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‘Relatório sobre 1,5ºC trará dilema moral’ (Observatório do Clima)

Vice-presidente do IPCC afirma que próximo documento do grupo, em 2018, pode apresentar a escolha entre salvar países-ilhas e usar tecnologias incipientes de modificação climática

O próximo relatório do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, encomendado para 2018, pode apresentar à humanidade um dilema moral: devemos lançar mão em larga escala de tecnologias ainda não testadas e potencialmente perigosas de modificação do clima para evitar que o aquecimento global ultrapasse 1,5oC? Ou devemos ser prudentes e evitar essas tecnologias, colocando em risco a existência de pequenas nações insulares ameaçadas pelo aumento do nível do mar?

Quem expõe a dúvida é Thelma Krug, 65, diretora de Políticas de Combate ao Desmatamento do Ministério do Meio Ambiente e vice-presidente do painel do clima da ONU. Ela coordenou o comitê científico que definiu o escopo do relatório e produziu, no último dia 20, a estrutura de seus capítulos. A brasileira deverá ter papel-chave também na redação do relatório, cujos autores serão escolhidos a partir de novembro.

O documento em preparação é um dos relatórios mais aguardados da história do IPCC. É também único pelo fato de ser feito sob encomenda: a Convenção do Clima, na decisão do Acordo de Paris, em 2015, convidou o painel a produzir um relatório sobre impactos e trajetórias de emissão para limitar o aquecimento a 1,5oC, como forma de embasar cientificamente o objetivo mais ambicioso do acordo. A data de entrega do produto, 2018, coincidirá com a primeira reunião global para avaliar a ambição coletiva das medidas tomadas contra o aquecimento global após a assinatura do tratado.

Segundo Krug, uma das principais mensagens do relatório deverá ser a necessidade da adoção das chamadas emissões negativas, tecnologias que retirem gases-estufa da atmosfera, como o sequestro de carbono em usinas de bioenergia. O problema é que a maior parte dessas tecnologias ou não existe ainda ou nunca foi testada em grande escala. Algumas delas podem envolver modificação climática, a chamada geoengenharia, cujos efeitos colaterais – ainda especulativos, como as próprias tecnologias – podem ser quase tão ruins quanto o mal que elas se propõem a curar.

Outro risco, apontado pelo climatólogo britânico Kevin Anderson em comentário recente na revista Science, é essas tecnologias virarem uma espécie de desculpa para a humanidade não fazer o que realmente precisa para mitigar a mudança climática: parar de usar combustíveis fósseis e desmatar florestas.

“Ficamos numa situação muito desconfortável com várias tecnologias e metodologias que estão sendo propostas para emissões negativas”, disse Krug. “Agora, numa situação em que você não tem uma solução a não ser esta, aí vai ser uma decisão moral. Porque aí você vai ter dilema com as pequenas ilhas, você vai ter um problema de sobrevivência de alguns países.”

Ela disse esperar, por outro lado, que o relatório mostre que existem tecnologias maduras o suficiente para serem adotadas sem a necessidade de recorrer a esquemas mirabolantes.

“Acho que há espaço para começarmos a pensar em alternativas”, afirmou, lembrando que, quanto mais carbono cortarmos rápido, menos teremos necessidade dessas novas tecnologias.

Em entrevista ao OC, concedida dois dias depois de voltar do encontro do IPCC na Tailândia e minutos antes de embarcar para outra reunião, na Noruega, Thelma Krug falou sobre suas expectativas para o relatório e sobre os bastidores da negociação para fechar seu escopo – que opôs, para surpresa de ninguém, as nações insulares e a petroleira Arábia Saudita.

A sra. coordenou o comitê científico que definiu o índice temas que serão tratados no relatório do IPCC sobre os impactos de um aquecimento de 1,5oC. A entrega dessa coordenação a uma cientista de um País em desenvolvimento foi deliberada?

O IPCC decidiu fazer três relatórios especiais neste ciclo: um sobre 1,5oC, um sobre oceanos e um sobre terra. O presidente do IPCC [o coreano Hoesung Lee] achou por bem que se formasse um comitê científico e cada um dos vice-presidentes seria responsável por um relatório especial. Então ele me designou para o de 1,5oC, designou a Ko Barrett [EUA] para o de oceanos e o Youba [Sokona, Mali] para o de terra. O comitê foi formado para planejar o escopo: número de páginas, título, sugestões para cada capítulo. E morreu ali. Por causa da natureza do relatório, que será feito no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza, houve também a participação de duas pessoas da área de ciências sociais, de fora do IPCC. Agora, no começo de novembro, sai uma chamada para nomeações. Serão escolhidos autores principais, coordenadores de capítulos e revisores.

Quantas pessoas deverão produzir o relatório?

No máximo cem. Considerando que vai ter gente do birô também. Todo o birô do IPCC acaba envolvido, são 30 e poucas pessoas, que acabam aumentando o rol de participantes.

A sra. vai participar?

Participarei, e participarei bastante. Os EUA fizeram um pedido para que o presidente do comitê científico tivesse um papel de liderança no relatório. Isso porque, para esse relatório, eu sinto algo que eu não sentia tanto para os outros: se não fosse eu acho que seria difícil. Porque teve muita conversa política.

Quando um país levanta uma preocupação, eu tenho de entender mais a fundo onde a gente vai ter que ter flexibilidade para construir uma solução. Eu acho que foi muito positivo o fato de o pessoal me conhecer há muitos anos e de eu ter a liberdade de conversar com uma Arábia Saudita com muita tranquilidade, de chegar para as pequenas ilhas e conversar com muita tranquilidade e tentar resolver as preocupações.

Por exemplo, quando as pequenas ilhas entraram com a palavra loss and damage [perdas e danos], para os EUA isso tem uma conotação muito política, e inaceitável para eles no contexto científico. No fórum científico, tivemos de encontrar uma forma que deixasse as pequenas ilhas confortáveis sem mencionar a expressão loss and damage, mas captando com bastante propriedade aquilo que eles queriam dizer com isso. Acabou sendo uma negociação com os autores, com os cientistas e com o pessoal do birô do painel para chegar numa acomodação que deixasse a todos satisfeitos.

E qual era a preocupação dos sauditas?

Na reunião anterior, que definiu o escopo do trabalho, a gente saiu com seis capítulos bem equilibrados entre a parte de ciências naturais e a parte de ciência social. Por exemplo, essa parte de desenvolvimento sustentável, de erradicação da pobreza, o fortalecimento do esforço global para tratar mudança do clima. E os árabes não queriam perder esse equilíbrio. E as pequenas ilhas diziam que o convite da Convenção foi para fazer um relatório sobre impactos e trajetórias de emissões.

Mas as ilhas estavam certas, né?

De certa maneira, sim. O que não foi certo foi as ilhas terem aceitado na reunião de escopo que o convite fosse aceito pelo IPCC “no contexto de fortalecer o esforço global contra a ameaça da mudança climática, do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza”.

Eles abriram o escopo.

A culpa não foi de ninguém, eles abriram. A partir do instante em que eles abriram você não segura mais. Mas isso requereu também um jogo de cintura para tirar um pouco do peso do desenvolvimento sustentável e fortalecer o peso relativo dos capítulos de impactos e trajetórias de emissões.

Essa abertura do escopo enfraquece o relatório?

Não. Porque esse relatório vai ter 200 e poucas páginas, e cem delas são de impactos e trajetórias. Alguns países achavam que já havia muito desenvolvimento sustentável permeando os capítulos anteriores, então por que você ia ter um capítulo só para falar de desenvolvimento sustentável? Esse capítulo saiu de 40 páginas para 20 para justamente fortalecer a contribuição relativa de impactos e trajetórias do relatório. E foi uma briga, porque as pequenas ilhas queriam mais um capítulo de impactos e trajetórias. Esse relatório é mais para eles. Acima de qualquer coisa, os mais interessados nesse relatório são as pequenas ilhas.

Um dos desafios do IPCC com esse relatório é justamente encontrar literatura sobre 1,5oC, porque ela é pouca. Em parte porque 1,5oC era algo que as pessoas não imaginavam que seria possível atingir, certo?

Exato.

Porque o sistema climático tem uma inércia grande e as emissões do passado praticamente nos condenam a 1,5oC. Então qual é o ponto de um relatório sobre 1,5oC?

O ponto são as emissões negativas. O capítulo 4 do relatório dirá o que e como fazer. Faremos um levantamento das tecnologias existentes e emergentes e a agilidade com que essas tecnologias são desenvolvidas para estarem compatíveis em segurar o aumento da temperatura em 1.5oC. Vamos fazer uma revisão na literatura, mas eu não consigo te antecipar qualquer coisa com relação à forma como vamos conseguir ou não chegar a essas emissões negativas. Mas é necessário: sem elas eu acho que não dá mesmo.

A sra. acha, então, que as emissões negativas podem ser uma das grandes mensagens desse novo relatório…

Isso já ocorreu no AR5 [Quinto Relatório de Avaliação do IPCC, publicado em 2013 e 2014]. Porque não tinha jeito, porque você vai ter uma emissão residual. Só que no AR5 não tínhamos muita literatura disponível.

Quando se vai falar também da velocidade com a qual você consegue implementar essas coisas… o relatório também toca isso aí no contexto atual. Mas, no sufoco, essas coisas passam a ter outra velocidade, concorda? Se você demonstrar que a coisa está ficando feia, e está, eu acho que isso sinaliza para o mundo a necessidade de ter uma agilização maior no desenvolvimento e na implementação em larga escala de tecnologias que vão realmente levar a emissões negativas no final deste século.

Nós temos esse tempo todo?

Para 1,5oC é bem complicado. Em curto prazo, curtíssimo prazo, você precisa segurar as emissões, e aí internalizar o que você vai ter de emissões comprometidas. De tal forma que essas emissões comprometidas estariam sendo compensadas pelas tecnologias de emissões negativas. Esse é muito o meu pensamento. Vamos ver como isso acabará sendo refletido no relatório em si.

Haverá cenários específicos para 1,5oC rodados pelos modelos climáticos?

Tem alguma coisa nova, mas não tem muita coisa. Eles devem usar muita coisa que foi da base do AR5, até porque tem de ter comparação com 2oC. A não ser que rodem de novo para o 2oC. Precisamos entender o que existe de modelagem nova e, se existe, se ela está num nível de amadurecimento que permita que a gente singularize esses modelos para tratar essa questão nesse novo relatório.

Há cerca de 500 cenários para 2oC no AR5, e desses 450 envolvem emissões negativas em larga escala.

Para 1,5oC isso vai aumentar. Para 1,5oC vai ter de acelerar a redução de emissões e ao mesmo tempo aumentar a introdução de emissões negativas nesses modelos.

Há alguns dias o climatologista Kevin Anderson, diretor-adjunto do Tyndall Centre, no Reino Unido, publicou um comentário na revista Science dizendo que as emissões negativas eram um “risco moral por excelência”, por envolver competição por uso da terra, tecnologias não testadas e que vão ter de ser escaladas muito rápido. A sra. concorda?

Eu acho que essa questão de geoengenharia é uma das coisas que vão compor essa parte das emissões negativas. E aí talvez ele tenha razão: o mundo fica assustado com as coisas que vêm sendo propostas. Porque são coisas loucas, sem o amadurecimento necessário e sem a maneira adequada de se comunicar com o público. Mas vejo também que haverá tempo para um maior amadurecimento disso.

Mas concordo plenamente que ficamos numa situação muito desconfortável com várias tecnologias e metodologias que estão sendo propostas para emissões negativas. Mas esse é meu ponto de vista. Agora, numa situação em que você não tem uma solução a não ser esta, aí vai ser uma decisão moral. Porque aí você vai ter dilema com as pequenas ilhas, você vai ter um problema de sobrevivência de alguns países.

Deixe-me ver se entendi o seu ponto: a sra. acha que há um risco de essas tecnologias precisarem ser adotadas e escaladas sem todos os testes que demandariam num cenário ideal?

Fica difícil eu dizer a escala disso. Sem a gente saber o esforço que vai ser possível fazer para cortar emissões em vez de ficar pensando em compensar muito fortemente o residual, fica difícil dizer. Pode ser que já haja alguma tecnologia amadurecida antes de começar a pensar no que não está amadurecido. Acho que há espaço para começarmos a pensar em alternativas.

Agora, entre você falar: “Não vou chegar a 1,5oC porque isso vai exigir implementar tecnologias complicadas e que não estão amadurecidas” e isso ter uma implicação na vida das pequenas ilhas… isso também é uma preocupação moral. É um dilema. Eu tenho muita sensibilidade com a questão de geoengenharia hoje. E não sou só eu. O IPCC tem preocupação até em tratar esse tema. Mas é a questão do dilema. O que eu espero que o relatório faça é indicar o que precisa ser feito. Na medida em que você vai fazendo maiores reduções, você vai diminuindo a necessidade de emissões negativas. É essa análise de sensibilidade que os modelos vão fazer.

Observatório do Clima

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Cientistas propõem projeto para criar genoma humano sintético (O Globo)

O Globo, 02/06/2016

Imagem de reprodução de DNA de hélice quádrupla – Divulgação/Jean-Paul Rodriguez

WASHINGTON — Um grupo de cientistas propôs, nesta quinta-feira, um projeto ambicioso para criar um genoma humano sintético, que tornaria possível a criação de seres humanos sem a necessidade de pais biológicos. Esta possibilidade levanta polêmica sobre o quanto a vida humana pode ou deve ser manipulada.

O projeto, que surgiu em uma reunião de cientistas da Universidade Harvard, nos EUA, no mês passado, tem como objetivo desenvolver e testar o genoma sintético em células dentro de laboratório ao longo de dez anos. O genoma sintético humano envolve a utilização de produtos químicos para criar o DNA presente nos cromossomas humanos. A meta foi relatada na revista “Science” pelos 25 especialistas envolvidos.

Os cientistas propuseram lançar, ainda este ano, o que chamaram de Projeto de Escrita do Genoma Humano e afirmaram que iriam envolver o público nessa discussão, que incluiria questões éticas, legais e sociais.

Os especialistas esperam arrecadar US$ 100 milhões — o equivalente a R$ 361 milhões — em financiamento público e privado para lançar o projeto este ano. No entanto, eles consideram que os custos totais serão inferiores aos US$ 3 milhões utilizados no Projeto do Genoma Humano original, que mapeou pela primeira vez o DNA humano.

O novo projecto “incluirá a engenharia completa do genoma de linhas de células humanas e de outros organismos importantes para a agricultura e saúde pública, ou aqueles que interpretar as funções biológicas humanas”, escreveram na “Science” os 25 cientistas, liderados pelo geneticista Jef Boeke, do Centro Médico Langone, da Universidade de Nova York.

Justiça pré-científica (Folha de S.Paulo)

Editorial

18/10/2015  02h00

A situação é surreal. Decisões judiciais têm obrigado a USP a produzir e fornecer a pessoas com câncer uma substância cujos efeitos não são conhecidos, que não teve sua eficácia comprovada e, pior, jamais foi submetida a testes de segurança em seres humanos.

As liminares concedidas não só ignoram princípios básicos da pesquisa científica como também colocam em risco a vida dos mais de mil pacientes autorizados a receber um composto a respeito do qual praticamente nada se sabe.

Estudada por um professor do Instituto de Química da USP de São Carlos, a fosfoetanolamina só passou por experimentos em células e animais, nos quais mostrou algum potencial contra certos cânceres.

Noticia-se que o docente, seguro das possibilidades terapêuticas da substância –que não pode ser considerada um remédio–, a distribuía por conta própria. Em 2014, uma portaria da universidade interrompeu o fornecimento.

Iniciou-se, então, uma disputa judicial. Centenas de liminares determinando que a USP providenciasse a droga foram concedidas na primeira instância, mas, em setembro, terminaram suspensas pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

No começo de outubro, o ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, ordenou que um paciente recebesse cápsulas de fosfoetanolamina. Ato contínuo, o presidente do TJ-SP, José Renato Nalini, reconsiderou a suspensão de entrega da substância.

A argumentação dos magistrados denuncia profundo desconhecimento dos protocolos universalmente adotados para o desenvolvimento de fármacos.

Fachin, por exemplo, parece considerar o registro na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) um detalhe desimportante. Não é. Trata-se de garantia de que a droga passou por todos os testes devidos –razão pela qual nem sequer há pedido de registro da fosfoetanolamina na agência.

Nalini, por sua vez, afirma que “não se podem ignorar os relatos de pacientes que apontam melhora no quadro clínico”. Ocorre que a ausência de testes controlados torna impossível saber se os alegados progressos decorreram de propriedades do composto.

Mais: sem as pesquisas apropriadas, não se podem descartar efeitos colaterais e graves problemas gerados pela interação com substâncias presentes em medicamentos.

Compreende-se que a luta contra o câncer leve pacientes a buscar todo tipo de tratamento –mas essa é uma questão individual. O Poder Judiciário, entretanto, ao decidir casos dessa natureza, não pode atropelar as normas de validação científica.

‘Não podemos brincar de Deus com as alterações no genoma humano’, alerta ONU (ONU)

Publicado em Atualizado em 07/10/2015

A modificação do código genético permite tratar doenças como o câncer, mas pode gerar mudanças hereditárias. UNESCO pede uma regulamentação clara sobre os procedimentos científicos e informação à população.

Foto: Flickr/ ynse

“Terapia genética poderia ser o divisor de águas na história da medicina e a alteração no genoma é sem dúvida um dos maiores empreendimentos da ciência em nome da humanidade”, afirmou a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) sobre um relatório publicado pelo Comitê Internacional de Bioética (IBC) nesta segunda-feira (5).

O IBC acrescentou, no entanto, que intervenções no genoma humano deveriam ser autorizadas somente em casos preventivos, diagnósticos ou terapêuticos que não gerem alterações para os descendentes. O relatório destaca também a importância da regulamentação e informação clara aos consumidores.

O documento ressaltou os avanços na possibilidade de testes genéticos em casos de doenças hereditárias, por meio da terapia genética, o uso de células tronco embrionárias na pesquisa médica e uso de clones e alterações genéticas para fins medicinais. São citadas também novas técnicas que podem inserir, tirar e corrigir o DNA, podendo tratar ou curar o câncer e outras doenças. Porém, estas mesmas técnicas também possibilitam mudanças no DNA, como determinar a cor dos olhos de um bebê, por exemplo.

“O grande medo é que podemos estar tentando “brincar de Deus” com consequências imprevisíveis” e no final precipitando a nossa própria destruição”, alertou o antigo secretário-geral da ONU, Kofi Annan em 2004, quando perguntado qual seria a linha ética que determinaria o limite das alterações no genoma humano. Para responder a essa questão, os Estados-membros da UNESCO adotaram em 2005 a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos que lida com os dilemas éticos levantados pelas rápidas mudanças na medicina, na ciência e tecnologia.

“Nobres Selvagens” na Ilustríssima (Folha de S.Paulo) de domingo, 22 de fevereiro de 2015

Antropólogos, índios e outros selvagens

RICARDO MIOTO
ilustração ANA PRATA

22/02/2015  03h05

RESUMO Livro do antropólogo Napoleon Chagnon que aborda suas pesquisas entre os ianomâmis é lançado no Brasil. Em entrevista, autor, que direcionou sua carreira para uma interpretação evolutiva do comportamento indígena, fala sobre suas conclusões e comenta a recepção, muitas vezes negativa, de sua obra entre seus pares.

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Sobre Napoleon Chagnon, 76, há só uma unanimidade: trata-se do pesquisador mais polêmico da antropologia contemporânea.É

Nesta entrevista, o americano –que lança agora no Brasil o livro “Nobres Selvagens: Minha Vida entre Duas Tribos Perigosas: os Ianomâmis e os Antropólogos” pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha– afirma que a antropologia brasileira representa o que há de mais atrasado no pensamento anticientífico nessa área.

Chagnon critica ainda alguns brasileiros ligados à temática indígena, como o líder ianomâmi Davi Kopenawa, “manipulado por antropólogos e ONGs”, e o cineasta José Padilha, autor do documentário “Segredos da Tribo”, que “deveria se limitar a filmar Robocop”.

Ana Prata

Chagnon estudou os ianomâmis do Brasil e, principalmente, da Venezuela a partir de 1964 e ao longo de 35 anos, em 25 viagens que totalizaram 5 anos entre os índios. Foi o pioneiro no contato com várias tribos isoladas, que acredita serem uma janela para as sociedades pré-históricas nas quais o gênero Homo viveu por milhões de anos.

Foi visto com antipatia por diversos colegas antropólogos por propor explicações darwinianas para o comportamento dos índios –e dos humanos em geral– e ao escrever, em 1968, um livro em que tratava amplamente da violência entre os índios e no qual, desde o título, “Yanomamö: The Fierce People” (sem tradução no Brasil), chamava os ianomâmis de “o povo feroz”. Despertou inimizades ao se afastar dos colegas antropólogos, que acreditava mais interessados em fazer política do que ciência, e se aproximar de geneticistas.

Foi em 1988, porém, que causou a fúria dos colegas, ao publicar na revista “Science” um estudo mostrando que os homens ianomâmis com assassinatos no currículo eram justamente os que tinham mais mulheres e descendentes. Em termos biológicos, a violência masculina e certo egoísmo humano seriam estratégias reprodutivas bem-sucedidas, ideia que desagradou fortemente seus colegas das humanidades.

O antropólogo sempre defendeu que os índios que estudou guerreavam movidos por uma insaciável vontade de capturar mulheres, enquanto os livros tradicionais de antropologia diziam que a guerra primitiva tinha motivos como a escassez de alimentos ou de terra.

Chagnon diz que seus críticos são marxistas movidos pela ideologia de que os conflitos humanos se explicam pela luta de classes ou por disputas materiais, e não por motivos mais animalescos, como a busca por sucesso sexual.

Ele afirma que nenhum colega pôde apontar falhas nos dados publicados na “Science”. No entanto, antropólogos questionam seu procedimento não só nesse caso como em outros trabalhos (leia ao lado).

Em 2000, o jornalista Patrick Tierney publicou o livro “Trevas no Eldorado” (lançado no Brasil em 2002, pela Ediouro), acusando Chagnon e colegas, entre outras coisas, de terem espalhado sarampo deliberadamente entre os índios. As acusações foram investigadas pela Associação Americana de Antropologia, que inocentou os pesquisadores da grave acusação.

Na entrevista abaixo, feita por telefone, Chagnon trata ainda de temas como a higiene dos índios e os riscos da selva.

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Folha – O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou na internet a publicação do seu livro no Brasil, dizendo que o sr. está ligado à “direita boçalmente cientificista”.

Napoleon Chagnon – A ideia de que o comportamento humano tem uma natureza biológica, moldada pela evolução, além da cultura, sofreu muita oposição nas últimas décadas de quem tem uma visão marxista. Está havendo uma mudança de paradigma, mas os antropólogos brasileiros são o último reduto dessa oposição e sempre tentaram impedir meu trabalho.

Marxistas não gostam de explicações que não envolvam a luta por recursos materiais. Para eles, isso explica tudo. Eles diziam, por exemplo, que a causa da guerra entre os ianomâmis era a escassez de proteína –uma tribo atacaria a outra em busca de carne. Nossas observações mostraram, porém, que não havia correlação. Eles tinham abundância de proteína; lutavam, na verdade, por mulheres.

Nos EUA, cientistas importantes, como meu grande amigo Steven Pinker e o professor Jared Diamond, escreveram recentemente livros demonstrando a relevância crescente da psicologia evolutiva.

Os antropólogos latino-americanos me atacam, mas não têm dados para rebater as conclusões que proponho, porque não gostam de trabalho de campo. Eles gostam de argumentos teóricos, de ficar sentados nas suas cadeiras na universidade fazendo ativismo. No entanto, para entender o mundo, você tem de coletar informações a fim de testar suas previsões e teorias. Essa é a base do método científico. A tendência pós-modernista é dizer que não há verdade, que tudo é social ou político. Isso é a morte da ciência.

Esses críticos dizem que sua visão dos ianomâmis é muito negativa. Citam trechos do seu livro em que o sr. descreve criticamente os hábitos de higiene dos índios, dizendo que eles espalhavam muco em tudo.

Tenho muitas críticas à minha própria civilização também, como o excesso de filas. Os ianomâmis não têm uma teoria da transmissão de doenças via germes. Então assoam o nariz na mão e passam no cabelo, nos outros, até na minha bermuda [risos]. A primeira coisa que quis aprender na língua deles foi “não encoste em mim, suas mãos estão sujas”, mas não adiantou. Você se acostuma.

Na verdade, você percebe que há coisas mais sérias com que se preocupar. A vida na tribo é perigosa. Há muitas cobras. Um bebê de uma tribo ianomâmi em que vivi sumiu, e os pais concluíram que a única explicação era que tivesse sido comido por uma anaconda. Há ainda muitos insetos, há onças, muitos outros incômodos.

Como é a sua relação com o líder ianomâmi Davi Kopenawa?

Ele é manipulado pelos seus mentores, seus conselheiros políticos, a maioria antropólogos e ONGs, que dizem a ele o que ele deve declarar. Ouço que muitos jornalistas brasileiros têm essa percepção, mas sabem que é impopular dizer isso em público.

As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos.

Pois é. Veja, em uma das minhas visitas aos ianomâmis no Brasil, Kopenawa proibiu o piloto do meu avião de utilizar o combustível que tinha guardado perto de uma das tribos em que ele tinha influência. Ele queria a todo custo que eu ficasse isolado na floresta, fez isso deliberadamente. O piloto teve de conseguir combustível com outros colegas. Essa é uma das razões que me levaram a não ter uma opinião muito positiva a respeito dele.

Kopenawa critica vocês por não devolverem amostras de sangue que coletaram entre os índios em 1967 para estudos científicos na área de genética e que foram parar em bancos de universidades dos EUA.

Sou simpático a esse pedido. Mas essas amostras são 99% de tribos venezuelanas, não brasileiras. Seria horrível se entregássemos tal sangue para os ianomâmis brasileiros, como Kopenawa. Uma tribo ficaria muito assustada de saber que seus vizinhos têm o sangue de seus ancestrais, eles acreditam que isso poderia ser utilizado para fazer magia negra, por exemplo.

É importante dizer que, influenciadas por antropólogos, lideranças ianomâmis tornaram impossível hoje, para qualquer pesquisador, ir a suas tribos e coletar amostras de sangue; foram convencidos de que isso foi um crime terrível que cometemos. Dessa forma, nenhum pesquisador da área biomédica pode agora fazer estudos que envolvam coleta de amostras. Os ianomâmis vetaram para sempre qualquer pesquisa que possa beneficiar a sua saúde e dependa de exames de sangue.

Eu gosto muito dos ianomâmis. Fiquei muitos anos com eles. Eles merecem ser mais bem representados. É nítido que eles precisam de instituições que permitam acesso à medicina moderna, por exemplo. Eles precisam de ajuda.

De qualquer forma, eu não coletei amostras de sangue. Eu só ajudei os médicos a fazê-lo. Eu sou antropólogo. Não estou nem aí para o que acontecerá com as amostras de sangue congeladas nos EUA. Mas seria irresponsável se fossem entregues aos índios errados.

O sr. assistiu ao documentário “Os Segredos da Tribo” (2010), do brasileiro José Padilha?

Padilha mentiu para mim, foi muito desonesto. Ele disse que faria um filme equilibrado, mas nunca mencionou que as acusações feitas contra mim foram completamente desmentidas [pela Associação Americana de Antropologia]. Ele contratou um missionário que falava a língua ianomâmi para fazer as entrevistas com os índios. Esse missionário, amigo meu, depois veio me avisar que Padilha direcionava as entrevistas contra mim, que tudo era feito para criar a impressão de que os ianomâmis me odiavam. O filme é ridículo.

Além disso, Padilha lançou o filme e desapareceu, nunca respondeu às minhas ligações. Na apresentação do filme no festival de Sundance, ele não só não me convidou como chamou três antropólogos inimigos meus para debater. Um deles, Terence Turner, que teve participação ativa na elaboração do filme, me acusava de ser o Mengele das tribos ianomâmis. É doentio. Padilha deveria se limitar a filmar “Robocop”.

Depois de trabalhar muitos anos nas universidades do Michigan e de Missouri, o sr. agora é professor aposentado. Aposentou-se também da pesquisa científica?

Não. Continuo trabalhando com os dados que coletei nas tribos ao longo desses anos todos. Estou para publicar vários artigos em revistas importantes, como a “Science”, mostrando o impacto de conceitos caros à biologia, como o parentesco, na organização das tribos ianomâmis. Se os antropólogos brasileiros não gostam do meu trabalho, ainda não viram nada [risos]. No caso do público brasileiro, espero que os leitores encontrem no meu livro agora publicado uma melhor compreensão da natureza humana, seja no comportamento dos povos indígenas ou no de um vizinho.

RICARDO MIOTO, 25, é editor de “Ciência” e “Saúde” da Folha.

ANA PRATA, 34, é artista plástica.

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Livro contribui para distanciar ciências humanas e biológicas

André Strauss

22/02/2015  03h09

Por sua alegada coragem em sustentar hipóteses fundamentadas em princípios darwinianos, o antropólogo americano Napoleon Chagnon, que dedicou sua carreira a estudar a violência entre os índios ianomâmis, apresenta-se em “Nobres Selvagens” [trad. Isa Mara Lando, Três Estrelas, 608 págs., R$ 89,90] como vítima dos mais diversos ataques e preconceitos por parte de seus pares.

Os antropólogos culturais, os religiosos salesianos, os ativistas políticos e os próprios ianomâmis são retratados como grupos ferozes ou biofóbicos. Já Chagnon seria apenas um inocente antropólogo de Michigan. A tese não convence.

Embora o antropólogo pretenda ser um expoente da síntese entre biologia e antropologia, suas proposições são bastante limitadas e, muitas vezes, equivocadas. Exemplo disso é partir do princípio de que uma sociedade não contatada é o mesmo que uma sociedade não impactada, atribuindo aos ianomâmis condição análoga à de sociedades paleolíticas. Propor um contratualismo hobbesiano baseado na luta por mulheres também soa ingênuo.

Em seu livro, Napoleon Chagnon insiste na noção anacrônica de “ciência pura”, desmerecendo a militância pró-indígena dos antropólogos brasileiros como um capricho do politicamente correto.

Mesmo reconhecendo-se que em diversas ocasiões seus detratores exageraram, esse tipo de postura maniqueísta do autor não contribui para a necessária superação dos conflitos epistemológicos e políticos que seguem existindo, ainda que ligeiramente mitigados, entre as chamadas ciências humanas e biológicas.

Um famoso filósofo darwiniano certa vez reconheceu que as teorias antropológicas de cunho biológico têm, inegavelmente, o péssimo hábito de atrair os mais indesejáveis colaboradores. Daí a importância da cada vez maior politização dos bioantropólogos e o movimento explícito por parte deles para impedir que esses associados participem de seus círculos.

Ainda assim, provavelmente Chagnon não é culpado das acusações mais graves que lhe foram imputadas, tal como a de disseminar propositalmente uma epidemia de sarampo entre os indígenas ou a de incentivar, por escambo, que eles declarassem guerras uns contra os outros a fim de que ele pudesse incluir as cenas de violência em um documentário que estava produzindo.

Por outro lado –e isso não se pode negar a Chagnon–, é verdade que as humanidades muitas vezes parecem apresentar aquilo que se convencionou chamar de um “desejo irresistível para a incompreensão”, resultando em acusações injustas e de caráter persecutório.

Algumas décadas atrás, ainda era possível negar a relevância de campos como a genética comportamental, a ecologia humana, a neurociência cognitiva ou a etologia de grandes símios. Atualmente, entretanto, qualquer tentativa de mantê-los fora da esfera antropológica é um exercício vão.

Mais importante, a estratégia comumente utilizada no passado de atrelar os desdobramentos oriundos dessas áreas a implicações nefastas para a dignidade humana, torna-se, além de injusta, muito perigosa.

Juntos, antropólogos e biólogos precisam elaborar uma narrativa capaz de ressignificar esses novos elementos através de uma ótica benigna. Afinal, eles passarão, inevitavelmente, a fazer parte do arcabouço teórico de ambas as disciplinas.

ANDRÉ STRAUSS, 30, é antropólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha.

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Trajetória do pesquisador é marcada por querelas

Marcelo Leite

22/02/2015  03h13

Não é trivial resumir as objeções que a antropologia cultural levanta contra Napoleon Chagnon. A controvérsia tem quase meio século, e a tarefa fica mais complicada quando muitos dos antropólogos relevantes do Brasil se recusam a dar entrevistas sobre o caso.

O panorama se turvou de vez em 2000, com o livro “Trevas no Eldorado”. Nele o jornalista Patrick Tierney acusava Chagnon e o médico James Neel de, em 1968, terem causado uma epidemia de sarampo entre os ianomâmis da Venezuela e experimentado nos índios um tipo perigoso de vacina, além de negar-lhes socorro médico.

Chagnon e Neel foram depois inocentados dessas acusações graves. Bruce Albert, antropólogo e crítico de Chagnon que trabalha há 36 anos com os ianomâmis, já escreveu sobre a ausência de fundamento das alegações de Tierney.

Ana Prata

Nem por isso Albert deixa de assinalar sérios erros éticos da dupla. Para ele, os ianomâmis foram usados, sem saber, como grupo de controle para estudos sobre efeitos de radiação nuclear no sangue de sobreviventes de bombardeios em Hiroshima e Nagasaki.

Chagnon, capataz de Neel na expedição, obtinha amostras de sangue em troca de machados, facões e panelas. Embora essa prática perdurasse nos anos 1960-70, Albert ressalva que regras exigindo consentimento informado já vigiam desde 1947 (Código de Nuremberg) e 1964 (Declaração de Helsinque).

Os reparos ao trabalho de Chagnon abarcam também a própria ciência. Ele se diz superior aos antropólogos tradicionais, que acusa de relativistas pós-modernos, xingamento comum nos setores cientificistas da academia americana.

A polêmica teve início com o livro “Yanomamö: The Fierce People”, em que Chagnon apresentou sua tese de que ianomâmis são uma relíquia ancestral da espécie humana: selvagens com compulsão pela guerra como forma de obter mulheres, escassas devido à prática do infanticídio feminino.

Os críticos da etnografia de Chagnon afirmam que ele nunca comprovou o infanticídio seletivo. Com efeito, a explicação foi abandonada em outros estudos, como um famigerado artigo de 1988 no periódico científico “Science”.

O trabalho recorre a dados demográficos coletados por Chagnon para corroborar sua noção, bem ao gosto da sociobiologia, de que os homens mais violentos eram os que tinham mais mulheres e filhos. Esses seriam os que os ianomâmis chamam “unokai” –segundo o autor, os mais temidos no grupo (e, por isso, mais prolíficos).

Albert, Jacques Lizot e outros antropólogos consideram que ele misturou alhos com bugalhos. “Unokai” não seria um atributo individual, mas o estado de impureza (simbólica) daquele que mata alguém com armas ou feitiçaria, ou mesmo só entra em contato com o sangue de cadáveres de inimigos.

Além disso, em incursões contra outras aldeias, os guerreiros muitas vezes dão golpes e flechadas em adversários já mortos. Isso os tornaria “unokai”, não homicidas.

Os mais admirados não seriam esses, mas os “waitheri”, algo como “valorosos”, que se distinguem não só pela valentia, mas também pela capacidade de liderar, de falar bem, até pelo humor.

Não bastasse isso, os críticos apontam manipulação de números. Para inflar seus dados e chegar a 44% de homens que teriam participado de mortes e tinham até o triplo de filhos na comparação com os não “unokai”, Chagnon teria excluído da amostra jovens de 20 a 25 anos e homens mortos –violentos ou não, com ou sem filhos.

Em fevereiro de 2013, o antropólogo Marshall Sahlins renunciou à Academia Nacional de Ciências dos EUA após o ingresso de Chagnon. Num artigo em que explicava o ato, defendeu que um antropólogo alcança entendimento superior de outros povos quando toma seus integrantes como semelhantes –e não objetos naturais, “selvagens”, ao modo de Chagnon.

“É claro que esse não é o único meio de conhecer os outros. Podemos também utilizar nossa capacidade simbólica para tratá-los como objetos físicos”, escreveu. “Mas não obteremos o mesmo conhecimento dos modos simbolicamente ordenados da vida humana, do que é a cultura, ou até a mesma certeza empírica.”

MARCELO LEITE, 57, é repórter especial e colunista da Folha.

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Morte sistemática de Ianomâmis é um tabu

Leão Serva

23/02/2015  02h00

Folha publicou com grande destaque na edição de domingo (22) a notícia do lançamento do livro “Nobres Selvagens” (pela Três Estrelas, selo do Grupo Folha), de autoria do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon. Títulos na capa e no caderno da Ilustríssima chamaram a obra de “livro tabu”.

Trata-se de um exagero baseado no discurso persecutório do autor, que sempre responde às críticas a seu trabalho com alegações de perseguição pessoal ou boicote. Uma pesquisa no Google News apresenta 872 respostas com notícias sobre o antropólogo e 64 referências ao livro, incluindo veículos de grande prestígio internacional como “The New York Times” e “Washington Post”.

No Brasil, certamente a obra não foi tema de reportagens simplesmente porque não havia sido lançada.

Na edição, textos de Marcelo Leite e André Strauss compilam as principais fragilidades apontadas pelos críticos da obra de Chagnon.

Uma bem importante, no entanto, não foi mencionada: o antropólogo dá pouca importância ao caráter simbólico das expressões da cultura que aparecem nos depoimentos de índios (e de brancos também, é bom que se diga), o que o leva a tomar o que ouve literalmente. Assim, em sua entrevista, é quase infantil a descrição dos perigos de uma aldeia Ianomâmi. Os medos que Chagnon menciona que concentrariam a atenção dos índios para longe dos cuidados médicos (risco de onças e cobras) são próprios de um alienígena. Já os índios criam cobras em casa para comer ratos; sabem que onças têm medo dos homens e, em situações raras, quando se aproximam furtivamente da periferia da aldeia para tocaiar uma criança, logo são capturadas pelos índios, como eu mesmo testemunhei. Não quer dizer que não haja medo, mas o antropólogo o amplifica para reforçar o estereótipo de atraso.

A história de que um casal ianomâmi teria atribuído o desaparecimento de seu filhinho a uma anaconda esfomeada é bizarra: o bebê na aldeia não fica um minuto longe dos outros e uma sucuri no lento processo de engolir uma criança seria vista por dúzias de pessoas e morta. Chagnon certamente não entendeu o que lhe foi dito ou tomou por verdade uma mentira (vale lembrar que um “civilizado” banqueiro suíço também mente).

Em texto mais antigo, Chagnon apontava o gesto de bater no peito, comum em festas de ianomâmis como expressão da violência da cultura desses grupos. Ora, o mesmo movimento pode ser encontrado diariamente em culturas mais “evoluídas”, segundo seu critério, das grandes cidades da Europa e dos EUA (nas missas católicas quando se diz “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”) à Mesopotâmia, berço das civilizações (onde soldados contemporâneos reproduzem o gesto antes de ataques de infantaria). Chagnon não leva em conta o alicerce básico do estudo da antropologia, que as culturas humanas são simultâneas, embora diferentes na expressão material.

Por fim, para desfazer as críticas feitas pelo líder Davi Kopenawa, criou a história de que ele é manipulado por antropólogos. A Folha parte dessa premissa para questionar Chagnon: “As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos”, ao que o autor diz: “Pois é”, e segue sua catilinária.

Trata-se de uma inverdade que qualquer repórter que fale bem português ou ianomâmi pode comprovar. Eu entrevistei Kopenawa três vezes em épocas e lugares diferentes, duas delas sem aviso prévio. Me aproximei, pedi para falar e conversamos sem mediação. Uma vez, em seu escritório em Boa Vista, ele pediu que outras pessoas (que eu não conhecia, índios e brancos) saíssem da sala para ser entrevistado. Fala fluentemente um português simples (de brasileiro não universitário) com forte sotaque. É preciso ter calma e prestar atenção, por vezes pedir que repita para entender a pronúncia de algumas palavras.

A última vez que o encontrei foi numa entrevista para a revista Serafina, com hora marcada. Também ficou só, enquanto eu estava acompanhado da jovem fotógrafa Helena Wolfenson, da Folha. É possível que estrangeiros que falem mal ou não falem português precisem de tradutor. E são certamente raras as pessoas que falam português, ianomâmi e línguas estrangeiras. Talvez daí a história de que ele se faça acompanhar de “antropólogos” ou gente de ONG.

*

O que de fato é um “tabu” (aquilo de que não se fala) na imprensa brasileira é o lento processo de abandono dos Ianomâmi à morte, em curso por incompetência ou (depois de tanto tempo) decisão do governo federal.

Como noticiei nesta coluna em maio do ano passado, as mortes de Ianomâmi por problemas de saúde cresceram nos dois governos do PT (Lula e Dilma). Muitas das doenças são simples de evitar, como provam as estatísticas da segunda metade dos anos 1990.

O aumento se deve em grande medida à interrupção dos trabalhos de medicina preventiva nas aldeias e ao crescimento dos gastos com transporte dos doentes das aldeias para a capital de Roraima, Boa Vista.

A maior parte dos custos do Ministério da Saúde com a saúde indígena em Roraima tem sido despejada em frete de aviões para levar índios a Boa Vista. São poucas as empresas de táxi aéreo, as mesmas que levam políticos locais em seus deslocamentos.

Em janeiro do ano passado, quando a entrevistei, a coordenadora do Ministério da Saúde para as áreas indígenas de Roraima, Maria de Jesus do Nascimento, explicou o aumento das mortes dizendo: “Não, dinheiro não falta… Foi problema de gestão, mesmo”.

Na área Ianomâmi, uma médica cubana do programa Mais Médicos se desesperava: “Não tenho antibióticos, não tenho oxigênio, não tenho equipamentos”. Eu perguntei o que fazia: “Não quero mas sou forçada a mandar os índios de avião para Boa Vista”. O meio se tornou o fim. A saúde dos índios se tornou desculpa para enriquecer as empresas de táxi aéreo.

Quem procura no mesmo Google News notícias sobre as mortes de Ianomâmi pela improbidade dos órgãos de saúde local só encontra quatro notícias, uma delas do espanhol El País, as demais noticiando os protestos dos índios e um debate no Congresso.

Esse genocídio lento e discreto é o verdadeiro tabu.

How to train a robot: Can we teach robots right from wrong? (Science Daily)

Date: October 14, 2014

Source: Taylor & Francis

Summary: From performing surgery and flying planes to babysitting kids and driving cars, today’s robots can do it all. With chatbots such as Eugene Goostman recently being hailed as “passing” the Turing test, it appears robots are becoming increasingly adept at posing as humans. While machines are becoming ever more integrated into human lives, the need to imbue them with a sense of morality becomes increasingly urgent. But can we really teach robots how to be good?


From performing surgery and flying planes to babysitting kids and driving cars, today’s robots can do it all. With chatbots such as Eugene Goostman recently being hailed as “passing” the Turing test, it appears robots are becoming increasingly adept at posing as humans. While machines are becoming ever more integrated into human lives, the need to imbue them with a sense of morality becomes increasingly urgent. But can we really teach robots how to be good?

An innovative piece of research recently published in the Journal of Experimental & Theoretical Artificial Intelligence looks into the matter of machine morality, and questions whether it is “evil” for robots to masquerade as humans.

Drawing on Luciano Floridi’s theories of Information Ethics and artificial evil, the team leading the research explore the ethical implications regarding the development of machines in disguise. ‘Masquerading refers to a person in a given context being unable to tell whether the machine is human’, explain the researchers — this is the very essence of the Turing Test. This type of deception increases “metaphysical entropy,” meaning any corruption of entities and impoverishment of being; since this leads to a lack of good in the environment — or infosphere — it is regarded as the fundamental evil by Floridi. Following this premise, the team set out to ascertain where ‘the locus of moral responsibility and moral accountability’ lie in relationships with masquerading machines, and try to establish whether it is ethical to develop robots that can pass a Turing test.

Six significant actor-patient relationships yielding key insights on the matter are identified and analysed in the study. Looking at associations between developers, robots, users and owners, and integrating in the research notable examples, such as Nanis’ Twitter bot and Apple’s Siri, the team identify where ethical accountabilities lie — with machines, humans, or somewhere in between?

But what really lies behind the robot-mask, and is it really evil for machines to masquerade as humans? ‘When a machine masquerades, it influences the behaviour or actions of people [towards the robot as well as their peers]’, claim the academics. Even when the disguise doesn’t corrupt the environment, it increases the chances of evil as it becomes harder for individuals to make authentic ethical decisions. Advances in the field of artificial intelligence have outpaced ethical developments and humans are now facing a new set of problems brought about by the ever-developing world of machines. Until these issues are properly addressed, the question whether we can teach robots to be good remains open.

Journal Reference:

  1. Keith Miller, Marty J. Wolf, Frances Grodzinsky. Behind the mask: machine morality. Journal of Experimental & Theoretical Artificial Intelligence, 2014; 1 DOI:10.1080/0952813X.2014.948315

Concea abre consulta pública para guia de uso de animais (MCTI)

Sociedade pode sugerir mudanças em propostas de manuais para pesquisa e ensino com primatas e estudos clínicos fora das instalações convencionais.

O Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) abriu nesta quinta-feira (25), ao publicar  no Diário Oficial da União (DOU), uma consulta pública de 21 dias para dois capítulos do Guia Brasileiro de Produção e Utilização de Animais para Atividades de Ensino ou Pesquisa Científica.

Aprovado por etapas, o guia em elaboração contempla tópicos destinados a aves, cães, gatos, lagomorfos (como coelhos e lebres) e roedores, entre outros grupos taxonômicos.

Os capítulos sob consulta tratam de “primatas não humanos” e “estudos clínicos conduzidos a campo”. Sugestões de mudanças nos textos devem ser detalhadas e justificadas por meio do preenchimento de formulários disponíveis na página do conselho e, então, encaminhadas ao endereço eletrônico consultapubl.concea@mcti.gov.br.

“Essa participação da sociedade é importante porque o guia será a base para a definição dos requisitos necessários para a solicitação do licenciamento de atividades de pesquisa e ensino com animais, sem o qual o uso de determinada espécie não será permitido, conforme estabelecido na Lei Arouca”, destaca o coordenador do Concea, José Mauro Granjeiro.

Os dois capítulos devem incorporar considerações da sociedade antes da 26ª Reunião Ordinária do Concea, em 26 e 27 de novembro, quando a instância colegiada planeja apreciar o conteúdo e aprovar os documentos finais, a serem publicados no DOU. Nos meses seguintes, outros trechos do guia têm previsão de passar por consulta pública, abrangendo outros grupos taxonômicos como peixes, ruminantes, equinos, suínos, répteis e anfíbios.

Também nesta quinta, foi publicada uma lista com 17 métodos para substituir ou reduzir o uso de animais em testes toxicológicos. Divididos em sete grupos, as técnicas servem para medir o potencial de irritação e corrosão da pele e dos olhos, fototoxicidade, absorção e sensibilização cutânea, toxicidade aguda e genotoxicidade.

Primatas – Com 73 páginas, o capítulo acerca de primatas não humanos aborda a relevância desse conjunto de animais em análises sobre doenças virais e pesquisas biomédicas. O texto associa a “estreita relação filogenética com o homem” à utilização para estudos comparativos em enfermidades humanas.

O guia detalha requisitos mínimos para as instalações, da estrutura física dos alojamentos às áreas de criação e experimentação, passando por condições ambientais, além de procedimentos de manejo, como alimentação adequada, higienização de gaiolas e objetos, formas de contenção física, enriquecimento ambiental e medicina preventiva. Métodos experimentais, cuidados veterinários e princípios de bem-estar animal também compõem o capítulo sobre primatas.

“De uma forma geral, independentemente da finalidade da criação de primatas, o alojamento deve ser composto por um recinto complexo e estimulante, que promova a boa saúde e o bem-estar psicológico e que forneça plena oportunidade de interação social, exercício e manifestação a uma variedade de comportamentos e habilidades inerentes à espécie”, indica o texto. “O recinto satisfatório deve fornecer aos animais um espaço suficiente para que eles mantenham seus hábitos normais de locomoção e de comportamento”.

Estudos a campo – A intenção do outro documento sob consulta pública é orientar pesquisadores e definir requisitos mínimos necessários para a condução de “estudos clínicos conduzidos a campo” – aqueles realizados fora das instalações de uso animal –, quanto a aspectos éticos ligados ao manejo e ao bem-estar das espécies.

“Considerando que uma das missões do Concea é garantir que os animais utilizados em qualquer tipo de pesquisa científica tenham sua integridade e bem-estar preservados, a condução dos estudos fora dos ambientes controlados das instalações para utilização de animais em atividades de ensino ou pesquisa devem se adequar às regras aplicáveis”, afirma o guia.

Criado em 2008, o Concea é uma instância colegiada multidisciplinar de caráter normativo, consultivo, deliberativo e recursal. Dentre as suas competências destacam-se, além do credenciamento das instituições que desenvolvam atividades no setor, a formulação de normas relativas à utilização humanitária de animais com finalidade de ensino e pesquisa científica, bem como o estabelecimento de procedimentos para instalação e funcionamento de centros de criação, de biotérios e de laboratórios de experimentação animal.

(MCTI)

Number-crunching could lead to unethical choices, says new study (Science Daily)

Date: September 15, 2014

Source: University of Toronto, Rotman School of Management

Summary: Calculating the pros and cons of a potential decision is a way of decision-making. But repeated engagement with numbers-focused calculations, especially those involving money, can have unintended negative consequences.


Calculating the pros and cons of a potential decision is a way of decision-making. But repeated engagement with numbers-focused calculations, especially those involving money, can have unintended negative consequences, including social and moral transgressions, says new study co-authored by a professor at the University of Toronto’s Rotman School of Management.

Based on several experiments, researchers concluded that people in a “calculative mindset” as a result of number-crunching are more likely to analyze non-numerical problems mathematically and not take into account social, moral or interpersonal factors.

“Performing calculations, whether related to money or not, seemed to encourage people to engage in unethical behaviors to better themselves,” says Chen-Bo Zhong, an associate professor of organizational behavior and human resource management at the Rotman School, who co-authored the study with Long Wang of City University of Hong Kong and J. Keith Murnighan from Northwestern University’s Kellogg School of Management.

Participants in a set of experiments displayed significantly more selfish behavior in games where they could opt to promote their self-interest over a stranger’s after exposure to a lesson on a calculative economics concept. Participants who were instead given a history lesson on the industrial revolution were less likely to behave selfishly in the subsequent games. A similar but lesser effect was found when participants were first asked to solve math problems instead of verbal problems before playing the games. Furthermore, the effect could potentially be reduced by making non-numerical values more prominent. The study showed less self-interested behavior when participants were shown pictures of families after calculations.

The results may provide further insight into why economics students have shown more self-interested behavior in previous studies examining whether business or economics education contributes to unethical corporate activity, the researchers wrote.

The study was published in Organizational Behavior and Human Decision Processes.

Journal Reference:

  1. Long Wang, Chen-Bo Zhong, J. Keith Murnighan. The social and ethical consequences of a calculative mindset. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 2014; 125 (1): 39 DOI: 10.1016/j.obhdp.2014.05.004

Money talks when it comes to acceptability of ‘sin’ companies, study reveals (Science Daily)

Date: July 30, 2014

Source: University of Toronto, Rotman School of Management

Summary: Companies who make their money in the ‘sin’ industries such as the tobacco, alcohol and gaming industries typically receive less attention from institutional investors and financial analysts. But new research shows social norms and attitudes towards these types of businesses are subject to compromise when their share price looks to be on the rise.


Companies who make their money in the “sin” industries such as the tobacco, alcohol and gaming industries typically receive less attention from institutional investors and financial analysts.

But new research shows social norms and attitudes towards these types of businesses are subject to compromise when their share price looks to be on the rise. A paper from the University of Toronto’s Rotman School of Management found that institutional shareholdings and analysts’ coverage of sin firms were low when firm performance was low but went up with rising performance expectations.

That suggests that market participants may ignore social norms and standards with the right financial reward.

“This is a way to test the trade-off between people’s non-financial and financial incentives. The boundary of people’s social norms is not a constant,” said researcher Hai Lu, an associate professor of accounting at the Rotman School. Prof. Lu co-wrote the paper with two former Rotman PhD students, McMaster University’s Kevin Veenstra and Yanju Liu, now with Singapore Management University.

The paper sheds light on why there can be a disconnect between the investment behaviour of Wall St. and the ethical expectations of ordinary people. It also suggests a worrisome implication that compromising one’s ethical values in the face of high financial rewards can become a social norm in itself.

On the brighter side, the paper also finds that strong social norms still have an influence over people’s behaviour. If social norms are strong enough and the price of ignoring them is high, this may act as a disincentive to disregard them in favour of other benefits.

This is the first study to examine whether the social acceptability of sin stocks can vary with financial performance. The researchers compared consumption and attitudinal data with information on sin firm stocks, analysts’ coverage and levels of institutional investment.

Journal Reference:

  1. Liu, Yanju and Lu, Hai and Veenstra, Kevin J. Is Sin Always a Sin? The Interaction Effect of Social Norms and Financial Incentives on Market Participants’ Behavior. Accounting, Organizations and Society, March 31, 2014 [link]

Animais: ciência em benefício da vida (O Globo)

JC e-mail 4993, de 21 de julho de 2014

Artigo de Paulo Gadelha e Wilson Savino publicado em O Globo

A percepção pública sobre as ciências e a capacidade de influenciar as políticas para seu desenvolvimento são condições essenciais da cidadania no mundo contemporâneo. Em especial, é no campo das implicações éticas que esse desafio se torna imperativo. A experimentação animal é, nesse sentido, um caso exemplar.

Nos anos recentes, temos convivido com rejeição de algumas parcelas da sociedade ao uso de animais na ciência. Muitas vezes, estes movimentos encontram ressonância também no ambiente jurídico. Existem grandes expectativas por um mundo em que o uso de animais para a experimentação científica não seja mais necessário. A comunidade científica também compartilha deste desejo. No entanto, nos argumentos que circulam, muita desinformação ainda vigora. Esclarecer o que é verdade e o que é mito se torna fundamental para que a sociedade possa se posicionar sobre o assunto.

No atual estágio da ciência mundial, e em particular no campo da saúde humana, o uso de animais permanece imprescindível para a elucidação de processos biológicos, a descoberta de novos medicamentos, vacinas e tratamentos para doenças. O aumento na expectativa e a melhoria na qualidade de vida que vemos na população se devem, em muito, às inovações médicas que dependeram e ainda dependem, em grande parte, do uso de animais.

Para o futuro, é impossível elucidar o funcionamento do cérebro , os mecanismos das doenças neurodegenerativas, a exemplo do Alzheimer, e garantir a eficácia e segurança de novos tratamentos para essas doenças que estarão cada vez mais presentes com o envelhecimento da população, sem a utilização de animais. O mesmo se aplica a uma multiplicidade de casos, entre os quais o Ebola e outras doenças emergentes.

Um mito muito comum é a ideia de que todas as pesquisas poderiam abrir mão do uso de animais. Apesar dos grandes esforços neste sentido, esta afirmativa não é verdade. A ciência tem investido no desenvolvimento de métodos alternativos, como o cultivo de células e tecidos e os modelos virtuais que recorrem à bioinformática para prever as reações dos organismos.

No entanto, ainda estamos longe de uma solução que reproduza de forma precisa as complexas interações do organismo: estes métodos são aplicáveis apenas em determinadas etapas da pesquisa e em situações específicas. A ciência brasileira também integra este empenho. Um exemplo disso é a criação do Centro Brasileiro de Validação de Métodos Alternativos (BraCVAM), que a Fiocruz lidera em parceria com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Outro mito comum é a ideia de que os cientistas utilizam animais de forma indiscriminada. Além do imperativo ético, o uso responsável e o foco no bem-estar dos animais é uma exigência legal. A ciência está submetida a diversas instâncias de regulamentação e a rigoroso controle das atividades de pesquisa. A redução do sofrimento por meio do uso de anestésicos e analgésicos, a escolha de técnicas adequadas e a necessidade de acompanhamento por veterinários são protocolos obrigatórios. Com foco na tríade substituição-redução-refinamento, o uso só é permitido quando não há alternativa conhecida, autorizando-se o menor número de animais necessário para resultados válidos e buscando-se, sempre que possível, o refinamento de técnicas e procedimentos para resultados mais precisos.

A sociedade tem protagonismo fundamental em cobrar que as instituições científicas pautem sua atuação na ética no uso de animais e é saudável para a democracia que esta vigilância atenta seja exercida. No entanto, parar a experimentação animal em pesquisas, hoje, significaria um retrocesso para a ciência e uma perda para a saúde da população e para o próprio campo da veterinária. Cabe aos pesquisadores e às instituições manterem seu compromisso de responsabilidade e ética com os animais, firmes no propósito de beneficiar a sociedade.

Paulo Gadelha é presidente da Fiocruz e Wilson Savino é diretor do Instituto Oswaldo Cruz.

(O Globo)

Artigo_OGLOBO14-07-2014

Mosquitos transgênicos no céu do sertão (Agência Pública)

Saúde

10/10/2013 – 10h36

por Redação da Agência Pública

armadilhas 300x199 Mosquitos transgênicos no céu do sertão

As armadilhas são instrumentos instalados nas casas de alguns moradores da área do experimento. As ovitrampas, como são chamadas, fazem as vezes de criadouros para as fêmeas. Foto: Coletivo Nigéria

Com a promessa de reduzir a dengue, biofábrica de insetos transgênicos já soltou 18 milhões de mosquitos Aedes aegypti no interior da Bahia. Leia a história e veja o vídeo.

No começo da noite de uma quinta-feira de setembro, a rodoviária de Juazeiro da Bahia era o retrato da desolação. No saguão mal iluminado, funcionavam um box cuja especialidade é caldo de carne, uma lanchonete de balcão comprido, ornado por salgados, biscoitos e batata chips, e um único guichê – com perturbadoras nuvens de mosquitos sobre as cabeças de quem aguardava para comprar passagens para pequenas cidades ou capitais nordestinas.

Assentada à beira do rio São Francisco, na fronteira entre Pernambuco e Bahia, Juazeiro já foi uma cidade cortada por córregos, afluentes de um dos maiores rios do país. Hoje, tem mais de 200 mil habitantes, compõe o maior aglomerado urbano do semiárido nordestino ao lado de Petrolina – com a qual soma meio milhão de pessoas – e é infestada por muriçocas (ou pernilongos, se preferir). Os cursos de água que drenavam pequenas nascentes viraram esgotos a céu aberto, extensos criadouros do inseto, tradicionalmente combatidos com inseticida e raquete elétrica, ou janelas fechadas com ar condicionado para os mais endinheirados.

Mas os moradores de Juazeiro não espantam só muriçocas nesse início de primavera. A cidade é o centro de testes de uma nova técnica científica que utiliza Aedes aegypti transgênicos para combater a dengue, doença transmitida pela espécie. Desenvolvido pela empresa britânica de biotecnologia Oxitec, o método consiste basicamente na inserção de um gene letal nos mosquitos machos que, liberados em grande quantidade no meio ambiente, copulam com as fêmeas selvagens e geram uma cria programada para morrer. Assim, se o experimento funcionar, a morte prematura das larvas reduz progressivamente a população de mosquitos dessa espécie.

A técnica é a mais nova arma para combater uma doença que não só resiste como avança sobre os métodos até então empregados em seu controle. A Organização Mundial de Saúde estima que possam haver de 50 a 100 milhões de casos de dengue por ano no mundo. No Brasil, a doença é endêmica, com epidemias anuais em várias cidades, principalmente nas grandes capitais. Em 2012, somente entre os dias 1º de janeiro e 16 de fevereiro, foram registrados mais de 70 mil casos no país. Em 2013, no mesmo período, o número praticamente triplicou, passou para 204 mil casos. Este ano, até agora, 400 pessoas já morreram de dengue no Brasil.

Em Juazeiro, o método de patente britânica é testado pela organização social Moscamed, que reproduz e libera ao ar livre os mosquitos transgênicos desde 2011. Na biofábrica montada no município e que tem capacidade para produzir até 4 milhões de mosquitos por semana, toda cadeia produtiva do inseto transgênico é realizada – exceção feita à modificação genética propriamente dita, executada nos laboratórios da Oxitec, em Oxford. Larvas transgênicas foram importadas pela Moscamed e passaram a ser reproduzidas nos laboratórios da instituição.

Os testes desde o início são financiados pela Secretaria da Saúde da Bahia – com o apoio institucional da secretaria de Juazeiro – e no último mês de julho se estenderam ao município de Jacobina, na extremidade norte da Chapada Diamantina. Na cidade serrana de aproximadamente 80 mil habitantes, a Moscamed põe à prova a capacidade da técnica de “suprimir” (a palavra usada pelos cientistas para exterminar toda a população de mosquitos) o Aedes aegypti em toda uma cidade, já que em Juazeiro a estratégia se mostrou eficaz, mas limitada por enquanto a dois bairros.

“Os resultados de 2011 e 2012 mostraram que [a técnica] realmente funcionava bem. E a convite e financiados pelo Governo do Estado da Bahia resolvemos avançar e irmos pra Jacobina. Agora não mais como piloto, mas fazendo um teste pra realmente eliminar a população [de mosquitos]”, fala Aldo Malavasi, professor aposentado do Departamento de Genética do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) e atual presidente da Moscamed. A USP também integra o projeto.

Malavasi trabalha na região desde 2006, quando a Moscamed foi criada para combater uma praga agrícola, a mosca-das-frutas, com técnica parecida – a Técnica do Inseto Estéril. A lógica é a mesma: produzir insetos estéreis para copular com as fêmeas selvagens e assim reduzir gradativamente essa população. A diferença está na forma como estes insetos são esterilizados. Ao invés de modificação genética, radiação. A TIE é usada largamente desde a década de 1970, principalmente em espécies consideradas ameaças à agricultura. O problema é que até agora a tecnologia não se adequava a mosquitos como o Aedes aegypti, que não resistiam de forma satisfatória à radiação

O plano de comunicação

As primeiras liberações em campo do Aedes transgênico foram realizadas nas Ilhas Cayman, entre o final de 2009 e 2010. O território britânico no Caribe, formado por três ilhas localizadas ao Sul de Cuba, se mostrou não apenas um paraíso fiscal (existem mais empresas registradas nas ilhas do que seus 50 mil habitantes), mas também espaço propício para a liberação dos mosquitos transgênicos, devido à ausência de leis de biossegurança. As Ilhas Cayman não são signatárias do Procolo de Cartagena, o principal documento internacional sobre o assunto, nem são cobertas pela Convenção de Aarthus – aprovada pela União Europeia e da qual o Reino Unido faz parte – que versa sobre o acesso à informação, participação e justiça nos processos de tomada de decisão sobre o meio ambiente.

Ao invés da publicação e consulta pública prévia sobre os riscos envolvidos no experimento, como exigiriam os acordos internacionais citados, os cerca de 3 milhões de mosquitos soltos no clima tropical das Ilhas Cayman ganharam o mundo sem nenhum processo de debate ou consulta pública. A autorização foi concedida exclusivamente pelo Departamento de Agricultura das Ilhas. Parceiro local da Oxitec nos testes, a Mosquito Research & Control Unit (Unidade de Pesquisa e Controle de Mosquito) postou um vídeo promocional sobre o assunto apenas em outubro de 2010, ainda assim sem mencionar a natureza transgênica dos mosquitos. O vídeo foi divulgado exatamente um mês antes da apresentação dos resultados dos experimentos pela própria Oxitec no encontro anual daAmerican Society of Tropical Medicine and Hygiene (Sociedade Americana de Medicina Tropical e Higiene), nos Estados Unidos.

A comunidade científica se surpreendeu com a notícia de que as primeiras liberações no mundo de insetos modificados geneticamente já haviam sido realizadas, sem que os próprios especialistas no assunto tivessem conhecimento. A surpresa se estendeu ao resultado: segundo os dados da Oxitec, os experimentos haviam atingido 80% de redução na população de Aedes aegypti nas Ilhas Cayman. O número confirmava para a empresa que a técnica criada em laboratório poderia ser de fato eficiente. Desde então, novos testes de campo passaram a ser articulados em outros países – notadamente subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, com clima tropical e problemas históricos com a dengue.

Depois de adiar testes semelhantes em 2006, após protestos, a Malásia se tornou o segundo país a liberar os mosquitos transgênicos entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011. Seis mil mosquitos foram soltos num área inabitada do país. O número, bem menor em comparação ao das Ilhas Cayman, é quase insignificante diante da quantidade de mosquitos que passou a ser liberada em Juazeiro da Bahia a partir de fevereiro de 2011. A cidade, junto com Jacobina mais recentemente, se tornou desde então o maior campo de testes do tipo no mundo, com mais de 18 milhões de mosquitos já liberados, segundo números da Moscamed.

“A Oxitec errou profundamente, tanto na Malásia quanto nas Ilhas Cayman. Ao contrário do que eles fizeram, nós tivemos um extenso trabalho do que a gente chama de comunicação pública, com total transparência, com discussão com a comunidade, com visita a todas as casas. Houve um trabalho extraordinário aqui”, compara Aldo Malavasi.

Em entrevista por telefone, ele fez questão de demarcar a independência da Moscamed diante da Oxitec e ressaltou a natureza diferente das duas instituições. Criada em 2006, a Moscamed é uma organização social, sem fins lucrativos portanto, que se engajou nos testes do Aedes aegypti transgênico com o objetivo de verificar a eficácia ou não da técnica no combate à dengue. Segundo Malavasi, nenhum financiamento da Oxitec foi aceito por eles justamente para garantir a isenção na avaliação da técnica. “Nós não queremos dinheiro deles, porque o nosso objetivo é ajudar o governo brasileiro”, resume.

Em favor da transparência, o programa foi intitulado “Projeto Aedes Transgênico” (PAT), para trazer já no nome a palavra espinhosa. Outra determinação de ordem semântica foi o não uso do termo “estéril”, corrente no discurso da empresa britânica, mas empregada tecnicamente de forma incorreta, já que os mosquitos produzem crias, mas geram prole programada para morrer no estágio larval. Um jingle pôs o complexo sistema em linguagem popular e em ritmo de forró pé-de-serra. E o bloco de carnaval “Papa Mosquito” saiu às ruas de Juazeiro no Carnaval de 2011.

No âmbito institucional, além do custeio pela Secretaria de Saúde estadual, o programa também ganhou o apoio da Secretaria de Saúde de Juazeiro da Bahia. “De início teve resistência, porque as pessoas também não queriam deixar armadilhas em suas casas, mas depois, com o tempo, elas entenderam o projeto e a gente teve uma boa aceitação popular”, conta o enfermeiro sanitarista Mário Machado, diretor de Promoção e Vigilância à Saúde da secretaria.

As armadilhas, das quais fala Machado, são simples instrumentos instalados nas casas de alguns moradores da área do experimento. As ovitrampas, como são chamadas, fazem as vezes de criadouros para as fêmeas. Assim é possível colher os ovos e verificar se eles foram fecundados por machos transgênicos ou selvagens. Isso também é possível porque os mosquitos geneticamente modificados carregam, além do gene letal, o fragmento do DNA de uma água-viva que lhe confere uma marcação fluorescente, visível em microscópios.

Desta forma, foi possível verificar que a redução da população de Aedes aegypti selvagem atingiu, segundo a Moscamed, 96% em Mandacaru – um assentamento agrícola distante poucos quilômetros do centro comercial de Juazeiro que, pelo isolamento geográfico e aceitação popular, se transformou no local ideal para as liberações. Apesar do número, a Moscamed continua com liberações no bairro. Devido à breve vida do mosquito (a fêmea vive aproximadamente 35 dias), a soltura dos insetos precisa continuar para manter o nível da população selvagem baixo. Atualmente, uma vez por semana um carro deixa a sede da organização com 50 mil mosquitos distribuídos aos milhares em potes plásticos que serão abertos nas ruas de Mandacaru.

“Hoje a maior aceitação é no Mandacaru. A receptividade foi tamanha que a Moscamed não quer sair mais de lá”, enfatiza Mário Machado.

O mesmo não aconteceu com o bairro de Itaberaba, o primeiro a receber os mosquitos no começo de 2011. Nem mesmo o histórico alto índice de infecção pelo Aedes aegypti fez com que o bairro periférico juazeirense, vizinho à sede da Moscamed, aceitasse de bom grado o experimento. Mário Machado estima “em torno de 20%” a parcela da população que se opôs aos testes e pôs fim às liberações.

“Por mais que a gente tente informar, ir de casa em casa, de bar em bar, algumas pessoas desacreditam: ‘Não, vocês estão mentindo pra gente, esse mosquito tá picando a gente’”, resigna-se.

Depois de um ano sem liberações, o mosquito parece não ter deixado muitas lembranças por ali. Em uma caminhada pelo bairro, quase não conseguimos encontrar alguém que soubesse do que estávamos falando. Não obstante, o nome de Itaberaba correu o mundo ao ser divulgado pela Oxitec que o primeiro experimento de campo no Brasil havia atingido 80% de redução na população de mosquitos selvagens.

Supervisora de campo da Moscamed, a bióloga Luiza Garziera foi uma das que foram de casa em casa explicando o processo, por vezes contornando o discurso científico para se fazer entender. “Eu falava que a gente estaria liberando esses mosquitos, que a gente liberava somente o macho, que não pica. Só quem pica é a fêmea. E que esses machos quando ‘namoram’ – porque a gente não pode falar às vezes de ‘cópula’ porque as pessoas não vão entender. Então quando esses machos namoram com a fêmea, os seus filhinhos acabam morrendo”.

Este é um dos detalhes mais importantes sobre a técnica inédita. Ao liberar apenas machos, numa taxa de 10 transgênicos para 1 selvagem, a Moscamed mergulha as pessoas numa nuvem de mosquitos, mas garante que estes não piquem aqueles. Isto acontece porque só a fêmea se alimenta de sangue humano, líquido que fornece as proteínas necessárias para sua ovulação.

A tecnologia se encaixa de forma convincente e até didática – talvez com exceção da “modificação genética”, que requer voos mais altos da imaginação. No entanto, ainda a ignorância sobre o assunto ainda campeia em considerável parcela dos moradores ouvidos para esta reportagem. Quando muito, sabe-se que se trata do extermínio do mosquito da dengue, o que é naturalmente algo positivo. No mais, ouviu-se apenas falar ou arrisca-se uma hipótese que inclua a, esta sim largamente odiada, muriçoca.

A avaliação dos riscos

Apesar da campanha de comunicação da Moscamed, a ONG britânica GeneWatch aponta uma série de problemas no processo brasileiro. O principal deles, o fato do relatório de avaliação de riscos sobre o experimento não ter sido disponibilizado ao público antes do início das liberações. Pelo contrário, a pedido dos responsáveis pelo Programa Aedes Transgênico, o processo encaminhado à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio, órgão encarregado de autorizar ou não tais experimentos) foi considerado confidencial.

“Nós achamos que a Oxitec deve ter o consentimento plenamente informado da população local, isso significa que as pessoas precisam concordar com o experimento. Mas para isso elas precisam também ser informadas sobre os riscos, assim como você seria se estivesse sendo usado para testar um novo medicamento contra o câncer ou qualquer outro tipo de tratamento”, comentou, em entrevista por Skype, Helen Wallace, diretora executiva da organização não governamental.

Especialista nos riscos e na ética envolvida nesse tipo de experimento, Helen publicou este ano o relatório Genetically Modified Mosquitoes: Ongoing Concerns (“Mosquitos Geneticamente Modificados: atuais preocupações”), que elenca em 13 capítulos o que considera riscos potenciais não considerados antes de se autorizar a liberação dos mosquitos transgênicos. O documento também aponta falhas na condução dos experimentos pela Oxitec.

Por exemplo, após dois anos das liberações nas Ilhas Cayman, apenas os resultados de um pequeno teste haviam aparecido numa publicação científica. No começo de 2011, a empresa submeteu os resultados do maior experimento nas Ilhas à revista Science, mas o artigo não foi publicado. Apenas em setembro do ano passado o texto apareceu em outra revista, a Nature Biotechnology, publicado como “correspondência” – o que significa que não passou pela revisão de outros cientistas, apenas pela checagem do próprio editor da publicação.

Para Helen Wallace, a ausência de revisão crítica dos pares científicos põe o experimento da Oxitec sob suspeita. Mesmo assim, a análise do artigo, segundo o documento, sugere que a empresa precisou aumentar a proporção de liberação de mosquitos transgênicos e concentrá-los em uma pequena área para que atingisse os resultados esperados. O mesmo teria acontecido no Brasil, em Itaberaba. Os resultados do teste no Brasil também ainda não foram publicados pela Moscamed. O gerente do projeto, Danilo Carvalho, informou que um dos artigos já foi submetido a uma publicação e outro está em fase final de escrita.

Outro dos riscos apontados pelo documento está no uso comum do antibiótico tetraciclina. O medicamento é responsável por reverter o gene letal e garantir em laboratório a sobrevivência do mosquito geneticamente modificado, que do contrário não chegaria à fase adulta. Esta é a diferença vital entre a sorte dos mosquitos reproduzidos em laboratório e a de suas crias, geradas no meio ambiente a partir de fêmeas selvagens – sem o antibiótico, estão condenados à morte prematura.

A tetraciclina é comumente empregada nas indústrias da pecuária e da aquicultura, que despejam no meio ambiente grandes quantidades da substância através de seus efluentes. O antibiótico também é largamente usado na medicina e na veterinária. Ou seja, ovos e larvas geneticamente modificados poderiam entrar em contato com o antibiótico mesmo em ambientes não controlados e assim sobreviverem. Ao longo do tempo, a resistência dos mosquitos transgênicos ao gene letal poderia neutralizar seu efeito e, por fim, teríamos uma nova espécie geneticamente modificada adaptada ao meio ambiente.

laboratorio 300x186 Mosquitos transgênicos no céu do sertãoA hipótese é tratada com ceticismo pela Oxitec, que minimiza a possibilidade disto acontecer no mundo real. No entanto, documento confidencial tornado público mostra que a hipótese se mostrou, por acaso, real nos testes de pesquisador parceiro da empresa. Ao estranhar uma taxa de sobrevivência das larvas sem tetraciclina de 15% – bem maior que os usuais 3% contatos pelos experimentos da empresa –, os cientistas da Oxitec descobriram que a ração de gato com a qual seus parceiros estavam alimentando os mosquitos guardava resquícios do antibiótico, que é rotineiramente usado para tratar galinhas destinadas à ração animal.

O relatório da GeneWatch chama atenção para a presença comum do antibiótico em dejetos humanos e animais, assim como em sistemas de esgotamento doméstico, a exemplo de fossas sépticas. Isto caracterizaria um risco potencial, já que vários estudos constataram a capacidade do Aedes aegypti se reproduzir em águas contaminadas – apesar de isso ainda não ser o mais comum, nem acontecer ainda em Juazeiro, segundo a Secretaria de Saúde do município.

Além disso, há preocupações quanto a taxa de liberação de fêmeas transgênicas. O processo de separação das pupas (último estágio antes da vida adulta) é feito de forma manual, com a ajuda de um aparelho que reparte os gêneros pelo tamanho (a fêmea é ligeiramente maior). Uma taxa de 3% de fêmeas pode escapar neste processo, ganhando a liberdade e aumentando os riscos envolvidos. Por último, os experimentos ainda não verificaram se a redução na população de mosquitos incide diretamente na transmissão da dengue.

Todas as críticas são rebatidas pela Oxitec e pela Moscamed, que dizem manter um rigoroso controle de qualidade – como o monitoramento constante da taxa de liberação de fêmeas e da taxa de sobrevivências das larvas sem tetraciclina. Desta forma, qualquer sinal de mutação do mosquito seria detectado a tempo de se suspender o programa. Ao final de aproximadamente um mês, todos os insetos liberados estariam mortos. Os mosquitos, segundo as instituições responsáveis, também não passam os genes modificados mesmo que alguma fêmea desgarrada pique um ser humano.

Mosquito transgênico à venda

Em julho passado, depois do êxito dos testes de campo em Juazeiro, a Oxitec protocolou a solicitação de licença comercial na Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). Desde o final de 2012, a empresa britânica possui CNPJ no país e mantém um funcionário em São Paulo. Mais recentemente, com os resultados promissores dos experimentos em Juazeiro, alugou um galpão em Campinas e está construindo o que será sua sede brasileira. O país representa hoje seu mais provável e iminente mercado, o que faz com que o diretor global de desenvolvimento de negócios da empresa, Glen Slade, viva hoje numa ponte aérea entre Oxford e São Paulo.

“A Oxitec está trabalhando desde 2009 em parceria com a USP e Moscamed, que são parceiros bons e que nos deram a oportunidade de começar projetos no Brasil. Mas agora acabamos de enviar nosso dossiê comercial à CTNBio e esperamos obter um registro no futuro, então precisamos aumentar nossa equipe no país. Claramente estamos investindo no Brasil. É um país muito importante”, disse Slade numa entrevista por Skype da sede na Oxitec, em Oxford, na Inglaterra.

A empresa de biotecnologia é uma spin-out da universidade britânica, o que significa dizer que a Oxitec surgiu dos laboratórios de uma das mais prestigiadas universidades do mundo. Fundada em 2002, desde então vem captando investimentos privados e de fundações sem fins lucrativos, tais como a Bill & Melinda Gates, para bancar o prosseguimento das pesquisas. Segundo Slade, mais de R$ 50 milhões foram gastos nesta última década no aperfeiçoamento e teste da tecnologia.

O executivo espera que a conclusão do trâmite burocrático para a concessão da licença comercial aconteça ainda próximo ano, quando a sede brasileira da Oxitec estará pronta, incluindo uma nova biofábrica. Já em contato com vários municípios do país, o executivo prefere não adiantar nomes. Nem o preço do serviço, que provavelmente será oferecido em pacotes anuais de controle da população de mosquitos, a depender o orçamento do número de habitantes da cidade.

“Nesse momento é difícil dar um preço. Como todos os produtos novos, o custo de produção é mais alto quando a gente começa do que a gente gostaria. Acho que o preço vai ser um preço muito razoável em relação aos benefícios e aos outros experimentos para controlar o mosquito, mas muito difícil de dizer hoje. Além disso, o preço vai mudar segundo a escala do projeto. Projetos pequenos não são muito eficientes, mas se tivermos a oportunidade de controlar os mosquitos no Rio de Janeiro todo, podemos trabalhar em grande escala e o preço vai baixar”, sugere.

A empresa pretende também instalar novas biofábricas nas cidades que receberem grandes projetos, o que reduzirá o custo a longo prazo, já que as liberações precisam ser mantidas indefinidamente para evitar o retorno dos mosquitos selvagens. A velocidade de reprodução do Aedes aegypti é uma preocupação. Caso seja cessado o projeto, a espécie pode recompor a população em poucas semanas.

“O plano da empresa é conseguir pagamentos repetidos para a liberação desses mosquitos todo ano. Se a tecnologia deles funcionar e realmente reduzir a incidência de dengue, você não poderá suspender estas liberações e ficará preso dentro desse sistema. Uma das maiores preocupações a longo prazo é que se as coisas começarem a dar errado, ou mesmo se tornarem menos eficientes, você realmente pode ter uma situação pior ao longo de muitos anos”, critica Helen Wallace.

O risco iria desde a redução da imunidade das pessoas à doença, até o desmantelamento de outras políticas públicas de combate à dengue, como as equipes de agentes de saúde. Apesar de tanto a Moscamed quanto a própria secretaria de Saúde de Juazeiro enfatizarem a natureza complementar da técnica, que não dispensaria os outros métodos de controle, é plausível que hajam conflitos na alocação de recursos para a área. Hoje, segundo Mário Machado da secretaria de Saúde, Juazeiro gasta em média R$ 300 mil por mês no controle de endemias, das quais a dengue é a principal.

A secretaria negocia com a Moscamed a ampliação do experimento para todo o município ou mesmo para toda a região metropolitana formada por Juazeiro e Petrolina – um teste que cobriria meio milhão pessoas –, para assim avaliar a eficácia em grandes contingentes populacionais. De qualquer forma e apesar do avanço das experiências, nem a organização social brasileira nem a empresa britânica apresentaram estimativas de preço pra uma possível liberação comercial.

“Ontem nós estávamos fazendo os primeiros estudos, pra analisar qual é o preço deles, qual o nosso. Porque eles sabem quanto custa o programa deles, que não é barato, mas não divulgam”, disse Mário Machado.

Em reportagem do jornal britânico The Observer de julho do ano passado, a Oxitec estimou o custo da técnica em “menos de” £6 libras esterlinas por pessoa por ano. Num cálculo simples, apenas multiplicando o número pela contação atual da moeda britânia frente ao real e desconsiderando as inúmeras outras variáveis dessa conta, o projeto em uma cidade de 150 mil habitantes custaria aproximadamente R$ 3,2 milhões por ano.

Se imaginarmos a quantidade de municípios de pequeno e médio porte brasileiros em que a dengue é endêmica, chega-se a pujança do mercado que se abre – mesmo desconsiderando por hora os grandes centros urbanos do país, que extrapolariam a capacidade atual da técnica. Contudo, este é apenas uma fatia do negócio. A Oxitec também possui uma série de outros insetos transgênicos, estes destinados ao controle de pragas agrícolas e que devem encontrar campo aberto no Brasil, um dos gigantes do agronegócio no mundo.

Aguardando autorização da CTNBio, a Moscamed já se preparara para testar a mosca-das-frutas transgênica, que segue a mesma lógica do Aedes aegypti. Além desta, a Oxitec tem outras 4 espécies geneticamente modificadas que poderão um dia serem testadas no Brasil, a começar por Juazeiro e o Vale do São Francisco. A região é uma das maiores produtoras de frutas frescas para exportação do país. 90% de toda uva e manga exportadas no Brasil saem daqui. Uma produção que requer o combate incessante às pragas. Nas principais avenidas de Juazeiro e Petrolina, as lojas de produtos agrícolas e agrotóxicos se sucedem, variando em seus totens as logos das multinacionais do ramo.

“Não temos planos concretos [além da mosca-das-frutas], mas, claro, gostaríamos muito de ter a oportunidade de fazer ensaios com esses produtos também. O Brasil tem uma indústria agrícola muito grande. Mas nesse momento nossa prioridade número 1 é o mosquito da dengue. Então uma vez que tivermos este projeto com recursos bastante, vamos tentar acrescentar projetos na agricultura.”, comentou Slade.

Ele e vários de seus colegas do primeiro escalão da empresa já trabalharam numa das gigantes do agronegócio, a Syngenta. O fato, segundo Helen Wallace, é um dos revelam a condição do Aedes aegypti transgênico de pioneiro de todo um novo mercado de mosquitos geneticamente modificados: “Nos achamos que a Syngenta está principalmente interessada nas pragas agrícolas. Um dos planos que conhecemos é a proposta de usar pragas agrícolas geneticamente modificadas junto com semestres transgênicas para assim aumentar a resistências destas culturas às pragas”.

“Não tem nenhum relacionamento entre Oxitec e Syngenta dessa forma. Talvez tenhamos possibilidade no futuro de trabalharmos juntos. Eu pessoalmente tenho o interesse de buscar projetos que possamos fazer com Syngenta, Basf ou outras empresas grandes da agricultura”, esclarece Glen Slade.

Em 2011, a indústria de agrotóxicos faturou R$14,1 bilhões no Brasil. Maior mercado do tipo no mundo, o país pode nos próximos anos inaugurar um novo estágio tecnológico no combate às pestes. Assim como na saúde coletiva, com o Aedes aegypti transgênico, que parece ter um futuro comercial promissor. Todavia, resta saber como a técnica conviverá com as vacinas contra o vírus da dengue, que estão em fase final de testes – uma desenvolvida por um laboratório francês, outra pelo Instituto Butantan, de São Paulo. As vacinas devem chegar ao público em 2015. O mosquito transgênico, talvez já próximo ano.

Dentre as linhagens de mosquitos transgênicos, pode surgir também uma versão nacional. Como confirmou a professora Margareth de Lara Capurro-Guimarães, do Departamento de Parasitologia da USP e coordenadora do Programa Aedes Transgênico, já está sob estudo na universidade paulista a muriçoca transgênica. Outra possível solução tecnológica para um problema de saúde pública em Juazeiro da Bahia – uma cidade na qual, segundo levantamento do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) de 2011, a rede de esgoto só atende 67% da população urbana.

* Publicado originalmente no site Agência Pública.

(Agência Pública)

Cientistas americanos conseguem clonar embriões humanos (O Globo)

Trabalho é o primeiro a obter êxito em humanos com a técnica que deu origem à ovelha Dolly

Autores dizem que não se trata de fazer clones humanos, mas sim avançar apenas até a fase de blastocisto para obter as células-tronco

Em 2004, sul-coreano anunciou o mesmo feito mas foi desmentido um ano depois

ROBERTA JANSEN

Publicado:15/05/13 – 16h03; atualizado:15/05/13 – 20h56

Clone de embrião obtido no estudoFoto: DivulgaçãoClone de embrião obtido no estudo Divulgação

OREGON. Dezesseis anos depois da clonagem do primeiro mamífero, a ovelha Dolly, cientistas conseguiram, pela primeira vez, clonar um embrião humano em seus primeiros estágios de desenvolvimento. Os protoembriões foram usados para produzir células-tronco embrionárias — capazes de se transformar em qualquer tecido do corpo —, num avanço bastante significativo e há muito tempo esperado para o tratamento de lesões e doenças graves como Parkinson, esclerose múltipla e problemas cardíacos. Especialistas envolvidos no processo garantem que o objetivo não é clonar seres humanos, mas, sim criar novas terapias personalizadas.

Tanto é assim que os embriões humanos clonados usados na pesquisa foram destruídos em estágios ainda muito iniciais de desenvolvimento, logo depois da extração das células-tronco, e não levados ao crescimento, como no caso da ovelha Dolly e de tantos outros animais clonados depois dela. A técnica usada, no entanto, foi bastante similar à que criou a ovelha. Células da pele de um indivíduo foram colocadas em um óvulo previamente esvaziado de seu material genético e estimuladas a se desenvolver. Quando atingiram a fase de blastocisto, as células-tronco embrionárias foram extraídas e os embriões destruídos. O estudo foi publicado na revista “Cell”.

Conseguir gerar grande quantidade de células-tronco do próprio paciente era uma espécie de Santo Graal da atual ciência médica, como comparou o jornalista Steve Connor, no “Independent”. Embora o procedimento tenha sido feito com animais, até agora nunca tinha sido obtido com material humano, a despeito de inúmeras tentativas. Aparentemente, a dificuldade viria da maior fragilidade do óvulo humano.

Em 2004, um grupo coordenado por Woo Suk Hwang, da Universidade Nacional de Seoul, anunciou ter produzido o primeiro embirão humano clonado e, em seguida, obtido células-tronco embionárias a partir dele. Menos de um ano depois, no entanto, o grupo, que já havia clonado um cachorro, foi acusado de fraude e desmentiu os resultados obtidos. Outros grupos tentaram, mas os embriões não passaram do estágio de 6 a 12 células.

A corrida pela obtenção das células-tronco embrionárias faz todo o sentido. Cultivadas em laboratório, essas células podem dar origem a qualquer tecido do corpo humano. Por isso, em tese ao menos, poderiam curar lesões na medula, recompor órgãos, tratar problemas graves de visão, oferecendo tratamentos inéditos para muitas doenças hoje incuráveis. Como os tecidos seriam feitos a partir do material genético do próprio paciente (que, no caso, cedeu as células de sua pele), não haveria risco algum de rejeição. A medicina personalizada alcançaria o seu ápice.

— Nossa descoberta oferece novas maneiras de gerar células-tronco embrionárias para pacientes com problemas em tecidos e órgãos — afirmou o coordenador do estudo, Shoukhrat Mitalipov, da Universidade de Ciência e Saúde do Oregon, nos EUA, em comunicado oficial sobre o estudo. — Essas células-tronco podem regenerar órgãos ou substituir tecidos danificados, levando à cura de doenças que hoje afetam milhões de pessoas.

O grupo também conseguiu observar a capacidade de diferenciação das células obtidas em tecidos específicos

— Um atento exame das células-tronco obtidas por meio desta técnica demonstrou sua capacidade de se converter, como qualquer célula-tronco embrionária normal, em diferentes tipos de células, entre elas, células nervosas, células do fígado e céluas cardíacas — disse Mitalipov, em entrevista ao “Independent”.

No entanto, o estudo já levanta sérias preocupações éticas, sobretudo em relação à criação de clones humanos. Há o temor de que a técnica seja incorporada às oferecidas por clínicas de fertilização in vitro, como alternativa para casais estéreis, por exemplo. Outros grupos argumentam que é simplesmente antiético manipular embriões humanos.

— A pesquisa tem como único objetivo gerar células-tronco embrionárias para tratar doenças graves; e não aumentar as chances de produzir bebês clonados — garantiu Mitalipov. — Este não é o nosso foco e não acreditamos que nossas descobertas sejam usadas por outros grupos como um avanço na clonagem humana reprodutiva.

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/ciencia/cientistas-americanos-conseguem-clonar-embrioes-humanos-8399684#ixzz2TlwDWsur  © 1996 – 2013. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

The Ethics of Resurrecting Extinct Species (Science Daily)

Apr. 8, 2013 — At some point, scientists may be able to bring back extinct animals, and perhaps early humans, raising questions of ethics and environmental disruption.

Within a few decades, scientists may be able to bring back the dodo bird from extinction, a possibility that raises a host of ethical questions, says Stanford law Professor Hank Greely. (Credit: Frederick William Frohawk/Public domain image)

Within a few decades, scientists may be able to bring back the dodo bird from extinction, a possibility that raises a host of ethical questions, says Stanford law Professor Hank Greely.

Twenty years after the release ofJurassic Park, the dream of bringing back the dinosaurs remains science fiction. But scientists predict that within 15 years they will be able to revive some more recently extinct species, such as the dodo or the passenger pigeon, raising the question of whether or not they should — just because they can.

In the April 5 issue of Science, Stanford law Professor Hank Greely identifies the ethical landmines of this new concept of de-extinction.

“I view this piece as the first framing of the issues,” said Greely, director of the Stanford Center for Law and the Biosciences. “I don’t think it’s the end of the story, rather I think it’s the start of a discussion about how we should deal with de-extinction.”

In “What If Extinction Is Not Forever?” Greely lays out potential benefits of de-extinction, from creating new scientific knowledge to restoring lost ecosystems. But the biggest benefit, Greely believes, is the “wonder” factor.

“It would certainly be cool to see a living saber-toothed cat,” Greely said. “‘Wonder’ may not seem like a substantive benefit, but a lot of science — such as the Mars rover — is done because of it.”

Greely became interested in the ethics of de-extinction in 1999 when one of his students wrote a paper on the implications of bringing back wooly mammoths.

“He didn’t have his science right — which wasn’t his fault because approaches on how to do this have changed in the last 13 years — but it made me realize this was a really interesting topic,” Greely said.

Scientists are currently working on three different approaches to restore lost plants and animals. In cloning, scientists use genetic material from the extinct species to create an exact modern copy. Selective breeding tries to give a closely-related modern species the characteristics of its extinct relative. With genetic engineering, the DNA of a modern species is edited until it closely matches the extinct species.

All of these techniques would bring back only the physical animal or plant.

“If we bring the passenger pigeon back, there’s no reason to believe it will act the same way as it did in 1850,” said co-author Jacob Sherkow, a fellow at the Stanford Center for Law and the Biosciences. “Many traits are culturally learned. Migration patterns change when not taught from generation to generation.”

Many newly revived species could cause unexpected problems if brought into the modern world. A reintroduced species could become a carrier for a deadly disease or an unintentional threat to a nearby ecosystem, Greely says.

“It’s a little odd to consider these things ‘alien’ species because they were here before we were,” he said. “But the ‘here’ they were in is very different than it is now. They could turn out to be pests in this new environment.”

When asked whether government policies are keeping up with the new threat, Greely answers “no.”

“But that’s neither surprising nor particularly concerning,” he said. “It will be a while before any revised species is going to be present and able to be released into the environment.”

Greely and Sherkow recommend that the government leave de-extinction research to private companies and focus on drafting new regulations. Sherkow says the biggest legal and ethical challenge of de-extinction concerns our own long-lost ancestors.

“Bringing back a hominid raises the question, ‘Is it a person?’ If we bring back a mammoth or pigeon, there’s a very good existing ethical and legal framework for how to treat research animals. We don’t have very good ethical considerations of creating and keeping a person in a lab,” said Sherkow. “That’s a far cry from the type of de-extinction programs going on now, but it highlights the slippery slope problem that ethicists are famous for considering.”

Journal Reference:

  1. J. S. Sherkow, H. T. Greely. What If Extinction Is Not Forever? Science, 2013; 340 (6128): 32 DOI:10.1126/science.1236965

Emerging Ethical Dilemmas in Science and Technology (Science Daily)

Dec. 17, 2012 — As a new year approaches, the University of Notre Dame’s John J. Reilly Center for Science, Technology and Values has announced its inaugural list of emerging ethical dilemmas and policy issues in science and technology for 2013.

The Reilly Center explores conceptual, ethical and policy issues where science and technology intersect with society from different disciplinary perspectives. Its goal is to promote the advancement of science and technology for the common good.

The center generated its inaugural list with the help of Reilly fellows, other Notre Dame experts and friends of the center.

The center aimed to present a list of items for scientists and laypeople alike to consider in the coming months and years as new technologies develop. It will feature one of these issues on its website each month in 2013, giving readers more information, questions to ask and resources to consult.

The ethical dilemmas and policy issues are:

Personalized genetic tests/personalized medicine

Within the last 10 years, the creation of fast, low-cost genetic sequencing has given the public direct access to genome sequencing and analysis, with little or no guidance from physicians or genetic counselors on how to process the information. What are the potential privacy issues, and how do we protect this very personal and private information? Are we headed toward a new era of therapeutic intervention to increase quality of life, or a new era of eugenics?

Hacking into medical devices

Implanted medical devices, such as pacemakers, are susceptible to hackers. Barnaby Jack, of security vendor IOActive, recently demonstrated the vulnerability of a pacemaker by breaching the security of the wireless device from his laptop and reprogramming it to deliver an 830-volt shock. How do we make sure these devices are secure?

Driverless Zipcars

In three states — Nevada, Florida, and California — it is now legal for Google to operate its driverless cars. Google’s goal is to create a fully automated vehicle that is safer and more effective than a human-operated vehicle, and the company plans to marry this idea with the concept of the Zipcar. The ethics of automation and equality of access for people of different income levels are just a taste of the difficult ethical, legal and policy questions that will need to be addressed.

3-D printing

Scientists are attempting to use 3-D printing to create everything from architectural models to human organs, but we could be looking at a future in which we can print personalized pharmaceuticals or home-printed guns and explosives. For now, 3-D printing is largely the realm of artists and designers, but we can easily envision a future in which 3-D printers are affordable and patterns abound for products both benign and malicious, and that cut out the manufacturing sector completely.

Adaptation to climate change

The differential susceptibility of people around the world to climate change warrants an ethical discussion. We need to identify effective and safe ways to help people deal with the effects of climate change, as well as learn to manage and manipulate wild species and nature in order to preserve biodiversity. Some of these adaptation strategies might be highly technical (e.g. building sea walls to stem off sea level rise), but others are social and cultural (e.g., changing agricultural practices).

Low-quality and counterfeit pharmaceuticals

Until recently, detecting low-quality and counterfeit pharmaceuticals required access to complex testing equipment, often unavailable in developing countries where these problems abound. The enormous amount of trade in pharmaceutical intermediaries and active ingredients raise a number of issues, from the technical (improvement in manufacturing practices and analytical capabilities) to the ethical and legal (for example, India ruled in favor of manufacturing life-saving drugs, even if it violates U.S. patent law).

Autonomous systems

Machines (both for peaceful purposes and for war fighting) are increasingly evolving from human-controlled, to automated, to autonomous, with the ability to act on their own without human input. As these systems operate without human control and are designed to function and make decisions on their own, the ethical, legal, social and policy implications have grown exponentially. Who is responsible for the actions undertaken by autonomous systems? If robotic technology can potentially reduce the number of human fatalities, is it the responsibility of scientists to design these systems?

Human-animal hybrids (chimeras)

So far scientists have kept human-animal hybrids on the cellular level. According to some, even more modest experiments involving animal embryos and human stem cells violate human dignity and blur the line between species. Is interspecies research the next frontier in understanding humanity and curing disease, or a slippery slope, rife with ethical dilemmas, toward creating new species?

Ensuring access to wireless and spectrum

Mobile wireless connectivity is having a profound effect on society in both developed and developing countries. These technologies are completely transforming how we communicate, conduct business, learn, form relationships, navigate and entertain ourselves. At the same time, government agencies increasingly rely on the radio spectrum for their critical missions. This confluence of wireless technology developments and societal needs presents numerous challenges and opportunities for making the most effective use of the radio spectrum. We now need to have a policy conversation about how to make the most effective use of the precious radio spectrum, and to close the digital access divide for underserved (rural, low-income, developing areas) populations.

Data collection and privacy

How often do we consider the massive amounts of data we give to commercial entities when we use social media, store discount cards or order goods via the Internet? Now that microprocessors and permanent memory are inexpensive technology, we need think about the kinds of information that should be collected and retained. Should we create a diabetic insulin implant that could notify your doctor or insurance company when you make poor diet choices, and should that decision make you ineligible for certain types of medical treatment? Should cars be equipped to monitor speed and other measures of good driving, and should this data be subpoenaed by authorities following a crash? These issues require appropriate policy discussions in order to bridge the gap between data collection and meaningful outcomes.

Human enhancements

Pharmaceutical, surgical, mechanical and neurological enhancements are already available for therapeutic purposes. But these same enhancements can be used to magnify human biological function beyond the societal norm. Where do we draw the line between therapy and enhancement? How do we justify enhancing human bodies when so many individuals still lack access to basic therapeutic medicine?

Should Physicians Prescribe Cognitive Enhancers to Healthy Individuals? (Science Daily)

Dec. 17, 2012 — Physicians should not prescribe cognitive enhancers to healthy individuals, states a report being published today in the Canadian Medical Association Journal (CMAJ)Dr. Eric Racine and his research team at the IRCM, the study’s authors, provide their recommendation based on the professional integrity of physicians, the drugs’ uncertain benefits and harms, and limited health care resources.

Prescription stimulants and other neuropharmaceuticals, generally prescribed to treat attention deficit disorder (ADD), are often used by healthy people to enhance concentration, memory, alertness and mood, a phenomenon described as cognitive enhancement.

“Individuals take prescription stimulants to perform better in school or at work,” says Dr. Racine, a Montréal neuroethics specialist and Director of the Neuroethics research unit at the IRCM. “However, because these drugs are available in Canada by prescription only, people must request them from their doctors. Physicians are thus important stakeholders in this debate, given the risks and regulations of prescription drugs and the potential for requests from patients for such cognitive enhancers.”

The prevalence of cognitive enhancers used by students on university campuses ranges from 1 per cent to 11 per cent. Taking such stimulants is associated with risks of dependence, cardiovascular problems, and psychosis.

“Current evidence has not shown that the desired benefits of enhanced mental performance are achieved with these substances,” explainsCynthia Forlini, first author of the study and doctoral student in Dr. Racine’s research unit. “With uncertain benefits and clear harms, it is difficult to support the notion that physicians should prescribe a medication to a healthy individual for enhancement purposes.”

“Physicians in Canada provide prescriptions through a publicly-funded health care system with expanding demands for care,” adds Ms. Forlini. “Prescribing cognitive enhancers may therefore not be an appropriate use of resources. The concern is that those who need the medication for health reasons but cannot afford it will be at a disadvantage.”

“An international bioethics discussion has surfaced on the ethics of cognitive enhancement and the role of physicians in prescribing stimulants to healthy people,” concludes Dr. Racine. “We hope that our analysis prompts reflection in the Canadian medical community about these cognitive enhancers.”

Éric Racine’s research is funded through a New Investigator Award from the Canadian Institutes for Health Research (CIHR). The report’s co-author is Dr. Serge Gauthier from the McGill Centre for Studies in Aging.

Journal Reference:

  1. Cynthia Forlini, Serge Gauthier, and Eric Racine. Should physicians prescribe cognitive enhancers to healthy individuals? Canadian Medical Association Journal, 2012; DOI: 10.1503/cmaj.121508

Novo código de ética da ABA

Com auxilio da Comissão de Ética da ABA, o código de Ética da Associação foi alterado. A aprovação unanime, por parte do Conselho Diretor, ocorreu em reunião realizada dia 22 de outubro de 2012, em Águas de Lindóia/SP, por ocasião do 36º Encontro Anual da ANPOCS. O código pode ser consultado no site da ABA, link: http://www.abant.org.br/?code=3.1. Confira abaixo, abaixo, as alterações realizadas:

Constituem direitos dos antropólogos e das antropólogas, enquanto pesquisadores e pesquisadoras:

1. Direito ao pleno exercício da pesquisa, livre de qualquer tipo de censura no que diga respeito ao tema, à metodologia e ao objeto da investigação.
2. Direito de acesso às populações e às fontes com as quais o/a pesquisador/a precisa trabalhar.
3. Direito de preservar informações confidenciais.
4. Direito de autoria do trabalho antropológico, mesmo quando o trabalho constitua encomenda de organismos públicos ou privados.
5. O direito de autoria implica o direito de publicação e divulgação do resultado de seu trabalho.
6. Direito de autoria e proteção contra o plágio.
7. Os direitos dos antropólogos devem estar subordinados aos direitos das populações que são objeto de pesquisa e têm como contrapartida as responsabilidades inerentes ao exercício da atividade científica.

Constituem direitos das populações que são objeto de pesquisa a serem respeitados pelos antropólogos e antropólogas:

1. Direito de ser informadas sobre a natureza da pesquisa.
2. Direito de recusar-se a participar de uma pesquisa.
3. Direito de preservação de sua intimidade, de acordo com seus padrões culturais.
4. Garantia de que a colaboração prestada à investigação não seja utilizada com o intuito de prejudicar o grupo investigado.
5. Direito de acesso aos resultados da investigação.
6. Direito de autoria e co-autoria das populações sobre sua própria produção cultural.
7. Direito de ter seus códigos culturais respeitados e serem informadas, através de várias formas sobre o significado do consentimento informado em pesquisas realizadas no campo da saúde.

Constituem responsabilidades dos antropólogos e das antropólogas:

1. Oferecer informações objetivas sobre suas qualificações profissionais e a de seus colegas sempre que for necessário para o trabalho a ser executado.
2. Na elaboração do trabalho, não omitir informações relevantes, a não ser nos casos previstos anteriormente.
3. Realizar o trabalho dentro dos cânones de objetividade e rigor inerentes à prática científica.

To Bring Back the Extinct (Edge)

A Conversation with Ryan Phelan [8.28.12]

 One of the fundamental questions here is, is extinction a good thing? Is it “nature’s way?” And if it’s nature’s way, who in the world says anyone should go about changing nature’s way? If something was meant to go extinct, then who are we to screw around with it and bring it back? I don’t think it’s really nature’s way. I think that the extinction that we’ve seen since man is 99.9 percent caused by man.

RYAN PHELAN is the Executive Director of Revive and Restore, a project within The Long Now Foundation, with a mission to provide deep ecological enrichment through extinct species revival.


[ ED. NOTE: The following conversation took place at the seventh annual Science Foo Camp (SciFoo), hosted by Nature, Digital Science, O’Reilly Media, and Google, August 3 – 5, 2012, at the Googleplex in Mountain View, California. Special thanks to Philip Campbell of Nature, Timo Hannay of Digital Science, Tim O’Reilly of O’Reilly Media (“Foo” stands for “friends of O’Reilly”), and Chris DiBona and Cat Allman of Google. —JB ]


TO BRING BACK THE EXTINCT

[RYAN PHELAN:] The big question that I’m asking right now is: If we could bring back an extinct species, should we? Could we? Should we? How does it benefit society? How does it advance the science? And the truth is, we’re just at the beginning of trying to figure all this out. I got inspired really thinking about this through my involvement with George Church, and I’ve been on the periphery of an organization that he started called The Personal Genome Project. Over the last seven years I’ve been working primarily in personalized medicine, keeping my eye on the application of genomic medicine in different areas, and the growth of genomics and the shockingly drop in the sequencing price, and the cost of sequencing, and what that means to all different areas of science.

One thing led to another and we started talking with George about what it would mean if we could actually apply this towards the de-extinction of species. It turns out, of course, that in George’s lab he’s pioneering in all these methods. Right now, George’s approach of basically editing the genome starts to make the concept of bringing something back really plausible.


Video 


There are right now probably three different methods that are being used to contemplate bringing back species. The most traditional is what they refer to as back breeding, and we see that going on right now with the ancient cattle called aurochs. Basically, what they do is they start by taking the strains of cattle that are closest to the ancient aurochs and try to breed back in much the way they do with plant biology and hybridization.

The other area that is being done is in cloning, and the best example of that is with the Spanish Pyrenean ibex (a wild mountain goat). They actually were able to get some cellular matter from the last remaining ibex to clone. The Spanish scientists that did all that work feel that that cloning is completely viable. The truth is that when they did that ibex, it only lasted seven minutes, because of a particular lung frailty. That’s quite common in cloning anything. That is just something that cloning technology has to deal with, so he feels really confident if he had funding he could clone an extinct species now without a problem, and solve the lung issue.

The third concept is the one that we’re focused on right now: genome editing that George Church is pioneering. The way it would work (and again, I’m not the scientist here, George is better to explain it) the idea would be to take the most closely related extant living species and actually compare it genomically with the extinct species, and basically gene by gene match it, and edit it accordingly.

The species of choice right now that we’re looking at helping, aiding, and abetting, is the passenger pigeon, and the passenger pigeon, as you may know, is an iconic bird that had flocks in the billions just over a hundred years ago. A hundred and fifty years ago the passenger pigeon darkened the sky when it would pass. They say that these flocks were so thick in the sky that when they passed it could take a mile for a flock of birds to go by. They would darken the sky. It’s an amazing concept. We don’t have anything like that today. When that happened, it went from being the most prolific bird, and in just 30 years to being extinct. Why does that matter? Well, it matters for a lot of reasons. What was going on ecologically there? What did that bird bring to that whole eastern deciduous forest? God knows, it had a tremendous impact. I think we’re just now trying to figure out what would that impact might be like today if you were to reintroduce it.

The idea with the passenger pigeon is to take a closely related relative, which is the and-tailed pigeon, and sequence that genome. We’re sequencing that right now at Harvard, with an intern that we’re helping to fund, named Ben Novak. Right now we’re in the process of doing that work, and then they will basically edit the band-tail genome until the band-tail walks, and talks, and flies like a passenger pigeon. That’s how resurgence will occur.

We’re using the term “resurgence” because as you can imagine, there’s a lot of controversy over if you could bring back an extinct species, is it invasive? Would it become an invasive species? And is this a bad thing?

We’re in the process of starting a new organization. It’s called Revive and Restore. If we were to say it has a mission, it’s to help rethink extinction, to basically bring back extinct species if it’s the right thing to do. We’re contemplating the ethics involved in all this. This fall we’ll have a conference that we’re sponsoring in Washington DC, and I think it’s going to be thrilling. We’re bringing in 25 to 35 the scientists from all over the world that are actually doing extinction work— from the Korean team that’s working on the wooly mammoth, to the New Zealand and Australian teams that are de-extincting some species yet to be identified. They’re calling it the Lazarus Project. We don’t really know what it is. It could be the Moa. There are different theories about what it is. But, hopefully, in the fall we’ll learn more about that.

We’ll be talking with these scientists about the different technologies that they’re deploying, of which this genome hybridization technique that George is doing is going to be one and I’m sure there are others. We’ll be talking about the ethics of re-wilding. It’s one thing to actually bring back a species in the lab. It’s another to actually release it into the wild. And so we’ll be talking to scientists that are working in captive breeding, like the San Diego Zoo, with the California ondor. We’ll be talking with the frozen zoos that are doing this kind of banking of genetic material, and trying to figure out what kind of ethical framework we could create, so that when these scientists actually start to succeed in these fields we can somehow socialize this in the public discourse.

What I fear, quite honestly, is backlash that we’ve seen around genetically modified foods, that these organisms will be deemed genetically modified, which, of course, they are. This is genome engineering, and there may be way too much of a concern over what happens when they go into the wild.

One of the fundamental questions here is, is extinction a good thing? Is it “nature’s way”? And if it’s nature’s way, who in the world says anyone should go about changing nature’s way? If something was meant to go extinct, then who are we to screw around with it and bring it back? I don’t think it’s really nature’s way. I think that the extinction that we’ve seen since man is 99.9 percent caused by man.

I’m going to just take the passenger pigeon as an example, not because it’s my favorite bird, but because it’s so iconic. If we are the ones that are responsible for blasting it out of the sky, do we have a little bit of responsibility to think about bringing it back now that we have science that can easily allow for it? I say “easily,” but in the scheme of things, it’s still going to be a lot of heavy lifting to help make this happen.

What does all this mean to the average citizen? A good example of a reintroduction of a species is the peregrine falcon. The peregrine falcon had actually gone extinct as a species in the East. For many of us bird lovers, we love the peregrine falcon. We love seeing that bird fly and soar like it does. But, it was really only through captive breeding and a reintroduction of a sub-species from the Rocky Mountain area that we even have a peregrine now flourishing on the East Coast. Where the peregrine falcon really wants to nest is on bridges or on the sides of skyscrapers, and that bird is now evolving into a bird that is better adapted for working in an urban environment.

What’s going to happen is, even if we were to have a passenger pigeon, they’re not going to be in the flocks of the billions any more. Their impact with agriculture will be lessened, because of an obvious reduction in size. The truth is, if anything happened with that bird, we know it’s a tremendous game bird that people loved, and probably people would be shooting it for good meat, good game.

One question is: If you could actually bring back anything, would you bring back the California grizzly bear? A species that could eat people? Well, we recently were at the California Academy of Sciences, up front and personal with “Monarch”, the last California grizzly, a beautiful specimen there, and we were joking, and not really joking, saying, “Well, what if you could genome edit the California grizzly so that it didn’t like the taste of people?” That would be kind of interesting! Big megafauna, good for the land, but take the fear of it out for people. The truth is all of this could someday be possible.

Some people have said to us, “Well, are you one click away from “Jurassic Park” here?” The truth is, we’re not. “Jurassic Park” was a good movie, if that, but the science is not there at all today, and the reason for that is that we don’t have a close relative of the dinosaurs. We just don’t have it. The only reason that this concept of bringing back an extinct species works right now is if you can take those genomes and actually edit them based on either a close living relative, or you’ve got viable cell tissue, and we don’t have that. So right now that one is not a worry. But could it be someday? Sure.

The concept of Revive and Restore is an idea that might well blossom on the West Coast, here in Silicon Valley, but the truth is that the pressures that I think all these scientists who are working in de-extinction worldwide will feel will be around this whole question of: Who are you to play God and bring back an extinct species? Who are you to introduce something that could be “invasive”? Whether it’s in academia or it’s being done in industry, I think the science is going to be challenged around this really intriguing issue. That’s why I think an organization like Revive and Restore can actually help with the public discourse.

Somebody has to responsibly help the industry and academia think through these heady issues, and I think we’re going to start that dialogue this fall. But in the absence of it, what we’re going to see is the, “Oh, my God, we’re cloning this dangerous species again,” or we’re doing something horrific with our chicken to avoid the Avian flu. These things are going to happen.

Everyone wants to bring up the Neanderthals, and interestingly enough, anyone who’s working around the Neanderthal genome is reluctant to participate in our fall workshop, because they last thing they want is to be criticized or implicated in bringing back a Neanderthal. It’s just verboten.

I’ve been dealing with this whole genetic exceptionalism now for almost a decade with personalized medicine. There has always been a hypersensitivity to anything genetic and I’m looking forward to when we get over that.


The most interesting part of all this is going to be where the science goes, what we learn from doing this. It’s not going to be necessarily about bringing back something. It’s going to be about what we learn.

Just like everything that we know that’s really innovative in science, you never know the unintended benefits or what the outcomes are going to be. Specifically, around the study of extinct species we’re going to probably learn what made them vulnerable to extinction. The implications for endangered species are tremendous. We don’t really know why things go extinct. We can surmise, but right now we could actually start to look at the genetic level, at what some of these contributory factors were, and I think that’s really exciting.

THE REALITY CLUB:

Jennifer Jacquet:  To the question of who is Ryan Phelan, or anybody else, to bring an extinct species back I would counter: who was anyone to make these animals extinct to begin with?  An estimated 869 species have gone officially and, so far, irreversibly extinct just since the 16th century, and 290 more species are considered critically endangered and possibly extinct — and in almost all cases the finger points to humans.  Many of these disappearances, like the Tasmanian tiger, the Great auk, and the Steller’s sea cow, were precipitated by a relatively small group that never asked their fellow earthlings, let alone future generations, if they wanted these animals gone forever.  Should the entire group have been queried, my guess is that its majority, certainly in the case of the large, delicate, and vegetarian Steller’s sea cow, would have answered in a resounding “No.”  (Admittedly the response might be different in the case of the saber-toothed cat, for instance, which went extinct not long after the invention of farming.)  To be in favor of human-induced extinction seems one of the pillars of myopia.

But what is a genome edited songbird brought back from extinction to do against the poachers in the Mediterranean?  What happens when the reconstituted baby Yangtze River dolphin (last seen in 2005) is released into still sullied Chinese waters?  We already have captive-bred tigers, but that hasn’t stopped the habitat fragmentation and human takeover that has led to fewer than 3500 wild tigers (there were 100,000 in 1900) today in India.  In other words, does this technical solution, which is elegant and scientifically interesting, as Phelan points out, distract from old boring problems?  Or does it necessitate more work on pollution, habitat loss, and human behavior because the species that would be the usual victims now have a shot at immortality?

The Cambridge Declaration on Consciousness

On this day of July 7, 2012, a prominent international group of cognitive neuroscientists, neuropharmacologists, neurophysiologists, neuroanatomists and computational neuroscientists gathered at The University of Cambridge to reassess the neurobiological substrates of conscious experience and related behaviors in human and non-human animals. While comparative research on this topic is naturally hampered by the inability of non-human animals, and often humans, to clearly and readily communicate about their internal states, the following observations can be stated unequivocally:

 The field of Consciousness research is rapidly evolving. Abundant new techniques and strategies for human and non-human animal research have been developed. Consequently, more data is becoming readily available, and this calls for a periodic reevaluation of previously held preconceptions in this field. Studies of non-human animals have shown that homologous brain circuits correlated with conscious experience and perception can be selectively facilitated and disrupted to assess whether they are in fact necessary for those experiences. Moreover, in humans, new non-invasive techniques are readily available to survey the correlates of consciousness.

 The neural substrates of emotions do not appear to be confined to cortical structures. In fact, subcortical neural networks aroused during affective states in humans are also critically important for generating emotional behaviors in animals. Artificial arousal of the same brain regions generates corresponding behavior and feeling states in both humans and non-human animals. Wherever in the brain one evokes instinctual emotional behaviors in non-human animals, many of the ensuing behaviors are consistent with experienced feeling states, including those internal states that are rewarding and punishing. Deep brain stimulation of these systems in humans can also generate similar affective states. Systems associated with affect are concentrated in subcortical regions where neural homologies abound. Young human and nonhuman animals without neocortices retain these brain-mind functions. Furthermore, neural circuits supporting behavioral/electrophysiological states of attentiveness, sleep and decision making appear to have arisen in evolution as early as the invertebrate radiation, being evident in insects and cephalopod mollusks (e.g., octopus).

 Birds appear to offer, in their behavior, neurophysiology, and neuroanatomy a striking case of parallel evolution of consciousness. Evidence of near human-like levels of consciousness has been most dramatically observed in African grey parrots. Mammalian and avian emotional networks and cognitive microcircuitries appear to be far more homologous than previously thought. Moreover, certain species of birds have been found to exhibit neural sleep patterns similar to those of mammals, including REM sleep and, as was demonstrated in zebra finches, neurophysiological patterns, previously thought to require a mammalian neocortex. Magpies in particular have been shown to exhibit striking similarities to humans, great apes, dolphins, and elephants in studies of mirror self-recognition.

 In humans, the effect of certain hallucinogens appears to be associated with a disruption in cortical feedforward and feedback processing. Pharmacological interventions in non-human animals with compounds known to affect conscious behavior in humans can lead to similar perturbations in behavior in non-human animals. In humans, there is evidence to suggest that awareness is correlated with cortical activity, which does not exclude possible contributions by subcortical or early cortical processing, as in visual awareness. Evidence that human and nonhuman animal emotional feelings arise from homologous subcortical brain networks provide compelling evidence for evolutionarily shared primal affective qualia.

We declare the following: “The absence of a neocortex does not appear to preclude an organism from experiencing affective states. Convergent evidence indicates that non-human animals have the neuroanatomical, neurochemical, and neurophysiological substrates of conscious states along with the capacity to exhibit intentional behaviors. Consequently, the weight of evidence indicates that humans are not unique in possessing the neurological substrates that generate consciousness. Nonhuman animals, including all mammals and birds, and many other creatures, including octopuses, also possess these neurological substrates.”

* The Cambridge Declaration on Consciousness was written by Philip Low and edited by Jaak Panksepp, Diana Reiss, David Edelman, Bruno Van Swinderen, Philip Low and Christof Koch. The Declaration was publicly proclaimed in Cambridge, UK, on July 7, 2012, at the Francis Crick Memorial Conference on Consciousness in Human and non-Human Animals, at Churchill College, University of Cambridge, by Low, Edelman and Koch. The Declaration was signed by the conference participants that very evening, in the presence of Stephen Hawking, in the Balfour Room at the Hotel du Vin in Cambridge, UK. The signing ceremony was memorialized by CBS 60 Minutes.

Manifesto de neurocientistas sobre a consciência animal

16/07/2012

Comportamento animal

Quase humanos (Veja)

Neurocientistas publicam manifesto afirmando que mamíferos, aves e até polvos têm consciência e esquentam debate sobre direitos dos animais

Marco Túlio Pires

Chimpanzé alimenta um filhote de tigre dourado, em mini zoológico na cidade de Samutprakan, Tailândia

Chimpanzé alimenta um filhote de tigre dourado, em mini zoológico na cidade de Samutprakan, Tailândia: percepção de sua própria existência e do mundo ao seu redor (Rungroj Yongrit/EFE)

Os seres humanos não são os únicos animais que têm consciência. A afirmação não é de ativistas radicais defensores dos direitos dos animais. Pelo contrário. Um grupo de neurocientistas — doutores de instituições de renome como Caltech, MIT e Instituto Max Planck — publicou um manifesto asseverando que o estudo da neurociência evoluiu de modo tal que não é mais possível excluir mamíferos, aves e até polvos do grupo de seres vivos que possuem consciência. O documento divulgado no último sábado (7), em Cambridge, esquenta uma discussão que divide cientistas, filósofos e legisladores há séculos sobre a natureza da consciência e sua implicação na vida dos humanos e de outros animais.

Leia mais: A íntegra, em inglês, do manifesto que afirma a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como polvos

Apresentado à Nasa nesta quinta-feira, o manifesto não traz novas descobertas da neurociência — é uma compilação das pesquisas da área. Representa, no entanto, um posicionamento inédito sobre a capacidade de outros seres perceberem sua própria existência e o mundo ao seu redor. Em entrevista ao site de VEJA, Philip Low, criador do iBrain, o aparelho que recentemente permitiu a leitura das ondas cerebrais do físico Stephen Hawking, e um dos articuladores do movimento, explica que nos últimos 16 anos a neurociência descobriu que as áreas do cérebro que distinguem seres humanos de outros animais não são as que produzem a consciência. “As estruturas cerebrais responsáveis pelos processos que geram a consciência nos humanos e outros animais são equivalentes”, diz. “Concluímos então que esses animais também possuem consciência.”

O que é consciência?

PARA A FILOSOFIA
Filosoficamente, é o entendimento que uma criatura tem sobre si e seu lugar na natureza. Alguns atributos definem a consciência, como ser senciente, ou seja, sentir o mundo à sua volta e reagir a ele; estar alerta ou acordado ou ter consciência sobre si mesmo (o que, para a filosofia já basta para incluir alguns animais “não-linguísticos” entre os seres com consciência).Fonte: Enciclopédia de Filosofia de Stanford

PARA A CIÊNCIA
A ciência considera como consciência as percepções sobre o mundo e as sensações corporais, junto com os pensamentos, memórias, ações e emoções. Ou seja, tudo o que escapa aos processos cerebrais automáticos e chega à nossa atenção. O conteúdo da consciência geralmente é estudado usando exames de imagens cerebrais para comparar quais estímulos chegam à nossa atenção e quais não. Como resumiu o neurocientista Bernard Baars, em 1987, o cérebro é como um teatro no qual a maioria dos eventos neurais são inconscientes, portanto acontecem “nos bastidores”, enquanto alguns poucos entram no processo consciente, ou seja, chegam ao “palco”.

Estudos recentes, como os da pesquisadora Diana Reiss (uma das cientistas que assinaram o manifesto), da Hunter College, nos Estados Unidos, mostram que golfinhos e elefantes também são capazes de se reconhecer no espelho. Essa capacidade é importante para definir se um ser está consciente. O mesmo vale para chimpanzés e pássaros. Outros tipos de comportamento foram analisados pelos neurocientistas. “Quando seu cachorro está sentindo dor ou feliz em vê-lo, há evidências de que no cérebro deles há estruturas semelhantes às que são ativadas quando exibimos medo e dor e prazer”, diz Low.

Personalidade animal – Dizer que os animais têm consciência pode trazer várias implicações para a sociedade e o modo como os animais são tratados. Steven Wise, advogado e especialista americano em direito dos animais, diz que o manifesto chega em boa hora. “O papel dos advogados e legisladores é transformar conclusões científicas como essa em legislação que ajudará a organizar a sociedade”, diz em entrevista ao site de VEJA. Wise é líder do Projeto dos Direitos de Animais não Humanos. O advogado coordena um grupo de 70 profissionais que organizam informações, casos e jurisprudência para entrar com o primeiro processo em favor de que alguns animais — como grandes primatas, papagaios africanos e golfinhos — tenham seu status equiparado ao dos humanos.

O manifesto de Cambridge dá mais munição ao grupo de Wise para vencer o caso. “Queremos que esses animais recebam direitos fundamentais, que a justiça as enxergue como pessoas, no sentido legal.” Isso, de acordo com o advogado, quer dizer que esses animais teriam direito à integridade física e à liberdade, por exemplo. “Temos que parar de pensar que esses animais existem para servir aos seres humanos”, defende Wise. “Eles têm um valor intrínseco, independente de como os avaliamos.”

Questão moral – O manifesto não decreta o fim dos zoológicos ou das churrascarias, muito menos das pesquisas médicas com animais. Contudo, já foi suficiente para provocar reflexão e mudança de comportamento em cientistas, como o próprio Low. “Estou considerando me tornar vegetariano”, diz. “Temos agora que apelar para nossa engenhosidade, para desenvolver tecnologias que nos permitam criar uma sociedade cada vez menos dependente dos animais.” Low se refere principalmente à pesquisa médica. Para estudar a vida, a ciência ainda precisa tirar muitas. De acordo com o neurocientista, o mundo gasta 20 bilhões por ano para matar 100 milhões de vertebrados. Das moléculas medicinais produzidas por esse amontoado de dinheiro e mortes, apenas 6% chega a ser testada em seres humanos. “É uma péssima contabilidade”, diz Low.

Contudo, a pesquisa com animais ainda é necessária. O endocrinologista americano Michael Conn, autor do livro The Animal Research War, sem edição no Brasil, argumenta que se trata de uma escolha priorizar a espécie humana. “Conceitos como os de consentimento e autonomia só fazem sentido dentro de um código moral que diz respeito aos homens, e não aos animais”, disse em entrevista ao site de VEJA. “Nossa obrigação com os animais é fazer com que eles sejam devidamente cuidados, não sofram nem sintam dor — e não tratá-los como se fossem humanos, o que seria uma ficção”, argumenta. “Se pudéssemos utilizar apenas um computador para fazer pesquisas médicas seria ótimo. Mas a verdade é que não é possível ainda.”

A inteligência dos polvos

O vídeo mostra diversas situações em que o polvo consegue resolver problemas. Desde a captura de presas em diferentes tipos de recipientes até escapar de locais extremamente difíceis. As situações mostram que o animal é capaz de formular soluções para problemas específicos, o que denota, na opinião dos neurocientistas, um estado de consciência inteligente.

*   *   *

“Não é mais possível dizer que não sabíamos”, diz Philip Low (Veja)

Entrevista

Neurocientista explica por que pesquisadores se uniram para assinar manifesto que admite a existência da consciência em todos os mamíferos, aves e outras criaturas, como o polvo, e como essa descoberta pode impactar a sociedade

Marco Túlio Pires

Epilepsia: especialistas estimam que 2% da população brasileira tenha a doença

Estruturas do cérebro responsáveis pela produção da consciência são análogas em humanos e outros animais, dizem neurocientistas (Thinkstock)

O neurocientista canadense Philip Low ganhou destaque no noticiário científico depois deapresentar um projeto em parceria com o físico Stephen Hawking, de 70 anos. Low quer ajudar Hawking, que está completamente paralisado há 40 anos por causa de uma doença degenerativa, a se comunicar com a mente. Os resultados da pesquisa foram revelados no último sábado (7) em uma conferência em Cambridge. Contudo, o principal objetivo do encontro era outro. Nele, neurocientistas de todo o mundo assinaram um manifesto afirmando que todos os mamíferos, aves e outras criaturas, incluindo polvos, têm consciência. Stephen Hawking estava presente no jantar de assinatura do manifesto como convidado de honra.

Philip LowPhilip Low: “Todos os mamíferos e pássaros têm consciência”. Divulgação.

Low é pesquisador da Universidade Stanford e do MIT (Massachusetts Institute of Technology), ambos nos Estados Unidos. Ele e mais 25 pesquisadores entendem que as estruturas cerebrais que produzem a consciência em humanos também existem nos animais. “As áreas do cérebro que nos distinguem de outros animais não são as que produzem a consciência”, diz Low, que concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:

Estudos sobre o comportamento animal já afirmam que vários animais possuem certo grau de consciência. O que a neurociência diz a respeito?Descobrimos que as estruturas que nos distinguem de outros animais, como o córtex cerebral, não são responsáveis pela manifestação da consciência. Resumidamente, se o restante do cérebro é responsável pela consciência e essas estruturas são semelhantes entre seres humanos e outros animais, como mamíferos e pássaros, concluímos que esses animais também possuem consciência.

Quais animais têm consciência? Sabemos que todos os mamíferos, todos os pássaros e muitas outras criaturas, como o polvo, possuem as estruturas nervosas que produzem a consciência. Isso quer dizer que esses animais sofrem. É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos.

É possível medir a similaridade entre a consciência de mamíferos e pássaros e a dos seres humanos? Isso foi deixado em aberto pelo manifesto. Não temos uma métrica, dada a natureza da nossa abordagem. Sabemos que há tipos diferentes de consciência. Podemos dizer, contudo, que a habilidade de sentir dor e prazer em mamíferos e seres humanos é muito semelhante.

Que tipo de comportamento animal dá suporte à ideia de que eles têm consciência?Quando um cachorro está com medo, sentindo dor, ou feliz em ver seu dono, são ativadas em seu cérebro estruturas semelhantes às que são ativadas em humanos quando demonstramos medo, dor e prazer. Um comportamento muito importante é o autorreconhecimento no espelho. Dentre os animais que conseguem fazer isso, além dos seres humanos, estão os golfinhos, chimpanzés, bonobos, cães e uma espécie de pássaro chamada pica-pica.

Quais benefícios poderiam surgir a partir do entendimento da consciência em animais? Há um pouco de ironia nisso. Gastamos muito dinheiro tentando encontrar vida inteligente fora do planeta enquanto estamos cercados de inteligência consciente aqui no planeta. Se considerarmos que um polvo — que tem 500 milhões de neurônios (os humanos tem 100 bilhões) — consegue produzir consciência, estamos muito mais próximos de produzir uma consciência sintética do que pensávamos. É muito mais fácil produzir um modelo com 500 milhões de neurônios do que 100 bilhões. Ou seja, fazer esses modelos sintéticos poderá ser mais fácil agora.

Qual é a ambição do manifesto? Os neurocientistas se tornaram militantes do movimento sobre o direito dos animais? É uma questão delicada. Nosso papel como cientistas não é dizer o que a sociedade deve fazer, mas tornar público o que enxergamos. A sociedade agora terá uma discussão sobre o que está acontecendo e poderá decidir formular novas leis, realizar mais pesquisas para entender a consciência dos animais ou protegê-los de alguma forma. Nosso papel é reportar os dados.

As conclusões do manifesto tiveram algum impacto sobre o seu comportamento? Acho que vou virar vegano. É impossível não se sensibilizar com essa nova percepção sobre os animais, em especial sobre sua experiência do sofrimento. Será difícil, adoro queijo.

O que pode mudar com o impacto dessa descoberta? Os dados são perturbadores, mas muito importantes. No longo prazo, penso que a sociedade dependerá menos dos animais. Será melhor para todos. Deixe-me dar um exemplo. O mundo gasta 20 bilhões de dólares por ano matando 100 milhões de vertebrados em pesquisas médicas. A probabilidade de um remédio advindo desses estudos ser testado em humanos (apenas teste, pode ser que nem funcione) é de 6%. É uma péssima contabilidade. Um primeiro passo é desenvolver abordagens não invasivas. Não acho ser necessário tirar vidas para estudar a vida. Penso que precisamos apelar para nossa própria engenhosidade e desenvolver melhores tecnologias para respeitar a vida dos animais. Temos que colocar a tecnologia em uma posição em que ela serve nossos ideais, em vez de competir com eles.

No Vale do Ribeira, Defensoria Pública defende comunidades tradicionais contra corrupção e mercado de carbono (Racismo Ambiental)

Por racismoambiental, 24/06/2012 11:45

Tania Pacheco*

“Posto diante de todos estes homens reunidos, de todas estas mulheres, de todas estas crianças (sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra, assim lhes fora mandado), cujo suor não nascia do trabalho que não tinham, mas da agonia insuportável de não o ter, Deus arrependeu-se dos males que havia feito e permitido, a um ponto tal que, num arrebato de contrição, quis mudar o seu nome para um outro mais humano. Falando à multidão, anunciou: “A partir de hoje chamar-me-eis Justiça”. E a multidão respondeu-lhe: “Justiça, já nós a temos, e não nos atende”. Disse Deus: “Sendo assim, tomarei o nome de Direito”. E a multidão tornou a responder-lhe: “Direito, já nós o temos, e não nos conhece”. E Deus: “Nesse caso, ficarei com o nome de Caridade, que é um nome bonito”. Disse a multidão: “Não necessitamos de caridade, o que queremos é uma Justiça que se cumpra e um Direito que nos respeite”. José Saramago (Prefácio à obra Terra, de Sebastião Salgado).

O trecho acima foi retirado de uma peça jurídica. Um mandado de segurança com pedido de liminar impetrado no dia 6 de junho pelos Defensores Thiago de Luna Cury e Andrew Toshio Hayama, respectivamente da 2ª e da 3ª Defensorias Publicas de Registro, São Paulo, contra o Prefeito de Iporanga, região de Lageado, Vale do Ribeira. Seu objetivo: impedir que, seguindo uma prática que vem se tornando constante no estado, a autoridade municipal expulse comunidades tradicionais e desaproprie vastas extensões de terras, transformando-as em Parques Naturais a serem transacionados no mercado de carbono.

Para ganhar dinheiro a qualquer custo, não interessa investigar se nessas terras há comunidades tradicionais, quilombolas e camponeses. Não interessa se o Direito à Consulta Prévia e Informada estipulado pela Convenção 169 da OIT foi respeitado. Não interessa, inclusive, se, caso audiências públicas tivessem sido realizadas, as comunidades teriam condições de entender plenamente o que estava sendo proposto e decidir se seria de seu interesse abandonar seus territórios, suas tradições, suas gentes, uma vez que nesse tipo de unidade de conservação integral não pode haver moradores. Em parcerias com empresas e ONGs fajutas, o esquema é montado; de uma penada decretado; e o lucro é garantido e dividido entre os integrantes das quadrilhas.

Mas não foi bem assim que aconteceu em Iporanga. A Defensoria Pública agiu, e agiu pela Justiça e pelo Direito, de forma indignada, culta, forte, poética e, sempre, muito bem fundamentada nas leis. E coube ao Juiz Raphael Garcia Pinto, de Eldorado, São Paulo, reconhecê-lo em decisão do dia 11 de junho de 2012.

Este Blog defende intransigentemente a “democratização do sistema de Justiça”. E tanto no mandado como na decisão é um exemplo disso que temos presente: da prática da democracia pelos operadores do Direito. Por isso fazemos questão de socializá-los, não só como uma homenagem aos Defensores Thiago de Luna Cury e Andrew Toshio Hayama (e também ao Juiz Raphael Garcia Pinto), mas também como um exemplo a ser seguido Brasil afora, como forma de defender as comunidades e honrar a tod@s nós.

Para ver o mandado de segurança clique AQUI. Para ver a decisão clique AQUI. Boa leitura.

* Com informações enviadas por Luciana Zaffalon.

Doctors Often Don’t Disclose All Possible Risks to Patients Before Treatment (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 7, 2012) — Most informed consent disputes involve disagreements about who said what and when, not stand-offs over whether a particular risk ought to have been disclosed. But doctors may “routinely underestimate the importance of a small set of risks that vex patients” according to international experts writing in this week’s PLoS Medicine.

Increasingly, doctors are expected to advise and empower patients to make rational choices by sharing information that may affect treatment decisions, including risks of adverse outcomes. However, authors from Australia and the US led by David Studdert from the University of Melbourne argue that doctors, especially surgeons, are often unsure which clinical risks they should disclose and discuss with patients before treatment.

To understand more about the clinical circumstances in which disputes arise between doctors and patients in this area, the authors analyzed 481 malpractice claims and patient complaints from Australia involving allegations of deficiencies in the process of obtaining informed consent.

The authors found that 45 (9%) of the cases studied were disputed duty cases — that is, they involved head-to-head disagreements over whether a particular risk ought to have been disclosed before treatment. Two-thirds of these disputed duty cases involved surgical procedures, and the majority (38/45) of them related to five specific outcomes that had quality of life implications for patients, including chronic pain and the need for re-operation.

The authors found that the most common justifications doctors gave for not telling patients about particular risks before treatment were that they considered such risks too rare to warrant discussion or the specific risk was covered by a more general risk that was discussed.

However, nine in ten of the disputes studied centered on factual disagreements — arguments over who said what, and when. The authors say: “Documenting consent discussions in the lead-up to surgical procedures is particularly important, as most informed consent claims and complaints involved factual disagreements over the disclosure of operative risks.”

The authors say: “Our findings suggest that doctors may systematically underestimate the premium patients place on understanding certain risks in advance of treatment.”

They conclude: “Improved understanding of these situations helps to spotlight gaps between what patients want to hear and what doctors perceive patients want — or should want — to hear. It may also be useful information for doctors eager to avoid medico-legal disputes.”

Should Doctors Treat Lack of Exercise as a Medical Condition? Expert Says ‘Yes’ (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 13, 2012) — A sedentary lifestyle is a common cause of obesity, and excessive body weight and fat in turn are considered catalysts for diabetes, high blood pressure, joint damage and other serious health problems. But what if lack of exercise itself were treated as a medical condition? Mayo Clinic physiologist Michael Joyner, M.D., argues that it should be. His commentary is published this month in The Journal of Physiology.

Physical inactivity affects the health not only of many obese patients, but also people of normal weight, such as workers with desk jobs, patients immobilized for long periods after injuries or surgery, and women on extended bed rest during pregnancies, among others, Dr. Joyner says. Prolonged lack of exercise can cause the body to become deconditioned, with wide-ranging structural and metabolic changes: the heart rate may rise excessively during physical activity, bones and muscles atrophy, physical endurance wane, and blood volume decline.

When deconditioned people try to exercise, they may tire quickly and experience dizziness or other discomfort, then give up trying to exercise and find the problem gets worse rather than better.

“I would argue that physical inactivity is the root cause of many of the common problems that we have,” Dr. Joyner says. “If we were to medicalize it, we could then develop a way, just like we’ve done for addiction, cigarettes and other things, to give people treatments, and lifelong treatments, that focus on behavioral modifications and physical activity. And then we can take public health measures, like we did for smoking, drunken driving and other things, to limit physical inactivity and promote physical activity.”

Several chronic medical conditions are associated with poor capacity to exercise, including fibromyalgia, chronic fatigue syndrome and postural orthostatic tachycardia syndrome, better known as POTS, a syndrome marked by an excessive heart rate and flu-like symptoms when standing or a given level of exercise. Too often, medication rather than progressive exercise is prescribed, Dr. Joyner says.

Texas Health Presbyterian Hospital Dallas and University of Texas Southwestern Medical Center researchers found that three months of exercise training can reverse or improve many POTS symptoms, Dr. Joyner notes. That study offers hope for such patients and shows that physicians should consider prescribing carefully monitored exercise before medication, he says.

If physical inactivity were treated as a medical condition itself rather than simply a cause or byproduct of other medical conditions, physicians may become more aware of the value of prescribing supported exercise, and more formal rehabilitation programs that include cognitive and behavioral therapy would develop, Dr. Joyner says.

For those who have been sedentary and are trying to get into exercise, Dr. Joyner advises doing it slowly and progressively.

“You just don’t jump right back into it and try to train for a marathon,” he says. “Start off with achievable goals and do it in small bites.”

There’s no need to join a gym or get a personal trainer: build as much activity as possible into daily life. Even walking just 10 minutes three times a day can go a long way toward working up to the 150 minutes a week of moderate physical activity the typical adult needs, Dr. Joyner says.

Deeply Held Religious Beliefs Prompting Sick Kids to Be Given ‘Futile’ Treatment (Science Daily)

ScienceDaily (Aug. 13, 2012) — Parental hopes of a “miraculous intervention,” prompted by deeply held religious beliefs, are leading to very sick children being subjected to futile care and needless suffering, suggests a small study in the Journal of Medical Ethics.

The authors, who comprise children’s intensive care doctors and a hospital chaplain, emphasise that religious beliefs provide vital support to many parents whose children are seriously ill, as well as to the staff who care for them.

But they have become concerned that deeply held beliefs are increasingly leading parents to insist on the continuation of aggressive treatment that ultimately is not in the best interests of the sick child.

It is time to review the current ethics and legality of these cases, they say.

They base their conclusions on a review of 203 cases which involved end of life decisions over a three year period.

In 186 of these cases, agreement was reached between the parents and healthcare professionals about withdrawing aggressive, but ultimately futile, treatment.

But in the remaining 17 cases, extended discussions with the medical team and local support had failed to resolve differences of opinion with the parents over the best way to continue to care for the very sick child in question.

The parents had insisted on continuing full active medical treatment, while doctors had advocated withdrawing or withholding further intensive care on the basis of the overwhelming medical evidence.

The cases in which withdrawal or withholding of intensive care was considered to be in the child’s best interests were consistent with the Royal College of Paediatrics and Child Health guidance.

Eleven of these cases (65%) involved directly expressed religious claims that intensive care should not be stopped because of the expectation of divine intervention and a complete cure, together with the conviction that the opinion of the medical team was overly pessimistic and wrong.

Various different faiths were represented among the parents, including Christian fundamentalism, Islam, Judaism, and Roman Catholicism.

Five of the 11 cases were resolved after meeting with the relevant religious leaders outside the hospital, and intensive care was withdrawn in a further case after a High Court order.

But five cases were not resolved, so intensive care was continued. Four of these children eventually died; one survived with profound neurological disability.

Six of the 17 cases in which religious belief was not a cited factor, were all resolved without further recourse to legal, ethical, or socio-religious support. Intensive care was withdrawn in all these children, five of whom died and one of whom survived, but with profound neurological disability.

The authors emphasise that parental reluctance to allow treatment to be withdrawn is “completely understandable as [they] are defenders of their children’s rights, and indeed life.”

But they argue that when children are too young to be able to actively subscribe to their parents’ religious beliefs, a default position in which parental religion is not the determining factor might be more appropriate.

They cite Article 3 of the Human Rights Act, which aims to ensure that no one is subjected to torture or inhumane or degrading treatment or punishment.

“Spending a lifetime attached to a mechanical ventilator, having every bodily function supervised and sanitised by a carer or relative, leaving no dignity or privacy to the child and then adult, has been argued as inhumane,” they argue.

And they conclude: “We suggest it is time to reconsider current ethical and legal structures and facilitate rapid default access to courts in such situations when the best interests of the child are compromised in expectation of the miraculous.”

In an accompanying commentary, the journal’s editor, Professor Julian Savulescu, advocates: “Treatment limitation decisions are best made, not in the alleged interests of patients, but on distributive justice grounds.”

In a publicly funded system with limited resources, these should be given to those whose lives could be saved rather than to those who are very unlikely to survive, he argues.

“Faced with the choice between providing an intensive care bed to a [severely brain damaged] child and one who has been at school and was hit by a cricket ball and will return to normal life, we should provide the bed to the child hit by the cricket ball,” he writes.

In further commentaries, Dr Steve Clarke of the Institute for Science and Ethics maintains that doctors should engage with devout parents on their own terms.

“Devout parents, who are hoping for a miracle, may be able to be persuaded, by the lights of their own personal…religious beliefs, that waiting indefinite periods of time for a miracle to occur while a child is suffering, and while scarce medical equipment is being denied to other children, is not the right thing to do,” he writes.

Leading ethicist, Dr Mark Sheehan, argues that these ethical dilemmas are not confined to fervent religious belief, and to polarise the issue as medicine versus religion is unproductive, and something of a “red herring.”

Referring to the title of the paper, Charles Foster, of the University of Oxford, suggests that the authors have asked the wrong question. “The legal and ethical orthodoxy is that no beliefs, religious or secular, should be allowed to stonewall the best interests of the child,” he writes.