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O papel das Ciências Sociais em um mundo em mudança acelerada (Fapesp)

 

Craig Calhoun, diretor da London School of Economics, fala sobre a responsabilidade da área como instrumento para a compreensão crítica da realidade e intervenção na esfera pública (foto: Leandro Negro/Ag. FAPESP)

12/08/2014
Por José Tadeu Arantes

Agência FAPESP – Que traços melhor caracterizam o mundo contemporâneo? Entre as grandes mudanças ocorridas no cenário global quais são aquelas que de maneira mais completa definem o tempo presente? Como transitar da perplexidade que essas mudanças inspiram para sua inteligibilidade em grandes quadros interpretativos? Essas foram, resumidamente, as principais indagações que o sociólogo Craig Calhoun procurou responder em palestra realizada em julho na sede da FAPESP, em São Paulo.

Nascido em 1952, o norte-americano Calhoun tornou-se diretor da prestigiosa London School of Economics and Political Science (LSE) em setembro de 2012. Antes disso, dentre várias atividades, desempenhou, nos Estados Unidos, as funções de professor de Ciências Sociais na New York University e de presidente do Social Science Research Council (SSRC), organização independente dedicada ao avanço da pesquisa em Ciências Sociais e áreas afins.

A despeito de ter nascido e se graduado nos Estados Unidos, Calhoun tem conexões antigas com o Reino Unido, pois fez mestrado em Antropologia Social na University of Manchester e doutorado em Sociologia e História Econômica e Social Moderna na University of Oxford. Igualmente determinantes em sua trajetória intelectual foram os trabalhos que realizou em outros países, notadamente na conturbada região do Chifre da África.

Mesmo com o importante cargo que ocupa atualmente, Calhoun faz questão de manter um posicionamento intelectual crítico e um trato pessoal informal e acessível (confira seu blog emhttp://blogs.lse.ac.uk/craig-calhoun/).

A palestra que proferiu na FAPESP foi pautada por um texto que produziu recentemente em parceria com o sociólogo Michel Wieviorka, da École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França, intitulado Manifesto pelas Ciências Sociais (a versão integral pode ser lida em francês emhttp://socio.hypotheses.org/147).

A pergunta feita no início desta apresentação foi assim respondida por Calhoun e Wieviorka em seu manifesto: “Dentre as mudanças que obrigam as Ciências Sociais a transformar seus modos de aproximação, as mais espetaculares podem ser resumidas a duas expressões: a globalização e o individualismo. São duas lógicas que, em conjunto, balizam o espaço no interior do qual a pesquisa cada vez mais é chamada a se mover.”

“A palavra ‘globalização’, em sentido amplo, inclui dimensões econômicas, mas também culturais, religiosas, jurídicas etc. Hoje, numerosos fenômenos abordados pelas Ciências Sociais são ‘globais’, ou suscetíveis de serem observados sob esse ângulo”, prossegue o texto mais à frente.

Quanto ao individualismo, o manifesto o caracteriza como “um segundo fenômeno, não menor, porém mais difuso”. E afirma: “Seu impulso traduziu-se desde cedo na pesquisa por um interesse sustentado pelas teorias da escolha racional, mas também, e principalmente, em tempos mais recentes, pela consideração, cada vez mais frequente, da subjetividade dos indivíduos.”

Depois de sua palestra, Calhoun concedeu a seguinte entrevista à Agência FAPESP:

Agência FAPESPA nova realidade global é muito diferente daquelas nas quais surgiram e se desenvolveram as teorias sociais clássicas, nos séculos XIX e XX, fato enfatizado em sua conferência. Quais são as diferenças mais significativas?
Craig Calhoun – Algumas das principais diferenças entre o período histórico atual e os anteriores incluem a intensificação da globalização e, nessa intensificação, o maior papel desempenhado pelas finanças. Trata-se não apenas de uma nova configuração do capitalismo em geral, mas, especificamente, do capitalismo financeiro. Outro item é o retorno da geopolítica. Vemos nos conflitos mundiais uma mistura de questões geográficas, políticas, culturais e civilizacionais, que apresentam padrões diferentes daqueles que caracterizavam o período da Guerra Fria. A Guerra Fria, de certa maneira, bloqueava esse tipo de geopolítica, que vemos hoje nas crises da Síria, do Iraque, da Ucrânia e tantas outras.

Outra diferença é a emergência de um capitalismo informal em larga escala. Quando pensamos no setor informal, geralmente pensamos em pequenas unidades produtivas, localizadas em residências, favelas etc. Mas, hoje, a economia informal atingiu uma escala gigantesca, incomparavelmente maior do que aquela que havia antes. Existe, nesse segmento, o narcotráfico e o tráfico humano, mas não apenas isso. Há muitas outras atividades, movimentando grandes somas de dinheiro.

O mundo contemporâneo também é moldado por questões ambientais, em um grau que jamais vimos: as mudanças climáticas globais, a questão dos recursos hídricos e de outros recursos, a poluição e a degradação das periferias das grandes cidades, questões relacionadas com justiça ambiental, quem ganha e quem perde em relação ao meio ambiente.

Finalmente, sublinharia a questão do déficit institucional. Muitas instituições que ajudavam as pessoas a manejar riscos em sua vida ordinária foram corroídas ou perderam financiamento ou enfrentam problemas. Construir e fortalecer instituições que ajudem as pessoas a resolver os problemas em suas vidas são grandes questões em todo o mundo.

Agência FAPESPA respeito das questões ambientais, o senhor estudou a influência do contexto social no agravamento dos danos causados por desastres naturais. É bastante conhecido seu estudo dessa contextualização no caso do furacão Katrina, de 2005. Eventos extremos como esse tendem a ocorrer com frequência cada vez maior devido às mudanças climáticas globais. Que lições seu estudo do Katrina oferece para o enfrentamento de novas ocorrências?
Calhoun – De fato, sabemos que as mudanças climáticas tendem a provocar mais eventos extremos, com furacões e outros desastres. Há uma geografia desses eventos que mostra que as áreas costeiras e outras regiões específicas são particularmente vulneráveis. Um importante aspecto dessa geografia diz respeito ao planejamento urbano. Na grande maioria dos casos, não construímos cidades levando em conta como elas poderiam enfrentar eventos desse tipo.

Depois do Katrina, tivemos, em 2012, o furacão Sandy, que impactou fortemente a costa de Nova York. Isso fez com que as pessoas percebessem que o desenvolvimento futuro da cidade de Nova York precisa incluir preparações para eventos desse tipo. Algumas providências, como a instalação de geradores alternativos para produzir eletricidade, não dizem respeito diretamente às Ciências Sociais. Mas outras, como a criação de sistemas de evacuação ou sistemas de atendimento a pessoas desabrigadas, são questões de Ciências Sociais.

Trabalhos como os realizados por agências humanitárias em várias partes do mundo, dando assistência a refugiados por causa de guerras ou desastres naturais, tendem a se tornar cada vez mais importantes, inclusive em países ricos.

Aprendemos com esses eventos que a pobreza e a desigualdade são fatores definidores dos impactos de furacões ou outros desastres. Quando existe água por todos os lados, quem vive nas áreas mais baixas e alagadiças? Os pobres. Quando existe vento por todos os lados, quem vive em construções mais vulneráveis e sujeitas a desabar? Os pobres. A importância das desigualdades foi claramente evidenciada em New Orleans por ocasião do Katrina.

Temos outra importante questão social, que diz respeito às pessoas que vivem sozinhas. Na sociedade contemporânea, há mais pessoas vivendo sozinhas do que em qualquer época anterior. E essas pessoas são especialmente vulneráveis no contexto de desastres.

Agência FAPESPO senhor trabalhou no Chifre da África, no nordeste do continente. Em que medida essa experiência influenciou suas concepções acerca das mudanças que propõe para as Ciências Sociais?
Calhoun – Minhas concepções realmente se baseiam em várias experiências internacionais. No caso do Chifre da África, a experiência direta me ensinou o que eu não havia aprendido em livros. Por exemplo, quando estive pela primeira vez no Sudão, no início dos anos 1980, uma das lições que aprendi foi a importância da infraestrutura física. As Ciências Sociais normalmente não prestavam muita atenção à infraestrutura física, como estradas e eletricidade. Mas isso muda a vida social, determina a interconexão entre diferentes partes do país, define a maneira como as pessoas podem trabalhar ou não. Nessa época, o Sudão tinha apenas uma única estrada intermunicipal pavimentada.

Também entendi a relatividade de dados estatísticos, como o Produto Interno Bruto (PIB). No início dos anos 1980, o Sudão tinha um PIB muito próximo ao da Malásia e o Egito possuía um PIB quase igual ao da China. O PIB é um número grosseiramente enganoso. Mesmo naquela época, o Egito não estava em uma posição confortável comparativamente à China. Isso se deve em parte ao fato de que o PIB não computa as heranças históricas, como o fato de que a China possuía uma rede de trabalhadores em todo o país, de que o nível de educação era melhor na China, de que o nível de saúde era melhor na China. Entendi que os indicadores superficiais, como “baixa renda” ou “média renda”, são altamente enganosos. O nível de renda não informa sobre a verdadeira riqueza de um país.

O último ponto que gostaria de ressaltar sobre o Chifre da África, especialmente sobre o Sudão e a Eritreia, é a importância de comunidades e sociedades sob o nível do Estado nacional e através do Estado nacional. Toda a região é um complexo de inter-relações, em que cada país é, em parte, determinado pelos seus vizinhos, em que refugiados e incursões militares atravessam as fronteiras nacionais e abalam fortemente a situação, em que grupos tribais e comunidades originais e linguísticas são muito fortes, e em que não fica muito claro como as pessoas se identificam.

Dou um exemplo do Sudão. Uma comissão constitucional propôs que deveria haver várias línguas nacionais que reconhecessem todas as principais nacionalidades existentes no país. E houve um protesto do povo saho contra a inclusão de sua língua no sistema educacional. Isso era estranho. Por quê? A resposta foi que, se suas crianças fossem educadas em saho, suas oportunidades seriam muito bloqueadas, o que os manteria sempre em estado de subdesenvolvimento. Então, eles pediam educação em árabe. É apenas um exemplo, mas permite perceber quão complicada é a relação entre diferentes identidades, em diferentes escalas.

Agência FAPESPIsso vem ao encontro de um dos importantes subtemas abordados em sua palestra: a relação entre sociedade e sociedades. Sociedades, com suas características próprias, incluídas na sociedade maior, supostamente representada pelo Estado nacional. Qual o peso desse tipo de relação no atual conflito do Oriente Médio?
Calhoun – Temo que esse conflito se torne cada vez pior. Há muitas coisas diferentes convergindo nele. Parte da questão são os conflitos religiosos. E lembremos que não são apenas conflitos envolvendo islamismo, cristianismo e judaísmo, mas também conflitos envolvendo xiitas e sunitas e grupos ainda mais específicos no interior do islã. É por isso que o Ocidente não entende muito claramente o que está acontecendo.

Há também uma questão de Estados. Consideramos, por exemplo, o caso do Irã. Existem interesses próprios, não pelo fato de o Irã ser xiita, mas por ser um Estado específico. Há também interesses de povos que não têm um Estado, como os curdos. Um dos poucos vencedores na atual situação são os curdos, que, pela primeira vez, talvez possam formar seu Estado, no norte do Iraque.

Existe a vulnerabilidade das populações minoritárias. Os Estados nacionais são muitas vezes acusados de genocídio, de tentar impor a supremacia da população majoritária. Apesar disso, às vezes, são capazes de proteger minorias e alcançar uma paz relativa. Intervir, como os Estados Unidos fizeram, por meio da Guerra do Iraque, desestabilizando o Estado, também coloca as minorias em risco. E não devemos achar que os Estados nacionais sejam a única fonte de genocidas. A desestabilização em situações em que existem muitos povos diferentes tentando viver em paz uns com os outros também é um fator de genocídios.

A guerra do Iraque foi um desastre não mitigável para a região. Talvez algumas pessoas tenham tido boas intenções, mas foi um desastre, que colocou em movimento uma série de eventos. Esses eventos também têm outras causas, mas, agora, foi criada uma situação muito difícil de pacificar e estabilizar. E uma situação na qual é impossível ver justiça. Se apenas conseguirmos a paz já será um grande passo adiante. Mas não haverá justiça para a maioria dos refugiados, que foram forçados a abandonar suas casas.

Agência FAPESPEm sua palestra, o senhor criticou o conceito, hoje bastante difundido, de “Tina” (acrônimo para “There is no alternative” – “Não há alternativa”). A situação atual do capitalismo é apresentada como algo tão natural que nos iludimos pensando que ela jamais poderá ser mudada.
Calhoun – Do meu ponto de vista, uma das primeiras condições para as Ciências Sociais, especialmente para as Ciências Sociais críticas, que eu acredito serem as ciências reais no caso, é reconhecer que “Tina” não é verdade. Quase sempre há alternativas, algumas melhores, outras piores. Se acreditarmos que aquilo que existe atualmente é natural, necessário, inevitável, seremos incapazes de entendê-lo. Não apenas não entenderemos os futuros possíveis, mas também não entenderemos a realidade corrente, porque não entenderemos por que esse conjunto específico de condições existe e não outros. Eu acho que este ponto de vista crítico não é propriedade de nenhuma corrente de pensamento específica. Mas precisamos reconhecer que aquilo que existe é apenas parte do possível, se quisermos entender tanto a realidade corrente como as realidades futuras.
 

Vídeo – Entrevista com Craig Calhoun (em inglês). 

Parte 1 


Parte 2 


Parte 3 

Zizek: a caminho de uma ruptura global (Outras Palavras)

POR SLAVOJ ŽIŽEK – ON 30/06/2013

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Brasília, junho de 2013

Chegada dos Protestos ao Brasil e Turquia revela: há mal-estar generalizado contra lógicas e ideologia do capitalismo. Desafio é construir alternativas e nova democracia

Por Slavoj Žižek, no London Review of Books | Tradução Vila Vudu

Em seus primeiros escritos, Marx descreve a situação na Alemanha como uma daquelas na qual a única resposta a problemas particulares seria a solução universal: a revolução global. É expressão condensada da diferença entre período reformista e período revolucionário: em período reformista, a revolução global permanece como sonho que, se serve para alguma coisa, é apenas para dar peso às tentativas para mudar alguma coisa localmente; em período revolucionário, vê-se claramente que nada melhorará, sem mudança global radical. Nesse sentido puramente formal, 1990 foi ano revolucionário: as muitas reformas parciais nos estados comunistas jamais dariam conta do serviço; e era necessária uma quebra total, para resolver todos os problemas do dia a dia. Por exemplo, o problema de dar suficiente comida às pessoas.

Em que ponto estamos hoje, quanto a essa diferença? Os problemas e protestos dos últimos anos são sinais de que se aproxima uma crise global, ou não passam de pequenos obstáculos que pode enfrentar mediante intervenções locais? O mais notável nas erupções é que estão acontecendo não apenas, nem basicamente, nos pontos fracos do sistema, mas em pontos que, até aqui, eram percebidos como histórias de sucesso. Sabemos por que as pessoas protestam na Grécia ou na Espanha; mas por que há confusão em países prósperos e em rápido desenvolvimento como Turquia, Suécia ou Brasil?

Com algum distanciamento, pode-se ver que a revolução de Khomeini em 1979 foi o caso original de “dificuldades no paraíso”, dado que aconteceu em país que caminhava a passos largos para uma modernização pró-ocidente, e era o mais estável aliado do ocidente na região.

Antes da atual onda de protestos, a Turquia era quente: modelo ideal de estado estável, a combinar pujante economia liberal e islamismo moderado. Pronta para a Europa, um bem-vindo contraste com a Grécia mais “europeia”, colhida num labirinto ideológico e andando rumo à autodestruição econômica. Sim, é verdade: aqui e ali sempre viam-se alguns sinais péssimos (a Turquia, sempre a negar o holocausto dos armênios; prisão de jornalistas; o status não resolvido dos curdos; chamamentos a uma “grande Turquia” que ressuscitaria a tradição do Império Otomano; imposição, vez ou outra, de leis religiosas). Mas eram descartados como pequenas máculas que não comprometeriam o grande quadro.

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E então, explodiram os protestos na praça Taksim. Não há quem não saiba que os planos para transformar um parque em torno da praça Taksim no centro de Istambul em shopping-center não foram “o caso”, naqueles protestos; e que um mal-estar muito mais profundo ganhava força. O mesmo se deve dizer dos protestos de meados de junho no Brasil: foram desencadeados por um pequeno aumento na tarifa do transporte público, e prosseguiram mesmo depois de o aumento ter sido revogado. Também nesse caso, os protestos explodiram num país que – pelo menos segundo a mídia – estava em pleno boom econômico e com todos os motivos para sentir-se confiante quanto ao futuro. Nesse caso, os protestos foram aparentemente apoiados pela presidente Dilma Rousseff, que se declarou satisfeitíssima com eles.

O que une protestos em todo o mundo — por mais diversos que sejam, na aparência — é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista

É crucialmente importante não vermos os protestos turcos meramente como sociedade civil secular que se levanta contra regime islamista autoritário, apoiado por uma maioria islamista silenciosa. O que complica o quadro é o ímpeto anticapitalista dos protestos. Os que protestam sentem intuitivamente que o fundamentalismo de mercado e o fundamentalismo islâmico não se excluem mutuamente.

A privatização do espaço público por ação de um governo islamista mostra que as duas modalidades de fundamentalismo podem trabalhar de mãos dadas. É sinal claro de que o casamento “por toda a eternidade” de democracia e capitalismo já caminha para o divórcio.

Também é importante reconhecer que os que protestam não visam a nenhum objetivo “real” identificável. Os protestos não são, “realmente”, contra o capitalismo global, nem “realmente” contra o fundamentalismo religioso, nem “realmente” a favor de liberdades civis e democracia, nem visam “realmente” qualquer outra coisa específica. O que a maioria dos que participaram dos protestos “sabem” é de um mal-estar, de um descontentamento fluido, que sustenta e une várias demandas específicas.

A luta para entender os protestos não é luta só epistemológica, com jornalistas e teóricos tentando explicar seu “real” conteúdo: é também luta ontológica pela própria coisa, o que esteja acontecendo dentro dos próprios protestos. É apenas luta contra governo corrupto? É luta contra governo islâmico autoritário? É luta contra a privatização do espaço público? A pergunta continua aberta. E de como seja respondida dependerá o resultado de um processo político em andamento.

Em 2011, quando irrompiam protestos por toda a Europa e todo o Oriente Médio, muitos insistiram que não fossem tratados como instâncias de um único movimento global. Em vez disso, argumentavam, haveria uma resposta específica para cada situação específica. No Egito, os que protestavam queriam o que em outros países era alvo das críticas do movimento Occupy: “liberdade” e “democracia”. Mesmo entre países muçulmanos, haveria diferenças cruciais: a Primavera Árabe no Egito seria contra um regime autoritário e corrupto aliado do ocidente; a Revolução Verde no Irã, que começou em 2009, seria contra o islamismo autoritário. É fácil ver o quanto essa particularização dos protestos serve bem aos defensores do status quo: não há nenhuma ameaça direta à ordem global como tal. Só uma série de problemas locais separados…

O capitalismo global é processo complexo que afeta diferentes países de diferentes modos. O que une todos os protestos, por mais multifacetados que sejam, é que todos reagem contra diferentes facetas da globalização capitalista. A tendência geral do capitalismo global é hoje expandir o mercado, invadir e cercar o espaço público, reduzir os serviços públicos (saúde, educação, cultura) e impor cada vez mais firmemente um poder político autoritário. Nesse contexto, os gregos protestam contra o governo do capital financeiro internacional e contra seu próprio estado ineficiente e corrupto, cada dia menos capaz de prover os serviços sociais básicos. Nesse contexto, os turcos protestam contra a comercialização do espaço público e contra o autoritarismo religioso. E os egípcios protestam contra um governo apoiado pelas potências ocidentais. E os iranianos protestam contra a corrupção e o fundamentalismo religioso. E assim por diante.

Nenhum desses protestos pode ser reduzido a uma única questão. Todos lidam com uma específica combinação de pelo menos dois problemas, um econômico (da corrupção à ineficiência do próprio capitalismo); o outro, político-ideológico (da demanda por democracia à demanda pelo fim da democracia convencional multipartidária). O mesmo se aplica ao movimento Occupy. Na profusão de declarações (muitas vezes confusas), o movimento manteve dois traços básicos: primeiro, o descontentamento com o capitalismo como sistema, não apenas contra um ou outro corrupto ou corrupções locais; segundo, a consciência de que a forma institucionalizada de democracia multipartidária não tem meios para combater os excessos capitalistas. Em outras palavras, é preciso reinventar a democracia.

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A causa subjacente dos protestos ser o capitalismo global não significa que a única solução seja “derrubar” o capitalismo. Nem é viável seguir a alternativa pragmática, que implica lidar com problemas individuais enquanto se espera por transformação radical. Essa ideia ignora o fato de que o capitalismo global é necessariamente contraditório e inconsistente: a liberdade de mercado anda de mãos dadas com os EUA protegerem seus próprios agronegócios e agronegociantes; pregar a democracia anda de mãos dadas com apoiar o governo da Arábia Saudita.

Essa inconsistência abre um espaço para a intervenção política: onde o capitalista global é forçado a violar suas próprias regras, ali há uma oportunidade para insistir em que ele obedeça àquelas regras. Exigir coerência e consistência em pontos estrategicamente selecionados nos quais o sistema não pode pagar para ser coerente e consistente é pressionar todo o sistema. A arte da política está em impor demandas específicas as quais, ao mesmo tempo em que são perfeitamente realistas, ferem o coração da ideologia hegemônica e implicam mudança muito mais radical. Essas demandas, por mais que sejam viáveis e legítimas, são, de fato, impossíveis. Caso exemplar é a proposta de Obama para prover assistência pública universal à saúde. Por isso as reações foram tão violentas.

Um movimento político começa com uma ideia, algo por que lutar, mas, no tempo, a ideia passa por transformação profunda – não apenas alguma acomodação tática, mas uma redefinição essencial –, porque a própria ideia passa a ser parte do processo: torna-se sobredeterminada.* Digamos que uma revolta comece com uma demanda por justiça, talvez sob a forma de demanda pela rejeição de uma determinada lei. Depois de o povo estar profundamente engajado na revolta, ele percebe que será preciso muito mais do que a demanda inicial, para que haja verdadeira justiça. O problema então é definir, precisamente, em que consiste esse “muito mais”.

A perspectiva liberal-pragmática entende que os problemas podem ser resolvidos gradualmente, um a um: “Há gente morrendo agora em Rwanda, então esqueçam a luta anti-imperialista e vamos impedir o massacre”. Ou: “Temos de combater a pobreza e o racismo já, aqui e agora, não esperar pelo colapso da ordem capitalista global”. John Caputo argumenta exatamente assim em After the Death of God (2007):

Eu ficaria perfeitamente feliz se os políticos da extrema-esquerda nos EUA fossem capazes de reformar o sistema oferecendo assistência universal à saúde, redistribuindo efetivamente a riqueza mais equitativamente com um sistema tributário [orig. Internal Revenue Code (IRC)] redefinido, restringindo o financiamento privado de campanhas eleitorais, autorizando o voto universal, para todos, tratando com humanidade os trabalhadores migrantes, e levando a efeito uma política externa multilateralista que integrasse o poder dos EUA dentro da comunidade internacional etc. Ou seja, intervindo sobre o capitalismo mediante reformas profundas, de longo alcance… Se depois de fazer tudo isso, Badiou e Žižek ainda reclamarem de um monstro chamado Capitalismo a nos assombrar, eu estaria inclinado a receber o tal monstro com um bocejo.

Não se trata de “derrubar” o capitalismo. Mas de construir lógicasde uma sociedade que vá além dele. Isso inclui novas formas de democracia

O problema aqui não é a conclusão de Caputo: se se pode alcançar tudo isso dentro do capitalismo, por que não ficar aí mesmo? O problema é a premissa subjacente de que seja possível obter tudo isso dentro do capitalismo global em sua forma atual. Mas e se os emperramentos e mau funcionamento do capitalismo, que Caputo listou, não forem meras perturbações contingentes, mas necessários por estrutura? E se o sonho de Caputo é um sonho de ordem capitalista universal, sem sintomas, sem os pontos críticos nos quais sua “verdade reprimida” mostra a própria cara?

Os protestos e revoltas de hoje são sustentados pela combinação de demandas sobrepostas, e é aí que está a sua força: lutam por democracia (“normal”, parlamentar) contra regimes autoritários; contra o racismo e o sexismo, especialmente quando dirigidos contra imigrantes e refugiados; contra a corrupção na política e nos negócios (poluição industrial do meio ambiente etc.); pelo estado de bem-estar contra o neoliberalismo; e por novas formas de democracia que avancem além dos rituais multipartidários. Questionam também o sistema capitalista global como tal, e tentam manter viva a ideia de uma sociedade que avance além do capitalismo.

Duas armadilhas há aí, a serem evitadas: o falso radicalismo (“o que realmente interessa é abolir o capitalismo liberal-parlamentar; todas as demais lutas são secundárias”), mas, também, o falso gradualismo (“no momentos temos de lutar contra a ditadura militar e por democracia básica, todos os sonhos de socialismo devem ser, agora, postos de lado”).

Aqui, ninguém se deve envergonhar de acionar a distinção maoista entre antagonismo principal e antagonismos secundários, entre os que mais interessam no fim e os que dominam hoje. Há situações nas quais insistir no antagonismo principal significa perder a oportunidade de acertar golpe significativo, no curso da luta.

Só uma política que tome plenamente em consideração a complexidade da sobredeterminação merece o nome de estratégia. Quando se embarca numa luta específica, a pergunta chave é: como nosso engajamento ou desengajamento nessa luta afeta outras lutas?

Praça Tahrir, Egito 2011

Praça Tahrir, Egito 2011

A regra geral é que quando uma revolta contra regime semidemocrático começa – como no Oriente Médio em 2011 – é fácil mobilizar grandes multidões com slogans (por democracia, contra a corrupção etc.). Mas muito rapidamente temos de enfrentar escolhas muito mais difíceis. Quando a revolta é bem-sucedida e alcança o objetivo inicial, nos damos conta de que o que realmente nos perturbava (a falta de liberdade, a humilhação diária, a corrupção, o futuro pouco ou nenhum) persiste sob novo disfarce. Nesse momento somos forçados a ver que havia furos no próprio objetivo inicial. Pode implicar que se chegue a ver que a democracia pode ser uma forma de des-liberdade, ou que se pode exigir muito mais do que apenas a mera democracia política: que a vida social e econômica tem de ser também democratizada.

Em resumo, o que à primeira vista tomamos como fracasso que só atingia um nobre princípio (a liberdade democrática) é afinal percebido como fracasso inerente ao próprio princípio. Essa descoberta – de que o princípio pelo qual lutamos pode ser inerentemente viciado – é um grande passo em qualquer educação política.

Representantes da ideologia reinante mobilizam todo o seu arsenal para impedir que cheguemos a essa conclusão radical. Dizem-nos que a liberdade democrática implica suas próprias responsabilidades, que tem um preço, que é sinal de imaturidade esperar demais da democracia. Numa sociedade livre, dizem eles, devemos agir como capitalistas e investir em nossa própria vida: se fracassarmos, se não conseguirmos fazer os necessários sacrifícios, ou se de algum modo não correspondermos, a culpa é nossa.

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Istambul, maio de 2013

Em sentido político mais direto, os EUA perseguem coerentemente uma estratégia de controle de danos em sua política externa, recanalizando os levantes populares para formas capitalistas-parlamentares aceitáveis: na África do Sul, depois do apartheid; nas Filipinas, depois da queda de Marcos; na Indonésia, depois de Suharto etc. É nesse ponto que a política propriamente dita começa: a questão é como empurrar ainda mais adiante, depois que passa a primeira, excitante, onda de mudança; como dar o passo seguinte, sem sucumbir à tentação “totalitária”; como avançar além de Mandela, sem virar Mugabe.

O que significaria isso, num caso concreto? Comparemos dois países vizinhos, Grécia e Turquia. À primeira vista, talvez pareçam completamente diferentes: Grécia, presa na armadilha da ruinosa política de austeridade; Turquia em pleno boom econômico e emergindo como nova superpotência regional. Mas e se cada Turquia contiver sua própria Grécia, suas próprias ilhas de miséria? Como Brecht diz em sua Elegias Hollywoodenses (orig. Hollywood Elegies’ [1942]),

A vila de Hollywood foi planejada segundo a ideia
De que o povo aqui seria proprietário de partes do paraíso. Ali,
Chegaram à conclusão de que Deus
Embora precisando de céu e inferno, não precisava
Planejar dois estabelecimentos, mas
Só um: o paraíso. Que esse,
para os pobres e infortunados, funciona
como inferno.
[1]

Esses versos descrevem bastante bem a “aldeia global” de hoje: aplicam-se ao Qatar ou Dubai, playgrounds para os ricos, que dependem de manter os trabalhadores imigrantes em estado de semiescravidão, ou escravidão. Exame mais detido revela semelhanças entre Turquia e Grécia: privatizações, o fechamento do espaço público, o desmonte dos serviços sociais, a ascensão de políticos autoritários. Num plano elementar, os que protestam na Grécia e os que protestam na Turquia estão engajados na mesma luta. O melhor caminho talvez seja coordenar as duas lutas, rejeitar as tentações “patrióticas”, deixar para trás a inimizade histórica entre os dois países e buscar espaços de solidariedade. O futuro dos protestos talvez dependa disso.


* Em seu prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política, Marx escreveu (no seu pior modo evolucional) que a humanidade só se propõe problemas que seja capaz de resolver. E se invertermos a ganga dessa frase e declararmos que, regra geral, a humanidade propõe-se problemas que não pode resolver, e assim dispara um processo cujo desdobramento é imprevisível, no curso do qual, a própria tarefa é redefinida?

[1] Não encontramos tradução para o português. Aqui, tradução de trabalho, sem ambição literária, só para ajudar a ler [NTs].

Global Networks Must Be Redesigned, Experts Urge (Science Daily)

May 1, 2013 — Our global networks have generated many benefits and new opportunities. However, they have also established highways for failure propagation, which can ultimately result in human-made disasters. For example, today’s quick spreading of emerging epidemics is largely a result of global air traffic, with serious impacts on global health, social welfare, and economic systems.

Our global networks have generated many benefits and new opportunities. However, they have also established highways for failure propagation, which can ultimately result in human-made disasters. For example, today’s quick spreading of emerging epidemics is largely a result of global air traffic, with serious impacts on global health, social welfare, and economic systems. (Credit: © Angie Lingnau / Fotolia)

Helbing’s publication illustrates how cascade effects and complex dynamics amplify the vulnerability of networked systems. For example, just a few long-distance connections can largely decrease our ability to mitigate the threats posed by global pandemics. Initially beneficial trends, such as globalization, increasing network densities, higher complexity, and an acceleration of institutional decision processes may ultimately push human-made or human-influenced systems towards systemic instability, Helbing finds. Systemic instability refers to a system, which will get out of control sooner or later, even if everybody involved is well skilled, highly motivated and behaving properly. Crowd disasters are shocking examples illustrating that many deaths may occur even when everybody tries hard not to hurt anyone.

Our Intuition of Systemic Risks Is Misleading

Networking system components that are well-behaved in separation may create counter-intuitive emergent system behaviors, which are not well-behaved at all. For example, cooperative behavior might unexpectedly break down as the connectivity of interaction partners grows. “Applying this to the global network of banks, this might actually have caused the financial meltdown in 2008,” believes Helbing.

Globally networked risks are difficult to identify, map and understand, since there are often no evident, unique cause-effect relationships. Failure rates may change depending on the random path taken by the system, with the consequence of increasing risks as cascade failures progress, thereby decreasing the capacity of the system to recover. “In certain cases, cascade effects might reach any size, and the damage might be practically unbounded,” says Helbing. “This is quite disturbing and hard to imagine.” All of these features make strongly coupled, complex systems difficult to predict and control, such that our attempts to manage them go astray.

“Take the financial system,” says Helbing. “The financial crisis hit regulators by surprise.” But back in 2003, the legendary investor Warren Buffet warned of mega-catastrophic risks created by large-scale investments into financial derivatives. It took 5 years until the “investment time bomb” exploded, causing losses of trillions of dollars to our economy. “The financial architecture is not properly designed,” concludes Helbing. “The system lacks breaking points, as we have them in our electrical system.” This allows local problems to spread globally, thereby reaching catastrophic dimensions.

A Global Ticking Time Bomb?

Have we unintentionally created a global time bomb? If so, what kinds of global catastrophic scenarios might humans face in complex societies? A collapse of the world economy or of our information and communication systems? Global pandemics? Unsustainable growth or environmental change? A global food or energy crisis? A cultural clash or global-scale conflict? Or will we face a combination of these contagious phenomena — a scenario that the World Economic Forum calls the “perfect storm”?

“While analyzing such global risks,” says Helbing, “one must bear in mind that the propagation speed of destructive cascade effects might be slow, but nevertheless hard to stop. It is time to recognize that crowd disasters, conflicts, revolutions, wars, and financial crises are the undesired result of operating socio-economic systems in the wrong parameter range, where systems are unstable.” In the past, these social problems seemed to be puzzling, unrelated, and almost “God-given” phenomena one had to live with. Nowadays, thanks to new complexity science models and large-scale data sets (“Big Data”), one can analyze and understand the underlying mechanisms, which let complex systems get out of control.

Disasters should not be considered “bad luck.” They are a result of inappropriate interactions and institutional settings, caused by humans. Even worse, they are often the consequence of a flawed understanding of counter-intuitive system behaviors. “For example, it is surprising that we didn’t have sufficient precautions against a financial crisis and well-elaborated contingency plans,” states Helbing. “Perhaps, this is because there should not be any bubbles and crashes according to the predominant theoretical paradigm of efficient markets.” Conventional thinking can cause fateful decisions and the repetition of previous mistakes. “In other words: While we want to do the right thing, we often do wrong things,” concludes Helbing. This obviously calls for a paradigm shift in our thinking. “For example, we may try to promote innovation, but suffer economic decline, because innovation requires diversity more than homogenization.”

Global Networks Must Be Re-Designed

Helbing’s publication explores why today’s risk analysis falls short. “Predictability and controllability are design issues,” stresses Helbing. “And uncertainty, which means the impossibility to determine the likelihood and expected size of damage, is often man-made.” Many systems could be better managed with real-time data. These would allow one to avoid delayed response and to enhance the transparency, understanding, and adaptive control of systems. However, even all the data in the world cannot compensate for ill-designed systems such as the current financial system. Such systems will sooner or later get out of control, causing catastrophic human-made failure. Therefore, a re-design of such systems is urgently needed.

Helbing’s Nature paper on “Globally Networked Risks” also calls attention to strategies that make systems more resilient, i.e. able to recover from shocks. For example, setting up backup systems (e.g. a parallel financial system), limiting the system size and connectivity, building in breaking points to stop cascade effects, or reducing complexity may be used to improve resilience. In the case of financial systems, there is still much work to be done to fully incorporate these principles.

Contemporary information and communication technologies (ICT) are also far from being failure-proof. They are based on principles that are 30 or more years old and not designed for today’s use. The explosion of cyber risks is a logical consequence. This includes threats to individuals (such as privacy intrusion, identity theft, or manipulation through personalized information), to companies (such as cybercrime), and to societies (such as cyberwar or totalitarian control). To counter this, Helbing recommends an entirely new ICT architecture inspired by principles of decentralized self-organization as observed in immune systems, ecology, and social systems.

Coming Era of Social Innovation

A better understanding of the success principles of societies is urgently needed. “For example, when systems become too complex, they cannot be effectively managed top-down” explains Helbing. “Guided self-organization is a promising alternative to manage complex dynamical systems bottom-up, in a decentralized way.” The underlying idea is to exploit, rather than fight, the inherent tendency of complex systems to self-organize and thereby create a robust, ordered state. For this, it is important to have the right kinds of interactions, adaptive feedback mechanisms, and institutional settings, i.e. to establish proper “rules of the game.” The paper offers the example of an intriguing “self-control” principle, where traffic lights are controlled bottom-up by the vehicle flows rather than top-down by a traffic center.

Creating and Protecting Social Capital

“One man’s disaster is another man’s opportunity. Therefore, many problems can only be successfully addressed with transparency, accountability, awareness, and collective responsibility,” underlines Helbing. Moreover, social capital such as cooperativeness or trust is important for economic value generation, social well-being and societal resilience, but it may be damaged or exploited. “Humans must learn how to quantify and protect social capital. A warning example is the loss of trillions of dollars in the stock markets during the financial crisis.” This crisis was largely caused by a loss of trust. “It is important to stress that risk insurances today do not consider damage to social capital,” Helbing continues. However, it is known that large-scale disasters have a disproportionate public impact, in part because they destroy social capital. As we neglect social capital in risk assessments, we are taking excessive risks.

Journal Reference:

  1. Dirk Helbing. Globally networked risks and how to respondNature, 2013; 497 (7447): 51 DOI:10.1038/nature12047

Argentine Invasion (Radiolab)

Monday, July 30, 2012 – 10:00 PM

From a suburban sidewalk in southern California, Jad and Robert witness the carnage of a gruesome turf war. Though the tiny warriors doing battle clock in at just a fraction of an inch, they have evolved a surprising, successful, and rather unsettling strategy of ironclad loyalty, absolute intolerance, and brutal violence.

Drawing of an Argentinte Ant

(Adam Cole/WNYC)

David Holway, an ecologist and evolutionary biologist from UC San Diego, takes us to a driveway in Escondido, California where a grisly battle rages. In this quiet suburban spot, two groups of ants are putting on a chilling display of dismemberment and death. According to David, this battle line marks the edge of an enormous super-colony of Argentine ants. Think of that anthill in your backyard, and stretch it out across five continents.

Argentine ants are not good neighbors. When they meet ants from another colony, any other colony, they fight to the death, and tear the other ants to pieces. While other kinds of ants sometimes take slaves or even have sex with ants from different colonies, the Argentine ants don’t fool around. If you’re not part of the colony, you’re dead.

According to evolutionary biologist Neil Tsutsui and ecologist Mark Moffett, the flood plains of northern Argentina offer a clue as to how these ants came to dominate the planet. Because of the frequent flooding, the homeland of Linepithema humile is basically a bootcamp for badass ants. One day, a couple ants from one of these families of Argentine ants made their way onto a boat and landed in New Orleans in the late 1800s. Over the last century, these Argentine ants wreaked havoc across the southern U.S. and a significant chunk of coastal California.

In fact, Melissa Thomas, an Australian entomologist, reveals that these Argentine ants are even more well-heeled than we expected – they’ve made to every continent except Antarctica. No matter how many thousands of miles separate individual ants, when researchers place two of them together – whether they’re plucked from Australia, Japan, Hawaii … even Easter Island – they recognize each other as belonging to the same super-colony.

But the really mind-blowing thing about these little guys is the surprising success of their us-versus-them death-dealing. Jad and Robert wrestle with what to make of this ant regime, whether it will last, and what, if anything, it might mean for other warlike organisms with global ambitions.

Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings (Cultural Anthropology)

Hot spot – Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings

Submitted by Cultural Anthropology on Fri, 2012-07-27 10:36

Introduction: Occupy, Anthropology, and the 2011 Global Uprisings

Guest Edited by Jeffrey S. Juris (Northeastern University) and Maple Razsa (Colby College)

Occupy Wall Street burst spectacularly onto the scene last fall with the take-over of New York City’s Zuccotti Park on September 17, 2011, followed by the rapid spread of occupations to cities throughout the US and the world. The movement combined mass occupations of urban public spaces with horizontal forms of organization and large-scale, directly democratic assemblies. Making effective use of the viral flows of images and information generated by the intersections of social and mass media, the occupations mobilized tens of thousands around the globe, including many new activists who had never taken part in a mass movement before, and inspired many more beyond the physical encampments themselves. Before the wave of violent police evictions in November and December of 2011 drove activists into submerged forms of organizing through the winter, the Occupy movements had already captured the public imagination. Bequeathing to us potent new memes such as the 1% (those at the top of the wealth and income scale) and the 99% (the rest of us), Occupy provided a framework for talking about issues that have been long obscured in public life such as class and socio-economic inequality and helped to shift the dominant political-economic discourse from an obsession with budget deficits and austerity to a countervailing concern for jobs, equality, and economic fairness.

In other words, prior to Occupy, much of the populist anger stemming from the 2008 financial crisis in North America and Europe had been effectively channeled by the Right into both an attack on marginalized groups—e.g. immigrants, people of color, Gays and Lesbians—and a particularly pernicious version of the already familiar critique of unbridled spending. This was especially so in the US where the Tea Party tapped into the widespread public ire over the Wall Street bailouts to bolster a far-reaching attack on “big government” through a radical program of fiscal austerity. Of course, the debt problem was a consequence rather than a cause of the crisis, the result of deregulation, predatory lending, and the spread of highly complex financial instruments facilitated by the neoliberal agenda of the very people who were now seeking to impose budgetary discipline (see Financial Crisis Hot Spot).

However, the contributions of Occupy are not exclusively, or even primarily, to be assessed in terms of their intervention in public discourse. The Occupy movements are also a response to a fundamental crisis of representative politics embodied in an embrace of more radical, directly democratic practices and forms. In their commitment to direct democracy and action the politics put into practice in the various encampments are also innovative prefigurative attempts to model alternative forms of political organization, decision making, and sociability. This turn is crucial: while neoliberalism has been endlessly critiqued it seems to live on as the only policy response—in the form of austerity—to the crisis neoliberalism itself has produced. The need for ethnographic accounts of this prefigurative politics, and its attendant challenges and contradictions, is especially urgent given that Occupy has refused official representatives and because occupiers have extended democracy beyond formal institutions into new spheres of life through a range of practices, including the collective seizure of public space, the people’s mic, horizontal organization, hand signals, and general assemblies.

It is also important to remember that Occupy was a relative latecomer—if a symbolically important one—to the social unrest the global crisis and policies of austerity have provoked. Cracks in the veneer of conformity emerged during the 2008 rebellion in Greece, where students, union members, and other social actors, galvanized by the murder of a fifteen year old student, took to the streets to challenge the worsening economic conditions (See Greece Hot Spot). Students were also among the first wave of resistance elsewhere with protests against budget cuts and increased fees in California, Croatia, the UK, and Chile. In the US signs of wider social discontent finally surfaced during the Wisconsin uprising in February 2011, which included the occupation of the Wisconsin State House in opposition to Governor Scott Walker’s attack on collective bargaining for public sector unions under the guise of budgetary discipline (cf. Collins 2012). As in Wisconsin, the widespread circulation of images from the Arab Spring continued to spark the intense feelings of solidarity, political possibility, and agency that ultimately led to the occupation of Wall Street. From the pro-democracy marches in Tunisia in response to the self-immolation of Mohammed Bouazizi to the mass occupations of Cairo’s Tahrir Square in opposition to the Egyptian dictator Hosni Mubarak, the Middle East uprisings, imbued protesters with the sense that dramatic political transformation was possible even as subsequent events have indicated that actual political outcomes are always ambivalent and uncertain (see Arab Spring Hot Spot).

Inspired by the uprisings in Tunisia and Egypt and responding to the working and middle class casualties of Spain and Europe’s debt crisis, hundreds of thousands of protesters took to the streets of Madrid on May 15, 2011 and occupied the Puerta del Sol square, sparking a wave of similar mobilizations and encampments around the Spain that would become known as 15M or the movement of the Indignados. Indeed, the combination of mass public occupations with large-scale participatory assemblies provided a template that would be enacted in Zuccotti Park, in part via the influence of Spanish activists residing in New York. That summer a similar movement of Israeli youths sprang up in Tel Aviv, using tent cities and popular assemblies to shine a light on the rising cost of housing and other living expenses.

Finally, in response to an August 2011 call by the Canadian magazine AdBusters to occupy Wall Street in the spirit of these 2011 Global uprisings, activists occupied Zuccotti Park after being rebuffed by the police in an attempt to take Wall Street itself. The occupation initially garnered little media attention, until its second week when images of police repression started going viral, leading to a surge in public sympathy and support, and ever growing numbers streaming to the encampments themselves each time another protester was maced or a group of seemingly innocent protesters rounded up, beaten, and/or arrested. Occupations quickly spread around the US and other parts of the world, generating, for a moment, a proliferating series of encampments physically rooted in local territories, yet linked up with other occupations through interpersonal and online trans-local networks. Following the evictions in the US last fall, local assemblies and working groups have continued to meet—hosting discussions, planning actions and campaigns, producing media, and building and modifying organizational forms—even as the Occupy movements prepared for their public reemergence in the spring through mobilizations such as the May Day protests and mass direct actions against NATO in Chicago and the European Central Bank in Frankfurt.

Additionally, each of these uprisings has diffused through the widespread use of social media, reflecting the mutually constitutive nature of embodied and online protest. The use of social media, in particular, has allowed the Occupy movements, as in other recent mobilizations, to penetrate deeply into the social fabric and mobilize many newcomers who have never been active before in social movements. At the same time, these emerging “logics of aggregation” within the Occupy movements have resulted in a more individualized mode of participation and a form of movement that is more singularizing (e.g. the way the 99% frame can obscure internal differences) and more dependent on the long-term occupation of public space than other recent movements (Juris 2012). A particular set of tensions and strategic dilemmas have thus plagued the Occupy movements, including a divide between newer and more seasoned activists, the difficulty of recognizing and negotiating internal differences, a lack of common political and organizational principles beyond the General Assembly model, and the difficulty of transitioning to new tactics, strategies, visions, and structures in a post-eviction era. In short, activists are now faced with fundamental questions about how to build a movement capable of actually transforming the deep inequalities they have attempted to address.

In assembling this Hot Spot on Occupy we have invited contributions from anthropologists, ethnographers, and activists writing on the above themes: the mass occupation of public spaces, directly democratic practices and forms, the use of social media, the emotions and emerging subjectivities of protest, as well as the underlying political critiques and contradictions that have arisen in the movement. Similarly, in light of the global history we outline above, the range of other social movement responses to the current global economic crisis, as well as the ongoing links between struggles in the US, Europe, Latin America, and North Africa, we have been careful to include contributors conducting research beyond the US in countries such as Greece, Slovenia, Spain, Israel, Argentina, Egypt, and Canada. In so doing, we insist that Occupy must be understood in a global rather than a populist US-centric framework.

Our collaboration on this Hot Spot—which emerged from conversations around our articles on Occupy in the May 2012 edition ofAmerican Ethnologist (Juris 2012Razsa and Kurnik 2012)—also reflects our scholarly and political commitments, as well as those of our contributors. First, it was our priority to invite scholars and activists who are directly involved with these movements rather than adding to the abundant armchair punditry on Occupy. These contributions also reflect recent trends in anthropology with respect to the growing practice of activist research, militant ethnography, public anthropology, and other forms of politically committed ethnographic research, which are taking increasingly institutionalized forms with Cultural Anthropology “Hot Spots”like this one, “Public Anthropology Reviews” in American Anthropologist, recent interventions in American Ethnologist on Egypt, Wisconsin, and Occupy, as well as Current Anthropology “Current Applications.”

In addition to providing an ethnographically and analytically informed view of and from various occupations and kindred mobilizations, this Hot Spot thus provides another example of how anthropologists are making themselves politically relevant and are engaging issues of broad public concern. Given these shifts, together with the progressive inclinations of many anthropologists and the ubiquity and inherent interest of Occupy, it should come as no surprise that so many anthropologists and ethnographers from related fields, including those within and outside the academy, have played key roles in the Occupy movements and their precursors in countries such as Greece and Spain. Indeed, in their post Carles Feixa and his collaboratorsrefer to anthropologists as the “organic intellectuals” of the 15 M movement. As many of the contributions to this Hot Spot attest, a similar case might be made for the role of activist anthropologists within Occupy more generally.

As the contributions below make clear, our emphasis on participatory and politically committed research does not imply a romanticization of resistance or a refusal to confront the contradictions, limits, and exclusions of social movements, especially along axes of class, race, gender, sexuality, and citizenship. Given the disproportionate, though by no means exclusively White, middle class participation in the US Occupy movements, such critical perspectives are essential. Each of the following entries thus combines thick ethnographic description on the part of anthropologists, ethnographers, and activists who have been directly involved in the Occupy movements or other instances of mobilization during the 2011 global uprisings—either through engagement with one more encampments and/or the themes addressed by Occupy—with critical analysis of one or more of the issues outlined above.

NOTES

[1] Occupy has thus addressed many of the same themes and drawn on many of the organizational practices associated with the global justice movements of a previous era, even as it has resonated more strongly with domestic national contexts of the Global north.

[2] The people’s mic is a form of voice amplification whereby everyone in listening distance repeats a speaker’s words so that others situated further away can also hear (See Garces, this Hot Spot).

[3] For example, in the U.S. local encampments created “Inter-Occupy” groups maintain ties with other occupations, while twitter feeds, listservs, websites, and other digital tools were used to communicate and coordinate more broadly. See our digital resources page for additional links.

REFERENCES

Collins, Jane. 2012. “Theorizing Wisconsin’s 2011 Protests: Community-Based Unionism Confronts Accumulation by Dispossession.” American Ethnologist 39 (1):6–20.

Juris, Jeffrey. 2012. “Reflections on #Occupy Everywhere: Social Media, Public Space, and Emerging Logics of Aggregation.”American Ethnologist 39 (2):259-279.

Razsa, Maple and Andrej Kurnik. 2012. “The Occupy Movement in Žižek’s Hometown: Direct Democracy and a Politics of Becoming.” American Ethnologist 39 (2):238-258.

***ESSAYS***

Prefigurative Politics

Marianne Maeckelbergh, Horizontal Decision-Making across Time and Place

Chris Garces, People’s Mic and ‘Leaderful’ Charisma

Philip Cartelli, Trying to Occupy Harvard

Public Space

Zoltán Glück, Between Wall Street and Zuccotti: Occupy and the Scale of Politics

Carles Feixa, et al., The #spanishrevolution and Beyond

Dimitris Dalakoglou,  The Movement and the “Movement” of Syntagma Square

Experience and Subjectivity

Jeffrey S. Juris, The 99% and the Production of Insurgent Subjectivity

Diane Nelson, et al., Her earliest leaf’s a flower…

Maple Razsa, The Subjective Turn: The Radicalization of Personal Experience within Occupy Slovenia

Marina Sitrin, Occupy Trust: The Role of Emotion in the New Movements

Strategy and Tactics

David Graeber, Occupy Wall Street rediscovers the radical imagination

Kate Griffiths-Dingani, May Day, Precarity, Affective Labor, and the General Strike

Angelique Haugerud, Humor and Occupy Wall Street

Karen Ho, Occupy Finance and the Paradox/Possibilities of Productivity

Social Media

Alice Mattoni, Beyond Celebration: Toward a More Nuanced Assessment of Facebook’s Role in Occupy Wall Street

John Postill, Participatory Media Research and Spain’s 15M Movement

Critical Perspectives

Yvonne Yen Liu, Decolonizing the Occupy Movement

Manissa McCleave Maharawal, Fieldnotes on Union Square, Anti-Oppression, and Occupy

Uri Gordon, Israel’s “Tent Protests:” A Domesticated Mobilization

Alex Khasnabish, Occupy Nova Scotia: The Symbolism and Politics of Space