Cientistas planejam a ressurreição digital com bots e humanoides (Canal Tech)

Por Natalie Rosa | 25 de Junho de 2020 às 16h40 Reprodução

Em fevereiro deste ano, o mundo todo se surpreendeu com a história de Jang Ji-sung, uma sul-coreana que “reencontrou” a sua filha, já falecida, graças à inteligência artificial. A garota morreu em 2016 devido a uma doença sanguínea.

No encontro simulado, a imagem da pequena Nayeon é exibida para a mãe que está em um fundo verde, também conhecido como chroma key, usando um headset de realidade virtual. A interação não foi só visual, como também foi possível conversar e brincar com a criança. Segundo Jang, a experiência foi como um sonho que ela sempre quis ter.

Encontro de Jang Ji-sung com a forma digitalizada da filha (Imagem: Reprodução)

Por mais que pareça uma tendência difícil de ser executada em massa na vida real, além de ser uma preocupação bastante antiga das produções de ficção científica, existem pessoas interessadas nesta forma de imortalidade. A questão que fica, no entanto, é se devemos fazer isso e como irá acontecer.

Em entrevista ao CNET, John Troyer, diretor do Centre for Death and Society (Centro para Morte e Sociedade) da Universidade de Bath, na Inglaterra, e autor do livro Technologies of the Human Corpse, conta que o interesse mais moderno pela imortalidade começou ainda na década de 1960. Na época, muitas pessoas acreditavam na ideia do processo criônico de preservação de corpos, quando um cadáver ou apenas uma cabeça humana eram congelados com a esperança de serem ressuscitados no futuro. Até o momento, ainda não houve tentativa de serem revividas.

“Aconteceu uma mudança na ciência da morte naquele tempo, e a ideia de que, de alguma forma, os humanos poderiam derrotar a morte”, explica Troyer. O especialista conta também que ainda não há uma pesquisa revisada que prove que o investimento de milhões no upload de dados do cérebro, ou ainda manter um corpo vivo, valha a pena.

Em 2016, um estudo publicado na revista acadêmica Plos One descobriu que expor um cérebro preservado a sondas químicas e elétricas o faz voltar a funcionar. “Tudo isso é uma aposta do que é possível no futuro. Mas eu não estou convencido de que é possível da maneira que estão descrevendo ou desejando”, completa.

Superando o luto

O caso que aconteceu na Coreia do Sul não foi o único que envolve o luto. Em 2015, Eugenia Kuyda, co-fundadora e CEO da empresa de softwares Replika, sofreu com a perda do seu melhor amigo Roman após um atropelamento em Moscou, na Rússia. A executiva decidiu, então, criar um chatbot treinado com milhares de mensagens de texto trocadas pelos dois ao longo dos anos, resultando em uma versão digital de Roman, que pode conversar com amigos e família.

“Foi muito emocionante. Eu não estava esperando me sentir assim porque eu trabalhei naquele chatbot e sabia como ele foi construído”, relata Kuyda. A experiência lembra bastante um dos episódios da série Black Mirror, que aborda um futuro distópico da tecnologia. Em Be Right Back, de 2013, uma jovem mulher perde o namorado em um acidente de carro e se inscreve em um projeto para que ela possa se comunicar com “ele” de forma digital, graças à inteligência artificial.

Por outro lado, Kuyda conta que o projeto não foi criado para ser comercializado, mas sim como uma forma pessoal de lidar com a perda do melhor amigo. Ela conta que qualquer pessoa que tentar reproduzir o feito vai encontrar uma série de empecilhos e dificuldades, como decidir qual tipo de informação será considerada pública ou privada, ou ainda com quem o chatbot poderá interagir. Isso porque a forma de se conversar com um amigo, por exemplo, não é a mesma com integrantes da família, e Kuyda diz que não há como fazer essa diferenciação.

A criação de uma versão digital de uma pessoa não vai desenvolver novas conversas e nem emitir novas opiniões, mas sim replicar frases e palavras já ditas, basicamente, se encaixando com o bate-papo. “Nós deixamos uma quantidade insana de dados, mas a maioria deles não é pessoal, privada ou baseada em termos de que tipo de pessoa nós somos”, diz Kuyda. Em resposta ao CNET, a executiva diz que é impossível obter dados 100% precisos de uma pessoa, pois atualmente não há alguma tecnologia que possa capturar o que está acontecendo em nossas mentes.

Sendo assim, a coleta de dados acaba sendo a maior barreira para criar algum tipo de software que represente uma pessoa após o falecimento. Parte disso acontece porque a maioria dos conteúdos postados online são de uma empresa, passando a pertencer à plataforma. Com isso, se um dia a companhia fechar, os dados vão embora junto com ela. Para Troyer, a tecnologia de memória não tende a sobreviver ao tempo.

Imagem: Reprodução

Cérebro fresco

A startup Nectome vem se dedicando à preservação do cérebro, pensando na possível extração da memória após a morte. Para que isso aconteça, no entanto, o órgão precisa estar “fresco”, o que significaria que a morte teria que acontecer por uma eutanásia.

O objetivo da startup é conduzir os testes com voluntários que estejam em estado terminal de alguma doença e que permitam o suicídio assistido por médicos. Até o momento a Nectome coletou US$ 10 mil reembolsáveis para uma lista de espera para o procedimento, caso um dia a oportunidade esteja disponível. Por enquanto, a companhia ainda precisa se esforçar em ensaios clínicos.

A startup já arrecadou um milhão de dólares em financiamento e vinha colaborando com um neurocientista do MIT. Porém, a publicação da história gerou muita polêmica negativa de cientistas e especialistas em ética, e o MIT encerrou o seu contrato com a startup. A repercussão afirmou que o projeto da empresa não é possível de ser realizado. 

Veja a declaração feita pelo MIT na época:

“A neurociência não é suficientemente avançada ao ponto de sabermos se um método de preservação do cérebro é o suficiente para preservar diferentes tipos de biomoléculas relacionadas à memória e à mente. Também não se sabe se é possível recriar a consciência de uma pessoa”, disse a nota ainda em 2018.

Eternização com a realidade aumentada

Enquanto alguns pensam em extrair a mente de um cérebro, outras empresas optam por uma “ressurreição” mais simples, mas não menos invasiva. A empresa Augmented Reality, por exemplo, tem como objetivo ajudar pessoas a viverem em um formato digital, transmitindo conhecimento das pessoas de hoje para as futuras gerações.

O fundador e CEO da empresa de computação FlyBits e professor do MIT Media Lab, Hossein Rahnama, vem tentando construir agentes de software que possam agir como herdeiros digitais. “Os Millennials estão criando gigabytes de dados diariamente e nós estamos alcançando um nível de maturidade em que podemos, realmente, criar uma versão digital de nós mesmos”, conta.

Para colocar o projeto em ação, a Augmented Reality alimenta um mecanismo de aprendizado de máquina com emails, fotos e atividades de redes sociais das pessoas, analisando como ela pensa e age. Assim, é possível fornecer uma cópia digital de uma pessoa real, e ela pode interagir via chatbot, vídeo digitalmente editado ou ainda como um robô humanoide.

Falando em humanoides, no laboratório de robótica Intelligent Robotics, da Universidade de Osaka, no Japão, já existem mais de 30 androides parecidos com humanos, inclusive uma versão robótica de Hiroshi Ishiguro, diretor do setor. O cientista vem inovando no campo de pesquisa de interações entre humanos e robôs, estudando a importância de detalhes, como movimentos sutis dos olhos e expressões faciais.

Reprodução: Hiroshi Ishiguro Laboratory, ATR

Quando Ishiguro morrer, segundo o próprio, ele poderá ser substituído pelo seu robô para dar aulas aos seus alunos, mesmo que esta máquina nunca seja realmente ele e nem possa gerar novas ideias. “Nós não podemos transmitir as nossas consciências aos robôs. Compartilhamos, talvez, as memórias. Um robô pode dizer ‘Eu sou Hiroshi Ishiguro’, mas mesmo assim a consciência é independente”, afirma.

Para Ishiguro, no futuro nada disso será parecido com o que vemos na ficção científica. O download de memória, por exemplo, é algo que não vai acontecer, pois simplesmente não é possível. “Precisamos ter diferentes formas de fazer uma cópia de nossos cérebros, mas nós não sabemos ainda como fazer isso”, completa. 

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