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Forças Armadas no governo Bolsonaro deixaram de agir na terra yanomami em sete ocasiões (Folha de S.Paulo)

Defesa barrou aeronaves a ações contra garimpo e faltou monitoramento de espaço aéreo; militares só agiriam em situações extremamente excepcionais, disse ex-ministro

www1.folha.uol.com.br

Vinicius Sassine

4 de fevereiro de 2023


Durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), as Forças Armadas deixaram de atuar no combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami ou tiveram uma atuação insuficiente em, pelo menos, sete ocasiões —o que enfraqueceu ações policiais e contribuiu para a expansão da atividade criminosa no território.

O ápice da atuação de mais de 20 mil invasores foi em 2022, o último ano do governo.

A Folha ouviu fontes com atuação direta em ações de tentativa de desmobilização de garimpeiros, consultou documentos enviados ao STF (Supremo Tribunal Federal) e ao MPF (Ministério Público Federal) e analisou decisões judiciais, o que permitiu identificar sete situações envolvendo os militares que, no fim das contas, favoreceram a permanência do garimpo na terra yanomami.

O território fica numa região de fronteira com a Venezuela. O Ministério da Defesa de Bolsonaro barrou o fornecimento de aeronaves a operações da PF (Polícia Federal) em 2022, feitas em cumprimento a decisão do STF. Quando forneceu, os militares cobraram ressarcimento.

Houve ainda pedidos do tipo para uso de base militar em Surucucu e falta de monitoramento do espaço aéreo do garimpo.

A conivência com o garimpo ilegal e a desassistência em saúde indígena na terra yanomami provocaram uma crise humanitária no território, com explosão de casos de malária, desnutrição grave e outras doenças associadas à fome, como infecções respiratórias.

No último dia 20, o governo Lula (PT) declarou estado de emergência em saúde pública na terra indígena. Os casos que demandam mais urgência –tanto na assistência em saúde no próprio território, nas regiões de Surucucu e Auaris, quanto nos transportes aéreos a hospitais em Boa Vista (RR)– são os de desnutrição grave e malária.

Cinco dias depois, em atendimento a uma determinação do ministro da Justiça, Flávio Dino, a PF em Roraima instaurou um inquérito para investigar a suspeita de crime de genocídio de indígenas yanomamis durante o governo Bolsonaro.

Serão investigados garimpeiros (tanto os que estão na linha de frente quanto os operadores da logística do garimpo, donos de maquinários e aviões), ex-coordenadores de saúde indígena e agentes políticos, o que pode incluir o próprio ex-presidente, incentivador de mineração em terras indígenas.

As frentes de investigação sobre genocídio foram ampliadas com uma decisão do ministro Luís Roberto Barroso, do STF, que determinou que a PGR (Procuradoria-Geral da República) investigue a suposta prática do crime por parte de autoridades do governo Bolsonaro.

Barroso encaminhou ainda a determinação de investigação sobre genocídio e outros crimes ao MPM (Ministério Público Militar), um indicativo de que crimes militares foram cometidos por fardados ou ex-fardados durante a gestão passada.

Em 2022, dos 3 ciclos de operações planejadas para a retirada dos invasores da terra yanomami, apenas 1 contou com aeronaves das Forças Armadas, segundo fontes da PF ouvidas pela reportagem sob a condição de anonimato.

Esses ciclos foram pensados para cumprimento de ordem do STF de desintrusão em sete terras indígenas tomadas por garimpo, entre as quais a terra yanomami, a maior do Brasil.

No único ciclo em que houve fornecimento de aeronaves, a PF desembolsou de seu orçamento R$ 2,5 milhões para o custeio de horas por voo de uma única aeronave. Na operação, houve destruição de motores e equipamentos a serviço do garimpo.


As 7 recusas militares no governo Bolsonaro

  • Fornecimento de aeronave para uma operação na terra indígena em 2022 somente mediante custeio pela PF
  • Negativa do fornecimento de aeronave em uma segunda operação em 2022
  • Negativa do fornecimento de aeronave em uma terceira operação em 2022
  • Recusa de solicitação de monitoramento do espaço aéreo nos moldes especificados pela PF
  • Cobrança pelo uso da base militar na região de Surucucu, onde crise de saúde foi mais intensa
  • Falta de apoio logístico para retomada de região de Homoxi, onde garimpeiros inviabilizaram uso de pista de pouso da saúde indígena e atearam fogo em unidade de saúde
  • Falta de controle do tráfego aéreo de Roraima e de intercepção de aeronaves supostamente usadas no garimpo

Nas outras duas operações em 2022 na terra indígena, o Ministério da Defesa também fez exigências de ressarcimentos orçamentários, o que inviabilizou a disponibilidade de aeronaves.

Em um caso, foram usados helicópteros do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), com destruição de maquinário no rio Uraricoera, um dos mais impactados pelo garimpo na terra yanomami.

No segundo caso de recusa de aeronaves pelos militares, policiais federais e agentes do Ibama fizeram a operação apenas por terra, o que resultou na destruição de uma aeronave do garimpo.

A ausência da Defesa impactou negativamente os resultados das operações. Os efeitos foram ínfimos na estrutura do garimpo ilegal, operado com maquinário pesado e com uma frota extensa de aviões e helicópteros irregulares.

A PF em Roraima não tem aeronaves disponíveis para ações como a de combate a garimpo ilegal, o que amplia a dependência de aviões e helicópteros das Forças Armadas.

Um documento da PF encaminhado ao STF, no curso da ação movida para retirada de garimpeiros de terras indígenas, dá mais detalhes sobre o papel desempenhado pelo Ministério da Defesa nessas operações.

Segundo o documento, em reuniões entre PF e Defesa, os militares apresentavam os custos necessários para o fornecimento de aeronaves.

Isso se deu numa ação prevista para desocupação da base de Homoxi, que acabou ficando pelo caminho por falta de apoio logístico.

Homoxi é uma região na terra yanomami que foi tomada por garimpeiros. Eles cercaram a unidade de saúde, tomaram a pista de pouso antes usada por aeronaves que transportam indígenas para atendimento médico e, por fim, em dezembro de 2022, atearam fogo na unidade. Desde maio, uma decisão da Justiça Federal em Roraima obrigava a retomada do lugar pelo governo Bolsonaro.

Fontes ligadas a ações de repressão ao garimpo afirmam ainda que pedidos para monitoramento do espaço aéreo na terra indígena não foram adiante, com alegação dos militares de que as aeronaves do garimpo voam muito baixo.

Também houve pedido para ressarcimento de recursos pelo uso de base militar em Surucucu. A região, uma das mais atingidas pela crise de saúde, tem um PEF (Pelotão Especial de Fronteira) do Exército.

A decisão de Barroso que determina investigação por PGR e MPM, a partir de um procedimento sigiloso no STF, traz detalhes sobre outros episódios envolvendo os militares e ações em terras indígenas.

O ministro disse que devem ser investigados crimes de genocídio, desobediência, quebra de segredo de Justiça e crimes ambientais com impactos na vida, saúde e segurança dos indígenas.

Os casos identificados pela reportagem dizem respeito ao período em que os ministros da Defesa eram o general da reserva Walter Braga Netto (PL), que depois foi candidato a vice-presidente na chapa de Bolsonaro à reeleição, e o general da reserva Paulo Sérgio Nogueira, o último a exercer o cargo na gestão passada.

A Folha não conseguiu contato com os dois generais.

Em um ofício ao MPF em outubro de 2022, para explicar a falta de apoio logístico na terra yanomami, Nogueira disse que a solicitação de colaboração das Forças Armadas “é de iniciativa do órgão federal de assistência ao índio”. A atuação prioritária deve ser da PF, segundo o então ministro da Defesa.

“A atuação das Forças Armadas em matéria de segurança pública deve ocorrer em situações extremamente excepcionais, quando esgotados os meios e instrumentos dos órgãos de segurança pública”, afirmou o general.

“A Marinha, o Exército e a Aeronáutica não podem atuar na segurança pública interna do país, exceto em situações temporárias e justificadas pela incapacidade dos órgãos de segurança pública de garantirem a lei e a ordem, ou seja, diante de um quadro emergencial e temporário, dependendo, inclusive, do reconhecimento da falência dos órgãos por governador ou presidente.”

O Ministério da Defesa da gestão Lula não se manifestou sobre a atuação dos militares na terra yanomami durante o governo passado.

O projeto tem o apoio da Open Society Foundations.

Opinion | The Crypto Collapse and the End of Magical Thinking (New York Times)

nytimes.com

Mihir A. Desai – Jan. 16, 2023


Guest Essay

Translucent coins fly toward you amid a colorful backdrop of lines, dots and curlicues.
Credit: Petra Péterffy

At a guest lecture at a military academy when the price of a single Bitcoin neared $60,000, I was asked, as finance professors often are, what I thought about cryptocurrencies. Rather than respond with my usual skepticism, I polled the students. More than half of attendees had traded cryptocurrencies, often financed by loans.

I was stunned. How could this population of young people come to spend time and energy in this way? And these students were hardly alone. The appetite for crypto has been most pronounced among Gen Z and millennials. Those groups became investors in the past 15 years at previously unseen rates and with exceedingly optimistic expectations.

I have come to view cryptocurrencies not simply as exotic assets but as a manifestation of a magical thinking that had come to infect part of the generation who grew up in the aftermath of the Great Recession — and American capitalism, more broadly.

For these purposes, magical thinking is the assumption that favored conditions will continue on forever without regard for history. It is the minimizing of constraints and trade-offs in favor of techno-utopianism and the exclusive emphasis on positive outcomes and novelty. It is the conflation of virtue with commerce.

Where did this ideology come from? An exceptional period of low interest rates and excess liquidity provided the fertile soil for fantastical dreams to flourish. Pervasive consumer-facing technology allowed individuals to believe that the latest platform company or arrogant tech entrepreneur could change everything. Anger after the 2008 global financial crisis created a receptivity to radical economic solutions, and disappointment with traditional politics displaced social ambitions onto the world of commerce. The hothouse of Covid’s peaks turbocharged all these impulses as we sat bored in front of screens, fueled by seemingly free money.

With Bitcoin now trading at around $17,000, and amid declining stock valuations and tech sector layoffs, these ideas have begun to crack. The unwinding of magical thinking will dominate this decade in painful but ultimately restorative ways — and that unwinding will be most painful to the generation conditioned to believe these fantasies.

Cryptocurrency is the most ideal vessel of these impulses. A speculative asset with a tenuous underlying predetermined value provides a blank slate that meaning can be imposed onto. Crypto boosters have promised to replace governments by supplanting traditional currencies. They vowed to reject the traditional banking and financial system through decentralized finance. They said they could reject the purported stranglehold of internet giants on commerce through something called Web 3.0. They insisted we could reject the traditional path toward success of education, savings and investment by getting in early on dogecoin, a meme coin intended as a joke that reached a peak market capitalization of over $80 billion.

These illusory and ridiculous promises share a common anti-establishment sentiment fueled by a technology that most of us never understood. Who needs governments, banks, the traditional internet or homespun wisdom when we can operate above and beyond?

Mainstream financial markets came to manifest these same tendencies, as magical thinking pervaded the wider investor class. During a period of declining and zero interest rates, mistakes and mediocrities were obscured or forgiven, while speculative assets with low probabilities of far-off success inflated in value enormously. Hawkers pitching shiny new vehicles — like “stablecoins” that purportedly transformed speculative assets into stable ones and novel ways of taking companies public without typical regulatory scrutiny — promised greater returns while dismissing greater risks, a hallmark of the ignorance of trade-offs in magical thinking. For an extended period, many investors bought the equivalent of lottery tickets. And many won.

The real economy could not escape infection. Companies flourished by inflating their scope and ambition to feed the desire for magical thinking. WeWork, a mundane business that provided flexible work spaces, was portrayed as a spiritual enterprise that would remake the human condition. Its valuation soared, obscuring the questionable activities of its founders. Facebook and Google reconceived themselves as technological powerhouses, rebranding as Meta and Alphabet, respectively. They sought broad capabilities that they could flex at will in the metaverse or with their “moonshot projects” when, in fact, they are prosaic (if extremely effective) advertising businesses. They are now struggling with many of their fantastical efforts.

Most broadly, many corporations have come to embrace broader social missions in response to the desire of younger investors and employees to use their capital and employment as instruments for social change. Another manifestation of magical thinking is believing that the best hope for progress on our greatest challenges — climate change, racial injustice and economic inequality — are corporations and individual investment and consumption choices, rather than political mobilization and our communities.

I confess that this screed reflects my own experience. For the past decade, being a finance professor meant being asked about crypto or about novel valuation methods for unprofitable companies — and being smiled at (and ignored) when I would counter with traditional instincts. Every business problem, I am told, can be solved in radically new and effective ways by applying artificial intelligence to ever-increasing amounts of data with a dash of design thinking. Many graduates coming of age in this period of financial giddiness and widening corporate ambition have been taught to chase these glittery objects with their human and financial capital instead of investing in sustainable paths — a habit that will be harder to instill at later ages.

Embracing novelty and ambition in the face of huge problems is to be lauded, but the unhinged variety of these admirable traits that we have seen so much of in recent years is counterproductive. The fundamentals of business have not changed merely because of new technologies or low interest rates. The way to prosper is still by solving problems in new ways that sustainably deliver value to employees, capital providers and customers. Over-promising the scope of change created by technology and the possibilities of business and finance to a new generation will lead only to disaffection as these promises falter. All those new investors and crypto owners may nurse a grudge against capitalism, rather than understand the perverse world they were born into.

The end of magical thinking is upon us as cryptocurrencies and valuations are collapsing — and that is good news. Vested interests will resist that trend by continuing to propagate fictions. But rising rates and a return to more routine business cycles will continue to provide the rude awakening that began in 2022.

What comes next? Hopefully, a revitalization of that great American tradition of pragmatism will follow. Speculative assets without any economic function should be worth nothing. Existing institutions, flawed as they are, should be improved upon rather than being displaced. Risk and return are inevitably linked.

Corporations are valuable socially because they solve problems and generate wealth. But they should not be trusted as arbiters of progress and should be balanced by a state that mediates political questions. Trade-offs are everywhere and inescapable. Navigating these trade-offs, rather than ignoring them, is the recipe for a good life.

Mihir A. Desai is a professor at Harvard Business School and Harvard Law School and the author of “How Finance Works and The Wisdom of Finance.”

USC to keep using word ‘field’ despite departmental ban over slavery ‘connotations’ (Washington Times)

washingtontimes.com

Valerie Richardson

Thursday, January 12, 2023

Southern California quarterback Caleb Williams (13) throws during an NCAA college football practice Tuesday, April 5, 2022, in Los Angeles. Williams isn’t a typical transfer. Rather than adapting to a new coach and an entirely new system, Williams has followed Lincoln Riley from Oklahoma to USC. So he’s playing for the same coach, albeit at a different school. (AP Photo/Marcio Jose Sanchez, File)

The University of Southern California isn’t banning the word “field,” no matter what its School of Social Work may say.

 Elizabeth A. Graddy, interim provost and senior vice president for academic affairs, said Thursday there is no campus prohibition on the use of “field” after an uproar over the USC Suzanne Dworak-Peck School of Social Work’s decision to replace the term with “practicum.”

 “The university does not maintain a list of banned or discouraged words. We will continue to use words – including ‘field’ – that accurately encompass and describe our work and research,” said Ms. Graddy in an email to The Washington Times.

 The School of Social Work was mocked relentlessly after the release of a Jan. 9 memo showing that the department had decided to abolish the word “field” from its curriculum, citing its association with slavery.

 The memo from the “Practicum Education Department” said the change aligns with initiatives including the 2021 National Association of Social Work’s “commitment to undoing racism through social work.”

 “This change supports anti-racist social work practice by replacing language that could be considered anti-Black or anti-immigrant in favor of inclusive language,” said the document. “Language can be powerful, and phrases such as ‘going into the field’ or ‘field work’ may have connotations for descendants of slavery and immigrant workers that are not benign.”

 The memo was apparently posted first on Twitter by Houman David Hemmati, a Los Angeles doctor who studied at crosstown rival UCLA.

 “Is this with merit or empty virtue signaling?” he asked.

 Most responders went with the latter. Comments included “Ridiculous,” “Total insanity,” “For the love of all that’s holy, please make it stop,” and “Are my dreams coming true that I can call a soccer field a pitch?”

 Others pointed out that USC has several large grassy expanses that include the f-word in their names, including Soni McAlister Field, Brittingham Intramural Field, and the Howard Jones Field/Brian Kennedy Field, where the Trojans football team practices.

 “The USC Trojans Come Out of the Locker Room and Line Up on the Practicum,” said a Thursday headline on National Review.

The USC social-work school isn’t alone. The Michigan Department of Health and Human Services said it would discontinue using “field work” and “field worker,” suggesting alternatives such as “community office,” according to a Jan. 4 memo obtained by the Washington Free Beacon.

 USC’s School of Social Work offers advanced degrees that include a Master of Social Work and Master of Science in Nursing, which could be problematic, given that at least one realtors’ association has banned the word “master” over its connection to slavery.

 The departmental memo acknowledged that “changing terminology can be challenging, and a complete transition will take some time, but we thank you in advance for joining in this effort.”

De ministra a candidato ao STF: os indígenas estão fazendo história no Brasil (Terra)

terra.com.br

Erisvan Guajajara


O ano de 2023 será profundamente marcado pelo protagonismo dos povos indígenas

4 jan 2023 – 16h19

(atualizado às 18h03)

Uma reparação histórica acontece nesse momento. Pela primeira vez depois de 522 anos, teremos indígenas no alto escalão do governo e nos espaços de poder. 

O inédito Ministério dos Povos Indígenas tem à frente uma mulher indígena, Sônia Guajajara, que desde que assumiu seu cargo já recebeu várias lideranças indígenas para o diálogo e para a construção coletiva de lutar por direitos. Uma conquista do movimento indígena e a certeza de que a luta coletiva sempre trás boas conquistas. 

Presidente Lula e a ministra Sônia Guajajara: nesse início de ano, povos indígenas contabilizam vitórias importantes para a luta coletiva dos povos
Presidente Lula e a ministra Sônia Guajajara: nesse início de ano, povos indígenas contabilizam vitórias importantes para a luta coletiva dos povos. Foto: Divulgação/Ricardo Stuckert

Outro marco na história é ter uma mulher indígena na Presidência da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI). Joenia Wapichana é a nossa presidenta, a Funai terá a cara dos nossos povos e a força de uma guerreira indígena. Ela foi a primeira mulher advogada indígena e deputada federal do Brasil. A Funai faz parte do nosso Ministério dos Povos Indígenas (MPI). Com os dois órgãos e as duas lideranças construiremos para nossos povos proteção e segurança. E para nosso território, demarcação. 

E a luta não para por aqui. Essa semana saiu a nomeação do vereador Weibe Tapeba para a Secretaria Especial de Saúde Indígena, que será o primeiro indígena a comandar o órgão que cuida da saúde dos povos indígenas do Brasil. Weibe Tapeba é Líder do povo indígena Tapeba, do município de Caucaia. Foi coordenador da Federação dos Povos e Organizações Indígenas do Ceará, é integrante do departamento jurídico da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo. Vale ressaltar que assim como à Joenia, Weibe foi um dos três nomes sugeridos pela Apib (Associação de Povos Indígenas do Brasil) para ser indicado ministro dos Povos Indígenas, que teve Sônia Guajajara como nomeada. 

As conquistas continuam: o advogado Eloy Terena será o secretário-executivo do Ministério dos Povos Indígenas. O anúncio oficial aconteceu nesta quarta-feira (4). Terena é integrante da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e defende a pauta indígena em diversos processos no Supremo Tribunal Federal (STF), como o caso do marco temporal e de demarcação das terras indígenas. A convite da ministra, ele aceitou o cargo e irá compor o ministério.

O movimento indígena, inclusive, vê o nome dele como uma possível indicação para o Supremo. A ideia da direção da Apib é articular para que ele seja um dos cotados nas vagas que serão abertas na corte durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O petista fará ao menos duas indicações. 

Para reforçar mais ainda a presença de indígenas nos espaços de poder, Célia Xacriabá será a nossa voz no congresso. Eleita deputada federal por Minas Gerais, já começou suas articulações para defender os direitos dos povos indígenas do Brasil. Que os encantados guiem nossos parentes e que a luta democrática traga bons frutos de esperança de dias melhores para os povos indígenas.

Posse de Lula: Cacique Cobra Coral diz que foi chamado para garantir que não chova na cerimônia (O Globo)

oglobo.globo.com

Por Luiz Ernesto Magalhães

01/01/2023 11h18


Menos de 24 horas depois de trabalhar por um réveillon sem chuvas no Rio de Janeiro, a médium Adelaide Scritori, que diz incorporar o espírito do Cacique Cobra Coral, capaz de manipular o clima, se movimenta agora para que não caia um pingo d’água na cerimônia de posse do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva em Brasília. O porta-voz da instituição, Osmar Santos, chegou há pouco à capital em uma ”missão de reconhecimento”’ e diz que foram chamados a pedido de uma pessoa ligada à Janja, futura primeira-dama do país.

— Fomos convocados por uma pessoa ligada à primeira-dama, Janja. O tempo já melhorou em Brasília. Na hora da posse, o céu pode até ficar nublado. Mas não vai chover. Para isso, a intervenção atingirá todo Centro-Oeste. Por isso, antes de voltar ainda hoje para o Rio, vou ter que passar em Goiás para passar informações para Adelaide — disse Osmar.

O porta-voz contou que, em 2019, a Fundação também foi chamada para agir na posse de Jair Bolsonaro que deixa o cargo neste domingo. Mas na ocasião, o combinado era garantir que não chovesse enquanto o Rolls-Royce que tradicionalmente transporta os presidentes eleitos passasse pela Esplanada dos Ministérios.

— Não atendemos a um determinado governo. Mas instituições públicas: Presidência da República, governos dos Estados e prefeituras — explicou Osmar.

A médium já atuou em dezenas de situações com governos. O GLOBO, por exemplo, registrou a presença do cacique e o porta-voz em Copenhague, em 2009, quando o Rio era finalista para organizar a Olimpíada de 2016. Nos Jogos Olímpicos de Londres (2012), a Fundação Cacique Cobra Coral também atuou. Coincidência ou não, os jogos foram disputados em um ambiente mais quente que o normal para os padrões britânicos.

Nos próximos meses, a médium deve passar uma temporada na Europa. A ideia é tentar ”esquentar” o inverno da região, para evitar uma crise energética países não dependam tanto do gás russo.

— Ainda vamos avaliar se essa intervenção será a partir do Reino Unido, Espanha, Alemanha ou Itália — acrescentou o porta-voz.

Fundação Cacique Cobra Coral e o Réveillon no Rio de Janeiro, 2023

oglobo.globo.com

Réveillon 2023: com previsão de chuva em Copacabana, produção chama cacique Cobra Coral para tentar virar o tempo (O Globo)

31/12/2022

Adelaide Scritori, médium contratada pela produção do réveillon em Copacabana. Reprodução

O clima é de festa, mas também de chuva no Rio na noite deste sábado. Para não atrapalhar as celebrações de quem vai comemorar a chegada do novo ano ao ar livre, a produtora dos shows que vão acontecer na praia de Copacabana pediu uma ajudinha mística: convocou a médium Adelaide Scritoi, que diz incorporar o cacique Cobra Coral, para intervir no tempo.

A última vez que Adelaide participou da festa foi em 2019, antes da pandemia. Com a intervenção, o produtor Abel Gomes disse não acreditar em chuva na hora da virada e aposta até no aparecimento da lua no céu.

— Na verdade, ela já está atuando. Hoje está chovendo, mas tivemos dias maravilhosos de sol antes disso, o que ajudou na montagem das estruturas — disse Abel.

A Fundação Cacique Cobra Coral é uma entidade esotérica brasileira, com sede em Guarulhos, São Paulo. É conhecida por manter contratos com empresas e órgãos governamentais para intervir misticamente no tempo e garantir tempo firme durante realização de eventos como o réveillon.

Chuva a qualquer hora

As áreas de instabilidade que atuam sobre o Estado do Rio tendem a enfraquecer no fim de semana, mas não vão se dissipar e não dá para descartar a chance de chuva. Em Copacabana, o céu nublado predomina no sábado, com sol entre nuvens pela manhã e pancadas de chuva com raios à tarde e à noite, o que pode atrapalhar os planos de quem planeja celebrar ao ar livre. A tendência, segundo o Climatempo, é que a chuva enfraqueça até a hora da virada, mas tem chance de persistir de forma fraca e passageira. O panorama é o mesmo tanto para a capital, quanto para o restante do estado do Rio de Janeiro.

— No momento da virada para 2023 ainda deve haver bastante nebulosidade e possibilidade de chuva fraca. Ao longo do dia, as temperaturas variam de 20 a 29 graus na cidade do Rio. Na virada, deve estabilizar em torno de 23 graus. O domingo deve amanhecer com sol e algumas nuvens, mas pancadas de chuva moderada a forte voltam a acontecer no decorrer da tarde e da noite, em vários pontos da cidade. Os termômetros variam entre 19 e 31 graus — informa Josélia Pegorim, meteorologista da Climatempo.

Na Região dos Lagos, o sábado vai ter bastante nebulosidade com chance de chuva a qualquer hora.

— Há possibilidade de chuva fraca e moderada inclusive na hora da virada, mais precisamente em Búzios e Cabo Frio. As áreas de chuva devem perder força ao longo da madrugada do dia 1º. Já o domingo tem previsão de períodos com sol já pela manhã, mas pancadas de chuvas com raios voltam a acontecer durante a tarde e à noite, podendo ser moderadas a fortes — acrescenta a meteorologista.

O clima vai estar abafado, segundo explica a meteorologista. Nos dois municípios, a temperatura mínima é de 20 graus e máxima é de 25, no sábado. No primeiro dia do ano a máxima sobe para 27. A segunda-feira segue a tendência de aumento, com 30 graus de máxima, podendo, no entanto, ter pancadas de chuva à tarde e à noite.

A terça-feira promete ser o melhor dia da semana para aproveitar praia: o calor chega ao ápice, com 31 graus de máxima, bastante sol e sem previsão de chuva. Mas tem que aproveitar: na quarta-feira, outra frente fria chega ao estado.

— A primeira semana do ano, que começa com tendência de melhora, com sol e tempo mais firme, vai ser interrompida com frente fria, nebulosidade e risco de temporais no estado do Rio, a partir de quarta-feira — conclui Josélia.


lulacerda.ig.com.br

De duas uma: ou os institutos não adiantam nada ou o cacique Cobra Coral é mesmo incrível (LuLacerda)

Por Redação, 01/01/2023


Réveillon carioca foi sem chuva, contrariando as previsões /Foto: Alexandre Macieira/ Riotur

Depois desse réveillon, pode-se dizer que o prefeito Eduardo Paes começou bem o ano. Pelas previsões do tempo dos mais considerados institutos, o sábado (31/12) seria de chuva forte com trovoadas, intercaladas com breves aberturas de sol, e a meia-noite debaixo d’água era praticamente certa. No entanto, aconteceu exatamente o contrário: sol reinando, praias lotadas e uma virada dos sonhos nas areias de Copacabana, para alegria de três milhões de pessoas espalhadas nos nove palcos – segundo dados da prefeitura. “Foi uma noite incrível. Depois de dois anos, o maior réveillon do mundo voltou, e retomamos a festa. Cariocas e turistas celebraram a chegada de 2023 em clima de paz, harmonia, amor e ao som de artistas incríveis”, disse Paes neste domingo (01/01).

Nas redes, o “milagre” tem nome: o cacique Cobra Coral — ou melhor, a médium Adelaide Scritori, que declara incorporar a entidade para intervir no tempo —, contratado pela prefeitura para a “limpeza” dos céus, na sexta (30/12), quando, segundo amiga, Paes acendeu até um charuto e recebeu a bênção do cacique com galhos de arruda, contra inveja e outros males. Entre os comentários, “não choveu no rio – a grana gasta com o cacique Cobra Coral sempre compensa, impressionante”, “a meta era não ter político de estimação, mas um dos obstáculos é Eduardo Paes. O prefeito contratou o cacique, limpou o céu, e ainda brotou no palco durante o show do Zeca Pagodinho tocando pandeiro!”, “é só andar na fé dos cariocas, que milagres acontecem. Contrariando as previsões, com a valiosa colaboração da Fundação Cacique Cobra Coral, o réveillon de Copacabana não viu um pingo de chuva”… e por aí vai. 

A Fundação Cacique Cobra Coral é uma entidade esotérica brasileira, com sede em Guarulhos, São Paulo. É conhecida por manter contratos com empresas e órgãos governamentais para intervenções místicas e garantir tempo firme durante a realização de eventos.


mv.mixvale.com.br

O primeiro amanhecer de 2023 no Rio: Copacabana tem areia cheia e sol (Mix Vale)

Por Agência O Globo – 01/01/2023


Não faz muito tempo que nos despedimos de 2022. A vontade de celebrar a chegada de 2023 era tanta que às 6h do primeiro dia do ano, as areias de Copacabana, na Zona Sul do Rio, continuavam cheias. O número de pessoas vistas pode até parecer tímido perto dos mais de 2 milhões que ocuparam a orla da princesinha do mar. Shows e um espetáculo de 12 minutos de queima de fogos deixaram no passado a saudade de comemorar a chegada de um novo ano com pé na areia. A volta, enfim, ao normal após dois anos de pandemia da Covid-19.

Quem ficou de fora da festa foi a chuva, que prometia cobrir a cidade ao longo de todo o último dia do ano. Pelo visto, perdeu a hora para chegar na cidade. Já o sol garante presença no dia 1º desde as primeiras horas da manhã. A produtora do evento, que assumiu o comando numa revira-volta de última hora na organização da festa, disse ter contratado a Fundação Cacique Cobra Coral para garantir o tempo firme e a curtição da festa sem capa ou guarda-chuva para mudar o look.

Mas a tendência é de que o cenário mude, segundo o Alerta Rio, neste domingo. A previsão é de céu parcialmente nublado a nublado e de pancadas isoladas de chuva no período da tarde, acompanhadas de raios. Os ventos estarão fracos a moderados e as temperaturas permanecerão estáveis e elevadas, com máxima de 34°C, um pouco mais a cara da estação.

Behind Argentina’s World Cup Magic, an Army of Witches (N.Y. Times)

nytimes.com


Magalí Martínez, a self-proclaimed witch, is one of hundreds who has used magic to try to help Argentina’s soccer team.
Magalí Martínez, a self-proclaimed witch, is one of hundreds who has used magic to try to help Argentina’s soccer team. Credit: Anita Pouchard Serra for The New York Times

France might have its star Kylian Mbappé, but Argentina has hundreds of “brujas” casting spells to protect Lionel Messi and the rest of its national squad.

Jack Nicas and Ana Lankes

Jack Nicas and Ana Lankes met with witches in Buenos Aires and in Lionel Messi’s hometown, Rosario, Argentina, for this article.

Dec. 17, 2022

Magalí Martínez knew something was off: The seemingly invincible soccer star Lionel Messi was scuffling on the soccer pitch. To her, it looked like he was afflicted with a supernatural curse that has roots in different cultures across history, the “evil eye.”

So Martínez, a self-proclaimed witch and part-time babysitter, got to work. She focused intensely on Messi, began repeating a prayer and drizzled a bit of oil into a bowl of water. If the oil remained dispersed, he was safe. If it collected in the middle, he was cursed.

“It came together like a magnet,” she said. “I knew I wouldn’t be able to cure him alone.”

She went to Twitter and called on her fellow witches across Argentina. “Evil-eye healing sisters, Messi is very affected,” she said. “I need your help.”

A thousand people shared her tweet, with many saying they, too, were witches and would work to protect Argentina’s golden boy.

Argentina has not lost since.

The bookkeepers have set their odds, gamblers have placed their bets and the experts have made their picks for Sunday’s World Cup final between Argentina and France, but their analysis of the matchup — focused on just the 22 players on the field — might not be considering a wild card: Argentina’s army of witches.Witches in Argentina have formed groups to give their soccer team a magic boost ever since the team’s first loss in the World Cup.Credit…Anita Pouchard Serra for The New York Times

In recent weeks, hundreds, if not thousands of Argentine women who call themselves “brujas,” or witches, have taken up arms — in the form of prayers, altars, candles, amulets and burning sage — to protect their nation’s beloved soccer team in its quest to secure a third World Cup title and its first in 36 years.

“We think of ourselves as agents that, from love, can take care, protect and sow happiness,” said Rocío Cabral Menna, 27, a witch and high-school teacher in Messi’s hometown, Rosario, who burns a bay leaf inscribed with her predicted score in a ceremony before each match. The players are competing on the field, she said, and at home, “the witches are taking care of them.”

The trend caught fire after Argentina’s shocking loss to Saudi Arabia in the opening match, causing Argentines to search for any way to help the team on which this nation of 47 million has pitted its hopes.

After that match, several witches started a WhatsApp group to instruct other witches on how to help the national team. They called it the Argentine Association of Witches, or La Brujineta, a play on “bruja” and “La Scaloneta,” Argentina’s nickname for its national team.

“I thought there were going to be 10 people at most,” said the group’s founder, Antonella Spadafora, 23, a witch who runs a convenience store in a city in northwest Argentina. Within days, more than 300 people had joined the group. Last week, there was so much demand that they started a Twitter account. It has gained 25,000 followers in seven days.

“We got tired of being closet witches,” said Andrea Maciel, 28, a witch and graphic designer in Buenos Aires who now helps manage the group.

The witches said their main focus is to use rituals to absorb negative energy from Argentina’s players and exchange it with good energy. That, however, leaves them exhausted.

Rocío Cabral Menna is a witch, poet and literature professor in Rosario, Argentina, the hometown of Lionel Messi.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times
Cabral Menna works with tarot cards and candles to help Argentina’s team.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times

“Headaches, dizziness, vomiting, muscle pain,” Spadafora said. “We are absorbing all the bad vibes,” she added. “It wears you down a lot, because these are very public figures who have so much negative energy from other people.”

So, to divide the burden, the group leaders now split the witches into groups before every match, each focused on protecting a certain player.

While many of the witches said they are working to look after Messi and his teammates, others are attempting to cast spells on opposing players, particularly the goalkeepers. One ritual involves freezing a slip of paper with the name of a player on it, saying a curse and then burning the frozen paper just before the match.

But the Brujineta group warned that trying to curse France could backfire, particularly because of the team’s star forward, Kylian Mbappé.

“We do not recommend freezing France, as their players are protected by dark entities and the energy can bounce back!!” the group announced on Twitter on Wednesday. “We saw very dark things in the French team and especially in Mbappé. Please share!!!”

The witches focused on the World Cup represent a wide variety of occult disciplines, more New Age than ancient and Indigenous. Practices include black magic, white magic, Wicca, Reiki, Tarot, astrology, and healers of the evil eye and other ailments.

Some women said they were born with special abilities, while others said they developed their skills through study. Several said they began practicing witchcraft as part of a growing feminist movement in Argentina that began in 2018 with the fight for legal abortion.

“I think we all have magic inside,” said Cabral Menna.

But the witches are far from the only Argentines trying to help their team in the supernatural realm. On game days, many more Argentines have been practicing some sort of cábala, or superstition designed to avoid causing any bad luck to their team. The cábalas often involve people sticking to the exact same routine if the team is winning, including where they watch the game, with whom, in what clothes, at what volume and on which channel.

Jesica Fernandez Bruera, an astrologer in Rosario.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times
During Argentina’s matches, Fernandez performs several rituals, such as burning laurel leaves.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times

The practice is so mainstream that millions of Argentines likely practice some sort of cábala, a word that derives from kabbalah, a Jewish mystical tradition. Cábalas have been especially pronounced this year after Argentina’s loss in its opening match.

Adrián Coria, Messi’s childhood coach in Rosario and later on the national team, said that he watched the first loss with his family in his living room. Then his wife and daughter sent him to a small cabin in the backyard for the second match. “Alone,” he said. He has since watched the rest of the World Cup there.

Cabral Menna, the witch from Rosario, said she and her mother watched Argentina’s first victory in her mother’s bedroom. “It’s the only part of the house without air conditioning,” she said. “It’s very hot. But we’re not going to move.”

And Sergio Duri, the owner of a restaurant in Rosario with Messi’s signature on the wall, said he now watches the matches in his kitchen with one dachshund, Omar, while his wife watches them in their bedroom with the other dachshund, Dulce. “If this comes out, everybody will know that we’re all completely crazy,” he said. “But these are cábalas, you know?”

The players are also practicing cábalas. Alejandro Gómez, Leandro Paredes and Rodrigo de Paul, three midfielders, have taken to walking around the pitch an hour before kickoff while chewing candy, a tradition they started last year when Argentina won the Copa América, South America’s premier soccer tournament.

During Argentina’s matches, Maia Morosano performs rituals to lead to a win, such as burning certain herbs.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times
Morosano, who is from Rosario, is also a poet.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times
Morosano casting spells for the national team.
Credit: Sebastián López Brach for The New York Times

So now the question for the witches is: What will happen on Sunday?

“We don’t want to give information as if we have the absolute last word,” Spadafora said. “But obviously we have started working, and obviously we have checked with most of the means at our disposal — esoteric means, for example, pendulums, Tarot, all the divination methods — and it indicates that Argentina is going to win.”

Azucena Agüero Blanch, a 72-year old professional fortune-teller once consulted by former President Carlos Menem, has also explained that she is working with magical stones to ensure an Argentina victory. “Many people who are pushing for Argentina to win have called on me to work on this,” she told an Argentine newspaper.

On Friday night, Martínez was in her candlelit home in Buenos Aires wearing a robe covered in tigers and lighting candles at an altar that included burned sandalwood; Ganesha, the elephant-headed Hindu god; and a photo of Diego Maradona, the late Argentine soccer star who is something like a deity to many in this country.

Martínez said she has a series of methods to protect the national team, including a practice that involves swinging a pendulum, or a wooden cylinder on a string, above a player’s jersey number and then burning cotton doused with a mistletoe tincture. She said she follows the news for updates about players’ ailments and then uses the pendulum to help alleviate them. “The pendulum is the most powerful tool I have,” she explained.

She said she has also had psychic moments during matches. During Argentina’s match against Australia on Dec. 3, she said she had a vision of the Argentine forward Julián Álvarez celebrating a goal.

At 5:13 p.m., she tweeted: “Julian Alvarez I want your goal 🕯👁🕯👁🕯.”

Four minutes later, Álvarez scored.

Tarot sets used by Violeta Parisi, a witch in Buenos Aires.
Credit: Anita Pouchard Serra for The New York Times
Parisi, 24, is one of the hundreds of witches across the country practicing magic to help their national team.
Credit: Anita Pouchard Serra for The New York Times
An altar in Parisi’s bedroom.
Credit: Anita Pouchard Serra for The New York Times

Natalie Alcoba contributed reporting.

‘Crucial’ Cop15 deal includes target to protect 30% of nature on Earth by 2030 (Guardian)

theguardian.com

Environmental groups and ministers have praised the ambition of the agreement, which also places emphasis on Indigenous rights

Cop15 deal is passed in Montreal, Canada. From left, David Ainsworth, Huang Runqiu, Elizabeth Mrema and Inger Andersen.
Cop15 deal is passed in Montreal, Canada. From left, David Ainsworth, Huang Runqiu, Elizabeth Mrema and Inger Andersen. Photograph: Julian Haber/Courtesy of Environment and Climate Change Canada

Phoebe Weston and Patrick Greenfield in Montreal

Mon 19 Dec 2022 12.50 GMT; Last modified on Mon 19 Dec 2022 13.02 GMT


Ministers and environmental groups have praised the ambition of the historic deal reached at Cop15, which includes a target to protect 30% of the planet for nature by the end of the decade and places emphasis on Indigenous rights.

But there were also concerns about the legitimacy of the deal after China appeared to force it through.

In the early hours of Monday, two weeks of UN biodiversity negotiations ended in confusion as China signed off on this decade’s targets for protecting nature despite an objection from the Democratic Republic of the Congo (DRC), home to the world’s second largest tropical forest.

There was widespread support for the final text, which included the targets of protecting 30% of the planet for nature by the end of the decade, reforming $500bn (£410bn) of environmentally damaging subsidies, and taking urgent action on extinctions.

“The global ambition agreed at Cop15 to halt and reverse biodiversity loss by 2030 is vital if we are to bring our planet back from the brink,” said Mike Barrett, the executive director of science and conservation at WWF-UK. “The tripling of international finance for developing countries, conservation targets to halt species extinction, and the rights of Indigenous peoples being placed front and centre are crucial cornerstones of the deal.”

Others praised the emphasis in the final text on the rights and territories of Indigenous people who, despite their outsized contribution to protecting nature, often face threats of violence and rights violations.

“Now it is recognising that Indigenous people can also make contributions to biodiversity conservation,” said Viviana Figueroa, a representative of the International Indigenous Forum on Biodiversity (IIFB). “For us, it’s like a change of paradigm,” she said. “They are recognising this important role that was invisible.”

Christophe Béchu, France’s minister for ecological transition, who headed its delegation, called it a “historic deal”. He said: “It’s not a small deal. It’s a deal with very precise and quantified objectives on pesticides, on reduction of loss of species, on eliminating bad subsidies. We double until 2025 and triple 2030 the finance for biodiversity.”

“Many of us wanted more things in the text and more ambition but we got an ambitious package,” said Canada’s minister of environment and climate change, Steven Guilbeault. “We have 30 by 30. Six months ago, who would have thought we could get 30 by 30 in Montreal? We have an agreement to halt and reverse biodiversity loss, to work on restoration, to reduce the use of pesticides. This is tremendous progress.”

But despite the praise, the UN conference ended in high drama after a number of countries complained it had been agreed undemocratically by China. Some felt that this undermined the agreement, which is not legally binding and relies on goodwill and trust between countries – including many in Africa, home to some of the planet’s richest remaining ecosystems.

“Legally, it’s done. Morally, what can I say? It’s over,” said Lee White, Gabon’s environment minister, as he left the Palais des congrès at the end of talks, when asked about the dramatic conclusion and whether it threatened the legitimacy of the deal.

“I’ve spent three years of my life on this process and I’m as pissed off as anybody. It shouldn’t be like that. China has pissed it all away,” said one negotiator, who said he had concerns about implementation, whether countries who objected would agree to work and implement the CBD. This matters because the Congo basin – which DRC covers 60% of – is one of the key ecosystems that the 30 by 30 agreement will need to protect.

The plenary that began on Sunday evening and lasted for more than seven hours with an agreement reached at 3.30am local time after objections from some countries about finance. Huang Runqiu, China’s environment minister, appeared to disregard objections from the DRC delegation, lowering the gavel and declaring the deal passed only minutes after they said they were not able to support it.

The comments from DRC about the responsibility of developed nations to fund conservation in developing countries were not considered a “formal objection” because he did not use those specific words, despite saying he did not support the agreement, the secretariat said.

“It was on the margins,” said Pierre du Plessis, the negotiator for Namibia. “But he didn’t officially object to the adoption.”

After the official agreement, the DRC negotiator spoke again, saying he had made a “formal objection”. This was followed by negotiators from Cameroon, Uganda and DRC expressing incredulity that the agreement had been put through. A representative from Cameroon said through an interpreter: “What we saw was a force of hand.”

A third of the Congo basin’s tropical forests are under threat from fossil fuel investments, which could unleash a “carbon bomb” into the atmosphere if plans go ahead, analysis suggests.

When speaking to journalists after the agreement, Guilbeault and the EU commissioner, Virginijus Sinkevičius, said they were not lawyers and so could not answer whether it would be legitimate to gavel the deal had DRC’s comments been a “formal objection”.

“I think the presidency acted within guidelines, rules and procedures of the United Nations,” said Guilbeault. “Some of my colleagues have started reaching out to DRC in hopes that we can find ways that we can work together moving forward.” He said claims the agreement was fraudulent were “clearly not accurate”.

Sinkevičius said: “This is a question for the presidency and secretariat – we saw that they were deciding something, they were discussing something and then suddenly the decision was taken.” He added: “The main message is that we can reach Paris because we have a Montreal moment”.

When Did the Anthropocene Start? Scientists Closer to Saying When. (N.Y. Times)

nytimes.com


Image credits: Alamy; David Guttenfelder for The New York Times; Getty Images; Ashley Gilbertson for The New York Times; Michael Probst/Associated Press; Getty Images; NASA

A panel of experts has spent more than a decade deliberating on how, and whether, to mark a momentous new epoch in geologic time: our own.

Raymond Zhong

Dec. 17, 2022

The official timeline of Earth’s history — from the oldest rocks to the‌ dinosaurs to the rise of primates, from the Paleozoic to the Jurassic and all points before and since — could soon include the age of nuclear weapons, human-caused climate change and the proliferation of plastics, garbage and concrete across the planet.

In short, the present.

Ten thousand years after our species began forming primitive agrarian societies, a panel of scientists on Saturday took a big step toward declaring a new interval of geologic time: the Anthropocene, the age of humans.

Our current geologic epoch, the Holocene, began 11,700 years ago with the end of the last big ice age. The panel’s roughly three dozen scholars appear close to recommending that, actually, we have spent the past few decades in a brand-new time unit, one characterized by human-induced, planetary-scale changes that are unfinished but very much underway.

“If you were around in 1920, your attitude would have been, ‘Nature’s too big for humans to influence,’” said Colin N. Waters, a geologist and chair of the Anthropocene Working Group, the panel that has been deliberating on the issue since 2009. The past century has upended that thinking, Dr. Waters said. “It’s been a shock event, a bit like an asteroid hitting the planet.”

The working group’s members on Saturday completed the first in a series of internal votes on details including when exactly they believe the Anthropocene began. Once these votes are finished, which could be by spring, the panel will submit its final proposal to three other committees of geologists whose votes will either make the Anthropocene official or reject it.

Sixty percent of each committee will need to approve the group’s proposal for it to advance to the next. If it fails in any of them, the Anthropocene might not have another chance to be ratified for years.

If it makes it all the way, though, geology’s amended timeline would officially recognize that humankind’s effects on the planet had been so consequential as to bring the previous chapter of Earth’s history to a close. It would acknowledge that these effects will be discernible in the rocks for millenniums.

Source: Syvitski, et al. (2020)
By Mira Rojanasakul/The New York Times

“I teach the history of science — you know, Copernicus, Kepler, Galileo,” said Francine McCarthy, an earth scientist at Brock University in Canada and member of the working group. “We’re actually doing it,” she said. “We’re living the history of science.”

Still, the knives are out for the Anthropocene, even though, or maybe because, we all have such firsthand familiarity with it.

Stanley C. Finney, the secretary general of the International Union of Geological Sciences, fears the Anthropocene has become a way for geologists to make a “political statement.”

Within the vast expanse of geologic time, he notes, the Anthropocene would be a blip of a blip of a blip. Other geologic time units are useful because they orient scientists in stretches of deep time that left no written records and sparse scientific observations. The Anthropocene, by contrast, would be a time in Earth’s history that humans have already been documenting extensively.

“For the human transformation, we don’t need those terminologies — we have exact years,” said Dr. Finney, whose committee would be the last to vote on the working group’s proposal if it gets that far.

Martin J. Head, a working group member and earth scientist at Brock University, argues declining to recognize the Anthropocene would have political reverberations, too.

“People would say, ‘Well, does that then mean the geological community is denying that we have changed the planet drastically?’” he said. “We would have to justify our decision either way.”

Philip L. Gibbard, a geologist at the University of Cambridge, is secretary general of another of the committees that will vote on the working group’s proposal. He has serious concerns about how the proposal is shaping up, concerns he believes the wider geological community shares.

“It won’t get an easy ride,” he said.

A 19th century black-and-white print of five men in what appears to be a cave. One stands about knee-deep in a hole. The other four are examining a dinosaur skull.
Nineteenth-century fossil hunters. The rock record is full of gaps, “a jigsaw puzzle with many of the parts missing,” one geologist said. Credit: Oxford Science Archive/Print Collector, via Getty Images

Like the zoologists who regulate the names of animal species or the astronomers who decide what counts as a planet, geology’s timekeepers work conservatively, by design. They set classifications that will be reflected in academic studies, museums and textbooks for generations to come.

“Everybody picks on the Anthropocene Working Group because they’ve taken so long,” said Lucy E. Edwards, a retired scientist with the United States Geological Survey. “In geologic time, this isn’t long.”

The geologic time scale divides Earth’s 4.6 billion-year story into grandly named chapters. Like nesting dolls, the chapters contain sub-chapters, which themselves contain sub-sub-chapters. From largest to smallest, the chapters are called eons, eras, periods, epochs and ages.

Right now, according to the current timeline, we are in — deep breath — the Meghalayan Age of the Holocene Epoch of the Quaternary Period of the Cenozoic Era of the Phanerozoic Eon, and have been for 4,200 years.

Drawing lines in Earth time has never been easy. The rock record is full of gaps, “a jigsaw puzzle with many of the parts missing,” as Dr. Gibbard puts it. And most global-scale changes happen gradually, making it tricky to pinpoint when one chapter ended and the next one began. There haven’t been many moments when the entire planet changed at once.

“If a meteor hits the Yucatán Peninsula, that’s a pretty good marker,” Dr. Edwards said. “But other than that, there’s practically nothing out there in the geologic world that’s the best line.”

The early Cambrian Period, around 540 million years ago, saw Earth explode with an astonishing diversity of animal life, but its precise starting point has been contested for decades. A long controversy led to the redrawing of our current geologic period, the Quaternary, in 2009.

“It’s a messy and disputatious business,” said Jan A. Zalasiewicz, a geologist at the University of Leicester. “And of course, the Anthropocene brings a whole new range of dimensions to the messiness and disputatiousness.”

A nuclear test near the Marshall Islands in 1958. A working group proposed the mid-20th century as the beginning of the Anthropocene, in part because of the plutonium isotopes left by bombs. Credit: Corbis, via Getty Images

It took a decade of debate — in emails, academic articles and meetings in London, Berlin, Oslo and beyond — for the Anthropocene Working Group to nail down a key aspect of its proposal.

In a 29-to-4 vote in 2019, the group agreed to recommend that the Anthropocene began in the mid-20th century. That’s when human populations, economic activity and greenhouse gas emissions began skyrocketing worldwide, leaving indelible traces: plutonium isotopes from nuclear explosions, nitrogen from fertilizers, ash from power plants.

The Anthropocene, like nearly all other geologic time intervals, needs to be defined by a specific physical site, known as a “golden spike,” where the rock record clearly sets it off from the interval before it.

After a yearslong hunt, the working group on Saturday finished voting on nine candidate sites for the Anthropocene. They represent the range of environments into which human effects are etched: a peat bog in Poland, the ice of the Antarctic Peninsula, a bay in Japan, a coral reef off the Louisiana coast.

One site — Crawford Lake in Ontario, Canada — is small enough to walk around in 10 minutes. But it is so deep that the bottom layer of water rarely mixes with the upper layers. Whatever sinks to the floor remains undisturbed, gradually accumulating into a tree-ring-like record of geochemical change.

The working group’s members also voted this month on what rank the Anthropocene should have in the timeline: an epoch, an age of the Holocene, or something else.

The group isn’t disclosing the results of these or the other votes to be held in the coming months until they are all complete and it has finalized its proposal for the next level of timekeepers to ponder. It is then that a far more contentious debate about the Anthropocene could begin.

Many scholars still aren’t sure the mid-20th century cutoff makes sense. It is awkwardly recent, especially for archaeologists and anthropologists who would have to start referring to World War II artifacts as “pre-Anthropocene.”

Crawford Lake, near Milton, Ontario. Its depth makes it a prime site for scientific research. Credit: Conservation Halton

And using nuclear bombs to mark a geologic interval strikes some scientists as abhorrent, or at least beside the point. Radionuclides are a convenient global marker, but they say nothing about climate change or other human effects, said Erle C. Ellis, an ecologist at the University of Maryland, Baltimore County.

Using the Industrial Revolution might help. But that definition would still leave out millenniums of planet-warping changes from farming and deforestation.

Canonizing the Anthropocene is a call to attention, said Naomi Oreskes, a member of the working group. For geology, but also the wider world.

“I was raised in a generation where we were taught that geology ended when people showed up,” said Dr. Oreskes, a historian of science at Harvard. The Anthropocene announces that “actually, the human impact is part of geology as a science,” she said. It demands we recognize that our influence on the planet is more than surface level.

But Dr. Gibbard of Cambridge fears that, by trying to add the Anthropocene to the geologic time scale, the working group might actually be diminishing the concept’s significance. The timeline’s strict rules force the group to impose a single starting point on a sprawling story, one that has unspooled over different times in different places.

He and others argue the Anthropocene deserves a looser geologic label: an event. Events don’t appear on the timeline; no bureaucracy of scientists regulates them. But they have been transformative for the planet.

Late-Holocene human footprints, at least 2,000 years old, in volcanic ash and mud in Nicaragua. The Anthropocene could mark an official end to the 11,700-year-old Holocene Epoch. Credit: Carl Frank/Science Source

The filling of Earth’s skies with oxygen, roughly 2.1 to 2.4 billion years ago — geologists call that the Great Oxidation Event. Mass extinctions are events, as is the burst of diversity in marine life 460 to 485 million years ago.

The term Anthropocene is already in such wide use by researchers across scientific disciplines that geologists shouldn’t force it into too narrow a definition, said Emlyn Koster, a geologist and former director of the North Carolina Museum of Natural Sciences.

“I always saw it not as an internal geological undertaking,” he said of the Anthropocene panel’s work, “but rather one that could be greatly beneficial to the world at large.”

Raymond Zhong is a climate reporter. He joined The Times in 2017 and was part of the team that won the 2021 Pulitzer Prize in public service for coverage of the coronavirus pandemic. @zhonggg

A version of this article appears in print on Dec. 18, 2022, Section A, Page 1 of the New York edition with the headline: The Next Epoch Of Planet Earth Might Be Today. Order Reprints | Today’s Paper | Subscribe

The rise and fall of peer review (Experimental History)

experimentalhistory.substack.com

Adam Mastroianni

Dec 13, 2022


Photo cred: my dad

For the last 60 years or so, science has been running an experiment on itself. The experimental design wasn’t great; there was no randomization and no control group. Nobody was in charge, exactly, and nobody was really taking consistent measurements. And yet it was the most massive experiment ever run, and it included every scientist on Earth.

Most of those folks didn’t even realize they were in an experiment. Many of them, including me, weren’t born when the experiment started. If we had noticed what was going on, maybe we would have demanded a basic level of scientific rigor. Maybe nobody objected because the hypothesis seemed so obviously true: science will be better off if we have someone check every paper and reject the ones that don’t pass muster. They called it “peer review.”

This was a massive change. From antiquity to modernity, scientists wrote letters and circulated monographs, and the main barriers stopping them from communicating their findings were the cost of paper, postage, or a printing press, or on rare occasions, the cost of a visit from the Catholic Church. Scientific journals appeared in the 1600s, but they operated more like magazines or newsletters, and their processes of picking articles ranged from “we print whatever we get” to “the editor asks his friend what he thinks” to “the whole society votes.” Sometimes journals couldn’t get enough papers to publish, so editors had to go around begging their friends to submit manuscripts, or fill the space themselves. Scientific publishing remained a hodgepodge for centuries.

(Only one of Einstein’s papers was ever peer-reviewed, by the way, and he was so surprised and upset that he published his paper in a different journal instead.)

That all changed after World War II. Governments poured funding into research, and they convened “peer reviewers” to ensure they weren’t wasting their money on foolish proposals. That funding turned into a deluge of papers, and journals that previously struggled to fill their pages now struggled to pick which articles to print. Reviewing papers before publication, which was “quite rare” until the 1960s, became much more common. Then it became universal.

Now pretty much every journal uses outside experts to vet papers, and papers that don’t please reviewers get rejected. You can still write to your friends about your findings, but hiring committees and grant agencies act as if the only science that exists is the stuff published in peer-reviewed journals. This is the grand experiment we’ve been running for six decades.

The results are in. It failed. 

Peer review was a huge, expensive intervention. By one estimate, scientists collectively spend 15,000 years reviewing papers every year. It can take months or years for a paper to wind its way through the review system, which is a big chunk of time when people are trying to do things like cure cancer and stop climate change. And universities fork over millions for access to peer-reviewed journals, even though much of the research is taxpayer-funded, and none of that money goes to the authors or the reviewers.

Huge interventions should have huge effects. If you drop $100 million on a school system, for instance, hopefully it will be clear in the end that you made students better off. If you show up a few years later and you’re like, “hey so how did my $100 million help this school system” and everybody’s like “uhh well we’re not sure it actually did anything and also we’re all really mad at you now,” you’d be really upset and embarrassed. Similarly, if peer review improved science, that should be pretty obvious, and we should be pretty upset and embarrassed if it didn’t.

It didn’t. In all sorts of different fields, research productivity has been flat or declining for decades, and peer review doesn’t seem to have changed that trend. New ideas are failing to displace older ones. Many peer-reviewed findings don’t replicate, and most of them may be straight-up false. When you ask scientists to rate 20th century discoveries in physics, medicine, and chemistry that won Nobel Prizes, they say the ones that came out before peer review are just as good or even better than the ones that came out afterward. In fact, you can’t even ask them to rate the Nobel Prize-winning physics discoveries from the 1990s and 2000s because there aren’t enough of them.

Of course, a lot of other stuff has changed since World War II. We did a terrible job running this experiment, so it’s all confounded. All we can say from these big trends is that we have no idea whether peer review helped, it might have hurt, it cost a ton, and the current state of the scientific literature is pretty abysmal. In this biz, we call this a total flop.

What went wrong?

Here’s a simple question: does peer review actually do the thing it’s supposed to do? Does it catch bad research and prevent it from being published?

It doesn’t. Scientists have run studies where they deliberately add errors to papers, send them out to reviewers, and simply count how many errors the reviewers catch. Reviewers are pretty awful at this. In this study reviewers caught 30% of the major flaws, in this study they caught 25%, and in this study they caught 29%. These were critical issues, like “the paper claims to be a randomized controlled trial but it isn’t” and “when you look at the graphs, it’s pretty clear there’s no effect” and “the authors draw conclusions that are totally unsupported by the data.” Reviewers mostly didn’t notice.

In fact, we’ve got knock-down, real-world data that peer review doesn’t work: fraudulent papers get published all the time. If reviewers were doing their job, we’d hear lots of stories like “Professor Cornelius von Fraud was fired today after trying to submit a fake paper to a scientific journal.” But we never hear stories like that. Instead, pretty much every story about fraud begins with the paper passing review and being published. Only later does some good Samaritan—often someone in the author’s own lab!—notice something weird and decide to investigate. That’s what happened with this this paper about dishonesty that clearly has fake data (ironic), these guys who have published dozens or even hundreds of fraudulent papers, and this debacle:

Why don’t reviewers catch basic errors and blatant fraud? One reason is that they almost never look at the data behind the papers they review, which is exactly where the errors and fraud are most likely to be. In fact, most journals don’t require you to make your data public at all. You’re supposed to provide them “on request,” but most people don’t. That’s how we’ve ended up in sitcom-esque situations like ~20% of genetics papers having totally useless data because Excel autocorrected the names of genes into months and years.

(When one editor started asking authors to add their raw data after they submitted a paper to his journal, half of them declined and retracted their submissions. This suggests, in the editor’s words, “a possibility that the raw data did not exist from the beginning.”)

The invention of peer review may have even encouraged bad research. If you try to publish a paper showing that, say, watching puppy videos makes people donate more to charity, and Reviewer 2 says “I will only be impressed if this works for cat videos as well,” you are under extreme pressure to make a cat video study work. Maybe you fudge the numbers a bit, or toss out a few outliers, or test a bunch of cat videos until you find one that works and then you never mention the ones that didn’t. 🎶 Do a little fraud // get a paper published // get down tonight 🎶

Here’s another way that we can test whether peer review worked: did it actually earn scientists’ trust? 

Scientists often say they take peer review very seriously. But people say lots of things they don’t mean, like “It’s great to e-meet you” and “I’ll never leave you, Adam.” If you look at what scientists actually do, it’s clear they don’t think peer review really matters.

First: if scientists cared a lot about peer review, when their papers got reviewed and rejected, they would listen to the feedback, do more experiments, rewrite the paper, etc. Instead, they usually just submit the same paper to another journal. This was one of the first things I learned as a young psychologist, when my undergrad advisor explained there is a “big stochastic element” in publishing (translation: “it’s random, dude”). If the first journal didn’t work out, we’d try the next one. Publishing is like winning the lottery, she told me, and the way to win is to keep stuffing the box with tickets. When very serious and successful scientists proclaim that your supposed system of scientific fact-checking is no better than chance, that’s pretty dismal.

Second: once a paper gets published, we shred the reviews. A few journals publish reviews; most don’t. Nobody cares to find out what the reviewers said or how the authors edited their paper in response, which suggests that nobody thinks the reviews actually mattered in the first place. 

And third: scientists take unreviewed work seriously without thinking twice. We read “preprints” and working papers and blog posts, none of which have been published in peer-reviewed journals. We use data from Pew and Gallup and the government, also unreviewed. We go to conferences where people give talks about unvetted projects, and we do not turn to each other and say, “So interesting! I can’t wait for it to be peer reviewed so I can find out if it’s true.”

Instead, scientists tacitly agree that peer review adds nothing, and they make up their minds about scientific work by looking at the methods and results. Sometimes people say the quiet part loud, like Nobel laureate Sydney Brenner:

I don’t believe in peer review because I think it’s very distorted and as I’ve said, it’s simply a regression to the mean. I think peer review is hindering science. In fact, I think it has become a completely corrupt system.

I used to think about all the ways we could improve peer review. Reviewers should look at the data! Journals should make sure that papers aren’t fraudulent! 

It’s easy to imagine how things could be better—my friend Ethan and I wrote a whole paper on it—but that doesn’t mean it’s easy to make things better. My complaints about peer review were a bit like looking at the ~35,000 Americans who die in car crashes every year and saying “people shouldn’t crash their cars so much.” Okay, but how? 

Lack of effort isn’t the problem: remember that our current system requires 15,000 years of labor every year, and it still does a really crappy job. Paying peer reviewers doesn’t seem to make them any better. Neither does training them. Maybe we can fix some things on the margins, but remember that right now we’re publishing papers that use capital T’s instead of error bars, so we’ve got a long, long way to go.

What if we made peer review way stricter? That might sound great, but it would make lots of other problems with peer review way worse. 

For example, you used to be able to write a scientific paper with style. Now, in order to please reviewers, you have to write it like a legal contract. Papers used to begin like, “Help! A mysterious number is persecuting me,” and now they begin like, “Humans have been said, at various times and places, to exist, and even to have several qualities, or dimensions, or things that are true about them, but of course this needs further study (Smergdorf & Blugensnout, 1978; Stikkiwikket, 2002; von Fraud et al., 2018b)”. 

This blows. And as a result, nobody actually reads these papers. Some of them are like 100 pages long with another 200 pages of supplemental information, and all of it is written like it hates you and wants you to stop reading immediately. Recently, a friend asked me when I last read a paper from beginning to end; I couldn’t remember, and neither could he. “Whenever someone tells me they loved my paper,” he said, “I say thank you, even though I know they didn’t read it.” Stricter peer review would mean even more boring papers, which means even fewer people would read them.

Making peer review harsher would also exacerbate the worst problem of all: just knowing that your ideas won’t count for anything unless peer reviewers like them makes you worse at thinking. It’s like being a teenager again: before you do anything, you ask yourself, “BUT WILL PEOPLE THINK I’M COOL?” When getting and keeping a job depends on producing popular ideas, you can get very good at thought-policing yourself into never entertaining anything weird or unpopular at all. That means we end up with fewer revolutionary ideas, and unless you think everything’s pretty much perfect right now, we need revolutionary ideas real bad.

On the off chance you do figure out a way to improve peer review without also making it worse, you can try convincing the nearly 30,000 scientific journals in existence to apply your magical method to the ~4.7 million articles they publish every year. Good luck!

Peer review doesn’t work and there’s probably no way to fix it. But a little bit of vetting is better than none at all, right?

I say: no way. 

Imagine you discover that the Food and Drug Administration’s method of “inspecting” beef is just sending some guy (“Gary”) around to sniff the beef and say whether it smells okay or not, and the beef that passes the sniff test gets a sticker that says “INSPECTED BY THE FDA.” You’d be pretty angry. Yes, Gary may find a few batches of bad beef, but obviously he’s going to miss most of the dangerous meat. This extremely bad system is worse than nothing because it fools people into thinking they’re safe when they’re not.

That’s what our current system of peer review does, and it’s dangerous. That debunked theory about vaccines causing autism comes from a peer-reviewed paper in one of the most prestigious journals in the world, and it stayed there for twelve years before it was retracted. How many kids haven’t gotten their shots because one rotten paper made it through peer review and got stamped with the scientific seal of approval?

If you want to sell a bottle of vitamin C pills in America, you have to include a disclaimer that says none of the claims on the bottle have been evaluated by the Food and Drug Administration. Maybe journals should stamp a similar statement on every paper: “NOBODY HAS REALLY CHECKED WHETHER THIS PAPER IS TRUE OR NOT. IT MIGHT BE MADE UP, FOR ALL WE KNOW.” That would at least give people the appropriate level of confidence.

Why did peer review seem so reasonable in the first place?

I think we had the wrong model of how science works. We treated science like it’s a weak-link problem where progress depends on the quality of our worst work. If you believe in weak-link science, you think it’s very important to stamp out untrue ideas—ideally, prevent them from being published in the first place. You don’t mind if you whack a few good ideas in the process, because it’s so important to bury the bad stuff.

But science is a strong-link problem: progress depends on the quality of our best work.Better ideas don’t always triumph immediately, but they do triumph eventually, because they’re more useful. You can’t land on the moon using Aristotle’s physics, you can’t turn mud into frogs using spontaneous generation, and you can’t build bombs out of phlogiston. Newton’s laws of physics stuck around; his recipe for the Philosopher’s Stone didn’t. We didn’t need a scientific establishment to smother the wrong ideas. We needed it to let new ideas challenge old ones, and time did the rest.

If you’ve got weak-link worries, I totally get it. If we let people say whatever they want, they will sometimes say untrue things, and that sounds scary. But we don’t actually prevent people from saying untrue things right now; we just pretend to. In fact, right now we occasionally bless untrue things with big stickers that say “INSPECTED BY A FANCY JOURNAL,” and those stickers are very hard to get off. That’s way scarier.

Weak-link thinking makes scientific censorship seem reasonable, but all censorship does is make old ideas harder to defeat. Remember that it used to be obviously true that the Earth is the center of the universe, and if scientific journals had existed in Copernicus’ time, geocentrist reviewers would have rejected his paper and patted themselves on the back for preventing the spread of misinformation. Eugenics used to be hot stuff in science—do you think a bunch of racists would give the green light to a paper showing that Black people are just as smart as white people? Or any paper at all by a Black author? (And if you think that’s ancient history: this dynamic is still playing out today.) We still don’t understand basic truths about the universe, and many ideas we believe today will one day be debunked. Peer review, like every form of censorship, merely slows down truth.

Nobody was in charge of our peer review experiment, which means nobody has the responsibility of saying when it’s over. Seeing no one else, I guess I’ll do it: 

We’re done, everybody! Champagne all around! Great work, and congratulations. We tried peer review and it didn’t work.

Honesty, I’m so relieved. That system sucked! Waiting months just to hear that an editor didn’t think your paper deserved to be reviewed? Reading long walls of text from reviewers who for some reason thought your paper was the source of all evil in the universe? Spending a whole day emailing a journal begging them to let you use the word “years” instead of always abbreviating it to “y” for no reason (this literally happened to me)? We never have to do any of that ever again.

I know we all might be a little disappointed we wasted so much time, but there’s no shame in a failed experiment. Yes, we should have taken peer review for a test run before we made it universal. But that’s okay—it seemed like a good idea at the time, and now we know it wasn’t. That’s science! It will always be important for scientists to comment on each other’s ideas, of course. It’s just this particular way of doing it that didn’t work.

What should we do now? Well, last month I published a paper, by which I mean I uploaded a PDF to the internet. I wrote it in normal language so anyone could understand it. I held nothing back—I even admitted that I forgot why I ran one of the studies. I put jokes in it because nobody could tell me not to. I uploaded all the materials, data, and code where everybody could see them. I figured I’d look like a total dummy and nobody would pay any attention, but at least I was having fun and doing what I thought was right.

Then, before I even told anyone about the paper, thousands of people found it, commented on it, and retweeted it. 

Total strangers emailed me thoughtful reviews. Tenured professors sent me ideas. NPR asked for an interview. The paper now has more views than the last peer-reviewed paper I published, which was in the prestigious Proceedings of the National Academy of Sciences. And I have a hunch far more people read this new paper all the way to the end, because the final few paragraphs got a lot of comments in particular. So I dunno, I guess that seems like a good way of doing it?

I don’t know what the future of science looks like. Maybe we’ll make interactive papers in the metaverse or we’ll download datasets into our heads or whisper our findings to each other on the dance floor of techno-raves. Whatever it is, it’ll be a lot better than what we’ve been doing for the past sixty years. And to get there, all we have to do is what we do best: experiment.

Krenak: A Vida é Selvagem (Amazônia Latitude)

‘Temos que parar com essa fúria de meter asfalto e cimento em cima de tudo’

BY AILTON KRENAK · 13/12/2022

Ilustração de uma onça pintada mordendo um padre em uma floresta e uma cobra curando o padre.

“A redenção” 2022, acrílica sobre tela 1mx1m, exposição Nhe’ē Porã, Museu da Língua Portuguesa. Pintura: Daiara Tukano

A vida é selvagem. Esse é um elemento essencial para um pensamento que tem me provocado: como a ideia de que a vida é selvagem poderia incidir sobre a produção do pensamento urbanístico hoje? É uma convocatória a uma rebelião do ponto de vista epistemológico, de colaborar com a produção de vida. Quando falo que a vida é selvagem, quero chamar a atenção para uma potência de existir que tem uma poética esquecida, abandonada pelas escolas, formadoras de profissionais que perpetuam a lógica de que a civilização é urbana, de que tudo fora das cidades é bárbaro, primitivo – e que a gente pode tacar fogo.

Como atravessar o muro das cidades? Quais possíveis implicações poderiam existir entre comunidades humanas que vivem na floresta e as que estão enclausuradas nas metrópoles? Pois se a gente conseguir fazer com que continue existindo florestas no mundo, existirão comunidades dentro delas. Eu vi um número que a World Wide Fund for Nature (WWF) publicou em um relatório, dizendo que 1,4 bilhão de pessoas no mundo dependem da floresta, no sentido de ter uma economia ligada a ela. Não é a turma das madeireiras, não: é uma economia que supõe que os humanos que vivem ali precisam de floresta para viver.

A antropóloga Lux Vidal escreveu um trabalho muito importante sobre habitações indígenas, no qual relaciona materiais e conceitos que organizam a ideia de habitat equilibrado com o entorno, com a terra, o Sol, a Lua e as estrelas. Um habitat que está integrado ao cosmos, diferente desse implante que as cidades viraram no mundo. Aí eu me pergunto: como fazer a floresta existir em nós, em nossas casas, em nossos quintais? Podemos provocar o surgimento de uma experiência de florestania começando por contestar essa ordem urbana sanitária ao dizer: eu vou deixar o meu quintal cheio de mato, quero estudar a gramática dele. Como eu acho no meio do mato um ipê, uma peroba rosa, um jacarandá? E se eu tivesse um buritizeiro no quintal?

Temos que parar com essa fúria de meter asfalto e cimento em cima de tudo. Nossos córregos estão sem respirar, porque uma mentalidade de catacumba, agravada com a política do marco sanitário, acha que tem que meter uma placa de concreto em cima de qualquer riacho, como se fosse uma vergonha ter água correndo ali. A sinuosidade do corpo dos rios é insuportável para a mente reta, concreta e ereta de quem planeja o urbano. Hoje, na maior parte do tempo, o planejamento urbano é feito contra a paisagem. Como reconverter o tecido urbano industrial em tecido urbano natural, trazendo a natureza para o centro e transformando as cidades por dentro?

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Ailton Krenak é líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta, escritor, e doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Protagonizou uma das cenas mais marcantes da Assembleia Constituinte, em 1987, quando pintou o rosto com jenipapo para protestar contra os ataques aos direitos indígenas. Participou da União dos Povos Indígenas, que se transformou na Aliança dos Povos da Floresta, junto com David Kopenawa Yanomami e Chico Mendes. Fundou a ONG Núcleo de Cultura Indígena. Com seu povo na região do Rio Doce, enfrentou os efeitos do rompimento da barragem do Fundão, em Mariana (MG). Como escritor, lançou “Ideias para adiar o fim do mundo”, “O amanhã não está à venda” e “A vida não é útil”.
Daiara Tukano (ilustração), ou Duhigô, é artista visual, muralista, comunicadora, professora e mestre em Direito Humanos pela Universidade de Brasília (UNB). Ativista pelos direitos indígenas, coordenou a Rádio Yandê, primeira web rádio indígena do Brasil. Em 2020, tornou-se a artista indígena a ter o maior mural de arte urbana do mundo, com a pintura de mais de 1.000 m² no histórico Edifício Levy, no Centro de Belo Horizonte (MG).

O fracasso é a alma do negócio (ISA)

socioambiental.org

13 de dezembro de 2022


Nurit Bensusan

O ano em que a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) chega aos seus 30 anos deveria conduzir a um momento de reflexão. Uma convenção balzaquiana deveria olhar para si mesma e avaliar por que tem tido tanta dificuldade em cumprir seus objetivos. Mas será que essa primeira impressão, talvez apressada, corresponde à realidade?  Seus objetivos, de fato, não são cumpridos?

Os objetivos maiores da CDB, explícitos em seu texto original, são a conservação e o uso sustentável da biodiversidade e a repartição justa e equitativa dos seus benefícios derivados. Ora, não é preciso muito para constatar que esses objetivos estão longe de ser alcançados. A perda de diversidade biológica em todo o planeta continua crescendo, seu uso sustentável é uma miragem e a repartição de benefícios, uma exceção. Vale lembrar ainda que o tratado fracassou em implementar todas as 20 metas que definiu para si mesma entre 2011 e 2020.

Um rápido exame dos documentos que estão sendo discutidos, neste momento, na 15ª Conferência das Partes (COP 15), em Montreal, no Canadá, também ajuda a confirmar a impressão de que, daqui para frente, nada vai mudar e os objetivos da convenção continuarão a ser apenas um conjunto de boas intenções. A COP 15, para além de debater os temas habituais ligados à CDB, está discutindo um novo Marco Global para a Biodiversidade e se debruçando sobre temas que emergiram, nos últimos anos, em função do desenvolvimento tecnológico, como a biologia sintética e as sequências digitais (informações genéticas armazenadas sob forma de sequências digitais).

Se, nem no presente nem no futuro desse tratado internacional, é possível vislumbrar dúvidas para nossa primeira impressão – a de que a CDB deveria estar examinando sua baixa taxa de implementação e seu fracasso em alcançar suas metas – talvez seja possível encontrar algum indício no passado, nas origens da ideia de biodiversidade e de sua convenção.

O conceito de biodiversidade

Em algum momento da década de 1980, ganhou tração a ideia de ampliar o conceito de diversidade biológica, antes compreendido como diversidade de espécies e, algumas vezes, também como a variedade existente entre os indivíduos de uma mesma espécie, para todas as dimensões da diversidade existente no planeta. Em 1992, na Rio-92, a Convenção sobre a Diversidade Biológica já tratou biodiversidade quase como um sinônimo de natureza. Quase… 

E quase não porque a biodiversidade abarcaria, como muitos defendem, apenas a “parte viva da natureza”, mas quase porque o conceito de biodiversidade é uma tentativa reducionista de lidar com a natureza, uma tentativa de dar uma aparência científica, mensurável, administrável, compreensível para todo esse mundo complexo que nos cerca e no qual estamos imersos até o último pelinho microscópico das bactérias que habitam o nosso corpo. 

É possível que isso tenha acontecido – adotar o termo biodiversidade para se referir à natureza – por boa-fé da parte dos cientistas. Mas não é possível ignorar algumas consequências e outros elementos que estão na origem dessa substituição. Uma das consequências é a perda do valor afetivo que o termo “natureza” desperta nas pessoas em geral, que em sua grande maioria sequer sabe o que é biodiversidade. Assim, a perda de biodiversidade causa menos angústia do que a degradação da natureza.

Conservação e colonialismo

Há, ainda, diversos outros elementos importantes para pensarmos nos sucessivos fracassos da CDB e o que significa o uso do termo “biodiversidade”. Um deles é o que representa todo o aparato de conservação da biodiversidade, que vem de antes da convenção e ganhou força com ela, diante das formas tradicionais e históricas de povos indígenas e comunidades locais de compartilhar o mundo com os diversos seres que o habitam. 

Após invadir, destruir, predar e dominar boa parte do planeta, o mundo eurocêntrico, montado no colonialismo que emergiu com a invasão da América, percebe que as áreas naturais têm importância e não serão preservadas de sua própria sanha predatória. Nesse momento, emerge a ideia de proteger áreas para manter, em primeiro lugar, recursos naturais e belas paisagens e, mais tarde, a biodiversidade. E a maneira colonial de fazer isso é alijar aqueles que poderiam ajudar a manter essas áreas, como povos indígenas e comunidades locais, e substituí-los por um aparato tecnocrático, cujo objetivo é preservar a biodiversidade.

Ora, não é difícil perceber que se trata de um empreendimento fadado ao fracasso. Por um lado, a simplificação do mundo na ideia de biodiversidade faz sempre com que o aparato tecnocrático seja insuficiente, incompleto e equivocado. Por outro, não é possível, de fato, fazer frente à voracidade predatória do capital, com esse aparato e suas narrativas. E, correndo por fora, há ainda a destruição dos modos de vida dos povos indígenas e comunidades locais, que possuem outra forma de estar no mundo e de compartilhá-lo com os outros seres que aqui habitam, queimando as possibilidades de aprendizado e uma compreensão mais ampla do mundo.

Sabendo de tudo isso, ou pelo menos desconfiando, os delegados se encontram na COP 15, depois de terem passado por uma pandemia global que tem em suas origens as mesmas forças que degradam a biodiversidade a cada dia. Sabendo que a cada ano novas zoonoses – doenças de origem animal – com potencial pandêmico emergem e que isso se deve ao inusitado encontro entre organismos que não se encontravam antes, em função da destruição de seus ambientes e das mudanças climáticas, os representantes dos países gastam seu tempo discutindo expressões e gramática. Desconfiando, talvez, que nada será significativamente diferente, executam os passos de uma dança previamente ensaiada, cujo desfecho será, inevitavelmente, mais destruição.

Talvez o objetivo maior seja manter um fórum, como a CDB, e com ela a ilusão de que há alguma chance do capitalismo não devorar a natureza, criando uma falsa expectativa de que existe alguma possibilidade, que não o fracasso, mas o fracasso é justamente a alma do negócio.

Are we in the Anthropocene? Geologists could define new epoch for Earth (Nature)

Original article

Researchers have zeroed in on nine sites that could describe a new geological time, marked by pollution and other signs of human activity.

McKenzie Prillaman

13 December 2022


Geologists could soon decide which spot on Earth marks the first clear evidence of the Anthropocene — which many of them think is a new geological epoch that began when humans started altering the planet with various forms of industrial and radioactive materials in the 1950s. They have so far whittled their choices down to nine candidate sites worldwide (see ‘Defining the Anthropocene’), each being considered for how reliably its layers of mud, ice or other matter tell the story of people’s influence on a timeline that extends billions of years into the past.

If the nearly two dozen voting members of the Anthropocene Working Group (AWG), a committee of scientists formed by the International Commission on Stratigraphy (ICS), agree on a site, the decision could usher in the end of the roughly 12,000-year-old Holocene epoch. And it would officially acknowledge that humans have had a profound influence on Earth.

Geologists could soon decide which spot on Earth marks the first clear evidence of the Anthropocene — which many of them think is a new geological epoch that began when humans started altering the planet with various forms of industrial and radioactive materials in the 1950s. They have so far whittled their choices down to nine candidate sites worldwide (see ‘Defining the Anthropocene’), each being considered for how reliably its layers of mud, ice or other matter tell the story of people’s influence on a timeline that extends billions of years into the past.Humans versus Earth: the quest to define the Anthropocene

“We’re pointing to something in the rock record that shows we’ve changed the planet,” says Kristine DeLong, a palaeoclimatologist at Louisiana State University in Baton Rouge who studies the West Flower Garden Bank, a candidate site in the Gulf of Mexico.

The Anthropocene site will join 79 others that physically define stages of Earth’s geological timescale — that is, if it’s approved. Even if the AWG agrees on a final candidate, several other committees of geologists must vote on the selection before it is made official. And not all scientists agree that it should be.

Here, Nature examines what it will take to formally define the Anthropocene epoch.

Why do some geologists want an Anthropocene marker?

Scientists coined the term Anthropocene in 2000, and researchers from several fields now use it informally to refer to the current geological time interval, in which human activity is driving Earth’s conditions and processes. Formalizing the Anthropocene would unite efforts to study people’s influence on Earth’s systems, in fields including climatology and geology, researchers say. Transitioning to a new epoch might also coax policymakers to take into account the impact of humans on the environment during decision-making.

Coral growing on oil rig, Flower Garden Banks National Marine Sanctuary, Texas
Coral grows on an oil rig in Flower Garden Banks National Marine Sanctuary, in the Gulf of Mexico.Credit: Flip Nicklin/Minden Pictures/Alamy

“It’s a label,” says Colin Waters, who chairs the AWG and is a geologist at the University of Leicester, UK. “It’s a great way of summarizing a lot of concepts into one word.”

Mentioning the Jurassic period, for instance, helps scientists to picture plants and animals that were alive during that time, he says. “The Anthropocene represents an umbrella for all of these different changes that humans have made to the planet,” he adds.

How do scientists usually choose sites that define the geological timeline?

Typically, researchers will agree that a specific change in Earth’s geology must be captured in the official timeline. The ICS will then determine which set of rock layers, called strata, best illustrates that change, and it will choose which layer marks its lower boundary. This is called the Global Stratotype Section and Point (GSSP), and it is defined by a signal, such as the first appearance of a fossil species, trapped in the rock, mud or other material. One location is chosen to represent the boundary, and researchers mark this site physically with a golden spike, to commemorate it.

But the Anthropocene has posed problems. Geologists want to capture it in the timeline, but its beginning isn’t obvious in Earth’s strata, and signs of human activity have never before been part of the defining process. The AWG was established in 2009 to explore whether the Anthropocene should enter the geological timescale and, if so, how to define its start.

“We were starting from scratch,” says Jan Zalasiewicz, a geologist at the University of Leicester who formerly chaired the AWG and remains a voting member. “We had a vague idea about what it might be, [but] we didn’t know what kind of hard evidence would go into it.”

Years of debate among the group’s multidisciplinary members led them to identify a host of signals — radioactive isotopes from nuclear-bomb tests, ash from fossil-fuel combustion, microplastics, pesticides — that would be trapped in the strata of an Anthropocene-defining site. These began to appear in the early 1950s, when a booming human population started consuming materials and creating new ones faster than ever.

Cryogenian-Ediacaran geological boundary in rock strata marked by a brass plate, Flinders Ranges, South Australia
This golden spike in the Flinders Ranges of South Australia was approved by geologists in 2004, to mark strata exemplifying the Ediacaran period.Credit: James St. John (CC BY 2.0)

During a review that took place a few months ago, the AWG narrowed its list from 12 to 9 candidate sites, tossing out certain locations because their layers weren’t ideal. Among the sites remaining is Crawford Lake in Ontario, Canada, which is described as a sinkhole by Francine McCarthy, a geologist at Brock University in St Catharines, Canada, who studies the location. “The lake itself isn’t very big in area, but it’s very, very deep,” she says. Particles that fall into the lake settle at the bottom and accumulate into undisturbed layers.

Another site on the shortlist is West Flower Garden Bank. Corals here could become a living golden spike because they constantly build new exoskeletons that capture chemicals and particles from the water, DeLong says. “The skeleton has layers in it, kind of like tree rings,” she adds.

Why do some geologists oppose the Anthropocene as a new epoch?

“It misrepresents what we do” in the ICS, says Stanley Finney, a stratigrapher at California State University, Long Beach, and secretary-general for the International Union of Geological Sciences (IUGS). The AWG is working backwards, Finney says: normally, geologists identify strata that should enter the geological timescale before considering a golden spike; in this case, they’re seeking out the lower boundary of an undefined set of geological layers.Involve social scientists in defining the Anthropocene

Lucy Edwards, a palaeontologist who retired in 2008 from the Florence Bascom Geoscience Center in Reston, Virginia, agrees. For her, the strata that might define the Anthropocene do not yet exist because the proposed epoch is so young. “There is no geologic record of tomorrow,” she says.

Edwards, Finney and other researchers have instead proposed calling the Anthropocene a geological ‘event’, a flexible term that can stretch in time, depending on human impact. “It’s all-encompassing,” Edwards says.

Zalasiewicz disagrees. “The word ‘event’ has been used and stretched to mean all kinds of things,” he says. “So simply calling something an event doesn’t give it any wider meaning.”

What happens next?

In a recent Perspective article in Science, Waters and AWG secretary Simon Turner at University College London wrote that the committee would vote to choose a single site by the end of this year1. But 60% of the group’s voting members must agree on a final candidate — and, with several sites under consideration, Waters isn’t sure that a consensus can be reached anytime soon. If no clear winner emerges this month, more voting will be needed to narrow the candidate list, delaying a decision possibly until May 2023.Anthropocene now: influential panel votes to recognize Earth’s new epoch

And that’s not the end of the process. After selecting a finalist, the AWG will present its findings to the ICS’s Subcommission on Quaternary Stratigraphy. Favourable votes from this group would move the proposal to another ICS committee, and subsequent approval would push it to the final stage: ratification by the IUGS.

But the motion could fail at any of those points. And if it does, the AWG will have to revamp its proposal before it can try again — and possibly nominate a new golden-spike site.

Regardless of the outcome, Zalasiewicz thinks that the AWG’s work to define the Anthropocene has been useful. What everybody wants to know is how humans are changing the planet’s geology, he says. “That is the underlying reality that we’re trying to describe.”

Ghosts of Science Past Still Haunt Us. We Can Put Them to Rest. (Undark)

Essay

By C. Brandon Ogbunu

Dec 13, 2022

Edward O. Wilson, known as the “father of biodiversity.” Visual: Rick Friedman/Corbis via Getty Images

Conversations about famed scientists who held troubling views on race should center not on cancellation but on progress.

One autumn afternoon during the mid-2010s, when I was a postdoctoral researcher at Harvard, I decided that I needed a break from the toil of a sinking project on viral population genetics. I left my small, dusty office in the Department of Organismic and Evolutionary Biology and walked across a street to a building that had a vending machine. Just ahead of me, in line, stood Edward O. Wilson — famed naturalist and “father of biodiversity.” He eventually purchased a pack of mints.

Seeing a celebrity in their element is a groovy experience. That day at the vending machine, Wilson wasn’t “Professor Biophilia.” He was just an older man wrangling loose change in his pocket, trying to fix a sugar craving just like mine. But he was a legend. Through the years, I’ve read many of Wilson’s papers and trade books. I still cherish my signed copy of “Consilience: The Unity of Knowledge,” an ambitious if flawed book that contains one of my favorite-ever quotes by a scientist: “The ideal scientist thinks like a poet and works like a bookkeeper, and I suppose that if gifted with a full quiver, he also writes like a journalist.” 

E.O. Wilson, as he was widely known, was beloved by many and respected by almost everyone in the science community. When he died in December 2021, even critics of his work paid their respects to the life of a wizard. But just days after his death, a posthumous revelation sparked a debate about what he really stood for. The controversy raised questions not only about Wilson, but about how the science community as a whole can confront its legacy of racism.

One might say that the controversy was foreshadowed by the final chapter of Wilson’s “Sociobiology,” his 1975 manifesto on how the science of social behavior should embrace evolutionary reasoning in humans. The book was as bold a scientific pivot as you will see. It took courage to be a master in one set of domains — as Wilson was in evolution, entomology, and biodiversity — and engage in another, especially the thorny topic of human behavior and culture, which Wilson took on in his book’s final chapter. “Sociobiology” made several important, resonant observations, but it was also criticized on the grounds that it directly or indirectly put forward a sort of reasoning that is adjacent to scientific racism and sexism. Detractors felt Wilson’s heavy emphasis on evolutionary explanations for human social behaviors radiated the same sort of reductive evangelism that underlies eugenics — science founded upon the idea that certain classes of humans were unfit to reproduce.

Naturalist and Harvard Professor, E.O. Wilson was beloved by many and respected by almost everyone in the science community. But after his death, controversy flared over his support of scientific racist J. Philippe Rushton. Hugh Brown/The Chronicle Collection via Getty Images

Wilson’s dive into the human realm was, in my view, an exercise in the worst kind of carpetbagging, in which an expert uses their large reputation in one arena to justify parachuting into another where they are ignorant or out of their depth. In doing so, Wilson followed, and maybe helped write, a blueprint that continues to influence generations of dumpster fire biological determinists. The controversy encircled Wilson for years, but his excellent reputation eventually transcended it.

After his death was announced, however, the conflict swirled anew. An essay in Scientific American revisited the connections between “Sociobiology”and scientific racism and, much more damningly, scholars uncovered archival evidence that Wilson was an ardent defender of J. Philippe Rushton, a scientific racist who spent a career peddling pulp science fiction about the essential differences between races, draped in the lingo of evolutionary theory. In the archival materials, Wilson referred to anti-racists as “scoundrels.” But apparently, he thought the actual scientific racist that he had a cuddly relationship with was a fine person.

Amid all of this, a circus began. 

A broad, mostly academic alliance formed to defend Wilson’s reputation. It included the typical cast of cancel culture vultures and race science grifters, along with a surprising number of enablers who should have known better. And most of it seemed to me to be driven by some bold hidden agenda: to portray critics of Wilson’s legacy as if they were some imaginary legion of scientific critical race theorists, destined to overtake your curricula, make you and your children sad, and cancel everyone you know and love. The fossil-clutching and fake outrage emboldened extremists, leading to the standard soup-and-salad of white supremacist threats and racist social media posts. Unhelpful, irrelevant debates surrounding Wilson’s character followed, and within a few weeks, people went on with their lives. 

What I’ve observed is a predictable cycle that happens time and time again in science: We discover (or re-discover) a racist thing that a luminary or popular person did or said; the criticism arrives, sometimes with a proposal that their name be removed from some relic or that we no longer honor them for whatever good that they did; a vigorous defense of the accused ensues, often manifesting as lamentations of cancel culture, appeals to academic freedom, attestations to the goodness of the accused, and insistences that the punishment should not be harsher than the crime; then comes a flowering of distracting, irrelevant pontifications about what really lurks in the hearts of people. (“What is a racist person really?”) 

Finally, everyone involved eventually gets tired and goes home. Discovery. Defense. Distraction. Departure. The issue vanishes from our mouths, minds, and social media timelines, and we move on, no one any smarter, no issues resolved.

It is the same sequence that has played out in the aftermath of James Watson’s repeated rants against Black intelligence, and in the wake of another inflammatory Charles Murray article on race and IQ. The more contentious of these situations, however, involve revered figures from the past. Figures like the late Robert A. Millikan, a Nobel-prize winning physicist whose support for racist eugenics policies recently came to light.

This steady drumbeat of revelations raises difficult questions: How can science live with its ghosts — the figures from days of old who are revealed to be the authors, supporters, or enablers of bigoted ideas? How do we hold a ghost accountable? And how can we emerge from these revelations as a smarter and stronger community of scientists and citizen-scientists, with a clear vision for moving forward?

What’s certain is that we can do better than the race science Groundhog Day that we have been reliving since time immemorial. But first, we must shift the discussion away from arguments about the nature of the people who authored and supported these bad ideas, and toward frank assessments of the nature, scope, and consequences of their actions.

The first thing we must do, when confronted by a ghost of science past, is reflect

To reference an old concept from cultural critic Jay Smooth, in discussions of racism, the “what you are” conversation is less relevant than “what you did.” By freeing ourselves of the burden of having to debate the essential goodness of a bad actor, we can begin to have a more refined conversation about what accountability looks like. 

In the case of Wilson, I don’t care whether we formally label him a racist (“what he is”). I do know, however, that his support of Rushton amplified race scientists and their rancid ideas (“what he did”). And I know that race science is perhaps the most destructive intellectual scam ever constructed. It has poisoned basic conversations about human evolution and genetics, even — perhaps especially — for people with non-racist leanings or tendencies. It has stymied progress, muddied conversation, and discouraged talented people from studying genetics and evolution. As far as misinformation problems go, it sits alongside scientific sexism on pseudoscience’s Mount Rushmore. (Give the anti-vax and climate change denial movements time to mature slightly, and they will take their rightful place there as well.) By extension, people who support race scientists promote destructive misinformation. And Wilson did just that. 

Wilson and other scientists who have authored, enabled, platformed, or promoted racist ideas have failed in their primary job description: to participate in the scientific process in a responsible manner. We may even consider the infractions as acts of scientific malfeasance, rather than as the acts of insensitivity. Being mean is bad. Propagating dangerous misinformation might be worse. 

Crucially, reflection needn’t always produce a guilty verdict. In 2020, the Society of Systematic Biologists seemed to call into question the past writings of evolutionary biologist Ernst Mayr, proposing to change the title of an award in his name. When I looked back on those writings, I didn’t feel the “what he did” amounted to much of an infraction. (The society later clarified that the proposed name change was not meant to be an indictment of Mayr, but rather part of a broader strategy to promote inclusion.) 

How can science live with its ghosts — the figures from days of old who are revealed to be the authors, supporters, or enablers of bigoted ideas?

But when an appraisal of a person’s actions does point to clear wrongdoing, how do we act on that knowledge? I believe that any revelation of a racist transgression committed by a scientist we admire — be it big or small — should meaningfully change the way we look at that person and their body of work. No, we need not embrace the charge of “cancellation,” which offers few opportunities to learn or solve the problem of how to truly hold bad actors accountable. But we must come to see the ghost’s legacy in a new light. 

We must reconstruct.

To reconstruct a person’s legacy is to grapple with complexity. We should not be afraid of the multiplicities that are the lives of the people that we admire. It is possible to carry several, maybe even competing understandings in our head at the same time. This is standard in science: Newtonian and quantum mechanics, natural selection and genetic drift, somatic and germline mutation. Science teaches us that keeping track of counterintuitive, incongruous, competing, or even incompatible ideas is the only way to understand nature. 

This also goes for people. E.O. Wilson was a world-class scientist and made lasting contributions to several disciplines. But his amplification of pseudoscientists — and the misinformation they produced — are now part of his scientific legacy. That is, when we teach about him in our biology courses, when he is memorialized in biographies, we should tell the whole story. The bad should stand alongside the good. 

Ronald Fisher, an early 20th century polymath who helped found the field of population genetics and pioneer modern statistical sciences, is a canonical example of this duality. There is no debate to be had about the importance of his scientific contributions: Virtually everyone who has ever conducted any form of empirical research has been influenced by Fisher’s inventions. But he was also an architect of eugenics. His contributions to that dark chapter of science are also a part of his story. 

Most famous for his studies on ants, E.O. Wilson was a world-class scientist and made lasting contributions to several disciplines. But his amplification of pseudoscientists are now part of his scientific legacy. Hugh Brown/The Chronicle Collection via Getty Images

Still, it is not enough to simply acknowledge that people are complicated and shrug our shoulders. After reflecting on a scientist’s misdeeds and working to reconstruct their legacy, we must address the damage and chart a path forward.

We must repair.

Modern efforts to repair the damage of racism often center around the naming and renaming of awards. Such was the case when the Society for the Study of Evolution decided, two years ago, to rename a prestigious prize that had commemorated Fisher, and when Caltech, after much debate and deliberation, decided to rename campus buildings named after Millikan and other eugenicists. 

There are many sensible reasons to change the names of relics named after people. They include the idea that to name something after someone is to honor them. If the namesake was an avowed eugenicist, then we should not honor them, because the ideas had negative real-world consequences. And there are good arguments for doing away with named awards altogether: Names on relics often — though not always — imply a lone genius model of scientific achievement that is proving to be less true. All the greats had help, and history hasn’t been fair with regards to who gets credit. There is even an argument to be made for leaving the name of an award or other monument intact, despite the transgressions of its namesake: Removing a disgraced name allows society to sidestep discussions of the harms the person caused and to avoid wrestling with the question of what it means that society ever honored someone who harbored such racist perspectives in the first place. (Here, I’m borrowing from a viewpoint commonly expressed in a related debate over the removal of Confederate monuments in the United States.) 

In my view, an organization’s decision to rename, dename, or keep the name of an award or other monument should be made collectively — by the group’s leadership, members, and other stakeholders — and should reflect that organization’s values and priorities. Whatever the decision, what is most important is that we recognize that symbolic decisions about names are not the solution to the problem of how we reconsider our past. These actions should not be the end goal of our efforts to repair, but rather the beginning of a longer and more important process. The same painful revelations that spur us to reconsider the names of awards and monuments can also serve as moments to pause, take stock of our efforts to foster inclusion, and even focus on building new statues that reflect our better angels. 

To reconstruct a person’s legacy is to grapple with complexity. We should not be afraid of the multiplicities that are the lives of the people that we admire.

Among my most esteemed scientific colleagues are several persons of African descent, some born in the United States around the time of the Civil Rights Act of 1964. They include a virologist who uses evolutionary theory to build viruses that kill the bacteria that cause illness, a computational biologist who has developed statistical tools that allow us to understand the link between genotype and phenotype with greater clarity, and a zoologist who studies the complex phylogeny of animals. They are not only great scientists, but they have dedicated much of their career to opening doors for others. These colleagues, and others of many backgrounds, remind me that there are new people to celebrate, and new scientific statues to build.

Part of this statue building should also take the form of supporting the potential legends of tomorrow — many of whom are dealing with life challenges or languishing in self-doubt — and making it easier for them to participate in the scientific enterprise. Many young people with E.O. Wilson-like talent are currently sitting in, or outside of, biology classrooms, either unaware of their gifts, or seeing few avenues to become the next great scientist. They span geographical ancestries, nationalities, and gender identities. 

This more enduring form of reparation should be the true goal of diversity, equity, and inclusion initiatives: not to place more “butts in seats” or to add color to departmental website photos, but to unearth talents from communities of people who have been told — by scientific racists and others — that they have little to offer. And it is the best way, perhaps the only way, to truly put to rest the ghosts of science past. 

Properly executed, the method above — reflection, reconstruction, reparation — has none of the flavor of cancellation. It removes distracting conversation about whether or not the ghost was a nice person. It focuses on the bad ideas themselves and seeks to construct a fair but full picture of who these scientists were. And it proposes ways that the scientific enterprise can repair the damage done — not through empty and performative gestures, but through creating more opportunities for more people to participate in the science enterprise.

Though I saw him in person several times, I didn’t know E.O. Wilson. I don’t know if he owned a pet or followed professional tennis; I don’t know if he listened to Charlie Parker or Frank Sinatra while counting the ants that he would become famous for; I don’t know if he voted for Obama or McCain in 2008. And I don’t care. 

I’ve surely been force-fed an image for decades: Wilson as a nature-loving, southern gentleman who was out of his element among the unfriendly elites of Cambridge, Massachusetts.

I don’t know if this is true. And I don’t care.

Wilson was an evolutionary biologist who inspired many, opened our eyes to how nature worked, wrote many books with good ideas, and wrote others with corny and broken ones.

I also know, without a shadow of a doubt, that he amplified the authors of vile, regressive drivel. And I can accept this while still having respect for his contributions.

If I can remember the good and smile when I think of the mints that Wilson bought from a vending machine that one autumn day, then I owe it to his ghost to remember him for the wretched ideas that he and many others helped to propagate.

And so do you.

C. Brandon Ogbunu is an assistant professor in the Department of Ecology and Evolutionary Biology at Yale University, and is an external professor at the Santa Fe Institute.

Jamil Chade – Como diplomatas tentaram, de dentro do Itamaraty, conter atos de Bolsonaro (UOL)

noticias.uol.com.br

REPORTAGEM

Jamil Chade

Colunista do UOL

07/12/2022 04h00 – Atualizada em 07/12/2022 14h06


Dois diplomatas entram em um café em uma capital europeia. Um deles é brasileiro e carrega informações ultrassecretas. Sua missão é desarmar uma bomba. Parece filme de espionagem, mas a cena é real e se repetiu no governo Bolsonaro.

Uma rede de resistência clandestina foi criada no Itamaraty para conter a política externa bolsonarista.

Temas como mudanças climáticas, direitos humanos, a questão palestina ou mesmo a Guerra da Ucrânia foram tratados nesses encontros sigilosos, confirmados pelo UOL com 13 funcionários do Itamaraty, incluindo embaixadores e servidores administrativos, e em um amplo e ainda inédito estudo de pesquisadoras da FGV e de Oxford. A rede não envolveria apenas alguns poucos nomes e, de fato, teria se espalhado por alguns dos principais departamentos da chancelaria.

Os objetivos da rede clandestina eram:

  • Permitir que o outro país tivesse tempo para reagir a mudanças na política externa do Brasil, sem que uma crise fosse estabelecida
  • Preservar a credibilidade do Brasil no exterior e salvar décadas de uma construção da diplomacia nacional

Para diplomatas, a palavra correta seria resistência, que existiu “em nome da democracia e da soberania”, e sempre ocorreu dentro de parâmetros da legalidade. No fundo, tais atos não eram nada mais que uma tentativa de “equalizar posições” diante daqueles que estavam destruindo as estruturas do Estado. A verdadeira sabotagem, neste sentido, era o que estava ocorrendo com o sequestro de décadas da diplomacia brasileira para atender aos objetivos da extrema direita.

Os encontros clandestinos eram apenas uma das táticas da resistência, que também:

  1. Montou um esquema de contatos diretos com governos estrangeiros, sem ter de passar pela cúpula do Itamaraty e com o objetivo de desarmar crises diplomáticas.
  2. Limitou-se a ler “a instrução que chegou de Brasília”, em reuniões na ONU, OMS ou OEA, sem uma atuação de empenho para convencer os demais países a seguir o Brasil em suas posições.
  3. Copiou documentos que poderiam ser usados para defender um diplomata contra acusações e registrar a ilegalidade de certos atos do Planalto.
  4. Gravou reuniões de forma clandestina nas quais a cúpula bolsonarista ordenou a suspensão de termos de documentos ou o veto a determinadas resoluções que citassem a palavra “gênero” ou outros temas delicados.
  5. Vazou informações para a sociedade civil sobre o posicionamento do Brasil na esperança de que uma pressão pública fosse feita para impedir que um determinado ato fosse concretizado.
  6. Publicou artigos sob o nome de outra pessoa ou de um acadêmico.
  7. “Arrastou o pé”, diminuindo o ritmo de trabalho na implementação de instruções estabelecidas pela cúpula bolsonarista.
  8. Enganou a chefia ou informou o que era absolutamente necessário, ocultando da cúpula situações ou posições por parte de outros governos.
  9. Realizou reuniões sem registros na agenda oficial, impedindo que certos temas ou debates entrassem no radar da direção.
Itamaraty - tradição - Arte/UOL - Arte/UOL
Itamaraty – Diplomacia Brasileira Imagem: Arte/UOL

Um clima de medo, represálias e perseguição se instalou no Itamaraty nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro.

Saíram de cena a tradição e as nomeações técnicas, que sempre guiaram de forma explícita desde a promoção de diplomatas até as posições do Brasil no exterior, e entraram as indicações políticas e o alinhamento ideológico compulsório ao núcleo bolsonarista.

As mesmas condições foram identificadas na pesquisa coordenada pela professora da FGV Gabriela Lotta, em parceria com Izabela Corrêa, de Oxford, e Mariana Costa, também da FGV.

As pesquisadoras entrevistaram diplomatas em diferentes posições na carreira e que estão alocados em distintos países e setores do Itamaraty.

Todo o levantamento é feito de forma sigilosa e anônima, para preservar a identidade dos entrevistados.

Segundo os funcionários ouvidos a gestão Bolsonaro promoveu:

  • Monitoramento de diplomatas sobre o que curtiam nas redes sociais, se eram membros de partidos políticos ou até com quem eram casados. Uma funcionária relatou que não foi promovida depois que “foi descoberto” que seu marido trabalhou em um governo anterior.
  • Substituição de funcionários que se dedicavam a estudos de temas contrários à agenda de Bolsonaro como clima, meio ambiente, gênero e direitos humanos, por pessoas leais ao governo.
  • Promoções e transferências para o exterior foram transformadas em moeda de troca e instrumento de ameaça.
  • Palavras como “gênero”, “Cuba” e “mudanças climáticas” foram vetadas, evitadas ou até apagadas de documentos oficiais do passado. Uma servidora admitiu que teve como função modificar portarias, discursos, informações no site oficial e telegramas.

Mulheres e homossexuais foram especialmente alvo dessa nova fase. “Há uma masculinização e a volta de certas práticas, como piadas no corredor”, contou Gabriela Lotta, a pesquisadora da FGV.

O que mais escutava nas entrevistas era: O tio da Sukita se normalizou

O que diz o Itamaraty sobre as denúncias?

Nada. Procurado para comentar a reportagem, o Ministério das Relações Exteriores se manteve em silêncio.

O número de pessoas removidas de seus cargos chegou a tal ponto que consolidou-se o apelido informal usado para designar diplomatas loteados em locais onde não faziam nada: “Departamento de Escadas e Corredores”.

Um exemplo emblemático aconteceu logo nos primeiros meses da gestão do ex-chanceler Ernesto Araújo, que decidiu isolar e deixar sem função o diplomata Audo Faleiro. A justificativa: ele teria trabalhado para os governos do PT.

Itamaraty - Clima de medo e represálias - Arte/UOL - Arte/UOL
Itamaraty – represálias Imagem: Arte/UOL

Em meados de 2019, Faleiro deixou seu posto em Paris para voltar ao Itamaraty. Foi nomeado como chefe da Divisão da Europa e, dois dias depois, o gabinete de Araújo informou que o cargo teria de ser retirado.

O diplomata ficou por seis meses na biblioteca do Itamaraty, aguardando um novo cargo. Foi apenas em março de 2020 que ele foi colocado no Departamento Financeiro. Ainda assim, sem o direito de ir a algumas reuniões e com o compromisso de que, na ausência da chefia, não assumiria o departamento.

Para muitos, Faleiro foi usado como exemplo:

Olha o que pode ocorrer contigo. Não faça isso se não quiser virar o próximo Audo

O tamanho do estrago

Os relatos coincidem com quatro anos que transformaram o Brasil em um pária internacional.

Para a professora da FGV Gabriela Lotta, o impacto não se limitou aos muros do Palácio do Itamaraty.

“A diplomacia brasileira tem sua moral e influência construídas na tradição e expertise. O governo negou isso, prejudicou a política externa e enfraqueceu a diplomacia e a imagem do Brasil.”

Na opinião da pesquisadora e dos embaixadores e diplomatas ouvidos pelo UOL, resistir foi a saída encontrada para sobreviver a um dos momentos mais tenebrosos da democracia brasileira.

Muitos, porém, pagaram um preço elevado, tanto profissionalmente como em relação à saúde mental.

O uso de tarja preta foi disseminado.

COP15 da biodiversidade começa com racha sobre conservação (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Ana Carolina Amaral

Brasil busca proteger agrotóxicos e atrair recursos, mas rejeita meta global


De quem é a responsabilidade pela conservação da biodiversidade global? Essa é a pergunta que trava as negociações da COP15 da Convenção de Diversidade Biológica da ONU, que começa nesta quarta-feira (7) e vai até o próximo dia 19, em Montreal, no Canadá. O objetivo é chegar a um novo acordo global que reúna os países em torno de uma meta de conservação.

A proposta mais popular leva o apelido de 30×30 e prevê conservar 30% da biodiversidade global até 2030. ONGs e movimentos sociais defendem uma parcela maior, que garanta a conservação de 50% dos ecossistemas.

Na segunda-feira (5), a meta mais ambiciosa foi defendida em uma carta assinada por dezenas de organizações brasileiras, incluindo a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e o MST (Movimento Sem Terra).

Embora ainda haja diversas propostas de números na mesa, o detalhe, no entan [sic] que racha as posições dos países é a definição sobre a meta ser global ou nacional. O Brasil trabalha contra a meta global. Propõe, no lugar, que cada país se comprometa a conservar 30% do seu território, de modo que a meta se torne nacional.

A estratégia busca evitar que a responsabilidade por boa parte da biodiversidade global seja empurrada para dentro do território nacional, que é o mais biodiverso do mundo. China, África do Sul e outros países megabiodiversos e em desenvolvimento acompanham o Brasil nessa posição.

Alguns países desenvolvidos, no entanto, têm dito que não haverá acordo sem uma meta global. Para o bloco rico, a responsabilidade pela conservação é dos países detentores da biodiversidade.

Para que os territórios biodiversos não se tornem um ônus para o país detentor, que teria o uso do seu território restringido, a proposta defendida por países, cientistas e organizações ambientalistas é que o restante do mundo financie a conservação desses territórios.

Aqui entra outra divergência: países em desenvolvimento querem que isso aconteça através de um novo fundo, voltado à biodiversidade. A proposta, feita pelo Brasil no início do ano, ganhou força após a aprovação de um novo fundo climático na COP27, no mês passado.

Mas os países ricos evitam assumir esse compromisso e já adiantam que o financiamento deve vir de todas as fontes —públicas e privadas.

Outro caminho para valorizar economicamente a biodiversidade é a definição sobre incentivos econômicos para as atividades que contribuem com a conservação e a extinção dos subsídios às ações danosas para os biomas.

Nesse tema, o Brasil tenta emplacar o incentivo à bioeconomia (que envolve a exploração de espécies florestais não madeireiras, com a extração de cacau, castanha, açaí, entre outros), mas enfrenta resistência e desconfiança especialmente dos europeus. Isso porque o país também vai à COP15 para proteger o comércio agrícola, evitando, por exemplo, uma proposta da União Europeia que prevê cortar os subsídios aos agrotóxicos —algo que o Brasil busca proteger.

“O Brasil confia que variados setores de sua economia, inclusive o agronegócio, apresentam casos de sucesso de sustentabilidade, que contribuem para reafirmar o compromisso brasileiro com a promoção do desenvolvimento sustentável e a inclusão social, aliados ao fomento à inovação, à ciência e à tecnologia”, diz um ofício do Itamaraty enviado em resposta ao requerimento de informação pelo deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP) sobre as posições brasileiras na COP15.

A Folha teve acesso aos ofícios enviados pelos ministérios de Relações Exteriores, Economia, Agricultura e Justiça em resposta ao deputado. Já o Ministério do Meio Ambiente foi o único que não respondeu aos questionamentos e pediu mais prazo, embora tenha enviado negociadores para completar o time dos diplomatas na COP15.

Entre as negociações que mais engajam o Itamaraty e o setor privado brasileiro nesta COP, estão o pagamento por serviços ambientais e a repartição dos benefícios da utilização de recursos genéticos, que podem ser implementados a partir da negociação, nesta COP, do mecanismo de Informações de Sequenciamento Digitais (conhecido como DSI, na sigla em inglês).

Embora os países tenham apenas 12 dias de negociação pela frente, a expectativa de que atinjam um consenso que permita assinar um novo acordo global pela biodiversidade é baixa, já que eles chegam à COP15 com poucos avanços colhidos das duas reuniões preparatórias. O rascunho do acordo já passou por negociações em Genebra, em março, e em Nairóbi, no Quênia, em junho.

Além das questões centrais sobre a meta global e o financiamento, os países mantêm posições conflituosas em pelo menos outras seis metas, sobre restauração, áreas espaciais para conservação, poluição, clima, integração com outras áreas e financiamento.

Antídoto onírico (451)

quatrocincoum.com.br

Divulgação Científica | Os Melhores Livros de 2022

Livro sobre sonhos Yanomami mostra que a escuta das vozes dos povos originários é um ensinamento político

Christian Dunker
01dez2022 05h51 (01dez2022 12h11)


O desejo dos outros se insere no debate brasileiro contemporâneo sobre psicanálise e antropologia para além de sua contribuição rigorosa para a descolonização do pensamento. A escuta das vozes dos povos originários não é apenas um benfazejo exercício para tratar nosso etnocentrismo, mas um ensinamento político para todos que se perguntam: onde está a porta pela qual posso sair da bolha? Ou: onde está a catraca reversa que me colocará no antropoceno real e não no metaverso do Brasil paralelo? Hanna Limulja responde que a saída começa pelo sonho. O sonho tem um sentido, diria Artemidoro de Daldis. Este sentido é dado pelo sonhador e referido ao seu desejo, diria Freud. O “eu” do sonhador é um Outro, diria Rimbaud. Desejo de se tornar outro, diria Madame Bovary. Desejo do outro, diria Hegel. Desejo de desejo do desejo do Outro, diria Lacan. Outro desejo, nos dizem os Yanomami.

O desejo dos outros, de Hanna Limulja, se insere no debate brasileiro contemporâneo sobre psicanálise e antropologia para além de sua contribuição rigorosa para a descolonização do pensamento

Sonhar, para eles, é “antes de tudo viajar longe” e “escapar do familiar”. É estar no limite no lugar dos mortos, representados pela noite, e também dos vivos que habitam outros lugares, representados pelo dia. Entre os dois mundos há a experiência da penumbra, da transição, da passagem. Lá está o reino das imagens. Assim como nossos artistas criam linguagens para um mundo que não está ainda presente, os sonhos Yanomami criam mundos para linguagens que ainda não existem. Tais linguagens são o que se pode chamar de perspectiva, ou seja, o ponto de vista que corresponde a este mundo. A grande torção não consiste apenas em perguntar que mundo quero para meu desejo, mas que desejo é preciso inventar para o mundo que vejo em meus sonhos.

O sonho é um intermediário epistêmico entre o que sei porque testemunhei e o que sei porque ouvi falar sobre. É uma negação dos dois modos de funcionamento pois é uma experiência profundamente minha, ocorrida na solidão da noite; mas, ali onde vivi aquilo, não era só este eu que me habitava. Inversamente, o sonho só se torna sonho verdadeiro quando contado, quando passa a ser um saber dos outros. As tragédias, os genocídios (como o de Haximu, em 1993), as mortes irreparáveis (como a de Chico Mendes), a invasão de mineradores são enfrentadas com o sonho. As decisões amorosas, os casamentos, as guerras e os adoecimentos também. O sonho é um método de conhecimento, não apenas a expressão de uma individualidade. Como tal, envolve uma epistemologia política da maior importância, não só como retrato pitoresco ou folclórico que afinal seria a “expressão” de um primitivismo alegórico e harmonioso, mas como forma de vida que pode efetivamente nos ajudar a enfrentar a crise bio-necropolítica de nossos tempos.

O antítodo oniropolítico começa pela ideia de tornar os mortos agentes políticos — aliás, como sempre foram —, mas aqui em um sentido algo diferente. Primeiro porque envolve uma outra concepção de tempo e em particular do futuro. Não se trata de ver no sonho uma prescrição, um destino ou uma escritura, mas uma experiência de conhecimento testemunhal, que orienta a ação coletiva das pessoas. Segundo porque, em contraste dos brancos que reservam os sonhos ao cuidado restrito e sigiloso dos psicanalistas, os Yanomami entendem que um sonho só se completa quando é contado, partilhado socialmente, às vezes contado de viva voz no meio da aldeia. Ao colocar o sonho “na roda” e ao relacioná-lo com problemas concretos da comunidade, cria-se uma espécie de jogo em que a mesma situação se apresenta em outras perspectivas, sugerindo assim novas soluções. Terceiro, novas soluções de nada adiantam se continuamos a ser as velhas pessoas. Neste sentido, a decomposição da pessoa Yanomami envolve versões de si que fariam inveja à qualquer teoria contemporânea do self: “o rosto que expressa pelo olhar” (pei pihi), o “espectro de si mesmo como morto” (né porepé), “a imagem interna de uma unidade corporal: sombra, reflexo, eco” (pei utupé), o “alter ego animal” (rixi).

Saber-fazer

Se todos sonham, nem todos têm o mesmo saber-fazer com os sonhos. Ainda que os xamãs sejam particularmente vocados nessa matéria, alguns ficarão fracos de tanto sonhar, outros serão assombrados pelos mortos, outros ainda nem se lembrarão dos sonhos. Para usar os sonhos de modo oniropolítico é preciso criar e cultivar seus próprios xapiri-pë, versões intermediárias de si, espíritos protetores ou vozes ajudantes que “trançam os fios da rede até o ponto delas se tornarem antenas para o céu”. Inversamente, durante os sonhos, eles nos protegem na convivência com os mortos, impedindo que “venham para cá” ou que, movidos por saudades, nós queiramos “ir para lá”. Eles são a voz que diz: “Voltaremos para vocês, é claro! Mas sem pressa! Retornem ao lugar de onde vieram!”.

O sonho não é um presságio, mas uma espécie de enigma sobre o qual se deve agir

Em uma cultura que partilha seus sonhos, a interpretação funciona de outra maneira. Menos do que um produto inesperado de si mesmo, as visões oníricas são parte de um mundo possível e real, eventualmente já acontecido ou em vias de acontecer. Por exemplo, sonhar com um sobrinho enfeitado com penas pode indicar que seu adoecimento é mais sério do que se pensava e ele pode morrer, porque é nesta condição que os corpos podem ser enfeitados. Porém o sonho não é um presságio, mas uma espécie de enigma sobre o qual se deve agir: procurar um xamã, mudar o caminho da cura ou realizar um rito protetivo.

Isso sugere uma homologia com a política que a psicanálise tem com o sonho: ele também é uma realização de desejo, mas, em vez de perguntar qual desejo foi suprimido neste mundo, os Yanomami perguntam: para este mundo, oniricamente revelado, qual é o desejo que lhe corresponde? Se na psicanálise perguntamos pela relação que as pessoas mantêm com seu desejo, o xamanismo Yanomami pergunta pela pessoa que você precisa ser se o mundo assim se apresentar. Se na psicanálise lemos os sonhos para entender qual passado sexual infantil e recalcado corresponde ao futuro realizado pelas imagens oníricas, no transe xapiri o espírito do xamã fala do passado mítico tendo em vista um futuro indeterminado. Por isso o modelo proposto por Limulja para pensar os sonhos dos Yanomami como uma fita de Moebius — ou seja, o sonho como ponto de torção entre vivos e mortos, dia e noite, sonho individual e mito coletivo — é também a chave para pensar transformações políticas e clínicas: “O próprio xamã vai elaborando seu repertório mítico e ampliando suas experiências oníricas. Seus sonhos transformam o mundo, mas isso só é possível porque ele mesmo é transformado por esta experiência”. Isso vale para as pequenas decisões do cotidiano, para as escolhas inerentes à arte da caça, para os cuidados com a segurança, mas sobretudo para os sonhos que permeiam o trabalho de luto e cercam a experiência da morte.

Uma mulher que perdera a filha e acabara de incinerar os ossos dela se alegra ao reencontrar a filha morta, que não entende o que está acontecendo e pergunta: “Mãe, por que seu rosto está pintado de preto?” Mas a mãe tenta a todo custo despistar a morta. Então ela olha para o cesto que contém seus ossos incinerados e pergunta: “Mãe, o que há dentro do cesto?”. E a mãe dissimula, mas os papagaios respondem: “Esses são seus ossos queimados”. Neste momento os Inhambu [pássaros associados com a morte e o entardecer] cantam e levantam voo.

O sonho se insere na vida como uma forma atenuada de morte. Numa sociedade na qual jamais se pronuncia o nome do morto e todo rastro de vida é apagado depois da festa fúnebre, a presença da morte não faz monumento, história ou escrita. A decisão que interpreta o sonho como uma imagem mítica do passado ou como um mundo possível no futuro é sobretudo um ato político. Vindo a morte sempre a partir de fora, seja este fora o inimigo terreno ou as voluptuosas almas dos mortos, os vivos têm menos domínios de sua vida do que gostariam. Aqui, mais do que nunca, confirmamos o dito de Lévi-Strauss para quem o psicanalista é um xamã moderno:

Se por um lado o sonho é sempre desencadeado pela vontade de um outro, e o sonhador aparece como uma “presa”, uma vítima, alguém à mercê do sentimento que lhe é alheio, por outro, o sonhador não está de forma alguma inteiramente subjugado ao sentimentos deste outro. Os vivos resistem aos apelos destes outros, e é porque resistem que eles podem continuar existindo Yanomami. 

In Commemoration: A Sampling of Herman Daly (Steady State Herald)

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Lydia SchubarthNovember 17, 2022

by Herman Daly (posthumously) — Introduction by Brian Czech

Given the recent, tragic passing of Herman Daly, we allocate this week’s Steady State Herald to the wise words of Daly himself. From 2010-2018, Herman was a regular contributor to The Daly News, CASSE’s blog before the Herald was launched. (Herman’s modesty almost prevented us from naming the blog after him, but he was outnumbered by CASSE staff and board, and The Daly News it was!)

Daly News articles were shorter—and eminently pithier from the pen of Daly—so we’re able to package a sample of three articles into this commemorative display. These are three of the thirty three articles bound in the book, Best of The Daly News: Selected Essays from the Leading Blog in Steady State Economics, 2010-2018.

Best of The Daly News was the first book published by the Steady State Press, CASSE’s nascent imprint. Herman Daly was happy with the production, which also became the first membership gift. We’re sure you’ll be happy with the distillation below. After all, we might arguably call these articles “the best of the Best of The Daly News.”

Wealth, Illth, and Net Welfare (November 13, 2011)

Well-being should be counted in net terms, that is to say we should consider not only the accumulated stock of wealth but also that of “illth;” and not only the annual flow of goods but also that of “bads.” The fact that we have to stretch English usage to find words like illth and bads to name the negative consequences of production that should be subtracted from the positive consequences is indicative of our having ignored the realities for which these words are the necessary names. Bads and illth consist of things like nuclear wastes, the dead zone in the Gulf of Mexico, biodiversity loss, climate change from excess greenhouse gas emissions, depleted mines, eroded topsoil, dry wells, exhausting and dangerous labor, congestion, etc. We are indebted to John Ruskin for the word “illth,” and to an anonymous economist, perhaps Kenneth Boulding, for the word “bads.”

In the empty world of the past, these concepts and the names for them were not needed because the economy was so small relative to the containing natural world that our production did not incur any significant opportunity cost of displaced nature. We now live in a full world, full of us and our stuff, and such costs must be counted and netted out against the benefits of growth. Otherwise we might end up with extra bads outweighing extra goods and increases in illth greater than the increases in wealth. What used to be economic growth could become uneconomic growth—that is, growth in production for which marginal costs are greater than marginal benefits, growth that in reality makes us poorer, not richer. No one is against being richer. The question is, does more growth really make us richer, or has it started to make us poorer?

Wealth and illth: which the greater? (CC BY 2.0, Michael Caven)

I suspect it is now making us poorer, at least in some high-GDP countries, and we have not recognized it. Indeed, how could we when our national accounting measures only “economic activity”? Activity is not separated into costs and benefits. Everything is added in GDP, nothing subtracted. The reason that bads and illth, inevitable joint products with goods and wealth, are not counted, even when no longer negligible in the full world, is that obviously no one wants to buy them, so there is no market for them, hence no price by which to value them. But it is worse: These bads are real and people are very willing to buy the anti-bads that protect them from the bads. For example, pollution is an unpriced, uncounted bad, but pollution cleanup is an anti-bad which is accounted as a good. Pollution cleanup has a price, and we willingly pay it up to a point and add it to GDP—but without having subtracted the negative value of the pollution itself that made the cleanup necessary. Such asymmetric accounting hides more than it reveals.

In addition to asymmetric accounting of anti-bads, we count natural capital depletion as if it were income, further misleading ourselves. If we cut down all the trees this year, catch all the fish, burn all the oil and coal, etc., then GDP counts all that as this year’s income. But true income is defined (after the British economist Sir John Hicks) as the maximum that a community can consume this year and still produce and consume the same amount next year. In other words, it entails maximizing production while maintaining intact future capacity to produce. Nor is it only depletion of natural capital that is falsely counted as income; failure to maintain and replace depreciation of man-made capital, such as roads and bridges, has the same effect. Much of what we count in GDP is capital consumption and anti-bads.

As argued above, one reason that growth may be uneconomic is that we discover that its neglected costs are greater than we thought. Another reason is that we discover that the extra benefits of growth are less than we thought. This second reason has been emphasized in the studies of self-evaluated happiness, which show that beyond a threshold annual income of some $20-25,000, further growth does not increase happiness. Happiness, beyond this threshold, is overwhelmingly a function of the quality of our relationships in community by which our very identity is constituted, rather than the quantity of goods consumed. A relative increase in one’s income still yields extra individual happiness, but aggregate growth is powerless to increase everyone’s relative income. Growth in pursuit of relative income is like an arms race in which one party’s advance cancels that of the other. It’s like everyone standing and craning their neck in a football stadium while having no better view than if everyone had remained comfortably seated.

As aggregate growth beyond sufficiency loses its power to increase welfare, it increases its power to produce illth. This is because to maintain the same rate of growth, ever more matter and energy has to be mined and processed through the economy, resulting in more depletion, more waste, and requiring the use of ever more powerful and violent technologies to mine the ever leaner and less accessible deposits. Petroleum from an easily accessible well in East Texas costs less labor and capital to extract, and, therefore, directly adds less to GDP, than petroleum from an inaccessible well a mile under the Gulf of Mexico. The extra labor and capital spent to extract a barrel in the Gulf of Mexico is not a good or an addition to wealth—it is more like an anti-bad made necessary by the bad of depletion, the loss of a natural subsidy to the economy. In a full-employment economy, the extra labor and capital going to petroleum extraction would be taken from other sectors, so aggregate real GDP would likely fall. But the petroleum sector would increase its contribution to GDP as nature’s subsidy to it diminished. We would be tempted to regard it as more, rather than less, productive.

The next time some economist or politician tells you we must do everything we can to grow (in order to fight poverty, win wars, colonize space, cure cancer, whatever…), remind him or her that when something grows it gets bigger! Ask him how big he thinks the economy is now, relative to the ecosphere, and how big he thinks it should be. And what makes him think that growth is still causing wealth to increase faster than illth? How does he know that we have not already entered the era of uneconomic growth? And if we have, then is not the solution to poverty to be found in sharing now, rather than in the empty promise of growth in the future?

Fitting the Name to the Named (March 28, 2011)

There may well be a better name than “steady state economy,” but both the classical economists (especially John Stuart Mill) and the past few decades of discussion, not to mention CASSE’s good work, have given considerable currency to “steady state economy” both as concept and name. Also, both the name and concept of a “steady state” are independently familiar to demographers, population biologists, and physicists. The classical economists used the term “stationary state” but meant by it exactly what we mean by steady state economy; briefly, a constant population and stock of physical wealth. We have added the condition that these stocks should be maintained constant by a low rate of throughput (of matter and energy), one that is well within the regenerative and assimilative capacities of the ecosystem. Any new name for this idea should be sufficiently better to compensate for losing the advantages of historical continuity and interdisciplinary familiarity. Also, “steady state economy” conveys the recognition of biophysical constraints and the intention to live within them economically, which is exactly why it can’t help evoking some initial negative reaction in a growth-dominated world. There is an honesty and forthright clarity about the term “steady state economy” that should not be sacrificed to the short-term political appeal of vagueness.

Fitting the name (and a logo) to the named.

A confusion arises with neoclassical growth economists’ use of the term “steady-state growth” to refer to the case where labor and capital grow at the same rate, thus maintaining a constant ratio of labor to capital, even though both absolute magnitudes are growing. This should have been called “proportional growth,” or perhaps “steady growth.” The term “steady-state growth” is inept because growth is a process, not a state, not even a state of dynamic equilibrium.

Having made my terminological preference clear, I should add that there is nothing wrong with other people using various preferred synonyms, as long as we all mean basically the same thing. Steady state, stationary state, dynamic equilibrium, microdynamic-macrostatic economy, development without growth, degrowth, post-growth economy, economy of permanence, “new” economy, “mature” economy…these are all in use already, including by me at times. I have learned that English usage evolves quite independently of me, although like others I keep trying to “improve” it for both clarity and rhetorical advantage. If some other term catches on and becomes dominant then so be it, as long as it denotes the reality we agree on. Let a thousand synonyms bloom and linguistic natural selection will go to work. Also, it is good to remind sister organizations that their favorite term, when actually defined, is usually a close synonym to steady state economy. If it is not, then we have a difference of substance rather than of terminology.

Out of France now comes the “degrowth” (décroissance) movement. This arises from the recognition that the present scale of the economy is too large to be maintained in a steady state—its required throughput exceeds the regenerative and assimilative capacities of the ecosystem of which it is a part. This is almost certainly true. Nevertheless “degrowth,” just like growth, is a temporary process for reaching an optimal or at least sustainable scale that we then should strive to maintain in a steady state.

Some say it is senseless to advocate a steady state unless we first have attained, or can at least specify, the optimal level at which to remain stationary. On the contrary, it is useless to know the optimum unless we first know how to live in a steady state. Otherwise knowing the optimum level will just allow us to wave goodbye to it as we grow beyond it, or as we “degrow” below it.

Optimal level is one thing; optimal growth rate is something else. Once we have reached the optimal level then the optimal growth rate is zero. If we are below the optimal level the temporary optimal growth rate is at least known to be positive; if we are above the optimal level we at least know that the temporary growth rate should be negative. But the first order of business is to recognize the long-run necessity of the steady state and to stop positive growth. Once we have done that, then we can worry about how to “degrow” to a more sustainable level, and how fast.

There is really no conflict between the steady state economy and “degrowth” because no one advocates negative growth as a permanent process; and no one advocates trying to maintain a steady state at the unsustainable present scale of population and consumption. But many people do advocate continuing positive growth beyond the present excessive scale, and they are the ones in control and who need to be confronted by a united opposition!

War and Peace and the Steady State Economy (April 29, 2015)

My parents were children during World War I, the so-called “war to end all wars.” I was a child during WWII, an adolescent during the Korean War, and except for a physical disability would likely have been drafted to fight in the Vietnam War. Then came Afghanistan, Iraq, the continuous Arab-Israeli conflict, ISIS, Ukraine, Syria, etc. Now as a senior citizen, I see that war has metastasized into terrorism. It is hard to conceive of a country at war, or threatened by terrorism, moving to a steady state economy.

Peace is necessary for real progress, including progress toward a steady state economy. While peace should be our priority, might it nevertheless be the case that working toward a steady state economy would further the goal of peace? Might growth be a major cause of war, and the steady state a necessity for eliminating that cause? I think this is so.

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Growth goals beyond the optimum march inevitably toward death and destruction. (CC BY 2.0, manhhai)

More people require more space (lebensraum) and more resources. More things per person also require more space and more resources. Recently I learned that the word “rival” derives from the same root as “river.” People who get their water from the same river are rivals, at least when there are too many of them, each drawing too much.

For a while, the resource demands of growth can be met from within national borders. Then there is pressure to exploit or appropriate the global commons. Then comes the peaceful penetration of other nations’ ecological space by trade. The uneven geographic distribution of resources (petroleum, fertile soil, water) causes specialization among nations and  interdependence along with trade. Are interdependent nations more or less likely to go to war? That has been argued both ways, but when one growing nation has what another thinks it absolutely needs for its growth, conflict easily displaces trade. As interdependence becomes more acute, then trade becomes less voluntary and more like an offer you can’t refuse. Unless trade is voluntary, it is not likely to be mutually beneficial. Top-down global economic integration replaces trade among interdependent national economies. We have been told on highest authority that because the American way of life requires foreign oil, we will have it one way or another.

International “free trade pacts” (NAFTA, TPP, TAFTA) are supposed to increase global GDP, thereby making us all richer and effectively expanding the size of the earth and easing conflict. These secretly negotiated agreements among the elites are designed to benefit private global corporations, often at the expense of the public good of nations. Some think that strengthening global corporations by erasing national boundaries will reduce the likelihood of war. More likely we will just shift to feudal corporate wars in a post-national global commons, with corporate fiefdoms effectively buying national governments and their armies, supplemented by already existing private mercenaries.

It is hard to imagine a steady state economy without peace; it is hard to imagine peace in a full world without a steady state economy. Those who work for peace are promoting the steady state, and those who work for a steady state are promoting peace. This implicit alliance needs to be made explicit. Contrary to popular belief, growth in a finite and full world is not the path to peace, but to further conflict. It is an illusion to think that we can buy peace with growth. The growth economy and warfare are now natural allies. It is time for peacemakers and steady staters to recognize their natural alliance.

It would be naïve, however, to think that growth in the face of environmental limits is the only cause of war. Evil ideologies, religious conflict, and “clash of civilizations” also cause wars. National defense is necessary, but uneconomic growth does not make our country stronger. The secular West has a hard time understanding that religious conviction can motivate people to kill and die for their beliefs. Modern devotion to the Secular God of Growth, who promises heaven on earth, has itself become a fanatical religion that inspires violence as much as any ancient Moloch. The Second Commandment, forbidding the worship of false gods (idolatry) is not outdated. Our modern idols are new versions of Mammon and Mars.


Brian Czech is CASSE’s executive director. Herman Daly (1938-2022) was a long-time CASSE board member and economist emeritus.

‘Para mim, o termo mudança climática significa vingança da Terra’ (Sumaúna)

O líder político Davi Kopenawa. Foto: Victor Moriyama/ISA

Voz da Floresta

Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o líder político Davi Kopenawa conta de sua esperança de que Lula tenha se tornado mais sábio para ser capaz de proteger a Amazônia: “Antes, ele errou. Não quero que nos engane novamente”

Sumaúma

22 novembro 2022

O nome de Davi Kopenawa foi anunciado para compor a equipe de transição que discutirá a criação do Ministério dos Povos Originários, promessa de campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Grande liderança política dos Yanomami, que ocupam há milênios a floresta amazônica entre o Brasil e a Venezuela, Davi é uma referências dos povos originários no planeta. Em sua trajetória de enfrentamento dos invasores de suas terras, não há notícia de que tenha jamais se corrompido. Nem por riqueza material nem por vaidade, mal que acomete alguns líderes ao penetrar no insidioso mundo dos brancos – ou napëpë, na língua Yanomam, palavra traduzida também como “inimigo”. Davi se manteve fiel a sua ancestralidade, aos seus mais velhos, à cosmopolítica xamânica, o que faz dele uma árvore muito sólida no complexo mundo que une numa palavra impingida pelos colonizadores – “indígenas” – mais de 300 povos no Brasil com culturas muito diversas. O xamã chega à equipe de transição com esperanças, mas também com memória: “Antes, Lula errou. Ele está mais velho, talvez tenha ficado mais sábio. Talvez Lula tenha aberto o seu pensamento, mas ninguém sabe o que ele esconde em seu coração. Não quero que nos engane novamente”.

Radical no seu compromisso com a palavra, que na política que aprendeu não pode ser sacrificada em nome de interesses, a verdade para Davi Kopenawa é inegociável. Dessa retidão que não admite uma “boca que fala mentiras” vêm as respostas do intelectual da Amazônia nesta entrevista feita na língua Yanomam pela indigenista e antropóloga Ana Maria Machado (e traduzida por ela) a pedido de SUMAÚMA. Autor, com o antropólogo francês Bruce Albert, de A queda do céu (Companhia das Letras, 2015), livro que representa uma inflexão na antropologia, Davi sabe que fala para aqueles que chama de “povo da mercadoria”. Observador atento dos debates climáticos que frequenta pelos palcos do mundo, ele acredita que Lula só irá se mover se houver forte pressão e financiamento da proteção da Amazônia pelos países monetariamente mais ricos, em especial os europeus.

Davi Kopenawa é também um competente tradutor de mundos. Consegue traduzir o universo dos brancos para os Yanomami e também traz até nós, nesta entrevista, recados que lhes são passados pelos xapiripë [espíritos auxiliares dos xamãs]. Traduz ainda o pedido de socorro de uma velha liderança, que não conhece o mundo dos brancos para além do horror da destruição do garimpo que devora toda vida em sua aldeia. Com o território invadido por milhares de garimpeiros, hoje o contexto é pior do que qualquer outro na trajetória de brutalidades vivida pelos Yanomami desde o primeiro contato com os brancos, na primeira metade do século 20: há envolvimento do crime organizado, com armas pesadas, e aliciamento dos indígenas mais jovens.

O líder Yanomami espera que a expulsão dos invasores do território de seu povo seja o primeiro ato do presidente após a posse, em 1º de janeiro. Para que a vitória de Lula se tornasse possível em uma disputa tão apertada com o extremista de direita Jair Bolsonaro, ele conta ter sido necessário um esforço conjunto dos xamãs em 30 de outubro, data do segundo turno da eleição. Faz ainda um apelo aos leitores, para que deixem de comprar ouro, esse ouro com sangue Yanomami e também de outros povos originários, esse ouro que destrói a verdadeira riqueza, a floresta, para colocar valor no metal convertido em mercadoria ordinária.

A seguir, a palavra de Davi Kopenawa.


ANA MARIA MACHADO: Agora que Lula venceu a eleição, o que você espera do novo presidente?

DAVI KOPENAWA: Eu vou explicar para os napëpë [napë = branco, inimigo, estrangeiro + = plural] o que nós, da comunidade do Watorikɨ, estamos pensando. Nós ficamos sabendo que aquele que já foi presidente voltará ao poder, então dissemos assim: “Dessa vez, ele talvez tenha se tornado mais sábio. Antes, ele errou, mas agora talvez esteja pensando corretamente, e por isso quero que ele se torne um presidente de verdade. Não quero que nos engane novamente. Ele vai voltar a ser o presidente e ficará de fato atento às nossas terras. Ele irá olhar para nós e pensar sobre nós. Se ele nos defender, ficaremos contentes com ele”.

O que está acontecendo hoje na Terra Indígena Yanomami que Lula precisa resolver com mais urgência?

Hoje, a fala dos velhos, dos líderes Yanomami, é cheia de sofrimento. Apenas eu frequento a cidade, e por isso consigo espalhar essas palavras. Tudo está muito ruim em nossas terras, os garimpeiros levam o horror. Agora que Lula virou presidente, em primeiro lugar precisa expulsá-los, retirá-los de verdade. Eu não estou dizendo isso sem razão, mas sim porque estamos vivendo o caos. E por quê? Porque eles assorearam os rios, porque poluem as águas e porque as águas se tornaram muito turvas nos lugares onde só tem um rio correndo. Eles estragaram as cabeceiras dos rios que nascem em nossas serras. Aqueles de nós que vivem perto do garimpo estão sofrendo, passando fome. Os garimpeiros não param de chegar. Nós [Yanomami] conversamos entre os diferentes lugares da nossa terra, temos a radiofonia para nos comunicar. Um parente mais velho da região do Xitei, que me trata como filho, disse que a situação ali está calamitosa. Ele disse que as pessoas mais velhas como ele estão cansadas de ver os garimpeiros sempre chegando, sempre trabalhando nas águas, sempre sujando as águas. E não é só isso: estão muito bravos por causa das armas. Aqueles Yanomami mais ignorantes disseram que os garimpeiros poderiam chegar lá levando armas. Porém, aquelas pessoas que destroem a floresta têm armas pesadas. Essas armas não são como as flechas, os garimpeiros distribuem revólveres. Eles tratam os mais novos como se fossem lideranças, iludem os Yanomami mais jovens dizendo: “Pegue uma arma! Se você tiver uma arma, será nosso amigo. Se você ficar contra nós, não irá receber uma arma”. Ao falarem assim com os jovens, aumentaram a quantidade de armas entre os Yanomami, e os garimpeiros fazem que nos matemos entre nós. Esse meu pai lá do Xitei explicou: “Se não estivéssemos nos matando entre nós, eu não precisaria estar aqui explicando. Meu filho, vá e diga isso para aquele que se tornou o líder [presidente]. Que afaste os garimpeiros que trabalham em nossa terra. Diga isso a ele. Você conhece os líderes dos napëpë, cobre que façam isso, que acabem com essas pessoas que estão em nossas terras, que as levem para longe”. Foi isso que meu pai me disse, e estou passando para a frente. É por tudo isso que eu estou reivindicando: Lula, não comece trabalhando nas terras dos brancos primeiro. Antes, retire os garimpeiros da nossa terra. Agora, Lula, você se tornou o presidente e, no mês de janeiro, vai se sentar no Palácio do Planalto. Nesse dia, comece a mandar os garimpeiros embora.

Era isso que eu queria dizer para vocês, brancos. E não estou dizendo isso à toa. Não quero ficar aqui sofrendo enquanto tiram minha imagem [filmam], o que estou reivindicando é verdadeiro, a terra adoecida está se espalhando por todos os cantos. É porque tem malária demais e porque o descontrole da malária chegou com o garimpo, é porque as nossas mulheres estão sofrendo demais, é porque nos lugares das terras altas onde não tem mais caça o espírito da fome, Ohinari, se aproximou. Já que eu conheço o novo presidente, vou cobrar, dizendo: “Quando você discursou, eu o escutei. Todos nós guardamos suas palavras em nossos ouvidos. Nós indígenas e também os napëpë, todos ouvimos suas palavras pelo celular. Não queremos ficar com nosso pensamento em sofrimento caso você esteja mentindo. Que seja verdade o que você disse em reunião, que caso se tornasse presidente novamente iria proteger os povos indígenas, que estão sofrendo no Brasil. Eu não quero que continuem destruindo a floresta que vocês brancos chamam de Amazônia. Portanto, Lula, é isso que estou te cobrando, que você faça isso primeiro”.

É verdade. Lula disse que não irá aceitar garimpo em terra indígena. Mas, nos anos 1990, quando seus parentes mais velhos morreram na primeira invasão garimpeira [1986-1993], quando aconteceu a operação Selva Livre, que tirou 40 mil garimpeiros, naquele tempo não havia crime organizado e milícias envolvidos nem os jovens Yanomami eram aliciados como agora. Hoje em dia o tráfico de drogas está misturado ali, assim como pessoas que fugiram da prisão. Eles têm armas pesadas e bombas. Será que não vai ser mais difícil tirar os garimpeiros hoje? Será que os jovens Yanomami que estão envolvidos vão opor alguma resistência? Apesar de termos Lula agora no governo, será possível acabar com o garimpo?

É verdade que hoje em dia a situação está muito ruim, tem muitas coisas misturadas. Os napëpë têm trazido drogas, cachaça e até cocaína. Com tudo isso misturado, os garimpeiros ficam alterados. Eles trabalham drogados. Os homens cheiram cocaína e ficam sentindo tesão pelas nossas mulheres. Como eles não vêm acompanhados de suas mulheres, eles cheiram cocaína e o pensamento deles fica alterado, eles ficam destemidos e pensam assim: “Já que eu estou drogado, estou sem medo. Já que estou sem medo, eu chamo as mulheres Yanomami, como suas vaginas e faço filhos nelas”. Hoje em dia essas pessoas também têm metralhadoras, bombas, e os garimpeiros dizem: “Se quiserem nos expulsar, mesmo sendo a Polícia Federal, nós vamos matá-los”. Além disso, tem também o mercúrio usado para separar o ouro, que está no meio de tudo. Tudo isso é terrível. O presidente Lula vai mandá-los sair, mas talvez não o escutem. Eu também fico pensando sobre isso. Se o escutarem, todas as pessoas do Brasil e da Europa, aqueles outros que querem que ele mantenha a floresta amazônica em pé e saudável, para mim está certo se eles o mandarem cuidar da floresta e lhe derem dinheiro para que retire os garimpeiros. Se for criada uma frente mundial em que todos nós conversemos juntos, unindo as autoridades dos napëpë e nós, indígenas, então conseguiremos nos defender, pois nós, indígenas, já sabemos lutar. Essa não é a terra dos garimpeiros, e já que eles têm causado o horror em nossas terras, levando muita desgraça misturada, já que eles têm feito as crianças sofrerem, magras e desnutridas, já que o garimpo mata os Yanomami pelo mal das epidemias, pelo mal da fome nos rios Uraricoera, Mucajaí, nas cabeceiras do rio Catrimani, e também em Homoxi, Xitei, Parafuri e Parima, nós temos que lutar.

Mas, para curar a Terra-floresta, vocês precisam também baixar o preço do ouro, precisam cortar isso. Vocês, napëpë, que pedem ouro, que compram ouro, precisam parar. Vocês das lojas de ouro, precisam baixar o preço. Como o ouro é muito caro, os garimpeiros estão sempre invadindo minha terra. Você, mulher que entende nossa língua Yanomam, vai escrever e traduzir, e para aqueles que captam minha imagem, quando eu aparecer, quando vocês ouvirem minhas palavras, me levem a sério, concordem comigo, e digam: “Sim, é verdade! Nós erramos. Nós não sabemos respeitar. Até falamos em respeito, mas estamos enganando, nossas bocas não dizem a verdade”. Era isso que eu queria dizer a vocês.

Quando Lula se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, ele mudou a regulação das ONGs, o que levou ao fim da Urihi-Saúde Yanomami. A Urihi fez um excelente trabalho de atendimento de saúde para os Yanomami [entre 1999 e 2004] e conseguiu erradicar a malária em sua terra. Hoje, estamos vendo a malária fora de controle. O que o governo deve fazer com relação à saúde indígena?

Foi o seguinte: no início, Lula errou. Ele não sabia pensar direito. E, por ter errado no início, aconteceu isso. Ele também fez [a Usina Hidrelétrica de] Belo Monte, e esse foi um grande erro. Estragou um grande rio sem razão. Também errou com a saúde indígena. Lula errou na saúde, no assunto de viver bem e saudável, e tudo enfraqueceu. Os remédios pararam de chegar, os funcionários napëpë que trabalham em nossas terras, como técnico de enfermagem, médico e dentista, passaram a trabalhar de forma precária, já que não enviavam material. Então eu sei um pouco sobre isso, mas escondo essas palavras. Quando Lula se tornar mesmo o presidente, eu quero falar de perto com ele. “Lula, você me conhece, você precisa melhorar a saúde indígena. Precisa limpar novamente a saúde indígena, fazer os técnicos e profissionais de saúde trabalharem de verdade”. No governo de Bolsonaro, são os políticos que escolhem os coordenadores de saúde; [com Lula] eu e os conselheiros locais [representantes de toda a Terra Indígena Yanomami] vamos sentar para indicar alguém que a gente conheça, que seja nosso amigo e que trabalhe bem com a gente, só assim a saúde vai melhorar. É isso que quero dizer a Lula. Já que a saúde é prioridade para podermos viver bem, para nossos filhos crescerem bem, e considerando que estamos em uma situação lastimável, vou reivindicar isso. O presidente Jair Bolsonaro acabou com a nossa saúde. Ele nos matou como se fôssemos peixes.

Lula disse que vai criar o Ministério dos Povos Originários. O que você pensa disso?

É verdade. Ele disse que faria isso caso se tornasse presidente. E, já que ele disse, agora temos mulheres indígenas jovens que possuem o conhecimento dos napëpë, sabem agir como napëpë. Existem também jovens que sabem agir como os napëpë, sabem usar as máquinas, os celulares. E, já que temos essas pessoas que sabem trabalhar assim, eu penso o seguinte: “Awei, presidente Lula, já que você disse com clareza, eu deixei isso fixado no meu pensamento”. Acho que a dra. Joenia [Wapichana] já tem experiência, pois ela trabalhou como deputada federal por 4 anos, ela já sabe lutar. Como ela é advogada, já sabe escutar os políticos, e por isso eu gostaria que Lula a indicasse para ministra. Se Joenia disser que deseja se tornar ministra dos Povos Originários, nós vamos apoiá-la, faremos ela assentar naquela cadeira. Ter uma mulher indígena assentada ali nos trará mais sabedoria. Temos outras, como Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, que acabaram de se eleger deputadas. A dra. Joenia não foi eleita, por isso estou pensando nela, que é muito inteligente e já sabe lutar. Então, foi isso que os meus sonhos disseram, e por isso fiz aparecer essa ideia.

Nós, napëpë, somos o povo da mercadoria e estamos acabando com as florestas e com o planeta. Por isso o mundo está preocupado com a crise climática, e para contê-la é preciso conservar as florestas. Sabemos que vocês têm sabedoria para isso. Que recado você teria a dar sobre esse assunto?

Todos os napëpë ficam falando de proteger as florestas. Falam de mudanças climáticas, desmatamento, poluição dos rios, mercúrio, doenças, mineração. Assim, Lula atentou para essas questões. Outras pessoas, os europeus, falam sobre as mudanças climáticas, fazem reuniões. Mas as pessoas não resolvem isso, não resolveram nada. Esse termo, “mudanças climáticas”, para mim é outra coisa. Eu chamo mesmo de “vingança da Terra”, de “vingança do mundo”, é assim que eu digo. Os napëpë chamam de “mudanças climáticas”, mas nós, Yanomami, quando fazemos xamanismo, chamamos de “transformação do mundo, tornar o mundo ruim já que os napëpë causam a revolta da Terra”. Os napëpë incendeiam as árvores; a Terra-floresta está com raiva, está se vingando, está fazendo chover muito, ter grandes ondas de calor, em alguns lugares está faltando água e em outros está chovendo demais, e outros ainda estão frios. Foi pelo fato de as pessoas dizerem isso, por termos ficado falando sobre isso, que Lula abriu seu pensamento. Ou melhor: talvez tenha aberto seu pensamento. Nós não sabemos o que ele esconde em seu coração. O que eu escondo em meu coração e em meu pensamento, o que nós escondemos das pessoas, é um segredo. Por isso talvez Lula esteja ainda nos enganando. Se o pensamento dele estiver nos enganando, ele vai resolver os pequenos problemas, mas não os grandes. Mas se outros napëpë, aqueles que vivem na outra margem do oceano [Europa], se eles forem ajudar e oferecerem um grande financiamento, talvez o pensamento de Lula mude. É assim que eu penso. Lula não cresceu sozinho. O povo levantou as palavras de Lula, vocês fizeram ele assentar naquela cadeira [da presidência]. Hoje em dia ele está mais velho, talvez tenha se tornado mais sábio.

Davi, você me disse que vocês, xamãs, ajudaram Lula a se eleger. Conte como foi isso, por favor.

Nós, xamãs que vivemos no Watorikɨ e também os outros xamãs de outras casas, como o Maxokapi, eu os mandei fazer isso [xamanismo para apoiar Lula]. Nós ajudamos Lula, nós o levantamos: eu, Carlos, os xamãs mais jovens, Tenose, Valmir, Dinarte, Geremias, Pernaldo, Manoel. Lula ficou apoiado na hutukara [céu]. Então os xamãs pediram para eu dizer a Lula: “Awei! Você quase perdeu. Se os espíritos xapiripë [xapiri = espírito auxiliar dos xamãs + = plural] não tivessem chegado ali, você não teria se tornado presidente outra vez. Você não os viu, eles estavam no Watorikɨ, e no dia 30 chegaram [até você]. Já que eles conhecem Brasília, já que Davi conhece aquela terra, nós, xapiripë, também conhecemos, nós olhamos no mapa e, pelo fato de termos chegado lá, nós tivemos vitória”.

Nós, xamãs de duas comunidades, trabalhamos por isso. Nós inalamos yakoana [pó da árvore virola sp, usado pelos xamãs para ver os xapiripë]. Chegamos até o grande xapiri, Omama, e dissemos a ele: “Awei! Você que é grande xapiri, que conhece o mundo inteiro, conhece todas as terras, já que seus olhos enxergam essas coisas por dentro e também pela superfície, já que seus olhos estão atentos a tudo o que ocorre no mundo, nós queremos elevar Lula para que ele se torne presidente outra vez, nós iremos apoiar o pensamento dele. Vamos manter nosso pensamento primeiro no céu, na hutukara, e assim ele vai se levantar [ter chances de ganhar a eleição]. O outro, Bolsonaro, aquele que tem a boca cheia de ignorância, se o povo dele o apoiar e o levantar, iremos sofrer muito. O presidente Jair Bolsonaro é terrível, e, se ele ganhar as eleições, aí sim ficaremos sofrendo. Ele é um apoiador da ditadura militar, portanto não faz amizade com a floresta. Não cuida dos rios e não sente tristeza por nós, povos da floresta”. Então, como Omama fez a nossa terra nos primeiros tempos, ele escreveu em um papel a expressão “defensor da floresta”, e foi isso que nós, xamãs, decidimos e dissemos: “Vamos escolher aquele que quer nos manter vivendo com saúde, vamos negar o papel onde está escrito o nome daquele que não quer o nosso bem-viver”.

Por causa disso, nós, do Watorikɨ, chegamos até Lula, chegamos a Brasília. Ao chegarmos lá, os napëpë não nos viram, pois chegamos bem suavemente. Com calma e devagar, chegamos até o pensamento dele. “Awei! Você, Lula, já que quer se tornar presidente outra vez, se apoie aqui onde Omama apoiou o nosso pensamento. Se você se apoiar aqui, vai se tornar o presidente. E, caso você se torne o presidente, queremos que você pense em nós em primeiro lugar. Diminua aqueles que estão sempre fazendo coisas ruins, torne-os pequenos. Feche esse buraco da maldade.”

U.N. Climate Talks End With a Deal to Pay Poor Nations for Damage (New York Times)

nytimes.com

Brad Plumer, Max Bearak, Lisa Friedman, Jenny Gross

Nov. 20, 2022


Nations reached a landmark deal to compensate developing nations for climate harm. But some leaders said the summit didn’t go far enough in addressing the root causes of global warming.

A man in a dark suit, seated at a long desk, reads while others stand next to him and applaud. In the background, a wall is blue with a wavy light blue line.
Sameh Shoukry, the Egyptian foreign minister, seated, reading a statement at the closing session of climate talks in Sharm el Sheikh. Credit: Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Nov. 20, 2022, 3:33 a.m. ET

SHARM EL SHEIKH, Egypt — Diplomats from nearly 200 countries concluded two weeks of climate talks on Sunday by agreeing to establish a fund that would help poor, vulnerable countries cope with climate disasters made worse by the greenhouse gases from wealthy nations.

The decision on payments for loss and damage caused by global warming represented a breakthrough on one of the most contentious issues at United Nations climate negotiations. For more than three decades, developing nations have pressed rich, industrialized countries to provide compensation for the costs of destructive storms, heat waves and droughts linked to rising temperatures.

But the United States and other wealthy countries had long blocked the idea, for fear that they could face unlimited liability for the greenhouse gas emissions that are driving climate change.

The loss and damage agreement hammered out in this Red Sea resort town makes clear that payments are not to be seen as an admission of liability. The deal calls for a committee with representatives from 24 countries to work over the next year to figure out exactly what form the fund should take, which countries and financial institutions should contribute, and where the money should go. Many of the other details are still to be determined.

Developing countries hailed the deal as a landmark victory.

“The announcement offers hope to vulnerable communities all over the world who are fighting for their survival from climate stress,” said Sherry Rehman, the climate minister of Pakistan, which suffered catastrophic flooding this summer that left one-third of the country underwater and caused $30 billion in damages. Scientists later found that global warming had worsened the deluges.

While the new climate agreement dealt with the damages from global warming, it did far less to address the greenhouse gas emissions that are the root cause of the crisis. Experts say it is crucial for all nations to slash their emissions much more rapidly in order to keep warming at relatively safe levels. But the deal did not go much beyond what countries agreed to last year at U.N. climate talks in Glasgow.

“The loss and damage deal agreed is a positive step, but it risks becoming a ‘fund for the end of the world’ if countries don’t move faster to slash emissions,” said Manuel Pulgar-Vidal, who presided over the United Nations summit in 2014 and is now the climate lead for the World Wide Fund for Nature. “We cannot afford to have another climate summit like this one.”

The new agreement emphasizes that countries should strive to limit global warming to 1.5 degrees Celsius, or 2.7 degrees Fahrenheit, above preindustrial levels. Beyond that threshold, scientists say, the risk of climate catastrophes increases significantly. Early in the summit, some negotiators feared that the talks would abandon a focus on that target, which many vulnerable nations, such as low-lying islands in the Pacific, see as essential to their survival.

Current policies by national governments would put the world on track for a much hotter 2.1 to 2.9 degrees Celsius of warming this century, compared with preindustrial levels. Staying at 1.5 degrees would require countries to slash their fossil-fuel emissions roughly in half this decade, a daunting task.

India and more than 80 other countries wanted language that would have called for a “phase-down” of all fossil fuels, not just coal, but also oil and gas. That would have gone beyond the deal at Glasgow, which called for a “phase-down” of coal only. But that effort was blocked by major oil producers like Canada and Saudi Arabia, as well as by China, according to people close to the negotiations.

“It is more than frustrating to see overdue steps on mitigation and the phaseout of fossil energies being stonewalled by a number of large emitters and oil producers,” said Annalena Baerbock, the German foreign minister, in a statement.

A man in a dark suit and a woman in black bump fists.
Xie Zhenhua, China’s special envoy for climate, and Sherry Rehman, Pakistan’s climate minister, at the COP27 closing session on Sunday. Credit: Peter Dejong/Associated Press

Frans Timmermans, the European Union’s top climate official, said the deal fell far short of what was needed and was a sign of the growing gap between climate science and national climate policies. Too many countries blocked measures needed to address global warming, he said.

“Friends are only friends if they also tell you things you might not want to hear,” Mr. Timmermans said. “This is the make-or-break decade, but what we have in front of us is not enough of a step forward for people and planet.”

The two-week summit, which had been scheduled to end on Friday, stretched until dawn on Sunday as exhausted negotiators from nearly 200 nations clashed over fine print. The talks came at a time of multiple crises. Russia’s invasion of Ukraine has roiled global food supply and energy markets, stoked inflation and spurred some countries to burn more coal and other alternatives to Russian gas, threatening to undermine climate goals.

At the same time, rising global temperatures have intensified deadly floods in places like Pakistan and Nigeria, as well as fueled record heat across Europe and Asia. In the Horn of Africa, a third year of severe drought has brought millions to the brink of famine.

Much of the focus over the past two weeks was on loss and damage.

Developing nations — largely from Asia, Africa, Latin America, the Caribbean and South Pacific — fought first to place the debate over a loss and damage fund on the formal agenda of the two-week summit. And then they were relentless in their pressure campaign, arguing that it was a matter of justice, noting they did little to contribute to a crisis that threatens their existence. They made it clear that a summit held on the African continent that ended without addressing loss and damage would be seen as a moral failure.

As the summit neared its end, the European Union consented to the idea of a loss and damage fund, though it insisted that any aid should be primarily focused on the most vulnerable nations, and that aid might include a wide variety of options such as new insurance programs in addition to direct payments.

That left the United States, which has pumped more greenhouse gases into the atmosphere than any nation in history, as the last big holdout. By Saturday, as talks stretched into overtime, American officials said that they would accept a loss and damage fund, breaking the logjam.

Still, major hurdles remain.

There is no guarantee that wealthy countries will deposit money into the fund. A decade ago, the United States, the European Union and other wealthy emitters pledged to mobilize $100 billion per year in climate finance by 2020 to help poorer countries shift to clean energy and adapt to future climate risks through measures like building sea walls. They are still falling short by tens of billions of dollars annually.

And while American diplomats agreed to a fund, money must be appropriated by Congress. Last year, the Biden administration sought $2.5 billion in climate finance but secured just $1 billion, and that was when Democrats controlled both chambers. With Republicans set to take over the House in January, the prospects of Congress approving an entirely new pot of money for loss and damage appear dim.

“Sending U.S. taxpayer dollars to a U.N. sponsored green slush fund is completely misguided,” said Senator John Barrasso, Republican of Wyoming. “The Biden administration should focus on lowering spending at home, not shipping money to the U.N. for new climate deals. Innovation, not reparations, is key to fighting climate change.”

The United States and the European Union secured language in the deal that could expand the donor base to include major emerging economies like China and Saudi Arabia. The United Nations currently classifies China as a developing country, which has traditionally exempted it from obligations to provide climate aid, even though it is now the world’s biggest emitter of greenhouse gases as well as the second-largest economy. The new changes are likely to spark fights in the future, since China has fiercely resisted being treated as a developed nation in global climate talks.

For their part, a variety of European nations have voluntarily pledged more than $300 million to address loss and damage so far, with most of that money going toward a new insurance program to help countries recover from disasters like flooding. Poorer countries have praised those early efforts while noting that they may ultimately face hundreds of billions of dollars per year in unavoidable, irreversible climate damages.

“We have the fund, but we need money to make it worthwhile,” said Mohamed Adow, executive director of Power Shift Africa, a group that aims to mobilize climate action across the continent. “What we have is an empty bucket. Now we need to fill it so that support can flow to the most impacted people who are suffering right now at the hands of the climate crisis.”

Opinião – Luiz Augusto Campos e Márcia Lima: Recomendações para a política de cotas (Folha de S.Paulo)

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Ações afirmativas devem ir além da graduação

Luiz Augusto Campos e Márcia Lima

20 de novembro de 2022


Em 2022, comemoramos 20 anos da implementação das cotas sociais e raciais na Uerj e dez anos da lei federal 12.711/12. As cotas mudaram a cara do ensino superior e o debate acerca de nossas desigualdades.

Com o objetivo de produzir um balanço de seus impactos e subsidiar cientificamente a revisão da lei federal, criamos o Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas (CAA). O CAA analisou dados de mais de 7 universidades federais e estaduais, tendo publicado mais de 30 textos na academia e na imprensa sobre o tema.

A despeito de problemas pontuais, as cotas têm um saldo muito positivo. O percentual de jovens pretos, pardos e indígenas pulou de 31% em 2002 para 52% das matrículas em 2021. No mesmo período, o percentual de estudantes de baixa renda saiu de 19% para 52%. Os avanços maiores se deram nos cursos mais concorridos, e quase todas as pesquisas sobre o tema mostram que os cotistas têm desempenho muito similar aos não cotistas. Mais de 70% das pesquisas acadêmicas sobre as cotas as consideram uma política bem-sucedida.

Por tudo isso, o CAA recomenda às forças políticas, eleitas em outubro, a manutenção e expansão do sistema existente, que combina critérios socioeconômicos —para estudantes de escola pública e baixa renda— com cotas raciais. No entanto, é necessário a criação de programas específicos, sensíveis às especificidades das populações indígenas, quilombolas e das pessoas com deficiência. Tendo em vista que pretos e pardos em processo de ascensão social também são vítimas de racismo, apoiamos a criação de subcotas complementares para eles, independentemente da origem escolar.

Outra recomendação é a revisão da faixa de renda, presente na lei federal. O patamar de 1,5 salário mínimo familiar per capita não favorece os mais pobres. Isso vale para a implementação de um sistema de concorrência simultânea, que permita a potenciais cotistas disputarem, ao mesmo tempo, as vagas no sistema de ampla concorrência, fazendo com que as cotas funcionem como piso, não como teto de inclusão.

No que concerne à permanência estudantil, é urgente avançarmos numa política federal, unificada e desburocratizada.

A adequada avaliação da política depende da constituição de um sistema integrado de dados educacionais e do mercado de trabalho que seja aberto, transparente e desidentificado —e que possibilite compreender desde as mudanças na demanda por ensino superior à inserção dos cotistas na vida profissional.

Seria importante incentivar com fomento público pesquisas sobre as comissões de heteroclassificação racial para identificar seu impacto no aprimoramento da inclusão étnico-racial compatível com a complexidade das classificações raciais no Brasil.

Por fim, consideramos importante que as ações afirmativas não fiquem restritas às cotas na graduação. Urge uma lei específica para a pós-graduação, sensível às especificidades desse nível de formação, da mesma forma que instituir políticas de inclusão no mercado de trabalho.

Negros relatam que precisam ir arrumados a consultas para serem mais bem atendidos (Folha de S.Paulo)

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Racismo estrutural prejudica a população negra da atenção básica à saúde mental; profissionais sugerem mudanças na formação

Havolene Valinhos

19 de novembro de 2022


Mesmo não se sentindo bem de saúde, você se preocuparia com que roupa vestir antes de ir ao hospital ou a uma consulta médica? Ou teria receio da forma como seria tratada na hora de dar à luz por causa da cor de sua pele? Esta é apenas uma amostra do que passa pela cabeça da população negra brasileira.

Ainda criança, a trancista Sara Viana, 22, recebia o conselho da mãe de que elas seriam mais bem atendidas se chegassem ao hospital bem vestidas. “Ela falava que os hospitais públicos não atendem bem as pessoas da comunidade. Então eu poderia estar morrendo, mas pensava: tenho que me arrumar minimamente.”

Em 2020, a Sara sentiu na pele o que a mãe temia. Ela afirma que não sabia que estava com infecção na vesícula e foi levada ao hospital às pressas, de pijamas.

“Até meu cabelo estava molhado, pois chovia no dia. Percebi o incômodo da enfermeira da triagem, que nem me examinou e disse que era cólica e deu a classificação como baixo risco. Como estava com muita dor, meu pai e meu irmão me levaram para outro hospital, onde fui atendida por uma médica negra que me deu atenção. A situação era tão grave que passei por cirurgia no mesmo dia”, relembra.

Coordenadora de um grupo sobre maternidade na Casa de Marias, espaço de escuta e acolhimento para mulheres pretas em situação de vulnerabilidade social, a psicóloga Alessandra Marques diz ser comum ouvir relatos de violência obstétrica.

“Há uma ideia de que a mulher negra suporta mais a dor. É comum pacientes relatarem medo antes do parto. Já é um momento de mais fragilidade, e essa mulher pode sentir ainda mais dor porque não consegue relaxar devido à tensão.”

Como parte de um estudo publicado em 2016 e citado com frequência, pesquisadores da Universidade da Virginia (EUA) investigaram 222 estudantes e médicos residentes brancos e descobriram que mais de um terço deles acreditava equivocadamente que negros têm a pele mais espessa que brancos e, por isso, faziam recomendações menos adequadas para tratamentos contra dor. O estudo foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Essas situações têm consequências na saúde mental e podem ser agravadas quando não tratadas. “Elas nem sempre encontram escuta qualificada. Pacientes dizem que tiveram suas falas sobre racismo ou solidão da mulher negra invalidadas quando atendidas por psicólogos brancos. Esse tipo de atendimento pode agravar mais o quadro.”

Coordenadora-geral da Casa de Marias, a também psicóloga Ana Carolina Barros Silva ressalta a importância de profissionais negros no atendimento a essa população e cita a própria experiência como exemplo. Ela conta que passou por vários dermatologistas e ginecologistas brancos até encontrar, enfim, profissionais negros que correspondessem a suas expectativas.

“A dermatologia é composta majoritariamente de pessoas brancas, que dificilmente têm formação para lidar com a pele negra e, por isso, usam protocolos que não são adequados.”

De acordo com a fisioterapeuta Merllin de Souza, doutoranda na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), o currículo básico dos cursos de saúde não têm disciplinas obrigatórias sobre atenção à população negra. Há, contudo, uma disciplina optativa, chamada Formação do Profissional de Saúde e Combate ao Racismo.

“Esses profissionais estão sendo formados para atender os usuários do SUS, das UBSs, dos postinhos, pessoas pretas periféricas que passam por racismo estrutural?”, questiona. “Às vezes a pessoa chega num estágio grave porque não consegue ter o atendimento necessário.”

Para Souza, a formação básica do médico deixa a desejar nesse aspecto. “O Código de Ética prevê respeito étnico racial, mas a maioria dos conselhos não discute essas questões. É preciso respeitar os direitos humanos e trabalhar o letramento racial com esses profissionais”, afirma.

Ythalo Pau-Ferro, 22, cursa o quarto semestre de medicina na USP e diz que o racismo é evidente nos ambientes de saúde. “Um paciente negro que chega vomitando pode ser considerado um usuário de drogas”, critica. Como homem preto, ele afirma querer contribuir para que esse quadro mude.

A pesquisadora Ana Claudia Sanches Baptista, 34, diz que nunca foi atendida por médicos negros, com exceção de sua psicóloga. “Ela é a primeira profissional negra da área da saúde por quem sou atendida”, diz. E relata que uma vez foi constrangida por uma ginecologista, durante um exame de rotina. “As mulheres negras são consideradas parideiras. Essa médica ficou indignada por eu não querer ter filhos.”

O dentista Guilherme Blum, 31, conta que começou a pesquisar sobre a saúde bucal do homem negro porque sentiu falta dessa abordagem no curso de odontologia. “A população negra é a que mais perde dentes ou tem doença bucal, mas não se fala sobre isso”, diz ele, referindo-se a casos de dor, cárie, perda dentária e necessidade de prótese.

Blum atua no Programa Saúde da Família e relata um episódio no qual um paciente o abraçou porque sentiu identificação e conforto. “Existe um conceito subjetivo de que pessoas pretas aguentam mais a dor, o que na verdade é racismo estrutural.”

Outro atendimento que o marcou foi o de uma criança de 7 anos com a mãe. “Ela disse que ficou feliz por ter me encontrado e chorou ao lembrar que sofreu violência odontológica, tiraram muitos dos seus dentes.”

A discriminação no ambiente de trabalho também traz riscos à saúde psíquica da população negra. A enfermeira Carla Mantovan, 38, relata que passou por situações de racismo ao longo de cinco anos que contribuíram para o avanço de quadros de depressão e também de vitiligo. Ela chegou a se afastar do trabalho por um período, para cuidar do emocional, mas acabou pedindo demissão no início deste ano porque o assédio continuou após seu retorno às atividades.

“Tive que tomar essa decisão em nome da minha saúde mental, porém hoje pago um preço alto. A renda familiar caiu muito, meu marido também ficou sem emprego, e temos financiamentos atrasados e uma bebê de um ano e meio.” Ambos trabalham hoje por conta, como confeiteiros.

“Não registrei boletim de ocorrência nem gravei o que acontecia. Quando reportei aos meus superiores o que acontecia, eu não tinha provas e não validaram o que falei. E quando levei um advogado, as testemunhas se omitiram”, afirma Carla.

A psicóloga da Casa de Marias lembra que, além do racismo, as mulheres pretas enfrentam mais dificuldades no acesso a saúde, educação, moradia e emprego, o que contribui para uma vida “cada vez mais precarizada”. “Somados, todos esses elementos produzem sofrimento psíquico. Começam a surgir sintomas psicossomáticos, transtornos de ansiedade, depressão, insônia”, diz Silva.

Quanto aos homens, ela ressalta que o homem preto é cobrado para ser forte e raramente busca ajuda profissional quando o assunto é saúde mental. “Muitos buscam apoio quando já estão em um estado de surto, de depressão grave.”

Brasil pode levar quase 116 anos para atingir equilíbrio entre negros e brancos (Folha de S.Paulo)

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Em duas décadas, região Norte foi a única que chegou ao patamar de equilíbrio racial; Centro-Oeste teve maior avanço

Douglas Gavras, Patrick Fuentes e Cristina Sano

19 de novembro de 2022


Concluindo um mestrado em comunicação na UFBA (Universidade Federal da Bahia), Mariana Gomes, 24, é de uma família que foi transformada pela educação. Seu avô deixou o interior da Bahia para se tornar médico, o que estimulou a geração seguinte a ter um diploma superior e, em seguida, a geração dos netos.

Cotista, ela teve a possibilidade de dividir as cadeiras da graduação com outros alunos negros. “A minha geração já tem a referência da universidade como possibilidade real de manter esse processo de ascensão e conquistar direitos básicos.”

Agora, além de ver a necessidade de manter e aprimorar as políticas de acesso ao ensino superior, ela quer pensar no dia seguinte. “É preciso que mais pretos e pardos percebam a educação como possibilidade de resguardar direitos e avançar em oportunidades de trabalho e autonomia.”

Apesar de avanços no aumento da diversidade no ensino superior, mantido o ritmo atual, o Brasil deve levar quase 116 anos para que pretos e pardos tenham acesso às mesmas oportunidades que os brancos, de acordo com a mais recente edição do Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial).

Enquanto políticas, como o sistema de cotas raciais, ajudaram a melhorar o indicador de equilíbrio racial para a educação —e ainda assim, a diferença em relação aos brancos só deve ser superada em 34 anos— a redução da desigualdade de renda e longevidade decepciona.

Quando considerada a renda, o tempo necessário até o equilíbrio é de 406 anos. No caso da sobrevida ou longevidade, a maior parte dos estados do país está em relativo equilíbrio racial, mas os indicadores têm piorado rumo ao desequilíbrio, segundo o Ifer.

O índice é uma ferramenta cuja metodologia foi elaborada no ano passado pelos pesquisadores do Insper Sergio Firpo, Michael França —ambos colunistas da Folha— e Alysson Portella.

Ele ajuda a medir a distância entre a desigualdade racial no país e um cenário hipotético de equilíbrio, em que a presença dos negros nas faixas com melhores condições de vida refletisse o peso que eles têm na população com 30 anos ou mais.

Seus componentes são ensino superior completo, sobrevida e presença no topo da pirâmide de renda, tendo como base a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ao longo deste mês, outras reportagens irão detalhar o que ocorreu com esses itens.

O resultado é um indicador que varia de -1 a 1. Quanto mais próximo de -1, maior é a representação dos brancos em relação aos negros; já o valor muito perto de 1 aponta um cenário hipotético, em que a população negra teria mais representação.

Além disso, quanto mais próximo de zero estiver o número, mais perto o indicador vai estar do equilíbrio racial, considerando-se a população de referência.

Para estimar o tempo que falta até chegar o equilíbrio, é feito um cálculo usando a linha temporal dos dados e considerando a tendência linear que mais se aproxima do que ocorreu no período. Essa tendência, então, é extrapolada para o futuro, para que saiba em quanto tempo se chegará a zero.

MELHORA DA DESIGUALDADE É TÍMIDA, APONTAM NÚMEROS

Na versão mais recente do índice, os pesquisadores compararam os indicadores por um período de 2001 a 2021 e concluíram que a redução do desequilíbrio racial no país caminhou de forma modesta.

Em duas décadas, o indicador geral melhorou 0,071 ponto, indo de -0,389 para -0,318, apontando ainda a maior representação de brancos ante negros.

Nesse período, a região Norte foi a única do país que conseguiu atingir o patamar de equilíbrio racial relativo, que varia de 0,2 a -0,2. Nos estados ao norte, o indicador geral do Ifer passou de -0,301 para -0,196 ponto.

“São sociedades mais pobres também, com pouco espaço para ter uma desigualdade muito visível. Há uma certa homogeneidade, inclusive racial, na carência. São economias com crescimento e renda menores”, diz Firpo, que também é colunista da Folha.

Ainda assim, a maior queda se deu no Centro-Oeste, com uma melhora de 0,133 ponto, indo de -0,378 para -0,245.

Na outra ponta, nas regiões mais ricas do país, a desigualdade é bem mais forte: o Sudeste teve o pior indicador em 2021, de -0,383 ponto (já era o lanterninha em 2001, com -0,411); no Sul, passou de -0,308 em 2001 para -0,253 em 2021.

Das 27 unidades da Federação, 22 melhoraram, 4 pioraram (Ceará, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe) e 1 ficou estagnada (Espírito Santo). No caso dos estados, como a base amostral para algumas UFs é muito pequena, optou-se por utilizar as médias móveis de três anos, e a série vai de 2004 a 2021.

Quando se olha para os dados gerais do país, a pequena melhora foi impulsionada pelo indicador que aponta o acesso ao ensino superior, com uma melhora de 0,223 ponto, ao passar de -0,598 para -0,375.

“O Brasil ainda não dá acesso à elite para os negros. Isso tem se reduzido, mas em uma velocidade muito pequena, o que deixa claro o quanto é necessário aumentar o número de políticas públicas integradoras”, diz Firpo.

Ele avalia que o reflexo da redução da desigualdade só deve começar a aparecer com mais clareza nos demais indicadores após maiores investimentos em qualificação profissional.

“Facilitar o acesso à universidade pública é uma demanda histórica e importante, mas a forma mais eficiente de reduzir a desigualdade de oportunidades é integrar negros e brancos, ricos e pobres desde cedo, fazer com que a parcela mais excluída da população conviva com pessoas que vão ampliar sua possibilidade de acesso a um conjunto de oportunidades lá na frente”, diz.

No mesmo intervalo de tempo, o indicador nacional de renda melhorou apenas 0,068 ponto, de -0,516 para -0,448 ponto.

Nesse caso, o cálculo da renda considera a proporção de pretos e pardos que alcançam ou ultrapassam a renda (incluindo salários e demais rendimentos) que separa os brancos 10% mais ricos dos demais 90%, além de seu peso populacional.

Já os dados de sobrevida —apesar de seguirem no patamar de equilíbrio entre negros e brancos, na maioria dos casos— apontam uma piora: era de -0,052, em 2001, e foi para -0,130 duas décadas mais tarde.

O cálculo do componente de sobrevida no Ifer é semelhante ao que é feito para o indicador de renda: extrai-se o grupo de brancos 10% mais idosos e calcula-se a idade que o separa dos demais 90%.

O destaque negativo também é o Sudeste, onde o índice de Sobrevida passou de -0,104 para -0,202, saindo do nível de equilíbrio para o de maior representatividade branca.

AVANÇO DE LONGEVIDADE E RENDA DEMANDA INVESTIMENTOS

Mesmo celebrando os avanços em parte dos indicadores, os especialistas ouvidos pela reportagem destacam a necessidade de políticas públicas direcionadas para o combate ao racismo, tanto no mercado de trabalho quanto na rede pública de atendimento, para que os demais indicadores também avancem.

“Não basta que apenas a educação melhore, cada um dos componentes possui o mesmo peso e deveria ser observado de forma consistente por políticas públicas de redução da desigualdade”, diz França, que também é colunista da Folha.

Ele também destaca que a piora do índice de sobrevida no período, que caminha para o desequilíbrio, pode indicar a diferença no acesso a planos de saúde privados, um fator em que a população branca sempre leva vantagem, e a falta de investimentos adequados no SUS (Sistema Único de Saúde).

“Já para o componente da renda é preciso começar a discutir mais seriamente as barreiras que existem para os negros. Ampliamos o acesso ao ensino superior, mas isso ainda não se reflete em melhores postos no mercado de trabalho”, complementa.

Além de educação, saúde e renda, fatores como privilégios ligados a cor de pele e estrutura familiar economicamente saudável ajudam a explicar a queda tímida no desequilíbrio entre negros e brancos”, diz Portella. “Chegar aos 10% mais privilegiados no Brasil é difícil. Em um país tão desigual, muitas vezes os pequenos ganhos não são suficientes para colocar [os negros] no topo.”

Sobre as diferenças regionais, ele acrescenta que locais com maior concentração de renda, como o Sudeste, possuem obstáculos adicionais para a população negra, dado o privilégio econômico dos brancos.

“Pessoas realmente ricas contam com redes de contatos que desempenham um papel muito importante [na ascensão social]. Então, para um negro da periferia vai ser muito difícil acessar uma rede que vai te permitir entrar nesse grupo; já uma pessoa branca fica mais fácil se manter lá”, diz.

“A população [negra] também acaba sendo mais vulnerável aos ciclos da economia e às decisões do governo”, avalia Marcelo Paixão, economista e professor da Universidade do Texas. Segundo ele, apesar de melhoras simbólicas e materiais no desequilíbrio entre brancos e negros no Brasil, momentos de crise econômica ou de alta na inflação, tendem a afetar mais pessoas negras.

Para Paixão, a desigualdade passa por ciclos, no qual pode diminuir e se agravar em diferentes períodos históricos. No entanto, a falta de estrutura familiar mais organizada, as dificuldades no acesso ao mercado de trabalho formal e à Previdência são maiores para os negros.

“Equidade é dar ferramentas específicas a grupos que tiveram uma desigualdade de oportunidade na origem. Se você nasce numa família que consegue suprir a ineficiência do setor público, seu filho larga na frente”, diz Carla Beni, economista e professora no MBA da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Ela destaca que a discriminação também impende o equilíbrio relativo entre negros e brancos. “A falácia da meritocracia dificulta o aprofundamento do debate e criação de novas políticas para aumentar representatividade da população negra e parda no país”, diz.

Para o economista Mário Theodoro, autor de “A Sociedade Desigual – Racismo e Branquitude na Formação do Brasil”, ainda faltam políticas direcionadas para a redução da desigualdade.

“Um estudo que fiz durante o governo anterior do presidente Lula mostrava a redução da pobreza entre negros e brancos, mas agora é preciso pensar em mecanismos que privilegiam os negros mais pobres. As políticas universais são fundamentais, mas se não forem complementadas pelas políticas de combate ao racismo, o patamar de diferença vai se manter.”