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Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

Jamil Chade – Como diplomatas tentaram, de dentro do Itamaraty, conter atos de Bolsonaro (UOL)

noticias.uol.com.br

REPORTAGEM

Jamil Chade

Colunista do UOL

07/12/2022 04h00 – Atualizada em 07/12/2022 14h06


Dois diplomatas entram em um café em uma capital europeia. Um deles é brasileiro e carrega informações ultrassecretas. Sua missão é desarmar uma bomba. Parece filme de espionagem, mas a cena é real e se repetiu no governo Bolsonaro.

Uma rede de resistência clandestina foi criada no Itamaraty para conter a política externa bolsonarista.

Temas como mudanças climáticas, direitos humanos, a questão palestina ou mesmo a Guerra da Ucrânia foram tratados nesses encontros sigilosos, confirmados pelo UOL com 13 funcionários do Itamaraty, incluindo embaixadores e servidores administrativos, e em um amplo e ainda inédito estudo de pesquisadoras da FGV e de Oxford. A rede não envolveria apenas alguns poucos nomes e, de fato, teria se espalhado por alguns dos principais departamentos da chancelaria.

Os objetivos da rede clandestina eram:

  • Permitir que o outro país tivesse tempo para reagir a mudanças na política externa do Brasil, sem que uma crise fosse estabelecida
  • Preservar a credibilidade do Brasil no exterior e salvar décadas de uma construção da diplomacia nacional

Para diplomatas, a palavra correta seria resistência, que existiu “em nome da democracia e da soberania”, e sempre ocorreu dentro de parâmetros da legalidade. No fundo, tais atos não eram nada mais que uma tentativa de “equalizar posições” diante daqueles que estavam destruindo as estruturas do Estado. A verdadeira sabotagem, neste sentido, era o que estava ocorrendo com o sequestro de décadas da diplomacia brasileira para atender aos objetivos da extrema direita.

Os encontros clandestinos eram apenas uma das táticas da resistência, que também:

  1. Montou um esquema de contatos diretos com governos estrangeiros, sem ter de passar pela cúpula do Itamaraty e com o objetivo de desarmar crises diplomáticas.
  2. Limitou-se a ler “a instrução que chegou de Brasília”, em reuniões na ONU, OMS ou OEA, sem uma atuação de empenho para convencer os demais países a seguir o Brasil em suas posições.
  3. Copiou documentos que poderiam ser usados para defender um diplomata contra acusações e registrar a ilegalidade de certos atos do Planalto.
  4. Gravou reuniões de forma clandestina nas quais a cúpula bolsonarista ordenou a suspensão de termos de documentos ou o veto a determinadas resoluções que citassem a palavra “gênero” ou outros temas delicados.
  5. Vazou informações para a sociedade civil sobre o posicionamento do Brasil na esperança de que uma pressão pública fosse feita para impedir que um determinado ato fosse concretizado.
  6. Publicou artigos sob o nome de outra pessoa ou de um acadêmico.
  7. “Arrastou o pé”, diminuindo o ritmo de trabalho na implementação de instruções estabelecidas pela cúpula bolsonarista.
  8. Enganou a chefia ou informou o que era absolutamente necessário, ocultando da cúpula situações ou posições por parte de outros governos.
  9. Realizou reuniões sem registros na agenda oficial, impedindo que certos temas ou debates entrassem no radar da direção.
Itamaraty - tradição - Arte/UOL - Arte/UOL
Itamaraty – Diplomacia Brasileira Imagem: Arte/UOL

Um clima de medo, represálias e perseguição se instalou no Itamaraty nos quatro anos do governo de Jair Bolsonaro.

Saíram de cena a tradição e as nomeações técnicas, que sempre guiaram de forma explícita desde a promoção de diplomatas até as posições do Brasil no exterior, e entraram as indicações políticas e o alinhamento ideológico compulsório ao núcleo bolsonarista.

As mesmas condições foram identificadas na pesquisa coordenada pela professora da FGV Gabriela Lotta, em parceria com Izabela Corrêa, de Oxford, e Mariana Costa, também da FGV.

As pesquisadoras entrevistaram diplomatas em diferentes posições na carreira e que estão alocados em distintos países e setores do Itamaraty.

Todo o levantamento é feito de forma sigilosa e anônima, para preservar a identidade dos entrevistados.

Segundo os funcionários ouvidos a gestão Bolsonaro promoveu:

  • Monitoramento de diplomatas sobre o que curtiam nas redes sociais, se eram membros de partidos políticos ou até com quem eram casados. Uma funcionária relatou que não foi promovida depois que “foi descoberto” que seu marido trabalhou em um governo anterior.
  • Substituição de funcionários que se dedicavam a estudos de temas contrários à agenda de Bolsonaro como clima, meio ambiente, gênero e direitos humanos, por pessoas leais ao governo.
  • Promoções e transferências para o exterior foram transformadas em moeda de troca e instrumento de ameaça.
  • Palavras como “gênero”, “Cuba” e “mudanças climáticas” foram vetadas, evitadas ou até apagadas de documentos oficiais do passado. Uma servidora admitiu que teve como função modificar portarias, discursos, informações no site oficial e telegramas.

Mulheres e homossexuais foram especialmente alvo dessa nova fase. “Há uma masculinização e a volta de certas práticas, como piadas no corredor”, contou Gabriela Lotta, a pesquisadora da FGV.

O que mais escutava nas entrevistas era: O tio da Sukita se normalizou

O que diz o Itamaraty sobre as denúncias?

Nada. Procurado para comentar a reportagem, o Ministério das Relações Exteriores se manteve em silêncio.

O número de pessoas removidas de seus cargos chegou a tal ponto que consolidou-se o apelido informal usado para designar diplomatas loteados em locais onde não faziam nada: “Departamento de Escadas e Corredores”.

Um exemplo emblemático aconteceu logo nos primeiros meses da gestão do ex-chanceler Ernesto Araújo, que decidiu isolar e deixar sem função o diplomata Audo Faleiro. A justificativa: ele teria trabalhado para os governos do PT.

Itamaraty - Clima de medo e represálias - Arte/UOL - Arte/UOL
Itamaraty – represálias Imagem: Arte/UOL

Em meados de 2019, Faleiro deixou seu posto em Paris para voltar ao Itamaraty. Foi nomeado como chefe da Divisão da Europa e, dois dias depois, o gabinete de Araújo informou que o cargo teria de ser retirado.

O diplomata ficou por seis meses na biblioteca do Itamaraty, aguardando um novo cargo. Foi apenas em março de 2020 que ele foi colocado no Departamento Financeiro. Ainda assim, sem o direito de ir a algumas reuniões e com o compromisso de que, na ausência da chefia, não assumiria o departamento.

Para muitos, Faleiro foi usado como exemplo:

Olha o que pode ocorrer contigo. Não faça isso se não quiser virar o próximo Audo

O tamanho do estrago

Os relatos coincidem com quatro anos que transformaram o Brasil em um pária internacional.

Para a professora da FGV Gabriela Lotta, o impacto não se limitou aos muros do Palácio do Itamaraty.

“A diplomacia brasileira tem sua moral e influência construídas na tradição e expertise. O governo negou isso, prejudicou a política externa e enfraqueceu a diplomacia e a imagem do Brasil.”

Na opinião da pesquisadora e dos embaixadores e diplomatas ouvidos pelo UOL, resistir foi a saída encontrada para sobreviver a um dos momentos mais tenebrosos da democracia brasileira.

Muitos, porém, pagaram um preço elevado, tanto profissionalmente como em relação à saúde mental.

O uso de tarja preta foi disseminado.

COP15 da biodiversidade começa com racha sobre conservação (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Ana Carolina Amaral

Brasil busca proteger agrotóxicos e atrair recursos, mas rejeita meta global


De quem é a responsabilidade pela conservação da biodiversidade global? Essa é a pergunta que trava as negociações da COP15 da Convenção de Diversidade Biológica da ONU, que começa nesta quarta-feira (7) e vai até o próximo dia 19, em Montreal, no Canadá. O objetivo é chegar a um novo acordo global que reúna os países em torno de uma meta de conservação.

A proposta mais popular leva o apelido de 30×30 e prevê conservar 30% da biodiversidade global até 2030. ONGs e movimentos sociais defendem uma parcela maior, que garanta a conservação de 50% dos ecossistemas.

Na segunda-feira (5), a meta mais ambiciosa foi defendida em uma carta assinada por dezenas de organizações brasileiras, incluindo a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e o MST (Movimento Sem Terra).

Embora ainda haja diversas propostas de números na mesa, o detalhe, no entan [sic] que racha as posições dos países é a definição sobre a meta ser global ou nacional. O Brasil trabalha contra a meta global. Propõe, no lugar, que cada país se comprometa a conservar 30% do seu território, de modo que a meta se torne nacional.

A estratégia busca evitar que a responsabilidade por boa parte da biodiversidade global seja empurrada para dentro do território nacional, que é o mais biodiverso do mundo. China, África do Sul e outros países megabiodiversos e em desenvolvimento acompanham o Brasil nessa posição.

Alguns países desenvolvidos, no entanto, têm dito que não haverá acordo sem uma meta global. Para o bloco rico, a responsabilidade pela conservação é dos países detentores da biodiversidade.

Para que os territórios biodiversos não se tornem um ônus para o país detentor, que teria o uso do seu território restringido, a proposta defendida por países, cientistas e organizações ambientalistas é que o restante do mundo financie a conservação desses territórios.

Aqui entra outra divergência: países em desenvolvimento querem que isso aconteça através de um novo fundo, voltado à biodiversidade. A proposta, feita pelo Brasil no início do ano, ganhou força após a aprovação de um novo fundo climático na COP27, no mês passado.

Mas os países ricos evitam assumir esse compromisso e já adiantam que o financiamento deve vir de todas as fontes —públicas e privadas.

Outro caminho para valorizar economicamente a biodiversidade é a definição sobre incentivos econômicos para as atividades que contribuem com a conservação e a extinção dos subsídios às ações danosas para os biomas.

Nesse tema, o Brasil tenta emplacar o incentivo à bioeconomia (que envolve a exploração de espécies florestais não madeireiras, com a extração de cacau, castanha, açaí, entre outros), mas enfrenta resistência e desconfiança especialmente dos europeus. Isso porque o país também vai à COP15 para proteger o comércio agrícola, evitando, por exemplo, uma proposta da União Europeia que prevê cortar os subsídios aos agrotóxicos —algo que o Brasil busca proteger.

“O Brasil confia que variados setores de sua economia, inclusive o agronegócio, apresentam casos de sucesso de sustentabilidade, que contribuem para reafirmar o compromisso brasileiro com a promoção do desenvolvimento sustentável e a inclusão social, aliados ao fomento à inovação, à ciência e à tecnologia”, diz um ofício do Itamaraty enviado em resposta ao requerimento de informação pelo deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP) sobre as posições brasileiras na COP15.

A Folha teve acesso aos ofícios enviados pelos ministérios de Relações Exteriores, Economia, Agricultura e Justiça em resposta ao deputado. Já o Ministério do Meio Ambiente foi o único que não respondeu aos questionamentos e pediu mais prazo, embora tenha enviado negociadores para completar o time dos diplomatas na COP15.

Entre as negociações que mais engajam o Itamaraty e o setor privado brasileiro nesta COP, estão o pagamento por serviços ambientais e a repartição dos benefícios da utilização de recursos genéticos, que podem ser implementados a partir da negociação, nesta COP, do mecanismo de Informações de Sequenciamento Digitais (conhecido como DSI, na sigla em inglês).

Embora os países tenham apenas 12 dias de negociação pela frente, a expectativa de que atinjam um consenso que permita assinar um novo acordo global pela biodiversidade é baixa, já que eles chegam à COP15 com poucos avanços colhidos das duas reuniões preparatórias. O rascunho do acordo já passou por negociações em Genebra, em março, e em Nairóbi, no Quênia, em junho.

Além das questões centrais sobre a meta global e o financiamento, os países mantêm posições conflituosas em pelo menos outras seis metas, sobre restauração, áreas espaciais para conservação, poluição, clima, integração com outras áreas e financiamento.

Antídoto onírico (451)

quatrocincoum.com.br

Divulgação Científica | Os Melhores Livros de 2022

Livro sobre sonhos Yanomami mostra que a escuta das vozes dos povos originários é um ensinamento político

Christian Dunker
01dez2022 05h51 (01dez2022 12h11)


O desejo dos outros se insere no debate brasileiro contemporâneo sobre psicanálise e antropologia para além de sua contribuição rigorosa para a descolonização do pensamento. A escuta das vozes dos povos originários não é apenas um benfazejo exercício para tratar nosso etnocentrismo, mas um ensinamento político para todos que se perguntam: onde está a porta pela qual posso sair da bolha? Ou: onde está a catraca reversa que me colocará no antropoceno real e não no metaverso do Brasil paralelo? Hanna Limulja responde que a saída começa pelo sonho. O sonho tem um sentido, diria Artemidoro de Daldis. Este sentido é dado pelo sonhador e referido ao seu desejo, diria Freud. O “eu” do sonhador é um Outro, diria Rimbaud. Desejo de se tornar outro, diria Madame Bovary. Desejo do outro, diria Hegel. Desejo de desejo do desejo do Outro, diria Lacan. Outro desejo, nos dizem os Yanomami.

O desejo dos outros, de Hanna Limulja, se insere no debate brasileiro contemporâneo sobre psicanálise e antropologia para além de sua contribuição rigorosa para a descolonização do pensamento

Sonhar, para eles, é “antes de tudo viajar longe” e “escapar do familiar”. É estar no limite no lugar dos mortos, representados pela noite, e também dos vivos que habitam outros lugares, representados pelo dia. Entre os dois mundos há a experiência da penumbra, da transição, da passagem. Lá está o reino das imagens. Assim como nossos artistas criam linguagens para um mundo que não está ainda presente, os sonhos Yanomami criam mundos para linguagens que ainda não existem. Tais linguagens são o que se pode chamar de perspectiva, ou seja, o ponto de vista que corresponde a este mundo. A grande torção não consiste apenas em perguntar que mundo quero para meu desejo, mas que desejo é preciso inventar para o mundo que vejo em meus sonhos.

O sonho é um intermediário epistêmico entre o que sei porque testemunhei e o que sei porque ouvi falar sobre. É uma negação dos dois modos de funcionamento pois é uma experiência profundamente minha, ocorrida na solidão da noite; mas, ali onde vivi aquilo, não era só este eu que me habitava. Inversamente, o sonho só se torna sonho verdadeiro quando contado, quando passa a ser um saber dos outros. As tragédias, os genocídios (como o de Haximu, em 1993), as mortes irreparáveis (como a de Chico Mendes), a invasão de mineradores são enfrentadas com o sonho. As decisões amorosas, os casamentos, as guerras e os adoecimentos também. O sonho é um método de conhecimento, não apenas a expressão de uma individualidade. Como tal, envolve uma epistemologia política da maior importância, não só como retrato pitoresco ou folclórico que afinal seria a “expressão” de um primitivismo alegórico e harmonioso, mas como forma de vida que pode efetivamente nos ajudar a enfrentar a crise bio-necropolítica de nossos tempos.

O antítodo oniropolítico começa pela ideia de tornar os mortos agentes políticos — aliás, como sempre foram —, mas aqui em um sentido algo diferente. Primeiro porque envolve uma outra concepção de tempo e em particular do futuro. Não se trata de ver no sonho uma prescrição, um destino ou uma escritura, mas uma experiência de conhecimento testemunhal, que orienta a ação coletiva das pessoas. Segundo porque, em contraste dos brancos que reservam os sonhos ao cuidado restrito e sigiloso dos psicanalistas, os Yanomami entendem que um sonho só se completa quando é contado, partilhado socialmente, às vezes contado de viva voz no meio da aldeia. Ao colocar o sonho “na roda” e ao relacioná-lo com problemas concretos da comunidade, cria-se uma espécie de jogo em que a mesma situação se apresenta em outras perspectivas, sugerindo assim novas soluções. Terceiro, novas soluções de nada adiantam se continuamos a ser as velhas pessoas. Neste sentido, a decomposição da pessoa Yanomami envolve versões de si que fariam inveja à qualquer teoria contemporânea do self: “o rosto que expressa pelo olhar” (pei pihi), o “espectro de si mesmo como morto” (né porepé), “a imagem interna de uma unidade corporal: sombra, reflexo, eco” (pei utupé), o “alter ego animal” (rixi).

Saber-fazer

Se todos sonham, nem todos têm o mesmo saber-fazer com os sonhos. Ainda que os xamãs sejam particularmente vocados nessa matéria, alguns ficarão fracos de tanto sonhar, outros serão assombrados pelos mortos, outros ainda nem se lembrarão dos sonhos. Para usar os sonhos de modo oniropolítico é preciso criar e cultivar seus próprios xapiri-pë, versões intermediárias de si, espíritos protetores ou vozes ajudantes que “trançam os fios da rede até o ponto delas se tornarem antenas para o céu”. Inversamente, durante os sonhos, eles nos protegem na convivência com os mortos, impedindo que “venham para cá” ou que, movidos por saudades, nós queiramos “ir para lá”. Eles são a voz que diz: “Voltaremos para vocês, é claro! Mas sem pressa! Retornem ao lugar de onde vieram!”.

O sonho não é um presságio, mas uma espécie de enigma sobre o qual se deve agir

Em uma cultura que partilha seus sonhos, a interpretação funciona de outra maneira. Menos do que um produto inesperado de si mesmo, as visões oníricas são parte de um mundo possível e real, eventualmente já acontecido ou em vias de acontecer. Por exemplo, sonhar com um sobrinho enfeitado com penas pode indicar que seu adoecimento é mais sério do que se pensava e ele pode morrer, porque é nesta condição que os corpos podem ser enfeitados. Porém o sonho não é um presságio, mas uma espécie de enigma sobre o qual se deve agir: procurar um xamã, mudar o caminho da cura ou realizar um rito protetivo.

Isso sugere uma homologia com a política que a psicanálise tem com o sonho: ele também é uma realização de desejo, mas, em vez de perguntar qual desejo foi suprimido neste mundo, os Yanomami perguntam: para este mundo, oniricamente revelado, qual é o desejo que lhe corresponde? Se na psicanálise perguntamos pela relação que as pessoas mantêm com seu desejo, o xamanismo Yanomami pergunta pela pessoa que você precisa ser se o mundo assim se apresentar. Se na psicanálise lemos os sonhos para entender qual passado sexual infantil e recalcado corresponde ao futuro realizado pelas imagens oníricas, no transe xapiri o espírito do xamã fala do passado mítico tendo em vista um futuro indeterminado. Por isso o modelo proposto por Limulja para pensar os sonhos dos Yanomami como uma fita de Moebius — ou seja, o sonho como ponto de torção entre vivos e mortos, dia e noite, sonho individual e mito coletivo — é também a chave para pensar transformações políticas e clínicas: “O próprio xamã vai elaborando seu repertório mítico e ampliando suas experiências oníricas. Seus sonhos transformam o mundo, mas isso só é possível porque ele mesmo é transformado por esta experiência”. Isso vale para as pequenas decisões do cotidiano, para as escolhas inerentes à arte da caça, para os cuidados com a segurança, mas sobretudo para os sonhos que permeiam o trabalho de luto e cercam a experiência da morte.

Uma mulher que perdera a filha e acabara de incinerar os ossos dela se alegra ao reencontrar a filha morta, que não entende o que está acontecendo e pergunta: “Mãe, por que seu rosto está pintado de preto?” Mas a mãe tenta a todo custo despistar a morta. Então ela olha para o cesto que contém seus ossos incinerados e pergunta: “Mãe, o que há dentro do cesto?”. E a mãe dissimula, mas os papagaios respondem: “Esses são seus ossos queimados”. Neste momento os Inhambu [pássaros associados com a morte e o entardecer] cantam e levantam voo.

O sonho se insere na vida como uma forma atenuada de morte. Numa sociedade na qual jamais se pronuncia o nome do morto e todo rastro de vida é apagado depois da festa fúnebre, a presença da morte não faz monumento, história ou escrita. A decisão que interpreta o sonho como uma imagem mítica do passado ou como um mundo possível no futuro é sobretudo um ato político. Vindo a morte sempre a partir de fora, seja este fora o inimigo terreno ou as voluptuosas almas dos mortos, os vivos têm menos domínios de sua vida do que gostariam. Aqui, mais do que nunca, confirmamos o dito de Lévi-Strauss para quem o psicanalista é um xamã moderno:

Se por um lado o sonho é sempre desencadeado pela vontade de um outro, e o sonhador aparece como uma “presa”, uma vítima, alguém à mercê do sentimento que lhe é alheio, por outro, o sonhador não está de forma alguma inteiramente subjugado ao sentimentos deste outro. Os vivos resistem aos apelos destes outros, e é porque resistem que eles podem continuar existindo Yanomami. 

In Commemoration: A Sampling of Herman Daly (Steady State Herald)

steadystate.org/in-commemoration-a-sampling-of-herman-daly/

Lydia SchubarthNovember 17, 2022

by Herman Daly (posthumously) — Introduction by Brian Czech

Given the recent, tragic passing of Herman Daly, we allocate this week’s Steady State Herald to the wise words of Daly himself. From 2010-2018, Herman was a regular contributor to The Daly News, CASSE’s blog before the Herald was launched. (Herman’s modesty almost prevented us from naming the blog after him, but he was outnumbered by CASSE staff and board, and The Daly News it was!)

Daly News articles were shorter—and eminently pithier from the pen of Daly—so we’re able to package a sample of three articles into this commemorative display. These are three of the thirty three articles bound in the book, Best of The Daly News: Selected Essays from the Leading Blog in Steady State Economics, 2010-2018.

Best of The Daly News was the first book published by the Steady State Press, CASSE’s nascent imprint. Herman Daly was happy with the production, which also became the first membership gift. We’re sure you’ll be happy with the distillation below. After all, we might arguably call these articles “the best of the Best of The Daly News.”

Wealth, Illth, and Net Welfare (November 13, 2011)

Well-being should be counted in net terms, that is to say we should consider not only the accumulated stock of wealth but also that of “illth;” and not only the annual flow of goods but also that of “bads.” The fact that we have to stretch English usage to find words like illth and bads to name the negative consequences of production that should be subtracted from the positive consequences is indicative of our having ignored the realities for which these words are the necessary names. Bads and illth consist of things like nuclear wastes, the dead zone in the Gulf of Mexico, biodiversity loss, climate change from excess greenhouse gas emissions, depleted mines, eroded topsoil, dry wells, exhausting and dangerous labor, congestion, etc. We are indebted to John Ruskin for the word “illth,” and to an anonymous economist, perhaps Kenneth Boulding, for the word “bads.”

In the empty world of the past, these concepts and the names for them were not needed because the economy was so small relative to the containing natural world that our production did not incur any significant opportunity cost of displaced nature. We now live in a full world, full of us and our stuff, and such costs must be counted and netted out against the benefits of growth. Otherwise we might end up with extra bads outweighing extra goods and increases in illth greater than the increases in wealth. What used to be economic growth could become uneconomic growth—that is, growth in production for which marginal costs are greater than marginal benefits, growth that in reality makes us poorer, not richer. No one is against being richer. The question is, does more growth really make us richer, or has it started to make us poorer?

Wealth and illth: which the greater? (CC BY 2.0, Michael Caven)

I suspect it is now making us poorer, at least in some high-GDP countries, and we have not recognized it. Indeed, how could we when our national accounting measures only “economic activity”? Activity is not separated into costs and benefits. Everything is added in GDP, nothing subtracted. The reason that bads and illth, inevitable joint products with goods and wealth, are not counted, even when no longer negligible in the full world, is that obviously no one wants to buy them, so there is no market for them, hence no price by which to value them. But it is worse: These bads are real and people are very willing to buy the anti-bads that protect them from the bads. For example, pollution is an unpriced, uncounted bad, but pollution cleanup is an anti-bad which is accounted as a good. Pollution cleanup has a price, and we willingly pay it up to a point and add it to GDP—but without having subtracted the negative value of the pollution itself that made the cleanup necessary. Such asymmetric accounting hides more than it reveals.

In addition to asymmetric accounting of anti-bads, we count natural capital depletion as if it were income, further misleading ourselves. If we cut down all the trees this year, catch all the fish, burn all the oil and coal, etc., then GDP counts all that as this year’s income. But true income is defined (after the British economist Sir John Hicks) as the maximum that a community can consume this year and still produce and consume the same amount next year. In other words, it entails maximizing production while maintaining intact future capacity to produce. Nor is it only depletion of natural capital that is falsely counted as income; failure to maintain and replace depreciation of man-made capital, such as roads and bridges, has the same effect. Much of what we count in GDP is capital consumption and anti-bads.

As argued above, one reason that growth may be uneconomic is that we discover that its neglected costs are greater than we thought. Another reason is that we discover that the extra benefits of growth are less than we thought. This second reason has been emphasized in the studies of self-evaluated happiness, which show that beyond a threshold annual income of some $20-25,000, further growth does not increase happiness. Happiness, beyond this threshold, is overwhelmingly a function of the quality of our relationships in community by which our very identity is constituted, rather than the quantity of goods consumed. A relative increase in one’s income still yields extra individual happiness, but aggregate growth is powerless to increase everyone’s relative income. Growth in pursuit of relative income is like an arms race in which one party’s advance cancels that of the other. It’s like everyone standing and craning their neck in a football stadium while having no better view than if everyone had remained comfortably seated.

As aggregate growth beyond sufficiency loses its power to increase welfare, it increases its power to produce illth. This is because to maintain the same rate of growth, ever more matter and energy has to be mined and processed through the economy, resulting in more depletion, more waste, and requiring the use of ever more powerful and violent technologies to mine the ever leaner and less accessible deposits. Petroleum from an easily accessible well in East Texas costs less labor and capital to extract, and, therefore, directly adds less to GDP, than petroleum from an inaccessible well a mile under the Gulf of Mexico. The extra labor and capital spent to extract a barrel in the Gulf of Mexico is not a good or an addition to wealth—it is more like an anti-bad made necessary by the bad of depletion, the loss of a natural subsidy to the economy. In a full-employment economy, the extra labor and capital going to petroleum extraction would be taken from other sectors, so aggregate real GDP would likely fall. But the petroleum sector would increase its contribution to GDP as nature’s subsidy to it diminished. We would be tempted to regard it as more, rather than less, productive.

The next time some economist or politician tells you we must do everything we can to grow (in order to fight poverty, win wars, colonize space, cure cancer, whatever…), remind him or her that when something grows it gets bigger! Ask him how big he thinks the economy is now, relative to the ecosphere, and how big he thinks it should be. And what makes him think that growth is still causing wealth to increase faster than illth? How does he know that we have not already entered the era of uneconomic growth? And if we have, then is not the solution to poverty to be found in sharing now, rather than in the empty promise of growth in the future?

Fitting the Name to the Named (March 28, 2011)

There may well be a better name than “steady state economy,” but both the classical economists (especially John Stuart Mill) and the past few decades of discussion, not to mention CASSE’s good work, have given considerable currency to “steady state economy” both as concept and name. Also, both the name and concept of a “steady state” are independently familiar to demographers, population biologists, and physicists. The classical economists used the term “stationary state” but meant by it exactly what we mean by steady state economy; briefly, a constant population and stock of physical wealth. We have added the condition that these stocks should be maintained constant by a low rate of throughput (of matter and energy), one that is well within the regenerative and assimilative capacities of the ecosystem. Any new name for this idea should be sufficiently better to compensate for losing the advantages of historical continuity and interdisciplinary familiarity. Also, “steady state economy” conveys the recognition of biophysical constraints and the intention to live within them economically, which is exactly why it can’t help evoking some initial negative reaction in a growth-dominated world. There is an honesty and forthright clarity about the term “steady state economy” that should not be sacrificed to the short-term political appeal of vagueness.

Fitting the name (and a logo) to the named.

A confusion arises with neoclassical growth economists’ use of the term “steady-state growth” to refer to the case where labor and capital grow at the same rate, thus maintaining a constant ratio of labor to capital, even though both absolute magnitudes are growing. This should have been called “proportional growth,” or perhaps “steady growth.” The term “steady-state growth” is inept because growth is a process, not a state, not even a state of dynamic equilibrium.

Having made my terminological preference clear, I should add that there is nothing wrong with other people using various preferred synonyms, as long as we all mean basically the same thing. Steady state, stationary state, dynamic equilibrium, microdynamic-macrostatic economy, development without growth, degrowth, post-growth economy, economy of permanence, “new” economy, “mature” economy…these are all in use already, including by me at times. I have learned that English usage evolves quite independently of me, although like others I keep trying to “improve” it for both clarity and rhetorical advantage. If some other term catches on and becomes dominant then so be it, as long as it denotes the reality we agree on. Let a thousand synonyms bloom and linguistic natural selection will go to work. Also, it is good to remind sister organizations that their favorite term, when actually defined, is usually a close synonym to steady state economy. If it is not, then we have a difference of substance rather than of terminology.

Out of France now comes the “degrowth” (décroissance) movement. This arises from the recognition that the present scale of the economy is too large to be maintained in a steady state—its required throughput exceeds the regenerative and assimilative capacities of the ecosystem of which it is a part. This is almost certainly true. Nevertheless “degrowth,” just like growth, is a temporary process for reaching an optimal or at least sustainable scale that we then should strive to maintain in a steady state.

Some say it is senseless to advocate a steady state unless we first have attained, or can at least specify, the optimal level at which to remain stationary. On the contrary, it is useless to know the optimum unless we first know how to live in a steady state. Otherwise knowing the optimum level will just allow us to wave goodbye to it as we grow beyond it, or as we “degrow” below it.

Optimal level is one thing; optimal growth rate is something else. Once we have reached the optimal level then the optimal growth rate is zero. If we are below the optimal level the temporary optimal growth rate is at least known to be positive; if we are above the optimal level we at least know that the temporary growth rate should be negative. But the first order of business is to recognize the long-run necessity of the steady state and to stop positive growth. Once we have done that, then we can worry about how to “degrow” to a more sustainable level, and how fast.

There is really no conflict between the steady state economy and “degrowth” because no one advocates negative growth as a permanent process; and no one advocates trying to maintain a steady state at the unsustainable present scale of population and consumption. But many people do advocate continuing positive growth beyond the present excessive scale, and they are the ones in control and who need to be confronted by a united opposition!

War and Peace and the Steady State Economy (April 29, 2015)

My parents were children during World War I, the so-called “war to end all wars.” I was a child during WWII, an adolescent during the Korean War, and except for a physical disability would likely have been drafted to fight in the Vietnam War. Then came Afghanistan, Iraq, the continuous Arab-Israeli conflict, ISIS, Ukraine, Syria, etc. Now as a senior citizen, I see that war has metastasized into terrorism. It is hard to conceive of a country at war, or threatened by terrorism, moving to a steady state economy.

Peace is necessary for real progress, including progress toward a steady state economy. While peace should be our priority, might it nevertheless be the case that working toward a steady state economy would further the goal of peace? Might growth be a major cause of war, and the steady state a necessity for eliminating that cause? I think this is so.

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Growth goals beyond the optimum march inevitably toward death and destruction. (CC BY 2.0, manhhai)

More people require more space (lebensraum) and more resources. More things per person also require more space and more resources. Recently I learned that the word “rival” derives from the same root as “river.” People who get their water from the same river are rivals, at least when there are too many of them, each drawing too much.

For a while, the resource demands of growth can be met from within national borders. Then there is pressure to exploit or appropriate the global commons. Then comes the peaceful penetration of other nations’ ecological space by trade. The uneven geographic distribution of resources (petroleum, fertile soil, water) causes specialization among nations and  interdependence along with trade. Are interdependent nations more or less likely to go to war? That has been argued both ways, but when one growing nation has what another thinks it absolutely needs for its growth, conflict easily displaces trade. As interdependence becomes more acute, then trade becomes less voluntary and more like an offer you can’t refuse. Unless trade is voluntary, it is not likely to be mutually beneficial. Top-down global economic integration replaces trade among interdependent national economies. We have been told on highest authority that because the American way of life requires foreign oil, we will have it one way or another.

International “free trade pacts” (NAFTA, TPP, TAFTA) are supposed to increase global GDP, thereby making us all richer and effectively expanding the size of the earth and easing conflict. These secretly negotiated agreements among the elites are designed to benefit private global corporations, often at the expense of the public good of nations. Some think that strengthening global corporations by erasing national boundaries will reduce the likelihood of war. More likely we will just shift to feudal corporate wars in a post-national global commons, with corporate fiefdoms effectively buying national governments and their armies, supplemented by already existing private mercenaries.

It is hard to imagine a steady state economy without peace; it is hard to imagine peace in a full world without a steady state economy. Those who work for peace are promoting the steady state, and those who work for a steady state are promoting peace. This implicit alliance needs to be made explicit. Contrary to popular belief, growth in a finite and full world is not the path to peace, but to further conflict. It is an illusion to think that we can buy peace with growth. The growth economy and warfare are now natural allies. It is time for peacemakers and steady staters to recognize their natural alliance.

It would be naïve, however, to think that growth in the face of environmental limits is the only cause of war. Evil ideologies, religious conflict, and “clash of civilizations” also cause wars. National defense is necessary, but uneconomic growth does not make our country stronger. The secular West has a hard time understanding that religious conviction can motivate people to kill and die for their beliefs. Modern devotion to the Secular God of Growth, who promises heaven on earth, has itself become a fanatical religion that inspires violence as much as any ancient Moloch. The Second Commandment, forbidding the worship of false gods (idolatry) is not outdated. Our modern idols are new versions of Mammon and Mars.


Brian Czech is CASSE’s executive director. Herman Daly (1938-2022) was a long-time CASSE board member and economist emeritus.

‘Para mim, o termo mudança climática significa vingança da Terra’ (Sumaúna)

O líder político Davi Kopenawa. Foto: Victor Moriyama/ISA

Voz da Floresta

Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o líder político Davi Kopenawa conta de sua esperança de que Lula tenha se tornado mais sábio para ser capaz de proteger a Amazônia: “Antes, ele errou. Não quero que nos engane novamente”

Sumaúma

22 novembro 2022

O nome de Davi Kopenawa foi anunciado para compor a equipe de transição que discutirá a criação do Ministério dos Povos Originários, promessa de campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Grande liderança política dos Yanomami, que ocupam há milênios a floresta amazônica entre o Brasil e a Venezuela, Davi é uma referências dos povos originários no planeta. Em sua trajetória de enfrentamento dos invasores de suas terras, não há notícia de que tenha jamais se corrompido. Nem por riqueza material nem por vaidade, mal que acomete alguns líderes ao penetrar no insidioso mundo dos brancos – ou napëpë, na língua Yanomam, palavra traduzida também como “inimigo”. Davi se manteve fiel a sua ancestralidade, aos seus mais velhos, à cosmopolítica xamânica, o que faz dele uma árvore muito sólida no complexo mundo que une numa palavra impingida pelos colonizadores – “indígenas” – mais de 300 povos no Brasil com culturas muito diversas. O xamã chega à equipe de transição com esperanças, mas também com memória: “Antes, Lula errou. Ele está mais velho, talvez tenha ficado mais sábio. Talvez Lula tenha aberto o seu pensamento, mas ninguém sabe o que ele esconde em seu coração. Não quero que nos engane novamente”.

Radical no seu compromisso com a palavra, que na política que aprendeu não pode ser sacrificada em nome de interesses, a verdade para Davi Kopenawa é inegociável. Dessa retidão que não admite uma “boca que fala mentiras” vêm as respostas do intelectual da Amazônia nesta entrevista feita na língua Yanomam pela indigenista e antropóloga Ana Maria Machado (e traduzida por ela) a pedido de SUMAÚMA. Autor, com o antropólogo francês Bruce Albert, de A queda do céu (Companhia das Letras, 2015), livro que representa uma inflexão na antropologia, Davi sabe que fala para aqueles que chama de “povo da mercadoria”. Observador atento dos debates climáticos que frequenta pelos palcos do mundo, ele acredita que Lula só irá se mover se houver forte pressão e financiamento da proteção da Amazônia pelos países monetariamente mais ricos, em especial os europeus.

Davi Kopenawa é também um competente tradutor de mundos. Consegue traduzir o universo dos brancos para os Yanomami e também traz até nós, nesta entrevista, recados que lhes são passados pelos xapiripë [espíritos auxiliares dos xamãs]. Traduz ainda o pedido de socorro de uma velha liderança, que não conhece o mundo dos brancos para além do horror da destruição do garimpo que devora toda vida em sua aldeia. Com o território invadido por milhares de garimpeiros, hoje o contexto é pior do que qualquer outro na trajetória de brutalidades vivida pelos Yanomami desde o primeiro contato com os brancos, na primeira metade do século 20: há envolvimento do crime organizado, com armas pesadas, e aliciamento dos indígenas mais jovens.

O líder Yanomami espera que a expulsão dos invasores do território de seu povo seja o primeiro ato do presidente após a posse, em 1º de janeiro. Para que a vitória de Lula se tornasse possível em uma disputa tão apertada com o extremista de direita Jair Bolsonaro, ele conta ter sido necessário um esforço conjunto dos xamãs em 30 de outubro, data do segundo turno da eleição. Faz ainda um apelo aos leitores, para que deixem de comprar ouro, esse ouro com sangue Yanomami e também de outros povos originários, esse ouro que destrói a verdadeira riqueza, a floresta, para colocar valor no metal convertido em mercadoria ordinária.

A seguir, a palavra de Davi Kopenawa.


ANA MARIA MACHADO: Agora que Lula venceu a eleição, o que você espera do novo presidente?

DAVI KOPENAWA: Eu vou explicar para os napëpë [napë = branco, inimigo, estrangeiro + = plural] o que nós, da comunidade do Watorikɨ, estamos pensando. Nós ficamos sabendo que aquele que já foi presidente voltará ao poder, então dissemos assim: “Dessa vez, ele talvez tenha se tornado mais sábio. Antes, ele errou, mas agora talvez esteja pensando corretamente, e por isso quero que ele se torne um presidente de verdade. Não quero que nos engane novamente. Ele vai voltar a ser o presidente e ficará de fato atento às nossas terras. Ele irá olhar para nós e pensar sobre nós. Se ele nos defender, ficaremos contentes com ele”.

O que está acontecendo hoje na Terra Indígena Yanomami que Lula precisa resolver com mais urgência?

Hoje, a fala dos velhos, dos líderes Yanomami, é cheia de sofrimento. Apenas eu frequento a cidade, e por isso consigo espalhar essas palavras. Tudo está muito ruim em nossas terras, os garimpeiros levam o horror. Agora que Lula virou presidente, em primeiro lugar precisa expulsá-los, retirá-los de verdade. Eu não estou dizendo isso sem razão, mas sim porque estamos vivendo o caos. E por quê? Porque eles assorearam os rios, porque poluem as águas e porque as águas se tornaram muito turvas nos lugares onde só tem um rio correndo. Eles estragaram as cabeceiras dos rios que nascem em nossas serras. Aqueles de nós que vivem perto do garimpo estão sofrendo, passando fome. Os garimpeiros não param de chegar. Nós [Yanomami] conversamos entre os diferentes lugares da nossa terra, temos a radiofonia para nos comunicar. Um parente mais velho da região do Xitei, que me trata como filho, disse que a situação ali está calamitosa. Ele disse que as pessoas mais velhas como ele estão cansadas de ver os garimpeiros sempre chegando, sempre trabalhando nas águas, sempre sujando as águas. E não é só isso: estão muito bravos por causa das armas. Aqueles Yanomami mais ignorantes disseram que os garimpeiros poderiam chegar lá levando armas. Porém, aquelas pessoas que destroem a floresta têm armas pesadas. Essas armas não são como as flechas, os garimpeiros distribuem revólveres. Eles tratam os mais novos como se fossem lideranças, iludem os Yanomami mais jovens dizendo: “Pegue uma arma! Se você tiver uma arma, será nosso amigo. Se você ficar contra nós, não irá receber uma arma”. Ao falarem assim com os jovens, aumentaram a quantidade de armas entre os Yanomami, e os garimpeiros fazem que nos matemos entre nós. Esse meu pai lá do Xitei explicou: “Se não estivéssemos nos matando entre nós, eu não precisaria estar aqui explicando. Meu filho, vá e diga isso para aquele que se tornou o líder [presidente]. Que afaste os garimpeiros que trabalham em nossa terra. Diga isso a ele. Você conhece os líderes dos napëpë, cobre que façam isso, que acabem com essas pessoas que estão em nossas terras, que as levem para longe”. Foi isso que meu pai me disse, e estou passando para a frente. É por tudo isso que eu estou reivindicando: Lula, não comece trabalhando nas terras dos brancos primeiro. Antes, retire os garimpeiros da nossa terra. Agora, Lula, você se tornou o presidente e, no mês de janeiro, vai se sentar no Palácio do Planalto. Nesse dia, comece a mandar os garimpeiros embora.

Era isso que eu queria dizer para vocês, brancos. E não estou dizendo isso à toa. Não quero ficar aqui sofrendo enquanto tiram minha imagem [filmam], o que estou reivindicando é verdadeiro, a terra adoecida está se espalhando por todos os cantos. É porque tem malária demais e porque o descontrole da malária chegou com o garimpo, é porque as nossas mulheres estão sofrendo demais, é porque nos lugares das terras altas onde não tem mais caça o espírito da fome, Ohinari, se aproximou. Já que eu conheço o novo presidente, vou cobrar, dizendo: “Quando você discursou, eu o escutei. Todos nós guardamos suas palavras em nossos ouvidos. Nós indígenas e também os napëpë, todos ouvimos suas palavras pelo celular. Não queremos ficar com nosso pensamento em sofrimento caso você esteja mentindo. Que seja verdade o que você disse em reunião, que caso se tornasse presidente novamente iria proteger os povos indígenas, que estão sofrendo no Brasil. Eu não quero que continuem destruindo a floresta que vocês brancos chamam de Amazônia. Portanto, Lula, é isso que estou te cobrando, que você faça isso primeiro”.

É verdade. Lula disse que não irá aceitar garimpo em terra indígena. Mas, nos anos 1990, quando seus parentes mais velhos morreram na primeira invasão garimpeira [1986-1993], quando aconteceu a operação Selva Livre, que tirou 40 mil garimpeiros, naquele tempo não havia crime organizado e milícias envolvidos nem os jovens Yanomami eram aliciados como agora. Hoje em dia o tráfico de drogas está misturado ali, assim como pessoas que fugiram da prisão. Eles têm armas pesadas e bombas. Será que não vai ser mais difícil tirar os garimpeiros hoje? Será que os jovens Yanomami que estão envolvidos vão opor alguma resistência? Apesar de termos Lula agora no governo, será possível acabar com o garimpo?

É verdade que hoje em dia a situação está muito ruim, tem muitas coisas misturadas. Os napëpë têm trazido drogas, cachaça e até cocaína. Com tudo isso misturado, os garimpeiros ficam alterados. Eles trabalham drogados. Os homens cheiram cocaína e ficam sentindo tesão pelas nossas mulheres. Como eles não vêm acompanhados de suas mulheres, eles cheiram cocaína e o pensamento deles fica alterado, eles ficam destemidos e pensam assim: “Já que eu estou drogado, estou sem medo. Já que estou sem medo, eu chamo as mulheres Yanomami, como suas vaginas e faço filhos nelas”. Hoje em dia essas pessoas também têm metralhadoras, bombas, e os garimpeiros dizem: “Se quiserem nos expulsar, mesmo sendo a Polícia Federal, nós vamos matá-los”. Além disso, tem também o mercúrio usado para separar o ouro, que está no meio de tudo. Tudo isso é terrível. O presidente Lula vai mandá-los sair, mas talvez não o escutem. Eu também fico pensando sobre isso. Se o escutarem, todas as pessoas do Brasil e da Europa, aqueles outros que querem que ele mantenha a floresta amazônica em pé e saudável, para mim está certo se eles o mandarem cuidar da floresta e lhe derem dinheiro para que retire os garimpeiros. Se for criada uma frente mundial em que todos nós conversemos juntos, unindo as autoridades dos napëpë e nós, indígenas, então conseguiremos nos defender, pois nós, indígenas, já sabemos lutar. Essa não é a terra dos garimpeiros, e já que eles têm causado o horror em nossas terras, levando muita desgraça misturada, já que eles têm feito as crianças sofrerem, magras e desnutridas, já que o garimpo mata os Yanomami pelo mal das epidemias, pelo mal da fome nos rios Uraricoera, Mucajaí, nas cabeceiras do rio Catrimani, e também em Homoxi, Xitei, Parafuri e Parima, nós temos que lutar.

Mas, para curar a Terra-floresta, vocês precisam também baixar o preço do ouro, precisam cortar isso. Vocês, napëpë, que pedem ouro, que compram ouro, precisam parar. Vocês das lojas de ouro, precisam baixar o preço. Como o ouro é muito caro, os garimpeiros estão sempre invadindo minha terra. Você, mulher que entende nossa língua Yanomam, vai escrever e traduzir, e para aqueles que captam minha imagem, quando eu aparecer, quando vocês ouvirem minhas palavras, me levem a sério, concordem comigo, e digam: “Sim, é verdade! Nós erramos. Nós não sabemos respeitar. Até falamos em respeito, mas estamos enganando, nossas bocas não dizem a verdade”. Era isso que eu queria dizer a vocês.

Quando Lula se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, ele mudou a regulação das ONGs, o que levou ao fim da Urihi-Saúde Yanomami. A Urihi fez um excelente trabalho de atendimento de saúde para os Yanomami [entre 1999 e 2004] e conseguiu erradicar a malária em sua terra. Hoje, estamos vendo a malária fora de controle. O que o governo deve fazer com relação à saúde indígena?

Foi o seguinte: no início, Lula errou. Ele não sabia pensar direito. E, por ter errado no início, aconteceu isso. Ele também fez [a Usina Hidrelétrica de] Belo Monte, e esse foi um grande erro. Estragou um grande rio sem razão. Também errou com a saúde indígena. Lula errou na saúde, no assunto de viver bem e saudável, e tudo enfraqueceu. Os remédios pararam de chegar, os funcionários napëpë que trabalham em nossas terras, como técnico de enfermagem, médico e dentista, passaram a trabalhar de forma precária, já que não enviavam material. Então eu sei um pouco sobre isso, mas escondo essas palavras. Quando Lula se tornar mesmo o presidente, eu quero falar de perto com ele. “Lula, você me conhece, você precisa melhorar a saúde indígena. Precisa limpar novamente a saúde indígena, fazer os técnicos e profissionais de saúde trabalharem de verdade”. No governo de Bolsonaro, são os políticos que escolhem os coordenadores de saúde; [com Lula] eu e os conselheiros locais [representantes de toda a Terra Indígena Yanomami] vamos sentar para indicar alguém que a gente conheça, que seja nosso amigo e que trabalhe bem com a gente, só assim a saúde vai melhorar. É isso que quero dizer a Lula. Já que a saúde é prioridade para podermos viver bem, para nossos filhos crescerem bem, e considerando que estamos em uma situação lastimável, vou reivindicar isso. O presidente Jair Bolsonaro acabou com a nossa saúde. Ele nos matou como se fôssemos peixes.

Lula disse que vai criar o Ministério dos Povos Originários. O que você pensa disso?

É verdade. Ele disse que faria isso caso se tornasse presidente. E, já que ele disse, agora temos mulheres indígenas jovens que possuem o conhecimento dos napëpë, sabem agir como napëpë. Existem também jovens que sabem agir como os napëpë, sabem usar as máquinas, os celulares. E, já que temos essas pessoas que sabem trabalhar assim, eu penso o seguinte: “Awei, presidente Lula, já que você disse com clareza, eu deixei isso fixado no meu pensamento”. Acho que a dra. Joenia [Wapichana] já tem experiência, pois ela trabalhou como deputada federal por 4 anos, ela já sabe lutar. Como ela é advogada, já sabe escutar os políticos, e por isso eu gostaria que Lula a indicasse para ministra. Se Joenia disser que deseja se tornar ministra dos Povos Originários, nós vamos apoiá-la, faremos ela assentar naquela cadeira. Ter uma mulher indígena assentada ali nos trará mais sabedoria. Temos outras, como Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, que acabaram de se eleger deputadas. A dra. Joenia não foi eleita, por isso estou pensando nela, que é muito inteligente e já sabe lutar. Então, foi isso que os meus sonhos disseram, e por isso fiz aparecer essa ideia.

Nós, napëpë, somos o povo da mercadoria e estamos acabando com as florestas e com o planeta. Por isso o mundo está preocupado com a crise climática, e para contê-la é preciso conservar as florestas. Sabemos que vocês têm sabedoria para isso. Que recado você teria a dar sobre esse assunto?

Todos os napëpë ficam falando de proteger as florestas. Falam de mudanças climáticas, desmatamento, poluição dos rios, mercúrio, doenças, mineração. Assim, Lula atentou para essas questões. Outras pessoas, os europeus, falam sobre as mudanças climáticas, fazem reuniões. Mas as pessoas não resolvem isso, não resolveram nada. Esse termo, “mudanças climáticas”, para mim é outra coisa. Eu chamo mesmo de “vingança da Terra”, de “vingança do mundo”, é assim que eu digo. Os napëpë chamam de “mudanças climáticas”, mas nós, Yanomami, quando fazemos xamanismo, chamamos de “transformação do mundo, tornar o mundo ruim já que os napëpë causam a revolta da Terra”. Os napëpë incendeiam as árvores; a Terra-floresta está com raiva, está se vingando, está fazendo chover muito, ter grandes ondas de calor, em alguns lugares está faltando água e em outros está chovendo demais, e outros ainda estão frios. Foi pelo fato de as pessoas dizerem isso, por termos ficado falando sobre isso, que Lula abriu seu pensamento. Ou melhor: talvez tenha aberto seu pensamento. Nós não sabemos o que ele esconde em seu coração. O que eu escondo em meu coração e em meu pensamento, o que nós escondemos das pessoas, é um segredo. Por isso talvez Lula esteja ainda nos enganando. Se o pensamento dele estiver nos enganando, ele vai resolver os pequenos problemas, mas não os grandes. Mas se outros napëpë, aqueles que vivem na outra margem do oceano [Europa], se eles forem ajudar e oferecerem um grande financiamento, talvez o pensamento de Lula mude. É assim que eu penso. Lula não cresceu sozinho. O povo levantou as palavras de Lula, vocês fizeram ele assentar naquela cadeira [da presidência]. Hoje em dia ele está mais velho, talvez tenha se tornado mais sábio.

Davi, você me disse que vocês, xamãs, ajudaram Lula a se eleger. Conte como foi isso, por favor.

Nós, xamãs que vivemos no Watorikɨ e também os outros xamãs de outras casas, como o Maxokapi, eu os mandei fazer isso [xamanismo para apoiar Lula]. Nós ajudamos Lula, nós o levantamos: eu, Carlos, os xamãs mais jovens, Tenose, Valmir, Dinarte, Geremias, Pernaldo, Manoel. Lula ficou apoiado na hutukara [céu]. Então os xamãs pediram para eu dizer a Lula: “Awei! Você quase perdeu. Se os espíritos xapiripë [xapiri = espírito auxiliar dos xamãs + = plural] não tivessem chegado ali, você não teria se tornado presidente outra vez. Você não os viu, eles estavam no Watorikɨ, e no dia 30 chegaram [até você]. Já que eles conhecem Brasília, já que Davi conhece aquela terra, nós, xapiripë, também conhecemos, nós olhamos no mapa e, pelo fato de termos chegado lá, nós tivemos vitória”.

Nós, xamãs de duas comunidades, trabalhamos por isso. Nós inalamos yakoana [pó da árvore virola sp, usado pelos xamãs para ver os xapiripë]. Chegamos até o grande xapiri, Omama, e dissemos a ele: “Awei! Você que é grande xapiri, que conhece o mundo inteiro, conhece todas as terras, já que seus olhos enxergam essas coisas por dentro e também pela superfície, já que seus olhos estão atentos a tudo o que ocorre no mundo, nós queremos elevar Lula para que ele se torne presidente outra vez, nós iremos apoiar o pensamento dele. Vamos manter nosso pensamento primeiro no céu, na hutukara, e assim ele vai se levantar [ter chances de ganhar a eleição]. O outro, Bolsonaro, aquele que tem a boca cheia de ignorância, se o povo dele o apoiar e o levantar, iremos sofrer muito. O presidente Jair Bolsonaro é terrível, e, se ele ganhar as eleições, aí sim ficaremos sofrendo. Ele é um apoiador da ditadura militar, portanto não faz amizade com a floresta. Não cuida dos rios e não sente tristeza por nós, povos da floresta”. Então, como Omama fez a nossa terra nos primeiros tempos, ele escreveu em um papel a expressão “defensor da floresta”, e foi isso que nós, xamãs, decidimos e dissemos: “Vamos escolher aquele que quer nos manter vivendo com saúde, vamos negar o papel onde está escrito o nome daquele que não quer o nosso bem-viver”.

Por causa disso, nós, do Watorikɨ, chegamos até Lula, chegamos a Brasília. Ao chegarmos lá, os napëpë não nos viram, pois chegamos bem suavemente. Com calma e devagar, chegamos até o pensamento dele. “Awei! Você, Lula, já que quer se tornar presidente outra vez, se apoie aqui onde Omama apoiou o nosso pensamento. Se você se apoiar aqui, vai se tornar o presidente. E, caso você se torne o presidente, queremos que você pense em nós em primeiro lugar. Diminua aqueles que estão sempre fazendo coisas ruins, torne-os pequenos. Feche esse buraco da maldade.”

U.N. Climate Talks End With a Deal to Pay Poor Nations for Damage (New York Times)

nytimes.com

Brad Plumer, Max Bearak, Lisa Friedman, Jenny Gross

Nov. 20, 2022


Nations reached a landmark deal to compensate developing nations for climate harm. But some leaders said the summit didn’t go far enough in addressing the root causes of global warming.

A man in a dark suit, seated at a long desk, reads while others stand next to him and applaud. In the background, a wall is blue with a wavy light blue line.
Sameh Shoukry, the Egyptian foreign minister, seated, reading a statement at the closing session of climate talks in Sharm el Sheikh. Credit: Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Nov. 20, 2022, 3:33 a.m. ET

SHARM EL SHEIKH, Egypt — Diplomats from nearly 200 countries concluded two weeks of climate talks on Sunday by agreeing to establish a fund that would help poor, vulnerable countries cope with climate disasters made worse by the greenhouse gases from wealthy nations.

The decision on payments for loss and damage caused by global warming represented a breakthrough on one of the most contentious issues at United Nations climate negotiations. For more than three decades, developing nations have pressed rich, industrialized countries to provide compensation for the costs of destructive storms, heat waves and droughts linked to rising temperatures.

But the United States and other wealthy countries had long blocked the idea, for fear that they could face unlimited liability for the greenhouse gas emissions that are driving climate change.

The loss and damage agreement hammered out in this Red Sea resort town makes clear that payments are not to be seen as an admission of liability. The deal calls for a committee with representatives from 24 countries to work over the next year to figure out exactly what form the fund should take, which countries and financial institutions should contribute, and where the money should go. Many of the other details are still to be determined.

Developing countries hailed the deal as a landmark victory.

“The announcement offers hope to vulnerable communities all over the world who are fighting for their survival from climate stress,” said Sherry Rehman, the climate minister of Pakistan, which suffered catastrophic flooding this summer that left one-third of the country underwater and caused $30 billion in damages. Scientists later found that global warming had worsened the deluges.

While the new climate agreement dealt with the damages from global warming, it did far less to address the greenhouse gas emissions that are the root cause of the crisis. Experts say it is crucial for all nations to slash their emissions much more rapidly in order to keep warming at relatively safe levels. But the deal did not go much beyond what countries agreed to last year at U.N. climate talks in Glasgow.

“The loss and damage deal agreed is a positive step, but it risks becoming a ‘fund for the end of the world’ if countries don’t move faster to slash emissions,” said Manuel Pulgar-Vidal, who presided over the United Nations summit in 2014 and is now the climate lead for the World Wide Fund for Nature. “We cannot afford to have another climate summit like this one.”

The new agreement emphasizes that countries should strive to limit global warming to 1.5 degrees Celsius, or 2.7 degrees Fahrenheit, above preindustrial levels. Beyond that threshold, scientists say, the risk of climate catastrophes increases significantly. Early in the summit, some negotiators feared that the talks would abandon a focus on that target, which many vulnerable nations, such as low-lying islands in the Pacific, see as essential to their survival.

Current policies by national governments would put the world on track for a much hotter 2.1 to 2.9 degrees Celsius of warming this century, compared with preindustrial levels. Staying at 1.5 degrees would require countries to slash their fossil-fuel emissions roughly in half this decade, a daunting task.

India and more than 80 other countries wanted language that would have called for a “phase-down” of all fossil fuels, not just coal, but also oil and gas. That would have gone beyond the deal at Glasgow, which called for a “phase-down” of coal only. But that effort was blocked by major oil producers like Canada and Saudi Arabia, as well as by China, according to people close to the negotiations.

“It is more than frustrating to see overdue steps on mitigation and the phaseout of fossil energies being stonewalled by a number of large emitters and oil producers,” said Annalena Baerbock, the German foreign minister, in a statement.

A man in a dark suit and a woman in black bump fists.
Xie Zhenhua, China’s special envoy for climate, and Sherry Rehman, Pakistan’s climate minister, at the COP27 closing session on Sunday. Credit: Peter Dejong/Associated Press

Frans Timmermans, the European Union’s top climate official, said the deal fell far short of what was needed and was a sign of the growing gap between climate science and national climate policies. Too many countries blocked measures needed to address global warming, he said.

“Friends are only friends if they also tell you things you might not want to hear,” Mr. Timmermans said. “This is the make-or-break decade, but what we have in front of us is not enough of a step forward for people and planet.”

The two-week summit, which had been scheduled to end on Friday, stretched until dawn on Sunday as exhausted negotiators from nearly 200 nations clashed over fine print. The talks came at a time of multiple crises. Russia’s invasion of Ukraine has roiled global food supply and energy markets, stoked inflation and spurred some countries to burn more coal and other alternatives to Russian gas, threatening to undermine climate goals.

At the same time, rising global temperatures have intensified deadly floods in places like Pakistan and Nigeria, as well as fueled record heat across Europe and Asia. In the Horn of Africa, a third year of severe drought has brought millions to the brink of famine.

Much of the focus over the past two weeks was on loss and damage.

Developing nations — largely from Asia, Africa, Latin America, the Caribbean and South Pacific — fought first to place the debate over a loss and damage fund on the formal agenda of the two-week summit. And then they were relentless in their pressure campaign, arguing that it was a matter of justice, noting they did little to contribute to a crisis that threatens their existence. They made it clear that a summit held on the African continent that ended without addressing loss and damage would be seen as a moral failure.

As the summit neared its end, the European Union consented to the idea of a loss and damage fund, though it insisted that any aid should be primarily focused on the most vulnerable nations, and that aid might include a wide variety of options such as new insurance programs in addition to direct payments.

That left the United States, which has pumped more greenhouse gases into the atmosphere than any nation in history, as the last big holdout. By Saturday, as talks stretched into overtime, American officials said that they would accept a loss and damage fund, breaking the logjam.

Still, major hurdles remain.

There is no guarantee that wealthy countries will deposit money into the fund. A decade ago, the United States, the European Union and other wealthy emitters pledged to mobilize $100 billion per year in climate finance by 2020 to help poorer countries shift to clean energy and adapt to future climate risks through measures like building sea walls. They are still falling short by tens of billions of dollars annually.

And while American diplomats agreed to a fund, money must be appropriated by Congress. Last year, the Biden administration sought $2.5 billion in climate finance but secured just $1 billion, and that was when Democrats controlled both chambers. With Republicans set to take over the House in January, the prospects of Congress approving an entirely new pot of money for loss and damage appear dim.

“Sending U.S. taxpayer dollars to a U.N. sponsored green slush fund is completely misguided,” said Senator John Barrasso, Republican of Wyoming. “The Biden administration should focus on lowering spending at home, not shipping money to the U.N. for new climate deals. Innovation, not reparations, is key to fighting climate change.”

The United States and the European Union secured language in the deal that could expand the donor base to include major emerging economies like China and Saudi Arabia. The United Nations currently classifies China as a developing country, which has traditionally exempted it from obligations to provide climate aid, even though it is now the world’s biggest emitter of greenhouse gases as well as the second-largest economy. The new changes are likely to spark fights in the future, since China has fiercely resisted being treated as a developed nation in global climate talks.

For their part, a variety of European nations have voluntarily pledged more than $300 million to address loss and damage so far, with most of that money going toward a new insurance program to help countries recover from disasters like flooding. Poorer countries have praised those early efforts while noting that they may ultimately face hundreds of billions of dollars per year in unavoidable, irreversible climate damages.

“We have the fund, but we need money to make it worthwhile,” said Mohamed Adow, executive director of Power Shift Africa, a group that aims to mobilize climate action across the continent. “What we have is an empty bucket. Now we need to fill it so that support can flow to the most impacted people who are suffering right now at the hands of the climate crisis.”

Opinião – Luiz Augusto Campos e Márcia Lima: Recomendações para a política de cotas (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Ações afirmativas devem ir além da graduação

Luiz Augusto Campos e Márcia Lima

20 de novembro de 2022


Em 2022, comemoramos 20 anos da implementação das cotas sociais e raciais na Uerj e dez anos da lei federal 12.711/12. As cotas mudaram a cara do ensino superior e o debate acerca de nossas desigualdades.

Com o objetivo de produzir um balanço de seus impactos e subsidiar cientificamente a revisão da lei federal, criamos o Consórcio de Acompanhamento das Ações Afirmativas (CAA). O CAA analisou dados de mais de 7 universidades federais e estaduais, tendo publicado mais de 30 textos na academia e na imprensa sobre o tema.

A despeito de problemas pontuais, as cotas têm um saldo muito positivo. O percentual de jovens pretos, pardos e indígenas pulou de 31% em 2002 para 52% das matrículas em 2021. No mesmo período, o percentual de estudantes de baixa renda saiu de 19% para 52%. Os avanços maiores se deram nos cursos mais concorridos, e quase todas as pesquisas sobre o tema mostram que os cotistas têm desempenho muito similar aos não cotistas. Mais de 70% das pesquisas acadêmicas sobre as cotas as consideram uma política bem-sucedida.

Por tudo isso, o CAA recomenda às forças políticas, eleitas em outubro, a manutenção e expansão do sistema existente, que combina critérios socioeconômicos —para estudantes de escola pública e baixa renda— com cotas raciais. No entanto, é necessário a criação de programas específicos, sensíveis às especificidades das populações indígenas, quilombolas e das pessoas com deficiência. Tendo em vista que pretos e pardos em processo de ascensão social também são vítimas de racismo, apoiamos a criação de subcotas complementares para eles, independentemente da origem escolar.

Outra recomendação é a revisão da faixa de renda, presente na lei federal. O patamar de 1,5 salário mínimo familiar per capita não favorece os mais pobres. Isso vale para a implementação de um sistema de concorrência simultânea, que permita a potenciais cotistas disputarem, ao mesmo tempo, as vagas no sistema de ampla concorrência, fazendo com que as cotas funcionem como piso, não como teto de inclusão.

No que concerne à permanência estudantil, é urgente avançarmos numa política federal, unificada e desburocratizada.

A adequada avaliação da política depende da constituição de um sistema integrado de dados educacionais e do mercado de trabalho que seja aberto, transparente e desidentificado —e que possibilite compreender desde as mudanças na demanda por ensino superior à inserção dos cotistas na vida profissional.

Seria importante incentivar com fomento público pesquisas sobre as comissões de heteroclassificação racial para identificar seu impacto no aprimoramento da inclusão étnico-racial compatível com a complexidade das classificações raciais no Brasil.

Por fim, consideramos importante que as ações afirmativas não fiquem restritas às cotas na graduação. Urge uma lei específica para a pós-graduação, sensível às especificidades desse nível de formação, da mesma forma que instituir políticas de inclusão no mercado de trabalho.

Negros relatam que precisam ir arrumados a consultas para serem mais bem atendidos (Folha de S.Paulo)

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Racismo estrutural prejudica a população negra da atenção básica à saúde mental; profissionais sugerem mudanças na formação

Havolene Valinhos

19 de novembro de 2022


Mesmo não se sentindo bem de saúde, você se preocuparia com que roupa vestir antes de ir ao hospital ou a uma consulta médica? Ou teria receio da forma como seria tratada na hora de dar à luz por causa da cor de sua pele? Esta é apenas uma amostra do que passa pela cabeça da população negra brasileira.

Ainda criança, a trancista Sara Viana, 22, recebia o conselho da mãe de que elas seriam mais bem atendidas se chegassem ao hospital bem vestidas. “Ela falava que os hospitais públicos não atendem bem as pessoas da comunidade. Então eu poderia estar morrendo, mas pensava: tenho que me arrumar minimamente.”

Em 2020, a Sara sentiu na pele o que a mãe temia. Ela afirma que não sabia que estava com infecção na vesícula e foi levada ao hospital às pressas, de pijamas.

“Até meu cabelo estava molhado, pois chovia no dia. Percebi o incômodo da enfermeira da triagem, que nem me examinou e disse que era cólica e deu a classificação como baixo risco. Como estava com muita dor, meu pai e meu irmão me levaram para outro hospital, onde fui atendida por uma médica negra que me deu atenção. A situação era tão grave que passei por cirurgia no mesmo dia”, relembra.

Coordenadora de um grupo sobre maternidade na Casa de Marias, espaço de escuta e acolhimento para mulheres pretas em situação de vulnerabilidade social, a psicóloga Alessandra Marques diz ser comum ouvir relatos de violência obstétrica.

“Há uma ideia de que a mulher negra suporta mais a dor. É comum pacientes relatarem medo antes do parto. Já é um momento de mais fragilidade, e essa mulher pode sentir ainda mais dor porque não consegue relaxar devido à tensão.”

Como parte de um estudo publicado em 2016 e citado com frequência, pesquisadores da Universidade da Virginia (EUA) investigaram 222 estudantes e médicos residentes brancos e descobriram que mais de um terço deles acreditava equivocadamente que negros têm a pele mais espessa que brancos e, por isso, faziam recomendações menos adequadas para tratamentos contra dor. O estudo foi publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences.

Essas situações têm consequências na saúde mental e podem ser agravadas quando não tratadas. “Elas nem sempre encontram escuta qualificada. Pacientes dizem que tiveram suas falas sobre racismo ou solidão da mulher negra invalidadas quando atendidas por psicólogos brancos. Esse tipo de atendimento pode agravar mais o quadro.”

Coordenadora-geral da Casa de Marias, a também psicóloga Ana Carolina Barros Silva ressalta a importância de profissionais negros no atendimento a essa população e cita a própria experiência como exemplo. Ela conta que passou por vários dermatologistas e ginecologistas brancos até encontrar, enfim, profissionais negros que correspondessem a suas expectativas.

“A dermatologia é composta majoritariamente de pessoas brancas, que dificilmente têm formação para lidar com a pele negra e, por isso, usam protocolos que não são adequados.”

De acordo com a fisioterapeuta Merllin de Souza, doutoranda na Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo), o currículo básico dos cursos de saúde não têm disciplinas obrigatórias sobre atenção à população negra. Há, contudo, uma disciplina optativa, chamada Formação do Profissional de Saúde e Combate ao Racismo.

“Esses profissionais estão sendo formados para atender os usuários do SUS, das UBSs, dos postinhos, pessoas pretas periféricas que passam por racismo estrutural?”, questiona. “Às vezes a pessoa chega num estágio grave porque não consegue ter o atendimento necessário.”

Para Souza, a formação básica do médico deixa a desejar nesse aspecto. “O Código de Ética prevê respeito étnico racial, mas a maioria dos conselhos não discute essas questões. É preciso respeitar os direitos humanos e trabalhar o letramento racial com esses profissionais”, afirma.

Ythalo Pau-Ferro, 22, cursa o quarto semestre de medicina na USP e diz que o racismo é evidente nos ambientes de saúde. “Um paciente negro que chega vomitando pode ser considerado um usuário de drogas”, critica. Como homem preto, ele afirma querer contribuir para que esse quadro mude.

A pesquisadora Ana Claudia Sanches Baptista, 34, diz que nunca foi atendida por médicos negros, com exceção de sua psicóloga. “Ela é a primeira profissional negra da área da saúde por quem sou atendida”, diz. E relata que uma vez foi constrangida por uma ginecologista, durante um exame de rotina. “As mulheres negras são consideradas parideiras. Essa médica ficou indignada por eu não querer ter filhos.”

O dentista Guilherme Blum, 31, conta que começou a pesquisar sobre a saúde bucal do homem negro porque sentiu falta dessa abordagem no curso de odontologia. “A população negra é a que mais perde dentes ou tem doença bucal, mas não se fala sobre isso”, diz ele, referindo-se a casos de dor, cárie, perda dentária e necessidade de prótese.

Blum atua no Programa Saúde da Família e relata um episódio no qual um paciente o abraçou porque sentiu identificação e conforto. “Existe um conceito subjetivo de que pessoas pretas aguentam mais a dor, o que na verdade é racismo estrutural.”

Outro atendimento que o marcou foi o de uma criança de 7 anos com a mãe. “Ela disse que ficou feliz por ter me encontrado e chorou ao lembrar que sofreu violência odontológica, tiraram muitos dos seus dentes.”

A discriminação no ambiente de trabalho também traz riscos à saúde psíquica da população negra. A enfermeira Carla Mantovan, 38, relata que passou por situações de racismo ao longo de cinco anos que contribuíram para o avanço de quadros de depressão e também de vitiligo. Ela chegou a se afastar do trabalho por um período, para cuidar do emocional, mas acabou pedindo demissão no início deste ano porque o assédio continuou após seu retorno às atividades.

“Tive que tomar essa decisão em nome da minha saúde mental, porém hoje pago um preço alto. A renda familiar caiu muito, meu marido também ficou sem emprego, e temos financiamentos atrasados e uma bebê de um ano e meio.” Ambos trabalham hoje por conta, como confeiteiros.

“Não registrei boletim de ocorrência nem gravei o que acontecia. Quando reportei aos meus superiores o que acontecia, eu não tinha provas e não validaram o que falei. E quando levei um advogado, as testemunhas se omitiram”, afirma Carla.

A psicóloga da Casa de Marias lembra que, além do racismo, as mulheres pretas enfrentam mais dificuldades no acesso a saúde, educação, moradia e emprego, o que contribui para uma vida “cada vez mais precarizada”. “Somados, todos esses elementos produzem sofrimento psíquico. Começam a surgir sintomas psicossomáticos, transtornos de ansiedade, depressão, insônia”, diz Silva.

Quanto aos homens, ela ressalta que o homem preto é cobrado para ser forte e raramente busca ajuda profissional quando o assunto é saúde mental. “Muitos buscam apoio quando já estão em um estado de surto, de depressão grave.”

Brasil pode levar quase 116 anos para atingir equilíbrio entre negros e brancos (Folha de S.Paulo)

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Em duas décadas, região Norte foi a única que chegou ao patamar de equilíbrio racial; Centro-Oeste teve maior avanço

Douglas Gavras, Patrick Fuentes e Cristina Sano

19 de novembro de 2022


Concluindo um mestrado em comunicação na UFBA (Universidade Federal da Bahia), Mariana Gomes, 24, é de uma família que foi transformada pela educação. Seu avô deixou o interior da Bahia para se tornar médico, o que estimulou a geração seguinte a ter um diploma superior e, em seguida, a geração dos netos.

Cotista, ela teve a possibilidade de dividir as cadeiras da graduação com outros alunos negros. “A minha geração já tem a referência da universidade como possibilidade real de manter esse processo de ascensão e conquistar direitos básicos.”

Agora, além de ver a necessidade de manter e aprimorar as políticas de acesso ao ensino superior, ela quer pensar no dia seguinte. “É preciso que mais pretos e pardos percebam a educação como possibilidade de resguardar direitos e avançar em oportunidades de trabalho e autonomia.”

Apesar de avanços no aumento da diversidade no ensino superior, mantido o ritmo atual, o Brasil deve levar quase 116 anos para que pretos e pardos tenham acesso às mesmas oportunidades que os brancos, de acordo com a mais recente edição do Ifer (Índice Folha de Equilíbrio Racial).

Enquanto políticas, como o sistema de cotas raciais, ajudaram a melhorar o indicador de equilíbrio racial para a educação —e ainda assim, a diferença em relação aos brancos só deve ser superada em 34 anos— a redução da desigualdade de renda e longevidade decepciona.

Quando considerada a renda, o tempo necessário até o equilíbrio é de 406 anos. No caso da sobrevida ou longevidade, a maior parte dos estados do país está em relativo equilíbrio racial, mas os indicadores têm piorado rumo ao desequilíbrio, segundo o Ifer.

O índice é uma ferramenta cuja metodologia foi elaborada no ano passado pelos pesquisadores do Insper Sergio Firpo, Michael França —ambos colunistas da Folha— e Alysson Portella.

Ele ajuda a medir a distância entre a desigualdade racial no país e um cenário hipotético de equilíbrio, em que a presença dos negros nas faixas com melhores condições de vida refletisse o peso que eles têm na população com 30 anos ou mais.

Seus componentes são ensino superior completo, sobrevida e presença no topo da pirâmide de renda, tendo como base a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ao longo deste mês, outras reportagens irão detalhar o que ocorreu com esses itens.

O resultado é um indicador que varia de -1 a 1. Quanto mais próximo de -1, maior é a representação dos brancos em relação aos negros; já o valor muito perto de 1 aponta um cenário hipotético, em que a população negra teria mais representação.

Além disso, quanto mais próximo de zero estiver o número, mais perto o indicador vai estar do equilíbrio racial, considerando-se a população de referência.

Para estimar o tempo que falta até chegar o equilíbrio, é feito um cálculo usando a linha temporal dos dados e considerando a tendência linear que mais se aproxima do que ocorreu no período. Essa tendência, então, é extrapolada para o futuro, para que saiba em quanto tempo se chegará a zero.

MELHORA DA DESIGUALDADE É TÍMIDA, APONTAM NÚMEROS

Na versão mais recente do índice, os pesquisadores compararam os indicadores por um período de 2001 a 2021 e concluíram que a redução do desequilíbrio racial no país caminhou de forma modesta.

Em duas décadas, o indicador geral melhorou 0,071 ponto, indo de -0,389 para -0,318, apontando ainda a maior representação de brancos ante negros.

Nesse período, a região Norte foi a única do país que conseguiu atingir o patamar de equilíbrio racial relativo, que varia de 0,2 a -0,2. Nos estados ao norte, o indicador geral do Ifer passou de -0,301 para -0,196 ponto.

“São sociedades mais pobres também, com pouco espaço para ter uma desigualdade muito visível. Há uma certa homogeneidade, inclusive racial, na carência. São economias com crescimento e renda menores”, diz Firpo, que também é colunista da Folha.

Ainda assim, a maior queda se deu no Centro-Oeste, com uma melhora de 0,133 ponto, indo de -0,378 para -0,245.

Na outra ponta, nas regiões mais ricas do país, a desigualdade é bem mais forte: o Sudeste teve o pior indicador em 2021, de -0,383 ponto (já era o lanterninha em 2001, com -0,411); no Sul, passou de -0,308 em 2001 para -0,253 em 2021.

Das 27 unidades da Federação, 22 melhoraram, 4 pioraram (Ceará, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe) e 1 ficou estagnada (Espírito Santo). No caso dos estados, como a base amostral para algumas UFs é muito pequena, optou-se por utilizar as médias móveis de três anos, e a série vai de 2004 a 2021.

Quando se olha para os dados gerais do país, a pequena melhora foi impulsionada pelo indicador que aponta o acesso ao ensino superior, com uma melhora de 0,223 ponto, ao passar de -0,598 para -0,375.

“O Brasil ainda não dá acesso à elite para os negros. Isso tem se reduzido, mas em uma velocidade muito pequena, o que deixa claro o quanto é necessário aumentar o número de políticas públicas integradoras”, diz Firpo.

Ele avalia que o reflexo da redução da desigualdade só deve começar a aparecer com mais clareza nos demais indicadores após maiores investimentos em qualificação profissional.

“Facilitar o acesso à universidade pública é uma demanda histórica e importante, mas a forma mais eficiente de reduzir a desigualdade de oportunidades é integrar negros e brancos, ricos e pobres desde cedo, fazer com que a parcela mais excluída da população conviva com pessoas que vão ampliar sua possibilidade de acesso a um conjunto de oportunidades lá na frente”, diz.

No mesmo intervalo de tempo, o indicador nacional de renda melhorou apenas 0,068 ponto, de -0,516 para -0,448 ponto.

Nesse caso, o cálculo da renda considera a proporção de pretos e pardos que alcançam ou ultrapassam a renda (incluindo salários e demais rendimentos) que separa os brancos 10% mais ricos dos demais 90%, além de seu peso populacional.

Já os dados de sobrevida —apesar de seguirem no patamar de equilíbrio entre negros e brancos, na maioria dos casos— apontam uma piora: era de -0,052, em 2001, e foi para -0,130 duas décadas mais tarde.

O cálculo do componente de sobrevida no Ifer é semelhante ao que é feito para o indicador de renda: extrai-se o grupo de brancos 10% mais idosos e calcula-se a idade que o separa dos demais 90%.

O destaque negativo também é o Sudeste, onde o índice de Sobrevida passou de -0,104 para -0,202, saindo do nível de equilíbrio para o de maior representatividade branca.

AVANÇO DE LONGEVIDADE E RENDA DEMANDA INVESTIMENTOS

Mesmo celebrando os avanços em parte dos indicadores, os especialistas ouvidos pela reportagem destacam a necessidade de políticas públicas direcionadas para o combate ao racismo, tanto no mercado de trabalho quanto na rede pública de atendimento, para que os demais indicadores também avancem.

“Não basta que apenas a educação melhore, cada um dos componentes possui o mesmo peso e deveria ser observado de forma consistente por políticas públicas de redução da desigualdade”, diz França, que também é colunista da Folha.

Ele também destaca que a piora do índice de sobrevida no período, que caminha para o desequilíbrio, pode indicar a diferença no acesso a planos de saúde privados, um fator em que a população branca sempre leva vantagem, e a falta de investimentos adequados no SUS (Sistema Único de Saúde).

“Já para o componente da renda é preciso começar a discutir mais seriamente as barreiras que existem para os negros. Ampliamos o acesso ao ensino superior, mas isso ainda não se reflete em melhores postos no mercado de trabalho”, complementa.

Além de educação, saúde e renda, fatores como privilégios ligados a cor de pele e estrutura familiar economicamente saudável ajudam a explicar a queda tímida no desequilíbrio entre negros e brancos”, diz Portella. “Chegar aos 10% mais privilegiados no Brasil é difícil. Em um país tão desigual, muitas vezes os pequenos ganhos não são suficientes para colocar [os negros] no topo.”

Sobre as diferenças regionais, ele acrescenta que locais com maior concentração de renda, como o Sudeste, possuem obstáculos adicionais para a população negra, dado o privilégio econômico dos brancos.

“Pessoas realmente ricas contam com redes de contatos que desempenham um papel muito importante [na ascensão social]. Então, para um negro da periferia vai ser muito difícil acessar uma rede que vai te permitir entrar nesse grupo; já uma pessoa branca fica mais fácil se manter lá”, diz.

“A população [negra] também acaba sendo mais vulnerável aos ciclos da economia e às decisões do governo”, avalia Marcelo Paixão, economista e professor da Universidade do Texas. Segundo ele, apesar de melhoras simbólicas e materiais no desequilíbrio entre brancos e negros no Brasil, momentos de crise econômica ou de alta na inflação, tendem a afetar mais pessoas negras.

Para Paixão, a desigualdade passa por ciclos, no qual pode diminuir e se agravar em diferentes períodos históricos. No entanto, a falta de estrutura familiar mais organizada, as dificuldades no acesso ao mercado de trabalho formal e à Previdência são maiores para os negros.

“Equidade é dar ferramentas específicas a grupos que tiveram uma desigualdade de oportunidade na origem. Se você nasce numa família que consegue suprir a ineficiência do setor público, seu filho larga na frente”, diz Carla Beni, economista e professora no MBA da FGV (Fundação Getulio Vargas).

Ela destaca que a discriminação também impende o equilíbrio relativo entre negros e brancos. “A falácia da meritocracia dificulta o aprofundamento do debate e criação de novas políticas para aumentar representatividade da população negra e parda no país”, diz.

Para o economista Mário Theodoro, autor de “A Sociedade Desigual – Racismo e Branquitude na Formação do Brasil”, ainda faltam políticas direcionadas para a redução da desigualdade.

“Um estudo que fiz durante o governo anterior do presidente Lula mostrava a redução da pobreza entre negros e brancos, mas agora é preciso pensar em mecanismos que privilegiam os negros mais pobres. As políticas universais são fundamentais, mas se não forem complementadas pelas políticas de combate ao racismo, o patamar de diferença vai se manter.”

Mariana Belmont – Movimentos negro e indígena lançam ‘Declaração de Resistência’ na COP27 (ECOA Uol)

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OPINIÃO

Mariana Belmont – Colunista do UOL

10/11/2022 06h00

COP 27 acontece no Egito. Imagem: Sayed Sheasha/Reuters


Os integrantes dos povos indígenas de Abya Yala e dos povos negros e afrodescendentes em representação dos povos e comunidades e diásporas do Canadá, Estados Unidos, México, Chile, Honduras, Nicarágua, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Uruguai, Brasil, Haiti, Argentina, Guatemala, República Dominicana, Trinidad e Tobago, Panamá, Suriname, Jamaica, Porto Rico, Uganda, Cuba, Venezuela, no marco da rememoração dos 530 anos de resistência dos Povos Indígenas, Negros e Afrodescendentes lançam na COP27 a “Declaração de Resistência anticolonial indígena, negra e afrodescendente“, com uma lista importante de proposições para outros tempos no mundo.

A articulação se apresenta como um movimento anticolonial, antirracista, antixenofóbico, antipatriarcal, antihomofóbico e antilesbotransfóbico.

Como Movimento de Libertação Negra e Indígena, a nossa luta é interseccional, transeccional, antirracista, feminista comunitária, Afrofeminista, mulherista africana, de identidades políticas diversas em comunidade.

Buscamos evidenciar e questionar a inegável relação existente entre colonialismo, capitalismo, patriarcado e racismo. Reivindicando a autonomia de seus corpos e reconhecendo a complementaridade dos que habitam os territórios e a participação das mulheres e dissidências para a defesa da vida, o território e a preservação dos saberes e conhecimentos ancestrais.

Em busca da formação de uma plataforma sustentada em redes comunitárias sólidas, integradas por organizações e coletivos sociais indígenas, negros e afrodescendentes do continente, com o fim de favorecer o acionar coletivo, solidário, coordenado e organizado.

No Brasil organizações como Instituto de Referência Negra Peregum, Uneafro Brasil, Criola, Instituto Perifa Sustentável e Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ) assinaram a declaração, reforçando a importância de um diálogo internacional entre os povos.

Entre as proposições estão que o dia 12 de outubro seja declarado como o dia da resistência ao extermínio dos Povos Indígenas, Negros e Afrodescendentes de Abya Yala. Declarando que a luta dos povos é articulada, diversa, continental, inclusiva e plural. Sendo considerados com urgência protagonistas em igualdade de direitos em qualquer processo ou projeto que afete as comunidades e territórios.

Criação de projetos e a implementação de ações diretas, políticas públicas, ações afirmativas e de reparação interculturais e interseccionais que garantam a distribuição justa e equitativa da riqueza, o acesso à saúde, à soberania alimentar, à água potável e de qualidade para que possamos viver em ambientes seguros e dignos.

Direito ao território é direito e eles reivindicam isso. “Todas as terras indígenas e territórios negros devem ser devolvidos aos seus legítimos donos. As terras devem ser devolvidas aos seus respectivos povos. Todas as comunidades negras e afrodescendentes devem ter livre titulação sobre as terras em que habitam. E livre acesso aos seus recursos naturais como praias, selvas, pântanos, bosques andinos, planícies, bacias, rios, glaciares, vales interandinos, pântanos em altura, lagos, pradarias, manguezais, baías, ladeiras, quebradas e terras não-cultivadas as quais não devem ser privatizadas nem exploradas de nenhuma forma”.

E reforçando que não pode existir justiça climática sem justiça racial. Entendendo que a justiça climática reconhece que a mudança climática tem impactos distintos de acordo às condições econômicas, sociais, raciais e de gênero. E que a justiça racial é um eixo fundamental na luta contra as desigualdades produto do sistema colonial, capitalista, extrativista e agroexportador.

Crise climática é crise de classes, diz ator britânico que aponta racismo no debate (Folha de S.Paulo)

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Na peça ‘Can I Live?’, Fehinti Balogun, com rap, animação e poesia, apresenta a colonização e a exploração de países africanos como temas centrais na discussão

Cristiane Fontes

2 de novembro de 2022


Foi em 2017, durante a preparação para a peça “Myth”, uma parábola climática da Royal Shakespeare Company, que o artista Fehinti Balogun acabou se dando conta da gravidade da crise do clima.

“Após ter feito muitas coisas, consegui meu primeiro papel principal numa peça no West End em Londres. Era o ano mais quente da história”, lembra o ator e dramaturgo britânico. “E, pela primeira vez, percebi que as plantações estavam morrendo, os campos estavam secos. Comecei a desenvolver uma espécie de ansiedade que nunca tive antes”, completa.

Com isso, veio o choque: “Eu tinha o trabalho que eu sempre sonhei, algo que eu tinha estudado para fazer, e, de repente, isso não significava nada”.

Balogun se juntou ao grupo ativista Extinction Rebellion, participou de diversos protestos e organizou uma palestra sobre o tema. Essa jornada o levou à produção de uma peça teatral que, durante a pandemia, foi transformada em um filme.

O ator britânico Fehinti Balogun, que criou a peça ‘Can I live?’, sobre mudanças climáticas. Fonte: New York Times/Tom Jamieson, 29.out.2021

Intitulada “Can I Live?” (posso viver?), a produção explica as mudanças climáticas a partir da perspectiva de uma pessoa negra, usando diversas performances musicais.

A mãe de Balogun, imigrante nigeriana, é quem guia a história. Fora da tela, também foi ela quem inspirou a criação do texto, a partir de questionamentos ao filho —que ele gravou secretamente para escutar de novo e pensar a respeito.

“Por que você está sacrificando sua carreira para fazer parte desses grupos?”, ela perguntava.

Mesmo discordando, o filho reconheceu na indignação da mãe um ponto muito importante: a discussão climática ficou elitizada e branca e ainda não foi capaz de incluir os segmentos mais pobres da população.

“Can I Live?”, pelo contrário, se propõe a não só trazer os dilemas pessoais do autor, que se misturam aos problemas mundiais e aos dados científicos, como é didática e criativa ao explicar, por exemplo, o efeito estufa em forma de rap. Criado com a companhia de teatro britânica Complicité, o filme mescla linguagens como animação, poesia e música.

“O objetivo é criticar descaradamente o sistema, sem culpar uma pessoa específica. Não se trata de envergonhar as pessoas, mas, sim, de educá-las e conectar-se com elas”, define Balogun.

Depois de uma turnê online, o filme foi exibido em eventos como a COP26 (conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em 2021 na Escócia) e a London Climate Action Week.

A ideia, diz Balogun, é fazer “Can I Live?”, que ainda não foi lançado no Brasil, chegar a movimentos de base, para estimular conversas sobre a crise climática entre aqueles que não costumam se conectar com o assunto.

Quando perguntado sobre a agenda climática no Reino Unido, o autor é categórico: “Temos um governo que não está levando isso tão a sério quanto deveria e que nunca levou o racismo tão a sério quanto deveria. Temos toda uma economia baseada num histórico de escravidão que não é debatida. Então, dentro das escolas, apagamos essa história. O que aprendemos neste país não está nem perto do que deveria ser”.

Quando e por que você se envolveu com a agenda da crise climática?

Após ter feito muitas coisas, consegui meu primeiro papel principal numa peça no West End em Londres. Era o ano mais quente da história, depois de outro ano ter sido o ano mais quente da história, depois de o último antes disso ter sido o mais quente… E, pela primeira vez, eu percebi que as plantações estavam morrendo, os campos estavam secos. Comecei a desenvolver uma espécie de ansiedade que nunca tive antes. Eu tinha o trabalho que eu sempre sonhei, algo que eu tinha estudado para fazer, e, de repente, isso não significava nada.

Então comecei a tentar me envolver em diferentes projetos e me juntei ao [grupo ativista] Extinction Rebellion. E comecei a discutir tudo com minha mãe, que perguntava: “Por que você está sacrificando sua carreira para fazer parte desses grupos?”. E eu pensava: “Não, essa é a única coisa importante que estou fazendo”. E nós continuamos discutindo muito isso tudo.

Eu gravei secretamente tudo o que ela me disse, peguei os pontos importantes dela e transformei numa apresentação sobre o clima, porque percebi que meu papel era poder usar meu privilégio de ser um ator e ter essa formação.

Eu não sou de uma família particularmente rica. Cresci sem muito dinheiro, morando em habitação social, e o que eu tenho agora é devido ao meu trabalho como ator, aos meus contatos e a todas essas perspectivas diferentes. Então eu montei essa palestra, que é como um TED Talk, usando as mensagens de voz da minha mãe.

Esse trabalho decolou, uma coisa levou à outra e começamos a trabalhar em uma peça, que depois virou um filme, “Can I Live?”. Foi assim que essa jornada climática de repente tomou conta da minha vida.

Sua mãe é a verdadeira estrela do filme. Quais foram as coisas importantes que ela levantou sobre o assunto?

Muitas. Uma delas é exatamente o que significa resistir quando você é uma minoria, e o que significa para a sua criação. Isso afeta não apenas o seu futuro, mas também a ideia que foi passada a pessoas como minha mãe, minhas tias, meus tios sobre o que é o “bom imigrante”.

Não é algo que ela tenha me dito explicitamente, mas que eu intuí de tudo o que ela estava me dizendo. Você não é capaz de reagir porque tem sorte de ter o que tem, entende? Ela dizia: “Há pessoas que estão esperando para entrar no país. Há pessoas que estão esperando conseguir a cidadania. E você acha que eles vão criticar aquele país que diz que eles não deveriam estar lá?”.

Para o público no Brasil que ainda não teve a chance de assistir ao filme, como você o descreveria?

Basicamente, o filme é uma explicação das mudanças climáticas a partir da perspectiva de uma pessoa negra. O objetivo é criticar descaradamente o sistema, sem culpar uma pessoa específica. Não se trata de envergonhar as pessoas, mas, sim, de educá-las e conectar-se com elas.

Eu quero que as pessoas assistam e vejam a si mesmas no filme todo ou em algumas partes, ou que vejam sua mãe ou sua avó ou seus amigos nas conversas. O filme tinha como objetivo levar as pessoas por essa jornada histórica até onde estamos agora e descobrirem o que podem fazer.

Colocamos o filme para distribuição online durante a pandemia. As pessoas pagavam o que podiam. A ideia era tentar torná-lo o mais acessível possível. Não foi algo como: “Ei, nós fizemos uma obra de arte!”, mas ela é exibida num teatro muito metido onde as pessoas se sentem desconfortáveis e têm dificuldades para acessar.

A ideia foi descentralizar esta obra e distribuí-la para o maior número de pessoas possível, e oferecê-la a movimentos de base, para que pudessem exibi-lo e conversar a partir disso e incluir nessas conversas pessoas que não costumavam se conectar.

A propósito, como envolver nas questões climáticas pessoas que estão lutando para sobreviver?

Acho que a coisa mais importante que aprendi sobre me comunicar com as pessoas é que você precisa ir ao encontro delas. Você não pode chegar em alguém esperando que essa pessoa tenha o seu mesmo nível de entusiasmo ou raiva, ou desgosto, ou desdém, porque todo mundo tem algo acontecendo em suas vidas.

O que temos no sistema é que constantemente nos dizem que temos que consertar algo individualmente, e que é nossa culpa individual. O fato de você estar passando por tanta insegurança alimentar é porque você não trabalhou duro o suficiente, ou porque 20 anos atrás você não economizou isso, ou fez aquilo. E se você tivesse feito todas essas coisas, você estaria bem e a culpa é sua e blá, blá, blá.

Você tem de olhar para essa questão de um ponto de vista estrutural. Estrutural e espiritual. Eu posso despejar todas as minhas ideias sobre estrutura e coisas de ativismo em cima de você, mas, no final das contas, se seu prato está cheio, seu prato está cheio; você já chegou no seu limite. A questão é muito mais profunda, e é muito solitário e difícil saber que você tem muitos problemas que precisa consertar. No final, o que está mesmo no centro disso é ter uma comunidade.

E como você descreveria o debate sobre mudanças climáticas no Reino Unido no momento?

Essa é uma pergunta difícil! Agora no Reino Unido temos um governo que não está levando isso tão a sério quanto deveria e que nunca levou o racismo tão a sério quanto deveria.

Temos toda uma economia baseada num histórico de escravidão que não é debatida. Então, dentro das escolas, apagamos essa história. O que aprendemos neste país não está nem perto do que deveria ser, na verdade. Mas, se estivermos falando de pensamentos e sentimentos em relação às mudanças climáticas, as pessoas sabem disso, embora não saibam o que fazer.

Na COP26, no ano passado, você participou de eventos com artistas e ativistas indígenas brasileiros. Como o discurso deles ecoou com você e no Reino Unido?

A COP é um evento decepcionante, via de regra. Não me inspirou nem um pouco. O que foi inspirador foram todos os ativistas que estavam lá e pessoas diferentes de muitos países diferentes, fazendo coisas incríveis e falando sobre tantas coisas. É uma comunidade muito forte.

Mas é muito difícil no Reino Unido. O patriotismo está apenas conectado a um ponto de vista ideológico e imperialista do mundo, que diz: “Eu sou superior a você”. Então por que aprender com aquele ativista brasileiro diferente? Já os indígenas eram o oposto disso. A mensagem deles era: “Estes somos nós! E vamos compartilhar isso com vocês! Vamos proteger isso para as gerações futuras!”.

Na sua visão, como fortalecer o movimento global de justiça climática, considerando o atual contexto político?

Parte do movimento dos direitos civis estava ligado à educação, à educação em massa e para certas comunidades. A ideia não é trabalhar com o medo, mas sim trabalhar através do medo para chegar a soluções.

Então, para fortalecer o movimento, [precisamos de] educação em massa, especificamente em certas zonas; e precisamos que diferentes movimentos de base se unam.

Em termos de mudança na narrativa, quais são as estratégias que você considera mais importantes?

Precisamos mudar a narrativa sobre riqueza e propriedade. Nós realmente precisamos entender que a crise climática é uma crise de classes, e dentro dessa crise de classes, há uma interseccionalidade muito racista.

Simplesmente entender essas coisas eu acho que vai ajudar muito; e é muito difícil, porque dentro do ideal capitalista, [a economia] só funciona se você sentir falta de alguma coisa. Eles só podem vender maquiagem para você se você acreditar que precisa de maquiagem. Eu não estou dizendo que as pessoas não devem usar maquiagem, mas, sim, que você só vai comprar algo se achar que precisa daquilo.

São essas mudanças de narrativas sobre o que achamos que é necessário e o que é, na verdade, necessário.

E precisamos de bondade radical. Radical no sentido de que não somos uma cultura muito indulgente.

O debate político anda muito polarizado, inclusive no Brasil, como você deve saber. Você poderia descrever melhor a ideia de bondade radical?

O que quero dizer com bondade radical não é apenas ser radicalmente gentil com a pessoa com opiniões opostas, mas também ser radicalmente gentil consigo mesmo.

Por que estou tentando fazer com que alguém que, fundamentalmente, me odeia goste de mim? Como isso me ajuda ou ajuda a outra pessoa? No final das contas, independentemente de eles terem dito que gostavam ou não de mim, eles vão embora e eu fico com esse sentimento. A única maneira de lidar com isso é ter uma comunidade atrás de você que esteja disposta a compartilhar isso com você.

Você sabe o que isso significa? Significa se afastar da postura individual de “eu vou consertar o mundo” para algo como “estas são as pessoas que eu preciso para poder fazer isso”.

Eu sempre falo, você tem que fazer uma escolha quando você fala com alguém, especialmente com alguém com uma opinião oposta a você que não tem interesse direto no assunto, como por exemplo, racismo, sexismo, ou mesmo mudanças climáticas.

Quando a pessoa não é afetada emocional, física e praticamente pela coisa e argumenta contra você, você tem que se perguntar: “Eu tenho condições de me envolver nisso hoje? Até onde quero ir? Vou ter alguém cuidando de mim quando a conversa terminar?”. Então a bondade radical não é apenas ter um espaço para a outra pessoa: é para você mesmo.


Raio-X

Fehinti Balogun

Ator, dramaturgo, escritor e pintor britânico de origem nigeriana, nascido em Greenwich, em Londres. Além de “Can I Live?”, participou de peças como “Myth” (mito), “The Importance of Being Earnest” (a importância de ser prudente) e “Whose Planet Are You On?” (você está no planeta de quem?). No cinema, fez trabalhos como “Juliet, Nua e Crua”, “Duna” e “Walden”. Na TV, participou das séries “I May Destroy You” (posso te destruir), “Informer” (informante) e “O Filho Bastardo do Diabo”, cuja primeira temporada estreia no fim de outubro na Netflix no Brasil.

Análise: Com ‘mutirão’ na COP, Lula abre primeiro governo climático do Brasil (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Mudanças sociais e globais levam terceiro mandato a ver na política do clima uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas

Mathias Alencastro

1 de novembro de 2022


A ascensão da COP do Egito a primeiro palco da nova diplomacia do governo eleito se deve a duas dinâmicas interdependentes. A eleição de Lula encerra um ano terrível, porém transformador, para a política climática.

Por um lado, a Guerra da Ucrânia deu ímpeto às indústrias fósseis, que atravessavam um raro período de declínio, enquanto as divisões crescentes entre o Ocidente e o Oriente, mas também entre o Norte e o Sul Global, agravaram a crise da governança climática.

Por outro, a transição energética se tornou uma questão de segurança nacional para os países desenvolvidos, com implicações extraordinárias para a diplomacia e os investimentos internacionais.

Em seguida, a sociedade civil brasileira se fortaleceu através da emergência de uma geração de cientistas, ativistas e políticos de excelência e da multiplicação de organizações que estabeleceram a relação entre democracia, clima e justiça social. Essas mudanças tornaram inevitável a metamorfose do terceiro mandato de Lula em primeiro governo climático do Brasil.

Na América Latina, a onda rosa tem sido quase sempre acompanhada por uma onda verde. A plataforma climática do chileno Gabriel Boric era uma exigência do movimento de contestação popular, enquanto a do colombiano Gustavo Petro veio junto com a renovação da esquerda depois do acordo de paz.

O caso brasileiro, todavia, é excepcional, porque a política climática transformou de fora para dentro o Partido dos Trabalhadores, que tem na luta sindical e nacionalista das energias fósseis uma das suas principais referências históricas. O PT segue o caminho de outros partidos de centro-esquerda que viram na política climática uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas.

Em agosto deste ano, o governo de Joe Biden foi salvo pelos ativistas climáticos que obrigaram o Senado a aprovar um novo pacote econômico. O governo de coalizão do social-democrata Olaf Scholz depende mais do que nunca do seu vice Robert Habeck, o líder dos Verdes.

Se a COP27 virar um mutirão de lideranças brasileiras, ela será o palco de Lula e de toda a frente ampla que derrotou a extrema direita.

Além dos símbolos e dos discursos, o governo Lula será avaliado pela sua capacidade de superar o enfrentamento com os movimentos populistas que acomete tantas outras democracias.

A política climática do governo de Emmanuel Macron jamais se reergueu do choque provocado pelos coletes amarelos, um protesto desencadeado por causa de uma taxa de carbono.

Na Europa e nos Estados Unidos, os oportunistas que encabeçaram os movimentos antivacinas se converteram em expoentes dos protestos contra a alta dos preços de energia. O próprio movimento de caminhoneiros golpistas a favor de Jair Bolsonaro também é uma manifestação da hiperdependência do Brasil do sistema rodoviário e da indústria de carbono.

A partir de agora, toda a política é política climática.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.

The Scientist’s Warning: Climate Change Has Pushed Earth To ‘Code Red’ (Forbes)

David Bressan

Oct 27, 2022,07:10am EDT

Reports Indicate 2016 Was Hottest Year On Record
Greenhouse gases are among the chief causes of global warming and climate change. Getty Images

An international team led by Oregon State University researchers says in a report published today that the Earth’s vital signs have reached “code red” and that “humanity is unequivocally facing a climate emergency.”

In the special report, “World Scientists’ Warning of a Climate Emergency 2022,” the authors note that 16 of 35 planetary vital signs they use to track climate change are at record extremes. The report’s authors share new data illustrating the increasing frequency of extreme heat events and heat-related deaths, rising global tree cover loss because of fires, and a greater prevalence of insects and diseases thriving in the warming climate. Food insecurity and malnutrition caused by droughts and other climate-related extreme events in developing countries are increasing the number of climate refugees.

The researchers note that in 2022 atmospheric carbon-dioxide peaked at levels not seen for millions of years. Earth is on track to heat up between 2.1 and 2.9 degrees by the end of the century compared to pre-industrial times, according to a new report from the United Nations Framework Convention on Climate Change.

William Ripple, a distinguished professor in the OSU College of Forestry, and postdoctoral researcher Christopher Wolf are the lead authors of the report, and 10 other U.S. and global scientists are co-authors.

“Look at all of these heat waves, fires, floods and massive storms,” Ripple said. “The specter of climate change is at the door and pounding hard.”

The report follows the original World Scientists’ Warning to Humanity, published in 1992, and the 2017 updated version World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice, co-signed by more than 15,000 scientists in 184 countries.

“As we can see by the annual surges in climate disasters, we are now in the midst of a major climate crisis, with far worse to come if we keep doing things the way we’ve been doing them,” Wolf said.

“As Earth’s temperatures are creeping up, the frequency or magnitude of some types of climate disasters may actually be leaping up,” said the University of Sydney’s Thomas Newsome, a co-author of the report. “We urge our fellow scientists around the world to speak out on climate change.”

“The Scientist’s Warning” is a documentary by the research team summarizing the report’s results and can be watched online:

Material provided by the Oregon State Universityand the American Institute of Biological Sciences.

Opinion | On Affirmative Action, What Once Seemed Unthinkable Might Become Real (New York Times)

nytimes.com


Guest Essay

Oct. 28, 2022

Credit: Michael Kennedy

By Linda Greenhouse

As affirmative action prepares to meet its fate before a transformed Supreme Court, after having been deemed constitutional in higher education for more than four decades, the cases to be argued on Monday bring into sharp focus a stunning reality.

After all this time, after the civil rights movement and the many anti-discrimination laws it gave birth to, after the election of the first Black president and the profound racial reckoning of the past few years — perhaps because of all those things — the country is still debating the meaning of Brown v.Board of Education.

A dispute over what the court meant when it declared in 1954 that racial segregation in the public schools violates constitutional equality is not what I expected to find when I picked up the daunting pile of briefs filed in two cases challenging racially conscious admissions practices at Harvard and the University of North Carolina. There are more than 100 briefs, representing the views of hundreds of individual and organizational “friends of the court,” in addition to those filed by the parties themselves.

Both cases were developed by a made-to-order organization called Students for Fair Admissions Inc. The group asks the court in both cases to overturn Grutter v. Bollinger, its 2003 decision upholding affirmative action in student admissions to the University of Michigan’s law school.

Justice Sandra Day O’Connor, writing for the majority in Grutter, said then that society’s interest in maintaining a diverse educational environment was “compelling” and justified keeping affirmative action going, as needed, for the next 25 years. Since that was 19 years ago, I expected to read an argument for why the timetable should be foreshortened or, more broadly, why diversity should no longer be considered the compelling interest the court said it was in 1978 in Regents of the University of California v. Bakke. The court concluded in that case that race could be used as one criterion by universities in their admissions decisions.

Instead, I found this bold assertion on page 47 of the plaintiff’s main brief: “Because Brown is our law, Grutter cannot be.”

Relying on a kind of double bank shot, the argument by Students for Fair Admissions goes like this: The Brown decision interpreted the 14th Amendment’s equal protection guarantee to prohibit racial segregation in public schools. In doing so, it overturned the “separate but equal” doctrine established 58 years earlier in Plessy v. Ferguson. Therefore, the court in Brown necessarily bound itself to Justice John Marshall Harlan’s reference in his dissenting opinion in Plessy to a “colorblind” Constitution.

“Just as Brown overruled Plessy’s deviation from our ‘colorblind’ Constitution, this court should overrule Grutter’s,” the group asserts in its brief. “That decision has no more support in constitutional text or precedent than Plessy.”

Briefs on the universities’ side take vigorous issue with what the University of North Carolina’s brief calls “equal protection revisionism.” Noting that Justice Harlan’s objection to enforced separation of the races was that it imposed a “badge of servitude” on Black citizens, the brief observes that “policies that bring students together bear no such badge.”

Moreover, a brief by the NAACP Legal Defense and Educational Fund Inc., under the auspices of which Thurgood Marshall argued Brown before the Supreme Court, warns that the plaintiff’s position “would transform Brown from an indictment against racial apartheid into a tool that supports racial exclusion.” The “egregious error” in the court’s majority opinion in Plessy, the legal defense fund’s brief explains, was not its failure to embrace a “colorblind” ideal but its “failure to acknowledge the realities and consequences of persistent anti-Black racism in our society.” For that reason, the brief argues, the Grutter decision honored Brown, not Plessy.

“Some level of race-consciousness to ensure equal access to higher education remains critical to realizing the promise of Brown,” the defense fund argues.

Grutter was a 5-to-4 decision. While the court was plainly not at rest on the question of affirmative action, it evidently did not occur to the justices in 2003 to conduct their debate on the ground of which side was most loyal to Brown. Each of the four dissenters — Chief Justice William Rehnquist and Justices Anthony Kennedy, Antonin Scalia and Clarence Thomas — wrote an opinion. None cited Brown; Justice Thomas quoted Justice Harlan’s “our Constitution is colorblind” language from his Plessy dissent in the last paragraph of his 31-page opinion, which was mainly a passionate expression of his view that affirmative action has hurt rather than helped African Americans.

While the contest at the court over Brown’s meaning is new in the context of higher education, it was at the core of the 2007 decision known as Parents Involved, which concerned a limited use of race in K-12 school assignments to prevent integrated schools from becoming segregated again. In his opinion declaring the practice unconstitutional, Chief Justice John Roberts had this to say: “Before Brown, schoolchildren were told where they could and could not go to school based on the color of their skin. The school districts in these cases have not carried the heavy burden of demonstrating that we should allow this once again — even for very different reasons.” In his dissenting opinion, Justice Stephen Breyer called the chief justice’s appropriation of Brown “a cruel distortion of history.”

The invocation of a supposedly race-neutral 14th Amendment — as the former Reagan administration attorney general Edwin Meese III phrased it in his brief against the universities — goes to the very meaning of equal protection. That was clear earlier this month in the argument in the court’s important Voting Rights Act case in the new term.

Alabama is appealing a decision requiring it to draw a second congressional district with a Black majority. Alabama’s solicitor general, Edmund LaCour, denounced the decision as imposing a racial gerrymander that he said placed the Voting Rights Act “at war with itself and with the Constitution.” “The Fourteenth Amendment is a prohibition on discriminatory state action,” he told the justices. “It is not an obligation to engage in affirmative discrimination in favor of some groups vis-à-vis others.”

The newest member of the court, Justice Ketanji Brown Jackson, pushed back strongly with an opposite account of the 14th Amendment’s origins. “I don’t think that the historical record establishes that the founders believed that race neutrality or race blindness was required,” she said. “The entire point of the amendment was to secure the rights of the freed former slaves.”

It is no coincidence that challenges to the constitutionality of both affirmative action and the Voting Rights Act appear on the court’s calendar in a single term. The conjunction reflects the accurate perception that the current court is open to fundamental re-examination of both. Indeed, decisions going back to the 1980s have held that in setting government policy, race cannot be a “predominant” consideration. But whether because the votes haven’t been there or from some institutional humility no longer in evidence, the court always stopped short of proceeding to the next question: whether the Constitution permits the consideration of race at all.

That question, always lurking in the background, is now front and center. Not too long ago, it would have been scarcely thinkable that if and when the court took that step, it would do so in the name of Brown v. Board of Education. But if the last term taught us anything, it’s that the gap between the unthinkable and the real is very short, and shrinking fast.

Ms. Greenhouse, the recipient of a 1998 Pulitzer Prize, reported on the Supreme Court for The Times from 1978 to 2008 and was a contributing Opinion writer from 2009 to 2021.

The Dos and Don’ts of Living in a Haunted House (New York Times)

nytimes.com

Anna Kodé


Many Americans believe that their home is inhabited by ghosts, a conviction that researchers attribute to the rise of paranormal-related media, a decline in religious beliefs and the pandemic.

A man with short brown hair and a salt-and-pepper beard sits at a dining room table. His face is illuminated by a chandelier hanging from the ceiling. Several paintings and photographs hang on the walls. The room includes a large window and a chair and small buffet. All furnishings are antique.
Shane Booth in his dining room where he said the bulk of the paranormal activity happens at his home in Benson, N.C.Credit: Eamon Queeney for The New York Times

Oct. 26, 2022

How to Live With a Ghost

On a routine afternoon, Shane Booth, a photography professor living in Benson, N.C., was folding laundry in his bedroom, when he was startled by a loud, crashing noise. He stepped out to find a shattered front window and his dog sitting outside it. He was confused, how could his dog have jumped through the window with enough force to break it?

After cleaning up the glass, Mr. Booth came back to his room, where all of the clothes he had just folded were scattered and strewn about, he said. “That’s when I thought, this is actually really scary now,” said Mr. Booth, 45.

In an interview, Mr. Booth described several other inexplicable, eerie encounters that have led him to believe that his century-old house is haunted. Pictures that he’d hung on the wall he’d later discover placed perfectly on the floor with no broken frames to indicate a fall. He noticed vases moved to different locations, had momentary sightings of a ghost (an old man), and heard bellowing laughter when no one else was in the house. “There’s so many little things that sporadically happen that you just can’t explain,” he said.

Many Americans believe that their home is inhabited by someone or something that isn’t a living being. An October study from the Utah-based home security company Vivint found that nearly half of the thousand surveyed homeowners believed that their house was haunted. Another survey of 1,000 people by Real Estate Witch, an education platform for home buyers and sellers, found similar results, with 44 percent of respondents saying that they’ve lived in a haunted house.

Researchers attribute increasing belief in the supernatural to the rise of paranormal-related media, a decline in religious affiliation and the pandemic. With so many people believing that they live with ghosts, a new question arises: How does one live with ghosts? Are there ways to become comfortable with it, or certain actions to keep away from so as not to disturb it?

In a person’s left hand is a cellphone showing a black and white photograph of a small white church with a steeple and a human figure standing in front of it.
Mr. Booth holds a cellphone showing a photograph of the church that is now his home in Benson, N.C.Credit: Eamon Queeney for The New York Times

Mr. Booth’s house was originally built as a Baptist church in 1891, he learned through some digging online. The religious ties made him think that maybe the unearthly happenings could be because he was gay, and the spirits weren’t welcoming of that. However frightening those experiences may get at times, Mr. Booth has made a sort of peace with it.

“I love this house. I’ve made it my space, and I don’t want to let anything kick me out,” Mr. Booth said. “When things happen, I talk to it and say, ‘Hey, calm it down.’”

While cohabiting with a spirit could be a fearful experience, some people enjoy it or, at the least, have learned how to live with it.

“I’m not opposed to a little bit of weird,” said Brandy Fleischer, 28, who lives in a house that was originally built in the 1800s in Genoa City, Wis. Ms. Fleischer said that she believes the house is haunted, and that one of the ghosts is named Henry. This, she figured out by placing a pendulum above a board with letters on it and asking the spirit to spell its name, she explained. “He likes to play pranks. He’ll move shoes around,” she said.

Ms. Fleischer wasn’t always so comfortable with the phantoms, though. “The very first time I walked in the door, it felt like I was walking into a party that I wasn’t invited to. It felt like everyone was looking at me,” she said, “but I couldn’t see them.”

An upstairs hallway has worn hardwood floors and a wooden banister leading to stairs. Two large windows of two different rooms can be seen through open doors.
The interior of Brandy Fleischer’s home.Credit: Via Brandy Fleischer

She compared living with ghosts to having roommates — these just happen to be ones she didn’t ask for. Ms. Fleischer has been able to get a sense of what to avoid in order to coexist harmoniously with Henry. In particular, when people in the house are squabbling, it bothers him, she said. “He’s slammed a drawer to interrupt an argument,” she said.

Some people believe that ghosts can follow them from one house to another.

Lisa Asbury has lived in her home in Dunlap, Ill., for three years now. But the paranormal activity she’s observed began in her old home in 2018, following the death of her husband’s grandfather, and is identical to what she’s been experiencing now, she said. Ms. Asbury, 43, said that she’s seen objects fly off shelves, lights flash in multiple rooms and fan blades start turning suddenly. “I hear my name being called when I’m alone, phantom footsteps, our dogs barking while staring at nothing,” she added.

But nothing has felt aggressive, Ms. Asbury said. Just attention-seeking. “I believe our spirits to be family,” she said. “I get the feeling that we have different family members visit at different times.”

And though it was unsettling for a while, she’s figured out how to live within the ghostly milieu. “Usually if something occurs, we will acknowledge it out loud or just say hi to the spirit,” Ms. Asbury said.

For sellers, paranormal murmurings could also be a helpful marketing point. Earlier this year, the three-bedroom Rhode Island house that inspired the “The Conjuring” horror movie sold above asking price for $1.525 million. In 2021, a Massachusetts property that was the site of the infamous Borden family murders sold for $1.875 million without any open houses or showings. Dozens of Airbnb listings advertise phantasmal experiences as well, such as a “second-floor haunted oasis” or a “Phantoms Lair.”

“Embracing a home’s haunted history may be a scary good seller strategy in the race to go viral,” said Amanda Pendleton, Zillow’s home trends expert. “Unique homes captured the imagination of Zillow surfers during the pandemic — the more unusual a listing, the more page views it can generate.”

Sharon Hill, the author of the 2017 book “Scientifical Americans: The Culture of Amateur Paranormal Researchers,” added that “many are no longer fearful of ghosts because we’ve been so habituated to them by the media.”

Haunted houses can also be “a way to connect to the past or a sense of enchantment in the everyday world,” Ms. Hill said. “We have a sense of wanting to find out for ourselves and be able to feel like we can reach beyond death. To know that ghosts exist would be very comforting to some people.”

Still, most sellers and agents are wary of taking that strategy. Of the over 760,000 properties on Zillow in the last two weeks, only two listings had descriptions that implied the home could be haunted, according to data provided by Zillow. One property is a six-bedroom hotel in Wisconsin where the description boasts that it was recently the subject of a Minnesota ghost hunter group’s investigation. The other, a rundown three-bedroom in Texas built in 1910, reads, “If your dream has been to host a Haunted Air BNB look no further. Owner has had ghost hunters to the house twice overnight.”

A two-story, brick building is painted red with white trim. It has several windows on both floors and a white porch. An American flag is hanging in front, and storage for ice is also in front. Two cars, one dark-colored and one red, are parked in the front on the street.
A six-bedroom hotel in Wisconsin is for sale, and a description on Zillow boasts that it was recently the subject of a Minnesota ghost hunter group’s investigation.Credit: via Zillow
A rundown house has chipped, white paint. It has lush green lawn that is not manicured, and bushes and vines in front of the house are also growing wildly.
“If your dream has been to host a Haunted Air BNB look no further. Owner has had ghost hunters to the house twice overnight,” reads a listing on Zillow for a dilapidated three-bedroom house in Texas built in 1910.Credit: via Zillow

Most states don’t mention paranormal activity in real estate disclosure laws, but New York and New Jersey have explicit requirements surrounding it. In New Jersey, sellers, if asked, must disclose known information about any potential poltergeists. In New York, a court can rescind a sale if the seller has bolstered the reputation of the home being haunted and takes advantage of a buyer’s ignorance of that notoriety.

There are generational differences in who believes in ghosts. In the Vivint survey, 65 percent of Gen Zers (defined as people born between 1997 and 2012) who participated in the survey thought their home was haunted, while 35 percent of baby boomers (born between 1946 and 1964) surveyed thought the same.

“With so much conversation on TikTok about true crime, podcasts about haunted things and crime documentaries, we thought that could be spreading this trend among younger people,” said Maddie Weirman, one of the researchers of the Vivint survey.

Gen Z “might be searching for meaning in new places,” Ms. Hill said. “If the modern world they live in isn’t providing food for the soul, if capitalism is a system that drains us of personal enlightenment, it’s not hard to figure out that younger people will search elsewhere for that and find the idea of an alternate world — of ghosts, aliens, cryptids, et cetera — to be enticing to explore.”

The pandemic also played a role in society’s relationship with houses and ghosts.

The salience of death in our culture increased, igniting a desire for evidence of an afterlife for some people. “Think of all the sudden, and often not-sufficiently-ritually-mourned deaths during Covid. Many times people lost loved ones with no last contact, no funeral,” said Tok Thompson, a folklorist and professor of anthropology at the University of Southern California.

A sleek black cat sits on a table in the middle of a room painted red with white trim. The room includes a grandfather clock with two rifles hanging on a wall above it.
Shane Booth’s black cat Bullet poses for a photograph in the foyer of his home this week.Credit: Eamon Queeney for The New York Times

“People weren’t normally around all the time to notice the normal noises of a house as it heats up from the sun during the day and then cools in the afternoon. With everyone inside, there was even less noise outside to drown out the typical sounds,” Ms. Hill, the author, said.

Many experts also attribute a decline in religious belief to fostering a belief in the paranormal. A 2021 Pew Research Center survey found that nearly 30 percent of Americans were religiously unaffiliated, 10 percentage points higher than a decade ago.

After all, the same comfort or understanding that religion can bring people can also be found in paranormal beliefs.

Karla Olivares, a financial consultant living in San Antonio, Texas, said that growing up in a house she believed was haunted has made her more accepting of the unexplainable happenings that have occurred in other places she’s lived or visited.

“When I feel something now, I acknowledge it. It’s also made me become more spiritual myself,” Ms. Olivares, 27, said. “Now, I feel that it’s all around me, and I won’t get surprised if I feel something again.”

Entenda como funciona o processo de compensação de carbono (Folha de S.Paulo)

top-of-mind.folha.uol.com.br

Créditos devem saltar 50 vezes no Brasil até 2030; desmatamentos respondem por até 80% dos gases do efeito estufa

Naief Haddad

25 de outubro de 2022


“Carbono vira ‘moeda de troca’ entre países” era o título de reportagem da Folha de 10 de novembro de 1998. O texto dizia que cientistas de Brasil, China e Índia discutiam a criação de créditos financeiros para projetos contra o aquecimento global. Àquela altura, o mercado de carbono surgia como iniciativa promissora, que reforçaria a agenda de preservação ambiental impulsionada pelo Protocolo de Kyoto, de 1997.

Era uma ideia valiosa com potencial de expansão: o carbono, um modo simplificado de se referir à emissão de gases que causam o aquecimento global, vai ao mercado como um certificado, que pode ser vendido para países e, como se decidiu posteriormente, para empresas e pessoas físicas. Cada certificado —o chamado crédito de carbono— garante que 1 tonelada de dióxido de carbono foi impedida de ser lançada na atmosfera.

Esses créditos talvez tivessem se espalhado pelo planeta não fosse o desastre financeiro global de 2008. “Os países da Europa, os grandes compradores de créditos de carbono naquele momento, foram afetados. Esse mercado teve que se reestruturar”, conta Plínio Ribeiro, CEO da Biofílica Ambipar, uma das principais companhias brasileiras que desenvolvem projetos florestais para a geração de créditos de carbono.

Há pouco mais de cinco anos, esse caminho voltou a demonstrar seu potencial vigoroso —no caso do Brasil, muito mais pelas ações da iniciativa privada do que por medidas do governo federal.

A 21ª conferência sobre mudança do clima (COP21), em 2015, em Paris, representou um marco na virada. “Ela reconheceu a conservação florestal como um dos principais mecanismos de combate às mudanças climáticas. Das emissões mundiais, 15% são de desmatamento em florestas tropicais. No Brasil, isso representa mais de 80% das emissões”, explica Ribeiro.

A partir daí, iniciativas brasileiras que patinavam começaram a crescer. Foram emitidos 5,2 milhões de créditos de carbono em 2019, de acordo com as certificadoras Verified Carbon Standard e Gold Standard. Em 2020, esse número subiu para 13,5 milhões; no ano passado, chegou a 44,4 milhões.

Nesse período, empresas voltadas ao desenvolvimento de projetos ambientais alcançaram um novo patamar. No ano passado, a Biofílica foi comprada pela Ambipar, o que permitiu que ampliasse seus negócios. Ao receber aporte de R$ 200 milhões da Shell, a Carbonext também se fortaleceu.

David Canassa, da Reservas Votorantim, lembra caso recente para mostrar a ascensão do setor. “Acabo de voltar do Climate Week, em Nova York. Há quatro anos, o Pacto Global Brasil, que integra a programação, encheu uma sala com 30 brasileiros. Desta vez, eram 250.”

O dado mais incisivo sobre o potencial de crescimento desse mercado no Brasil vem de relatório lançado há cerca de um mês pela consultoria McKinsey & Company. “O mercado de créditos no país deve saltar de US$ 1 bilhão atual para US$ 50 bilhões em 2030”, afirma.

O crescimento é bem-vindo, mas ainda parece insuficiente, avalia Janaína Dallan, CEO da Carbonext. “A urgência climática é tão grande que precisaríamos de muito mais empresas nesse mercado para não atingir o aumento de 1,5ºC”, diz. Ela se refere ao principal objetivo acordado na cúpula de Glasgow (COP26), na Escócia, em 2021.

O evento reforçou como meta evitar que o aquecimento global ultrapasse um aumento de 1,5°C em relação ao século 19, o que implicaria cortes substanciais nas emissões de CO2. A quase totalidade das iniciativas se concentra na Amazônia, mas, aos poucos, novos projetos se consolidam em outras regiões. No início de outubro, a Biofílica Ambipar conquistou o prêmio Environmental Finance pelo projeto AR Corredores de Vida, no oeste paulista. A iniciativa é feita em parceria com o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

Com a experiência na administração do Legado das Águas, maior reserva privada de mata atlântica do Brasil, a Reserva Votorantim acaba de lançar uma metodologia que permite o pagamento de serviços ambientais nesse bioma.

Mas vale lembrar: só a ampliação do mercado de créditos de carbono não será suficiente para evitar que se alcance o temido 1,5ºC, segundo Ricardo Piquet, diretor do Museu do Amanhã, que se tornou referência na área ambiental. “Gerar créditos a serem pagos por empresas ou países poluidores não resolve o problema. A solução conjugada é a ideal: você reduz emissão de gases e, no caso daquilo que não consegue gerar de imediato, compensa com o crédito de carbono”, diz Piquet.

O objetivo essencial é que, ao cotejar emissão e captura de carbono, sob métodos auditados, a empresa chegue à soma zero ou acumule créditos. A Klabin coleciona prêmios nesse setor sem que comercialize crédito de carbono, o que é possível graças, entre outros motivos, ao fato de manter áreas de floresta nativa.

Com 23 unidades no Brasil, a produtora de papéis captura cerca de 11 milhões de toneladas de carbono/ano. Suas operações emitem por volta de 6,5 toneladas, segundo Francisco Razzolini, diretor de sustentabilidade. No cardápio de medidas tomadas pela Klabin, está a substituição do óleo combustível por materiais renováveis de biomassa.

MERCADO DE CARBONO EM 10 PONTOS

1 – O QUE É CARBONO?

Neste contexto, não se trata, é claro, de um produto físico. Carbono é um modo bem simplificado de chamar a emissão de gases que provocam o aquecimento global. Como o mais comum deles é o CO2 (gás carbônico), o termo carbono passou a ser um sinônimo desses gases nas discussões climáticas.

2 – COMO FUNCIONA ESTE MERCADO?

De modo geral, como a maioria dos outros: quem tem sobrando vende para quem precisa, de preferência a um preço que satisfaça aos dois lados.

3 – COMO O CARBONO É QUANTIFICADO PARA QUE SEJA NEGOCIADO?

Cada tonelada de gás carbônico corresponde a um crédito de carbono, que pode ser comprado ou vendido. Um exemplo: uma empresa precisava reduzir sua emissão em 1.000 toneladas de CO2, mas consegue cortar 1.500 toneladas. Assim, ela fica com 500 créditos de carbono, que pode vender a uma outra companhia que não conseguiu bater sua meta.

4 – OS CRÉDITOS VALEM SÓ PARA EMISSÕES CORTADAS?

Não, valem também para o gás carbônico capturado —por exemplo, por novas árvores plantadas, que absorvem a substância da atmosfera para crescer. Cada tonelada de CO2 adicional absorvida por uma nova mata dá direito a um crédito.

5 – O QUE A COP26 (NOV.2021 EM GLASGLOW) DECIDIU SOBRE O MERCADO DE CARBONO?

O encontro aprovou a taxa de 5% sobre a transação de créditos de carbono comercializados entre projetos do setor privado ou de ONGs. Mas as transações entre os países ficaram livres de taxa e, portanto, sem contribuição para os fundos de adaptação. Pelo mercado de carbono regulamentado na COP26, países podem comprar “autorizações” de emissão de carbono para ajudar a cumprir suas metas climáticas, remunerando aqueles países cujas ações, em compensação, reduzem emissões.

6 – E O BRASIL? COMO ESTÁ?

O país, infelizmente, ainda não tem um mercado de carbono regulado, ao contrário do que acontece em países da Europa, na China, na Nova Zelândia e no Cazaquistão. Em maio deste ano, o governo federal publicou um decreto com as bases para a criação de um mercado, mas ainda existem muitas lacunas sobre sua execução, que impedem que o país entre plenamente no circuito global. Assim, as transações têm se restringido a projetos internos do setor privado.

7 – COMO ESSE MERCADO FUNCIONA PARA AS EMPRESAS?

Com o apoio de especialistas, responsáveis por calcular a emissão de CO2, as companhias chegam à conclusão de qual é a meta a ser alcançada. Caso polua acima dessa cota, a empresa precisará comprar mais créditos de carbono, que são vendidos por organizações que desenvolvem projetos de sustentabilidade, como a Biofílica Ambipar, e/ou pelas organizações que conseguiram cortar suas emissões.

8 – EU, PESSOA FÍSICA, POSSO ENTRAR NESTE MERCADO?

Sim. Empresas como a Carbonext, uma das principais desenvolvedoras de projetos de geração de créditos de carbono no Brasil, oferecem iniciativas para pessoas físicas.

9 – O QUE É ‘GREENWASHING’?

A expressão, que em inglês significa “lavagem verde”, costuma ser usada no sentido de propaganda sustentável enganosa, o que vale tanto para empresas quanto para governos e até mesmo para eventos climáticos. Em outras palavras, o “greenwashing” se dá quando uma organização tenta mostrar que faz mais em prol do meio ambiente do que realmente faz.

10 – COMO EVITAR O ‘GREENWASHING’?

Transparência é fundamental para não embarcar no “greenwashing”. Empresas devem dar visibilidade não só aos compromissos estabelecidos, mas às estratégias e evidências de resultados. Estimular o envolvimento de profissionais de ESG nas discussões das áreas de marketing e comunicação corporativa também pode ajudar a evitar distorções.

Science must overcome its racist legacy: Nature’s guest editors speak (Nature)

nature.com

We are leading Nature on a journey to help decolonize research and forge a path towards restorative justice and reconciliation.

Melissa Nobles, Chad Womack, Ambroise Wonkam & Elizabeth Wathuti

EDITORIAL, 08 June 2022


Four photos of people, clockwise from top left: Chad Womack, Elizabeth Wathuti, Ambroise Wonkam, Melissa Nobles.
Clockwise from top left: Chad Womack, Elizabeth Wathuti, Ambroise Wonkam and Melissa Nobles.Credit: Bottom left: Gretchen Ertl; bottom right: University of Cape Town

Science is a human endeavour that is fuelled by curiosity and a drive to better understand and shape our natural and material world. Science is also a shared experience, subject both to the best of what creativity and imagination have to offer and to humankind’s worst excesses. For centuries, European governments supported the enslavement of African populations and the subjugation of Indigenous people around the world. During that period, a scientific enterprise emerged that reinforced racist beliefs and cultures. Apartheid, colonization, forced labour, imperialism and slavery have left an indelible mark on science.

Although valiant and painful freedom struggles eventually led to decolonization, the impacts of those original racist beliefs continue to reverberate and have been reified in the institutional policies and attitudes that govern the ‘who’ and ‘how’ of individuals’ participation in the modern, global scientific enterprise. In our opinion, racist beliefs have contributed to a lack of diversity, equity and inclusion, and the marginalization of Indigenous and African diasporic communities in science on a national and global scale.

Science and racism share a history because scientists, science’s institutions and influential supporters of science either directly or indirectly supported core racist beliefs: the idea that race is a determinant of human traits and capacities (such as the ability to build civilizations); and the idea that racial differences make white people superior. Although the most egregious forms of racism are unlawful, racism persists in science and affects diverse communities worldwide. Following the murder of George Floyd in 2020 and the expansion of the Black Lives Matter movement into science, Nature was among those institutions that pledged to listen, learn and change. In an Editorial, it said, “The enterprise of science has been — and remains — complicit in systemic racism, and it must strive harder to correct those injustices and amplify marginalized voices.”1

Nature invited us to serve as guest editors — notably, to advise on the production of a series of special issues on racism in science, the first of which is due to be published later this year. We accepted the invitation, although recognized the enormity of the challenge. How to define terms such as race, racism and scientific culture? How to construct a coherent framework of analysis: one that enables us to examine how racist beliefs in European colonial and post-colonial societies affect today’s scientists in countries that were once colonized; and how racism affects scientists of African, Asian, Central and South American and Indigenous heritage who are citizens and residents of former colonial powers?

We are committed to pursuing honest dialogue and giving a voice to those most affected by racism in science. But we also seek to provide readers with hope and optimism. Accordingly, our aim is to showcase some of the many examples of successful scientists who are Black, Indigenous and People of Colour, to highlight best practices and ‘lift-up’ programmes, and to feature initiatives that empower full participation and scientific leadership of African, Indigenous and diasporic communities around the world.

Articles will explore some key events and discoveries, drawn from both the scholarly literature and from lived experiences. Content will seek to understand the systemic nature of racism in science — including the institutions of academia, government, the private sector and the culture of science — that can lead either to an illusion of colour blindness (beneath which unconscious bias occurs) or to deliberate practices that are defiantly in opposition to inclusion. The articles will use the tools of journalism in all relevant media formats, as well as expert comment and analysis, primary research publishing and engagement, and will have a strong visual component.

Protesters attend the Black Austin Rally and march for Black Lives at Houston Tillotson University. Austin, Texas in 2020.
Protestors attend a march for Black Lives Matter in Austin, Texas, in June 2020.Credit: Mario Cantu/CSM/Sipa US/Alamy

This opening Editorial — the first Nature has published signed by external authors — is a contribution to what will be a long, sometimes difficult, but essential and ultimately rewarding process for the journal and its readers, and, we hope, for its publisher, too. The journey to recognizing and removing racism will take time, because meaningful change does not happen quickly. It will be difficult, because it will require powerful institutions to accept that they need to be accountable to those with less power. It will be rewarding because it will enrich science. It is essential because it is about truth, justice and reconciliation — tenets on which all societies must be founded. As scientists, we know that where there are problems in the historical record, scientific rigour and scientific integrity demand that they be acknowledged, and, if necessary, corrected.

Look at the record

So how do we know that science has advanced racist ideas? We know because it is detailed in the published scholarly record. Some 350 years ago, François Bernier, a French physician employed in the court of the Mughal Emperor Aurangzeb, attempted to create a hierarchy of people by their skin colour, religion and geography2.

Such ideas came into their own when colonization was at its peak in the 1800s and early 1900s. In 1883, Francis Galton, an English statistician, coined the term eugenics for the study of human improvement through genetics and selective breeding. Galton also constructed a racial hierarchy, in which white people were considered superior. He wrote that “the average intellectual standard of the negro race is some two grades below our own (the Anglo Saxon)”3.

Although Charles Darwin opposed slavery and proposed that humans have a common ancestor, he also advocated a hierarchy of races, with white people higher than others. In The Descent of Man, Darwin describes what he calls the gradations between “the highest men of the highest races and the lowest savages”4. He uses the word ‘savages’ to describe Black and Indigenous people.

In our own times, James Watson, a Nobel laureate and co-discoverer of the DNA double helix, voiced the opinion that Black people are less intelligent than white people. In 1994, the psychologist Richard Herrnstein and the political scientist Charles Murray claimed that genetics was the main determinant of intelligence and social mobility in American society, and that those genetics caused African Americans and European Americans to have different IQ scores5.

Left: Cover of an essay from Arthur de Gobineau, Right: Cover of UNESCO Courier 1950.
Cover of an essay by the nineteenth-century French diplomat and social theorist Arthur de Gobineau justifying white supremacy (left). Scientists publish a statement through the UN affirming that race is a social construct and not a biological phenomenon (right).Credit: Left, Daehan (CC BY-SA 4.0); right, UNESCO Courier 1950

By 1950, the consensus among scientific leaders was that race is a social construct and not a biological phenomenon. Scientists affirmed this in a statement published that year by the United Nations science and education agency UNESCO (see go.nature.com/3mqrfcy). This has since been reaffirmed by subsequent findings showing there is no genetic basis for race, because humans share 99.9% similarity and have a single origin, in Africa6,7. There is more genetic variation within ‘races’ than between them.

Researching race and science matters, not only because these ideas influenced science, but because they became attractive to decision-makers, with horrific effects. People in power who advocated or participated in colonization and/or slavery used science, scientists and scientific institutions to rationalize and justify these practices.

Take Thomas Jefferson, the third US president, who drafted the Declaration of Independence of 1776. Jefferson is widely considered to be among the founders of liberalism and the idea of meritocracy. The declaration includes some of the most well-rehearsed words in the English language: that “all men are created equal”. And yet Jefferson, who was both a scientist and a slave owner, also thought that people of African descent were inferior to white people.

In the mid-nineteenth century, the French diplomat and social theorist Arthur de Gobineau wrote an essay justifying white supremacy8. De Gobineau thought that “all civilizations derive from the white race [and] none can exist without its help”. He argued that civilizations eventually collapse when different peoples mix. To advance his theory, he classified people according to their skin colour and social backgrounds. White aristocrats were given the highest category, Black people the lowest. De Gobineau’s ideas subsequently influenced the development of Nazi ideology, as did Galton’s — eugenics gained support among many world leaders, and contributed to slavery, apartheid and colonization, and the related genocide.

Addie Lee Anderson, age 87, in 2006 at her home in Fayetteville, North Carolina
Addie Lee Anderson was involuntarily sterilized in 1950 by the Eugenics Board of North Carolina. She is pictured here in 2006 at the age of 87.Credit: Sara D. Davis/TNS/ZUMA Press

In the early decades of the twentieth century, many US states passed eugenic sterilization laws. For example, North Carolina enacted such a law in 1929; by 1973, approximately 7,600 individuals had undergone involuntary sterilization in the state. The laws initially targeted white men who had been incarcerated for mental-health disorders, mental disabilities or crimes, but were later used to target Black women who received welfare benefits. It is estimated that between 1950 and 1966, Black women in North Carolina were sterilized at 3 times the rate of white women, and at 12 times the rate of white men9.

Deconstruct, debate and decolonize

Even today, colonization is sometimes defended on the grounds that it brought science to once-colonized countries. Such arguments have two highly problematic foundations: that Europe’s knowledge was (or is) superior to that of all others, and that non-European cultures contributed little or nothing to the scientific and scholarly record.

These views are evident in the case of Thomas Babington Macaulay, a historian and colonial administrator in India during the British Empire, who famously wrote in 1835 that “a single shelf of a good European library was worth the whole native literature of India and Arabia”10. These were not idle words. Macaulay used these and similar arguments to justify stopping funding for teaching India’s national languages, such as Sanskrit, Arabic and Persian — which, he said, taught “false history”, “false astronomy” and “false medicine” — in favour of teaching English language and science. Some might question what is wrong with more English and science teaching, but the context matters. Macaulay’s intention (in his own words) was not so much to advance scholarship, but to educate a class of person who would help Britain to continue its Imperial rule.

Portrait of Thomas Babington Macaulay (1800-1859), English writer and politician.
Thomas Babington Macaulay, an influential British politician in colonial times, thought that to teach in Arabic and Sanscrit would be to teach “false history”, “false astronomy” and “false medicine”.Credit: Hulton Archive/Getty

The erasure of Indigenous scholarship in this way has had incalculably damaging effects on formerly colonized countries. It has meant that future generations in Africa, Asia and the Americas would be unfamiliar with an unbroken history of their nations’ contributions to knowledge, even after decolonization. At present, much of the work to uncover non-Western scholarship is taking place in the universities and research centres of high-income countries. That is far from satisfactory, because it exacerbates the power imbalance in research, particularly in collaborative research projects between high-income and low- and middle-income countries. Although there is much talk of ‘local ownership’, the reality is that researchers in high-income countries hold much more sway in setting and implementing research agendas, leading to documented cases of abuses of power.

The effects of historical racism and power imbalances have also found their way into the research funding and publishing systems of high-income countries11. The National Institutes of Health, the United States’ main funder of biomedical science, recognizes that there is structural racism in biomedical research. The funder is implementing solutions that are starting to narrow gaps. But not all funding institutions in high-income countries are studying or acknowledging structural or systemic racism in their funding systems or scholarly communities.

Restore, rebuild and reconcile

A wave of anti-racism statements followed Floyd’s murder in 2020. Research funders and universities, publishers and individual journals such as Nature all published statements in support of eliminating racism from science. Two years on, the journey from words to action has been slow and, in some respects, barely measurable.

Nature’s upcoming special issues, its invitation to work with us as guest editors and its ongoing coverage of racism in science are necessary steps to inform, encourage debate and, ultimately, seek solutions-based approaches that propose ways to restore truth, repair trust and seek justice.

We must have hope that the future will be better than the past, because every alternative is worse. But solutions must also acknowledge the reasons why solutions are necessary. Racism has led to injustices against millions of people, through slavery and colonization, through apartheid and through continuing prejudice today. The point of learning about and analysing racism in science must be to ensure that it is never repeated.

Nature 606, 225-227 (2022)

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-01527-z

Editor’s note: Melissa Nobles, Chad Womack, Ambroise Wonkam and Elizabeth Wathuti are currently working with Nature as guest editors to guide the creation of several special issues of the journal dedicated to racism in science. To the best of our knowledge, this Editorial is the first in Nature to be signed by guest editors. We are proud of this, and look forward to working with them on these special issues and beyond.

Disclaimer: The opinions in this article do not necessarily reflect the views or policies of the authors’ organizations or their governing bodies.

References

  1. Nature 582, 147 (2020).Article  PubMed  Google Scholar 
  2. Journal des Sçavans 12, 148–155 (1684). Google Scholar 
  3. Galton, F. Hereditary Genius (Macmillan, 1869). Google Scholar 
  4. Darwin, C. R. The Descent of Man, and Selection in Relation to Sex (John Murray, 1871). Google Scholar 
  5. Herrnstein, R. J. & Murray, C. The Bell Curve (Free Press, 1994). Google Scholar 
  6. Collins, F. S., Morgan, M. & Patrinos, A. Science 300, 286–290 (2003).Article  PubMed  Google Scholar 
  7. Chan, E. K. F. et al. Nature 575, 185–189 (2019).Article  PubMed  Google Scholar 
  8. De Gobineau, A. Essai sur l’Inégalité des Races Humaines (Firmin Didot, 1853–55). Google Scholar 
  9. Stern, A. M. The Conversation (26 August 2020).
  10. Macaulay, T. B. in Selections from Educational Records, Part I (1781–1839) Sharp, H. (ed.) 109 (Government of India, 1920). Google Scholar 
  11. Ginther, D. K. Science 333, 1015–1019 (2011).Article  PubMed  Google Scholar 

    Related Articles

    Adam Tooze: Bruno Latour and the philosophy of life (New Statesman)

    newstatesman.com

    For the late French intellectual in an age of ecological crisis it was crucial to understand ourselves as rooted beings.

    Adam Tooze

    17 October 2022


    As Bruno Latour confided to Le Monde earlier this year in one of his final interviews, philosophy was his great intellectual love. But across his long and immensely fertile intellectual life, Latour pursued that love by way of practically every other form of knowledge and pursuit – sociology, anthropology, science, history, environmentalism, political theory, the visual arts, theatre and fiction. In this way he was, above all, a philosopher of life in the comprehensive German sense of Lebensphilosophie.

    Lebensphilosophie, whose leading exponents included figures such as Friedrich Nietzsche and Martin Heidegger, enjoyed its intellectual heyday between the 1870s and the 1930s. It was a project that sought to make sense of the dramatic development of modern science and the way it invaded every facet of life. In the process, it relentlessly questioned distinctions between the subject and knowledge and the foundations of metaphysics. It spilled over into the sociology of a Max Weber or the Marxism of a György Lukács. In France, writer-thinkers such as Charles Péguy or Henri Bergson might be counted as advocates of the new philosophy. Their heirs were the existentialists of the 1940s and 1950s. In the Anglophone world, one might think of the American pragmatists, William James and John Dewey, the Bloomsbury group and John Maynard Keynes.

    A century later, the project of a “philosophy of life” acquired new urgency for Latour in an age of ecological crisis when it became crucial to understand ourselves not as free-floating knowing and producing subjects, but as rooted, or “landed”, beings living alongside others with all the limits, entanglements and potentials that entailed.

    The heretical positions on the status of scientific knowledge for which Latour became notorious for some, are best understood as attempts to place knowledge and truth claims back in the midst of life. In a 2004 essay entitled “How to Talk About the Body?” he imagined a dialogue between a knowing subject as imagined by a naive epistemology and a Latourian subject:

    “‘Ah’, sighs the traditional subject [as imagined by simplistic epistemologies], ‘if only I could extract myself from this narrow-minded body and roam through the cosmos, unfettered by any instrument, I would see the world as it is, without words, without models, without controversies, silent and contemplative’; ‘Really?’ replies the articulated body [the Latourian body which recognises its relationship to the world and knowledge about it as active and relational?] with some benign surprise, ‘why do you wish to be dead? For myself, I want to be alive and thus I want more words, more controversies, more artificial settings, more instruments, so as to become sensitive to even more differences. My kingdom for a more embodied body!’”

    The classical subject-object distinction traps the knowing subject in a disembodied, unworldly position that is, in fact, tantamount to death. As Latour wrote in a brilliant passage in the same essay on the training of noses, the expert smell-testers who gauge perfume, or tea or wine: “A direct and unmediated access to the primary qualities of odours could only be detected by a bodiless nose.” But what kind of image of knowledge is this? “[T]he opposite of embodied is dead, not omniscient.”

    For a Burgundian – Latour was born in 1947 into a storied family of wine négociant in Beaune – this was an obvious but profound truth. To really know something, the way a good Burgundian knows wine, means not to float above the world, but to be a porous part of it, inhaling, ingesting fermentation and the chemical elements of the terroir, the irreducibly specific terrain.

    For Latour, claims to meaningful knowledge, including scientific knowledge, were generated not by simple rules and procedures that could be endlessly repeated with guaranteed results, but through immersion in the world and its particularities. This implied an existential engagement: “Knowing interestingly is always a risky business,” he wrote, “which has to be started from scratch for any new proposition at hand.” What made for generative scientific discovery was not the tautological reproduction of a state of affairs by a “true” statement, but the “fecundity, productivity, richness, originality” of good articulations. Distinctions between true and false were, more often than not, banal. Only anxious epistemologists and methodologists of science worried about those. What mattered to actual scientific practice was whether a claim was “boring”, “repetitive”, “redundant”, “inelegant”, “simply accurate”, “sterile”.

    If Latour was a sceptic when it came to naive claims of “detached” scientific knowledge, this also applied doubly to naive sociologies of knowledge. Critical analyses of power, whether anti-capitalist, feminist or postcolonial, were productive and inspiring. But unless it was subject symmetrically to the same critique to which Latour subjected naive claims to scientific knowledge, social theory, even that which proclaimed itself to be critical theory, could all too easily become a snare. If the relationship of life and knowledge was the problem, then, you could not cut through that Gordian knot by invoking sociology to explain physics. What was sociology, after all, but a form of organised social knowledge? For better or for worse, all you were doing in such an exercise was multiplying the articulations from one scientific discipline to another and not necessarily in a helpful or illuminating direction.

    In refusing the inherited authority of the 19th and early 20th-century canon of critical social science, Latour sought to create a form of knowledge more adequate to the late 20th and early 21st centuries. Latour thus belongs alongside Michel Foucault and Gilles Deleuze and Félix Guattari as one of the French thinkers who sought to escape the long shadow of Marxism, whether in its Hegelian (Sartre) or its anti-Hegelian (Althusser) varieties.

    In place of an overly substantive notion of “the economy” or “society”, Latour proposed the looser conception of actor-networks. These are assemblages of tools, resources, researchers, means of registering concepts, and doing things that are not a priori defined in terms of a “mode of production” or a particular social order. Think of the lists of interconnected objects, systems and agents that have held our attention in the past few years: shipping containers, the flow of rainwater in Taiwan, giant freighters stuck sideways in the Suez Canal driven off course by unpredictable currents and side winds. Each of these supply chain crises has exposed actor-networks, of which we were previously oblivious. During such moments we are forced to ask: what is macro and what is micro? What is base and what is superstructure? These are Latourian questions.

    One of the productive effects of seeing the world this way is that it becomes irresistibly obvious that all sorts of things have agency. This realisation is disturbing because it seems to downgrade the privilege of actual human existence and the social relations between people. But Latour’s point was never to diminish the human, but instead to emphasise the complex array of forces and agencies that are entailed in our modern lives. Our existence, Latour tried to show, depends not on the simple structures that we imagined modernity to consist of – markets, states and so on – but on the multiplication of what he calls hybrids, “supply chains” in the widest sense of the word.

    Latour was not a class militant. But that does not mean that he did not have a cause. His lifelong campaign was for modernity to come to consciousness of itself, to stop taking its own simplifications at face value, to recognise the confusions and hybridity that it creates and endlessly feeds off. His mission was to persuade us, as the title of his most widely read book has it, that We Have Never Been Modern (1991). The confusion of a world in which lipid bubbles, aerosols and face masks have occupied our minds for years is what Latour wanted to prepare us for.

    What Latour sought to expose was the pervasive animism that surrounds us in the form of hybrid actor-networks, whose force and significance we consistently deny. “Hybrids are everywhere,” he said, “but the question is how do you tame them, or do you explicitly recognise their strengths, which is part of the animist power of objects?” What Latour diagnosed is that modernity, as part of its productive logic, systematically denies this animation of the material world. “Modernism is the mode of life that finds the soul with which matter would be endowed, the animation, shocking.”

    This repression of hybrid, animated material reality, is exposed in the often-racialised embarrassment of those who believe themselves modern when they encounter human civilisations that make no secret of their animist beliefs. It also accounts for the embarrassment triggered among true believers in modern science and its ideology by the revelations of the best histories of science, such as those by Simon Schaffer, to whom Latour owed a great debt. To Latour’s delight Schaffer showed how Isaac Newton, in the first instance, saw in gravity the manifestation of the power of angels.

    The modernist impulse is to dismiss such ideas as hangovers of an earlier religious world-view and to relegate African art to the anthropology museum. But at the risk of provocation and scandal, Latour’s response was the opposite. Rather than finishing the purification of modernity and expunging angels and animism from our view of the forces that move the world, he urged that we should open our ontology to encompass the giant dark matter of hybrid concepts and real networks that actually sustain modern life.

    From the 1990s onwards this made Latour one of the foremost thinkers in the ecological movement. And once again he reached for the most radical and encompassing animist notion with which to frame that commitment – the Gaia concept, which postulates the existence of a single overarching living being, encompassing global ecology. This is an eerie, supernatural, non-modern idea. But for Latour, if we settle for any more mundane description of the ecological crisis – if we fit the environment into pre-existing cost-benefit models as economists often do – we fail to recognise the radicalism of the forces that we have unleashed. We fail to understand the peril that we are in: that Gaia will lose patience and toss us, snarling, off her back.

    Latour’s emphatic embrace of life, plenitude and articulation did not mean that he shrank from finitude or death. Rather the opposite. It is only from a thoroughly immanent view that you truly feel the weight of life lived towards its end, and the mysterious and awesome finality that is death. It is only from an embrace of life as emphatic as Latour’s, that you truly register the encroachment of deadening forces of the mind and the body. For Latour, life and death were intertwined by the effort of those left behind to make sense of death, by every means at their disposal, sometimes at very long distance.

    In September 1976 the body of Ramesses II, the third pharaoh of the 19th Dynasty of Egypt, was flown to Paris. He was welcomed with the full military honours appropriate for a great ruler, and then his body was whisked to the laboratory to be subject to medical-forensic examination. For Latour this fantastic juxtaposition of the ancient and the modern was an irresistible provocation. The naive position was that the scientists discovered that Ramesses died of tuberculosis 3,000 years ago. He was also, a racially minded police forensic scientist claimed, most likely a redhead. For Latour, the question was more basic. How can we debate claims made self-confidently about a death that took place thousands of years ago? We were not there. There was no modern medical science then. When Ramesses ceased to live, TB was not even a “thing”. It was not until 1882 that Robert Koch in Berlin identified the bacillus. And even then, no one could have made any sensible claim about Ramesses. Making the naive, apparently matter-of-fact claim – that Ramesses died of TB in 1213 BC – in fact involves giant leaps of the imagination.

    What we do know and can debate are what Latour would call “articulations”. We know that as a result of the intervention of the French president Valéry Giscard D’Estaing the Egyptian authorities were prevailed upon to allow the decaying mummy to be flown to Paris for preservation. We know that in Paris, what was left of the body was enrolled in modern technoscientific systems and testing procedures leading us to venture hypotheses about the cause of death in the distant past. Every single one of those “articulations” can be tested, probed and thereby multiplied. Entire bodies of thought can be built on different hypotheses about the corpse. So, Latour maintained, rather than those who assertively claim to know what actually happened 3,000 years ago, the journalist who declared vertiginously that Ramesses had (finally) died of TB in 1976 came closer to the truth in registering both the gulf that separates us from an event millennia in the past and the radical historical immanence of our current diagnosis. In his effort to shake us out of the complacent framework of certainty that modernity had created around us, counter-intuitive provocations of this kind were part of Latour’s method.

    Unlike Ramesses’ cause of death, Bruno Latour’s was well mapped. In the 21st century, a cancer diagnosis has immediate and drastic implications. It enrols you as a patient in the machinery of the medical-industrial complex. Among all the hybrids that modern societies have created, the medical apparatus is one of the most complex. It grows ever larger and imposes its urgency in a relentless and merciless fashion. If you take your critical vantage point from an early 20th-century theorist of alienation, like Lukács or Weber for instance, it is tempting to think of this technoscientific medical apparatus as a steel-hard cage that relentlessly objectifies its patients, as bodies and cases. But for Latour, this again falls into a modernist trap. To start from the premise that objectification is actually achieved is to misunderstand and to grant too much. “Reductionism is not a sin for which scientists should make amends, but a dream precisely as unreachable as being alive and having no body. Even the hospital is not able to reduce the patient to a ‘mere object’.”

    Rather than reducing us, modern medicalisation multiplies us. “When you enter into contact with hospitals, your ‘rich subjective personality’ is not reduced to a mere package of objective meat: on the contrary, you are now learning to be affected by masses of agencies hitherto unknown not only to you, but also to doctors, nurses, administration, biologists, researchers who add to your poor inarticulate body complete sets of new instruments.” The body becomes a site of a profuse multiplicity: “How can you contain so much diversity, so many cells, so many microbes, so many organs, all folded in such a way that ‘the many act as one’, as [Alfred North] Whitehead said? No subjectivity, no introspection, no native feeling can be any match for the fabulous proliferation of affects and effects that a body learns when being processed by a hospital… Far from being less, you become more.”

    It’s a brave image. Perhaps it was one that sustained Latour as the cancer and the agencies deployed to fight it laid waste to his flesh. Not for nothing people describe the illness as a battle. Like a war, it can go on for years.

    Latour liked military images. Perhaps because they better captured his vision of history, as mysterious, opaque, complex and contingent. Military history is one area of the modern world in which even the most high-minded analysts end up talking about tanks, bridges, rivers, Himars, Javelins and the fog of war. In the end, it is often for want of nails that battles are lost. The original French title of Latour’s famous book on the 19th-century French microbiologist Louis Pasteur – Pasteur: guerre et paix des microbes suivi de Irréductions – paid homage to Tolstoy. In the English translation that reference was lost. The Pasteurization of France (1988) replaces the French’s titles nod to War and Peace with ugly sociologese.

    Latour’s own life force was strong. In his apartment on Rue Danton, Paris, with the charred remains of Notre Dames in background, he shared wines with visitors from around the world from vineyards planted in response to climate change. Covid lockdowns left him impatient. As soon as global traffic resumed, in 2021 he was assisting in the curation of the Taipei biennial. Latour’s final book, After Lockdown: A Metamorphosis appeared in English in 2021. It carries his voice into the present inviting us to imagine ourselves in an inversion of Kafka’s fable, as happy termites emerging from the lockdown on six hairy legs. “With your antennae, your articulations, your emanations, your waste matter, your mandibles, your prostheses, you may at last be becoming a human being!” No longer ill at ease, “Nothing is alien to you anymore; you’re no longer alone; you quietly digest a few molecules of whatever reaches your intestines, after having passed through the metabolism of hundreds of millions of relatives, allies, compatriots and competitors.”

    As he aged, Latour became more, not less radical. Often dismissed on the left for his scepticism about classical critical social theory, the ecological turn made Latour into nothing less than an eco-warrior. His cause was the overturning of the dream world that systematically failed to recognise or grasp the forces unleashed by the modernist apparatus of production and cognition. We needed to come down to Earth, to land. Only then could we begin the hard work, with other actors, of arriving at a sustainable modus vivendi. The urgency was that of war and his mobilisation was total. The range of projects that he spawned in recent decades – artistic, political, intellectual – was dizzying. All of them aimed to find new political forms, new parliaments, new articulations.

    Unlike many commentators and politicians, in response to populism, and specifically the gilet jaunes protests of 2018, Latour did not retreat to higher levels of technocracy, but instigated a collective project to compile cahiers de doléance – books of complaint – like those assembled before the French Revolution of 1789. The aim was to enrol people from all walks of life in defining what they need to live and what threatened their livelihood.

    Part of the project involved an interactive theatrical exercise enacted by Latour with the architect and performance-art impresario Soheil Hajmirbaba. In a kind of ritual game, the participants arranged themselves and the forces enabling and threatening their lives – ranging from sea level rise to the increased prices for diesel – on a circular stage marked out with a compass. It was, as Latour described it, “like a children’s game, light-hearted and a lot of fun. And yet, when you get near the middle, everyone gets a bit nervous… The centre of the crucible, where I timidly put my feet, is the exact intersection of a trajectory – and I’m not in the habit of thinking of myself as a vector of a trajectory – which goes from the past, all that I’ve benefited from so as to exist, to grow, sometimes without even realising it, on which I unconsciously count and which may well stop with me, through my fault, which won’t go towards the future anymore, because of all that threatens my conditions of existence, of which I was also unaware.”

    “The amazing result of this little enactment,” he continued, “is that you’re soon surrounded by a small assembly, which nonetheless represents your most personal situation, in front of the other participants. The more attachments you list, the more clearly you are defined. The more precise the description, the more the stage fills up!… A woman in the group sums it up in one phrase: ‘I’m repopulated!’”

    Thus, Latour reinvented the role of the engaged French intellectual for the 21st century. And in doing so he forced the follow-on question. Was he perhaps the last of his kind? Who comes after him? As far as intellectual standing is concerned, Latour would have been impatient with the question. He was too preoccupied with new problems and projects, too enthused by the networks of collaborators, young and old whose work he drew on and that he helped to energise. But in a more general sense the question of succession haunted him. That, after all, is the most basic issue posed by the ecological crisis. What comes after us? What is our responsibility to the continuity of life?

    In his effort to enact the motion of coming down to Earth, Latour faced the question head on. “With my feet on the consortium’s compass, I consult myself: in terms of my minuscule actions, do I enhance or do I stifle the lives of those I’ve benefited from till now?” Asking that question, never content with complacent or self-satisfied answers, during the night of 8-9 October 2022, Bruno Latour died aged 75 in Paris, of pancreatic cancer.

    Helio Santos propõe em livro novo acordo para equidade racial (Folha de S.Paulo)

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    Professor reúne textos de 34 autores negros e negras tomando como base o bicentenário da independência do Brasil

    Gabriel Araújo

    18 de outubro de 2022


    O professor e consultor em desenvolvimento humano Helio Santos, autor de “A Busca de um Caminho para o Brasil: A Trilha do Círculo Vicioso” (ed. Senac, 2001), prefere usar o termo “sistêmico” a “estrutural” para descrever o racismo no país. À expressão, ele ainda acrescenta a palavra “inercial”.

    “Sistêmico não apenas porque é recorrente, mas por perpassar toda a sociedade e suas instituições”, ele escreve. “Inercial porque, como ensina a primeira lei de Newton, trafega numa direção de maneira uniforme ante a inação para contê-lo. Avassala, segue impune e resoluto”.

    O trecho acima foi retirado do livro “A Resistência Negra ao Projeto de Exclusão Racial – Brasil 200 Anos (1822 – 2022)”, organizado por Santos, que é também presidente do conselho da Oxfam Brasil e do Instituto Brasileiro da Diversidade (IBD).

    Trata-se de uma coletânea com 33 textos, entre artigos acadêmicos e textos literários, de 34 autores negros e negras. Ao tomar como ponto de partida o marco do bicentenário da independência do Brasil, os textos discutem aspectos sociais, culturais, históricos e econômicos do país por meio de uma perspectiva racializada.

    “É uma coletânea que tem lado e nasce num momento bastante interessante da sociedade brasileira, de grandes carências”, afirma Santos. “O bicentenário não deve ser celebrado sem que o país faça uma autocrítica em relação à maioria da população.”

    Ativista da questão racial desde a década de 1970, Santos foi, em 1984, presidente fundador do Conselho da Comunidade Negra do Estado de São Paulo, iniciativa pioneira dedicada a pensar políticas para a comunidade negra da região. Hoje, ele preside o conselho deliberativo do Fundo Baobá, organização voltada para a promoção da equidade racial.

    Santos reuniu no livro intelectuais de diferentes gerações. Sueli Carneiro, Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo e Kabengele Munanga assinam textos, assim como dois dos colunistas da Folha, a filósofa Djamila Ribeiro e o economista Michael França.

    Além dos ensaios, há também poemas escritos pela atriz Elisa Lucinda e pelo escritor Luiz Silva, conhecido como Cuti.

    Juntos, os autores condensam reflexões urgentes sobre o enfrentamento do racismo no Brasil, último país das Américas a abolir a escravidão. “Para cada dez anos de Brasil, sete aconteceram sob o signo da escravidão”, afirma Santos.

    A questão se agrava quando é analisado o modo como a pessoa negra foi tratada após a lei Áurea, de 1888. Enquanto nenhuma política compensatória foi planejada tendo como foco a população negra (a lei de cotas, por exemplo, que visa mitigar a desigualdade na educação superior brasileira, é de 2012), o Estado brasileiro promoveu apoios, inclusive financeiros, para imigrantes residirem e trabalharem no país.

    “Esse apoio era necessário, pois eram colonos que vinham ocupar um país gigante”, diz o professor, lembrando que essas pessoas eram, em sua maioria, empobrecidas e de ocupação rural. “O absurdo é que essas iniciativas não tenham sido também destinadas aos negros, que já estavam no Brasil. O nosso apartheid se desencadeia a partir daí.”

    Para Santos, o período que vai de 1911, ano de assinatura do decreto de incentivo à imigração, a 2022 “ampliou a defasagem socioeconômica entre os grupos étnico-raciais que constituem o país”.

    No último capítulo do livro, o professor se vale de sua experiência na gestão pública e das reflexões suscitadas pelos demais autores da obra para propor um Novo Acordo para a Equidade Racial, que ele denomina de Naper.

    “O racismo sistêmico inercial requer política pública, que é o meu foco”, ele diz, propondo um “New Deal customizado, adequado para um país de maioria negra”. O organizador faz referência à experiência norte-americana de intervenção econômica para consolidar, na década de 1930, um Estado de Bem-Estar Social no país.

    “Nós temos que criar o estado do bem-estar sociorracial”, afirma Santos. “Isso leva o país para um patamar civilizatório avançado. Eu insisto nessa ideia: longe de ser um problema, a questão racial é parte da solução.”

    Para levar o novo acordo a cabo, o professor lista dez sugestões de ações afirmativas sistêmicas para a promoção da equidade mencionada. Há ideias para diminuir as desigualdades na educação, programas de apoio para garantir autonomia às famílias negras, e propostas para reduzir a violência e manter a juventude negra viva.

    Prevê políticas afirmativas financeiras, de modo semelhante ao que, no século 20, foi feito com os imigrantes, e um programa de apoio à economia informal.

    Santos também sugere a ampliação das cotas raciais, que deveriam valer até 2042. “A razão é simples: ações tão tardias somente causarão impacto numa sociedade apartada racialmente, como a nossa, se perdurarem por um tempo adequado, para que possam consolidar uma mudança efetiva.”

    Como o professor aponta, é estratégico o lançamento da coletânea em meio aos debates do segundo turno da eleição brasileira. “O fortalecimento geral da população negra também vai levar a uma maior participação política”, acredita.

    Fala de Bolsonaro sobre canibalismo entre indígenas gera indignação, diz líder yanomami (Folha de S.Paulo)

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    Presidente do conselho de saúde indígena afirma que prática não existe, e antropólogo vê delírio em frase resgatada na campanha

    Vinicius Sassine

    7 de outubro de 2022


    A afirmação do presidente Jair Bolsonaro (PL) sobre canibalismo entre indígenas na região de Surucucu, feita em 2016 e resgatada na disputa eleitoral em segundo turno, é mentirosa, repulsiva, ofensiva e causadora de indignação entre os indígenas. É o que afirma Júnior Yanomami, presidente do Condisi (Conselho Distrital de Saúde Indígena) dos Yanomami e Ye’kuana.

    “Estou indignado, com raiva. Como um presidente que é candidato fala isso? Ele é uma pessoa que não conhece o Brasil. Meu povo não é canibal, não come humanos. Isso não existe nem nunca existiu, nem entre ancestrais”, diz Júnior à Folha.

    O presidente do Condisi é da região de Surucucu, uma das maiores áreas da Terra Indígena Yanomami, na região de Alto Alegre (RR). Ali vivem 3,5 mil yanomamis, em 34 comunidades. O Exército tem um PEF (Pelotão Especial de Fronteira) na região.

    O antropólogo Rogério Pateo, professor do Departamento de Antropologia e Arqueologia da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), morou em Surucucu por nove meses para um doutorado sobre os indígenas. O convívio com eles se dá desde 1998. Para Pateo, a referência de Bolsonaro é aos yanomami da região de Surucucu em Roraima.

    “O que ele fala é um delírio. É uma coisa absurda num nível. Típica de quem vive nessa bolha de preconceito contra os indígenas. Os yanomamis têm códigos alimentares rigorosos. Eles não comem nem carne de bicho mal passada”, afirma o antropólogo, que disse não saber de nenhuma prática de canibalismo entre outros indígenas brasileiros.

    As afirmações de Bolsonaro, feitas quando era deputado federal, ressurgiram nas redes sociais e foram exploradas pela campanha do ex-presidente Lula (PT), que levou as falas à propaganda eleitoral na TV. A campanha de Bolsonaro disse que acionará o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) contra o vídeo.

    O vídeo está no próprio canal de Bolsonaro no Youtube. Ele identifica o material, que tem mais de uma hora de duração, como uma entrevista dada ao jornal The New York Times. A data da postagem é 24 de março de 2016.

    “Quase comi um índio em Surucucu uma vez”, afirma o então deputado no vídeo. Bolsonaro diz ter estado uma vez em Surucucu. “Comecei a ver lá as mulheres índias passando com um carregamento de bananas nas costas. E o índio passa limpando os dentes com capim. ‘O que está acontecendo?’ Eu vi muita gente andando. ‘Morreu um índio e eles estão cozinhando.’ Eles cozinham o índio.”

    Bolsonaro prossegue na fala ao jornalista: “É a cultura deles. Bota o corpo. É para comer. Cozinha por dois, três dias, e come com banana. E daí eu queria ver o índio sendo cozinhado. Daí o cara: ‘Se for, tem de comer.’ ‘Eu como.’ Aí da comitiva ninguém quis ir.”

    O então deputado ainda reforça: “Eu comeria o índio sem problema nenhum. É cultura deles”.

    Não existe essa cultura, nem hábito, nem prática, nem histórico de ações do tipo entre os yanomamis de Surucucu, segundo Junior Yanomami, que nasceu e cresceu na comunidade, onde permanece com a família.

    “Não tinha conhecimento dessa fala de Bolsonaro”, diz Júnior.

    Ele detalha como funcionam os rituais fúnebres entre os yanomamis. Primeiro, são dois dias de reunião entre os indígenas. Depois, duas pessoas são escolhidas para colocar o corpo na floresta adentro, onde fica entre 30 e 45 dias, guardado e suspenso em estruturas finas de madeira.

    Em seguida ocorre a cremação, e as cinzas são guardadas em utensílios. Se o indígena que morreu é uma pessoa considerada importante para a comunidade, como um pajé, uma liderança ou um caçador, a retenção das cinzas pode durar anos. E pode haver repartição do material entre os indígenas.

    “O que Bolsonaro disse ofende e chateia muito. Não há nenhum registro de que ele tenha ido a Surucucu”, afirma Júnior. “A sociedade vai pensar que somos canibais. Essa pessoa não está bem da cabeça. Não tem o que oferecer ao Brasil.”

    Para o antropólogo Rogerio Pateo, o que Bolsonaro faz é reproduzir uma imagem de desenho animado.

    “Os relatos que existem são sobre guerreiros tupinambás, no litoral e no século 16, capturarem e assarem inimigos”, afirma. “Os yanomamis não comem nem carne de onça, porque dizem que onça come gente.”

    Segundo Pateo, as afirmações de Bolsonaro são a manifestação de um “preconceito num nível baixíssimo”. “Ele tem na cabeça aquela imagem que assustou a Europa 500 anos atrás. É preconceito e racismo. Atualmente, não há resquício dessa imagem de canibalismo entre indígenas brasileiros.”

    Meta dos EUA é atingir US$ 150 bilhões para o clima até 2030, diz diretora da Usaid (Folha de S.Paulo)

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    Gillian Caldwell, responsável pela nova estratégia da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, diz que plano prioriza apoio a indígenas e mulheres

    Cristiane Fontes

    5 de outubro de 2022


    “Esse dinheiro não apenas tornará nosso planeta mais limpo, mais verde e mais seguro, mas também nos poupará dinheiro a longo prazo, tanto por meio dos empregos verdes quanto do que não precisaremos gastar em respostas humanitárias no futuro”, afirmou Samantha Power, chefe da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), no lançamento da nova estratégia climática do órgão.

    “Sabemos que cada dólar investido em adaptação às mudanças climáticas pode render de US$ 2 a US$ 10 em benefícios. Portanto, implementar essa estratégia não é apenas a coisa necessária a fazer, é também a decisão mais econômica e inteligente a ser feita”, completou ela, que foi embaixadora dos EUA na ONU de 2013 a 2017, no governo de Barack Obama.

    O plano, anunciado em abril, conta com um orçamento de US$ 600 milhões e inaugura a intenção de transformar a Usaid em uma agência climática. À frente desse projeto está Gillian Caldwell, diretora de assuntos climáticos.

    A estratégia estabelece metas ambiciosas, como alcançar até 2030 a redução das emissões de carbono em 6 bilhões de toneladas. “Isso equivale a quase todas as emissões dos EUA num ano inteiro”, diz à Folha Caldwell, que já foi CEO da ONG Global Witness e liderou a campanha 1Sky, responsável pela mobilização de mais de 600 entidades para aprovar leis sobre clima nos EUA.

    Para isso, além da gestão de projetos em diversos países e da mobilização de múltiplos setores do governo americano, faz parte da estratégia dar assistência técnica também ao setor privado. A ideia é que investidores tenham acesso a projetos confiáveis relacionados às mudanças climáticas. Assim, como um todo, a meta é mobilizar US$ 150 bilhões para financiamento climático até 2030, incluindo aportes públicos e privados.

    Apesar da cifra elevada, Caldwell pondera que são necessários “de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões por ano até 2030 para atender às necessidades globais de mitigação e adaptação”. “Precisamos acelerar substancialmente os investimentos”, alerta.

    Outros objetivos são aumentar a resiliência e a capacidade adaptativa de 500 milhões de pessoas no planeta, especialmente de povos indígenas, mulheres e jovens, e promover a conservação, o uso sustentável e a restauração de 100 milhões de hectares de locais que são grandes estoques de carbono, como é o caso da Amazônia.

    No Brasil, a Usaid mantém projetos em parceria com o governo federal e gestões estaduais. “No ano passado, nossas ações na área de biodiversidade no Brasil protegeram habitats de espécies ameaçadas de extinção e geraram impactos positivos em 45 milhões de hectares de terras em todo o país. Para fins de comparação, é uma área maior que a Califórnia”, conta Caldwell.

    Na entrevista, a gestora também comenta, entre outros pontos, a Lei de Redução da Inflação, pacote ambiental recém-lançado pelo governo Biden.

    Quais são os principais objetivos da nova estratégia climática da Usaid? Ela foi lançada nos EUA no Dia da Terra, 22 de abril, e permanecerá em vigor até 2030. Trata-se da estratégia mais ambiciosa que a Usaid já lançou para tentar enfrentar a crise climática. De fato, todos os órgãos do governo Biden estão sendo encorajados a adotar uma postura mais ambiciosa em relação à mitigação e adaptação climáticas.

    Portanto, a estratégia estabelece uma série de metas muito ambiciosas e de alto nível a serem alcançadas até 2030, como, a redução das emissões de carbono em 6 bilhões de toneladas. Isso equivale a quase todas as emissões dos EUA num ano inteiro. Além disso, muito será realizado por meio de soluções baseadas na natureza. Queremos proteger e preservar 100 milhões de hectares de paisagens com grande estoque de carbono.

    Ademais, por meio da iniciativa Prepare de adaptação e resiliência, promovida pelo presidente [Biden], da qual a Usaid é a implementadora líder, queremos aumentar a resiliência e a capacidade adaptativa de meio bilhão de pessoas em todo o mundo.

    Por fim, queremos garantir intervenções capazes de mudar os sistemas em pelo menos 40 países ao redor do mundo, para aumentar a participação de comunidades marginalizadas, tais como povos indígenas e comunidades locais, mulheres e jovens.

    Qual é o orçamento que vocês têm para implementar a estratégia? O orçamento total da Usaid é de cerca de US$ 25 bilhões para o exercício financeiro atual. [Samantha] Power, nossa administradora, repetidamente se refere à Usaid como uma agência climática, então, em certo nível, estamos pensando no que podemos fazer com esses US$ 25 bilhões. O orçamento especificamente destinado a questões climáticas está na casa de US$ 600 milhões.

    Como a senhora pretende trabalhar com países como o Brasil para a conservação dos 100 milhões de hectares? Já somos muito ativos no Brasil. No ano passado, nossas ações na área de biodiversidade no Brasil protegeram habitats de espécies ameaçadas de extinção e geraram impactos positivos em 45 milhões de hectares de terras em todo o país. Para fins de comparação, é uma área maior que a Califórnia.

    Também estamos contribuindo para evitar mais de 300 milhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa. Além disso, fortalecemos a gestão de 189 áreas protegidas no Brasil, 83% das quais são territórios indígenas e quilombolas.

    Em termos gerais, conforme já mencionei, a estratégia climática enfatiza o envolvimento de povos indígenas e comunidades locais em todo o nosso trabalho de formulação [de políticas e programas]. Isso se deve ao fato de as comunidades indígenas cuidarem das paisagens mais importantes do mundo em termos de estoque de carbono.

    O atual desmantelamento das políticas ambientais brasileiras afeta o que a Usaid vem tentando fazer no país? Bem, nós temos uma cooperação com o governo brasileiro para proteger a biodiversidade. Nosso foco é colaborar não apenas com o governo federal, mas também com os governos subnacionais e regionais no Brasil, que é onde temos uma colaboração mais próxima.

    Na sua opinião, como a agenda de adaptação e resiliência deve ser modificada ou atualizada, considerando os últimos eventos climáticos extremos observados no mundo todo? Os impactos da crise climática estão sendo sentidos de forma muito intensa em todo o mundo, ainda mais do que haviam previsto os cientistas. Sabemos que as consequências serão desastrosas. Basta ver o que está acontecendo no Paquistão, onde níveis recorde de monções deixaram mais de um terço do país debaixo d’água.

    Portanto, a necessidade é urgente, tanto de reduzir as emissões e evitar as piores consequências da crise climática quanto de ajudar as comunidades a aumentar sua resiliência e capacidade de adaptação. É por isso que a Usaid trabalha em ambas as frentes: mitigação e adaptação.

    Na iniciativa Prepare, que é nosso plano emergencial de adaptação e resiliência, temos três focos. O primeiro é apoiar o trabalho de cientistas e meteorologistas, tomadores de decisão e comunidades para fortalecer os sistemas de alerta precoce e outros serviços de informação climática. Isso está de acordo com o apelo do secretário-geral da ONU [o português António Guterres] por alerta antecipado para todos.

    Muitas comunidades não são alertadas sobre eventos climáticos e meteorológicos extremos que podem ameaçar suas vidas e meios de subsistência. Mesmo 24 horas de antecedência são capazes de reduzir substancialmente os riscos e as perdas de vidas e meios de subsistência.

    Em segundo lugar, estamos apoiando iniciativas locais para integrar boas práticas de adaptação climática às políticas de planejamento e aos orçamentos nacionais e locais. Quando examinamos as políticas de planejamento e os orçamentos de infraestrutura, saúde, segurança hídrica e alimentar, deslocamentos e migração, percebemos que os riscos climáticos nem sempre são abordados de forma sistemática. Por isso, estamos fornecendo conhecimentos técnicos para garantir que as análises climáticas sejam incorporadas ao modelo de todos esses programas.

    Em terceiro lugar, queremos realmente tentar eliminar o déficit em investimentos financeiros e adaptação climática. Nossa meta é catalisar US$ 150 bilhões em financiamento público e privado, e uma grande ênfase deve ser dada à adaptação. O setor privado está começando a investir em respostas climáticas, especialmente na mitigação. Contudo, apenas 3% dos recursos privados são destinados a ações de adaptação.

    Sabemos que precisamos de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões por ano até 2030 para atender às necessidades globais de mitigação e adaptação. Precisamos acelerar substancialmente os investimentos.

    Como está, até o momento, a implementação do plano internacional de financiamento climático? Estamos nos concentrando em quatro áreas principais. A primeira é fornecer assistência técnica e desenvolvimento de “pipelines”para garantir que o setor privado tenha acesso a projetos confiáveis e capazes de receber investimentos em mitigação e adaptação.

    Se observarmos a proliferação global de compromissos relativos a zerar as emissões líquidas —em Glasgow [na Escócia, onde foi realizada a última conferência do clima da ONU, a COP26, em 2021] e além—, veremos que há bilhões de dólares em recursos do setor privado disponíveis, apenas aguardando a oportunidade certa para que sejam investidos em projetos climáticos positivos. Muitos investidores do setor privado dirão que simplesmente não há projetos suficientes com a credibilidade ou a integridade que eles buscam.

    A segunda área tem a ver com o que chamamos de ambiente propício. Em outras palavras, ajudar os governos a aumentar o investimento, garantindo que haja políticas e incentivos fiscais adequados em vigor. É pouco provável que alguém consiga estimular investimentos em economias de energias renováveis sem fornecer créditos fiscais, como os que a Lei de Redução da Inflação nos EUA acaba de oferecer.

    Os US$ 369 bilhões que a Lei de Redução da Inflação de 2022 direcionou para a transição das energias renováveis já deram resultados. Estamos vendo bilhões de dólares em novos compromissos.

    A terceira é usar nosso poder de mobilização para reunir uma diversidade de partes interessadas —governos, investidores do setor privado ou instituições multilaterais como o Banco Mundial— para realmente garantir que estejamos unindo forças para maximizar nosso potencial de investimento.

    Por fim, estamos ampliando o uso de ferramentas financeiras inovadoras. Como um órgão público de desenvolvimento internacional, obviamente temos condições de fornecer subsídios capazes de reduzir os riscos de investimentos do setor privado. O que queremos fazer é fornecer capital concessional que reduza a percepção de riscos e aumente o retorno potencial dos investimentos do setor privado.

    O presidente Biden estava disposto a mobilizar mais de US$ 11 bilhões em financiamento climático para países em desenvolvimento, o que não foi possível, como sabemos. Na sua opinião, como mobilizar fundos para a crise climática neste momento tão crucial e tão desafiador? O presidente Biden se comprometeu a quadruplicar o financiamento climático dos EUA e chegar a US$ 11,4 bilhões até 2024, e esse compromisso permanece firme. Obviamente, precisamos do apoio do Congresso para conseguirmos fazer isso.

    Se houver dotação orçamentária, o que também depende do Congresso, o orçamento da Presidência para o exercício financeiro de 2023 —um ano antes da meta prometida de 2024— seria capaz de cumprir a promessa por meio de uma combinação de financiamento direto e indireto.

    Além disso, precisamos trabalhar em conjunto com nossos aliados para cumprir a promessa feita no Acordo de Paris, de US$ 100 bilhões anuais para mitigação e adaptação climáticas em países em desenvolvimento. Isso ainda não é, nem de longe, o suficiente, mas ainda temos que atingir essa meta, que é muito importante.

    Qual a sua opinião sobre o mercado voluntário de carbono? Ele é considerado por certas pessoas uma fonte de financiamento importante, enquanto, para outras, é prejudicial para as comunidades locais e ineficaz para a redução de emissões? Bem, creio que os mercados de carbono constituem uma das muitas ferramentas para catalisar todas as mudanças necessárias. É inegável que, em certas situações, os mercados de carbono se mostraram ineficazes na mobilização de financiamento para as comunidades locais ou na geração de benefícios reais de conservação.

    Ao mesmo tempo, o mercado voluntário de carbono está crescendo exponencialmente. Em 2021, já era avaliado em US$ 2 bilhões. Então precisamos achar a solução certa: isso já está acontecendo, quer você queira, quer não.

    Meu foco é garantir que ele seja o mais íntegro e equitativo possível. Precisamos de dados e monitoramento transparentes para garantir que as reduções de emissões sejam reais e que os fundos gerados por meio das reduções de emissões realmente beneficiem as comunidades locais.


    Raio-X

    Gillian Caldwell, 56

    Com formação nas universidades Harvard e Georgetown, é advogada, ativista e cineasta. Atualmente é diretora para assuntos climáticos da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), além de administradora-adjunta do órgão. Antes, foi CEO da ONG Global Witness. De 2007 a 2010, foi diretora da campanha 1SKy, iniciativa de mais de 600 organizações para aprovar a legislação climática nos EUA. Caldwell já recebeu diversos reconhecimentos no setor de empreendedorismo social, incluindo o Prêmio Skoll.

    Generation Amazing!!! How We’re Draining Language of Its Power (Literary Hub)

    lithub.com

    Emily McCrary-Ruiz-Esparza on the “Maxim of Extravagance”

    By Emily McCrary-Ruiz-Esparza

    September 27, 2022


    I noticed it recently when I scheduled my dog for a veterinarian’s appointment. The person who answered the phone was friendly enough and greeted me warmly, and then I made my request.

    I’d like to make an appointment for my dog, I said. Wonderful, said the scheduler. June McCrary.  Excellent. She needs an anal gland expression. Fantastic!

    I was surprised anyone could be so over the moon to empty my chihuahua’s anal glands—if you google the procedure I’m sure you will be as well—but in a way, grateful too.

    When I shared this story with a friend, she told me about a conversation she overheard between two parents at the park. What are your children’s names? one of them said as they watched a pair of boys fight each other for one of those cold metal animals that bobs back and forth. The other responded but my friend didn’t catch the answer. The conversation went on and one side sounded something like this: Really? Amazing. That’s so beautiful. Just beautiful. How did you choose names like that?

    Their names: Matthew and David. Fine names. But when you ooze words like amazing and beautiful, I imagine we’re dealing with something like Balthazaar and Tiberius.

    We reach for over-the-top words for just about anything. These amazings and wonderfuls and incredibles and fantastics, we throw them around as we once did OKs and thank yous and I can help with thats.

    Surreal is another favorite word since the spring of 2020. During the first quarantine, driving through the city in the only car on the road really did feel surreal, so did seeing every business closed, like maybe we were living in a Saramago novel. A grocery store full of masked shoppers circling each other at a wary distance of six feet wasn’t exactly surreal, but it was strange enough, so we used it there too.

    Eventually we ran out of places to put the word, and by then we were tired, so driving on the road with other cars became surreal, seeing other people standing close to each other in the grocery store was surreal, not having to wear a mask was surreal. It became a way to describe change, or anything out of the ordinary.

    What is it that makes us talk this way? That to express a modicum of emotion, we have to reach for words like fantastic, incredible, unbelievable, and unreal, words meant to convey a certain level of magnitude, but that no longer carry their original weight.The less potent our words are, the more we have to reach for particularly emotive ones to say what we want to say.

    Martin Hilpert, who teaches linguistics at the Université de Neuchâtel in Switzerland, told me this is nothing new. “Words with evaluative meanings lose potency as speakers apply them to more and more situations. Toilet paper that is especially soft can be ‘fantastic,’ a train delayed by ten minutes can be ‘a disaster.’”

    This occurs in a sort of cycle, which Martin Haspelmath, a comparative linguist at the Max Planck Institute for Evolutionary Anthropology in Leipzig, describes in a handful of steps.

    It happens like this: To attract attention, we submit to the “maxim of extravagance.” You really want people to see the taxidermied pig you just bought, so you tell your friend, “Man, this thing is incredible. It’s wearing a lederhosen and everything.” Your friend goes to see the pig and he too is surprised by the thing. He starts telling his friends, “that thing is incredible.” This is called “conformity.” Word gets around the neighborhood and then the whole block is talking about the incredible taxidermied pig. This is called “frequency.” You’re out for a walk one day, and you flag down a Door Dasher on a bicycle. “Have you seen the—” “The incredible taxidermied pig? Yeah man, whatever.” This is called “predictability.”

    Predictability is useful when we want to fit in with the crowd, but it’s not useful if we want to attract attention, which you need at this point, because you’ve started charging admission to see the pig. Now you need to innovate, and you’re back to the maxim of extravagance again, so the pig becomes unbelievable.

    A pop-linguistic term for this is “semantic bleaching,” like staining all the color out of our words, and it happens with overuse. Another way to describe it is supply and demand. When we use a word too much and there are too many excellents and beautifuls floating around, each becomes less valuable.

    Bleaching has a circular relationship with hyperbole. The less potent our words are, the more we have to reach for particularly emotive ones to say what we want to say, and we climb a crowded ladder to a place where all words are wispy and white and no one is really saying anything at all. That’s how anal gland expressions become fantastic and ordinary names like David and Matthew become amazing.

    Writers and thinkers have many times over made the case that stale language is both a symptom and cause of the deterioration of critical thought. George Orwell, famously, for one. He writes in “Politics and the English Language” that a speaker who uses tired language has “gone some distance toward turning himself into a machine. The appropriate noises are coming out of his larynx, but his brain is not involved as it would be if he were choosing his words for himself.”

    There is a certain point when turns of phrase are so out of fashion they become fresh again. Orwell’s dying metaphors of the 1940s were take up the cudgel for and ring the changes on, which would feel interesting now. Ours are full-throated and deep dive and unpack and dig in and at the end of the day.

    I contacted several academics for the writing of this essay and asked them whether the new abundance of communication accelerates the exhaustion of words. They insisted that there isn’t more communication going on now than in the past, it’s just more visible. ­If we’re talking this much, it might be that we’re desperate to exist. If we’re slinging around words like amazing and incredible and surreal, it might be that we’re looking for these things.

    I don’t believe this is true. The overwhelming quantity of means we have for talking to each other, and the fact that we’re using them, tells me there is more communication. There are some friends I talk to daily because we share a text thread. I wouldn’t be calling all five of them every day otherwise. I can watch two people berate each other in the comments section of a Washington Post article about soup, two people that, thirty years ago, would never get the chance to come to blows over curry.

    Language is adapted and spread through exposure, so of course change is accelerating. In the same way clothes fall in and out of fashion at shorter intervals now, because of social media and all our instant global connectedness, so do our words.

    The fields of linguistics, anthropology, and English are full of hyperbole stans who go to great lengths to make the case for its value and importance. They call it “the master trope,” “the trope of tropes,” “a generator of thought and meaning,” “a tool of philosophical and religious inquiry,” “ an act of becoming,” and “a propelling toward transcendence from an eminent exigency.”

    In a paper titled “Recovering Hyperbole: Rethinking the Limits of Rhetoric for an Age of Excess,” the scholar Joshua R. Ritter argues the prescience of hyperbole. For Ritter, hyperbole reflects an innate desire for understanding. He calls it “one of the most effective ways of trying to express the often confounding and inexpressible positions that characterize the litigious discussions of impossibility.”

    Ritter also cites Saint Anselm of Canterbury, who believed that the way humans describe God is the archetypal example of hyperbole—it’s everything that cannot be understood, but we do our best to understand anyway.

    “It dramatically holds the real and the ideal in irresolvable tension and reveals the impossible distance between the ineptitude and the infinite multiplicity of language to describe what is indescribable,” Ritter writes.

    We may be often confounded, but we are hardly ever without something to say. The internet, the great proliferator of communication, incentivizes no one to be speechless. If you’re not talking, you’re not there, so the more frequently you speak, the more real you are. Stop talking and you disappear.

    If we’re talking this much, it might be that we’re desperate to exist. If we’re slinging around words like amazing and incredible and surreal, it might be that we’re looking for these things. If we are Generation Hyperbole, it is because we are so desperate to feel something good and tremendous—we’re constantly reaching for something beyond. We want to feel awed, we want to be in touch with something dreamlike, we want to see things that are really beautiful, we’ve only forgotten where to find them. But we’re looking for meaning, you can see it in our language. Even Orwell believed “that the decadence of our language is probably curable.”

    Global connectedness means we’re witness to terrible things on a terrible scale, and we share an inadequate language to understand it. We need to feel, even if that feeling is pain, and we need to know that we’re not alone in the feeling. If tragedy is now commonplace, why can’t truly excellent things, amazing things, fantastic things too become commonplace?

    Ritter writes:

    Once a perplexing and sometimes disturbing disorienting perception occurs, this vertige de l’hyperbole as Baudelaire refers to it, one is ready for a perspectival reorientation—a paradoxical movement leading toward insight and partial apprehension. By generating confusion through excess, hyperbole alters and creates meaning.

    You Can’t Always Get What You Want – A Mick Jagger Theory of Drought Management (California WaterBlog)

    Original article

    Posted on August 28, 2022

    graph

    Graph of cumulative job and revenue data for California (Josue Medellín-Azuara, 2015)

    by Jay Lund

    [This is a reposting of a CaliforniaWaterBlog.com post from February 2016, near the end of the previous drought.  For human uses, conditions seem somewhat similar to this point in the previous drought, so this perspective might be useful. A couple of more recent readings are added to this post.]

    “You can’t always get what you want
    But if you try sometimes you just might find
    You get what you need,” Rolling Stones (1969, Let It Bleed album)

    The ongoing California drought has many lessons for water managers and policy-makers. Perhaps the greatest lesson is how unimportant a drought can be if we manage water well.

    For the last two years, California lost about 33% of its normal water supply due to drought, but from a statewide perspective saw statistically undetectable losses of jobs and economic production, despite often severe local effects. Agricultural production, about 2% of California’s economy, was harder hit, fallowing about 6% of irrigated land, and reducing net revenues by 3% and employment by 10,000 jobs from what it would have been without drought. Yet, high commodity prices and continued shifts to higher valued crops (such as almonds, with more jobs per acre) raised statewide agricultural employment slightly and raised overall revenues for agriculture to record levels in 2014 (the latest year with state statistics).

    Cities, responsible for the vast majority of California’s economy, were required to reduce water use by an average of 25% in 2015. These conservation targets were generally well achieved on quite short notice.   Most remarkably, there has been little discernible statewide economic impact from this 25% reduction in urban water use, although many local water districts are suffering financially.

    well

    More groundwater pumping greatly reduced drought impacts. Picture courtesy of DWR.

    How could such a severe drought cause so little economic damage? Much of the lost water supply from drought was made up for by withdrawals of water from storage, particularly groundwater. But the substantial amount of water shortage that remained was largely well-allocated. Farmers of low-valued crops commonly sold water to farmers of higher-valued crops and to cities, greatly reducing economic losses. Within each sector, moreover, utilities, farmers, and individual water users allocated available water for higher-valued uses and shorted generally lower-valued uses and crops.

    If shortages are well-allocated, California has tremendous potential to absorb drought-related shortages with relatively little economic impact. This economic robustness to drought arises from several characteristics of California’s economic structure and its uses of water.

    First, the most water-intensive part of California’s economy, agriculture, accounts for about 80% of all human water use, but is about 2% of California’s economy. So long as water deliveries are preserved for the bulk of the economy, in cities, California’s economy can withstand considerable drought (Harou et al. 2010). And the large strong parts of the economy can aid those more affected by drought.

    rev

    Gross annual revenue for California crops ($ millions). (using California Department of Water Resources irrigated crop acres and water use data)

    Second, within agriculture, roughly 80-90% of employment and revenues are from higher-valued crops (such as vegetable and tree crops) which occupy about 50% of California’s irrigated land and are about 50% of California’s agricultural water use. If available water is allocated to these crops, a very large water shortage can be accommodated with a much smaller (but still substantial and unprecedented) economic loss.  Water markets have made these allocations flexibly, with some room for improvement.

    Global food markets have fundamentally changed the nature of drought for humans. Throughout history, disruptions of regional food production due to drought would lead to famine and pestilence. This is no longer the case for California and other globally-connected economies, where food is readily available at more stable global prices. California continued to export high-valued fruits and nuts, even as corn and wheat production decreased, with almost no effects on local or global prices. Food insecurity due to drought is largely eliminated in globalized economies (poverty is another matter). Subsistence agriculture remains more vulnerable from drought.

    Third, cities also concentrate much of their water use in lower-valued activities. Roughly half of California’s urban water use is for landscape irrigation. By concentrating water use reductions on such less-productive uses, utilities and individual water users greatly lowered the costs of drought. If cities had shut down 25% of businesses to implement 25% cuts in water use, the drought and California’s drought management would have been truly catastrophic.

    Fourth, although California’s climate is very susceptible to drought, California’s geology provides abundant  drought water storage in the form of groundwater, if managed well.  The availability of groundwater allowed expanded pumping which made up for over 70% of agriculture’s loss of surface water during the drought and provided a buffer for many cities as well. If we replenish groundwater in wetter years, as envisioned in the 2014 groundwater legislation, California’s geologic advantage for withstanding drought should continue.

    All of this leads to what we might call a Mick Jagger theory of drought management. Yes, droughts can be terrible in preventing us from getting all that we want, and will cause severe local impacts. But if we manage droughts and water well and responsibly, then we can usually get the water that the economy and society really needs. This overall economic strength also allows for aid to those more severely affected by drought. This is an optimistic and pragmatic lesson for dry drought-prone places with strong globalized economies, such as California.

    California’s ecosystems should have similar robustness of ecosystem health with water use, and naturally persisted through substantial droughts long ago.  But today, California’s ecosystems entered this drought in an already severely depleted and disrupted state.   (The Mick Jagger characterization of California’s ecosystems might be “Gimme Shelter,” from the same album.)  If we can sufficiently improve our management of California’s ecosystems before and during droughts, perhaps they will be more robust to drought. Reconciling native ecosystems with land and water development is an important challenge.

    “If I don’t get some shelter
    Oh yeah, I’m gonna fade away” Rolling Stones (1969, Let It Bleed album)

    The drought reminds us that California is a dry place where water will always cause controversy and some dissatisfaction.  However, despite the many apocalyptic statements on California’s drought, the state has done quite well economically, so far, overall. But, the drought has identified areas needing improvement, so that we can continue to get most of what we really need from water in California, even in future droughts.  We should neither panic, nor be complacent, but focus on the real challenges identified by the drought.

    Jay Lund is Co-Director of the Center for Watershed Sciences and Professor of Civil and Environmental Engineering at the University of California – Davis.

    Further reading

    Lund, J.,  Follow the Water! Who uses how much water where?, CaliforniaWaterBlog.com, Posted on July 24, 2022.

    Hanak, E., J. Mount, C. Chappelle, J. Lund, J. Medellín-Azuara, P. Moyle, and N. Seavy, What If California’s Drought Continues?, 20 pp., PPIC Water Policy Center, San Francisco, CA, August 2015.

    Harou, J.J., J. Medellin-Azuara, T. Zhu, S.K. Tanaka, J.R. Lund, S. Stine, M.A. Olivares, and M.W. Jenkins, “Economic consequences of optimized water management for a prolonged, severe drought in California,” Water Resources Research, doi:10.1029/2008WR007681, Vol. 46, 2010

    Howitt R, Medellín-Azuara J, MacEwan D, Lund J and Sumner D., “Economic Analysis of the 2015 Drought for California Agriculture.” Center for Watershed Sciences, UC Davis. 16 pp, August, 2015.

    Medellín-Azuara J., R. Howitt, D. MacEwan, D. Sumner and J. Lund, “Drought killing farm jobs even as they grow,” CaliforniaWaterBlog.com, June 8, 2015.

    Wikipedia, “You Can’t Always Get What You Want”, https://en.wikipedia.org/wiki/You_Can’t_Always_Get_What_You_Want

    Wikipedia, “Gimme Shelter”, https://en.wikipedia.org/wiki/Gimme_Shelter

    The Coming California Megastorm (New York Times)

    nytimes.com

    Raymond Zhong


    A different ‘Big One’ is approaching. Climate change is hastening its arrival.

    Aug. 12, 2022

    California, where earthquakes, droughts and wildfires have shaped life for generations, also faces the growing threat of another kind of calamity, one whose fury would be felt across the entire state.

    This one will come from the sky.

    According to new research, it will very likely take shape one winter in the Pacific, near Hawaii. No one knows exactly when, but from the vast expanse of tropical air around the Equator, atmospheric currents will pluck out a long tendril of water vapor and funnel it toward the West Coast.

    This vapor plume will be enormous, hundreds of miles wide and more than 1,200 miles long, and seething with ferocious winds. It will be carrying so much water that if you converted it all to liquid, its flow would be about 26 times what the Mississippi River discharges into the Gulf of Mexico at any given moment.

    When this torpedo of moisture reaches California, it will crash into the mountains and be forced upward. This will cool its payload of vapor and kick off weeks and waves of rain and snow.

    The coming superstorm — really, a rapid procession of what scientists call atmospheric rivers — will be the ultimate test of the dams, levees and bypasses California has built to impound nature’s might.

    But in a state where scarcity of water has long been the central fact of existence, global warming is not only worsening droughts and wildfires. Because warmer air can hold more moisture, atmospheric rivers can carry bigger cargoes of precipitation. The infrastructure design standards, hazard maps and disaster response plans that protected California from flooding in the past might soon be out of date.

    As humans burn fossil fuels and heat up the planet, we have already increased the chances each year that California will experience a monthlong, statewide megastorm of this severity to roughly 1 in 50, according to a new study published Friday. (The hypothetical storm visualized here is based on computer modeling from this study.)

    In the coming decades, if global average temperatures climb by another 1.8 degrees Fahrenheit, or 1 degree Celsius — and current trends suggest they might — then the likelihood of such storms will go up further, to nearly 1 in 30.

    At the same time, the risk of megastorms that are rarer but even stronger, with much fiercer downpours, will rise as well.

    These are alarming possibilities. But geological evidence suggests the West has been struck by cataclysmic floods several times over the past millennium, and the new study provides the most advanced look yet at how this threat is evolving in the age of human-caused global warming.

    The researchers specifically considered hypothetical storms that are extreme but realistic, and which would probably strain California’s flood preparations. According to their findings, powerful storms that once would not have been expected to occur in an average human lifetime are fast becoming ones with significant risks of happening during the span of a home mortgage.

    “We got kind of lucky to avoid it in the 20th century,” said Daniel L. Swain, a climate scientist at the University of California, Los Angeles, who prepared the new study with Xingying Huang of the National Center for Atmospheric Research in Boulder, Colo. “I would be very surprised to avoid it occurring in the 21st.”

    Unlike a giant earthquake, the other “Big One” threatening California, an atmospheric river superstorm will not sneak up on the state. Forecasters can now spot incoming atmospheric rivers five days to a week in advance, though they don’t always know exactly where they’ll hit or how intense they’ll be.

    Using Dr. Huang and Dr. Swain’s findings, California hopes to be ready even earlier. Aided by supercomputers, state officials plan to map out how all that precipitation will work its way through rivers and over land. They will hunt for gaps in evacuation plans and emergency services.

    The last time government agencies studied a hypothetical California megaflood, more than a decade ago, they estimated it could cause $725 billion in property damage and economic disruption. That was three times the projected fallout from a severe San Andreas Fault earthquake, and five times the economic damage from Hurricane Katrina, which left much of New Orleans underwater for weeks in 2005.

    Dr. Swain and Dr. Huang have handed California a new script for what could be one of its most challenging months in history. Now begin the dress rehearsals.

    “Mother Nature has no obligation to wait for us,” said Michael Anderson, California’s state climatologist.

    In fact, nature has not been wasting any time testing California’s defenses. And when it comes to risks to the water system, carbon dioxide in the atmosphere is hardly the state’s only foe.

    THE ULTIMATE CURVEBALL

    On Feb. 12, 2017, almost 190,000 people living north of Sacramento received an urgent order: Get out. Now. Part of the tallest dam in America was verging on collapse.

    That day, Ronald Stork was in another part of the state, where he was worrying about precisely this kind of disaster — at a different dam.

    Standing with binoculars near California’s New Exchequer Dam, he dreaded what might happen if large amounts of water were ever sent through the dam’s spillways. Mr. Stork, a policy expert with the conservation group Friends of the River, had seen on a previous visit to Exchequer that the nearby earth was fractured and could be easily eroded. If enough water rushed through, it might cause major erosion and destabilize the spillways.

    He only learned later that his fears were playing out in real time, 150 miles north. At the Oroville Dam, a 770-foot-tall facility built in the 1960s, water from atmospheric rivers was washing away the soil and rock beneath the dam’s emergency spillway, which is essentially a hillside next to the main chute that acts like an overflow drain in a bathtub. The top of the emergency spillway looked like it might buckle, which would send a wall of water cascading toward the cities below.

    Mr. Stork had no idea this was happening until he got home to Sacramento and found his neighbor in a panic. The neighbor’s mother lived downriver from Oroville. She didn’t drive anymore. How was he going to get her out?

    Mr. Stork had filed motions and written letters to officials, starting in 2001, about vulnerabilities at Oroville. People were now in danger because nobody had listened. “It was nearly soul crushing,” he said.

    “With flood hazard, it’s never the fastball that hits you,” said Nicholas Pinter, an earth scientist at the University of California, Davis. “It’s the curveball that comes from a direction you don’t anticipate. And Oroville was one of those.”

    Ronald Stork in his office at Friends of the River in Sacramento.

    The spillway of the New Exchequer Dam.

    Such perils had lurked at Oroville for so long because California’s Department of Water Resources had been “overconfident and complacent” about its infrastructure, tending to react to problems rather than pre-empt them, independent investigators later wrote in a report. It is not clear this culture is changing, even as the 21st-century climate threatens to test the state’s aging dams in new ways. One recent study estimated that climate change had boosted precipitation from the 2017 storms at Oroville by up to 15 percent.

    A year and a half after the crisis, crews were busy rebuilding Oroville’s emergency spillway when the federal hydropower regulator wrote to the state with some unsettling news: The reconstructed emergency spillway will not be big enough to safely handle the “probable maximum flood,” or the largest amount of water that might ever fall there.

    Sources: Global Historical Climatology Network, Huang and Swain (2022) Measurements taken from the Oroville weather station and the nearest modeled data point

    This is the standard most major hydroelectric projects in the United States have to meet. The idea is that spillways should basically never fail because of excessive rain.

    Today, scientists say they believe climate change might be increasing “probable maximum” precipitation levels at many dams. When the Oroville evacuation was ordered in 2017, nowhere near that much water had been flowing through the dam’s emergency spillway.

    Yet California officials have downplayed these concerns about the capacity of Oroville’s emergency spillway, which were raised by the Federal Energy Regulatory Commission. Such extreme flows are a “remote” possibility, they argued in a letter last year. Therefore, further upgrades at Oroville aren’t urgently needed.

    In a curt reply last month, the commission said this position was “not acceptable.” It gave the state until mid-September to submit a plan for addressing the issue.

    The Department of Water Resources told The Times it would continue studying the matter. The Federal Energy Regulatory Commission declined to comment.

    “People could die,” Mr. Stork said. “And it bothers the hell out of me.”

    WETTER WET YEARS

    Donald G. Sullivan was lying in bed one night, early in his career as a scientist, when he realized his data might hold a startling secret.

    For his master’s research at the University of California, Berkeley, he had sampled the sediment beneath a remote lake in the Sacramento Valley and was hoping to study the history of vegetation in the area. But a lot of the pollen in his sediment cores didn’t seem to be from nearby. How had it gotten there?

    When he X-rayed the cores, he found layers where the sediment was denser. Maybe, he surmised, these layers were filled with sand and silt that had washed in during floods.

    It was only late that night that he tried to estimate the ages of the layers. They lined up neatly with other records of West Coast megafloods.

    “That’s when it clicked,” said Dr. Sullivan, who is now at the University of Denver.

    His findings, from 1982, showed that major floods hadn’t been exceptionally rare occurrences over the past eight centuries. They took place every 100 to 200 years. And in the decades since, advancements in modeling have helped scientists evaluate how quickly the risks are rising because of climate change.

    For their new study, which was published in the journal Science Advances, Dr. Huang and Dr. Swain replayed portions of the 20th and 21st centuries using 40 simulations of the global climate. Extreme weather events, by definition, don’t occur very often. So by using computer models to create realistic alternate histories of the past, present and future climate, scientists can study a longer record of events than the real world offers.

    Dr. Swain and Dr. Huang looked at all the monthlong California storms that took place during two time segments in the simulations, one in the recent past and the other in a future with high global warming, and chose one of the most intense events from each period. They then used a weather model to produce detailed play-by-plays of where and when the storms dump their water.

    Those details matter. There are “so many different factors” that make an atmospheric river deadly or benign, Dr. Huang said.

    Xingying Huang of the National Center for Atmospheric Research in Boulder, Colo. Rachel Woolf for The New York Times

    The New Don Pedro Dam spillway.

    Wes Monier, a hydrologist, with a 1997 photo of water rushing through the New Don Pedro Reservoir spillway.

    In the high Sierras, for example, atmospheric rivers today largely bring snow. But higher temperatures are shifting the balance toward rain. Some of this rain can fall on snowpack that accumulated earlier, melting it and sending even more water toward towns and cities below.

    Climate change might be affecting atmospheric rivers in other ways, too, said F. Martin Ralph of the Scripps Institution of Oceanography at the University of California, San Diego. How strong their winds are, for instance. Or how long they last: Some storms stall, barraging an area for days on end, while others blow through quickly.

    Scientists are also working to improve atmospheric river forecasts, which is no easy task as the West experiences increasingly sharp shifts from very dry conditions to very wet and back again. In October, strong storms broke records in Sacramento and other places. Yet this January through March was the driest in the Sierra Nevada in more than a century.

    “My scientific gut says there’s change happening,” Dr. Ralph said. “And we just haven’t quite pinned down how to detect it adequately.”

    Better forecasting is already helping California run some of its reservoirs more efficiently, a crucial step toward coping with wetter wet years and drier dry ones.

    On the last day of 2016, Wes Monier was looking at forecasts on his iPad and getting a sinking feeling.

    Mr. Monier is chief hydrologist for the Turlock Irrigation District, which operates the New Don Pedro Reservoir near Modesto. The Tuolumne River, where the Don Pedro sits, was coming out of its driest four years in a millennium. Now, some terrifying rainfall projections were rolling in.

    First, 23.2 inches over the next 16 days. A day later: 28.8 inches. Then 37.1 inches, roughly what the area normally received in a full year.

    If Mr. Monier started releasing Don Pedro’s water too quickly, homes and farms downstream would flood. Release too much and he would be accused of squandering water that would be precious come summer.

    But the forecasts helped him time his flood releases precisely enough that, after weeks of rain, the water in the dam ended up just shy of capacity. Barely a drop was wasted, although some orchards were flooded, and growers took a financial hit.

    The next storm might be even bigger, though. And even the best data and forecasts might not allow Mr. Monier to stop it from causing destruction. “There’s a point there where I can’t do anything,” he said.

    KATRINA 2.0

    How do you protect a place as vast as California from a storm as colossal as that? Two ways, said David Peterson, a veteran engineer. Change where the water goes, or change where the people are. Ideally, both. But neither is easy.

    Firebaugh is a quiet, mostly Hispanic city of 8,100 people, one of many small communities that power the Central Valley’s prodigious agricultural economy. Many residents work at nearby facilities that process almonds, pistachios, garlic and tomatoes.

    Firebaugh also sits right on the San Joaquin River.

    For a sleepless stretch of early 2017, Ben Gallegos, Firebaugh’s city manager, did little but watch the river rise and debate whether to evacuate half the town. Water from winter storms had already turned the town’s cherished rodeo grounds into a swamp. Now it was threatening homes, schools, churches and the wastewater treatment plant. If that flooded, people would be unable to flush their toilets. Raw sewage would flow down the San Joaquin.

    Luckily, the river stopped rising. Still, the experience led Mr. Gallegos to apply for tens of millions in funding for new and improved levees around Firebaugh.

    Levees change where the water goes, giving rivers more room to swell before they inundate the land. Levee failures in New Orleans were what turned Katrina into an epochal catastrophe, and after that storm, California toughened levee standards in urbanized areas of the Sacramento and San Joaquin Valleys, two major river basins of the Central Valley.

    The idea is to keep people out of places where the levees don’t protect against 200-year storms, or those with a 0.5 percent chance of occurring in any year. To account for rising seas and the shifting climate, California requires that levees be recertified as providing this level of defense at least every 20 years.

    Firebaugh, Calif., on the San Joaquin River, is home to 8,100 people and helps power the Central Valley’s agricultural economy.

    Ben Gallegos, the Firebaugh city manager.

    A 6-year-old’s birthday celebration in Firebaugh.

    The problem is that once levees are strengthened, the areas behind them often become particularly attractive for development: fancier homes, bigger buildings, more people. The likelihood of a disaster is reduced, but the consequences, should one strike, are increased.

    Federal agencies try to stop this by not funding infrastructure projects that induce growth in flood zones. But “it’s almost impossible to generate the local funds to raise that levee if you don’t facilitate some sort of growth behind the levee,” Mr. Peterson said. “You need that economic activity to pay for the project,” he said. “It puts you in a Catch-22.”

    A project to provide 200-year protection to the Mossdale Tract, a large area south of Stockton, one of the San Joaquin Valley’s major cities, has been on pause for years because the Army Corps of Engineers fears it would spur growth, said Chris Elias, executive director of the San Joaquin Area Flood Control Agency, which is leading the project. City planners have agreed to freeze development across thousands of acres, but the Corps still hasn’t given its final blessing.

    The Corps and state and local agencies will begin studying how best to protect the area this fall, said Tyler M. Stalker, a spokesman for the Corps’s Sacramento District.

    The plodding pace of work in the San Joaquin Valley has set people on edge. At a recent public hearing in Stockton on flood risk, Mr. Elias stood up and highlighted some troubling math.

    The Department of Water Resources says up to $30 billion in investment is needed over the next 30 years to keep the Central Valley safe. Yet over the past 15 years, the state managed to spend only $3.5 billion.

    “We have to find ways to get ahead of the curve,” Mr. Elias said. “We don’t want to have a Katrina 2.0 play out right here in the heart of Stockton.”

    As Mr. Elias waits for projects to be approved and budgets to come through, heat and moisture will continue to churn over the Pacific. Government agencies, battling the forces of inertia, indifference and delay, will make plans and update policies. And Stockton and the Central Valley, which runs through the heart of California, will count down the days and years until the inevitable storm.

    T​​he Sacramento-San Joaquin Delta near Stockton, Calif.

    Sources

    The megastorm simulation is based on the “ARkHist” storm modeled by Huang and Swain, Science Advances (2022), a hypothetical statewide, 30-day atmospheric river storm sequence over California with an approximately 2 percent likelihood of occurring each year in the present climate. Data was generated using the Weather Research and Forecasting model and global climate simulations from the Community Earth System Model Large Ensemble.

    The chart of precipitation at Oroville compares cumulative rainfall at the Oroville weather station before the 2017 crisis with cumulative rainfall at the closest data point in ARkHist.

    The rainfall visualization compares observed hourly rainfall in December 2016 from the Los Angeles Downtown weather station with rainfall at the closest data point in a hypothetical future megastorm, the ARkFuture scenario in Huang and Swain (2022). This storm would be a rare but plausible event in the second half of the 21st century if nations continue on a path of high greenhouse-gas emissions.

    Additional credits

    The 3D rainfall visualization and augmented reality effect by Nia Adurogbola, Jeffrey Gray, Evan Grothjan, Lydia Jessup, Max Lauter, Daniel Mangosing, Noah Pisner, James Surdam and Raymond Zhong.

    Photo editing by Matt McCann.

    Produced by Sarah Graham, Claire O’Neill, Jesse Pesta and Nadja Popovich.

    Audio produced by Kate Winslett.