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Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

População de moradores de rua cresce 31% em São Paulo na pandemia (Folha de S.Paulo)

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Segundo censo, quantidade só de famílias sem-teto quase dobrou em relação a 2019

Isabela Palhares – 23 de janeiro de 2022


O número de pessoas que vivem nas ruas de São Paulo cresceu 31% durante a pandemia de Covid-19. Em 2021, segundo a gestão Ricardo Nunes (MDB), havia 31.884 pessoas sem-teto na cidade, são 7.540 a mais do que o registrado em 2019, quando eram 24.344 nessa situação.

Em relação a 2015, quando havia 15.905 moradores de rua, o número dobrou.

Os dados foram obtidos pela Folha com exclusividade e fazem parte do censo da população de rua encomendado pela prefeitura.

O levantamento, feito entre outubro e dezembro de 2021, ainda indica uma mudança do perfil daqueles que não têm um lar. O número de famílias que foram morar nas ruas quase dobrou durante a pandemia.

Dos 31.884 moradores de rua, 28% afirmaram viver com ao menos um familiar, somando 8.927 pessoas. Em 2019, esse percentual era de 20%, alcançando 4.868.

A quantidade de pessoas que preferem ocupar as ruas em vez dos abrigos também aumentou. Em 2019, 52% da população abordada pelos pesquisadores preferia as calçadas aos centros de acolhimento, em 2021, esse percentual subiu para 60%.

​”A crise econômica se agravou, o desemprego disparou, a inflação subiu e, nesse período, a política pública da prefeitura para essa população continuou a mesma. Os centros de acolhida não são pensados para as demandas de quem vive na rua”, diz o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua.

Carlos Bezerra, secretário de Assistência e Desenvolvimento Social do município, reconhece a necessidade de reestruturação do sistema de acolhimento na cidade. Ele disse que a pasta pretende ampliar o número de centros para diversificar o perfil dos serviços e anunciou um programa que vai oferecer moradias temporárias para famílias em situação de rua.

“Quanto mais tempo a pessoa passa na rua, menores são as chances de conseguir recuperar a autonomia. Precisamos agir rápido para quebrar essa trajetória triste que começou na pandemia”, disse. O programa prevê a construção de casas de 18 m² destinadas a famílias que estão na rua, elas poderão ficar nas moradias temporárias por até 12 meses.

Fábio de Mello, 41, e Ângela Santos, 32, estão juntos há seis anos e foram despejados da casa onde moravam, na zona leste, no ano passado. Já são mais de dez meses vivendo nas ruas do centro de São Paulo e nunca recorreram aos abrigos.

“A gente enfrenta frio, chuva, calor, medo de ser roubado ou agredido, mas não vai para abrigo. Não vamos nos separar para ir a um lugar que somos ainda mais humilhados e corremos mais risco”, diz Mello.

Ele e a mulher vendem balas no semáforo e procuram bicos para se alimentar. “Ninguém dá emprego para quem não tem endereço. E sem emprego, eu nunca vou conseguir uma casa. Entramos numa situação que não tem saída.”

Ainda de acordo com o censo, houve aumento de 230% do número de barracas de camping e de barracos de madeira instalados em vias públicas como moradias improvisadas. Em 2019, o censo encontrou 2.051 pontos desse tipo. Em 2021, foram localizados 6.778.

Segundo especialistas, moradias improvisadas são normalmente ocupadas por famílias ou pessoas que foram para as ruas recentemente e, por isso, buscam formas de manter a privacidade e aumentar a sensação de segurança.

“Desde o início da pandemia, a gente já observava não só um aumento da população de rua, mas também essa mudança de perfil. Já era possível identificar que grupos mais vulneráveis, como mulheres, famílias e idosos, tiveram que ir morar nas ruas”, diz Juliana Reimberg, pesquisadora do CEM (Centro de Estudos da Metrópole), da USP.

É o caso de Rosângela dos Santos, 40, que vive nas ruas do centro com o pai, de 60 anos, e o filho, de 12. “As pessoas humilham, mandam a gente ir trabalhar, parar de ser vagabundo. Mas quem dá uma oportunidade? Ninguém me chama para trabalhar”, diz.

Ela diz que às vezes é chamada para fazer faxina em lojas ou casas da região, que pagam de R$ 30 a R$ 50 pelo serviço. “Ajuda muito, mas é um dinheiro que acaba rapidinho. Compro uma comida melhor para o meu menino ou uma roupa do tamanho dele e, pronto, acabou.”

Reimberg diz que há anos estudos nacionais e internacionais mostram que políticas eficientes para a população de rua não são aquelas que se concentram apenas em centros de acolhida, mas em ações para que as pessoas consigam deixar a situação, como acesso a emprego e moradia.

“A demanda dessa população não é por centro de acolhimento, mas sim por moradia. Sem um lugar para morar, essas pessoas não conseguem romper o ciclo porque não encontram emprego. A política de abrigamento não é solução”, diz a pesquisadora.

O censo perguntou aos moradores de rua o que os ajudaria a deixar a situação. Dos entrevistados, 45,7% disseram que seria encontrar um emprego fixo, e 23,1%, ter uma moradia permanente. Outros 8,1% declararam que seria retornar à casa de familiares e 6,7% responderam que seria superar a dependência de álcool e outras drogas.

Conseguir um emprego é o sonho de Bruna Felix, 23, desde que chegou a São Paulo no início do ano passado. Ela saiu de Paranaíba, no Mato Grosso do Sul, com a esperança de que a capital paulista teria mais oportunidades de emprego, o que não aconteceu.

“Cheguei aqui e não encontrei nada. O dinheiro foi acabando e eu não tive escolha, não tinha para onde ir e acabei ficando na rua”, conta. Nas ruas, conheceu Rodrigo Pereira, 38, que vive nas calçadas de São Paulo há mais de três anos.

O casal mora junto em uma barraca na praça do Correio, no centro da cidade. “Sonho em encontrar um lugar para morar em paz com a minha mulher, mas todo dia acordo e vejo que o mais urgente é resolver o que fazer para conseguir comer”, diz Pereira.

Quem acompanha a situação dos moradores de rua na cidade diz que o dado apontado pelo censo está subestimado, o que pode levar a elaboração de políticas públicas ineficazes.

A empresa Qualitest, contratada para fazer o censo, fez um relatório em que apontava uma série de dificuldades para abordar os sem-teto. O contrato custou R$ 1,7 milhão aos cofres municipais.

“Esse número é subestimado pela total inadequação com a qual foi feito esse censo. E a prefeitura foi alertada dos problemas metodológicos. Um número subestimado vai resultar, mais uma vez, em políticas públicas insuficientes e equivocadas, que não respondem quantitativamente nem qualitativamente às demandas da população de rua”, diz padre Julio Lancellotti.

O secretário Bezerra rejeita as críticas ao censo e diz que a metodologia utilizada é a única forma para se chegar ao número e perfil da população de rua. “Olhando apenas para os novos moradores de rua, são mais de 8.000, é mais do que toda a população de 70% dos municípios do interior paulista. Essa comparação nos mostra o tamanho do desafio que temos pela frente, o censo nos ajuda a desenhar políticas de forma célere, efetiva e com impacto”, diz.

Desde o início da pandemia é visível o aumento da população de rua principalmente na região central da cidade, onde há maior concentração de sem-teto pela facilidade de acesso a doações e equipamentos públicos. Por conta do crescimento, a prefeitura antecipou a realização do censo, que antes era feito a cada quatro anos.


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Relatório do censo da população de rua aponta dificuldade nas abordagens

Mariana Zylberkan – 3 de dezembro de 2021


A empresa contratada pela Prefeitura de São Paulo para atualizar o censo da população de rua elaborou um relatório preliminar em que cita uma série de dificuldades para abordar os sem-teto, o que pode comprometer a dimensão real de quantas pessoas vivem nas ruas da capital atualmente.

De acordo com o documento enviado à Secretaria de Assistência Social no dia 9 de novembro, e obtido com exclusividade pela Folha, as equipes de abordagem relataram situações de risco em áreas onde há concentração de usuários de drogas e até dificuldade em acessar barracas em trilhas no matagal.

Nesses casos, a contagem de pessoas foi feita de forma visual ou a partir de relatos de pessoas no entorno, como comerciantes, ambulantes e outros sem-teto, segundo o documento.

Na avenida Cruzeiro do Sul, no bairro de Santana, na zona norte, as equipes foram hostilizadas por um “pai de rua” que estava com sete crianças. Diante da situação, as respostas do questionário foram preenchidas “por observação”, segundo o relatório.

Na zona leste, em Guaianases, a presença de cachorros nas barracas afugentou as equipes. Na avenida Nordestina, em São Miguel Paulista, os recenseadores foram impedidos de entrar em uma trilha que dá acesso a oito barracas montadas no matagal.

Desde o início da pandemia é visível o aumento da população de rua principalmente na região central da cidade, onde há maior concentração de sem-teto pela facilidade de acesso a doações e equipamentos públicos.

Segundo cálculos informais do padre Júlio Lancellotti, da Pastoral da Rua, vivem nas ruas da capital paulista, atualmente, 35 mil pessoas, número 40% maior do que o apontado pelo último censo, divulgado em 2019, quando havia 25 mil.

O número oficial só será divulgado após a avaliação da contagem dos sem-teto e a elaboração do perfil socioeconômico dessa população, o que tem previsão de ser concluído na terceira semana de dezembro. O contrato com a empresa Qualitest Ciência e Tecnologia foi assinado em setembro por R$ 1,7 milhão.

Previsto para ser entregue no último dia 24, o relatório preliminar com a análise do assunto está atrasado, assim como a entrega do relatório completo, prevista para o último dia 29.

Em nota, a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) afirmou que o cronograma de entrega está dentro dos prazos contratuais, “que sofreram alterações somente pontuais, exclusivamente em razão do calendário de feriados e do início da temporada de chuvas na cidade”.

Diante do aumento da população de rua durante a pandemia, a prefeitura contratou recentemente uma empresa para fazer o censo de crianças e adolescentes em situação de rua, levantamento inédito na capital paulista.

A metodologia usada no censo dos sem-teto, porém, é questionada por líderes de movimentos sociais ligados à população de rua, como o padre Lancellotti. “Muita gente é contada só visivelmente. Encontrei várias pessoas que não foram abordadas pelas equipes”, diz.

Ele também chama a atenção para o período em que as abordagens são feitas, sempre depois das 22h. “As pessoas dormem nesse horário e não querem abrir a barraca para responder às perguntas”, diz o padre.

Trechos no relatório preliminar confirmam registros de pessoas em situação de rua que se recusaram a sair das barracas ou das malocas para receber as equipes. Nesses casos, a contagem é feita a partir de relatos de pessoas do entorno, segundo o documento.

Na cracolândia, ponto de concentração de usuários de drogas na região central, por exemplo, a contagem foi feita de forma visual depois que a equipe recebeu ameaças de um traficante que reclamou de não ter sido avisado sobre a visita dos pesquisadores.

As falhas também são criticadas por Robson Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo. Segundo ele, o censo não reflete a realidade. “Há pessoas que vivem em buracos dentro de viadutos que não são abordadas pelas equipes”, diz.

Em nota, a Smads afirmou que o trabalho de campo dos recenseadores obedece a critérios e metodologia científicos. “As equipes recebem treinamento e, de modo geral, têm experiência anterior de trabalho com população de rua.”

Após fazer a contagem dos sem-teto, os recenseadores têm que voltar às ruas e abrigos para fazer a pesquisa socioeconômica que consiste em cerca de 80 perguntas. A lista inclui questões sobre o local onde a pessoa costuma dormir e se alimentar, o grau de escolaridade e até se tem dependência de álcool ou drogas.

Conheça a rotina de quem vive em barracas nas ruas de São Paulo (Folha de S.Paulo)

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Número de moradias improvisadas cresceu 230% de 2019 para 2021, segundo prefeitura

Paulo Eduardo Dias – 26 de janeiro de 2022


Nos últimos anos, as barracas de camping se multiplicaram nas ruas de São Paulo. Segundo censo divulgado pela prefeitura no último dia 23, em 2021, havia 6.778 pontos na cidade com barracas de camping e barracos de madeira sendo utilizados como moradia improvisada. Em 2019, eram 2.051.

Antes do anúncio, no início do mês, a Folha percorreu a região central para ouvir os relatos de sem-teto sobre como é viver nessas barracas, sobretudo em época de chuvas.

“Isso representa a precariedade da situação da população em situação de rua”, afirma o psicanalista e professor da PUC-SP, Jorge Broide, que trabalha com a população de rua há mais de quatro décadas. “Acho muito triste, uma coisa que era utilizada como lazer por outra classe social, inclusive, torna-se agora uma precaríssima moradia.”

Em nota, a prefeitura disse que as barracas são “usadas pela população em situação de rua em São Paulo e outras cidades do Brasil e do mundo”.

Vivendo na praça da Sé há um ano, na altura do monumento de concreto que simboliza o Marco Zero, o casal Patrick Gomes Gonçalves, 32 anos, e Luisa Figueroa, 52, arrumava seu lar quando a reportagem da Folha chegou.

Eram por volta de 14h30 do último dia 4 quando a dupla se apressava em colocar lonas pretas por cima da barraca verde oliva, numa tonalidade igualmente usada na farda do Exército. Naquele momento já chovia na capital. A pressa era por dois motivos: evitar que a água infiltrasse tanto por cima como por baixo.

Após o término dos trabalhos, Luisa, ainda sob chuva, contou ser venezuelana. Com o desemprego em seu país, a técnica em veterinária decidiu buscar oportunidades no Brasil.

Há dois anos em São Paulo, disse que morava no Grajaú, na zona sul, com seu companheiro, que é pintor. Com ambos sem emprego e sem fonte de renda, ela contou ter se tornado inviável pagar o aluguel.

Na praça da Sé há um ano, Luisa afirmou que busca voltar a trabalhar na área em que se especializou. “Coloco currículo virtual, físico, mas nunca me chamam.”

Para sobreviver, ela vende água e café pelas ruas do centro, porém com o que ganha dá apenas para eles se alimentarem. Mesmo com a situação em que vivem, a venezuelana não se queixa da vida, mas dos ratos que proliferam à noite pela Sé e, às vezes, procuram comida dentro das barracas.

Poucos passos adiante, no sentido da Catedral, estava a barraca da desempregada Isabela Letícia Lopes, 25. Ela relatou estar há cerca de um mês na praça, após deixar Itu, no interior paulista. Segundo ela, que mora com o marido, a vida do casal mudou depois de ele perder o emprego de tatuador.

“Colocamos lona para proteger o cobertor, a roupa. A gente tem que colocar lona por cima e por baixo. A gente coloca em cima para fugir da chuva e no chão porque escorre água”, disse ela sobre a rotina para se proteger das chuvas de verão.

“Nunca tinha morado em uma barraca. Morava em casa ou abrigo. É diferente. É horrível, por ser apertado. Quando chove muito a gente não sabe se vai alagar, as barracas são frágeis.”

Outros moradores de rua, porém, não têm condições de adquirir uma barraca ou não tiveram a sorte ainda de receber uma como doação. Com isso, se viram como podem para se abrigar da chuva ou do sol.

Esse é o caso de Carlos Alexandre, 34. Ele está há quatro meses em São Paulo, após ter saído do Rio de Janeiro em razão de brigas familiares. Na hora da chuva, estava abrigado em uma marquise na praça do Patriarca.

“[Na hora da chuva] é procurar uma marquise. Mas o problema maior é o vento, que leva tudo”, disse, para, logo na sequência, perguntar ao repórter se não tinha como conseguir uma barraca para ele.

Em outra praça da região central, a da República, havia uma barraca prateada, bem diferente das demais vistas pela reportagem. O abrigo, segundo seu proprietário, o carroceiro André Paulo, 46, custou R$ 1.000, é impermeável, e com espaço suficiente para abrigar ele, a esposa e seus cães.

“Se eu não tivesse a barraca, eu estava na roça. A barraca é impermeável, mas sempre uso lona para proteger os cachorros”, disse Paulo. Ele afirmou morar ali há um ano.

Enquanto ele falava com a reportagem, Vilma Alves de Souza, 62, aproximou-se para se queixar de que a chuva havia molhado os pertences dela. Com uma barraca mais simples, ela não estava no local no momento do temporal.

“Minhas roupas estão todas molhadas. Eu estava no hospital, quando cheguei, estava toda molhada”, disse Vilma.

Durante a conversa, contou que passou a viver nas ruas após ser acometida por uma depressão, causada pela morte do marido, que, segundo ela, foi assassinado a tiros há três anos no Butantã, na zona oeste. “Não bebo, não fumo, não me drogo. Depois que mataram meu esposo, passei a morar na rua. Ele estava lavando o carro quando foi baleado.”

Em outro ponto da cidade, na avenida Paulista, o desempregado Almir Evangelista dos Santos, 62, contou ter comprado a sua barraca de um conhecido, após juntar R$ 400 obtidos com o auxílio emergencial. Ele disse viver há cinco meses em frente ao parque Tenente Siqueira Campos, o Trianon.

Santos afirmou que buscou a avenida pela visibilidade, na esperança de que alguém o ajudasse a conseguir uma fonte de renda. “Eu morava em uma pensão em Santana, mas achava muito monótono. O bom era o banho quente e carregar o celular. Eu quero uma coisa melhor, uma pessoa que me veja e possa me arrumar um trabalho.”

O relógio já marcava quase 18h quando o desempregado José Júlio Cesar Rosa, 33, estendeu suas roupas na proteção de ferro que separa a calçada da avenida Paulista. Mesmo com a lona colocada sobre a barraca, a chuva acumulada por dois dias foi mais forte do que a proteção que serve como telhado de sua moradia, no cruzamento com a rua Teixeira da Silva.

“A chuva foi muito forte. Molhou tudo. Mesmo com a lona não teve jeito, também infiltrou por baixo”, disse. Segundo ele, a solução seria colocar paletes no piso para erguer a barraca, mas não era uma tarefa fácil localizar os objetos de madeira sem desembolsar algum valor.

Além da chuva, Rosa, que vive nas ruas há 12 anos, queixou-se do sol, que torna sua moradia um forno. “A lona deixa muito abafado, quente, não tem ventilação. Mas é minha casa, tem colchão, minha coberta. É como se fosse meu quarto.”

Com a esposa grávida de três meses, sua vontade é juntar suas coisas, superar as desavenças com a família e voltar para os braços da mãe, que mora em Guaratinguetá, no interior paulista.

“Evidente que tem uma questão econômica, tem uma questão social, tem uma crise generalizada, mas também é necessário se buscar novas soluções, novas ações, novas políticas públicas, para enfrentar essas problemáticas”, disse Jorge Broide sobre o aumento na quantidade de moradores de rua e de suas barracas na cidade.

Em nota, a Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, informou que “mantém uma rede de atendimento socioassistencial voltada às pessoas em situação de rua e trabalha na criação e aprimoramento de políticas públicas em concordância com o Sistema Único de Assistência Social”.

Lideranças indígenas estão sob ataque em grupos de WhatsApp (Folha de S.Paulo)

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Monitoramento mostra que desinformação e mentiras servem como estratégia para enfraquecer pautas como a demarcação de terras

Fernanda Bassette – 26 de janeiro de 2022


Embaixo de uma das tendas instaladas em Brasília, no maior acampamento indígena da história da democracia brasileira, em setembro de 2021, o cacique Agnelo Xavante, 52, da Terra Indígena Etewawe (MT), assumiu o microfone e, por um momento, parou a mobilização.

Visivelmente consternado, o líder pediu a atenção dos quase 6.000 indígenas presentes. Ele precisava desmentir um vídeo compartilhado em grupos de WhatsApp que prejudicava todos ali.

A postagem tinha alcançado grupos indígenas de todo o país no aplicativo, disse Agnelo. Mas não só. O conteúdo já circulava em outros grupos públicos no Amazonas no WhatsApp, cujos interesses vão de política à religião, monitorados desde agosto pelo projeto Amazonas – Mentira tem Preço, do InfoAmazonia e da produtora FALA.

“O vídeo chegou em muitos grupos de WhatsApp. Aquilo doeu na gente. Você sabe o que são 320 aldeias xavantes irritadas? Isso nunca tinha acontecido. Eu, guerreiro do povo Xavante, não podia ouvir e ficar calado”, lembra.

Agnelo disparou um novo vídeo em suas redes de contato, desmentindo o anterior, que acusava, sem provas, a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) de usar recursos do acampamento para outros fins.

A mobilização aconteceu durante a apreciação do marco temporal no STF (Supremo Tribunal Federal), uma tese jurídica que defende que indígenas só têm direito à terra se nela estivessem em 1988.

“A demarcação de terras indígenas não interessa a muitos, por isso gravam esses vídeos mentirosos. Nosso confronto e a nossa divisão é tudo o que eles querem”, diz Agnelo. O julgamento foi suspenso após um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, que queria mais tempo para analisar o caso.

Enquanto Agnelo gravava o vídeo, a cacica Eronilde Fermin Omágua, do povo Kambeba de São Paulo de Olivença (AM), que também estava na mobilização nacional, precisou se defender de mensagens de ódio compartilhadas pelas redes.

“Uma pessoa jogou dois áudios contra mim num grupo de WhatsApp que possui mais de 300 mulheres do Amazonas, dizendo que eu não estava lutando pelos direitos coletivos, que não era comprometida com a causa e que não representava o meu povo”, recorda.

“Deixei de ser vista como uma lutadora e virei uma vilã. Sou atacada dia e noite e isso já adoeceu minha família.” Eronilde diz não conhecer a mulher indígena que a acusou.

Quem não estava em Brasília também foi alvo de ataques. Enquanto Milena Mura, liderança do povo Mura (Amazonas), e outras 400 pessoas, de 17 comunidades, protestavam contra a tese do marco temporal na rodovia estadual M254, que liga Manaus a Porto Velho, histórias distorcidas foram compartilhadas.

“Começaram a espalhar que estávamos em busca de briga política, que queríamos causar arruaça e que estávamos prejudicando o comércio e a saúde, por causa da pandemia de Covid-19”, diz.

“Com isso, até mesmo outras aldeias começaram a atacar nossa organização, questionando os objetivos do nosso movimento.”

Segundo Milena, o Conselho Indígena Mura teve de convocar uma reunião extraordinária e reunir lideranças de 34 aldeias para desmentir as notícias falsas.

Para Denise Dora, diretora-executiva da organização Artigo 19 no Brasil e na América do Sul, “a desinformação é uma estratégia”.

“No caso dos povos indígenas, ocorre para ter acesso à terra, aos recursos naturais e às áreas que são constitucionalmente protegidas por serem públicas e por respeitarem a histórica presença dos indígenas”, afirma.

Nos onze grupos públicos do Amazonas monitorados pela reportagem, histórias atacando a mobilização contra a tese do marco temporal também foram compartilhadas. Uma delas, por exemplo, creditava genericamente os protestos a ONGs e partidos de esquerda.

Leda Gitahy, professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e uma das coordenadoras do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais, diz que existe um ecossistema que cuidadosamente organiza estratégias de desinformação e de propaganda política para dividir as comunidades.

“O problema é o mesmo no país inteiro. A lógica que está por trás disso é soltar mensagens de difusão rápida e articulada para causar confusão e dúvida”, afirma.

“A estratégia das mentiras compartilhadas em grupos de WhatsApp é fazer os indígenas brigarem dentro do seu povo para desestruturar o movimento.”

Relatórios do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da Apib destacam que 2020 ficou marcado pelo alto número de mortes de indígenas ocorridas em decorrência da má gestão do enfrentamento à pandemia no Brasil, pautada pela desinformação e pela negligência do governo.

“O governo federal é o principal agente transmissor do vírus entre os povos indígenas”, diz o documento da Apib.

“As fake news diziam que a vacina era do diabo, que vem com um chip implantado, de um tudo que era para que as pessoas não tomassem. E tivemos resistência dentro do território: em uma calha [área no rio] onde há mais de mil pessoas só 160 quiseram tomar a vacina naquele momento”, contou o presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), no Amazonas, Marivaldo Baré.

Segundo ele, o governo federal não promoveu nenhuma campanha de informação sobre a vacina para combater a estratégia de desinformação que atingiu as aldeias do Alto Rio Negro. Pelo contrário, a descrença pública do presidente sobre as vacinas ajudou a piorar a situação.

“Tivemos que trabalhar muito para produzir, por nossa conta, áudios e cartilhas falando sobre a importância da vacinação e da prevenção para evitar contaminação.”

O Ministério da Saúde foi procurado, via assessoria de imprensa, para comentar os aspectos mencionados pela Apib e pela Foirn, mas não se manifestou até a publicação da reportagem.

A auxiliar de enfermagem indígena Vanda Ortega Witoto foi vítima de difamação e racismo em grupos públicos de WhatsApp e nas redes sociais após ser a primeira pessoa do Amazonas a ser vacinada contra a Covid, em janeiro de 2021.

“Diziam que eu era uma ‘índia fake’ por não vestir roupas tradicionais e por morar na cidade e não na aldeia. Diziam que deveriam vacinar índios de verdade e não eu”, conta. “Passei a receber inúmeras mensagens de ódio, foi horrível.”

Os conteúdos falsos, afirma Francesc Comelles, coordenador regional do Cimi, começaram a ter um impacto maior nas comunidades indígenas à medida que o acesso à internet chegou dentro dos territórios.

Se por um lado a tecnologia conectou lideranças e permitiu que denunciassem violações com agilidade, por outro expôs todos às fake news.

“Essa mistura de informação verdadeira com informação distorcida e mal-intencionada foi potencializada com as fake news em torno da pandemia, o que teve um impacto direto na saúde dos indígenas”, afirma.

Quem é alvo de conteúdos inverídicos distribuídos pelas mídias sociais deve buscar suporte. Segundo Denise Dora, a busca de ajuda deve ser feita sempre por meio da organização indígena majoritária da região ou da Defensoria Pública da União, do Ministério Público Federal e das organizações da sociedade civil. “É preciso buscar ajuda para reverter. E existem mecanismos para isso”, afirma.

Em nota, a Coiab afirmou que os indígenas vítimas de mentiras devem avaliar se o alcance da ação pode causar um mal injusto e dano direto à sua pessoa.

Em caso positivo, devem procurar a autoridade policial e “a sua organização regional com a finalidade de dar publicidade sobre o acontecido e buscar suporte.”

Procurada para comentar sobre ações de suporte aos indígenas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) disse que “em vez de trabalhar com assertivas falsas, tem atuado, efetivamente, com medidas práticas de apoio à população indígena, a exemplo do investimento de cerca de R$ 34 milhões em ações de fiscalização em Terras Indígenas de todo o país em 2021”.

A reportagem integra o projeto Amazonas – Mentira tem preço, publicado em parceria pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA.

Weaving Indigenous knowledge into the scientific method (Nature)

nature.com

Saima May Sidik

11 January 2022; Correction 24 January 2022


Dominique David-Chavez working with Randal Alicea, a Caribbean Indigenous farmer, in his tobacco drying shed in Cidra, Borikén.
Dominique David-Chavez works with Randal Alicea, an Indigenous farmer, in his tobacco-drying shed in Cidra, Borikén (Puerto Rico).Credit: Norma Ortiz

Many scientists rely on Indigenous people to guide their work — by helping them to find wildlife, navigate rugged terrain or understand changing weather trends, for example. But these relationships have often felt colonial, extractive and unequal. Researchers drop into communities, gather data and leave — never contacting the locals again, and excluding them from the publication process.

Today, many scientists acknowledge the troubling attitudes that have long plagued research projects in Indigenous communities. But finding a path to better relationships has proved challenging. Tensions surfaced last year, for example, when seven University of Auckland academics argued that planned changes to New Zealand’s secondary school curriculum, to “ensure parity between mātauranga Māori”, or Maori knowledge, and “other bodies of knowledge”, could undermine trust in science.

Last month, the University of Auckland’s vice-chancellor, Dawn Freshwater, announced a symposium to be held early this year, at which different viewpoints can be discussed. In 2016, the US National Science Foundation (NSF) launched Navigating the New Arctic — a programme that encouraged scientists to explore the wide-reaching consequences of climate change in the north. A key sentence in the programme description reflected a shift in perspective: “Given the deep knowledge held by local and Indigenous residents in the Arctic, NSF encourages scientists and Arctic residents to collaborate on Arctic research projects.” The Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada and New Zealand’s Ministry of Business, Innovation and Employment have made similar statements. So, too, have the United Nations cultural organization UNESCO and the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services.

But some Indigenous groups feel that despite such well-intentioned initiatives, their inclusion in research is only a token gesture to satisfy a funding agency.

There’s no road map out of science’s painful past. Nature asked three researchers who belong to Indigenous communities in the Americas and New Zealand, plus two funders who work closely with Northern Indigenous communities, how far we’ve come toward decolonizing science — and how researchers can work more respectfully with Indigenous groups.

DANIEL HIKUROA: Weave folklore into modern science

Daniel Hikuroa is an Earth systems and environmental humanities researcher at Te Wānanga o Waipapa, University of Auckland, New Zealand, and a member of the Māori community.

We all have a world view. Pūrākau, or traditional stories, are a part of Māori culture with great potential for informing science. But what you need to understand is that they’re codified according to an Indigenous world view.

For example, in Māori tradition, we have these things called taniwha that are like water serpents. When you think of taniwha, you think, danger, risk, be on your guard! Taniwha as physical entities do not exist. Taniwha are a mechanism for describing how rivers behave and change through time. For example, pūrākau say that taniwha live in a certain part of the Waikato River, New Zealand’s longest, running for 425 kilometres through the North Island. That’s the part of the river that tends to flood. Fortunately, officials took knowledge of taniwha into account when they were designing a road near the Waikato river in 2002. Because of this, we’ve averted disasters.

Sometimes, it takes a bit of explanation to convince non-Indigenous scientists that pūrākau are a variation on the scientific method. They’re built on observations and interpretations of the natural world, and they allow us to predict how the world will function in the future. They’re repeatable, reliable, they have rigour, and they’re accurate. Once scientists see this, they have that ‘Aha!’ moment where they realize how well Western science and pūrākau complement each other.

We’re very lucky in New Zealand because our funding agencies help us to disseminate this idea. In 2005, the Ministry of Research, Science and Technology (which has since been incorporated into the Ministry of Business, Innovation and Employment) developed a framework called Vision Mātauranga. Mātauranga is the Māori word for knowledge, but it also includes the culture, values and world view of Māori people. Whenever a scientist applies for funding, they’re asked whether their proposal addresses a Māori need or can draw on Māori knowledge. The intent of Vision Mātauranga is to broaden the science sector by unlocking the potential of Māori mātauranga.

In the early days of Vision Mātauranga, some Indigenous groups found themselves inundated with last-minute requests from researchers who just wanted Indigenous people to sign off on their proposals to make their grant applications more competitive. It was enormously frustrating. These days, most researchers are using the policy with a higher degree of sophistication.

Vision Mātauranga is at its best when researchers develop long-term relationships with Indigenous groups so that they know about those groups’ dreams and aspirations and challenges, and also about their skill sets. Then the conversation can coalesce around where those things overlap with the researchers’ own goals. The University of Waikato in Hamilton has done a great job with this, establishing a chief-to-chief relationship in which the university’s senior management meets maybe twice a year with the chiefs of the Indigenous groups in the surrounding area. This ongoing relationship lets the university and the Indigenous groups have high-level discussions that build trust and can inform projects led by individual labs.

We’ve made great progress towards bridging Māori culture and scientific culture, but attitudes are still evolving — including my own. In 2011, I published my first foray into using Māori knowledge in science, and I used the word ‘integrate’ to describe the process of combining the two. I no longer use that word, because I think weaving is a more apt description. When you weave two strands together, the integrity of the individual components can remain, but you end up with something that’s ultimately stronger than what you started with.

DOMINIQUE DAVID-CHAVEZ: Listen and learn with humility

Dominique David-Chavez is an Indigenous land and data stewardship researcher at Colorado State University in Fort Collins, and a member of the Arawak Taíno community.

People often ask how can we integrate Indigenous knowledge into Western science. But framing the question in this way upholds the unhealthy power dynamic between Western and Indigenous scientists. It makes it sound as though there are two singular bodies of knowledge, when in fact Indigenous knowledge — unlike Western science — is drawn from thousands of different communities, each with its own knowledge systems.

At school, I was taught this myth that it was European and American white men who discovered all these different physical systems on Earth — on land, in the skies and in the water. But Indigenous people have been observing those same systems for hundreds or thousands of years. When Western scientists claim credit for discoveries that Indigenous people made first, they’re stealing Indigenous people’s contributions to science. This theft made me angry, but it also drove me. I decided to undertake graduate studies so that I could look critically at how we validate who creates knowledge, who creates science and who are the scientists.

To avoid perpetuating harmful power dynamics, researchers who want to work in an Indigenous people’s homeland should first introduce themselves to the community, explain their skills and convey how their research could serve the community. And they should begin the work only if the community invites them to. That invitation might take time to come! The researchers should also build in time to spend in the community to listen, be humbled and learn.

If you don’t have that built-in relational accountability, then maybe you’re better off in a supporting role.

Overall, my advice to Western researchers is this: always be questioning your assumptions about where science came from, where it’s going and what part you should be playing in its development.

MARY TURNIPSEED: Fund relationship building and follow-ups

Mary Turnipseed is an ecologist and grantmaker at the Gordon and Betty Moore Foundation, Palo Alto, California.

I’ve been awarding grants in the Arctic since 2015, when I became a marine-conservation programme officer at the Gordon and Betty Moore Foundation. A lesson I learnt early on about knowledge co-production — the term used for collaborations between academics and non-academics — is to listen. In the non-Indigenous parts of North America, we’re used to talking, but flipping that on its end helps us to work better with Indigenous communities.

Listening to our Indigenous Alaskan Native partners is often how I know whether a collaboration is working well or not. If the community is supportive of a particular effort, that means they’ve been able to develop a healthy relationship with the researchers. We have quarterly check-ins with our partners about how projects are going; and, in non-pandemic times, I frequently travelled to Alaska to talk directly with our partners.

One way in which we help to spur productive relationships is by giving research teams a year of preliminary funding — before they even start their research — so that they can work with Indigenous groups to identify the questions their research will address and decide how they’re going to tackle them. We really need more funding agencies to set aside money for this type of early relationship-building, so that everyone goes into a project with the same expectations, and with a level of trust for one another.

People working on the Ikaaġvik Sikukun collaboration in the snow cutting on ice core samples.
Members of the Ikaaġvik Sikukun collaboration at the Native Village of Kotzebue, Alaska.Credit: Sarah Betcher/Farthest North Films

Developing relationships takes time, so it’s easiest when Indigenous communities have a research coordinator, such as Alex Whiting (environmental programme director for the Native Village of Kotzebue), to handle all their collaborations. I think the number of such positions could easily be increased tenfold, and I’d love to see the US federal government offer more funding for these types of position.

Funding agencies should provide incentives for researchers to go back to the communities that they’ve worked with and share what they’ve found. There’s always talk among Indigenous groups about researchers who come in, collect data, get their PhDs and never show up again. Every time that happens, it hurts the community, and it hurts the next researchers to come. I think it’s essential for funding agencies to prevent this from happening.

ALEX WHITING: Develop a toolkit to decolonize relationships

Alex Whiting is an environmental specialist in Kotzebue, Alaska, and a formally adopted member of the Qikiktagrukmiut community.

A lot of the time, researchers who operate in a colonial way aren’t aware of the harm they’re doing. But many people are realizing that taking knowledge without involving local people is not only unethical, but inefficient. In 1997, the Native Village of Kotzebue — a federally recognized seat of tribal government representing the Qikiktagrukmiut, northwest Alaska’s original inhabitants — hired me as its environmental programme director. I helped the community to develop a research protocol that lays out our expectations of scientists who work in our community, and an accompanying questionnaire.

By filling in the one-page questionnaire, researchers give us a quick overview of what they plan to do; its relevance and potential benefit to our community; the need for local involvement; and how we’ll be compensated financially. This provides us with a tool through which to develop relationships with researchers, make sure that our priorities and rights are addressed, and hold researchers accountable. Making scientists think about how they’ll engage with us has helped to make research a more equitable, less extractive activity.

We cannot force scientists to deal with us. It’s a free country. But the Qikiktagrukmiut are skilled at activities such as boating, travelling on snow and capturing animals — and those skills are extremely useful for fieldwork, as is our deep historical knowledge of the local environment. It’s a lot harder for scientists to accomplish their work without our involvement. Many scientists realize this, so these days we get 6–12 research proposals per year. We say yes to most of them.

The NSF’s Navigating the New Arctic programme has definitely increased the number of last-minute proposals that communities such as ours get swamped with a couple of weeks before the application deadline. Throwing an Indigenous component into a research proposal at the last minute is definitely not an ideal way to go about things, because it doesn’t give us time to fully consider the research before deciding whether we want to participate. But at least the NSF has recognized that working with Indigenous people is a thing! They’re just in the growing-pains phase.

Not all Indigenous groups have had as much success as we have, and some are still experiencing the extractive side of science. But incorporating Indigenous knowledge into science can create rapid growths in understanding, and we’re happy we’ve helped some researchers do this in a respectful way.

NATAN OBED: Fund research on Indigenous priorities

Natan Obed is president of Inuit Tapiriit Kanatami, and a member of the Inuit community.

Every year, funding agencies devote hundreds of millions of dollars to work that occurs in the Inuit homeland in northern Canada. Until very recently, almost none of those agencies considered Inuit peoples’ priorities.

These Indigenous communities face massive social and economic challenges. More than 60% of Inuit households are food insecure, meaning they don’t always have enough food to maintain an active, healthy life. On average, one-quarter as many doctors serve Inuit communities as serve urban Canadian communities. Our life expectancy is ten years less than the average non-Indigenous Canadian’s. The list goes on. And yet, very little research is devoted to addressing these inequities.

Last year, the Inuit advocacy organization Inuit Tapiriit Kanatami (the name means ‘Inuit are united in Canada’) collaborated with the research network ArcticNet to start its own funding programme, which is called the Inuit Nunangat Research Program (INRP). Funding decisions are led entirely by Inuit people to ensure that all grants support research on Inuit priorities. Even in the programme’s first year, we got more requests than we could fund. We selected 11 proposals that all relate directly to the day-to-day lives of Inuit people. For example, one study that we’re funding aims to characterize a type of goose that has newly arrived in northern Labrador; another focuses on how social interactions spread disease in Inuit communities.

Our goal with the INRP is twofold: first, we want to generate knowledge that addresses Inuit concerns, and second, we want to create an example of how other granting agencies can change so that they respect the priorities of all groups. We’ve been moderately successful in getting some of the main Canadian granting agencies, such as the Canadian Institutes of Health Research, to allocate more resources to things that matter to Inuit people. I’d like to think that the INRP gives them a model for how to become even more inclusive.

We hope that, over the next ten years, it will become normal for granting agencies to consider the needs of Indigenous communities. But we also know that institutions change slowly. Looking back at where we’ve been, we have a lot to be proud of, but we still have a huge task ahead of us.

These interviews have been edited for length and clarity.

For better science, increase Indigenous participation in publishing (Nature)

10 January 2022

Amending long-established processes to include fresh perspectives is challenging, but journal editor Lisa Loseto is trying to find a path forward.

Saima May Sidik

Lisa Loseto at a campfire, where she is shutting down a research site at a traditional whaling camp.
Lisa Loseto stands by a campfire.Credit: Oksana Schimnowski

Lisa Loseto is a research scientist at Fisheries and Oceans Canada, a federal government department whose regional offices include one in Winnipeg, where she is based. Some of Northern Canada’s Indigenous people have shaped her research into how beluga whales (Delphinapterus leucas) interact with their environments, and have taught her to rethink her own part in the scientific method. As co-editor-in-chief of the journal Arctic Science since 2017, she is looking at ways to increase Indigenous representation in scientific publishing, including the editorial and peer-review processes.

What got you thinking about the role of Indigenous people in scientific publishing?

In 2020, Arctic Science published a special issue centred on knowledge co-produced by Western scientists and Indigenous people. As production of that issue progressed, the peer-review and editorial processes stuck out as aspects lacking Indigenous representation. We were soliciting papers to highlight the contributions of Indigenous knowledge — but the peer-review process was led by non-Indigenous editors like myself, and academics to review the articles. A few members of the editorial board thought, ‘Let’s talk about this and think about ways to provide more balance.’ We discussed the issue in a workshop that included representatives from several groups that are indigenous to Canada’s Arctic.

What did the workshop reveal about the Indigenous participants’ perceptions of scientific publishing?

For a lot of people, publishing seemed like a distant concept, so we explained how the editorial and peer-review processes work. We described peer review as a method for validating knowledge before it’s published, and many Indigenous participants recognized similarities between that process and one in their own lives: in the Arctic, each generation passes down knowledge of how to live in a harsh environment, and over time this knowledge is tested and refined. The Indigenous workshop participants said, “We would die if we didn’t have the peer-review process.”

The scientific method used by Westerners is colonial: it emphasizes objectivity and performing experiments in the absence of outside influences. This mindset can feel alienating for many Indigenous people, who see themselves as integral parts of nature. This makes me think scientific publishing doesn’t fit an Indigenous framework.

The dense jargon and idiosyncratic structures of scientific publications make them difficult for people without a formal scientific education to jump into. Even people training to become scientists often don’t get involved in publishing until they’re in graduate school because there’s so much background knowledge that they need to have first.

If a journal article draws on Indigenous knowledge, should it include an Indigenous peer reviewer?

Perhaps, but trying to force Indigenous perspectives into a process that was created to advance Western priorities can come with its own problems. Scientific publications serve the dual purposes of disseminating information and acting as a tool of measure for scientists’ careers. Most members of Indigenous groups aren’t concerned with building up their academic CVs; in fact, some are uncomfortable with being named as authors because they see their knowledge as part of a collective body, rather than belonging solely to themselves. So do publications have the same weight for Indigenous people? Maybe not. In light of this, is participating in this system really the best use of time for Indigenous people who aren’t in academia — especially when their communities are already overtaxed with researchers’ requests for guidance through prepublication aspects of performing research in remote areas?

In Arviat, Nunavut, Canada, a local woman demonstrates historic tools used by Inuit, with a polar tent in background.
Indigenous communities hold a wealth of knowledge that can advance science.Credit: Galaxiid/Alamy

As an alternative to contributing to research articles, we’re considering starting a commentary section of Arctic Science. This could give more Indigenous people a venue to publish their views on the scientific process, and their observations of natural trends, in a less technical format.

Can Indigenous journal editors help to bridge the divide between Indigenous people and academic publications?

Yes, but there are very few Indigenous journal editors. Historically, editor positions have been reserved for senior scientists, and many senior scientists are white men. I’m trying to bring on more early-career scientists as editors, as this group is often more diverse. By moving away from offering these positions to only the most senior scientists, I think we’ll see a shift in demographics. At the same time, I don’t want to put the burden of bridging current divides entirely on Indigenous people. That job is for all of us.

What is Arctic Science planning to do moving forward?

My hope is to build an Indigenous advisory group that can advise Arctic Science on the peer-review process generally and consider, on a case-by-case basis, whether articles could benefit from an Indigenous peer reviewer. Beyond that, we’re still figuring out how to engage more people without being prescriptive about how they’re engaged.

What do you hope these actions will achieve?

Publications are power. Policy decisions are based on things that are written down and tangible: peer-reviewed papers and reports. Not only do scientific publications guide policy decisions, they also determine who gets money. The more you publish, and the better the journals you publish in, the more power you have.

Indigenous communities have tremendous knowledge, but much of it is passed down orally rather than published in written form. I think the fact that Indigenous representation is weak in academia, including in publishing, upholds the power imbalance that exists between Indigenous people and settlers. I want to find a better balance.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00058-x

This interview has been edited for length and clarity.

Opinião – Juliana de Albuquerque: Desconhecidos ensinam que é possível fazer o bem mesmo em situações de risco (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

25.jan.2022 às 4h00


Em “O Livro dos Seres Imaginários” (1967), Jorge Luis Borges nos oferece uma série de textos sobre personagens e criaturas fantásticas presentes nas mais diversas culturas. Algumas dessas criaturas, ao exemplo dos dragões, encontram expressão em variados contextos humanos. Outras, como o demônio Keteh Meriri e os golems, pertencem a um folclore específico.

Em coluna de novembro passado, escrevi sobre os golems, os gigantes de argila do folclore judaico, cuja lenda inspirou alguns dos mais célebres super-heróis das histórias em quadrinhos, como Ben Grimm, O Coisa, e Bruce Banner, o Poderoso Hulk.

Na ocasião, comentei que as narrativas sobre esses seres imaginários poderiam nos dar elementos para uma reflexão política, alertando-nos sobre o risco de apostarmos em soluções mágicas para os nossos problemas. Hoje, volto a escrever sobre política em sentido amplo, literatura e folclore judaico, a partir do que Borges relata sobre o mito dos “lamed wufniks”:

“Há na Terra, e sempre houve, trinta e seis homens retos cuja missão é justificar o mundo perante Deus. São os lamed wufniks. Não se conhecem entre si e são muito pobres. Se um homem chega a saber que é um lamed wufkinik, morre imediatamente, e um outro, talvez em outra região do planeta, toma seu lugar, sem suspeitar, esses homens são os pilares secretos do universo. Não fosse por eles, Deus aniquilaria o gênero humano. São nossos salvadores e não sabem”.

A expressão “lamed wufniks” vem do iídiche. Ela se refere ao valor numérico das letras hebraicas “lamed” e “vav” que, somadas, formam o número 36. Existem várias interpretações para esse número específico, muitas das quais foram elencadas por Gershom Scholem, filósofo e historiador do misticismo judaico, em ensaio publicado no volume “The Messianic Idea in Judaism” (1971).

Há quem diga que o número 36 tenha origem em um cálculo feito a partir da palavra que traduzimos por “nele” em Isaías, 30:18: “Como são felizes todos os que nele esperam”. Pois, em hebraico, a soma das letras que formam tal palavra resulta no número 36. De modo que a mesma passagem poderia ser lida da seguinte forma: “Como são felizes todos aqueles que esperam nos trinta e seis”.

Cálculos e elucubrações exegéticas à parte, o que há de interessante na história dos trinta e seis homens retos é a ideia de que a justiça é muitas vezes garantida por pessoas simples, alheias à própria bondade e desconhecidas entre si, cujas virtudes geralmente são expressas de modo paradoxal, em desarmonia com a primeira impressão que possuímos desses indivíduos.

De modo a ilustrar tal paradoxo, Scholem remete-nos a uma narrativa talmúdica do século 3o em que Rabi Abbahu questiona o empregado de um bordel, responsável por contratar e administrar prostitutas, se ele já havia praticado o bem.

Em resposta ao rabino, o homem, tido por “pentakaka” —​palavra de origem grega, a significar cinco más ações— comenta que, certa vez, chegou a vender a própria cama e as cobertas para ajudar a uma desconhecida a tirar o marido da prisão, evitando que ela tivesse de se prostituir para sobreviver.

Outra narrativa, dessa vez atribuída ao rabino Lawrence Kushner, nosso contemporâneo, se passa na cidade de Munique durante a ascensão do regime nazista. Uma senhora judia viajava de ônibus quando soldados da SS entram no veículo para conferir a identidade dos passageiros. Assustada, ela comenta a situação com o homem sentado ao seu lado. Este, alemão, levanta-se imediatamente e começa a ralhar com a mulher, chamando-a de tudo e mais um pouco.

Nisso, um dos soldados se aproxima, o homem entrega o documento de identificação e pede desculpas por protagonizar tamanha cena com a esposa, é que ela, uma cabeça de vento, sempre se esquecia de colocar os próprios documentos na bolsa. Resultado, o soldado sorri meio constrangido, confere a identidade do homem e deixa a mulher em paz.

Quem também parece explorar temas que podem remeter aos “lamed wufniks” é a filósofa Hannah Arendt. Em célebre entrevista de 1964 ao programa “Zur Person” apresentado pelo jornalista Günter Gauss, ela comenta quando, em 1933, foi presa em Berlim.

Na ocasião, Arendt havia aceitado o convite da Organização Sionista Alemã para colecionar declarações antissemitas publicadas em revistas especializadas por toda espécie de associação profissional. Esse material, conta-nos a biógrafa de Arendt, Samantha Rose Hill, seria enviado para agências internacionais de imprensa, em uma tentativa de conscientizar a comunidade internacional sobre o perigoso avanço do antissemitismo na Alemanha. Denunciada por um funcionário da Biblioteca do Estado, Arendt é presa —afinal, do que serviriam tantos jornais para uma jovem acadêmica.

Sobre a prisão, Arendt comenta com Gauss que fora poupada graças ao oficial encarregado do seu caso. Ele havia sido recentemente promovido da polícia criminal para uma divisão política e, segundo a filósofa, não sabia exatamente o que fazer com ela:

“Eu deixei a prisão depois de oito dias porque fiquei amiga do oficial que me prendeu […]. Ele sempre comentava: ‘Normalmente sempre tenho alguém diante de mim e basta checar os arquivos para saber do que se trata. Mas o que faço com você?’ […]. ‘Eu coloquei você aqui. Vou tirar você daqui’ […]. O homem que havia me prendido tinha o semblante aberto e decente. Eu confiei nele e pensei que com ele eu teria maiores chances do que com um advogado que, por sua vez, estaria com medo”.

Essas e outras histórias de coragem e protagonismo individual, fazem com que eu me questione se os “lamed wufniks” deveriam realmente integrar a lista de seres fantásticos idealizada por Borges. Afinal, entre as mais extraordinárias criações da nossa imaginação, os “lamed wufniks” talvez sejam uma das que mais encontram amparo na experiência.

Muitos de nós já contaram com a ajuda de desconhecidos ou conhecem pessoas comuns —quem sabe até mesmo um ou dois vizinhos— que não se deixam seduzir por abstrações intelectuais, preconceitos e fetiches ideológicos, optando por agir moralmente e fazer o bem mesmo em situações de risco.

Essas pessoas são os nossos “lamed wufniks” e estão aqui para lembrar-nos de que as coisas podem, sim, melhorar. Tudo só depende de sermos capazes de fazer a nossa parte. Pois, uma coisa é certa: “Quando passar o tufão, não mais se encontrará o ímpio, mas os justos continuarão sendo o sustentáculo do mundo” (Provérbios 10:25).

The ancient secrets revealed by deciphered tablets (BBC)

https://www.bbc.co.uk/ideas/videos/the-ancient-secrets-revealed-by-deciphered-tablets/p0bcq7gs/player

Made with academic consultant Dr Rodrigo Hernaiz-Gomez, Lecturer in Languages and Linguistics, The Open University

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU, Department of Archaeology, University of Cambridge: Holding a tablet that was written thousands of years ago and being able to read what it says is an amazing feeling.

DR IRVING FINKEL, Curator, Department of the Middle East, British Museum: If you see a cuneiform tablet for the first time you’re not likely to identify it as writing and you certainly wouldn’t know which way up it went.

DR SELENA WISNOM, Department of Archaeology and Ancient History, University of Leicester: It’s a form of time travel – it catapults you back in time, thousands of years and puts you directly into the shoes of somebody who lived so many years before us.

CAPTION: Four incredible secrets uncovered when ancient tablets were deciphered Made in partnership with the Open University

NARRATOR: The earliest known form of writing is called cuneiform. First used over 5000 years ago it’s believed to predate Egyptian hieroglyphs. Cuneiform was used by civilisations that lived in Mesopatamia. Several societies used cuneiform as their writing system including the Sumerians and the Akkadians. Pressed onto clay, cuneiform tablets are incredibly durable, they’re literally fireproof, but for thousands of years, no one was able to translate them. After much trial and error, cuneiform script was finally deciphered in the Victorian era. What they revealed was extraordinary.

DR IRVING FINKEL: Once cuneiform was deciphered lots of unexpected things came to light but probably none which had greater impact than the discovery by George Smith in 1872 of the 11th tablet of the Epic of Gilgamesh in which he encountered for the first time, the flood story.

CAPTION: (One) The story of Noah’s Ark predates the bible

NARRATOR: Finding an ancient tablet with the story of Noah’s Ark written hundreds of years before the Bible…

CAPTION: Make all living beings go up into the boat. The boat which you are to build.

NARRATOR: …shattered the Victorian’s understanding of the world.

DR IRVING FINKEL: When it arrived, it was a huge… …bang, thing like that. It was a very explosive matter. And the parallel was much more than a sort of, general similarity with a boat and water and animals. It was in the same order and there were many close points that compellingly showed that this same story had been current in Mesopotamia a millennium before the earliest date when the Hebrew text is likely to have come into existence.

CAPTION: (Two) The first known author in history was a woman

NARRATOR: It wasn’t easy being a woman in Mesopotamia but women in wealthy families were treated fairly well. The first known author in all of recorded history is actually a woman. The Akkadian priestess, Enheduanna.

DR SELENA WISNOM: The case of Enheduanna shows us that women could reach extremely high and important positions in Mesopotamian religion.

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU: We learn a lot about society, about beliefs relations between husband and wife business transactions going wrong. We know from cuneiform tablets that women had agency. We have contracts where they are allowed to buy houses and they retain control of their dowry. They can run and manage businesses in their own right as long as alongside their husbands.

CAPTION: (Three) We count time in an ancient way

NARRATOR: If you’ve ever wondered why there’s 60 seconds in a minute or 360 degrees in a circle it’s because the Sumerians and Akkadians used a numbering system that was sexagesimal.

DR IRVING FINKEL: Which means that they counted on a base of 60 and divisions of 60 and multiplications by 60 where we tend to use the decimal system. Our own time measurement into 60 seconds in a minute and 60 minutes in an hour is a direct inheritance from Mesopotamian scholarly tradition.

DR SELENA WISNOM: It’s amazing how many concepts we take for granted in our modern society can actually be found for the first time in ancient Mesopotamia. The whole concept of mathematical models the very idea that you can use data to predict things happening in the future and that’s foundational to all modern science.

CAPTION: (Four) They wrote letters like we write emails

NARRATOR: The Mesopotamians were keen letter writers sending sealed messages with traders and travellers. Reading these letters today, you realise that in many ways, not much has changed.

DR CHRISTINA TSOUPAROPOULOU: We can see that there were specific formulae in their correspondence. As we start an email today by “I hope all is well” they also started with specific formulae. But when they were angry they forgot about this formulaic convention and they just started the letter very matter-of-factly.

CAPTION: tracking the distribution of barley NARRATOR: As well as writing about stock levels, taxes and receipts on their tablets cuneiform writers loved to gossip.

DR SELENA WISNOM: We do have letters from these women complaining that the men are not sending enough money home. We have a certain sense of keeping up with the Joneses saying “next door has built an extension to their house, when are we going to have the money to build an extension to our house?” So these kind of things really do come through and we see these little human concerns these little human squabbles desires, jealousies and so on.

CAPTION: Is it time to get more cuneiform?

NARRATOR: By studying the past we learn so much about ourselves and the world that we live in. But the secrets revealed in cuneiform tablets are only known to us today because of clay’s durability. The way that we record things is constantly evolving. Technological progress means things become obsolete very quickly. The messages we send every day are stored in the cloud. How likely is it that anyone will be able to read that in 20 years let alone a few thousand years?

DR SELENA WISNOM: There is a project in Austria which is inscribing 1000 of the most important books of our era onto ceramic tablets. So humanity has really come full circle from writing on clay at the very beginning of history to writing on clay again in a different way to preserve our information now.

NARRATOR: There are many initiatives trying to prevent digital data from being lost. Could it be that despite all the incredible technology we have at our fingertips ancient methods of recording information are the best way of preserving our secrets for generations to come.

Como a genética está reconstruindo a fascinante jornada dos primeiros humanos à América (BBC)

News Brasil

Artigo original

Lucía Blasco, BBC News Mundo – 20 de janeiro de 2022

Montagem de um crânio de homo sapiens com ilustrações de cientistas ao seu redor.

América. O último continente a ser povoado pelo ser humano. Uma parte do planeta Terra desconhecida do Homo sapiens por milhares de anos.

Até que uma mudança climática — entre muitas outras coisas — permitiu ao inquieto primata pisar naquela região.

Mas como a América foi povoada?

“É uma pergunta vital que ainda não resolvemos e continuamos fazendo porque pulsa em nossa curiosidade humana”, diz à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC, Lawrence C. Brody, diretor do departamento de Genômica e Sociedade do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano (NHGRI, na sigla em inglês), nos Estados Unidos.

“Os humanos anatomicamente modernos deixaram a África há pelo menos 100 mil anos e começaram a se espalhar. E em algum momento depois de 40 mil anos, os humanos desenvolveram a tecnologia necessária para começar a explorar mais ao norte”, acrescenta Víctor Moreno, pesquisador de pós-doutorado do Centro de Geogenética da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, à BBC News Mundo.

Há várias teorias, mas a corrente dominante atual sustenta que houve uma única migração primeiro para a Ásia, depois para a Australásia e, mais tarde, para a Europa.

A América ainda estava muito longe e, sobretudo, bastante isolada.

Infográfico do mapa-múndi e das datas em que o Homo Sapiens saiu da África para se espalhar pelo mundo

Os estudos sobre o DNA foram fundamentais para mapear estas migrações ancestrais.

“Nosso DNA contém um arquivo enorme da história de nossos ancestrais. Um genoma pode representar a história de muitas pessoas diferentes de uma população inteira”, afirmou à BBC News Mundo a antropóloga e geneticista americana Jennifer Raff, especialista no povoamento inicial do continente americano.

Para aprender sobre a árvore genealógica de nossos ancestrais, os cientistas sequenciam o DNA humano que ainda pode ser encontrado em fósseis e esqueletos muito antigos, razão pela qual é chamado de “DNA antigo”.

DNA antigo

As tecnologias modernas de sequenciamento tornaram possível ter acesso a fragmentos de DNA sem ter que sequenciar um genoma inteiro.

“Os antropólogos tiram conclusões gerais a partir de amostras muito, muito pequenas de DNA antigo, como dentes ou fragmentos de ossos e, mais recentemente, argila e areia. Os algoritmos nos ajudam a interpretar os dados e saber se aquele DNA está contaminado”, explicou o geneticista humano Brody.

Infográfico sobre onde se pode encontrar DNA antigo

Isso deu a eles algumas respostas sobre o povoamento da América.

“Por exemplo, descobrimos que várias populações ancestrais contribuíram para a ascendência dos povos indígenas americanos, e não apenas uma como se acreditava anteriormente”, diz Raff.

“Graças a isso, agora sabemos que o cenário do povoamento da América foi muito mais complexo do que se pensava, mas também muito mais interessante.”

Para embarcar nesta jornada fascinante, devemos começar situando-nos há aproximadamente 25 mil anos na linha do tempo.

A última era do gelo

Estamos no período do Último Máximo Glacial (LGM, na sigla em inglês), a última era do gelo conhecida na história da Terra.

“O mapa-múndi era muito diferente do atual. A maior parte da América do Norte estava coberta por uma espessa camada de gelo que tornava a região inabitável”, diz Acuña-Alonzo, antropólogo geneticista da Escola Nacional de Antropologia e História (ENAH) do México.

GIF animado de como se criou um corredor de gelo entre 19.000 e 12.500 a.C.

“As condições eram bastante difíceis. Muitos lugares eram inacessíveis e cobertos de gelo. Fazia muito frio, os humanos tinham que caçar e coletar… e não sabiam quando poderia aparecer o próximo mamute!”, acrescenta o pesquisador Víctor Moreno.

Com o avanço do período glacial, o nível dos mares do mundo foi baixando, à medida que a água era armazenada nas camadas de gelo que cobriam os continentes.

“Toda a água estava sequestrada nas geleiras”, explica Moreno.

Por causa disso, havia duas grandes geleiras que cobriam quase todo o Canadá e tornavam praticamente impossível ir para o sul.

Mas no final desse período glacial, há cerca de 12 mil anos, as camadas de gelo começaram a derreter e surgiram alguns refúgios glaciares.

“Nesses locais, as condições não eram tão terríveis e ainda eram produtivas em termos de recursos para que os humanos pudessem se alimentar”, diz Moreno.

Um desses refúgios foi a Beríngia: uma ponte de terra que emergiu do mar congelado por meio da qual as primeiras populações de humanos entraram na América, segundo acredita a maioria dos pesquisadores.

Ela se estendia do que conhecemos hoje como o Alasca até a Eurásia — e era um território seco, cheio de vegetação e fauna.

Mapa de como era a ponte terrestre de Bering

Atualmente, está submersa — por isso não é possível encontrar vestígios arqueológicos —, mas há um consenso de que os ancestrais dos indígenas americanos saíram da Sibéria em direção ao Alasca por aquele trecho de terra e ficaram isolados na Beríngia durante algum tempo.

“À medida que as péssimas condições do Último Máximo Glacial melhoravam, foram abertas certas rotas — pelo litoral e pelo interior — que teriam permitido a entrada na América a partir da região da ponte terrestre de Bering”, diz Víctor Moreno.

Mas ainda há dúvidas sobre a rota que seguiram para entrar na América, sobre quantos grupos (ou quais grupos) fizeram este caminho e quando isso aconteceu.

Quando chegaram à América?

Há duas teorias sobre quando os primeiros seres humanos chegaram à América.

As duas principais correntes são a teoria do povoamento precoce (que diz que isso ocorreu há cerca de 30 mil ou 25 mil anos) e a teoria do povoamento tardio (segundo a qual isso teria acontecido há cerca de 12 mil ou 14 mil anos).

Por muito tempo, se pensou que o povoamento foi tardio. Esta hipótese também é conhecida como “teoria clássica do povoamento da América” ou “modelo Clóvis”.

Os Clóvis, considerados em meados do século 20 a cultura indígena mais antiga da América, usavam uma técnica de entalhe de pedra bastante aprimorada para caçar a fauna gigante que existia na Idade do Gelo com ferramentas que hoje conhecemos como “pontas de clóvis”.

Fotografia de uma 'ponta de clovis'

Fonte: Getty

Durante décadas, essas “pontas de clóvis” foram encontradas em sítios arqueológicos de cerca de 13 mil anos, espalhados por várias partes da América do Norte. Por isso, se pensava que eles foram os primeiros povoadores da América.

Mas, nos últimos anos, vários estudos genéticos refutaram essa ideia.

Embora não haja consenso, hoje há mais cientistas e arqueólogos que argumentam que a ocupação da América ocorreu muito antes do que se acreditava.

“A maioria dos cientistas e arqueólogos apoia a teoria do povoamento precoce, e não tardia, mas os pesquisadores não chegam a um acordo sobre uma data específica ou sobre que sítios arqueológicos são ‘autênticos'”, diz à BBC News Mundo Jennifer Raff.

A análise genética de populações contemporâneas e antigas foi fundamental para que a teoria do povoamento precoce ganhasse peso.

No entanto, ainda há pesquisadores — principalmente arqueólogos — que continuam a defender a teoria do povoamento tardio.

“Alguns arqueólogos são céticos a respeito dos primeiros sítios arqueológicos encontrados, sobretudo porque não aceitam os métodos de datação, as associações com a atividade humana e a estratigrafia (análise dos estratos arqueológicos) que foram reportados”, explica Acuña-Alonzo.

“A verdade é que demonstrar a antiguidade da presença humana é bastante complicado e difícil, por isso só sítios arqueológicos muito bem escavados e documentados servirão para ir mudando essas posições”, acrescenta o pesquisador.

Também segue aberto o debate sobre como os primeiros seres humanos entraram no continente depois que deixaram a ponte terrestre de Bering, ou Beríngia, mas os cientistas trabalham principalmente com duas possibilidades: uma rota marítima ou uma rota terrestre.

Teoria da via marítima

A hipótese da rota marítima está ligada à teoria do povoamento precoce e tem sido respaldada por estudos arqueológicos, linguísticos e genéticos relativamente recentes.

Segundo essa teoria dominante, os primeiros humanos teriam entrado na América margeando a costa do Pacífico, já que naquela época tão fria “o nível do mar era mais baixo, e as costas muito mais amplas. Eles não teriam conseguido atravessar grandes distâncias nem correntes marítimas que não os favorecessem”, explica o antropólogo Acuña-Alonzo.

Não sabemos a data exata, pode ser há cerca de 17 mil anos ou até mesmo 20 mil ou 30 mil anos.

Teoria da rota terrestre

Mais uma vez, não há consenso, embora menos cientistas digam que a rota foi feita por terra há cerca de 13 mil anos, coincidindo com a teoria do povoamento tardio.

“Os pesquisadores que defendem esse modelo acreditam que os primeiros humanos a chegar à América fizeram isso muito depois do Último Máximo Glacial, viajando por um corredor livre de gelo que abriu caminho nas Montanhas Rochosas canadenses enquanto as geleiras recuavam”, explica Raff.

Segundo essa teoria, os humanos teriam atravessado essa “passagem” entre as geleiras pelo interior da América do Norte e, posteriormente, se espalhado pela América do Sul.

Mas, o estudo de genomas antigos e contemporâneos, a descoberta de sítios arqueológicos pré-Clóvis e alguns estudos ambientais questionam essa teoria, por isso há mais cientistas que defendem que a travessia foi feita pelo mar.

Estas pegadas pertencem a crianças e adolescentes que viveram há pelo menos 21 mil anos.

Estas pegadas pertencem a crianças e adolescentes que viveram há pelo menos 21 mil anos. Fonte: Bournemouth University, Reino Unido

Um dos achados mais recentes foi a descoberta em setembro de 2021 de pegadas humanas em um lago do Novo México, nos Estados Unidos, com mais de 20 mil anos.

Essas pegadas sugerem que os primeiros humanos chegaram à América no auge da Última Era do Gelo e que pode ter havido grandes migrações sobre as quais ainda não sabemos muito.

A miscigenação

Mal sabemos que aparência tinham os primeiros seres humanos que chegaram à América.

Para tentar descobrir quem eram, recorremos novamente à genética.

Graças a ela sabemos que os ancestrais dos primeiros americanos se separaram de seus “primos asiáticos” quando entraram na ponte terrestre de Bering, e que se misturaram muito mais do que se supunha, sobretudo durante os últimos 10 mil anos.

Os geneticistas acreditam que houve uma miscigenação entre duas populações ancestrais humanas: os antigos paleo-siberianos e os antigos asiáticos do leste, segundo Acuña-Alonzo.

Infográfico mostrando a miscigenação ocorrida na Beríngia

Raff diz que um desses grupos habitava o que hoje é o Sudeste Asiático. Acredita-se que esse grupo tenha contribuído majoritariamente para a ancestralidade dos primeiros seres humanos que povoaram o continente americano — especificamente, cerca de 60%, indica Víctor Moreno.

O outro ramo ancestral surgiu há cerca de 39 mil anos no que hoje é o nordeste da Sibéria.

Esses dois grupos convergiram há cerca de 25 mil a 20 mil anos atrás.

Não sabemos exatamente como isso aconteceu, mas aconteceu durante uma migração da Sibéria”

diz Raff.

“Temos muito pouca ideia. O mais provável é que tenha ocorrido em algum lugar da Sibéria, mas quão perto da ponte terrestre de Bering isso aconteceu? Quão ao norte ou quão ao sul? Isso é algo que está sendo debatido porque o apoio genético, arqueológico e antropológico que temos é escasso”, diz Víctor Moreno.

O que a genética explica é o que aconteceu a seguir: houve uma série de eventos demográficos complexos e a população, novamente, se dividiu em duas.

Um ramo, o dos antigos beríngios (por sua possível conexão com a Beríngia) não teve descendentes conhecidos. O outro, dos antigos nativos americanos, sim.

Os cientistas chegaram a essas conclusões após descobrir uma afinidade genética muito grande entre grupos ancestrais da Sibéria e populações da Eurásia Oriental.

Pesquisador analisando pegadas de mais de 20 mil anos atrás encontradas nas margens de um lago no Novo México.

Pesquisador analisando pegadas de mais de 20 mil anos atrás encontradas nas margens de um lago no Novo México. Fonte: Universidade de Bournemouth, Reino Unido

“Sabemos, por exemplo, que os indígenas americanos estão relacionados geneticamente às populações do nordeste da Ásia por uma série de genes que permitiram a seus ancestrais economizar energia em condições climáticas muito difíceis”, acrescenta o geneticista.

Apesar dessas descobertas, eles ainda estão tentando determinar quantos povos antigos e atuais na América têm uma conexão com a linhagem genética desses antigos nativos americanos.

“Temos que aceitar que há muitas arestas dessa pergunta para as quais ainda não temos uma resposta”, diz Raff.

Na verdade, a última descoberta no Novo México deixa outra grande incógnita no ar: a possibilidade de que as primeiras populações tenham se extinguido sem deixar descendentes, sendo “substituídas” por outros povoadores quando o corredor de gelo foi formado.

Mas ainda não se sabe se foi esse o caso ou como teria acontecido.

“Não temos escolha a não ser abraçar a incerteza. Mas, ao mesmo tempo, é emocionante saber que estamos cada vez mais perto de reconstruir essa primeira viagem à América.”

Enquanto isso, os cientistas esperam que a herança genética nos dê mais respostas sobre a última grande expansão do Homo sapiens no planeta.


Créditos

Pesquisa e reportagem: Lucía Blasco
Design e infografia: Cecilia Tombesi
Mapa utilizado como base: Ron Blakey, NAU – NSF
Programação: Zoë Thomas, Adam Allen e Marcos Gurgel
Edição: Carol Olona e Ricardo Acampora
Com a colaboração de Hilda Badenes e Sally Morales
Projeto liderado por Carol Olona

Volta do Brasil ao Mapa da Fome é retrocesso inédito no mundo, diz economista (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Um dos criadores do Fome Zero, Walter Belik critica o desmonte da rede de segurança alimentar pelo governo Bolsonaro

Suzana Petropouleas – 23 de janeiro de 2022


Um dos criadores do Fome Zero e um dos principais pesquisadores em segurança alimentar no Brasil, Walter Belik, professor aposentado do Instituto de Economia da Unicamp, defende que o governo Bolsonaro conduz uma política deliberada de desmonte das iniciativas contra a fome no país.

Belik relembra a criação do Fome Zero como um projeto pluripartidário. Desenhado originalmente como um programa de distribuição de cupons para troca por alimentos, ele foi substituído pelo Bolsa Família, carro-chefe da política social de Lula, e o nome passou a designar uma estratégia de segurança alimentar. As iniciativas pavimentaram a saída do Brasil do Mapa da Fome da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação da Agricultura) em 2014.

O ​cenário mudou a partir de 2015, diz Belik, com a escalada inflacionária, a ausência de recomposição do valor de benefícios sociais e um desmonte das políticas de segurança alimentar, sobretudo no governo Bolsonaro. ​

O país voltou ao Mapa da Fome em 2018 e, em 2020, registrou 55,2% da população convivendo com a insegurança alimentar, segundo pesquisa da Rede Penssan. Cenas observadas em 2021, como pessoas buscando ossos e carcaças para se alimentar e os diversos protestos contra a fome, não podem ser creditadas só à crise provocada pela pandemia, diz ele.

A que o sr. atribui o avanço da fome nos últimos anos?

O aumento era previsível. Tivemos uma redução até 2014 e a subida começa a aparecer já em 2017. O ano de 2018 já configura uma volta do Brasil ao Mapa da Fome. Esse dado se confirma e agrava nos anos seguintes, segundo dados da Reden Penssan e ONU. Em 2022, a tendência é de continuidade nesse aumento.

A ONU associa a insuficiência alimentar grave e moderada a um quadro de fome. Tomando as duas porcentagens, chegamos a um quadro de aproximadamente 25% da população em situação vulnerável. É bastante crítico. É um quadro complicadíssimo, um quarto da população está passando fome no Brasil.

Os impactos para a economia são enormes, porque existe um custo social da fome. Esse custo deve ser gerenciado pelas políticas públicas. Ele impacta no sistema de segurança social, no Orçamento, na saúde, na educação —com atraso de aprendizagem das crianças—, e no mercado de trabalho, com redução da mão de obra e da produtividade.

Colocando na balança, prevenir seria mais barato. A fome custa caro.

O quanto a pandemia afetou a fome?

Não dá para atribuir a fome só à Covid, pois se tivéssemos uma rede de proteção social em funcionamento, não teríamos um quadro tão complicado quanto o que estamos vivendo.

O programa de estoques de regulação da Conab, por exemplo, baseado principalmente em compras da agricultura familiar, acabou. Boa parte da crise de desabastecimento e alta de preços em 2020 tem a ver com a ideia de que o Brasil não precisa de estoques reguladores de alimentos, o que é absurdo não só do ponto de vista de segurança alimentar, mas nacional.

O país depender de importações e da variação de preços internacionais é absurdo, diante do quadro de abundância que temos no Brasil.

O sr. fala em desmonte da rede de segurança alimentar no governo Bolsonaro. Quais políticas foram afetadas?

A lista é extensa. O Bolsa Família, desidratado, passou de um programa de transferência de renda com condicionalidades para um de doação. Com o Auxílio Brasil, a ideia de proteção e assistência social dessas famílias foi escanteada.

O Pronaf [Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar] foi desidratado e os valores cortados em 35%. O programa de reforma agrária, a Secretaria de Agricultura Familiar, o programa de estoques de regulação da Conab e o programa de cisternas, todos foram descontinuados.

O PAA [Programa de Aquisição de Alimentos], que priorizava a compra de alimentos de agricultura familiar para doações ou alimentação escolar e chegou a comprar quase R$ 1 bilhão, garantindo renda para os pequenos produtores, acabou.

O programa de banco de alimentos virou o “Comida no Prato”, assistencialista e criado pelo governo para faturar em cima do trabalho feito há duas décadas pelos bancos de alimentos do Brasil, organizados pela sociedade civil, basicamente. O programa de restaurantes populares foi descontinuado, e hoje vivemos um congestionamento nos restaurantes populares de R$ 1, graças à perda de renda da população. O programa de cozinhas comunitárias acabou.

Agora, o governo quer mexer no PAT [Programa de Alimentação do Trabalhador] e reduzir a isenção fiscal das empresas que promovem o vale-alimentação ou tem restaurante na empresa. Todos os programas de abastecimento, como modernização ou mesmo privatização das Ceasas, também acabaram. Elas se tornaram obsoletas, mas têm papel importantíssimo no abastecimento urbano.

Uma coisa é consertar um programa, outro é extingui-lo. Tem uma lista enorme de programas finalizados em nome de resolver problemas fiscais e respeitar o teto de gastos, que depois foi furado.

Por que o sr. critica o programa Comida no Prato?

Esse caso é escandaloso. Em 2017, foi criada a Rede Brasileira de Banco de Alimentos, ideia de muito tempo atrás que visava melhorar a comunicação entre os mais de 200 bancos pelo país e reduzir custos. São na maioria ONGs e entidades civis.

O governo Bolsonaro centralizou os cadastros de doações de novos doadores, como supermercados ou indústrias, e promete isenção do ICMS a elas. Ora, esse imposto é estadual e a maioria dos alimentos doados são frescos. Estados como São Paulo não cobram ICMS sobre eles. É uma medida inócua e populista.

No caso dos industrializados, onde incide IPI, não há isenção nenhuma.

O governo quer concentrar as informações em torno dele para depois dizer que está fazendo uma ação de solidariedade, mas ele não faz nada, quem faz são as empresas que doam e as ONGS. É escandaloso. É para funcionar na propaganda política de 2022. Uma tristeza de ver.

Como a questão da fome pode afetar as eleições de 2022?

Se em campanhas anteriores os temas eram corrupção e segurança pública, esse ano vai ser saúde, em primeiro lugar, e alimentação.

Estamos numa situação de retrocesso que é única no mundo. Não há sequer um caso na história documentado pela FAO de um país que saiu do Mapa e voltou. Nenhum. Esse é o tamanho da tragédia que estamos vivendo.

A tragédia que estamos vivendo com a fome choca qualquer pessoa que trabalha na área ou vê a situação. Deve ser prioridade número um na cabeça de qualquer programa de governo. Lógico que, vindo do Bolsonaro, não é algo sério, é eleitoreiro. Mas diria que os outros têm uma preocupação com isso e, nas campanhas, será fundamental.

O sr. defende um Fome Zero 2.0 caso Lula, que lidera as pesquisas, seja eleito?

Não sou filiado ao PT. Não sei exatamente o que está sendo discutido hoje, em nível de programa de governo. Mas diria que qualquer pessoa de bom senso vai ter que atacar esse problema como o número um.

Talvez não seja mais uma bandeira do PT, mas uma bandeira da sociedade civilizada como um todo. É uma questão civilizatória. Mais da metade da população vive em insegurança alimentar, segundo os últimos dados. Você não pode virar as costas para isso.

Não é possível que algum candidato, que tenha algum senso de solidariedade e uma certa empatia pelo povo brasileiro, possa conviver com uma situação como essa. Não é possível. Então não é um problema só do candidato Lula, mas de todos candidatos. ​

Por que o Fome Zero não conseguiu eliminar a fome de forma estrutural?

Programas de transferência de renda são o primeiro passo. Quem tem fome tem pressa. Tem que garantir uma cesta básica, alimentação na mesa dessas famílias.

O passo seguinte, de fato gigantesco, é atacar as questões da pobreza de forma multidimensional. Dados mostram que o gasto em transporte ultrapassou o gasto com alimentação, tradicionalmente o maior das famílias. Como garantir alimentação se o sujeito vai gastar uma parte da transferência de renda para pagar o transporte para trabalhar? Aproximadamente 30 milhões estão em trabalhos precários e não têm vale-transporte. Gasta-se para trabalhar.

Habitação é outro item de despesa que está no mesmo nível do gasto com alimentação, em torno de 20%.

Não dá para ter um programa de alimentação sem analisar essas outras dimensões que compõem a pobreza. O que que precisa ser feito? O que não foi feito? É passar dessa fase de programa ligados à segurança alimentar para programas mais gerais, que possam garantir a erradicação da pobreza, o objetivo número um do milênio da ONU. E erradicar a pobreza não é só renda, tem outras questões relacionadas.

O que um programa de combate à fome atual deve fazer de diferente do que foi feito no Fome Zero?

O programa número um agora seria de abastecimento dos centros urbanos, tema para o qual o programa não apresentou respostas de maior amplitude. Foram respostas pontuais.

Tem que modernizar as relações de abastecimento e comercialização, do campo ao consumidor final. Estamos numa era da economia digital e devemos aproveitar todos os elementos dados pelas plataformas digitais: reduzir a intermediação, agilizar sistemas, promover a padronização e classificação no campo e a definição de embalagem para redução do desperdício, melhorar sistemas de transporte e plataformas de comercialização, além de conectar centrais de distribuição com a agricultura familiar, principalmente os produtores mais pobres.

É possível fazer. Também é preciso estabelecer relações mais permanentes entre o consumidor e o produtor, por exemplo, através de modelo de assinatura de cestas de alimentos frescos e saudáveis.

A qualidade da alimentação também piorou na pandemia, com aumento do consumo de ultraprocessados. Como atacar esse problema?

Ultraprocessados são mais baratos e fáceis de encontrar.

Precisamos garantir melhoria da renda no campo e no abastecimento na cidade. Temos uma rede de Ceasas (Centrais de Abastecimento) maravilhosa, construída na década de 70, que está se deteriorando. Ela pode cumprir esse papel.

A Ceagesp (Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo), por exemplo, tem seu volume comercializado estagnado há dez anos. Está sendo comida pelas bordas pelo atacado moderno, que atua via supermercados. É importante prover este sistema de distribuição para feiras livres, de pequenos comércios, compra direta para o consumidor.

De nada adianta você fazer uma transferência de renda de R$ 600 e a pessoa comprar um alimento muito industrializado. Algumas áreas são verdadeiros desertos alimentares e isso piorou na pandemia: não tem feira, não tem distribuição, circulação de alimento fresco.

A ideia é que você possa reconectar as pessoas que recebem transferência de renda com uma alimentação saudável, garantindo renda também no campo.

No curto prazo, algo deve mudar no panorama da fome no Brasil?

Esse ano ainda será bastante complicado. Com a situação fiscal do Brasil se estabeleceram alguns tetos. As emendas parlamentares tratam de questões ligadas a infraestrutura. Então não há nenhum programa consistente voltado para combater este problema agora, no curto prazo. E a pandemia, que se imaginava controlada, passa por novo descontrole. Não vejo muita condição de resolver o problema.

Ainda mais porque teremos um ano de recessão, com previsões de crescimento em zero, 0,29%. E com crescimento zero tem-se a persistência do desemprego e queda de renda.

O quadro internacional também está relativamente complicado, então vamos continuar com aumentos de preços. Diria que 2022 não vai apresentar nenhum refresco. Em 2023, com seja lá quem ganhar a eleição, que não seja o Bolsonaro, teremos a possibilidade de atacar esse problema de frente.


Raio-x

Walter Belik, 66, é graduado em administração de empresas pela FGV, com mestrado pela mesma instituição e e doutorado em economia na Unicamp. Fez pós-doutorado no University College de Londres e no Departamento de Agricultura e Economia dos Recursos Naturais da University of California, em Berkeley, Estados Unidos. É professor aposentado de economia agrícola do Instituto de Economia da Unicamp e professor convidado na University of Kassel, Alemanha. Coordenou a Iniciativa América Latina e Caribe Sem Fome da FAO (Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas), até 2008 e desde 2013 é membro do Painel de Alto Nível da ONU de Experts para a Segurança Alimentar Mundial. Publicou mais de 200 artigos científicos, além de livros e textos de divulgação na área de agricultura e alimentação.

How next-gen satellites are transforming our view of climate change (CNET)

cnet.com

Megan Wollerton – Jan. 18 2022


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Robert Rodriguez/CNET
As more frequent and more severe storms erode coastlines, mapmakers must adapt quickly.

A shrinking swath of coastline in Washington state has a regrettable nickname: Washaway Beach. It’s named not for what’s there, but rather for what isn’t. Insatiable Pacific Ocean currents have taken greedy bites out of the land over the past century.

Washaway Beach’s disappearing shore isn’t measured in centimeters or inches. You can’t track the changes with a hardware store measuring stick. Residents of the area, roughly two and a half hours southwest of Seattle, are watching their homes and businesses get swallowed by the sea at an average rate of 100 feet per year; that’s about the height of a 10-story building. It’s the fastest-eroding place in the western United States.

Washaway Beach is an extreme case of erosion. Many factors contribute to its rapid decline. But the quickening march of climate change, including rising sea levels and more frequent and severe storms, poses a growing threat to coastal communities everywhere. 

I’ve never been to Washaway Beach. I’m hearing about it for the first time from Peter Doucette, the acting director for the Earth Resources Observation and Science Center at the US Geological Survey. Doucette is showing me over Zoom a colorful animated map of how the community changed between 1985 and 2017. The water eats away at the map’s multicolored patches. The brown beaches, red developed areas and light blue freshwater bogs evaporate in the Pacific’s 32-year sprint to wipe out the town. It’s jarring to watch how quickly the land dissolves into the deep blue as the ocean takes over. 

Watch Washaway Beach disappear. USGS

Scientists didn’t have the tech to visualize changes like this even five or 10 years ago, though they had the data. “This is the power of using the data from time; it’s taking advantage of the time dimension, which requires a lot of computing power … but we have that now,” Doucette explains. 

Faster satellites, sharper images taken in near real-time and advanced computing techniques are making it possible for mapmakers to redraw Washaway Beach as soon as coastal changes occur. Emerging technologies will help scientists predict what could happen to it in the future, just like a weather report. 

For coastal residents around the world, or anyone living in an area susceptible to extreme weather events, this type of mapping could save lives. Up-to-date maps can provide crucial information for first responders needing to traverse areas hit by natural disasters; residents and visitors need regular, ongoing updates to adapt to a changing landscape. 

For anyone living in areas less directly affected by the climate crisis, maps that show change over time provide a crucial bridge to understanding what’s really happening in other places, and how quickly. 

“By helping people visualize how the world is changing, maybe that will give them a better understanding of climate change as a whole,” says Tanya Harrison, director of science strategy at Planet, a private satellite imagery company. “How is your neighborhood being affected? How is your grandmother’s house being affected? Maybe she lives on the other side of the country or the other side of the world. In a way, that can kind of make this a little bit more personal.”

From clay tablets to satellites

Maps aren’t easy to define. They’re squishy things, molded by the minds of the people who create them. Imperfect representations of our world. One part art; one part science.

Still, they give us a baseline for decision-making, whether it’s finding the closest coffee shop, climbing a mountain or helping people understand something more serious, like climate change.

“[Maps are] such a great intuitive way to gather information and humans are really good at understanding spatial information presented in that way,” says Mike Tischler, director of the National Geospatial Program at the US Geological Survey. “You want to know what’s over the ridge, you want to know what’s around the bend, you want to know where things are.” That’s probably why maps have been around for thousands of years. 

A clay tablet known as the Babylonian Map of the World, or Imago Mundi, is the oldest known map of the world. It was discovered in Iraq and dates back to about 600 B.C.

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The Babylonian Map of the World is the oldest map of the world. The Trustees of the British Museum

Modern mapmaking got its start in 1852, when French army officer Aimé Laussedat created the first maps with photographs. Laussedat also experimented with aerial photography, sticking cameras on kites and balloons. As air travel became more sophisticated, aerial photography transitioned from balloons to planes in World War I and World War II and, eventually, to satellites in the 1970s. 

Nowadays, aerial photography is more automated than it was when ground crews launched unsteady balloons into the air, hoping to get the right shots. Hundreds or thousands of images are taken automatically from planes and satellites to make maps. Now planes and satellites visit the same place regularly, reliably showing how land changes over time.

“Land change is really complex. … Tying it to climate, I’m not sure we’re there yet,” says Jesslyn Brown, research geographer for the Earth Resources Observation and Science Center at the US Geological Survey. You can’t identify patterns that could point to climate change without monitoring the same places at regular intervals.

“This might be a little controversial, but my opinion is that governments don’t find monitoring very sexy,” Brown says. “But it’s an absolute necessity because you can’t manage what you can’t measure, so we need to take these measurements in order to have the information to monitor the Earth and to monitor the effects of climate change.”

Chasing change 

In the US, Landsat is the best-known Earth-observing satellite for monitoring and mapping purposes. Landsat 7 and Landsat 8 circle the globe once every 99 minutes, traveling at 17,000 miles per hour. Each satellite covers the entire planet in 16 days. Together, they cover the Earth in eight days because they’re in reverse orbit. 

The satellites are “roughly the size of a small school bus,” says Doucette, the USGS director who showed me the map of Washaway Beach, and have a 30-meter resolution, “about the size of a baseball diamond per pixel.”

Generations of Landsat satellites have been doing this since 1972. That 50-year record makes it extremely valuable for tracking changes over time.

“[50 years of data] provides researchers the ability to go back through time and monitor what kinds of changes are going on on the land surface,” Doucette says. “That really wasn’t possible until just the last five to 10 years with the big data compute capabilities that have become available.”

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This image of the Himalayan Mountains is one of the first shots taken by Landsat 9.  NASA

NASA launched its newest satellite, Landsat 9, on Sept. 27. Soon, it will hand over control of Landsat 9 to the USGS. Then, Landsat 7, which has been orbiting the planet for 22 years, will be retired. Most old Landsat satellites go into “disposal orbits,” destined to circle the planet until they eventually reenter the atmosphere and burn up. Landsat 7 won’t have the same fate; it will be moved into a different orbit to help test NASA’s robotic refueling project, Doucette explains. 

Landsat is still the gold standard for satellite imagery, says Terry Sohl, acting branch chief for the Integrated Science and Applications Branch and research scientist at the USGS Earth Resources Observation and Science Center. “To be honest, I’m not sure that’s going to be the case in five years,” Sohl adds.

Private satellite companies are making it easier than ever to visualize changes worldwide almost as soon as they happen for much less money than Landsat. 

Smaller, faster, cheaper, sharper

“If you’ve got a satellite right now that covers the Earth every two weeks, you can have homes and cities destroyed in that time,” says Tischler, the USGS director of the National Geospatial Program. Private companies are sending larger numbers of tiny satellites into orbit that cost less to build, launch and operate, have very high-resolution cameras and cover more ground more quickly. 

One of the private companies, Planet, has two different types of satellites: Dove and Sky satellites. The 180 Dove satellites are the size of a loaf of bread; they orbit the globe every 90 minutes and have a three- to five-meter resolution, or about 10 to 16 feet. 

Fifteen of the Sky satellites orbit at the poles like the Dove satellites. The remaining six Sky satellites orbit at latitudes closer to where people live to capture images of cities. Combined, the Sky satellites orbit Earth 12 times per day. Sky satellites are about the size of a dishwasher and have a resolution of just 50 centimeters, or a little over a foot and a half. They capture details that Landsat’s baseball-diamond-size resolutions can’t. 

Planet satellites show the Milne Ice Shelf breaking apart in July 2020. Planet Labs PBC

Smaller satellites are cheaper, too. It costs about a billion dollars to design, build, test and deploy one Landsat satellite. One Planet satellite costs in the “low hundreds of thousands of dollars,” although the company wouldn’t say exactly how much. 

Having a lot of smaller satellites also makes it easier for the San Francisco-based team to build them locally and experiment with new technologies quickly. 

“If there’s something new that comes to the market that could lead to better image quality … we have the option to just switch that out in-house where we’re actually building the satellites in the basement of our headquarters in San Francisco and just say, ‘Hey, let’s put in a new sensor. Let’s launch that,'” says Harrison, Planet’s director of science strategy. 

That way, if they want to test something, they can try it on one satellite and see how it works, without having to update all 200 satellites in their fleet.

Its various satellites have observed many events related to the climate crisis all over the world. The most significant changes they’ve seen have taken place in the coldest regions.

In July 2020, Planet satellites captured the collapse of the last intact Arctic ice shelf. “That was obviously a big tragedy. It’s not the kind of thing that you want to see, but it’s something that we managed to capture,” Harrison says.

Seeing is believing

Newer satellites are giving us more data, more quickly. Advancements in computing are changing how mapmakers use that data to show how our planet is changing right now and how it could change in the future.

Doucette is showing me another map now, this time a projection of what the land near Lubbock, Texas, will look like decades from now. At some point, the Ogallala Aquifer, which supports cotton and other key crops in the region, is going to dry up. Scientists at the USGS worked with other government agencies to create forecasts of Lubbock between 2014 and the end of the century, drawing from Landsat data, socio-economic data and climate data.

The map shows the cotton crop disappearing in tandem with the Ogallala’s water. The projections will vary based on how water usage continues, so scientists create best, middle and worst case scenarios because of the uncertainty. 

“Climate is actually much more predictable than people. I don’t worry about the variability in a climate scenario; I worry about the variability of how people behave,” says Sohl, the USGS scientist. “There are all these things that happen that are just so totally unpredictable, like a new government policy that can have a huge impact on the landscape.”

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What happens when the Ogallala Aquifer runs out of water? NOAA

Either way, the Ogallala’s water will disappear and it isn’t coming back.

Knowing this in advance gives people in Lubbock time to shift to other types of crops that don’t depend so heavily on water. Doucette suggests dryland wheat or returning the area to grassland.

“This is how we hope to use Landsat and other related Earth observation data so we can understand the causes of change in the past that kind of help us develop these models for projecting potential change going into the future,” Doucette says. 

Historic data from Landsat combined with sharper-resolution imagery from private satellite companies equips mapmakers to show climate change impacts now and model what could happen to the same areas decades or even centuries from now. “[Landsat and private satellite companies] really [are] a nice mix of where we’re going in the future,” says Sohl.

As Washaway Beach’s erosion cuts further into inland Washington state, the freshwater cranberry bogs the area is known for are increasingly threatened with contamination from salt water. But with these technologies, scientists can look at the models and make decisions before Washaway Beach, the Ogallala Aquifer and other places like them fall off the map. 

“Imagine being able to do this kind of projection … and doing it on a national scale or even a global scale,” Doucette adds. “That’s our hope; this is still kind of cutting-edge research.” 

A Project to Count Climate Crisis Deaths Has Surprising Results (WIRED)

wired.com

Matt Reynolds

01.18.2022 07:15 AM

Climate change is already killing people, but countries don’t have an easy way to count those deaths. A new project might change that.

Climate change can kill people in all kinds of ways. There are the obvious ones—wildfires, storms, and floods—yet rising temperatures may also lead to the increased spread of deadly diseases, make food harder to come by, and increase the risk of conflict.

Although we know about these wide-ranging but equally terrifying risks, attempts to pinpoint the number of deaths caused by climate change have been piecemeal. One recent study estimated that climate change was to blame for 37 percent of heat-related deaths over the past three decades. In 2021, Daniel Bressler, a PhD student at Columbia University in New York, estimated that every additional 4,400 metric tons of carbon dioxide emitted will cause one heat-related death later this century. He called this number the “mortality cost of carbon.”

Putting a number on climate deaths isn’t just an academic exercise. People are already dying because of extreme temperature and weather events, and we can expect this to become more common as the planet continues to heat up. If governments want to put in place policies to prevent these deaths, they need a way of accurately measuring the deaths and ill health linked to warming. The search is on for the true mortality cost of carbon.

As part of this search, the UK government has made its first attempt at putting a number on climate change deaths. The UK Office for National Statistics (ONS)—an independent government agency responsible for producing official data—has for the first time reported climate-related deaths and hospital admissions in England and Wales. The report covers the years 2001 to 2020, but future reports will be released annually, revealing for the first time detailed information about the impact that climate change is having on health in the two nations. (Statistics for Scotland and Northern Ireland are recorded separately.)

The main finding from this investigation is counterintuitive. The report found that the number of deaths associated with warm or cold temperatures actually decreased between 2001 and 2020. On average, 27,755 fewer people were dying each year due to unusually warm or cold temperatures. In other words, climate change might have actually prevented over half a million deaths in England and Wales over this period. In 2001 there were 993 climate-related deaths per 100,000 people in England and Wales. By 2019 that figure had fallen to 771.

But let’s not get ahead of ourselves. There are a number of reasons why the net number of temperature-related deaths appeared to decline over this period, says Myer Glickman, head of the epidemiological, climate, and global health team at the ONS. For a start, statisticians took a relatively narrow definition of climate-related deaths. They only included deaths from conditions where scientists had previously found a clear link between temperature and disease outcome, and they also excluded any health condition where their own analysis showed no link between temperature and outcome. This means that the mortality data doesn’t include deaths from violence or natural forces (such as storms, landslides, or flooding).

The analysis also excluded deaths from air pollution, which Public Health England estimates is equivalent to between 28,000 and 36,000 deaths each year in the UK. Glickman says that there is no accepted way to separate out the effect that temperature increases have on air pollution. Add all these caveats together and it’s likely that the ONS analysis is a little on the conservative side.

Then there is the big reason why climate change has not led to more deaths in England and Wales: the very mild climate. Although average temperatures in the UK have increased by 0.9 degrees compared to the period from 1961 to 1990, its residents are not some of the 3 billion people who face unlivable conditions if greenhouse gas emissions increase rapidly. And while deaths linked to cold weather were down in England and Wales, on warmer days there was a net increase in hospital admissions linked to warmer weather. This was particularly true when it comes to injuries, which may be because more people do outdoor activities when it’s warmer or might be linked to the increases in violence and mental health problems that are associated with warmer temperatures.

The lower rate of deaths might also be a sign that our attempts to fight back against cold weather are working. Widespread flu vaccinations, support for people to pay their heating bills, and increases in home insulation mean that the coldest days didn’t hit as hard as they might have without these mitigations in place, Glickman says. And warmer homes might be a good thing now, but as summers in the UK get hotter and air-conditioning remains rare, it may start to become a problem.

The ONS will now release this data on a yearly basis, but Glickman’s next project is to look more closely at how temperature changes affected different areas. “We’re going to drill down to a local level temperature,” he says. “That’s going to give us a lot more resolution on what’s happening and who it’s happening to.” The impact of climate change might depend on how wealthy an area is, for example, or whether its residents have easy access to health care or community support.

Glickman also wants to explore indirect impacts of climate on health. “What will be a big interest in the coming years is the lower-level health impacts of things like flooding,” he says. If someone’s home is flooded, it might increase their vulnerability to respiratory disease or worsen their mental health. Researchers from the UK have already found that people with mental illnesses are more at risk of death during hot weather. We don’t know why that is exactly, but researchers think it might be because people with mental illnesses are more likely to be socially isolated or already have poorer health, which makes them more vulnerable when temperatures rise.

The team behind the ONS report are also part of a wider effort to create a global system to count climate-related health impacts. “What we don’t have is a robust set of statistics to categorize the impact of climate on health,” says Bilal Mateen, a senior manager of digital technology at Wellcome Trust, the health charity funding the new climate change health impact initiative.

The first year of the project will be spent identifying countries to partner with before developing and testing different ways of measuring climate change deaths that work for specific countries, says Mateen. The idea is to use this data to help countries devise policies that lessen the health impact of climate change. “We can begin to tease out what works, what doesn’t, and what adaptation and mitigation interventions we should be supporting,” Mateen says.

If it’s true that warmer homes and flu vaccines helped reduce climate change deaths in England and Wales, it’s a sign that populations that are healthier on the whole might be better at surviving the ravages of a heating world. Other countries may want to take note. “All policies are health policies,” says Mateen. “There is a clear need to support job stability, to address fuel poverty and every other policy that’s outside of the mandate of the health minister, because we know that those social determinants of health have downstream impact.”

Your Medical History Might Someday Include ‘Climate Change’ (WIRED)

wired.com

Rose Eveleth

01.18.2022 07:00 AM

Last summer, a doctor wrote “climate change” in his patient’s chart. But is medicine really ready to address systemic health impacts?

Last June, a heat dome settled over British Columbia, shattering the region’s heat records for five consecutive days and hitting temperatures of over 120 degrees. The dome was responsible for at least 500 human deaths (and potentially a billion marine creature casualties) and stretched the health systems in the region to their breaking point.

And at one rural hospital in Nelson, British Columbia, doctor Kyle Merritt began to feel like there was more he should do than simply treat all the patients coming in with heat stroke and exhaustion. “I was upset with what I was seeing,” he says, “I felt like it should be documented in some way.” So when a 70-year-old woman arrived with heat stroke, he wrote “climate change” in her medical chart as the underlying reason she had to be admitted to the hospital.

It was the first and only time Merritt chose to include “climate change” as an underlying condition in a patient’s chart. “It was the first patient that I felt like it was really clear cut,” he says. Had the conditions outside not been so extreme, he might have been able to discharge her and let her recover at home. When we spoke, Merritt emphasized that it was a decision he made in the heat of the moment. He never expected it to become national news.

Months later, when speaking with the founders of a small organization called Doctors for Planetary Health, Merritt shared the story of his decision to write “climate change” in the patient’s chart. When they asked to use that story in a press release accompanying a planned climate rally, Merritt didn’t think anyone was going to read the press release about this little thing that happened.

But read it they did. Eventually, Merritt’s story was all over the news, often under erroneous headlines claiming he had “diagnosed” a patient with climate change (the phrase appears in her chart as an underlying cause, not a diagnosis). The story was covered by national publications like NBC News, The Hill, The Daily Mail, along with a host of right-wing news sites like GOP USA.

Some praised the decision for bringing necessary awareness to the connection between climate change and health. “When I saw this, I thought, ‘Yes, this is what we need. We need more attention to the social determinants of health,’” says Keisha Ray, an assistant professor at the McGovern Center for Humanities and Ethics at UTHealth. Others claimed this was “the latest example of team-left lunacy.” Some columnists argued, incorrectly, that the patient probably didn’t get proper treatment because her doctor “diagnosed her” with something incurable. (Merritt admitted the patient to the emergency room and she was treated for her condition.)

When I read the story, my question was less about Merritt and more about the patient herself. Did she know she was the center of this news blip? Had he talked to her about climate change, or the fact that he was writing it in her chart? Did she give permission to be in the press release? And what are the ethics of turning a patient into a public point?

Doctors use case studies all the time to communicate with one another, and with the press. And for good reason: People connect with and remember stories far better than generalized facts. But using a patient to explain a concept, or to help educate doctors on how to treat someone more effectively, is different from using a patient’s story to make this broader, public point about climate and health. Even Merritt admitted that writing “climate change” in this woman’s chart didn’t do much to help her or other patients suffering during the heat dome. “It’s not like some other doctor was going to look at it and make sure they were never exposed to climate change,” he says. “Practically speaking, it doesn’t really do that much.”

Medicine has a checkered history when it comes to using patient stories and protecting privacy. For decades, doctors paraded patients in front of the public without their consent. In 1906, for example, a famous doctor named Wilfred Grenfell published the story of a 9-year-old boy who had accidentally shot himself in the knee. Grenfell used the boy’s full name, image, and identity, telling the tale with gusto each time he spoke to the public and his colleagues—even distorting the facts of the case, turning “slight” bleeding in the original chart into “shocking” bleeding and a “heterogeneous mass of bloody rags”—in order to entertain donors, make himself seem more heroic, and maintain his status as a celebrity doctor. Fast forward to today, and issues of patient privacy are still very present. In 2012 the ABC show NY Med, which at the time starred celebrity doctor Mehmet Oz, broadcast the death of a patient without his family’s consent. His widow won $2.2 million in a suit against the hospital.

Given that history, the question of how much to anonymize a patient in these tales is well-trod territory for medical ethicists. “As long as the physician doesn’t give any kind of identifying information, then it would be ethical. You want to always maintain the patient’s privacy,” says Ray. “But you also have to think about how minor information can be pieced together, where someone can figure out who this patient is.”

In Merritt’s case, the details provided to the press go like this: We know the patient’s age, her background medical conditions, the type of home she lives in, and that she was admitted in June. Kootenay Medical Center, where Merritt works, serves less than 4,000 patients. “That’s a lot of identifying information,” Ray said, when I told her the facts that had been publicly confirmed. “Small towns don’t tend to have a lot of physicians, so you could very well be one of three physicians.”

This feels increasingly important when a story is used in a way that might be construed as political —calling for action on something like racism or climate change. In a world where private citizens can be outed and harassed for being associated with a cause or a side, doctors who want to use a patient’s sickness to make an activist point might need to be a little more cautious. “I worry that the sensationalism of this story may encourage people like journalists to go seek this patient out,” says Ray. “And I also worry that because climate change is still very political and it still is considered a left-leaning idea, that it may encourage conservative media to go and find this person and pit them against each other.”

That hasn’t happened in this case. But Merritt says that if he were to do it over, he might have done things differently. As it unfolded, he didn’t tell the patient he was writing “climate change” in her chart. In fact, they didn’t discuss climate change at all. “If I had known when I had written that in the chart that it was something that I was doing to try and tell the story, I don’t know. I may have talked to the patient more about it and asked their permission,” he says. “But of course, at that time when I did it, I had no idea that it would ever become a story of any kind.” To this day, Merritt believes that the patient has no idea she is the one in the story.

Beyond the specifics of Merritt and his patient, the story raises big questions about how medicine can and should handle systemic impacts on health.

Merritt wrote “climate change” in a bout of frustration, wanting to document what he was seeing in real time. Other doctors have taken different approaches. Nyasha Spears, a physician at St. Luke’s Hospital in Duluth, Minnesota, takes nearly the opposite tack that Merritt did—rather than quietly writing in a chart to make a broader point, she talks to her patients constantly about climate change and the environment. “As a family doctor, my jam is habit change. This is what I do,” she says. “So my thought with climate change is, can I start peppering my conversations with patients all the time with an argument that habit change is good for them on a personal level, but also good for the environment?

In the case of Merritt’s patient, this talk might not have done much. There was nothing she could do about her conditions, no habit change she could make to avoid the scorching heat. Like many in her community, she likely couldn’t afford to install air-conditioning in her trailer, and beyond that there was little to be done. In cases like these, Ray says that maybe a climate change talk isn’t warranted. “They can feel helpless because there’s nothing that they can do,” she says. “They are literally living, and just living is making them sick.”

This reality can make things feel bleak for both doctors and patients. And to address these connections between health and structural conditions like climate change and racism, doctors will need to ask not simply what they can do for each individual patient, but also what they can change about medicine to account for and reckon with these links. Today, there is no diagnostic code for climate change, no way to link these cases up or track them in any way, but perhaps there should be.

“There’s all sorts of ICD-10 codes that are completely inane,” says Spears. “If you ever want to entertain yourself, you just start looking at ICD 10 codes. ‘Fall from a spacecraft’ is one. And so it would make perfect sense that there would be an ICD-10 code for climate change illness.” Being able to track these additional, systemic determinants of health could make it easier to prove the links, and do something about them.

Having more data doesn’t always mean making change—the impact that race and income have on health have been well proven for years, but still haven’t adequately been addressed. And Ray says that adding these codes shouldn’t stop with climate. “If you live in a poor area, then you are likely living with more environmental impacts. Are we going to start now having a code for low income? Is there going to be a code for: You don’t have enough money to live in a safe home and so you are experiencing environmental toxins? Is improper housing also going to be coded? So I just wonder how far we are willing to take it.”

This might be the silver lining in the story of Merritt’s patient. When we spoke, he told me he had recently gotten an email from Health Canada, asking to talk to him about creating a diagnostic code for climate change that doctors could use to track these impacts.

Writing “climate change” in one patient’s chart isn’t going to save the world, or even a single life—Merritt is the first to admit that—but it can start a conversation about how much the medical system is willing to adapt to the threats that its patients truly face. “I’ve learned a lot about how big of an impact a story can make,” he says.

Becoming a centaur (Aeon)

Rounding up wild horses on the edge of the Gobi desert in Mongolia, 1964. Photo by Philip Jones Griffiths/Magnum
The horse is a prey animal, the human a predator. Our shared trust and athleticism is a neurobiological miracle

Janet Jones – 14 January 2022

Horse-and-human teams perform complex manoeuvres in competitions of all sorts. Together, we can gallop up to obstacles standing 8 feet (2.4 metres) high, leave the ground, and fly blind – neither party able to see over the top until after the leap has been initiated. Adopting a flatter trajectory with greater speed, horse and human sail over broad jumps up to 27 feet (more than 8 metres) long. We run as one at speeds of 44 miles per hour (nearly 70 km/h), the fastest velocity any land mammal carrying a rider can achieve. In freestyle dressage events, we dance in place to the rhythm of music, trot sideways across the centre of an arena with huge leg-crossing steps, and canter in pirouettes with the horse’s front feet circling her hindquarters. Galloping again, the best horse-and-human teams can slide 65 feet (nearly 20 metres) to a halt while resting all their combined weight on the horse’s hind legs. Endurance races over extremely rugged terrain test horses and riders in journeys that traverse up to 500 miles (805 km) of high-risk adventure.

Charlotte Dujardin on Valegro, a world-record dressage freestyle at London Olympia, 2014: an example of high-precision brain-to-brain communication between horse and rider. Every step the horse takes is determined in conjunction with many invisible cues from his human rider, using a feedback loop between predator brain and prey brain. Note the horse’s beautiful physical condition and complete willingness to perform these extremely difficult manoeuvres.

No one disputes the athleticism fuelling these triumphs, but few people comprehend the mutual cross-species interaction that is required to accomplish them. The average horse weighs 1,200 pounds (more than 540 kg), makes instantaneous movements, and can become hysterical in a heartbeat. Even the strongest human is unable to force a horse to do anything she doesn’t want to do. Nor do good riders allow the use of force in training our magnificent animals. Instead, we hold ourselves to the higher standard of motivating horses to cooperate freely with us in achieving the goals of elite sports as well as mundane chores. Under these conditions, the horse trained with kindness, expertise and encouragement is a willing, equal participant in the action.

That action is rooted in embodied perception and the brain. In mounted teams, horses, with prey brains, and humans, with predator brains, share largely invisible signals via mutual body language. These signals are received and transmitted through peripheral nerves leading to each party’s spinal cord. Upon arrival in each brain, they are interpreted, and a learned response is generated. It, too, is transmitted through the spinal cord and nerves. This collaborative neural action forms a feedback loop, allowing communication from brain to brain in real time. Such conversations allow horse and human to achieve their immediate goals in athletic performance and everyday life. In a very real sense, each species’ mind is extended beyond its own skin into the mind of another, with physical interaction becoming a kind of neural dance.

Horses in nature display certain behaviours that tempt observers to wonder whether competitive manoeuvres truly require mutual communication with human riders. For example, the feral horse occasionally hops over a stream to reach good food or scrambles up a slope of granite to escape predators. These manoeuvres might be thought the precursors to jumping or rugged trail riding. If so, we might imagine that the performance horse’s extreme athletic feats are innate, with the rider merely a passenger steering from above. If that were the case, little requirement would exist for real-time communication between horse and human brains.

In fact, though, the feral hop is nothing like the trained leap over a competition jump, usually commenced from short distances at high speed. Today’s Grand Prix jump course comprises about 15 obstacles set at sharp angles to each other, each more than 5 feet high and more than 6 feet wide (1.5 x 1.8 metres). The horse-and-human team must complete this course in 80 or 90 seconds, a time allowance that makes for acute turns, diagonal flight paths and high-speed exits. Comparing the wilderness hop with the show jump is like associating a flintstone with a nuclear bomb. Horses and riders undergo many years of daily training to achieve this level of performance, and their brains share neural impulses throughout each experience.

These examples originate in elite levels of horse sport, but the same sort of interaction occurs in pastures, arenas and on simple trails all over the world. Any horse-and-human team can develop deep bonds of mutual trust, and learn to communicate using body language, knowledge and empathy.

Like it or not, we are the horse’s evolutionary enemy, yet they behave toward us as if inclined to become a friend

The critical component of the horse in nature, and her ability to learn how to interact so precisely with a human rider, is not her physical athleticism but her brain. The first precise magnetic resonance image of a horse’s brain appeared only in 2019, allowing veterinary neurologists far greater insight into the anatomy underlying equine mental function. As this new information is disseminated to horse trainers and riders for practical application, we see the beginnings of a revolution in brain-based horsemanship. Not only will this revolution drive competition to higher summits of success, and animal welfare to more humane levels of understanding, it will also motivate scientists to research the unique compatibility between prey and predator brains. Nowhere else in nature do we see such intense and intimate collaboration between two such disparate minds.

Three natural features of the equine brain are especially important when it comes to mind-melding with humans. First, the horse’s brain provides astounding touch detection. Receptor cells in the horse’s skin and muscles transduce – or convert – external pressure, temperature and body position to neural impulses that the horse’s brain can understand. They accomplish this with exquisite sensitivity: the average horse can detect less pressure against her skin than even a human fingertip can.

Second, horses in nature use body language as a primary medium of daily communication with each other. An alpha mare has only to flick an ear toward a subordinate to get him to move away from her food. A younger subordinate, untutored in the ear flick, receives stronger body language – two flattened ears and a bite that draws blood. The notion of animals in nature as kind, gentle creatures who never hurt each other is a myth.

Third, by nature, the equine brain is a learning machine. Untrammelled by the social and cognitive baggage that human brains carry, horses learn in a rapid, pure form that allows them to be taught the meanings of various human cues that shape equine behaviour in the moment. Taken together, the horse’s exceptional touch sensitivity, natural reliance on body language, and purity of learning form the tripod of support for brain-to-brain communication that is so critical in extreme performance.

One of the reasons for budding scientific fascination with neural horse-and-human communication is the horse’s status as a prey animal. Their brains and bodies evolved to survive completely different pressures than our human physiologies. For example, horse eyes are set on either side of their head for a panoramic view of the world, and their horizontal pupils allow clear sight along the horizon but fuzzy vision above and below. Their eyes rotate to maintain clarity along the horizon when their heads lie sideways to reach grass in odd locations. Equine brains are also hardwired to stream commands directly from the perception of environmental danger to the motor cortex where instant evasion is carried out. All of these features evolved to allow the horse to survive predators.

Conversely, human brains evolved in part for the purpose of predation – hunting, chasing, planning… yes, even killing – with front-facing eyes, superb depth perception, and a prefrontal cortex for strategy and reason. Like it or not, we are the horse’s evolutionary enemy, yet they behave toward us as if inclined to become a friend.

The fact that horses and humans can communicate neurally without the external mediation of language or equipment is critical to our ability to initiate the cellular dance between brains. Saddles and bridles are used for comfort and safety, but bareback and bridleless competitions prove they aren’t necessary for highly trained brain-to-brain communication. Scientific efforts to communicate with predators such as dogs and apes have often been hobbled by the use of artificial media including human speech, sign language or symbolic lexigram. By contrast, horses allow us to apply a medium of communication that is completely natural to their lives in the wild and in captivity.

The horse’s prey brain is designed to notice and evade predators. How ironic, and how riveting, then, that this prey brain is the only one today that shares neural communication with a predator brain. It offers humanity a rare view into a prey animal’s world, almost as if we were wolves riding elk or coyotes mind-melding with cottontail bunnies.

Highly trained horses and riders send and receive neural signals using subtle body language. For example, a rider can apply invisible pressure with her left inner calf muscle to move the horse laterally to the right. That pressure is felt on the horse’s side, in his skin and muscle, via proprioceptive receptor cells that detect body position and movement. Then the signal is transduced from mechanical pressure to electrochemical impulse, and conducted up peripheral nerves to the horse’s spinal cord. Finally, it reaches the somatosensory cortex, the region of the brain responsible for interpreting sensory information.

Riders can sometimes guess that an invisible object exists by detecting subtle equine reactions

This interpretation is dependent on the horse’s knowledge that a particular body signal – for example, inward pressure from a rider’s left calf – is associated with a specific equine behaviour. Horse trainers spend years teaching their mounts these associations. In the present example, the horse has learned that this particular amount of pressure, at this speed and location, under these circumstances, means ‘move sideways to the right’. If the horse is properly trained, his motor cortex causes exactly that movement to occur.

By means of our human motion and position sensors, the rider’s brain now senses that the horse has changed his path rightward. Depending on the manoeuvre our rider plans to complete, she will then execute invisible cues to extend or collect the horse’s stride as he approaches a jump that is now centred in his vision, plant his right hind leg and spin in a tight fast circle, push hard off his hindquarters to chase a cow, or any number of other movements. These cues are combined to form that mutual neural dance, occurring in real time, and dependent on natural body language alone.

The example of a horse moving a few steps rightward off the rider’s left leg is extremely simplistic. When you imagine a horse and rider clearing a puissance wall of 7.5 feet (2.4 metres), think of the countless receptor cells transmitting bodily cues between both brains during approach, flight and exit. That is mutual brain-to-brain communication. Horse and human converse via body language to such an extreme degree that they are able to accomplish amazing acts of understanding and athleticism. Each of their minds has extended into the other’s, sending and receiving signals as if one united brain were controlling both bodies.

Franke Sloothaak on Optiebeurs Golo, a world-record puissance jump at Chaudfontaine in Belgium, 1991. This horse-and-human team displays the gentle encouragement that brain-to-brain communication requires. The horse is in perfect condition and health. The rider offers soft, light hands, and rides in perfect balance with the horse. He carries no whip, never uses his spurs, and employs the gentlest type of bit – whose full acceptance is evidenced by the horse’s foamy mouth and flexible neck. The horse is calm but attentive before and after the leap, showing complete willingness to approach the wall without a whiff of coercion. The first thing the rider does upon landing is pat his equine teammate. He strokes or pats the horse another eight times in the next 30 seconds, a splendid example of true horsemanship.

Analysis of brain-to-brain communication between horses and humans elicits several new ideas worthy of scientific notice. Because our minds interact so well using neural networks, horses and humans might learn to borrow neural signals from the party whose brain offers the highest function. For example, horses have a 340-degree range of view when holding their heads still, compared with a paltry 90-degree range in humans. Therefore, horses can see many objects that are invisible to their riders. Yet riders can sometimes guess that an invisible object exists by detecting subtle equine reactions.

Specifically, neural signals from the horse’s eyes carry the shape of an object to his brain. Those signals are transferred to the rider’s brain by a well-established route: equine receptor cells in the retina lead to equine detector cells in the visual cortex, which elicits an equine motor reaction that is then sensed by the rider’s human body. From there, the horse’s neural signals are transmitted up the rider’s spinal cord to the rider’s brain, and a perceptual communication loop is born. The rider’s brain can now respond neurally to something it is incapable of seeing, by borrowing the horse’s superior range of vision.

These brain-to-brain transfers are mutual, so the learning equine brain should also be able to borrow the rider’s vision, with its superior depth perception and focal acuity. This kind of neural interaction results in a horse-and-human team that can sense far more together than either party can detect alone. In effect, they share effort by assigning labour to the party whose skills are superior at a given task.

There is another type of skillset that requires a particularly nuanced cellular dance: sharing attention and focus. Equine vigilance allowed horses to survive 56 million years of evolution – they had to notice slight movements in tall grasses or risk becoming some predator’s dinner. Consequently, today it’s difficult to slip even a tiny change past a horse, especially a young or inexperienced animal who has not yet been taught to ignore certain sights, sounds and smells.

By contrast, humans are much better at concentration than vigilance. The predator brain does not need to notice and react instantly to every stimulus in the environment. In fact, it would be hampered by prey vigilance. While reading this essay, your brain sorts away the sound of traffic past your window, the touch of clothing against your skin, the sight of the masthead that says ‘Aeon’ at the top of this page. Ignoring these distractions allows you to focus on the content of this essay.

Horses and humans frequently share their respective attentional capacities during a performance. A puissance horse galloping toward an enormous wall cannot waste vigilance by noticing the faces of each person in the audience. Likewise, the rider cannot afford to miss a loose dog that runs into the arena outside her narrow range of vision and focus. Each party helps the other through their primary strengths.

Such sharing becomes automatic with practice. With innumerable neural contacts over time, the human brain learns to heed signals sent by the equine brain that say, in effect: ‘Hey, what’s that over there?’ Likewise, the equine brain learns to sense human neural signals that counter: ‘Let’s focus on this gigantic wall right here.’ Each party sends these messages by body language and receives them by body awareness through two spinal cords, then interprets them inside two brains, millisecond by millisecond.

The rider’s physical cues are transmitted by neural activation from the horse’s surface receptors to the horse’s brain

Finally, it is conceivable that horse and rider can learn to share features of executive function – the human brain’s ability to set goals, plan steps to achieve them, assess alternatives, make decisions and evaluate outcomes. Executive function occurs in the prefrontal cortex, an area that does not exist in the equine brain. Horses are excellent at learning, remembering and communicating – but they do not assess, decide, evaluate or judge as humans do.

Shying is a prominent equine behaviour that might be mediated by human executive function in well-trained mounts. When a horse of average size shies away from an unexpected stimulus, riders are sitting on top of 1,200 pounds of muscle that suddenly leaps sideways off all four feet and lands five yards away. It’s a frightening experience, and often results in falls that lead to injury or even death. The horse’s brain causes this reaction automatically by direct connection between his sensory and motor cortices.

Though this possibility must still be studied by rigorous science, brain-to-brain communication suggests that horses might learn to borrow small glimmers of executive function through neural interaction with the human’s prefrontal cortex. Suppose that a horse shies from an umbrella that suddenly opens. By breathing steadily, relaxing her muscles, and flexing her body in rhythm with the horse’s gait, the rider calms the animal using body language. Her physical cues are transmitted by neural activation from his surface receptors to his brain. He responds with body language in which his muscles relax, his head lowers, and his frightened eyes return to their normal size. The rider feels these changes with her body, which transmits the horse’s neural signals to the rider’s brain.

From this point, it’s only a very short step – but an important one – to the transmission and reception of neural signals between the rider’s prefrontal cortex (which evaluates the unexpected umbrella) and the horse’s brain (which instigates the leap away from that umbrella). In practice, to reduce shying, horse trainers teach their young charges to slow their reactions and seek human guidance.

Brain-to-brain communication between horses and riders is an intricate neural dance. These two species, one prey and one predator, are living temporarily in each other’s brains, sharing neural information back and forth in real time without linguistic or mechanical mediation. It is a partnership like no other. Together, a horse-and-human team experiences a richer perceptual and attentional understanding of the world than either member can achieve alone. And, ironically, this extended interspecies mind operates well not because the two brains are similar to each other, but because they are so different.

Janet Jones applies brain research to training horses and riders. She has a PhD from the University of California, Los Angeles, and for 23 years taught the neuroscience of perception, language, memory, and thought. She trained horses at a large stable early in her career, and later ran a successful horse-training business of her own. Her most recent book, Horse Brain, Human Brain (2020), is currently being translated into seven languages.

Edited by Pam Weintraub

Mauro Calliari: O que seria da filosofia e da literatura sem o caminhar? (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Em tempos de metaverso, botar um pé depois do outro pode ser uma chance de se reconectar com o mundo real

14.jan.2022 às 8h04 5-7 minutes


Nietszche caminhava compulsivamente. Rousseau, que cruzou os Alpes a pé, dizia que seu escritório eram suas trilhas. Thoreau percorria sem cessar as terras ao redor do lago Walden, onde se exilou do mundo por dois anos, exercitando a relação com a natureza que moldou sua filosofia de vida.

O caminhar parece estar na raiz da inspiração de pensadores. Se andar a pé é um dos atos mais naturais da humanidade, a relação entre o fluxo do pensamento e o caminhar é menos óbvia. Um dos livros mais bonitos sobre essa relação é “Caminhar, uma filosofia”, do professor de filosofia francês Frédéric Gros, que ganhou nova tradução e foi relançado pela Editora Ubu. O livro esmiúça e expande as perambulações de um punhado de filósofos e escritores para quem o andar era parte do processo criativo, seja como inspiração, seja como catalisador de suas reflexões.

Desde que o li pela primeira vez há alguns anos, “Caminhar…” parece abrir novas janelas mentais a cada visita. Mais que narrar a relação entre o pensamento e o caminhar, Gros nos leva a refletir sobre as tantas formas do andar, do peregrino medieval aos poetas ingleses, dos grandes montanhistas aos andarilhos solitários, passando até pelas marchas políticas de Gandhi, que sensibilizaram a Índia contra a insensatez do imperialismo inglês. Cada caminhante encontra seu ritmo e seu propósito.

Em “Merlí”, série catalã que fez sucesso no Brasil, o professor de filosofia batizou sua classe de “peripatéticos”, numa alusão ao método dos filósofos gregos, que supostamente caminhavam enquanto ensinavam seus pupilos. Talvez a imagem seja uma caricatura. Gros sugere que a palavra pode ter mais relação com um lugar no liceu de Aristóteles –o peripatos– do que propriamente com um método de ensino.

Kant era um caso à parte. O filósofo alemão se apoiava na previsibilidade da rotina para produzir. Os habitantes de Konigsberg se divertiam ao vê-lo todos os dias andando no mesmo horário, pelo mesmo caminho, depois de lecionar, comer com os amigos e tirar uma pequena sesta. A conclusão de Gros é que o monumento da obra de Kant foi, justamente, construído assim, dia a dia, metódica e concentradamente, um passo de cada vez.

Baudelaire não poderia estar de fora. O mais incensado de todos os flâneurs aparece como um revolucionário, desafiando com seu andar e sua poesia o consumismo e o utilitarismo, os valores do nascente mundo moderno. Em outro livro memorável, “Tudo que é sólido desmancha no ar”, Marhsall Bermann reposiciona Baudelaire, na verdade, como um dos pioneiros da modernidade. Em meio à transformação de Paris, com seus bulevares abrindo caminho por entre o tecido medieval, Baudelaire é o poeta que abraça a mudança que o ameaça –e ainda se delicia com o “banho de multidão”. Isso sim é ser moderno.

As mulheres têm espaço nesse caminhar, como Jane Austen, ela mesma uma caminhante concentrada, que fazia suas personagens andarem quilômetros pelos moors encharcados. Mas é Virginia Woolf quem tem um dos textos mais expressivos sobre a delícia de andar. Em seu livro “Mrs. Dalloway”, a personagem sai de casa para comprar flores e descobre o prazer de mergulhar na cidade –ali “estava tudo que ela amava. Londres, a vida, este momento de junho”. Difícil ser mais eloquente sobre a emoção sensorial do caminhar.

O livro não menciona nenhum brasileiro, mas a crônica brasileira talvez não existisse sem o caminhar. João do Rio foi um dos nossos mais icônicos caminhantes-cronistas, no comecinho do século 20, conjecturando sobre as mudanças urbanas na recém-inaugurada av. Central (depois av. Rio Branco) mas também sobre rinhas de galo, terreiros, conversas nos bondes, prostitutas, o cais e tudo o que fazia do Rio o grande cenário da urbanidade brasileira. Vale a pena ler o livrinho “A Rua”, das Edições Barbatana, em que o dândi carioca entoa uma verdadeira ode à vida urbana, que tem o que é possivelmente uma das melhores aberturas de um texto: “Eu amo a rua”.

Inspirado pelos filósofos que lidam com as grandes questões da vida, do amor e da morte, enquanto caminham, me peguei pensando nas nossas vidas cotidianas, nos milhões de pessoas que saem de suas casas, andando para ir à escola, para pegar o ônibus, para ir trabalhar todos os dias.

Será que nesses trajetos diários temos tempo de nos abrir para as surpresas da cidade e filosofar um pouquinho que seja? Acho que sim. Nossas ruas não são os bulevares parisienses e nem estamos flanando sem objetivo, mas acho que é possível reservar uns minutos a mais em alguns percursos para poder explorar a cidade durante um dia normal. Quem sabe a pequena caminhada de volta a casa possa gerar uma surpresa feliz, um pensamento transformador ou pelo menos, à maneira de Baudelaire, o prazer de estar vivo enquanto nos perdemos no meio do burburinho da cidade e da multidão?

Máximas passam de 40°C no RS em meio a onda de calor extremo (Folha de S.Paulo)

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Fernanda Canofre – 13 de janeiro de 2022


A onda de calor em meio a estiagem no Rio Grande do Sul tem levado os termômetros do estado a máximas acima dos 40°C desde a quarta-feira (12), segundo registros de estações do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia).

Em Quaraí, na fronteira com o Uruguai, temperatura máxima registrada foi de 41,5°C na quarta, segundo registro do instituto, a maior do estado em 2022 até o momento. Esta é também a maior temperatura já registrada na estação automática, desde que a mesma foi instalada, em 2007.

Nesta quinta-feira (13), o município voltou a registrar máxima acima de 40°C, chegando a 41,2°C. Em Uruguaiana, na região da Fronteira Oeste, onde a temperatura chegou a 41,1°C no dia anterior, a máxima foi de 41°C nesta quinta. Em Porto Alegre, ela chegou a 34,8°C.

A previsão no Rio Grande do Sul é de temperaturas ainda mais elevadas nos próximos dias, que podem levar a registros recordes.

O calor extremo é resultado de um bloqueio atmosférico, sistema de alta pressão —instalado na região que pega parte da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil— que mantém o ar seco há vários dias consecutivos e impede a entrada de frentes frias, explica Daniela Freitas, meteorologista da empresa Climatempo.

“Funciona como se fosse uma tampa que impede que as frentes frias ou mesmo sistemas de baixa pressão consigam avançar. Como se fosse uma barreira. A gente sabe que para ter esse refresco na temperatura precisa ter chuva. O que está acontecendo é que estamos com ar muito seco instalado naquela região há vários dias, por isso vem ganhando força e a temperatura está subindo”, diz ela.

Depois do fim de semana, porém, a previsão é que haja uma quebra nesse padrão de bloqueio, trazendo assim chuvas a região já na próxima semana e fazendo com que o calor perca força.

Estael Sias, meteorologista da empresa MetSul, lembra que a temperatura mais alta registrada no estado em mais de cem anos de medições foi de 42,6°C. A marca foi registrada em Jaguarão, na fronteira com o Uruguai, em janeiro de 1943.

Termômetros batendo nos 40°C não são comuns no Rio Grande do Sul —a análise leva em consideração números das estações oficiais do Inmet.

“A gente está dentro de um período de estiagem severa no Rio Grande do Sul, longo, de baixa umidade no solo, na atmosfera, nível dos rios muito baixos, é normal ocorrer picos de calor, justamente pelo tempo mais firme, ainda mais no período de verão, em que temos muitas horas de luminosidade”, explica.

“Tudo isso favorece essas ondas de calor extremo. Pelos dados históricos, os anos mais quentes no RS, com temperaturas mais altas, 1917 e 1943, também tiveram estiagem severa”, completa.

Um cálculo da FecoAgro-RS (Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul) aponta que as perdas financeiras aos produtores de milho e soja, devido à falta de chuvas, podem passar de R$ 19 bilhões.

Até o dia 7 de janeiro, 195 mil propriedades rurais já haviam sido atingidas com perdas devido à seca, segundo dados da Emater-RS. O levantamento aponta ainda 10,2 mil famílias sem acesso à água, 84,7 mil produtores de milho atingidos e 72 mil produtores de soja, além da queda de 1,6 milhão de litros de leite captados ao dia no estado.

Em Santa Catarina, o Epagri/Ciram emitiu aviso de forte calor no extremo oeste e oeste do estado, válido entre o meio-dia desta quinta e às 18h de sábado. A previsão fala em forte calor, com máximas acima de 35°C e umidade relativa do ar entre 30% e 40%.

Até esta quarta-feira, a máxima diária do estado em 2022 foi de 38,2°C, alcançada no dia 2 de janeiro, na cidade de Urussanga.

O recorde absoluto de máximas na região sul do país foi registrado em Santa Catarina, com a marca de 44,6°C registrada em Orleans, em 1963, segundo dados do Inmet.

Em meio ao calor extremo na região, áreas altas do estado, como São Joaquim, que costuma registrar as temperaturas mais baixas do país, chegaram a amanhecer com geada na última quarta-feira, de acordo com a MetSul. O fenômeno se dá pela baixa umidade do ar.

Opinião – Sou Ciência: Onda pró-ciência barra o avanço do negacionismo no Brasil (Folha de S.Paulo)

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Sou Ciência – 14 de janeiro de 2021


Contra expectativas e previsões, mais uma vez o Brasil surpreende. A população brasileira vive nos últimos dois anos um boom de interesse por ciência, ocasionado pela pandemia e seus efeitos. Apesar de sermos uma sociedade desigual e apenas 5% da população ter curso superior concluído, a maioria apoia e quer conhecer mais a ciência. A eleição presidencial de 2018 foi combustível para a indústria de fake news e deu força a discursos que negam ou distorcem a realidade e as evidências científicas e históricas. Naquele momento, parecia que entraríamos fundo em uma fase de obscurantismo.

Mas a história deu sua volta, diante da tragédia imposta pela gestão do governo federal diante do coronavírus, a mobilização foi em sentido contrário. A sociedade brasileira, majoritariamente, reagiu ao negacionismo, impulsionada pela necessidade de lutar contra a pandemia, procurar informação confiável e defender a vida. Com o auxílio de cientistas, mídia e movimentos pela vida, vimos aumentar o interesse sobre ciência, universidades e institutos que produzem conhecimento.

Foi neste contexto que instituímos o SoU_Ciência. Um centro que congrega pesquisadores e cujas atividades estão voltadas para dialogar com a sociedade sobre a política científica e de educação superior, em especial sobre o que fazem as universidades públicas, que no Brasil são responsáveis por mais de 90% da produção de conhecimento e abrigam 8 entre 10 pesquisadores em nosso país. Em curto período de atuação, fizemos levantamentos de opinião pública, em parceria com o instituto Ideia Big Data, além de análises das mídias sociais, grupos focais e notícias. Descobrimos que o Brasil tem 94,5% da população a favor da vacinação contra Covid-19, e que a campanha antivacina liderada pelo próprio Presidente, tem apoio de apenas 5,5%. O que faz o nosso país ser diferente de países da Europa e dos EUA, onde os movimentos anti-vaxsão muito maiores, ainda podemos estudar. Certamente, a tradição em vacinações obtida pelo Plano Nacional de Imunizações (PNI), além do Sistema Único de Saúde (SUS), são fatores determinantes.

Em nossos levantamentos de opinião pública, 72% da população afirmou que seu interesse pela ciência aumentou com a pandemia. Isso fez 69,7% dos entrevistados declarar ter “muito interesse pela ciência” e apenas 2,2%, “nenhum interesse”. Entre evangélicos e os que consideram o governo ótimo/bom, o elevado interesse pela ciência também é expressivo: 63% e 62% respectivamente. Além disso, 32,1% da população declarou ter o hábito de pesquisar em sites, blogse canais das universidades e institutos de pesquisa na procura de informações confiáveis e, surpreendentemente, 40% gostariam de ler artigos científicos. Comparativamente, apenas 8,8% afirmam confiar no que o Bolsonaro fala sobre a pandemia, num claro distanciamento da população em relação ao presidente eleito em 2018.

A procura por informação confiável na pandemia levou a um fortalecimento do ecossistema que envolve universidades, instituições de pesquisa e cientistas na sua capacidade de comunicação e divulgação científica, com um ampliado espaço na mídia. Dois fenômenos merecem destaque. Em primeiro lugar, a competência que cientistas tiveram para se comunicar e alertar sobre o novo coronavírus e seus efeitos, utilizando redes sociais como o Twitter, e canais do YouTube, como monitorou o Science Pulseda Núcleo e IBPAD com apoio da Fundação Serrapilheira. Adicionalmente, muitos cientistas passaram a falar para a grande mídia, que por sua vez ampliou suas sessões de ciência e saúde e deu espaços para novos colunistas na área. Tem havido rápido aprendizado e maior mobilização de cientistas para utilizar os diferentes meios de comunicação.

O segundo fenômeno decorre do grande interesse da mídia e grande parte da população sobre os estudos clínicos das diversas vacinas que estavam sendo desenvolvidas em tempo recorde. Os estudos geraram grande audiência e expectativa. As universidades públicas, como a USP e a Unifesp, atuaram na coordenação dos estudos das duas primeiras vacinas licenciadas no País, ganharam enorme destaque. O Instituto Butantan e a Fiocruz, além das pesquisas, se tornaram mais conhecidos pelas pesquisas e produção dos imunizantes.

Diante de todos estes elementos, nos parece que, 120 anos depois da Revolta da Vacina, a revolta agora ocorre contra um governo que se recusou a comprar vacinas para sua população e propôs falsas alternativas, como apontou a CPI da Pandemia. A revolta em 2021, dado o enorme contingente a favor da vacina e em defesa da ciência, direcionou-se contra o governo federal e faz derreter a popularidade do presidente, passando a aprovação (ótimo/bom) de 37%, em dezembro de 2020, para 22% em dezembro de 2021, segundo o Datafolha; enquanto a rejeição (ruim/péssimo) passou de 32% para 53% no mesmo período. Dentre os fatores dessa virada de popularidade no “ano da vacina” esteve o contínuo embate presidencial contra a ciência, a partir da negação dos benefícios da vacina e da distorção nos dados. Isto vem ocorrendo de maneira renovada agora, na batalha da vacinação infantil e na fraca reação contra a variante Ômicron. Sem dúvida, em 2021 a maior oposição a Bolsonaro veio pela conscientização por meio da ciência e da aproximação dos cientistas junto à sociedade, mídia e redes sociais.

Tentando reagir nesse embate, o governo federal escalou alguns médicos e outros apoiadores para fazer o contraponto e distorcer dados científicos, criando novas interpretações fantasiosas. E atuou e segue atuando para o desmanche acelerado do sistema de ciência e pesquisa no Brasil, com ataques ao CNPq, CAPES e Finep, e cortes brutais de orçamento, cuja dimensão e impacto discutiremos noutros artigos deste blog. Ataques estes que não se reproduziram na opinião pública, já que levantamento do SoU_Ciência mostrou que somente 9% da população apoiam os cortes impostos.

Temos pela frente um grande desafio: consolidar a onda pró-ciência, para além da pandemia, e para tanto é necessária a recuperação do sistema nacional de ciência e pesquisa, com a recomposição efetiva de seu financiamento. Estamos diante da oportunidade de alcançarmos um novo patamar na relação sociedade-ciência com a formulação de políticas públicas baseadas em evidências científicas. Para isso, buscamos um “letramento científico” que colabore no combate às fake news e amplie a capacidade da população em tomar decisões racionais e fundamentadas. Os sinais são de esperança, mas nos pedem atenção e muito trabalho. A criação do Centro SoU_Ciência que terá neste blog uma voz, faz parte desse momento e pretende colaborar para fortalecer as conexões com a sociedade, na defesa da democracia, e na garantia de direitos para um novo momento da história de nosso país.

Soraya Smaili, farmacologista, professora titular da Escola Paulista de Medicina, Reitora da Unifesp (2013-2021). Atualmente é Coordenadora Adjunta do Centro de Saúde Global e Coordenadora Geral do SoU_Ciência;

Maria Angélica Minhoto, pedagoga e economista, professora da EFLCH-Unifesp, Pró- Reitora de Graduação (2013-2017) e Coordenadora Adjunta do SoU_Ciência;

Pedro Arantes, arquiteto e urbanista, professor da EFLCH-Unifesp, Pró-Reitor de Planejamento (2017-2021) e Coordenador Adjunto do SoU_Ciência.

Painel S.A.: Influenciadora que fez vídeo do Bradesco para reduzir carne diz ter ficado frustrada com banco (Folha de S.Paulo)

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Grupo de três irmãs Verdes Marias afirma que conteúdo foi aprovado pela empresa

14.jan.2022 às 8h04 3-4 minutes


As influenciadoras que produziram o vídeo do Bradesco sugerindo redução no consumo de carne dizem que ficaram frustradas com a decisão do banco de remover o conteúdo da internet.

O material, divulgado nas redes sociais no mês passado para promover um aplicativo do banco que calcula pegadas de carbono, foi tirado do ar após irritar o agronegócio e levou o presidente do Bradesco a se retratar.

“Ficamos frustradas”, diz Mariana Prado Moraes, influenciadora que participou do vídeo. Para ela, os churrascos em frente às agências como forma de protesto ajudaram a manter o tema na pauta.

“Foi uma reação de ódio para o convite feito pela segunda-feira sem carne, mostrando como o tema incomoda alguns grupos, mas as mudanças climáticas precisam ser discutidas, independentemente do incômodo gerado”, diz Moraes, que representa o grupo de três irmãs Verdes Marias.

O trio, que tem cerca de 28 mil seguidores no Instagram, publica conteúdos nas redes socias para incentivar a vida sustentável por meio de pequenas mudanças no dia a dia, como reciclagem, consumo de alimentos orgânicos e uso de absorventes e fraldas de pano.

Moraes diz que a sugestão de citar a segunda-feira sem carne no vídeo partiu delas, mas o roteiro e a versão final foram validados e aprovados previamente pelo Bradesco.

“O tema da mudança de hábito em relação à alimentação precisa ser colocado na pauta, e isso aconteceu com o vídeo. O IPCC [Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas] deixou claro em seu último relatório que o clima da Terra está mudando e que o ser humano tem interferência nisso. Entre as ações trazidas, o impacto da pecuária é um deles”, diz.

Ela afirma que o Verdes Marias permanece em diálogo com o Bradesco. Mas, ainda em dezembro, o banco escreveu uma carta aberta ao agronegócio, em que tentou se desvincular do conteúdo. No documento, afirmou que tomaria ações administrativas internas por causa do ocorrido.

O Bradesco não comenta.

com Andressa Motter e Ana Paula Branco


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Bradesco se desculpa com agro por vídeo que defende reduzir consumo de carne

Influenciadoras associam produção pecuária a aplicativo que calcula pegada de carbono

Douglas Gavras – 29 de dezembro de2021


Um vídeo sobre consumo sustentável que circulou nas redes sociais na última semana levou o Bradesco a escrever uma carta aberta, se retratando com o agronegócio. No material, um aplicativo oferecido pelo banco —que permite que o cliente calcule sua pegada de carbono— é associado à redução do consumo de carne.

Ele começa com três influenciadoras dando dicas de como o consumidor pode tomar atitudes mais sustentáveis. “Duas atitudes simples que você pode tomar no seu dia a dia para reduzir o seu impacto”, diz uma delas.

Elas, então, dizem que a primeira atitude que o consumidor poderia tomar é reduzir o consumo de carne, optando por pratos vegetarianos uma vez por semana —movimento que ficou conhecido como “Segunda sem Carne”.

“A criação de gado contribui para a emissão dos gases de efeito estufa, então, que tal se a gente reduzir o nosso consumo de carne e escolher um prato vegetariano na segunda-feira?”

O vídeo segue sugerindo que o consumidor também pode começar a usar composteira para o lixo doméstico e que o usuário calcule a quantidade emitida de carbono e use a informação para pensar em outras maneiras de compensar suas emissões.

O vídeo despertou críticas de entidades e políticos ligados ao agronegócio ao longo da última semana. Em nota, o Imac (Instituto Mato-Grossense da Carne) criticou o material, dizendo que a pecuária brasileira, no contexto mundial, é a menos impactante na produção de carbono.

“No Brasil, a nossa pecuária é realizada de forma natural, utilizando-se da pastagem como o principal insumo alimentar (…) e os modelos de produção utilizam pastagens produtivas para a criação de bovinos contribuem positivamente para o balanço de carbono, sequestrando as emissões desse gás que a produção pecuária emite.”

Segundo a entidade, não é aceitável associar a responsabilidade integral pela emissão de gases de efeito estufa com a pecuária e a sugestão de se reduzir o consumo de carne bovina no Brasil não faz sentido.

Já a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal) avalia que a carta pública divulgada pelo Bradesco foi importante, ao reconhecer a importância do agronegócio para o país. “Entretanto, o setor espera manifestações mais explícitas deste apoio, com alcance, no mínimo, equivalente à divulgação que gerou esta situação revoltante a que produz alimentos.”

A associação ressalta a importância que o setor tem em gerar segurança alimentar, empregos e segurança econômica para centenas de milhares de famílias.

Por meio de seu perfil no Twitter, o deputado federal José Medeiros (Pode-MT) também criticou a peça. “É isso mesmo @Bradesco? Vocês não pensaram em consultar Embrapa ou alguma instituição séria para saber se o pasto captura carbono na atmosfera e compensa os gases da pecuária?”, questionou.

No último dia 24, o Bradesco publicou uma carta aberta ao agronegócio, em que procurou se desvincular do conteúdo. O banco determinou a remoção do material de suas redes, disse que apoia o setor de “forma plena” e afirmou que tomaria ações administrativas internas severas por conta do ocorrido.

“Nos últimos dias lamentavelmente vimos uma posição descabida de influenciadores digitais em relação ao consumo de carne bovina, associadas à nossa marca. Importante dizer que tal posição não representa a visão desta casa em relação ao consumo da carne bovina“, diz a carta do banco.

Ainda de acordo com o banco, a instituição acredita e promove “direta e indiretamente a pecuária brasileira e por conseguinte o consumo de carne bovina”. Ainda segundo o Bradesco, o material foi retirado do ar no último dia 23. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do Bradesco informou que seu posicionamento está detalhado na carta aberta ao agronegócio brasileiro. Veja abaixo. ​

A seguir, a íntegra da carta aberta divulgada pelo banco:

CARTA ABERTA AO AGRONEGÓCIO BRASILEIRO

Ao longo de seus quase 79 anos de história o Bradesco apoiou de forma plena o segmento do agronegócio brasileiro, estabelecendo parcerias sólidas e produtivas. Tal opção é baseada em sua crença indelével nesse segmento enquanto vetor de desenvolvimento social e econômico do país.

Contudo, nos últimos dias lamentavelmente vimos uma posição descabida de influenciadores digitais em relação ao consumo de carne bovina, associadas à nossa marca.

Importante dizer que tal posição não representa a visão desta casa em relação ao consumo da carne bovina.

Pelo contrário.

O Bradesco acredita e promove direta e indiretamente a pecuária brasileira e por conseguinte o consumo de carne bovina.

Diante do ocorrido, medidas foram imediatamente tomadas incluindo a remoção do conteúdo de ambiente público, e, além disso, ações administrativas internas severas.

Dessa forma, reiteramos nossa lamenta pelo ocorrido e reforçamos mais uma vez nossa crença irrestrita na pecuária brasileira.

Past eight years: Warmest since modern recordkeeping began (Science Daily)

2021 tied for sixth warmest year in continued trend, analysis shows

Date: January 13, 2022

Source: NASA

Summary: Earth’s global average surface temperature in 2021 tied with 2018 as the sixth warmest on record, according to independent analyses done by NASA and NOAA. Collectively, the past eight years are the warmest years since modern recordkeeping began in 1880.


Earth’s global average surface temperature in 2021 tied with 2018 as the sixth warmest on record, according to independent analyses done by NASA and the National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA).

Continuing the planet’s long-term warming trend, global temperatures in 2021 were 1.5 degrees Fahrenheit (0.85 degrees Celsius) above the average for NASA’s baseline period, according to scientists at NASA’s Goddard Institute for Space Studies (GISS) in New York. NASA uses the period from 1951-1980 as a baseline to see how global temperature changes over time.

Collectively, the past eight years are the warmest years since modern recordkeeping began in 1880. This annual temperature data makes up the global temperature record — which tells scientists the planet is warming.

According to NASA’s temperature record, Earth in 2021 was about 1.9 degrees Fahrenheit (or about 1.1 degrees Celsius) warmer than the late 19th century average, the start of the industrial revolution.

“Science leaves no room for doubt: Climate change is the existential threat of our time,” said NASA Administrator Bill Nelson. “Eight of the top 10 warmest years on our planet occurred in the last decade, an indisputable fact that underscores the need for bold action to safeguard the future of our country — and all of humanity. NASA’s scientific research about how Earth is changing and getting warmer will guide communities throughout the world, helping humanity confront climate and mitigate its devastating effects.”

This warming trend around the globe is due to human activities that have increased emissions of carbon dioxide and other greenhouse gases into the atmosphere. The planet is already seeing the effects of global warming: Arctic sea ice is declining, sea levels are rising, wildfires are becoming more severe and animal migration patterns are shifting. Understanding how the planet is changing — and how rapidly that change occurs — is crucial for humanity to prepare for and adapt to a warmer world.

Weather stations, ships, and ocean buoys around the globe record the temperature at Earth’s surface throughout the year. These ground-based measurements of surface temperature are validated with satellite data from the Atmospheric Infrared Sounder (AIRS) on NASA’s Aqua satellite. Scientists analyze these measurements using computer algorithms to deal with uncertainties in the data and quality control to calculate the global average surface temperature difference for every year. NASA compares that global mean temperature to its baseline period of 1951-1980. That baseline includes climate patterns and unusually hot or cold years due to other factors, ensuring that it encompasses natural variations in Earth’s temperature.

Many factors affect the average temperature any given year, such as La Nina and El Nino climate patterns in the tropical Pacific. For example, 2021 was a La Nina year and NASA scientists estimate that it may have cooled global temperatures by about 0.06 degrees Fahrenheit (0.03 degrees Celsius) from what the average would have been.

A separate, independent analysis by NOAA also concluded that the global surface temperature for 2021 was the sixth highest since record keeping began in 1880. NOAA scientists use much of the same raw temperature data in their analysis and have a different baseline period (1901-2000) and methodology.

“The complexity of the various analyses doesn’t matter because the signals are so strong,” said Gavin Schmidt, director of GISS, NASA’s leading center for climate modeling and climate change research. “The trends are all the same because the trends are so large.”

NASA’s full dataset of global surface temperatures for 2021, as well as details of how NASA scientists conducted the analysis, are publicly available from GISS (https://data.giss.nasa.gov/gistemp).

GISS is a NASA laboratory managed by the Earth Sciences Division of the agency’s Goddard Space Flight Center in Greenbelt, Maryland. The laboratory is affiliated with Columbia University’s Earth Institute and School of Engineering and Applied Science in New York.

For more information about NASA’s Earth science missions, visit:

https://www.nasa.gov/earth


NASA. “Past eight years: Warmest since modern recordkeeping began: 2021 tied for sixth warmest year in continued trend, analysis shows.” ScienceDaily. ScienceDaily, 13 January 2022. <www.sciencedaily.com/releases/2022/01/220113230132.htm>.

Rich nations could see ‘double climate dividend’ by switching to plant-based foods (Carbon Brief)

carbonbrief.org

Ayesha Tandon

10.01.2022 | 4:00pm


Adopting a more plant-based diet could give rich countries a “double climate dividend” of lower emissions and more land for capturing carbon, a new study says.

Animal-based foods have higher carbon and land footprints than their plant-based alternatives, and are most commonly consumed in high-income countries. The study, published in Nature Food, investigates how the global food system would change if 54 high-income countries were to shift to a more plant-based diet.

High-income countries could cut their agricultural emissions by almost two-thirds through dietary change, the authors find. They add that moving away from animal-based foods could free up an area of land larger than the entire European Union.

If this land were all allowed to revert to its natural state, it would capture almost 100bn tonnes of carbon – equal to 14 years of global agricultural emissions – the authors note. They add that this level of carbon capture “could potentially fulfil high-income countries’ CO2 removal obligations needed to limit warming to 1.5C under equality sharing principles”.

The US, France, Australia and Germany would collectively see roughly half of the total carbon benefits, the study notes, because meat and dairy production and consumption are high in these countries.

‘Double climate dividend’

Feeding the world’s population of almost eight billion people is no small task. The global food system is responsible for around one-third of all human-caused greenhouse gas emissions, and half of the planet’s habitable land is used to produce food.

However, not all calories have an equal impact on the planet. On average, animal-based foods produce 10-50 times more emissions than plant-based foods. Meanwhile, livestock takes up nearly 80% of global agricultural land, despite producing less than 20% of the world’s supply of calories.

Individuals in high-income nations currently have the greatest potential to reduce greenhouse gas emissions through their dietary choices, because their diets are usually the most meat-orientated. Animal-derived products drive 70% of food-system emissions in high-income countries but only 22% in low–middle-income countries.

(In 2019, Carbon Brief produced a week-long series of articles on food systems, including a discussion of the climate impacts of meat and dairy, and expert views on how changing diets are expected to affect the climate.)

The study explores how the carbon footprint of food production could change if 54 high-income countries were to adopt the EAT-Lancet planetary health diet. This is a mainly plant-based diet that is “flexible by providing guidelines to ranges of different food groups that together constitute an optimal diet for human health and environmental sustainability”. 

Dr Paul Behrens from Leiden University, an author on the paper, tells Carbon Brief that the diet varies between countries to account for their “local production and food cultures”.

The study investigates the immediate reduction in emissions from adopting the EAT-Lancet diet using a dataset from the 2010 Food and Agriculture Organization’s statistical Database, linked at the national level to the Food and Agriculture Biomass Input–Output dataset (FABIO).

The authors also determine how much land could be spared by a shift in diet. They use global crop and pasture maps – combined with soil carbon and vegetation maps – to quantify how much extra carbon could be drawn down by soil and vegetation if this surplus land were allowed to revert to its natural state of mixed native grassland and forest. 

As well as investigating changes in the 54 high-income countries, the study follows the trade of food between nations to see how dietary shifts in one country can affect the food-related land and carbon footprints around the world.

The analysis is performed for the 54 high-income countries available in FABIO. For example, Chile is considered a high-income country, while India is not.

The map below shows the drop in greenhouse gas emissions from global agriculture if the 54 high-income countries were to shift to the EAT-Lancet planetary health diet. Dark red shading indicates the largest reductions. Changes in lower-income countries are due to knock-on impacts for food trade.

According to the study, high-income nations could reduce their agricultural emissions by 62% by shifting to a more plant-based diet. Dr Sonja Vermeulen is the lead global food scientist at WWF, and is not involved in the study. She helped to put this figure into perspective:

“To put this in perspective, it’s about the same positive impact as all countries signing up to and implementing the COP26 declaration on the transition to 100% zero emission cars and vans globally by 2040.” 

Freeing up land

The study finds that moving away from animal-based foods could free an area of land larger than the entire European Union. If this area were allowed to revert to its natural state, it would capture around 100bn tonnes of carbon – equal to 14 years of global agricultural emissions from 2010 – by the end of the century, the authors find.  

The map below shows the potential carbon sequestration from surplus land if the 54 high-income countries were to shift to the EAT-Lancet planetary health diet, with dark green shading indicating the largest potential. Changes in lower-income countries are due to knock-on impacts for food trade. 

Approximately half of the carbon benefit from cutting emissions and increasing carbon sequestration could be seen collectively in the US, France, Australia and Germany, the study says.

The authors also highlight that, according to past research, limiting warming to 1.5C above pre-industrial levels requires the 54 high-income countries in this analysis to achieve cumulative CO2 removals of 85-531bn tonnes of CO2 by the end of the century. This range comes from uncertainty in the amount of CO2 removal required, and in the amount that should be allocated to each country.

Based on these numbers, the study concludes that the 100bn carbon sequestration “could potentially fulfil high-income countries’ CO2 removal obligations needed to limit warming to 1.5C under equality sharing principles”.

The study finds that many low and mid-income countries – such as Brazil, India and Botswana – would export less food to high-income nations if they consumed less meat. This would reduce their own agricultural emissions and free up land for drawing down carbon, despite no dietary changes in their own countries, the researchers say. (The study does not assess the economic impact of this reduced trade.)

Around two-thirds of the carbon sequestration potential from dietary changes in high-income countries is domestic, the study finds. Meanwhile, almost a quarter is located in other high-income countries and around an eighth is from low and middle income countries.

Dr Nynke Schulp is an associate professor of land use, lifestyle and ecosystem change at the Vrije Universiteit Amsterdam, and was not involved in the study. She tells Carbon Brief that existing studies “tend to work from the assumption that the whole world adopts a specific dietary change”, and so “this study’s focus on dietary change in high-income nations is an important nuance, both from a mitigation potential perspective and from a climate justice perspective”.

Capturing carbon

The study assumes that any land freed up by a change in diet would be allowed to revert to its natural state through a “natural climate solution” called passive restoration, in which land is allowed to revert to its past state. Behrens explains in a press release that this technique has a range of co-benefits, including “water quality, biodiversity, air pollution and access to nature, to name just a few”.

The study breaks down the carbon sequestration potential of passive restoration into three categories: aboveground biomass carbon (AGBC), belowground biomass carbon (BGBC) and soil organic carbon (SOC) stocks. These refer to carbon held in plant matter above the soil, plant matter below the soil, and the soil itself, respectively.

The plot below shows the total carbon sequestration (left) and emissions reductions (right) potentials from a range of different food types. The red lines on the left and right mark fixed values to make comparisons between the charts easier. Note that carbon sequestration is shown as a total over the 21st century, while the reduction in emissions is shown per year.

The plot shows that animal-based products – most notably beef – have high carbon and land footprints. The authors highlight that the US and Australia in particular would see benefits from reducing their beef intake, due to their high domestic production and consumption. 

Vermeulen tells Carbon Brief that changing diets in these countries could “transform” them:

“The term ‘food system transformation’ is perhaps often used too lightly – but there can be no doubt that the changes in these places would constitute total transformation of local economies, landscapes and cultures. Imagine the vast cattle ranches of the US and Australia replaced with equally vast rewilded or repurposed lands – would these be used for biomass and bioenergy, or conservation and biodiversity, and how would rural communities create new livelihoods for themselves?”

Dietary choices

High-income countries could see the largest per-capita carbon reductions by shifting to a planet-friendly diet, the study concludes. However, asking individuals to take charge of their personal carbon footprints can be a controversial area of discussion.

For example, the authors note that alcoholic beverages and “stimulants” including coffee, cocoa products and tea comprise 5.8% of dietary greenhouse gas emissions. These “luxury, low-nutrition crops” are predominantly consumed in high-income countries and present a “non-negligible” opportunity for cutting emissions and capturing carbon, according to the study. However, “sociological and policy complications” would make it difficult to reduce consumption of these products in practice, the authors say.

They also highlight that eating more offal – a co-product of meat production – could be a good way for individuals to reduce their meat-related carbon footprints. However, the authors say that offal is “not typically consumed in high-income nations due to convention and consumer preference”.

Dr Matthew Hayek is an assistant professor in the Department of Environmental Studies at NYU arts and science, who was not involved in the study. He tells Carbon Brief how governments could incentivise individuals to eat more sustainably: 

“Folks in developed countries eat far more meat and dairy than the global average… Reducing emissions from food consumption in rich countries is critical. For consumers who have ample food choices, these choices play a sizable role in contributing to our climate goals. Our policies must reflect this by making healthy and sustainable food choices more prevalent, convenient, and inexpensive.”

And Behrens tells Carbon Brief that “the onus is on high-income nations to transform food systems”. In the press release, he adds:

“It will be vital that we redirect agricultural subsidies to farmers for biodiversity protection and carbon sequestration. We must look after farming communities to enable this in a just food transition. We don’t have to be purist about this, even just cutting animal intake would be helpful. Imagine if half of the public in richer regions cut half the animal products in their diets, you’re still talking about a massive opportunity in environmental outcomes and public health.”

Sun, Z. et al. (2022) Dietary change in high-income nations alone can lead to substantial double climate dividend, Nature Food, doi: 10.1038/s43016-021-00431-5

Last Year’s Overall Climate Was Shaped by Warming-Driven Heat Extremes Around the Globe (Inside Climate News)

insideclimatenews.org

A quarter of the world’s population experienced a record-warm year in 2021, research shows.

By Bob Berwyn – January 14, 2022


Earth’s annual average temperature checkup can mask a lot of the details of the climate record over the previous year, and 2021 showed that deadly heat-related climate extremes happen, even if it’s not a record-warm year.

Global average temperature isn’t always the most important measure, University of Michigan climate scientist Jonathan Overpeck said, after United States federal agencies released the Global State of the Climate report, ranking 2021 as the sixth-warmest year on record for the planet. 

“As with politics, it is often what happens locally that matters most, and 2021 was one of the most deadly and destructive years on record because of the unusually warm atmosphere that is becoming the norm,” he said. “Extreme heat waves were exceptional in 2021, including the deadly Pacific Northwest U.S. and Canada heatwave that killed hundreds and also set the stage for fires that wiped out a whole town.”

Last year, the climate “was metaphorically shouting to us to stop the warming, because if we don’t, the warming-related climate and weather extremes will just get worse and worse, deadlier and deadlier,” he said. “Even tornadoes are now thought to strengthen as a result of the warming, and this effect probably also was the reason we had tornadoes in 2021 that reached northward into parts of Minnesota for the first time ever in December.”

The Pacific Northwest heat wave was the most extreme hotspot in a series of heat extremes that together seemed to stretch across the entire northern hemisphere for much of the summer, said Chloe Brimicome, a climate scientist and heat expert at the University of Reading.

“What really stood out for me was this period in summer, in July,” she said. “Everywhere you looked, consecutive records in many countries for temperature were being broken, day on day on day. I don’t think we’d ever really seen that before, or at least we hadn’t heard about it in the same way before.”

July 2021 ended up being the single hottest month for Earth since measurements started, and on the ninth day of the month, a thermometer at Furnace Creek, in California’s Death Valley, recorded 54.4 degrees Celsius (130 degrees Fahrenheit) for the second year in a row, in what could stand as the highest reliably measured temperature on record. 

Near the end of July, a heat wave disrupted Tokyo Olympic Games scheduling, and less than two weeks later, on Aug. 11, a Syracuse, Sicily weather station measured Europe’s warmest-ever temperature, at 48.8 degrees Celsius (119.8 Fahrenheit), during Europe’s hottest summer on record. A few days after that, it rained at the summit of the two-mile thick Greenland Ice Sheet for the first time on record, yet another sign that pervasive warming is affecting the whole globe.

The year ended with a long and extreme autumn heat wave in the Western United States that contributed to Colorado’s costliest wildfire to date, and also with off-the-charts heat extremes in the European Alps, with above-freezing temperatures on the highest summits on Dec. 31

And to reinforce that global warming doesn’t stop as the calendar year ends, 2022 started as the previous year ended, with a grain-withering heat wave in the Southern Hemisphere centered over Argentina, while farther south in Patagonia, vast tracts of forest are on fire. On Jan. 13, meteorologists reported a preliminary reading of 50.7 degrees Celsius in Australia, tying the Southern Hemisphere record.

Brimicome said that, with last year’s heat extremes, it hit home that, “Oh dear, this has already started, it’s catching up with us, it’s here now.” 

She added, ”We’re going to see more and more of this sort of extreme heat and extreme weather. It wasn’t a shock because that’s what had been projected, but a surprise, because it had always kind of crept up on us.”

Ocean Heat Peaks Again

The reports released Thursday by the National Oceanic and Atmospheric Administration and NASA show that increasing greenhouse gas pollution has driven Earth’s annual average temperature above the pre-fossil fuel era by 1.04 degrees Celsius (1.87 degrees Fahrenheit), as measured by an 1880 to 1900 baseline. And the long-term rate of warming has doubled in recent decades, from an early pace of about 0.08 degrees Celsius (0.14 degrees Fahrenheit) per decade, to 0.18 degrees Celsius (0.32 degrees Fahrenheit) per decade since 1980.

Based on the most recent evaluations of greenhouse gas emissions and concentrations, especially of methane, which recently reached another record level, as well as studies of other important climate indicators, warming could speed up even more in the years ahead. By 2023, the global annual temperature could pass the 1.5 degree Celsius warming limit set by the Paris Agreement, climate scientist James Hansen wrote in his Jan. 11 monthly climate update.

A separate study, published last week, showed that, while the planet’s globally averaged surface temperature has wobbled the past six years, the world’s oceans continued to warm steadily during that time, setting a new record each year, including 2021. That matters a lot for the climate because more than 90 percent of the sun’s heat trapped by greenhouse gases is going into the oceans, said Kevin Trenberth, a distinguished scholar at the National Center for Atmospheric Research and a co-author of the study.

“The ocean is where most of it goes,” he said. “If you’re tracking that over time, we should be able to match that with measurements from satellites. That would be the best indicator of total energy imbalance for the planet.” 

By another measure, that energy imbalance is growing at a rate equivalent to the energy from about five Hiroshima-sized atom bombs exploding every second of every day of every year, all captured by the oceans. Manifesting as heat, the energy melts sea ice and ice shelves, raises sea levels and supercharges tropical storms. 

Rising ocean heat content is increasing the frequency and intensity of ocean heat waves that have killed huge areas of coral reefs across the world’s tropical oceans and shifted fish populations, threatening the food supplies of up to 3 billion people, mostly in developing countries in the global south.

And there is no doubt that ocean heat waves are linked with heat waves and drought over land. A 2020 study showed that heat waves and droughts starting over the ocean and moving over land are often longer lasting and more intense than purely land-born events. In another case, a team of researchers studied ecosystem details of how a 2011 ocean and land heat wave interacted over Australia.

Concerns about faster warming ahead are also heightened because warmer oceans are less able to take up carbon dioxide from the atmosphere. Currently, oceans absorb about 25 percent to 30 percent of human carbon dioxide emissions, said Lijing Cheng, lead author of the new ocean heat paper and associate professor with the International Center for Climate and Environmental Sciences at the Institute of Atmospheric Physics of the Chinese Academy of Sciences. 

That leads to ocean acidification and “reduces the efficiency of oceanic carbon uptake and leaves more carbon dioxide in the air,” which traps even more heat, he said. 

Cheng said the study showed that the pattern of ocean warming “is a result of human-related changes in atmospheric composition,” adding that warmer oceans create more powerful storms and hurricanes, “as well as increasing precipitation and flood risk.” 

Fully understanding ocean-atmosphere heat exchange is key to implementing and tracking climate mitigation goals, he added.

Co-author Michael Mann, a climate scientist at Pennsylvania State University, said the oceans will keep warming until net carbon emissions fall to zero. 

“Aside from causing coral bleaching and threatening sea life and fish populations we rely upon for roughly 25 percent of our protein intake globally,” Mann said, ocean warming “is destabilizing Antarctic ice shelves and threatens massive (meters) of sea level rise if we don’t act. So this finding really underscores the urgency of climate action now.”

Record Heat in 25 Countries 

Another global annual climate summary from a team of scientists with the Berkeley Earth laboratory showed that 1.8 billion people in 25 countries—about a quarter of the world’s population—experienced a record-warm annual average in 2021. 

“No one lives at the global average temperature,” said Berkeley Earth lead scientist Robert Rohde. “Most land areas will experience more warming than the global average, and countries must plan their responses to this.” 

Some of the world’s most populous countries experienced their hottest years on record, including China, South Korea and Nigeria, and many of them are countries that are already very hot, including Bahrain, Iran, Kuwait, Oman, Qatar, Saudi Arabia and the United Arab Emirates in the Middle East. 

Overall, the Berkeley team’s data showed that the global warming caused by greenhouse gases is broadly distributed, as expected, because the pollutants are spread through the atmosphere. 

In 2021, 87 percent of Earth’s surface was significantly warmer compared to a 1951-1980 baseline, with 11 percent of the surface at a similar temperature, and only 2.6 percent significantly colder. An absence of cold extremes also illustrates the overall warming trend, as the team reported that no place on Earth recorded a record cold annual average. 

A building level of greenhouse gases from human activities “is the direct cause of recent global warming,” Rohde said. “If the Paris Agreement’s goal of no more than 2 degrees Celsius warming is to be reached, significant progress toward reducing greenhouse gas emissions needs to be made soon.”

Brimicome, who does research on extreme heat, said the spate of climate extremes in 2021 may mark a start of a widespread coming to terms with climate change.

“I think we’ve always had these rose-tinted glasses toward it, like yes, climate change is happening, but it’s not going to happen to me,” she said. “We need to take off those glasses and be realistic about what’s happening. Although part of our brain is telling us it can’t be true, it is completely in front of us. If we continue with this narrative, even like I did, that we’re surprised and shocked, it’s kind of like saying it’s not real. But it is real.”

The radical intervention that might save the “doomsday” glacier (MIT Technology Review)

technologyreview.com

Researchers are exploring whether building massive berms or unfurling underwater curtains could hold back the warm waters degrading ice sheets.

January 14, 2022

James Temple


In December, researchers reported that huge and growing cracks have formed in the eastern ice shelf of the Thwaites Glacier, a Florida-size mass of ice that stretches 75 miles across western Antarctica.

They warned that the floating tongue of the glacier—which acts as a brace to prop up the Thwaites—could snap off into the ocean in as little as five years. That could trigger a chain reaction as more and more towering cliffs of ice are exposed and then fracture and collapse.

A complete loss of the so-called doomsday glacier could raise ocean levels by two feet—or as much as 10 feet if the collapse drags down surrounding glaciers with it, according to scientists with the International Thwaites Glacier Collaboration. Either way, it would flood coastal cities around the world, threatening tens of millions of people.

All of which raises an urgent question: Is there anything we could do to stop it?

Even if the world immediately halted the greenhouse-gas emissions driving climate change and warming the waters beneath the ice shelf, that wouldn’t do anything to thicken and restabilize the Thwaites’s critical buttress, says John Moore, a glaciologist and professor at the Arctic Centre at the University of Lapland in Finland.

“So the only way of preventing the collapse … is to physically stabilize the ice sheets,” he says.

That will require what is variously described as active conservation, radical adaptation, or glacier geoengineering.

Moore and others have laid out several ways that people could intervene to preserve key glaciers. Some of the schemes involve building artificial braces through polar megaprojects, or installing other structures that would nudge nature to restore existing ones. The basic idea is that a handful of engineering efforts at the source of the problem could significantly reduce the property damage and flooding dangers that basically every coastal city and low-lying island nation will face, as well as the costs of the adaptation projects required to minimize them.

If it works, it could potentially preserve crucial ice sheets for a few more centuries, buying time to cut emissions and stabilize the climate, the researchers say.

But there would be massive logistical, engineering, legal, and financial challenges. And it’s not yet clear how effective the interventions would be, or whether they could be done before some of the largest glaciers are lost.

Redirecting warming waters

In articles and papers published in 2018, Moore, Michael Wolovick of Princeton, and others laid out the possibility of preserving critical glaciers, including the Thwaites, through massive earth-moving projects. These would involve shipping in or dredging up large amounts of material to build up berms or artificial islands around or beneath key glaciers. The structures would support glaciers and ice shelves, block the warm, dense water layers at the bottom of the ocean that are melting them from below, or both.

More recently, they and researchers affiliated with the University of British Columbia have explored a more technical concept: constructing what they’ve dubbed “seabed anchored curtains.” These would be buoyant flexible sheets, made from geotextile material, that could hold back and redirect warm water.

The hope is that this proposal would be cheaper than the earlier ones, and that these curtains would stand up to iceberg collisions and could be removed if there were negative side effects. The researchers have modeled the use of these structures around three glaciers in Greenland, as well as the Thwaites and nearby Pine Island glaciers.

If the curtains redirected enough warm water, the eastern ice shelf of the Thwaites could begin to thicken again and firmly reattach itself to the underwater formations that have supported it for millennia, Moore says.

“The idea is to return the system to its state around the early 20th century, when we know that warm water could not access the ice shelf as much as today,” he wrote in an email.

They’ve explored the costs and effects of strategically placing these structures in key channels where most of the warm water flows in, and of establishing a wider curtain farther out in the bay. The latter approach would cost on the order of $50 billion. That’s a big number, but it’s not even half what one proposed seawall around New York City would cost.

Researchers have floated other potential approaches as well, including placing reflective or insulating material over portions of glaciers; building fencing to retain snow that would otherwise blow into the ocean; and applying various techniques to dry up the bed beneath glaciers, eliminating water that acts as lubricant and thus slowing the glaciers’ movement.

Will it work?

Some scientists have criticized these ideas. Seven researchers submitted a response in Nature to Moore’s 2018 proposals, arguing that the concepts would be partial solutions at best, could in some cases inadvertently accelerate ice loss, and could pull attention and resources from efforts to eliminate the root of the problem: greenhouse-gas emissions.

The lead author, Twila Moon, a scientist at the National Snow and Ice Data Center at the University of Colorado, Boulder, says the efforts would be akin to plugging a couple of holes in a garden hose riddled with them.

And that’s if they worked at all. She argues that the field doesn’t  understand ice dynamics and other relevant factors well enough to be confident that these things will work, and the logistical challenges strike her as extreme given the difficulty of getting a single research vessel to Antarctica.

“Addressing the source of the problem means turning off that hose, and that is something that we understand,” she says. “We understand climate change; we understand the sources, and we understand how to reduce emissions.”

There would also be significant governance and legal obstacles, as Charles Corbett and Edward Parson, legal scholars at University of California, Los Angeles, School of Law, noted in a forthcoming essay in Ecology Law Quarterly.

Notably, Antarctica is governed by a consortium of nations under the Antarctic Treaty System, and any one of the 29 voting members could veto such proposals. In addition, the Madrid Protocol strictly limits certain activities on and around Antarctica, including projects that would have major physical or environmental impacts.

Corbett and Parson stress that the obstacles aren’t insurmountable and that the issue could inspire needed updates to how these regions are governed amid the rising threat of climate change. But they also note: “It all raises the question of whether a country or coalition could drive the project forward with sufficient determination.”

Getting started

Moore and others have noted in earlier work that a “handful of ice streams and large glaciers” are expected to produce nearly all the sea-level rise over the next few centuries, so a few successful interventions could have a significant impact.

But Moore readily acknowledges that such efforts will face vast challenges. Much more work needs to be done to closely evaluate how the flow of warm water will be affected, how well the curtains will hold up over time, what sorts of environmental side effects could occur, and how the public will respond. And installing the curtains under the frigid, turbulent conditions near Antarctica would likely require high-powered icebreakers and the sorts of submersible equipment used for deep-sea oil and gas platforms.

As a next step, Moore hopes to begin conversations with communities in Greenland to seek their input on such ideas well ahead of any field research proposals. But the basic idea would be to start with small-scale tests in regions where it will be relatively easy to work, like Greenland or Alaska. The hope is the lessons and experience gained there would make it possible to move on to harder projects in harsher areas.

The Thwaites would be at the top rung of this “ladder of difficulty.” And the researchers have been operating on the assumption that it could take three decades to build the public support, raise the needed financing, sort out the governance challenges, and build up the skills necessary to undertake such a project there.

There’s a clear problem with that timeline, however: the latest research suggests that the critical eastern buttress may not even be there by the end of this decade.