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Carlos Fausto e Luiz Costa: Estupro e assassinato de indígenas atestam nosso fracasso civilizacional (Folha de S.Paulo)

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Povos da Amazônia viraram alvo de garimpeiros e facções que querem roubar suas terras e seus direitos

Carlos Fausto

21 de maio de 2022


[RESUMO] Em abril, mês em que se comemora o Dia do Índio, inúmeros relatos de assassinato, intimidação e estupro de indígenas ganharam repercussão na imprensa, exemplos trágicos que se repetem em um quadro de falta de fiscalização, investigações superficiais e normalização da violência por parte da sociedade.

“A Marca da Maldade”, filme de Orson Welles de 1958, começa com um plano-sequência no qual um homem arma uma bomba e a coloca no porta-malas de um carro. O plano dura mais de três minutos, nos quais a vida flui normalmente. A tragédia, porém, está anunciada. Sabemos o que vai acontecer, apesar de não sabermos quando.

Nos últimos anos, bombas vêm sendo colocadas em muitas partes da Amazônia, visando especialmente as terras indígenas. Como são múltiplas e plantadas por vários atores em diferentes lugares, acabam por minar nossa capacidade de reação. O excesso desorienta, e a violência se vê normalizada.

No mês de abril, quando se comemora o Dia do Índio, várias más notícias ocuparam as páginas dos jornais. Eis alguns dos títulos: “Garimpeiros abusam sexualmente de indígenas durante invasão e obrigam ingestão de gasolina com água, denunciam entidades” (O Globo, 21.abr), “Menina ianomâmi de 12 anos foi estuprada e morta por garimpeiros, diz líder indígena” (Estado de S. Paulo, 27.abr), “Justiça determina segurança da Força Nacional na terra dos Parakanã” (Amazônia Real, 1º.mai).

A ampla divulgação desses episódios é um fato positivo, que resulta, sobretudo, do acesso dos indígenas à internet. Contudo, sempre que são noticiados, logo surge uma reação para desacreditar os relatos.

Os órgãos responsáveis fazem uma investigação superficial e concluem que não há evidências de crime –como se crime não houvesse na própria invasão de terras protegidas, na derrubada da cobertura florestal, na contaminação de cursos d’água e nas ameaças à população indígena local.

Já assistimos a isso na história da Amazônia. O caso mais célebre é o do genocídio perpetrado pelos barões da borracha, no Peru e na Colômbia, nas primeiras décadas do século 20.

O sistema extrativista ali funcionava à base de assassinatos, tortura e estupros, mas poucos queriam acreditar nisso, mesmo quando testemunhas oculares davam conta de que se “matava a sangue frio”, que “os corpos eram devorados por cães”, que “as crianças eram desmembradas e jogadas ao fogo” (conforme registros do “Libro Azul Británico: Informes de Roger Casement y Otras Cartas sobre las Atrocida­des en el Putumayo”).

Há algumas semanas, os parakanãs da bacia do Tocantins veem-se ameaçados pela população de Novo Repartimento (PA). Em 24 de abril, três jovens invadiram a terra indígena para caçar e desapareceram. Vários áudios logo começaram a circular na região: “Vamos entrar na aldeia e vamos começar a matar índio” ou “vamos reunir 200 homens armados para botar os índios para correr”.

Esses áudios desenterraram fantasmas que pareciam sepultados. Em 1930, o então diretor da Estrada de Ferro do Tocantins reuniu um grupo armado para atacar os asurinis, que, junto com os parakanãs, “atrapalhavam” a construção da ferrovia. O grupo alcançou um acampamento asurini e matou vários indígenas, incluindo mulheres e crianças.

No retorno da expedição, o chefe de polícia segredou ao funcionário local do Serviço de Proteção aos Índios: “O meu galão é o refrigério de minha família, mas eu prefiro perdê-lo a fazer outra viagem com o mesmo fim desta feita agora; nunca vi tanta barbaridade” (trecho do inquérito da Inspetoria do Pará e Maranhão sobre massacre sofrido por índios bravios em Tocantins, julho de 1930).

Quarenta anos depois do massacre, a Transamazônica cortaria o território dos parakanãs, levando à sua “pacificação”, como se costuma chamar o desastroso processo que, no caso, causou a morte de um terço da população. Desde então, as relações com a população local foram se acomodando, mas agora parecem ter azedado de vez.

Em 30 de abril, os corpos dos caçadores foram encontrados dentro da Terra Indígena Parakanã, levando a novas ameaças nas redes sociais, inclusive uma que propunha “leis de extermínio a toda essa raça e seus defensores”.

No dia 2 de maio, os parakanãs responderam, divulgando uma nota dirigida aos “Prezados amigos(as) e irmãos(ãs) toria (não indígena) de Novo Repartimento e familiares”, na qual afirmam: “Sempre nós vivemos aqui. Vocês chegaram depois, nasceram depois. Por isso nós queremos dizer para que não nos ameace, não digam que não nos querem na cidade, pois esse lugar é nosso também. Nós desejamos viver em paz. Não lancem o seu ódio contra os awaete, pois isso não é justo” (Grupo de Maroxewara –awaete parakanã).

Alguns dias antes desse episódio, a 2.000 quilômetros dali, os kanamaris da aldeia Jarinal, na Terra Indígena Vale do Javari, no sudoeste da Amazônia, tiveram suas casas invadidas por garimpeiros.

Eles chegaram exigindo tratamento médico pela equipe da Secretaria Especial de Saúde Indígena. Uma vez atendidos, não partiram. Fizeram festa até o amanhecer, obrigando os kanamaris a beber uma mistura de gasolina e água.

Situada no médio curso do rio Jutaí, Jarinal é uma aldeia bastante remota. No alto curso do rio, vivem povos em isolamento voluntário, tornando a área ainda mais sensível. Apesar das promessas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) jamais implantou uma base avançada na região.

De início, aliás, o próprio órgão duvidou dos relatos dos kanamaris. Foi preciso que um representante do Conselho Indígena Kanamari do Juruá e Jutaí (Cikaju) enviasse áudios e fotos por WhatsApp para que se pudesse embasar a denúncia oferecida ao MPF (Ministério Público Federal).

Uma semana depois, o cacique de Jarinal comunicou que estava sendo ameaçado de morte, dessa vez por caçadores de uma fazenda contígua à terra indígena, que se utilizam regularmente de trilhas dentro da área.

Ainda no mesmo mês de abril, outra tragédia atingiu os povos indígenas, dessa vez em Roraima. Em 25 de abril, Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena local, denunciou que uma menina yanomami de 12 anos havia sido estuprada e morta por garimpeiros na comunidade de Aracaçá, na região de Waikás. Após ampla divulgação pela imprensa, uma equipe com agentes da Polícia Federal se deslocou para lá.

No dia seguinte, já se noticiava que não havia indícios de crime. Lançavam-se, assim, dúvidas sobre a veracidade da denúncia. A maquinaria para desacreditar os “relatos” indígenas fora novamente posta em ação.

Em nota de 29 de abril, Júnior Hekurari afirma que, ao chegarem à comunidade de Aracaçá, dois dias antes, encontraram a aldeia vazia e em chamas. Após certo tempo, alguns moradores apareceram, mas afirmaram que nada podiam dizer, pois haviam recebido 5 gramas de ouro para ficarem em silêncio. A cultura da sedução e do terror, tão bem-conhecida na história da Amazônia, impera na região.

Estupro e morte se tornaram fatos corriqueiros nas áreas invadidas da Terra Indígena Yanomami. No relatório “Yanomami sob ataque” (2022), da Hutukara Associação Yanomami, encontram-se vários depoimentos na língua indígena, acompanhados de tradução, que deixam isso nítido.

Eis um trecho ilustrativo de um depoimento de uma mulher: “Estão transando muito com as mulheres. É tanto assim que, em 2020, três moças, que tinham apenas por volta de 13 anos, morreram. Os garimpeiros transaram muito com essas moças, embriagadas de cachaça. Elas eram novas, tendo apenas tido a primeira menstruação”.

Bebida, estupro, violência, intimidação, morte. Os indígenas são violados, o ambiente é violado, e você que nos lê, também é (ainda que pense nada ter a ver com isso).

A exploração mineral no Brasil, mesmo fora de áreas indígenas, não é fiscalizada. Os recursos da Amazônia são drenados sem qualquer benefício coletivo, alimentando a engrenagem que, há séculos, gera riqueza para poucos e pobreza para muitos em nosso país.

Não é de surpreender que facções criminosas estejam atuando nos garimpos da região. Afinal, é um negócio lucrativo, sem fiscalização, que conta com o beneplácito de várias instâncias de governo.

Os povos indígenas resistem, mas hoje viraram alvos do ódio de uma facção política que lhes quer roubar os direitos e as terras garantidos pela Constituição de 1988. Não se enganem: o que temos diante de nós não é uma derrota política, mas uma regressão civilizacional.

Segredo de polichinelo: ao final do magistral plano-sequência de Orson Welles, a bomba explode e o carro, lançado aos ares, é consumido pelas chamas. É urgente desarmar as bombas e, como costumam dizer os indígenas, “pacificar os brancos”.

Brasil devastou quase 90% da mata atlântica e 20% da Amazônia depois da Independência (Folha de S.Paulo)

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País dilapida patrimônio natural único e ignora urgências da crise do clima

Marcelo Leite

21 de maio de 2022


[RESUMO] A preocupação com o desmatamento é tão antiga quanto a Independência, mas José Bonifácio foi derrotado por oligarquias escravistas em suas tentativas de disciplinar a exploração e a derrubada de florestas. Dois séculos depois, o Brasil de Bolsonaro retrocede à versão mais primitiva do mito do berço esplêndido e trata o ambiente, na contramão da emergência climática, como se fosse fonte inesgotável de riquezas para pilhar.

Em 1822, o patrimônio ambiental do território que se tornava o Império do Brasil não diferia muito do que portugueses haviam encontrado três séculos antes. A devastação da mata atlântica, primeira vítima natural da colonização, prosseguia a ferro e fogo, mas concentrada no entorno de poucos centros urbanos, muitos canaviais, áreas de pecuária e a lavoura incipiente de café.

O mesmo não se pode dizer dos povos indígenas, vários já extintos naquela altura. No século 16, eles contavam algo entre 2 e 8 milhões de indivíduos, calcula-se. Sobreviveram à frente colonial os que se internaram nos sertões da caatinga, do cerrado e da floresta amazônica, deixando a costa para o domínio do branco e a labuta dos escravizados da África.

São hoje 305 povos indígenas remanescentes, segundo o IBGE. No Censo de 2010, somavam 897 mil pessoas, menos de 0,5% da população, das quais 572 mil em áreas rurais (sobretudo aldeias) e 325 mil em cidades.

No mesmo recenseamento, mais de 82 milhões de habitantes se declararam pardos (43,1% do total). Outros 15 milhões se identificaram como pretos (7,6%), perfazendo assim uma maioria de brasileiros descendentes dos 4,8 milhões de negros sequestrados na África.

Essa deriva populacional é indissociável da história do meio ambiente no Brasil. A dizimação de povos indígenas acompanhou a marcha predatória para oeste no século 20, com meios técnicos bem mais poderosos que a limitada força produtiva da legião de escravizados.

Na virada do século 19 para o 20, logo após a Abolição (1888), estima-se que a mata atlântica ainda tinha cerca de 90% da cobertura original de pé, mesmo após quatro séculos de predação. Hoje, 130 anos depois, restam apenas 12,4% da vegetação do bioma. No início do século passado, Amazônia, cerrado e caatinga estavam quase intocados.

A tríade genocídio, escravização e desmatamento compõe a matriz da exploração do território forjada no período colonial, com reflexos até os dias de hoje. A crítica à forma peculiar de atraso, embora atual, não emergiu com a consciência ambiental nos anos 1970, mas já com a própria nação brasileira.

Na proa do ambientalismo precoce esteve José Bonifácio de Andrada e Silva, alcunhado patriarca da Independência, como detalha o historiador José Augusto Pádua no livro “Um Sopro de Destruição: Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil Escravista, 1786-1888“.

Andrada passou a maior parte da vida adulta em Portugal, para onde partiu aos 20 anos. Formou-se na Universidade de Coimbra sob influência do Iluminismo e do naturalista italiano Domenico Vandelli, professor da universidade e crítico da destruição ambiental no país e em suas colônias. Só em 1819, aos 56, retornou ao Brasil, onde se tornaria ministro do Império.

Pádua destaca no livro quatro elementos essenciais da obra de Andrada: visão de mundo fundada na economia da natureza, defesa do progresso econômico como instrumento civilizatório, apologia da racionalização das técnicas produtivas pela aplicação pragmática do conhecimento científico, crítica da exploração destrutiva dos recursos naturais.

Antes mesmo da Independência, ele foi chamado pelo príncipe regente, futuro Pedro 1º, para chefiar o gabinete de ministros. Passou a defender ideias avançadas para a época, como emancipação gradual de escravizados, assimilação de indígenas, educação popular e imigração estrangeira.

Propunha a superação do modelo agrícola colonial calcado no latifúndio, na monocultura e na destruição florestal. Tal prática deveria ser transformada com reforma agrária, difusão de métodos agronômicos modernos e ambientalmente equilibrados, relata Pádua.

Para o visionário, florestas eram fundamentais para manter a fertilidade da terra e a abundância de água. A venda ou a distribuição de terras pela Coroa deveria ficar subordinada à condição de manter um sexto da área com matas originais ou plantadas.

A carreira política de Andrada foi curta. Já em 1823, deixou o ministério, em julho; em novembro, foi preso e exilado na França, onde ficaria até 1829. Retoma os projetos em 1831, como tutor dos filhos do imperador, mas é deposto em 1833. Refugiou-se em Paquetá até a morte, cinco anos depois.

Oligarquias regionais, latifundiárias e escravistas jamais aceitaram o programa de Andrada. Sua derrota, assim como a consagração como estadista, da qual a historiografia omitiu, entretanto, o ideário ambiental, dizem muito sobre a indisposição da elite nacional, desde sempre, para tirar o país do atraso.

Pádua traça um paralelo com os Estados Unidos, outra nação jovem com vastos recursos naturais, mas não tropical, que também dizimou indígenas e explorou negros escravizados. As terras a oeste foram ocupadas cedo com levas de imigrantes, enquanto o Brasil permanecia dependente da escravidão.

Em 1822, a população brasileira era de 4,6 milhões de habitantes, contra 9,6 milhões de norte-americanos. Em 1900, éramos ainda 17,4 milhões, ao passo que, nos EUA, já viviam 76,3 milhões.

“A permanência desse olhar para um horizonte dotado de gigantescas formações naturais e aberto para um avanço futuro praticamente ilimitado, parecendo tornar desnecessários os esforços e os custos envolvidos na conservação e no uso cuidadoso das áreas já abertas, é possivelmente a marca central da história ambiental do Brasil”, diagnostica Pádua.

É o que ele chama de mito do berço esplêndido, expressão tirada do primeiro verso da segunda parte do hino nacional, a menos cantada. Um mito ambíguo, que pôs a natureza exuberante no centro da autoimagem da nação que surgia, motivando as missões científicas de naturalistas patrocinadas pelo Império, mas também a pintava como recurso em aparência infinito a ser explorado.

“Somos definidos pela confluência de abundâncias, abusos e ganâncias”, afirma Natalie Unterstell, do centro de estudos climáticos Talanoa e do Monitor da Política Ambiental, uma parceria com a Folha.

“O mito do berço esplêndido inscreveu uma perspectiva linear e cumulativa de expansão territorial progressiva”, diz.

“O algoritmo original da nação brasileira, que foi infelizmente tão bem demonstrado na devastação da mata atlântica, nos impulsionou a acelerar a destruição ambiental, partindo do pressuposto de que nossa base de recursos é infindável e que o custo da conversão de biodiversidade é nulo.”

Se o algoritmo já estava pronto e, por assim dizer, testado em 1,1 milhão de quilômetros quadrados da mata atlântica (13% do território nacional), demorou a ser aplicado em outros dois biomas florestais muito mais vastos: floresta amazônica(4,2 milhões de km2,ou 49%) e cerrado (2 milhões de km2, 24%).

O sopro de destruição de que fala Pádua só varreria o restante do território no século 20. O ímpeto modernizador que levou à Revolução de 1930 criou a noção de que era preciso ocupar o interior e levar o desenvolvimento para os sertões.

“Governar é povoar”, dizia o presidente Afonso Pena (1906-1909). Washington Luís(1926-1930) aproveitou o mote e o ampliou quando ainda era governador de São Paulo: “Governar é abrir estradas”.

Um século depois dos Estados Unidos, o Brasil iniciava sua Marcha para Oeste, que culminaria com a inauguração de Brasília em 1960. Em lugar de cavalos e carroções, seguiam caminhões, ônibus, tratores e automóveis da nascente indústria automobilística. O petróleo era nosso.

Dos anos 1880, década da Abolição e da República, até 1940, quase 5 milhões de imigrantes chegaram ao país. A população se multiplicou por dez ao longo do século passado, mas em 1950 o Brasil ainda era um país atrasado: apenas 36% da população de 52 milhões vivendo em cidades, 51% de analfabetismo, expectativa de vida de meros 43 anos.

Do ponto de vista ambiental, entretanto, o atraso e o gigantismo legaram ao país uma situação única: 99% da maior floresta tropical do mundo estava de pé na Amazônia, alimentando algumas das maiores bacias hidrográficas do planeta, a garantir água para a nascente potência agropecuária.

Aí sobreveio a ditadura militar (1964-1985), com o ímpeto do chamado milagre econômico e um novo lema territorial: “Integrar para não entregar”. O mito do berço esplêndido passou a alicerçar a paranoia militar da cobiça internacional sobre a Amazônia.

O que era, até aí, uma vocação para destruir, apesar do ufanismo naturalista dos tempos do Império, ganhou escala e impacto com a grande aceleração do pós-guerra, como assinala o historiador José Augusto Pádua.

A população cresceu para mais de 214 milhões de pessoas. A produção de ferro pulou de 9 milhões de toneladas em 1950 para cerca de 400 milhões atualmente. A produção de grãos saltou de 39 milhões, em 1975, para cerca de 210 milhões de toneladas. A taxa de urbanização avançou a 85%.

Esse crescimento teve um lado muito positivo. Com a criação da Embrapa em 1973, na pior fase da ditadura, a agricultura mudou de patamar, ganhou produtividade e conquistou o planalto central para a soja, o milho e o gado bovino.

A produtividade agrícola brasileira subiu à taxa de 3,6% ao ano entre 1975 e 2010, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) –o dobro da velocidade observada nos Estados Unidos no mesmo período.

O Brasil chegou em ótima posição ao boom de commodities dos anos 2000. Surfando na abundância de recursos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criou o Bolsa Família e o ProUni e turbinou o Fies. Cotas raciais foram implementadas. A pobreza diminuiu, e a escolaridade aumentou.

Em contrapartida, o ambiente sofreu. Na euforia do pré-sal, cresceu a produção de petróleo e gás (para não falar da corrupção associada), combustíveis fósseis que agravam o aquecimento global.

A usina de Belo Monte desfigurou para sempre o emblemático Xingu. O rio dá vida e nome ao parque indígena (1961) dos irmãos Villas-Bôas, continuadores do indigenismo benigno do marechal Cândido Rondon. Ali vivem 16 etnias, algumas atraídas para a área para abrir espaço às companhias colonizadoras.

Aliada à incúria do poder público, a mineração de metais, outro setor impulsionado pelo apetite voraz da economia chinesa, desencadeou as hecatombes de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Ao todo, 289 mortos.

O crescimento da população urbana se deu de maneira desorganizada. As cidades incharam, sem saneamento básico, com muito trânsito, favelas e poluição atmosférica.

Quase metade (45%) dos brasileiros não tem acesso à rede de esgoto, e só metade do que se coleta passa por tratamento —o restante chega in natura aos rios, volume de dejetos equivalente a 5,3 milhões de piscinas olímpicas por ano, segundo o Instituto Trata Brasil. É mais que improvável cumprir a meta de universalizar água e esgoto até 2033.

A derrubada do cerrado avançou, e a devastação dessa savana brasileira com enorme biodiversidade ultrapassou metade da cobertura original. A floresta amazônica, que viu as taxas de desmatamento recuarem de 27.779 km2 a 4.571 km2 entre 2004 e 2012, voltou a crescer até alcançar 13.235 km2 em 2021, acumulando 20% de perda da vegetação ainda intacta na época da Independência.

“Na economia, usa-se o termo ‘voo de galinha’ para descrever os ciclos de desenvolvimento, e na área ambiental pode-se usar a mesma analogia”, diz Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa.

“Depois de recordes de descaso, reduzimos drasticamente o desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012, a maior ação de mitigação de emissão de gases de efeito estufa da história contemporânea, mostrando do que o Brasil é capaz quando trabalha sério para implementar uma política pública.”

Em paralelo, avançavam no mundo negociações para mitigar o aquecimento global e o pior da mudança climática. O governo brasileiro evoluiu de posições refratárias para algum protagonismo, a partir da Cúpula da Terra no Rio (1992) e do Protocolo de Kyoto (1997), o que se esboroaria de vez com Jair Bolsonaro (PL).

A destruição da Amazônia se tornou tema mundial em 1988, no governo de José Sarney (PMDB, 1985-1990), poucos anos após o fim da ditadura que cortou a região Norte com a rodovia Transamazônica. Queimadas se multiplicavam nos sensores de satélites, chamando a atenção da opinião pública mundial para a frente de ocupação predatória que resultaria na morte do líder seringueiro Chico Mendes.

Demorou uma década para a diplomacia e a Presidência da República se darem conta da oportunidade do país valorizar seu patrimônio florestal ímpar como capital político (soft power). E, também, para auferir créditos de carbono e pagamentos por serviço ambiental de matas que absorviam gases do efeito estufa da atmosfera.

O governo de Dilma Rousseff (PT) assumiu compromissos voluntários relativamente ambiciosos de diminuição de emissões de carbono para o Acordo de Paris (2015). O Brasil se prontificou a reduzir em 43%, até 2030, o lançamento de gases-estufa gerados, principalmente, pelo desmatamento.

Apesar de pequenos repiques nas cifras de devastação amazônica de 2013 a 2015, a média anual nesse triênio ainda estava em 5.700 km2. À luz da experiência na década anterior, não parecia assim tão difícil cumprir a meta assumida.

Tudo mudou após o impeachment da presidente, em 2016, que contou com amplo apoio da bancada ruralista no Congresso. Já naquele ano o desmate subiu para 7.893 km2 na Amazônia —e não parou mais.

A eleição de Jair Bolsonaro disseminou o retrocesso por todas as frentes. O presidente de extrema direita está cumprindo a promessa de não demarcar um centímetro das 265 terras indígenas ainda em estudos (do total de 725 identificadas).

Bolsonaro diz que não vai acatar eventual decisão do Supremo Tribunal Federal contra o chamado marco temporal, tese de que só têm direito ao reconhecimento de territórios povos que os ocupavam em 1988. Ou seja, os esbulhados antes da Constituição assim permaneceriam.

Políticas para prevenir desmatamento e mudanças climáticas também foram desmontadas, assim como se manietaram os órgãos de fiscalização Ibama e ICMBio. O Planalto inviabilizou o Fundo Amazônia e congelou R$ 3 bilhões para projetos de preservação e desenvolvimento sustentável, doados por Noruega e Alemanha.

“A falta de inteligência e criatividade, assim como a ganância de curto prazo e a preguiça política, podem gerar um cenário cada vez mais trágico no país, ao invés de aproveitar as oportunidades que a conjuntura histórica possa estar apresentando”, lamenta Pádua.

“É claro que o crescimento da grande exportação primária tem peso essencial, mas creio que não explica tudo. O sinal verde para os interesses de curto prazo de agentes econômicos locais, como garimpeiros e madeireiros, também é fundamental. O que espanta é o grau de atraso e a falta de inteligência estratégica na visão ambiental do atual governo. É como se décadas de debate sobre o imperativo da sustentabilidade fossem simplesmente ignoradas.”

A ideia de que repousamos como potência verde em um berço esplêndido de carbono, sem nada precisar fazer para gerar créditos, também é uma ilusão bolsonarista, aponta Natalie Unterstell. “Não somos uma Arábia Saudita do carbono: é preciso muito esforço para acabar com o desmatamento e, assim, conseguir gerar redução de emissões.”

Só depois da Constituição de 1988, mais de 743 mil km2 de floresta amazônica foram ao chão (quase 18% do bioma), ou o triplo da área do estado de São Paulo. Em meros 34 anos, os habitantes do berço esplêndido destruíram na Amazônia quase o mesmo tanto de mata atlântica que levaram cinco séculos para dizimar.

Só essa derrubada na Amazônia contribuiu com cerca de 32 bilhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono (GtCO2e), principal gás do efeito estufa, para agravar o aquecimento global. Para comparação: em um ano (2020), todas as atividades humanas no Brasil geram um total de 2,16 GtCO2e.

Incluindo tudo que se desmatou antes de 1988, um quinto da floresta amazônica já virou fumaça. O restante vai sendo degradado por garimpo, madeireiros ilegais e estradas clandestinas, além do aumento de temperatura e do ressecamento impostos pelo aquecimento global.

Chegando a um quarto de perda, o bioma deve entrar em colapso, prevê a ciência. A tragédia viria com a interrupção da maior célula terrestre de produção de chuvas no planeta, gerando impacto negativo na agricultura do país todo.

Se depender de Bolsonaro e da bancada ruralista incrustada no centrão, é o futuro que nos espera —para o qual fomos alertados há 200 anos pelo patriarca da Independência.

João Moreira Salles: Nota sobre três presidentes, duas bombas e o fim do mundo (Piauí)

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João Moreira Salles | 25 mar 2022_10h37


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E aqui estamos nós, cidadãos do mundo, diante de Vladimir Putin como gregos diante da Esfinge: O que você quer, o que pensa, qual o seu enigma, quantos e o quão ferozes são os seus demônios? Qual a sua visão mística da História, o seu sonho imperial, a dimensão purificadora que a violência tem para você? Até onde está disposto a ir? Existem limites? Se existirem, será mais fácil respeitá-los no triunfo ou na derrota? Você é mais perigoso encurralado ou vitorioso?

Ninguém sabe. Numa entrevista ao jornalista Ezra Klein, o analista político e apresentador da CNN Fareed Zakaria diz que hoje no mundo não existe país mais instável do que a Rússia. Mesmo nos regimes totalitários mais fechados, alguma institucionalidade costuma sustentar os processos políticos; protocolos e trâmites burocráticos fazem saber como serão tomadas as decisões. Na antiga União Soviética, quando morria o secretário-geral do Partido Comunista, o Presidium do Soviete Supremo se reunia e era certo que de lá sairia o novo líder do país. Se amanhã o presidente chinês Xi Jinping falecer, a notícia será planetária, mas não traumática, pois virá desacompanhada do temor de abalos institucionais – um membro da alta tecnocracia política logo o substituirá. O mesmo vale para totalitarismos dinásticos, a exemplo da Arábia Saudita e da Coreia do Norte. Morre um Saud, entra um Saud; morre um Kim, entra um Kim.

Não é assim na Rússia de Putin, onde não existem sistemas claros de sucessão nem sucessores presumidos. E isso é um problema. A impressão é que a frase apócrifa de Luiz XIV, O Estado sou eu, dita supostamente por um monarca com herdeiros definidos, conselheiros numerosos e uma vasta entourage burocrática a seu serviço, caberia melhor na boca do atual Rei Sol do Kremlin: A Rússia sou eu.

De fato, é o que parece. As autocracias tradicionais tomam a forma de uma pirâmide, com o líder no vértice e, abaixo dele, por ordem de importância hierárquica, as diferentes camadas da burocracia do Estado. Na Rússia contemporânea, a pirâmide colapsou. Como um tripé que se fecha, os lados foram trazidos para o centro e se juntaram numa linha vertical. Um cajado é a nova forma do Estado, um báculo sobre cujo castão pesa exclusivamente a mão de Putin. A única, é claro, que pesa também sobre aquele botão.

Putin é o homem solitário que, isolado de tudo e de todos, usa quem sabe a suspeita de sua irracionalidade como arma política. Ou talvez, como especulam outros, já tenha se desprendido da realidade. A essa altura, não se desconta nenhuma hipótese. De fevereiro para cá, a possibilidade de um evento fatal entrou nos nossos cálculos. Se esse cenário ainda não é provável, hoje se tornou possível. Muito mais do que há um mês, incomparavelmente mais do que há um ano ou há uma década.

A Europa está assustada. Na Itália, uma empresa de abrigos nucleares que construiu cinquenta dessas estruturas nos últimos 22 anos, só nas duas primeiras semanas da guerra processou quinhentos pedidos. O governo da Bélgica está distribuindo pílulas de iodo a quem apresentar um passaporte belga. Tomado corretamente, o iodo ajuda a absorver a radiação que se aloja na tireoide. Na segunda semana de março, as farmácias do país distribuíram num único dia 30 mil caixas do comprimido.

Embora nem todos se deem conta, tamanha angústia aproxima povos que nunca imaginaram ter alguma afinidade. Gente que vive nas cidades europeias ou norte-americanas não sabe que, desde a invasão da Ucrânia, é nas florestas brasileiras que estão os interlocutores capazes de lhes ensinar como viver diariamente com o medo entranhado no corpo feito bicho. De acordo com uma observação precisa do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, se queremos compreender o que é o fim do mundo, basta perguntar aos habitantes originários das Américas. Eles são especialistas no tema. Dos guaranis no Brasil aos maias no México, muitos deles já experimentaram a destruição dos seus mundos.

Estima-se que no século XVI, quando os primeiros exploradores europeus chegaram à Amazônia, de 8 a 10 milhões de pessoas ocupavam a floresta. Passadas as primeiras décadas do contato, 90% dessa população desapareceria, um extermínio tão radical que seriam necessários quase cinco séculos para que o bioma voltasse ao patamar demográfico do mundo pré-cabralino, o que aconteceu na década de 1960. Os descendentes dessa hecatombe a guardam na memória. Corre pelo corpo deles o que foi vivido por seus ancestrais no passado remoto, por seus avós e pais no passado recente e, para vergonha de todos nós, brasileiros, corre pelo corpo deles o que significa vivê-la no presente. Hoje, mais ainda. No próximo mês, mais do que nunca, como se verá adiante.

O Brasil sempre foi mais lento (a ver, mais relaxado), menos eficiente do que as nações solidamente integradas à lógica industrial. Apesar disso, seria um erro supor que o mundo não tem razões para nos temer. Nossa arma verde-amarela de destruição em massa não produz efeitos tão instantâneos quanto as das nações nucleares, mas é igualmente letal. Trata-se, é claro, da destruição da Amazônia, a nossa bomba ecológica.

O bioma amazônico é um dos sistemas vitais para o funcionamento do planeta. Controla pelo menos três fluxos essenciais à manutenção da vida: o do carbono, o da biodiversidade e o dos ciclos hidrológicos. Esses fluxos vitais, “sistemas de suporte da vida”, na expressão de cientistas, não passam de nove,  o que nos torna responsáveis por pelo menos um terço deles.

Não temos exercido essa responsabilidade, mas já o fizemos, ainda que por apenas uma década. O cenário se agravou a partir de 2015 e entrou em fase crítica em 2019. A Amazônia está prestes a se inviabilizar como floresta tropical. As evidências científicas desse caminho sem volta se acumularam a grande velocidade, tanto que respeitados cientistas anteriormente céticos agora reconhecem: estamos a poucas casas da virada fatal. A continuar nesse ritmo a escalada do desmatamento, não muitos anos – poucos.

Nesse cenário de catástrofe iminente, o governo e sua base de apoio fazem correr em regime de urgência um projeto de lei que licencia a mineração, a exploração de óleo e a construção de hidrelétricas em terras indígenas. Em certas circunstâncias, o texto em discussão prevê autorização provisória de atividades mineradoras enquanto não houver autorização legislativa. Em terras ainda não homologadas, serão dispensados quaisquer estudos de impacto ambiental.

Isso é redação de quem tem pressa para destruir. Significa pilhagem de territórios ancestrais, da morada de povos que, desde o primeiro encontro com brancos, perderam muito, perderam sempre, perderam seu lugar no mundo, adoeceram, empobreceram, entristeceram, foram mendigar nos cruzamentos das cidades e se mataram de melancolia.

Apesar dessa violência histórica constante, são eles, os indígenas, os grandes responsáveis por proteger a maior selva tropical do planeta. Não existe melhor guarda florestal no mundo. Sem cobrar um tostão, eles preservam um sistema sem o qual o equilíbrio do planeta não se manteria. É em terras indígenas que se constata o menor índice de desmatamento. Elas são o último bastião da floresta.

Agora, o governo quer invadir o principal esteio da nossa quase inexistente responsabilidade ambiental. É instrutivo saber quem pretende avançar para dentro dessas terras. Grandes empresas que precisem prestar contas à sociedade hesitarão em entrar nesses territórios até então protegidos. Entre 2020 e 2021, por exemplo, a Vale desistiu de todos os processos minerários em terras indígenas do Brasil – eram 89 –, cancelando requerimentos de pesquisa e lavra. Entende-se: seria comprometer a reputação de uma companhia que, nos últimos anos, viu-se envolvida em dois dos maiores desastres ambientais da história brasileira.

Difícil crer que corporações do porte da Vale tomem caminho diferente. Equivaleria a suicídio corporativo. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade cujos associados respondem por 85% da produção mineral brasileira, publicou uma nota contrária ao projeto de lei, considerando-o inadequado “para os fins a que se destina”. É uma decisão tóxica, essa de avançar sobre terras indígenas incrustadas no maior bioma tropical do planeta, de tomar as últimas áreas em que uma floresta sob ataque ainda resiste, de ferir territórios em que os menores distúrbios ambientais são hoje registrados em tempo real pelos milhares de satélites que cruzam os seus céus. As mineradoras que eventualmente morderem a isca virão de países sem sociedade civil forte e, portanto, não sujeitas à obrigação de transparência. Virão da China, de países do Oriente Médio ou da Ásia Central. Não por coincidência, serão corporações que atuam de preferência em regiões pouco desenvolvidas para se valer de sistemas políticos maleáveis, legislação ambiental frágil e presença débil do Estado.

Se essas empresas periféricas vierem, é certo que bons negócios serão feitos, parte deles tão secreta quanto as emendas do relator ao Orçamento da União. O projeto, contudo, não se destina a atrair chineses ou cazaques. Nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), Luis Mauricio Ferraiuoli Azevedo, não propriamente um ambientalista: “Da forma como está, tem uma veia muito mais voltada ao garimpo do que à mineração.”

Conhecemos bem o garimpo. Como mostram vários estudos recentes, ele se tornou um braço das facções criminosas, a começar pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje domina a atividade em terras yanomamis. O garimpeiro de bateia na beira do rio, brasileiro pobre atrás do seu pão, é um personagem extemporâneo sem outra serventia a não ser mascarar com tinturas sociais uma atividade cada vez mais violenta e capitalizada. Os meios de produção do garimpo atual são balsas que custam 2 milhões de reais, mercúrio de comercialização ilegal no Brasil, condições de trabalho degradantes e fuzis AR-15, agora municiados com projéteis não rastreáveis graças à bonomia presidencial.

Uma novidade dos últimos quatro anos é a expansão vertiginosa do crime organizado para o interior do bioma amazônico. Hoje a floresta é o grande palco da disputa entre o PCC e o Comando Vermelho (CV). As facções estão fazendo a gestão da ilegalidade na Amazônia, seja no garimpo, seja na grilagem, seja no corte de madeira, seja no controle das rotas do tráfico de drogas para a Europa. Comunidades ribeirinhas e indígenas estão sendo cooptadas. O dia a dia de inúmeras cidades pequenas já depende do crime.

Não deixa de ser um projeto de desenvolvimento, o modelo político-administrativo da Baixada Fluminense transplantado para a Amazônia. Tudo considerado – do apoio a grileiros, desmatadores e garimpeiros ao desmonte das agências de vigilância como o Ibama –, não seria errado chamá-lo Programa de Aceleração do Crime. Aproveita-se assim a sigla consagrada.

Dizer que o que está sendo gestado na Amazônia é bem conhecido da primeira família da nação não passa de redundância. Trata-se, afinal, da expansão do esquema das milícias e das facções, precisamente o mundo do qual brotou a engrenagem política que hoje se espraia por todo o país. Há um sentido pedagógico em jamais esquecer que o filho mais velho do presidente, hoje senador da República, condecorou um dos maiores matadores do Rio de Janeiro, o miliciano Adriano da Nóbrega; preso, acusado de homicídio, Nóbrega recebeu na cadeia a mais alta condecoração do Poder Legislativo fluminense, a Medalha Tiradentes.

E aqui estamos nós, brasileiros, diante de Jair Bolsonaro, mas não como se diante da Esfinge, pois o homem não tem enigmas. Sabemos o que ele é e o que ele quer. Conhecemos o seu compêndio de iniquidades.

Conhecemos a sua obscenidade quando se diz solidário com a Rússia, solidário, portanto, com os responsáveis por cenas como a registrada na dolorosa foto de uma família estirada no chão, a mãe de 43 anos, o filho de 18, a filha de 9, mochilas ainda às costas, mortos os três ao tentar fugir da artilharia russa numa ponte nos arredores de Kiev (há um quarto morto na foto, um voluntário de 26 anos que ajudava a família na fuga). Não é uma solidariedade que surpreenda. O presidente, sabemos faz tempo, não é indiferente ao espetáculo da morte violenta. Ao contrário, ela o excita.

Família morta ao tentar fugir da artilharia russa nos arredores de Kiev: a mãe, o filho e a filha, além de um voluntário que os ajudava – Foto: Lynsey Addario/The New York Times/Fotoarena

Conhecemos a sua covardia, o patético dela, quando chama de comediante o presidente da Ucrânia.

Conhecemos a sua corrupção, que começou pequena e vagabunda, miúda como ele à época, e hoje é imensa, do tamanho dos seus meios atuais, que lhe permitem franquear a farra do dinheiro público distribuído sem fiscalização ou vigilância. Corridos três anos e meio de mandato, seria interessante perguntar aos arautos da moralidade se estão satisfeitos com o Orçamento da União entregue a Arthur Lira. Se apaziguados com o sistema que produz parlamentares como Josimar Maranhãozinho (PL-MA), deputado do partido do presidente, investigado pela PF por usar grupos armados para extorquir a sua parte do dinheiro que prefeitos haviam recebido por meio das emendas nebulosas do relator. Se animados com a entrega do Ministério da Educação a pastores evangélicos que cobram os seus bons serviços em barras de ouro. Se reconfortados com o círculo mais íntimo do poder, irmãos de fé e aconselhadores eventuais tais como Fabrício Queiroz e Frederick Wassef – o primeiro, ocupando seus dias pós-cadeia com exegeses no YouTube em que justifica com perspicácia geopolítica a ação russa contra a Ucrânia, país amaldiçoado por “esse governo frouxo, esse governo comédia, que desarmou o povo e entregou as armas”, essa fraqueza típica de “governo de esquerda”; o segundo, réu por injúria racial e racismo, protagonista do triste espetáculo de se recusar a ser atendido por uma garçonete de 18 anos numa pizzaria de Brasília: “Porque você é negra e tem cara de sonsa.” São esses os habitantes do mundo cultivado pelo homem escolhido para restaurar a honra do Brasil.

Sabíamos de tudo isso, e foi com esse catálogo de imoralidades que chegamos a essa versão toda nossa do fim do mundo que agora corre pelo Congresso com a pressa de um bandido.

A floresta será transformada em terra miliciana, numa dinâmica já iniciada. O projeto será votado em abril, sem qualquer debate qualificado. Se passar, o Brasil terá cometido o crime perfeito contra o futuro – o seu próprio e o do planeta. A tristeza disso é infinita. Teremos de viver confrontados cotidianamente pela injustiça cometida no decorrer de nossas vidas, sob os nossos olhos, contra aqueles que, antes de nós, não só fizeram da floresta a sua casa, mas a manipularam e a construíram, num trabalho de milênios em consórcio com outras criaturas. A Amazônia não é apenas um bem natural, é um bem cultural, o legado de uma civilização orgânica que erigiu sua obra não com pedras ou metais, mas com solo e plantas, com madeiras e fungos – essas florestas que, na linda formulação do arqueólogo Eduardo Neves, “são as nossas pirâmides”. São essas pirâmides que agora serão oficialmente entregues à pirataria.

Portanto, aqui estamos, nós brasileiros, a poucos meses de uma escolha que há muito deixou de ser questão apenas política para se tornar questão de civilização.

A Ucrânia “confiou a um comediante o destino de uma nação”, declarou o presidente do Brasil, como quem diz: E deu nisso. De fato, deu em um povo que se uniu numa batalha de vida ou morte pela autodeterminação, pela liberdade e pelo direito de dizer aos pósteros que, na hora terrível, eles se apresentaram e foram honrados. Não é um mau legado.

O Brasil elegeu Bolsonaro e deu nisso. O anjo da História diria: Olhem em volta e contemplem as ruínas. Elas nos cercam e envergonham bem mais do que as de Mariupol ou Kiev. Estas são obra do agressor; aquelas, de brasileiros. A ruína da educação, a ruína da fome, a ruína sanitária, a ruína do desemprego, a ruína política, a ruína ambiental, a ruína moral de bem-pensantes, de liberais com bons diplomas universitários e empregos bem pagos que referendaram um projeto que nunca disfarçou suas tintas.

Historiadores rejeitam o conceito de “homem providencial”, mas em certos momentos é difícil duvidar de sua existência. Gerados pelas circunstâncias históricas, ao chegar ao poder os homens providenciais as radicalizam a tal ponto que desencadeiam mudanças não de intensidade, mas de qualidade. Churchill é um homem providencial, Fidel, Mandela, Gandhi, talvez Volodymyr Zelensky (ainda é cedo). E com certeza Putin, ainda que sua providência seja sinistra.

Em outubro, estaremos diante do nosso grande enigma: Quem somos nós, os brasileiros? Aqueles que dizem não à terra barbarizada ou os que reafirmam a escolha de 2018? Seremos Zelensky ou Putin? Escolheremos vida ou morte?

Análise: Ricardo Abramovay – A Amazônia se torna maior que o Brasil na luta pelo desenvolvimento (UOL)

tab.uol.com.br

29.07.2021


Não tem precedentes na história da democracia brasileira o papel que a Amazônia está desempenhando na vida política nacional. É lá que está nascendo o primeiro Plano de Recuperação Verde (PRV), iniciativa do Consórcio dos Governadores da Amazônia, hoje presidido pelo Governador Flavio Dino (PSB) e que representa o mais importante documento programático voltado a resolver os problemas brasileiros. O texto, elaborado sob a competente coordenação de Laura Carvalho, economista do Departamento de Economia da FEA/USP, tem duas virtudes fundamentais.

A primeira é que ele consegue agregar vertentes políticas diferentes — e mesmo opostas — em torno de um objetivo comum. É a demonstração prática de que a racionalidade, a informação qualificada e a discussão de conteúdos podem ter mais força do que as agressões, os estereótipos e os preconceitos cujo sucesso na arena pública (e não só brasileira) é crescente. Se em Brasília o presidente da República confirma sua repulsiva condição de pária global ao receber a líder do partido alemão vinculado ao nazismo, na Amazônia os nove governadores credenciam-se como atores internacionais relevantes ao formularem um Plano de Recuperação Verde. É algo cujo alcance vai muito além de uma região, por mais importante que ela seja.

A segunda virtude é que o PRV reinsere o Brasil no mundo. Ele pretende zerar o desmatamento na Amazônia — cujo avanço coloca o Brasil na contramão do esforço global contra a crise climática. Para isso, é fundamental resgatar o valor do multilateralismo democrático que havia resultado no Fundo Amazônia, onde duas nações democráticas (Noruega e Alemanha) apoiam o País com base em resultados (e não em promessas) na luta contra o desmatamento.

O plano rejeita a obscena postura — típica da cultura miliciana — de chantagem contida na ideia de que se não vier dinheiro de fora, o desmatamento continua. No seu lugar, o PRV sinaliza para o fato de que os serviços ecossistêmicos prestados pela floresta à humanidade podem e devem ser remunerados a partir de mecanismos pactuados internacionalmente, por governos, setor privado, organizações da sociedade civil e povos da floresta. A expansão das áreas protegidas e sua defesa contra os ataques que vêm sofrendo do crime organizado é parte decisiva deste primeiro objetivo de proteção da floresta.

Além desta meta, o plano tem um conjunto de diretrizes para enfrentar um dos maiores paradoxos brasileiros que é o fato de que ali onde está a mais importante sociobiodiversidade do País também se reúnem seus piores indicadores sociais. E este desafio só poderá ser vencido por modelos de crescimento econômico e por tecnologias que fortaleçam o vigor da floresta e dos rios da Amazônia, mas que também estimulem o desenvolvimento sustentável de suas cidades, onde está a maior parte de seus 30 milhões de habitantes.

E claro que, da mesma forma que está ocorrendo no mundo todo, isso vai exigir que se discuta a natureza das infraestruturas necessárias para o desenvolvimento da Amazônia. Contemplar as necessidades das populações da Amazônia em saúde, educação, habitação, mobilidade, energia e, sobretudo, conexão de alta qualidade à Internet, nas cidades e no meio rural, é decisivo para que se interrompa a destruição atual. No lugar de hidrelétricas caras, ineficientes e fontes de corrupção, estradas que se tornam vetores de desmatamento e garimpo clandestino e poluidor, a Amazônia precisa de inovações tecnológicas capazes de promover bem-estar para suas populações florestais, rurais e urbanas.

Mas além do PRV, é também em torno da Amazônia que duzentos cientistas de imenso prestígio internacional se reuniram de forma virtual, durante dezoito meses, produzindo um diagnóstico e um conjunto de propostas destinadas a “Salvar a Amazônia“. A iniciativa, liderada pelo economista norte-americano Jeffrey Sachs, pelo climatologista brasileiro Carlos Nobre e pela bióloga equatoriana Andrea Encalada, resultou num denso relatório, lançado para consulta pública no último dia 14 de julho com a presença de Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia.

Nenhuma região do mundo jamais recebeu tanta atenção da comunidade científica e, como ressaltou Jeffrey Sachs durante seu lançamento, já há negociações para que o modelo do Painel Científico para a Amazônia seja replicado para as duas outras grandes florestas tropicais do planeta: a da Indonésia e a da Bacia do Congo. Neste momento, os 33 capítulos do Painel ainda estão em inglês, mas dentro de alguns dias os textos (e seus sumários executivos) estarão disponíveis em português e espanhol. O documento, após esta consulta pública, será lançado na Conferência Climática de Glasgow em novembro deste ano.

Além destas poderosas mobilizações políticas e científicas, é na Amazônia que um importante e diversificado grupo de empresários, ativistas, representantes de povos da floresta, cientistas e dirigentes políticos se reúnem, desde o início de 2020, na Concertação pela Amazônia. Destas discussões emergem documentos sobre diferentes temas referentes ao desenvolvimento da Amazônia — publicados regularmente pela Revista Página 22.

O Plano de Recuperação Verde, o relatório do Painel Científico para a Amazônia, as discussões e os textos da Concertação mostram que a Amazônia, tornou-se maior que o Brasil num sentido que não é apenas geográfico. É de lá que está emergindo a reflexão coletiva e diversificada sobre o mais importante desafio do país e talvez do continente: como podemos fazer de nossa biodiversidade o vetor fundamental para nossa inserção na vanguarda da inovação científica e tecnológica global e, ao mesmo tempo, em fator decisivo de luta contra a pobreza e as desigualdades?

Untouched nature was almost as rare 12,000 years ago as it is now (New Scientist)

Layal Liverpool, 19 April 2021


woodland
Woodland in the UK has been influenced by human activity for millenniaSteve Speller/Alamy

As early as 12,000 years ago, nearly three-quarters of land on Earth was inhabited and shaped by human societies, suggesting global biodiversity loss in recent years may have been driven primarily by an intensification of land use rather than by the destruction of previously untouched nature.

“It’s not the process of using land itself [that causes biodiversity loss], it’s the way that land is used,” says Erle Ellis at the University of Maryland, Baltimore County. “You can have traditional land use and still have biodiversity.”

Ellis and his colleagues analysed the most recent reconstruction of global land use by humans over the past 12,000 years and compared this with contemporary global patterns of biodiversity and conservation. They found that most – 72.5 per cent – of Earth’s land has been shaped by human societies since as far back as 10,000 BC, including more than 95 per cent of temperate and 90 per cent of tropical woodlands.

“Our work confirms that untouched nature was almost as rare 12,000 years ago as it is today,” says Ellis. He and his team found that lands now considered natural, intact or wild generally exhibit long histories of use, as do protected areas and lands inhabited only by relatively small numbers of Indigenous peoples.

The extent of historical human land use may previously have been underestimated because prior analyses didn’t fully account for the influence that hunter-gatherer populations had on landscapes, says Ellis. “Even hunter-gatherer populations that are moving around are still interacting with the land, but maybe in what we would see as a more sustainable way,” he says.

The researchers also found that in regions now characterised as natural, current global patterns of vertebrate species richness and overall biodiversity are more strongly linked to past patterns of land use than they are with present ones. Ellis says this indicates the current biodiversity crisis can’t be explained by the loss of uninhabited wild lands alone. Instead, this points to a more significant role for recent appropriation, colonisation and intensification of land use, he says.

“The concept of wilderness as a place without people is a myth,” says Yadvinder Malhi at the University of Oxford. “Where we do find large biomes without people living in them and using them – as in North American national parks, Amazonian forests or African game parks – it is because of a history of people being removed from these lands through disease or by force.”

“[This study] shows that high biodiversity is compatible with, and in some cases a result of, people living in these landscapes,” says Malhi. “Working with local and traditional communities, and learning from them, is essential if we are to try to protect biodiversity.”

“With ambitious calls to expand global terrestrial protected areas to cover 30 per cent or even half of the Earth, this [study] brings into focus that protection necessarily cannot mean the exclusion of people and anthropogenic land uses,” says Jason Riggio at the University of California, Davis. The “30 by 30” pledge, being championed by a coalition of more than 50 countries, aims to expand protected areas to cover at least 30 per cent of land and sea by 2030.

Joice Ferreira at Embrapa Amazônia Oriental in Brazil says that there are important roles for both protected areas and sustainable land use in preserving biodiversity. “The combination of deforestation, degradation […] and climate change make protected areas paramount,” she says, adding: “if Indigenous custodianship was important in the past, it is much more so nowadays, in the face of new and more intense threats.”

Journal reference: PNAS, DOI: 10.1073/pnas.2023483118

Indigenous peoples by far the best guardians of forests – UN report (The Guardian)

Preserving Latin America’s forests is vital to fight the climate crisis and deforestation is lower in indigenous territories

Damian Carrington Environment editor @dpcarrington

Thu 25 Mar 2021 14.00 GMT Last modified on Thu 25 Mar 2021 16.44 GMT

A Waiapi boy climbs up a Geninapo tree to pick fruits to make body paint at the Waiapi indigenous reserve in Amapa state, Brazil.
A Waiapi boy climbs up a Geninapo tree to pick fruits to make body paint at the Waiapi indigenous reserve in Amapa state, Brazil. Photograph: AFP Contributor/AFP/Getty Images

The embattled indigenous peoples of Latin America are by far the best guardians of the regions’ forests, according to a UN report, with deforestation rates up to 50% lower in their territories than elsewhere.

Protecting the vast forests is vital to tackling the climate crisis and plummeting populations of wildlife, and the report found that recognising the rights of indigenous and tribal peoples to their land is one of the most cost-effective actions. The report also calls for the peoples to be paid for the environmental benefits their stewardship provides, and for funding for the revitalisation of their ancestral knowledge of living in harmony with nature.

However, the demand for beef, soy, timber, oil and minerals means the threats to indigenous peoples and their forest homes are rising. Hundreds of community leaders have been killed because of disputes over land in recent years and the Covid-19 pandemic has added to the dangers forest peoples face.

Sateré-Mawé men collect medicinal herbs to treat people showing Covid symptoms, in a rural area west of Manaus, Brazil.
Sateré-Mawé men collect medicinal herbs to treat people showing Covid symptoms, in a rural area west of Manaus, Brazil. Photograph: Ricardo Oliveira/AFP/Getty Images

Demands by indigenous peoples for their rights have become increasingly visible in recent years, the report said, but this has come with increasing persecution, racism, and assassinations. Supporting these peoples to protect the forests is particularly crucial now with scientists warning that the Amazon is nearing a tipping point where it switches from rainforest to savannah, risking the release of billions of tonnes of carbon into the atmosphere.

The report was produced by the UN Food and Agriculture Organization and the Fund for the Development of Indigenous Peoples of Latin America and the Caribbean (Filac), based on a review of more than 300 studies.

“Almost half of the intact forests in the Amazon basin are in indigenous territories and the evidence of their vital role in forest protection is crystal clear,” said the president of Filac, Myrna Cunningham, an indigenous woman from Nicaragua. “While the area of intact forest declined by only 5% between 2000 and 2016 in the region’s indigenous areas, in the non-indigenous areas it fell by 11%. This is why [indigenous peoples’] voice and vision should be taken into account in all global initiatives relating to climate change, biodiversity and forestry.”

“Indigenous peoples have a different concept of forests,” she said. “They are not seen as a place where you take out resources to increase your money – they are seen as a space where we live and that is given to us to protect for the next generations.”

Indigenous and tribal territories contain about a third of all the carbon stored in the forests of Latin America, said Julio Berdegué, the FAO’s Regional Representative: “These peoples are rich when it comes to culture, knowledge, and natural resources, but some of the poorest when it comes to incomes and access to services.” Supporting them would also help avoid new pandemics, he said, as these are most often the result of the destruction of nature.

Cattle graze on land recently burned and deforested by farmers near Novo Progresso, Pará state, Brazil.
Cattle graze on land recently burned and deforested by farmers near Novo Progresso, Pará state, Brazil. Photograph: André Penner/AP

“Even under siege from Covid-19 and a frightening rise in invasions from outsiders, we remain the ones who can stop the destruction of our forests and their biodiverse treasures,” said José Gregorio Diaz Mirabal, indigenous leader of an umbrella group, the Coordinator of the Indigenous Organizations of the Amazon Basin. He said the report’s evidence supports his call for climate funds to go directly to indigenous peoples and not governments vulnerable to corruption. Advertisement

The report found the best forest protection was provided by peoples with collective legal titles to their lands. A 12-year study in the Bolivian, Brazilian, and Colombian Amazon found deforestation rates in such territories were only one half to one-third of those in other similar forests. Even though indigenous territories cover 28% of the Amazon Basin, they only generated 2.6% of the region’s carbon emissions, the report said.

Indigenous peoples occupy 400m hectares of land in the region, but there is no legal recognition of their property rights in a third of this area. “While the impact of guaranteeing tenure security is great, the cost is very low,” the report said, needing less than $45 per hectare for the mapping, negotiation and legal work required.

The report said it would cost many times more to prevent carbon emissions from fossil fuel burning using carbon capture and storage technology on power plants. The granting of land rights to indigenous people has increased over the last 20 years, Cunningham said, but has slowed down in recent years.

Paying indigenous and tribal communities for the environmental services of their territories has reduced deforestation in countries including Ecuador, Mexico, and Peru. Berdegué said such programmes could attract hundreds of millions of dollars per year from international sources.

The need for protection is urgent, the report said, with annual deforestation rates in Brazil’s indigenous territories rising from 10,000 hectares in 2017 to 43,000 hectares in 2019. In January, indigenous leaders urged the international criminal court to investigate Brazil’s president, Jair Bolsonaro, over his dismantling of environmental policies and violations of indigenous rights.

Elsewhere, the area of large intact forests in indigenous territories has fallen between 2000 and 2016, with 59% lost in Paraguay, 42% in Nicaragua, 30% in Honduras and 20% in Bolivia. Mining and oil concessions now overlay almost a quarter of the land in Amazon basin indigenous and tribal territories, the report said.

Arqueólogos identificam 48 ilhas construídas por indígenas na Amazônia da era pré-colonial (G1)

g1.globo.com

Pesquisadores do Instituto Mamirauá trabalham na identificação de estruturas encontradas em áreas de várzea no Amazonas; levantamento foi feito em 4 anos. Segundo o IPHAN, quase 400 sítios arqueológicos achados no estado estão registrados no cadastro nacional.

Por Lucas Faria e Mayara Subtil, Rede Amazônica

20/02/2021 09h46


As longas distâncias percorridas em voadeiras e as conversas informais com ribeirinhos resultaram no registro de 48 ilhas criadas artificialmente por indígenas no período anterior à era-colonial na floresta amazônica.

Entre 2015 e 2019, arqueólogos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá trabalharam na identificação dessas estruturas, localizadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.

“Um dos principais pontos de importância (da identificação das ilhas) é a engenhosidade humana frente às adversidades, pois na Amazônia se tem uma ideia vaga e pensa que populações que viveram aqui não conseguiram desenvolver estratégias e evoluir. É uma resposta positiva de como se integrar à natureza e como aproveitar recursos de uma maneira mais ordenada e se ter segurança, alimento, fatura. É um legado que a gente precisa passar das populações que viveram na floresta amazônica”, declarou Márcio Amaral, pesquisador do instituto que encontrou as ilhas.

Ilustração de indivíduo da população indígena Omágua, atual Kambeba.  — Foto: Alexandre Rodrigues Ferreira/Arquivo pessoal
Ilustração de indivíduo da população indígena Omágua, atual Kambeba. — Foto: Alexandre Rodrigues Ferreira/Arquivo pessoal

Uma das hipóteses dos arqueólogos envolvidos no levantamento aponta que essas ilhas podem ter sido construídas por indígenas Omáguas, ancestrais dos Kambeba, população composta atualmente por cerca de 1,5 mil indivíduos, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

Os pesquisadores acreditam também que há chances dessas áreas terem sido ocupadas ainda entre os séculos XV e XVI, época em que os europeus começaram a passar pela Amazônia – principalmente no entorno do rio Solimões. O indício reforça a teoria de que o bioma possivelmente já era ocupado nesse período por grupos organizados e complexos.

“Essas ilhas foram encontradas meio que por acaso. Por acaso por nós, pesquisadores. Na verdade, a gente estava fazendo trabalho de levantamento de sítio. Eram áreas que a gente não conhecia nada, não sabia nem como eles eram. Isso é interessante porque todas essas informações já vieram dos moradores. Só vamos incorporando essas informações”, complementou Eduardo Kazuo, coordenador do grupo de pesquisa em arqueologia do Instituto Mamirauá.

Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.  — Foto: Earth Studio/Reprodução
Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas. — Foto: Earth Studio/Reprodução

Mas os dados ainda são preliminares. Segundo os arqueólogos, ainda não se tem conhecimento, por exemplo, sobre o período de ocupação das ilhas ou quais as culturas indígenas que estavam ali.

Os “aterrados”, como são chamados pelas pessoas que moram nas proximidades, medem pelo menos de um a três hectares por sete metros de altura. Márcio Amaral cita que somente na última expedição, ocorrida em novembro de 2019 e com duração de 12 dias, encontrou 13 ilhas. Todo o trabalho dos pesquisadores abrange uma área de 180 mil km² e 350 sítios arqueológicos já foram mapeados.

Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia.  — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá
Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia. — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

“O primeiro traço diagnóstico dessas ilhas é a forma singular na paisagem. Há um microbioma nessas ilhas que tem relação com plantas úteis, árvores frutíferas, algumas plantas medicinais. Se tem uma floresta antropogênica, que tem um fundo de criação humana, com árvores e espécies úteis aos seres humanos que é diferenciado do entorno imediato da várzea. A cobertura florestal é diferente”, acrescentou.

Márcio também conta ter encontrado resquícios de material cerâmico nas ilhas. Segundo o arqueólogo, cacos, potes, panelas e tigelas achados eram usados, principalmente, para preparar os alimentos e armazená-los, “além de várias outras coisas de origem orgânica, como ossos, carvões, até o chamado ‘pão de índio’, que pode ser mandioca ou milho, processado e armazenado de maneiras que poderiam ser estocado de um ano para o outro”, acrescentou.

No Médio e Alto Solimões, ilhas artificiais oferecem proteção durante as cheias
No Médio e Alto Solimões, ilhas artificiais oferecem proteção durante as cheias

Próximos passos

O material encontrado pelos pesquisadores ainda precisa ser registrado junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para que possam, então, conseguir recursos e retornar a campo. O objetivo é seguir com o trabalho de escavação para futuras análises. Conforme Eduardo Kazuo, um relatório sobre as identificações está sendo preparado para ser encaminhado ao instituto.

Somente no Amazonas, 395 sítios arqueológicos estão registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) e mais de mil já foram identificados, conforme o IPHAN. Todos são protegidos pela Lei Federal 3.924, de julho de 1961. Ainda conforme o IPHAN, o tipo de sítio mais conhecido no estado do Amazonas são os que estão relacionados com as ocupações ceramistas.

“Contudo, na minha visão, os agentes de preservação mais importantes dos sítios arqueológicos, sobretudo na Amazônia, são as comunidades que ali vivem no entorno e muitas vezes sobre os sítios arqueológicos, que conhecem esses sítios, auxiliam os pesquisadores a identificarem esses lugares, registrarem e pesquisarem. Eu vejo os moradores dos sítios arqueológicos como os principais agentes de conservação”, declarou a arqueóloga Helena Lima, pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

“Na Amazônia, a gente não tem muita pedra como material construtivo. Não tem muita rocha. Então, o que que era utilizado por esses povos como material construtivo que viviam ali? Era a própria terra, o solo que era movimentado, coisas de madeira e de palha que se apodrecem muito rapidamente ao longo do tempo. Então normalmente um sítio arqueológico na Amazônia vai ter muita cerâmica fragmentada na superfície, vai ter restos de plantas e ossos de animais, vai ter solos escuros, que são as terras pretas, mas em alguns lugares vamos encontrar aterros artificiais, que são como ilhas”, explicou o arqueólogo e professor da USP Eduardo Neves.

Materiais encontrados pelos pesquisadores serão registrados no IPHAN.  — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá
Materiais encontrados pelos pesquisadores serão registrados no IPHAN. — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

Ainda de acordo com o professor Eduardo Neves, tais registros revelam informações sobre uma Amazônia ocidental que é “absolutamente desconhecida”.

“E segundo que mostra uma variabilidade, pois se a gente olhar para os povos indígenas hoje no Brasil e na Amazônia, a gente percebe que tem uma diversidade cultural muito grande que pode ser aferida das diferentes, centenas, dezenas de línguas indígenas faladas na Amazônia, na América do Sul, mas na Amazônia em particular”, reforçou.

Antonio Nobre: O planeta está enfermo – é preciso ‘rejardiná-lo’ (National Geographic)

nationalgeographicbrasil.com

Em entrevista exclusiva, o cientista pioneiro na aplicação da Teoria de Gaia fala sobre a importância da cosmovisão indígena e oferece uma solução simples para salvar o planeta das mudanças climáticas: replantar as trilhões de árvores que derrubamos.
Floresta amazônica queima no Maranhão. Em entrevista, o cientista Antônio Nobre usa o exemplo da Etiópia, que plantou 353 milhões de árvores em 12 horas, para defender que somos capazes de recuperar o planeta: “Se a humanidade inteira fizer, em dois meses nós plantamos um trilhão de árvores no planeta inteiro.”
Foto de Charlie Hamilton James

Por Paulina Chamorro

Publicado 3 de fev. de 2021 17:00 BRT


Antonio Nobre é um cientista que fala das ciências da terra com amor. Pode parecer estranho ler essas palavras em uma mesma frase, mas, após ouvi-lo, em poucos minutos entendemos que seu ponto de partida é múltiplo e que muito do que a ciência não calcula também entra na equação de Nobre.

Um dos principais precursores da Teoria de Gaia aplicada, Nobre traduziu os rios voadores para a população brasileira e faz da divulgação científica misturada com saberes tradicionais um ato de amor pela natureza.

Em entrevista exclusiva e inédita realizada em outubro de 2020, o agrônomo, mestre em biologia, doutor em ciências da terra, ex-pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais conversa por videoconferência sobre como salvar o planeta.

Há seis anos, Nobre publicou o relatório O Futuro Climático da Amazônia, onde discorreu sobre alguns “segredos da floresta” – como os rios voadores e a bomba biótica, um teoria que ele afirma ter captado os mecanismos que provam que a Terra é um grande organismo vivo. Hoje, junto do grupo Biotic Pump Greening Group, formado por uma equipe multidisciplinar de cientistas e ativistas, defende que, para curar as doenças que afligem o organismo Terra, devemos ‘rejardinar’ o planeta, plantando novamente as trilhões de árvores que derrubamos ao longo dos séculos.

Tudo está relacionado, e Antonio Nobre avisou há tempos.

Antonio Nobre dá uma palestra em seminário realizado em 2019. Um dos principais precursores da Teoria de Gaia aplicada, Nobre é agrônomo, mestre em biologia, doutor em ciências da terra, ex-pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e pesquisador sênior do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais.
Foto de Reinaldo Canato/Divulgação FRUTO

Paulina Chamorro, National Geographic: No seu mais recente livro, A vida não é útil, o filósofo, escritor e líder indígena Ailton Krenak fala da Teoria de Gaia e que você é um “continuador dessas especulações sobre diferentes linguagens que o organismo Terra utiliza para se comunicar conosco”. Como as ciências da Terra e a cosmovisão indígena se aproximam para você?

Antonio Nobre: Uma vez eu estava tendo uma conversa com os indígenas, em Manaus, em um evento organizado pelo Instituto Socioambiental (ISA) e outras organizações e a gente estava começando esse diálogo. Eles queriam que a gente falasse sobre a floresta, fotossíntese, carbono porque estava começando essa coisa de vender carbono e de que floresta vale pela massa dela. Quando terminei a apresentação, os indígenas começaram a se manifestar. Tinha alguns bem jovens e um deles pegou o microfone e disse: ‘Cientista acha que sabe muito, cientista não sabe nada. Cientista acha que vê a Terra com satélite lá de fora, mas ele não entende nada do que ele vê. Cientista sabe muito menos do que o sábio indígena’.

Quando ele terminou, eu peguei o microfone e falei: ‘Eu queria dizer o seguinte, 1/16 do sangue que corre na minha veia é de indígena e tem um outro tanto que é de quilombola. Tem uma maior parte que é de branco europeu, como a maior parte dos brasileiros chamados brancos. É uma mistura aqui. Então, eu não gostei de vocês falarem que a gente não sabe nada, porque eu me sinto parente de vocês. Eu estudei ciência, não estudei a ciência indígena, estudei a ciência do branco e eu estou aqui com a disposição da gente conversar, trocar ideias’. E a gente começou a conversar a partir daí, houve um diálogo.

Anos mais tarde, o ISA publicou um livro chamado Manejo do mundo, e eu fiz um capítulo desse livro, contando um pouco dessa história que eu acabei de contar. Nesse capítulo, eu fui estudar um pouquinho do que outro sábio, o Davi Kopenawa Yanomami, tinha falado e, registrado por Bruce Albert, publicado no livro A queda do céu, que é um livro clássico, importante, da sabedoria yanomami, sobre vários assuntos. E eu peguei o que era atinente ao que eu fazia, que era a parte de clima, floresta e fui fazendo uma comparação. Ele falava uma coisa e eu ia buscar o rebatimento daquela coisa fazendo a tradução na ciência. E o que eu vi? Que tudo o que o livro falava era extremamente fundamentada na melhor ciência, sem conhecer nada da ciência do branco. Ele conhecia a ciência que ele chama do saber dos espíritos da floresta. E isso daí foi um exercício que me abriu um campo de progressão. Inclusive, algo que mudou minha carreira de cientista, que era puramente cientista duro, das ciências da natureza, mas que está acostumado a fazer de acordo com a liturgia da ciência.

Eu percebi que a ciência, com todos os seus valores – eu não estou desmerecendo em absoluto a ciência – também tem suas coisas não explicáveis, aquilo que não é alcançado. Tem defeitos também, inclusive em relação à vaidade, ao ego. Tem uma espécie de preconceito contra o saber da natureza, como se o saber tivesse que ser arrancado da natureza usando esmeril, martelo, talhadeira. Então, na minha perspectiva, não era uma postura de recepção, de contemplação ou uma postura filosófica. É uma postura de ir lá, colocar instrumento, medir, olhar imagem de satélite e arrancar da natureza um conhecimento e apresentar para o mundo: ‘Olha o que eu descobri’.

Eu percebi isso. Fiz também uma autocrítica e comecei a ver aquela sabedoria indígena. Uma sabedoria sintética, que é transmitida por fábula, que encanta através da sua poesia porque não é só um saber frio, um saber calculista, é um saber eivado das energias da natureza, eivado da espiritualidade que existe na natureza que eles veem e reverenciam. É uma relação também de filho para mãe, a mãe terra, a mãe natureza. E uma relação de reverência inerente. Ela já é assim, sempre foi. Claro que existem desvios, tem povos indígenas que já não se ligam mais, que foram muito influenciados por essa cultura europeia que veio para cá e que se desenvolveu de forma parcial.

A partir desse momento de reconhecimento da beleza e do poder da simplicidade do conhecimento indígena, eu comecei a reavaliar o meu conhecimento científico pelo viés reducionista, aquele viés cartesiano, racionalista, e perceber também que a sabedoria não é restrita ao intelecto. A sabedoria é uma propriedade do universo. E quando nós – como intelectos ou como seres cognitivos ou conscientes, ou pelo menos que buscam a consciência – começamos a olhar para sabedoria do universo sem colocar o ego na frente, ou seja, como seres contempladores ou contemplativos, a gente percebe a grandiosidade desse saber que já existe na natureza e que, quando nós estudamos e nos inteiramos e absorvemos esse saber, a gente está, na realidade, fazendo um empréstimo. Nós estamos tomando algo pré-existente, já configurado por uma inteligência superior e nos apropriando, nos embebendo daquele saber, daquele conhecimento.

N.G.: Estamos vivendo uma última chance do equilibrio de Gaia?

A.N.: As pessoas não se dão conta de estarem existindo em um mundo de complexidade absurda que está enfermo. E como a gente percebe que ele está enfermo? Febre, calor, frio em alguns lugares. Em 2019, teve dois fenômenos: a Besta do Leste (Beast from the East), uma massa de ar polar do polo Norte deslocada para cima da Rússia que depois chegou na Europa e congelou tudo, até nas pirâmides nevou. E lá no polo norte, que chegou não sei quantos graus Celsius acima do normal. Está ficando tudo confuso, como fica nosso corpo quando está enfermo. A gente tem febre, a gente começa a ter mal-estar, a digestão não funciona direito, dá dor de cabeça. O planeta Terra é vivo, não há mais nenhuma dúvida em relação a isso e nenhuma controvérsia no mundo científico. Finalmente, a teoria de Gaia hoje é uma das teorias mais importantes da história, que descobriu o funcionamento do planeta. O planeta é vivo e hoje nós temos os mecanismos que mostram a fisiologia do planeta, a relação dos ecossistemas – a vida na Terra é responsável pela regulação planetária. Como a vida na Terra está sob ataque intenso e destrutivo, é normal esperar isso. Se você pegar um ser humano e começar a atacar os fígados, os rins, o coração, chega uma hora que o corpo vai, inicialmente, cair enfermo e, depois, morto.

Então, a possibilidade de matarmos Gaia existe, está em curso. Na realidade, nós estamos matando Gaia porque no momento em que todos os ecossistemas da Terra mostram sinais de falência, aumentam as atividades, não só de governos, mas de empresas e indivíduos com motosserra, trator. 

Mas, às vezes, o consumo é fabricado também. Eu queria só fazer uma menção ao fato de que o covid-19 é o primeiro freio de arrumação que Gaia está apresentando para essa humanidade, que ficou perdida na sua própria ilusão de grandeza. A covid-19 bloqueou o planeta. E aí, o que nós vamos fazer com isso? A primeira coisa que a covid fez foi mostrar que era mentira que a gente não pode frear o ‘desenvolvimento’ ou a economia. Mentira. A gente freou este ano [2020]. Morreram pessoas? Muitas morreram, muitas ficaram enfermas, muitas perderam emprego e, não obstante, não acabou a humanidade, nem acabou a civilização. Agora, temos a oportunidade de aprender a lição com a covid sobre o que os povos indígenas, há 500 anos, e os cientistas, há 30 anos, vem berrando e dizendo: ‘Está errado, esta forma de existir na Terra é enferma e ela vai matar a todos, não só os humanos, todos os seres’. Uma grande extinção já está em curso.

Concluindo, a situação do planeta Terra é de um ser enfermo. Não por acaso veio uma enfermidade para, de certa forma, produzir uma certa imunidade para a Terra. Então, a covid é como se fosse um anticorpo contra o agente infeccioso. Quem é o agente infeccioso? A mentalidade humana, não o ser humano. Nós somos surgidos da natureza, mas a nossa mentalidade é que nos colocou nessa posição de antagonismo com a vida que nos dá suporte e é, de certa forma, ou, de forma total, suicida. Se você destrói o que te mantém vivo, você morre. É suicídio se você faz isso por deliberação, que é o que a humanidade tem feito. Por deliberação, está indo lá destruir a floresta Amazônica, destruir o Pantanal. Agora, eu fiquei sabendo, em volta da Ilha de Galápagos, uma frota de barcos chineses arrasta tudo que tem de vida marítima lá.

N.G.: Queria que contasse sobre a regulação biótica do ambiente, que é como a Teoria de Gaia passou a ser reconhecida. Que caminhos são esses? E como chegamos aos rios voadores da Amazônia?

A.N.: Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva já tinham publicado – e foi assim que eu os conheci – um livro chamado Regulação Biótica do Ambiente em um período em que [a teoria de] Gaia estava sendo controversa no meio científico, principalmente pelo rechaço que os neodarwinistas faziam a Gaia desde o começo. Fizeram oposição cerrada, ridicularizaram Gaia. E o James Lovelock e a Lynn Margulis – quando lançaram a teoria de Gaia, hipótese de Gaia na época, nos anos 1970 – lançaram como uma ideia, como o Copérnico lançou a ideia de que a Terra girava em volta do Sol e não o Sol em volta da Terra. Mas eles não mostraram muitos mecanismos. Mais tarde, o James Lovelock começou a mostrar alguns mecanismos de como a vida regularia o clima da Terra. Mas, ainda assim, ficou a noção do Copérnico, que eles constataram que a Terra era um sistema autorregulado. James Lovelock trabalhou com a Nasa nas primeiras tentativas de mandar sondas para outros planetas, Marte e Vênus. Ele entendeu que a Terra é um lugar muito especial, que os nossos dois vizinhos são lugares especiais ao seu modo, mas Vênus é superquente e Marte é superfrio. Não tem condição nenhuma de vida nesses lugares e a Terra é este lugar extraordinário. Então, eles perceberam, a Terra é viva, é essa a explicação. A Terra é viva. Mas sem mostrar os mecanismos. Lá nos anos 1990, Victor Gorshkov e outros autores construíram a teoria da regulação biótica do ambiente, que eu chamo de Gaia 2.0. Por quê? Você sabe, os russos não vão ao banheiro sem escrever uma equação, eles são muito quantitativos. No caso, eram dois físicos de partícula teóricos. Tudo é equação. É como se fosse Newton ou Einstein: eles tinham essa visão quantitativa e teórica da ciência, entraram nesse campo do sistema terrestre, ou ciência de Gaia, e lançaram esse livro. Saiu em 2000, eu comprei o livro, li e falei: ‘Mataram a charada!’ Essas pessoas vieram e mostraram o que James Lovelock e Margulis não tinham mostrado: os mecanismos com as equações em baixo. Eles demonstraram Gaia – sem falar o nome Gaia porque eles não usam essa expressão, mas regulação biótica do ambiente.

Naquela época, não podia falar Gaia. ‘Ah esse cara deve ser religioso, muita perseguição mesmo.’ ‘Herege, está do lado de uma teoria que não tem nenhum fundamento.’ Muitos biólogos fizeram esse papel, por incrível que possa parecer, porque biólogo é quem estuda a vida. Como é que pode quem estuda a vida ter sido o pior inimigo da teoria que dizia que a Terra é viva? Foram eles que a descarrilaram por, praticamente, 40 anos. Recentemente, um deles começou a voltar, porque agora já tantos estão informando que Gaia é real. Eles começaram a voltar e falar: ‘Não, não, eu acho que Gaia pode mesmo, pode ser darwinizada e não sei o que’. Mas tardiamente. Bom, melhor tarde do que nunca. 

Eu entrei em contato com [Victor Gorshkov e Anastassia Makarieva] e depois a gente começou a trabalhar juntos.

Essa interação com os russos progrediu quando eu estava trabalhando no Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), um projeto que juntou gente de três continentes. América Latina – principalmente os brasileiros, mas não só –, América do Norte – com o pessoal via Nasa – e Europa, muitas instituições, universidades, centenas. Na realidade, acho que chegou, em algum momento, a mais de mil cientistas. Eu estava trabalhando na Amazônia, estudando tudo aquilo e, nessa época, montei a primeira torre de fluxo na Amazônia, em 1995. Depois, montei a primeira torre de longo prazo, que está funcionando até hoje, perto de Manaus, em 1998. E depois ajudei a construir esse projeto. A gente estava observando o que a floresta estava fazendo e eu comecei a fazer essas indagações, os mistérios da Amazônia que eu conto lá no meu relatório de 2014. As indagações eram: Como a floresta subsiste? Essa foi uma ponderação que eu fiz. Como a floresta subsiste aos cataclismos planetários, aos cataclismos que atingem Gaia e continua existindo? Ela tem que ter uma capacidade extraordinária. E eu propus isto, que ela teria a capacidade de puxar a umidade do oceano para dentro do continente.

Nessa época eu tinha lido a Regulação biótica do ambiente, do Gorshkov e da Makarieva, e eu entrei em contato com eles e começamos a colaborar. Isso foi em 2004. Aí, eles pegaram as ideias e a gente interagiu muito em cima do que eles já estavam fazendo. Eles já estavam trabalhando com essa noção de que a floresta controla a atmosfera, e eu trouxe a vivência e os dados da Amazônia e essa hipótese. Dois anos depois, eles apresentaram a teoria da bomba biótica. Basicamente, eles botaram as equações e mostraram de que forma as florestas são capazes de gerar sua própria chuva. Isso era o contrário da crença dos meteorologistas da época – eles achavam que tinha floresta na banda equatorial porque chovia na banda equatorial. A teoria da bomba biótica demonstrou que chovia na banda equatorial por conta das florestas. Se você tirar a floresta, acaba a chuva.

Já tem 16 anos que a gente trabalha em colaboração. Publicamos muitos trabalhos mostrando os mecanismos da bomba biótica de umidade até o ponto de perceber que a forma mais efetiva de lidar com as mudanças climáticas é parar de emitir gases poluentes – CO2, metano, óxido nitroso, todos os gases que ajudam a aquecer o planeta. É uma condição básica, mas a gente descobriu isso na nossa pesquisa.

A forma necessária, indispensável, para regular o planeta é restaurar os ecossistemas da Terra, porque foram os ecossistemas da Terra que mantiveram e que geraram este ambiente confortável, este clima amigável que tem o planeta. Não existe nenhum outro corpo celeste conhecido com condições semelhantes e a única explicação que nós temos aqui é a vida. Então, o que tem que se fazer? Restaurar a vida na Terra, restaurar. Tem um outro nome para isso, em inglês se chama rewilding, wild de selvagem, re de reconstruir o selvagem, reconstruir a natureza. Nos últimos 200 anos, a humanidade desmatou e matou três trilhões de árvores grandes. Três trilhões, ou seja, metade do que a Terra tinha. Então, você imagina um pinguço cortando metade do fígado fora, o fígado que processa o álcool. Foi o que a gente fez. A gente cortou metade das florestas do mundo e é por isso que o aquecimento global está acelerando. Também por conta da poluição, mas não é só a poluição, o principal é a destruição dos órgãos que mantém o planeta funcional e amigável.

Concluindo: esse processo na ciência é muito lento. Veja o caso de Gaia. Em 1974 saiu o livro do Lovelock e da Lynn Margulis e depois foi controversa, controversa, controversa e só começou a virar uma unanimidade agora em 2017, em 2018 – 40 anos a gente perdeu no processo. E a gente não tem mais esse tempo. Claro que a teoria da bomba biótica também foi controversa, mas não tanto quanto a hipótese de Gaia. Já tem muita gente aceitando, mas tem uma banda de meteorologistas que odeiam a teoria, acha que está errada porque a gente mostrou algumas inconsistências na ciência deles. Está atrasando, não está chegando. Então o que a gente resolveu fazer? O mesmo que a gente fez com os rios voadores. Os rios voadores eram uma coisa meio borderline, meio lateral, que existia desde 1992. Dois americanos, acho que são irmãos, descreveram um aeroriver para explicar um fenômeno de uma inundação na Califórnia, mas depois ficou meio pegando poeira nos escaninhos da ciência. Em 2004, o José Marengo testou os jatos de baixos níveis, as monções da América do Sul, que explicavam mais ou menos o transporte de umidade da Amazônia para cá [São Paulo]. Antes disso, em 1979, o professor Dr. Enéas Salati já tinha sugerido uma ligação entre a floresta Amazônica e o Sul, Sudeste do Brasil, mas ficou nisso.

Aí eu encontrei o Gérard Moss, que é aviador, e a Margi Moss, esposa dele. Eles eram empreendedores, tinham feito o projeto Brasil das Águas com um hidroavião – eles pousaram com um hidroavião em todos os rios e lagos do Brasil pegando amostra e mandando para limnólogos. Eu dei a ideia para o Gérard: ‘Por que você não segue os rios de vapor na Amazônia?’. Ele pegou a ideia e depois convidamos cientistas – o Carlos Nobre, o José Marengo, o professor Salate. Fizemos um grupo e montamos o projeto Rios Voadores. Esse projeto trabalhou muito a comunicação. Em 2008, saiu uma reportagem no Fantástico. Em 2009, na BBC, um documentário belíssimo. Em 2010, eu dei uma palestra no TED e aí a coisa se tornou extremamente sexy, atraente, capturou a imaginação das pessoas antes de ser uma unanimidade científica. Mas a ciência veio atrás, ocorreu uma retro-fertilização. De 2012 para frente, vários artigos saíram na Science, na Nature sobre os rios aéreos da Amazônia. Hoje já é um termo consolidado. 

N.G.: Sobre o grupo da bomba biótica, como é esse projeto e quanto tempo temos?

A.N.: Esse grupo, o Biotic Pump Greening Group, a gente formou, principalmente, com cientistas, mas não só. É um grupo internacional e a nossa proposta é estudar sistemas de Gaia e entender como é que funciona. E um dos lugares que nós mais nos aprofundamos nesse entendimento é a Amazônia. Como a América do Sul foi aquinhoada com esse berço esplêndido? Por que a Amazônia é o que é, como é? Por que ela tem uma capacidade de lidar por mais de 50 milhões de anos com os cataclismos planetários? Nesse período de 50 milhões de anos, a Terra passou por meteoros, passou por aquecimento e resfriamento, teve as glaciações, os oceanos mudaram as correntezas, as correntezas atmosféricas, e a Amazônia aguentou firme. Estudando isso, nós chegamos a desenvolver – eu fui um dos que ajudou os dois colegas russos a desenvolver – a teoria da bomba biótica.

Demorou 70 anos para ser demonstrada a teoria da migração dos continentes e hoje é matéria básica para qualquer geólogo, não tem um geólogo que não sabe que tem deriva de continente, mas demorou 70 anos. Gaia, 40 anos. Bomba biótica nós não temos nem mais um ano, já está acabando o planeta. Nós estamos em condição terminal de enfermidade para a Gaia, por isso as mudanças climáticas. A reação que nós temos que ter é uma reação exponencial, uma reação de multiplicação, além da geométrica, e a humanidade tem capacidade, eu tenho certeza que sim. Sabe por quê? Porque em agosto do ano passado, isso só para dar um exemplo, o povo de um país na África Oriental chamado Etiópia plantou 353 milhões de árvores em 12 horas. É um país que tem 109 milhões de habitantes, ou seja, seria equivalente a cada habitante plantar três mudas de árvore. E a China, nos últimos 25 anos, plantou uma área de floresta equivalente ao que o Brasil destruiu nos últimos 40, 800 mil km².

Claro, tem problemas, não vingou tudo, a mesma coisa da Etiópia, várias vão morrer. Mas o fato de que a gente, como humanidade, consegue. Se a gente se colocar, são sete bilhões de seres com capacidade cognitiva e capacidade de mudar o mundo a ponto de gerar uma nova era geológica, chamada antropoceno. O ser humano, essa cultura que tomou o planeta, essa tal de civilização tecnológica, tem, hoje, a mesma competência que as eras geológicas de milhões de anos do passado tinham para mudar o planeta, só que no sentido destrutivo. Nós estamos propondo com esse grupo que nós somos capazes de replantar Gaia, usando uma expressão cunhada por uma amiga e ativista, a Suprabha Seshan, da Índia. Ela é do Gurukula Botanical Sanctuary, que fica em Kerala, na parte ocidental da Índia e faz o resgate de floresta. E ela chama assim: ‘Nós temos que rejardinar a biosfera’. Esse conceito transmite tudo que é: uma horticultura ecológica.

Nós precisamos fazer um trabalho, e nos é facultado fazer esse trabalho por conta de uma tecnologia absolutamente fantástica da natureza chamada semente. As pessoas falam ‘ah semente’, claro, você come no seu cereal todo dia. Mas a semente é um milagre tecnológico – se você olhar por qualquer ângulo, se você pegar uma semente e estudá-la, entender o que tem dentro de uma semente, como ela funciona. Pegaram um sarcófago do Egito, acharam com 3 mil anos de idade, tinha sementes dentro, plantaram e germinou. Imagina um carro parado 3 mil anos, você chegar lá e tentar dar partida no carro. Nada. Na verdade, não vai ser um carro, vai ser uma ruína. Uma estrutura que tem alguma coisa viva dentro dela, tem um embrião vivo, durar 3 mil anos e você botar na terra com água, sol e germinar. Eles germinaram uma palmeira que está extinta na natureza, que estava nas sementes lá dentro do sarcófago. Essa tecnologia nós não temos, é a tecnologia de Gaia. Gaia já passou por muitos cataclismos e não existe um ser vivo que não tenha um propágulo de reprodução. Os fungos têm os esporos, as bactérias têm os cistos, os animais têm ovos e desenvolvimento como nós, que somos fetos, as árvores. E isso está tudo na nossa mão. Por que a Etiópia foi lá e plantou 353 milhões de árvores?

Eu fiz uma conta usando a mesma taxa de plantio que a Etiópia fez. Se a humanidade inteira fizer – claro que tem gente que não vai poder plantar, que vive em lugares gelados –, mas fazendo as coisas de maneira generosa, em dois meses nós plantamos um trilhão de árvores no planeta inteiro. Dois meses. Então, por que não está ao alcance? Está ao alcance dessa humanidade. E a gente ainda [pode] usar a tecnologia para acelerar, para plantar em lugares que hoje não são apropriados para o plantio de árvores, como os desertos, por exemplo. Com a teoria da bomba biótica, a gente está mostrando que é possível porque a natureza fez isso ao longo de milhões de anos. Nós podemos acelerar o processo, a gente sabe como, porque a gente aprendeu nos ecossistemas que hoje funcionam, ou que funcionavam, e estão sendo destruídos agora. 

Em sumário, esse grupo Biotic Pump Greening Group é a nossa resposta e a nossa proposta para a união. Nós não queremos fazer uma coisa que só nós sabemos. A gente quer compartilhar, a gente quer juntar, a gente quer unir, puxar todas as capacidades e competências, que não são poucas, que tem na Terra, inclusive, e especialmente, as dos indígenas. Porque eles têm uma capacidade de síntese que nos remete a matemática, que é elegância. A demonstração de um teorema em poucas linhas é visto pelos matemáticos como uma demonstração elegante. E não é elegante da moda, nem elegante da frivolidade, é elegância genuína do poder da simplicidade, como E=mc² do Einstein. Uma equação simples e que dá conta de processos grandiosos. Isso eu vejo na sabedoria indígena. Toda essa complexidade que eu estou falando aqui, intelectivamente, dos sistemas vivos, dos mecanismos, das maquinarias, os indígenas têm uma competência em sintetizar em uma frase, em uma sabedoria que é potente, é autoexplicativa e que muitas vezes usa conceitos da fábula e, portanto, captura a imaginação das pessoas, o cérebro direito, a narrativa, a contação de história. Ali, embutido naquela semente de sabedoria, tem toda essa complexidade que eu, aqui do meu lado da ciência reducionista, estou cavando na terra que nem um tatu, como disse Davi Kopenawa. Todo esse conhecimento detalhista, minucioso, com microscópio, é empacotado em uma frase, com sabedoria, com poesia. Não que seja inútil, ao contrário. A gente pode com ela esmiuçar, cavar como um tatu, essa potência da simplicidade e da elegância que os indígenas têm ao descrever como funciona Gaia, ao descrever como funciona a vida, não só Gaia. Como funciona também a cultura, uma cultura que não é divorciada da mãe Terra, da mãe corpo, ela é integrada, ela tem uma relação de amizade, não de oponência, de guerra, de luta, mas, ao contrário, de amizade, de embrace, de abraçar. E essa conexão é urgente e indispensável porque, se eu pegar toda a nossa sabedoria teórica ou prática ou tecnológica ou de engenharia e tentar resolver o problema da Terra, como muitos estão propondo – geoengenharia, de jogar poeira lá na estratosfera para esfriar o planeta, botar um espelho no espaço, jogar ferro no oceano para fertilizar as algas –, tudo isso é loucura, é distopia pura. Vai levar a gente a destruir mais rápido o resto que ainda sobra da parte viva de Gaia por estar entrando em conflagração com a complexidade de funcionamento, de estrutura.

Next pandemic? Amazon deforestation may spark new diseases (Reuters)

Original article

October 19, 20208:56 AM

By Fabio Zuker

SAO PAULO (Thomson Reuters Foundation) – As farms expand into the Amazon rainforest, felled trees and expanding pastures may open the way for new Brazilian exports beyond beef and soybeans, researchers say: pandemic diseases.

Changes in the Amazon are driving displaced species of animals, from bats to monkeys to mosquitoes, into new areas, while opening the region to arrivals of more savanna-adapted species, including rodents.

Those shifts, combined with greater human interaction with animals as people move deeper into the forest, is increasing the chances of a virulent virus, bacteria or fungus jumping species, said Adalberto Luís Val a researcher at INPA, the National Institute for Research in the Amazon, based in Manaus.

Climate change, which is driving temperature and rainfall changes, adds to the risks, the biologist said.

“There is a great concern because … there is a displacement of organisms. They try to adapt, face these new challenging scenarios by changing places,” Val told the Thomson Reuters Foundation in a telephone interview.

The Evandro Chagas Institute, a public health research organization in the city of Belém, has identified about 220 different types of viruses in the Amazon, 37 of which can cause diseases in humans and 15 of which have the potential to cause epidemics, the researcher said.

They include a range of different encephalitis varieties as well as West Nile fever and rocio, a Brazilian virus from the same family that produces yellow fever and West Nile, he noted in an article published in May by the Brazilian Academy of Sciences.

Val said he was especially concerned about arboviruses, which can be transmitted by insects such as the mosquitoes that carry dengue fever and Zika.

‘SPILLOVER’

Cecília Andreazzi, a researcher at the Oswaldo Cruz Foundation (FIOCRUZ), a major public health institute in Brazil, said the current surge in deforestation and fires in the Amazon can lead to new meetings between species on the move – each a chance for an existing pathogen to transform or jump species.

The ecologist maps existing infectious agents among Brazil’s animals and constructs mathematical models about how the country’s changing landscape “is influencing the structure of these interactions”.

What she is looking for is likely “spillover” opportunities, when a pathogen in one species could start circulating in another, potentially creating a new disease – as appears to have happened in China with the virus that causes COVID-19, she said.

“Megadiverse countries with high social vulnerability and growing environmental degradation are prone to pathogen spillover from wildlife to humans, and they require policies aimed at avoiding the emergence of zoonoses,” she and other researchers wrote in a letter in The Lancet, a science journal, in September.

Brazil, they said, had already seen “clear warnings” of a growing problem, with the emergence of a Brazilian hemorrhagic fever, rodent-carried hantaviruses, and a mosquito-transmitted arbovirus called oropouche.

Brazil’s Amazon has registered some of the worst fires in a decade this year, as deforestation and invasions of indigenous land grow under right-wing President Jair Bolsonaro, who has urged that the Amazon be developed as a means of fighting poverty.

In a speech before the U.N. General Assembly last month, he angrily denied the existence of fires in the Amazon rainforest, calling them a “lie,” despite data produced by his own government showing thousands of blazes surging across the region.

‘BLAME THE BAT’

João Paulo Lima Barreto, a member of the Tukano indigenous people, said one way of combatting the emergence of new pandemic threats is reviving old knowledge about relationships among living things.

Barreto, who is doing doctoral research on shamanistic knowledge and healing at the Federal University of Amazonas, created Bahserikowi’i, an indigenous medicine center that brings the knowledge of the Upper Rio Negro shamans to Manaus, the Amazon’s largest city.

He has called for indigenous knowledge systems to be taken seriously.

“The model of our relationship with our surroundings is wrong,” he told the Thomson Reuters Foundation in a telephone interview.

“It is very easy for us to blame the bat, to blame the monkey, to blame the pig” when a new disease emerges, Barreto said. “But in fact, the human is causing this, in the relationship that we build with the owners of the space”.

Without adequate preservation of forests, rivers and animals, imbalance and disease are generated, he said, as humans fail to respect nature entities known to shamans as “wai-mahsã”.

Andreazzi said particularly strong disease risks come from converting Amazonian forest into more open, savanna-like pastures and fields, which attract marsupials and also rodents, carriers of hantaviruses.

“If you transform the Amazon into a field, you are creating this niche” and species may expand their ranges to fill it, she said, with “the abundance of these species greatly increasing”.

In the face of deforestation, animals are “relocating, moving. And the pathogen, the virus… is looking for hosts” – a situation that creates “very high adaptive capacity”, she said.

But Andreazzi worries about old diseases, as well as new ones.

As the Amazon changes, new outbreaks of threats such as malaria, leishmaniasis and Chagas disease – transmitted by a “kissing bug” and capable of causing heart damage – have been registered, she said.

“We don’t even need to talk about the new diseases. The old ones already carry great risks,” she added.

Reporting by Fabio Zuker ; editing by Laurie Goering : Please credit the Thomson Reuters Foundation, the charitable arm of Thomson Reuters. Visit news.trust.org/climate

Protecting half of the planet is the best way to fight climate change and biodiversity loss – we’ve mapped the key places to do it (The Conversation)

theconversation.com

Greg Asner – September 8, 2020


Humans are dismantling and disrupting natural ecosystems around the globe and changing Earth’s climate. Over the past 50 years, actions like farming, logging, hunting, development and global commerce have caused record losses of species on land and at sea. Animals, birds and reptiles are disappearing tens to hundreds of times faster than the natural rate of extinction over the past 10 million years.

Now the world is also contending with a global pandemic. In geographically remote regions such as the Brazilian Amazon, COVID-19 is devastating Indigenous populations, with tragic consequences for both Indigenous peoples and the lands they steward.

My research focuses on ecosystems and climate change from regional to global scales. In 2019, I worked with conservation biologist and strategist Eric Dinerstein and 17 colleagues to develop a road map for simultaneously averting a sixth mass extinction and reducing climate change by protecting half of Earth’s terrestrial, freshwater and marine realms by 2030. We called this plan “A Global Deal for Nature.”

Now we’ve released a follow-on called the “Global Safety Net” that identifies the exact regions on land that must be protected to achieve its goals. Our aim is for nations to pair it with the Paris Climate Agreement and use it as a dynamic tool to assess progress towards our comprehensive conservation targets.

Population size of terrestrial vertebrate species on the brink (i.e., with under 1,000 individuals). Most of these species are especially close to extinction because they consist of fewer than 250 individuals. In most cases, those few individuals are scattered through several small populations. Ceballos et al, 2020., CC BY

What to protect next

The Global Deal for Nature provided a framework for the milestones, targets and policies across terrestrial, freshwater and marine realms required to conserve the vast majority of life on Earth. Yet it didn’t specify where exactly these safeguards were needed. That’s where the new Global Safety Net comes in.

We analyzed unprotected terrestrial areas that, if protected, could sequester carbon and conserve biodiversity as effectively as the 15% of terrestrial areas that are currently protected. Through this analysis, we identified an additional 35% of unprotected lands for conservation, bringing the total percentage of protected nature to 50%.

By setting aside half of Earth’s lands for nature, nations can save our planet’s rich biodiversity, prevent future pandemics and meet the Paris climate target of keeping warming in this century below less than 2.7 degrees F (1.5 degrees C). To meet these goals, 20 countries must contribute disproportionately. Much of the responsibility falls to Russia, the U.S., Brazil, Indonesia, Canada, Australia and China. Why? Because these countries contain massive tracts of land needed to reach the dual goals of reducing climate change and saving biodiversity.

Supporting Indigenous communities

Indigenous peoples make up less than 5% of the total human population, yet they manage or have tenure rights over a quarter of the world’s land surface, representing close to 80% of our planet’s biodiversity. One of our key findings is that 37% of the proposed lands for increased protection overlap with Indigenous lands.

As the world edges closer towards a sixth mass extinction, Indigenous communities stand to lose the most. Forest loss, ecotourism and devastation wrought by climate change have already displaced Indigenous peoples from their traditional territories at unprecedented rates. Now one of the deadliest pandemics in recent history poses an even graver additional threat to Indigenous lives and livelihoods.

To address and alleviate human rights questions, social justice issues and conservation challenges, the Global Safety Net calls for better protection for Indigenous communities. We believe our goals are achievable by upholding existing land tenure rights, addressing Indigenous land claims, and carrying out supportive ecological management programs with indigenous peoples.

Preventing future pandemics

Tropical deforestation increases forest edges – areas where forests meet human habitats. These areas greatly increase the potential for contact between humans and animal vectors that serve as viral hosts.

For instance, the latest research shows that the SARS-CoV-2 virus originated and evolved naturally in horseshoe bats, most likely incubated in pangolins, and then spread to humans via the wildlife trade.

The Global Safety Net’s policy milestones and targets would reduce the illegal wildlife trade and associated wildlife markets – two known sources of zoonotic diseases. Reducing contact zones between animals and humans can decrease the chances of future zoonotic spillovers from occurring.

Our framework also envisions the creation of a Pandemic Prevention Program, which would increase protections for natural habitats at high risk for human-animal interactions. Protecting wildlife in these areas could also reduce the potential for more catastrophic outbreaks.

Nature-based solutions

Achieving the Global Safety Net’s goals will require nature-based solutions – strategies that protect, manage and restore natural or modified ecosystems while providing co-benefits to both people and nature. They are low-cost and readily available today.

The nature-based solutions that we spotlight include: – Identifying biodiverse non-agricultural lands, particularly prevalent in tropical and sub-tropical regions, for increased conservation attention. – Prioritizing ecoregions that optimize carbon storage and drawdown, such as the Amazon and Congo basins. – Aiding species movement and adaptation across ecosystems by creating a comprehensive system of wildlife and climate corridors.

We estimate that an increase of just 2.3% more land in the right places could save our planet’s rarest plant and animal species within five years. Wildlife corridors connect fragmented wild spaces, providing wild animals the space they need to survive.

Leveraging technology for conservation

In the Global Safety Net study, we identified 50 ecoregions where additional conservation attention is most needed to meet the Global Deal for Nature’s targets, and 20 countries that must assume greater responsibility for protecting critical places. We mapped an additional 35% of terrestrial lands that play a critical role in reversing biodiversity loss, enhancing natural carbon removal and preventing further greenhouse gas emissions from land conversion.

But as climate change accelerates, it may scramble those priorities. Staying ahead of the game will require a satellite-driven monitoring system with the capability of tracking real-time land use changes on a global scale. These continuously updated maps would enable dynamic analyses to help sharpen conservation planning and help decision-making.

As director of the Arizona State University Center for Global Discovery and Conservation Science, I lead the development of new technologies that assess and monitor imminent ecological threats, such as coral reef bleaching events and illegal deforestation, as well as progress made toward responding to ecological emergencies. Along with colleagues from other research institutions who are advancing this kind of research, I’m confident that it is possible to develop a global nature monitoring program.

The Global Safety Net pinpoints locations around the globe that must be protected to slow climate change and species loss. And the science shows that there is no time to lose.

Eduardo Góes Neves: ‘O Brasil não tem ideia do que é a Amazônia’ (Gama)

Fabrizio Lenci

A mentalidade colonial, o racismo ambiental e a política são os maiores desafios da floresta. A análise é do arqueólogo Eduardo Góes Neves

Isabelle Moreira Lima – 30 de Agosto de 2020

A Amazônia é uma incompreendida. É regida por uma mentalidade colonial, com decisões tomadas de fora para dentro. E é justamente por isso que sua preservação é um imenso desafio. A análise é do arqueólogo Eduardo Góes Neves, que pesquisa a Amazônia há 30 anos. Professor Titular de Arqueologia Brasileira do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo, onde é vice-diretor, ele mantém a pesquisa de campo em estados como Rondônia e Acre pelo menos três meses por ano.

Para continuar a leitura acesse o conteúdo completo, disponível no link: https://gamarevista.com.br/semana/o-que-sera-da-amazonia/entrevista-eduardo-goes-neves-floresta-amazonica

Djamila Ribeiro: Salta na biografia de Claudia Andujar o seu compromisso com povos ameaçados (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Djamila Ribeiro, 27 de agosto de 2020

Recebi de presente de um querido amigo o livro “A Luta Yanomami”, de Claudia Andujar (editado pelo Instituto Moreira Salles, org. Thyago Nogueira).

Andujar dedicou parte considerável de sua vida a fotografar o povo indígena na fronteira entre Brasil e Venezuela, no extremo norte da Amazônia. Além do talento, que refletiu a tradição, a comunidade, a espiritualidade, as dores e perdas pela integração forçada por projetos de colonização da região implementados pelo regime militar, passando por suas próprias incursões experimentais na fotografia, salta na biografia da fotógrafa o seu compromisso com os direitos dos povos constantemente ameaçados e atacados pelos interesses predatórios do garimpo nas jazidas minerais da área, pelas doenças ocidentais e pelos governos.

Fabio Cypriano, estudioso da obra de Andujar, analisa no artigo “Quando o museu se torna um canal de informação” que a exposição “‘Luta Yanomami’ foi vista no início de um governo que se caracteriza por perseguir a causa indígena, ocupando um espaço nobre na avenida Paulista em defesa dessa causa urgente, o que foi, afinal, sempre o objetivo de Andujar”.

O livro, com fotos colhidas durante uma vida, que neste ano completou 89 anos, tem valor cultural inestimável e me aproximou dos ianomâmis, a quem peço licença para fazer uma ligeira visita pelas imagens.

Ao visitar, peço a bênção de Davi Kopenawa Yanomami, xamã, porta-voz e escritor, junto ao antropólogo Bruce Albert, da obra monumental “A Queda do Céu”, livro que narra a vida de Kopenawa até se tornar líder ianomâmi, fazendo dessa trajetória uma incursão na espiritualidade, na visão de mundo e de conceitos a partir da matriz de seu povo, bem como a denúncia de todos os graves ataques do garimpo na região.

É uma obra rara em um país que costuma apagar tais saberes do debate público. Ao explicar a origem de seu nome, Kopenawa, este de origem guerreira presenteado a ele pelos espíritos xapiri “em razão da fúria que havia em mim para enfrentar os brancos”, explica um pouco de seu povo.

“Primeiro foi Davi, o nome que os brancos me atribuíram na infância, depois foi Kopenawa, o que me deram mais tarde os espíritos vespa. E por fim acrescentei Yanomami, que é palavra sólida que não pode desaparecer, pois é o nome do meu povo. Eu não nasci numa terra sem árvores. Minha carne não vem do esperma de um branco. Sou filho dos habitantes das terras altas da floresta e caí no solo da vagina de uma mulher yanomami. Sou filho da gente à qual Omama deu a existência no primeiro tempo. Nasci nesta floresta e sempre vivi nela. Hoje, meus filhos e netos, por sua vez, nela crescem. Por isso meus dizeres são os de um verdadeiro yanomami.”

As palavras de Kopenawa ecoam pelo mundo. Em março, ele esteve na ONU para denunciar avanços contra os índios. O xamã denunciou o garimpo predatório sob a chancela do governo, eleito sob um discurso de ódio contra as populações originais desse país: “Essas são as palavras daquele que se faz de grande homem no Brasil e se diz presidente da República. É o que ele verdadeiramente diz: ‘Eu sou o dono dessa floresta, desses rios, desse subsolo, dos minérios, do ouro e das pedras preciosas! Tudo isso me pertence, então, vão lá buscar tudo e trazer para a cidade. Faremos tudo virar mercadoria!’. É o que os brancos acham e é com essas palavras que destroem a floresta, desde sempre. Mas, hoje, estão acabando com o pouco que resta. Eles já destruíram as nossas trilhas, sujaram os rios, envenenaram os peixes, queimaram as árvores e os animais que caçamos. Eles nos matam também com as suas epidemias”.

As palavras de Kopenawa, ditas antes da eclosão da pandemia no Brasil, ganharam contornos ainda mais sombrios. Desde 2019, o país vinha apresentando retrocessos desastrosos na preservação de terras indígenas. Segundo relatório do Instituto Socioambiental, a derrubada da floresta nas terras ianomâmi cresceu 113% no último ano, sendo que o aumento foi de 80% nas terras indígenas.

No cenário de pandemia, a situação é trágica. Somado ao desmonte em órgãos de proteção indígena, a subnotificação dos números de indígenas mortos pelo Ministério da Saúde, bem como o demorado e insuficiente plano para prevenção de contágio em comunidades indígenas e quilombolas com vetos que vão da obrigação do governo em fornecer água potável até a facilitação ao acesso ao auxílio emergencial, o governo segue com seu projeto de genocídio da população e deve ser responsabilizado, na pessoa do presidente, no Tribunal Penal Internacional, no qual está denunciado. Havendo justiça, assim será.

Indigenous best Amazon stewards, but only when property rights assured: Study (Mongabay)

by Sue Branford on 17 August 2020

  • New research provides statistical evidence confirming the claim by Indigenous peoples that that they are the more effective Amazon forest guardians in Brazil — but only if and when full property rights over their territories are recognized, and fully protected, by civil authorities in a process called homologation.
  • Researchers looked at 245 Indigenous territories, homologated between 1982 and 2016. They concluded that Indigenous people were only able to curb deforestation effectively within their ancestral territories after homologation had been completed, endowing full property rights.
  • However, since the study was completed, the Temer and Bolsonaro governments have backpedaled on Indigenous land rights, failing to protect homologated reserves. Also, the homologation process has come to a standstill, failing its legal responsibility to recognize collective ownership pledged by Brazil’s Constitution.
  • In another study, researchers suggest that a key to saving the Amazon involves reframing our view of it, giving up the old view of it as an untrammeled Eden assaulted by modern exploitation, and instead seeing it as a forest long influenced by humanity; now we need only restore balance to achieve sustainability.
An Indigenous woman weaving anklets on her son. A clash of cultures in the Amazon threatens Indigenous lands and the rainforest. Image by Antônio Carlos Moura, s/d.

“The xapiri [shamanic spirits] have defended the forest since it first came into being. Our ancestors have never devastated it because they kept the spirits by their side,” declares Davi Kopenawa Yanomami, who belongs to the 27,000-strong Yanomami people living in the very north of Brazil.

He is expressing a commonly held Indigenous belief that they — the original peoples on the land, unlike the “white” Amazon invaders — are the ones most profoundly committed to forest protection. The Yanomami shaman reveals the reason: “We know well that without trees nothing will grow on the hardened and blazing ground.”

Now Brazil’s Indigenous people have gained scientific backing for their strongly held belief from two American academics.

In a study published this month in the PNAS journal, entitled Collective property rights reduce deforestation in the Brazilian Amazon, two political scientists, Kathryn Baragwanath, from the University of California San Diego, and Ella Bayi, at the Department of Political Science, Columbia University, provide statistical proof of the Indigenous claim that they are the more effective forest guardians.

In their study, the researchers use comprehensive statistical data to show that Indigenous populations can effectively curb deforestation — but only if and when their full property rights over their territories are recognized by civil authorities in a process called homologação in Portuguese, or homologation in English.

A Tapirapé man and child. Image courtesy of ISA.

Full property rights key to curbing deforestation

The scientists reached their conclusions by examining data on 245 Indigenous reserves homologated between 1982 and 2016. By examining the step-by-step legal establishment of Indigenous reserves, they were able to precisely date the moment of homologation for each territory, and to assess the effectiveness of Indigenous action against deforestation before and after full property rights were recognized.

Brazilian law requires the completion of a complex four-stage process before full recognition. After examining the data, Baragwanath and Bayi concluded that Indigenous people were only able to curb deforestation within their ancestral territories effectively after the last phase ­— homologation — had been completed.

Most deforestation of Indigenous territories occurs at the borders, as land-grabbers, loggers and farmers invade. But the new study shows that, once full property rights are recognized, Indigenous people were historically able to reduce deforestation at those borders from around 3% to 1% — a reduction of 66% which the authors find to be “a very strong finding.”

However, they emphasize that this plunge in deforestation rate only comes after homologation is complete. Baragwanath told Mongabay: The positive “effect on deforestation is very small before homologation and zero for non-homologated territories.” The authors concluded: “We believe the final stage [is] the one that makes the difference, since it is when actual property rights are granted, no more contestation can happen, and enforcement is undertaken by the government agencies.”

Homologation is crucially important, say the researchers, because with it the Indigenous group gains the backing of law and of the Brazilian state. They note: “Without homologation, Indigenous territories do not have the legal rights needed to protect their territories, their territorial resources are not considered their own, and the government is not constitutionally responsible for protecting them from encroachment, invasion, and external use of their resources.”

They continue: “Once homologated, a territory becomes the permanent possession of its Indigenous peoples, no third party can contest its existence, and extractive activities carried out by external actors can only occur after consulting the [Indigenous] communities and the National Congress.”

The scientists offer proof of effective state action and protections after homologation: “For example, FUNAI partnered with IBAMA and the military police of Mato Grosso in May 2019 to combat illegal deforestation on the homologated territory of Urubu Branco. In this operation, 12 people were charged with federal theft of wood and fined R $90,000 [US $23,000], and multiple trucks and tractors were seized; the wood seized was then donated to the municipality.”

A Tapirapé woman at work. Image courtesy of ISA.

Temer and Bolsonaro tip the tables

However, under the Jair Bolsonaro government, which came to power in Brazil after the authors collected their data, the situation is changing.

Before Bolsonaro, the number of homologations varied greatly from year to year, apparently in random fashion. A highpoint was reached in 1991, when over 70 territories were homologated, well over twice the number in any other year. This may have been because Brazil was about to host the 1992 Earth Summit and the Collor de Mello government was keen to boost Brazil’s environmental credentials. The surge may have also occurred as a result of momentum gained from Brazil’s adoption of its progressive 1988 constitution, with its enshrined Indigenous rights.

Despite wild oscillations in the annual number of homologations, until recently progress happened under each administration. “Every President signed over [Indigenous] property rights during their tenure, regardless of party or ideology,” the study states.

But since Michel Temer became president at the end of August 2016, the process has come to a standstill, with no new homologations. Baragwanath and Bayi suggest that, by refusing to recognize the full property rights of more Indigenous peoples, the Temer and Bolsonaro administrations “could be responsible for an extra 1.5 million hectares [5,790 square miles] of deforestation per year.” That would help explain soaring deforestation rates detected by INPE, Brazil’s National Institute of Space Research in recent years.

Clearly, for homologation to be effective, the state must assume its legal responsibilities, says Survival International’s Fiona Watson, who notes that this is certainly not happening under Bolsonaro: “Recognizing Indigenous peoples’ collective landownership rights is a fundamental legal requirement and ethical imperative, but it is not enough on its own. Land rights need to be vigorously enforced, which requires political will and action, proper funding, and stamping out corruption. Far from applying the law, President Bolsonaro and his government have taken a sledgehammer to Indigenous peoples’ hard-won constitutional rights, watered down environmental safeguards, and are brutally dismantling the agencies charged with protecting tribal peoples and the environment.”

Watson continues: “Brazil’s tribes — some only numbering a few hundred living in remote areas — are pitted against armed criminal gangs, whipped up by Bolsonaro’s hate speech. As if this wasn’t enough, COVID-19 is killing the best guardians of the forest, especially the older generations with expertise in forest management. Lethal diseases like malaria are on the rise in Indigenous communities and Amazon fires are spreading.”

In fact, Bolsonaro uses the low number of Indigenous people inhabiting reserves today — low populations often the outcome of past horrific violence and even genocide — as an excuse for depriving them of their lands. In 2015 he declared: “The Indians do not speak our language, they do not have money, they do not have culture. They are native peoples. How did they manage to get 13% of the national territory?” And in 2017 he said: “Not a centimeter will be demarcated… as an Indigenous reserve.”

The Indigenous territory of Urubu Branco, cited by Baragwanath and Bayi as a stellar example of effective state action, is a case in point. Under the Bolsonaro government it has been invaded time and again. Although the authorities have belatedly taken action, the Apyãwa (Tapirapé) Indigenous group living there says that invaders are now using the chaos caused by the pandemic to carry out more incursions. https://www.youtube.com/embed/VEqoNo3O8Jg

Land rights: a path to conserving Amazonia

Even so, say the experts, it still seems likely that, if homologation was implemented properly now or in the future, with effective state support, it would lead to reduced deforestation. Indeed, Baragwanath and Bayi suggest that this may be one of the few ways of saving the Amazon forest.

“Providing full property rights and the institutional environment for enforcing these rights is an important and cost-effective way for countries to protect their forests and attain their climate goals,” says the study. “Public policy, international mobilization, and nongovernmental organizations should now focus their efforts on pressuring the Brazilian government to register Indigenous territories still awaiting their full property rights.”

But, in the current state of accelerating deforestation, unhampered by state regulation or enforcement, other approaches may be required. One way forward is suggested in a document optimistically entitled: “Reframing the Wilderness Concept can Bolster Collaborative Conservation.”

In the paper, Álvaro Fernández-Llamazares from the Helsinki Institute of Sustainable Science, and others suggest that it is time for a new concept of “wilderness.”

For decades, many conservationists argued that the Amazon’s wealth of biodiversity stems from it being a “pristine” biome, “devoid of the destructive impacts of human activity.” But increasingly studies have shown that Indigenous people greatly contributed to the exuberance of the forest by domesticating plants as much as 10,000 years ago. Thus, the forest and humanity likely evolved together.

In keeping with this productive partnership, conservationists and Indigenous peoples need to work in harmony with forest ecology, say the authors. This organic partnership is more urgently needed than ever, they say, because the entire Amazon basin is facing an onslaught, “a new wave of frontier expansion” by logging, industrial mining, and agribusiness.

Fernández-Llamazares told Mongabay: “Extractivist interests and infrastructure development across much of the Amazon are not only driving substantial degradation of wilderness areas and their unique biodiversity, but also forcing the region’s Indigenous peoples on the frontlines of ever more pervasive social-ecological conflict.…  From 2014 to 2019, at least 475 environmental and land defenders have been killed in Amazonian countries, including numerous members of Indigenous communities.”

Fernández-Llamazares believes that new patterns of collaboration are emerging.

“A good example of the alliance between Indigenous Peoples and wilderness defenders can be found in the Isiboro-Sécure National Park and Indigenous Territory (TIPNIS, being its Spanish acronym), in the Bolivian Amazon,” he says. “TIPNIS is the ancestral homeland of four lowland Indigenous groups and one of Bolivia’s most iconic protected areas, largely considered as one of the last wildlands in the country. In 2011, conservationists and Indigenous communities joined forces to oppose the construction of a road that would cut across the heart of the area.” A victory they won at the time, though TIPNIS today remains under contention today.

Eduardo S. Brondizio, another study contributor, points out alternatives to the industrial agribusiness and mining model: numerous management systems established by small-scale farmers, for example, that are helping conserve entire ecosystems.

“The açaí fruit economy, for instance, is arguably the region’s largest [Amazon] economy today, even compared to soy and cattle, and yet it occupies a fraction of the [land] area occupied by soy and cattle, with far higher economic return and employment than deforestation-based crops, while maintaining forest cover and multiple ecological benefits.” he said.

And, he adds, it is a completely self-driven initiative. “The entire açaí fruit economy emerged from the hands and knowledge of local riverine producers who [have] responded to market demand since the 1980s by intensifying their production using local agroforestry knowledge.” It is important, he stresses, that conservationists recognize the value of these sustainable economic activities in protecting the forest.

The new alliance taking shape between conservationists and Indigenous peoples is comparable with the new forms of collaboration that have arisen among traditional people in the Brazilian Amazon. Although Indigenous populations and riverine communities of subsistence farmers and Brazil nut collectors have long regarded each other as enemies — fighting to control the same territory — they are increasingly working together to confront land-grabbers, loggers and agribusiness.

Still, there is no doubt time is running out. Brazil’s huge swaths of agricultural land are already contributing to, and suffering from, deepening drought, because the “flying rivers” that bring down rainfall from the Amazon are beginning to collapse. Scientists are warning that the forest is moving toward a precipitation tipping point, when drought, deforestation and fire will change large areas of rainforest into arid degraded savanna.

This may already be happening. The Amazon Environmental Research Institute (IPAM), a non-profit, research organisation, warned recently that the burning season, now just beginning in the Amazon, could devastate an even larger area than last year, when video footage of uncontrolled fires ablaze in the Amazon was viewed around the world. IPAM estimates that a huge area, covering 4,509 square kilometers (1,741 square miles), has been felled and is waiting to go up in flames this year — data some experts dispute. But as of last week, more than 260 major fires were already alight in the Amazon.

Years ago Davi Kopenawa Yanomami warned: “They [the white people] continue to maltreat the earth everywhere they go.… It never occurs to them that if they mistreat it too much it will finally turn to chaos.… The xapiri [the shamanic spirits] try hard to defend the white people the same way as they defend us.… But if Omoari, the dry season being, settles on their land for good, they will only have trickles of dirty water to drink and they will die of thirst. This could truly happen to them.”

Citations:

Kathryn Baragwanath and Ella Bayi, (10 August 2020), Collective property rights reduce deforestation in the Brazilian Amazon, Proceedings of the National Academy of Sciences.

Álvaro Fernández-Llamazares, Julien Terraube, Michael C. Gavin, Aili Pyhälä, Sacha M.O. Siani, Mar Cabeza, and Eduardo S. Brondizio, (29 July 2020) Reframing the Wilderness Concept can Bolster Collaborative Conservation, Trends in Ecology and Evolution.

Banner image: Young Tapirajé women. Image by Agência Brasil.

Scientists launch ambitious conservation project to save the Amazon (Mongabay)

Series: Amazon Conservation

by Shanna Hanbury on 27 July 2020

  • The Science Panel for the Amazon (SPA), an ambitious cooperative project to bring together the existing scientific research on the Amazon biome, has been launched with the support of the United Nation’s Sustainable Development Solutions Network.
  • Modeled on the authoritative UN Intergovernmental Panel on Climate Change reports, the first Amazon report is planned for release in April 2021; that report will include an extensive section on Amazon conservation solutions and policy suggestions backed up by research findings.
  • The Science Panel for the Amazon consists of 150 experts — including climate, ecological, and social scientists; economists; indigenous leaders and political strategists — primarily from the Amazon countries
  • According to Carlos Nobre, one of the leading scientists on the project, the SPA’s reports will aim not only to curb deforestation, but to propose an ongoing economically feasible program to conserve the forest while advancing human development goals for the region, working in tandem with, and in support of, ecological systems.
Butterflies burst into the sky above an Amazonian river. Image © Fernando Lessa / The Nature Conservancy.

With the Amazon rainforest predicted to be at, or very close to, its disastrous rainforest-to-savanna tipping point, deforestation escalating at a frightening pace, and governments often worsening the problem, the need for action to secure the future of the rainforest has never been more urgent.

Now, a group of 150 leading scientific and economic experts on the Amazon basin have taken it upon themselves to launch an ambitious conservation project. The newly founded Science Panel for the Amazon (SPA) aims to consolidate scientific research on the Amazon and propose solutions that will secure the region’s future — including the social and economic well-being of its thirty-five-million inhabitants.

“Never before has there been such a rigorous scientific evaluation on the Amazon,” said Carlos Nobre, the leading Amazon climatologist and one of the chairs of the Scientific Panel. The newly organized SPA, he adds, will model its work on the style of the authoritative reports produced by the UN Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) in terms of academic diligence and the depth and breadth of analysis and recommendations.

The Amazon Panel, is funded by the United Nation’s Sustainable Development Solutions Network and supported by prominent political leaders, such as former Colombian President, Juan Manuel Santos and the elected leader of the Coordinator of Indigenous Organizations of the Amazon River Basin, José Gregorio Díaz Mirabal. The SPA plans to publish its first report by April 2021.

Timber illegally logged within an indigenous reserve seized by IBAMA, Brazil’s environmental agency, before the election of Jair Bolsonaro. Under the Bolsonaro administration, IBAMA has been largely defunded. Image courtesy of IBAMA.

Reversing the Amazon Tipping Point

Over the last five decades, the Amazon rainforest lost almost a fifth of its forest cover, putting the biome on the edge of a dangerous cliff. Studies show that if 3 to 8% more forest cover is lost, then deforestation combined with escalating climate change is likely to cause the Amazon ecosystem to collapse.

After this point is reached, the lush, biodiverse rainforest will receive too little precipitation to maintain itself and quickly shift from forest into a degraded savanna, causing enormous economic damage across the South American continent, and releasing vast amounts of forest-stored carbon to the atmosphere, further destabilizing the global climate.

Amazon researchers are now taking a proactive stance to prevent the Amazon Tipping Point: “Our message to political leaders is that there is no time to waste,” Nobre wrote in the SPA’s press release.

Amid escalating forest loss in the Amazon, propelled by the anti-environmentalist agenda of Brazilian President Jair Bolsonaro, experts fear that this year’s burning season, already underway, may exceed the August 2019 wildfires that shocked the world. Most Amazon basin fires are not natural in cause, but intentionally set, often by land grabbers invading indigenous territories and other conserved lands, and causing massive deforestation.

“We are burning our own money, resources and biodiversity — it makes no sense,” Sandra Hacon told Mongabay; she is a prominent biologist at the Brazilian biomedical Oswaldo Cruz Foundation and has studied the effects of Amazon forest fires on health. It is expected that air pollution caused by this year’s wildfire’s, when combined with COVID-19 symptoms, will cause severe respiratory impacts across the region.

Bolivian ecologist Marielos Penã-Claros, notes the far-reaching economic importance of the rainforest: “The deforestation of the Amazon also has a negative effect on the agricultural production of Uruguay or Paraguay, thousands of kilometers away.”

The climate tipping point, should it be passed, would negatively effect every major stakeholder in the Amazon, likely wrecking the agribusiness and energy production sectors — ironically, the sectors responsible for much of the devastation today.

“I hope to show evidence to the world of what is happening with land use in the Amazon and alert other governments, as well as state and municipal-level leadership. We have a big challenge ahead, but it’s completely necessary,” said Hacon.

Cattle ranching is the leading cause of deforestation in the Brazilian Amazon, but researchers say there is enough already degraded land there to support significant cattle expansion without causing further deforestation. The SPA may in its report suggest viable policies for curbing cattle-caused deforestation. Image ©Henrique Manreza / The Nature Conservancy.

Scientists offer evidence, and also solutions

Creating a workable blueprint for the sustainable future of the Amazon rainforest is no simple task. The solutions mapped out, according to the Amazon Panel’s scientists, will seek to not only prevent deforestation and curb global climate change, but to generate a new vision and action plan for the Amazon region and its residents — especially, fulfilling development goals via a sustainable standing-forest economy.

The SPA, Nobre says, will make a critical break with the purely technical approach of the United Nation’s IPCC, which banned policy prescriptions entirely from its reports. In practice, this has meant that while contributing scientists can show the impacts of fossil fuels on the atmosphere, they cannot recommend ending oil subsidies, for example. “We inverted this logic, and the third part of the [SPA] report will be entirely dedicated to searching for policy suggestions,” Nobre says. “We need the forest on its feet, the empowerment of the traditional peoples and solutions on how to reach development goals.”

Researchers across many academic fields (ranging from climate science and economics to history and meteorology) are collaborating on the SPA Panel, raising hopes that scientific consensus on the Amazon rainforest can be reached, and that conditions for research cooperation will greatly improve.

Indigenous Munduruku dancers in the Brazilian Amazon. The SPA intends to gather Amazon science and formulate socio-economic solutions in order to make sound recommendations to policymakers. Image by Mauricio Torres / Mongabay.

SPA participants hope that a thorough scientific analysis of the rainforest’s past, present and future will aid in the formulation of viable public policies designed to preserve the Amazon biome — hopefully leading to scientifically and economically informed political decisions by the governments of Amazonian nations.

“We are analyzing not only climate but biodiversity, human aspects and preservation beyond the climate issues,” Paulo Artaxo, an atmospheric physicist at the University of São Paulo, told Mongabay.

Due to the urgency of the COVID-19 pandemic, the initiative’s initial dates for a final report were pushed forward by several months, and a conference in China cancelled entirely. But the 150-strong team is vigorously pushing forward, and the first phase of the project — not publicly available — is expected to be completed by the end of the year.

The hope on the horizon is that a unified voice from the scientific community will trigger long-lasting positive changes in the Amazon rainforest. “More than ever, we need to hear the voices of the scientists to enable us to understand how to save the Amazon from wanton and unthinking destruction,” said Jeffrey Sachs, the director of the UN Sustainable Development Solutions Network, on the official launch website called The Amazon We Want.

Banner image: Aerial photo of an Amazon tributary surrounded by rainforest. Image by Rhett A. Butler / Mongabay.

Innovation by ancient farmers adds to biodiversity of the Amazon (Science Daily)

Date: June 18, 2020

Source: University of Exeter

Summary: Innovation by ancient farmers to improve soil fertility continues to have an impact on the biodiversity of the Amazon, a major new study shows.

Innovation by ancient farmers to improve soil fertility continues to have an impact on the biodiversity of the Amazon, a major new study shows.

Early inhabitants fertilized the soil with charcoal from fire remains and food waste. Areas with this “dark earth” have a different set of species than the surrounding landscape, contributing to a more diverse ecosystem with a richer collection of plant species, researchers from the State University of Mato Grosso in Brazil and the University of Exeter have found.

The legacy of this land management thousands of years ago means there are thousands of these patches of dark earth dotted around the region, most around the size of a small field. This is the first study to measure the difference in vegetation in dark and non-dark earth areas in mature forests across a region spanning a thousand kilometers.

The team of ecologists and archaeologists studied abandoned areas along the main stem of the Amazon River near Tapajós and in the headwaters of the Xingu River Basin in southern Amazonia.

Lead author Dr Edmar Almeida de Oliveira said: “This is an area where dark earth lush forests grow, with colossal trees of different species from the surrounding forest, with more edible fruit trees, such as taperebá and jatobá.”

The number of indigenous communities living in the Amazon collapsed following European colonization of the region, meaning many dark earth areas were abandoned.

The study, published in the journal Global Ecology and Biogeography, reveals for the first time the extent to which pre-Columbian Amerindians influenced the current structure and diversity of the Amazon forest of the areas they once farmed.

Researchers sampled around 4,000 trees in southern and eastern Amazonia. Areas with dark earth had a significantly higher pH and more nutrients that improved soil fertility. Pottery shards and other artefacts were also found in the rich dark soils.

Professor Ben Hur Marimon Junior, from the State University of Mato Grosso, said: “Pre-Columbian indigenous people, who fertilized the poor soils of the Amazon for at least 5,000 years, have left an impressive legacy, creating the dark earth, or Terras Pretas de Índio”

Professor José Iriarte, an archaeologist from the University of Exeter, said: “By creating dark earth early inhabitants of the Amazon were able to successfully cultivate the soil for thousands of years in an agroforestry system

“We think ancient communities used dark earth areas to grow crops to eat, and adjacent forests without dark earth for agroforestry.”

Dr Ted Feldpausch, from the University of Exeter, who co-authored the study with Dr Luiz Aragão from the National Institute for Space Research (INPE) in Brazil, said: “After being abandoned for hundreds of years, we still find a fingerprint of the ancient land-use in the forests today as a legacy of the pre-Colombian Amazonian population estimated in millions of inhabitants.

“We are currently expanding this research across the whole Amazon Basin under a project funded by the UK Natural Environment Research Council (NERC) to evaluate whether historical fire also affected the forest areas distant from the anthropogenic dark earths.”

Many areas with dark earth are currently cultivated by local and indigenous populations, who have had great success with their food crops. But most are still hidden in the native forest, contributing to increased tree size, carbon stock and regional biodiversity. For this reason, the lush forests of the “Terra Preta de Índio” and their biological and cultural wealth in the Amazon must be preserved as a legacy for future generations, the researchers have said. Areas with dark earth are under threat due to illegal deforestation and fire.

“Dark earth increases the richness of species, an important consideration for regional biodiversity conservation. These findings highlight the small-scale long-term legacy of pre-Columbian inhabitants on the soils and vegetation of Amazonia,” said co-author Prof Beatriz Marimon, from the State University of Mato Grosso.


Story Source:

Materials provided by University of Exeter. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Edmar Almeida Oliveira, Ben Hur Marimon‐Junior, Beatriz Schwantes Marimon, José Iriarte, Paulo S. Morandi, S. Yoshi Maezumi, Denis S. Nogueira, Luiz E. O .C. Aragão, Izaias Brasil Silva, Ted R. Feldpausch. Legacy of Amazonian Dark Earth soils on forest structure and species composition. Global Ecology and Biogeography, 2020; DOI: 10.1111/geb.13116

Para escapar do coronavírus, Yanomami se refugiam no interior da floresta (Amazônia Real)

Artigo original

Por: Ana Amélia Hamdan | 28/04/2020 às 23:41

Os indígenas chamam a pandemia de xawara. Um jovem da etnia morreu de Covid-19, em Boa Vista, Roraima.

A imagem é da Expedição Yanomami Okrapomai (Christian Braga/Midia Ninja/2014)

São Gabriel da Cachoeira (AM) – “A floresta protege porque ela tem um cheiro muito saudável, isso é a proteção que a floresta dá para nós Yanomami. A floresta tem mais proteção porque o ar não é contaminado. Muitos já foram para se proteger na floresta porque evitam de pegar gripe e outras doenças aqui na comunidade. Estão por lá se alimentando com caça, pesca, agora é muito açaí e muita fruta que está tendo na floresta”.

É assim, como se vê na fala da liderança Yanomami, José Mário Pereira Góes, que os indígenas estão se protegendo contra o coronavírus. Ele é presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), no Amazonas. Tal como os mais velhos fizeram para fugir de epidemias já enfrentadas no passado, como sarampo, gripes e coqueluche, os indígenas dessa etnia estão se refugiando no interior da floresta amazônica para se afastar do risco de contrair a Covid-19, a doença que causa uma pandemia no mundo e é responsável pela morte de um jovem da etnia.

A Terra Indígena Yanomami tem 9.664.975 hectares, localizada entre os estados do Amazonas e Roraima. São 380 comunidades e uma população de 28.148 pessoas, segundo a Secretaria Especial de Saúde Indígena, do Ministério da Saúde. A nova invasão de garimpeiros, que é um risco eminente da disseminação do novo coronavírus no território, foi denunciada pelo líder Davi Kopenawa Yanomami, em 2019.

Na comunidade Maturacá, localizada em São Gabriel da Cachoeira, no noroeste do Amazonas, pelo menos 12 famílias partiram para o interior da floresta. Outros grupos familiares se preparam para seguir o mesmo caminho. “O nosso povo Yanomami está alerta. A hora que chega em São Gabriel essa doença, vamos nos deslocar e estamos fazendo farinhada para a gente se isolar os 40 dias no mato. E a hora que tiver três casos, quatro casos, não vai ficar ninguém na comunidade. Só vai ficar pelotão, missão. Só isso que vai estar aqui na comunidade”, diz José Góes.

Assembleia para discutir turismo no Pico da Neblina, em Maturacá
(Foto: João Claudio Moreira/Amazônia Real)

Em Boa Vista, capital de Roraima, o vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, Dario Vitório Kopenawa explica que esse movimento de isolamento no interior da floresta amazônica não é uma tarefa fácil para os Yanomami. Muitas das comunidades se fixaram perto de locais onde há posto de saúde. É por isso que há divisão entre quem se refugiou na floresta e quem permaneceu na comunidade. “Algumas minorias foram para o isolado. A maioria ainda está na comunidade, ficando isolado na maloca”, explica.

Dario acompanha a movimentação dos Yanomami para dentro da floresta, recebendo informações via radiofonia, da sede da Hutukara, e relata que a ida para o mato vem acontecendo no Marauiá (região do Rio Marauiá); Parawa-u e Demini, todos no Amazonas. Em Roraima, é o subgrupo Ninam que segue a mesma estratégia. A família de Dario – inclusive seu pai, a liderança e xamã Yanomami Davi Kopenawa -, está na região Demini, buscando proteção na floresta.

Também via rádio, o vice-presidente da Hutukara tem notícias de que os xamãs vêm trabalhando na tentativa de conhecer a doença. “Pandemia coronavírus para nós é xawara. Os Yanomami pajés e médicos da floresta estão trabalhando reconhecendo essa doença. Assim os xamãs me falaram”, diz Dario Kopenawa. 

O isolamento em São Gabriel

Fiscais orientam população em São Gabriel da Cachoeira na terça-feira, 28 de abri
(Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

A viagem da sede de São Gabriel da Cachoeira para Maturacá leva cerca de 10 horas, dependendo das condições da estrada e de navegação pelo Rio Negro e seus afluentes. No domingo (26), a prefeitura do município confirmou os dois primeiros casos de coronavírus e, no dia seguinte, houve a confirmação outros dois. É grande a possibilidade de já estar havendo a transmissão comunitária. Desses quatro pacientes, três são indígenas e um é militar do Exército.

José Mário Góes, presidente da Associação Yanomami do Rio Cauaburis e Afluentes (Ayrca), está em Maturacá e respondeu à reportagem da Amazônia Real por meio da mensagem de áudio de WhatsApp. O acesso à internet é possível porque durante parte do dia eles conseguem captar o sinal pela proximidade com o 5º Pelotão Especial de Fronteira do Exército.

“Quando uma família vai, outras famílias vão, a vizinhada vai. Porque na comunidade somos todos parentes, então eles levaram toda a família”, disse a liderança indígena. Cada grupo está construindo pequenos abrigos para morar por cerca de 40 dias. Além de se manterem com frutas, caça e pesca, levam alimentos. Se for necessário, voltam à comunidade para reforçar os mantimentos. “Levaram alimentos principais como farinha, banana, tapioca, beiju, e também café, açúcar, arroz, feijão e materiais de caça e pesca. E quando acaba os alimentos eles vêm buscar banana, pegar estoque de farinha”, relata Góes.

“Deixar as casas e ficar por um tempo na floresta é uma estratégia que algumas famílias já estão fazendo. Diferente de nós que estamos enfrentando pela primeira vez uma epidemia, os Yanomami têm experiências recentes que dizimaram comunidades inteiras e os sobreviventes foram os que se isolaram no mato”, explica o assessor do Programa Rio Negro do Instituto Socioambiental (ISA), Marcos Wesley de Oliveira.

Essa estratégia pode ser comparada ao isolamento social recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pelo Ministério da Saúde, aponta Marcos Wesley. “Os Yanomami sabem que até o momento não há remédio ou vacina eficazes contra a Covid-19”, reforça.

O município de São Gabriel da Cachoeira tem uma população de mais de 45 mil habitantes, a maioria indígenas de 23 etnias, segundo a taxa atualizada do Censo do IBGE. Desse total, 25 mil moram nas aldeias e comunidades, em territórios demarcados, segundo a Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (Foirn). 

Para evitar que os indígenas de Maturacá, cuja população total é de cerca de 2.000 pessoas, façam a viagem até São Gabriel para fazer compras, o ISA e a Foirn enviam cestas básicas e kits de higiene para a comunidade. Esse material será levado por avião do Exército, segundo protocolo de higienização e distribuição para evitar a contaminação da Covid-19. 

Em artigo publicada na Amazônia Real, o antropólogo francês Bruce Albert citou um trecho do livro A queda do Céu, escrito em conjunto por ele e pelo xamã e líder Davi Kopenawa Yanomami, para falar sobre a morte do jovem, em Boa Vista. O adolescente foi sepultado sem o conhecimento dos pais e sem o respeito aos rituais de seu povo. Ao tratar do tema funeral, o antropólogo sugeriu ao leitor “reler A queda do Céu, pp. 267-68, onde Davi Kopenawa conta como sua mãe morreu numa epidemia de sarampo trazida pelos missionários da Novas Tribos do Brasil (aliás, Ethnos360) e como estes sepultaram o cadáver à revelia num lugar até hoje desconhecido: Por causa deles, nunca pude chorar a minha mãe como faziam nossos antigos. Isso é uma coisa muito ruim. Causou-me um sofrimento muito profundo, e a raiva desta morte fica em mim desde então. Foi endurecendo com o tempo, e só terá fim quando eu mesmo acabar. ”

Bruce Albert, que trabalha com os Yanomami desde 1975, também escreveu em sua rede social sobre a saúde do adolescente Yanomami, de 15 anos, da aldeia Helepe, no Rio Uraricoera (RR), antes dele morrer vítima da Covid-19.

O alerta das epidemias do passado

Movimento nas ruas de São Gabriel da Cachoeira na manhã de segunda-feira (27/04/2020) (Foto: Paulo Desana/Dabakuri/Amazônia Real)

A morte do adolescente Yanomami despertou o temor desse povo, inclusive em Maturacá. “Essa morte traz alerta para que isso não acabe com povo Yanomami. Como aconteceu na região do Irokae, morrendo adultos, jovens e crianças, os idosos, como aconteceu isso não queremos que aconteça mais. Por isso estamos alerta por aqui”, afirma José Mário Góes.

Irokae é o primeiro acampamento para o Pico da Neblina, denominado pelos Yanomami de Yaripo, a Montanha de Vento. Essa trilha seria reaberta para o turismo em abril, mas foi adiada devido à pandemia. Anos atrás, na tentativa de fugir da coqueluche, os grupos seguiram por esse caminho, mas alguns acabaram morrendo.

“Essa doença de agora, o coronavírus, aqui em Maturacá, representa epidemia de coqueluche como aconteceu na região de Irokae. O que está acontecendo com os napë (forasteiro, homem branco), isso já aconteceu aqui para nós Yanomami na região do Irokae, onde fica a trilha do Yaripo”, relata José Mário. “Nossos avós já tiveram outra doença, como epidemia de coqueluche, que matou muitas crianças e os mais velhos. Eles não querem que repita essa história. Morreu até um pajé nessa epidemia. Então como fizeram agora, eles foram para a floresta, na região do frio, chegaram até lá no pico. É lá que ficam os restos mortais dos nossos parentes e por isso que nós falamos que temos histórias no caminho do Yaripo”, relata José Góes.

Outro problema enfrentado no passado foi o sarampo. “Aqui na comunidade, em Maturacá, onde está situado o polo base de saúde. Então era um xapono (casa coletiva) onde tivemos epidemia de sarampo. Também nós fizemos o movimento como estamos fazendo hoje aqui, mas não teve jeito. Pessoas fugiram, mas teve óbito nas crianças. Morreu muita criança e adulto. É a mesma história que eles não querem que repita. ”

Para os Yanomami, o vírus é um tipo de envenenamento. “Nós observamos que o próprio napë faz envenenamento no ser humano para dizer que é vírus. Isso é epidemia, é um vírus que afeta qualquer ser humano e acaba com a vida do ser humano. Isso tem na nossa realidade como aconteceu com nossos antepassados o que está acontecendo hoje no mundo inteiro. Até no Brasil e no exterior”, diz José Góes.

Em busca de proteção, os Yanomami recorrem a ensinamentos de seus antepassados. Após a confirmação dos casos em São Gabriel, as lideranças tradicionais iniciaram a chamada “recura’ para que a doença saia do lugar e seja levada pelo vento para onde não tem ser humano.

Expedição Yanomami Okrapomai (Christian Braga/ Midia Ninja/2014)

*Este texto foi atualizado em 29/04/2020 às 11h27 para corrigir o número da população Yonomami.

Crops were cultivated in regions of the Amazon ‘10,000 years ago’ (BBC)

By Matt McGrath – Environment correspondent

8 April 2020

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: The forest islands of this part of Bolivia seen from the air

Far from being a pristine wilderness, some regions of the Amazon have been profoundly altered by humans dating back 10,000 years, say researchers.

An international team found that during this period, crops were being cultivated in a remote location in what is now northern Bolivia.

The scientists believe that the humans who lived here were planting squash, cassava and maize.

The inhabitants also created thousands of artificial islands in the forest.

The end of the last ice age, around 12,000 years ago, saw a sustained rise in global temperatures that initiated many changes around the world.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: Images of the phytoliths found by the scientists – the scalloped sphere in the top right corner is from squash

Perhaps the most important of these was that early civilisations began to move away from living as hunter-gatherers and started to cultivate crops for food.

Researchers have previously unearthed evidence that crops were domesticated at four important locations around the world.

So China saw the cultivation of rice, while in the Middle East it was grains, in Central America and Mexico it was maize, while potatoes and quinoa emerged in the Andes.

Now scientists say that the Llanos de Moxos region of southwestern Amazonia should be seen as a fifth key region.

The area is a savannah but is dotted with raised areas of land now covered with trees.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: One of the 4,700 forest islands in this region of Amazonia

The area floods for part of the year but these “forest islands” remain above the waters.

Some 4,700 of these small mounds were developed by humans over time, in a very mundane way.

“These are just places where people dropped their rubbish, and over time they grow,” said lead author Dr Umberto Lombardo from the University of Bern, Switzerland.

“Of course, rubbish is very rich in nutrients, and as these areas grow they rise above the level of the flood during the rainy season, so they become good places to settle with fertile soil, so people come back to the same places all the time.”

The researchers examined some 30 of these islands for evidence of crop planting.

They discovered tiny fragments of silica called phytoliths, described as tiny pieces of glass that form inside the cells of plants.

The shape of these tiny glass fragments are different, depending on which plants they come from.

The researchers were able to identify evidence of manioc (cassava, yuca) that were grown 10,350 years ago. Squash appears 10,250 years ago, and maize more recently – just 6,850 years ago.

“This is quite surprising,” said Dr Lombardo.

Image copyright: Umberto Lombardo; Image caption: The scientists at work on the site

“This is Amazonia, this is one of these places that a few years ago we thought to be like a virgin forest, an untouched environment.”

“Now we’re finding this evidence that people were living there 10,500 years ago, and they started practising cultivation.”

The people who lived at this time probably also survived on sweet potato and peanuts, as well as fish and large herbivores.

The researchers say it’s likely that the humans who lived here may have brought their plants with them.

They believe their study is another example of the global impact of the environmental changes being felt as the world warmed up at the end of the last ice age.

“It’s interesting in that it confirms again that domestication begins at the start of the Holocene period, when we have this climate change that we see as we exit from the ice age,” said Dr Lombardo.

“We entered this warm period, when all over the world at the same time, people start cultivating.”

The study has been published in the journal Nature.

Amazon rainforest reaches point of no return (Climate News Network)

March 16th, 2020, by Jessica Rawnsley

Satellite mapping of the devastating fires that swept through the rainforest in August last year.
Image: NASA Earth Observatory/Joshua Stevens

Brazilian rainforest expert warns that increased deforestation under President Bolsonaro’s regime is having a catastrophic effect on climate.

LONDON, 16 March, 2020 – Antonio Donato Nobre is passionate about the Amazon region and despairs about the level of deforestation taking place in what is the world’s biggest rainforest.

“Just when I thought the destruction couldn’t get any worse, it has,” says Nobre, one of Brazil’s leading scientists who has studied the Amazon – its unique flora and fauna, and its influence on both the local and global climate – for more than 40 years.

“In terms of the Earth’s climate, we have gone beyond the point of no return. There’s no doubt about this.”

For decades, he has fought against deforestation. There have been considerable ups and downs in that time, but he points out that Brazil was once a world-leader in controlling deforestation.

“We developed the system that’s now being used by other countries,” he told Climate News Network in an interview during his lecture tour of the UK.

“Using satellite data, we monitored and we controlled. From 2005 to 2012, Brazil managed to reduce up to 83% of deforestation.”

Dramatic increase

Then the law on land use was relaxed, and deforestation increased dramatically – by as much as 200% between 2017 and 2018.

It’s all become much worse since Jair Bolsonaro became Brazilian president at the beginning of last year, Nobre says.

“There are some dangerous people in office,” he says. “The Minister of Environment is a convicted criminal. The Minister of Foreign Affairs is a climate sceptic.”

Nobre argues that Bolsonaro doesn’t care about the Amazon and has contempt for environmentalists.

His administration is encouraging the land grabbers who illegally take over protected or indigenous tribal land, which they then sell on to cattle ranchers and soybean conglomerates.

For indigenous tribes, life has become more dangerous. “They are being murdered, their land is being invaded,” Nobre says.

In August last year, the world watched as large areas of the Amazon region – a vital carbon sink sucking up and recycling global greenhouse gases – went up in flames.

Nobre says the land grabbers had organised what they called a “day of fires” in August last year to honour Bolsonaro.

“Half of the Amazon rainforest to the east is gone . It’s losing the battle, going in the direction of a savanna.”

“Thousands of people organized, through WhatsApp, to make something visible from space,” he says. “They hired people on motorbikes with gasoline jugs to set fire to any land they could.”

The impact on the Amazon is catastrophic, Nobre says. “Half of the Amazon rainforest to the east is gone – it’s losing the battle, going in the direction of a savanna.

“When you clear land in a healthy system, it bounces back. But once you cross a certain threshold, a tipping point, it turns into a different kind of equilibrium. It becomes drier, there’s less rain. It’s no longer a forest.”

As well as storing and recycling vast amounts of greenhouse gas, the trees in the Amazon play a vital role in harvesting heat from the Earth’s surface and transforming water vapour into condensation above the forest. This acts like a giant sprinkler system in the sky, Nobre explains..

When the trees go and this system breaks down, the climate alters not only in the Amazon region but over a much wider area.

Time running out

“We used to say the Amazon had two seasons: the wet season and the wetter season,” Nobre says. “Now, you have many months without a drop of water.”

Nobre spent many years living and carrying out research in the rainforest and is now attached to Brazil’s National Institute for Space Research (INPE).

The vast majority of Brazilians, he says, are against deforestation and are concerned about climate change – but while he believes that there is still hope for the rainforest, he says that time is fast running out.

Many leading figures in Brazil, including a group of powerful generals, have been shocked by the international reaction to the recent spate of fires in the Amazon and fear that the country is becoming a pariah on the global stage.

Nobre is angry with his own government, but also with what he describes as the massive conspiracy on climate change perpetrated over the years by the oil, gas and coal lobbies.

Ever since the late 1970s, the fossil fuel companies’ scientists have known about the consequences of the build-up of greenhouse gases in the atmosphere.

“They brought us to this situation knowingly,” Nobre says. “It’s not something they did out of irresponsible ignorance. They paid to bash the science.” – Climate News Network

Jessica Rawnsley is a UK-based environmental journalist. She has written stories on the Extinction Rebellion movement and police tactics connected with demonstrations. She has a particular interest in campaigning groups and their influence on government climate policies.

Reservas legais preservam o poder da floresta de fazer chover (O Globo)

Ana Lucia Azevedo

02/05/2019 – 04:30

Projeto de lei que revoga unidades de conservação pode provocar impactos em setores como agricultura, geração de energia e turismo

Para especialistas, projeto de lei que revoga obrigatoriedade de reservas legais em propriedades rurais coloca em risco equilíbrio e a proteção da floresta Foto: CARL DE SOUZA/AFP/22-9-2017
Para especialistas, projeto de lei que revoga obrigatoriedade de reservas legais em propriedades rurais coloca em risco equilíbrio e a proteção da floresta Foto: CARL DE SOUZA/AFP/22-9-2017

RIO — Um dos ditados populares da Amazônia diz que “a floresta faz chover”. E faz, não só na Região Norte, mas muito distante, no Sul do Brasil e até em partes da Argentina e do Uruguai, com impacto sobre a agricultura, a geração de energia e o turismo.

A discussão sobre as consequências do projeto de lei 2.362/2019, dos senadores Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e Márcio Bittar (MDB-AC), que revoga a obrigatoriedade de se manter a chamada reserva legal nas propriedades rurais, acabou por destacar a relevância da Floresta Amazônica para o clima do Brasil. É na Amazônia que nascem os rios voadores que distribuem chuvas no país.

A expressão rios voadores foi criada há quase duas décadas pelo meteorologista José Marengo, coordenador geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ela se refere aos jatos de ar carregados de umidade que se originam sobre a floresta e atravessam o Brasil, a cerca de 3 mil metros de altitude.

Um de seus efeitos bem estabelecidos é permitir a existência das florestas do oeste do Paraná, como as das cataratas do Parque Nacional do Iguaçu e as que protegem a Usina de Itaipu.

O climatologista Carlos Nobre, um dos mais respeitados especialistas do mundo em mudanças climáticas, explica que está comprovado que, quando uma seca castiga a Amazônia, chove menos em toda a vasta região que vai do oeste do Paraná, onde estão as florestas de Iguaçu, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, e chega até o centro-leste da Argentina, Uruguai e Paraguai.

Impacto na agricultura

Só existe floresta no Paraná porque chove no inverno por lá, e chove porque os rios voadores levam a umidade da Amazônia.

— Se não fosse a umidade da Amazônia, toda essa região seria uma savana — afirma Nobre.

Chove menos em Foz do Iguaçu, por exemplo, do que em Brasília. Enquanto nesta caem de 1.600 a 1700 milímetros de chuva por ano, em Foz a média é de 1.300 mm. Porém, Brasília tem uma estiagem de meio ano e vegetação de Cerrado. Já em Foz e em toda a área coberta pelos rios voadores, a chuva é distribuída ao longo do ano, graças a eles.

Os rios voadores são canais de umidade que transportam vapor d’água e fazem com que chova durante todo o ano, inclusive no inverno, normalmente seco no Centro-sul. Sem chuva ao longo de todo o ano, não há condições para existir uma floresta, observa Nobre.

As reservas legais protegem 80% das florestas de uma propriedade rural e são essenciais para deter o desmatamento e, assim, preservar a Amazônia e os rios voadores que ela gera. Mas, para Nobre, a maior importância das reservas legais está na proteção da própria Amazônia.

As florestas prestam serviços, como redução da temperatura — são até 3 graus Celsius menos quentes que plantações e pastagens —, produção de água, prevenção de erosão e polinização de culturas comerciais.

— O maior impacto do desmatamento das reservas legais será para a agricultura da região, que já enfrenta um clima hostil e um solo pobre — salienta.

Professor titular do Instituto de Física da USP e reconhecido como o maior especialista do mundo em química da atmosfera da Amazônia, Paulo Artaxo vê ameaça concreta de perdas para os investidores nos setores agrícola e de energia, que dependem da disponibilidade de água e da regularidade climática.

— O desmatamento afeta o fluxo de umidade na atmosfera e traz desequilíbrio. A destruição de reservas legais trará incerteza para o Brasil. Para quem investe, é um fator de risco.

Onde se escondem as poucas onças-pintadas que sobraram (Pesquisa Fapesp)

03 de março de 2017

Pesquisadores compõem retrato dos padrões de deslocamento do maior felino das Américas nos grandes biomas brasileiros. Na Mata Atlântica, restam apenas cerca de 300 indivíduos (foto: Eduardo Cesar/Revista Pesquisa FAPESP)

Peter Moon | Agência FAPESP – Restam apenas cerca de 300 onças-pintadas (Panthera onca) na Mata Atlântica. É muito, muito pouco. São inúmeras as razões para o desaparecimento eminente do maior felino das Américas ao longo do bioma que um dia se estendia desde o norte da Argentina, passando pelo Paraguai e Uruguai, até o Nordeste brasileiro.

A primeira e mais óbvia razão é que só restam 7% da Mata Atlântica original. A segunda, uma consequência direta, é que o pouco que sobrou é composto por áreas muito fragmentadas. Ou seja, as onças remanescentes precisam percorrer áreas muito maiores do que suas congêneres da Amazônia ou do Pantanal, por exemplo, para encontrar caça ou achar parceiros para cruzamento.

E como as áreas são muito fragmentadas, as andanças das onças na Mata Atlântica envolvem riscos cada vez mais frequentes de contato com humanos – o que envolve todo um leque de consequências letais para os grandes felinos. Elas viram alvo de caçadores, são atropeladas, são vítima da retaliação por parte de fazendeiros e pecuaristas ou perseguidas pela população em geral, que tem medo desses bichos.

Todas essas conclusões foram publicadas em novembro em um grande estudo internacional na Scientific Reports, da Nature. Entre os pesquisadores envolvidos no trabalho está o conservacionista Ronaldo Gonçalves Morato, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Atibaia (SP).

Em outro artigo, publicado no fim de dezembro, Morato e colaboradores vão além das conclusões do trabalho sobre as onças da Mata Atlântica para começar a compor um retrato dos padrões de deslocamento das onças-pintadas em cinco grandes biomas brasileiros – e os riscos que elas correm em cada um deles. O artigo foi publicado na revista PLoS ONE. A pesquisa teve apoio da FAPESP, por meio de uma bolsa de pesquisa, me nível de pós-doutorado no exterior, concedida a Morato para a realização no Smithsonian Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos.

“O objetivo da pesquisa foi verificar as condições de deslocamento e o tamanho da área de vida das onças-pintadas em cada um desses biomas brasileiros: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia, e também no norte da Argentina”, disse Morato.

Para a obtenção dos dados de deslocamento, entre 1998 e 2016 foram monitorados 44 indivíduos que haviam sido previamente capturados, sedados e neles colocado um colar especial dotado de localizador por satélite (GPS).

Foram estudados 21 indivíduos no Pantanal, 12 na Mata Atlântica, oito na Amazônia, um no Cerrado e dois na Caatinga. Foram amostrados 22 machos e 22 fêmeas. As idades estimadas variaram de 18 meses até 10 anos, sendo que a maioria das onças (41) era adulta, com mais de três anos.

O GPS dos colares foi programado para informar a localização dos animais a cada uma hora, 24 horas por dia. Os períodos de monitoramento variaram de 11 até 1.749 dias (média de 183 dias), enquanto que o número de localizações registradas por indivíduo variou de 53 até 11 mil (média de 2.264). O total de registros somou 81 mil localizações, a maior já realizada no estudo de onças.

“Os colares tinham baterias capazes de durar cerca de 500 dias de uso. Mas bem antes disso, geralmente com 400 dias de monitoramento, acionamos um dispositivo que permite a soltura automática do colar do pescoço do animal. A seguir, tentamos recuperar o colar para seu reúso, o que nem sempre é possível”, disse Morato. Em certos casos, mesmo que o colar seja encontrado, nem sempre continua em condições de uso.

“Sabemos se o animal morreu quando o sinal do GPS permanece na mesma localização por 24 horas. Neste caso, dispara um sinal automático. Foi o que aconteceu no Pantanal Norte em 2010, quando uma onça atacou e matou um pescador. Houve retaliação e algumas onças foram mortas na região. Suspeitamos que um dos animais mortos em nosso projeto tenha sofrido retaliação”, disse.

De acordo com Morato, cerca de 80% dos animais residiam na região de monitoramento. Os demais apresentaram padrões de deslocamento nômades ou estavam em dispersão.

Os machos exibiram as maiores áreas de vida – o território ocupado durante a vida de cada animal. É um resultado compatível com a hipótese de que a necessidade de maiores áreas por parte dos machos de espécies carnívoras está ligada à distribuição das fêmeas e à necessidade de maximizar as oportunidades reprodutivas.

“As onças com a maior área de vida foram as da Mata Atlântica, que muitas vezes precisam se aventurar por pastagens e campos cultivados para passar de um fragmento de floresta ao outro, correndo o risco de contato com humanos”, disse Morato.

Mobilidade limitada

Entre todos os animais, o do Cerrado mostrou necessidade de maior área de vida (1.268 km2). No Brasil, a onça com menor área de vida (36 km2) estava no Pantanal. Para efeito de comparação, a ilha de Santa Catarina tem 424 km2.

“Pela primeira vez conseguimos comparar os deslocamentos das onças nos diversos biomas. O próximo passo envolve saber como os animais se comportam nas diferentes estruturas e paisagens. Queremos verificar quais são os fatores que limitam a mobilidade das onças em cada bioma”, disse Morato.

Segundo o pesquisador, é importante saber o que limita os deslocamentos das onças, uma vez que a saúde do animal depende da sua variabilidade genética, que por sua vez depende da capacidade de os indivíduos encontrarem parceiros sexuais de outros grupos que não os familiares. É a mesma lógica que não indica o casamento entre primos, por exemplo.

O artigo Space Use and Movement of a Neotropical Top Predator: The Endangered Jaguar(http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0168176), de Ronaldo G. Morato e outros, publicado na PLoS One, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0168176.

O artigo A biodiversity hotspot losing its top predator: The challenge of jaguar conservation in the Atlantic Forest of South America(doi:10.1038/srep37147), publicado na Scientific Reports, pode ser lido em: www.nature.com/articles/srep37147.

Antropólogo cria primeiro Centro de Medicina Indígena em Manaus (G1)

Pesquisador idealizou projeto após uma parente se curar de uma picada de cobra com tratamento que uniu saber científico e indígena. 


Indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, no Amazonas (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, no Amazonas (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

A sabedoria herdada de seus avós a longo de 85 anos fez o indígena Manoel Lima assumir a função de “Grande Kumu”, pajé do povo Tuyuka, no Amazonas. Ele é um dos indígenas que, junto com um dos membros do Colegiado Indígena, do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), criaram o Bahserikowi´i”, ou Centro de Medicina Indígena da Amazônia. O espaço abre as portas para o público em Manaus nesta terça-feira (6). O local não conta com apoio ou interferência das secretarias de saúde do governo e prefeitura.

“Não é para abandonar a indicação dos médicos [tradicionais] mas para agregar”, disse o antropólogo João Paulo Tukano que idealizou o projeto após uma parente se curar de uma picada de cobra com um tratamento que uniu saber científico e indígena.

De acordo com o idealizador do centro, o espaço busca aliar tratamento milenares utilizados nas aldeias para ajudar a pessoas doentes, indígenas ou não, sem esquecer da medicina tradicional.

“Aqui é mais uma opção de tratamento de saúde, baseado em técnica e tecnologias indígenas usadas de geração em geração”, disse Tukano.

Nesta terça-feira, o kumu Tuyuka começa a oferecer serviços. Além dele, pajés das etnias Tikuna, Satere Mawé, Baniwa, Apurinã estarão disponíveis. No local, os tratamentos são feitos de duas formas, iniciando pelo Bahsesé – uma espécie de benzimento – seguido da indicação dos medicamentos.

“O Bahsesé não é ficar rezando. O Kumu aciona princípios curativos contidos nos vegetais e nos animais. É nessa hora, quando ele fica falando, que ele invoca os princípios dentro de um elemento para ver o que pode passar para a pessoa para curar”, disse

Apoio

O prédio foi cedido pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A manutenção do local é feita pelos próprios indígenas e por amigos. A venda de artesanato e de medicamentos caseiros serão feitas no local para auxiliar na manutenção do Centro. Os atendimentos serão feitos de segunda a sexta-feira das 9h as 13h, na rua Bernardo Ramos, 97, Centro de Manaus. O valor de cada atendimento é R$ 10.

Kumu Manoel

Para ser um grande kumu da aldeia, Manoel Lima contou que foi treinado com os avós desde muito cedo, segundo conta.

“Aprendi com os meus avós, quando tinha seis anos de idade. Desde cedo fui treinado. Nós ficávamos 4 meses longe da aldeia, dentro do mato, onde não tem barulho para se dedicar só ao aprendizado da cura. Treinamos para ser grande Kumu”, disse.

Os Kumus vivem em São Gabriel da Cachoeira, nas comunidades de Taraque, Iauaritê e Paricachoeirinha. Por conta da dificuldade de acesso às aldeias e à falta de maiores investimentos na saúde, os indígenas reclamam que quase não têm acesso aos tratamentos da medicina “branca tradicional”. Por isso, as técnicas de cura herdada dos ancestrais ainda hoje são importantes e passadas de pai para filho dentro das aldeias.

Produtos feitos a base de ervas são vendidos no local, em Manaus (Foto: Iver Rylo/G1 AM)

Produtos feitos a base de ervas são vendidos no local, em Manaus (Foto: Iver Rylo/G1 AM) 

“Com essa novidade, eu estou muito feliz, é uma iniciativa inédita. Eu já oferecia os tratamentos em casa há muito tempo, não era divulgado e agora é uma coisa grande”, disse o kumu.

Ele garante que existem curas para todos os tipos de enfermidades, inclusive para o que os médicos estão chamando de “mal do século”: a ansiedade e depressão.

“Tratamos desde doenças da cabeça até problemas no útero e menstruação desregulada”, garantiu.

Motivação

A necessidade de agregar e respeitar variadas formas de tratamentos e saberes, dando visibilidade ao conhecimento indígena foi despertada em João Paulo há sete anos, quando a sobrinha dele quase teve a perna amputada.

“O médico decidiu amputar a perna dela. Meu pai disse que não precisava e poderíamos fazer [o tratamento] em conjunto, os médicos e nós indígenas. O médico não aceitou e disse ‘o senhor não estudou nenhum dia, eu estudei 8 anos’. Fiquei muito abatido, triste e nervoso. Pensei melhor e esta foi uma motivação para eu estudar e tratar ele de igual para igual. E caminhei mais para antropologia”, disse João Paulo.

O caso repercutiu, foi para a justiça, o governo entrou em cena e uma nova equipe de médicos foi formada no Hospital Universitário Getúlio Vargas. À época, No dia 15 de janeiro, Ministério Público Federal chegou a recomendar a um dos hospitais onde a menino foi levada que promovesse a articulação dos conhecimentos da medicina comum com o conhecimento e as práticas tradicionais de saúde dos índios tukano.

“Com a outra equipe pudemos dialogar. O médico quis ouvir meu pai e meu pai falou o que gostaria de fazer e eles respeitaram. Primeiro sugerimos tratamento com plantas, o médico disse que não aconselhava e listou os motivos, depois sugerimos com água mineral e foi acordado num diálogo”, disse.

O tratamento dos médicos em parceira com os pajés Tukano deu certo. A menina não teve a perna amputada e hoje, com 19 anos, tem muita história para contar. “Temos vários casos, meus parentes sofrem. Esse veio à tona porque eu briguei”, disse o antropólogo.

Além o desconhecimento da medicina tradicional aos tratamentos indígenas, a dificuldade dos povos indígenas em conseguir atendimento de saúde na capital também motivou a criação do centro.

“Um dos nossos objetivos é disponibilizar o acesso a tratamento para indígenas que estão em Manaus, porque muito reclamam da dificuldade de chegar as unidades de saúde. É muito comum acontecer do indígena não conseguir tratamento”, lamentou o antropólogo.

Centro fica em uma casa antiga no Centro de Manaus (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Centro fica em uma casa antiga no Centro de Manaus (Foto: Ive Rylo/G1 AM)

Long Before Making Enigmatic Earthworks, People Reshaped Brazil’s Rain Forest (N.Y.Times)

By   FEB. 10, 2017

New research suggests people were sustainably managing the Amazon rain forest much earlier than was previously thought. Credit: Jenny Watling 

Deep in the Amazon, the rain forest once covered ancient secrets. Spread across hundreds of thousands of acres are massive, geometric earthworks. The carvings stretch out in circles and squares that can be as big as a city block, with trenches up to 12 yards wide and 13 feet deep. They appear to have been built up to 2,000 years ago.

Were the broken ceramics found near the entrances used for ritual sacrifices? Why were they here? The answer remains a mystery.

There are 450 geoglyphs concentrated in Brazil’s Acre State. Credit: Jenny Watling 

For centuries, the enigmatic structures remained hidden to all but a few archaeologists. Then in the 1980s, ranchers cleared land to raise cattle, uncovering the true extent of the earthworks in the process. More than 450 of these geoglyphs are concentrated within Acre State in Brazil.

Since the discovery, archaeological study of the earthworks and other evidence has challenged the notion that the rain forests of the Amazon were untouched by human hands before the arrival of European explorers in the 15th century. And while the true purpose of the geoglyphs remains unknown, a study published on Monday in The Proceedings of the National Academy of Sciences offers new insight into the lives of the ancient people who lived in the Amazon. Thousands of years before the earthworks were built, humans were managing the forests, using what appear to be sustainable agricultural practices.

“Our study was looking at the environmental impact that the geoglyph builders had on the landscape,” said Jennifer Watling, an archaeologist at the University of São Paulo, Brazil, who conducted the research while a student at the University of Exeter in Britain. “A lot of people have the idea that the Amazon forests are pristine forests, never touched by humans, and that’s obviously not the case.”

Dr. Watling and her team reconstructed a 6,000-year-old environmental history of two geoglyph sites in the Amazon rain forest. To do this, they searched for clues in soil samples in and around the sites. Microscopic plant fossils called phytoliths told them about ancient vegetation. Bits of charcoal revealed evidence of burnings. And a kind of carbon dating gave them a sense of how open the vegetation had been in the past.

About 4,000 years ago, people started burning the forest, which was mostly bamboo, just enough to make small openings. They may have planted maize or squash, weeded out some underbrush, and transported seeds or saplings to create a partly curated forest of useful tree products that Dr. Watling calls a “prehistoric supermarket.” After that, they started building the geoglyphs. The presence of just a few artifacts, and the layout of the earthworks, suggest they weren’t used as ancient villages or for military defenses. They were likely built for rituals, some archaeologists suspect.

Dr. Watling and her colleagues found that in contrast with the large-scale deforestation we see today — which threatens about 20 percent of the largest rain forest in the world — ancient indigenous people of the Amazon practiced something more akin to what we now call agroforestry. They restricted burns to site locations and maintained the surrounding landscape, creating small, temporary clearings in the bamboo and promoting the growth of plants like palm, cedar and Brazil nut that were, and still are, useful commodities. Today, indigenous groups around the world continue these sustainable practices in forests.

“Indigenous communities have actually transformed the ecosystem over a very long time,” said Dr. Watling. “The modern forest owes its biodiversity to the agroforestry practices that were happening during the time of the geoglyph builders.”