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Coronavírus chega à reserva indígena do Xingu, e Kuarup é cancelado pela 1ª vez (Folha de S.Paulo)

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Lígia Mesquita, 12 de junho de 2020

Todos os anos, os povos do chamado Alto do Xingu, no Parque Nacional do Xingu, passam seis meses se preparando para a festa mais importante do ano, o Kuarup. A celebração que normalmente se estende de julho a setembro é o ritual sagrado no qual todos os mortos do último ano são homenageados. É a maneira que os índios das 11 etnias do Alto Xingu têm de celebrá-los. Com o Kuarup, as famílias que passaram os últimos 12 meses em luto, podem voltar à rotina normal.

Numa decisão histórica ocorrida no início desta semana, em conversas via rádio amador, os caciques das etnias participantes do Kuarup decidiram cancelar o ritual pela primeira vez. Aquilo que já era temido se confirmou: o coronavírus chegou ao Parque do Xingu, reserva indígena no norte do Mato Grosso, com mais de 7.000 habitantes de 16 etnias.

No último fim de semana, o cacique Vanité Kalapalo e seu Yarurú, da aldeia Sapezal, foram internados no Hospital Regional de Água Boa (MT), a 736 Km de Cuiabá, com sintomas agudos da Covid-19.

Outras pessoas da aldeia Sapezal, uma das mais próximas da cidade de Querência (MT), também fizeram testes com suspeita da doença.

O povo Kalapalo foi isolado, mas segundo especialistas e lideranças de outros povos, a previsão é que o coronavírus se espalhe pela primeira grande terra indígena demarcada pelo governo federal, em 1961, e considerada patrimônio nacional.

Em abril, reportagem do caderno especial Sebastião Salgado na Amazônia – Xingu, da Folha, já alertava para a chegada da Covid-19 àquela terra indígena.

“O cenário é de possível genocídio”, afirma o médico sanitarista Douglas Rodrigues, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), que há 40 anos trabalha no Xingu. “Se a taxa de transmissão do vírus seguir em alta como aconteceu nas aldeias da Amazônia, num pior cenário teremos 2.000 infectados e poderemos chegar a cem óbitos.”

Segundo o sanitarista, o potencial de propagação do coronavírus no Xingu dependerá da organização dos próprios índios, da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), e da Funai (Fundação Nacional do Índio).

“Mesmo com orientação e avisos sobre a pandemia, pedindo para que a circulação fosse evitada, não foi possível fazer com que alguns índios, principalmente os mais jovens, não deixassem suas aldeias. Parte das pessoas não acreditou no potencial da pandemia, há também desinformação e fake news circulando”, diz Rodrigues. “Também nesta época do ano são comuns surtos de gripe e de infecções respiratórias no parque. Há quase dois meses, quando muitos começaram a ficar doentes em uma das aldeias Kalapalo, pedimos à Sesai testes para Covid-19, mas isso não foi feito. Então não sabemos se a doença chegou ali há mais tempo.”

O professor de antropologia da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), Antonio Guerreiro, que pesquisa os Kalapalo desde 2006, também vê com muita preocupação a chegada do coronavírus ao Xingu e o risco de um possível genocídio.

“Os riscos do coronavírus se espalhar são enormes se compararmos a situação atual com a última grande epidemia que atingiu o Xingu, a de sarampo, em 1954, que dizimou ao menos 20% da população. Com a criação do Parque do Xingu em 1961, as aldeias ficaram mais próximas e hoje há uma intensa circulação entre seus habitantes e com a cidade, onde comprar alimentos, combustível, material para pesca. E o coronavírus tem uma propagação rápida”, diz Guerreiro, atualmente pesquisador na Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Os dois Kalapalo com Covid-19 receberam alta no fim da tarde desta terça (9) e foram encaminhados para a Casai (Casa de Saúde e Apoio ao Índio) em Canarana (MT). A recomendação era que ficassem por lá para cumprir a quarentena, já que os primeiros sintomas surgiram no dia 3 de junho. O isolamento recomendado pelas principais organizações de saúde, no entanto, esbarra em resistência cultural.

Os índios não aceitaram fazer a quarentena por lá e voltaram para a aldeia com a promessa de ficarem numa casa isolada e usando máscaras. “Índio é muito complicado. Eles disseram que estavam bem e precisavam voltar para casa”, diz o também indígena e técnico de enfermagem Tafuraki Nahukuá, que trabalha na Casai.

Para Guerreiro, não dá para fazer uma simplificação dessa escolha em voltar para a aldeia apenas como sendo uma vontade ou capricho. Há questões culturais complexas que podem explicar o fato dos dois índios terem optado por voltar para casa.

“Estou especulando, porque não consegui contato com eles ainda. Mas, pelo que já pesquisei e ouvi dos Kalapalo, eles não gostam de ficar na Casai, porque além de ter uma infraestrutura péssima, eles ficam afastados da família e dos cuidados e supervisão que os parentes têm de perto com os doentes. E também porque temem feitiçaria por parte de algum índio de outra etnia que pode estar eventualmente internado ali”, diz.

Rodrigues explica como é complicado o cenário de isolamento social dentro do Xingu. Os indígenas da região moram em ocas coletivas, com 30, 40 pessoas dentro e compartilham objetos e comida. Muitos não têm acesso à água e sabão para lavar as mãos.

“Faltam EPI [equipamento de proteção individual], treinamento, comunicação, faltam testes e cilindros maiores de oxigênio para os atendimentos que precisarem de mais cuidados e para possíveis remoções até a cidade mais próxima, entre outras coisas.”

A Unifesp, o ISA (Instituto SocioAmbiental), a SPDM (Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina), o DSEI Xingu, a Coordenação Nacional do Xingu, da Funai, e Atix (Associação da Terra Indígena Xingu) montaram um comitê de crise e com realocação de recursos próprios estão enviando testes para Covid-19, concentradores de oxigênio, oxímetros, EPIs, equipamentos de pesca, máscaras e alimentos.

A universidade, por meio de seu Projeto Xingu, da Escola Paulista de Medicina, está dando treinamento a distância para agentes de saúde e também enviará 500 testes para Covid-19. O ISA mandará outros 380 testes.

“Faltariam no mínimo mais mil”, diz Paulo Junqueira, coordenador do projeto Xingu no ISA, que há 20 anos trabalha na região.

Para Junqueira, a questão agora é ganhar tempo até que as aldeias consigam se organizar melhor e receber equipamentos necessários para conter a doença. Existem dez casas de apoio para isolamento sendo construídas no parque.

O povo Kuikuro está construindo numa aldeia uma oca específica para colocar possíveis infectados em isolamento. Também preparou uma cartilha com informações sobre o coronavírus, em português e na língua Kuikuro.

A AIKAX (Associação Indígena Kuikuro do Alto Xingu) recebeu 28 mil libras (cerca de R$ 176 mil) de ajuda por meio de uma iniciativa comandada pela People’s Palace Project (PPP), organização vinculada à Universidade Queen Mary, de Londres, que trabalha há seis anos com os Kuikuro. “Estamos organizando o envio de suprimentos para evitar ao máximo a exposição das pessoas dali ao vírus”, diz Thiago Jesus, da PPP.

O cacique Yanama Kuikuro, da aldeia Ipatse, diz que a preocupação é grande e que estão correndo contra o tempo para conseguir equipamentos e construir a casa de quarentena rapidamente. Ele conta que com a ajuda do doutor Rodrigues, da Unifesp, está fazendo a compra dos suprimentos necessários e orientando o seu povo. “É uma tristeza enorme termos que cancelar o Kuarup, isso nunca aconteceu. Mas todas lideranças conversaram e vimos que é muito perigoso fazer aglomeração”, fala Yanama.

O povo Yawalapiti também está devastado com o cancelamento do Kuarup. “É o ritual mais sagrado do povo do Alto Xingu. Mas não teve outro jeito”, diz Tapi Yawalapiti, filho do cacique Aritana e uma das lideranças locais.

Ele conta que há dois meses vinham pedindo para as pessoas da aldeia evitarem ir à cidade por causa do vírus, mas que os mais jovens não acreditavam que a doença era grave e poderia atingir os índios. “Eles pegavam as motos e iam escondido. Agora está proibido, precisa de autorização.”

Tapi também conta que na segunda eles fecharam de vez a estrada próxima à aldeia que vai até a cidade. “Ontem já não deixamos nem o carro da Funai passar.”

Segundo ele, nas aldeias Yawalapiti não há máscaras, álcool em gel, remédios ou equipamentos básicos.

O técnico indígena de enfermagem Leonardo Kamaiurá também relata falta de suprimentos e equipamentos de prevenção nas Unidades Básicas de Saúde. “Temos poucas máscaras, o álcool em gel temos que dividir metade do pote para mandar para outros postos. Falta o básico.”

O profissional conta que ouve de muitos índios que o coronavírus seria uma doença apenas de não-indígenas, que seriam mais fracos. “Há uma resistência grande por aqui também para acreditar na pandemia, como acontece no resto do Brasil.”

Todas lideranças indígenas e profissionais de saúde ouvidos pelas Folha dizem que o governo não tem ajudado e que falta informação correta.

A disseminação de notícias falsas ou incorretas, segundo alguns indígenas, está levando medo à população. Em um áudio ao qual a Folha teve acesso, o presidente da Atix, Ianukulá Kaiabi Suiá, diz que há pessoas falando em não reportar sintomas aos agentes de saúde, porque, se isso acontecer, “eles serão levados aos hospitais, serão entubados e vão morrer”.

A médica Daphne Andrade, do DSEI Xingu, diz que não ouviu isso nas aldeias do Alto Xingu nas quais ela trabalha. “Rodei muitas aldeias levando informação sobre corona, fazendo alguns testes e não ouvi isso. Eles falam sim que têm medo de intubar, porque isso todos nós temos, né? Mas não ouvi isso de não reportar sintomas.”

A reportagem tentou contato com alguma liderança dos Kalapalo, mas por problemas de comunicação no local, não conseguiu.

Em nota, o Ministério da Saúde, por meio da Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), diz trabalhar em articulação com o estado, tanto que está prevista a instalação de ala indígena em hospital do Mato Grosso. E que o Distrito Sanitário Especial Indígena do Xingu já recebeu 720 testes para Covid-19 e que estão sendo enviados mais mil. E que enviará mais 36 cilindros de 50 litros de oxigênio.

Dário contra a xawara (ECOA/UOL)

uol.com.br

Marcos Candido, 15 de junho de 2020

Liderança indígena, Dário Kopenawa é ameaçado de morte enquanto luta para manter os yanomami vivos.

Dário Vitório Kopenawa, 38, escondeu-se assustado por entre as pernas do pai e da mãe quando viu o homem branco pela primeira vez. Ele tinha cinco anos e acreditou que via um fantasma. Mas seu pai, o xamã Davi Kopenawa e um dos maiores propagadores da cultura indígena no mundo, já conhecia bem os visitantes. Explicou ao filho que eram pessoas com uma língua e características diferentes. A versão detalhada veio anos mais tarde.

Na tradição yanomami, as doenças foram enterradas no fundo da terra por Omama, criador da humanidade. Em busca de riquezas, os homens brancos escavaram onde estavam os males e espalharam as doenças entre os povos indígenas. Davi entendeu que era preciso lutar para preservar o subsolo sobre onde viveram seus antepassados. “Quando você crescer mais, seguirá a minha linha e a minha luta”, disse o pai para o filho.

As doenças enterradas têm um nome: xawara. Hoje, Dário luta contra garimpeiros invasores que persistem em “desenterrar” o xawara na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, e a propagar a Covid-19 entre os povos indígenas. Vice-presidente da Associação Yanomami desde 2004, Dário encabeça a campanha “Fora Garimpo, Fora Covid!”, lançada no início de junho para coletar assinaturas e pressionar Brasília contra a extração ilegal. Desde o início o ano, ele tem convivido com o aumento das ameaças de morte, mas isso não o abala. “Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer”, diz em entrevista a Ecoa via videochamada.

Imagens de satélite mostram extensas áreas abertas no território yanomami. Acredita-se que 20 mil garimpeiros estejam na região e transitem com vírus entre Boa Vista e o território. Até agora, quatro yanomamis foram vítimas da Covid-19, entre eles um líder reverenciado, uma gestante e um adolescente de 15 anos.

Um estudo da Universidade Federal de Minas Gerais e Instituto Socioambiental (ISA) estima que até 40% dos yanomami podem ser infectados, tornando-os o povo indígena mais vulnerável do país. O Serviço Especial de Saúde Indígena (Sesai) estima 26 mil indígenas na Terra Indígena Yanomami, onde vivem 8 povos diferentes; alguns isolados.

Dário começou a estudar português em 1995 e, dois anos depois, já era professor bilíngue e propagador da escrita da língua yanomami. No início dos anos 2000, visitou o Xingu no Mato Grosso, os Makuxi e Wapixana em Roraima e os povos indígenas no Acre. Viajou para os Estados Unidos e Europa. “Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda”, diz.

Na conversa abaixo, Dário Kopenawa fala sobre identidade, rituais, o perigo real enfrentado pelos indígenas hoje e a relação do homem branco com a natureza. Ele acredita que, com o fim da pandemia, o mundo não indígena – o mesmo que estimula a busca pela xawara — vai compreender que a terra mãe é viva e se vinga

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Doença do homem branco

Por que na leitura dos yanomami, estamos enfrentando a Covid-19?

Na língua yanomami, as doenças a gente chama de xawara: a gripe, a malária, a diarreia. Covid-19 também é xawara. Na década de 1970, a doença já tinha chegado às terras yanomami e mais de 20% dos yanomami morreram com o sarampo. O xawara mata as pessoas. Não é uma situação simples: ficamos em alerta

Por que acontecem as xawaras?

Antes dos europeus invadirem nosso país, vivíamos em muita tranquilidade. Sem doença, sem gripe. Sem coisa que ataca a gente. Os rios limpos, os animais vivos. Nosso criador Omama enterrou a epidemia e ela se transformou em ouro, diamante, petróleo. O que está lá embaixo é a xawara, escavada pelo homem branco, o mesmo que destrói a floresta e pegam a doença lá no fundo da terra mãe. Depois queimam o ouro para fazer riqueza. É assim que a fumaça de xawara sai pela terra. Os xamãs têm conhecimento de como evitá-las.

Nós, povos da floresta, yanomami, não criamos doenças. A gente lida com respeito à natureza, conhecemos o sistema da floresta, como funciona o meio ambiente. Sabemos que não podemos causar problemas a ela, sabemos da vida yanomami com a mãe terra.

Vocês têm medo que os yanomami despareçam com as repetidas xawaras?

A gente não tem medo, mas não queremos mais morrer. Somos sobreviventes, nossa população aumentou após diminuir na década de 70 e 80. As lideranças mais velhas dizem que a doença é muito grave. Mas agora não é só a gente que não quer mais morrer, o mundo todo está com medo.

Você está em Boa Vista (RR) agora. Tem medo de ser infectado e não voltar?

Não tenho medo de pegar, tenho medo de levar a doença ao meu povo e matá-los. Preciso respeitar a hierarquia da terra mãe e não posso entrar lá enquanto houver a xawara.

Seu pai, Davi Kopenawa, está com o povo. Vocês estão se falando?

Meu pai está trabalhando com xamãs e os espíritos da floresta para enfraquecer o xawara contra a doença que se chama coronavírus. Está mais protegido do que eu, meu povo está protegido. Ele está longe, mas as lideranças sabem que estou na luta e espiritualmente me lideram. No momento, estou na luta e não quero retornar.

Uma das vítimas foi uma liderança de 64 anos. O que significa perder um idoso na cultura yanomami?

Machuca muito. Um idoso já sobreviveu a muito, cuidou de muitas famílias, organizou nossa sociedade. O idoso é o cabeça das gerações e repassa a história yanomami. Quando morre, perdemos uma pedaço história dos primeiros criadores filhos da floresta, mas outras lideranças vão continuar a ensinar às novas gerações que estão nascendo.

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O “novo normal”

Vocês destroem a terra, as florestas, matam os povos indígenas, provocam mudanças climáticas no mundo inteiro. O que está acontecendo é resultado do homem branco não deixar a mãe terra em paz. Quando a doença voltar para debaixo da terra, ela já vai ter comido os não indígenas e indígenas e vamos viver como restos de comida. Para vocês, será uma nova vida. Mas nós já sabemos que tudo foi resultado da vingança da mãe terra. Nós já a entendemos. A pandemia vai deixar uma mensagem para vocês entenderem que é uma vingança universal. Vocês, como brancos, vão aprender que estão na nossa casa.

Dário Kopenawa

A cultura yanomami

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Há muitos anos você convive com outras culturas, outros povos e sempre há uma situação conflituosa. Você acha que o homem branco está condenado à destruição ou você ainda tem esperança entre harmonia entre os povos?

Como vocês sonham, nós sonhamos também. Nós queremos viver em paz. Sem brigas com lideranças não indígenas. Os brancos querem a riqueza, a economia, mesmo que isso destrua a natureza, escavar a terra indígena, derrubar milhares de árvores na Amazônia. Particularmente, espero que as novas gerações falem com as antigas, com seus parlamentares, senadores e governos para interromper a destruição da mãe terra. Mas o problema não vai parar. A gente está lutando e defendendo a mãe terra, mas os brancos brincam de desenvolvimento. São 520 anos de briga. Querem mais economia, mais fábricas, buscar por riqueza. Nós queremos paz, mas isso não vai acontecer. Nós, povos da floresta, vamos continuar a falar só sobre como somos discriminados e assassinados.

O que é riqueza para os povos yanomami?

Riqueza para nós é terra boa, sem destruição, sem desmatamento, ar limpo, muito alimento. Terra com muito buriti, muitas frutas, muito açaí. Para nós, isso é riqueza. É onde vivemos em paz, sem doença, onde tem alimento para nossos filhos, para criar nossos parentes, sem a contaminação dos rios, sem malária, sem problemas no ar. Para o homem branco, a riqueza é derrubar as árvores, fumaça, atmosfera poluída por máquinas, trator, carro. Esse é o pensamento do não indígena.

Diferentemente dos indígenas, o homem branco discute pouco sobre a própria identidade?

O homem branco não pensa como a gente pensa. É diferente. Ele é um desconhecido. Por isso, não se dá muito a amizade com o índio. É difícil compreender a sociedade não indígena, mas é fácil ver que no homem branco entra o preconceito contra os povos da floresta. Quando você conhece um pouco da cultura yanomami, por exemplo, você já passar a respeitar. Você já visitou os guarani em São Paulo?

Não, mas é mais ou menos perto de onde vivo.

É por isso. Você mora em capital grande. Os guarani kaiowá estão aí, mas muitos brancos não se interessam em conhecê-los. Por isso é difícil ao homem branco conhecer a cultura dos povos indígenas.

Você viajou a outros países, outros povos e culturas. O que você aprendeu sobre sua própria identidade indígena e a si mesmo ao conhecer tantas pessoas diferentes?

Conheço vários de nossos parentes no Brasil — considero como parentes todos povos da floresta. A gente luta junto, fala nossas próprias línguas. Eu viajei a outros países, mas não fui turista. Na Noruega, conheci nossos parentes indígenas: os sámi. Fiquei impressionado e triste com o histórico deles. Foi muito importante e interessante, mas a minha cultura não se muda. Eu não integrei a sociedade não indígena para me tornar um não indígena. Isso não existe. As lideranças mais velhas, como meu pai Davi Kopenawa, Raoni Metuktire e Ailton Krenak são grandes mestres e nos ensinam caminhos bons para a luta, para defesa e de diálogo com autoridades. Aprendi que não importa se estou com blusa, tênis, óculos, celular. Por dentro, minha identidade não muda. Sou Dário. Sou yanomami.

Queria saber se há um intercâmbio de culturas. A cultura do homem branco também influencia os yanomami? Dá para ser feminista, ou LGBT, por exemplo, especialmente quando há presença de yanomamis nas cidades e nas redes sociais?

A cultura não se muda. Na sociedade não indígena, a gente participa errado, por exemplo, podendo achar que vai ser rico se morrer de trabalhar, esquecer de sua cultura e achar mais fácil ter comida e dinheiro na cidade. Nós podemos querer morar na cidade, conhecer outras coisas, mas a cultura yanomami se perde muito com isso. A escola também é muito boa, mas às vezes acaba com a linguagem. Na Terra Yanomami, nós corremos atrás dos macacos, vivemos lá, flecho animais, ainda falamos na minha língua — e também uso a língua de vocês como arma de defesa. A tecnologia consome muito nosso pensamento e atrapalha a visão do povo originário. Nossas memórias também se adoecem e temos problemas de saúde. Por outro lado, é importante usar as redes sociais, ter acesso à diversidade e a cultura para ocupar as tecnologias e fazer vocês conhecerem a nossa cultura. O pensamento do branco nos manipula muito forte, e isso às vezes nos atrapalha muito, mas a cultura não morre e continua.

É possível ser yanomami e evangélico, por exemplo?

Nós temos regras e normas de cada aldeia. Nossas lideranças podem ou não autorizar uma manifestação. Particularmente, eu respeito o religioso, mas não quero ser pastor ou evangelizar meus pais. É a cultura do povo não indígena e já tenho minha religião no xapiri yanomami.

E dá para ser yanomami e feminista?

Isso é uma visão do branco, não é a nossa. A gente não pensa nisso. É um pensamento da cultura de vocês e isso não se encaixa na cultura do povo da floresta, então não consigo responder.

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Luta contra o garimpo

O garimpo existe há décadas na região. Por que nunca vai embora?

Os garimpos são como o sarampo. Não querem sair, não querem largar a nossa terra. Para mim, são pragas. Ele não existiria sem o preço do ouro: o garimpo não trabalha de graça e o preço do ouro é alto. Se derrubar o preço do ouro, duvido que garimpeiros vão trabalhar de graça e arriscar a vida, morrendo com seus colegas, para tirar ouro da terra yanomami. Esperamos que as autoridades os tirem, mas sem ouro eles não iriam trabalhar.

O garimpo é mais perigoso pelo desmatamento ou pela Covid-19?

Os dois. O garimpo é perigoso e a Covid-19 é perigoso. Os dois matam pessoas, destroem a terra e não respeitam nossa cultura, nossa terra que está homologada pelo próprio governo federal. Os dois são perigosos. Não vejo muita diferença.

O governo federal do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) deu algum posicionamento, em relação ao garimpo?

Olha, ele é o chefe. Bolsonaro apoia a exploração da mineração em terras indígenas. Ele apoia o garimpo ilegal. Por isso, nós encaminhamos documentos ao governo federal e ele não nos respondeu sobre a retirada dos garimpeiros da terra yanomami. Não respondeu, mas está cada vez mais violentando, pressionando o Congresso nacional para reabrir Terras Indígenas e prejudicar a vida dos povos indígenas.

O que mudou para vocês com a presidência de Bolsonaro? Porque o garimpo não é uma situação nova.

Os governos anteriores pelo menos respeitavam um pouco a questão indígena, nossos direitos, nosso direito à floresta. Na época, quando ele ainda era deputado federal pelo Rio de Janeiro, sempre falava sobre a mineração em terra indígena e em projetos de lei. Quando o povo brasileiro o elegeu, ele se ergue e desrespeita a hierarquia da autoridade brasileira. Desrespeita a Constituição. Ele acha que, por ser presidente da república, pode desrespeitar todo mundo. O negro, o branco. Imagina os indígenas! É pior! É querer acabar com a vida dos povos indígenas. Para mim, Bolsonaro tem o pensamento doente. Vivemos uma desorganização no país e mais problemas ainda são criados. Ele fala besteira, tipo como criança. Ele tem um “pensamento muito desperdício”.

O presidente Jair Bolsonaro já disse que a demarcação do território indígena é abusivo no Brasil, e que há uma indústria de demarcação de terras. A demarcação de terras indígena é abusiva?

As terras indígenas estão demarcadas por lei. Mas Bolsonaro pensa que é fácil desmanchar nossos territórios. Por isso, nós lutamos. O mais valioso é nosso território yanomami. É fundamental e mais importante do que a fala do presidente. Sem o território, como nós vamos viver?

Mas elas são excessivamente grandes, como fala o presidente?

Na visão do povo indígena, isso não existe. Temos pedaços. Perdemos muito no território brasileiro e as cidades são muito grandes. O que temos é um rascunho. Para nós, o que temos não é um território grande. É pequeno, mas é uma conquista. Na visão do Bolsonaro, nossos territórios são grandes, maiores do que Portugal ou Rio de Janeiro. Para nós isso não existe, o que temos veio da luta e da conquista. Nossos territórios não são grandes, são pequenos.

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Guerreiro não tem medo de morrer

Como o garimpo consegue entrar nas terras indígenas?

O garimpo é como formiga. Entram como entram nos quartos dos brancos, nas mochilas, nos carros. É a mesma coisa. Chegam de avião, de barco, pelo mato. Nosso território tem 9 milhões de hectares, então os garimpeiros chegam nos limites da terra indígena, usam barcos e aviões pagos com ouro para entrar no nosso território. O garimpo entra em qualquer território como se fosse o dono, como se fosse o sítio deles. A eles, a terra não tem dono.

O garimpo tornou-se mais organizado?

Os garimpeiros não são organizados. Os empresários é que são organizados e roubam dos garimpeiros, que são mão-de-obra. Os garimpeiros correm risco e morrem entre eles, se matam entre si. Mesmo sem organização, eles entram com barracões e destroem muito as terras.

E quem são esses empresários?

Não conheço nenhum, mas sabemos que são eles que financiam a venda e compra de ouro no Brasil e também vendem para fora do país.

Você já sofreu ameaça de morte?

Fisicamente, não. Mas meus parentes já receberam mensagens dizendo que garimpeiros queriam saber meu endereço, onde eu estava, onde vivo e o onde fica meu trabalho. As ameaças já são de muitos anos. Pioraram [nos últimos meses], mas não são mais fortes no sentido fisicamente. Mas por mensagem, aumenta cada vez mais.

Por que acha que as ameaças estão chegando cada vez mais?

Nós estamos denunciando, brigando e perturbando os garimpeiros. Eles pensam que estou atrapalhando o trabalho deles no garimpo ilegal na terra indígena yanomami. Por isso, querem acabar comigo e com meu pai quando fazemos uma denúncia nacional e internacional.

Você tem medo de morrer?

Não tenho medo. Para a cultura yanomami, quem é guerreiro e organiza lutas não tem medo de morrer. Quem rouba é que tem que ter medo. Não sei o que pode acontecer, mas não tenho medo e não quero fugir.

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The end of a People: Amazon dam destroys sacred Munduruku “Heaven” (Mongabay)

5 January 2017 / Sue Branford and Maurício Torres

Brazil dynamited an indigenous sacred site, the equivalent of Christian “Heaven,” to make way for Teles Pires dam; desecration is devastating to Munduruku culture.

The end of a People: Amazon dam destroys sacred Munduruku “Heaven”

  • Four dams are being built on the Teles Pires River — a major tributary of the Tapajós River — to provide Brazil with hydropower, and to possibly be a first step toward constructing an industrial waterway to transport soy and other commodities from Mato Grosso state, in the interior, to the Atlantic coast.
  • Those dams are being built largely without consultation with impacted indigenous people, as required by the International Labor Organization’s Convention 169, an agreement which Brazil signed.
  • A sacred rapid, known as Sete Quedas, the Munduruku “Heaven”, was dynamited in 2013 to build the Teles Pires dam. A cache of sacred artefacts was also seized by the dam construction consortium and the Brazilian state.
  • The Indians see both events as callous attacks on their sacred sites, and say that these desecrations will result in the destruction of the Munduruku as a people — 13,000 Munduruku Indians live in 112 villages, mainly along the upper reaches of the Tapajós River and its tributaries in the heart of the Amazon.

(Leia essa matéria em português no The Intercept Brasil. You can also read Mongabay’s series on the Tapajós Basin in Portuguese at The Intercept Brasil after January 10, 2017)

The Tapajós River Basin lies at the heart of the Amazon, and at the heart of an exploding controversy: whether to build 40+ large dams, a railway, and highways, turning the Basin into a vast industrialized commodities export corridor; or to curb this development impulse and conserve one of the most biologically and culturally rich regions on the planet. 

Those struggling to shape the Basin’s fate hold conflicting opinions, but because the Tapajós is an isolated region, few of these views get aired in the media. Journalist Sue Branford and social scientist Mauricio Torres travelled there recently for Mongabay, and over coming weeks hope to shed some light on the heated debate that will shape the future of the Amazon. 

“It is a time of death. The Munduruku will start dying. They will have accidents. Even simple accidents will lead to death. Lightning will strike and kill an Indian. A branch will fall from a tree and kill an Indian. It’s not chance. It’s all because the government interfered with a sacred site,” says Valmira Krixi Biwūn with authority.

Valmira Krixi Munduruku, as she was baptized, is an indigenous Munduruku woman warrior living in the village of Teles Pires beside the river of the same name on the border between the Brazilian states of Mato Grosso and Pará. A leader and a sage, she speaks with great confidence about a variety of subjects ranging from the old stories of her people, to the plant-based concoctions in which young girls must bathe in order to transform into warriors.

The sacred site she speaks about is a stretch of rapids known as Sete Quedas located on the Teles Pires River. In 2013, the consortium responsible for the construction of a large hydroelectric power station obtained judicial authorization to dynamite the rapids to make way for the Teles Pires dam.

Rapids on the Teles Pires River. The cultural impacts of the destruction of Sete Quedas, a sacred site comparable to the Christian “Heaven” continues to reverberate throughout Munduruku society. Future dams and reservoirs are planned that will likely impact other sacred indigenous sacred sites. Photo by Thais Borges
Rapids on the Teles Pires River. The cultural impacts of the destruction of Sete Quedas, a sacred site comparable to the Christian “Heaven” continue to reverberate throughout Munduruku society. Future dams and reservoirs are planned that will likely impact other sacred indigenous sacred sites. Photo by Thais Borges
The Teles Pires hydroelectric dam under construction. Photo courtesy of Brent Millikan / International Rivers. Photo by Thais Borges
The Teles Pires hydroelectric dam under construction. Photo courtesy of Brent Millikan / International Rivers. Photo by Brent Millikan

In 2013 the companies involved blew up Sete Quedas, and in so doing also destroyed — in the cosmology of the region’s indigenous people — the equivalent of the Christian “Heaven”, the sacred sanctuary inhabited by spirits after death. Known in as Paribixexe, Sete Quedas is a sacred site for all the Munduruku.

Dynamiting Heaven

The destruction of the sacred rapids was a lethal blow for the Indians: “The dynamiting of the sacred site is the end of religion and the end of culture. It is the end of the Munduruku people. When they dynamited the waterfall, they dynamited the Mother of the Fish and the Mother of the Animals we hunt. So these fish and these animals will die. All that we are involved with will die. So this is the end of the Munduruku”, says a mournful indigenous elder, Eurico Krixi Munduruku.

The message Valmira Krixi delivers is equally chilling: “We will come to an end, and our spirits too.” It is double annihilation, in life and in death.

In all, today, more than 13,000 Munduruku Indians live in 112 villages, mainly along the upper reaches of the Tapajós River and its tributaries, including the Teles Pires River. This indigenous group once occupied and completely dominated such an extensive Amazonian region that “in colonial Brazil the whole of the Tapajós River Basin was known by the Europeans as Mundurukânia”, explains Bruna Rocha, a lecturer in archaeology at the Federal University of the West of Pará.

A traditional Munduruku dance. Photo by Thais Borges
A traditional Munduruku dance. Photo by Thais Borges
Valmira Krixi Munduruku: “It is a time of death. The Munduruku will start dying. They will have accidents. Even simple accidents will lead to death.… It’s not chance. It’s all because the government interfered with a sacred site.” Photo by Mauricio Torres
Valmira Krixi Munduruku: “It is a time of death. The Munduruku will start dying. They will have accidents. Even simple accidents will lead to death.… It’s not chance. It’s all because the government interfered with a sacred site.” Photo by Thais Borges

The sudden appearance of rubber-tapping across Amazonia during the second half of the 19th century shattered the power of “Mundurukânia,” and deprived the Munduruku of most of their territory. “They just kept fragments in the lower Tapajós and larger areas in the upper reaches of the river, but even so it was only a fraction of what they occupied in the past”, says Rocha.

Now even these fragments are being seriously impacted by the hydroelectric power stations being built around them. Of the more than 40 dams proposed in the Tapajós Basin, four are already under construction or completed on the Teles Pires River. These dams are all key to a proposed industrial waterway that would transport soy from Mato Grosso state, north along the Teles Pires and Tapajós rivers, then east along the Amazon to the coast for export.

The time before

The 90 families in Teles Pires village, which we visited, love talking about the past, a time, they say, when they could roam at will through their immense territory to hunt and harvest from the forest. In part, these nostalgic recollections are mythical in that, for at least two centuries and probably longer, the people have lived in fixed communities. But they continue to collect many products from the forest — seeds, tree bark, fibers, timber, fruit and more; using the materials to build their houses, to feed themselves, to make spears for hunting, to concoct herbal remedies, and so on.

Their territory ­— the Indigenous Territory of Kayabi, which they share, not always happily, with the Apiaká and Kayabi people — was created in 2004. Bizarrely, the sacred site of Sete Quedas lay just outside its legal limits, an oversight that was to have tragic consequences for the Indians.

Over the centuries, the Munduruku have adapted well to changes in the world around them, changes that intensified after they made contact with white society in the 18th century. On some occasions, the people readily incorporated new technological and social elements into their culture, seizing on their advantages. The British Museum has a “very traditional” Munduruku waistband, probably created in the late 19th century, which utilizes cotton fabric imported from Europe. The Indians clearly realized that cotton fabric was far more resilient than the textiles they made from forest products, and they happily incorporated the cotton into the decorative garment.

Munduruku warriors. A proud indigenous group today numbering 13,000, the Munduuku are making a defiant stand against the Brazilian government’s plan to build dozens of dams on the Tapajós River and its tributaries. Photo by Mauricio Torres
Munduruku warriors. A proud indigenous society, today numbering 13,000, the Munduuku are making a defiant stand against the Brazilian government’s plan to build dozens of dams on the Tapajós River and its tributaries. Photo by Mauricio Torres

Today that custom continues. Almost all young people have mobile phones, and appreciate their usefulness. But at times the Munduruku have found, just as many of us do in our city lives, that modern technology can go wrong, with frustrating results. The Munduruku have, for example, installed an artesian well in Teles Pires village and now have running water in their houses. That advance makes life easier, except when the system breaks down, which is not infrequent. During the four days of our visit, for instance, there was no water, as the pump had quit working.

In similar fashion, their religion has also changed, at least superficially. Franciscan friars have had a mission (Missão Cururu) in the heart of Munduruku territory for over a century, and Catholicism has left its mark. The Munduruku say, for instance, that the creator of the world, the warrior Karosakaybu, fashioned everyone and everything “in his own image”, a direct quote from the Bible.

Even so, the Indians have a strong ethnic identity, which they fiercely protect. When we asked to film them, they said yes, but many insisted on speaking their own language on camera, even though they often could speak Portuguese far better than our translator.

Moreover, their cosmology is rock-solid; every Indian to whom we spoke shared Krixi Biwūn’s belief in the hereafter and the paramount importance of the sacred sites in guaranteeing their life after death. This faith forms the foundation of their cosmology, and is essential to their existence. It is this fundamental belief that has now been blasted — making adaptation almost impossible.

Eurico Krixi Munduruku: “When they dynamited the waterfall, they dynamited the Mother of the Fish and the Mother of the Animals we hunt. So these fish and these animals will die. All that we are involved with will die. So this is the end of the Munduruku.” Photo by Mauricio Torres
Eurico Krixi Munduruku: “When they dynamited the waterfall, they dynamited the Mother of the Fish and the Mother of the Animals we hunt. So these fish and these animals will die. All that we are involved with will die. So this is the end of the Munduruku.” Photo by Mauricio Torres

The dams the people didn’t want

National governments are obliged to directly consult with indigenous groups before launching any project that will affect their wellbeing, according to The International Labor Organization’s Convention 169. Brazil is a signatory of this agreement, so how is it possible that indigenous sacred sites could be demolished on the Teles Pires River to make way for Amazon dams?

The answer is clear-cut, according to Brent Millikan, Amazon Program Director for International Rivers. After the 2011 approval for the Belo Monte hydroelectric dam on the Xingu River — a major Amazon tributary —, the government’s next hydroelectric target in Amazonia was on the Teles Pires River. “Four dams are being simultaneously built [there]. Two are close to indigenous people — the Teles Pires and Sāo Manoel. The São Manoel is 300 meters from the federally demarcated border of an indigenous reserve where the Munduruku, Kayabi and Apiaká live,” Millikan told Mongabay. The sacred site of Sete Quedas, left outside the boundary of the indigenous territory, lay in the way of the São Manoel dam.

Map showing the reservoirs created by the Teles Pires River dams and their encroachment on indigenous lands. Map by Mauricio Torres
Map showing the reservoirs created by the Teles Pires River dams and their encroachment on indigenous lands. Map by Mauricio Torres

Unlike the building of the Belo Monte mega-dam, which was extensively covered by the Brazilian and international press, the Teles Pires “projects were ignored”, Millikan says. “This was due to various factors — their geographic isolation, the fact that they were less ‘grandiose’ than Belo Monte, and that there was very little involvement from civil society groups, who generally help threatened [indigenous] groups.”

Even so, the government carried out a form of consultation with the indigenous population and other local inhabitants. On 6 October 2010, it announced in the official gazette that it had received the environmental impact study for the Teles Pires dam from the environmental agency, Ibama, and that the public had 45 days in which to request an audiência pública (public hearing) in which to raise questions about the dam.

A hearing was, in fact, held on 23 November 2010 in the town of Jacareacanga. Although the event was organised in a very formal way, alien to indigenous culture, contributions from 24 people, almost all indigenous, were permitted. According to the Federal Public Ministry (MPF), an independent body of federal prosecutors within the Brazilian state, every speaker expressed opposition to the dam. Even so, the project went ahead. Over time, the Munduruku became increasingly reluctant to take part in these consultations, saying that their views were simply ignored.

Although the Munduruku were always opposed to the dams, they were ill prepared for the scale of the damage they have suffered.

Cacique Disma Muõ told us: “The government didn’t inform us. The government always spoke of the good things that would happen. They didn’t tell us about the bad things.” When they protested, the Munduruku were told: “The land belongs to the government, not to the Indians. There is no way the Indians can prevent the dams.”

This is, at best, a half-truth. Although indigenous land belongs to the Brazilian state, the indigenous people have the right to the “exclusive” and “perpetual” use of this land, in accordance with the Brazilian Constitution.

Cacique Disma Muõ: “The government didn’t inform us. The government always spoke of the good things that would happen. They didn’t tell us about the bad things.” Photo by Mauricio Torres
Cacique Disma Muõ: “The government didn’t inform us. The government always spoke of the good things that would happen. They didn’t tell us about the bad things.” Photo by Mauricio Torres

Moreover, the ILO’s Convention 169 says that indigenous groups must be consulted if they will suffer an impact, even if the cause of the impact is located beyond their land. Rodrigo Oliveiraan adviser in Santarém to the Federal Public Ministry (MPF) made this clear in an interview with Mongabay: “As it was evident before the dams were licensed that the Munduruku and other communities would be affected, the Brazilian government had the obligation to consult these groups in a full and informed way in accordance with the ILO’s Convention 169.”

The Brazilian government repeatedly claimed that its public hearings amounted to the “full, informed and prior” consultation required by the ILO, but the MPF challenged this assertion. It sued the Brazilian government, and the federal courts on several occasions stopped work on the dam. However, unfortunately for the Munduruku and other local indigenous groups, each time the MPF won in a lower court, the powerful interests of the energy sector — both within government and outside it — had the decision overturned in a higher court.

This was largely possible because the Workers’ Party government (which ruled from 2003-16) had revived a legal instrument known as Suspensão de Segurança (Suspension of Security), which was instituted and widely used by Brazil’s military dictatorship (1964-85). Suspension of Security allows any judicial decision, even when based on sound legal principles, to be reversed in a higher court without further legal argument, using a trump card that simply invokes “national security”, “public order” or the “national economy”.

The Prosecutor Luís de Camões Lima Boaventura told Mongabay: “Figures collected by the MPF show that, just with respect to the hydroelectric dams in the Teles Pires-Tapajós Basin, we were victorious in 80 percent of the actions we took, but all of the rulings in our favor were reversed by suspensions.”

Marcelo Munduruku: “The ethnocide continues, in the way people look at us, the way they want us to be like them, subjugating our organizations, the way they tell us that our religion isn’t worth anything, that theirs is what matters, the way they tell us our behavior is wrong. They are obliterating the identity of the Indian as a human being.” Photo by Thais Borges
Marcelo Munduruku: “The ethnocide continues, in the way people look at us, the way they want us to be like them, subjugating our organizations, the way they tell us that our religion isn’t worth anything, that theirs is what matters, the way they tell us our behavior is wrong. They are obliterating the identity of the Indian as a human being.” Photo by Thais Borges

According to Prosecutor Boaventura, the root of the problem is that the Brazilian authorities have always adopted a colonial mentality towards the Amazon: “I would say that Amazonia hasn’t been seen as a territory to be conquered. Rather, it’s been seen as a territory to be plundered. Predation is the norm.”

Instead of democratically engaging the Munduruku, and debating the various options for the future of the Tapajós region, federal authorities imposed the dams, without discussion. The Teles Pires dam was built in record time — 41 months — and is already operating. According to a recent press interview, the São Manoel dam, due to come on stream in May 2018, is also on course to be completed ahead of schedule.

Almost every week now, local indigenous villages feel another impact from the large construction projects. The Indians say that the building of the São Manoel dam made the river dirty, more silted and turbid. Although their claims may be exaggerated, there seems little doubt that aquatic life will suffer serious, long-term harm. This is serious for a people whose diet largely consists of fish.

In November, crisis came in the form of an oil spill on the river, possibly originating at the dam construction site, an event that deprived some villages of drinking water.

“We will have to pay the price”

The destruction of the sacred Sete Quedas rapids was not the only blow inflicted on the Munduruku by the consortium building the Sao Manoel dam. Workers also withdrew 12 funeral urns and archaeological artefacts from a nearby site, a violation of sacred tradition that has done further spiritual harm. The Munduruku cacique, or leader, Disma Mou, who is also a shaman, explains: “We kept arrows, clubs, ceramics, there, all buried under the ground in urns, all sacred. Many were war trophies, placed there when we were at war, travelling from region to region. Our ancestors chose this place to be sacred and now it is being destroyed by the dam.”

A creek flowing into the Teles Pires River. With the building of more than 40 dams in the region, these small waterways will be drowned, destroying fishing grounds and vastly altering ecosystems. Photo by Thais Borges
A creek flowing into the Teles Pires River. With the building of more than 40 dams in the region, these small waterways will be drowned, destroying fishing grounds and vastly altering ecosystems. Photo by Thais Borges

Francisco Pugliese, an archaeologist from the University of São Paulo, told Mongabay that he had been horrified by the behavior of the National Institute of Historic and Artistic Heritage (Iphan), the body in charge of the protection of archaeological sites. He said that the institute had broken the law by exempting the hydroelectric company from the obligation to work with the Munduruku to determine the best way of protecting their sacred site. Worse, Iphan had decided that, as the urns and other material were discovered outside the boundary of the indigenous reserve, they were the property of the government and should be sent to a museum.

“Imagine what it’s like for a traditional people to see its ancestors taken to a place with which it has no emotional link or even knows”, he said. “It’s within this perverse logic of dispossession that archaeological research takes place, in the context of the implementation of the dam. It exacerbates the process of expropriation and the destruction of the cultural references of the people and it reinforces the process of genocide of the original inhabitants of the Amazon basin”, he concluded. Mongabay requested an interview with Iphan but was not granted one.

The elder Eurico Krixi Munduruku finds it painful to describe what this sacrilege means for the people: “Those urns should never have been touched. And it’s not the white man who will pay for this. It is us, the living Munduruku, who will have to pay, in the form of accidents, in the form of death…. Our ancestors left them there for us to protect. It was our duty and we have failed. And now we, the Munduruku, will have to pay the price.”

The harm done to the Munduruku psyche by these desecrations hit home in the aftermath of a 2012 federal police operation known as Operação Eldorado, during which an Indian was killed. Krixi Biwun, the sister of the dead man, told us of her brother’s restless spirit: “He went to Sete Quedas because, when people die, that is where our ancestors take them so they can live there. But now Sete Quedas is destroyed and he is suffering.”

“The ethnocide continues”

Is there a way forward for the Munduruku people, a way that the perceived blasphemy done by the consortium and federal government can be reversed? Everyone we talked to in the village is certain that, as long as the urns and other artefacts rest outside the sacred site, one catastrophe will follow another; even small wounds will cause death.

But it is not simply a case of returning the urns to the Indians so they can rebury them. “They can’t give the urns back to us”, explains Krixi Biwun. “We can’t touch them. They have to find a way of getting them returned to a sacred place [without us].”

This seems unlikely to happen. The urns are currently held by the Teles Pires company in the town of Alta Floresta, waiting to be taken to a museum at the request of Iphan. Mongabay asked to see the artefacts but our request was turned down.

Munduruku Indians outside the Teles Pires company gate where the Munduruku sacred relics have been stored by the dam construction consortium. Photo by Thais Borges
Munduruku Indians outside the Teles Pires company gate where the Munduruku sacred relics have been stored by the dam construction consortium. Photo by Thais Borges

Even if the holy relics were eventually returned to a sacred place in one of the rapids along the Teles Pires River, that respite is likely to be short-lived. The next step in the opening up of the region to agribusiness and mining is to turn the Teles Pires into an industrial waterway, transforming it with dams, reservoirs, canals and locks. This will mean the destruction of all the river’s rapids, leaving no sacred sites.

The indefatigable MPF has carried on fighting. In December, it won another court victory, with a judge ruling that the license for the installation of the Teles Pires dam — granted by the environmental agency, Ibama — was invalid, given the failure to consult the Indians.

Once again, however, this court order is likely to be reversed by a higher court using the “Suspension of Security” instrument. Indeed, no judicial decision regarding the dams will likely be respected by the government until the case is judged by the Supreme Federal Tribunal, which will probably take decades. In practical terms, what the Tribunal decides will be irrelevant, for the Teles Pires dam is already operational and the São Manoel dam will come on stream later this year.

The Indians are outraged by the lack of respect with which they are being treated. A statement issued jointly by the Munduruku, Kayabi and Apiaká in 2011, and quoted in the book-length report, Ocekadi, asks: “What would the white man say if we built our villages on the top of his buildings, his holy places and his cemeteries?” It is, the Munduruku say, the equivalent of razing St. Peters in Rome to construct a nuclear power plant, or digging up your grandmother’s grave to build a parking lot.

The researcher, Rosamaria Loures, who has been studying the Munduruku’s opposition to the hydroelectric projects, told Mongabay that their experience reveals one of the weaknesses of Brazilian society: “The Nation-State has established a hierarchy of values based on criteria like class, color and ethnic origin. In this categorization, certain groups ‘count less’ and can be simply crushed,” she explains.

A Munduruku Indian, Marcelo, who we spoke to within an indigenous territory near the town of Juara, expressed the same notion in the graphic terms of someone who experiences discrimination every day of his life:

“The ethnocide continues, in the way people look at us, the way they want us to be like them, subjugating our organizations, the way they tell us that our religion isn’t worth anything, that theirs is what matters, the way they tell us our behavior is wrong. They are obliterating the identity of the Indian as a human being.”

 

(Leia essa matéria em português no The Intercept Brasil. You can also read Mongabay’s series on the Tapajós Basin in Portuguese at The Intercept Brasil after January 10, 2017)

The recently built Miritituba soy processing port on the Tapajós River. It was financed and constructed by Brazilian and international commodities traders in anticipation of the approval by the Brazilian Congress of a vast industrial waterway, new paved highways and a railroad. If that construction goes forward, it will cause major deforestation and ecological damage to the Tapajós Basin, while also impoverishing indigenous cultures. Photo by Thais Borges
The recently built Miritituba soy processing port on the Tapajós River. It was financed and constructed by Brazilian and international commodities traders in anticipation of the approval by the Brazilian Congress of a vast industrial waterway, new paved highways and a railroad. If that construction goes forward, it will cause major deforestation and ecological damage to the Tapajós Basin, while also impoverishing indigenous cultures. Photo by Walter Guimarães

Para compreender os conflitos entre fazendeiros e indígenas em MS (Campo Grande News)

22/09/2015 09:17

Por Jorge Eremites e Paulo Esselin (*)

Há muito os problemas que atingem os povos indígenas em Mato Grosso do Sul ganharam manchete na imprensa regional, nacional e internacional. Todos os anos índios são mortos e nada é feito de objetivo para mudar a realidade. Autoridades eleitas pelo povo, como vereadores, deputados estaduais, deputados federais, senadores, prefeitos e governador, mandato após mandato e salvo honrosas excessões, simplificam o problema. Ao fazerem isso, rechaçam o enfrentamento da questão fundiária, causa maior dos conflitos entre fazendeiros e comunidades indígenas.

Além disso, não raramente recorrem ao argumento de culpar instituições alhures pelo etnocídio ou genocídio cultural em andamento no estado: Supremo Tribunal Federal, Governo Federal, Ministério da Justiça, ONGs, Presidência da República, Conselho Indigenista Missionário, Ministério Público Federal, forças alienígenas que desejariam se apoderar do Aquífero Guarani etc. Repetidas vezes, de maneira costumeira, utilizam de sofismas dos mais variados para distorcer a realidade e formar opinião pública contrária à regularização das terras indígenas no país.

Ao fazerem isso, essas autoridades se isentam de quaisquer responsabilidades, terceirizam o problema e lavam as mãos. Afirmam que é a União, e basicamente ela, que pode e deve solucionar os conflitos pela posse da terra, desde que assim o faça a favor dos fazendeiros, aqueles que possuem títulos de propriedade privada da terra e por vezes financiam campanhas eleitorais e projetos de poder.

A questão fundiária, por sua vez, é um problema muito antigo e suas origens remontam aos séculos 18, 19 e 20, quando se deu a origem da propriedade privada da terra na região. Com o final da chamada Guerra do Paraguai (1864-1870), o antigo sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, passou a ser mais rapidamente colonizado por migrantes oriundos de outras partes do Brasil, além de imigrantes vindos de além-mar e paízes vizinhos. Desde então o espaço regional se configurou como palco de muitos conflitos pela posse da terra, especialmente quando comunidades indígenas tiveram seus territórios invadidos por fazendeiros e militares desmobilizados do exército imperial. A documentação oficial da época, como os relatórios da Diretória dos Índios da Província de Mato Grosso, comprova a situação. Contudo, sem os povos originários esta parte da bacia platina não estaria incorporada ao território nacional.

Foi graças às alianças com os indígenas, feitas desde o século 18, que Portugal estabeleceu sua hegemonia na porção central da América do Sul. Posteriormente, quando o Brasil tornou-se Estado-nação, as alianças permaneceram durante o período imperial. Exemplo disso foi o protagonismo que os indígenas tiveram na defesa do território nacional durante a Guerra do Paraguai. Autores renomados como o Visconde de Taunay, apenas para citar um exemplo, extenderam-se sobre o assunto e teceram elogios à participação dos Terena, Kinikinao, Kadiwéu, Guató e outros povos que, sozinhos ou ao lado do exército imperial, combateram as tropas invasoras do Paraguai na década de 1860.

Com o fim do conflito bélico platino houve a expansão da fronteira pastoril e, consequentemente, o aumento da titulação dolosa de territórios indígenas a favor de terceiros. A partir de então os povos originários passaram a ter suas terras usurpadas e via de regra não tinham a quem recorrer. Esta é uma das marcas colonialistas da formação do Estado Brasileiro e da propriedade privada da terra em Mato Grosso do Sul.

Neste contexto foi ainda imposto aos Guarani, Kaiowá, Terena e outros indígenas uma forma perversa de exploração da força de trabalho, análoga à escravidão moderna, baseada no conhecido sistema do barracão. Durante a primeira metade do século 20, muitos fazendeiros tinham transformado milhares de indígenas na principal mão-de-obra a ser explorada nas propriedades rurais que eram organizadas no antigo sul de Mato Grosso. Esta situação é verificada na fronteira com o Paraguai e a Bolívia, na Serra de Maracaju e em praticamente todo o estado.

Milhares de indígenas passaram a trabalhar na condição de vaqueiros e em outras atividades econômicas, tais como: lavoura, colheita e preparo da erva-mate, exploração de ipecacuanha, transporte fluvial etc. Muitas mulheres foram ainda “pegas a laço”, violentadas e forçadas a se casar com não-índios, história esta presente na memória de muitos dos antigos (sul) mato-grossenses. Apesar disso tudo, os índios pouco usufruiram das riquezas que produziram e passaram a viver em situações cada vez mais difíceis, sobremaneira quando suas roças foram invadidas pelo gado e os fazendeiros mandaram derrubar as matas existentes em seus territórios. Depois de formadas as propriedades rurais, especiamente entre os anos de 1950 a 1970, a mão-de-obra indígena foi dispensada de muitas fazendas.

Neste contexto histórico, marcado pela expansão do agronegócio no Centro-Oeste, dezenas de comunidades indígenas, as quais ainda conseguiam viver no fundo das fazendas, foram expulsas das terras de ocupação tradicional. Este processo de esbulho foi concluído na década de 1980.

No começo do século 20, Cândido Mariano da Silva Rondon, posteriormente conhecido como Marechal Rondon, à frente da Comissão de Linhas Telegráficas do Estado de Mato Grosso, deixou registrado os ataques que fazendeiros desfechavam contra os indígenas, como ocorria na bacia do rio Taboco. Em suas palavras: “[…] eivados da falsa noção de que o índio deve ser tratado e exterminado como uma fera contra o qual devem fazer convergir todas as suas armas de guerra, os fazendeiros ao invés de reconciliarem-se com os silvícolas trucidavam homens, mulheres e crianças e aprisionando os que não havia logrado fugir”.

Segundo Rondon, não contentes com os assassinatos, alguns fazendeiros “abriam os ventres de índias que se achavam em adiantado estado de gravidez”. Ações desta natureza são definidas como etnocídio e persistem, com outras roupagens, até o tempo presente. Por isso em Mato Grosso do Sul os indígenas são percebidos por muitos como não-humanos, chamados pejorativamente de “bugres”.

Dessa forma, no âmbito da constituição do Estado Brasileiro e da formação da sociedade nacional, foram registradas sucessivas tentativas de exploração, dominação e até extermínio contra os povos indígenas. À medida que se estabeleceram na região, fazendeiros incorporaram territórios indígenas ao seu patrimônio. Muitos conseguiram isso requerendo junto às autoridades estaduais, sem muitas dificuldades e por meio pouco ortodoxos, títulos de propriedade privada da terra. Muitas áreas atingiam um tamanho tal que era demarcada vagamente em função da particularidade geográfica de cada região: córregos, rios, morros etc. Embora tivessem logrado a titularidade de vastas extensões, frequentemente não tomaram posse imediata das terras, onde comunidades indígenas conseguiram permanecer, de maneira mansa e pacífica, por décadas sem grandes infortúnios.

À frente desses fazendeiros emergiu um grupo de proprietários de terra que se enriqueceu ao longo dos anos e, aproveitando-se da influência que tinham nos governos municipais, estadual e federal, ganhou poderes sobre pessoas e coisas. Mais ainda, promoveu todo tipo de violação dos direitos elementares dos povos indígenas. Constituiu-se, assim, uma elite ruralista com muita influência nos poderes constituídos na República, isto é, no próprio Estado Brasileiro. Seus feitos são enaltecidos por uma historiografia colonialista, geralmente financiada com dinheiro público, ligada à construção de uma história oficial e de uma identidade sul-mato-grossense, geralmente em oposição à de Mato Grosso, particularmente de Cuiabá.

Assim, no tempo presente observamos mais uma situação de conflitos entre ruralistas e comunidades Guarani, Kaiowá e Terena. O resultado disso foi mais um indígena assassinado durante a retomada de uma área oficialmente declarada como terra indígena, chamada Ñande Ru Marangatu, localizada no município de Antônio João, na fronteira com o Paraguai. Sobre o assunto, até o momento nenhuma autoridade esclareceu de onde veio o tiro que no dia 29 de agosto de 2015 ceifou a vida do Kaiowá Simeão Fernandes Vilhalba, 24 anos. A julgar pelo histórico do assassinato de indígenas no estado, como aconteceu com Nelson Franco (1952) e Marçal de Souza (1983), este será mais um caso em que os criminosos permanecerão impunes.

As autoridades máximas estaduais, com destaque para o governador do estado, em tese teriam a obrigação de contribuir positivamente para a elucidação dos fatos e repressão a todo tipo de violência armada contra povos originários. Trata-se de uma responsabilidade inerente ao cargo para o qual foram eleitos e em defesa do Estado Democrático de Direito, cujo conceito não se limita à defesa da propriedade privada da terra e da classe social à qual pertencem. Todavia, uma conduta desse tipo é incompatível com o protagonismo que certas autoridades tiveram no chamado Leilão da Resistência, ação planejada e executada por ruralistas para arrecadar fundos e financiar ações contra a retomada de terras indígenas, com a contratação de milícias armadas, tal qual noticiado pela imprensa desde 2013.

Por isso em Mato Grosso do Sul há uma situação peculiar da qual parte da população do estado não sente orgulho: quem não é fazendeiro, será tratado como boi bagual e, portanto, como não-humano ou animal selvagem, sobretudo os povos originários, comunidades tradicionais e segmentos de classes sociais em situação de vulnerabilidade social.

(*) Jorge Eremites de Oliveira é doutor em História (Arqueologia) pela PUCRS e docente da Universidade Federal de Pelotas e Paulo Marcos Esselin é doutor em História (História Ibero-Americana) pela PUCRS e docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul.

“Nobres Selvagens” na Ilustríssima (Folha de S.Paulo) de domingo, 22 de fevereiro de 2015

Antropólogos, índios e outros selvagens

RICARDO MIOTO
ilustração ANA PRATA

22/02/2015  03h05

RESUMO Livro do antropólogo Napoleon Chagnon que aborda suas pesquisas entre os ianomâmis é lançado no Brasil. Em entrevista, autor, que direcionou sua carreira para uma interpretação evolutiva do comportamento indígena, fala sobre suas conclusões e comenta a recepção, muitas vezes negativa, de sua obra entre seus pares.

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Sobre Napoleon Chagnon, 76, há só uma unanimidade: trata-se do pesquisador mais polêmico da antropologia contemporânea.É

Nesta entrevista, o americano –que lança agora no Brasil o livro “Nobres Selvagens: Minha Vida entre Duas Tribos Perigosas: os Ianomâmis e os Antropólogos” pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha– afirma que a antropologia brasileira representa o que há de mais atrasado no pensamento anticientífico nessa área.

Chagnon critica ainda alguns brasileiros ligados à temática indígena, como o líder ianomâmi Davi Kopenawa, “manipulado por antropólogos e ONGs”, e o cineasta José Padilha, autor do documentário “Segredos da Tribo”, que “deveria se limitar a filmar Robocop”.

Ana Prata

Chagnon estudou os ianomâmis do Brasil e, principalmente, da Venezuela a partir de 1964 e ao longo de 35 anos, em 25 viagens que totalizaram 5 anos entre os índios. Foi o pioneiro no contato com várias tribos isoladas, que acredita serem uma janela para as sociedades pré-históricas nas quais o gênero Homo viveu por milhões de anos.

Foi visto com antipatia por diversos colegas antropólogos por propor explicações darwinianas para o comportamento dos índios –e dos humanos em geral– e ao escrever, em 1968, um livro em que tratava amplamente da violência entre os índios e no qual, desde o título, “Yanomamö: The Fierce People” (sem tradução no Brasil), chamava os ianomâmis de “o povo feroz”. Despertou inimizades ao se afastar dos colegas antropólogos, que acreditava mais interessados em fazer política do que ciência, e se aproximar de geneticistas.

Foi em 1988, porém, que causou a fúria dos colegas, ao publicar na revista “Science” um estudo mostrando que os homens ianomâmis com assassinatos no currículo eram justamente os que tinham mais mulheres e descendentes. Em termos biológicos, a violência masculina e certo egoísmo humano seriam estratégias reprodutivas bem-sucedidas, ideia que desagradou fortemente seus colegas das humanidades.

O antropólogo sempre defendeu que os índios que estudou guerreavam movidos por uma insaciável vontade de capturar mulheres, enquanto os livros tradicionais de antropologia diziam que a guerra primitiva tinha motivos como a escassez de alimentos ou de terra.

Chagnon diz que seus críticos são marxistas movidos pela ideologia de que os conflitos humanos se explicam pela luta de classes ou por disputas materiais, e não por motivos mais animalescos, como a busca por sucesso sexual.

Ele afirma que nenhum colega pôde apontar falhas nos dados publicados na “Science”. No entanto, antropólogos questionam seu procedimento não só nesse caso como em outros trabalhos (leia ao lado).

Em 2000, o jornalista Patrick Tierney publicou o livro “Trevas no Eldorado” (lançado no Brasil em 2002, pela Ediouro), acusando Chagnon e colegas, entre outras coisas, de terem espalhado sarampo deliberadamente entre os índios. As acusações foram investigadas pela Associação Americana de Antropologia, que inocentou os pesquisadores da grave acusação.

Na entrevista abaixo, feita por telefone, Chagnon trata ainda de temas como a higiene dos índios e os riscos da selva.

*

Folha – O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro criticou na internet a publicação do seu livro no Brasil, dizendo que o sr. está ligado à “direita boçalmente cientificista”.

Napoleon Chagnon – A ideia de que o comportamento humano tem uma natureza biológica, moldada pela evolução, além da cultura, sofreu muita oposição nas últimas décadas de quem tem uma visão marxista. Está havendo uma mudança de paradigma, mas os antropólogos brasileiros são o último reduto dessa oposição e sempre tentaram impedir meu trabalho.

Marxistas não gostam de explicações que não envolvam a luta por recursos materiais. Para eles, isso explica tudo. Eles diziam, por exemplo, que a causa da guerra entre os ianomâmis era a escassez de proteína –uma tribo atacaria a outra em busca de carne. Nossas observações mostraram, porém, que não havia correlação. Eles tinham abundância de proteína; lutavam, na verdade, por mulheres.

Nos EUA, cientistas importantes, como meu grande amigo Steven Pinker e o professor Jared Diamond, escreveram recentemente livros demonstrando a relevância crescente da psicologia evolutiva.

Os antropólogos latino-americanos me atacam, mas não têm dados para rebater as conclusões que proponho, porque não gostam de trabalho de campo. Eles gostam de argumentos teóricos, de ficar sentados nas suas cadeiras na universidade fazendo ativismo. No entanto, para entender o mundo, você tem de coletar informações a fim de testar suas previsões e teorias. Essa é a base do método científico. A tendência pós-modernista é dizer que não há verdade, que tudo é social ou político. Isso é a morte da ciência.

Esses críticos dizem que sua visão dos ianomâmis é muito negativa. Citam trechos do seu livro em que o sr. descreve criticamente os hábitos de higiene dos índios, dizendo que eles espalhavam muco em tudo.

Tenho muitas críticas à minha própria civilização também, como o excesso de filas. Os ianomâmis não têm uma teoria da transmissão de doenças via germes. Então assoam o nariz na mão e passam no cabelo, nos outros, até na minha bermuda [risos]. A primeira coisa que quis aprender na língua deles foi “não encoste em mim, suas mãos estão sujas”, mas não adiantou. Você se acostuma.

Na verdade, você percebe que há coisas mais sérias com que se preocupar. A vida na tribo é perigosa. Há muitas cobras. Um bebê de uma tribo ianomâmi em que vivi sumiu, e os pais concluíram que a única explicação era que tivesse sido comido por uma anaconda. Há ainda muitos insetos, há onças, muitos outros incômodos.

Como é a sua relação com o líder ianomâmi Davi Kopenawa?

Ele é manipulado pelos seus mentores, seus conselheiros políticos, a maioria antropólogos e ONGs, que dizem a ele o que ele deve declarar. Ouço que muitos jornalistas brasileiros têm essa percepção, mas sabem que é impopular dizer isso em público.

As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos.

Pois é. Veja, em uma das minhas visitas aos ianomâmis no Brasil, Kopenawa proibiu o piloto do meu avião de utilizar o combustível que tinha guardado perto de uma das tribos em que ele tinha influência. Ele queria a todo custo que eu ficasse isolado na floresta, fez isso deliberadamente. O piloto teve de conseguir combustível com outros colegas. Essa é uma das razões que me levaram a não ter uma opinião muito positiva a respeito dele.

Kopenawa critica vocês por não devolverem amostras de sangue que coletaram entre os índios em 1967 para estudos científicos na área de genética e que foram parar em bancos de universidades dos EUA.

Sou simpático a esse pedido. Mas essas amostras são 99% de tribos venezuelanas, não brasileiras. Seria horrível se entregássemos tal sangue para os ianomâmis brasileiros, como Kopenawa. Uma tribo ficaria muito assustada de saber que seus vizinhos têm o sangue de seus ancestrais, eles acreditam que isso poderia ser utilizado para fazer magia negra, por exemplo.

É importante dizer que, influenciadas por antropólogos, lideranças ianomâmis tornaram impossível hoje, para qualquer pesquisador, ir a suas tribos e coletar amostras de sangue; foram convencidos de que isso foi um crime terrível que cometemos. Dessa forma, nenhum pesquisador da área biomédica pode agora fazer estudos que envolvam coleta de amostras. Os ianomâmis vetaram para sempre qualquer pesquisa que possa beneficiar a sua saúde e dependa de exames de sangue.

Eu gosto muito dos ianomâmis. Fiquei muitos anos com eles. Eles merecem ser mais bem representados. É nítido que eles precisam de instituições que permitam acesso à medicina moderna, por exemplo. Eles precisam de ajuda.

De qualquer forma, eu não coletei amostras de sangue. Eu só ajudei os médicos a fazê-lo. Eu sou antropólogo. Não estou nem aí para o que acontecerá com as amostras de sangue congeladas nos EUA. Mas seria irresponsável se fossem entregues aos índios errados.

O sr. assistiu ao documentário “Os Segredos da Tribo” (2010), do brasileiro José Padilha?

Padilha mentiu para mim, foi muito desonesto. Ele disse que faria um filme equilibrado, mas nunca mencionou que as acusações feitas contra mim foram completamente desmentidas [pela Associação Americana de Antropologia]. Ele contratou um missionário que falava a língua ianomâmi para fazer as entrevistas com os índios. Esse missionário, amigo meu, depois veio me avisar que Padilha direcionava as entrevistas contra mim, que tudo era feito para criar a impressão de que os ianomâmis me odiavam. O filme é ridículo.

Além disso, Padilha lançou o filme e desapareceu, nunca respondeu às minhas ligações. Na apresentação do filme no festival de Sundance, ele não só não me convidou como chamou três antropólogos inimigos meus para debater. Um deles, Terence Turner, que teve participação ativa na elaboração do filme, me acusava de ser o Mengele das tribos ianomâmis. É doentio. Padilha deveria se limitar a filmar “Robocop”.

Depois de trabalhar muitos anos nas universidades do Michigan e de Missouri, o sr. agora é professor aposentado. Aposentou-se também da pesquisa científica?

Não. Continuo trabalhando com os dados que coletei nas tribos ao longo desses anos todos. Estou para publicar vários artigos em revistas importantes, como a “Science”, mostrando o impacto de conceitos caros à biologia, como o parentesco, na organização das tribos ianomâmis. Se os antropólogos brasileiros não gostam do meu trabalho, ainda não viram nada [risos]. No caso do público brasileiro, espero que os leitores encontrem no meu livro agora publicado uma melhor compreensão da natureza humana, seja no comportamento dos povos indígenas ou no de um vizinho.

RICARDO MIOTO, 25, é editor de “Ciência” e “Saúde” da Folha.

ANA PRATA, 34, é artista plástica.

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Livro contribui para distanciar ciências humanas e biológicas

André Strauss

22/02/2015  03h09

Por sua alegada coragem em sustentar hipóteses fundamentadas em princípios darwinianos, o antropólogo americano Napoleon Chagnon, que dedicou sua carreira a estudar a violência entre os índios ianomâmis, apresenta-se em “Nobres Selvagens” [trad. Isa Mara Lando, Três Estrelas, 608 págs., R$ 89,90] como vítima dos mais diversos ataques e preconceitos por parte de seus pares.

Os antropólogos culturais, os religiosos salesianos, os ativistas políticos e os próprios ianomâmis são retratados como grupos ferozes ou biofóbicos. Já Chagnon seria apenas um inocente antropólogo de Michigan. A tese não convence.

Embora o antropólogo pretenda ser um expoente da síntese entre biologia e antropologia, suas proposições são bastante limitadas e, muitas vezes, equivocadas. Exemplo disso é partir do princípio de que uma sociedade não contatada é o mesmo que uma sociedade não impactada, atribuindo aos ianomâmis condição análoga à de sociedades paleolíticas. Propor um contratualismo hobbesiano baseado na luta por mulheres também soa ingênuo.

Em seu livro, Napoleon Chagnon insiste na noção anacrônica de “ciência pura”, desmerecendo a militância pró-indígena dos antropólogos brasileiros como um capricho do politicamente correto.

Mesmo reconhecendo-se que em diversas ocasiões seus detratores exageraram, esse tipo de postura maniqueísta do autor não contribui para a necessária superação dos conflitos epistemológicos e políticos que seguem existindo, ainda que ligeiramente mitigados, entre as chamadas ciências humanas e biológicas.

Um famoso filósofo darwiniano certa vez reconheceu que as teorias antropológicas de cunho biológico têm, inegavelmente, o péssimo hábito de atrair os mais indesejáveis colaboradores. Daí a importância da cada vez maior politização dos bioantropólogos e o movimento explícito por parte deles para impedir que esses associados participem de seus círculos.

Ainda assim, provavelmente Chagnon não é culpado das acusações mais graves que lhe foram imputadas, tal como a de disseminar propositalmente uma epidemia de sarampo entre os indígenas ou a de incentivar, por escambo, que eles declarassem guerras uns contra os outros a fim de que ele pudesse incluir as cenas de violência em um documentário que estava produzindo.

Por outro lado –e isso não se pode negar a Chagnon–, é verdade que as humanidades muitas vezes parecem apresentar aquilo que se convencionou chamar de um “desejo irresistível para a incompreensão”, resultando em acusações injustas e de caráter persecutório.

Algumas décadas atrás, ainda era possível negar a relevância de campos como a genética comportamental, a ecologia humana, a neurociência cognitiva ou a etologia de grandes símios. Atualmente, entretanto, qualquer tentativa de mantê-los fora da esfera antropológica é um exercício vão.

Mais importante, a estratégia comumente utilizada no passado de atrelar os desdobramentos oriundos dessas áreas a implicações nefastas para a dignidade humana, torna-se, além de injusta, muito perigosa.

Juntos, antropólogos e biólogos precisam elaborar uma narrativa capaz de ressignificar esses novos elementos através de uma ótica benigna. Afinal, eles passarão, inevitavelmente, a fazer parte do arcabouço teórico de ambas as disciplinas.

ANDRÉ STRAUSS, 30, é antropólogo do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos da USP e do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha.

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Trajetória do pesquisador é marcada por querelas

Marcelo Leite

22/02/2015  03h13

Não é trivial resumir as objeções que a antropologia cultural levanta contra Napoleon Chagnon. A controvérsia tem quase meio século, e a tarefa fica mais complicada quando muitos dos antropólogos relevantes do Brasil se recusam a dar entrevistas sobre o caso.

O panorama se turvou de vez em 2000, com o livro “Trevas no Eldorado”. Nele o jornalista Patrick Tierney acusava Chagnon e o médico James Neel de, em 1968, terem causado uma epidemia de sarampo entre os ianomâmis da Venezuela e experimentado nos índios um tipo perigoso de vacina, além de negar-lhes socorro médico.

Chagnon e Neel foram depois inocentados dessas acusações graves. Bruce Albert, antropólogo e crítico de Chagnon que trabalha há 36 anos com os ianomâmis, já escreveu sobre a ausência de fundamento das alegações de Tierney.

Ana Prata

Nem por isso Albert deixa de assinalar sérios erros éticos da dupla. Para ele, os ianomâmis foram usados, sem saber, como grupo de controle para estudos sobre efeitos de radiação nuclear no sangue de sobreviventes de bombardeios em Hiroshima e Nagasaki.

Chagnon, capataz de Neel na expedição, obtinha amostras de sangue em troca de machados, facões e panelas. Embora essa prática perdurasse nos anos 1960-70, Albert ressalva que regras exigindo consentimento informado já vigiam desde 1947 (Código de Nuremberg) e 1964 (Declaração de Helsinque).

Os reparos ao trabalho de Chagnon abarcam também a própria ciência. Ele se diz superior aos antropólogos tradicionais, que acusa de relativistas pós-modernos, xingamento comum nos setores cientificistas da academia americana.

A polêmica teve início com o livro “Yanomamö: The Fierce People”, em que Chagnon apresentou sua tese de que ianomâmis são uma relíquia ancestral da espécie humana: selvagens com compulsão pela guerra como forma de obter mulheres, escassas devido à prática do infanticídio feminino.

Os críticos da etnografia de Chagnon afirmam que ele nunca comprovou o infanticídio seletivo. Com efeito, a explicação foi abandonada em outros estudos, como um famigerado artigo de 1988 no periódico científico “Science”.

O trabalho recorre a dados demográficos coletados por Chagnon para corroborar sua noção, bem ao gosto da sociobiologia, de que os homens mais violentos eram os que tinham mais mulheres e filhos. Esses seriam os que os ianomâmis chamam “unokai” –segundo o autor, os mais temidos no grupo (e, por isso, mais prolíficos).

Albert, Jacques Lizot e outros antropólogos consideram que ele misturou alhos com bugalhos. “Unokai” não seria um atributo individual, mas o estado de impureza (simbólica) daquele que mata alguém com armas ou feitiçaria, ou mesmo só entra em contato com o sangue de cadáveres de inimigos.

Além disso, em incursões contra outras aldeias, os guerreiros muitas vezes dão golpes e flechadas em adversários já mortos. Isso os tornaria “unokai”, não homicidas.

Os mais admirados não seriam esses, mas os “waitheri”, algo como “valorosos”, que se distinguem não só pela valentia, mas também pela capacidade de liderar, de falar bem, até pelo humor.

Não bastasse isso, os críticos apontam manipulação de números. Para inflar seus dados e chegar a 44% de homens que teriam participado de mortes e tinham até o triplo de filhos na comparação com os não “unokai”, Chagnon teria excluído da amostra jovens de 20 a 25 anos e homens mortos –violentos ou não, com ou sem filhos.

Em fevereiro de 2013, o antropólogo Marshall Sahlins renunciou à Academia Nacional de Ciências dos EUA após o ingresso de Chagnon. Num artigo em que explicava o ato, defendeu que um antropólogo alcança entendimento superior de outros povos quando toma seus integrantes como semelhantes –e não objetos naturais, “selvagens”, ao modo de Chagnon.

“É claro que esse não é o único meio de conhecer os outros. Podemos também utilizar nossa capacidade simbólica para tratá-los como objetos físicos”, escreveu. “Mas não obteremos o mesmo conhecimento dos modos simbolicamente ordenados da vida humana, do que é a cultura, ou até a mesma certeza empírica.”

MARCELO LEITE, 57, é repórter especial e colunista da Folha.

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Morte sistemática de Ianomâmis é um tabu

Leão Serva

23/02/2015  02h00

Folha publicou com grande destaque na edição de domingo (22) a notícia do lançamento do livro “Nobres Selvagens” (pela Três Estrelas, selo do Grupo Folha), de autoria do antropólogo norte-americano Napoleon Chagnon. Títulos na capa e no caderno da Ilustríssima chamaram a obra de “livro tabu”.

Trata-se de um exagero baseado no discurso persecutório do autor, que sempre responde às críticas a seu trabalho com alegações de perseguição pessoal ou boicote. Uma pesquisa no Google News apresenta 872 respostas com notícias sobre o antropólogo e 64 referências ao livro, incluindo veículos de grande prestígio internacional como “The New York Times” e “Washington Post”.

No Brasil, certamente a obra não foi tema de reportagens simplesmente porque não havia sido lançada.

Na edição, textos de Marcelo Leite e André Strauss compilam as principais fragilidades apontadas pelos críticos da obra de Chagnon.

Uma bem importante, no entanto, não foi mencionada: o antropólogo dá pouca importância ao caráter simbólico das expressões da cultura que aparecem nos depoimentos de índios (e de brancos também, é bom que se diga), o que o leva a tomar o que ouve literalmente. Assim, em sua entrevista, é quase infantil a descrição dos perigos de uma aldeia Ianomâmi. Os medos que Chagnon menciona que concentrariam a atenção dos índios para longe dos cuidados médicos (risco de onças e cobras) são próprios de um alienígena. Já os índios criam cobras em casa para comer ratos; sabem que onças têm medo dos homens e, em situações raras, quando se aproximam furtivamente da periferia da aldeia para tocaiar uma criança, logo são capturadas pelos índios, como eu mesmo testemunhei. Não quer dizer que não haja medo, mas o antropólogo o amplifica para reforçar o estereótipo de atraso.

A história de que um casal ianomâmi teria atribuído o desaparecimento de seu filhinho a uma anaconda esfomeada é bizarra: o bebê na aldeia não fica um minuto longe dos outros e uma sucuri no lento processo de engolir uma criança seria vista por dúzias de pessoas e morta. Chagnon certamente não entendeu o que lhe foi dito ou tomou por verdade uma mentira (vale lembrar que um “civilizado” banqueiro suíço também mente).

Em texto mais antigo, Chagnon apontava o gesto de bater no peito, comum em festas de ianomâmis como expressão da violência da cultura desses grupos. Ora, o mesmo movimento pode ser encontrado diariamente em culturas mais “evoluídas”, segundo seu critério, das grandes cidades da Europa e dos EUA (nas missas católicas quando se diz “Minha culpa, minha culpa, minha máxima culpa”) à Mesopotâmia, berço das civilizações (onde soldados contemporâneos reproduzem o gesto antes de ataques de infantaria). Chagnon não leva em conta o alicerce básico do estudo da antropologia, que as culturas humanas são simultâneas, embora diferentes na expressão material.

Por fim, para desfazer as críticas feitas pelo líder Davi Kopenawa, criou a história de que ele é manipulado por antropólogos. A Folha parte dessa premissa para questionar Chagnon: “As entrevistas com ele costumam ser mediadas por antropólogos”, ao que o autor diz: “Pois é”, e segue sua catilinária.

Trata-se de uma inverdade que qualquer repórter que fale bem português ou ianomâmi pode comprovar. Eu entrevistei Kopenawa três vezes em épocas e lugares diferentes, duas delas sem aviso prévio. Me aproximei, pedi para falar e conversamos sem mediação. Uma vez, em seu escritório em Boa Vista, ele pediu que outras pessoas (que eu não conhecia, índios e brancos) saíssem da sala para ser entrevistado. Fala fluentemente um português simples (de brasileiro não universitário) com forte sotaque. É preciso ter calma e prestar atenção, por vezes pedir que repita para entender a pronúncia de algumas palavras.

A última vez que o encontrei foi numa entrevista para a revista Serafina, com hora marcada. Também ficou só, enquanto eu estava acompanhado da jovem fotógrafa Helena Wolfenson, da Folha. É possível que estrangeiros que falem mal ou não falem português precisem de tradutor. E são certamente raras as pessoas que falam português, ianomâmi e línguas estrangeiras. Talvez daí a história de que ele se faça acompanhar de “antropólogos” ou gente de ONG.

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O que de fato é um “tabu” (aquilo de que não se fala) na imprensa brasileira é o lento processo de abandono dos Ianomâmi à morte, em curso por incompetência ou (depois de tanto tempo) decisão do governo federal.

Como noticiei nesta coluna em maio do ano passado, as mortes de Ianomâmi por problemas de saúde cresceram nos dois governos do PT (Lula e Dilma). Muitas das doenças são simples de evitar, como provam as estatísticas da segunda metade dos anos 1990.

O aumento se deve em grande medida à interrupção dos trabalhos de medicina preventiva nas aldeias e ao crescimento dos gastos com transporte dos doentes das aldeias para a capital de Roraima, Boa Vista.

A maior parte dos custos do Ministério da Saúde com a saúde indígena em Roraima tem sido despejada em frete de aviões para levar índios a Boa Vista. São poucas as empresas de táxi aéreo, as mesmas que levam políticos locais em seus deslocamentos.

Em janeiro do ano passado, quando a entrevistei, a coordenadora do Ministério da Saúde para as áreas indígenas de Roraima, Maria de Jesus do Nascimento, explicou o aumento das mortes dizendo: “Não, dinheiro não falta… Foi problema de gestão, mesmo”.

Na área Ianomâmi, uma médica cubana do programa Mais Médicos se desesperava: “Não tenho antibióticos, não tenho oxigênio, não tenho equipamentos”. Eu perguntei o que fazia: “Não quero mas sou forçada a mandar os índios de avião para Boa Vista”. O meio se tornou o fim. A saúde dos índios se tornou desculpa para enriquecer as empresas de táxi aéreo.

Quem procura no mesmo Google News notícias sobre as mortes de Ianomâmi pela improbidade dos órgãos de saúde local só encontra quatro notícias, uma delas do espanhol El País, as demais noticiando os protestos dos índios e um debate no Congresso.

Esse genocídio lento e discreto é o verdadeiro tabu.