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The New Climate (Harper’s Magazine)

READINGS — From the May 2017 issue

DF contrata Fundação Cacique Cobra Coral para pedir chuvas, diz entidade (G1)

Médiuns da entidade já fizeram convênios com SP e RJ, em tempos de crise hídrica; atuação é gratuita, diz porta-voz. Governo diz desconhecer parceria.


Fotografia de longa exposição de raios e tempestade no Distrito Federal (Foto: Felipe Bastos/Arquivo pessoal)

Fotografia de longa exposição de raios e tempestade no Distrito Federal (Foto: Felipe Bastos/Arquivo pessoal) 

Sem soluções de curto prazo para a crise hídrica, o governo do Distrito Federal recorreu à espiritualidade para reforçar as chuvas e encher os reservatórios. No início de março, a Fundação Cacique Cobra Coral – entidade esotérica que teria o poder de controlar o clima – montou um “quartel-general” em Luziânia, no Entorno, para adiar a chegada da estiagem ao Planalto Central.

A informação foi confirmada ao G1 pelo porta-voz da fundação, Osmar Santos – uma das duas únicas pessoas a entrar em “contato direto” com o espírito do cacique. Segundo ele, a parceria não prevê investimento público, e deve ser publicada em Diário Oficial nos próximos dias. A Caesb e o Palácio do Buriti dizem não ter conhecimento do convênio.

Segundo o porta-voz, a operação será similar à que foi empregada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2015, para conter a crise hídrica que secou os reservatórios daquela região.

Em fevereiro, o blog “Gente Boa”, do jornal “O Globo”, informou que o prefeito João Doria tinha fechado nova parceria com a fundação. “Quem nos indicou para o governo de Brasília foi o governador [do Rio], Luiz Fernando Pezão, que tocava essa operação por lá”, diz Santos.

Chuva no Eixo Monumental, no centro de Brasília, em imagem de arquivo (Foto: Nilson Carvalho/GDF/Divulgação)

Chuva no Eixo Monumental, no centro de Brasília, em imagem de arquivo (Foto: Nilson Carvalho/GDF/Divulgação) 

“Começamos há uns 20 dias. [A intervenção] Consiste em prolongar esse período chuvoso por mais uns dias, para tornar o outono e o inverno mais úmidos. Também queremos antecipar o período chuvoso já para setembro.”

Em anos “normais”, a temporada de chuvas no DF começa em meados de outubro, e se estende até o mês de março. Se o clamor ao cacique for atendido, as nuvens devem continuar sobre a capital federal por, pelo menos, mais dez dias.

“É um processo gradual, porque você não pode mexer com a natureza de qualquer jeito, causando efeito colateral. Mas vão ser as águas de abril, e não de março, que vão fechar o verão.”

No site da Fundação Cacique Cobra Coral, consta que o espírito que dá nome à entidade “já teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln”. De acordo com o texto, a missão da fundação é “minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”.

Além do socorro às crises hídricas, a fundação já foi acionada pelos governos estaduais, pela União e até por outros países para garantir o céu limpo em grandes eventos – Rock in Rio, festas de réveillon e Olimpíadas, por exemplo.

No site oficial da Fundação Cacique Cobra Coral, constam extratos de convênios firmados com as cidades de São Paulo e Rio, e com os estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. Segundo a entidade, o contrato a ser oficializado com o DF foi feito “nos mesmos moldes”.

Chuva encobre a Torre de TV, no centro de Brasília, em imagem de arquivo (Foto: Toninho Tavares/GDF/Divulgação)

Chuva encobre a Torre de TV, no centro de Brasília, em imagem de arquivo (Foto: Toninho Tavares/GDF/Divulgação) 

Logística

O porta-voz da fundação afirma que a base de operações foi montada em Luziânia, a 60 km do centro de Brasília, por uma questão de logística. Sem dinheiro público, as viagens dos líderes espirituais entre SP, GO, RJ e DF são custeadas por dez empresas privadas desses estados, segundo ele.

“Nós vamos pegar três estações. Chegamos no fim do verão, então devemos pegar o outono, o inverno, até o próximo verão. A fundação funciona como um airbag climático, ou seja, não evita os acidentes. É uma contenção de danos”, diz Santos.

Na última semana, a médium Adelaide Scritori esteve pessoalmente em Luziânia. Filha do fundador Ângelo Scritori – que dizia manter contato direto com o espírito de Padre Cícero –, é ela quem incorpora o Cacique Cobra Coral e faz os pedidos ao plano astral.

Além de porta-voz, Osmar Santos também auxilia no diálogo do espírito com o mundo real. “Ela é uma médium inconsciente, então, o cacique fala comigo através [do corpo] dela”, explica.

Reservatório de Santa Maria, no Distrito Federal, com capacidade cheia, no fim da temporada de chuvas de 2016 (Foto: Toninho Tavares/GDF/Divulgação)

Reservatório de Santa Maria, no Distrito Federal, com capacidade cheia, no fim da temporada de chuvas de 2016 (Foto: Toninho Tavares/GDF/Divulgação) 

G1 tentou contato direto com Adelaide nesta quinta, mas foi informado de que a médium estava “em trânsito” e não poderia atender ao pedido de entrevista. Questionado, Santos afirmou que o Cacique Cobra Coral não envia mensagens específicas, e nem dá conselhos aos governantes.

“Ele cobra que façam a lição de casa. Tipo: ‘não podemos ajudar os homens de maneira permanente, se fizermos por eles aquilo que eles podem e devem fazer por si próprios'”.

A “lição de casa” cobrada pelo espírito, de acordo com Santos, inclui a conclusão das obras de captação de água na Usina Hidrelétrica de Corumbá IV (entre o DF e Goiás) e no Lago Paranoá. O primeiro projeto está parado por suspeita de irregularidades, e o segundo recebeu aporte recente de R$ 55 milhões da União.

81 COMENTÁRIOS

Este conteúdo não recebe mais comentários.

 

Cleuber Rocha

HÁ UM DIA

Porque esse povo não vai la no nordeste tentar fazer alguma coisa,isso no minimo é curioso,mas deixa pra lá…

20

 

Bruno Nobrega

HÁ UM DIA

01/04/2017 kkkkkkkkkkkk

00

 

Cleuber Rocha

HÁ UM DIA

Se vier agua mesmo através deste espiritismo não vejo problema,mas que chega a ser engraçado o governo recorrer a esses tipos de coisa.

00

 

Jean Pereira

HÁ 3 DIAS

Que os índios e caboclos da natureza tragam as águas dos céus.

43

 

Jean Pereira

HÁ 3 DIAS

Que os índios e caboclos da natureza tragam as águas dos céus…

03

 

Rogerio Marques

HÁ 3 DIAS

Isso deve ser uma Piada…..

41

 

Geraldo Barros

HÁ 4 DIAS

Lamentável, quando um Governo desconhece o poderio de Deus, e vai consultar os demônios; é de extrema tristeza a situação!

6641

 

Jean Pereira

HÁ 3 DIAS

Demônio é vc…

85

 

Jean Pereira

HÁ 3 DIAS

E isso aí. Que os índios e caboclos que manejam os elementos da natureza tragam as águas dos céus…

42

 

Jhonnata Medeiros

HÁ 3 DIAS

UÉ. onde está o “estado laico” do poder público? a constituição foi instituída sobre a proteção de Deus correto concurseiros??

54

 

Sergio Santos

HÁ 4 DIAS

Não estou acreditando no que acabei de lê, o povão acreditar nessas bobagens, tudo bem, mas entidades governamentais recorrer a grupos espirituais para resolver problemas , é o fim do mundo, pessoas que acreditam no mundo espiritual só pode ser retardada!!

149

 

Andre Olavo

HÁ 3 DIAS

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

12

 

Carlos Silva

HÁ 3 DIAS

se o meu povo que se chama pelo meu nome se humilhar e orar,e me buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados, e sararei a sua terra. ll cronicas 7: 14 está ai a receita

4210

 

Hamitlon Júnior

HÁ 3 DIAS

mas não precisa de licitação ou contratação emerencial pra isso né?

24

 

Kelvin

HÁ 3 DIAS

Se macumba desse resultado o campeonato baiano terminava empatado

132

 

Marcio L.

HÁ 4 DIAS

sera que pra trazer chuva os caras vão fazer a dança da chuva kkkkkkkkkkkkkkkk

101

 

Bruno Novais

HÁ 3 DIAS

Lavagem de dinheiro

163

 

Kleiton Barros

HÁ 3 DIAS

É sério isso gente !! ??

171

 

Fernando Gimenez

HÁ 3 DIAS

Não

10

 

Jairo J.gonçalves

HÁ 3 DIAS

quanto isso vai custar…

42

 

Fernando Gimenez

HÁ 3 DIAS

Leia a notícia antes de comentar.

51

 

Warley

HÁ 3 DIAS

vamos enviar para o Piauí e vamos fazer chover la!!!!!!!

201

 

Lúcio Gilbert

HÁ 3 DIAS

E eu pensava que já tinha visto tudo! Que piada de mal gosto!!!!

192

 

Sharles Sa

HÁ 3 DIAS

Sou mais a macumba da minha vó

110

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

Hoje é dia de Meter na secretaria na hora do almoço.. ..

193

 

Kleiton Barros

HÁ 3 DIAS

Bom msm é na hora do Expediente mesmo

102

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

ahahhahaahahahhhaaha

30

 

Rubens Silva

HÁ 3 DIAS

Vergonha!!!

120

 

Valter Soares

HÁ 3 DIAS

Quem sabe de todas as coisas, quem controla nosso universo, é somente DEUS.

323

 

Carlos Silva

HÁ 3 DIAS

hahahahahahahahahahahahahahahahahahahah essa é boa eu vou rir de novo!!!!

122

 

Ton Mota

HÁ 3 DIAS

Parece que o GDF não bastava ser mentiroso e agora apela para crença para enrolar a população.

121

 

Romerio Soares

HÁ 3 DIAS

Depois que começar a seca, pode chamar indi, pai de santo, pastor,padre etc, pois a questão da água era previsível, não fez nada, agora é começar cavar poço igual n inicio do DF.

90

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

Enquanto isso acabei de g o z a r dentro da minha vizinha que tem namorado

197

VER MAIS 2 COMENTÁRIOS

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

Governo incopetente….

90

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

hahahahahaaahhaahhah quando se pode inventar para desviar dinheiro ate danca da chuva tem…..

72

 

Kimmy

HÁ 3 DIAS

E rezar para São Pedro, ainda adianta?

21

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

hahahahahaaahhaahhah quando se pode inventar para desviar dinheiro ate danca da chuva tem…..

21

 

Saulo Weslei

HÁ 3 DIAS

Se preparem para as consequências de seus atos.

41

 

Marcelo Oliveira

HÁ 4 DIAS

Era só o que faltava. Tem que arrumar um enxada para esses a toas capinarem. Brincar com as coisas de Deus. Chama Elias que ele faz chover e descer fogo do céu. É muita falta do que fazer mesmo. Vai procurar uma lavagem de roupa.

545

 

Flavia Souza

HÁ 4 DIAS

Chama quem?

98

 

Alan Souza

HÁ 4 DIAS

Chama aí então, vamos ver se Elias faz chover ao menos um fósforo aceso…

613

 

Augusto

HÁ 4 DIAS

KKKK GDF contrata fundação Cacique. Mas o EnRollemberg disse que quem vai fumar todas para chover no DF é ele. Pois isto ele tem experiência deste o tempo de UNB. Ele disse que se precisar fuma até para chover no Nordeste todo.

142

 

Marcus Bessa

HÁ 3 DIAS

Vão fumar o cachimbo da paz kkkkkk

30

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

Hoje e dia de S E X O com a secretaria…

51

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

IPVA 2017…..

00

 

Ton

HÁ 4 DIAS

Era melhor o GDF pedir ajuda ao espírito do riquínho pra ver se entra dinheiro nos cofres do governo, não aguentamos mais ele usar a desculpa da lei de responsabilidade fiscal. Cuidado Rollemberg, pro caboclo porrete não descer no seu lombo seu incompetente. Falta de uma surra bem dada nesse charlatões

132

 

Gelson

HÁ 3 DIAS

Nao so nele tem tb o povinho da CLDF E DA CAMARA DOS DEPUTADOS CONGRESSO E BURITI

20

 

Edson Rocha

HÁ 4 DIAS

se isso funcionasse vc acha que o nordeste estaria nessa seca?????

471

VER MAIS 1 COMENTÁRIO

 

Leonardo Bezerra

HÁ 4 DIAS

Demônio é tu seu incauto!

513

 

Guilherme Trindade

HÁ 3 DIAS

pois é

00

 

Gabriel Rodrigues

HÁ 4 DIAS

Bobo e estrada ruim não acaba nunca!

40

 

Andre Olavo

HÁ 4 DIAS

SÓ FALTAVA ESSA, QUE DESGRAÇAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

123

 

Andre Olavo

HÁ 4 DIAS

ENFIA A COBRA CORAL NO R@BB, OOO DA TUA MAE ROLLEMBERGFDAPUTTAAAA

323

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Partiu fazer dança da chuva!!! Paga quanto Governo?

232

 

Alan Souza

HÁ 4 DIAS

Não leu que é gratuito?

36

 

Roberto

HÁ 4 DIAS

o irônico que volto a chovendo aqui em Brasilia !!

43

 

Leonardo Bezerra

HÁ 4 DIAS

ahahahhah tá de sacanagem! Se fosse assim eu chamaria os pajés lá da amazônia pra fazer chover! Daria mais certo. Esse Governo de Brasília em vez de trabalhar fica inventando moda!

141

 

Sergio Santos

HÁ 4 DIAS

KKKKKKKKKK, só pode ser piada!!1

120

 

Romeu Reis

HÁ 4 DIAS

O Brasil não é um país sério….

410

 

Geraldo Barros

HÁ 4 DIAS

muito sério, exceto seus governantes que está gastando os bilhões dos cofres públicos, (dinheiro do povo) com consultores de demônios, ‘para que haja chuva’? ehehhe! Só faltava essa …

54

 

Paulo

HÁ 4 DIAS

É piada né?! A saúde do DF esta uma porcaria e esse incompetente vai gastar dinheiro com empresa para ficar dançando; o Brasil é um país de tolos mesmo! O Povo tem que pagar mesmo para aprender. Vai abrir licitação ou vai ser feita de forma emergencial para poder dar mais dinheiro para ser ensacado nos bolsos??

22

 

Dorgival Reis

HÁ 4 DIAS

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. E mais, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk…..

30

 

Nestor Ribeiro

HÁ 4 DIAS

Contrata também a Fundação Cacique Rala Bun da para “dança da chuva”

40

 

Joao Campos

HÁ 4 DIAS

Já já a PF DESENCADEIA A OPERAÇÃO COBRA CORAL OU COBRA NAJA OU SERA COBRA DE DUAS CABEÇAS OU SERA…… COBRA DO POVO QUE ELE PAGA .

120

 

Andre Olavo

HÁ 4 DIAS

AGORA É QUE VAI FALTAR ÁGUA MESMO

72

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Partiu fazer dança da chuva!!! Paga quanto Governo?

23

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Partiu fazer a dança da chuva!!! Governo ta pagando bem!

13

 

Kaio Santos

HÁ 4 DIAS

Somente, rir…nada mais!

402

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

72

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Fechem o INMET!!! Não precisamos dele mais!!! Se eu fizer a dança da chuva o governo me paga???

102

 

Cleison Santos

HÁ 4 DIAS

É muita gente falando água, deve ser essa que vai encher as represas.

30

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Fechar o INMET então! Não está servindo pra nada mais!!! !…

20

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Fechem o INMET então! Não está servindo pra nada mais!!! !…..

20

 

Hamitlon Júnior

HÁ 4 DIAS

Fechem o INMET então! Não está servindo pra nada mais!!! Que piada meu!

10

 

Joao Campos

HÁ 4 DIAS

Vai ter licitação ou vai ser dispensado por ser situaçao emergencial. llllll

170

 

Joe

HÁ 4 DIAS

Fake news? HAHAHAHA

00

 

Nei Isau

HÁ 4 DIAS

Isso é uma safadeza! O que não fizeram com ações, querem resolver com espiritualismo!

90

 

Rodrigo Nascimento

HÁ 4 DIAS

Só pode ser piada!

120

Brasília contrata Cacique Cobra Coral para conter crise no desabastecimento de água (O Globo)

POR CLEO GUIMARÃES

30/03/2017 07:45

Congresso Nacional em Brasília

Congresso Nacional em Brasília | Reprodução

Brasília também se rendeu ao Cacique Cobra Coral. Com risco real de desabastecimento de água na cidade, e às vésperas de sediar o Fórum Mundial da Água em 2018, o governo do Distrito Federal decidiu fechar parceria com a fundação esotérica que teria o poder de controlar o tempo. A parceria foi sugerida pelo governador do Rio, Luiz Fernando Pezão.

Segue a história

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, já encaminhou a minuta do contrato para a CAESB (Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal), que ficará responsável pelo convênio com a entidade.

 

8 COMENTÁRIOS (em 3 de abril de 2017, às 15h57)

 

J Figueiredo

HÁ 4 DIAS

QUE PIADA MAIS SEM GRAÇA.

Marco Passos

HÁ 4 DIAS

Esses cars não ficam com medo nem em tempo de lava jato. Tomara que não demore muito a ser preso.

Marco Passos

HÁ 4 DIAS

É muita falta de vergonha.

Vitor Cunha

HÁ 4 DIAS

Certamente a família Maia está levando comissão!

Cristiano Lima

HÁ 4 DIAS

vocês desejam que volte a ter água em qualquer lugar do Brasil, então PLANTE MUITAS ARVORES E A NATUREZA VAI AGRADECER!

Pablo Arceles

HÁ 4 DIAS

Eles teriam o poder de controlar o clima não o tempo, nossa eu que sou burro faria umas reportagens melhores do que alguns jornalistas do Globo.

José Soares

HÁ 4 DIAS

Religião cada um tem a sua… Há quem não tem nenhuma. Outros tantos são agnósticos ou ateus. Não é brinquedo não, prefeitos do Rio César Maia e Paes, e o governador Pezão assinarem contrato com a Fundação Cobra Coral para prestar assistência espiritual a fim de tentar reduzir os estragos causados por temporais; a ONG é comandada por Adelaide Scritori, que afirma ter o poder de controlar o tempo. Dória outsider inteligente foi na onda; o governante da vez é de Brasília. E assim a médium vai faturando, às custas de contribuintes… Vixe!

Roldão Filho

HÁ 4 DIAS

Só falta contratar o Dr. Janot Pacheco para jogar sal nas nuvens para que chova.

Rollemberg diz manter ‘contato informal’ com Fundação Cacique Cobra Coral (G1)

Governador do DF afirmou, em rede social, que relação não prevê contrato ou pagamento; entidade contesta. Fundação diz ter montado ‘QG’ no Entorno para estender temporada de chuvas.


 

Postagem do governador Rodrigo Rollemberg em rede social, com referência à Fundação Cacique Cobra Coral (Foto: Facebook/Reprodução)

Postagem do governador Rodrigo Rollemberg em rede social, com referência à Fundação Cacique Cobra Coral (Foto: Facebook/Reprodução) 

O governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, afirmou nas redes sociais que tem “mantido contatos informais” com a Fundação Cacique Cobra Coral – entidade esotérica que teria o poder de controlar o clima –, em busca de soluções para a crise hídrica que atinge a capital. Segundo Rollemberg, as conversas não incluem contrato ou pagamento, mas “toda ajuda é bem-vinda”.

A publicação foi ao ar nesta sexta-feira (31). Na quinta (30), reportagem do G1 mostrou que a fundação tinha montado um “quartel-general” em Luziânia, no Entorno, para adiar a chegada da estiagem ao Planalto Central. A informação foi confirmada pelo porta-voz da entidade, Osmar Santos, mas, naquele momento, a Caesb e o Palácio do Buriti informavam “desconhecer” o convênio.

Na postagem, Rollemberg diz que, “como católico”, tem “rezado muito para que chova bastante no DF”. As atividades da Fundação Cacique Cobra Coral estão relacionadas a contatos com o plano astral e com o espírito do cacique que nomeia a entidade – e que já passou pela terra como Abraham Lincoln e Galileu Galilei, segundo o grupo.

Questionado pelo G1, Santos disse que a fundação se define como “entidade esotérica científica, ou espiritualista”. Segundo ele, toda operação tem apoio técnico de dois cientistas voluntários – um da Universidade de São Paulo (USP), e um do Centro de Previsões e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (CPTEC/Inpe).

Ao contrário do que afirma o governo, a Fundação Cacique Cobra Coral diz que um contrato será fechado, e terá de ser publicado em Diário Oficial. O acordo não prevê repasse de dinheiro público – as atividades são custeadas por empresários e mantenedores, afirma a entidade.

Fotografia de longa exposição de raios e tempestade no Distrito Federal (Foto: Felipe Bastos/Arquivo pessoal)

Fotografia de longa exposição de raios e tempestade no Distrito Federal (Foto: Felipe Bastos/Arquivo pessoal) 

Fé contra a crise

Segundo o porta-voz, a operação será similar à que foi empregada em São Paulo e no Rio de Janeiro, em 2015, para conter a crise hídrica que secou os reservatórios daquela região.

Em fevereiro, o blog “Gente Boa”, do jornal “O Globo”, informou que o prefeito João Doria tinha fechado nova parceria com a fundação. “Quem nos indicou para o governo de Brasília foi o governador [do Rio], Luiz Fernando Pezão, que tocava essa operação por lá”, diz Santos.

“Começamos há uns 20 dias. [A intervenção] Consiste em prolongar esse período chuvoso por mais uns dias, para tornar o outono e o inverno mais úmidos. Também queremos antecipar o período chuvoso já para setembro.”

Em anos “normais”, a temporada de chuvas no DF começa em meados de outubro, e se estende até o mês de março. Se o clamor ao cacique for atendido, as nuvens devem continuar sobre a capital federal por, pelo menos, mais dez dias.

“É um processo gradual, porque você não pode mexer com a natureza de qualquer jeito, causando efeito colateral. Mas vão ser as águas de abril, e não de março, que vão fechar o verão.”

Além do socorro às crises hídricas, a fundação já foi acionada pelos governos estaduais, pela União e até por outros países para garantir o céu limpo em grandes eventos – Rock in Rio, festas de réveillon e Olimpíadas, por exemplo.

37 COMENTÁRIOS (3 de abril de 2017, 13h57)

  • Lazaro Castro

    HÁ UM DIA

    honrar compromisso que é bom nada né governador lamentável

    130

    • Saulo Weslei

      HÁ 5 HORAS

      Quando um governo é extremamente incompetente recorre a estas coisas.

      40
    • José Rodrigues

      HÁ 2 HORAS

      kkkkkkkk……….é cada piada esse governo imprestável!!!!!

      20
  • Jose

    HÁ 15 HORAS

    Ma che bello administrador ! kkkk

    10
  • Bruno Silva
    HÁ 16 HORAS

    Por que nunca resolveram o problema do sertão nordestino? Precisava transpor o velho Chico com uma “solução” prática dessa?

    30
  • George Rocha

    HÁ 19 HORAS

    Só pode estar desdenhando!

    50

  • Ivam Silva

    HÁ 24 HORAS

    Me recuso a acreditar nessas asneiras. So mesmo nesse Brasilzinho.

    110

  • Laechelndfuchs

    HÁ UM DIA

    Os surdos correm grande risco de serem picados pela cobra coral…

    100

  • Carlos Leonel

    HÁ UM DIA

    kkkkkkkkk

    101
  • Cleanto Sena

    HÁ UM DIA

    ouvi dizer que a tal entidade vai também atuar na saúde ,segurança ,transporte, e economia do DF pois os últimos governantes não deram conta

    152

  • Marcio L.

    HÁ UM DIA

    sera que pra trazer chuva os caras vão fazer a dança da chuva kkkkkkkkkkkkkkkk

    171

  • Renato Abreu
    HÁ 2 DIAS

    Caique coral é uma entidade da bruxaria. Governador, não amaldiçoe ainda mais nossa terra. Vc não faz idéia do mal que vc está se fazendo e a toda população do DF. Vai procurar Deus, vai orar, pede a Jesus Cristo, pq ele sim é quem faz chover para pecadores e justos.

    7441

    • Galega

      HÁ UM DIA

      rindo até 2050 kkkkkkkkkkkkkkk

      263
    • Cesar Schmitt

      HÁ UM DIA

      Te informa direito, antes de dizer besteira,

      312
  • Ricardo Cardoso

    HÁ UM DIA

    Aqui a mallandragem não tem por onde.

    120
  • Milton Oliveira

    HÁ UM DIA

    Governador do DF Rodrigo Rollemberg … é um exemplo do baixo nível dos gestores do nosso dinheiro no Brasil …Energia esotérica contra a crise hídrica ??? Só para um incompetente sair com essa … Vamos varrer essa gente da vida pública

    314

  • Francisco Rocha

    HÁ 2 DIAS

    Parece piada do Sensacionalista.

    432

    • Leandro

      HÁ UM DIA

      pois é, por um momento até achei que tava no portal errado.

      121
  • Andre Ramos

    HÁ UM DIA

    Saravá!!

    74
  • Vicente

    HÁ UM DIA

    Agora, o Brasil inaugurará a CORRUPÇÃO espiritual !!

    173

  • Veterano

    HÁ UM DIA

    A primeira vez que ouvi sobre essa Fundação, faz anos… Foi notícias vindas do RJ, onde o Governo pagava para essa Fundação ajudar a NÃO chover no Réveillon. Demorei um bom tempo para acreditar no que lia, achei que tinha enlouquecido de vez.

    201

    • Veterano

      HÁ UM DIA

      A tal Fundação “trabalhou” no Rock in Rio?! De qual ano??? Em 2011 choveu tanto que pro Guns and Roses tocar tiveram antes que retirar muita água do palco com rodo.

      111
  • Andre Campos

    HÁ 2 DIAS

    Eu sinceramente estou a defecar e a andar para o fato do Rollemberg (e a globo) ter fé em qualquer coisa ou achar isso bonito. Eu quero é que ele cumpra as promessas de governo, que até agora não chegaram em nem 20% do prometido.

    215

    • Loucs Silva

      HÁ UM DIA

      Cara, não tem 5 meses de cargo…

      310
  • Michele Junior

    HÁ 2 DIAS

    No centro espirita, preciso de chuva no distrito federal, atençao caral musical do centro vamos la voce deve esta pensando, ela foi embora, mais ja deve esta voltando, nao demora, ou ela foi pra muito longe, felicidade, felicidade? erramos que maldade, onde esta que nao responde, pois minha ALMA geme por voce, geme geme u por voce geme geme ha, ha ha ha a chuva nao vai chegar

    15

  • Daniel Dutra
    HÁ 2 DIAS

    O que é “contato informal”?

    131

  • José Oliveira

    HÁ 2 DIAS

    É SÓ O QUE FALTAVA, ÍNDIO QUER DINHEIRO E O IDIOTA ACREDITA?

    211
  • Hamitlon Júnior

    HÁ 2 DIAS

    Me paga que eu faço a dança da chuva todo dia ao meio dia!

    300

    • Jane Lucas

      HÁ 2 DIAS

      kkkkkkkk

      80
  • Francisco Silva
    HÁ 2 DIAS

    Manda esta organização pro nordeste,se resolver o problema recebe, se não resolver ela paga o prejuiso.

    305

    • Jane Lucas

      HÁ 2 DIAS

      boa

      81
  • Edson Mendes

    HÁ 2 DIAS

    E muito obscurantismo em pleno século XXl

    282

  • Pedro Passos

    HÁ 2 DIAS

    Só o que faltava! Fala sério?

    281

Como duas pesquisadoras estão derrubando clichês sobre a política no Brasil (BBC)

6 junho 2016

ciencia politica

Nara Pavão e Natália Bueno: pesquisadoras questionam chavões da política no Brasil 

O brasileiro é racista e privilegia candidatos brancos ao votar. Políticos corruptos se mantêm no poder porque o eleitor é ignorante. Quem recebe Bolsa Família é conivente com o governo. ONGs são um ralo de dinheiro público no Brasil. Será?

A julgar pelos estudos de duas jovens pesquisadoras brasileiras em ciência política, não.

Natália Bueno e Nara Pavão, ambas de 32 anos, se destacam no meio acadêmico no exterior com pesquisas robustas que desmistificam chavões da política brasileira que alimentam debates em redes sociais e discussões de botequim.

Natural de Belo Horizonte (MG), Natália faz doutorado em Yale (EUA), uma das principais universidades do mundo. Em pouco mais de oito anos de carreira, acumula 13 distinções acadêmicas, entre prêmios e bolsas.

A pernambucana Nara é pesquisadora de pós-doutorado na Universidade Vanderbilt (EUA). Soma um doutorado (Notre Dame, EUA), dois mestrados em ciência política (Notre Dame e USP), 16 distinções.

Em comum, além da amizade e da paixão pela ciência política, está o interesse das duas em passar a limpo “verdades absolutas” sobre corrupção, comportamento do eleitor e políticas públicas no Brasil.

Eleitor é racista?

O Brasil é um país de desigualdades raciais – no mercado de trabalho, no acesso à educação e à saúde. Atraída pelo tema desde a graduação, Natália Bueno verificou se isso ocorre também na representação política.

O primeiro passo foi confirmar o que o senso comum já sugeria: há, proporcionalmente, mais brancos eleitos do que na população, e os negros são subrepresentados. Por exemplo, embora 45% da população brasileira (segundo o IBGE) se declare branca, na Câmara dos Deputados esse índice é de 80%.

E como a diferença foi mínima na comparação entre população e o grupo dos candidatos que não se elegeram, a conclusão mais rasteira seria: o brasileiro é racista e privilegia brancos ao votar.

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Abertura dos trabalhos no Congresso em 2016; pesquisa investigou desigualdade racial na política nacional. FABIO POZZEBOM/AGÊNCIA BRASIL

Para tentar verificar essa questão de forma científica, Natália montou um megaexperimento em parceria com Thad Dunning, da Universidade da Califórnia (Berkeley). Selecionou oito atores (quatro brancos e quatro negros), que gravaram um trecho semelhante ao horário eleitoral. Expôs 1.200 pessoas a essas mensagens, que só variavam no quesito raça.

Resultado: candidatos brancos não tiveram melhor avaliação nem respondentes privilegiaram concorrentes da própria raça nas escolhas.

Mas se a discrepância entre população e eleitos é real, onde está a resposta? No dinheiro, concluiu Natália – ela descobriu que candidatos brancos são mais ricos e recebem fatia maior da verba pública distribuída por partidos e também das doações privadas.

A diferença média de patrimônio entre políticos brancos (em nível federal, estadual e local) e não brancos foi de R$ 690 mil. E em outra prova do poder do bolso nas urnas, vencedores registraram R$ 650 mil a mais em patrimônio pessoal do que os perdedores.

Políticos brancos também receberam, em média, R$ 369 mil a mais em contribuições de campanha do que não brancos. A análise incluiu dados das eleições de 2008, 2010 e 2014.

“Se a discriminação tem um papel (na desigualdade racial na representação política), ela passa principalmente pelas inequidades de renda e riqueza entre brancos e negros que afetam a habilidade dos candidatos negros de financiar suas campanhas”, diz.

Corruptos estão no poder por que o eleitor é ignorante?

A corrupção é um tema central no debate político atual no Brasil. E se tantos brasileiros percebem a corrupção como problema (98% da população pensa assim, segundo pesquisa de 2014), porque tantos políticos corruptos continuam no poder?

A partir de dados de diferentes pesquisas de opinião – entre elas, dois levantamentos nacionais, com 2 mil e 1,5 mil entrevistados -, a recifense Nara Pavão foi buscar respostas para além do que a ciência política já discutiu sobre o tema.

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Ato contra corrupção no Congresso em 2011; estudo investiga por que corruptos se mantêm no poder. ANTONIO CRUZ/ABR

Muitos estudos já mostraram que a falta de informação política é comum entre a população, e que o eleitor costuma fazer uma troca: ignora a corrupção quando, por exemplo, a economia vai bem.

“Mas para mim a questão não é apenas se o eleitor possui ou não informação sobre políticos corruptos, mas, sim, o que ele vai decidir fazer com essa informação e como essa informação vai afetar a decisão do voto”, afirma a cientista política.

A pesquisa de Nara identificou um fator chave a perpetuar corruptos no poder: o chamado cinismo político – quando a corrupção é recorrente, ela passa ser vista pelo eleitor como um fator constante, e se torna inútil como critério de diferenciação entre candidatos.

Consequência: o principal fator que torna os eleitores brasileiros tolerantes à corrupção é a crença de que a corrupção é generalizada.

“Se você acha que todos os políticos são incapazes de lidar com a corrupção, a corrupção se torna um elemento vazio para você na escolha do voto”, afirma Nara, para quem o Brasil está preso numa espécie de armadilha da corrupção: quão maior é a percepção do problema, menos as eleições servem para resolvê-lo.

Quem recebe Bolsa Família não critica o governo?

O programa Bolsa Família beneficia quase 50 milhões de pessoas e é uma das principais bandeiras das gestões do PT no Planalto. Até por isso, sempre foi vitrine – e também vidraça – do petismo.

Uma das críticas recorrentes pressupõe que o programa, para usar a linguagem da economia política, altera os incentivos que eleitores têm para criticar o governo.

Famílias beneficiadas não se preocupariam, por exemplo, em punir um mau desempenho econômico ou a corrupção, importando-se apenas com o auxílio no começo do mês.

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Material de campanha em dia de votação em São Paulo em 2012; receber benefícios do governo não implica em conivência com Poder Público, conclui estudo. MARCELO CAMARGO/ABR

Deste modo, governos que mantivessem programas massivos de transferência de renda estariam blindados contra eventuais performances medíocres. Seria, nesse sentido, um arranjo clientelista – troca de bens (dinheiro ou outra coisa) por voto.

Um estudo de Nara analisou dados do Brasil e de 15 países da América Latina que possuem programas como o Bolsa Família e não encontrou provas de que isso seja verdade.

“Em geral, o peso eleitoral atribuído à performance econômica e à corrupção do governo é relativamente igual entre aqueles que recebem transferências de renda e aqueles que não recebem”, afirma.

A conclusão é que, embora esses programas proporcionem retornos eleitorais para os governantes de plantão, eles não representam – desde que sigam regras rígidas – incentivo para eleitores ignorarem aspectos ddo desempenho do governo.

ONGs são ralo de dinheiro público?

Organizações de sociedade civil funcionam como um importante instrumento para o Estado fornecer, por meio de parcerias e convênios, serviços à população.

Diferentes governos (federal, estaduais e municipais) transferem recursos a essas entidades para executar programas diversos, de construção de cisternas e atividades culturais.

Apenas em nível federal, essas transferências quase dobraram no período 1999-2010: de RS$ 2,2 bilhões para R$ 4,1 bilhões.

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Cisterna em Quixadá (CE), em serviço que costuma ser delegado a organizações civis; pesquisadora estudou distribuição de recursos públicos para essas entidades. FERNANDO FRAZÃO/ABR

Esse protagonismo enseja questionamentos sobre a integridade dessas parcerias – não seriam apenas um meio de canalizar dinheiro público para as mãos de ONGs simpáticas aos governos de plantão?

Com o papel dessas organizações entre seus principais de interesses de pesquisa, Natália Bueno mergulhou no tema. Unindo métodos quantitativos e qualitativos, analisou extensas bases de dados, visitou organizações e construiu modelos estatísticos.

Concluiu que o governo federal (ao menos no período analisado, de 2003 a 2011) faz, sim, uma distribuição estratégica desses recursos, de olho na disputa política.

“A pesquisa sugere que governos transferem recursos para entidades para evitar que prefeitos de oposição tenham acesso a repasses de recursos federais. Outros fatores, como implementação de políticas públicas para as quais as organizações tem expertise e capacidade únicas, também tem um papel importante.”

Ela não encontrou provas, porém, de eventual corrupção ou clientelismo por trás desses critérios de escolha – o uso das ONGs seria principalmente parte de uma estratégia político-eleitoral, e não um meio de enriquecimento ilícito.

“Esse tipo de distribuição estratégica de recursos é próprio da política e encontramos padrões de distribuição semelhantes em outros países, como EUA, Argentina e México”, diz Natália.

Corrupção é difícil de verificar, mas a pesquisadora usou a seguinte estratégia: comparou ONGs presentes em cidades com disputas eleitorais apertadas, checou a proporção delas no cadastro de entidades impedidas de fechar parcerias com a União e fez uma busca sistemática por notícias e denúncias públicas de corrupção.

De 281 ONGs analisadas, 10% estavam no cadastro de impedidas, e apenas uma por suspeita de corrupção.

How the Active Many Can Overcome the Ruthless Few (The Nation)

Nonviolent direct action was the 20th century’s greatest invention—and it is the key to saving the earth in the 21st century.

By Bill McKibben

NOVEMBER 30, 2016

know what you want from me—what we all want—which is some small solace after the events of Election Day. My wife Sue Halpern and I have been talking nonstop for days, trying to cope with the emotions. I fear I may not be able to provide that balm, but I do offer these remarks in the spirit of resistance to that which we know is coming. We need to figure out how to keep the lights on, literally and figuratively, and all kinds of darkness at bay.

I am grateful to all those who asked me to deliver this inaugural Jonathan Schell Lecture—grateful most of all because it gave me an excuse for extended and happy recollection of one of the most generous friendships of my early adulthood. I arrived at The New Yorker at the age of 21, two weeks out of college, alone in New York City for the first time. The New Yorker was wonderfully quirky, of course, but one of its less wonderful quirks was that most people didn’t talk to each other very much, and especially to newcomers 50 years their junior. There were exceptions, of course, and the foremost exception was Jonathan. He loved to talk, and we had long colloquies nearly every day, mostly about politics.

Ideas—not abstract ideas, but ideas drawn from the world as it wound around him—fascinated him. He always wanted to dig a layer or two deeper; there was never anything superficial or trendy about his analysis. I understood better what he was up to when I came, at the age of 27, to write The End of Nature. It owes more than a small debt to The Fate of the Earth, which let me feel it was possible and permitted to write about the largest questions in the largest ways.

Jonathan Schell

In the years that followed, having helped push action on his greatest cause—the danger of nuclear weapons—that issue began to seem a little less urgent. That perception, of course, is mistaken: Nuclear weapons remain a constant peril, perhaps more than ever in an increasingly multipolar world. But with the end of the Cold War and the build-down of US and Russian weapon stocks, the question compelled people less feverishly. New perils—climate change perhaps chief among them—emerged. Post-9/11, smaller-bore terrors informed our nightmares. We would have been wise, as the rise of a sinister Vladimir Putin and a sinister and clueless Donald Trump remind us, to pay much sharper attention to this existential issue, but the peace dividend turned out mostly to be a relaxing of emotional vigilance.

However, for the moment, we have not exploded nuclear weapons, notwithstanding Trump’s recent query about what good they are if we don’t use them. Our minds can compass the specter of a few mushroom clouds obliterating all that we know and love; those images have fueled a fitful but real effort to contain the problem, resulting most recently in the agreement with Iran. We have not been able to imagine that the billion tiny explosions of a billion pistons in a billion cylinders every second of every day could wreak the same damage, and hence we’ve done very little to ward off climate change.

We are destroying the earth every bit as thoroughly as Jonathan imagined in the famous first chapter of The Fate of the Earth, just a little more slowly. By burning coal and oil and gas and hence injecting carbon dioxide and methane into the atmosphere, we have materially changed its heat-trapping properties; indeed, those man-made greenhouse gases trap the daily heat equivalent of 400,000 Hiroshima-size explosions. That’s enough extra heat that, in the space of a few decades, we have melted most of the summer sea ice in the Arctic—millennia old, meters thick, across a continent-size stretch of ocean that now, in summer, is blue water. (Blue water that absorbs the sun’s incoming rays instead of bouncing them back to space like the white ice it replaced, thus exacerbating the problem even further.) That’s enough heat to warm the tropical oceans to the point where Sue and I watched with our colleagues in the South Pacific as a wave of record-breaking warm water swept across the region this past spring, killing in a matter of weeks vast swaths of coral that had been there since before the beginning of the human experiment. That’s enough heat to seriously disrupt the planet’s hydrological cycles: Since warm air holds more water vapor than cold, we’ve seen steady increases in drought in arid areas (and with it calamities like wildfire) and steady, even shocking, increases in downpour and flood in wet areas. It’s been enough to raise the levels of the ocean—and the extra carbon in the atmosphere has also changed the chemistry of that seawater, making it more acidic and beginning to threaten the base of the marine food chain. We are, it bears remembering, an ocean planet, and the world’s oceanographers warn that we are very rapidly turning the seven seas “hot, sour, and breathless.” To the “republic of insects and grass” that Jonathan imagined in the opening of The Fate of the Earth, we can add a new vision: a hypoxic undersea kingdom of jellyfish.

This is not what will happen if something goes wrong, if some maniac pushes the nuclear button, if some officer turns a key in a silo. This is what has already happened, because all of us normal people have turned the keys to our cars and the thermostat dials on our walls. And we’re still in the relatively early days of climate change, having increased the planet’s temperature not much more than 1 degree Celsius. We’re on a trajectory, even after the conclusion of the Paris climate talks last year, to raise Earth’s temperature by 3.5 degrees Celsius—or more, if the feedback loops we are triggering take full hold. If we do that, then we will not be able to maintain a civilization anything like the one we’ve inherited. Our great cities will be underwater; our fields will not produce the food our bodies require; those bodies will not be able to venture outside in many places to do the work of the world. Already, the World Health Organization estimates, increased heat and humidity have cut the labor a human can perform by 10 percent, a number that will approach 30 percent by midcentury. This July and August were the hottest months in the history of human civilization measured globally; in southern Iraq, very near where scholars situate the Garden of Eden, the mercury in cities like Basra hit 129 degrees—among the highest reliably recorded temperatures in history, temperatures so high that human survival becomes difficult.

Against this crisis, we see sporadic action at best. We know that we could be making huge strides. For instance, engineers have managed to cut the cost of solar panels by 80 percent in the last decade, to the point where they are now among the cheapest methods of generating electricity. A Stanford team headed by Mark Jacobson has shown precisely how all 50 states and virtually every foreign nation could make the switch to renewable energy at an affordable cost in the course of a couple of decades. A few nations have shown that he’s correct: Denmark, for instance, now generates almost half of its power from the wind.

In most places, however, the progress has been slow and fitful at best. In the United States, the Obama administration did more than its predecessors, but far less than physics requires. By reducing our use of coal-fired power, it cut carbon-dioxide emissions by perhaps 10 percent. But because it wouldn’t buck the rest of the fossil-fuel industry, the Obama administration basically substituted fracked natural gas for that coal. This was a mistake: The leakage of methane into the atmosphere means that America’s total greenhouse-gas emissions held relatively steady or perhaps even increased. This willingness to cater to the industry is bipartisan, though in the horror of this past election that was easy to overlook. Here’s President Obama four years ago, speaking to an industry group in Oklahoma: “Now, under my administration, America is producing more oil today than at any time in the last eight years. That’s important to know. Over the last three years, I’ve directed my administration to open up millions of acres for gas and oil exploration across 23 different states. We’re opening up more than 75 percent of our potential oil resources offshore. We’ve quadrupled the number of operating rigs to a record high. We’ve added enough new oil and gas pipeline to encircle the Earth and then some.” Hillary Clinton opened an entire new wing at the State Department charged with promoting fracking around the world. So much for the establishment, now repudiated.

Trump, of course, has famously insisted that global warming is a hoax invented by the Chinese and has promised to abolish the Environmental Protection Agency. His election win is more than just a speed bump in the road to the future—it’s a ditch, and quite likely a crevasse. Even as we gather tonight, international negotiators in Marrakech, stunned by our elections, are doing their best to salvage something of the Paris Agreement, signed just 11 months ago with much fanfare.

* * *

But the real contest here is not between Democrats and Republicans; it’s between human beings and physics. That’s a difficult negotiation, as physics is not prone to compromise. It also imposes a hard time limit on the bargaining; if we don’t move very, very quickly, then any progress will be pointless. And so the question for this lecture, and really the question for the geological future of the planet, becomes: How do we spur much faster and more decisive action from institutions that wish to go slowly, or perhaps don’t wish to act at all? One understands that politicians prize incremental action—but in this case, winning slowly is the same as losing. The planet is clearly outside its comfort zone; how do we get our political institutions out of theirs?

And it is here that I’d like to turn to one of Jonathan’s later books, one that got less attention than it deserved. The Unconquerable World was published in 2003. In it, Jonathan writes, in his distinctive aphoristic style: “Violence is the method by which the ruthless few can subdue the passive many. Nonviolence is a means by which the active many can overcome the ruthless few.” This brings us, I think, to the crux of our moment. Across a wide variety of topics, we see the power of the ruthless few. This is nowhere more evident than in the field of energy, where the ruthless few who lead the fossil-fuel industry have more money at their disposal than any humans in the past. They’ve been willing to deploy this advantage to maintain the status quo, even in the face of clear scientific warnings and now clear scientific proof. They are, for lack of a better word, radicals: If you continue to alter the chemistry of the atmosphere past the point where you’re melting the polar ice caps, then you are engaging in a radicalism unparalleled in human history.

And they’re not doing this unknowingly or out of confusion. Exxon has known all there is to know about climate change for four decades. Its product was carbon, and it had some of the best scientists on earth on its staff; they warned management, in clear and explicit terms, how much and how fast the earth would warm, and management believed them: That’s why, for instance, Exxon’s drilling rigs were built to accommodate the sea-level rise it knew was coming. But Exxon didn’t warn any of the rest of us. Just the opposite: It invested huge sums of money in helping to build an architecture of deceit, denial, and disinformation, which meant humankind wasted a quarter of a century in a ludicrous argument about whether global warming was “real,” a debate that Exxon’s leaders knew was already settled. The company continues to fund politicians who deny climate change and to fight any efforts to hold it accountable. At times, as Steve Coll makes clear in his remarkable book Private Empire, the oil industry has been willing to use explicit violence—those attack dogs in North Dakota have their even more brutal counterparts in distant parts of the planet. More often, the industry has been willing to use the concentrated force of its money. Our largest oil and gas barons, the Koch brothers—two of the richest men on earth, and among the largest leaseholders on Canada’s tar sands—have promised to deploy three-quarters of a billion dollars in this year’s contest. As Jane Mayer put it in a telling phrase, they’ve been able to “weaponize” their money to achieve their ends. So the “ruthless few” are using violence—power in its many forms.

But the other half of that aphorism is hopeful: “Nonviolence is the means by which the active many can overcome the ruthless few.” When the history of the 20th century is written, I’m hopeful that historians will conclude that the most important technology developed during those bloody hundred years wasn’t the atom bomb, or the ability to manipulate genes, or even the Internet, but instead the technology of nonviolence. (I use the word “technology” advisedly here.) We had intimations of its power long before: In a sense, the most resounding moment in Western history, Jesus’s crucifixion, is a prototype of nonviolent action, one that launched the most successful movement in history. Nineteenth-century America saw Thoreau begin to think more systematically about civil disobedience as a technique. But it really fell to the 20th century, and Gandhi, to develop it as a coherent strategy, a process greatly furthered by Dr. Martin Luther King Jr. and his associates in this country, and by adherents around the world: Otpor in Eastern Europe, various participants in the Arab Spring, Buddhist monks in Burma, Wangari Maathai’s tree-planters, and so on.

We have done very little systematic study of these techniques. We have no West Point or Sandhurst for the teaching of nonviolence; indeed, it’s fair to say that the governments of the world have spent far more time figuring out how to stamp out such efforts than to promote them. (And given the level of threat they represent to governments, that is perhaps appropriate.) What we know is what we’ve learned by experience, by trial and error.

In my own case over the last decade, that’s meant helping to organize several large-scale campaigns or social movements. Some have used civil disobedience in particular—I circulated the call for arrestees at the start of the Keystone XL pipeline demonstrations in 2011, and observers said the resulting two weeks of nonviolent direct action resulted in more arrests than any such demonstration on any issue in many years. Others have focused on large-scale rallies—some in this audience attended the massive climate march in New York in the autumn of 2014, organized in part by 350.org, which was apparently the largest demonstration about anything in this country in a long time. Others have been scattered: The fossil-fuel divestment campaign we launched in 2012 has been active on every continent, incorporated a wide variety of tactics, and has become the largest anticorporate campaign of its kind in history, triggering the full or partial divestment of endowments and portfolios with nearly $5 trillion in assets. These actions have helped spur many more such actions: Keystone represented a heretofore very rare big loss for Big Oil, and its success helped prompt many others to follow suit; now every pipeline, fracking well, coal mine, liquid-natural-gas terminal, and oil train is being fought. As an executive at the American Petroleum Institute said recently—and ruefully—to his industry colleagues, they now face the “Keystone-ization” of all their efforts.

And we have by no means been the only, or even the main, actor in these efforts. For instance, indigenous activists have been at the forefront of the climate fight since its inception, here and around the world, and the current fight over the Dakota Access pipeline is no exception. They and the residents of what are often called “frontline” communities, where the effects of climate change and pollution are most intense, have punched far above their weight in these struggles; they have been the real leaders. These fights will go on. They’ll be much harder in the wake of Trump’s election, but they weren’t easy to begin with, and I confess I see little alternative—even under Obama, the chance of meaningful legislation was thin. So, using Jonathan’s template, I’ll try to offer a few lessons from my own experience over the last decade.

* * *

Lesson one: Unearned suffering is a potent tool. Volunteering for pain is an unlikely event in a pleasure-based society, and hence it gets noticed. Nonviolent direct action is just one tool in the activist tool kit, and it should be used sparingly—like any tool, it can easily get dull, both literally and figuratively. But when it is necessary to underline the moral urgency of a case, the willingness to go to jail can be very powerful, precisely because it goes against the bent of normal life.

It is also difficult for most participants. If you’ve been raised to be law-abiding, it’s hard to stay seated in front of, say, the White House when a cop tells you to move. Onlookers understand that difficulty. I remember Gus Speth being arrested at those initial Keystone demonstrations. He’d done everything possible within the system: co-founded the Natural Resources Defense Council, chaired the president’s Council on Environmental Quality, ran the entire UN Development Program, been a dean at Yale. But then he concluded that the systems he’d placed such faith in were not coming close to meeting the climate challenge—so, in his 70s, he joined that small initial demonstration. Because his son was a high-powered lawyer, Gus was the only one of us able to get a message out during our stay in jail. What he told the press stuck with me: “I’ve held many important positions in this town,” he said. “But none seem as important as the one I’m in today.” Indeed, his witness pulled many of the nation’s environmental groups off the sidelines; when we got out, he and I wrote a letter to the CEOs of all those powerful green groups, and in return they wrote a letter to the president saying, “There is not an inch of daylight between our position and those of the people protesting on your lawn.” Without Gus’s willingness to suffer the indignity and discomfort of jail, that wouldn’t have happened, and the subsequent history would have been different.

Because it falls so outside our normal search for comfort, security, and advancement, unearned suffering can be a powerful tool. Whether this will be useful against a crueler White House and a nastier and more empowered right wing remains to be seen, but it will be seen. I imagine that the first place it will see really widespread use is not on the environment, but in regard to immigration. If Trump is serious about his plans for mass deportation, he’ll be met with passive resistance of all kinds—or at least he should be. All of us have grown up with that Nazi-era bromide about “First they came for the Jews, but I was not a Jew…” In this case, there’s no mystery: First they’re coming for the undocumented. It will be a real fight for the soul of our nation, as the people who abstractly backed the idea of a wall with Mexico are forced to look at the faces of the neighbors they intend to toss over it.

Lesson two: These tactics are useful to the degree that they attract large numbers of people to the fight. Those large numbers don’t need to engage in civil disobedience; they just need to engage in the broader battle. If you think about it, numbers are the currency of movements, just as actual cash is the currency of the status quo—at least until such time as the status quo needs to employ the currency of violence. The point of civil disobedience is rarely that it stops some evil by itself; instead, it attracts enough people and hence attention to reach the public at large.

When the Keystone demonstrations began, for instance, no one knew what the pipeline was, and it hadn’t occurred to people to think about climate change in terms of infrastructure. Instead, we thought about it in the terms preferred by politicians, i.e., by thinking about “emissions reductions” far in the future from policies like increased automobile efficiency, which are useful but obviously insufficient. In the early autumn of 2011, as we were beginning the Keystone protests, the National Journal polled its DC “energy insiders,” and 93 percent of them said TransCanada would soon have its permit for the pipeline. But those initial arrests attracted enough people to make it into a national issue. Soon, 15,000 people were surrounding the White House, and then 50,000 were rallying outside its gates, and before long it was on the front pages of newspapers. The information spread, and more importantly the analysis did too: Infrastructure became a recognized point of conflict in the climate fight, because enough people said it was. Politicians were forced to engage on a ground they would rather have avoided.

In much the same way, the divestment movement managed to go from its infancy in 2012 to the stage where, by 2015, the governor of the Bank of England was repeating its main bullet points to the world’s insurance industry in a conference at Lloyd’s of London: The fossil-fuel industry had more carbon in its reserves than we could ever hope to burn, and those reserves posed the financial risk of becoming “stranded assets.” Note that it doesn’t take a majority of people, or anywhere close, to have a significant—even decisive—impact: In an apathetic world, the active involvement of only a few percentage points of the citizenry is sufficient to make a difference. No more than 1 percent of Americans, for instance, ever participated in a civil-rights protest. But it does take a sufficient number to make an impression, whether in the climate movement or the Tea Party.

Lesson three: The real point of civil disobedience and the subsequent movements is less to pass specific legislation than it is to change the zeitgeist. The Occupy movement, for instance, is often faulted for not having produced a long list of actionable demands, but its great achievement was to make, by dint of recognition and repetition, the existing order illegitimate. Once the 99 percent and the 1 percent were seen as categories, our politics began to shift. Bernie Sanders, and to a lesser extent Donald Trump, fed on that energy. That Hillary Clinton was forced to say that she too opposed the Trans-Pacific Partnership trade deal was testimony to the power of the shift in the zeitgeist around inequality. Or take LGBTQ rights: It’s worth remembering that only four years ago, both Barack Obama and Hillary Clinton still opposed same-sex marriage. That’s difficult to recall now, since at this point you’d think they had jointly invented the concept. But it was skillful organizing for many years that changed less the laws of the land than the zeitgeist of the culture. Yes, some of those battles were fought over particular statutes; but the battles in Hollywood, and at high-school proms, and in a dozen other such venues were as important. Once movements shift the zeitgeist, then legislative victory becomes the mopping-up phase; this one Trump won’t even attempt to turn back.

This is not how political scientists tend to see it—or politicians, for that matter. Speaking to Black Lives Matter activists backstage in the course of the primary campaign, Hillary Clinton laid out her essential philosophy: “I don’t believe you change hearts. I believe you change laws, you change allocation of resources, you change the way systems operate.” This is, I think, utterly backward, and it explains much of the intuitive sense among activists of all stripes that Clinton wouldn’t have been a leader. As Monica Reyes, one of the young immigration activists in the Dreamer movement—great organizers who did much to shift public opinion—put it: “You need to change the culture before you can change laws.” Or as that guy Abraham Lincoln once put it: “Public sentiment is everything.”

By forever straddling the middle, centrist politicians delay changes in public sentiment. The viewpoint of the establishment—an appellation that in this case includes everyone from oil companies to presidents—is always the same: We need to be “realistic”; change will come slowly if it comes at all; and so forth. In normal political debates, this is reasonable. Compromise on issues is the way we progress: You want less money in the budget for X, and I want more, and so we meet in the middle and live to fight another day. That’s politics, as distinct from movement politics, which is about changing basic feelings over the great issues of the day. And it’s particularly true in the case of climate change, where political reality, important as it is, comes in a distinct second to reality reality. Chemistry and physics, I repeat, do what they do regardless of our wishes. That’s the difference between political science and science science.

* * *

There are many other points that Jonathan gets at in his book, but there’s one more that bears directly on the current efforts to build a movement around climate change. It comes in his discussion of Hannah Arendt and Mohandas Gandhi. Despite widespread agreement on the sources of power and the possibilities for mobilization, he finds one large difference between the two: Whereas Gandhi saw “spiritual love as the source and inspiration of nonviolent action, Arendt was among those who argued strenuously against introducing such love into the political sphere.” Hers was not an argument against spiritual love, but rather a contention that it mostly belonged in the private sphere, and that “publicity, which is necessary for politics, will coarsen and corrupt it by turning it into a public display, a show.” I will not attempt to flesh out the illuminating arguments on both sides, but I will say that I have changed my mind somewhat over the years on this question, at least as it relates to climate change.

Gandhi, like Thoreau before him, was an ascetic, and people have tended to lump their political and spiritual force together—and, in certain ways, they were very closely linked. Gandhi’s spinning wheel was a powerful symbol, and a powerful reality, in a very poor nation. He emphasized individual action alongside political mobilization, because he believed that Indians needed to awaken a sense of their own agency and strength. This was a necessary step in that movement—but perhaps a trap in our current dilemma. By this I mean that many of the early efforts to fight climate change focused on a kind of personal piety or individual action, reducing one’s impact via lightbulbs or food choices or you name it. And these are useful steps. The house that Sue and I inhabit is covered with solar panels. I turn off lights so assiduously that our daughter, in her Harry Potter days, referred to me as “the Dark Lord.” Often in my early writing, I fixed on such solutions. But in fact, given the pace with which we now know climate change is advancing, they seem not irrelevant but utterly ill-equipped for the task at hand.

Let’s imagine that truly inspired organizing might somehow get 10 percent of the population to become really engaged in this fight. That would be a monumental number: We think 10 percent of Americans participated in some fashion in the first Earth Day in 1970, and that was doubtless the high point of organizing on any topic in my lifetime. If the main contribution of this 10 percent was to reduce its own carbon footprint to zero— itself an impossible task—the total impact on America’s contribution to atmospheric carbon levels would be a 10 percent reduction. Which is helpful, but not very. But that same 10 percent—or even 2 or 3 percent—actually engaged in the work of politics might well be sufficient to produce structural change of the size that would set us on a new course: a price on carbon, a commitment to massive subsidies for renewable energy, a legislative commitment to keep carbon in the ground.

Some people are paralyzed by the piety they think is necessary for involvement. You cannot imagine the anguished and Talmudic discussions I’ve been asked to adjudicate on whether it’s permissible to burn gasoline to attend a climate rally. (In my estimation, it’s not just permissible, it’s very nearly mandatory—the best gas you will burn in the course of a year.) It has also become—and this is much more dangerous—the pet argument of every climate denier that, unless you’re willing to live life in a dark cave, you’re a hypocrite to stand for action on climate change. This attempt to short-circuit people’s desire to act must be rejected. We live in the world we wish to change; some hypocrisy is the price of admission to the fight. In this sense, and this sense only, Gandhi is an unhelpful example, and a bludgeon used to prevent good-hearted people from acting.

In fact, as we confront the blunt reality of a Trump presidency and a GOP Congress, it’s clearer than ever that asceticism is insufficient, and maybe even counterproductive. The only argument that might actually discover a receptive audience in the new Washington is one that says, “We need a rapid build-out of solar and wind power, as much for economic as environmental reasons.” If one wanted to find the mother lode of industrial jobs that Trump has promised, virtually the only possible source is the energy transformation of our society.

I will end by saying that movement-building—the mobilization of large numbers of people, and of deep passion, through the employment of all the tools at a nonviolent activist’s disposal—will continue, though it moves onto very uncertain ground with our new political reality. This work of nonviolent resistance is never easy, and it’s becoming harder. Jonathan’s optimism in The Unconquerable World notwithstanding, more and more countries are moving to prevent real opposition. China and Russia are brutally hard to operate in, and India is reconfiguring its laws to go in the same direction. Environmentalists are now routinely assassinated in Honduras, Brazil, the Philippines. Australia, where mining barons control the government, has passed draconian laws against protest; clearly Trump and his colleagues would like to do the same here, and will doubtless succeed to one extent or another. The savagery of the police response to Native Americans in North Dakota reminds us how close to a full-bore petro-state we are.

And yet the movement builds. I don’t know whether it builds fast enough. Unlike every other challenge we’ve faced, this one comes with a time limit. Martin Luther King would always say, quoting the great Massachusetts abolitionist Theodore Parker, that “the arc of the moral universe is long, but it bends toward justice”—meaning that it may take a while, but we are going to win. By contrast, the arc of the physical universe is short and it bends toward heat. I will not venture to predict if we can, at this point, catch up with physics. Clearly, it has a lot of momentum. It’s a bad sign when your major physical features begin to disappear—that we no longer have the giant ice cap in the Arctic is disconcerting, to say the least. So there’s no guarantee of victory. But I can guarantee that we will fight, in every corner of the earth and with all the nonviolent tools at our disposal. And in so doing, we will discover if these tools are powerful enough to tackle the most disturbing crisis humans have ever faced. We will see if that new technology of the 20th century will serve to solve the greatest dilemma of our new millennium.

What It’s Like Being a Sane Person on the House Science Committee (Gizmodo)

12/23/16 12:00pm

Artwork by Jim Cooke

Congressional Committee tweets don’t usually get much attention. But when the House Committee on Science, Space, and Technology sent out a link to a Breitbart story claiming a “plunge” in global temperatures, people took notice. The takedowns flew in, from Slate and Bernie Sanders, from plenty of scientists, and most notably from the Weather Channel, which deemed Breitbart’s use of their meteorologist’s face worthy of a point-by-point debunking video.

There is nothing particularly noteworthy about Breitbart screwing up climate science, but the House Science Committee is among the most important scientific oversight bodies in the country. Since Texas Republican Lamar Smith took over its leadership in 2012, the Committee has spiraled down an increasingly anti-science rabbit hole: absurd hearings aimed at debunking consensus on global warming, outright witch hunts using the Committee’s subpoena power to intimidate scientists, and a Republican membership that includes some of the most anti-science lawmakers in the land.

The GOP’s shenanigans get the headlines, but what about the other side of the aisle? What is it like to be a member of Congress and sit on a science committee that doesn’t seem to understand science? What is it like to be an adult in a room full of toddlers? I asked some of the adults.

“I think it’s completely embarrassing,” said Mark Veasey, who represents Texas’s 33rd district, including parts of Dallas and Fort Worth. “You’re talking about something that 99.9 percent—if not 100 percent—of people in the legitimate science community says is a threat….To quote Breitbart over some of the most brilliant people in the world—and those are American scientists—and how they see climate change, I just think it’s a total embarrassment.”

Paul Tonko, who represents a chunk of upstate New York that includes Albany, has also called it embarrassing. “It is frustrating when you have the majority party of a committee pushing junk science and disproven myths to serve a political agenda,” he said. “It’s not just beneath the dignity of the Science Committee or Congress as a whole, it’s inherently dangerous. Science and research seek the truth—they don’t always fit so neatly with agendas.”

“I think it’s completely embarrassing.”

Suzanne Bonamici, of Oregon’s 1st District, also called it frustrating “to say the least” that the Committee “is spending time questioning climate researchers and ignoring the broad scientific consensus.” California Rep. Eric Swalwellcalled it the “Science” Committee in an email, and made sure I noted the air quotes. He said that in Obama’s first term, the Committee helped push forward on climate change and a green economy. “For the last four years, however, being on the Committee has meant defending the progress we’ve made.”

Frustration, embarrassment, a sense of Sisyphean hopelessness—this sounds like a grim gig. And Veasey also said that he doesn’t have much hope for a change in the Science Committee’s direction, because that change would have to come from the chairman. Smith has received hundreds of thousands of dollars in campaign support from the oil and gas industry over the years, and somehow finds himself in even greater climate change denial than ExxonMobil.

And of course, it isn’t just the leadership. The League of Conservation Voters maintains a scorecard of every legislator in Congress: for 2015, the most recent year available, the average of all the Democratic members on the science committee is 92.75 percent (with 100 being a perfect environment-friendly score). On the GOP side of the aisle, the average is just over three percent.

(I reached out to a smattering of GOP members of the Committee to get their take on its recent direction. None of them responded.)

Bill Foster, who represents a district including some suburbs of Chicago, is the only science PhD in all of Congress (“I very often feel lonely,” he said, before encouraging other scientists to run for office). “Since I made the transition from science into politics not so long ago, I’ve become very cognizant of the difference between scientific facts, and political facts,” he said. “Political facts can be established by repeating over and over something that is demonstrably false, then if it comes to be accepted by enough people it becomes a political fact.” Witness the 52 percent of Republicans who currently believe Trump won the popular vote, and you get the idea.

I’m not sure “climate change isn’t happening” has reached that “political fact” level, though Smith and his ilk have done their damndest. Recent polls suggest most Americans do understand the issue, and more and more they believe the government should act aggressively to tackle it.

“Political facts can be established by repeating over and over something that is demonstrably false, then if it comes to be accepted by enough people it becomes a political fact.”

That those in charge of our government disagree so publicly and strongly now has scientists terrified. “This has a high profile,” Foster said, “because if there is any committee in Congress that should operate on the basis of scientific truth, it ought to be the Science, Space, and Technology committee—so when it goes off the rails, then people notice.”

The odds of the train jumping back on the rails over the next four years appear slim. Policies that came from the Obama White House, like the Clean Power Plan, are obviously on thin ice with a Trump administration, and without any sort of check on Smith and company it is hard to say just how pro-fossil fuel, anti-climate the committee could really get.

In the face of all that, what is a sane member of Congress to do? Elizabeth Esty, who represents Connecticut’s 5th district, was among several Committee members to note that in spite of the disagreements on climate, she has managed to work with GOP leadership on other scientific issues. Rep. Swalwell said he will try and focus on bits of common ground, like the jobs that come with an expanding green economy. Rep. Veasey said his best hope is that some strong conservative voices from outside of Congress might start to make themselves heard by the Party’s upper echelons on climate and related issues.

An ugly and dire scenario, then, but the Democrats all seem to carry at least a glimmer of hope. “It’s certainly frustrating and concerning but I’m an optimist,” Esty said. “I wouldn’t run for this job if I weren’t.”

Dave Levitan is a science journalist, and author of the book Not A Scientist: How politicians mistake, misrepresent, and utterly mangle science. Find him on Twitter and at his website.

Rise of the internet has reduced voter turnout (Science Daily)

Date:
September 16, 2016
Source:
University of Bristol
Summary:
During the initial phase of the internet, a “crowding-out” of political information occurred, which has affected voter turnout, new research shows.

The internet has transformed the way in which voters access and receive political information. It has allowed politicians to directly communicate their message to voters, circumventing the mainstream media which would traditionally filter information.

Writing in IZA World of Labor, Dr Heblich from the Department of Economics, presents research from a number of countries, comparing voter behaviour of municipalities with internet access to the ones without in the early 2000s. It shows municipalities with broadband internet access faced a decrease in voter turnout, due to voters suddenly facing an overwhelmingly large pool of information and not knowing how to filter relevant knowledge efficiently. Similarly, the internet seemed to have crowded out other media at the expense of information quality.

However, the introduction of interactive social media and “user-defined” content appears to have reversed this. It helped voters to collect information more efficiently. Barack Obama’s successful election campaign in 2008 set the path for this development. In the so-called “Facebook election,” Obama successfully employed Chris Hughes, a Facebook co-founder, to lead his highly effective election campaign.

Using a combination of social networks, podcasts, and mobile messages, Obama connected directly with (young) American voters. In doing so, he gained nearly 70 per cent of the votes among Americans under the age of 25.

But there is a downside: voters can now be personally identified and strategically influenced by targeted information. What if politicians use this information in election campaigns to target voters that are easy to mobilize?

Dr Heblich’s research shows there is a thin line between desirable benefits of more efficient information dissemination and undesirable possibilities of voter manipulation. Therefore, policymakers need to consider introducing measures to educate voters to become more discriminating in their use of the internet.

Dr Heblich said: “To the extent that online consumption replaces the consumption of other media (newspapers, radio, or television) with a higher information content, there may be no information gains for the average voter and, in the worst case, even a crowding- out of information.

“One potential risk relates to the increasing possibilities to collect personal information known as ‘big data’. This development could result in situations in which individual rights are violated, since the personal information could be used, for example, to selectively disseminate information in election campaigns and in influence voters strategically.”

See the report at: http://wol.iza.org/articles/effect-of-internet-on-voting-behavior

O voo dos Gaviões pela liberdade e critica social nas arquibancadas do Brasil (Le Monde Diplomatique Brasil)

Por Sandro Barbosa de Oliveira

04 de Março de 2016

O estopim para que ocorressem tais manifestações talvez seja o fato do deputado estadual Fernando Capez (PSDB) estar envolvido em denúncias sobre o esquema de desvio de verbas das merendas das escolas públicas do estado de São Paulo. Não por acaso que os Gaviões miram em Capez: o inimigo número um das torcidas.

Muito tem se falado sobre as manifestações políticas da torcida Gaviões da Fiel nos jogos do Campeonato Paulista, mas pouco sobre a história que fundamenta tais manifestações. Por isso, esse artigo pretende apresentar alguns elementos que possam contribuir para elucidar esse fenômeno e problematizar os aspectos que envolvem o seu desenvolvimento. Para tanto, inicia com a seguinte pergunta: quando foi que a torcida realizou a primeira manifestação em 2016?

Final da Copa São Paulo de Futebol Júnior de 2016. Os Gaviões da Fiel Torcida, que tomaram parte das arquibancadas do lendário estádio do Pacaembu, decidiram realizar uma festa popular ao acenderem sinalizadores e gás de fumaça para festejar a partida decisiva entre Corinthians e Flamengo, com a presença das duas maiores torcidas do país. Até aí tudo bem se não fosse o fato de sinalizadores e fumaça serem proibidos pela Federação Paulista de Futebol (FPF) e coibidos pela Polícia Militar (PM) do estado de São Paulo. Mas essa não foi uma simples festa popular. Com essa ação, a torcida corinthiana iniciou uma série de protestos políticos contra FPF, o preço dos ingressos e as proibições que sofrem as torcidas para ingressar com bandeiras, faixas e sinalizadores inofensivos nas arquibancadas, fato que fez com que a torcida sofresse outra punição: ficar 60 dias proibida de entrar com faixas e bandeiras nos estádios.

Esse processo de proibições vem desde 1995 e se institucionalizou na forma de punição sobre as torcidas organizadas (elas que representam a organização coletiva e política de seus torcedores) após o infeliz acontecimento decorrente da briga entre torcidas dos times São Paulo e Palmeiras, também na final da Copa São Paulo daquele ano. De lá para cá a imprensa esportiva, o Ministério Público (sob ações do promotor Fernando Capez), a PM e a FPF construíram um discurso e passaram a criminalizar as torcidas organizadas ao realizar ações para que elas perdessem seu espaço nos estádios, com o objetivo de consolidar o padrão de outro tipo de torcedor: o torcedor “família”, consumidor e individual do chamado “futebol moderno”, aquele que consome, porém, não questiona enquanto sujeito político os problemas do esporte nas arquibancadas.

Nesse meio tempo, com as torcidas banidas por um período das arquibancadas e com o discurso da violência nos estádios, a Rede Globo de televisão, aliada de cartolas e dirigentes de clubes, federações e da CBF, estabeleceu a compra das transmissões para consolidar um sistema de transmissão fechado em canais pago, e deter preferência nas transmissões em canal aberto através de privilégios. Ela negociou diretamente com cada clube e estabeleceu contratos que amarram futuras decisões. Com isso, criou-se um público de torcedores que não iam mais ao estádio (com medo das torcidas) e que assistiam no conforto de suas casas, com seus familiares e amigos até que os estádios voltassem a ser “seguros” e compatíveis com certos interesses de classes desses agentes. Ao retornarem aos estádios, as torcidas foram fichadas pela PM e ficaram impedidas de entrar com bandeiras de bambu, sinalizadores inofensivos e com outros adereços.

Recentemente e não por acaso, foi perceptível que antes, durante e após a Copa do Mundo no Brasil em 2014 organizado pela Fédération Internationale de Football Association (FIFA) – entidade maior do futebol que também está manchada por escândalos de corrupção tal como a CBF e a FPF – construiu-se um discurso sobre o tal padrão de torcedor e estádio que deveria ser consolidado no país. A organização local desse torneio impediu que manifestantes se aproximassem dos estádios (chamados agora de arenas) por meio de um forte aparato repressor, ao se passar uma imagem para o mundo de que o país vivia alegre e festivamente a Copa (imagem veiculada pela transmissão oficial). No entanto, outros meios mostravam a real situação nas ruas através das manifestações organizadas pelos Comitês Populares da Copa e que foram reprimidas com violência e prisões, imagens estas veiculadas pelas mídias alternativas na Internet. Nesse momento, os Gaviões da Fiel estiveram calados e sequer se manifestaram contra o processo de elitização no futebol que vinha antes da Copa e que se potencializou com o torneio. Se tivessem se posicionado, teriam o apoio das organizações populares que estavam nas ruas lutando por uma Copa popular.

Mas por que os Gaviões da Fiel se manifestaram somente agora em 2016?

Um dos aspectos que chamam a atenção é o posicionamento da atual diretoria dos Gaviões através de seu presidente Rodrigo Fonseca, o Diguinho, que disse em entrevista ao jornal Brasil de Fato que “Não podemos assistir omissos ao processo de elitização do futebol”. De fato, ele reconhece que “não apenas o Corinthians está passando faz anos e tornando a arquibancada um lugar mais branco e rico que outrora”, e destaca que “CBF, FPF, Rede Globo, diretoria do Corinthians e os tais promotores, todos eles trabalham em conjunto para fazer do futebol um espetáculo de elite”.

Outro aspecto importante é que em 2015 os Gaviões soltaram notas em apoio à greve dos professores da rede pública estadual que durou 90 dias, e aos estudantes que lutaram contra a reorganização escolar e ocuparam com ousadia o coração do espaço público na sociedade – as escolas públicas do estado de São Paulo. Ambas as lutas contra o governo do estado que também puniu as torcidas com uma visão elitista de criminalizá-las. Essas lutas sem dúvida influenciaram os Gaviões e os fez alçar novos voos pela liberdade também nas arquibancadas, ao buscarem em sua própria história e origem o legado da luta contra um sistema opressor em defesa da liberdade e da crítica social nas arquibancadas por meio de um despertar político. Os Gaviões nasceram para fiscalizar e lutar contra os autoritarismos e as censuras impostas pela arbitrariedade de dirigentes e federações no clube e no futebol durante a ditadura militar. Foi a primeira (e talvez única) torcida a levantar em 1979 a faixa pela Anistia ampla aos presos políticos.

Regressando um pouco ao ano de 2007, ano em que a torcida corinthiana protagonizou o Movimento Fora Dualib, o futebol do Corinthians enfrentava crises sem tréguas que culminou com o rebaixamento no Campeonato Brasileiro daquele ano. A crise que estourou no clube foi resultado das tramas entre dirigentes que agiam de maneira oligárquica e o setor financeiro. No ano de 2005 eles realizaram uma parceria com a Media Sports Investment (MSI), representada pelo iraniano Kia Joorabchian, parceria que expressou a chegada de capitais britânicos e russos de origem duvidosa ao futebol brasileiro. A MSI estabeleceu um contrato em que iria realizar investimentos por dez anos no futebol do Corinthians ao contratar jogadores renomados e construir o estádio para o clube. Ela formou um time que auto intitulou de “galácticos” que conquistou o Campeonato Brasileiro de 2005, mas que na temporada seguinte, devido ao desgaste pelo controle do futebol do clube entre Kia e Dualib, deixou de enviar recursos ao clube que gerenciou o departamento de futebol por conta própria e acumulou uma dívida superior aos R$ 70 milhões. A parceria, que ganhou as manchetes e elevou o clube aos noticiários esportivos do mundo, terminou em 2007 nas páginas policiais com a intervenção do Ministério Público Federal e o bloqueio das contas da MSI e de seus representantes acusados de lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, aspectos que fizeram com que os Gaviões e as demais torcidas corinthianas se mobilizarem para retirar da presidência o responsável por essa trama: Alberto Dualib.

Mas o que esse episódio na história do Corinthians pode dizer sobre o futebol brasileiro? Em primeiro lugar, o futebol é a expressão da formação social, econômica e política da sociedade brasileira organizada para exportar “produtos primários”, aspecto estrutural de uma economia “voltada para fora” e que foi devidamente analisada pelo historiador Caio Prado Júnior quando desvelou o seu caráter dependente. No caso do futebol, isso implica em dizer que parte dos jogadores preparados aqui tem seus passes “vendidos” precocemente em transações financeiras para os grandes clubes da Europa, o que atribui um papel decisivo a um agente que não existia antes no futebol – o empresário de jogador, aquele que faz a ponte entre o clube daqui com os clubes estrangeiros de lá. O futebol expressa a desigualdade social já que 0,80% dos jogadores recebem salários entre R$ 50 mil a R$ 500 mil e 82,40% não recebem mais que R$ 1.000,00.[1] Em segundo lugar, os clubes que querem formar grandes elencos para a conquista de títulos e não criaram condições próprias para isso, acabam por depender de recursos externos e recorrem aos investidores, patrocinadores e parceiros na execução dos chamados “projetos” para aquela temporada ou para um período maior. O fato é que os clubes de futebol, que são entidades sem fins lucrativos e/ou associações, passaram a depender de agentes do setor financeiro que visam com os seus “investimentos” encontrar fontes mais rentáveis para suas receitas e viram nos clubes um jeito de gerar rentabilidade aos seus capitais livres de impostos. O problema é o descompasso entre os clubes, já que parte ainda são geridos de maneira oligárquica por seus dirigentes, e os agentes financeiros, empresas e pessoas físicas que investem recursos para obter lucro.

Em tal cenário de investimentos de capitais e mercantilização sem riscos as torcidas organizadas passaram a ser um problema, pois elas querem ver seus times com elencos fortes e disputando títulos, e questionam com força quando isso não acontece. Elas entraram também no jogo do “mercado” e deixaram de lado as manifestações política que marcaram suas trajetórias. Então, como o futebol não é uma ciência exata e depende da dinâmica dos jogos e da organização das equipes, nem sempre é provável que o elenco mais caro e forte saia vencedor daquele campeonato. Mas como os clubes brasileiros foram integrados em um mundo de economia globalizada, financeirizada e midiatizada, precisam lidar com “a propaganda como a alma do negócio”. Mesmo que não vençam campeonatos, o importante é a marca aparecer e se autovalorizar, e para isso o marketing dos clubes grandes foi ampliado. Outro aspecto é que as brigas entre as torcidas que expressava a organização das classes populares teria afastado o torcedor-consumidor do ideário liberal-econômico que manteria essa engrenagem funcionando.

Nesse sentido, estaria aí um nexo que articula uma explicação possível para a proibição das torcidas nos estádios em São Paulo: por um lado, altos investimentos de empresas e emissoras de televisão nos clubes grandes e nas federações, para que garantam o monopólio e o privilégio de valorização e transmissão das partidas, por outro, pacificação e aburguesamento nas arquibancadas, expresso inclusive no programa Fiel Torcedor que exclui e individualiza o acesso ao estádio, duplo movimento chamado pelas torcidas de “futebol moderno”, o qual é possível defini-lo por futebol elitizado. O futebol paulista e brasileiro, portanto, faz então um movimento de regresso às suas origens direto para a elitização, mas com os conflitos de nosso tempo histórico, já que o mesmo se popularizou a partir da década de 1930 e se tornou paixão nacional na década de 1950 entre as classes populares nos processos de industrialização da sociedade.

Por isso, e retomando a importância das recentes manifestações, por que os atos nas arquibancadas protagonizados pelos Gaviões ganharam ressonância geral para além do clubismo? Talvez porque a torcida corinthiana decidiu atacar de maneira politizada as raízes do problema que determinou a sua punição no estádio com uma pauta clara e direta. Com faixas nas partidas contra o Capivariano e o São Paulo no Campeonato Paulista de 2016 estabeleceu o seguinte diálogo com a sociedade: “Rede Globo, o Corinthians não é o seu quintal”; “Cadê as contas do estádio?”; “CBF, FPF a vergonha do futebol”; “Futebol refém da Rede Globo”; “Quem vai punir o ladrão de merendas?”; “Ingresso mais barato”. Foi a primeira vez que uma torcida se manifestou explicitamente nas arquibancadas contra essas entidades e emissora. Entretanto, ao denunciar os causadores da falta de liberdade de expressão e de sua punição das arquibancadas, os Gaviões enfrentaram a PM e a FPF que impediam que as torcidas se manifestassem politicamente nos estádios. Ao derrubarem os argumentos das “autoridades” com referência ao próprio Estatuto do Torcedor que seus algozes utilizavam, demonstraram conhecimento de causa e puderam deslegitimar a tentativa da FPF e da PM de criminalizá-los.

Cabe destacar que o primeiro movimento de torcedores corinthianos contra o “futebol moderno” dentro e fora do Itaquerão (estádio do Corinthians) foi protagonizado por um pequeno grupo de dissidentes dos Gaviões e torcedores comuns em 2014, quando resgataram o movimento criado pelas organizadas “Andrés aqui não tem burguês”. Eles se manifestaram com faixas e dizeres do tipo “Ingresso caro = corinthiano de fora”, ao se posicionar contra os ingressos caros no novo estádio e chamar a atenção para a exclusão dos corinthianos das classes populares (preto, pobre e periférico). Contudo, sofreram represália da PM e tiveram suas faixas tomadas sob alegação de que estavam violando a lei. Esse movimento ficou restrito a este grupo pequeno e não teve visibilidade como ocorreu agora com as ações dos Gaviões que sempre foi referência política e de canto na arquibancada. De qualquer maneira, o grupo criticou o ex-presidente Andrés Sanchez, responsável pela gestão do estádio, e conseguiu uma conquista importante já que foi ano de eleição: uma pequena baixa no preço dos ingressos. Só que o preço dos ingressos continuou alto para as condições de vida das classes populares que historicamente frequentaram os estádios, não só em jogos no Itaquerão, mas também em jogos com mando de campo de times do interior.

Mas no atual momento o que defendem os Gaviões?

Os Gaviões defendem o direito à liberdade de expressão e à livre manifestação da coletividade nas arquibancadas desse Brasil a fora. Essa liberdade foi garantida pela Constituição Federal de 1988 que diz que “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo, não sofrerão qualquer restrição”. Todavia, segundo o Estatuto do Torcedor e o regulamento da FPF, os torcedores podem se manifestar pacificamente nas arquibancadas. Por isso, como disse o jornalista José Trajano “tudo o que eles manifestaram, através das faixas, tem o apoio da maioria da população brasileira. Eles são os nossos porta-vozes. Assino embaixo”. Esse sentimento particular de uma torcida que luta por sua liberdade de crítica social é o sentimento geral de maior parte da população brasileira que se reconhece e se identifica nesse tipo de manifestação, já que o futebol enquanto paixão nacional se tornou um lazer mercantilizado e gerido por dirigentes mafiosos que estão imersos em esquemas de corrupção e lavagem de dinheiro, dominado por uma emissora de TV e que parecem desconsiderar os valores afetivos e de sociabilidade que os torcedores têm por esse esporte popular.

Ademais, talvez o estopim para que ocorressem tais manifestações agora seja o fato de haver chegado ao público denúncias sobre o esquema de desvio de verbas das merendas das escolas públicas do estado de São Paulo, esquema que teria como principal articulador o promotor e deputado estadual Fernando Capez (Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB). Não por acaso que os Gaviões miram em Capez: o inimigo número um das torcidas e que agora se encontra imerso em denúncias sobre atitudes ilícitas e criminosas de desvio de verbas, aspecto que sempre atribuiu em seus discursos às torcidas organizadas. Ironias da história que não só gira, mas, sobretudo, se desenvolve em um movimento espiral de contradições e conflitos sociais em que os agentes e os acontecimentos se convertem no seu contrário, o bom moço da promotoria está no banco dos réus enquanto que os Gaviões procuram resgatar sua imagem de torcida que faz a festa e manifestações legítimas com forte apelo social.

Por fim, os Gaviões apresentam uma crítica social e não só do futebol ao que ocorreu nas escolas públicas com a chamada propina da merenda escolar e parece conclamar as torcidas, os estudantes e os trabalhadores, já que entoaram o canto “Eu não roubo merenda, eu não sou deputado. Trabalho todo dia, não roubo meu Estado” e de “Ladrão, ladrão, devolve o futebol pro povão”, para lutar contra os desmandos e arbitrariedades da FPF e do partido do governo estadual nesses 21 anos de mandatos, o mesmo partido que proibiu as torcidas de se manifestarem nos estádios, os estudantes de se manifestarem nas escolas e os professores de se manifestarem nas ruas. Tal como analisou Marx, podemos inferir também que a história ocorre por assim dizer duas vezes: a primeira como tragédia, com a proibição das torcidas, reorganização escolar e derrota da greve dos professores, e a segunda como farsa, predominância de torcedores “coxinhas” nas arquibancadas, desorganização escolar camuflada e precarização do trabalho de professores nas escolas. É preciso então haver lutas pela liberdade e crítica social nas arquibancadas, nas escolas e nas ruas para que haja a transformação efetiva da sociedade. As demais torcidas do Corinthians e de outros clubes já estão seguindo o exemplo de politização dos Gaviões e se manifestando nas arquibancadas. Tomara que essas manifestações construa um movimento para além do clubismo e por um futebol que retorne ao poder e apropriação das classes populares.

Sandro Barbosa de Oliveira 

Sandro Barbosa de Oliveira é professor, educador popular, bacharel em Ciências Sociais pelo Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e doutorando em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Participa do Grupo de Pesquisa Classes Sociais e Trabalho da Unifesp. É também associado e cientista social da Usina Centro de Trabalhos para o Ambiente Habitado.

 

Foto: André Lucas Almeida, Jornalistas Livres

 

Pinguela deixa fórum do clima por discordar de impeachment (OESP)

Giovana Girardi

16 maio 2016 | 16:46

O físico Luiz Pinguelli Rosa, que desde 2004 era o secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, enviou e-mail a Temer pedindo desligamento do cargo por não concordar com o afastamento de Dilma Rousseff. Em entrevista ao Estado, ele explica seus motivos e analisa a gestão Dilma para o clima

Atualizado às 18h55

O físico Luiz Pinguelli Rosa, que desde 2004 atuava como secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, pediu desligamento do cargo na última quinta-feira, 12, depois do afastamento da presidente Dilma Rousseff. Em carta enviada ao presidente em exercício, Michel Temer, explicou que se recusava a continuar no cargo.

Reunião ordinária do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas com Dilma e Pinguelli em abril de 2012. Crédito: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Reunião ordinária do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas com Dilma e Pinguelli em abril de 2012. Crédito: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

“Reputo de injusto o afastamento da Presidente da República pelo Congresso Nacional com a conivência do Supremo Tribunal Federal, pois não se provou qualquer crime de responsabilidade como estabelece a Constituição”, escreveu em mensagem enviada ao e-mail institucional da vice-presidência.

Ele lembrou que foi nomeado ao cargo em 2004 pelo então presidente Lula e foi mantido por Dilma. “O Fórum teve várias reuniões com o Presidente da República e Ministros apresentando sugestões que foram incorporadas no Plano Nacional de Mudanças Climáticas e na Lei Nacional sobre Mudanças Climáticas, bem como contribuiu para o Compromisso do Brasil na Conferência do Clima da ONU. No momento, o Fórum estava discutindo as propostas para o Plano de Adaptação nos diversos setores em ligação direta com a Ministra do Meio Ambiente”, disse.

O órgão, formado por cientistas de diversos áreas de clima, foi criado em 2000 por Fernando Henrique e teve uma função de destaque especialmente durante o governo Lula para a formulação de políticas de combate às mudanças climáticas.

Professor emérito da Coppe, o instituto de pós-graduação e pesquisa em engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Pinguelli foi presidente da Eletrobras no primeiro governo de Lula.

Em entrevista ao Estado, o pesquisador explicou sua decisão. “Não estou fazendo nenhum juízo de valor sobre o governo Temer, mas o fórum é diretamente ligado ao presidente da República e eu não concordo com a mudança dessa forma. Não é uma questão de Dilma, mas de princípio”, disse.

“A tal pedalada é mal definida. Usar verba de banco público que depois é coberto em prazo pequeno é uma trivialidade que qualquer administrador já fez algo parecido. Para falar em crime tem de ser uma coisa séria, tem de ter materialidade, como agir de má fé ou se apropriar de recursos públicos. Quem fez isso foram outros no Congresso e o Supremo Tribunal Federal se fez de bobo. Não me sinto bem em cooperar no nível com o presidente”, complementou.

Mesmo presidindo o fórum, Dilma levou mais de um ano para participar de sua primeira reunião, ainda na primeira gestão, em abril de 2012. Na ocasião, causou polêmica ao dizer, às vésperas da realização da conferência Rio+20, que o evento não iria “discutir a fantasia” das energias renováveis.

“Ninguém numa conferência dessas também aceita, me desculpem, discutir a fantasia. Eu tenho que explicar para as pessoas como é que elas vão comer, como é que elas vão ter acesso à água, como é que elas vão ter acesso à energia. Eu não posso falar: “olha é possível só com eólica de iluminar o planeta”. Não é. Só com solar, de maneira alguma.”

Pinguelli contemporizou o começo meio torto e disse que hoje a situação é outra. “Tivemos problema com etanol, com biodiesel, porque a política energética não foi muito boa, estimulou muito o uso da gasolina em detrimento do etanol. Mas eólica cresceu bastante. A geração já equivale à (que será produzida por) Belo Monte.”

Veja a seguir a íntegra da entrevista:

O que fez o senhor tomar essa decisão?

Não estou fazendo nenhum juízo de valor sobre o governo Temer, mas o fórum é diretamente ligado ao presidente da República e eu não concordo com a mudança dessa forma. Não é uma questão do governo da Dilma, mas de princípio. A tal pedalada é mal definida.O fato de ter um uso de verba de banco público que depois é coberto em prazo pequeno é uma trivialidade que qualquer administrador faz algo parecido. Não significa um crime. Crime é uma coisa séria, tem de ter materialidade, como agir de má fé ou se apropriar indevidamente de recursos públicos. Quem fez isso foram outros que participaram do processo no Congresso. E o Supremo Tribunal Federal se fez de bobo. Não atuou no caso Eduardo Cunha, que se empenhou no processo de impeachment. O STF tinha desde dezembro uma denúncia contra ele do procurador-geral da República e deixou para fazer valer depois de Dilma já ter sofrido a condenação pela Câmara, o que dá uma intenção suspeita ao supremo. Não me sinto bem em continuar cooperando porque minha ligação como secretário do fórum é com o presidente do Fórum, que é o presidente da República. Não na qualidade de um assessor direto do presidente. Espero que outra pessoa mais afinada com esse governo do que eu vá para esse lugar.

Qual é a avaliação que o senhor faz da gestão Dilma em relação às mudanças climáticas?

Eu não posso dizer que o governo Dilma foi muito atuante na questão climática. Acho que o do Lula foi mais. Por causa, particularmente, da intervenção do Brasil na Conferência (do Clima da ONU) de Copenhague (em 2009) e da elaboração do Plano e da Lei Nacional de Mudanças Climáticas, para o qual o fórum foi muito chamado para ajudar. No momento o fórum estava fazendo uma série de debates mais ligados ao Ministério do Meio Ambiente sobre a questão dos planos de adaptação à mudança climática. E fizemos também, para a conferência de Paris, um estudo em cooperação com colegas de universidades em que fizemos um cenário futuro, de modelagem climática aqui da Coppe, sobre a mudança climática que foi aproveitado na discussão em Paris. Fórum teve uma atividade menor no governo Dilma em relação ao governo Lula, mas não era nula.

O Brasil foi bastante elogiado por sua atuação na costura do Acordo de Paris. Como o sr. viu esse momento?

Acho que a Izabella (Teixeira, ministra do Meio Ambiente em todo o governo Dilma) teve uma presença muito atuante na conferência do clima e o fórum acabou tornando-se mais próxima da Izabella (do que da Dilma). Inclusive na conferência de Paris, foi ela que participou da reunião do fórum. Dilma se afastou, mas Izabella não. Na prática, embora o Fórum continuasse ligado à presidente Dilma no organograma, ficamos mais próximo do Ministério do Meio Ambiente. Não era uma função remunerada. Era voltada para atrais ONGs, acadêmicos, mesmo os setores empresariais para a discussão de problemas concretos da questão internacional da mudança climática. Isso foi feito o tempo todo. Até poucos meses atrás, no fim de 2015, houve essas reuniões. Aí houve um interregno com essa crise profunda que o Brasil atravessa.

Nos últimos dias da gestão Dilma, o ministério do Meio Ambiente correu para aproveitar os últimos momentos e lançou uma série de boas ações para o ambiente, inclusive o Plano Nacional de Adaptação, que era esperado desde o ano passado.. O que o sr. achou disso?

Acho que esse movimento foi bom, deixou uma contribuição concreta. O PNA avança, melhora a situação. É preciso lembrar que o Brasil tem climas diferentes de acordo com a região e pode haver enormes impactos, não só nos fenômenos atmosféricos, que afetam o ambiente e as populações, como enchentes, ventos muito fortes, como também a produção agrícola, que depende muito do clima. Mas é verdade que foi meio corrido. Ele é uma contribuição que reuniu o que já tinha à mão, embora pudesse avançar mais. Mas não impede que o novo governo faça isso. O que foi feito é o que tinha à mão. Acho que o governo tinha uma perspectiva de se prolongar um pouco mais para a elaboração desse plano e foi abreviado.

Qual é a expectativa do senhor sobre o novo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, e para a questão climática na nova gestão.

Ele já foi ministro, né? Faço votos para que faça boa gestão. A expectativa é que tenha boa gestão, ele tem condições para isso, tem interesse nessa área. Já estive com ele muitas vezes discutindo questões da mudança climática. Mas me sentia mais identificado com a gestão Dilma. A própria Izabella foi nossa aluna aqui no doutorado da Coppe. Havia uma proximidade maior. Quanto à política do clima, vamos ver. O Sarney Filho tem pedigree de meio ambiente. Mas o ministro de Minas e Energia (Fernando Filho) é um ilustre desconhecido, é de outro ramo, não tem nada a ver.

O governo Dilma teve como bandeira o pré-sal, investindo mais em combustíveis fósseis que em renováveis, enquanto há uma expectativa mundial de descarbonização até o final do século. O sr. esteve à frente de discussões sobre o futuro energético. Como o sr. vê essa questão?

Acho que o Brasil ainda vai usar petróleo por um tempo, mas tem de reduzir, e isso já tem feito usando biocombustível, que já ultrapassou 40% do total de combustíveis. Mas não está tudo perfeito. Tivemos problema com etanol, com biodiesel, porque a política energética não foi muito boa, estimulou muito o uso da gasolina em detrimento do etanol. O preço da gasolina foi colocado abaixo do preço de importação. Houve uma retomada do etanol por volta de 2003 e 2004 com os carros flex e isso permitiu um aumento grande do consumo do etanol. Mas com o estímulo de preço baixo da gasolina, o etanol perdeu a competitividade, houve uma certa redução do consumo.

E nesse momento se discute na Câmara que carro leve use diesel no Brasil.

Isso é ruim. O que devia ser feito era incentivar os carros híbridos (combustível + elétrico), que ainda são muito caros. Devia haver uma política de compensações e redução desse preço.

As metas brasileiras ao Acordo de Paris também não trazem um aumento significativo do uso de etanol e biocombustíveis (prevê uma participação de 16% de etanol na matriz energética total do País até 2025).

Não é uma participação pequena, mas de fato não tem um grande aumento. Concordo que para o futuro, talvez 2040 em diante, deva aumentar, mas para 2020 é mais difícil mudar a tendência porque energia tem uma inércia muito grande. Depois pode aumentar muito. Mas isso depende da política e ultimamente a política não foi muito favorável ao biocombustível. A gente fez a crítica perante a presidente Dilma. Mostramos essa preocupação. Uso de energia eólica cresceu bastante, já igualou à de Belo Monte. Mas infelizmente a de térmica também cresceu por causa das crises hídricas.

Presidente de Portugal quer fazer revisão do novo acordo ortográfico (Folha de S.Paulo)

Giuliana Miranda, 15/05/2016

Oficialmente, o último acordo ortográfico está em vigor em Portugal desde 2009, mas ainda enfrenta resistência em vários setores. Na semana passada, o time dos descontentes recebeu um apoio de peso: o novo presidente português se mostrou favorável à revisão das regras.

Em visita a Moçambique —país lusófono que, assim como Angola, não ratificou as mudanças—, Marcelo Rebelo de Sousa admitiu que a não adesão dos africanos pode permitir a Portugal também rever sua posição no acordo.

Mauro Vombe – 4.mai.2016/Xinhua
O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, (esq.) saúda o colega moçambicano Filipe Nyusi
O presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, (esq.) saúda o colega moçambicano Filipe Nyusi

Na quarta-feira (11), a Associação Nacional de Professores de Português e vários membros da organização “Cidadãos contra o Acordo Ortográfico” recorreram à Justiça pedindo a anulação da norma que disseminou o uso da nova ortografia no país.

No cargo há dois meses, Rebelo de Sousa nunca escondeu sua contrariedade sobre o tema. Na década de 1990, ele assinou um manifesto que reuniu 400 personalidades portuguesas contrárias ao acordo ortográfico.

Embora as críticas públicas tenham se abrandado, o livro de imagens de sua campanha à Presidência, “Afectos”, não adota as mudanças ortográficas nem no título.

Em “O Acordo Ortográfico Não Está Em Vigor” (ed. Guerra & Paz), o embaixador e professor de direito internacional Carlos Fernandes diz que o acordo fere também princípios jurídicos e, por isso, não deveria ser adotado.

Segundo Fernandes, além de as regras anteriores não terem sido oficialmente revogadas, o governo português tampouco cumpriu trâmites legais obrigatórios para a entrada em vigor dos novos parâmetros da língua.

O debate sobre uma possível revisão do acordo —há quem defenda até um referendo— provocou uma “caça às bruxas” ortográfica. Vários políticos tiveram currículos, biografias e livros vasculhados em busca de indícios de que são contrários às mudanças na escrita.

CRÍTICAS AO BRASIL

Embora tenha sido assinado em 1990 pelos Estados de língua oficial portuguesa, o acordo precisa passar por ratificação interna em cada país para entrar em vigor. Brasil, Portugal, São Tome e Príncipe e Cabo Verde já promulgaram a decisão.

Já Angola e Moçambique —que concentram a maioria dos falantes do português depois do Brasil— ainda não têm data para ratificar.

O português é a quinta língua mais falada do mundo, com cerca de 280 milhões de falantes, dos quais 202 milhões estão no Brasil, 24,7 milhões em Angola, 24,6 milhões em Moçambique e 10,8 milhões em Portugal.

Entre os críticos portugueses e africanos, as alterações são encaradas como submissão aos desejos do Brasil. A língua oficial do país é várias vezes pejorativamente chamada de “brasileiro”.

Um dos motivos da discórdia é o fim das consoantes mudas presentes em várias palavras de Portugal. Com o acordo, prevaleceu a versão brasileira. Por exemplo: actor vira ator e óptimo, ótimo.

Segundo o Ministério da Educação brasileiro, as mudanças afetaram cerca de 0,8% dos vocábulos do Brasil e 1,3% dos de Portugal.

GOVERNO DEFENDE

O governo de Portugal segue o acordo ortográfico, e vários ministros saíram em defesa das regras.

Considerado o pai do acordo e um dos mais mais influentes linguistas lusitanos, Malaca Casteleiro também tem defendido sua aplicação.

O primeiro-secretário do Brasil em Lisboa, André Pinto Pacheco, afirmou que ” a embaixada acompanha com atenção o assunto, procurando esclarecer o Estado e a opinião pública de Portugal sobre a aplicação do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no Brasil”.

Diretor do setor de lexicografia e lexicologia da Academia Brasileira de Letras, Evanildo Bechara minimizou as críticas do presidente português e ressaltou o ritmo da implementação do acordo na comunidade lusófona. “É um processo irreversível.”

“Uma alteração ortográfica não é para a geração que a fez, mas para uma geração futura”, afirmou Bechara. O uso da nova ortografia é obrigatório no Brasil desde 1º de janeiro deste ano.

A importância da laicidade no século 21 (OESP)

15 Maio 2016 | 03h 00

Neste século, cujo primeiro evento de repercussão mundial foram os ataques às torres gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001, assistimos ao ressurgimento do papel da religião na vida política. No cenário internacional, são notórios e dramáticos os fatos que complicam a geopolítica mundial, ocasionados por interpretações de caráter fundamentalista de religiões estabelecidas.

No Brasil, a presença da atividade política baseada e dirigida por princípios de fé nunca foi tão marcante. De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o pleito de 2014 elegeu uma bancada evangélica de 75 deputados federais; no seu apogeu, em 1962, o Partido Democrata Cristão, de inspiração católica, tinha 20 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Nesse contexto, é oportuno retomar a questão da laicidade, seu papel na vida da democracia e dos direitos humanos, seus nexos com a secularização e a tolerância.

A secularização, termo que vem do latim saeculum, do mundo da vida terrena (não da vida religiosa), e a laicidade, do grego laos, povo, como leigo e laico, em contraposição ao clero no quadro de hierarquização da Igreja, foram consequências da dessacralização da sociedade, como aponta Weber.

O processo de diferenciação estrutural e funcional das instituições é a acepção que mais aproxima a laicização à secularização. Os atores sociais não só começaram a se distanciar da força avassaladora das tradições religiosas, mas as relações das religiões com o Estado se alteraram fundamentalmente no correr desse processo que remonta aos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. Nesse contexto, surge o tema da laicidade do Estado.

Um Estado laico diferencia-se do teocrático, em que o poder religioso e o poder político se fundem, e também do confessional, em que há vínculos entre o poder político e uma religião.

No Brasil Império, a religião oficial era a católica, ainda que outras fossem permitidas e a liberdade de opinião, assegurada. Com a República, deu-se a separação da Igreja do Estado, que se tornou laico, ensejando a igualdade da liberdade dos cultos, a secularização dos cemitérios, o casamento civil e o registro civil para o nascimento e o falecimento de pessoas.

Rui Barbosa, autor da legislação que implantou a laicização do Estado brasileiro, consagrada na Constituição de 1891, explica que sua matriz inspiradora foi norte-americana. O Estado se dessolidarizou de toda a atividade religiosa em função, como diria Jefferson, da prevalência de um muro de separação entre a atividade religiosa e a ação estatal como preconizado pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA. O Estado laico não implica que a sociedade civil seja laica. Com efeito, esta passou a se constituir como uma esfera autônoma e própria para o exercício da liberdade religiosa e de consciência, na qual o Estado não interfere. Abria-se desse modo espaço para o que Benjamin Constant denominou liberdade negativa, não submetida a regras externas provenientes do poder público.

A laicidade, aponta Abbagnano, é expressão do princípio da autonomia das/nas atividades humanas: elas podem se desenvolver segundo regras próprias, não impostas externamente por fins e interesses diversos daqueles que as inspiram e norteiam. É o caso da liberdade de pesquisa, que pressupõe o antidogmatismo e o exame crítico de temas e problemas.

Quando a polarização e as tensões se tornam mais agudas, é importante lembrar que a laicidade é uma das formas de tolerância, ou, mais exatamente, uma das maneiras de responder ao problema da intolerância.

Como ressalta Bobbio, o tema da tolerância surgiu com a desconcentração do poder ideológico (consequência da secularização), pois a tolerância em relação a distintas crenças e opiniões coloca o problema de como lidar com a compatibilidade/convivência de verdades contrapostas (laicidade metodológica, pluralismo, antidogmatismo) e, subsequentemente, com o “diferente” (estrangeiros, pessoas de diversas opções sexuais, etc…). Daí o nexo entre democracia e direitos humanos, pois a tutela da liberdade de crença, de opinião e de posições políticas integra as regras do jogo democrático, para as quais o Outro não é um inimigo a ser eliminado, mas integrante da mesma comunidade política.

Em relação ao “diferente”, lembro que a Constituição (artigo 3.º, IV) estabelece que um dos objetivos da República é “promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor e quaisquer outras formas de discriminação”.

Entre os componentes da dicotomia tolerância/intolerância está, no plano interno, a convivência/coexistência de verdades contrapostas (religiosas, políticas), no âmbito das regras do jogo democrático e da tutela dos direitos humanos; no plano externo, a aceitação da pluralidade dos Estados na sua heterogeneidade.

Por essa razão um Estado aconfessional como o brasileiro (artigo 19, I, da Constituição) não pode, por obra de dependência ou aliança com qualquer religião, sancionar juridicamente normas ético-religiosas próprias à fé de uma confissão. Por exemplo: no campo da família, o direito ao divórcio; no critério do início da vida, a descriminalização do aborto e a pesquisa científica com células-tronco.

Num Estado laico, as normas religiosas das diversas confissões são conselhos dirigidos aos fiéis, e não comandos para toda a sociedade. A finalidade da liberdade de religião e de pensamento é garantir ao cidadão uti singuli a máxima diferenciação no campo das ideologias, das religiões e da cultura – ou seja, a liberdade individual.

A finalidade pública da laicidade é criar, nesse contexto, para todos os cidadãos uma plataforma comum na qual possam encontrar-se enquanto membros de uma comunidade política. É essa finalidade que cabe resguardar, para conter o indevido transbordar da religião para o espaço público, que se tornou um dos desafios da agenda política contemporânea.

Neste século, cujo primeiro evento de repercussão mundial foram os ataques às torres gêmeas de Nova York, em 11 de setembro de 2001, assistimos ao ressurgimento do papel da religião na vida política. No cenário internacional, são notórios e dramáticos os fatos que complicam a geopolítica mundial, ocasionados por interpretações de caráter fundamentalista de religiões estabelecidas.

No Brasil, a presença da atividade política baseada e dirigida por princípios de fé nunca foi tão marcante. De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), o pleito de 2014 elegeu uma bancada evangélica de 75 deputados federais; no seu apogeu, em 1962, o Partido Democrata Cristão, de inspiração católica, tinha 20 cadeiras na Câmara dos Deputados.

Nesse contexto, é oportuno retomar a questão da laicidade, seu papel na vida da democracia e dos direitos humanos, seus nexos com a secularização e a tolerância.

A secularização, termo que vem do latim saeculum, do mundo da vida terrena (não da vida religiosa), e a laicidade, do grego laos, povo, como leigo e laico, em contraposição ao clero no quadro de hierarquização da Igreja, foram consequências da dessacralização da sociedade, como aponta Weber.

O processo de diferenciação estrutural e funcional das instituições é a acepção que mais aproxima a laicização à secularização. Os atores sociais não só começaram a se distanciar da força avassaladora das tradições religiosas, mas as relações das religiões com o Estado se alteraram fundamentalmente no correr desse processo que remonta aos ideais do Iluminismo e da Revolução Francesa. Nesse contexto, surge o tema da laicidade do Estado.

Um Estado laico diferencia-se do teocrático, em que o poder religioso e o poder político se fundem, e também do confessional, em que há vínculos entre o poder político e uma religião.

No Brasil Império, a religião oficial era a católica, ainda que outras fossem permitidas e a liberdade de opinião, assegurada. Com a República, deu-se a separação da Igreja do Estado, que se tornou laico, ensejando a igualdade da liberdade dos cultos, a secularização dos cemitérios, o casamento civil e o registro civil para o nascimento e o falecimento de pessoas.

Rui Barbosa, autor da legislação que implantou a laicização do Estado brasileiro, consagrada na Constituição de 1891, explica que sua matriz inspiradora foi norte-americana. O Estado se dessolidarizou de toda a atividade religiosa em função, como diria Jefferson, da prevalência de um muro de separação entre a atividade religiosa e a ação estatal como preconizado pela Primeira Emenda da Constituição dos EUA. O Estado laico não implica que a sociedade civil seja laica. Com efeito, esta passou a se constituir como uma esfera autônoma e própria para o exercício da liberdade religiosa e de consciência, na qual o Estado não interfere. Abria-se desse modo espaço para o que Benjamin Constant denominou liberdade negativa, não submetida a regras externas provenientes do poder público.

A laicidade, aponta Abbagnano, é expressão do princípio da autonomia das/nas atividades humanas: elas podem se desenvolver segundo regras próprias, não impostas externamente por fins e interesses diversos daqueles que as inspiram e norteiam. É o caso da liberdade de pesquisa, que pressupõe o antidogmatismo e o exame crítico de temas e problemas.

Quando a polarização e as tensões se tornam mais agudas, é importante lembrar que a laicidade é uma das formas de tolerância, ou, mais exatamente, uma das maneiras de responder ao problema da intolerância.

Como ressalta Bobbio, o tema da tolerância surgiu com a desconcentração do poder ideológico (consequência da secularização), pois a tolerância em relação a distintas crenças e opiniões coloca o problema de como lidar com a compatibilidade/convivência de verdades contrapostas (laicidade metodológica, pluralismo, antidogmatismo) e, subsequentemente, com o “diferente” (estrangeiros, pessoas de diversas opções sexuais, etc…). Daí o nexo entre democracia e direitos humanos, pois a tutela da liberdade de crença, de opinião e de posições políticas integra as regras do jogo democrático, para as quais o Outro não é um inimigo a ser eliminado, mas integrante da mesma comunidade política.

Em relação ao “diferente”, lembro que a Constituição (artigo 3.º, IV) estabelece que um dos objetivos da República é “promover o bem de todos sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor e quaisquer outras formas de discriminação”.

Entre os componentes da dicotomia tolerância/intolerância está, no plano interno, a convivência/coexistência de verdades contrapostas (religiosas, políticas), no âmbito das regras do jogo democrático e da tutela dos direitos humanos; no plano externo, a aceitação da pluralidade dos Estados na sua heterogeneidade.

Por essa razão um Estado aconfessional como o brasileiro (artigo 19, I, da Constituição) não pode, por obra de dependência ou aliança com qualquer religião, sancionar juridicamente normas ético-religiosas próprias à fé de uma confissão. Por exemplo: no campo da família, o direito ao divórcio; no critério do início da vida, a descriminalização do aborto e a pesquisa científica com células-tronco.

Num Estado laico, as normas religiosas das diversas confissões são conselhos dirigidos aos fiéis, e não comandos para toda a sociedade. A finalidade da liberdade de religião e de pensamento é garantir ao cidadão uti singuli a máxima diferenciação no campo das ideologias, das religiões e da cultura – ou seja, a liberdade individual.

A finalidade pública da laicidade é criar, nesse contexto, para todos os cidadãos uma plataforma comum na qual possam encontrar-se enquanto membros de uma comunidade política. É essa finalidade que cabe resguardar, para conter o indevido transbordar da religião para o espaço público, que se tornou um dos desafios da agenda política contemporânea.

*Celso Lafer é professor emérito da Universidade de São Paulo

Comissão do Senado aprova PEC que derruba licenciamento ambiental para obras (Estadão)

André Borges, 27/04/2016

BRASÍLIA – Em meio ao terremoto político que toma conta de Brasília, a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado aprovou nesta quarta-feira, sem alarde, uma Proposta de Emenda à Constituição que simplesmente rasga a legislação ambiental aplicada atualmente em processos de licenciamento de obras públicas.

A PEC 65/2012, de autoria do senador Acir Gurgacz (PDT-RO) e relatada pelo senador Blairo Maggi (PR-MT), estabelece que, a partir da simples apresentação de um Estudo Impacto Ambiental (EIA) pelo empreendedor, nenhuma obra poderá mais ser suspensa ou cancelada. Na prática, isso significa que o processo de licenciamento ambiental, que analisa se um empreendimento é viável ou não a partir dos impactos socioambientais que pode gerar, deixa de existir.

Em um documento de apenas três páginas, os parlamentares informam que “a proposta inova o ordenamento jurídico”, por não permitir “a suspensão de obra ou o seu cancelamento após a apresentação do estudo prévio de impacto ambiental (EIA), exceto por fatos supervenientes”. A mudança, sustentam os parlamentares, “tem por objetivo garantir a celeridade e a economia de recursos em obras públicas sujeitas ao licenciamento ambiental, ao impossibilitar a suspensão ou cancelamento de sua execução após a concessão da licença”.

O licenciamento ambiental, seja ele feito pelo Ibama ou por órgãos estaduais, estabelece que qualquer empreendimento tem que passar por três etapas de avaliação técnica. Para verificar a viabilidade de uma obra, é preciso realizar os estudos de impacto e pedir sua licença prévia ambiental. Este documento estabelece, inclusive, quais serão as medidas compensatórias que a empresa terá de executar para realizar o projeto. Ao obter a licença prévia, o empreendedor precisa, em seguida, obter uma licença de instalação, que permite o início efetivo da obra, processo que também é monitorado e que pode resultar em novas medidas condicionantes. Na terceira etapa, é dada a licença de operação, que autoriza a utilização do empreendimento, seja ele uma estrada, uma hidrelétrica ou uma plataforma de petróleo. O que a PEC 65 faz, basicamente, é ignorar essas três etapas.

“Estamos perplexos com essa proposta. Se a simples apresentação de um EIA passa a ser suficiente para tocar uma obra, independentemente desse documento ser analisado e aprovado previamente, acaba-se com a legislação ambiental. É um flagrante desrespeito à Constituição, que se torna letra morta em tudo o que diz respeito ao meio ambiente”, disse ao ‘Estado’ a coordenadora da 4ª Câmara de meio ambiente e patrimônio cultural do Ministério Público Federal, Sandra Cureau.

O Ministério Público Federal e os estaduais, segunda Sandra, vão adotar um posicionamento contundente contra a proposta. “Temos que mostrar aos parlamentares o absurdo que estão cometendo. O Brasil é signatário de vários pactos internacionais de preservação do meio ambiente. A Constituição tem que ser harmônica, não contraditória em seus incisos”, comentou.

A PEC tem um regime especial de tramitação. Ela precisa ser discutida e votada em cada uma das casas do Congresso Nacional, em dois turnos. Para ser aprovada em ambas, precisa de três quintos dos votos (60%) dos respectivos membros do Senado e da Câmara. A emenda constitucional tem que ser promulgada pelas mesas das duas casas, e não necessita de sanção presidencial.

Em sua análise, o senador Blairo Maggi sustentou que a PEC “visa garantir segurança jurídica à execução das obras públicas”, quando sujeitas ao licenciamento ambiental. “Certo é que há casos em que ocorrem interrupções de obras essenciais ao desenvolvimento nacional e  estratégicas ao País em razão de decisões judiciais de natureza cautelar ou liminar, muitas vezes protelatórias”, declarou.

Segundo Maggi, “claramente se pode observar que a proposta não objetiva afastar a exigência do licenciamento ambiental ou da apresentação de um de seus principais instrumentos de avaliação de impacto, o EIA. Não afeta, assim, o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e consagra princípios constitucionais da administração pública, como a eficiência e a economicidade”.

Diretoria da Aciesp se manifesta contra as declarações do governador Geraldo Alckmin sobre o fomento à pesquisa científica no Estado

JC 5405, 28 de abril de 2016

Diretoria da Aciesp se manifesta contra as declarações do governador Geraldo Alckmin sobre o fomento à pesquisa científica no Estado

Segundo a Academia de Ciências do Estado de São Paulo, o artigo publicado na revista Veja “mostra a visão parcial e distorcida, que o Governador demonstra ter sobre a íntima relação ciência básica e aplicada e até sobre a ciência em São Paulo, que é motivo de orgulho para o Estado e para o País”

Veja abaixo o texto na íntegra:

A Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) vê com grande preocupação a nota publicada em 26 de abril de 2016 pela colunista Vera Magalhães da revista Veja, sobre a crítica do governador Alckmin à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Apesar de uma segunda nota, publicada no dia 26, ter desmentido o uso do termo máfia de pesquisadores e de ter havido um bate-boca sobre o assunto durante a reunião do secretariado. O restante do que está no artigo mostra a visão parcial e distorcida, que o Governador demonstra ter sobre a íntima relação ciência básica e aplicada e até sobre a ciência em São Paulo, que é motivo de orgulho para o Estado e para o País, considerando que o impacto da produção acadêmica brasileira no cenário mundial, deve-se em grande parte ao que se produz em São Paulo, devido ao suporte financeiro da Fapesp.

A Fapesp tem sido vista como um exemplo nacional e mundial de financiamento à ciência, tecnologia e inovação, e elogiada em diferentes âmbitos, sendo um exemplo para todos os estados brasileiros, que copiaram o modelo e vêm fazendo com que verba estatal seja mais direcionada a ciência local de cada estado.

O esforço da Fapesp na interação entre os setores acadêmico e produtivo, público e privado tem sido enorme. Em particular, há programas específicos que tratam da interação com o setor produtivo (PIPE, PITE e PAPPE) que visam financiar diretamente iniciativas junto à indústria e/ou de formar novas indústrias em São Paulo. Os esforços nestes programas são comparáveis, em qualidade, ao de países como os Estados Unidos e Alemanha e não há iniciativa comparável na América Latina.

Além destes programas mais específicos, os quatro grandes programas da Fapesp (Bioen, Biota, Mudanças Climáticas, e Computação e Science) congregam a aplicação de milhões de reais para resolver problemas práticos reais que são importantes não somente para São Paulo, mas para todo o Brasil e para o mundo. O foco em energias renováveis, notadamente o etanol, congregado pelo Bioen, avançou o conhecimento científico sobre a cana e o etanol de maneira sem precedentes. Em poucos anos de estímulo a ciência brasileira das energias renováveis está pronta para ser aplicada e mudar o paradigma sobre o etanol de segunda geração. Mesmo com a grande crise que se abateu sobre o setor sucroalcoleiro, a Fapesp nunca deixou de fomentar a pesquisa na área, apoiando os projetos e mantendo o foco. É deste tipo de atitude que o Brasil precisa, ou seja, de consistência nas convicções e, criando uma identidade com base naquilo que fazemos melhor.  No caso do Biota, com mais de 20 anos de existência, o avanço no conhecimento da biodiversidade paulista e brasileira, com reflexos internacionais inquestionáveis, ajuda a nossa sociedade a entender e poder preservar o meio ambiente. Além da preservação há também o uso sustentável da biodiversidade. Por exemplo, as descobertas de compostos que podem se tornar novos fármacos, cosméticos e aditivos de alimentos é enorme. Já o programa de Mudanças Climáticas, irmão mais novo do Biota, se debruça sobre o que tem sido considerado com o problema mais importante que a humanidade já enfrentou: as Mudanças Climáticas Globais. O programa não somente vem gerando modelos climáticos, que são a base para decidir o que fazer para evitar os efeitos extremamente graves que os impactos das Mudanças Climáticas irão produzir, mas também os seus impactos sobre a produção de alimentos, a produção industrial em geral, a saúde da população, entre outros. O Programa de Computação da Fapesp, o mais novo dos quatro, foi montado para preparar a sociedade paulista para a era do big-data, em que temos que aprender a lidar com a imensa produção de informação advinda dos avanços na área de computação.

A aparente distorção da visão do governador sobre a Fapesp é maior quando despreza o financiamento à sociologia. Este é um dos principais focos da pesquisa no Estado de São Paulo, sendo a capital o maior grupo de pesquisadores do Brasil na área. Estes são os pesquisadores que pensam em como melhorar as políticas públicas, o que acontece e porque existem populações pobres e se dedicam a encontrar soluções sobre como podemos solucionar estes problemas. Se abandonarmos as pesquisas em Ciências Sociais, o que será da nossa população?

Na área de ciências da saúde, a Fapesp vem sim investindo em Dengue há muitos anos. Mas é importante lembrar que a pesquisa sozinha não consegue resolver todos os problemas. A Fapesp não tem como missão financiar fábricas que produzem por exemplo vacinas. Estas fábricas tem que ser mantidas pelo Governo. Se o Butantan não tem dinheiro para produzir vacinas, a culpa não é da Fapesp e sim do planejamento do governo que não manteve os Institutos de Pesquisa do Estado de São Paulo em funcionamento adequado. A Fapesp cumpriu sim a sua missão em financiar a pesquisa de como fazer as vacinas.

É preciso que as informações científicas sejam incorporadas pelos políticos da forma mais íntegra possível. É isto que faz com que a probabilidade de erro nas decisões diminua. No caso da crise da água, por exemplo, por mais que os cientistas (tanto da hidrologia e agricultura, quanto da sociologia) tenham tentado avisar o governo do perigo desde a primeira crise em 2009, não houve uma resposta baseada em ciência com a antecedência necessária, mas sim em crenças e em teorias pessoais sem base científica, que levaram São Paulo a atingir uma situação crítica, na qual ainda se encontra.

Mais importante ainda é falta de visão do Governador sobre o que significa a ciência básica, aquela que aparentemente, e só aparentemente, ainda não tem aplicações. É preciso compreender que a ciência básica é a ciência aplicada do futuro e o tempo que separa ambas tem encurtado com o passar dos anos. Sem compreender os fundamentos dos fenômenos da natureza, as aplicações cegas e sem base científica levam a tecnologias fracas e pouco competitivas. Ademais, a própria classificação entre ciências básica e aplicada tem sido cada vez mais questionada.

A Fapesp vem trabalhando incessantemente para encurtar o caminho ente a descoberta básica e a aplicação, principalmente, nas últimas três décadas. As pesquisas aplicadas e de cunho tecnológico só surgem depois que algum pesquisador trabalha em média 10 anos em um problema geralmente sem aplicação aparente. Aí sim surgem as possibilidades de aplicação. E a Fapesp foi sempre sensível a isto, mantendo a pesquisa básica (a nossa galinha dos ovos de ouro) e ao mesmo tempo criando programas cada vez mais focados e que tentam resolver os problemas mais importantes da sociedade contemporânea.

A ciência é um processo lento e a sociedade tem que compreender que não há como acelerar mais do que estamos fazendo, mesmo com investimentos excelentes que a Fapesp vem mantendo em São Paulo. Isto porque a sociedade científica paulista se formou não somente com as verbas para a pesquisa, mas também com as bolsas de estudo para a graduação, pós-graduação e pós-doutoramento, que formam os profissionais em alto nível. Tudo isto leva tempo para conseguir. No caso de São Paulo levamos décadas para chegar ao nível que estamos.

Achar que a dotação de 1% é muito para a pesquisa é uma visão muito perigosa para um Estado que se autodenomina a locomotiva do País. De que adianta uma locomotiva sem combustível?

A Aciesp convoca a população a defender a Fapesp não como um patrimônio dos pesquisadores, mas como um patrimônio de todos os paulistas e brasileiros. Sem a Fapesp o Brasil mergulhará na escuridão e na dependência da ciência e tecnologia feitas em outros países. É isto que a nossa sociedade quer?

Diretoria da Academia de Ciências do Estado de São Paulo

Jornal da Ciência

Leia também:

Anpocs – Nota da diretoria executiva da Anpocs sobre as declarações do governador Geraldo Alckmin acerca do fomento à pesquisa científica

Brasil e mais 169 países assinam acordo sobre mudança climática (Estadão)

Cláudia Trevisan e Altamira Silva Junior – 22 de abril de 201

Dilma: 'O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos'

Dilma: ‘O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos’

Representantes de 170 países assinaram nesta sexta-feira, 22, o Acordo de Paris sobre mudança climática, batendo o recorde da história da Organização das Nações Unidas (ONU) de adesão a um tratado internacional em um único dia. Mas todos ouviram o alerta do secretário-geral da entidade, Ban Ki-Moon, de que as boas intenções terão pouco impacto se a convenção não for ratificada pelos países o mais breve possível. Sem isso, o tratado não entrará em vigor.

“Estamos em uma corrida contra o tempo”, disse Ban no discurso de abertura da cerimônia, no plenário da ONU em Nova York. A urgência foi enfatizada por vários chefes de Estado, incluindo os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e da França, François Hollande.

Dilma assegurou “a pronta entrada em vigor” da convenção, mas essa decisão depende do Congresso. “O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos”, disse a presidente em seu discurso. E repetiu os compromissos assumidos pelo Brasil durante a negociação do tratado, entre os quais a promessa de reduzir em 37% a emissão de gases poluentes até 2025, na comparação com os patamares registrados em 2005.

Frustração. Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, disse que Dilma frustrou as expectativas de entidades ambientais que esperavam uma sinalização clara de que o Brasil assumirá metas mais ambiciosas em 2018, quando haverá uma avaliação dos resultados do acordo. “O Brasil precisa reconhecer que deve fazer mais que o prometido no ano passado”, disse. “Todos devem, porque estamos na trajetória de 3ºC de aquecimento.”

Aprovado por representantes de 195 nações em dezembro, o tratado prevê uma série de compromissos nacionais com o objetivo de limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC até o fim do século, em relação ao patamar anterior ao período industrial. Para que entre em vigor, o Acordo de Paris precisa ser ratificado por pelo menos 55 países que representem ao menos 55% das emissões de gases do efeito estufa.

“A era do consumo sem consequências chegou ao fim. Nós temos de intensificar os esforços para ‘descarbonizar’ nossas economias”, ressaltou o secretário-geral das Nações Unidas. Além do caráter simbólico, a cerimônia desta sexta tinha o objetivo de mobilizar os líderes mundiais em torno da ratificação do acordo, de forma que entre em vigor no próximo ano e não em 2020, como inicialmente previsto.

Primeiro a discursar, o presidente da França lembrou que Paris vivia uma situação trágica em dezembro, sob o impacto dos atentados terroristas que haviam provocado a morte de 130 pessoas no mês anterior. Ainda assim, ressaltou, foi possível fechar o acordo histórico sobre mudança climática.

Médium dá previsão de nuvens sombrias sobre a Esplanada (UOL)

Leandro Mazzini – Coluna Esplanada

04/04 01:10 

A médium Adelaide Scritori, da Fundação Cacique Cobra Coral, que há décadas diz controlar o tempo em trabalho mediúnico, avisou a expoentes dos três Poderes estar atenta.

E mandou um alerta: Ela também está sub judice, não vai poder ajudar muito, porque ninguém tem feito direito seu trabalho. A FCCC já manteve convênio por anos, sem custos, com o Ministério de Minas e Energia, para monitorar os reservatórios das usinas. Desde a Era José Sarney no Palácio.

Que os políticos reparem as nuvens sombrias que se forjam sobre a Esplanada, nas próximas semanas. A conferir.

Vidente do Poder envia e-mail para Cunha e pede renúncia: fatos novos virão (UOL)

Leandro Mazzini – Coluna Esplanada24/11 02:00

A conhecida médium Adelaide Scritori, criadora da Fundação Cacique Cobra Coral, teve visão de nuvens cinzentas que se forjam com “novos fatos” perturbadores para Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados.

Não titubeou em enviar-lhe um e-mail e sugeriu que ele renuncie, antes que seja tarde e vire alvo para valer do STF.

Adelaide é conhecida do circuito do Poder, no eixo Brasília-SP-Rio. Anuncia que sua fundação faz trabalhos espirituais de controle do tempo, e manteve parcerias (diz sem remuneração) com o Ministério de Minas e Energia e Prefeitura do Rio, entre outros clientes mundo afora.

Ficou famosa ao recomendar ao então presidente José Sarney que evitasse uma viagem programada no avião presidencial porque poderia sofrer um acidente. Cauteloso e supersticioso, Sarney acolheu a dica. A FAB teria descoberto depois uma falha numa peça da aeronave.

Ministro da Defesa vai a CPI para constranger antropólogos e defensores de indígenas (Outras Palavras)

Blog do Alceu Castilho

Publicado em 3 de abril de 2016

Em ato voluntário, Aldo Rebelo voltou a se aliar com ruralistas para colecionar delírios que seriam inadequados para um deputado; quanto mais à sua função no governo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

No que se refere à questão agrária, tema que acompanho de perto, nenhuma vez fiquei tão constrangido ao ver a fala de um político quanto agora, ao assistir o vídeo de Aldo Rebelo na CPI da Funai, na quarta-feira. E olhem que ele tem sérios concorrentes. Tivemos o deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS) chamando índios, gays, quilombolas de “tudo que não presta”. E falas absurdas da ministra Kátia Abreu, principalmente do tempo em que era senadora; ou do líder da milícia UDR, hoje senador, Ronaldo Caiado (DEM-GO).

E por que a fala de Rebelo é pior?

Porque ele é ministro da Defesa. Suas curiosas concepções sobre “antropologia colonial” já seriam particularmente bizarras por ele se declarar comunista – ele é um dos líderes do PCdoB. Mas este é um assunto menor: que esses comunistas específicos se virem com sua consciência e com suas leituras, diante das diatribes do ex-deputado. Que se olhem no espelho e tentem encarar, depois disso, uma liderança indígena, um antropólogo sério, sem passar profunda vergonha. Agora, repito: Rebelo é ministro da Defesa. 

E, por isso, sua fala é indefensável. Vejamos.

“Dos três troncos, o indígena é o mais sofrido, o mais esquecido pelo Estado brasileiro. Enquanto os outros troncos alcançaram, de certa forma, seu espaço na construção da sociedade nacional, os índios foram ficando à margem desse processo, e carregando maior as penas e o sofrimento da construção da nossa pátria. Cabe, portanto, esse registro pra que essa injustiça possa ser reparada, para que nós possamos, de forma consequente, socorrer, amparar essa parcela da nossa população. Exatamente para que ela não fique à mercê [eleva a voz] da manipulação de demagogos, da manipulação de interesses espúrios internos e externos, como, lamentavelmente, vem acontecendo.

É preciso que o Estado brasileiro ampare a população indígena do Brasil, para que organizações não-governamentais interesseiras, muitas vezes agentes do próprio Estado, agindo contra o Estado, manipulem o sofrimento e o abandono das populações indígenas. Falo, senhoras e senhores, com a experiência de quem palmilhou, nas fronteiras do Brasil mais remotas da Amazônia, as terras indígenas e quem pôde dialogar com suas populações. E de quem pôde testemunhar, exatamente, aquilo que acabo de dizer. (…)

Nossa tradição, naturalmente, não nega as violências, não nega as brutalidades, não nega as injustiças, não nega tudo que de errado nós fizemos contra as populações indígenas. Mas isso também afirma a natureza da nossa civilização de buscar incorporar, não apenas no sangue, mas na cultura, na história, na literatura, na culinária, no imaginário e na psicologia do nosso povo a presença dos nossos queridos e das nossas queridas irmãs e irmãos indígenas.

Por essa razão, senhores, é inaceitável [eleva novamente a voz] a doutrina esposada por certos setores da antropologia, principalmente da antropologia colonial, antropologia criada na França e na Inglaterra exatamente para melhor realizar o trabalho de dominação das chamadas populações aborígenes. Antropologia que depois foi incorporada pelos exércitos coloniais como parte do esquema de dominação. Essa corrente antropológica neocolonial é que procura apartar da sociedade nacional e da integração à sociedade nacional as populações indígenas. E é preciso que se denuncie com vigor e com coragem, para que o Brasil não se ponha no papel de vítima dos crimes que, de fato, ele não cometeu. Basta aqueles que nós já cometemos.

Essa antropologia que influencia estruturas do próprio Estado brasileiro, que incorpora setores importantes da nossa mídia, que incorpora setores importantes de correntes religiosas trata de estabelecer um abismo entre a sociedade nacional, entre o Brasil e as populações indígenas, contrapondo ao esforço de integração a ideia de segregação. Como se na escala evolutiva da humanidade o índio pudesse ser contido e parado nos estágios anteriores à evolução de toda a humanidade.

Tenho amigos europeus que fazem estudos em populações tribais e que descobriram, aqui na região da Amazônia, como é óbvio, uma população indígena que não sabe contar, que não domina a aritmética como qualquer povo ágrafo. Eu dizia para ele: seus antepassados também não sabiam contar. Contam no máximo 1, 2, 3 e muito. (…) O que eu perguntava para esse amigo antropólogo era o seguinte: as crianças dessa tribo devem ter o direito de aprender matemática? Ou elas devem ter negado esse direito, para que a antropologia continue dispondo de estudo de caso para registrar nas suas teses de mestrado ou doutorado? (…)

A manipulação das causas nobres e justas, como é a causa da proteção dos índios, não é a única no mundo. Ela tem paralelo com a manipulação da causa do meio ambiente. É muito parecido. As potências usam o meio ambiente, as causas indígenas, os direitos humanos, a democracia, a liberdade como usaram o anticomunismo no passado. O que era o anticomunismo? Era o pretexto para se fazer golpes de Estado, para defender interesses econômicos em função da defesa da liberdade e da democracia. Depois que o comunismo deixou de ser o pretexto, porque não era de fato ameaça, eles procuraram outros pretextos: a causa indígena é um deles, o ambientalismo é outro”.   

E assim por diante, como se pode ver no vídeo. De forma voluntária, sem que o ministro Aldo Rebelo tivesse sido convidado ou convocado à CPI, instalada pelos ruralistas para combater direitos indígenas e a reforma agrária. Como porta-voz do governo, portanto?

aldorebelo

Note-se que ele chega a combater a demarcação contínua da Raposa Serra do Sol, em Roraima. Em determinado momento, pergunta: “Quem é índio e quem não é índio onde tudo já se misturou?” E cita um estudo de pedologia na Universidade Federal de Viçosa que considera não existir mais ali uma civilização indígena, “mas uma civilização miscigenada”.

E tem mais: ele se declarou à favor da Proposta de Emenda Constitucional (PEC 215) que transfere ao Congresso o poder de demarcar terras indígenas e quilombolas: “Aldo diz à CPI que é a favor da PEC que muda regras de demarcação de terras“. Uma bandeira de quem? Dos ruralistas.

É como resume o antropólogo Henyo Barretto Filho, do Instituto Internacional de Educação do Brasil: “Se o governo não desautorizar de modo igualmente público e expresso tal depoimento, fica sendo essa a versão do governo sobre os povos indígenas, a política indigenista e o papel da antropologia no reconhecimento dos direitos territoriais”.

O que vem depois do desastre? (Agência Pública)

23/03/2016

A Pública retoma três tragédias socioambientais e conta o que aconteceu depois que a poeira baixou. Impunidade e acordos lenientes são o resultado mais comum.

Por Jessica Mota, da Agência Pública –

Ednei de Souza comemorava seus 9 anos de idade no dia em que tudo pegou fogo. Na madrugada de 25 de fevereiro de 1984, a Vila São José, conhecida como Vila Socó, em Cubatão (SP), sofreu um incêndio de enormes proporções que matou pelo menos 508 pessoas, possivelmente 700, segundo o que estimou à época o Ministério Público de São Paulo. No Brasil da ditadura militar, foram identificados oficialmente 93 corpos.

O incêndio foi provocado por um vazamento no oleoduto Santos-São Paulo, que transportava gasolina da Refinaria de Capuava, em Mauá, para o Terminal da Alemoa, em Santos, de onde era exportado. A vila fica no caminho desse oleoduto. A maior parte de seus moradores eram migrantes nordestinos atraídos pelas possibilidades de trabalho no complexo industrial de Cubatão. O laudo do médico-legista-chefe do Instituto Médico-Legal estimava como número provável a morte de 300 crianças entre 0 e 3 anos.

O incêndio aconteceu na altura do km 58 da Via Anchieta, onde até hoje está a Vila São José, apelidada “Socó” pela presença dos pássaros no mangue sob as casas de palafita da favela. A gasolina se espalhou nas águas do mangue e da maré. Foi por isso que o fogo irrompeu de baixo para cima, com violência.

“Era uma sexta de Carnaval”, lembra Ednei, que continua, aos 41 anos, a morar na vila. “Nós corremos e depois do incêndio eu voltei pra ver como ficou. Passei aqui e eram muitos corpos perto, num lençol branco, outros não estavam cobertos. Cenário de destruição. Pessoas chorando. Bombeiros tentando pegar os corpos que estavam no meio da lama.”

Dirlene Camilo, a dona Didi, de 78 anos, conta que só teve tempo de acordar os filhos e sair correndo. “Eu só via o céu e fogo. Nós corremos. Meu marido ficou pra, sei lá, pegar documento, pra pegar dinheiro. Ele era pescador e naquele dia tinha vendido muito camarão. Ele queimou. Não morreu na hora. Quando soube, fui lá na Santa Casa e ele tinha morrido”, conta ela na sala da sua casa na Vila Natal, bairro vizinho da Vila Socó, onde foi reassentada depois da tragédia.

O inquérito policial foi instaurado no mesmo dia e a Procuradoria-Geral de São Paulo designou o promotor Marcos Ribeiro de Freitas para assumir a investigação e o processo criminal. Durante um mês, o promotor, hoje aposentado, e seu colega José Carlos Pedreira Passos reuniram documentos sobre vazamentos anteriores, laudos do Instituto Médico-Legal, documentos da prefeitura de Cubatão, plantas das instalações dos dutos e depoimentos – de sobreviventes, testemunhas e funcionários das instituições responsáveis, como a Petrobras e a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp). Finalmente, no dia 4 de junho de 1984, os promotores protocolaram a denúncia na Comarca de Cubatão.

Ednei de Souza completava 9 anos no dia do desastre de Cubatão. 'Eles [a Petrobrás] têm dívida eterna com a Vila'. José Cícero da Silva/Agência Pública

É essa peça jurídica, carregada de informações detalhadas e provas, que concluiu que o incêndio foi causado por falha humana, um “erro operacional”, mas que a tragédia só ocorreu pela negligência e omissão de 24 homens. À frente do rol de denunciados estava Shigeaki Ueki, então presidente da Petrobras e ex-ministro de Minas e Energia do governo Geisel (1974-1979). Havia outras autoridades, como o prefeito-interventor de Cubatão na época, José Oswaldo Passarelli, nomeado pelo governo militar. Ueki participou de diversos governos desde 1964 e foi o primeiro presidente civil da Petrobras.

“A nossa denúncia foi uma peça técnica, juridicamente falando. Promovendo responsabilidade, não só pela falha humana que houve, porque isso não elidia a responsabilidade da Petrobras”, relembra Marcos de Freitas. “Porque são culpas concorrentes. Uma coisa é falha humana, outra coisa é a responsabilidade da empresa, que tanto pode ser na área cível, como foi, como na área criminal, como também foi.”

A falha humana foi constatada em sindicância da própria Petrobras. As válvulas que ligavam as linhas de transporte da gasolina aos tanques não se abriram por “um erro operacional”, ocasionado por “problemas de comunicação”. Mas a “culpa consciente” pelo incêndio saltou aos olhos dos promotores ao examinarem um ofício encaminhado por Ueki ao então governador de São Paulo, Franco Montoro, dois meses antes da tragédia. Ueki alertava para o risco iminente de um incêndio e pedia que fossem tomadas providências para remover as pessoas que viviam na Vila Socó. “Só que ele mandou o ofício e não tomou nenhuma providência, vamos dizer, entrar com uma ação no Fórum pra botar todo mundo pra fora. Ele não fez nada, se omitiu completamente. Foi através de uma culpa consciente, através dessa omissão, por parte da Petrobras, que nós denunciamos a responsabilidade criminal”, explica o promotor. Segundo consta na denúncia, deveria haver uma faixa de pelo menos 30 metros que separasse casas e barracos da área do oleoduto e a atribuição legal de realocar as pessoas era da Petrobras, desde o momento em que assumiu a administração do oleoduto.

Não há registros da resposta de Montoro. Antes mesmo do ofício de Ueki, porém, em 1977, Araken de Oliveira, ex-presidente da Petrobras, havia enviado um ofício semelhante ao ex-governador Paulo Egídio Martins. O ex-governador respondia que a competência era do Serviço Social da prefeitura de Cubatão e que ela já havia elaborado um projeto de “desfavelamento” que tinha financiamento do Banco Nacional de Habitação para construção de 6 mil casas. Mas o projeto nunca chegou à Vila Socó.

O único monumento em homenagem às vítimas fica no fundo da Vila, num canteiro ao lado da rodovia Anchieta. José Cícero da Silva/Agência Pública

A denúncia – que obteve repercussão nacional e internacional – apontava também falhas de manutenção nos dutos. Entre 1971 e 1975, o oleoduto apresentou uma média de um vazamento a cada dez dias. Ele havia sido adquirido pela Petrobras em 1974 – operava desde 1951 – sem que fosse feita uma inspeção para avaliar o sistema. De 1977 até a investigação do Ministério Público, o oleoduto já havia se rompido 19 vezes – 18 por corrosão. A válvula de segurança, que poderia aliviar a pressão que causou o acidente, só foi instalada uma semana após o incêndio.

Ainda assim, ninguém foi preso. Uma semana depois de feita a denúncia, o juiz da Comarca de Cubatão descartou a responsabilidade de sete dos 24 denunciados: o então prefeito Passarelli e mais seis engenheiros. Os demais foram chamados para interrogatório, com exceção do presidente da Petrobras, que conseguiu um habeas corpus por dois votos a um e, depois, o trancamento da ação penal. Sete engenheiros e funcionários da Petrobras foram condenados em primeira instância a um ano e sete meses de prisão. Na mesma decisão, outros quatro foram absolvidos. Nenhuma das autoridades de alto escalão foi condenada. Em agosto de 1986, após recursos, os réus foram todos absolvidos em segunda instância. Passarelli seria prefeito por mais dois mandatos em Cubatão, de 1986 a 1988 e de 1993 a 1996.

No ano seguinte ao desastre, a Agência Estado noticiava a recorrência dos vazamentos nos dutos da Petrobras na Baixada Santista. Segundo o jornal, “houve indenizações irrisórias (só oito por morte), construiu-se apenas 28 casas para os desabrigados, e a Justiça ainda não apontou os culpados. As indenizações às vítimas não ultrapassaram Cr$ 3 bilhões, sendo que, por morte, os oito acordos não chegaram a Cr$ 75 milhões”.

Dona Didi conta que foi reassentada na Vila Natal, onde mora até hoje, dois meses depois do incêndio. Até a casa sair, ficou com os quatro filhos na residência do irmão, no Guarujá. Em dinheiro, recebeu Cr$ 1,5 milhão para ressarcir tudo o que perdeu no incêndio. O valor corresponde atualmente a R$ 10.652,54 (cálculo feito em plataforma do Banco Central, com correção monetária e índice de inflação reajustados). Ela não tem a escritura da casa, apenas a “permissão de morada”, e não escolheu ir para Vila Natal.

“Eu já tava acostumada lá na Vila Socó, tinha medo de mudar de lá”, conta. “Cedo eu ia fechando as portas pros meninos não saírem. Era um mato só, um lixão aí atrás”, lembra enquanto aponta para o fundo da casa na Vila Natal. Ela diz que se acostumou com o cheiro. “A gente que é pobre acostuma com tudo.”

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

Dona Didi perdeu o marido no incêndio. Como compensação, ganhou uma casa que ficava ao lado de um lixão. José Cícero da Silva/Agência Pública

A Vila Socó ainda existe no mesmo lugar, mas já não há mangue nem casas de palafita. Foi urbanizada a partir de 1985 por reivindicação dos moradores. Os dutos que transportam gasolina ainda estão ali, mas agora subterrâneos. Por toda a calçada da área de lazer do bairro existem estacas amarelas que sinalizam a passagem da tubulação.

Apesar de, na época, já existirem uma legislação estadual que normatiza a prevenção e controle de poluição, uma lei federal de 1980 que regula o zoneamento industrial e estabelece diretrizes para o licenciamento de indústrias e a Lei Federal 6.938, de 1981, que instituía a Política Nacional de Meio Ambiente, o desastre chamou atenção para a necessidade de cumprir com rigor a regulação ambiental. Em dezembro de 1984, dez meses depois do incêndio, o então gerente regional da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), Luís Carlos Valdez, fez declarações alarmantes ao jornal A Tribuna. “Se as autoridades não ouvirem o clamor da Baixada Santista, teremos muitas outras tragédias como a da Vila Socó. Talvez piores”, afirmou. No mesmo ano, Passarelli determinou estudos para a criação de uma Secretaria de Meio Ambiente municipal. Em 1985, iniciou-se “um processo de conscientização sobre a vulnerabilidade da região do Pólo Petroquímico de Cubatão”, como aponta histórico da Cetesb. Foi então que a companhia começou a desenvolver um setor de Análise de Riscos.

Pouco se avançou, porém, para corrigir as injustiças cometidas em relação aos atingidos pela tragédia. “Eu lembro que na época o então vereador Dorivaldo Cajé, que era o presidente da Câmara, mediou esses acordos. Acordos em que foram definidas indenizações irrisórias. Só pra se ter uma ideia, e isso está no processo, crianças de até 12 anos não foram indenizadas porque não eram força produtiva”, conta Dojival Vieira, que era vereador eleito pelo Partido dos Trabalhadores no momento do desastre. Hoje, Dojival é jornalista e advogado e integra a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão.

“Naquela época, o povo era leigo. Não sabia dos direitos. O pessoal que vinha pra trabalhar, mas não conhecia de direito, na época não sabia nem contratar um advogado. Então, o poder público fez o que quis com o povo”, sublinha o morador Ednei, presidente da associação de bairro entre 2004 e 2008. “Eu trouxe de volta a história [do incêndio]. Eu resgatei essa memória viva do povo”, conta. “A Petrobras não gostou da lembrança. O gerente de comunicação da época falou pra não falar mais do assunto, que isso é coisa passada. Eu falei que não, que eles têm dívida eterna com a Vila São José”, diz.

Coluna no jornal A Tribuna, de Santos, em 08 de dezembro de 1984, levantava discussão sobre degradação ambiental

Em 2014, no aniversário de 30 anos da tragédia, a Comissão da Verdade da Ordem dos Advogados do Brasil em Cubatão, em parceria com a Comissão da Verdade Rubens Paiva, instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), focou os trabalhos no desastre da Vila Socó. Como explica Adriano Diogo, ex-deputado estadual que presidiu a Comissão da Verdade em São Paulo, “a Petrobras sempre foi uma empresa militarizada”, e “Cubatão, que tinha o polo petroquímico, era uma área de segurança nacional”. Portanto, de responsabilidade dos militares [os prefeitos eram nomeados pelos militares], como lembrou o então governador Franco Montoro em entrevista aos jornalistas em Vila Socó, no dia da tragédia: “É preciso não esquecer que Cubatão está sendo considerada área de segurança nacional apenas como uma cidade que não deve escolher o seu governante. Se houvesse uma participação maior da população, nós teríamos uma participação maior na apreciação dos problemas e na solução”, disse o então governador.

A Comissão da Verdade da OAB de Cubatão pediu o desarquivamento do processo de Vila Socó. “Quando nós criamos essa comissão, tínhamos alguns objetivos”, explica o advogado Luiz Marcelo Moreira. “O primeiro era o resgate à memória. O segundo objetivo era traçar a real dimensão dessa tragédia. O terceiro é o porquê da impunidade dos entes envolvidos. Ninguém foi punido. E o quarto, se houve indenização, de que forma foi a indenização? E se existiria ainda direito a alguma indenização. Traçado isso, a primeira coisa que eu fiz foi pedir o desarquivamento desse processo.”

Foram feitas cinco audiências públicas sobre o caso, três em Cubatão e duas na Alesp. Shigeaki Ueki, hoje consultor internacional da área de energia, foi chamado para depor na Comissão da Verdade em São Paulo. Em seu depoimento, em julho de 2014, ele buscou dar o assunto por encerrado. “Nós admitimos logo de início, vamos aceitar a culpa, foi um erro operacional, falha humana, não interessa, e custou uma pequena fortuna para a Petrobras, e indenizamos todos, de acordo com a lei, com a expectativa de vida e tudo mais.”

Desde o fim da Comissão da Verdade, em 2014, a equipe de três advogados estuda como buscar reparação às vítimas. “Nós encerramos essa primeira etapa, e a próxima etapa é montar uma petição inicial com a documentação e levar à OEA [Organização dos Estados Americanos] para que lá seja julgada e analisada essa situação não só da Petrobras, mas do Estado brasileiro.” Moreira se refere à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, que pode condenar o Estado brasileiro por violações de direitos humanos. “Se existir uma culpa, seja de qual forma for, que ele [o Estado] seja responsabilizado e indenize as vítimas e os parentes das vítimas. Nós queremos fazer isso ainda este ano”, conclui o advogado.

A Pública fez um pedido pela Lei de Acesso à Informação à Petrobras para obter documentos internos relativos ao desastre da Vila Socó. A Ouvidoria-Geral respondeu que as informações sobre o incêndio já haviam sido encaminhadas à Comissão da Verdade de São Paulo e que, na época em que a comissão requereu tais informações, a Petrobras não localizou a documentação relacionada. A reportagem questionou também a empresa, via assessoria de imprensa, sobre as indenizações, restaurações dos dutos e zona de segurança na Vila Socó. A assessoria informou por telefone que não iria comentar o caso.

Dutos da Petrobrás que transportam gasolina hoje têm sinalização e ainda passam pela Vila Socó. José Cícero da Silva/Agência Pública

12 anos antes, outra barragem em Minas

O estado de Minas Gerais tem 220 barragens de rejeitos minerais classificadas dentro da Política Nacional de Segurança de Barragens. Em 2003, 12 anos antes de romper a barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, também em Minas, outra se rompia na cidade de Cataguases, perto da divisa com o Rio de Janeiro.

Ela represava rejeitos gerados na produção de celulose (chamados de lixívia negra) e fora construída na década de 1980, de acordo com informações do Sistema Estadual de Meio Ambiente (Sisema) de Minas Gerais, pela Indústria Matarazzo de Papéis, posteriormente adquirida pela Indústria Cataguases de Papel e pela Florestal Cataguases, pertencentes ao Grupo Iberpar.

Em resposta aos questionamentos da Pública, o Sisema informa que a Indústria Matarazzo de Papéis operou sempre irregularmente, de 1978 até seu fechamento, em 1993. A empresa se mantinha em atividade “celebrando vários acordos com a Comissão de Política Ambiental (Copam), com o objetivo de solucionar as irregularidades ambientais, porém nenhum dos acordos foi cumprido”. A Indústria Cataguases de Papel, que opera com reciclagem de papel e adquiriu a planta em 1993, só requereu Licença de Operação em 1997. Até 2003, ano do rompimento, a indústria protocolou quatro processos de licenciamento ambiental. “Todos indeferidos por estarem tecnicamente inadequados”, informou o Sisema. Durante 14 anos a empresa operou sem licença, obtida apenas em 2007.

No dia 29 de março de 2003, a “Barragem B”, localizada na fazenda Bom Destino, se rompeu, contaminando com a lixívia negra o ribeirão Cágado, o rio Pomba e o rio Paraíba do Sul, principal fonte de abastecimento de água do estado do Rio de Janeiro. Mais de 500 milhões de litros de lixívia vazaram nos rios, de acordo com o Ministério Público Federal. Os resíduos chegaram a Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro, e, em menor proporção, até o litoral de Presidente Kennedy, no Espírito Santo. Durante 11 dias o noroeste fluminense ficou sem abastecimento de água.

O Sisema informou que testes laboratoriais indicaram que os resíduos da barragem não eram tóxicos. Entretanto, uma portaria do Ibama emitida quatro dias após o rompimento da barragem referia-se ao “vazamento de substâncias altamente tóxicas” e proibia a pesca nos rios Pomba e Paraíba do Sul durante 90 dias. As atividades rurais no entorno dos rios ficaram comprometidas. Animais como bois, cavalos e jacarés foram encontrados mortos ao longo do percurso dos rios contaminados, e cerca de 60 espécies de peixes – das 169 então existentes no rio Paraíba do Sul – foram dizimadas, de acordo com um artigo científico de autoria da professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro Verônica Bomfim de Souza Alves.

O procurador da república Eduardo Santos de Oliveira, que à época estava lotado na Procuradoria da República em Campos dos Goytacazes, foi o responsável pelas ações do MPF no caso da Cataguases. A experiência foi um dos fatores para que ele integrasse a força-tarefa de procuradores no caso do rompimento da barragem da Samarco em Mariana. “Um acidente dessa proporção jamais ocorre por conta dessa ou daquela causa. Como regra, é uma soma de omissões ou decisões equivocadas”, ensina. Um exemplo: na época da construção da barragem de Cataguases, já havia soluções melhores para gerenciar os dejetos da atividade industrial. Mas, segundo ele, a barragem seria uma opção economicamente mais barata.

O Ministério Público Federal (MPF) agiu contra a empresa, que teve suas atividades suspensas. Em ação civil pública, pediu indenização e compensação por danos ecológicos. Responsabilizou também o Grupo Matarazzo, dono anterior da propriedade e da indústria de papel e responsável pela construção da barragem. O Ibama e o estado de Minas Gerais foram apontados como responsáveis por omissão. Na denúncia consta ainda que, em 1990, a Indústria Matarazzo de Papéis já havia sido avisada da necessidade de a barragem ser desativada após abril de 1993 – ou seja, dez anos antes do rompimento.

Em 2007, a Justiça Federal no Rio de Janeiro determinou o pagamento conjunto de R$ 170 milhões de indenização por danos ambientais. Os réus entraram com recursos, mas de acordo com o procurador a expectativa é que a sentença saia ainda este ano e seja favorável ao pedido do MPF. Há uma execução provisória em andamento, com a penhora dos bens das empresas.

“A população ribeirinha, no caso os pescadores, na grande maioria foi assessorada pela Defensoria Pública ou por advogados. Houve centenas de ações individuais cobrando das empresas por eventuais danos, tanto em Cataguases quanto em Campos [dos Goytacazes]”, informa Oliveira. “Algumas já tiveram ganho de causa, outras ainda não.”

O MPF também denunciou criminalmente os sócios, ex-sócios e um ex-funcionário das empresas Florestal Cataguases, Indústria Cataguases de Papel, ambas do Grupo Iberpar, e das Indústrias Matarazzo de Papéis por crime de omissão, pela inundação, poluição e por não terem feito o esvaziamento da barragem após o desastre. A possibilidade de rompimento já tinha sido informada à Florestal Cataguases havia mais de três anos antes do acidente, segundo uma nota da assessoria do MPF publicada em seu site na época.

Dois dos então diretores da Indústria Cataguases de Papel, Félix Luis Santana Arencibia e João Gregório do Bem, tiveram prisão preventiva decretada. Arencibia chegou a ser preso, mas tanto ele como João Gregório tiveram liberdade provisória em seguida. A ação criminal referente aos sócios e ex-sócios da Indústria Cataguases de Papel e Florestal Cataguases ainda não teve sentença. O processo que acusava criminalmente a Indústria Matarazzo de Papéis e seus representantes foi trancado por ordem do Supremo Tribunal de Justiça, após recursos dos réus.

Em paralelo às ações judiciais, a Indústria Cataguases de Papel assinou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal. O acordo estabeleceu ações de recomposição da barragem, recuperação das margens do córrego do Cágado, proteção de nascentes, repovoamento de espécies de peixes nativas e remoção dos resíduos acumulados nas propriedades rurais. Segundo o Sisema, “as ações foram implementadas satisfatoriamente”.

“O TAC também contém uma série de medidas para tratamento dos resíduos remanescentes nos reservatórios das Barragens A e B da Fazenda Bom Destino, de forma a promover a completa desativação das estruturas e recuperação do passivo ambiental”, informa a nota do Sisema enviada à Pública. Segundo o procurador Eduardo Santos de Oliveira, hoje não há mais risco em Cataguases porque as barragens estão vazias.

Para o procurador, que acompanhou tanto Cataguases como Mariana, a postura das empresas continua “lamentável”. “O empreendedor sabe da potencialidade lesiva da obra que ele construiu e da qual ele é dono, sabe dos perigos que a obra que ele executou traz para a população e para o meio ambiente. O que é lamentável mesmo é que, no final das contas, eles não encaminham suas decisões de maneira a preservar a integridade tanto do meio ambiente e do patrimônio histórico, mas principalmente das pessoas”, analisa. “Se um décimo de qualquer medida das que são tomadas depois tivesse sido feito ao longo do tempo da barragem, o desastre nem teria acontecido. Independentemente das obrigações de indenizar, independentemente de eventual sentença criminal, o que é mesmo lamentável é a perda de 17 vidas inutilmente”, fala, ao refletir sobre o desastre da barragem do Fundão, no distrito de Bento Gonçalves, em Mariana.

A Pública tentou localizar representantes da Florestal Cataguases e da Indústria Cataguases de Papel, sem sucesso. Em matéria do portal G1, publicada em novembro de 2015, a advogada da Indústria Cataguases de Papel, Kássia Silveira, afirmou que “a empresa foi multada no valor de R$ 50 milhões, aplicada pelo Ibama. Nós entramos na Justiça contra essa multa e o processo ainda não foi julgado, ainda está em curso. Para recuperar a área ainda gastamos aproximadamente R$ 1,5 milhão”.

Vazamento de petróleo em alto-mar

Foi no dia 8 de novembro de 2011 que a Petrobras notificou a Chevron do Brasil sobre uma imensa mancha de óleo no Campo de Frade, na Bacia de Campos, a uma distância de cerca de 120 km da costa do Rio de Janeiro. Há três meses, a Chevron explorava um poço de petróleo a 2.280 metros abaixo do fundo do mar, como parte de um consórcio em que tem participação majoritária (51,7%), seguida pela Petrobras (30%) e pela Frade Japão Petróleo Ltda. (18,3%).

Foram cerca de 3.700 barris de petróleo cru vazados no mar, ou aproximadamente 588 mil litros, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Em laudo técnico, o Ibama e a Marinha classificaram o ocorrido como dano ambiental grave em zona de grande sensibilidade ambiental. Entre os meses de julho e novembro, quando ocorreu o vazamento, é grande a presença de baleias-jubarte e baleias-francas do sul na região da Bacia de Campos, que também é rota migratória de diversas aves marinhas. Além disso, mesmo quando não é visível, o vazamento de petróleo cru pode causar interferências em diversos níveis, de alterações celulares à morte de plânctons (organismos microscópicos que servem de alimento a peixes), peixes que nadam em cardumes, como as sardinhas, as anchovas e os atuns, além de mamíferos aquáticos e aves marinhas.

“Nós não tivemos nenhum animal visivelmente contaminado, mas você não pode comprovar que não houve [danos]. Você infere os danos a partir do momento em que existem vários estudos que demonstram que o óleo na água causa poluição. Poluição é dano”, explica Marcelo de Amorim, coordenador de Atendimento a Emergências Ambientais do Ibama. É ele que assina o laudo com a consultora da Gerência de Meio Ambiente da Marinha, Keity Ferraz. O laudo informa também que “os efeitos a longo prazo não são tão aparentes e alguns compostos podem ser bioacumulados ao longo da cadeia trófica podendo trazer efeitos nocivos ao homem”.

A ANP realizou uma investigação para apurar as causas do vazamento. Concluiu que ele havia sido provocado por erro no cálculo de pressão injetada no poço ao ser perfurado e agravado por falta de avaliação dos riscos da operação. No relatório final da apuração, a agência explicita: “O acidente poderia ter sido evitado, caso a Chevron Brasil Upstream Frade Ltda. tivesse conduzido suas operações em plena aderência à regulamentação, em conformidade com as boas práticas da indústria do petróleo e com seu próprio manual de procedimentos. De acordo com a ANP, a Chevron “dispunha de dados e informações suficientes para concluir que a classificação do risco das operações, na forma em que foram executadas, era intolerável”, diz o relatório. Ao todo, os fiscais da ANP apontaram 25 irregularidades (para toda a cronologia do vazamento, leia aqui).

Fernanda Pirillo, coordenadora de Emergências Ambientais do Ibama, explica que na etapa do licenciamento ambiental, antes de entrar em operação, as empresas que realizam produção de petróleo em alto-mar devem demonstrar ter capacidade de resposta. “O Ibama faz o simulado, como a gente chama a avaliação pré-operacional, com mobilização de recursos, e a empresa passando nesse exercício, obtém a licença [ambiental]. A legislação já obriga das empresas a se prepararem em caso de acidentes”, completa.

A Chevron confirmou o vazamento no dia seguinte à notificação da Petrobras, mas a empresa contratada para fazer o controle do poço, Wild Well Control, só foi informada no dia 10 de novembro. Isso deveria ter ocorrido imediatamente por causa do nível de gravidade da situação. O poço só foi controlado no dia 13 de novembro, o sexto dia de vazamento. Quatro meses depois, em março de 2012, foi identificado um novo ponto de vazamento a 3 km do poço. Dessa vez, a quantidade de petróleo foi menor: 25 barris ou aproximadamente 3.974 litros.

A Chevron pagou R$ 25,5 milhões à ANP por causa das irregularidades encontradas e R$ 48,2 milhões ao Ibama por danos ambientais. As multas tiveram um desconto de 30%, previsto em lei.

A Chevron Brasil, a Chevron Latin America, a Transocean Brasil – proprietária da sonda que explorava o poço – e os executivos que representavam as empresas (entre eles, o ex-presidente da Chevron no Brasil, George Buck) também foram alvo de ações do Ministério Público Federal no Rio de Janeiro. Em virtude dos danos ambientais, o MPF pedia indenização de R$ 20 bilhões por cada um dos vazamentos de petróleo para as três empresas. Em 2013, porém, um acordo, feito pelo Termo de Ajustamento de Conduta, entre as três empresas, o MPF, o Ibama e a ANP encerrou o processo, determinando medidas de compensação equivalentes a R$ 95,1 milhões. Na audiência pública para discutir o acordo, em dezembro de 2012, apesar da avaliação do Ibama, uma apresentação da petrolífera mostra que “não houve dano ambiental relevante” e que “não houve danos relevantes à vida marinha”. Antes disso, as atividades das empresas envolvidas no desastre ambiental haviam sido suspensas pela Justiça. A ANP conseguiu reverter a decisão no Superior Tribunal de Justiça com a justificativa de que ela “poderia causar graves lesões à segurança e à economia públicas”. As empresas voltaram a operar no Brasil, com a ressalva de que não poderiam voltar às atividades no Campo de Frade.

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Petróleo cru que vazou no Campo de Frade, em 2011, em operação da Chevron. Rogério Santana/Imprensa RJ

Dezessete gestores da Chevron e da Transocean foram denunciados por crime ambiental e dano ao patrimônio público. George Buck, então presidente da Chevron Brasil, e três funcionários da empresa também responderam por “dificultar a ação fiscalizadora do Poder Público, se omitir em cumprir obrigação de interesse ambiental, apresentar um plano de emergência enganoso e por falsidade ideológica, ao alterarem documentos apresentados a autoridades públicas”, informou o MPF em seu site. Os acusados chegaram a ter seus passaportes retidos e foram impedidos de deixar o Brasil. As penas variavam de 21 a 31 anos de prisão. Hoje, o processo tramita no Superior Tribunal de Justiça e aguarda decisão.

O acordo das petrolíferas com o MPF, a ANP e o Ibama, assinado em setembro de 2013, prevê uma série de medidas de compensação ambiental e aperfeiçoamento das operações da Chevron em relação à resposta a incidentes como o do Campo de Frade e à avaliação de riscos. O dinheiro e os projetos serão administrados pelo Funbio, organização não governamental que presta serviços de recuperação ambiental, que já começou a receber os depósitos.

As medidas preventivas também começaram a ser executadas. “O monitoramento através de radares já foi instalado e já foi feito aperfeiçoamento dos estudos solicitados, de verificar todos os processos físicos e químicos do óleo até a superfície”, conta Marcelo de Amorim, do Ibama. Ele participou da última reunião sobre os projetos fruto do acordo, no fim do ano passado.

“Quanto aos projetos de natureza compensatória, depois de vários ofícios expedidos ao Ibama, ANP, e tendo inclusive passado pelo crivo técnico de nossa análise pericial da quarta câmara do MPF, dois deles começaram a ser executados há cerca de 4/5 meses”, informa, por e-mail, o procurador responsável por monitorar o cumprimento das medidas, Jaime Mitropoulos. Um dos pontos do acordo é a criação de um website que disponibilize relatórios sobre as ações compensatórias da Chevron, o que ainda não foi feito. “Estaremos cobrando também o cumprimento da cláusula que determina a disponibilização de relatórios na internet”, responde o procurador.

De acordo com Fernanda Pirillo, do Ibama, os projetos que têm editais abertos pelo Funbio para serem implementados são o de conservação da toninha, mamífero semelhante ao golfinho, e um projeto de apoio à pesquisa marinha e pesqueira no Rio de Janeiro. Outros quatro projetos ainda estão em análise pelo Ibama, são eles: conservação e uso sustentável da biodiversidade nas Unidades de Conservação Federais Costeiras e Estuarinas do Rio de Janeiro; implementação de projetos de educação ambiental e geração de renda para comunidades pesqueiras na região norte do Rio de Janeiro; um centro de reabilitação de animais silvestres no estado do Rio de Janeiro e o projeto Aqua Rio.

Procurada pela reportagem com uma série de indagações a respeito dos projetos de compensação ambiental e do cumprimento do acordo firmado judicialmente, a Chevron não quis comentar nada sobre o caso. Em nota, a petrolífera avalia que “agiu rapidamente e de forma responsável, quando aconteceu o incidente no Campo Frade, em novembro de 2011, controlando a exsudação dentro dos melhores padrões da indústria”.

Fernanda, que trabalha há dez anos no Ibama, avalia que desastres como esse têm influenciado a mudança na legislação ambiental. “A legislação foi ficando mais rigorosa e mais específica para os casos de vazamento de óleo. Também percebo que houve um entendimento das empresas de que esses não são mero cumprimento da legislação, e sim um item importante na gestão de seus negócios”, avalia.

A produção de petróleo pela Chevron no Campo de Frade voltou à ativa em abril de 2013 e foi aumentada em março de 2014. (Agência Pública/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

N.F.L.’s Flawed Concussion Research and Ties to Tobacco Industry (New York Times)

The National Football League was on the clock.

With several of its marquee players retiring early after a cascade of frightening concussions, the league formed a committee in 1994 that would ultimately issue a succession of research papers playing down the danger of head injuries. Amid criticism of the committee’s work, physicians brought in later to continue the research said the papers had relied on faulty analysis.

Now, an investigation by The New York Times has found that the N.F.L.’s concussion research was far more flawed than previously known.

For the last 13 years, the N.F.L. has stood by the research, which, the papers stated, was based on a full accounting of all concussions diagnosed by team physicians from 1996 through 2001. But confidential data obtained by The Times shows that more than 100 diagnosed concussions were omitted from the studies — including some severe injuries to stars like quarterbacks Steve Young and Troy Aikman. The committee then calculated the rates of concussions using the incomplete data, making them appear less frequent than they actually were.

After The Times asked the league about the missing diagnosed cases — more than 10 percent of the total — officials acknowledged that “the clubs were not required to submit their data and not every club did.” That should have been made clearer, the league said in a statement, adding that the missing cases were not part of an attempt “to alter or suppress the rate of concussions.”

One member of the concussion committee, Dr. Joseph Waeckerle, said he was unaware of the omissions. But he added: “If somebody made a human error or somebody assumed the data was absolutely correct and didn’t question it, well, we screwed up. If we found it wasn’t accurate and still used it, that’s not a screw-up; that’s a lie.”

These discoveries raise new questions about the validity of the committee’s findings, published in 13 peer-reviewed articles and held up by the league as scientific evidence that brain injuries did not cause long-term harm to its players. It is also unclear why the omissions went unchallenged by league officials, by the epidemiologist whose job it was to ensure accurate data collection and by the editor of the medical journal that published the studies.

In 2013, the N.F.L. agreed to a $765 million settlement of a lawsuit in which retired players accused league officials of covering up the risks of concussions. Some players have appealed the settlement, asking for an examination of the committee’s concussion research.

Dr. Joseph Waeckerle, speaking to quarterback Joe Montana in 1994, was the Chiefs’ team physician and a member of the N.F.L.’s concussion committee. CreditAssociated Press 

Some retired players have likened the N.F.L.’s handling of its health crisis to that of the tobacco industry, which was notorious for using questionable science to play down the dangers of cigarettes.

Concussions can hardly be equated with smoking, which kills 1,300 people a day in the United States, and The Times has found no direct evidence that the league took its strategy from Big Tobacco. But records show a long relationship between two businesses with little in common beyond the health risks associated with their products.

In a letter to The Times, a lawyer for the league said, “The N.F.L. is not the tobacco industry; it had no connection to the tobacco industry,” which he called “perhaps the most odious industry in American history.”

Still, the records show that the two businesses shared lobbyists, lawyers and consultants. Personal correspondence underscored their friendships, including dinner invitations and a request for lobbying advice.

In 1997, to provide legal oversight for the committee, the league assigned Dorothy C. Mitchell, a young lawyer who had earlier defended the Tobacco Institute, the industry trade group. She had earned the institute’s “highest praise” for her work.

A co-owner of the Giants, Preston R. Tisch, also partly owned a leading cigarette company, Lorillard, and was a board member of both the Tobacco Institute and the Council for Tobacco Research, two entities that played a central role in misusing science to hide the risks of cigarettes.

The N.F.L.’s concussion committee began publishing its findings in 2003 in the medical journal Neurosurgery. Although the database used in the studies contained numerical codes for teams and players, The Times decoded it by cross-referencing team schedules and public injury reports.

The N.F.L.’s concussion studies have faced questions since they were published, but even the league’s harshest critics have never suggested, and no evidence has ever arisen, that the underlying data set could be so faulty.

“One of the rules of science is that you need to have impeccable data collection procedures,” said Bill Barr, a neuropsychologist who once worked for the Jets and who has in the past criticized the committee’s work.

By excluding so many concussions, Mr. Barr said, “You’re not doing science here; you are putting forth some idea that you already have.”

The Work Begins

In an introduction to the first of the concussion committee’s papers, the league’s commissioner at the time, Paul Tagliabue, acknowledged the need for “independent scientific research” to better understand the risks of concussions.

“As we looked more deeply into the specific area of concussions, we realized that there were many more questions than answers,” Mr. Tagliabue wrote.

The committee’s chairman, Dr. Elliot Pellman, the team physician for the Jets, emphasized that his group aimed to produce research that was “independent” and “meticulous.”

In fact, most of the dozen committee members were associated with N.F.L. teams, as a physician, neurosurgeon or athletic trainer, which meant they made decisions about player care and then studied whether those decisions were proper. Still, the researchers stated unambiguously — in each of their first seven peer-reviewed papers — that their financial or business relationships had not compromised their work.

The committee said it analyzed all concussions diagnosed by team medical staffs from 1996 through 2001 — 887 in all. Concussions were recorded by position, type of play, time missed, even the brand of helmet.

The committee’s statements emphasized the completeness of the data.

“It was understood that any player with a recognized symptom of head injury, no matter how minor, should be included in the study,” one paper said.

And in confidential peer-review documents, the committee wrote that “all N.F.L. teams participated” and that “all players were therefore part of this study.”

Those statements are contradicted by the database.

The Times found that most teams failed to report all of their players’ concussions. Over all, at least 10 percent of head injuries diagnosed by team doctors were missing from the study, including two sustained by Jets receiver Wayne Chrebet, who retired several years later after more concussions. Dr. Pellman, the Jets’ physician, led the research and was the lead author on every paper.

Read the whole text here.

Leading Climate Scientists: ‘We Have A Global Emergency,’ Must Slash CO2 ASAP (Think Progress)

 MAR 22, 2016 2:38 PM

CREDIT: AP/DENNIS COOK

James Hansen and 18 leading climate experts have published a peer-reviewed version of their 2015 discussion paper on the dangers posed by unrestricted carbon pollution. The study adds to the growing body of evidence that the current global target or defense line embraced by the world — 2°C (3.6°F) total global warming — “could be dangerous” to humanity.

That 2°C warming should be avoided at all costs is not news to people who pay attention to climate science, though it may be news to people who only follow the popular media. The warning is, after all, very similar to the one found in an embarrassingly underreported report last year from 70 leading climate experts, who had been asked by the world’s leading nations to review the adequacy of the 2°C target.

Specifically, the new Hansen et al study — titled “Ice melt, sea level rise and superstorms: evidence from paleoclimate data, climate modeling, and modern observations that 2 C global warming could be dangerous” — warns that even stabilizing at 2°C warming might well lead to devastating glacial melt, multimeter sea level rise and other related catastrophic impacts. The study is significant not just because it is peer-reviewed, but because the collective knowledge about climate science in general and glaciology in particular among the co-authors is quite impressive.

Besides sea level rise, rapid glacial ice melt has many potentially disastrous consequences, including a slowdown and eventual shutdown of the key North Atlantic Ocean circulation and, relatedly, an increase in super-extreme weather. Indeed, that slowdown appears to have begun, and, equally worrisome, it appears to be supercharging both precipitation, storm surge, and superstorms along the U.S. East Coast (like Sandy and Jonas), as explained here.

It must be noted, however, that the title of the peer-reviewed paper is decidedly weaker than the discussion paper’s “Ice melt, sea level rise and superstorms: evidence from paleoclimate data, climate modeling, and modern observations that 2°C global warming is highly dangerous.” The switch to “could be dangerous” is reminiscent of the switch (in the opposite direction) from the inaugural 1965 warning required for cigarette packages, “Caution: Cigarette Smoking May Be Hazardous to Your Health” to the 1969 required label “Warning: The Surgeon General Has Determined that Cigarette Smoking Is Dangerous to Your Health.”

And yes I’m using the analogy to suggest readers should not be sanguine about the risks we face at 2°C warning. Based on both observations and analysis, the science is clearly moving in the direction that 2°C warming is not “safe” for humanity. But as Hansen himself acknowledged Monday on the press call, the record we now have of accelerating ice loss in both Greenland and West Antarctica is “too short to infer accurately” whether the current exponential trend will continue through the rest of the century.

Hansen himself explains the paper’s key conclusions and the science underlying them in a new video:

The fact that 2°C total warming is extremely likely to lock us in to sea level rise of 10 feet or more has been obvious for a while now. The National Science Foundation (NSF) itself issued a news release back in 2012 with the large-type headline, “Global Sea Level Likely to Rise as Much as 70 Feet in Future Generations.” The lead author explained, “The natural state of the Earth with present carbon dioxide levels is one with sea levels about 70 feet higher than now.” Heck, a 2009 paper in Science found the same thing.

What has changed is our understanding of just how fast sea levels could rise. In 2014 and 2015, a number of major studies revealed that large parts of the Antarctic and Greenland ice sheets are unstable and headed toward irreversible collapse — and some parts may have already passed the point of no return. Another 2015 study found that global sea level rise since 1990 has been speeding up even faster than we knew.

The key question is how fast sea levels can rise this century and beyond. In my piece last year on Hansen’s discussion draft, I examined the reasons the Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) and scientific community have historically low-balled the plausible worst-case for possible sea level rise by 2100. I won’t repeat that all here.

The crux of the Hansen et al. forecast can be found in this chart on ice loss from the world’s biggest ice sheet:

Antarctic ice mass change

Antarctic ice mass change from GRACE satallite data (red) and surface mass balance method (MBM, blue). Via Hansen et al.

Hansen et al. ask the question: if the ice loss continues growing exponentially how much ice loss (and hence how much sea level rise) will there be by century’s end? If, for instance, the ice loss rate doubles every 10 years for the rest of the century (light green), then we would see multi-meter sea level rise before 2100? On the other hand, it is pretty clear just from looking at the chart that there isn’t enough data to make a certain projection for the next eight decades.

The authors write, “our conclusions suggest that a target of limiting global warming to 2°C … does not provide safety.” On the one hand, they note, “we cannot be certain that multi-meter sea level rise will occur if we allow global warming of 2 C.” But, on the other hand, they point out:

There is a possibility, a real danger, that we will hand young people and future generations a climate system that is practically out of their control.
We conclude that the message our climate science delivers to society, policymakers, and the public alike is this: we have a global emergency. Fossil fuel CO2 emissions should be reduced as rapidly as practical.

I have talked to many climate scientists who quibble with specific elements of this paper, in particular whether the kind of continued acceleration of ice sheet loss is physically plausible. But I don’t find any who disagree with the bold-faced conclusions.

Since there are a growing number of experts who consider that 10 feet of sea level rise this century is a possibility, it would be unwise to ignore the warning. That said, on our current emissions path we already appear to be headed toward the ballpark of four to six feet of sea level rise in 2100 — with seas rising up to one foot per decade after that. That should be more than enough of a “beyond adaptation” catastrophe to warrant strong action ASAP.

The world needs to understand the plausible worst-case scenario for climate change by 2100 and beyond — something that the media and the IPCC have failed to deliver. And the world needs to understand the “business as usual” set of multiple catastrophic dangers of 4°C if we don’t reverse course now. And the world needs to understand the dangers of even 2°C warming.

So kudos to all of these scientists for ringing the alarm bell: James Hansen, Makiko Sato, Paul Hearty, Reto Ruedy, Maxwell Kelley, Valerie Masson-Delmotte, Gary Russell, George Tselioudis, Junji Cao, Eric Rignot, Isabella Velicogna, Blair Tormey, Bailey Donovan, Evgeniya Kandiano, Karina von Schuckmann, Pushker Kharecha, Allegra N. Legrande, Michael Bauer, and Kwok-Wai Lo.

Climate policy: Democracy is not an inconvenience (Nature)

NATURE | COMMENT

Nico Stehr

22 September 2015

Climate scientists are tiring of governance that does not lead to action. But democracy must not be weakened in the fight against global warming, warns Nico Stehr.

Illustration by David Parkins

There are many threats to democracy in the modern era. Not least is the risk posed by the widespread public feeling that politicians are not listening. Such discontent can be seen in the political far right: the Tea Party movement in the United States, the UK Independence Party, the Pegida (Patriotic Europeans Against the Islamization of the West) demonstrators in Germany, and the National Front in France.

More surprisingly, a similar impatience with the political elite is now also present in the scientific community. Researchers are increasingly concerned that no one is listening to their diagnosis of the dangers of human-induced climate change and its long-lasting consequences, despite the robust scientific consensus. As governments continue to fail to take appropriate political action, democracy begins to look to some like an inconvenient form of governance. There is a tendency to want to take decisions out of the hands of politicians and the public, and, given the ‘exceptional circumstances’, put the decisions into the hands of scientists themselves.

This scientific disenchantment with democracy has slipped under the radar of many social scientists and commentators. Attention is urgently needed: the solution to the intractable ‘wicked problem’ of global warming is to enhance democracy, not jettison it.

Voices of discontent

Democratic nations seem to have failed us in the climate arena so far. The past decade’s climate summits in Copenhagen, Cancun, Durban and Warsaw were political washouts. Expectations for the next meeting in Paris this December are low.

Academics increasingly point to democracy as a reason for failure. NASA climate researcher James Hansen was quoted in 2009 in The Guardian as saying: “the democratic process doesn’t quite seem to be working”1. In a special issue of the journal Environmental Politics in 2010, political scientist Mark Beeson argued2 that forms of ‘good’ authoritarianism “may become not only justifiable, but essential for the survival of humanity in anything approaching a civilised form”. The title of an opinion piece published earlier this year in The Conversation, an online magazine funded by universities, sums up the issue: ‘Hidden crisis of liberal democracy creates climate change paralysis’ (see go.nature.com/pqgysr).

The depiction of contemporary democracies as ill-equipped to deal with climate change comes from a range of considerations. These include a deep-seated pessimism about the psychological make-up of humans; the disinclination of people to mobilize on issues that seem far removed; and the presumed lack of intellectual competence of people to grasp complex issues. On top of these there is the presumed scientific illiteracy of most politicians and the electorate; the inability of governments locked into short-term voting cycles to address long-term problems; the influence of vested interests on political agendas; the addiction to fossil fuels; and the feeling among the climate-science community that its message falls on the deaf ears of politicians.

“It is dangerous to blindly believe that science and scientists alone can tell us what to do.”

Such views can be heard from the highest ranks of climate science. Hans Joachim Schellnhuber, founding director of the Potsdam Institute for Climate Impact Research and chair of the German Advisory Council on Global Change, said of the inaction in a 2011 interview with German newspaper Der Spiegel: “comfort and ignorance are the biggest flaws of human character. This is a potentially deadly mix”.

What, then, is the alternative? The solution hinted at by many people leans towards a technocracy, in which decisions are made by those with technical knowledge. This can be seen in a shift in the statements of some co-authors of Intergovernmental Panel on Climate Change reports, who are moving away from a purely advisory role towards policy prescription (see, for example, ref. 3).

We must be careful what we wish for. Nations that have followed the path of ‘authoritarian modernization’, such as China and Russia, cannot claim to have a record of environmental accomplishments. In the past two or three years, China’s system has made it a global leader in renewables (it accounts for more than one-quarter of the planet’s investment in such energies4). Despite this, it is struggling to meet ambitious environmental targets and will continue to lead the world for some time in greenhouse-gas emissions. As Chinese citizens become wealthier and more educated, they will surely push for more democratic inclusion in environmental policymaking.

Broad-based support for environmental concerns and subsequent regulations came about in open democratic argument on the value of nature for humanity. Democracies learn from mistakes; autocracies lack flexibility and adaptability5. Democratic nations have forged the most effective international agreements, such as the Montreal Protocol against ozone-depleting substances.

Global stage

Impatient scientists often privilege hegemonic players such as world powers, states, transnational organizations, and multinational corporations. They tend to prefer sweeping policies of global mitigation over messier approaches of local adaptation; for them, global knowledge triumphs over local know-how. But societal trends are going in the opposite direction. The ability of large institutions to impose their will on citizens is declining. People are mobilizing around local concerns and efforts6.

The pessimistic assessment of the ability of democratic governance to cope with and control exceptional circumstances is linked to an optimistic assessment of the potential of large-scale social and economic planning. The uncertainties of social, political and economic events are treated as minor obstacles that can be overcome easily by implementing policies that experts prescribe. But humanity’s capacity to plan ahead effectively is limited. The centralized social and economic planning concept, widely discussed decades ago, has rightly fallen into disrepute7.

The argument for an authoritarian political approach concentrates on a single effect that governance ought to achieve: a reduction of greenhouse-gas emissions. By focusing on that goal, rather than on the economic and social conditions that go hand-in-hand with it, climate policies are reduced to scientific or technical issues. But these are not the sole considerations. Environmental concerns are tightly entangled with other political, economic and cultural issues that both broaden the questions at hand and open up different ways of approaching it. Scientific knowledge is neither immediately performative nor persuasive.

Enhance engagement

There is but one political system that is able to rationally and legitimately cope with the divergent political interests affected by climate change and that is democracy. Only a democratic system can sensitively attend to the conflicts within and among nations and communities, decide between different policies, and generally advance the aspirations of different segments of the population. The ultimate and urgent challenge is that of enhancing democracy, for example by reducing social inequality8.

If not, the threat to civilization will be much more than just changes to our physical environment. The erosion of democracy is an unnecessary suppression of social complexity and rights.

The philosopher Friedrich Hayek, who led the debate against social and economic planning in the mid-twentieth century9, noted a paradox that applies today. As science advances, it tends to strengthen the idea that we should “aim at more deliberate and comprehensive control of all human activities”. Hayek pessimistically added: “It is for this reason that those intoxicated by the advance of knowledge so often become the enemies of freedom”10. We should heed his warning. It is dangerous to blindly believe that science and scientists alone can tell us what to do.

Nature 525, 449–450 (24 September 2015) dos:10.1038/525449a

References

  1. Adam, D. ‘Leading climate scientist: “democratic process isn’t working”’ The Guardian (18 March 2009).
  2. Beeson, M. Environ. Politics 19276294 (2010).
  3. Hansen, J. et alPLoS ONE http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0081648 (2013).
  4. REN21Renewables 2015 Global Status Report (REN21, 2015).
  5. Runciman, D. The Confidence Trap: A History of Democracy in Crisis from World War I to the Present (Princeton Univ. Press, 2013).
  6. Stehr, N. Information, Power and Democracy, Liberty is a Daughter of Knowledge (Cambridge Univ. Press, 2015).
  7. Pierre, J. Debating Governance: Authority, Steering, and Democracy (Oxford Univ. Press, 2000).
  8. Rosanvallon, P. The Society of Equals (Harvard Univ. Press, 2013).
  9. Hayek, F. A. Nature 148580584 (1941).
  10. Hayek, F. A. The Constitution of Liberty (Routledge, 1960).

Com ajuda da ciência (Revista Fapesp)

Experiências internacionais inspiram governo de São Paulo a criar cargo de cientista-chefe em secretarias estaduais

BRUNO DE PIERRO | ED. 236 | OUTUBRO 2015

030-035_Cientistas chefes_236Uma medida inédita no país anunciada pelo governo do estado de São Paulo pretende aproximar ciência e gestão pública. Até o início de 2016, cada secretaria estadual deverá contar com um cientista-chefe, cuja função principal será apontar as melhores soluções baseadas no conhecimento científico para enfrentar desafios da respectiva pasta. O anúncio foi feito por Márcio França, vice-governador e secretário estadual de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Inovação, na abertura do Fórum Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap), realizado em 27 e 28 de agosto, na capital paulista. A iniciativa é inspirada no modelo de aconselhamento científico praticado em diferentes níveis de governo em países como Estados Unidos, Reino Unido e Israel.

A iniciativa começou a amadurecer em uma reunião do Conselho Superior da FAPESP, no dia 18 de março, da qual o vice-governador participou como convidado. Na ocasião, França mencionou a dificuldade de identificar pesquisadores com ideias para auxiliar a gestão pública. A sugestão de criar a função de cientista-chefe partiu de Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação. “O professor Brito citou a experiência de países europeus, entre eles o Reino Unido, que criaram o cargo de cientista-chefe em suas estruturas de governo para auxiliar ministros, primeiros-ministros ou presidentes a tomar decisões”, relata Fernando Costa, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e membro do Conselho Superior da FAPESP, um dos presentes à reunião.

No encontro, Brito Cruz explicou ao vice-governador que cerca de 55% dos recursos da FAPESP são investidos em pesquisas voltadas para aplicações, e Eduardo Moacyr Krieger, vice-presidente da instituição, acrescentou que quase 30% dos investimentos da Fundação são direcionados para a área da saúde e podem beneficiar diretamente ações da Secretaria da Saúde. “Outros campos, como agricultura, educação e segurança pública, também deveriam aproveitar mais a contribuição de pesquisadores”, afirma Krieger. Márcio França gostou da sugestão. “Pensei: por que não aprimorar o diálogo com a comunidade científica por meio de uma fundação como a FAPESP?”, recorda-se o vice-governador, que levou a ideia ao governador Geraldo Alckmin e recebeu sinal verde para implementá-la.

Robin Grimes, do governo britânico, em visita ao campus da Universidade de Nottingham na Malásia, em 2013 (acima, de gravata);

Robin Grimes, do governo britânico, em visita ao campus da Universidade de Nottingham na Malásia, em 2013 (acima, de gravata)

“Essa medida não significa que o governo de São Paulo não vem ouvindo a comunidade científica”, observa Marilza Vieira Cunha Rudge, vice-reitora da Universidade Estadual Paulista (Unesp), também membro do Conselho Superior da FAPESP. Segundo ela, o objetivo é fazer com que os conhecimentos gerados em universidades e instituições de pesquisa do estado sejam absorvidos rapidamente pela administração pública. Uma minuta do decreto está sendo redigida com assessoria da Fundação. Um dos objetivos é que os cientistas-chefes ampliem a aplicação de resultados de pesquisas, entre as quais as apoiadas pela FAPESP, sugerindo articulações com projetos em andamento e propondo novos projetos.

O governo analisa agora os detalhes da iniciativa. O primeiro passo será selecionar os cientistas-chefes que atuarão nas secretarias. Segundo França, o mais provável é que se convidem professores vinculados às três universidades estaduais paulistas – a de São Paulo (USP), a Unicamp e a Unesp – que poderiam ou não se licenciar. Também se discute qual seria o prazo mais adequado para o seu mandato. Para França, uma coisa é certa: os cientistas-chefes terão muito trabalho. “Os problemas e os desafios surgem aos montes na administração pública. Todos os dias e nas mais diversas áreas”, observa o vice-governador.

A bússola que orienta os caminhos futuros é a dos exemplos internacionais. Em setembro de 2014, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ofereceu um prêmio de US$ 20 milhões para o grupo de pesquisa que conseguir desenvolver o melhor teste de diagnóstico capaz de reconhecer rapidamente infecções causadas por bactérias resistentes a antibióticos. Segundo informações do Centro para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), essas infecções são responsáveis pela morte anual de 23 mil norte-americanos. A ação foi motivada por uma avaliação encomendada pela Casa Branca ao Conselho de Ciência e Tecnologia (PCAST), formado por cerca de 20 especialistas, entre ganhadores de Prêmio Nobel e representantes do setor industrial. O grupo é comandado por John Holdren, professor da Universidade Harvard e conselheiro científico de Obama.

John Holdren, cientista-chefe dos Estados Unidos, que aconselha o presidente Obama (abaixo)

Os Estados Unidos têm tradição em aconselhamento científico. Em 1933, o presidente Franklin Roosevelt criou um comitê consultivo formado por cientistas, engenheiros e profissionais da saúde para assessorá-lo. Em 1957, o país foi o primeiro a nomear um cientista-chefe para trabalhar na Casa Branca. Logo departamentos e autarquias passaram a contar com a consultoria de especialistas. Em 1998, a então secretária de Estado, Madeleine Albright, encomendou um relatório para as Academias Nacionais de Ciências dos Estados Unidos sobre o suporte que a ciência poderia dar em assuntos relativos à política externa. A recomendação foi que ela escolhesse um assessor científico. “Minha tarefa é ajudar o governo a aproveitar os recursos da ciência e da tecnologia para embasar a política externa”, disse à Pesquisa FAPESP Vaughan Turekian, assessor científico de John Kerry, o atual secretário de Estado. Ex-diretor internacional da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), Turekian conta que foi submetido a um rigoroso processo de análise de suas credenciais científicas. “O assessor é nomeado por um período determinado. Isso é intencional. Convém lembrar que o cargo não é uma indicação política”, esclarece.

Outra referência é o Reino Unido, que criou o cargo em 1964. A função de cientista-chefe é desempenhada hoje pelo imunologista Mark Walport, ex-diretor do Wellcome Trust, fundação que financia pesquisa biomédica. Desde 2013, Walport assessora o premiê David Cameron. Um dos primeiros temas tratados por Walport no governo foi o da experimentação animal. Em 2014, após estatísticas mostrarem que o número de animais utilizados em testes pré-clínicos aumentou nos últimos anos no Reino Unido, o governo anunciou medidas para reduzir ou substituir seu uso. Walport atuou como ponte entre o governo e a comunidade científica. Reconheceu a necessidade de mudanças, mas salientou que a abolição de animais em estudos científicos ainda é inviável.

Walport também preside o Conselho de Ciência e Tecnologia (CST), ligado ao Departamento de Negócios, Inovação e Capacitação do Reino Unido. O órgão dispõe de uma divisão de especialistas que forma o Grupo de Aconselhamento Científico para Emergências (Sage). A equipe foi acionada em 2010, quando cinzas de um vulcão na Islândia afetaram o espaço aéreo do Reino Unido, e em 2011, após o incidente nuclear de Fukushima, no Japão.

Mark Walport, cientista-chefe do Reino Unido, em visita a centro de pesquisa no Quênia, em julho (primeiro à esquerda na foto ao lado)

O Reino Unido conta com cientistas-chefes em departamentos e ministérios. “Há uma rede de conselheiros científicos dentro do governo. Isso aproximou ainda mais os diferentes ministérios. O professor Walport organiza uma reunião semanal com os conselheiros, que discutem juntos as prioridades de cada área”, disse à Pesquisa FAPESP Robin Grimes, conselheiro-chefe para assuntos científicos do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido. “Acredito que São Paulo conseguirá se articular melhor com a ciência ao adotar essa medida, além de obter acesso a conceituadas redes de pesquisadores no Brasil e no mundo”, afirmou Grimes.

Para James Wilsdon, especialista em política científica da Universidade de Sussex, Inglaterra, esses exemplos ajudaram outros países a criar modelos de aconselhamento científico adaptados a suas realidades. “Há uma grande variedade de temas que demandam o olhar da ciência, como mudanças climáticas, pandemias, segurança alimentar e pobreza”, explica Wilsdon em um relatório apresentado na conferência da Rede Internacional para Aconselhamento Científico a Governos (INGSA), realizada em agosto de 2014 em Auckland, na Nova Zelândia. A entidade reúne tomadores de decisão e pesquisadores com o objetivo de compartilhar experiências e discutir a utilização de informações científicas em governos. O documento apresenta uma avaliação dos modelos de aconselhamento adotados em 20 países. Além dos exemplos clássicos, são apresentados casos de países que criaram recentemente o cargo, como a Nova Zelândia, cujo primeiro cientista-chefe, Peter Gluckman, foi nomeado em 2009.

O estudo mostra que alguns países optaram por formas de aconselhamento não atreladas à figura de um cientista-chefe. No Japão, o Conselho de Ciência, Tecnologia e Inovação (CSTI) é um dos quatro conselhos que auxiliam o gabinete do primeiro-ministro. Ele é formado pelo primeiro-ministro, seis ministros de Estado e representantes da comunidade científica e do setor industrial. Já países como China, Alemanha, Holanda e África do Sul aproveitam a expertise das entidades representativas da comunidade científica. A Sociedade Alemã de Pesquisas Científicas (DFG), agência não governamental de apoio à pesquisa, é consultada pelo governo e ajuda a elaborar políticas públicas. “Fazemos declarações em comissões do
Senado e temos interação direta com o governo”, diz Dietrich Halm, diretor-presidente da DFG para a América-Latina. Segundo Wilsdon, uma das vantagens desse modelo é que os pesquisadores gozam de independência em relação ao governo.

Peter Gluckman, cientista-chefe do primeiro-ministro da Nova Zelândia

Na região da América-Latina e Caribe, o relatório do fórum de aconselhamento científico cita os exemplos de Cuba e El Salvador. No modelo cubano, há um escritório de aconselhamento científico vinculado ao conselho de Estado, formado por 31 membros. Embora o Brasil nunca tenha contado com a figura do cientista-chefe, a administração pública no país criou mecanismos de articulação com pesquisadores. “Informalmente, o governo federal é aconselhado pela comunidade científica em vários temas”, disse Aldo Rebelo, então ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). “No meu caso, mantive contato com a Academia Brasileira de Ciências (ABC), com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e com sociedades científicas.” Segundo o vice-presidente da FAPESP, Eduardo Moacyr Krieger, que também foi presidente da ABC, a atuação do cientista-chefe deve complementar o trabalho que as academias de ciências desenvolvem. “As recomendações dadas pelas academias aos governos estão no plano macro. Já o cientista-chefe está no plano da implementação e do detalhamento do que deve ser feito no cotidiano da administração pública”, diz ele.

No estado de São Paulo a assessoria científica ao governo já era praticada em situações específicas, mesmo sem a presença de cientistas-chefes. É o caso da interlocução entre especialistas ligados ao Programa Biota-FAPESP e a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. Desde o lançamento do programa em 1999, 23 resoluções e decretos estaduais mencionam resultados do Biota como referência para a tomada de decisões. Há um canal de diálogo com gestores das unidades de conservação onde são desenvolvidos projetos. “Os pesquisadores costumam ser membros de conselhos consultivos de parques estaduais e outras áreas protegidas”, observa Carlos Joly, professor da Unicamp e coordenador do programa. Os especialistas vinculados ao Biota também trabalham em parceria com instituições ligadas à secretaria, como o Instituto de Botânica, o Instituto Florestal e a Fundação Florestal. E o próprio gabinete da secretária do Meio Ambiente, Patricia Faga Iglecias Lemos, acompanha a produção científica do programa.

Outra experiência é a do Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, criado em 2014 para assessorar a Secretaria da Saúde na formulação e condução de políticas. O órgão é composto por representantes de universidades públicas instaladas em São Paulo, institutos, centros de pesquisa, hospitais e entidades ligadas ao setor industrial. “Atualmente, o conselho discute a proposta de criação de uma política estadual de ciência, tecnologia e inovação em saúde”, explica Sergio Swain Muller, presidente do conselho. “Já realizamos oficinas, ouvimos a contribuição das universidades e estamos preparando um documento com diagnósticos e ações para a consolidação desse plano.” Cabe também ao conselho auxiliar na definição de prioridades para o próximo edital do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS), conduzido pela FAPESP em parceria com a Secretaria da Saúde, o Ministério da Saúde e o CNPq. “Uma das prioridades é apoiar pesquisas sobre novos mecanismos de gestão pública da saúde”, diz Muller. Já no âmbito da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento foi criada em 2002 a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (Apta), que atua na coordenação de pesquisas de interesse da pasta. Sua estrutura compreende os institutos Agronômico (IAC), Biológico, de Economia Agrícola, de Pesca, de Tecnologia de Alimentos e o de Zootecnia, além de 15 polos regionais de pesquisa.

e Vaughan Turekian, assessor direto de John Kerry, secretário de Estado norte-americano

“Prospectamos estudos capazes de resolver problemas enfrentados por agricultores e os encaminhamos para a secretaria”, diz Orlando Melo de Castro, coordenador da Apta. Um dos desafios da secretaria cuja solução vem sendo debatida entre os institutos abrigados pela agência é tornar a cana-de-açúcar mais resistente à seca. “O IAC foi procurado, porque já trabalha nesse assunto, inclusive em parceria com usinas localizadas em Goiás, onde há um período de seca prolongado. A ideia é aproveitar essas pesquisas em programas da secretaria”, explica Castro.

Para o sociólogo Simon Schwartzman, estudioso da comunidade científica brasileira e pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, o país não tem tradição no uso da ciência por gestores públicos. “Claro, há exceções”, pondera. “O Ministério da Saúde conta com um centro de pesquisas próprio, o Instituto Oswaldo Cruz, assim como acontece com o Ministério da Agricultura, que tem a ajuda da Embrapa.” Carlos Joly recorda-se que a comunidade científica costumava impor barreiras na hora de se sentar à mesa com políticos. “Colaborei como assessor de meio ambiente na elaboração da Constituição Federal de 1988. Na época, fui criticado por colegas, que pensavam que cientista não deveria se envolver com assuntos da política”, conta. Em 1995, Joly foi convidado pelo então secretário de Meio Ambiente do estado de São Paulo, Fábio Feldmann, a trabalhar como seu assessor. “Naquele momento isso já não foi visto como algo incomum. Aos poucos os pesquisadores se deram conta da importância de trabalhar em colaboração com gestores públicos”, afirma Joly.

O climatologista Carlos Nobre, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), guarda na memória histórias da relação tensa entre políticos e cientistas. Em 1998, Nobre e sua equipe do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) encaminharam ao governo federal e ao Congresso um parecer prevendo uma seca de grande intensidade no Nordeste nos meses seguintes, em decorrência do El Niño. “Ninguém nos ouviu”, lembra Nobre. “Acho que não acreditavam, na época, que fosse possível fazer previsão de secas de qualidade com base em modelos matemáticos.”

O vice-governador Márcio França reconhece que há pontos de tensão quando políticos e cientistas se encontram. “A questão é que nem sempre o consenso científico é financeira e politicamente viável naquele momento”, diz ele. Para Carlos Nobre, que já ocupou cargos de gestão de política científica no MCTI e integra o corpo de especialistas do fórum global de aconselhamento científico, ainda assim a situação é melhor hoje. “Ambos os lados perceberam que a solução de problemas como secas e desastres naturais dependem de ações conjuntas”, afirma.

Autora do livro The fifth branch: science advisers as policymakers e de artigos que abordam a relação entre ciência, democracia e política, a norte-americana Sheila Jasanoff, da Universidade Harvard, adverte que o aconselhamento científico a governos exige muitos julgamentos. “Requer a tomada de decisões sobre, por exemplo, se é melhor correr um risco ou se precaver. É preciso saber como pesar as diversas evidências”, explica. Segundo ela, o aconselhamento pode de fato auxiliar os gestores. “Mas os órgãos científicos consultivos precisam operar de forma aberta e transparente. Isso é exigido por lei nos Estados Unidos”, explica. Em 2010, o governo britânico divulgou um documento no qual recomenda que os níveis de incerteza presentes em torno de questões científicas sejam explicitamente identificados nos pareceres enviados a gestores públicos, comunicados em linguagem simples e direta.

Climate Debate Needs More Social Science, New Book Argues (Inside Science)

Image credit: Matt Jiggins via Flickr | http://bit.ly/1M6iSlZ

Physical scientists aren’t trained for all the political and moral issues.
Oct 2 2015 – 10:00am

By: Joel N. Shurkin, Contributor

(Inside Science) — The notion that Earth’s climate is changing—and that the threat to the world is serious—goes back to the 1980s, when a consensus began to form among climate scientists as temperatures began to rise noticeably. Thirty years later, that consensus is solid, yet climate change and the disruption it may cause remain divisive political issues, and millions of people remain unconvinced.

A new book argues that social scientists should play a greater role in helping natural scientists convince people of the reality of climate change and drive policy.

Climate Change and Society consists of 13 essays on why the debate needs the voices of social scientists, including political scientists, psychologists, anthropologists, and sociologists. It is edited by Riley E. Dunlap, professor of sociology at Oklahoma State University in Stillwater, and Robert J. Brulle, of Drexel University, professor of sociology and environmental science in Philadelphia.

Brulle said the physical scientists tend to frame climate change “as a technocratic and managerial problem.”

“Contrast that to the Pope,” he said.

Pope Francis sees it as a “political, moral issue that won’t be settled by a group of experts sitting in a room,” said Brulle, who emphasized that it will be settled by political process. Sociologists agree.

Sheila Jasanoff also agrees. She is the Pforzheimer professor of science and technology studies at the Harvard Kennedy School in Cambridge, Massachusetts, and did not participate in the book.

She said that understanding how people behave differently depending on their belief system is important.

“Denial is a somewhat mystical thing in people’s heads,” Jasanoff said. “One can bring tools of sociology of knowledge and belief—or social studies—to understand how commitments to particular statements of nature are linked with understanding how you would feel compelled to behave if nature were that way.”

Parts of the world where climate change is considered a result of the colonial past may resist taking drastic action at the behest of the former colonial rulers. Jasanoff said that governments will have to convince these groups that climate change is a present danger and attention must be paid.

Some who agree there is a threat are reluctant to advocate for drastic economic changes because they believe the world will be rescued by innovation and technology, Jasanoff said. Even among industrialized countries, views about the potential of technology differ.

Understanding these attitudes is what social scientists do, the book’s authors maintain.

“One of the most pressing contributions our field can make is to legitimate big questions, especially the ability of the current global economic system to take the steps needed to avoid catastrophic climate change,” editors of the book wrote.

The issue also is deeply embedded in the social science of economics and in the problem of “have” and “have-not” societies in consumerism and the economy.

For example, Bangladesh sits at sea level, and if the seas rise enough, nearly the entire country could disappear in the waters. Hurricane Katrina brought hints of the consequences of that reality to New Orleans, a city that now sits below sea level. The heaviest burden of the storm’s effects fell on the poor neighborhoods, Brulle said.

“The people of Bangladesh will suffer more than the people on the Upper East Side of Manhattan,” Brulle said. He said they have to be treated differently, which is not something many physical scientists studying the processes behind sea level rise have to factor into their research.

“Those of us engaged in the climate fight need valuable insight from political scientists and sociologists and psychologists and economists just as surely as from physicists,” agreed Bill McKibben, an environmentalist and author who is a scholar in residence at Middlebury College in Vermont. “It’s very clear carbon is warming the planet; it’s very unclear what mix of prods and preferences might nudge us to use much less.”


Joel Shurkin is a freelance writer in Baltimore. He was former science writer at the Philadelphia Inquirer and was part of the team that won a Pulitzer Prize for covering Three Mile Island. He has nine published books and is working on a tenth. He has taught journalism at Stanford University, the University of California at Santa Cruz and the University of Alaska Fairbanks. He tweets at @shurkin.