dance.

Horses in nature display certain behaviours that tempt observers to wonder whether competitive manoeuvres truly require mutual communication with human riders. For example, the feral horse occasionally hops over a stream to reach good food or scrambles up a slope of granite to escape predators. These manoeuvres might be thought the precursors to jumping or rugged trail riding. If so, we might imagine that the performance horse’s extreme athletic feats are innate, with the rider merely a passenger steering from above. If that were the case, little requirement would exist for real-time communication between horse and human brains.

In fact, though, the feral hop is nothing like the trained leap over a competition jump, usually commenced from short distances at high speed. Today’s Grand Prix jump course comprises about 15 obstacles set at sharp angles to each other, each more than 5 feet high and more than 6 feet wide (1.5 x 1.8 metres). The horse-and-human team must complete this course in 80 or 90 seconds, a time allowance that makes for acute turns, diagonal flight paths and high-speed exits. Comparing the wilderness hop with the show jump is like associating a flintstone with a nuclear bomb. Horses and riders undergo many years of daily training to achieve this level of performance, and their brains share neural impulses throughout each experience.

These examples originate in elite levels of horse sport, but the same sort of interaction occurs in pastures, arenas and on simple trails all over the world. Any horse-and-human team can develop deep bonds of mutual trust, and learn to communicate using body language, knowledge and empathy.

Like it or not, we are the horse’s evolutionary enemy, yet they behave toward us as if inclined to become a friend

The critical component of the horse in nature, and her ability to learn how to interact so precisely with a human rider, is not her physical athleticism but her brain. The first precise magnetic resonance image of a horse’s brain appeared only in 2019, allowing veterinary neurologists far greater insight into the anatomy underlying equine mental function. As this new information is disseminated to horse trainers and riders for practical application, we see the beginnings of a revolution in brain-based horsemanship. Not only will this revolution drive competition to higher summits of success, and animal welfare to more humane levels of understanding, it will also motivate scientists to research the unique compatibility between prey and predator brains. Nowhere else in nature do we see such intense and intimate collaboration between two such disparate minds.

Three natural features of the equine brain are especially important when it comes to mind-melding with humans. First, the horse’s brain provides astounding touch detection. Receptor cells in the horse’s skin and muscles transduce – or convert – external pressure, temperature and body position to neural impulses that the horse’s brain can understand. They accomplish this with exquisite sensitivity: the average horse can detect less pressure against her skin than even a human fingertip can.

Second, horses in nature use body language as a primary medium of daily communication with each other. An alpha mare has only to flick an ear toward a subordinate to get him to move away from her food. A younger subordinate, untutored in the ear flick, receives stronger body language – two flattened ears and a bite that draws blood. The notion of animals in nature as kind, gentle creatures who never hurt each other is a myth.

Third, by nature, the equine brain is a learning machine. Untrammelled by the social and cognitive baggage that human brains carry, horses learn in a rapid, pure form that allows them to be taught the meanings of various human cues that shape equine behaviour in the moment. Taken together, the horse’s exceptional touch sensitivity, natural reliance on body language, and purity of learning form the tripod of support for brain-to-brain communication that is so critical in extreme performance.

One of the reasons for budding scientific fascination with neural horse-and-human communication is the horse’s status as a prey animal. Their brains and bodies evolved to survive completely different pressures than our human physiologies. For example, horse eyes are set on either side of their head for a panoramic view of the world, and their horizontal pupils allow clear sight along the horizon but fuzzy vision above and below. Their eyes rotate to maintain clarity along the horizon when their heads lie sideways to reach grass in odd locations. Equine brains are also hardwired to stream commands directly from the perception of environmental danger to the motor cortex where instant evasion is carried out. All of these features evolved to allow the horse to survive predators.

Conversely, human brains evolved in part for the purpose of predation – hunting, chasing, planning… yes, even killing – with front-facing eyes, superb depth perception, and a prefrontal cortex for strategy and reason. Like it or not, we are the horse’s evolutionary enemy, yet they behave toward us as if inclined to become a friend.

The fact that horses and humans can communicate neurally without the external mediation of language or equipment is critical to our ability to initiate the cellular dance between brains. Saddles and bridles are used for comfort and safety, but bareback and bridleless competitions prove they aren’t necessary for highly trained brain-to-brain communication. Scientific efforts to communicate with predators such as dogs and apes have often been hobbled by the use of artificial media including human speech, sign language or symbolic lexigram. By contrast, horses allow us to apply a medium of communication that is completely natural to their lives in the wild and in captivity.

The horse’s prey brain is designed to notice and evade predators. How ironic, and how riveting, then, that this prey brain is the only one today that shares neural communication with a predator brain. It offers humanity a rare view into a prey animal’s world, almost as if we were wolves riding elk or coyotes mind-melding with cottontail bunnies.

Highly trained horses and riders send and receive neural signals using subtle body language. For example, a rider can apply invisible pressure with her left inner calf muscle to move the horse laterally to the right. That pressure is felt on the horse’s side, in his skin and muscle, via proprioceptive receptor cells that detect body position and movement. Then the signal is transduced from mechanical pressure to electrochemical impulse, and conducted up peripheral nerves to the horse’s spinal cord. Finally, it reaches the somatosensory cortex, the region of the brain responsible for interpreting sensory information.

Riders can sometimes guess that an invisible object exists by detecting subtle equine reactions

This interpretation is dependent on the horse’s knowledge that a particular body signal – for example, inward pressure from a rider’s left calf – is associated with a specific equine behaviour. Horse trainers spend years teaching their mounts these associations. In the present example, the horse has learned that this particular amount of pressure, at this speed and location, under these circumstances, means ‘move sideways to the right’. If the horse is properly trained, his motor cortex causes exactly that movement to occur.

By means of our human motion and position sensors, the rider’s brain now senses that the horse has changed his path rightward. Depending on the manoeuvre our rider plans to complete, she will then execute invisible cues to extend or collect the horse’s stride as he approaches a jump that is now centred in his vision, plant his right hind leg and spin in a tight fast circle, push hard off his hindquarters to chase a cow, or any number of other movements. These cues are combined to form that mutual neural dance, occurring in real time, and dependent on natural body language alone.

The example of a horse moving a few steps rightward off the rider’s left leg is extremely simplistic. When you imagine a horse and rider clearing a puissance wall of 7.5 feet (2.4 metres), think of the countless receptor cells transmitting bodily cues between both brains during approach, flight and exit. That is mutual brain-to-brain communication. Horse and human converse via body language to such an extreme degree that they are able to accomplish amazing acts of understanding and athleticism. Each of their minds has extended into the other’s, sending and receiving signals as if one united brain were controlling both bodies.

Franke Sloothaak on Optiebeurs Golo, a world-record puissance jump at Chaudfontaine in Belgium, 1991. This horse-and-human team displays the gentle encouragement that brain-to-brain communication requires. The horse is in perfect condition and health. The rider offers soft, light hands, and rides in perfect balance with the horse. He carries no whip, never uses his spurs, and employs the gentlest type of bit – whose full acceptance is evidenced by the horse’s foamy mouth and flexible neck. The horse is calm but attentive before and after the leap, showing complete willingness to approach the wall without a whiff of coercion. The first thing the rider does upon landing is pat his equine teammate. He strokes or pats the horse another eight times in the next 30 seconds, a splendid example of true horsemanship.

Analysis of brain-to-brain communication between horses and humans elicits several new ideas worthy of scientific notice. Because our minds interact so well using neural networks, horses and humans might learn to borrow neural signals from the party whose brain offers the highest function. For example, horses have a 340-degree range of view when holding their heads still, compared with a paltry 90-degree range in humans. Therefore, horses can see many objects that are invisible to their riders. Yet riders can sometimes guess that an invisible object exists by detecting subtle equine reactions.

Specifically, neural signals from the horse’s eyes carry the shape of an object to his brain. Those signals are transferred to the rider’s brain by a well-established route: equine receptor cells in the retina lead to equine detector cells in the visual cortex, which elicits an equine motor reaction that is then sensed by the rider’s human body. From there, the horse’s neural signals are transmitted up the rider’s spinal cord to the rider’s brain, and a perceptual communication loop is born. The rider’s brain can now respond neurally to something it is incapable of seeing, by borrowing the horse’s superior range of vision.

These brain-to-brain transfers are mutual, so the learning equine brain should also be able to borrow the rider’s vision, with its superior depth perception and focal acuity. This kind of neural interaction results in a horse-and-human team that can sense far more together than either party can detect alone. In effect, they share effort by assigning labour to the party whose skills are superior at a given task.

There is another type of skillset that requires a particularly nuanced cellular dance: sharing attention and focus. Equine vigilance allowed horses to survive 56 million years of evolution – they had to notice slight movements in tall grasses or risk becoming some predator’s dinner. Consequently, today it’s difficult to slip even a tiny change past a horse, especially a young or inexperienced animal who has not yet been taught to ignore certain sights, sounds and smells.

By contrast, humans are much better at concentration than vigilance. The predator brain does not need to notice and react instantly to every stimulus in the environment. In fact, it would be hampered by prey vigilance. While reading this essay, your brain sorts away the sound of traffic past your window, the touch of clothing against your skin, the sight of the masthead that says ‘Aeon’ at the top of this page. Ignoring these distractions allows you to focus on the content of this essay.

Horses and humans frequently share their respective attentional capacities during a performance. A puissance horse galloping toward an enormous wall cannot waste vigilance by noticing the faces of each person in the audience. Likewise, the rider cannot afford to miss a loose dog that runs into the arena outside her narrow range of vision and focus. Each party helps the other through their primary strengths.

Such sharing becomes automatic with practice. With innumerable neural contacts over time, the human brain learns to heed signals sent by the equine brain that say, in effect: ‘Hey, what’s that over there?’ Likewise, the equine brain learns to sense human neural signals that counter: ‘Let’s focus on this gigantic wall right here.’ Each party sends these messages by body language and receives them by body awareness through two spinal cords, then interprets them inside two brains, millisecond by millisecond.

The rider’s physical cues are transmitted by neural activation from the horse’s surface receptors to the horse’s brain

Finally, it is conceivable that horse and rider can learn to share features of executive function – the human brain’s ability to set goals, plan steps to achieve them, assess alternatives, make decisions and evaluate outcomes. Executive function occurs in the prefrontal cortex, an area that does not exist in the equine brain. Horses are excellent at learning, remembering and communicating – but they do not assess, decide, evaluate or judge as humans do.

Shying is a prominent equine behaviour that might be mediated by human executive function in well-trained mounts. When a horse of average size shies away from an unexpected stimulus, riders are sitting on top of 1,200 pounds of muscle that suddenly leaps sideways off all four feet and lands five yards away. It’s a frightening experience, and often results in falls that lead to injury or even death. The horse’s brain causes this reaction automatically by direct connection between his sensory and motor cortices.

Though this possibility must still be studied by rigorous science, brain-to-brain communication suggests that horses might learn to borrow small glimmers of executive function through neural interaction with the human’s prefrontal cortex. Suppose that a horse shies from an umbrella that suddenly opens. By breathing steadily, relaxing her muscles, and flexing her body in rhythm with the horse’s gait, the rider calms the animal using body language. Her physical cues are transmitted by neural activation from his surface receptors to his brain. He responds with body language in which his muscles relax, his head lowers, and his frightened eyes return to their normal size. The rider feels these changes with her body, which transmits the horse’s neural signals to the rider’s brain.

From this point, it’s only a very short step – but an important one – to the transmission and reception of neural signals between the rider’s prefrontal cortex (which evaluates the unexpected umbrella) and the horse’s brain (which instigates the leap away from that umbrella). In practice, to reduce shying, horse trainers teach their young charges to slow their reactions and seek human guidance.

Brain-to-brain communication between horses and riders is an intricate neural dance. These two species, one prey and one predator, are living temporarily in each other’s brains, sharing neural information back and forth in real time without linguistic or mechanical mediation. It is a partnership like no other. Together, a horse-and-human team experiences a richer perceptual and attentional understanding of the world than either member can achieve alone. And, ironically, this extended interspecies mind operates well not because the two brains are similar to each other, but because they are so different.

Janet Jones applies brain research to training horses and riders. She has a PhD from the University of California, Los Angeles, and for 23 years taught the neuroscience of perception, language, memory, and thought. She trained horses at a large stable early in her career, and later ran a successful horse-training business of her own. Her most recent book, Horse Brain, Human Brain (2020), is currently being translated into seven languages.

Edited by Pam Weintraub

Mauro Calliari: O que seria da filosofia e da literatura sem o caminhar? (Folha de S.Paulo)

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Em tempos de metaverso, botar um pé depois do outro pode ser uma chance de se reconectar com o mundo real

14.jan.2022 às 8h04 5-7 minutes


Nietszche caminhava compulsivamente. Rousseau, que cruzou os Alpes a pé, dizia que seu escritório eram suas trilhas. Thoreau percorria sem cessar as terras ao redor do lago Walden, onde se exilou do mundo por dois anos, exercitando a relação com a natureza que moldou sua filosofia de vida.

O caminhar parece estar na raiz da inspiração de pensadores. Se andar a pé é um dos atos mais naturais da humanidade, a relação entre o fluxo do pensamento e o caminhar é menos óbvia. Um dos livros mais bonitos sobre essa relação é “Caminhar, uma filosofia”, do professor de filosofia francês Frédéric Gros, que ganhou nova tradução e foi relançado pela Editora Ubu. O livro esmiúça e expande as perambulações de um punhado de filósofos e escritores para quem o andar era parte do processo criativo, seja como inspiração, seja como catalisador de suas reflexões.

Desde que o li pela primeira vez há alguns anos, “Caminhar…” parece abrir novas janelas mentais a cada visita. Mais que narrar a relação entre o pensamento e o caminhar, Gros nos leva a refletir sobre as tantas formas do andar, do peregrino medieval aos poetas ingleses, dos grandes montanhistas aos andarilhos solitários, passando até pelas marchas políticas de Gandhi, que sensibilizaram a Índia contra a insensatez do imperialismo inglês. Cada caminhante encontra seu ritmo e seu propósito.

Em “Merlí”, série catalã que fez sucesso no Brasil, o professor de filosofia batizou sua classe de “peripatéticos”, numa alusão ao método dos filósofos gregos, que supostamente caminhavam enquanto ensinavam seus pupilos. Talvez a imagem seja uma caricatura. Gros sugere que a palavra pode ter mais relação com um lugar no liceu de Aristóteles –o peripatos– do que propriamente com um método de ensino.

Kant era um caso à parte. O filósofo alemão se apoiava na previsibilidade da rotina para produzir. Os habitantes de Konigsberg se divertiam ao vê-lo todos os dias andando no mesmo horário, pelo mesmo caminho, depois de lecionar, comer com os amigos e tirar uma pequena sesta. A conclusão de Gros é que o monumento da obra de Kant foi, justamente, construído assim, dia a dia, metódica e concentradamente, um passo de cada vez.

Baudelaire não poderia estar de fora. O mais incensado de todos os flâneurs aparece como um revolucionário, desafiando com seu andar e sua poesia o consumismo e o utilitarismo, os valores do nascente mundo moderno. Em outro livro memorável, “Tudo que é sólido desmancha no ar”, Marhsall Bermann reposiciona Baudelaire, na verdade, como um dos pioneiros da modernidade. Em meio à transformação de Paris, com seus bulevares abrindo caminho por entre o tecido medieval, Baudelaire é o poeta que abraça a mudança que o ameaça –e ainda se delicia com o “banho de multidão”. Isso sim é ser moderno.

As mulheres têm espaço nesse caminhar, como Jane Austen, ela mesma uma caminhante concentrada, que fazia suas personagens andarem quilômetros pelos moors encharcados. Mas é Virginia Woolf quem tem um dos textos mais expressivos sobre a delícia de andar. Em seu livro “Mrs. Dalloway”, a personagem sai de casa para comprar flores e descobre o prazer de mergulhar na cidade –ali “estava tudo que ela amava. Londres, a vida, este momento de junho”. Difícil ser mais eloquente sobre a emoção sensorial do caminhar.

O livro não menciona nenhum brasileiro, mas a crônica brasileira talvez não existisse sem o caminhar. João do Rio foi um dos nossos mais icônicos caminhantes-cronistas, no comecinho do século 20, conjecturando sobre as mudanças urbanas na recém-inaugurada av. Central (depois av. Rio Branco) mas também sobre rinhas de galo, terreiros, conversas nos bondes, prostitutas, o cais e tudo o que fazia do Rio o grande cenário da urbanidade brasileira. Vale a pena ler o livrinho “A Rua”, das Edições Barbatana, em que o dândi carioca entoa uma verdadeira ode à vida urbana, que tem o que é possivelmente uma das melhores aberturas de um texto: “Eu amo a rua”.

Inspirado pelos filósofos que lidam com as grandes questões da vida, do amor e da morte, enquanto caminham, me peguei pensando nas nossas vidas cotidianas, nos milhões de pessoas que saem de suas casas, andando para ir à escola, para pegar o ônibus, para ir trabalhar todos os dias.

Será que nesses trajetos diários temos tempo de nos abrir para as surpresas da cidade e filosofar um pouquinho que seja? Acho que sim. Nossas ruas não são os bulevares parisienses e nem estamos flanando sem objetivo, mas acho que é possível reservar uns minutos a mais em alguns percursos para poder explorar a cidade durante um dia normal. Quem sabe a pequena caminhada de volta a casa possa gerar uma surpresa feliz, um pensamento transformador ou pelo menos, à maneira de Baudelaire, o prazer de estar vivo enquanto nos perdemos no meio do burburinho da cidade e da multidão?

Máximas passam de 40°C no RS em meio a onda de calor extremo (Folha de S.Paulo)

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Fernanda Canofre – 13 de janeiro de 2022


A onda de calor em meio a estiagem no Rio Grande do Sul tem levado os termômetros do estado a máximas acima dos 40°C desde a quarta-feira (12), segundo registros de estações do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, temperatura máxima registrada foi de 41,5°C na quarta, segundo registro do instituto, a maior do estado em 2022 até o momento. Esta é também a maior temperatura já registrada na estação automática, desde que a mesma foi instalada, em 2007.

Nesta quinta-feira (13), o município voltou a registrar máxima acima de 40°C, chegando a 41,2°C. Em Uruguaiana, na região da Fronteira Oeste, onde a temperatura chegou a 41,1°C no dia anterior, a máxima foi de 41°C nesta quinta. Em Porto Alegre, ela chegou a 34,8°C.

A previsão no Rio Grande do Sul é de temperaturas ainda mais elevadas nos próximos dias, que podem levar a registros recordes.

O calor extremo é resultado de um bloqueio atmosférico, sistema de alta pressão —instalado na região que pega parte da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil— que mantém o ar seco há vários dias consecutivos e impede a entrada de frentes frias, explica Daniela Freitas, meteorologista da empresa Climatempo.

“Funciona como se fosse uma tampa que impede que as frentes frias ou mesmo sistemas de baixa pressão consigam avançar. Como se fosse uma barreira. A gente sabe que para ter esse refresco na temperatura precisa ter chuva. O que está acontecendo é que estamos com ar muito seco instalado naquela região há vários dias, por isso vem ganhando força e a temperatura está subindo”, diz ela.

Depois do fim de semana, porém, a previsão é que haja uma quebra nesse padrão de bloqueio, trazendo assim chuvas a região já na próxima semana e fazendo com que o calor perca força.

Estael Sias, meteorologista da empresa MetSul, lembra que a temperatura mais alta registrada no estado em mais de cem anos de medições foi de 42,6°C. A marca foi registrada em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, em janeiro de 1943.

Termômetros batendo nos 40°C não são comuns no Rio Grande do Sul —a análise leva em consideração números das estações oficiais do Inmet.

“A gente está dentro de um período de estiagem severa no Rio Grande do Sul, longo, de baixa umidade no solo, na atmosfera, nível dos rios muito baixos, é normal ocorrer picos de calor, justamente pelo tempo mais firme, ainda mais no período de verão, em que temos muitas horas de luminosidade”, explica.

“Tudo isso favorece essas ondas de calor extremo. Pelos dados históricos, os anos mais quentes no RS, com temperaturas mais altas, 1917 e 1943, também tiveram estiagem severa”, completa.

Um cálculo da FecoAgro-RS (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul) aponta que as perdas financeiras aos produtores de milho e soja, devido à falta de chuvas, podem passar de R$ 19 bilhões.

Até o dia 7 de janeiro, 195 mil propriedades rurais já haviam sido atingidas com perdas devido à seca, segundo dados da Emater-RS. O levantamento aponta ainda 10,2 mil famílias sem acesso à água, 84,7 mil produtores de milho atingidos e 72 mil produtores de soja, além da queda de 1,6 milhão de litros de leite captados ao dia no estado.

Em Santa Catarina, o Epagri/Ciram emitiu aviso de forte calor no extremo oeste e oeste do estado, válido entre o meio-dia desta quinta e às 18h de sábado. A previsão fala em forte calor, com máximas acima de 35°C e umidade relativa do ar entre 30% e 40%.

Até esta quarta-feira, a máxima diária do estado em 2022 foi de 38,2°C, alcançada no dia 2 de janeiro, na cidade de Urussanga.

O recorde absoluto de máximas na região sul do país foi registrado em Santa Catarina, com a marca de 44,6°C registrada em Orleans, em 1963, segundo dados do Inmet.

Em meio ao calor extremo na região, áreas altas do estado, como São Joaquim, que costuma registrar as temperaturas mais baixas do país, chegaram a amanhecer com geada na última quarta-feira, de acordo com a MetSul. O fenômeno se dá pela baixa umidade do ar.