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Ruínas que estavam debaixo d’água há décadas agora podem ser vistas no interior de SP (G1)

g1.globo.com

6 de novembro de 2020


Lago formado durante a inundação para a construção de uma usina hidrelétrica secou devido à forte estiagem.
Estiagem revela construções que estavam submersas há décadas no interior de São Paulo

Vídeo

Estiagem revela construções que estavam submersas há décadas no interior de São Paulo

A estiagem prolongada no interior de São Paulo secou o lago de uma usina hidrelétrica. E revelou uma história encoberta há décadas.

Depois de quase 50 anos embaixo d’água, a ponte da antiga estrada Boiadeira reapareceu no meio do Rio Grande, interior de São Paulo. A estrutura construída com cascalho e madeira na década de 1950 era usada pelas comitivas para levar gado de Minas Gerais até Barretos. Mas em 1975 toda a área em volta foi alagada para a construção do reservatório da usina hidrelétrica de Marimbondo. Desde então, a ponte não foi mais vista.

“Eu não estou vendo o canal do rio, do córrego, dois, três córregos que descem e passam pela ponte. Nós pescávamos ali, pegava peixe grande que vinha do rio, hoje só vê areia”, conta o aposentado Cláudio Geraldelli.

O nível do reservatório chegou a 6,72% no último fim de semana, o pior dos últimos 17 anos e um dos mais críticos do país. Seu Cláudio mostra as redes de pesca que ficaram presas em troncos, até pouco tempo escondidos embaixo d´água.

Por causa do longo período de estiagem a margem do rio recuou mais de um quilômetro. Com isso, ruínas de casas antigas começaram a aparecer no meio da paisagem. Uma era a piscina de uma fazenda que também foi completamente alagada pelo reservatório da usina hidrelétrica, e estava submersa. No chão, muitos tijolos e partes da construção que resistiram a tanto tempo embaixo d’água.

Por toda a margem do rio, são encontradas fundações de casas, paredes, chaminé, blocos de concreto. Restos de construções que faziam parte do município de Guaraci, que está entre as oito cidades que tiveram áreas alagadas pelo Reservatório de Marimbondo, um dos maiores do estado de São Paulo, com quase 500km2 de extensão.

Além de fazer ressurgir um pedaço dessa história, a seca tem trazido prejuízo para quem vive do rio. As embarcações flutuantes usadas por pescadores, que até pouco tempo boiavam no Rio Grande, agora estão em terra seca.

“Depois que inundou isso aqui, é a primeira vez que tem essa seca. Se esse rio continuar como está, provavelmente a gente vai ter que ir embora daqui, porque você não consegue nada, não tem renda do rio”, lamenta o pescador José Antônio Siqueira.

Quem gosta tanto de navegar por essas águas espera que a natureza possa trazer de volta aquela paisagem bonita do Rio Grande.

“A esperança é chuva. Tem que chover bastante para que a represa volte ao normal dela. Aí fica bom para todo mundo”, diz Devaldo Mathias de Menezes, pescador.

ONS: outubro de 2020 é o mais seco em série histórica de 90 anos (Canal Energia)

canalenergia.com.br

Maurício Godoi, da Agência CanalEnergia, de São Paulo (SP)

30 de outubro de 2020


ENA (Energia Natural Afluente) para o mês no Norte foi a terceira pior, no Nordeste a segunda mais baixa do histórico e no Sudeste a pior da história desde o início do monitoramento

O mês de outubro foi o pior em termos de afluências em todo o histórico de 90 anos no Brasil. Foi assim que o Operador Nacional do Sistema Elétrico definiu as afluências do período que se encerra neste sábado, 31 de outubro.

Em três submercados de um total de quatro a energia natural afluente esteve nos primeiros lugares desse incômodo ranking para a geração de energia elétrica. No Sul, a ENA ficou em 21% da média de longo termo, a segunda pior. Mas está no Sudeste/Centro-Oeste o maior problema, em 90 anos esse foi o pior mês em termos de vazões com apenas 53% da média nesse período. O Norte fechou o pódio com o terceiro pior mês do histórico daquela região com 58% da média.

Os dados foram apresentados nesta sexta-feira, 30 de outubro, no segundo dia da reunião para o Programa Mensal de Operação de novembro, mês que inaugura de forma oficial o período úmido 2020/2021.

Para o período, a estimativa inicial do ONS é de que o maior índice de ENA seja verificado no Norte, com 97% da média de longo termo. Depois vem SE/CO com 75% da média histórica, com destaque para a bacia do Tietê que deverá registrar 99% da MLT em novembro. No NE é esperado 67% e no Sul a situação continua pressionada com a previsão do pior nível para um mês de novembro em 90 anos com 28% da média. A previsão é de encerrar novembro com a bacia do rio Iguaçu quase zerada.

Ao mesmo tempo é estimado um crescimento de 2,7% na carga de novembro quando comparado ao mesmo período do ano passado. Há previsão de expansão do consumo em todas as regiões, no Norte 7,4%, 2,7% no SE/CO, 1,9% no Sul e 1,4% no NE. Se as previsões se confirmarem, a demanda ficará em 71.041 MW médios.

O movimento de deplecionamento de reservatórios continua. O destaque está no Sul que poderá perder mais da metade do nível atual, já baixo, e encerrar novembro com apenas 11,5% em todo o subsistema. No SE/CO a previsão é de recuo de 3,7 pontos porcentuais, para 20% do armazenamento máximo. No Norte recuará de 30,4% para 26,8% e no NE está o mais elevado com 45,4% ao final de novembro ante o volume de 56,5% verificado nesta sexta-feira.

Como consequência, o custo marginal de operação médio continua descolado entre o NE que recuou a R$ 150,54 e os demais, que aumentaram a R$ 368,03/MWh. Nesses, o valor da carga pesada está em R$ 378,24, a média a R$ 376,07 e a leve a R$ 360,96/MWh. O valor da carga pesada no NE é menos da metade da leve no restante do país, está em R$ 168,58, a média a R$ 147,32 e a leve a R$ 146,01/MWh.

O que não mudou significativamente é a previsão de despacho térmico que está em 10.282 MW médios, sendo 6.377 MW médios por inflexibildade, 3.718 MW médios por ordem de mérito e 187 MW médios por restrição elétrica. Apesar do comando da geração fora da ordem de mérito autorizada pelo CMSE, o documento do ONS não traz essa informação.

The Biblical Flood That Will Drown California (Wired)

Tom Philpott, 08.29.20 8:00 AM

The Great Flood of 1861–1862 was a preview of what scientists expect to see again, and soon.

This story originally appeared on Mother Jones and is part of the Climate Desk collaboration.

In November 1860, a young scientist from upstate New York named William Brewer disembarked in San Francisco after a long journey that took him from New York City through Panama and then north along the Pacific coast. “The weather is perfectly heavenly,” he enthused in a letter to his brother back east. The fast-growing metropolis was already revealing the charms we know today: “large streets, magnificent buildings” adorned by “many flowers we [northeasterners] see only in house cultivations: various kinds of geraniums growing of immense size, dew plant growing like a weed, acacia, fuchsia, etc. growing in the open air.”

Flowery prose aside, Brewer was on a serious mission. Barely a decade after being claimed as a US state, California was plunged in an economic crisis. The gold rush had gone bust, and thousands of restive settlers were left scurrying about, hot after the next ever-elusive mineral bonanza. The fledgling legislature had seen fit to hire a state geographer to gauge the mineral wealth underneath its vast and varied terrain, hoping to organize and rationalize the mad lunge for buried treasure. The potential for boosting agriculture as a hedge against mining wasn’t lost on the state’s leaders. They called on the state geographer to deliver a “full and scientific description of the state’s rocks, fossils, soils, and minerals, and its botanical and zoological productions, together with specimens of same.”

The task of completing the fieldwork fell to the 32-year-old Brewer, a Yale-trained botanist who had studied cutting-edge agricultural science in Europe. His letters home, chronicling his four-year journey up and down California, form one of the most vivid contemporary accounts of its early statehood.

They also provide a stark look at the greatest natural disaster known to have befallen the western United States since European contact in the 16th century: the Great Flood of 1861–1862. The cataclysm cut off telegraph communication with the East Coast, swamped the state’s new capital, and submerged the entire Central Valley under as much as 15 feet of water. Yet in modern-day California—a region that author Mike Davis once likened to a “Book of the Apocalypse theme park,” where this year’s wildfires have already burned 1.4 million acres, and dozens of fires are still raging—the nearly forgotten biblical-scale flood documented by Brewer’s letters has largely vanished from the public imagination, replaced largely by traumatic memories of more recent earthquakes.

When it was thought of at all, the flood was once considered a thousand-year anomaly, a freak occurrence. But emerging science demonstrates that floods of even greater magnitude occurred every 100 to 200 years in California’s precolonial history. Climate change will make them more frequent still. In other words, the Great Flood was a preview of what scientists expect to see again, and soon. And this time, given California’s emergence as agricultural and economic powerhouse, the effects will be all the more devastating.

Barely a year after Brewer’s sunny initial descent from a ship in San Francisco Bay, he was back in the city, on a break. In a November 1861 letter home, he complained of a “week of rain.” In his next letter, two months later, Brewer reported jaw-dropping news: Rain had fallen almost continuously since he had last written—and now the entire Central Valley was underwater. “Thousands of farms are entirely underwater—cattle starving and drowning.”

Picking up the letter nine days later, he wrote that a bad situation had deteriorated. All the roads in the middle of the state are “impassable, so all mails are cut off.” Telegraph service, which had only recently been connected to the East Coast through the Central Valley, stalled. “The tops of the poles are under water!” The young state’s capital city, Sacramento, about 100 miles northeast of San Francisco at the western edge of the valley and the intersection of two rivers, was submerged, forcing the legislature to evacuate—and delaying a payment Brewer needed to forge ahead with his expedition.

The surveyor gaped at the sheer volume of rain. In a normal year, Brewer reported, San Francisco received about 20 inches. In the 10 weeks leading up to January 18, 1862, the city got “thirty-two and three-quarters inches and it is still raining!”

Brewer went on to recount scenes from the Central Valley that would fit in a Hollywood disaster epic. “An old acquaintance, a buccaro [cowboy], came down from a ranch that was overflowed,” he wrote. “The floor of their one-story house was six weeks under water before the house went to pieces.” Steamboats “ran back over the ranches fourteen miles from the [Sacramento] river, carrying stock [cattle], etc., to the hills,” he reported. He marveled at the massive impromptu lake made up of “water ice cold and muddy,” in which “winds made high waves which beat the farm homes in pieces.” As a result, “every house and farm over this immense region is gone.”

Eventually, in March, Brewer made it to Sacramento, hoping (without success) to lay hands on the state funds he needed to continue his survey. He found a city still in ruins, weeks after the worst of the rains. “Such a desolate scene I hope never to see again,” he wrote: “Most of the city is still under water, and has been for three months … Every low place is full—cellars and yards are full, houses and walls wet, everything uncomfortable.” The “better class of houses” were in rough shape, Brewer observed, but “it is with the poorer classes that this is the worst.” He went on: “Many of the one-story houses are entirely uninhabitable; others, where the floors are above the water are, at best, most wretched places in which to live.” He summarized the scene:

Many houses have partially toppled over; some have been carried from their foundations, several streets (now avenues of water) are blocked up with houses that have floated in them, dead animals lie about here and there—a dreadful picture. I don’t think the city will ever rise from the shock, I don’t see how it can.

Brewer’s account is important for more than just historical interest. In the 160 years since the botanist set foot on the West Coast, California has transformed from an agricultural backwater to one of the jewels of the US food system. The state produces nearly all of the almonds, walnuts, and pistachios consumed domestically; 90 percent or more of the broccoli, carrots, garlic, celery, grapes, tangerines, plums, and artichokes; at least 75 percent of the cauliflower, apricots, lemons, strawberries, and raspberries; and more than 40 percent of the lettuce, cabbage, oranges, peaches, and peppers.

And as if that weren’t enough, California is also a national hub for milk production. Tucked in amid the almond groves and vegetable fields are vast dairy operations that confine cows together by the thousands and produce more than a fifth of the nation’s milk supply, more than any other state. It all amounts to a food-production juggernaut: California generates $46 billion worth of food per year, nearly double the haul of its closest competitor among US states, the corn-and-soybean behemoth Iowa.

You’ve probably heard that ever-more more frequent and severe droughts threaten the bounty we’ve come to rely on from California. Water scarcity, it turns out, isn’t the only menace that stalks the California valleys that stock our supermarkets. The opposite—catastrophic flooding—also occupies a niche in what Mike Davis, the great chronicler of Southern California’s sociopolitical geography, has called the state’s “ecology of fear.” Indeed, his classic book of that title opens with an account of a 1995 deluge that saw “million-dollar homes tobogganed off their hill-slope perches” and small children and pets “sucked into the deadly vortices of the flood channels.”

Yet floods tend to be less feared than rival horsemen of the apocalypse in the state’s oft-stimulated imagination of disaster. The epochal 2011–2017 drought, with its missing-in-action snowpacks and draconian water restrictions, burned itself into the state’s consciousness. Californians are rightly terrified of fires like the ones that roared through the northern Sierra Nevada foothills and coastal canyons near Los Angeles in the fall of 2018, killing nearly 100 people and fouling air for miles around, or the current LNU Lightning Complex fire that has destroyed nearly 1,000 structures and killed five people in the region between Sacramento and San Francisco. Many people are frightfully aware that a warming climate will make such conflagrations increasingly frequent. And “earthquake kits” are common gear in closets and garages all along the San Andreas Fault, where the next Big One lurks. Floods, though they occur as often in Southern and Central California as they do anywhere in the United States, don’t generate quite the same buzz.

But a growing body of research shows there’s a flip side to the megadroughts Central Valley farmers face: megafloods. The region most vulnerable to such a water-drenched cataclysm in the near future is, ironically enough, the California’s great arid, sinking food production basin, the beleaguered behemoth of the US food system: the Central Valley. Bordered on all sides by mountains, the Central Valley stretches 450 miles long, is on average 50 miles wide, and occupies a land mass of 18,000 square miles, or 11.5 million acres—roughly equivalent in size to Massachusetts and Vermont combined. Wedged between the Sierra Nevada to the east and the Coast Ranges to the west, it’s one of the globe’s greatest expanses of fertile soil and temperate weather. For most Americans, it’s easy to ignore the Central Valley, even though it’s as important to eaters as Hollywood is to moviegoers or Silicon Valley is to smartphone users. Occupying less than 1 percent of US farmland, the Central Valley churns out a quarter of the nation’s food supply.

At the time of the Great Flood, the Central Valley was still mainly cattle ranches, the farming boom a ways off. Late in 1861, the state suddenly emerged from a two-decade dry spell when monster storms began lashing the West Coast from Baja California to present-day Washington state. In central California, the deluge initially took the form of 10 to 15 feet of snow dumped onto the Sierra Nevada, according to research by the UC Berkeley paleoclimatologist B. Lynn Ingram and laid out in her 2015 book, The West Without Water, cowritten with Frances Malamud-Roam. Ingram has emerged as a kind of Cassandra of drought and flood risks in the western United States. Soon after the blizzards came days of warm, heavy rain, which in turn melted the enormous snowpack. The resulting slurry cascaded through the Central Valley’s network of untamed rivers.

As floodwater gathered in the valley, it formed a vast, muddy, wind-roiled lake, its size “rivaling that of Lake Superior,” covering the entire Central Valley floor, from the southern slopes of the Cascade Mountains near the Oregon border to the Tehachapis, south of Bakersfield, with depths in some places exceeding 15 feet.

At least some of the region’s remnant indigenous population saw the epic flood coming and took precautions to escape devastation, Ingram reports, quoting an item in the Nevada City Democrat on January 11, 1862:

We are informed that the Indians living in the vicinity of Marysville left their abodes a week or more ago for the foothills predicting an unprecedented overflow. They told the whites that the water would be higher than it has been for thirty years, and pointed high up on the trees and houses where it would come. The valley Indians have traditions that the water occasionally rises 15 or 20 feet higher than it has been at any time since the country was settled by whites, and as they live in the open air and watch closely all the weather indications, it is not improbable that they may have better means than the whites of anticipating a great storm.

All in all, thousands of people died, “one-third of the state’s property was destroyed, and one home in eight was destroyed completely or carried away by the floodwaters.” As for farming, the 1862 megaflood transformed valley agriculture, playing a decisive role in creating today’s Anglo-dominated, crop-oriented agricultural powerhouse: a 19th-century example of the “disaster capitalism” that Naomi Klein describes in her 2007 book, The Shock Doctrine.

Prior to the event, valley land was still largely owned by Mexican rancheros who held titles dating to Spanish rule. The 1848 Treaty of Guadalupe Hidalgo, which triggered California’s transfer from Mexican to US control, gave rancheros US citizenship and obligated the new government to honor their land titles. The treaty terms met with vigorous resentment from white settlers eager to shift from gold mining to growing food for the new state’s burgeoning cities. The rancheros thrived during the gold rush, finding a booming market for beef in mining towns. By 1856, their fortunes had shifted. A severe drought that year cut production, competition from emerging US settler ranchers meant lower prices, and punishing property taxes—imposed by land-poor settler politicians—caused a further squeeze. “As a result, rancheros began to lose their herds, their land, and their homes,” writes the historian Lawrence James Jelinek.

The devastation of the 1862 flood, its effects magnified by a brutal drought that started immediately afterward and lasted through 1864, “delivered the final blow,” Jelinek writes. Between 1860 and 1870, California’s cattle herd, concentrated in the valley, plunged from 3 million to 630,000. The rancheros were forced to sell their land to white settlers at pennies per acre, and by 1870 “many rancheros had become day laborers in the towns,” Jelinek reports. The valley’s emerging class of settler farmers quickly turned to wheat and horticultural production and set about harnessing and exploiting the region’s water resources, both those gushing forth from the Sierra Nevada and those beneath their feet.

Despite all the trauma it generated and the agricultural transformation it cemented in the Central Valley, the flood quickly faded from memory in California and the broader United States. To his shocked assessment of a still-flooded and supine Sacramento months after the storm, Brewer added a prophetic coda:

No people can so stand calamity as this people. They are used to it. Everyone is familiar with the history of fortunes quickly made and as quickly lost. It seems here more than elsewhere the natural order of things. I might say, indeed, that the recklessness of the state blunts the keener feelings and takes the edge from this calamity.

Indeed, the new state’s residents ended up shaking off the cataclysm. What lesson does the Great Flood of 1862 hold for today? The question is important. Back then, just around 500,000 people lived in the entire state, and the Central Valley was a sparsely populated badland. Today, the valley has a population of 6.5 million people and boasts the state’s three fastest-growing counties. Sacramento (population 501,344), Fresno (538,330), and Bakersfield (386,839) are all budding metropolises. The state’s long-awaited high-speed train, if it’s ever completed, will place Fresno residents within an hour of Silicon Valley, driving up its appeal as a bedroom community.

In addition to the potentially vast human toll, there’s also the fact that the Central Valley has emerged as a major linchpin of the US and global food system. Could it really be submerged under fifteen feet of water again—and what would that mean?

In less than two centuries as a US state, California has maintained its reputation as a sunny paradise while also enduring the nation’s most erratic climate: the occasional massive winter storm roaring in from the Pacific; years-long droughts. But recent investigations into the fossil record show that these past years have been relatively stable.

One avenue of this research is the study of the regular megadroughts, the most recent of which occurred just a century before Europeans made landfall on the North American west coast. As we are now learning, those decades-long arid stretches were just as regularly interrupted by enormous storms—many even grander than the one that began in December 1861. (Indeed, that event itself was directly preceded and followed by serious droughts.) In other words, the same patterns that make California vulnerable to droughts also make it ripe for floods.

Beginning in the 1980s, scientists including B. Lynn Ingram began examining streams and banks in the enormous delta network that together serve as the bathtub drain through which most Central Valley runoff has flowed for millennia, reaching the ocean at the San Francisco Bay. (Now-vanished Tulare Lake gathered runoff in the southern part of the valley.) They took deep-core samples from river bottoms, because big storms that overflow the delta’s banks transfer loads of soil and silt from the Sierra Nevada and deposit a portion of it in the Delta. They also looked at fluctuations in old plant material buried in the sediment layers. Plant species that thrive in freshwater suggest wet periods, as heavy runoff from the mountains crowds out seawater. Salt-tolerant species denote dry spells, as sparse mountain runoff allows seawater to work into the delta.

What they found was stunning. The Great Flood of 1862 was no one-off black-swan event. Summarizing the science, Ingram and USGS researcher Michael Dettinger deliver the dire news: A flood comparable to—and sometimes much more intense than—the 1861–1862 catastrophe occurred sometime between 1235–1360, 1395–1410, 1555–1615, 1750–1770, and 1810–1820; “that is, one megaflood every 100 to 200 years.” They also discovered that the 1862 flood didn’t appear in the sediment record in some sites that showed evidence of multiple massive events—suggesting that it was actually smaller than many of the floods that have inundated California over the centuries.

During its time as a US food-production powerhouse, California has been known for its periodic droughts and storms. But Ingram and Dettinger’s work pulls the lens back to view the broader timescale, revealing the region’s swings between megadroughts and megastorms—ones more than severe enough to challenge concentrated food production, much less dense population centers.

The dynamics of these storms themselves explain why the state is also prone to such swings. Meteorologists have known for decades that those tempests that descend upon California over the winter—and from which the state receives the great bulk of its annual precipitation—carry moisture from the South Pacific. In the late 1990s, scientists discovered that these “pineapple expresses,” as TV weather presenters call them, are a subset of a global weather phenomenon: long, wind-driven plumes of vapor about a mile above the sea that carry moisture from warm areas near the equator on a northeasterly path to colder, drier regions toward the poles. They carry so much moisture—often more than 25 times the flow of the Mississippi River, over thousands of miles—that they’ve been dubbed “atmospheric rivers.”

In a pioneering 1998 paper, researchers Yong Zhu and Reginald E. Newell found that nearly all the vapor transport between the subtropics (regions just south or north of the equator, depending on the hemisphere) toward the poles occurred in just five or six narrow bands. And California, it turns out, is the prime spot in the western side of the northern hemisphere for catching them at full force during the winter months.

As Ingram and Dettinger note, atmospheric rivers are the primary vector for California’s floods. That includes pre-Columbian cataclysms as well as the Great Flood of 1862, all the way to the various smaller ones that regularly run through the state. Between 1950 and 2010, Ingram and Dettinger write, atmospheric rivers “caused more than 80 percent of flooding in California rivers and 81 percent of the 128 most well-documented levee breaks in California’s Central Valley.”

Paradoxically, they are at least as much a lifeblood as a curse. Between eight and 11 atmospheric rivers hit California every year, the great majority of them doing no major damage, and they deliver between 30 and 50 percent of the state’s rain and snow. But the big ones are damaging indeed. Other researchers are reaching similar conclusions. In a study released in December 2019, a team from the US Army Corps of Engineers and the Scripps Institution of Oceanography found that atmospheric-river storms accounted for 84 percent of insured flood damages in the western United States between 1978 and 2017; the 13 biggest storms wrought more than half the damage.

So the state—and a substantial portion of our food system—exists on a razor’s edge between droughts and floods, its annual water resources decided by massive, increasingly fickle transfers of moisture from the South Pacific. As Dettinger puts it, the “largest storms in California’s precipitation regime not only typically end the state’s frequent droughts, but their fluctuations also cause those droughts in the first place.”

We know that before human civilization began spewing millions of tons of greenhouse gases into the atmosphere annually, California was due “one megaflood every 100 to 200 years”—and the last one hit more than a century and a half ago. What happens to this outlook when you heat up the atmosphere by 1 degree Celsius—and are on track to hit at least another half-degree Celsius increase by midcentury?

That was the question posed by Daniel Swain and a team of researchers at UCLA’s Department of Atmospheric and Oceanic Sciences in a series of studies, the first of which was published in 2018. They took California’s long pattern of droughts and floods and mapped it onto the climate models based on data specific to the region, looking out to century’s end.

What they found isn’t comforting. As the tropical Pacific Ocean and the atmosphere just above it warm, more seawater evaporates, feeding ever bigger atmospheric rivers gushing toward the California coast. As a result, the potential for storms on the scale of the ones that triggered the Great Flood has increased “more than threefold,” they found. So an event expected to happen on average every 200 years will now happen every 65 or so. It is “more likely than not we will see one by 2060,” and it could plausibly happen again before century’s end, they concluded.

As the risk of a catastrophic event increases, so will the frequency of what they call “precipitation whiplash”: extremely wet seasons interrupted by extremely dry ones, and vice versa. The winter of 2016–2017 provides a template. That year, a series of atmospheric-river storms filled reservoirs and at one point threatened a major flood in the northern Central Valley, abruptly ending the worst multiyear drought in the state’s recorded history.

Swings on that magnitude normally occur a handful of times each century, but in the model by Swain’s team, “it goes from something that happens maybe once in a generation to something that happens two or three times,” he told me in an interview. “Setting aside a repeat of 1862, these less intense events could still seriously test the limits of our water infrastructure.” Like other efforts to map climate change onto California’s weather, this one found that drought years characterized by low winter precipitation would likely increase—in this case, by a factor of as much as two, compared with mid-20th-century patterns. But extreme-wet winter seasons, accumulating at least as much precipitation as 2016–2017, will grow even more: they could be three times as common as they were before the atmosphere began its current warming trend.

While lots of very wet years—at least the ones that don’t reach 1861–1862 levels—might sound encouraging for food production in the Central Valley, there’s a catch, Swain said. His study looked purely at precipitation, independent of whether it fell as rain or snow. A growing body of research suggests that as the climate warms, California’s precipitation mix will shift significantly in favor of rain over snow. That’s dire news for our food system, because the Central Valley’s vast irrigation networks are geared to channeling the slow, predictable melt of the snowpack into usable water for farms. Water that falls as rain is much harder to capture and bend to the slow-release needs of agriculture.

In short, California’s climate, chaotic under normal conditions, is about to get weirder and wilder. Indeed, it’s already happening.

What if an 1862-level flood, which is overdue and “more likely than not” to occur with a couple of decades, were to hit present-day California?

Starting in 2008, the USGS set out to answer just that question, launching a project called the ARkStorm (for “atmospheric river 1,000 storm”) Scenario. The effort was modeled on a previous USGS push to get a grip on another looming California cataclysm: a massive earthquake along the San Andreas Fault. In 2008, USGS produced the ShakeOut Earthquake Scenario, a “detailed depiction of a hypothetical magnitude 7.8 earthquake.” The study “served as the centerpiece of the largest earthquake drill in US history, involving over five thousand emergency responders and the participation of over 5.5 million citizens,” the USGS later reported.

That same year, the agency assembled a team of 117 scientists, engineers, public-policy experts, and insurance experts to model what kind of impact a monster storm event would have on modern California.

At the time, Lucy Jones served as the chief scientist for the USGS’s Multi Hazards Demonstration Project, which oversaw both projects. A seismologist by training, Jones spent her time studying the devastations of earthquakes and convincing policy makers to invest resources into preparing for them. The ARkStorm project took her aback, she told me. The first thing she and her team did was ask, What’s the biggest flood in California we know about? “I’m a fourth-generation Californian who studies disaster risk, and I had never heard of the Great Flood of 1862,” she said. “None of us had heard of it,” she added—not even the meteorologists knew about what’s “by far the biggest disaster ever in California and the whole Southwest” over the past two centuries.

At first, the meteorologists were constrained in modeling a realistic megastorm by a lack of data; solid rainfall-gauge measures go back only a century. But after hearing about the 1862 flood, the ARkStorm team dug into research from Ingram and others for information about megastorms before US statehood and European contact. They were shocked to learn that the previous 1,800 years had about six events that were more severe than 1862, along with several more that were roughly of the same magnitude. What they found was that a massive flood is every bit as likely to strike California, and as imminent, as a massive quake.

Even with this information, modeling a massive flood proved more challenging than projecting out a massive earthquake. “We seismologists do this all the time—we create synthetic seismographs,” she said. Want to see what a quake reaching 7.8 on the Richter scale would look like along the San Andreas Fault? Easy, she said. Meteorologists, by contrast, are fixated on accurate prediction of near-future events; “creating a synthetic event wasn’t something they had ever done.” They couldn’t just re-create the 1862 event, because most of the information we have about it is piecemeal, from eyewitness accounts and sediment samples.

To get their heads around how to construct a reasonable approximation of a megastorm, the team’s meteorologists went looking for well-documented 20th-century events that could serve as a model. They settled on two: a series of big storms in 1969 that hit Southern California hardest and a 1986 cluster that did the same to the northern part of the state. To create the ARkStorm scenario, they stitched the two together. Doing so gave the researchers a rich and regionally precise trove of data to sketch out a massive Big One storm scenario.

There was one problem: While the fictional ARkStorm is indeed a massive event, it’s still significantly smaller than the one that caused the Great Flood of 1862. “Our [hypothetical storm] only had total rain for 25 days, while there were 45 days in 1861 to ’62,” Jones said. They plunged ahead anyway, for two reasons. One was that they had robust data on the two 20th-century storm events, giving disaster modelers plenty to work with. The second was that they figured a smaller-than-1862 catastrophe would help build public buy-in, by making the project hard to dismiss as an unrealistic figment of scaremongering bureaucrats.

What they found stunned them—and should stun anyone who relies on California to produce food (not to mention anyone who lives in the state). The headline number: $725 billion in damage, nearly four times what the USGS’s seismology team arrived at for its massive-quake scenario ($200 billion). For comparison, the two most costly natural disasters in modern US history—Hurricane Katrina in 2005 and Harvey in 2017—racked up $166 billion and $130 billion, respectively. The ARkStorm would “flood thousands of square miles of urban and agricultural land, result in thousands of landslides, [and] disrupt lifelines throughout the state for days or weeks,” the study reckoned. Altogether, 25 percent of the state’s buildings would be damaged.

In their model, 25 days of relentless rains overwhelm the Central Valley’s flood-control infrastructure. Then large swaths of the northern part of the Central Valley go under as much as 20 feet of water. The southern part, the San Joaquin Valley, gets off lighter; but a miles-wide band of floodwater collects in the lowest-elevation regions, ballooning out to encompass the expanse that was once the Tulare Lake bottom and stretching to the valley’s southern extreme. Most metropolitan parts of the Bay Area escape severe damage, but swaths of Los Angeles and Orange Counties experience “extensive flooding.”

As Jones stressed to me in our conversation, the ARkStorm scenario is a cautious approximation; a megastorm that matches 1862 or its relatively recent antecedents could plausibly bury the entire Central Valley underwater, northern tip to southern. As the report puts it: “Six megastorms that were more severe than 1861–1862 have occurred in California during the last 1800 years, and there is no reason to believe similar storms won’t occur again.”

A 21st-century megastorm would fall on a region quite different from gold rush–era California. For one thing, it’s much more populous. While the ARkStorm reckoning did not estimate a death toll, it warned of a “substantial loss of life” because “flood depths in some areas could realistically be on the order of 10–20 feet.”

Then there’s the transformation of farming since then. The 1862 storm drowned an estimated 200,000 head of cattle, about a quarter of the state’s entire herd. Today, the Central Valley houses nearly 4 million beef and dairy cows. While cattle continue to be an important part of the region’s farming mix, they no longer dominate it. Today the valley is increasingly given over to intensive almond, pistachio, and grape plantations, representing billions of dollars of investments in crops that take years to establish, are expected to flourish for decades, and could be wiped out by a flood.

Apart from economic losses, “the evolution of a modern society creates new risks from natural disasters,” Jones told me. She cited electric power grids, which didn’t exist in mid-19th-century California. A hundred years ago, when electrification was taking off, extended power outages caused inconveniences. Now, loss of electricity can mean death for vulnerable populations (think hospitals, nursing homes, and prisons). Another example is the intensification of farming. When a few hundred thousand cattle roamed the sparsely populated Central Valley in 1861, their drowning posed relatively limited biohazard risks, although, according to one contemporary account, in post-flood Sacramento, there were a “good many drowned hogs and cattle lying around loose in the streets.”

Today, however, several million cows are packed into massive feedlots in the southern Central Valley, their waste often concentrated in open-air liquid manure lagoons, ready to be swept away and blended into a fecal slurry. Low-lying Tulare County houses nearly 500,000 dairy cows, with 258 operations holding on average 1,800 cattle each. Mature modern dairy cows are massive creatures, weighing around 1,500 pounds each and standing nearly 5 feet tall at the front shoulder. Imagine trying to quickly move such beasts by the thousands out of the path of a flood—and the consequences of failing to do so.

A massive flood could severely pollute soil and groundwater in the Central Valley, and not just from rotting livestock carcasses and millions of tons of concentrated manure. In a 2015 paper, a team of USGS researchers tried to sum up the myriad toxic substances that would be stirred up and spread around by massive storms and floods. The cities of 160 years ago could not boast municipal wastewater facilities, which filter pathogens and pollutants in human sewage, nor municipal dumps, which concentrate often-toxic garbage. In the region’s teeming 21st-century urban areas, those vital sanitation services would become major threats. The report projects that a toxic soup of “petroleum, mercury, asbestos, persistent organic pollutants, molds, and soil-borne or sewage-borne pathogens” would spread across much of the valley, as would concentrated animal manure, fertilizer, pesticides, and other industrial chemicals.

The valley’s southernmost county, Kern, is a case study in the region’s vulnerabilities. Kern’s farmers lead the entire nation in agricultural output by dollar value, annually producing $7 billion worth of foodstuffs like almonds, grapes, citrus, pistachios, and milk. The county houses more than 156,000 dairy cows in facilities averaging 3,200 head each. That frenzy of agricultural production means loads of chemicals on hand; every year, Kern farmers use around 30 million pounds of pesticides, second only to Fresno among California counties. (Altogether, five San Joaquin Valley counties use about half of the more than 200 million pounds of pesticides applied in California.)

Kern is also one of the nation’s most prodigious oil-producing counties. Its vast array of pump jacks, many of them located in farm fields, produce 70 percent of California’s entire oil output. It’s also home to two large oil refineries. If Kern County were a state, it would be the nation’s seventh-leading oil-producing one, churning out twice as much crude as Louisiana. In a massive storm, floodwaters could pick up a substantial amount of highly toxic petroleum and byproducts. Again, in the ARkStorm scenario, Kern County gets hit hard by rain but mostly escapes the worst flooding. The real “Other Big One” might not be so kind, Jones said.

In the end, the USGS team could not estimate the level of damage that will be visited upon the Central Valley’s soil and groundwater from a megaflood: too many variables, too many toxins and biohazards that could be sucked into the vortex. They concluded that “flood-related environmental contamination impacts are expected to be the most widespread and substantial in lowland areas of the Central Valley, the Sacramento–San Joaquin River Delta, the San Francisco Bay area, and portions of the greater Los Angeles metroplex.”

Jones said the initial reaction to the 2011 release of the ARkStorm report among California’s policymakers and emergency managers was skepticism: “Oh, no, that’s too big—it’s impossible,” they would say. “We got lots of traction with the earthquake scenario, and when we did the big flood, nobody wanted to listen to us,” she said.

But after years of patiently informing the state’s decisionmakers that such a disaster is just as likely as a megaquake—and likely much more devastating—the word is getting out. She said the ARkStorm message probably helped prepare emergency managers for the severe storms of February 2017. That month, the massive Oroville Dam in the Sierra Nevada foothills very nearly failed, threatening to send a 30-foot-tall wall of water gushing into the northern Central Valley. As the spillway teetered on the edge of collapse, officials ordered the evacuation of 188,000 people in the communities below. The entire California National Guard was put on notice to mobilize if needed—the first such order since the 1992 Rodney King riots in Los Angeles. Although the dam ultimately held up, the Oroville incident illustrates the challenges of moving hundreds of thousands of people out of harm’s way on short notice.

The evacuation order “unleashed a flood of its own, sending tens of thousands of cars simultaneously onto undersize roads, creating hours-long backups that left residents wondering if they would get to high ground before floodwaters overtook them,” the Sacramento Bee reported. Eight hours after the evacuation, highways were still jammed with slow-moving traffic. A California Highway Patrol spokesman summed up the scene for the Bee:

Unprepared citizens who were running out of gas and their vehicles were becoming disabled in the roadway. People were utilizing the shoulder, driving the wrong way. Traffic collisions were occurring. People fearing for their lives, not abiding by the traffic laws. All combined, it created big problems. It ended up pure, mass chaos.

Even so, Jones said the evacuation went as smoothly as could be expected and likely would have saved thousands of lives if the dam had burst. “But there are some things you can’t prepare for.” Obviously, getting area residents to safety was the first priority, but animal inhabitants were vulnerable, too. If the dam had burst, she said, “I doubt they would have been able to save cattle.”

As the state’s ever-strained emergency-service agencies prepare for the Other Big One, there’s evidence other agencies are struggling to grapple with the likelihood of a megaflood. In the wake of the 2017 near-disaster at Oroville, state agencies spent more than $1 billion repairing the damaged dam and bolstering it for future storms. Just as work was being completed in fall 2018, the Federal Energy Regulatory Commission assessed the situation and found that a “probable maximum flood”—on the scale of the ArkStorm—would likely overwhelm the dam. FERC called on the state to invest in a “more robust and resilient design” to prevent a future cataclysm. The state’s Department of Water Resources responded by launching a “needs assessment” of the dam’s safety that’s due to wrap up in 2020.

Of course, in a state beset by the increasing threat of wildfires in populated areas as well as earthquakes, funds for disaster preparation are tightly stretched. All in all, Jones said, “we’re still much more prepared for a quake than a flood.” Then again, it’s hard to conceive of how we could effectively prevent a 21st century repeat of the Great Flood or how we could fully prepare for the low-lying valley that runs along the center of California like a bathtub—now packed with people, livestock, manure, crops, petrochemicals, and pesticides—to be suddenly transformed into a storm-roiled inland sea.

Ciência climática é ferramenta no combate à seca no Nordeste, afirma Carlos Nobre (ABIPTI)

JC 5593, 7 de fevereiro de 2017

“O entendimento das causas subjacentes às secas do Nordeste tem permitido se prever com antecedência de alguns meses a probabilidade de uma particular estação de chuvas no semiárido do Nordeste”, afirmou

O relatório oriundo da última reunião do Grupo de Trabalho de Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) aponta para um cenário preocupante: até o início de 2018, é esperado que os grandes e médios reservatórios nordestinos sequem. Por isso, é preciso criar novas oportunidades para a população.

Reconhecido como um dos principais pesquisadores mundiais sobre clima, Carlos Nobre destacou o papel das ciências climáticas para mitigar os impactos econômicos e sociais da seca na Região Nordeste. O pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais e professor de pós-graduação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) ressaltou que o conhecimento do clima cria alternativas econômicas e sociais para os moradores da região.

Na avaliação do pesquisador, a ciência climática evoluiu rapidamente nas últimas décadas, sendo uma ferramenta eficaz no combate à seca. “O entendimento das causas subjacentes às secas do Nordeste tem permitido se prever com antecedência de alguns meses a probabilidade de uma particular estação de chuvas no semiárido do Nordeste de fevereiro a maio ser deficiente, normal ou abundante. Estas previsões climáticas vêm sendo aperfeiçoadas ao longo do tempo e utilizadas para apoio ao planejamento agrícola, à gestão hídrica e à mitigação de desastres naturais”, afirmou Nobre.

Entre as ações propostas pelo cientista, está o investimento na criação de uma economia regional baseada em recursos naturais renováveis. Uma das alternativas sugeridas é a criação de parques de geração de energia eólica e solar fotovoltaica.

“O Nordeste tem um enorme potencial de energia eólica e solar, capaz de atender a todas suas necessidades e ainda exportar grandes volumes para o restante do Brasil. Estas formas de energia renovável distribuídas geram empregos permanentes localmente, mais numerosos do que aqueles gerados por hidrelétricas ou termelétricas e que poderiam beneficiar populações urbanas e rurais da região”, informou.

Carlos Nobre tem extensa atuação na área climática. Além de ocupar vários cargos no governo referentes ao setor climático, foi vencedor do Volvo Environment Prize – um dos principais prêmios internacionais sobre clima – e membro do Conselho Científico sobre Sustentabilidade Global da Organização das Nações Unidas (ONU).

Agência ABIPTI, com informações do MCTI e Valor Econômico

Com 516 milímetros de chuva em 5 anos, Ceará tem pior seca desde 1910 (G1)

09/09/2016 09h20 – Atualizado em 09/09/2016 11h57

Previsão para 2017 ainda é indefinida devido ao “Oceano Pacífico Neutro”.
Águas do Açude Orós estão sendo transferidas para o Castanhão.

Do G1 CE com informações da TV Verdes Mares

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Levantamento feito pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) nesta quinta-feira (8) mostra que nos últimos cinco anos, de 2012 a 2016, foram apenas 516 milímetros de chuva, em média, no Ceará. O índice é o menor desde 1910.

De acordo com o meteorologista Davi Ferran, vai ser preciso conviver com a incerteza pelos próximos meses, já que ainda é cedo pra afirmar se 2017 vai trazer chuva ou não.

Ano Chuva (mm)
2012 388
2013 552
2014 565
2015 524
2016 550
Média 516
Fonte: Funceme

“No período chuvoso do ano que vem, ou seja, março, abril e maio, que é o período chuvoso principal, a maior probabilidade é que o Oceano Pacífico não tenha El Niño nem La Niña. Vamos ter o Oceano Pacífico neutro. Em anos de Oceano Pacífico neutro, a probabilidade de chuvas no Ceará depende mais fortemente do Atlântico. Então a previsão vai ser divulgada somente em janeiro”, explica.

Enquanto isso, segundo a Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh), os reservatórios secam cada vez mais. No momento, o nível médio dos 153 açudes monitorados pela Cogerh é de apenas 9,4% do volume total.O “Gigante” Castanhão, responsável por abastecer toda a Região Metropolitana de Fortaleza, está praticamente sem água. Há apenas sete anos, ele chegou a inundar a cidade de Jaguaribara com a enorme vazão das comportas.

Hoje, a Cogerh diz que o maior açude do Ceará está com apenas 6% da capacidade. Bem perto dele, o Açude Orós, também na Região Jaguaribana, sangrou em 2004 e 2008. Na época, virou até atração turística no Centro Sul do Estado.

Agora em 2016, o Orós aparece nesse cenário de seca em forma de ajuda. Desde julho, as águas do açude estão sendo transferidas para o Castanhão. Segundo a Cogerh, essa água deve chegar às residências da Região Metropolitana de Fortaleza em setembro, e garantir o abastecimento pelo menos durante esse período  de crise hídrica.

“Nossa programação é até o final de janeiro. Ou seja, até janeiro vamos estar operando de forma integrada os dois reservatórios. O caso da Região Metropolitana, ela está totalmente integrada à Região do Jaguaribe por dois grandes canais: o do Trabalhador e Eixão das Águas. Então é o caso de uma bacia hoje tem uma maior dependência de outra região, de outra bacia hidrográfica, mas elas estão integradas. Esse é o caso que eu diria mais emblemática no Estado”, explica o presidente da Cogerh, João Lúcio Farias.

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Ceará passa pela pior seca dos últimos 90 anos, com 38 açudes completamente secos e 42 no volume morto (Ceará News 7)

27/10/2016 11:45Hs

EFEITOS DA ESTIAGEM

O relatório da Cogerh também informa que, somente no mês de outubro o volume nos açudes caiu para 10% de sua capacidade.

Ceará passa pela pior seca dos últimos 90 anos, com 38 açudes completamente secos e 42 no volume morto

Os reservatórios do Ceará estão exauridos por conta da seca prolongada 

A Companhia de Gestão de Recursos Hídricos (Cogerh) relatou a situação preocupante que vive o Ceará por conta da falta de chuvas, que faz o Estado enfrentar a pior seca dos últimos 90 anos.

Segundo a Cogerh, somente no mês de outubro o volume de água nos açudes cearenses caiu para 10 por cento. Dos 153 açudes monitorados pela companhia 131 têm menos de 30% da capacidade máxima e apenas um está com mais de 90%. Outros 42 estão com o volume morto e 38 completamente secos.

No mês de março, considerado o mais chuvoso da temporada de inverno, quando em média são esperados mais de 200 milímetros, o índice registrado foi de apenas 129 milímetros. Os dados confirmam o quinto ano seguido de chuvas abaixo da média no Ceará, ocasionando uma das maiores secas já registradas na história.

Lista dos açudes com volume morto:

Batente, Broco, Capitão Mor, Castro, Catucinzenta, Cipoada, Ema, Farias de Sousa, Flor do Campo, Fogareiro, Forquilha, Frios, Gerardo Atimbone, Jaburu II, Jatobá, Jatobá II, Jenipapeiro, Jenipapeiro II, João Luís, Macacos, Martinópole, Monsenhor, Tabosa, Parambu, Penedo, Pentecoste, Pesqueiro, Poço ds Pedra, Poço do Barro, Pompeu Sobrinho, Riacho da Serra, Riacho do Sangue, Rivaldo de Carvalho, Santo Antônio, Santo Antônio de Aracatiaçu, São Domingos II, São José II, São José III, Sítios Novos, Sucesso, Tejuçuoca, Várzea da Volta e Várzea do Boi.

Lista dos ançudes secos

Adauto Bezerra, Amanari, Barra Velha, Barragem do Batalhão, Bonito, Canafístula, Carão, Carmina, Carnaubal, Cedro, Cumpim, Desterro, Escuridão, Faé, Favelas, Forquilha II, Jerimum, Madeiro, Monte Belo, Nova Floresta, Pau Preto, Pirabibu, Potiretama, Premuoca, Quixabinha, Quixeramobim, Salão, Santa Maria de Aracatiaçu, Santo Antônio de Russas, São Domingos, São José I, São Mateus, Serafim Dias, Sousa, Trapiá II, Trici, Umari, Vieirão.

Fonte: Cogerh

Seca se intensifica com alto risco para cerca de 90 municípios do semiárido brasileiro (CEMADEN)

JC, 5498, 8 de setembro de 2016

As chuvas de setembro a novembro devem se tornar mais escassas na Zona da Mata dos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Há poucas chances de reversão do quadro crítico dos municípios impactados pela seca, conforme o Relatório da Seca no Semiárido Brasileiro e Impactos divulgado, hoje, pelo Cemaden

O período chuvoso, entre abril e julho, apresentou um déficit pluviométrico, agravado no mês de agosto,  com o registro de acumulados de chuva inferiores a 60 mm nos municípios da maior parte da região Nordeste. Esses municípios, principalmente na zona da mata, foram caracterizados por condições de  “ Muito Seco”.

A avaliação do risco agroclimático (balanço hídrico) para o ano hidrológico 2015/2016 – referente ao período de outubro de 2015 a 31 de agosto de 2016- indicou que cerca de 90 municípios foram classificados como de risco “Alto”, aos que apresentaram entre 60 a 75 dias com déficit hídrico  e  de “Muito Alto”, para os municípios com mais de 75 dias com o déficit hídrico.

O trimestre agosto -setembro-outubro de 2016 pode marcar a transição para um episódio de La Niña, provavelmente com fraca intensidade. A evolução climatológica (histórica) das precipitações no trimestre Setembro-Outubro-Novembro/2016 indica que as chuvas devem se tornar mais escassas na Zona da Mata dos Estados de Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Portanto, para os municípios impactados pela seca, nestes Estados, há poucas chances de reversão do quadro crítico.

“A intensidade dos impactos da seca atingem as atividades agrícolas e/ou pastagens. A situação de seca intensificou-se, principalmente, na parte leste da Região Semiárida, atingindo os municípios inseridos nos estados do Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.”, destaca o coordenador-geral do Cemaden, meteorologista Marcelo Seluchi. Ele explica que essa seca é o reflexo dos acumulados de chuva inferiores a média dos meses da estação chuvosa- entre os meses de abril a julho – conforme o sensoriamento remoto com base no índice de suprimento de água para a vegetação (VSWI).

Essa análise foi divulgada, hoje,  no Boletim da Seca e Impactos no Semiárido Brasileiro de Agosto 2016, elaborado pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.

No relatório, de acordo com o índice de suprimento de água para a vegetação (VSWI), 981 municípios apresentaram pelo menos 50% de suas áreas impactadas no mês de agosto de 2016. “ A estação chuvosa foi encerrada no ultimo mês de julho e, em razão disso, o estresse vegetativo atual é esperado.”, explica Seluchi.  Considerando as poucas regiões onde o calendário de plantio se estende até o mês de junho,  o ciclo fenológico pode ainda estar em curso nos municípios inseridos no Estado de Alagoas, região leste da Bahia, Pernambuco e Sergipe. Nessa região, as áreas impactadas pela seca somam cerca de 9 milhões de hectares.

As previsões em escala de médio prazo (até 21 de agosto) indicam condições favoráveis para a ocorrência de precipitações no litoral da Bahia, ao sul de Salvador. A previsão climática sazonal de chuva (MCTIC) para setembro-outubro e novembro de 2016 mostra, para toda a região Nordeste do País, uma previsão na qual os três cenários (acima-dentro-abaixo da média) são igualmente prováveis, indicando a incerteza associada a esta previsão.

Assessoria de Comunicação do Cemaden

Rio Acre diminui 18 cm e compromete o abastecimento de água no Estado (MCTIC)

Segundo Cemaden, água captada do rio chega às estações de tratamento com barro, o que prejudica o abastecimento. Relatório cita previsão de chuva a partir de 17 de agosto, mas em volume insuficiente

Em 12 dias, o rio Acre diminuiu 18 centímetros, atingindo 1,35 metro em Rio Branco, o menor nível já registrado. Os dados foram divulgados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, no relatório sobre a seca no estado. Se a estiagem persistir, o rio pode atingir 1,06 metro em 10 de setembro.

“Há uma série de impactos decorrentes dessa situação. A agricultura é totalmente prejudicada. A navegação também é influenciada, pois os barcos não conseguem navegar, e o abastecimento de cidades do interior do estado fica comprometido”, observou o coordenador-geral de Operações do Cemaden, Marcelo Seluchi.

Outro ponto destacado pelo climatologista é o abastecimento de água para a população. Segundo ele, a água que chega às estações de tratamento tem maior quantidade de barro, e essas unidades precisam trabalhar mais para entregar um produto de qualidade para a população. Para isso, foi preciso ajustar as bombas de captação para o volume menor, processo semelhante ao adotado no Sistema Cantareira, em São Paulo (SP).

“Há dificuldade no abastecimento e perda de qualidade da água. O processo de tratamento é mais demorado e acaba encarecido”, afirmou Marcelo Seluchi.

De acordo com o relatório do Cemaden, as chuvas têm sido deficientes desde março, e o período entre junho e agosto é o mais seco do ano no Acre. O documento cita previsão de chuva a partir de 17 de agosto, mas em volume “pouco expressivo”. “Não há expectativa de recuperação do quadro hídrico até o mês de setembro, embora possam ocorrer chuvas ocasionais”, alerta o Cemaden no documento.

“Tivemos alguns quadros de chuvas nos últimos dias, mas não há indícios concretos de que o período chuvoso vá começar na época considerada normal. Precisamos coletar mais dados para poder fazer uma previsão mais acurada”, reforçou Seluchi.

Queimadas

No documento, os pesquisadores também alertam para o risco de incêndios florestais no estado, que registrou, até 26 de julho, três vezes mais ocorrências de focos de calor que o máximo já detectado desde 1998.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), entre janeiro e agosto de 2016, o Acre teve 1.120 focos de incêndio, um aumento de 222% em relação ao mesmo período do ano passado.

MCTIC

Seca pode levar o rio Acre ao seu nível histórico mais baixo (Pesquisa Fapesp)

15 de agosto de 2016

Seca pode levar o rio Acre ao seu nível histórico mais baixoSegundo o Grupo de Trabalho em Previsão Climática do MCTIC, estiagem deve afetar navegação e abastecimento dos ribeirinhos, além do risco de queimadas e incêndios florestais na Amazônia e área central do país (Foto: Rio Acre/Agência Acre)

Agência FAPESP – A seca que atinge o sudoeste da Amazônia, especialmente o Acre, deve se agravar ainda mais nos próximos meses, alertou o Grupo de Trabalho em Previsão Climática Sazonal (GTPCS) do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), de acordo com a Assessoria de Comunicação Social do Ministério.

Segundo a previsão, o rio Acre deve atingir o seu mais baixo nível histórico (entre 1,20m e 1,30m) e impactar a navegação e o abastecimento de comunidades ribeirinhas da região. O levantamento é válido para os meses de agosto, setembro e outubro deste ano.

O Acre é o estado mais afetado pela estiagem que se estende também para o norte da Amazônia. Desde março, o volume de chuvas é deficitário na região, em parte por conta do El Niño, que começou no outono do ano passado. O fenômeno está associado ao aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial, alterando os ventos em boa parte do planeta e o regime de chuvas. Na região Norte, leva à seca. A partir de junho, o La Niña, fenômeno oposto, começou a se desenvolver de forma fraca.

“Esta estiagem é fruto de uma interação de vários fenômenos, notadamente o El Niño e a La Niña. Ela já se estende há quase seis meses, e não temos uma noção exata de quando vai normalizar. Estamos acompanhando a situação mensalmente para avaliar como ela se comporta”, afirmou o chefe da Divisão de Pesquisas do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Marengo, à Assessoria de Comunicação Social do MCTIC.

O documento alerta ainda para o alto risco de queimadas e incêndios florestais, especialmente na área central do Brasil e no sul e no leste da Amazônia. O número de focos de incêndio pode atingir máximas históricas. Contudo, a adoção de medidas de controle pode mitigar o problema no trimestre.

Poucas chuvas no Nordeste

A região Nordeste também deve sofrer mais com a estiagem no período analisado. De acordo com o grupo de previsão climática do MCTIC, tradicionalmente, agosto é o último mês da estação chuvosa na parte leste da região, mas tem chovido pouco desde abril, início do período de precipitações na região. Com a baixa incidência de chuvas nos últimos anos, a tendência é que a situação se repita na zona da mata, que já apresenta valores abaixo da média para a época do ano.

“O panorama de poucas chuvas nessa área vem se arrastando desde 2012, e os níveis dos reservatórios e dos rios estão muito baixos, mesmo na zona da mata. E isso gera problemas para a população, porque pode haver desabastecimento”, destacou José Marengo.

Participam do GTPCS o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). A íntegra do documento pode ser acessada aqui no endereço http://www.cemaden.gov.br/previsao-climatica-para-o-trimestre-aso2016/.

2016 é um dos anos mais secos do Ceará e o pior começa agora (O Povo)

CHUVA 14/06/2016

Os meteorologistas afirmam que não há previsão de precipitações para os últimos seis meses do ano 

Igor Cavalcante

Os próximos meses serão de mais escassez hídrica para o Ceará. Quando o assunto é chuva, o segundo semestre é o mais crítico para o Estado. As precipitações que ainda acontecem são causadas por instabilidades meteorológicas e não devem impactar no cenário de estiagem.

Em coletiva de imprensa ontem, a Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme) informou que, de 2012 para cá, a estiagem deste ano é a segunda pior. Em algumas regiões não choveu nem metade do esperado. O cenário faz de 2016 um dos dez anos mais secos da história.

Contudo, monitoramento do Oceano Pacífico indica que águas estão resfriando. É um sinal de que precipitações podem aumentar no próximo ano. O aquecimento oceânico, fenômeno conhecido como El Niño, impacta na formação da Zona de Convergência Intertropical, principal responsável pelas chuvas na costa cearense. Quando parte do Pacífico está aquecida, as nuvens tendem a se formar e precipitar no mar.

De acordo com Eduardo Sávio Martins, presidente da Funceme, ainda é cedo para garantir boa quadra chuvosa para 2017. “É um aspecto positivo, mas temos de aguardar como vai ser o padrão desse resfriamento”, pondera.

O meteorologista Raul Fritz também é cauteloso quanto às previsões. Segundo ele, mesmo num cenário em que não haja El Niño, bom inverno é incerto.

A preocupação dos meteorologistas é com os meses até a próxima quadra chuvosa.. “A gente tem certeza da chuva no primeiro semestre e certeza de que não chove no segundo semestre”, cita o presidente da Funceme. Historicamente, mais de 90% do volume anual de chuva no Estado acontece no primeiro semestre.

Abaixo do esperado

Também foram as temperaturas elevadas das águas do Pacífico que contribuíram para as poucas precipitações no Estado. Conforme O POVO havia adiantado na edição do último dia 1°, a quadra chuvosa deste ano terminou como a segunda pior desde 2012, quando começou a sequência de cinco anos de estiagem.

Entre fevereiro e maio deste ano, as chuvas ficaram 45,2% abaixo do esperado. Fevereiro foi o período mais crítico, quando o volume no Estado ficou 55,3% abaixo da expectativa. Os meses de março e abril — historicamente de mais chuva — também tiveram precipitações inferiores à média.

As regiões Jaguaribana e do Sertão dos Inhamuns foram as de maior escassez. Nos municípios, as chuvas sequer atingiram metade do esperado, ficando 54,5% e 52,3% abaixo da média, respectivamente.

Segundo o presidente da Funceme, desde o início do ano, o Estado trabalha com o cenário da seca e promove ações para garantir licitações de poços e adutoras emergenciais na tentativa de suprir a necessidade hídrica do Interior.

Saiba mais 

Uma das alternativas para amenizar a escassez hídrica, o Projeto de Integração do rio São Francisco será concluído em dezembro, com previsão de abastecer os reservatórios em janeiro do próximo ano.

No último fim de semana, comitiva do Ministério da Integração vistoriou os eixos Norte e Leste do Projeto. Além do Ceará, Pernambuco e Paraíba devem ser beneficiados a partir de 2017.

À espera de Francisco. A peleja da água (O Povo)

Por Fátima Sudário

Este especial À espera de Francisco é mais uma investida do O POVO na grande reportagem e num tema muito caro a todos nós: a água, uma eterna peleja, elemento vital na formação das nossas identidades e das nossas diferenças. Revisitar o tema, portanto, é missão, especialmente em momento tão delicado da vida nacional, com as indefinições que deixam interrogações sobre o futuro de uma obra como a da transposição do Rio São Francisco.

O projeto é polêmico. Sua própria história dá conta disso. Virou dois séculos, demorou a sair da intenção, virar plano, entrar no papel, começar, parar e, de novo, começar. Atravessou governos, interesses políticos, questões ambientais e, principalmente, a profunda insegurança hídrica que desestabiliza a região, leva vidas, ameaça culturas, quebra a economia e finda sonhos de desenvolvimento.

Mas está aí. Ao curso de muitas secas – esta que vivemos já dura cinco anos – a obra gigantesca, com seus túneis, elevatórias, cânions, canais e reservatórios, e um custo de R$ 8,5 bilhões, já está 85,3% concluída. A água é esperada para o fim do ano. Enquanto isso, o cenário afetivo, econômico, social e cultural da região sul do Ceará transformase. Tem lamento por uma memória levada, mas tem a esperança que só a água é capaz de acender nesta gente.

Para mostrar a quantas anda essa espera por águas do São Francisco, os repórteres Cláudio Ribeiro e Fábio Lima e o motorista José Maia Rodrigues pegaram a estrada. Percorreram 2 mil quilômetros do Eixo Norte da obra, pelos municípios de Cabrobó e Salgueiro, em Pernambuco, Jati, Brejo Santo e Mauriti, no Ceará. Mostram não só a construção de concreto, mas as outras construções simbólicas em curso. A dona Edileuza e o seu Zilvan contam, admirados, das flores que plantam. Seu Lu Narciso sonha. Quer voltar a plantar uva. “Espero só a água”. São narrativas que O POVO desenha nestas páginas, na web, no rádio e na tevê. Porque vale a pena saber de tudo isso. Em todas as linguagens.

Etnografias

Por Cláudio Ribeiro

O POVO mantém seu mergulho jornalístico pela etnografia do sertão. Reportando dificuldades e esperanças de um polígono seco de água no chão, mas vivo de se saber refazer. Repórteres do O POVO já percorreram a zona ribeira do São Francisco. Os especiais São Francisco – Vida para o Semiárido, em 2000, e Pelas Águas do Velho Chico, em 2006, trataram da expectativa de um projeto secular que nunca avançava sertão adentro. Transpor o rio era uma possibilidade distante. Em 2013, ainda o segundo ano desta mesma grande seca de meia década que estamos passando, foi publicado/postado o especial A Peleja da Água. A crise hídrica exigindo soluções. Agora À Espera de Francisco mostra o caminho da água no Nordeste redesenhado. O improvável está prestes a acontecer. Os canais do São Francisco regando sertões, desfazendo sofrimento e sede.

Editorial Gráfico

Vias de Água

Por Gil Dicelli 

Os destinos do Velho Chico se abrem a novos sertões. Esperança e dúvidas pelas margens do Semiáriado. No projeto gráfico, o papel rasgado sugere as hidrovias da transposição, cavadas ao longo de cerca de 2 mil km. Atalhos que orientam a leitura, hierarquizando o conteúdo. Caracteres dos títulos também expandem territórios. Avança aqui e acolá uma letra. É como a água do rio que não abarca limites. Brutal e sinuosa, a tipografia escolhida sinaliza o itinerário do São Francisco. A diagramação é assimétrica, a malha de construção da página flui e se reinventa. Legendas das imagens são poças de informação rápida. E um infográfico de página dupla desenha a trajetória do rio e do repórter explicando, em imagem e texto, os detalhes da narrativa. Esse fiar de elementos gráficos faz a escrita visual que contribui para entrelaçar as vidas de Gracinha, Chico de Sinésio, Dedé de Leopoldo e seu Wilson. E de tantos outros. Todos à espera de Francisco.

Futuro

Por Cláudio Ribeiro

São Francisco já não é mais um rio caudaloso nem tão forte como descrito em livros e histórias antigas. Resiste, desde a nascente em Minas Gerais, passando por Bahia e Pernambuco até a foz entre Alagoas e Sergipe, mas está assoreado em vários trechos onde antes se navegava. O homem faz mau uso de seu leito. Um rio também tem sede de chuva. A seca de cinco anos no Nordeste o castiga. É esse o Francisco aguardado no projeto da transposição, feito os ditos da reza. Levar água onde houver o estio.

Até o fim deste ano – se os planos seguirem o planejado e a instabilidade política e econômica não atrapalhar –, a expectativa é que São Francisco encoste também pelo Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco. Por longos 477 km de canais, 14 aquedutos, quatro túneis perfurando serras, o rio transpondo relevos a partir de nove estações de bombeamento.

Serão 50 reservatórios abastecidos (27 deles construídos pelo projeto) nos quatro estados, pelos Eixos Norte e Leste. O Ceará terá 13 açudes (seis a inaugurar) para essa nova água. Entre eles o maior do Nordeste, o Castanhão, que atualmente está com apenas 9% de sua capacidade. Ele é a principal garantia hídrica para Fortaleza, hoje muito precisado de chuva e de um São Francisco.

A vazão média direcionada pelo rio será de 26 mil litros por segundo em períodos secos. O secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira, defende que já se possibilite dobrar essa vazão tão logo o projeto seja concluído. Explica que a necessidade já é maior do que quando o projeto foi pensado.

85,3% das obras da transposição estão concluídas. Ministério da integração nacional

A obra da transposição foi, outrora, tão somente uma possibilidade defendida no distante 1817 pelo então ouvidor do Crato, Antônio de Porbem Barbosa. Chegou a ser algo recomendado a estudos pelo rei de Portugal dom João VI, em abril de 1821. Despedindo- se do Brasil Colônia, deu a indicação ao príncipe regente, dom Pedro I. Ele deixou o assunto no esquecimento, à época mais preocupado com rebeldes da Confederação do Equador (1824). Dom Pedro II, mais disposto àquela novidade e afeito desenvolver as terras, em 1847, contratou o engenheiro
Henrique Guilherme Fernando Halfeld para o levantamento. Imagine que era tudo mais longe e penoso do que hoje, para percorrer o rio. Só em 1860, Halfeld se manifestou. Citou Cabrobó (PE) como possibilidade de saída de água para outras regiões. Sem tecnologia possível, a ideia hibernou, silenciou por anos.

A proposta ressurgiu com os generais Geisel e Figueiredo na ditadura militar, freqüentou os palanques de FHC, até que em 2007 foi iniciada na gestão Lula. As obras chegaram a parar em 2011, retomadas um ano depois.

Até dezembro

O Ministério da Integração Nacional, responsável pela execução do projeto, diz que foram contratados mais de 10 mil profissionais e há 3.800 máquinas operando 24 horas. É da mesma Cabrobó que agora parte o Eixo Norte, o lado da obra que alcança o Ceará – vai até Cajazeiras (PB). O Eixo Leste sai de Floresta (PE) até Monteiro (PB).

O investimento total bate R$ 8,2 bilhões. A inauguração é aguardada para o fim deste ano. “Para o Governo Federal, o Projeto de Integração do Rio São Francisco é uma prioridade. A obra está prevista para ser concluída até dezembro de 2016”. Foi o que respondeu o Ministério da Integração Nacional ao O POVO, ao ser questionado sobre qual a garantia financeira que o projeto tem diante da crise que atravessa o País – e se há algum risco de redimensionamento ou interrupção dos trabalhos. “Está prevista para chegar ao Ceará no último trimestre deste ano”, reforça o órgão.

As respostas vieram por email. No início de abril, O POVO tentou entrevistar o então ministro da Integração, Gilberto Occhi. No dia 14 de abril, sua exoneração foi assinada por Dilma. Na mesma data saiu publicada a nomeação do substituto, José Rodrigues Pinheiro Dória, indicação de Occhi, e que ainda naquele dia desistiu do cargo. No último dia 15, foi nomeado como interino o veterinário Josélio de Andrade Moura.

O Ministério atualizou que, pelos dados de 31 de março último, o projeto agora “está com 85,3% de conclusão”. A contar do que está posto, não deixar o São Francisco seguir o novo rumo será improvável.

Vídeos

Webdoc

Personagens

Professora Gracinha

A professora Gracinha (Maria das Graças Nunes Bezerra), 41, chora a tristeza do pai, Dezinho (Francisco Nunes dos Santos), 97. Ele teve que deixar o Sítio Torrões, em Brejo Santo, onde viveu por mais de 50 anos. É o lugar onde ela e os dez irmãos foram criados. Brincavam no curral, pulavam de árvores, mergulhavam no Riacho dos Porcos. O sítio foi desapropriado. O terreno está na área onde em breve existirá o açude Porcos, construído para as águas do rio São Francisco.

Além da tristeza, Gracinha tem outro também relacionado ao “novo” rio. Ela é diretora da Escola Maria Leite de Araújo, na localidade Poço do Pau, que é próxima a um dos canteiros de obras. Com cerca de 300 alunos, a escolinha obteve em 2013 as melhores notas do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) dentre todas as escolas cearenses. Gracinha teme que o desempenho dos alunos em 2016 seja prejudicado. A barulheira de caminhões e tratores não para. Apesar do transtorno, Gracinha dá voto de confiança. “Que seja para melhorar a vida da gente, ajudar o agricultor da região”. Seu Dezinho não dá entrevista. Para não debulhar sua mágoa.

Zilvan e Edileuza

Moradores de lugarejos a serem encobertos pelo novo caminho d’água do São Francisco estão sendo remanejados para Vilas Produtivas Rurais (VPRs). Ganham casa nova de três quartos, água encanada, saneamento, escola e posto de saúde. E terão, quando a transposição começar a operar, mais um lote de quatro hectares para plantar. Uma das 31 famílias da VPR Retiro, em Penaforte (CE), é a de seu Zilvan Francisco da Silva, 49, e dona Maria Edileuza Santana, 48. O casal lembra de quando, até 2015, vivia com três filhos na casa de taipa, escondida na caatinga do distrito Atalho, em Brejo Santo. “Lá era bem insegura, a parede caindo”, diz Zilvan, voz encabulada. Dona Edileuza reforça: “Chão de barro, a casa tempo de cair em nós”. Os dois não se imaginavam mais num recomeço, nem a vinda de um rio para perto. “Nunca, nunca mesmo”. Foi sua resposta menos tímida. Edileuza descreveu um sonho: nunca teve um jardim. “Vivi e me criei lá. Era só mato. Hoje planto flor. A casa ficou mais bonita ainda”. chegar água nos canais e açudes da transposição, as famílias das VPRs serão assistidas com um salário e meio. Em breve poderão irrigar o plantio com o novo rio embrenhado em seu novo pedaço de terra.

Wilson Barbosa

O mecânico-montador Wilson Barbosa Vieira completa 65 anos em julho. Já deu entrada nos papéis na à Previdência. Em 3 de julho, dia seguinte ao aniversário, quer estar aposentado. Mas não parar. Gostaria de seguir nas obras da transposição, “se ainda me quiserem”. É um dos 10.242 profissionais contratados pelo projeto São Francisco. Quer continuar até o rio chegar ao Ceará. Ele é cearense de Redenção, mora em Fortaleza, atua em trechos da obra em Pernambuco desde o início de 2014. Vai em casa a cada três meses. Já passou por cinco canteiros, deve ir para o sexto ponto do Eixo Norte. “Comecei em Cabrobó. Tô vindo até aqui desde a beira do rio”. De lá pra cá, seu Wilson trabalhou em duas estações de bombeamento, dois reservatórios, ajudava a erguer uma ponte sobre a BR-232, em Salgueiro, quando O POVO o encontrou. Em breve deve ir para serviços na barragem Milagres. “No começo, achava que ia trabalhar numa obrazinha, que em um ano terminaria. Não pensei que fosse ficar desse tamanho”. Ele celebra a transposição. “Imagine a riqueza que vai ter nesse Nordeste, plantação de fruta, verdura. Vai ser uma beleza”, profetiza seu Wilson.

Lu Narciso

 

 

 

 

 

Eram nove sócios na cooperativa de Poço, em Brejo Santo. Em nove hectares. Plantavam dois tipos de uvas de mesa, a Itália e a benitaka. Vendiam para uma grande rede nacional de supermercados. “Chegamos a ter 12 safras entre 1992 e 1998”, conta Cícero Henrique Furtado, 45, um dos plantadores. Tiravam 110 toneladas por período de colheita. Outro dos sócios era José Narciso Filho, 66, desde menino conhecido como Lu Narciso (foto). “Cheguei a fazer cinco festas da uva. Até governador baixou aqui de helicóptero, veio ver nosso projeto”, relembra. O chão é fértil. Não era lugar de água farta, mas dois poços resguardavam o plantio. Onde eles moram é próximo da parede da barragem Porcos, construída no novo itinerário do São Francisco. Foi a chuva muito grande, em 1995, que estragou os parreirais. Uma safra bancava custos da safra seguinte. Mas o chuvoeiro fez a uva perder sabor. Eles perderam tudo. “Ainda temos a dívida daquela época”, diz Lu Narciso. Ele acredita que o rio pode inspirar e aguar novas perspectivas. “Ah, eu penso em plantar de novo, sim. Se ajudarem a gente, e com essa água aí, pode ser”. Mais cético, Henrique prefere esperar primeiro pelo rio.
Chico de Sinésio

 

Fala-se de tudo na Caldeira do Inferno. O bar é o mais antigo de Brejo Santo. Patrimônio local. Existe desde 1960 – antes era bodega, chamada Ponto Chique. O nome atual veio só a partir de 1970. “Foi ideia dos próprios clientes. Caldeira é justamente por se comentar todos os fatos acontecidos na cidade”. Entre goles, a transposição também entra nas conversas. A explicação, simples e precisa, sai do proprietário do bar, Francisco Gomes Feijó, 74. Ele é Francisco feito o rio que se aproxima, mas no Brejo só o conhecem como Chico de Sinésio. O pai era o Sinésio, dono de antiga barbearia que funcionou onde hoje está o bar. Seu Chico é simpatia toda hora, um detalhista de qualquer história dos frequentadores de seu balcão.E tem de monsenhor a mendigo. Serve cerveja, água, pinga, cigarro, mais boleros e músicas saudosas. Espalha o som pela praça gentilmente, sem nunca incomodar. A parede da Caldeira é ornada de presentes doados por muitas amizades. “ Essa transposição vai ser muito boa para o Brejo. Tá todo mundo só esperando esse momento de a água chegar. Que venha. Mesmo com essas enroladas todas, a obra tá andando”, diz. E estica o bigode branco noutro sorriso.

Dedé de Leopoldo

José Leopoldo Leite, 61, é Dedé de Leopoldo, figura popular em Mauriti (CE) e por cidades do roteiro de vaquejadas. No Nordeste, principalmente. Ganhou 36 carros, tem mais de 600 troféus conquistados. Fez história. Abraçou seu primeiro prêmio aos 14 anos, havia começado aos 12. Os torneios para derrubar boi, laçar, montar bichos brabos, são tradição no Cariri Sul. No sítio Quixabinha, onde moraram o avô e o pai, ainda mantém suas crias no curral. As projeto”, relembra. O chão é fértil. Não era lugar de água farta, mas dois poços resguardavam o plantio. Onde eles moram é próximo da parede da barragem Porcos, construída no novo itinerário do São Francisco. Foi a chuva muito grande, em 1995, que estragou os parreirais. Uma safra bancava custos da safra seguinte. Mas o chuvoeiro fez a uva perder sabor. Eles perderam tudo. “Ainda temos a dívida daquela época”, diz Lu Narciso. Ele acredita que o rio pode inspirar e aguar novas perspectivas. “Ah, eu penso em plantar de novo, sim. Se ajudarem a gente, e com essa água aí, pode ser”. Mais cético, Henrique prefere esperar primeiro pelo pelo rio terras, que se estendem por cerca de 50 hectares, serão atravessadas pelo São Francisco. A fazenda teve um trecho desapropriado para ser cortada por canais e aquedutos que trarão o rio. A casa da propriedade foi erguida 116 anos atrás. Dedé lamenta ao contar que ela também precisou se desocupada – conseguiu que não a demolissem. O canal passa por quase um quilômetro dentro das terras. O pai dele, Leopoldo Leite de Araújo Lima, morreu em agosto de 2015, aos 96 anos. Um ano antes teve que se mudar para a cidade. “Meu pai sentiu porque teve que sair. Vinha todo dia rever o sítio”. Dedé diz que o lençol freático que encharcava o chão do seu bananal foi embarreirado pelo canal. Mas não lamenta tanto. O São Francisco veio para dentro do Quixabinha.

  • Açude Castanhão. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Brejo Santo. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Cabrobo. Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Cabrobo. Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Açude Castanhão (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Especial: À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Jati (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Mauriti (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Mauriti (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Penaforte. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
  • Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)
    Município de Salgueiro. À espera de Francisco (Fotos: Fábio Lima/ O POVO)

Economia movida pela transposição

Desses dias incertos da República, a uma semana de trocar nomes e talvez prioridades na Presidência, já se vislumbram medidas para conter respingos a projetos como o da transposição do São Francisco e do Cinturão das Águas do Ceará (CAC). Um depende do outro: o Cinturão só avança e poderá ser útil se o canal da transposição chegar. Ambos só terão andamento com a garantia federal.

Pelo desenho financeiro operacional, é o Estado que executa a obra, dá sua contrapartida de recursos, mas com a União assegurando a maior parte da verba. O Ceará tenta se antecipar a um possível revés, em relação ao que lhe cabe no Cinturão das Águas. O secretário estadual dos Recursos Hídricos, Francisco Teixeira, disse ao O POVO que está em negociação com o governo federal para a readequação do projeto.

O Cinturão está orçada em cerca de R$ 1,6 bilhão na primeira etapa – que se estende por 146 km de canais de Jati a Nova Olinda. Prevê-se que de lá a água do São Francisco siga pelo rio Cariús, chegue ao açude Orós e se emende no rio Jaguaribe até o Castanhão – descendo até Fortaleza e o porto do Pecém.

“Estamos trabalhando nos primeiros 40 km”, informa Teixeira. As águas do São Francisco só correrão pelas 12 bacias hidrográficas cearenses se o Cinturão for viabilizado. Estima-se que o projeto total do CAC, numa extensão final de canais de 1.300 km em cinco etapas, seja executado durante pelo menos uma década. Isso a prazos de hoje.

A transposição, pelo volume de recursos direcionados (mais de R$ 8,2 bilhões), não fugiu aos olhos da corrupção. Também esteve sob investigação da Polícia Federal. No fim de 2015, a operação Vidas Secas apontou um esquema de desvios de mais de R$ 200 milhões cometidos por empreiteiras – que já estavam citadas na operação Lava Jato. Das outras coisas que valem a pena celebrar da obra em si, uma das importantes é a economia movimentada no entorno das cidades onde os canteiros foram instalados. Em Salgueiro (PE), dos 36 apartamentos do hotel Mustang, 24 estão locados desde 2012 para operários da obra. Na pousada Talismã (18 apartamentos) no Sertão Hotel (20), na Pousada Imperador (10), todos os quartos estão há pelo menos três anos à disposição de funcionários das empreiteiras, segundo o gerente Vandel Vo, do Hotel Polo. “Foi assim na cidade toda. A obra tá terminando agora caiu um pouco, mas aqui sempre lotou”.

“Apesar de estarmos numa crise, é importante dizer que o canal do São Francisco
traz um momento muito bom. Brejo Santo vive uma efervescência econômica nesse período das obras. Muito dinheiro novo circulando aqui”, reforça Valmir Lucena, 74, expresidente da Câmara Municipal, atualmente no sexto mandato de vereador.

Lucena lembra de quando ainda estavam sendo colhidas as primeiras assinaturas para o projeto, no final dos anos 1990, e a dimensão que a obra tomou. “Você vê pela grandiosidade daquele túnel em Mauriti. Estive lá”, referindo ao Cuncás I, um dos quatro túneis ao longo da transposição. Com 15 km, é o maior túnel hidráulico da América Latina. Abençoado pelo encontro do São Francisco com outros santos da região: começa no distrito de São Miguel, em Mauriti (CE), atravessa por baixo a serra do Espírito Santo e, do outro lado, sai em São José de Piranhas, na Paraíba.

Prioridade e Investimento

Os usos e a gestão das águas da transposição do Rio São Francisco em nível estadual seguem indefinidos. Diante da estiagem de cinco anos consecutivos que assola o Ceará, a prioridade da outorga será para consumo humano e animal. No entanto, a agroindústria e agricultura familiar também serão beneficiadas. “A indústria busca alternativas, poços profundos. Há toda uma estrutura hídrica e com o abastecimento humano e animal isso pode melhorar”, avalia Bessa Júnior, presidente do Conselho Temático de Cadeias Produtivas e Agronegócios da Federação das Indústrias do Ceará (Fiec).

Segundo ele, a preocupação do setor é com a agricultura familiar e o agronegócio em potencial. “São importantíssimos para o setor e estão sofrendo racionamento e a falta da maior capacidade de a água chegar a esses locais”, afirma.
Em meio à secura, comunidades localizadas às margens da obra veem a água passar e não podem utilizá-la.

Em apresentação das obras à comitiva formada por deputados estaduais do Ceará em abril deste ano, o coordenador geral do projeto de integração do rio São Francisco, Frederico Meira, demonstrou preocupação ao falar de casos de rompimento do canal em Pernambuco.

Ele reforçou a necessidade de segurança nos locais e afirmou que existem propostas de distribuição e utilização de águas individuas, mas é necessário que o Conselho Gestor da Transposição avalie caso a caso. O presidente da Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos do Ceará (Cogerh), João Lúcio Faria, afirmou que a chegada de águas da transposição para o abastecimento humano irá permitir que os reservatórios sejam utilizados para o incremento das atividades econômicas. Ele não definiu, no entanto, modelo de cobranças e nem administração em nível estadual. (Eduarda Talicy – eduardatalicy@opovo.com.br )

A obra é irreversível

Secretário de Recursos Hídricos do Ceará, Francisco Teixeira lembra de debates técnicos de meados dos anos 2000, quando se definia qual volume de água deveria ser redirecionado do São Francisco para cada Estado receptor. Àquela época o Nordeste estava chuvoso, o rio não parecia urgente. Conta que o Ceará era visto como um Estado “com muita água” em 2004. Argumentava que a seca sempre voltava.

Teixeira foi secretário nacional de Infraestrutura Hídrica, entre 2012 e 2013, e ministro da Integração Nacional entre 2013 e 2014. Lidou com os momentos iniciais da obra diretamente. O cenário de estiagem voltou e ficou. “Nossa dependência do rio poderá ser maior”.
Ele não quer contar com a água antes de ela chegar. Acha que o impeachment da presidente Dilma pode atrapalhar a obra. Teixeira não desconsidera que o Cinturão das Águas do Ceará – 27% executado – possa ser afetado por corte de recursos federais. Teme que isso aconteça. É o Cinturão que permitirá a distribuição da água do São Francisco pelo Ceará. (Cláudio Ribeiro)

O POVO – Qual é hoje a necessidade do Ceará em relação à água que virá do São Francisco?
Francisco Teixeira – A oferta hídrica tem grande sazonalidade, variação temporal muito grande. Se a gente pegar desde o início dos anos 90, quando se vem fazendo o gerenciamento da água, controlando estoque dos reservatórios, percebemos uma década difícil. Os dois maiores reservatórios da bacia do Jaguaribe, Banabuiú e Orós, quase esvaziaram em menos de dez anos. Nos anos 90, se você traçar uma linha média no nível dos reservatórios, encontrará durante mais de uma década os reservatórios variando entre 20% e 30%, na média.

OP – O senhor fala só de Orós e Banabuiú?
Teixeira – Tô falando deles (Orós e Banabuiú) com o sistema metropolitano (açudes Pacoti, Riachão, Gavião e Pacajus), que representam os maiores centros de demanda do Estado. Aí, quando chega o auge da discussão do São Francisco, naquele período chuvoso de 2004, os reservatórios apresentam uma inflexão, uma linha vertical, sobem e praticamente enchem. Chegam a quase 100%, até com o Castanhão nisso. Naquele momento se começou a discussão do projeto São Francisco. O pessoal de fora, que olhava nossa capacidade de reservação e o estoque que tínhamos, dizia “o Ceará tá com muita água”. A gente tinha que voltar ao passado pra mostrar os dois pontos da década anterior, onde o Ceará praticamente ficou sem água para grandes usos. No fim da chuva de 2011 estávamos com mais de 80% de reserva. Começamos 2012 com mais de 60%, sem recarga. No começo de 2013 eram 40%, no começo de 2014 eram 32%, o ano passado estávamos em janeiro com 20 e poucos por cento. E agora estamos com 13%. Aí você percebe como essa realidade é muito variável. O que é de novo que aparece? É que naquela época, quando se discutia o projeto do São Francisco, todo mundo sabia que, se olhando num horizonte mais a longo prazo, a necessidade das águas do rio era premente.

A obra do São Francisco chegou num ponto irreversível, e já há muito tempo

Francisco TexeiraSecretário de Recursos Hídricos do Ceará

OP – A obra parou em 2011.
Teixeira – Ela parou em 2011, retomou em 2012. Mas graças a Deus que não se mudou o porte da estrutura, a capacidade dos canais, das estações. Fez-se etapas de instalação de bombas, montagem de adutoras e células de aquedutos. O canal em terra, que é o grosso da obra, foi feito na dimensão pensada no final dos anos 90, início de 2000, que era de 99 m³/s no Eixo Norte e 28 m³/s no Eixo Leste. Porque já se imaginava naquela época que, na questão de água, o cenário de conforto poderia virar de déficit, se não houvesse planejamento. Defendo a tese de que, concluída essa etapa agora, se iria para uma fase imediata de instalar mais duas bombas em cada estação de bombeamento de cada canal. Ficar o Eixo Leste com a capacidade total de 28 m³/s e o Norte, pelo menos com 50 m³/s. Só precisaria comprar mais duas bombas para cada estação, instalar uma adutora a mais, o canal em terra construído e o aqueduto comportam 50 m³/s.

OP – O senhor defende a duplicação por que a necessidade é essa?
Teixeira – Defendo porque esta seca demonstrou uma realidade que a dependência nossa do rio São Francisco poderá ser bem maior do que pensávamos lá atrás. Chegou muito mais rápida até do que pensávamos antes, quando houve a discussão política, o debate técnico. Se tinha muito a discussão sobre a necessidade ou não do projeto. Hoje se discute que o projeto já deveria estar pronto, que tem que ser acelerado, e se discute a flexibilidade da outorga para trazer, de forma contínua, uma vazão até maior do que a estabelecida lá atrás.

OP – Qual é a previsão de chegada dessa água?
Teixeira – Se a água tivesse chegado, já estaria tendo serventia. Essa é uma obra muito complexa e por isso tem suas incertezas também. Na construção de canais, obras civis, túneis, linhas de transmissão, você se depara com problemas que o projeto às vezes não consegue detectar, é normal. Do ano passado pra cá, o pessoal preconizou uma data de julho. Sempre achei uma data mais factível, de setembro, outubro em diante. Mesmo assim aparecem coisas.

OP – Mas o Ceará trabalha com outubro?
Teixeira – É, mas nosso grupo de contingência, que acompanha a questão da seca, não trabalha com a certeza absoluta de que a água vai chegar este ano. Não estamos contando no nosso balanço hídrico com essa água para este ano, para nos salvar de qualquer situação que seja, de garantir água para Fortaleza, outras cidades. Chegando a água do São Francisco, é um adendo, um incremento. Não é que não acreditamos no São Francisco, mas por precaução a gente tem que pensar no cenário mais crítico. Inclusive o São Francisco não chegando.

OP – Para quando está previsto o Orós ser acionado para reforçar o abastecimento de Fortaleza?
Teixeira – Não tenho condições de dar essa resposta agora. Estamos atualizando nossas simulações. Tivemos aí um cenário nada diferente do que a Funceme preconizava. Eu, particularmente, esperava pior do que está acontecendo, principalmente no Interior. Algumas recargas de chuva no Interior nos permitiram um cenário melhor para o segundo semestre. Tínhamos de 50 a 60 cidades que poderiam entrar em colapso no ano passado, não entraram porque construímos mais de 1.200 poços, 200 km de adutora de montagem rápida, além de 600 que já haviam sido feitos. Com essa infraestrutura e chuvas que beneficiaram algumas localidades, acredito que vamos atravessar o segundo semestre no Interior melhor que no ano passado. Mas a situação do Vale do Jaguaribe e Região Metropolitana de Fortaleza vai exigir muito mais atenção e maior restrição ao uso do que no ano passado.

OP – Em quanto está a vazão do Orós e do Castanhão?
Teixeira – O Castanhão hoje está liberando 9 m³/s para o Eixão das Águas. Desses 9 m³/s, está chegando para Fortaleza de 7 a 7,5 m³/s. O resto fica para atender comunidades pelo caminho e um pouco para irrigação. E pelo rio estamos liberando em torno de 5 m³/s hoje. Mas chegamos a liberar zero, em alguns dias, e 2,5 m³/s. Quando o rio apresenta alguma água por causa da chuva, a gente vai lá e fecha. Do Orós, a vazão hoje liberada, em torno de 4 m³/s.

OP
 – O Orós vai mesmo precisar abastecer Fortaleza?
Teixeira – Um dos cenários nossos é que em abril ou maio a gente poderia liberar o Orós para dentro do Castanhão. Vamos ver se será em maio ou junho, com as simulações que estamos fazendo. Para ver, com o que temos hoje (de água), até quando podemos ir. Se ficar o tempo assim e não chover mais, vamos ainda no primeiro semestre acionar o Orós para dentro do Castanhão.

OP – A obra do Cinturão das Águas está em quantos por cento?
Teixeira – Está com algo em torno de 27%. Estamos trabalhando só um lote. São 146 km (primeiro trecho), estamos trabalhando os primeiros 40 km. Vamos ver aí como fica nesse novo cenário político.

OP – A partir da possibilidade do impeachment, qual o seu temor em relação à transposição?
Teixeira – Acho que a obra do São Francisco chegou num ponto que é irreversível, já é há muito tempo. Eu diria que a conclusão dela é irreversível. Precisaria haver um comportamento político totalmente insano para mandar parar uma obra dessas. Não é possível que essas lideranças que aprovaram o impeachment, e ele se concretizando no Senado, não vão ter a responsabilidade de forçar o possível novo governo a concluir o mais rápido possível a obra.

OP – O senhor está preocupado com as obras do Cinturão das Águas do Ceará (CAC)?
Teixeira – Eu tenho mais preocupação com o CAC porque é uma obra delegada, é obra do Governo Federal, do Ministério da Integração. O São Francisco, o Ministério é que conduz. Ao contrário das outras obras do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), que são delegadas. E, num cenário de restrição econômica que vivemos e imagino que será maior, aí na hora dos cortes não sei como vai ser. O CAC é uma obra associada ao projeto de integração do São Francisco, vai dar maior capilaridade à água do São Francisco no Interior do Estado. É importante em função disso, mas na hora dos cortes de recursos que um possível novo governo venha fazer, eu tenho medo.

OP – Como está sendo o repasse de recursos para o Cinturão das Águas?
Teixeira – A gente vinha recebendo cerca de R$ 10 milhões por mês. Só no ano passado, mesmo com toda dificuldade, investimos no Cinturão R$ 200 milhões. Foram R$ 140 milhões da União e R$ 60 milhões do Estado. Este ano nós temos R$ 150 milhões de previsão, já vieram quase R$ 40 milhões de verba federal. Viria até mais que no ano passado. É emenda de bancada, aprovada, já está desbloqueada. E o Estado tem uma previsão de botar mais R$ 60 milhões. A gente pretende que não haja percalço.

Água dos velhos sertões

A pequena barragem Arapuá-Angicos, no Rio Grande do Norte, capaz de armazenar pouco mais de 4 milhões de m³, é de 1920. É a mais antiga de todo o trajeto a ser percorrido pelo novo rio do sertão setentrional. Em seu itinerário redesenhado pela engenharia do século XXI, São Francisco também encontrará caminhos d’água do passado. O açude Lima Campos, em Icó, no Ceará, foi feito de abril a dezembro de 1932. Havia flagelo, fome, doenças, campos de concentração, mais uma seca molestando bicho e gente. O Estado pelejava por água.
Na Paraíba, o reservatório São Gonçalo tem quase a mesma idade do Lima Campos, é de 1936. A estiagem era igualmente cruel, a mesma região do Polígono das Secas. Em Pernambuco, o açude Curema foi concluído em 1942, quando o atual Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), gestor das águas da República, ainda era chamado de Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.

São paredes de concreto ou areia que barram águas há tempos. Esses quatro e mais 17 açudes serão recuperados, reforçados, adaptados à presença do São Francisco. O rio encherá esses velhos sertões com água nova e a reforma será necessária. O projeto de adequação dos antigos reservatórios está incluído na obra da transposição. Custará mais de R$ 318,7 milhões, entre o levantamento técnico, iniciado três anos atrás, e a execução dos trabalhos. Previsão que se estendam por pelo menos um ano e meio, no mínimo.

O Castanhão, no Ceará, o maior dos açudes do Nordeste, com 6,7 bilhões de m³ de volume possível – hoje com apenas 9% de água -, está na lista. Apesar de ser um açude recente, inaugurado apenas 13 anos atrás, também precisará das adaptações. A reforma do Castanhão está orçada em cerca de R$ 21 milhões e é a que deve durar mais tempo individualmente: 18 meses. Principal garantia de abastecimento de Fortaleza, a barragem foi incluída como prioridade imediata para receber as alterações.

Dos 21 açudes para reforma, 18 são do Dnocs. Os outros três da relação são estaduais: Acauã, na Paraíba; Santa Cruz, no Rio Grande do Norte; e Chapéu, em Pernambuco. José Berlan Cabral, coordenador de estudos e projetos do Dnocs, confirma que três reservatórios da Paraíba estão prontos para lançarem editais de licitação: São Gonçalo, Poções e Boqueirão.
O serviço por fazer não será pouco. Segundo Berlan, haverá recuperação e reforço na parede de algumas barragens, instalação e regulagem de equipamentos hidromecânicos, novos sensores para medir volume e vibração na estrutura, instrumentos de automação, iluminação de galerias. O levantamento de necessidades foi individualizado por açude. O período seco é o ideal para iniciar os trabalhos.

O que for instalado será conectado a centrais de controle, operadas pela Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco (Codevasf). Os novos equipamentos indicarão, por exemplo, a vazão exata despejada pelo São Francisco. Para estar dentro da outorga estabelecida pela Agência Nacional de Águas (ANA), que é de 26 mil litros por segundo.
Outros cinco reservatórios do Ceará, além do Castanhão, em Jaguaribara, serão atualizados: o Lima Campos, em Icó; o Quixabinha, em Mauriti; o Orós, o Banabuiú, e o Prazeres, em Barro. Só nas barragens cearenses serão investidos R$ 106.466.905,46. O dinheiro será repassado pelo Ministério da Integração Nacional. Os açudes pertencentes aos estados serão reformados com verbas locais. (Cláudio Ribeiro)

 

Armed guards at India’s dams as drought grips country (The Guardian)

Government says 330 million people are suffering from water shortages after monsoons fail

An armed guard at a reservoir in Tikamgarh in the central Indian state of Madhya Pradesh.

An armed guard at a reservoir in Tikamgarh in the central Indian state of Madhya Pradesh. Photograph: Money Sharma/AFP/Getty Images

Agence France-Presse

Monday 2 May 2016 Last modified on Monday 2 May 2016 

As young boys plunge into a murky dam to escape the blistering afternoon sun, armed guards stand vigil at one of the few remaining water bodies in a state hit hard by India’s crippling drought.

Desperate farmers from a neighbouring state regularly attempt to steal water from the Barighat dam, forcing authorities in central Madhya Pradesh to protect it with armed guards to ensure supplies.

India is officially in the grip of its worst water crisis in years, with the government saying that about 330 million people, or a quarter of the population, are suffering from drought after the last two monsoons failed.

“Water is more precious than gold in this area,” Purshotam Sirohi, who was hired by the local municipality to protect the dam, in Tikamgarh district, told AFP.

“We are protecting the dam round the clock.”

An Indian villager walks between rocks as he crosses a depleted reservoir in Tikamgarh in the central Indian state of Madhya Pradesh.

An Indian villager walks between rocks as he crosses a depleted reservoir in Tikamgarh in the central Indian state of Madhya Pradesh. Photograph: Money Sharma/AFP/Getty Images

But the security measures cannot stop the drought from ravaging the dam, with officials saying it holds just one month of reserves.

Four reservoirs in Madhya Pradesh have already dried up, leaving more than a million people with inadequate water and forcing authorities to bring in supplies using trucks.

Almost a 100,000 residents in Tikamgarh get piped water for just two hours every fourth day, while municipal authorities have ordered new bore wells to be dug to meet demand.

But it may not be enough, with officials saying the groundwater level has receded more than 100 feet (30 metres) owing to less than half the average annual rainfall in the past few years.

“The situation is really critical, but we are trying to provide water to everyone,” Laxmi Giri Goswami, chairwoman of Tikamgarh municipality, told AFP.

“We pray to rain gods for mercy,” she said.

A man stands on a parched lake bed as he removes dead fish and rescues the surviving ones in Ahmadabad, India.

A man stands on a parched lake bed as he removes dead fish and rescues the surviving ones in Ahmadabad, India. Photograph: Ajit Solanki/AP

In the nearby village of Dargai Khurd, only one of 17 wells has water.

With temperatures hovering around 45C, its 850 residents fear they may soon be left thirsty.

“If it dries up, we won’t have a drop of water to drink,” said Santosh Kumar, a local villager.

Farmers across India rely on the monsoon – a four-month rainy season which starts in June – to cultivate their crops, as the country lacks a robust irrigation system.

Two weak monsoons have resulted in severe water shortages and crop losses in as many as 10 states, prompting extreme measures including curfews near water sources and water trains sent to the worst-affected regions.

Many farmers are now moving to cities and towns to work as labourers to support their families.

At a scruffy, makeshift camp in north Mumbai, in one of the worst-affected states, dozens of migrants who have fled their drought-stricken villages queue to fill plastic containers with water.

Pots are lined up to be filled with drinking water at a slum in Mumbai.

Pots are lined up to be filled with drinking water at a slum in Mumbai. Photograph: Rajanish Kakade/AP

Migrants from rural areas usually come to the city in January or February to get jobs on construction sites, but people were still arriving in March and April.

“There are some 300-350 families here. That’s a total of more than 1,000 people,” said Sudhir Rane, a volunteer running the camp in Mumbai’s Ghatkopar suburb. “There is a drought and there is no water back home so more families have come here this year.”

Families are allocated a small space in the dusty wasteland, where rickety tented homes are made from wooden posts and tarpaulin sheets.

“We had no choice but to come here. There was no water, no grain, no work. There was nothing to eat and drink. What could we do?” said 70-year-old Manubai Patole. “We starved for five days. At least here we are getting food.”

Weather forecasters in New Delhi this month predicted an above-average monsoon, offering a ray of hope for the country’s millions of farmers and their families.

But many, like Gassiram Meharwal from Bangaye village in Madhya Pradesh, are not optimistic as they struggle to cultivate their crops.

Meharwal’s two-acre farm has suffered three wheat crop failures in as many years, costing him an estimated 100,000 rupees ($1,500 or £1,000).

“Our fields are doomed, they have almost turned into concrete,” he said.

Thousands of acres of land in his village go uncultivated and fears are mounting for the cattle, which face a shortage of fodder.

Desperate for income, 32-year-old Meharwal, who supports eight members of his family including his children and younger brothers, left to work as a labourer in the city of Gwalior, four hours away.

“There is no guarantee that it will rain this year. Predictions are fine but no one comes to your help when the crops fail,” he said.

“It is better to use your energy breaking stones.”

Drought and rising temperatures ‘leaves 36m people across Africa facing hunger’ (The Guardian)

Unusually strong El Niño, coupled with record-high temperatures, has had a catastrophic effect on crops and rainfall across southern and eastern Africa

A maize plant among other dried maize in a field

A maize plant among other dried maize in a field in Hoopstad in the Free State province, South Africa. The country suffered its driest year on record in 2015. Photograph: Siphiwe Sibeko/Reuters 

The immediate cause of the drought which has crippled countries from Ethiopia to Zimbabwe is one of the strongest El Niño events ever recorded. It has turned normal weather patterns upside down around the globe, climate scientists say. 

But with the world still reeling from record-high temperatures in February, there are fears that the long-term impacts of climate change are also undermining the region’s ability to endure extremes in weather, leaving huge numbers of people vulnerable to hunger and disease.

The worst hit country in the current crisis is Ethiopia, where rains vital to four-fifths of the country’s crops have failed. Unicef has said it is making plans to treat more than 2 million children for malnutrition, and says more than 10 million people will need food aid.

“Ethiopia has been hit by a double blow, both from a change to the rainy seasons that have been linked to long-term climate change and now from El Niño, which has potentially led the country to one of the worst droughts in decades,” said Gillian Mellsop, Unicef representative to Ethiopia.

The crisis has been damaging even to Ethiopians not at immediate risk of going hungry. It has truncated the education of 3.9 million children and teenagers, who “are unable to access quality education opportunities because of the drought”, she said.

An boy walks through failed crops and farmland in Ethiopia.

An boy walks through failed crops and farmland in Afar, Ethiopia. Four-fifths of crops in the country have failed. Photograph: Mulugeta Ayene/AP

Neighbouring countries grappling with hunger after crops failed include Somalia, Sudan and Kenya, and altogether the failed rains have left more than 20 million people “food insecure” in the region.

The drought caught many officials by surprise, because although El Niño was forecast, the weather event normally brings more rain to the region, not less.

“The typical pattern that you would expect with El Niño is very dry weather in southern Africa, but slightly wetter than normal in eastern Africa,” said Dr Linda Hirons, a research scientist at the National Centre for Atmospheric Science.

“So the fact that we have had parts of eastern Africa experiencing drought is unusual … but every single El Niño event manifests itself differently.”

In southern Africa, the drought caused by El Niño was expected, but it has been even more severe than feared, with rains failing two years in a row.

Overall nearly 16 million people in southern Africa are already going hungry, and that number could rise fast. “More than 40 million rural and 9 million poor urban people are at risk due to the impacts of El Niño’s related drought and erratic rainfall,” the World Food Programme has warned.

Zimbabwe, once the region’s bread basket, is one of the worst hit countries. In February, the country’s president Robert Mugabe declared a state of disaster due to the drought, and in less than a month official estimates of people needing food aid has risen from 3 million to 4 million.

Neighbouring countries are also scrambling to find food aid, including South Africa, whose ports are the main entry point for relief across the region.

“We are seeing this as a regional crisis, a cross-country humanitarian crisis,” said Victor Chinyama. “In each country maybe the numbers [of hungry people] are nowhere near as much as Ethiopia, but if you put these numbers together as a whole region, you get a sense of how large a crisis this is.”

More than a third of households are now going hungry, he said. Families that used to eat two meals a day are cutting back to one, and those who could once provide a single meal for their dependents are now entirely reliant on food aid, he said.

Beyond the immediate scramble to get food to those who need it, aid workers in the region say the drought has served as reminder that communities vulnerable to changing weather patterns need longer-term help adapting.

“It’s becoming common knowledge now that we will experience droughts much more,” said Beatrice Mwangi, resilience and livelihoods director, southern Africa region, World Vision, who said she is focused on medium- and long-term responses.

“In the past it was one big drought every 10 years, then it came to one drought every five years, and now the trends are showing that it will be one every three to five years. So we are in a crisis alright, that is true.

“But it’s going to be the new norm. So our responses need to appreciate that … there is climate change, and it’s going to affect the people that we work with, the communities we serve.”

This article was amended on 17 March 2016 to remove a picture because it was an inaccurate illustration of the theme of the article and contained ambiguities in the caption.


El Niño is causing global food crisis, UN warns (The Guardian)

Severe droughts and floods have ruined harvests, and left nearly 100 million people in southern Africa, Asia and Latin America facing food and water shortages

A farmer surveys her maize fields in Dowa near the Malawi capital of Lilongwe, 3 February 2016.

A farmer surveys her maize fields in Dowa, near the Malawi capital of Lilongwe, earlier this month. The country is experiencing its first maize shortage in a decade, causing prices to soar. Photograph: Mike Hutchings/Reuters

Wednesday 17 February 2016 00.01 GMT / Last modified on Wednesday 17 February 2016 14.48 GMT

Severe droughts and floods triggered by one of the strongest El Niño weather events ever recorded have left nearly 100 million people in southern Africa, Asia and Latin America facing food and water shortages and vulnerable to diseases including Zika, UN bodies, international aid agencies and governments have said.

New figures from the UN’s World Food Programme say 40 million people in rural areas and 9 million in urban centres who live in the drought-affected parts of Zimbabwe, Mozambique, South Africa, Zambia, Malawi and Swaziland will need food assistance in the next year.

In addition, 10 million people are said by the UN’s Office for the Coordination of Humanitarian Affairs (Ocha) to need food in Ethiopia (pdf), and 2.8 million need assistance in Guatemala and Honduras.

Millions more people in Asia and the Pacific regions have already been affected by heatwaves, water shortages and forest fires since El Niño conditions started in mid-2015, says Ocha in a new briefing paper, which forecasts that harvests will continue to be affected worldwide throughout 2016.

“Almost 1 million children are in need of treatment for severe acute malnutrition in eastern and southern Africa. Two years of erratic rain and drought have combined with one of the most powerful El Niño events in 50 years to wreak havoc on the lives of the most vulnerable children,” said Leila Gharagozloo-Pakkala, southern Africa regional director of the UN children’s agency, Unicef.

“Governments are responding with available resources, but this is an unprecedented situation. The situation is aggravated by rising food prices, forcing families to implement drastic coping mechanisms such as skipping meals and selling off assets.”

In a joint statement, the UN’s Food and Agriculture Organisation (FAO) and the Famine Early Warning Systems Network said: “El Niño will have a devastating effect on southern Africa’s harvests and food security in 2016. The current rainfall season has so far been the driest in the last 35 years.”

Britain’s Department for International Development (DfID) said in a briefing paper: “Even if it were to start raining today, the planting window for cereals has already closed in the southern part of the region [Africa] and is fast closing elsewhere. There has been a steep rise in market prices of imported staple goods. This is restricting access to food for the most vulnerable.”

According to the World Health Organisation, the heavy rains expected from El Niño in Peru, Ecuador, Paraguay and southern Brazil could increase the spread of the Zika virus. “The Aedes aegypti mosquito breeds in standing water. We could expect more mosquito vectors which can spread Zika virus because of expanding and favourable breeding sites [in El Niño-affected countries],” the organisation said.

El Niño conditions, which stem from a natural warming of Pacific Ocean waters, lead to droughts, floods and more frequent cyclones across the world every few years. This year’s event is said by meteorologists to be the worst in 35 years and is now peaking. Although it is expected to decline in strength over the next six months, its effects on farming, health and livelihoods in developing countries could last two years or more because of failed harvests and prolonged flooding.

“Insufficient rains since March 2015 have resulted in drought conditions. In Central America, El Niño conditions have led to a second consecutive year of drought – one of the region’s most severe in history,” said an Ocha spokesman.

“Mozambique and southern African countries face a disaster if the rains do not come within a few weeks,” said Abdoulaye Balde, WFP country director in Maputo. “South Africa is 6m tonnes short of food this year. But it is the usual provider of food reserves in the region. If they have to import 6m tonnes for themselves, there will be little left for other countries. The price of food will rise dramatically.”

Zimbabwe, which declared a national emergency this month, has seen harvests devastated and food prices soar, according to the WFP in Harare. It reports that food production has halved compared to last year and maize is 53% more expensive. It expects to need nearly $1.6bn in aid to help pay for grain and other food after the drought.

Malawi is experiencing its first maize deficit in a decade, pushing the price 73% higher than the December 2015 average. In Mozambique, prices were 50% higher than last year. The country depends on food imports from South Africa and Zimbabwe, and faces a disaster if rains do not arrive in the next few weeks, said Balde.

Fears are also growing that international donors have been preoccupied by Syriaand the Ebola crisis, and have not responded to food aid requests from affected countries.

“El Niño began wreaking havoc last year. The government has done its best to tackle the resultant drought on its own, by tapping into the national food reserves and allocating more than $300m [£210m] to buy wheat in the international market,” said Ethiopian foreign minister Tedros Ghebreyesus.

“But the number of people in need of food assistance has risen very quickly, making it difficult for Ethiopia to cope alone. For the 10.2 million people in need of aid, requirements stood at $1.4bn. The Ethiopian government has so far spent $300m and a similar sum has been pledged by donors. The gap is about $800m,” he said.

According to the Famine Early Warning Systems Network, set up by the US international development agency, USAID, in 1985, continued below-average rainfall and high temperatures are likely to persist in southern African well into 2016, with the food crisis lasting into 2017.

The Water Data Drought (N.Y.Times)

Then there is water.

Water may be the most important item in our lives, our economy and our landscape about which we know the least. We not only don’t tabulate our water use every hour or every day, we don’t do it every month, or even every year.

The official analysis of water use in the United States is done every five years. It takes a tiny team of people four years to collect, tabulate and release the data. In November 2014, the United States Geological Survey issued its most current comprehensive analysis of United States water use — for the year 2010.

The 2010 report runs 64 pages of small type, reporting water use in each state by quality and quantity, by source, and by whether it’s used on farms, in factories or in homes.

It doesn’t take four years to get five years of data. All we get every five years is one year of data.

The data system is ridiculously primitive. It was an embarrassment even two decades ago. The vast gaps — we start out missing 80 percent of the picture — mean that from one side of the continent to the other, we’re making decisions blindly.

In just the past 27 months, there have been a string of high-profile water crises — poisoned water in Flint, Mich.; polluted water in Toledo, Ohio, and Charleston, W. Va.; the continued drying of the Colorado River basin — that have undermined confidence in our ability to manage water.

In the time it took to compile the 2010 report, Texas endured a four-year drought. California settled into what has become a five-year drought. The most authoritative water-use data from across the West couldn’t be less helpful: It’s from the year before the droughts began.

In the last year of the Obama presidency, the administration has decided to grab hold of this country’s water problems, water policy and water innovation. Next Tuesday, the White House is hosting a Water Summit, where it promises to unveil new ideas to galvanize the sleepy world of water.

The question White House officials are asking is simple: What could the federal government do that wouldn’t cost much but that would change how we think about water?

The best and simplest answer: Fix water data.

More than any other single step, modernizing water data would unleash an era of water innovation unlike anything in a century.

We have a brilliant model for what water data could be: the Energy Information Administration, which has every imaginable data point about energy use — solar, wind, biodiesel, the state of the heating oil market during the winter we’re living through right now — all available, free, to anyone. It’s not just authoritative, it’s indispensable. Congress created the agency in the wake of the 1970s energy crisis, when it became clear we didn’t have the information about energy use necessary to make good public policy.

That’s exactly the state of water — we’ve got crises percolating all over, but lack the data necessary to make smart policy decisions.

Congress and President Obama should pass updated legislation creating inside the United States Geological Survey a vigorous water data agency with the explicit charge to gather and quickly release water data of every kind — what utilities provide, what fracking companies and strawberry growers use, what comes from rivers and reservoirs, the state of aquifers.

Good information does three things.

First, it creates the demand for more good information. Once you know what you can know, you want to know more.

Second, good data changes behavior. The real-time miles-per-gallon gauges in our cars are a great example. Who doesn’t want to edge the M.P.G. number a little higher? Any company, community or family that starts measuring how much water it uses immediately sees ways to use less.

Finally, data ignites innovation. Who imagined that when most everyone started carrying a smartphone, we’d have instant, nationwide traffic data? The phones make the traffic data possible, and they also deliver it to us.

The truth is, we don’t have any idea what detailed water use data for the United States will reveal. But we can be certain it will create an era of water transformation. If we had monthly data on three big water users — power plants, farmers and water utilities — we’d instantly see which communities use water well, and which ones don’t.

We’d see whether tomato farmers in California or Florida do a better job. We’d have the information to make smart decisions about conservation, about innovation and about investing in new kinds of water systems.

Water’s biggest problem, in this country and around the world, is its invisibility. You don’t tackle problems that are out of sight. We need a new relationship with water, and that has to start with understanding it.

Os desastres em uma perspectiva antropológica (ComCiência)

No. 176 – 10/03/2016

Renzo Taddei

Um traço peculiar do imaginário brasileiro, ou pelo menos daquele mais presente nos principais centros de produção midiática (Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília), é a ideia de que “no Brasil não tem desastre”. Uma piada muito difundida no passado, e ainda presente na memória das pessoas e na internet, diz que, frente à indagação do anjo Gabriel sobre a razão pela qual Deus teria poupado o Brasil dos desastres naturais, quando da criação do mundo, este teria respondido que desastroso seria o povo que ele colocaria aí. Racismo ou “complexo de vira-latas” (Rodrigues, 1993) à parte, a ideia de um Brasil sem desastres é tomada aí como senso comum, como elemento de obviedade na elaboração da anedota (Taddei, 2014a).

Ocorre, no entanto, que os desastres são parte da relação entre humanos e o meio ambiente no Brasil desde pelo menos os primeiros anos de colonização. De acordo com o historiador Raimundo Girão, Pero Coelho de Souza, o primeiro português a tentar estabelecer-se no Ceará, em 1603, foi obrigado a retirar-se, poucos anos depois, em função da estiagem. Os registros históricos dizem que, na empreitada, perdeu sua fortuna e filhos seus morreram de fome e sede (Girão, 1985, p. 69). Esse não era o primeiro desastre do continente: acredita-se que as secas foram fator fundamental para o colapso do império Maia (Webster, 2002), na região do sul do México, cinco séculos antes de espanhóis e portugueses cruzarem o Atlântico. E também não seria o último em solo brasileiro, como bem sabemos.

Frente a esse panorama, uma contribuição possível das ciências sociais ao estudos dos desastres é a tentativa de responder à pergunta: o que constitui um desastre, e como tal forma de pensamento está embutida na realidade social e política brasileira?

O que é um desastre

Uma definição de desastre bastante utilizada nas ciências sociais é aquela que sugere que o desastre é um acontecimento que desorganiza a ordem social, cultural, econômica e política de uma coletividade, a ponto de que esta não é capaz de reorganizar-se de forma espontânea e autônoma (Blakie et al apud Briones, 2010). Ainda que essa forma de entender o desastre seja instrutiva, não é incomum que ela seja entendida como sugerindo que o desastre sempre vem “de fora”, da natureza, e é exógeno ao meio sociocultural. Essa abordagem reproduz a ideia de que trata-se de uma questão de domínio humano sobre a natureza; quando as coisas saem do controle, evidenciam-se os limites de tal domínio, e a natureza mostra sua força.

Para entendermos por que esta conceituação é limitada (e limitante), tomemos o exemplo das secas, sem dúvida o desastre mais comum e recorrente em território brasileiro: o que exatamente vem de fora para desorganizar as coisas? Vejamos: a caatinga, ecossistema dominante no chamado “polígono das secas” do Nordeste, é formada sobretudo por vegetação xerófila, aquela capaz de sobreviver em situação de escassez extrema de água. Se indagarmos nossos colegas botânicos e biólogos qual o tempo necessário para que os organismos se adaptem a um ecossistema, através dos processos de geração de novas espécies e seleção natural – o mesmo que supostamente gerou a vegetação xerófila da caatinga –, eles nos responderão que trata-se de um processo longo, de milhares de anos. Ou seja, a existência de vegetação xerófila na caatinga evidencia que os períodos longos de estiagem ocorrem aí há milênios. Nessa perspectiva, um período longo sem chuvas não é novidade alguma na região.

E qual a forma mais universalmente disseminada de convivência dos seres vivos com ecossistemas áridos e semiáridos? O nomadismo, a migração sazonal, em todas as suas variações possíveis. Animais e populações indígenas moviam-se no território de modo a tentar adaptar-se à periódica escassez de chuvas. Uma novidade trazida pelos portugueses, no entanto, o conceito de propriedade privada, mostrou-se incompatível com tais práticas adaptativas. O estabelecimento das fazendas e dos núcleos permanentes de povoamento expôs a população a uma rigidez espacial inconciliável com os fluxos e variações climáticas da região. Adicionalmente, a fartura dos anos de chuvas regulares fez com que a densidade demográfica aumentasse para muito além dos níveis pré-coloniais. O resultado disso tudo: quatro séculos de epidemias recorrentes de fome e sofrimento no sertão nordestino (Taddei, 2014b).

No exemplo acima, qual foi, exatamente, o elemento desastroso? A estiagem não é uma anomalia climática na região semiárida; foi a forma de domínio e uso da terra trazida pelos europeus que mostrou-se uma verdadeira anomalia sociopolítica. O caso das secas evidencia que necessitamos de uma outra forma de entender os desastres, que não separe radicalmente os meios social e natural. De maneira geral e simplificada, podemos propor como alternativa a ideia de que quando as coletividades têm conhecimento das variações e calendários dos ecossistemas locais e se organizam tomando-os em consideração, acumulam certa quantidade de recursos como reserva que os proteja de imprevistos, e escolhem práticas produtivas, sociais e políticas comprovadamente compatíveis com o ecossistema local, são capazes de atravessar períodos extremos, ou de sobreviver a eventos críticos, sem que a situação se configure como um desastre. Um desastre é, então, fruto das formas como ecossistema e grupos sociais relacionam-se entre si. Por isso, um desastre jamais está “na” natureza, e sim na relação que se tem com ela (Oliver-Smith, 1999). Um exemplo disso é a constatação, fruto de uma pesquisa por mim coordenada durante o ano de 2005 – ano em que houve secas de grande porte e praticamente ao mesmo tempo no Nordeste, na Amazônia e no Rio Grande do Sul –, de que os efeitos da estiagem motivaram manifestações populares e a invasão de prédios públicos em diversas cidades cearenses, enquanto a falta de chuva em intensidade equivalente sequer foi notada por moradores de cidades das serras gaúchas (ver Taddei e Gamboggi, 2010).

Essa forma de entender desastre tem duas vantagens: a primeira é que o desastre deixa de ser um evento isolado no tempo e no espaço, e passa a ser entendido como um processo que se desdobra ao longo do tempo (Valencio, 2009), e que, em geral, afeta coletividades humanas e animais em uma dimensão espacial muito maior do que o local específico do evento crítico. A segunda é que podemos facilmente retirar a natureza da equação e substituí-la por ambientes e processos técnicos, e temos aí uma forma interessante de pensar os desastres ditos “tecnológicos”. A realidade é que não há desastre que não tenha, concomitantemente, componentes ecossistêmicos e componentes tecnológicos e, em razão disso, a diferenciação entre desastres naturais e tecnológicos é apenas o destaque, para fins operacionais ou jurídicos, do fator preponderante em cada caso.

Voltemos por um minuto à definição proposta acima, de modo a exemplificá-la melhor. Recorrentemente, o que chamamos de seca, no que tange à produção agrícola, ocorre em situações em que a terra é arrendada, de modo que as relações comerciais de curto prazo fazem com que o conhecimento sobre as variações de longo prazo do ecossistema local se percam de vista; a necessidade de se atingir níveis de lucratividade compatíveis com os praticados no mercado financeiro faz com que frequentemente os recursos sejam investidos de forma intensiva, o que aumenta os riscos envolvidos e coloca o produtor em situação de vulnerabilidade a variações climáticas; e a seleção das culturas, quase sempre, está ligada aos preços do mercado, e raramente às condições específicas do ecossistema onde se dará a produção (grande parte da qual é destruída para ceder espaço às áreas agricultáveis). Ou seja, o que estou dizendo aqui é que o modelo de produção agrícola vigente na atualidade está fundado em uma forma de relação entre o ecossistema e a atividade humana altamente vulnerável a variações naturais, o que produz um contexto propício ao desastre. Não é à toa que, em um ano “bom”, cerca de um quarto dos municípios do país declaram situação de emergência. Em um ano ruim, esse número sobe para mais de um terço. O desastre está praticamente embutido nas formas de organização econômica e política brasileiras (Taddei e Gamboggi, 2010).

Nem todas as declarações de situação de emergência se dão em função de secas. No entanto, a coisa não é diferente com as inundações, os deslizamentos de terra, ou as ressacas que destroem infra-estrutura pública e privada nas zonas costeiras. Os fluxos de água têm ciclos que se repetem, muitos dos quais, por razões distintas, desconhecemos. O curso de um rio nunca pode ser determinado com exatidão; um rio “pulsa”, isto é, tem seu ciclo natural de retração e expansão. Esse ciclo é, em geral, anual, mas há outros ciclos na natureza que afetam os cursos de água e que são mais longos. O fenômeno El Niño é um deles: tende a ocorrer duas vezes por década, em geral diminuindo as chuvas na região Nordeste e as aumentando na parte Sudeste e Sul do Brasil. Há ainda ciclos mais longos: existem evidências de que alguns ecossistemas podem alternar séries de duas ou três décadas com menos chuva com outras consideravelmente mais chuvosas (Marengo et al, 1998). Grande parte desses ciclos não são conhecidos. Desta forma, um empreendimento no entorno de um rio pode, sem que as pessoas envolvidas se dêem conta, estar na verdade dentro do curso histórico do rio.

Um rio, por sua vez, não se resume à calha onde a água corre em grande volume. Esta é apenas o resultado da relação entre a água da chuva e determinada configuração topológica e geológica. A água infiltrada no solo, escoando lentamente para baixo e ao longo de uma camada de solo impermeável, até finalmente avolumar-se na região mais baixa (formando o rio propriamente dito), já é o rio em atividade. Em uma cidade, a ideia de que um rio foi “canalizado” envolve um equívoco conceitual diretamente ligado às inundações urbanas. Não se pode canalizar um rio, mas apenas sua calha principal. Quando isso é feito e o solo é impermeabilizado com concreto e asfalto, separa-se duas partes do rio, a que escoa pela topografia do terreno, e que obviamente continuará escoando, e a que escoa na calha do rio. A calha do rio é uma solução geológica para o escoamento de água; a separação entre o escoamento nos terrenos inclinados e a calha – ou a limitação da conexão entre ambas – é a construção das condições para a ocorrência dos desastres. A ideia de que o poder público tem que “resolver a questão das inundações urbanas” é fruto daquela mesma visão de “controle sobre a natureza” que criticamos no início deste texto. Uma solução mais apropriada para essa questão é considerar que o rio tem direito a estar na cidade, de forma íntegra e com toda sua variabilidade espacial, e que a cidade deve ser construída tomando isso em conta. Caso contrário, as cidades serão, como são, aparatos produtores de inundações. Ou seja, a inundação não é resultado da chuva, mas de uma certa relação entre a forma como os humanos transformam o espaço e o ciclo natural das águas.

Em resumo, o que quero dizer aqui é que, no mundo contemporâneo, somos frequentemente levados a agir pautados por agendas que não apenas se mostram incompatíveis com ciclos naturais dos ecossistemas, mas também afetam nossa capacidade de perceber detalhes dos mesmos que são importantes para a redução dos riscos de desastres. Desta forma, muitas de nossas formas de organização econômica, social e política têm que encontrar maneiras de lidar com a pouca eficácia, ou mesmo com a inconveniência, de nossas formas estabelecidas de ocupação do mundo. Por isso, desenvolvemos coisas como seguros financeiros, um complexo sistema de defesa civil em todos os níveis políticos, tecnologias de monitoramento e previsão de características importantes do meio ambiente, legislação específica, agências reguladoras, e muito mais. Temos também práticas sociais pautadas em relações de clientelismo, nas quais o detentor de poder político ou recursos econômicos oferece a determinada coletividade proteção contra os efeitos das variações dos ecossistemas (e contra coisas não relacionadas ao meio ambiente) em troca de apoio político; e a chamada “indústria das secas” (Callado, 1960), estratégias econômicas e sociais que geram riqueza para as elites locais a partir dos mecanismos federais de mitigação dos impactos das secas (Albuquerque Jr, 1999).

Particularmente no que diz respeito à nossa incapacidade de perceber as variações e ciclos dos ecossistemas, nossa base científica de monitoramento dos ecossistemas e da atmosfera começou a operar efetivamente apenas na década de 1960, o que fornece uma base bastante limitada de dados históricos. Neste contexto, é digno de nota o fato de que, em geral, são as populações tradicionais – indígenas, caboclos, ribeirinhos, caiçaras – que habitam os ecossistemas por muitas gerações que possuem tais conhecimentos (Taddei, 2015). Ocorre, no entanto, que a forma de codificação e transmissão de conhecimento de tais populações, através de transmissão oral e sobre uma base narrativa que faz amplo uso do que chamamos de folclore e pensamento mítico, é não apenas incompreensível para as populações urbanas, mas ativamente desvalorizada como superstição e atraso, frente aos poderes do conhecimento científico. São muito poucas, ao redor do mundo, as iniciativas de transformação de conhecimento tradicional em material que possa engajar-se de forma significativa com as discussões técnicas e científicas a respeito de como entender o meio ambiente e os desastres a eles relacionados. Um dos exemplos mais interessantes sobre esse respeito são os estudos dos manuscritos pré-hispânicos (os códices) maias e aztecas no que tange à forma como tais populações entendiam e lidavam com terremotos (ver Acosta e Suarez, 1996).

Riscos e desastres tecnológicos

Como mencionei acima, posso trocar “natureza” por “tecnologia” e a frase continua fazendo sentido: no mundo contemporâneo, somos frequentemente levados a agir no mundo pautados por agendas que não apenas se mostram incompatíveis com certas características dos sistemas técnicos em que atuamos, mas igualmente afetam nossa capacidade de perceber detalhes importantes dos mesmos (Taddei, 2014c). Na década de 1980, o sociólogo alemão Ulrich Beck (1992) propôs a teoria da sociedade do risco, na qual argumentou que as sociedades modernas, através da inovação tecnológica, criam riscos inéditos e que não somos capazes de mensurar. O sociólogo americano Charles Perrow, por sua vez, criou o conceito de acidentes normais (1999), nos quais sistemas complexos podem assumir configurações indesejáveis sob o ponto de vista humano, mas que são apenas configurações “normais”, isto é, possíveis, do sistema. Ou seja, quando projetamos sistemas complexos, como computadores, por exemplo, não somos capazes de prever todas as suas configurações possíveis. No caso particular dos computadores, o “travamento” do sistema operacional, em geral, não representa qualquer dano ao aparato, em suas dimensões físicas ou lógicas. Por isso, reinicializamos a máquina e ela volta a funcionar perfeitamente. Uma possibilidade de entender o que houve é justamente a ideia de que a máquina pode ter assumido uma configuração que, apesar de ser uma das muitas possíveis para ela, é inconveniente para o usuário. O caso do computador pessoal pode ser inócuo; ocorre que, segundo Perrow, não há razão para imaginar que o mesmo não possa ocorrer com aviões em pleno vôo, com usinas nucleares, ou com barragens.

Essa constatação evidencia os imensos desafios que as coletividades têm no que diz respeito à governança dos riscos aos quais estão submetidas. O mercado em sociedades liberais mostrou, repetidamente, que não é um bom instrumento de gestão de riscos na perspectiva da coletividade – a crise mundial de 2008 foi apenas a última em uma sequência longa de crises associadas à incapacidade das corporações capitalistas em gerir riscos de modo benéfico, não apenas para seus interesses particulares, mas para a sociedade como um todo. Os governos dos países capitalistas em geral pautam-se por indicadores de mercado (como o PIB) para avaliar o sucesso e a eficácia de seus governantes e, por essa razão, tendem a ser ineficientes no que tange a usar seu poder regulatório coercitivo contra o próprio mercado. Desta forma, com exceção de setores historicamente marcados por desastres em larga escala, como a geração de energia nuclear e a prospecção de petróleo, em geral, o setor corporativo cria novas tecnologias e as coloca no mercado sem que os riscos a elas associados sejam conhecidos. Aliás, no que tange à questão nuclear, o Brasil tem a infelicidade de figurar no seleto grupo de países1 que foram palco de acidentes radioativos, devido ao evento do Césio 137 em Goiânia, no ano de 1987 (Da Silva, 2001; Vieira, 2013).

Os desastres em tempos de mudanças climáticas

Particularmente no Brasil, como demonstram os exemplos das secas no Nordeste, os deslizamentos da serra fluminense de 2011, ou o desastre de Mariana em 2015, o poder público age de forma notoriamente reativa, esperando a catástrofe e apenas posteriormente ajustando sua configuração institucional e suas formas de ação aos riscos envolvidos – e, ainda assim, com variados graus de eficácia. Neste contexto, a perspectiva de futuro trazida pelas mudanças climáticas é duplamente sombria: por um lado, as alterações ecossistêmicas previstas (bem como as não previstas) devem desestabilizar até mesmo os arranjos adaptativos mais efetivos entre ecossistemas e coletividades; por outro, como o exemplo das reuniões do clima da ONU (as chamadas “conferencias das partes” ou COPs) deixa evidente, os estados nacionais e seus aparatos institucionais se mostram ineficazes e despreparados para lidar com o desafio que se aproxima. A crise migratória europeia dos últimos anos é outro exemplo contundente: em quase todos os casos envolvidos (e particularmente nos casos dos conflitos do Sudão e da Síria), o componente climático é uma das variáveis mais importantes; os países europeus e a própria ONU, no entanto, evitam qualquer associação entre tais migrações e as secas dramáticas que assolaram tais países, uma vez que isso desorganizaria o arcabouço jurídico para lidar com questões migratórias desenvolvido pelos países ocidentais. Ou seja, não existe, até o momento, a figura jurídica do refugiado climático. E a principal razão para tanto é o fato evidente, já mencionado anteriormente neste texto, que limites territoriais fixos, como as fronteiras nacionais, são incompatíveis com a estratégia mais óbvia de sobrevivência a variações extremas do ambiente, justamente a migração. Desta forma, a crise migratória atual é apenas uma amostra do que está por vir, e não há razões para acreditar que os estados nacionais, que têm em suas configurações espaciais parte da causa da crise, sejam os atores que irão propor soluções sustentáveis ao problema. É mais provável que as soluções venham de fora do sistema e, desta forma, a pesquisa científica sobre ambiente e desastres deve estar aberta para o diálogo com outras formas de conhecimento e ação no mundo. Novamente, aqui as populações tradicionais talvez tenham um papel fundamental a desempenhar (Danowski e Viveiros de Castro, 2014); e não há campo mais apropriado, dentro do mundo acadêmico, para fazer tal interlocução do que as ciências sociais. Para isso, no entanto, a agenda de pesquisa em sociologia e antropologia dos desastres tem muito que avançar.

Renzo Taddei é professor de antropologia na Universidade Federal de São Paulo.

Referências bibliográficas

Acosta, V. G.; Suarez, G. Los sismos en la historia de México: el análisis social. Tlalpan, México: CIESAS, 1996.

Albuquerque Junior, D. M. de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 1999.

Beck, U. Risk society. Towards a new modernityLondres: Sage Publications, 1992.

Briones, F. “¿Sequía natural o sequía hidrológica? Políticas públicas y respuestas sociales en el perímetro irrigado de Icó-Lima Campos, Ceará” In: Taddei, R.; Gamboggi, A. L. (orgs). Depois que a chuva não veio – respostas sociais às secas na Amazônia, no Nordeste e no Sul do Brasil. Fortaleza: Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos/Instituto Comitas para Estudos Antropológicos, 2010.

Callado, A. Os industriais da seca e os “Galileus” de Pernambuco. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1960.

Da Silva, T. C. “Bodily memory and the politics of remembrance: the aftermath of Goiânia radiological disaster”. High Plains Applied Anthropologist. v. 21, n. 1, p. 40–52, Spring 2001. 

Danowski, D.; Viveiros de Castro, E. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Editora Cultura e Barbárie, 2014

Girão, R. Evolução histórica cearense. Fortaleza: BNB/Etene, 1985.

Marengo, J. Tomasella, J. Uvo, C. “Long-term stream ow and rainfall fluctuations in tropical South America: Amazonia, eastern Brazil and northwest Peru”. Journal of Geophysical Research, n. 103, p. 1775-1783, 1998.

Oliver-Smith, A. “What is a disaster? Anthropological perspectives on a persistent question”. In: Oliver-Smith, A; Hoffman, S. (orgs.), The angry Earth: disaster in anthropological perspective. New York: Routledge, 1999.

Perrow, C. Normal accidents: living with high-risk technologies. Princeton: Princeton University Press, 1999.

Rodrigues, N. À sombra das chuteiras imortais: crônicas de futebol. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Taddei, R. “Sobre a invisibilidade dos desastres na antropologia brasileira”. WATERLAT-GOBACIT Network Working Papers, Thematic Area Series SATAD, TA8 – Water-related Disasters, vol. 1 no. 1, Newcastle upon Tyne and São Paulo, September 2014, pp. 30-42 2014a.

Taddei, R. “As secas como modos de enredamento”. ClimaCom Cultura Científica – pesquisa, jornalismo e arte. Ano 01, No. 01 – “Redes”, 2014 2014b.

Taddei, R. “Alter geoengenharia”. Trabalho apresentado no colóquio internacional Os Mil Nomes de Gaia. Fundação Casa de Rui Barbosa, 16 de setembro de 2014, Rio de Janeiro. Disponível em https://goo.gl/5wUVHn; acessado em 8 de março de 2016 2014c.

Taddei, R. “O lugar do saber local (sobre ambiente e desastres)”. In: Siqueira, A.; Valencio, N.; Siena, M.; Malagoli, M. A. (Org.). Riscos de desastres relacionados à água: aplicabilidade de bases conceituais das ciências humanas e sociais para a análise de casos concretos. São Carlos: Rima Editora, 2015.

Taddei, R.; Gamboggi, A. L. (orgs). Depois que a chuva não veio – respostas sociais às secas na Amazônia, no Nordeste e no Sul do Brasil. Fortaleza: Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos/Instituto Comitas para Estudos Antropológicos, 2010.

Valencio, N. “Da morte da quimera à procura de Pégaso: a importância da interpretação sociológica na análise do fenômeno denominado desastre”. In: Valencio, N.; Siena, M.; Marchezini, V.; Gonçalves, J. C. (orgs), Sociologia dos desastres – construção, interfaces e perspectivas no Brasil. São Carlos: RiMa Editora, 2009.

Vieira, S. de A. “Césio-137, um drama recontado”. Estudos Avançados (USP. Impresso), v. 27, p. 217-236, 2013.

Webster, D. L. The fall of the ancient Maya: solving the mystery of the Maya collapse. London: Thames and Hudson, 2002.

1 Estes países são: Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, Costa Rica, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Ilhas Marshall, Índia, Japão, Panamá, Paquistão, Suíça, Rússia e Ucrânia.

Pior seca dos últimos 50 anos no Nordeste mobiliza profetas do sertão (Globo/JN)

Edição do dia 09/01/2016

09/01/2016 20h56 – Atualizado em 09/01/2016 20h56

Açude do Cedro está com apenas 0,52% da capacidade.

Profetas se reuniram pra compartilhar as previsões.

Vídeo

A pior seca dos últimos 50 anos no Nordeste está mobilizando os profetas do sertão. Até esses brasileiros, que sabem como ninguém interpretar os sinais que vêm da terra, estão quebrando a cabeça pra prever o fim da estiagem.

A água chegava aos degraus. Mas, depois de quatro anos seguidos de seca, o Açude do Cedro, um dos mais antigos do Ceará, está com apenas 0,52% da capacidade.

Pra quem tem visto tanta seca, um dia nublado, pode até dar esperança. Mas quem realmente trabalha com a terra busca outros sinais pra ter certeza de que vai ter um bom período de chuva. E tudo tem uma lógica: se o passarinho faz o ninho um pouco mais alto na árvore, quer dizer que a terra vai encharcar, então vai ter boa chuva. Se o ninho estiver mais baixo é o contrário. É desse jeito que os profetas do sertão fazem sua previsão do tempo todos os anos.

Josimar analisou cada detalhe das árvores pra saber se o tempo de chuva, chamado de inverno na região e que costuma acontecer no começo do ano, está mesmo próximo.

“Essa florzinha está começando agora, aí se demorou, com certeza é sinal que o inverno também demora”, ensina.

Neste sábado (9) os profetas se reuniram pra compartilhar as previsões, cada um à sua maneira: ranhuras que apareceram no caule da Ibiratanha animaram Seu Renato.

“Ela está dando sinal que vai haver grande abundância de chuva”, diz.

Dona Lurdinha botou pedrinhas de sal num tabuleiro com os meses do ano.

“Quando o inverno vai ser bom, desmancha todas. Fiquei muito alegre porque as pedrinhas molharam quase todas”, diz ela.

Certeza mesmo é que, faça chuva ou faça sol, ninguém vai deixar a terra de onde se tira até a previsão do tempo.

“A gente faz que nem o finado Luiz Gonzaga: ‘enquanto minha vaquinha tiver o couro e o osso, e puder com o chocalho pendurado no pescoço, só deixo meu Cariri no último pau de arara’. Nós somos sertanejos, não pode desistir”, diz Josimar.

Previsão é de pouca chuva no Ceará de dezembro a fevereiro, diz Funceme (G1)

20/11/2015 19h09 – Atualizado em 20/11/2015 20h49

Segundo a Funceme, chances de chuva abaixo da média é de 69%. Ceará enfrenta períodos de chuva abaixo da média há quatro anos.

Do G1 CE

Chance de chuva abaixo da média é de 69%, diz Funceme (Foto: Funceme/Reprodução)

Chance de chuva abaixo da média é de 69%, diz Funceme (Foto: Funceme/Reprodução)

O Ceará deve ter pouca chuva em todas as suas regiões até fevereiro de 2016 devido à forte atuação do fenômeno El Niño, segundo previsão divulgada nesta sexta-feira (20) pela Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O Ceará escassez e estiagem desde 2011.

Para os meses de dezembro de 2015, janeiro e fevereiro de 2016, o prognóstico aponta 69% de probabilidade de chuvas abaixo da média no Ceará durante o período. As chances de haver precipitações em torno da média são de 23% e para chuvas acima da média, a probabilidade é de apenas 8%.

A categoria abaixo da média histórica para período de dezembro a fevereiro no estado corresponde a chuvas de 0 a 203 milímetros. Precipitações de 203 a 312 milímetros são consideradas em torno da média; caso chova 312 milímetros ou mais, a categoria é acima da média.

“É muito importante ressaltarmos que o trimestre em questão engloba dois meses de pré-estação chuvosa, dezembro e janeiro, quando os sistemas que normalmente atuam nessa época são de menor previsibilidade, como Vórtices Ciclônicos de Altos Níveis, Cavados e a influência de Sistemas Frontais”, explica o meteorologista Leandro Valente.

Ele destaca também, que, apesar da baixa previsibilidade, além do modelo atmosférico da Funceme, outros modelos de instituições nacionais e internacionais também apontam maior probabilidade de precipitações abaixo da média para o Ceará nos próximos três meses.

Dilma promete recursos
O governador do Ceará, Camilo Santana, apresentou nesta quinta-feira (19) o prognóstico de pouca chuva para o Ceará e o Nordeste brasileiro em 2016 e fez o pedido de recursos federais para amenizar os efeitos da estiagem na região, que enfrenta quatro anos seguidos de pouca chuva.

Segundo Camilo Santana, o Governo Federal anunciou que irá liberar novos financiamentos para obras na região, que serão utilizados para a instalação de dessalinizadores (equipamento para retirar excesso de sal da água e torná-la potável), construção de adutoras de montagem rápida e a perfuração de poços nas regiões mais afetadas pela estiagem, além do reforço na Operação Carro-Pipa nas zonas urbanas.

COMENTÁRIOS

Ademerval Magno A situação do Nordeste só vai melhorar quando fizerem um enorme canal que possa trazer alguma fração da água do rio Amazonas. Enquanto isso, sonharemos com a transposição do rio São Francisco para 20?? e o fim da corrupção. P.S. Quanto ao fim da corrupção só depende de nós mesmos, portanto, façamos nossa parte!

Francisco Araujo Não que eles estão errado em suas previsões, mas acredito em DEUS e e ele mudará e nos dará um bom inverno, tenho ver em ti senhor e sei que nos ajudará a vencer essa situação, mandaras muitas chuvas para o nosso nordeste…

Nazireu Pinheiro Essa situação não mudará enquanto nós nordestinos não tivermos a percepção de exigir dos nossos representantes uma solução definitiva para a seca, pois o que foi feito até agora são soluções paliativas, e a indústria da seca continua massacrando nosso povo humilde e trabalhador.

Seca ameaça a Amazônia (Revista Fapesp)

Experimento feito na maior floresta tropical do mundo mostra colapso de árvores com ressecamento do solo 

MARIA GUIMARÃES | ED. 238 | DEZEMBRO 2015

 

Do alto de uma torre de 40 metros, fica visível a mortalidade das árvores maiores,  destacadas acima do dossel

Ao tomar suco por um canudo é preciso cuidado para manter o tubo bem imerso. Do contrário, bolhas de ar se formam e rompem a estrutura do fio líquido que leva a bebida do copo à boca. Aumente a escala para a altura de um prédio de 10 andares e pode imaginar o fluxo de água dentro de uma das gigantescas árvores amazônicas. A transpiração pelas folhas dá origem à sucção que movimenta a água desde as raízes até as imensas copas das árvores, que podem ultrapassar os 40 metros de altura, e lança para a atmosfera uma umidade responsável por entre 35% e 50% das chuvas na região, com impacto importante na hidrologia global. Quando esse sistema falha, o ciclo da água não é o único afetado. As árvores, que até então pareciam funcionar normalmente, subitamente morrem. Um experimento liderado pelo ecólogo inglês Patrick Meir, da Universidade de Edimburgo, na Escócia, e da Universidade Nacional da Austrália, provocou 15 anos de seca numa parcela amazônica e revelou o papel desse mecanismo, de acordo com artigo publicado em novembro na revista Nature.

Para construir o experimento foram necessários 500 metros cúbicos (m3) de madeira, 5 toneladas de plástico, 2 toneladas de pregos e 23 mil horas-homem (10 homens trabalhando de segunda a segunda por um ano), de acordo com o meteorologista Antonio Carlos Lola da Costa, da Universidade Federal do Pará (UFPA). O resultado são 6 mil painéis de plástico que medem 3 metros (m) por 0,5 m cada um, entremeados por 18 calhas com 100 m de comprimento responsáveis por impedir que 50% da chuva que cai chegue ao solo numa parcela de  1 hectare na Floresta Nacional de Caxiuanã, no norte do Pará, onde o Museu Paraense Emílio Goeldi mantém uma estação científica. “O Patrick me procurou em 1999 com essa ideia maluca”, conta Lola. O meteorologista não sabia por onde começar, mas estudou as fotos que Meir lhe mandou de um experimento similar, o Seca Floresta, que estava sendo montado na Floresta Nacional do Tapajós, no oeste do estado, e saiu a campo. “Em um ano estava feito.” Não era um feito logístico trivial. Chegar a Caxiuanã envolve sair de Belém e passar 12 horas a bordo de um barco repleto de redes coloridas apinhadas, até Breves. Foi nessa cidade de cerca de 100 mil habitantes que Lola conseguiu o material para sua empreitada, como os tubos de ferro galvanizado para montar duas torres com 40 m de altura. De lá, 10 horas em um barco menor levam a Caxiuanã, onde o material precisou ser carregado pelo meio da densa floresta.

O experimento conhecido como Esecaflor, abreviação de Efeitos da Seca da Floresta, é o mais extenso e mais duradouro no mundo a avaliar o efeito de seca numa floresta tropical. O único comparável é o Seca Floresta, que abrangeu uma área similar e foi encerrado após cinco anos (ver Pesquisa FAPESP nº 156). Nesta última década e meia, Antonio Carlos Lola tem sido o principal responsável por monitorar a reação da floresta e manter o experimento de pé mesmo quando ele é constantemente derrubado por galhos e árvores que caem, uma empreitada que exige entre R$ 10 mil e R$ 15 mil por mês. Um valor que tende a subir, agora que mais árvores têm sucumbido à seca, destruindo parte da estrutura. “Passo por volta de seis meses do ano no meio do mato, com interrupções”, conta ele, que tem coordenado uma série de projetos de alunos de mestrado e doutorado no âmbito do experimento.

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Observação prolongada
Em linhas gerais os resultados dos dois experimentos amazônicos contam histórias semelhantes, como mostra artigo de revisão publicado por Meir e colegas em setembro na revista BioScience: nos primeiros anos a floresta parece ignorar a falta de chuva e mantém o funcionamento normal. Passados alguns anos de seca, porém, galhos começam a cair e árvores a morrer, sobretudo as mais altas e as menores. Experimentos em outros países analisaram uma área menor ou duraram menos tempo – o maior, na Indonésia, funcionou por dois anos.

Fogo experimental no Mato Grosso: em condições normais de umidade, os incêndios têm baixa energia e são pouco destrutivos

O estudo de Caxiuanã traz resultados inéditos por sua longa duração: o colapso das maiores árvores só aconteceu após 13 anos da seca experimental e pode representar um ponto de inflexão em que a floresta muda de cara. Desde 2001 os pesquisadores vêm fazendo medições fisiológicas nas árvores, comparando a área com restrição de chuva e uma parcela semelhante sem intervenção. Nos últimos dois anos, começaram a registrar uma mortalidade drástica entre as árvores mais altas, raras por natureza, que caem causando destruição e transformando a floresta pujante numa mata de aparência degradada. “Das 12 árvores mais altas com diâmetro maior que 60 centímetros, restam apenas três”, conta Lucy Rowland, pesquisadora britânica em estágio de pós-doutorado no grupo de Meir na Universidade de Edimburgo que está à frente do projeto desde 2011. A surpresa foi identificar no sistema hidráulico a causa interna dessa mortalidade. Quando o suprimento de água no solo é reduzido, aumenta a tensão na coluna d’água no interior dos vasos condutores das árvores, o xilema. A integridade dessa coluna, que depende da adesão natural entre as moléculas de água, acaba comprometida por bolhas de ar, um processo que os especialistas chamam de cavitação. A consequência desse colapso, que acontece de repente, é a incapacidade de levar água das raízes às folhas e a morte súbita da árvore. Meir ressalta que essa falha hidráulica funciona como um gatilho que inicia o processo de morte, sem ser necessariamente a causa final – ainda desconhecida.

Outra hipótese favorecida para explicar a morte de árvores em situações de seca é o que os pesquisadores chamam de “fome de carbono”. Quando as folhas fecham os estômatos (poros que permitem transpiração e trocas gasosas) para evitar o ressecamento, também reduzem a absorção de carbono. O mais provável é que os dois processos aconteçam simultaneamente, mas no caso de Caxiuanã os pesquisadores descartaram a falta de carbono como fator principal ao verificar que as árvores continham um suprimento normal desse elemento e não pararam de crescer até a morte.

“Medimos a vulnerabilidade do sistema hidráulico das plantas à cavitação e vimos que ela tem relação com o diâmetro da árvore”, conta o biólogo Rafael Oliveira, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), colaborador do projeto há dois anos. A observação condiz com a preponderância de vítimas avantajadas: 15 árvores com diâmetro maior que 40 centímetros caíram na área experimental, em comparação com apenas uma ou duas na zona de controle, onde não há exclusão de chuva. O impacto é grande, porque essas árvores gigantescas concentram uma parcela importante da biomassa da floresta e do dossel emissor de umidade. Enquanto isso, as de tamanho médio estão crescendo até mais, graças à luz que chega até elas agora que a mata vai se tornando esparsa e cheia de frestas entre as copas.

Painéis de plástico impedem que metade da chuva chegue ao chão...

Oliveira tem estudado as relações entre o solo, as plantas e a atmosfera, e em uma revisão publicada em 2014 na revista Theoretical and Experimental Plant Physiology mostrou que mudanças no regime de precipitação podem causar um estresse hídrico letal por cavitação, mesmo que a seca seja compensada por um período de chuvas intensas, de maneira que o total anual de chuvas não se altere. Para ele, é preciso entender melhor o funcionamento fisiológico e anatômico das árvores nessas condições para prever sua reação às mudanças previstas no clima. Essas particularidades também devem explicar por que a reação varia entre espécies. O estudo de Caxiuanã, por exemplo, aponta o gênero Pouteria como muito vulnerável à seca e o Licania como o mais resistente, entre as árvores examinadas. Os mecanismos usados pelas plantas são diversos, como absorver água pela parte aérea – pelas folhas e até pelos ramos e tronco. “Precisamos ver quais árvores na Amazônia fazem isso”, planeja.

Outro efeito da mortalidade das árvores é o acúmulo de mais folhas e galhos no solo da floresta. “Quem trabalha com fogo chama essa camada de combustível”, brinca o ecólogo Paulo Brando, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e do Centro de Pesquisa Woods Hole, Estados Unidos. Um dos integrantes do Seca Floresta, cujo imenso banco de dados ainda está em análise quase 10 anos depois de encerrado o projeto, ele mais recentemente conduziu um estudo com incêndios florestais num experimento no Alto Xingu, a região mais seca da Amazônia. Segundo os resultados apresentados em artigo de 2014 na PNAS, as árvores resistiram bem à primeira queimada, em 2004, em parte porque a própria umidade da floresta impediu que o fogo atingisse proporções devastadoras. O resultado marcante veio em 2007, quando o incêndio programado coincidiu com uma seca acentuada e representou, na interpretação dos autores, um ponto de inflexão na floresta. “O que vimos foi fogo de grande intensidade que matou tudo, principalmente as árvores pequenas”, conta, concluindo que a interação entre seca e fogo potencializa as forças motrizes de degradação. Menos água no solo, menos umidade no ar e mais combustível no chão agem em conjunto e aumentam muito a probabilidade de fogo. E não se pode esquecer a ação humana nas fronteiras agrícolas, onde o fogo é comum para manejo e se soma aos efeitos do desmatamento, que criam ilhas de floresta com bordas vulneráveis. “A fronteira da floresta com uma plantação de soja, por exemplo, é 5 graus Celsius mais quente do que o interior da floresta, e mais seca”, diz Brando.

...provocando queda de árvores...

Ele é coautor de um estudo feito pela geógrafa Ane Alencar, também do Ipam, que analisou registros de incêndios na Amazônia, por imagens de satélite, entre 1983 e 2007. Os resultados, publicados em setembro na Ecological Applications, mostram que já houve um aumento na ocorrência de fogo florestal em resposta a um clima mais seco. Comparando três tipos de mata no leste da Amazônia, o grupo verificou que a floresta densa é sensível a mudanças climáticas, enquanto as formações aberta e de transição estão mais sujeitas à ação humana por desmatamento.

Futuro
Como não há bola de cristal para enxergar o que vem à frente, vários grupos buscam desenvolver modelos climáticos e ecológicos. Brando participou de um estudo liderado por Philip Duffy, do Woods Hole, que comparou a capacidade de modelos climáticos acomodarem as secas que aconteceram em 2005 e 2010 na Amazônia, tão drásticas que não era esperado que se repetissem num período menor do que um século. Os resultados, publicados em outubro no site da PNAS, preveem um aumento significativo de secas, com um crescimento da área afetada por essas secas na região amazônica. O problema, segundo Brando, é que boa parte dos modelos lida com médias, e o que está em questão são extremos climáticos. Este ano, caracterizado por um fenômeno El Niño mais forte do que a média, a equipe do Esecaflor encontrou, em novembro, uma floresta praticamente sem chuva havia mais de dois meses. A expectativa é, nos próximos anos, acompanhar as consequências desse período.

...calhas levam a água embora numa área de 1 hectare da Floresta Nacional de Caxiuanã

“O relatório de 2013 do IPCC ressaltou nossa falta de capacidade em prever a mortalidade relacionada à seca nas florestas como uma das incertezas na ciência ligada à vegetação e ao clima”, conta Meir. “Nossos resultados indicam qual mecanismo fisiológico precisa ser bem representado pelos modelos para prever a mortalidade das árvores”, explica. Nessa busca por reduzir incertezas e antecipar o futuro, Lucy – que é especialista em usar dados de campo para alimentar modelos – vem trabalhando em parceria com o grupo de Stephen Sitch, na Universidade de Exeter, na Inglaterra, para aprimorar a representação das respostas das florestas tropicais à seca no modelo de vegetação conhecido como Jules. A Amazônia fala claramente sobre a importância de políticas que busquem reduzir as mudanças climáticas, tema que inundou as notícias nos últimos tempos por causa da Conferência do Clima em Paris (COP21), que ocorreu este mês. Os experimentos mostram efeitos localizados, mas secas naturais como as da década passada podem afetar uma área extensa da floresta. Meir ressalta a necessidade de quebrar o ciclo: ao se decomporem, imensas árvores mortas liberam na atmosfera uma quantidade de carbono que tende a agravar o efeito estufa. “É possível desenvolver regras de energia e uso da terra que sejam economicamente benéficas, sem danificar o ambiente no longo prazo”, completa.

Veja mais fotos da pesquisa na Galeria de Imagens

Projeto
Interações entre solo-vegetação-atmosfera em uma paisagem tropical em transformação (n° 2011/52072-0); Modalidade Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (Pite) e Acordo FAPESP-Microsoft Research; Pesquisador responsávelRafael Silva Oliveira (IB-Unicamp); Investimento R$ 1.082.525,94.

Artigos científicos
ALENCAR, A. A. et al. Landscape fragmentation, severe drought, and the new Amazon forest fire regimeEcological Applications. v. 25, n. 6, p. 1493-505. set. 2015.
BRANDO, P. M. et al. Abrupt increases in Amazonian tree mortality due to drought-fire interactionsPNAS. v. 111, n. 17, p. 6347-52. 29 abr. 2014.
DUFFY, P. B. et alProjections of future meteorological drought and wet periods in the AmazonPNAS. on-line. 12 out. 2015.
MEIR, P. et alThreshold responses to soil moisture deficit by trees and soil in tropical rain forests: insights from field experimentsBioScience. v. 65, n. 9, p. 882-92. set. 2015.
OLIVEIRA, R. S. et alChanging precipitation regimes and the water and carbon economies of treesTheoretical and Experimental Plant Physiology. v. 26, n. 1, p. 65-82. mar. 2014.
ROWLAND, L. et alDeath from drought in tropical forests is triggered by hydraulics not carbon starvationNature. on-line. 23 nov. 2015.

Fundação Cacique Cobra Coral dá data para o fim da crise hídrica (Glamurama/UOL)

Osmar Santos, da Fundação Cacique Cobra Coral

Nem só de más notícias vive a presidente Dilma Rousseff. Por intermédio do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, ela tem recebido diariamente informes da Fundação Cacique Cobra Coral, entidade esotérica especializada em fenômenos climáticos, no monitoramento meteorológico e conveniada com o Ministério de Minas e Energia, o governo do Estado do RJ e a Prefeitura do Rio.

Os relatórios apontam uma tendência de elevação nos níveis dos reservatórios do Sudeste antes do verão chegar. Com isso, o governo poderá anunciar em breve a redução nos preços da energia. O informe mais recente diz que, após a antecipação do período chuvoso ainda na primavera, prometido pela entidade em 27 de setembro, mais três poderosos fenômenos voltarão a atuar no Sudeste para ajudar a elevar o nível dos mananciais: Alta da Bolívia, Baixa do Chaco e ZACS (Zona de Convergência do Atlântico Sul).

A região Sudeste vai continuar recebendo um verdadeiro bombardeio de chuva nos próximos dias.

Video: Drought, Climate, Security, and Syria (Skeptical Science)

Posted on 13 November 2015 by greenman3610

This is a re-post from Yale Climate Connections

 

 

Drought, water, war, and climate change” is the title of this month’s Yale ClimateConnections video exploring expert assessments of the interconnections between and among those issues.

With historic 1988 BBC television footage featuring Princeton University scientist Syukuru (“Suki”) Manabe and recent news clips and interviews with MIT scientist Kerry Emanuel, Ohio State University scientist Lonnie Thompson, CNN reporter Christiane Amanpour, and New York Times columnist and book author Tom Friedman, the six-minute video plumbs the depths of growing climate change concerns among national security experts.

Friedman, in footage from the 2014 Showtime “Years of Living Dangerously” nine-episode documentary, points to a NOAA analysis that climate change has caused the Mediterranean region, in Friedman’s words, “to dry up . . . . leading to longer and more severe droughts.” Friedman in that piece pointed out that severe droughts struck Syria – “which is right at the epicenter” of the worst impacts — in the four years leading up to the Syrian revolution.

MIT scientist Kerry Emanuel points to increasing concerns among military experts over climate change. “These are not sandal-wearing, fruit juice-drinking hippies from the sixties,” he says. “These are serious folk” concerned about “significant geopolitical impacts around the world.”

CNN reporter Christiane Amanpour reports that climate change and dwindling water supplies “may have helped fuel Syria’s war.” She says drought in Syria from 2006 through 2010 “scorched 60 percent of Syria’s land, and it killed 80 percent of livestock in some regions, putting three-quarters of the farmers out of work, and ultimately displacing 1.5 million people.”

“While no one’s claiming a direct cause and effect” relationship, Amanpour says, “the drought did bring on the diaspora from dying farms and over-crowded cities, and thereby put enormous economic and social pressures on an already fractured society.”

The video ends with Lonnie Thompson pointing to Tibet’s numerous glaciers and the Indus River flowing through China, Pakistan, and India.  All, he says, are “nuclear-powered countries,” each of them dependent on the Indus for water supplies . . . “all geopolitical hot-spots in the future” with a big stake on the glaciers increasingly under stress in a warming climate.

Preventing famine with mobile phones (Science Daily)

Date: November 19, 2015

Source: Vienna University of Technology, TU Vienna

Summary: With a mobile data collection app and satellite data, scientists will be able to predict whether a certain region is vulnerable to food shortages and malnutrition, say experts. By scanning Earth’s surface with microwave beams, researchers can measure the water content in soil. Comparing these measurements with extensive data sets obtained over the last few decades, it is possible to calculate whether the soil is sufficiently moist or whether there is danger of droughts. The method has now been tested in the Central African Republic.


Does drought lead to famine? A mobile app helps to collect information. Credit: Image courtesy of Vienna University of Technology, TU Vienna

With a mobile data collection app and satellite data, scientists will be able to predict whether a certain region is vulnerable to food shortages and malnutrition. The method has now been tested in the Central African Republic.

There are different possible causes for famine and malnutrition — not all of which are easy to foresee. Drought and crop failure can often be predicted by monitoring the weather and measuring soil moisture. But other risk factors, such as socio-economic problems or violent conflicts, can endanger food security too. For organizations such as Doctors without Borders / Médecins Sans Frontières (MSF), it is crucial to obtain information about vulnerable regions as soon as possible, so that they have a chance to provide help before it is too late.

Scientists from TU Wien in Vienna, Austria and the International Institute for Applied Systems Analysis (IIASA) in Laxenburg, Austria have now developed a way to monitor food security using a smartphone app, which combines weather and soil moisture data from satellites with crowd-sourced data on the vulnerability of the population, e.g. malnutrition and other relevant socioeconomic data. Tests in the Central African Republic have yielded promising results, which have now been published in the journal PLOS ONE.

Step One: Satellite Data

“For years, we have been working on methods of measuring soil moisture using satellite data,” says Markus Enenkel (TU Wien). By scanning Earth’s surface with microwave beams, researchers can measure the water content in soil. Comparing these measurements with extensive data sets obtained over the last few decades, it is possible to calculate whether the soil is sufficiently moist or whether there is danger of droughts. “This method works well and it provides us with very important information, but information about soil moisture deficits is not enough to estimate the danger of malnutrition,” says IIASA researcher Linda See. “We also need information about other factors that can affect the local food supply.” For example, political unrest may prevent people from farming, even if weather conditions are fine. Such problems can of course not be monitored from satellites, so the researchers had to find a way of collecting data directly in the most vulnerable regions.

“Today, smartphones are available even in developing countries, and so we decided to develop an app, which we called SATIDA COLLECT, to help us collect the necessary data,” says IIASA-based app developer Mathias Karner. For a first test, the researchers chose the Central African Republic- one of the world’s most vulnerable countries, suffering from chronic poverty, violent conflicts, and weak disaster resilience. Local MSF staff was trained for a day and collected data, conducting hundreds of interviews.

“How often do people eat? What are the current rates of malnutrition? Have any family members left the region recently, has anybody died? — We use the answers to these questions to statistically determine whether the region is in danger,” says Candela Lanusse, nutrition advisor from Doctors without Borders. “Sometimes all that people have left to eat is unripe fruit or the seeds they had stored for next year. Sometimes they have to sell their cattle, which may increase the chance of nutritional problems. This kind of behavior may indicate future problems, months before a large-scale crisis breaks out.”

A Map of Malnutrition Danger

The digital questionnaire of SATIDA COLLECT can be adapted to local eating habits, as the answers and the GPS coordinates of every assessment are stored locally on the phone. When an internet connection is available, the collected data are uploaded to a server and can be analyzed along with satellite-derived information about drought risk. In the end a map could be created, highlighting areas where the danger of malnutrition is high. For Doctors without Borders, such maps are extremely valuable. They help to plan future activities and provide help as soon as it is needed.

“Testing this tool in the Central African Republic was not easy,” says Markus Enenkel. “The political situation there is complicated. However, even under these circumstances we could show that our technology works. We were able to gather valuable information.” SATIDA COLLECT has the potential to become a powerful early warning tool. It may not be able to prevent crises, but it will at least help NGOs to mitigate their impacts via early intervention.


Story Source:

The above post is reprinted from materials provided by Vienna University of Technology, TU ViennaNote: Materials may be edited for content and length.


Journal Reference:

  1. Markus Enenkel, Linda See, Mathias Karner, Mònica Álvarez, Edith Rogenhofer, Carme Baraldès-Vallverdú, Candela Lanusse, Núria Salse. Food Security Monitoring via Mobile Data Collection and Remote Sensing: Results from the Central African RepublicPLOS ONE, 2015; 10 (11): e0142030 DOI: 10.1371/journal.pone.0142030

Força do El Niño deve agravar a seca que atinge o semiárido, diz Cemaden (Cemaden)

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) aponta para cenário de poucas chuvas no Nordeste entre fevereiro e maio de 2016. Seca atinge 910 municípios e um milhão de propriedades da agricultura familiar

Relatório divulgado nesta quarta-feira (18) pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) aponta para um cenário de poucas chuvas na região Nordeste entre fevereiro e maio de 2016, o que deve agravar os impactos da seca que atinge a região.

Relatório da Situação Atual da Seca e Impactos no Semiárido do País também revela que choveu pouco nos últimos 90 dias, sobretudo, no Maranhão, sul da Bahia, e norte de Minas Gerais e Espírito Santo. Ainda que neste período sejam esperados índices pluviométricos mais baixos, nos últimos meses os acumulados foram abaixo da média. Segundo o Cemaden, a causa é o fenômeno El Niño, que está mais forte.

“A avaliação das condições climáticas de grande escala mostra que o fenômeno El Niño está presente, intenso e em franco desenvolvimento. Sob este condicionante, no trimestre novembro-dezembro de 2015 e janeiro de 2016, há chances mínimas de reverter o quadro crítico, apontado pelo indicador de risco agroclimático. Outra indicação decorrente deste cenário climático, altamente provável, é que já se pode inferir que a próxima estação chuvosa do norte do Nordeste (de fevereiro a maio de 2016) apresente condições de deficiência de precipitação”, diz o documento.

Cerca de um milhão de propriedades da agricultura familiar estão localizadas nas áreas afetadas pela seca, em 910 municípios. De acordo com o índice VSWI (sigla em inglês para Índice de Vegetação de Abastecimento de Água), indicador de seca agrícola, esses municípios apresentam pelo menos 50% de suas áreas agrícolas ou de pastagens em condições de déficit hídrico.

Monitoramento

De acordo com a Resolução Nº 13, de 22 de maio de 2014 do Ministério da Integração Nacional e, posteriormente, com o Decreto Presidencial Nº 8.472, de 22 de junho de 2015, o Cemaden/MCTI tem a responsabilidade de fornecer informações para as ações emergenciais adotadas pelo governo para mitigar os impactos da seca. Assim, além do monitoramento da seca, o Cemaden desenvolve um sistema de alerta de riscos de colapso de safras para a agricultura familiar do semiárido.

(Cemaden)

Mudança climática pode reduzir capacidade hidrelétrica em até 20% (Estadão)

Giovana Girardi

29 de outubro de 2015

Temperaturas mais elevadas, mudança no regime de chuvas e aumento de eventos climáticos extremos são apenas uma parte da história das mudanças climáticas. A forma como essas mudanças vão impactar agricultura, geração de energia, infraestrutura, oferta d’água e saúde é o outrolado que acaba de ganhar detalhes para o Brasil.

Considerado o mais importante estudo sobre como diversos setores vão reagir diante do clima modificado, o projeto Brasil 2040 – Alternativas de Adaptação às Mudanças Climáticas foi publicado ontem no site da extinta Secretaria de Assuntos Estratégicos(SAE) da Presidência.

Um dos principais resultados é sobre como a oferta de água será afetada. As regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil deverão sofrer redução. A Sul pode ter um leve aumento na média, mas com uma distribuição muito irregular. Para o Sudeste, há incertezas. Isso pode ter impactos diretos na agricultura e na energia.

Usina hidrelétrica Belo Monte, no pior cenário de mudanças climáticas, pode ser afetada por falta de chuvas e deixar de compensar financeiramente

Usina hidrelétrica Belo Monte, no pior cenário de mudanças climáticas, pode ser afetada por falta de chuvas e deixar de compensar financeiramente

Diversos grupos de pesquisa do Brasil trabalharam com dados de dois modelos climáticos, que, por sua vez, levaram em conta dois cenários do IPCC (o painel da ONU de cientistas do clima). Um, mais pessimista, que considera que o mundo não vai agir para combater as mudanças climáticas, e um intermediário, que imagina que haverá algumas ações, mas não o suficiente, e o mundo ainda vai aquecer pelo menos 3°C. Este segundo cenário é condizente com as propostas de redução das emissões apresentadas como contribuição para a Conferência do Clima de Paris.

No pior cenário, até 2040 a capacidade das hidrelétricas pode ficar de 8% a 20% menor. Já no melhor cenário, a capacidade diminui entre 4% e 15%. Ou seja, mesmo se o mundo fizer tudo o que está prometendo para combater o aquecimento global, ainda podemos ter impacto na produção de energia. Usinas na Amazônia como a de Belo Monte ou o novo projeto pensado para o rio Tapajós seriam inviabilizados.

Hoje o Brasil ainda é altamente dependente da água para a geração de energia elétrica. Cerca de 80% vêm de hidrelétricas. “O que por um lado torna a matriz energética brasileira mais limpa que a média mundial, por outro a torna vulnerável se o clima mudar”, afirma Roberto Schaeffer, da UFRJ, coordenador do capítulo de energia.

O gargalo, principalmente nas hidrelétricas localizadas na Amazônia, é que elas não têm reservatórios. Com isso, não têm estoque de água na seca. “Essa vulnerabilidade que a mudança climática traz talvez nos faça repensar se não é melhor voltar a ter hidrelétricas com reservatório”, complementa.

O Brasil pode ficar mais dependente de térmicas. O estudo até prevê um aumento das energias eólica (no Nordeste) e solar (Sul e Sudeste), mas como elas são intermitentes, há necessidade de ter uma energia de base e, se a hidrelétrica falhar, as térmicas serão a saída. “Mas pode ser a etanol, a bagaço de cana, a biomassa, não a carvão”, sugere Schaeffer. “O ideal é ter diversidade. E planejar a expansão do setor incorporando a variável das mudanças climáticas. Não podemos mais só olhar para as séries hidrológicas do passado para prever o futuro, porque ele será bem diferente.”

Soja em risco. A mudança no regime hídrico pode trazer impactos também às principais commodities agrícolas do Brasil. A redução de área potencial para lavouras pode ser de até 39,3%, no pior cenário. A soja seria a cultura mais afetada, tendo uma perda de até 67% da área plantada na região Sul até 2040.

Produtor rural mostra área afetada pela estiagem em sua plantação de soja, em Santa Maria (RS), em crise de 2012. Falta de chuva no período de plantio pode levar a uma perda de área para o plantio do grão no Estado

Produtor rural mostra área afetada pela estiagem em sua plantação de soja, em Santa Maria (RS), em crise de 2012. Falta de chuva no período de plantio pode levar a uma perda de área para o plantio do grão no Estado

De acordo com Leila Harfuch, do Agroicone, no entanto, áreas do Centro-Oeste e do Norte podem compensar parte dessa perda. Na comparação com um futuro sem mudança do clima, a perda total de área de soja no País seria de 5%.

“Existe uma dinâmica econômica que torna o impacto nacional menos dramática, vai haver uma realocação da produção no caso dos grãos. Mas os impactos locais serão muito relevante, em especial para a região Sul. Vai ter perda de valor de produção, de emprego e renda, mas em termos produtivos, outras regiões podem compensar”, explica Leila.

Segundo ela, algo parecido pode acontecer com as plantações de cana-de-açúcar na região Sudeste. A estimativa, no pior cenário, é de redução de 10% na área plantada na região na comparação com o tamanho que a produção teria se não houvesse mudanças climáticas. Parte seria compensada no Sul e parte no Centro-Oeste.

Segundo o estudo, quem mais deve perder área é a pastagem. Não necessariamente porque o clima prejudique muito o pasto, mas porque tanto áreas degradadas quanto outras que tenham aptidão para a agricultura poderão ser ocupadas com grãos. Está esperada uma queda de 6,5% da área ocupada pela pecuária, mas o estudo espera que haja uma intensificação da produção, de modo que ela deve se manter estável.

Repercussão. O Observatório do Clima, coalizão brasileira com mais de 30 organizações da sociedade civil em torno das mudanças climáticas, afirmou que o estudo tem de servir como alerta para que o Brasil deixe a tratar o problema como um tema marginal.

“O estudo traça um panorama preocupante dos impactos das mudanças climáticas sobre a economia nacional já nos próximos 25 anos. Mostra que a maneira como o Brasil investe em agropecuária e em infraestrutura precisa ser radicalmente revista. Grandes hidrelétricas na Amazônia, como Belo Monte e São Luís do Tapajós, poderão ter reduções importantes de vazão, e a sociedade pode acabar enterrando bilhões de reais em obras que não se pagam”, afirmou Carlos Rittl, secretário-executivo da organização. Para ele, o estudo “aponta a necessidade de o Brasil lutar por um acordo do clima ambicioso nas próximas semanas na conferência de Paris, e de aumentar também a ambição da própria proposta.”

Aquecimento pode triplicar seca na Amazônia (Observatório do Clima)

15/10/2015

 Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

Seca em Silves (AM) em 2005. Foto: Ana Cintia Gazzelli/WWF

Modelos de computador sugerem que leste amazônico, que contém a maior parte da floresta, teria mais estiagens, incêndios e morte de árvores, enquanto o oeste ficaria mais chuvoso.

As mudanças climáticas podem aumentar a frequência tanto de secas quanto de chuvas extremas na Amazônia antes do meio do século, compondo com o desmatamento para causar mortes maciças de árvores, incêndios e emissões de carbono. A conclusão é de uma avaliação de 35 modelos climáticos aplicados à região, feita por pesquisadores dos EUA e do Brasil.

Segundo o estudo, liderado por Philip Duffy, do WHRC (Instituto de Pesquisas de Woods Hole, nos EUA) e da Universidade Stanford, a área afetada por secas extremas no leste amazônico, região que engloba a maior parte da Amazônia, pode triplicar até 2100. Paradoxalmente, a frequência de períodos extremamente chuvosos e a área sujeita a chuvas extremas tende a crescer em toda a região após 2040 – mesmo nos locais onde a precipitação média anual diminuir.

Já o oeste amazônico, em especial o Peru e a Colômbia, deve ter um aumento na precipitação média anual.

A mudança no regime de chuvas é um efeito há muito teorizado do aquecimento global. Com mais energia na atmosfera e mais vapor d’água, resultante da maior evaporação dos oceanos, a tendência é que os extremos climáticos sejam amplificados. As estações chuvosas – na Amazônia, o período de verão no hemisfério sul, chamado pelos moradores da região de “inverno” ficam mais curtas, mas as chuvas caem com mais intensidade.

No entanto, a resposta da floresta essas mudanças tem sido objeto de controvérsias entre os cientistas. Estudos da década de 1990 propuseram que a reação da Amazônia fosse ser uma ampla “savanização”, ou mortandade de grandes árvores, e a transformação de vastas porções da selva numa savana empobrecida.

Outros estudos, porém, apontaram que o calor e o CO2 extra teriam o efeito oposto – o de fazer as árvores crescerem mais e fixarem mais carbono, de modo a compensar eventuais perdas por seca. Na média, portanto, o impacto do aquecimento global sobre a Amazônia seria relativamente pequeno.

Ocorre que a própria Amazônia encarregou-se de dar aos cientistas dicas de como reagiria. Em 2005, 2007 e 2010, a floresta passou por secas históricas. O resultado foi ampla mortalidade de árvores e incêndios em florestas primárias em mais de 85 mil quilômetros quadrados. O grupo de Duffy, também integrado por Paulo Brando, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), aponta que de 1% a 2% do carbono da Amazônia foi lançado na atmosfera em decorrência das secas da década de 2000. Brando e colegas do Ipam também já haviam mostrado que a Amazônia está mais inflamável, provavelmente devido aos efeitos combinados do clima e do desmatamento.

Os pesquisadores simularam o clima futuro da região usando os modelos do chamado projeto CMIP5, usado pelo IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática) no seu último relatório de avaliação do clima global. Um dos membros do grupo, Chris Field, de Stanford, foi um dos coordenadores do relatório – foi também candidato à presidência do IPCC na eleição realizada na semana passada, perdendo para o coreano Hoesung Lee.

Os modelos de computador foram testados no pior cenário de emissões, o chamado RMP 8.5, no qual se assume que pouca coisa será feita para controlar emissões de gases-estufa.

Eles não apenas captaram bem a influência das temperaturas dos oceanos Atlântico e Pacífico sobre o padrão de chuvas na Amazônia – diferenças entre os dois oceanos explicam por que o leste amazônico ficará mais seco e o oeste, mais úmido –, como também mostraram nas simulações de seca futura uma característica das secas recorde de 2005 e 2010: o extremo norte da Amazônia teve grande aumento de chuvas enquanto o centro e o sul estorricavam.

Segundo os pesquisadores, o estudo pode ser até mesmo conservador, já que só levou em conta as variações de precipitação. “Por exemplo, as chuvas no leste da Amazônia têm uma forte dependência da evapotranspiração, então uma redução na cobertura de árvores poderia reduzir a precipitação”, escreveram Duffy e Brando. “Isso sugere que, se os processos relacionados a mudanças no uso da terra fossem mais bem representados nos modelos do CMIP5, a intensidade das secas poderia ser maior do que a projetada aqui.”

O estudo foi publicado na PNAS, a revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA. (Observatório do Clima/ #Envolverde)

* Publicado originalmente no site Observatório do Clima.