Arquivo da tag: Polícia

Torcida única nos clássicos do Rio divide opiniões entre entidades e especialistas (O Globo)

Comandante do Gepe admite que comportamento das organizadas passou do tolerável

POR BERNARDO MELLO / TATIANA FURTADO

16/02/2017 12:25 / atualizado 16/02/2017 17:22

Torcedores socorrem um ferido no confronto entre organizadas de Flamengo e Botafogo – Marcelo Theobald / Agência O Globo

A ação civil pública, do Minstério Público Estadual (MPE), que pede torcida única nos clássicos cariocas ainda será apreciada pelo Juizado do Torcedor e Grandes Eventos. Porém, as autoridades envolvidas diretamente nos casos de brigas entre facções organizadas tendem a concordar com a proibição, ou alguma solução mais efetiva. O argumento voltou à tona após os episódios de violência no confronto entre Botafogo e Flamengo, no último domingo, no Engenhão, que terminaram com a morte de um torcedor e deixaram oito feridos.

A decisão será do juiz Guilherme Schilling, que assumiu o Juizado do Torcedor e Grandes Eventos, este mês. O ex ocupante do cargo, o juiz Marcelo Rubioli, agora no Tribunal de Justiça do Rio, considera que esse pode ser o primeiro degrau para se chegar a um modelo mais seguro para os torcedores.

– Acho que é um caminho. O próximo, talvez, seja inserir os espetáculos esportivos no planjemanto das forças armadas, que estão em caráter excepcional no Rio até o fim do Carnaval. A possibilidade de jogo com portões fechados não é viável do ponto de vista dos clubes. Mas estamos tratando do Estatuto, que prevê a proteção dos torcedores – sugere Rubioli, acrescentando que o interior dos estádios não tem tido problemas graves de segurança, salvo o caso recente do jogo entre Flamengo e Corinthians, no Maracanã. – Hoje, o estádio é um local seguro. No caso de torcida única em clássicos, não haveria aglomeração daquela que não vai entrar nas proximidades. Não tem como garantir qual medida vai ser mais eficaz.

Comandante do Grupamento Especial de Policiamente em Estádios (Gepe), o Major Silvio Luís, informou que vai conversar com o MPE e o Juizado para saber detalhes do pedido, antes de emitir uma opinião sobre o assunto. Porém, o responsável pelo policiamento nos estádios e acompanhamento das organizadas em dias de jogo, ressalta que, diante do comportamento das torcidas, algo precisa ser feito.

– Preciso avaliar o que estão propondo, mas o que posso dizer é que o comportamento das torcidas já passou do tolerável – afirmou o Major, destacando que os clássicos do Rio só não são com torcida dividida igualmente quando a configuração do estádio não permite. – Já tivemos casos assim em São Januário e na Arena da Ilha, onde os visitantes só podem receber 10% dos ingressos.

QUESTÃO ALÉM DOS ESTÁDIOS

As evidências, contudo, apontam que o problema vai além dos estádios. Antes do caso no Engenhão, a última briga de grandes proporções entre torcedores de Flamengo e Botafogo havia acontecido em julho de 2016, terminando com um morto. O conflito ocorreu em Bento Ribeiro, bairro da Zona Norte localizado a mais de 20 km do Estádio Luso-Brasileiro, onde os times se enfrentavam naquele dia.

Para o antropólogo Renzo Taddei, professor da Unifesp e autor de pesquisas sobre torcidas organizadas no futebol, o problema principal não é sequer a falta de policiamento, seja dentro ou fora de estádios. Na avaliação do especialista, torcedores e polícia desenvolveram, ao longo de décadas, uma relação turbulenta que tem questões sociais como pano de fundo:

– Não é à toa que a maior parte da violência a que uma torcida é submetida ou se submete em sua existência são conflitos contra a polícia, e não contra alguma torcida inimiga. O Estado impõe a segmentos inteiros da população um código de comunicação onde não há palavras, apenas brutalidade – avalia.

Torcedores exibem bandeirão pedindo a paz nos estádios em clássico entre Botafogo x Flamengo, marcado por cenas de violência no Engenhão – Marcelo Theobald / Agência O Globo

Taddei argumenta que o distanciamento entre torcidas organizadas e o restante da sociedade tende, na verdade, a acentuar a presença de membros que infringem a lei. Na opinião do antropólogo, lidar com a questão da violência no futebol depende de mais diálogo.

– Se houvesse uma interlocução saudável entre as comunidades das torcidas e o poder público, a mídia e a sociedade em geral, essas situações seriam mais fáceis de serem evitadas. O que eu estou dizendo é que muito menos do que 1% dos integrantes das torcidas causam problemas. Veja só: os Gaviões da Fiel tem cerca de 25 mil associados; as torcidas do Flamengo são também imensas. E qual o saldo do problema com as torcidas? Em 2016 foram 9 mortos em estádios. É muito mais perigoso andar de bicicleta do que ir ao estádio.

PROCURADOR VAI CONTESTAR NA JUSTIÇA

Segundo o blog Gente Boa, a Procuradoria Geral do Estado vai contestar na Justiça o pedido do Ministério Público para que os clássicos do Rio tenham torcida única nos estádios.

– É uma medida inadequada – diz o procurador-geral do Estado, Leonardo Espíndola – O Fla-Flu, por exemplo, é um patrimônio nacional que não pode ser banido por conta da ação de vândalos.

O Botafogo, por meio de nota da assessoria de imprensa, elogiou o trabalho do Gepe, mas se mostrou aberto a experiências que possam tornar os estádios mais seguros.

“Apesar de considerar que no último domingo houve um ponto fora da curva, pois o Gepe sabe fazer escolta, chegada e saída de organizadas, o Botafogo é favorável a experiências no sentido de melhorar as condições de segurança do futebol. Esse tipo de experiência, de torcida única, já deu certo em outros estados. O que o Botafogo não considera simples é ter a responsabilidade de cadastramento de membros de organizadas. É uma premissa quase impossível, porque os clubes não têm poder de fichar torcedores nem tem como controlar acesso a um local. Para o poder público, pode ser mais viável. Se for a decisão dos órgãos competentes, o Botafogo estará pronto para colaborar”, diz a nota.

Já o Flamengo, através de seu presidente Eduardo Bandeira de Mello, disse ser “totalmente contra” a torcida única em clássicos. O Fluminense, por sua vez, mostrou preocupação de que a medida acabe adotada de forma definitiva.

Além do veto à divisão das arquibancadas em clássicos, o promotor Rodrigo Terra também pede aos clubes que “se abstenham de fornecer gratuitamente ingressos às suas torcidas organizadas”. O Botafogo garante que não distribui bilhetes para as organizadas.

Veja também

Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/esportes/torcida-unica-nos-classicos-do-rio-divide-opinioes-entre-entidades-especialistas-20936250#ixzz4Z4rXMmZ1
© 1996 – 2017. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

Amid Climate-Fueled Food Crisis, Filipino Forces Open Fire on Starving Farmers (Common Dreams)

Published on Monday, April 04, 2016 by Common Dreams

Police and army forces in the Philippines unleashed bullets on a starving crowd, killing 10, for demonstrating for drought relief

by Nika Knight, staff writer

A wounded farmer is assisted by other demonstrators after Friday’s mass shooting by security forces in the Philippines. (Photo: Kilab Multimedia)

Police and army forces shot at about 6,000 starving farmers and Lumad Indigenous people demonstrating for drought relief in the Philippines on Friday, ultimately killing 10. Observers characterized the security forces’ action as “a strafing.”

“The government’s response to hunger is violence,” said Zeph Repollo, Southeast Asia campaign coordinator for 350.org, in an email to Common Dreams.

Three protesters were immediately killed, and by Monday the death toll had risen to 10 as more demonstrators succumbed to injuries.

“We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”
—Noralyn Laus, demonstrating farmer

The farmers and Indigenous people had been blockading a highway in the Cotabato province for four days in a desperate plea for government aid, after this winter’s record-breaking temperatures produced a three-months-long drought that has destroyed their crops and now threatens their lives.

The demonstrators were asking the government to provide 15,000 sacks of rice to ease the hunger crisis. Provincial governor Emmylou Mendoza has refused to engage the protesters.

“The government’s policy of  systematic land grabbing combined with the intensified El Nino pushed our farmers and indigenous peoples to heighten their struggles with sweat and blood in defense of their right to land and life,” wrote Repollo in a statement.

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

On Monday, local farmer Noralyn Laus gave Democracy Now! a firsthand account of the disaster:

“Why we came down here is not to make trouble. We just want to demand for rice, because of the situation of El Niño is leaving our tribes hungry. What happened yesterday, we didn’t start it. They started it by beating us. We wouldn’t be angry if we weren’t beaten up or attacked. We’re having a crisis. We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”

“Our farmers—the country’s food producers—are battered the hardest and are left in poverty and hunger,” Rapollo said. “Civil disobedience will continue to escalate until the government stops playing deaf and blind to the genuine cry of the people.”

Seventy-eight people were still under arrest on Monday, Rapollo said, and a local Methodist Church is sheltering many protesters who escaped the bullets. Rapollo also reported that no members of the armed forces have been relieved of duty or investigated for Friday’s shooting.

The state-sponsored violence in the Philippines portends what turmoil may come as the planet continues to warm, creating more disastrous, extreme weather events worldwide, environmental activists note.

“The conditions that prompted the 3-day blockade gives us a glimpse of what’s ahead if decisive and just actions in addressing climate change remain in the periphery,” said Repollo.

“This is not a distant reality to anywhere in the world,” Repollo wrote to Common Dreams, “unless we change the system that feeds [on] hunger, injustices, and climate catastrophe.”

Queda de homicídios em SP é obra do PCC, e não da polícia, diz pesquisador (BBC Brasil)

Thiago Guimarães
De Londres

12/02/2016, 15h21 

Policiais militares da Rota durante operação na periferia de São Paulo

Policiais militares da Rota durante operação na periferia de São Paulo. Mario Ângelo/ SigmaPress/AE

Em anúncio recente, o governo de São Paulo informou ter alcançado a menor taxa de homicídios dolosos do Estado em 20 anos. O índice em 2015 ficou em 8,73 por 100 mil habitantes – abaixo de 10 por 100 mil pela primeira vez desde 2001.

“Isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação. Policiais morreram, perderam suas vidas, heróis anônimos, para que São Paulo pudesse conseguir essa conquista”, disse na ocasião o governador Geraldo Alckmin (PSDB).Para um pesquisador que acompanhou a rotina de investigadores de homicídios em São Paulo, o responsável pela queda é outro: o próprio crime organizado – no caso, o PCC (Primeiro Comando da Capital), a facção que atua dentro e fora dos presídios do Estado.

“A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”, diz o canadense Graham Willis, em defesa da hipótese que circula no meio acadêmico e é considerada “ridícula” pelo governo paulista.

Professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra), Willis lança nova luz sobre a chamada “hipótese PCC”, num trabalho de imersão que acompanhou a rotina de policiais do DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa) de São Paulo entre 2009 e 2012.

A pesquisa teve acesso a dezenas de documentos internos apreendidos com um membro do PCC e ouviu moradores, comerciantes e criminosos em uma comunidade dominada pela facção na zona leste de São Paulo, em 2007 e 2011.

Teorias do ‘quase tudo’

O trabalho questiona teorias que, segundo Willis, procuram apoio em “quase tudo” para explicar o notório declínio da violência homicida em São Paulo: mudanças demográficas, desarmamento, redução do desemprego, reforço do policiamento em áreas críticas.

“O sistema de segurança pública nunca estabeleceu por que houve essa queda de homicídios nos últimos 15 anos. E nunca transmitiu uma história crível. Falam em políticas públicas, policiamento de hotspots (áreas críticas), mas isso não dá para explicar”, diz.

Em geral, a argumentação de Willis é a seguinte: a queda de 73% nos homicídios no Estado desde 2001, marco inicial da atual série histórica, é muito brusca para ser explicada por fatores de longo prazo como avanços socioeconômicos e mudanças na polícia.

Isso fica claro, diz o pesquisador, quando se constata que, antes da redução, os homicídios se concentravam de forma desproporcional em bairros da periferia da capital paulista: Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, Brasilândia.

A pacificação nesses locais – com quedas de quase 80% – coincide com o momento, a partir de 2003, em que a estrutura do PCC se ramifica e chega ao cotidiano dessas regiões.

“A queda foi tão rápida que não indica um fator socioeconômico ou de policiamento, que seria algo de longo prazo. Deu-se em vários espaços da cidade mais ou menos na mesma época. E não há dados sobre políticas públicas específicas nesses locais para explicar essas tendências”, diz ele, que baseou suas conclusões em observações de campo.

Vídeo: http://tvuol.tv/bgdw3x

Canal de autoridade

Criado em 1993 com o objetivo declarado de “combater a opressão no sistema prisional paulista” e “vingar” as 111 mortes do massacre do Carandiru, o PCC começa a representar um canal de autoridade em áreas até então caracterizadas pela ausência estatal a partir dos anos 2000, à medida que descentraliza suas decisões.

Os pilares dessa autoridade, segundo Willis e outros pesquisadores que estudaram a facção, são a segurança relativa, noções de solidariedade e estruturas de assistência social. Nesse sentido, a polícia, tradicionalmente vista nesses locais como violenta e corrupta, foi substituída por outra ordem social.

“Quando estive numa comunidade controlada pela facção, moradores diziam que podiam dormir tranquilos com portas e janelas destrancadas”, escreve Willis no recém-lançado The Killing Consensus: Police, Organized Crime and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil (O Consenso Assassino: Polícia, Crime Organizado e a Regulação da Vida e da Morte no Brasil Urbano, em tradução livre), livro em que descreve os resultados da investigação.

Antes do domínio do PCC, relata Willis, predominava uma violência difusa e intensa na capital paulista (que responde por 25% dos homicídios no Estado). Gangues lutavam na economia das drogas e abriam espaço para a criminalidade generalizada. O cenário muda quando a facção transpõe às ruas as regras de controle da violência que estabelecera nos presídios.

“Para a organização manter suas atividades criminosas é muito melhor ficar ‘muda’ para não chamar atenção e ter um ambiente de segurança controlado, com regras internas muito rígidas que funcionem”, avalia Willis, que descreve no livro os sistemas de punição da facção.

O pesquisador considera que as ondas de violência promovidas pelo PCC em São Paulo em 2006 e em 2012, com ataques a policiais e a instalações públicas, são pontos fora da curva, episódios de resposta à violência estatal.

“Eles não ficam violentos quando o problema é a repressão ao tráfico, por exemplo, mas quando sentem a sua segurança ameaçada. E a resposta da polícia é ser mais violenta, o que fortalece a ideia entre criminosos de que precisam de proteção. Ou seja, quanto mais você ataca o PCC, mais forte ele fica.”

Apuração em xeque

Willis critica a forma como São Paulo contabiliza seus mortos em situações violentas – e diz que o cenário real é provavelmente mais grave do que o discurso oficial sugere.

Ele questiona, por exemplo, a existência de ao menos nove classificações de mortes violentas em potencial (ossadas encontradas, suicídio, morte suspeita, morte a esclarecer, roubo seguido de morte/latrocínio, homicídio culposo, resistência seguida de morte e homicídio doloso) e diz que a multiplicidade de categorias mascara a realidade.

“Em geral, a investigação de homicídios não acontece em todo o caso. Cada morte suspeita tem que ser avaliada primeiramente por um delegado antes de se decidir se vai ser investigado como homicídio, enquanto em varias cidades do mundo qualquer morte suspeita é investigada como homicídio.”

Para ele, deveria haver mais transparência sobre a taxa de resolução de homicídios (que em São Paulo, diz, fica em torno de 30%, mas inclui casos arquivados sem definições de responsáveis) e sobre o próprio trabalho dos policiais que apuram os casos, que ele vê como um dos mais desvalorizados dentro da instituição.

“Normalmente se pensa em divisão de homicídios como organização de ponta. Mas é o contrário: é um lugar profundamente subvalorizado dentro da polícia, de policiais jovens ou em fim de carreira que desejam sair de lá o mais rápido possível. Policiais suspeitam de quem trabalha lá, em parte porque investigam policiais envolvidos em mortes, mas também porque as vidas que investigam em geral não têm valor, são pessoas de partes pobres da cidade.”

Para ele, o desaparelhamento da investigação de homicídios contrasta com a estrutura de batalhões especializados em repressão, como a Rota e a Força Tática da Polícia Militar.

“Esses policiais têm carros incríveis, caveirões, armas de ponta. Isso mostra muito bem a prioridade dos políticos, que é a repressão física a moradores pobres e negros da periferia. Não é investigar a vida dessas pessoas quando morrem.”

Outro lado

Críticos da chamada “hipótese PCC” costumam levantar a seguinte questão: se a retração nos homicídios não ocorreu por ação da polícia, como explicar a queda em outros índices criminais? Segundo o governo, por exemplo, São Paulo teve queda geral da criminalidade no ano passado em relação a 2014. A facção, ironizam os críticos, estaria então ajudando na queda desses crimes também?

“Variações estatísticas não necessariamente refletem ações do Estado”, diz Willis. Para ele, estudos já mostraram que mais atividade policial não significa sempre menor criminalidade.

Willis diz ainda que as variações estatísticas nesses outros crimes não são significativas, e que o PCC não depende de roubos de carga, veículos ou bancos, mas do pequeno tráfico de drogas com o qual os membros bancam as contribuições obrigatórias à facção.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo disse considerar a hipótese de Willis sobre o declínio dos homicídios “ridícula e amplamente desmentida pela realidade de todos os índices criminais” do Estado.

Afirma que a taxa no Estado é quase três vezes menor do que a média nacional (25,1 casos por 100 mil habitantes) e “qualquer pesquisador com o mínimo de rigor sabe que propor uma relação de causa e efeito neste sentido é brigar contra as regras básicas da ciência”.

A pasta informou que todos crimes cometidos por policiais no Estado são punidos – citou 1.445 expulsões, 654 demissões e 1.849 policiais presos desde 2011 – e negou a existência de grupos de extermínio nas corporações.

Sobre o fato de não incluir mortes cometidas por policiais na soma oficial dos homicídios, mas em categoria à parte, disse que “todos os Estados” brasileiros e a “maioria dos países, inclusive os Estados Unidos” adotam a mesma metodologia.

A secretaria não comentou as considerações de Willis sobre a estrutura da investigação de homicídios no Estado e a suposta prioridade dada à forças voltadas à repressão.

Gangbusters: How the Upsurge in Anti-Gang Tactics Will Hurt Communities of Color (Truthout)

Tuesday, 19 January 2016 00:00 By Josmar Trujillo, Truthout | News Analysis 

Shanice Farrar wants to honor her son and stop violence in her neighborhood. (Photo: Lyssy Pastrana)Bronx activist Shanice Farrar wants to honor her son, who was killed by police, and stop violence in her neighborhood. (Photo: Lyssy Pastrana)

Dozens of alleged gang members were arrested in December when police raids swept through public housing developments in the Bronx, following similar raids in September and July of 2015. A December multipart Daily News special investigation, packaged behind a “Gangs of New York” front-page cover, reported on the prevalence of gangs throughout New York City, even publishing a map detailing alleged “ganglands.” New York City Police Department (NYPD) Commissioner Bill Bratton, in an op-ed published in the same edition, called the gang activity “violence for its own sake.”

As arrests and indictments pile up to form a media narrative of senseless violence and seemingly irredeemable youth, there are public housing and criminal justice reform advocates who want a different approach. They say that poverty is the underlying root cause of violence – one that cops and gang raids cannot solve.

Shanice Farrar, 42, is the mother of Shaaliver Douse, a teenager killed by cops in 2013 while, police say, he was chasing and shooting at another young man. Farrar is a single mother who has worked as a fire guard (someone who patrols areas lacking functioning fire protection systems) for almost eight years, at times working in the same Bronx public housing development, the Morris Houses, where she and her son lived. She always had dual concerns for Shaalie, as his friends called him: the neighborhood violence and the police who harassed him. She vividly remembers the night he didn’t come home. After calling and texting Shaalie’s phone all night, Farrar woke up on the morning of August 4, 2013, to the sounds of cops banging on her door. NYPD detectives told Farrar that her son had been killed in a shoot-out with police. They said Shaalie was shot in the face after ignoring orders to drop a gun.

Ray Kelly, the NYPD police commissioner at the time, said that Shaalie’s death was justified. Police said they had surveillance footage of him running with a gun. But footage released by the NYPD is incomplete. Images show a young man in a white shirt, purportedly Shaalie, chasing someone around a corner on 151st Street in the Melrose section of the Bronx. The confrontation with cops, where police claim he was told to drop the gun, isn’t seen. Farrar says she’s been denied access to other video angles, as well as the names of the rookie cops who shot her son.

Shaalie’s name and reputation were scrutinized immediately following his death. The newspapers’ presentation of his past arrests as an affirmation of his criminality weren’t fair to him or his family, Farrar says. The New York Daily News described Shaalie as a young man with a “growing rap sheet” and a follow-up story used unnamed sources to claim that Shaalie was, in fact, in a gang. Criminal charges her son was facing were bogus, Farrar insists. In 2012, Shaalie, then 13, was charged with attempted murder. Shaalie told his mom that he’d in fact been robbed at gunpoint by some boys from another housing complex. When cops showed up, everyone ran. Cops caught Shaalie, who didn’t want to cooperate. They told him that if he didn’t tell them whose gun it was, they’d pin the gun, which they found abandoned in some nearby grass, on him. Attempted murder charges were dropped to weapons possession charges when witnesses recanted. After several court dates, the judge in the case suggested that the whole case would soon be thrown out, Farrar says.

New York’s Turn Toward Gang Conspiracy Charges

Building criminal cases and indicting young men with gang conspiracy charges is quickly becoming a favored law enforcement approach in New York – one that’s getting more sophisticated. The NYPD and some of the city’s top prosecutors are targeting mostly young men, usually those living in public housing, with a blend of modern surveillance and conspiracy charges developed in the 1970s to take down the mafia. Raids are usually the final leg of the NYPD’s Operation Crew Cut, a police tactic that targets “crews” – a looser grouping of young people often compared to gangs – by building criminal cases often off of what is obtained from their online activity. Manhattan District Attorney Cyrus Vance’s office has been involved in gang raids in East Harlem, indicting 63 men in 2013, and West Harlem, indicting 103 in 2014 – the city’s largest raid ever. Bronx District Attorney Robert Johnson launched several smaller raids in the Bronx in 2015.

If attempts to get young people to turn away from violence can be described as either carrot or stick approaches, then Operation Ceasefire, a law enforcement initiative based largely on the work of John Jay College’s David Kennedy, is said to offer some carrots. With the help of Susan Herman, a former Pace University professor turned NYPD deputy commissioner, Kennedy’s ideas have gained traction at the police department under Bratton. Herman’s husband, John Jay College president Jeremy Travis, works with Kennedy and used to work for Bratton in the 1990s. With a nearly $5 million grant from the Department of Justice and early influence on the president’s national police reform agenda, Kennedy is one of the most in-demand criminal justice minds in the country.

Like Crew Cut, Ceasefire focuses on a small amount of alleged perpetrators, said to be responsible for a large portion of shootings and murders. This so-called “focused-deterrence” strategy also claims to offer pathways away from violence for suspected perpetrators as cops and community figures partner to dissuade young people from violence. A similar NYPD program focused on robberies, the Juvenile Robbery Intervention Program (J-RIP), has, even by police accounts, shown no effect. The Ceasefire model, perhaps, can differ from city to city. In New York, the chief of department sat down with alleged gang members, mandated to attend through parole agreements, to eat pizza and inform them that they’re being watched. In other cases, cops simply keep close tabs on who they say are the city’s most likely killers, busting them for small infractions like jaywalking. In the 12 precincts where Ceasefire is being formally implemented, shootings are down, but murders are up.

While Ceasefire ostensibly offers a multilayer approach, described by Bratton as a mix between “intensive enforcement” and “genuine offers of assistance,” there is a clear emphasis on the enforcement side as police efforts “pretty much hang a sword over (gang members’) heads.”

“Look, if you or your gang is involved in violent activities then we’re all going to come after you. It’s not just going to be local authorities but the feds and we’ll try to get you every which way we can,” Bratton warned. “When we get them convicted, we get them shipped off to federal prisons so they’re not going to be able to hang out with all their buddies up in the state prisons.”

Criticisms of the Ceasefire Approach to Policing

Alex Vitale, an associate professor of sociology at Brooklyn College, says that some of the city’s efforts to fight violence seem “contradictory” and make little sense. “On the one hand, we’ve seen small increases in the amount of money being devoted to community-based violence reduction efforts in the form of peer violence interrupters and increased services for high-risk youth,” he told Truthout. “On the other hand, the city has invested heavily in new policing strategies that rely on intensive punitive enforcement measures targeting these same populations of young people.” Vitale believes that the law enforcement approach can “actually disrupt the efforts of community-based groups to encourage young people off the streets and into school and employment.”

Programs like Crew Cut and Ceasefire “rely on threats and punishment” and often “run counter to the efforts to reduce youth crime,” Vitale said. He thinks violence intervention work and community-based peer violence mediation offer much more promising alternatives without hinging on police raids or lengthy prison sentences. “Intensive policing undermines those efforts and destabilizes the relationships they are building with these young people,” he added. Wraparound social services, and not gang raids, should be the focus, Vitale says, because poor communities “need more access to real resources that can provide these young people real avenues out of poverty and despair.”

Shaaliver Douce was killed a few yards from his high school. (Photo: Lyssy Pastrana)Shaaliver Douce was killed a few yards from his high school. (Photo: Lyssy Pastrana)

Lessons From New Orleans

Ethan Brown is a licensed investigator in Louisiana. He works on the defense side of drug cases in New Orleans and moved there from New York in 2007. Brown is a critic of Ceasefire and of Kennedy, whom he describes as “this generation’s George Kelling” (a prominent criminologist who is credited with developing the “broken windows” theory of policing). Brown says New Orleans’ supposed success with its own Ceasefire-style efforts, which it launched in 2012, isn’t necessarily backed up by the numbers. Post-Katrina New Orleans has been the murder capital of the United States almost every year. It had the highest murder rate for a US city every year between 2000 and 2011, except for 2005. Brown says that despite dedicating tremendous police resources to fight violence, the city has only seen a modest reduction in the murder rate.

New Orleans offers an interesting test case, since the city has also employed a historically abusive police force – creating a barrier between police and the community with which they’re supposed to collaborate. In 2012, the New Orleans Police Department (NOPD) was placed under a federal consent decree after authorities described the police there as “lawless.” Federal investigations had gone back to the 1990s, but the monitoring program was an overt acknowledgement that the department could not reform itself.

The stories were the stuff of nightmares. Henry Glover was killed by cops in 2005, a few days after Hurricane Katrina struck. His body was found shot and burned inside a car, the fire used as a cover-up by police officers. The infamous Danziger Bridge incident, where NOPD cops shot six people, killing two, and lied that they had been shot at, invited national outrage. There was also the tale of Melvin “Flattop” Williams, the infamously aggressive Black cop ultimately convicted of killing an unarmed man in 2012, fracturing his ribs and rupturing his spleen.

In 2010, a new mayor, Democrat Mitch Landrieu, became the first white mayor of New Orleans since 1978, when Moon Landrieu, his father, ran the city. Landrieu’s administration brought with it promises of police reform and a new police chief, Ronal Serpas. While Serpas was expected to deal with the controversial misconduct and killings at the NOPD, he instead sought to tackle the murder rate. In 2012, he and Landrieu brought in Kennedy to help form “NOLA for Life,” an anti-violence initiative built largely on the Ceasefire model. Reductions in the murder rate seemed promising, falling in 2013 and 2014. However, the murder rate rose again in 2015. And, in fact, murders had already begun to fall from 2011 to 2012, before NOLA for Life. Other cities, like Los Angeles, have seen similarly mixed results. Boston, where Ceasefire originated, initially had big drops in murders, but saw those numbers climb again as the model proved unsustainable.

While NOLA for Life promotes an inspiring array of “carrots,” like job postings and mentoring, the law enforcement “stick” was more like a “bazooka” in New Orleans, according to Brown. “Since 2012, there’ve been an extraordinary number of gang indictments. The sentences that people face are immense, like ones you’d give to drug cartels,” he told Truthout. Brown also thinks that police and prosecutors are casting too wide a net when gangs are targeted.

“The notion of a ‘crew’ or ‘gang’ affiliation is spread so wide, the definition becomes completely elastic,” he said. In this regard, Brown sees business as usual. “[Ceasefire] is presented as some radically new law enforcement approach … but actually, particularly at the federal level, these things have been going on for decades,” he said. And the “carrot” side of the equation? “The cure is unspecified social services that no one has been able to figure out.”

More Sticks Than Carrots

A 2007 Justice Policy Institute report by Judith Greene and Kevin Pranis found not only that the Ceasefire model failed to deliver on some of its violence-reducing claims, but also that the “carrot” side of the model “always lagged behind the suppression side,” or the “stick.” Greene and Pranis criticized the broader gang enforcement tactics that operate on the suppression end as “ineffectual, if not counterproductive.” Specifically, the report points to efforts of police to intensely target gang “leaders” as problematic because destabilizing gangs, which can produce new leaders, can also risk more violence.

Resources spent on gang suppression include money spent on arrests, prosecutions and jail terms. Neighborhood costs include young people being carted off to jail for things they may or may not have done, or simply said they might do, and serving long sentences in prisons – where gangs thrive – only to come home in as bleak a situation as they went in. More importantly, however, is that the police-community partnership narrative that Ceasefire promotes hinges on a questionable equivalency of power between police and community, which can affect how resources are divvied up. Public and private funding made available for social services, or “carrots,” will likely go to groups with established, deferential relationships with law enforcement. In other words, law enforcement is always in control.

Benny, 31, grew up in the Morris Houses in the Bronx. He says the hunt for gangs is unfair to people who live in the community and grow up together, especially young men. “Black lives do matter. When you grow up in a neighborhood like this, they judge you. You see this group right here,” he said, pointing to a group of men and women hanging out on nearby benches. “They’ll consider this like gang activity, even though all we did was grow up together. Next thing you know they’ll be hitting you with conspiracy [charges].” On an unusually warm Friday afternoon in December, people are sitting around on park benches. People of all ages, from teenage boys to older women pushing shopping carts, stop to talk and laugh.

“They’re taking my friends and they’re not helping,” a young woman named Daisy said about police. Daisy, 19, was Shaalie’s friend. She mourned not only Shaalie’s death, but also that of Jujuan Carson, a 19-year-old friend of hers and Shaalie’s who was just killed in November 2015. “They still haven’t found the person who killed Jujuan, but yet they indicted his friends the day before his funeral,” she said angrily. Daisy says she doesn’t trust police. “Whatever comes out of their mouths are lies.”

Jumping to Conclusions About Gang Activity

The Morris Houses stretch down the east side of the Metro North railroad, which runs along Park Avenue, separating them from the Butler and Morris senior houses on the other side. The New York Daily News’ gang map lists “Washside” as an active gang based in the Morris Houses. Farrar objects to that label. “Washside” is the name some Morris kids identify with, but isn’t an actual gang, she says. While she doesn’t deny gun violence, she vividly remembers how her son was characterized as a gang member for all sorts of reasons. If he posted a picture of himself pointing to a new pair of sneakers or holding a new belt, people would say that those were gang hand signs. “Shaalie’s World,” the words on shirts and sweaters Farrar made after Shaalie’s death, is now rumored to be a gang.

Shaalie’s friends often make tributes to him in songs and on social media. Farrar worries that law enforcement may be deliberately conflating a song, tweet or Instagram post with a sign of gang activity. Amateur music videos that mention Shaalie or refer to “Washside” are probably being collected as cops and prosecutors build cases on more young men, she suspects. In 2015, a Brooklyn man was sentenced to 12 life sentences for a string of murders after prosecutors used rap lyrics of songs he posted on YouTube against him.

“I feel it’s like a cycle. That’s how I feel. It’s like this shit is designed for you to either end up dead or in jail,” Benny said as he tested out his new remote-controlled helicopter. “Right now, my little brother got 10 years for conspiracy,” he said. “It’s guilt by association, who you hang with.” Benny knows police are surveilling them, using all of the New York City Housing Authority (NYCHA) and NYPD cameras posted around the neighborhood. “I could be chillin’ with you, you makin’ money, but you been my man since we was kids, and now they taking pictures of us. Let me walk out here with a hoodie tonight and watch me get stopped five times.” Farrar quickly jumps in to recall how Shaalie started wearing hoodies after the death of Trayvon Martin, the Florida boy killed by a neighborhood vigilante. “They really killed him because he was wearing a hoodie, ma?” she recalled him asking.

The Morris Houses are the targets of national gang enforcement trend. (Photo: Lyssy Pastrana)The Morris Houses are the targets of a national gang enforcement trend. (Photo: Lyssy Pastrana)

Farrar, like many of her neighbors, is distrustful of the police and of these new efforts to target alleged gang members. Sitting at some park benches near her building on Washington Avenue, about a mile from where Shaalie died, she and her friends talk about the neighborhood and both the violence and poverty that plague it. For them, poverty is inextricable from the violence – which is something police can’t solve.

“The Kids Need Somewhere to Play”

While Farrar will be the first to agree that youth violence is a problem, the neighborhood’s antagonistic relationship with cops puts them between a rock and a hard place. It was the police, she says, who locked up the basketball courts for two months during the summer. She points at the fence, describing how people were forced to cut and crawl through openings just to play basketball. If cops locked up the courts to prevent violence, then they failed to do even that, some say. A man walks over and says closing the park “wasn’t the solution.” “Now you make it worse,” said the man, who didn’t want to be identified. “Now they got nothin’ to do. Now all they gon’ do is fight now.”

“The kids need somewhere to play,” said Dee, a 35-year-old trainer and boxer who used to train Shaalie. He wants the younger generation to come off of the street and stop fighting with each other, but he says they need resources. He recalls block parties when he was younger that have since become too few and far between. The city-funded health tables and community programming nowadays are directed at very young children and the elderly, not the teens and young adults most susceptible to violence. Worse yet is that programs are limited in scope and time: “They go from like 10 [am] to 12 [pm] and that’s it,” Dee said.

Ms. Betty is 58 and has raised three boys in the Morris Houses. “They’ve got nothing for them to do, that’s our problem. If they find something to do, maybe they’ll stop fighting each other,” she said. For her, the lack of fully functioning community centers contributes to the violence. “It doesn’t make sense. Families got to be crying over their kids and kids fighting for no reason.” While she feels that police are needed, she’s taken aback at the way cops crack down on many in the neighborhood just for hanging out around the buildings. “We just want to be out here like normal people,” she said. She recalls playgrounds inexplicably closed and benches removed from the front of buildings. Asked about the city’s efforts to lease some NYCHA property for private development, she says what the neighborhood needs is an expanded community center. “That don’t make no sense. And they know that.”

Once a basketball court, an empty lot sits in the Morris Houses development. (Photo: Lyssy Pastrana)

Once a basketball court, an empty lot sits in the Morris Houses development. (Photo: Lyssy Pastrana)

“I gave my son a lot of attention. But my son was the child of a single parent who felt his mother, you know, was struggling too hard,” Farrar told Truthout. Asked about the Black Lives Matter movement, Farrar is supportive of marches and protests in response to police killings, but she’s also painfully aware of the fact that many may not jump to stand behind her son’s life because of the questions around his case. Shaalie’s funeral was attended by Constance Malcolm and Frank Graham, the parents of Ramarley Graham, a young man fatally shot by cops who chased him into his grandmother’s house. However, few others in the anti-police brutality movement have made her pain their pain. Asked about the future of the movement, Farrar wants the scope to extend beyond cops. “I’d like Black Lives Matter to help the community come together, do things for kids, help stop the beefing,” Farrar said.

During a march that Farrar and her friends put together a few years back in memory of Shaalie, some of his friends began to chant “Fuck the police, RIP Shaalie” to the cops walking alongside. These were Shaalie’s friends, all from the surrounding buildings. Farrar pulled out her camera phone and kept watch of the cops as the march continued to the spot Shaalie died. The group, too large for the sidewalk, formed a big circle. A police car pulled up and a cop insisted the event clear out because it was blocking the road. Farrar told them they wouldn’t be going anywhere until they were done. They released white balloons into the sky and promised never to forget Shaalie’s name.

Josmar Trujillo is an activist and organizer with New Yorkers Against Bratton. Follow him on Twitter: @Josmar_Trujillo.

Paz nos estádios é difícil, diz autor de relatório sobre violência no futebol (Folha de S.Paulo)

19/02/2015  02h00

Uma das metáforas mais usadas a respeito do futebol é compará-lo a uma guerra. Marco Aurelio Klein, 64, não vê o assunto desta forma. Primeiro porque é especialista em violência no esporte. Mas também por ser um estudioso da 2ª Guerra Mundial.

Autor de documento inspirado no Relatório Taylor, que praticamente erradicou o fenômeno dos hooligans nos estádios ingleses a partir da década de 1990, ele trabalha atualmente na atualização do texto a pedido do ministro George Hilton (Esporte).

“O meu relatório é de 2006. O ministro ficou impressionado. Estou animado que seja posto em prática”, disse.

Em entrevista à Folha, ele chegou a uma conclusão de que a violência no futebol nacional não será resolvida de um dia para o outro. “Não tem mágica”, constata.

PÓS-COPA DO MUNDO
O Mundial no Brasil trouxe legado importante: os estádios sem alambrados. Mesmo no clássico entre Corinthians e Palmeiras em que aconteceu aquela confusão toda [tumulto entre palmeirenses e a PM] e com a derrota do time da casa, ninguém invadiu o campo. Alambrado não segura ninguém que quer invadir. Eu já vi torcedor pular alambrado que tinha arame farpado. Outra herança importante é o sistema de monitoramento dos estádios. E este deve ser ostensivo. A sala do monitoramento deve ser visível a todos. As pessoas precisam saber que o Big Brother está ali, presente.

SOLUÇÕES E ERROS
Parece que no Brasil, nessa questão da violência no futebol, há muita tentativa e erro. Cada hora existe uma ideia mágica que vai resolver o problema… Isso não existe. Todas as ideias são com boas intenções, mas não vão resolver. Não existe uma solução da noite para o dia. A solução é longa, difícil e custosa.

  Eduardo Knapp/Folhapress  
Marco Aurelio Klein, presidente da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem, durante palestra
Marco Aurelio Klein, autor de relatório federal sobre violência de torcidas, durante palestra

ESPÍRITO DE GUERRA
Antes do último clássico entre Corinthians e Palmeiras, eu li que a polícia estava preparando uma operação de guerra. Quando vi aquilo, pensei: “acabou”. Como operação de guerra? Uma família não vai para um estádio que tem operação de guerra. O vândalo adora. Quando a polícia diz que é operação de guerra, esses vândalos ganham condição de combatentes do Estado Islâmico.

LIÇÕES DO RELATÓRIO TAYLOR
O que inspirou o Relatório Taylor foi [a tragédia de] Hillsborough, em que morreram 96 pessoas na cidade de Sheffield [em 1989]. Não houve briga. Nem tinha torcida organizada. Houve desorganização, despreparo, superlotação. Não existiam protocolos de emergência.
Não esqueço quando tive reunião com os ingleses. Eles disseram que levaram anos para aprender que a questão não era repressão. Era organização. É o grande clássico na final? Depende do histórico. Ponte Preta e Paulista de Jundiaí, por exemplo, é jogo para 4 mil pessoas, mas são torcedores dos mais perigosos da América porque há um histórico de conflito.

PROPOSTAS
É preciso criar protocolos de segurança. Eu sugiro classificar as partidas em três níveis, sendo “A” a de maior risco, “B” a de risco médico e “C” as de pequeno risco. Os ingleses se organizaram criando unidades de polícia para o futebol. A Scotland Yard, que nem arma usa, tem uma unidade de futebol. Não vejo trabalhando na partida o policial que passou a noite anterior atendendo ocorrências, perseguindo ladrões e depois vai para o enfrentamento com um moleque que está disposto a provocá-lo…

CAMPANHA DE PAZ
Não tem o menor fundamento. Não resolve. Só ajuda se vier como parte de um conjunto de ações. No primeiro momento, a resolução dos ingleses foi: nós não precisamos prender o vândalo. Nós precisamos tirá-lo do estádio.
Ele destrói o espetáculo. E eles nunca tiveram torcida organizada, apenas pequenos grupos que envolviam criminalidade, pequenos furtos ou a destruição pelo prazer da destruição. Conseguiram criar uma coisa na legislação que era preciso tirar o cara do estádio. O articulador nem sempre é o sujeito que dá a porrada, que quebra a cadeira. Pode não ser o pensador.

DIÁLOGO
Minha recomendação, como estudioso, é ouvir as pessoas, mesmo que isso implique algum investimento do governo. Não dá é para transformar isso em competição de quem bate mais, se a torcida ou a polícia. O cidadão é que está no meio É preciso combater a pequena violência. O xingamento é origem do conflito. Uma briga sempre começa pela agressão verbal. Os ingleses perceberam que era preciso mudar o comportamento do torcedor. O torcedor comum entra na balada do xingamento. Quando um cara xinga o outro, depois tem quatro, oito, dez fazendo o mesmo. O perdedor do jogo tem uma frustração imensa para descontar em alguém.

PERCEPÇÃO
A luta maior não é física, de repressão. É de percepção. As pessoas precisam voltar a ir ao futebol como um momento de lazer. Um momento de muita emoção, mas de lazer. Se o seu time ganhar, seu momento de lazer foi premiado com muita alegria, mas pode ser que não. Quando você vai ao cinema ver uma comédia, sai muito alegre. Vê uma tragédia, sai impressionado. No Brasil, o futebol é o único evento de lazer em que a pessoa sai de casa com sua pior roupa.
Ninguém se arruma para o futebol, vai o mais desleixado possível porque a percepção que temos é que se trata de uma coisa desleixada. Não tem o menor sentido porque é o espetáculo mais glorioso que temos. Olhe os números da Liga dos Campeões da Europa, da Copa do Mundo, do Campeonato Inglês…

REPRESSÃO
É preciso tomar mais cuidado na organização do caminho do metrô para o estádio. Aquela cena da torcida do Corinthians agredindo dois torcedores do São Paulo porque estavam com a camisa do clube é absurda. Não pode acontecer. Aí é punição.
Os ingleses tomaram cuidado, entenderam qual era o trânsito, proibiram bebida dentro do metrô. O cara não podia chegar, quebrar o trem e achar que ia para casa sem problema algum. Vamos pegar o Pacaembu de exemplo. É um estádio bacana. As ruas laterais são escuras. Aquela imagem de escuridão passa a imagem de abandono e da terra de ninguém. É preciso pensar no processo todo.

CUSTO DA POLÍCIA
A Inglaterra vai no caminho inverso ao do Brasil. Eles têm cada vez menos polícia. Sabe por quê? Porque a polícia custa caro lá. Aqui no Brasil é de graça em vários estádios. Ou é muito barato e o organizador do jogo, se acha que tem problema, quer muito mais polícia e cria muito mais polícia. Isso não é jeito de fazer um evento.

*

RAIO-X
MARCO AURÉLIO KLEIN

IDADE 64

CARGO Autor do relatório final da Comissão Paz no Esporte e secretário nacional da Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem

CARREIRA Professor da FGV (2001 a 2009), responsável por futebol no Ministério do Esporte (2004 a 2007), diretor da Federação Paulista de Futebol (1993 a 1994 e 2008 a 2009), diretor de Alto Rendimento do Ministério do Esporte (2009 a 2012) e autor de três livros sobre o futebol brasileiro

*

RELATÓRIO TAYLOR TRANSFORMOU FUTEBOL INGLÊS

Apontado por Marco Aurelio Klein como modelo de inspiração no combate à violência nos estádios, o Relatório Taylor revolucionou o futebol da Inglaterra e abriu espaço para que sua liga nacional se tornasse a número um do planeta.

O estudo foi realizado e adotado no país a partir do começo dos anos 1990, como resposta à tragédia de Hillsborough, ocorrida em 1989, quando 96 torcedores morreram pisoteados e esmagados contra grades de proteção devido ao excesso de público na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, pela semifinal da Copa da Inglaterra.

Entre as medidas adotadas. que ajudaram conter os hooligans, protagonistas de algumas das maiores confusões no futebol europeu durante a década de 1980, estavam o treinamento de uma polícia especializada, a obrigatoriedade de assentos para todos os pagantes (o que pôs fim à tradição de se torcer em pé) e o fim das grades de proteção para os gramados de futebol.

O relatório também sugeriu a criação de leis específicas para crimes e contravenções praticadas por grupos de torcedores.

Para se adequar a esse novo cenário, os 27 principais estádios da Inglaterra precisaram ser reconstruídos ou passaram por reformas.

Brazil announces hotline to help fight fan violence (AP)

Brazil announces hotline to help fight fan violence

By TALES AZZONI

February 13, 2015 1:07 PM

Brazil Fan Violence

In this March 22, 2009, file photo, police approach Santos soccer fans to break up a fight with fans from the opposing team, the Corinthians, at a Sao Paulo state championship soccer game in Sao Paulo, Brazil. Brazil is dealing with another wave of fan violence just weeks into the new 2015 football season, exposing the continued failure of club officials and local authorities to eradicate the decades-long problem. This year it didn’t take long for Brazilian football to start making headlines for the wrong reasons _ a 16-year-old boy was shot to death after a match. A goalkeeper was injured by fans of Brazil’s most popular club. Supporters of one of the nation’s most successful teams were ambushed inside a subway station. A confrontation between fan groups and police turned supporters away from a game in one of the nation’s most modern venues. (AP Photo/Andre Penner, File)

SAO PAULO (AP) — The Brazilian government is creating a hotline to help fight a wave of fan violence that has brought unwanted attention to local football just weeks into the new season.

The government will also create a nationwide registry of the fan groups who are considered to be at the root of fan violence in the land of football.

The announcement by Brazil’s new sports minister came after a meeting with representatives of the National Association of Fan Groups, which was recently created to improve the dialogue with local authorities and the government.

The hotline will allow the population to denounce fans committing crimes or engaging in violence.

“Fan groups are part of a cultural manifestation and it’s important that they are preserved,” said Sports Minister George Hilton, who took office this year. “But they can’t have members engaging in criminal acts. Fans are important in sports and they need to be protected from bad elements.”

Fan violence is endemic in Brazil, with authorities and club officials historically failing to find solutions to eradicate the problem.

Less than a month into this football season, there have been several cases of violence already — a 16-year-old boy was shot to death during a scuffle between rival fan groups and police after a match; a goalkeeper was injured in his changing room by invading rival fans; supporters were ambushed by a rival group inside a subway station; fans were turned away from a match after a confrontation between fan groups and authorities outside a stadium.

The sports ministry said Brazil has about 1.5 million people linked to fan groups, so it’s important to keep track of them with a nationwide registry. All of the country’s most popular clubs have two or three organized fan groups. Many are partly financed by the clubs themselves, receiving free tickets and free trips to away games.

Authorities in the past tried to ban the most violent groups, but they kept coming back through legal loopholes.

In addition to preventing violence, the government also wants to use the registry to offer social services and educational projects focused on the fans.

A similar registry has been in place in states such as Sao Paulo, but fan violence continued to be a problem.

Hilton is expected to meet with club representatives next week to continue discussing the subject of fan violence.

Polícia Militar tem 25 policiais infiltrados em torcidas organizadas de SP (UOL)

Vinícius Segalla

Do UOL, em São Paulo 31/01/201506h04 

O 2º Batalhão de Choque da PM de São Paulo

Policiais do 2º Batalhão de Choque da PM-SP marcham durante treinamento diário em seu quartel, na região central de São Paulo Thais Haliski/UOL

O Segundo Batalhão de Choque da Polícia Militar em São Paulo mantém 25 policiais infiltrados nas torcidas organizadas dos principais clubes de futebol do Estado de São Paulo. Eles assistem no estádio às principais partidas dos clubes a que são designados, ficando no mesmo local e usando as camisas de torcidas organizadas como Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Alviverde (Palmeiras), Independente (São Paulo) e Força e Sangue Jovem (Santos).A ação é executada pelo núcleo de inteligência do 2º Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo, responsável pelo policiamento e controle de distúrbios de eventos esportivos realizados no Estado.

De acordo com o capitão Marçal Ricardo Razuk, comandante da 1ª Companhia do 2º Batalhão, o trabalho dos agentes infiltrados – que não se identificam como policiais, e interagem e criam relações com os reais torcedores organizados – não visa identificar criminosos ou práticas ilícitas, mas sim compreender as dinâmicas que interferem nas ações desses grupos, conforme ele mesmo exemplifica:

“Este trabalho nos ajuda a entender que, atualmente, os maiores conflitos e possíveis focos de violência estão em rivalidades que surgiram e vêm crescendo entre torcidas organizadas de um mesmo clube, ou ainda entre grupos rivais dentro de uma mesma torcida organizada”.

Para Razuk, que há 16 anos (desde sua formatura como oficial da PM) atua no policiamento em estádios, o confronto entre torcidas de clubes rivais vem sendo combatido paulatinamente pela polícia desde 1995, quando uma batalha campal no gramado do Pacaembu entre torcedores armados de pedras e paus de Palmeiras e São Paulo (após uma final de um campeonato de juniores) levou à morte de um torcedor são paulino de 16 anos.

De lá para cá, afirma o capitão, o esforço da PM em separar rigidamente a entrada dos torcedores rivais nos campos de jogos, e o reforço do policiamento nas dependências internas dos estádios foi, ao longo do tempo, reduzindo a violência no interior das praças esportivas.

Em um segundo momento, coibiu-se os combates entre torcedores nas áreas próximas ou distantes dos estádios, como estações de metrô ou proximidades de sedes de torcidas organizadas. Isso se fez através de táticas como escolta de torcidas com policiais, viaturas e motocicletas, e criação de rotas de acesso específicas e monitoradas para cada torcida.

Assim, o foco de distúrbio que a Polícia Militar enxerga agora são as rivalidades internas das torcidas de cada clube. “No Corinthians, tem conflito entre Gaviões da Fiel, Camisa 12 e Estopim da Fiel. A Falange Tricolor tem rivalidade com a Independente, as duas do São Paulo. A rixa entre Mancha (Alvi) Verde e TUP (Torcida Uniformizada do Palmeiras) é conhecida há anos, como também entre Sangue Jovem e Torcida Jovem do Santos”, enumera o comandante do Choque.

Isso não quer dizer que não exista mais violência entre torcedores de times rivais. No último dia 23, corintianos e são-paulinos brigaram entre si e com a PM após um jogo da Taça São Paulo de Futebol Júnior realizado em Limeira, a 143 quilômetros da capital.

A polícia planejara manter os são-paulinos no estádio por mais 30 minutos após o termino da partida, mas depois da vitória alvinegra por 3 a 0, o plano foi alterado, e os torcedores dos dois clubes se encontraram nas ruas de Limeira logo depois do jogo. Houve confronto, e a polícia interviu com balas de borracha e bombas de gás e de efeito moral. “O que houve ali foi mais um problema político. O policiamento não foi feito pelos batalhões de choque, entenderam que não havia necessidade de nos deslocar até lá, e a operação executada não foi a que costuma ser padrão”, afirma o capitão Razuk.
Passagem de poder

Outro foco de discórdia e violência nas torcidas organizadas detectado pela PM se dá entre grupos rivais pertencentes a uma mesma torcida. Ocorre nos momentos em que pessoas que lideram e gozam de prestígio em uma organizada vão ficando mais velhos e tendo sua liderança e linha de conduta substituídas por grupos mais jovens.

“A torcidas são diferentes. Há torcidas que têm lideranças nítidas. Como há também torcidas em que um presidente ou diretor só tem a figura de líder, sem mandar em ninguém. Existe, também, o pessoal da velha guarda, que não são mais os líderes constituídos, mas que possuem uma grande liderança natural, às vezes positiva e às vezes negativa, em cima dos demais torcedores”, explica o oficial da PM.

De fenômenos como esses, surgem situações como a que existe atualmente na Gaviões da Fiel, a maior torcida organizada do Estado. “Lá (na Gaviões), houve o surgimento de uma facção, a Gaviões da Rua São Jorge”, conta Razuk. Dividida, a torcida vive uma situação de disputa entre grupos rivais, que, não raro, leva a situações de violência.

TREINAMENTO E AÇÃO DO 2º BATALHÃO DE CHOQUE DA PM DE SÃO PAULO

A fim de evitar que atos violentos ocorram, os policiais infiltrados da inteligência do 2º Batalhão de Choque buscam detectar os humores, planos e ações desses grupos no âmbito de suas rixas, munindo a PM de informações que permitam que ela haja preventivamente.

Ainda que enxergue conexão direta entre a conjuntura de violência nos estádios paulistas com as torcidas organizadas, o capitão do Choque não é favorável à extinção das torcidas ou à proibição de seus membros frequentarem os estádios vestindo seus uniformes. Ele recorda uma partida emblemática para sustentar sua posição.

“Em 2006, após um jogo entre Corinthians e River Plate (Argentina) no Pacaembu, em que o Corinthians foi eliminado da Copa Libertadores, os torcedores tentaram invadir o gramado, e a PM evitou uma tragédia. Depois disso, durante cerca de quatro meses, os torcedores foram proibidos de entrar com camisas de torcidas nos estádios.

Sabe o que aconteceu? Os torcedores entravam nos jogos sem as camisas, mas se portavam da mesma maneira. Ficavam concentrados nos mesmo locais e cantavam as mesmas músicas, só que com uma coisa diferente: aumentaram as provocações deles à polícia, eles passaram a achar que tinham ‘perdido a briga com a PM’, e queriam ir à forra”.

Depois disso, os gaviões começaram a entrar nos estádios com faixas escondidas, que traziam o nome da torcida. “Pela determinação legal da época, nós deveríamos apreender aquelas faixas, que estavam proibidas. Mas não fizemos isso, porque só aumentaria o clima de rivalidade. A verdade é que o futebol paulista perdeu muito com aquele episódio, por isso não acredito em extinção ou proibição de torcidas”, argumenta o oficial.

Já em relação aos mastros de bandeira, que todos os anos, em início de temporada (o Campeonato Paulista começa neste sábado (31)), voltam ao centro dos debates trazidos por aqueles que defendem sua volta aos estádios, o capitão do Choque é taxativo: “Defendemos e defenderemos, legalmente, se preciso, que os mastros de bandeira não voltem às arquibancadas. E também não permitimos quaisquer objetos que possam ser utilizados para ferir uma pessoa, porque sabemos que eles foram e serão utilizados para isso caso sejam permitidos”.

A lista de itens proibidos nas arquibancadas paulistas foi acrescida neste mês pelo chamado “pau de selfie”, um bastão metálico utilizado por pessoas para fotografarem a si mesmas com maior distância entre si e o telefone celular com câmera. “Em um estádio de futebol, nas mãos de um torcedor mal intencionado, pode virar uma arma. Então, não entra.”

Polícia enfrenta ‘demônios’ em grupo evangélico; conheça os PMs de Cristo (Folha de S.Paulo)

12/08/2014 06h00

“Na hora de decidir por atirar ou não, muitas vezes a técnica não vai ajudar. O policial vai precisar de um sentido maior.”

A afirmação do coronel da PM Alexandre Terra ajuda a justificar, no vídeo abaixo, a existência dos PMs de Cristo.

A associação, de cunho religioso e atualmente presidida pelo policial, existe há 22 anos na corporação paulista e contrasta com a rotina muitas vezes violenta dos seus membros.

Na reportagem, de Anna Virginia Balloussier com fotografia de Rodrigo Machado e edição de Diego Arvate, o coronel exalta a busca do equilíbrio para superar “situações sobrenaturais” vividas por policiais que “ficaram possessos por demônios”.

Veja vídeo

A engrenagem das prisões em massa (GGN)

qua, 23/07/2014 – 08:26

Enviado por Leo V

Do Ponte.org

A engrenagem das prisões em massa. O caso Hideki

Bruno Paes Manso

Como produzimos provas para condenar tanta gente?

Já foi dito que as perguntas certeiras são o ponto de partida para boas reportagens e pesquisas. Concordo e já coloco uma questão que há tempos me intriga: como São Paulo (e o Brasil) consegue mandar tanta gente para a prisão se possui uma polícia civil com sérias dificuldades para investigar? Já somos o terceiro País do mundo no ranking de pessoas presas, sendo que nas prisões paulistas há um terço do total de presos nacionais. Como produzimos provas para condenar tanta gente?

As respostas ajudam a decifrar como funcionam as engrenagens dessa fábrica de aprisionamento em massa que estamos construindo em São Paulo e no Brasil. O caso das prisões de Fábio Hideki e de Rafael Marques, detidos sob a acusação de prática de crimes durante os protestos em São Paulo, servem para mostrar a lógica desse mecanismo.

Os dois foram presos no dia 23 de junho numa manifestação na Avenida Paulista durante a Copa do Mundo. A Secretaria de Segurança Pública paulista defendeu a legitimidade das prisões afirmando ter provas de que eles portavam explosivos. Diversas testemunhas afirmaram, no entanto, que o flagrante foi forjado, incluindo o padre Julio Lancelotti, vigário do Povo da Rua, que estava ao lado dos jovens quando eles foram detidos. A SSP rebate e diz que o Ministério Público acompanha de perto as investigações e que os promotores denunciaram Hideki e Marques à Justiça.

hidekiNa semanas que se seguiram às prisões, campanhas foram feitas para que os dois fossem soltos, entidades contestaram a legitimidade da ação, o diretor da Politécnica da USP escreveu carta aberta, mil origamis de tsurus (pássaro da sorte) foram confeccionados para libertá-lo, houve manifestações em São Paulo, Guarulhos e Rio, juristas e juízes democráticos reclamaram, funcionários da USP marcharam, uma página no Facebook foi criada e recebeu mais de 6 mil curtidas, além de inúmeros memes que se espalharam pelas redes sociais.

Mesmo com a pressão legítima, baseada em depoimentos e vídeos que contestavam a credibilidade das ações da segurança pública e as decisões da Justiça, nossas instituições não se deram o trabalho de apresentar as supostas provas ou de justificar seus atos de força. Como se não se sentissem obrigadas a prestar contas de seus atos aos cidadãos que pagam suas contas. Talvez porque se sentem intocáveis. Porque acham que somos todos cegos, que não enxergamos os erros que eles cometem.

Mas já é possível juntar as peças. A figura do quebra-cabeças está ficando cada vez mais visível. A prisão de Hideki e de Marques é apenas a ponta de um profundo iceberg do frágil mecanismo de encarceramento de pobres moradores das periferias. Hideki e Marques foram exceção à regra.

Sem estrutura para realizar investigações competentes, o sistema de Justiça vem condenando faz tempo com base em frágeis evidências. Essa foi uma das principais conclusões da pesquisa feita por Maria Gorete Marques do Núcleo de Estudos da Violência (USP) sobre a aplicação da Lei de Drogas em São Paulo. Boa parte do crescimento do total de presos decorre do aumento da prisão de pequenos traficantes.

Em 2006, havia cerca de 17 mil presos por tráfico. Cinco anos depois, já era 52 mil. Conforme a pesquisa, quase nove entre cada dez prisões feitas no Estado foram ocorrências em flagrante, quando a maioria estava circulando na rua. A maioria (52%) não tinha antecedentes em sua ficha criminal e eram negros e pardos (59%). Na primeira etapa do processo de aprisionamento em massa, a polícia vê um negro em atitude suspeita andando na rua. Ele é abordado e preso em flagrante.

No Judiciário, o depoimento do policial militar que prendeu o suspeito acaba sendo sobrevalorizado. O que ele fala é considerado verdade, mesmo quando a vítima acusa o flagrante de ser forjado. Isso ocorre porque são depoimentos que gozam de fé pública, termo que define juridicamente os documentos e testemunhos que são dados por autoridades públicas no exercício de sua função. São presumivelmente considerados verdadeiros, o que acaba dispensando a necessidade de provas robustas para a condenação.

Na prática, isso significa que, depois de acusado pelo policial, o suspeito passa a ter que provar a sua inocência. As provas materiais do crime ou outros testemunhos de acusação acabam sendo meros complementos em muitos processos. O que não impede o promotor de acusar e o juiz de condenarem o réu. Na pesquisa do NEV-USP, as autoridades explicaram que a gravidade do crime justificaria a decisão de condenar com base em depoimentos de PMs e em provas frágeis.

Não foi o caso do crime Hideki e Marques. Não eram graves. Eles eram meros bodes expiatórios para que a segurança pública e o judiciário dessem uma resposta aos protestos durante a Copa do Mundo. Eles são black blocs? Só dando risada. Acompanhei o movimento e sei sobre os dois presos. Essa afirmação é ridícula. Mas qual é o ponto nevrálgico da questão? Depois de anos e anos prendendo e condenando por nada, nosso sistema já estava acostumado a engolir acusações mal feitas. Qual o problema em condenar mais dois sem que haja provas?

Será que eu estou sendo injusto com nosso sistema de segurança e de Justiça? Há apenas dois meses, eu me deparei com um caso emblemático que foi publicado neste blog em maio. Foi a história de José, um jovem negro de 17 anos que estava em seu apartamento num sábado à noite. A PM perseguia quatro assaltantes de carro pelas ruas. O grupo bateu em um poste durante a fuga, mas tiveram tempo de descer do carro e correr dos policiais. Os PMs acharam que um dos jovens havia subido em um edifício que ficava perto do local da batida. Era onde José morava. Falaram com o porteiro, invadiram o apartamento do garoto às 2 horas da manhã e o prenderam.

José tinha provas de que havia saído de casa somente para fumar no portão. As imagens das 19 câmeras do edifício eram claras. Batom na cueca. Mesmo assim, José continuou preso. O promotor pediu sua condenação e o juiz bateu o martelo. No processo, sobre as imagens que provavam a inocência do acusado, foi afirmado que o “condomínio não tinha fé pública”. O testemunho dos policiais foi suficiente para prendê-lo e condená-lo. As imagens de nada adiantaram. José foi solto apenas depois que a reportagem mostrou neste blog as provas de sua inocência. A Justiça foi forçada a soltá-lo no mesmo dia.

A sociedade merece respostas sobre o flagrante e as provas contra Hideki e Marques. As polícias demandam reformas urgentes. O Estado pode nos tirar os olhos, mas isso não significa que estamos cegos. Segue abaixo, aliás, o belo vídeo feito pela Ponte sobre Alex e Sérgio, fotógrafos baleados durante manifestações.

‘Pedagogia do terror’: testemunho de um ex-preso político da democracia (EPSJV Fiocruz)

Novembro 2013

Paulo BrunoEle foi um dos presos políticos da atual democracia brasileira. Participando de uma manifestação organizada pelos professores municipais e estaduais do Rio de Janeiro, que estavam em greve, Paulo Roberto de Abreu Bruno, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz, foi detido junto com dezenas de outras pessoas no dia 15 de outubro. Acusado sem provas e sem direito à informação ou à presença de advogados, foi encaminhado para a delegacia e, na sequência, para dois presídios, incluindo Bangu 9. Segundo ele, circulou pelos “porões da democracia brasileira”. Desde o início de junho, Paulo Bruno vinha filmando as manifestações que tomaram as ruas do Rio de Janeiro como parte do seu trabalho de pesquisa. Levou algum tempo para que conseguisse falar sobre o assunto, mas nesta entrevista ele narra as humilhações e violências sofridas pelos presos políticos, descreve a rotina de violação de direitos do sistema carcerário brasileiro, destaca a solidariedade dos presos comuns e chama a atenção para a fragilidade das lutas políticas diante do terror que o Estado, representado no caso pelo governo estadual, pode provocar. Como, na prisão, não tiveram acesso sequer a papel e caneta, os registros que se seguem ficaram registrados, até então, apenas na memória do entrevistado.

Você está sendo acusado de quais crimes?

Dano ao patrimônio, roubo, incêndio e organização criminosa. Eu fui preso por volta de 22h30 do dia 15/11 e, no entanto, no documento que assinei no IML constava como se eu tivesse quebrado alguma coisa, por volta das 18h nas proximidades da rua Evaristo da Veiga. Não há nada quebrado lá. Além disso, nesse horário estava a caminho da Avenida Presidente Vargas, depois de embarcar num trem do metrô na estação de Del Castilho, acompanhado de duas pessoas com as quais trabalho.

Vocês sabiam que estavam sendo presos, para onde estavam indo e por que?

Não. Estava na escadaria da Câmara dos Vereadores e o policial só me puxou. Eu tropecei na alça da mochila e minhas moedas se espalharam. Reclamei disso e, autorizado a recolhê-las, pude me recompor. No ônibus, outro policial mais novo, com pouco menos de 30 anos talvez, ficou perto da porta e mandou entrar. Nisso foram entrando pessoas. Na Evaristo da Veiga, próximo à avenida Rio Branco, alguns manifestantes ainda tentaram impedir que o ônibus saísse e os policiais que estavam em frente ao Municipal jogaram bomba de efeito moral para dispersá-los. O ônibus foi embora com uma escolta, vinham dois de moto — de negro também, acho que eram do choque —, com a arma apontada para a gente, dizendo para fechar a janela, xingando. Tentamos abrir a janela e um deles dizia: ‘fecha a janela senão jogo gás de pimenta em vocês’. Aí fechamos a janela. Até então o pessoal estava revoltado, ninguém tinha noção do que iria acontecer. Eu falava para ter calma, era o mais velho. A gente tinha que estar sempre calado e em nenhum momento falaram para onde iríamos. Na delegacia, permanecemos a maior parte do tempo no ônibus. Ficamos lá de molho até 12h30 do outro dia. Soubemos que duas pessoas que estavam na 25ª, se não me engano, ficaram em condições bem piores, num lugar alagado, com um banheiro. No nosso caso, ficamos em lugares da delegacia sentados ou de pé e depois retornamos para o ônibus. Recebemos orientação dos advogados que chegaram à 37ª DP algum tempo depois de só depormos em juízo. Passamos uma procuração para os advogados do DDH [Instituto de Defesa dos Direitos Humanos] e não depusemos.

Como foi a transferência para o presídio?

Pouco antes de 12h30 os carros começaram a se movimentar, vimos chegar aquele furgão usado pelo batalhão de choque, começaram a deslocar os carros em frente à delegacia, a gente previu que fosse acontecer alguma coisa. Imaginamos que iríamos ser transferidos, mas não sabíamos para onde porque não falaram. Alguns PMs começaram a ser mais irônicos e mais agressivos com palavras. Quando alguém pedia alguma coisa, respondiam de forma irônica. Sempre de forma intimidatória. Até que meio dia e pouco — imagino que nesse horário porque também não tínhamos relógio —, colocaram a gente na traseira desse furgão, que era dividido no meio, com dois bancos laterais. Ia uma pessoa em pé e outra sentada, algemadas. Eu não tinha noção de que algema era objeto de tortura, para mim, era só para segurar a mão do preso. Mas conforme você vai mexendo, ela vai apertando. Então, assim que o carro saiu, a algema encaixou no osso do meu pulso, causando uma sensação muito ruim, eu tentei mexer e percebi que ela apertou. Fomos para o IML [Instituto Médico Legal]. Nessa hora eu já não aguentava mais, pedi para tirarem e acabaram abrindo [a algema] lá. Mas isso nem contou lá no exame de corpo delito porque é uma coisa muito rápida, os caras não querem muita conversa. O tratamento que a gente recebeu em todo momento, a não ser em poucas ocasiões no interior da 37ª DP, era como se fôssemos criminosos. Dali saímos também sem que falassem nada. Nos algemaram de novo, colocaram no furgão e fomos para São Gonçalo, para o presídio Patrícia Accioly, no bairro Guaxindiba. Nas transferências, você é sempre humilhado, chamavam a gente de ‘black bosta’, criminosos, assassinos, vagabundos, vândalos etc. Na saída da 37ª, dois policiais nos chamaram de criminosos, falando que seríamos estuprados no presídio. Diziam que iríamos pagar por termos nos metido com policial, que tínhamos matado o amigo deles, incendiado o carro [da polícia]. Tentavam nos filmar com seus celulares. Quando chegou lá, em Guaxindiba, novamente um cardápio de ofensas e atos para nos amedrontar. Você entra, tira a roupa, fica de cócoras, levanta a sola do pé, mão, tudo para ver se está com algum objeto, e depois te encaminham nu para receber calção e camiseta. Para lá a gente foi com a roupa do corpo. Na delegacia da Ilha do Governador, deixamos as coisas com os advogados, porque tinham avisado que iríamos perder tudo no presídio. Primeiro ficamos acocorados num corredor dos presos de alta periculosidade (segundo eles próprios). A primeira pergunta de um desses presos foi se a gente tinha dinheiro. Todo mundo de mão para trás e cabeça para baixo, em pé ou sentado. Não demos ouvido. Começaram a perguntar o que a gente fez, mas ninguém respondeu. Por fim, ele perguntou se a gente estava em manifestação. O preso da frente falou ‘esse Cabral é um filho da puta, tem que sair!’ e o da cela de trás concordou: ‘É isso mesmo!’.
Dali fomos para uma cela num corredor e ficamos só nós, os presos políticos. Eram celas para seis pessoas, com três beliches de cimento. No canto, o banheiro, com um buraco no chão — um vaso sanitário, chamado de “boi” na linguagem da cadeia — e um chuveiro no alto, sem registro. A gente descobriu que a água era aberta duas vezes ao dia. Foi ato contínuo entrarmos na cela e todo mundo se apresentar. As pessoas não se conheciam. A sensação de solidariedade coletiva minimizava a apreensão causada nos deslocamentos (DP-IML-presídio). Entrar na cela naquela circunstância era como “chegar em casa”: enfim, apesar da falta de banho, teríamos a possibilidade de deitar e descansar.

Como foi a rotina dentro do presídio?

Inicialmente fomos informados sobre como funciona o sistema. Rasparam a nossa cabeça também antes de entrarmos na cela. Recebemos sabonete, escova de dente e creme dental. Toalha não! Os presos mais antigos e com bom comportamento fazem o serviço de cortar o cabelo, dar informes sobre o funcionamento, servir as refeições. Eram feitos três “conferes” ao dia: gritavam no corredor (Confere!), ou tocavam na grade e você teria que se posicionar (erguido, mãos para trás e olhar para o chão) para eles contarem. Tinha pão e café pela manhã, almoço, jantar e um copo de uma bebida que parecia guaravita. A gente foi se acostumando com a rotina. No primeiro dia, não chegou água. Chegamos ao presídio quatro horas da tarde talvez, estando desde o dia 15 sem tomar banho — já era dia 16 anoitecendo. Falaram que abririam a água por dez minutos. Nesse dia abriram a água devia ser 3h da manhã. Tinha muito mosquito nesse presídio. Já trabalhei na Amazônia, andei em várias aldeias, mas nunca vi coisa igual. Não dava para dormir. Eles deram um cobertor e a esperança era que o cobertor ajudasse. No meu caso, era velho e furado, então não adiantava porque os mosquitos entravam. Essa primeira noite foi sofrida. A gente meio que fica na expectativa de sair, mas já estava conversando e encarando a possibilidade de ficar mais tempo. As longas conversas entre o grupo que dividia a cela e a comunicação com outros presos políticos de outras celas serviram para nos mantermos num estado emocional equilibrado. Na segunda noite nesse presídio já havíamos aprendido a fazer incensos com papel higiênico, o que afastava os mosquitos, mas deixava a cela esfumaçada.

Vocês receberam a visita de alguém?

Primeiro, recebi visita dos advogados da Asfoc [Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz], Jorge da Hora e Fábio. Eles falaram da mobilização que era prevista para acontecer na Fiocruz e perguntaram sobre o meu estado. Receber notícias de fora do presídio causou um sentimento desconhecido. Não tinha a menor ideia do que poderia estar acontecendo do lado de fora. Era como se estivesse também com o pensamento aprisionado, apesar de consciente do que acontecia. Depois, na tarde do dia 17, chegaram os advogados do DDH junto com uma advogada ligada a uma ONG que trabalha com direitos humanos em presídios. O trabalho dela consiste em visitar todos os presídios do sistema do Rio de Janeiro e ver as condições dos presos. Acho que tinha alguém da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia [Legislativa]. Um pouco depois chegou o [deputado estadual] Marcelo Freixo. Fizemos duas reuniões num refeitório onde tivemos a primeira oportunidade de ver o conjunto dos presos. Dos 19 que éramos quando chegamos à 37ª delegacia, ali já éramos 62. Todo mundo se cumprimentava, apertando a mão. Recebemos uma carta de pessoas de fora. Foi um momento de muita emoção e houve um agradecimento a elas. Aquilo foi muito bom porque a gente estava isolado. É outro universo: no presídio você não tem essa dimensão do que acontece do lado de fora. É outro mundo. Tínhamos consciência de que éramos presos políticos. Foi nosso primeiro contato coletivo com o mundo. O Marcelo Freixo me pareceu muito abatido, falando que a situação era grave, que ele nunca tinha presenciado uma situação dessa no Rio de Janeiro. Comentou que se falava em colocar as forças de segurança nacional na rua e que o Beltrame chegou a aventar isso. E a imprensa estava jogando pesado na nossa criminalização.

E a transferência para Bangu 9?

Na madrugada do dia 17 para o 18, umas 3h30 da manhã, fomos acordados pelos caras batendo [na grade]. “Sai, sai. Deixa tudo!!!”, gritavam. E os meus óculos ficaram na cela. Foi o momento de maior tensão: escuro, aqueles caras enormes todos de preto, gritando muito. A sensação, pelo tratamento, era de que iriam executar a gente. Colocaram a gente num pátio externo, sempre gritando, humilhando, xingando. Eu não fui agredido, mas uma parte do grupo foi agredida com palmatória. Eles queriam que o pessoal dissesse por que o estuprador da Rocinha estava com a orelha cortada e o rosto queimado. Tinha três presos comuns com a gente, um deles era esse estuprador e alguém queimou o cara, só que ele não dividiu cela com a gente em nenhum momento. Mas os caras queriam que a gente dissesse quem foi. Isso eu ouvi do lado de fora de um portão grande de ferro. Fui colocado para fora com outro grupo, de cabeça baixa. Chovera e o chão estava molhado e todos nós estávamos descalços (desde são Gonçalo até a libertação permanecemos nesse estado). Começamos a ouvir interrogatório e, em seguida, batidas e as pessoas gritando. Depois soubemos que era a palmatória de madeira. Isso durou alguns minutos. Fomos colocados num ônibus todo escuro. Dessa vez, sentamos quase todos. Um dos presos políticos estava por desmaiar e outros se esforçavam para mantê-lo acordado. Não era possível ver os rostos mesmo dos que estavam mais próximos de nós. Havia pouca circulação de ar. O Freixo havia dito que possivelmente iríamos para um presídio próximo para aguardar uma solução na justiça. Seria um presídio em São Gonçalo, que ele disse que era mais tranquilo, que estava disposto a aceitar o grupo, tinha espaço. Como eles tiraram a gente de madrugada, só podíamos imaginar para onde estávamos indo, porque estava escuro e, sem relógio nem nada, você perde a noção de espaço e tempo. Só sentíamos o balanço do ônibus, só sabíamos que estávamos em rua esburacada. Depois de algum tempo, pela batida e por alguma luz que entrava, nos demos conta de que estávamos cruzando a ponte Rio-Niterói. Mas, adiante alguém exclamou: “Deodoro!”. Pouco depois chegamos ao Complexo Penitenciário Gericinó, mais especificamente, no presídio Bangu 9 e foi novamente aquela coisa de os caras nos tratarem mal. A fala e a atitude de um policial ficou impregnada na minha memória: ‘Só tem vocês dois de pretos aqui?’. Em seguida segurou a cabeça de um deles e bateu algumas vezes contra a parede. Teve outro preso político que pedia insistentemente para ir ao banheiro, que não aguentava mais. Estavam muito próximo de mim. Gemia… Eu sussurrava para ele: respira fundo. Os caras apenas ironizavam e procuravam humilhá-lo. Mesmo depois de uns cinco pedidos desesperados, o rapaz não teve autorização e evacuou nas calças. Depois disso ordenaram que lavassem o chão.

Fomos para a cela. Quando a gente passa pela triagem, perguntam qual a nossa facção e são apresentadas as seguintes opções num formulário: Comando Vermelho, Amigo dos Amigos, Povo de Israel, milícia ou neutro. Nos identificamos como neutros e ficamos numa galeria juntos com o Povo de Israel, que são os presos que se converteram. O melhor de Bangu é que tinha uma torneira com água 24 horas; no outro não tivemos nem água para beber até a primeira abertura do chuveiro, para banho muito menos. Se quiséssemos beber aquela água imunda, pelo menos havia água, não iríamos morrer de sede. Mas a cela era mais estreita, escura, úmida e quase não tinha espaço para circular. Parece que circulou a informação de que haveria visita do pessoal dos direitos humanos. Aí deram um jeito de transferir a gente para outra cela no final do corredor, onde entrava luz no final da tarde, tinha sol, foi um alento. Além de um pardal que entrava e saía da cela através da grade no alto da parede (no final da tarde ele se alojou num buraco no teto da cela). Dessa cela ouvíamos cantos de outros pássaros. Recebemos somente um lençol branco e limpo que, pelo fato de ser bem largo, dava para cobrir a espuma sobre a qual deitava e, ao mesmo, servir de coberta. As poucas horas que restavam da madrugada permitiram um breve cochilo. No dia 18, acordei com a sensação de que sairia: lavei minha camiseta no banho com caneco e sabonete. Eu pretendia sair limpinho do presídio, estava imundo. Nessa passagem por Bangu, os presos receberam a gente bem. Eles falavam que a gente representava os parentes deles do lado de fora, que a luta era por eles também. Foram acolhedores e respeitosos conosco.

Quando você soube que seria solto?

Durante reunião com o pessoal dos direitos humanos, que aconteceu justamente no corredor, diante da cela onde eu e mais cinco presos estávamos, deram a informação de que tinha saído um habeas corpus. E que a partir desse habeas corpus, em meu nome, a juíza estendeu o benefício para os outros. Dali, voltamos para a cela. O habeas corpus só chegou ao presídio no final da tarde. Nesse meio tempo, chegaram advogadas do DDH, a Luiza maranhão e mais duas que conheciam pessoas comuns a mim e a outros dois presos. A gente foi conversar com as advogadas e, na volta, foi interessante porque um preso parou a gente para conversar no corredor, onde havia outros dois presos soltos. Esse preso falou: ‘Pára que aqui é tranquilo, pode parar’. Parei. ‘Aperta minha mão aí’. Apertei. Tinha outros três na grade festejando a gente e que também queriam apertar as nossas mãos. Eu saí, o Deo [professor da rede municipal do Rio, companheiro de cela] veio mais atrás, parou um pouco e conversou com eles. Eles falaram: ‘Ah, você é professor?A gente é aluno do crime, a gente veio agradecer vocês’. Surpreendeu a gente: por incrível que pareça, tivemos a solidariedade de quem – os policiais falaram – iria nos maltratar. Enfim, foi o ultimo dia lá, saímos à noite. Durante a oração que é feita sempre às 18h, segundo comunicara o preso que servia as refeições, momento em que os presos leem trechos da Bíblia, discursam, cantam — as falas e canções pareciam ter sido construídas no próprio espaço carcerário, pois falavam, muito da situação dos presos —, um dos carcereiros fez uma chamada no início do corredor, o que interrompeu a oração e criou um estado de suspense. Chamaram os nomes dos nove primeiros libertos. A nossa saída pela galeria foi algo comovente! Braços eram estendidos para fora das celas para nos cumprimentar. Olhos brilhantes nos acompanhavam enquanto aguardavam cumprimentos. Ouvia-se um grito: Liberdade! Esperamos quase duas horas fora da cela. Depois saberíamos que foi feito de tudo para que ficássemos mais tempo presos, apesar de os advogados da Asfoc já terem obtido dois habeas corpus antes do que definiu a saída do nosso grupo, detido na 37ª DP.

Dá para descrever os momentos de pavor?

Tem um pavor que é para disciplinar o corpo e, no nosso caso, intimidar. A todo momento falavam que, como era a primeira vez, a gente estava sendo tratado como homem, e que da próxima seríamos tratados de forma diferente. Falavam para que tomássemos cuidado para não voltar para lá. E funciona: nessa noite mesmo tive um sonho com um monte de policial de fuzil atirando nas pessoas aleatoriamente. Isso num nível psicológico. [Mas teve] o físico também, eles bateram em algumas pessoas. Imagino que elas estejam mais frágeis do que eu. Tem essa coisa de incutir o medo. É uma espécie de pedagogia do terror, de você ser educado para não se manifestar, não questionar. Tanto que os últimos atos estiveram meio vazios, as pessoas estão recuando porque foi feita uma coisa exemplar. Isso me faz pensar que essa estrutura de terror não se extingue com mudança de governo, eleições, ela está muito bem estruturada como sistema de tortura… Aparentemente é um sistema legal, no entanto, é uma estrutura em que você entra e é engolido. Quando vem pressão de fora, é diferente. Fora isso, é o sistema de terror. É impossível ressocializar (como sugere o calção que recebemos, com a sigla SEAP e a palavra ressocialização) em tais condições.

Você diz que existe uma pedagogia do terror que funciona. Como é voltar a uma manifestação agora? 

Eu soube de pessoas que não pretendem voltar a manifestações por enquanto. Para mim foi difícil. Nos arredores da Cinelândia, uns dias depois da minha libertação, quando vi o carro e um micro-ônibus da polícia, foi uma sensação muito estranha. Eu fui para casa. A sensação é de que iria repetir tudo que eu falei anteriormente, uma coisa incontrolável, não de ser preso, mas de sentir tudo o que eu senti, de escuridão, de ser puxado para o escuro. De ter sido sequestrado. Mudou também o meu olhar com relação aos policiais. Eu tinha a expectativa de que pudessem se portar como trabalhadores, servidores públicos. Agora eu até entendo a situação de precariedade, que os caras têm que fazer isso para sobreviver, a questão da hierarquia militar etc., mas os possíveis resquícios de solidariedade diminuíram muito. Com a forma como muitos deles tratam as pessoas, não dá para perceber qualquer sinal de compaixão.

Qual a sua avaliação com relação ao sistema judiciário e carcerário brasileiro considerando a situação daqueles que passaram por essa experiência?

Se você está na mão do Estado, está refém do Estado. Estamos em situação de fragilidade. Hoje os grupos mais conservadores estão unidos em torno de um projeto que, a pretexto de viabilizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, visa frear manifestações para assegurar o uso da máquina e dos recursos públicos para garantir os grandes investimentos, o lucro, a expropriação de terras. Não temos certeza se, quando formos a julgamento, podemos ganhar. Essa sociedade democrática que a gente vive é para quem não está dentro desse sistema prisional, só serve para quem nunca passou por lá. Depois que você cai ali, vê que é tudo muito frágil. No escravismo brasileiro, até o século XIX, os escravos que cometiam os “crimes” de fuga das fazendas ou atentado ao “seu senhor”, por exemplo, eram marcados/queimados com a letra “F”. Algo aparentemente superado historicamente se repete com a “marca” que a “passagem” pelo “sistema” deixa em nós. Qualquer um pode ser pinçado, cair ali e pronto! O objetivo dos grupos que controlam as estruturas de poder do Estado é ter você na mão e prorrogar esse processo por anos. Qualquer um de nós, se voltar, com certeza, terá outro tratamento. Eles nos avisaram! Há os que ainda acreditam na possibilidade da luta, garantida nos “direitos constituídos”. Penso que não tem mais direito constituído… Se por um lado a solidariedade presente entre companheiros da Fiocruz e de Manguinhos, em especial, foi extremamente importante para mim, por outro, é surpreendente o silêncio por parte de algumas entidades de classe e parte do meio acadêmico com relação a esse estado de coisas, onde cresce a opressão contra a expressão popular nas ruas, o que coloca o Estado Democrático de Direito como privilégio para poucas pessoas. Também é desprezível o reacionarismo expresso em artigos e ações de intelectuais que, outrora, eram consideradas referências importantes para a crítica ao autoritarismo.

Ainda tem gente presa…

Tem o Jair e o Rafael, um morador de rua. Ambos negros. Segundo as notícias que circulam na internet o Rafael foi preso num prédio abandonado na Lapa, onde ele estava morando. Foi no dia 20 de junho, aquele em que a polícia saiu jogando bomba de gás para todo lado. Ele estava caminhando para o lugar onde iria dormir com uma garrafa plástica de detergente e uma de água sanitária e alegaram que ele estava com material inflamável, com líquidos para produzir incêndio. Foi preso. O cara é morador de rua, está há cinco meses preso, e esteve, durante algum tempo, sem defesa. Já o Jair parece que foi preso por averiguação, e pelo fato de ter passagem anterior, estão dificultando o caso dele. Na reunião com as advogadas, no Bangu 9, foi falado que estava sendo difícil conseguir o habeas corpus para ele.

Você falou que estávamos muito fragilizados e houve uma grande união de forças para acabar com as manifestações. Mas mesmo depois dessa experiência traumática, você continua indo. Por quê?

O que impulsiona a gente a participar é a solidariedade. Aqueles que decidiram o que fazer conosco não têm noção de que, dentro da cadeia, possibilitaram a construção de uma solidariedade entre pessoas que nem se conheciam. Criaram uma liga entre essas pessoas, conheci pessoas de caráter muito firme. A grande maioria lá ficou muito solidária. Eu vejo que de toda essa experiência ruim, de aprisionamento, de repressão, está consolidando um grupo de muitas pessoas com discernimento sobre os fatos e sobre as injustiças presentes em nossa sociedade. Tive oportunidade de rever pessoas que dividiram cela comigo num ato recente de solidariedade aos presos e ex-presos. Algo inexplicável, a repressão produzira laços de amizade e confiança.
Eu volto para as manifestações com a vontade de filmar, mas não sei se vou continuar filmando por enquanto, apesar de querer dar continuidade aos registros históricos e etnográficos que iniciei em junho. Vivemos um processo histórico muito vigoroso e complexo sobre o qual precisamos refletir muito e para isso é necessário que ele seja registrado a partir de olhares diversos. Sou apenas um deles. Também não dá para abdicar de questionar o sistema da forma como está colocado. Afinal de contas, é difícil pensar na construção de um conhecimento científico neutro, principalmente, se levarmos a sério o que sugeria Paulo Freire ao dizer que toda neutralidade afirmada corresponderia a uma opção escondida.

Assim, a passagem pelo sistema prisional e carcerário não poderia ofuscar o nosso olhar sobre a sua dinâmica, sobre a forma como atuam os servidores públicos que os mantêm ativos e, sobretudo, sobre as condições nas quais se encontra seu “público-alvo”, formado por pobres, negros e mestiços em sua grande maioria. Nessa perspectiva, é difícil observar sem críticas um serviço público, financiado com recursos públicos, utilizado para punir parte desse público (presos, seus parentes e amigos). A crítica a esse tipo de serviço não pode ser colocada sem a devida correlação com toda a estrutura de governo do qual faz parte. Na atual conjuntura, essa crítica pode resultar na marcação de um “F” nas nossas costas ou no nosso encarceramento.

Entrevista concedida a André Antunes e Cátia Guimarães – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)

Declassified Documents Given By Biden to Rousseff Detail Secret Dictatorship-Era Executions, “Psychophysical” Torture in Brazil (Unredacted)

JULY 3, 2014

"Allegations of Torture in Brazil."

The Brazilian military regime employed a “sophisticated and elaborate psychophysical duress system” to “intimidate and terrify” suspected leftist militants in the early 1970s, according to a State Department report dated in April 1973 and made public yesterday. Among the torture techniques used during the military era, the report detailed “special effects” rooms at Brazilian military detention centers in which suspects would be “placed nude” on a metal floor “through which electric current is pulsated.” Some suspects were “eliminated” but the press was told they died in “shoot outs” while trying to escape police custody. “The shoot-out technique is being used increasingly,” the cable sent by the U.S. Consul General in Rio de Janeiro noted, “in order to deal with the public relations aspect of eliminating subversives,” and to “obviate ‘death-by-torture’ charges in the international press.”

Because of the document’s unredacted precision, it is one of the most detailed reports on torture techniques ever declassified by the U.S. government.

"****"

Titled “Widespread Arrests and Psychophysical Interrogation of Suspected Subversives,” it was among 43 State Department cables and reports that Vice President Joseph Biden turned over to President Dilma Rousseff during his trip to Brazil for the World Cup competition on June 17, for use by the Brazilian National Truth Commission (CNV). The Commission is in the final phase of a two-year investigation of human rights atrocities during the military dictatorship which lasted from 1964 to 1985.  On July 2, 2014, the Commission posted all 43 documents on its website. “The CNV greatly appreciates the initiative of the U.S. government to make these records available to Brazilian society and hopes that this collaboration will continue to progress,” reads a statement on the Commission’s website.

The records range in date from 1967 to 1977. They report on a wide range of human rights-related issues, among them: secret torture detention centers in Sao Paulo, the military’s counter-subversion operations, and Brazil’s hostile reaction in 1977 to the first State Department human rights report on abuses. Some of the documents had been previously declassified; others, including the April 1973 report from Rio, were reviewed for declassification as recently as June 5, 2014, in preparation for Biden’s trip.

***

During his meeting with President Rousseff, Biden announced that the Obama administration would undertake a broader review of still highly classified U.S. records on Brazil, among them CIA and Defense Department documents, to assist the Commission in finalizing its report.  “I hope that in taking steps to come to grips with our past we can find a way to focus on the immense promise of the future,” he noted.

Since the inception of the Truth Commission in May 2012, the National Security Archive has been assisting the Commissioners in obtaining U.S. records for their investigation, and pressing the Obama administration to fulfill its commitment to a new standard of global transparency and the right-to-know by conducting a special, Brazil declassification project on the military era.

Advancing truth, justice and openness is precisely the way classified U.S. historical records should be used.  Biden’s declassified diplomacy will not only assist the Truth Commission in shedding light on the dark past of Brazil’s military era, but also create a foundation for a better and more transparent future in U.S.-Brazilian relations.

To call attention to the records and the Truth Commission’s work, the Archive is highlighting five key documents from Biden’s timely donation:

1)  Widespread arrests and psychophysical interrogation of suspect subversives

2) Political arrests and torture in São Paulo

3) Allegation of torture in Brazil

4) Conditions in DEOPS Prison as told by Detained American Citizen

5) Esquadrão da Morte

 

For more information contact Peter Kornbluh (peter.kornbluh@gmail.com202 374-7281) who directs the National Security Archive’s Brazil Documentation Project.

The Politics of Violence and Brazil’s World Cup (Anthropoliteia)

JUNE 30, 2014

 

The editors of Anthropoliteia welcome Sean T. Mitchell with the latest entry in our forum Security in Brazil: World Cup 2014 and Beyond.

A June 19, 2014 São Paulo protest called by the Movimento Passe Livre (Free Fare Movement) to protest transport fares and conditions, but mischaracterized internationally as an “Antigovernment” and “World Cup” protest. The banner in front reads, “There will be no fare.” Photo. Oliver Kornblihtt/ Midia NINJA

On Failure, Violence, and the World Cup

Not unlike the 2010 hoopla anticipating that year’s South Africa World Cup, the breathless expectation of failure and security breakdown that characterized much international coverage of the lead up to Brazil’s 2014 World Cup, now, midway through the month-long event, seems to have been illfounded.

When reporting wasn’t merely what Meg Stalcup characterized on this forum as fluff—which much of it was—pre World Cup coverage in the global north press was overheated and macabre.  Why?

The last year has seen the emergence of large scale Brazilian protest movements of clear importance, and the World Cup has been a target of their criticism.  But the macabre emphasis on violence and failure has obscured much more than it has illuminated about these movements, and about the real violence and social conflicts in contemporary Brazil.

To understand why so much coverage has taken this lurid form, it helps to look at historical representations of peace and violence in Brazil, as well as contemporary politics in Brazil and abroad.

First, consider this: in the run up to Brazil’s World Cup, The New York Times described the “highly modernistic improvement” in stadium security technology designed for the “highly excitable public” and the “huge crowds possible in this soccer-mad country.”  The same year, The Washington Post lamented that “Brazil has for several years been miring deeper into a real crisis characterized by inflation” and a “breakdown” in “national equipment.” The paper warned of a country that had “outgrown its transportation system and power resources,” of “impoverished hordes” in Sao Paulo and Rio de Janeiro and that “the cost of living, already high, is going higher each day.” There was mention of elites hoping that a president, “swept into power by the underprivileged,” could “maintain a reasonable restraint on the masses.” Without such control the country might suffer “violent swings to the left, then to the right,” producing “chaos” that might prevent the country from setting “its economic house in order.”

Despite clear similarities with recent Anglophone reporting on Brazil, these articles were not from Brazil’s World Cup year of 2014, but from 1950, when Brazil also hosted the event.  The “highly modernistic improvement” to Rio’s Maracanã stadium was a moat, designed to protect players from spectators—somewhat lower tech than the “Robocops” of today’s sensational headlines.

The list of economic and political woes in The Washington Postarticle fits neatly with recent coverage of Brazil in the Anglophone press.  But the president in question was the newly-elected former dictator, Getúlio Vargas, not today’s soon-up-for-reelection former revolutionary, Dilma Rousseff of Brazil’s PT (Worker’s Party).  Like Dilma, Getúlio inherited a political program vastly popular with Brazil’s poor, but faced discontent, political turmoil, and the imperative to assuage fears of socialism among elites in Brazil and abroad.

When I went looking for 1950 reports about Brazil in the US press, the pickings were few, a dramatic contrast to the live video feeds, social media posts, and news reports of all kinds we are assaulted with today.

I will be in New York until I fly to Brazil on the night of the World Cup final.  I’ll send in a few posts in this series on the aftermath of the Cup and on the (very different) topic of the book I’m currently finishing over the next few months, so I draw heavily here on those media.  But, mindful of Jonathan Franzen’s warning that “free and universally accessible” information devalues many kinds of research (If you’re reading this, you can Google this stuff yourself), I will do my best to put some of the reporting we have been getting in a broader interpretive context.

The key point as I see it is this: in conversations in New York, I have been struck by the much greater continued focus on violence and failure than in (virtual) conversations with people in Brazil.  The other night I had a discussion with a group of well-meaning New Yorkers wrongly convinced that massive battles between protestors and police are ongoing outside most of the stadiums.  A few days earlier, I tried in vain to argue against the likelihood of stadium collapse with a man who thought such a disastrous event likely.

My colleagues on this forum have done an excellent job analyzing the real conflicts surrounding Brazil’s 2014 World Cup and 2016 Olympics, and repression of dissent around the stadiums has been draconian.  This post should not be misunderstood as undermining the importance of these conflicts and that violence.  As Ben Penglase has shown in this forum, the characterization of young dark-skinned men in Rio’s favelas as potential criminals serves to legitimate highly militarized policing of those spaces.  Similarly, the lurid, often unrealistic, focus on Brazilian violence that I continue to encounter in conversations in the US (and in a style of reporting best described as violence porn), does not so much illuminate the conflicts in Brazilian society as it  helps to legitimate the repression of dissent.

So why, prior to the World Cup, did violence and failure become such central tropes in foreign representations of Brazil, even though some Brazilian sources could have offered a useful counter-perspective?

The Myths of a Peaceful and a Violent Nation

To begin to answer this question, I’ll note that there has been a deep shift in the ideas about peace and violence that have circulated about Brazil over the last half century or so.I did my best in the introduction to emphasize the many similarities between reporting in 1950 and 2014; now I’ll emphasize the equally significant differences.

The 1950 New York Times article about the moat didn’t do a lot to stir up fear, and, unlike contemporary reports, mentioned no dangers greater than rowdy sports fans.

The 1950 Washington Post article (published after that year’s World Cup) clearly referenced many of the fears of a Washington Postreadership worried about “socialism” in Latin America after the election of a populist Brazilian president, similar to fears voiced in the international press during the early years of Brazil’s PT governance (2003 – the present).  And the thrust of the Post article, awkwardly entitled, “Brazil’s ‘Socialism’ Probably Will Be a Relative Thing,” was to console Cold War-era readers that the president elect “wants foreign capital to help on the long-term national improvements that must be made.”

It is here that clear differences with the present emerge.  The Postrelied on a cultural analysis to come to its mollifying conclusion.  In a polar inversion of recently dominant representations of Brazil as an especially violent country, the article described a Brazilian national inclination to peacefulness. “The ‘adaptability’ of Brazilians helps them solve their problems with far less violence and stress than most peoples,” the article soothed.

This conception of Brazil as a uniquely peaceful country is one with a long history, although, at least in elite circles, it has mostly fallen into eclipse.  Some of the main tropes of the myth are that Brazil achieved independence from Portugal without the bloodshed that characterized independence throughout the Americas; the country abolished slavery without a war (abolition came to Brazil after all other countries in the hemisphere, in 1888); the Brazilian military has not engaged in military action against foreigners in South America since the brutal Paraguayan War (1864-1870).

Contemporary English language readers may be most familiar with a closely-related myth generally called, “the myth of racial democracy,” the idea that Brazil has long had uniquely friendly and peaceful race relations.  But if casual readers are familiar with this myth, it is likely because they have seen or heard it critiqued.  Like the myth of Brazilian peacefulness, “racial democracy” enjoys some life as a popular ideology. But, in scholarship and middle and highbrow journalism, it is invoked almost exclusively to be debunked.

If I can take the general impressions held by my more interested US undergraduate students as a guide, the idea of Brazil as a violent and racist country, along with hard-edged popular culture such as Baile Funk, and City of God, have now completely surpassed the mid-20th century conceptions of peacefulness, racial democracy, and the soothing Garota de Ipanema, and Carmen Miranda as sources of internationally circulating clichés about Brazil.

The causes of this broader cultural shift are beyond the scope of this essay, though I will write about them in the future. Suffice it to say that the myth of peaceful Brazil is as faulty as the now-dominant polar opposite of violent Brazil.  For a nation without significant external enemies, yet with high levels of urban and police violence and one of the world’s major small arms industries, one could, if so inclined, build a case for either myth.

I’ve written a paper with anthropologists, Thaddeus Blanchette and Ana Paula da Silva (currently in peer review), in which we show how representations of Brazil in the global north (especially the United States) frequently swing between utopian and dystopian poles, in part because the nation is just similar enough to the United States to serve as a conveniently blank slate.  The myths of violent and peaceful Brazil follow this general pattern very closely.

The Failure of the World Cup?

Narrowing down on more recent history, why has the Anglophone global north press been so concerned with violence and failure when writing about the World Cup, when they stray beyond “fluff” and simple sports reporting?

First, there is major political unrest in Brazil, and the World Cup is part of this. The deaths, physical displacement, and many other human costs of the preparations for the event, along with the waste and private appropriation of needed public funds have catalyzed public dissent. The mega events of the World Cup and 2016 Olympics are being used to favor real estate interests and the neoliberal restructuring of major cities. Moreover, FIFA acts as rapacious dictator while issuing alarmist warnings about Brazil’s preparation.  All the while, the World Cup has provided the pretext to turn major parts of Brazil’s large cities into effective police states.

But contemporary protests are about more than just the World Cup, as has already been shown in this forum.  Despite this, the political concerns of the protests have been lost in international coverage that emphasizes the World Cup, on the one hand, and unspecified “anti-government” forces, on the other.  For example, the one year anniversary of the massive nationwide June 19, 2013 protests were marked by some violence and by violent police repression, but this much-circulated piece from Reuters featured the words “World Cup” in the headline and multiple uses of “anti-government” before coming to the buried lede of the movement for free bus fares, which sparked those 2013 protests and these protests one year later.  Similarly, this piece in Time about the same protest, featured a photo captioned, “protest against 2014 FIFA World Cup,” and alleged that the protests were “Antigovernment riots” merely “ostensibly calling for free public transit.”

To put this in perspective, on the day Vice.com put out the third video in their extremely popular “Chaos in Brazil” series (which includes some good journalism, despite the Vice-style lurid headlines and horror movie music), some 50,000 people were protesting in London against austerity. As my friend, the Rio de Janeiro based geographer, Brian Mier (who has done some high quality reporting for Vice himself), put it: “That’s around 50 times larger than any anti-World Cup protest that happened last week. According to the type of analysis in places like CNN about Brazil, this must be a sign that British society is crumbling at the foundations.”

But there’s a much stronger market for stories about Brazilian “society crumbling at the foundations” than there is for such stories about England.  As journalist Lawrence Charles lamented from Brazil, “the only stories editors across the world are interested in fall into the Angry Violent Brazilian Who Might Mess Up The World Cup category.” So macabre and sensational stories are the ones we get.  There’s a post-colonial and geopolitical logic to this: I predict more international hand-wringing about Brazil’s 2016 Olympics and Russia’s 2018 World Cup, but not about the prosperous and NATO-aligned Japan’s 2020 Olympics.

Additionally, in this Brazilian election year, analyses of the event and its consequences are inevitably shaped by partisan politics in Brazil.  As political scientists João Feres Junior and Fábio Kerche have been arguing, the most powerful news sources in Brazil (Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Globo, Veja, and Época), are systematically biased against the PT (Worker’s Party) government that has been in charge of Brazil’s executive since 2003, shaping impressions of the nation’s politics domestically and abroad.

I think these scholars are right about this.  Yet, their argument leaves open a significant question.  The major Brazilian media have been positioned against the PT since the party’s founding in 1980. Yet for most of the first decade of the 21st century, Brazil’s PT, and its 2003-2010 President Lula, were beloved by institutions of global north governance and media, despite the party’s enmity with Brazil’s major media organizations.  This global north affection seems to be on the wane under current PT president, Dilma Rousseff, with foreign and Brazilian major media swinging into closer alignment.

In a future post, I will offer some reasons for this shift.  The answer lies in more than the downturn in Brazil’s economy, the differing policies and personalities of these different presidents, and Brazil’s emerging protest movements, I will argue.

For now, I will end with the suggestion that English language readers consider decontextualized accounts of Brazilian violence with some skepticism.  Brazil’s new protest movements are clearly historic, and their police repression is real, but we do them no favors by taking internationally circulating violence porn at face value.

Sean T. Mitchell is assistant professor of anthropology at Rutgers University, Newark. His ethnographically-based work focuses on the politics of inequality, particularly in Brazil. His work also touches on science and technology studies; race and ethnicity; war and violence; governance and citizenship; social movements; and the politics of expertise. He is coeditor of “Anthropology and Global Counterinsurgency” (Chicago 2010), and is currently completing a manuscript, “Space and Race: The Politics of Inequality at Brazil’s Satellite Launch Center.”

Apesar do cerco das autoridades e do controle das fronteiras, barras bravas argentinas estão no Rio (Extra)

15/06/14 05:00 

Barra brava do Clube Atlético Chaco For Ever no Cristo Redentor

Barra brava do Clube Atlético Chaco For Ever no Cristo Redentor Foto: Reprodução/Twitter

Leandro Saudino e Rafael Soares

O governo argentino entregou às forças de segurança brasileiras uma lista com 2,1 mil nomes de integrantes de torcidas organizadas argentinas — as populares e violentas barras bravas. Para evitar brigas em jogos do Mundial, esses “hinchas” — que já foram condenados pela Justiça ou barrados dos estádios pelos clubes — estão proibidos de entrar em território brasileiro. Quando identificados pelas autoridades nas fronteiras, são deportados. Porém, a Interpol vê brechas no sistema.

— Pelo ar, não há como passar pelo controle migratório. Mas, por vias terrestres, em postos sem pontes, como em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, não há como controlar. Não vamos fechar 100% as fronteiras — admitiu, ao Jogo Extra, o chefe da Interpol no Brasil Luiz Eduardo Navajas. — Sem contar que torcedores fora da lista também podem fazer parte de torcidas e não temos motivos para barrá-los.

Barras do Club Atlético Talleres na praia de Copacabana

Barras do Club Atlético Talleres na praia de Copacabana Foto: Reprodução/Twitter

Apesar do cerco, alguns “hinchas” já estão no Rio: no Twitter, o perfil “barrabravphotos” postou, durante a semana, imagens que mostram os “hinchas” desfilando, com naturalidade, com suas faixas e surdos por pontos turísticos como o Cristo Redentor e a Praia de Copacabana. Nas fotos, aparecem torcedores de equipes de menor expressão no cenário argentino, como Club Deportivo Laferrere, Club Atlético Talleres e Clube Atlético Chaco For Ever.

A Polícia Federal e a Interpol monitoram os grupos de torcedores que entram no país. Os órgãos de inteligência da PF já identificaram que os torcedores mudaram a rota de entrada no país após cinco torcedores serem deportados — dois pela via aérea e três pelo município de Uruguaiana. Agora, eles estão tentando entrar pelo Uruguai, onde o controle é mais difícil.

— A lista com os barras bravas pode ser acessada em todo posto de imigração. Os barras bravas que estão na lista e conseguirem entrar vão fazer isso de forma ilegal. Vamos intensificar os bloqueios da Polícia Rodoviária nessas regiões — afirma Navajas.

Barras do Club Sportivo Dock Sud a caminho do Rio

Barras do Club Sportivo Dock Sud a caminho do Rio Foto: Reprodução/Twitter 

Alto escalão abre portas para torcedores

Organizadas, influentes e poderosas. As “hinchadas”, ao mesmo tempo em que protagonizam alguns dos episódios mais tristes do futebol argentino, frequentam os gabinetes do alto escalão da política nacional. Criado para a Copa da África do Sul, com apoio e financiamento do governo kirchnerista, o grupo Hinchadas Unidas Argentinas (HUA) — que conta com integrantes de torcidas de mais de 40 clubes do país — teve sua dissolução anunciada no início de junho.

Durante a coletiva de imprensa, a advogada da entidade Débora Hambo acusou a Associação do Futebol Argentino (AFA) de repassar entradas da Copa do Mundo do Brasil para outros grupos de barras bravas, ligados aos grandes clubes de futebol do país vizinho, como Boca Juniors e River Plate.

Barras do Club de Gimnasia y Esgrima La Plata

Barras do Club de Gimnasia y Esgrima La Plata Foto: Reprodução/Twitter

Nesse mesmo evento, a HUA divulgou que 150 integrantes da entidade viriam ao Brasil, mesmo sem ingressos, para torcer para a Argentina. Esses torcedores viriam ao Rio para tentar se encontrar com o presidente da AFA, Julio Grondona. Antes da dissolução, a HUA havia pedido à AFA 1.500 ingressos.

Em abril, o jornal argentino “Olé” publicou uma entrevista com o líder de uma torcida organizada do Internacional (Gilberto Bitancourt Viegas), conhecido como Giba, em que ele afirmava que conseguiria ingressos para 200 argentinos verem jogos da Copa.

Mesmo que os barras bravas consigam os ingressos, eles não poderão entrar nos estádios com suas faixas e instrumentos: a Fifa proíbe a entrada de cartazes com manifestações ou nomes de organizações nos estádios.

Leia mais: http://extra.globo.com/esporte/apesar-do-cerco-das-autoridades-do-controle-das-fronteiras-barras-bravas-argentinas-estao-no-rio-12864333.html#ixzz34jWTYw3z

Rio Grapples With Violence Against Police Officers as World Cup Nears (New York Times)

RIO DE JANEIRO — Alda Rafael Castilho dreamed of being a psychologist, and joined the police force to pay for her studies. Her dream ended at age 27 when gunmen stormed the outpost where she was on duty in Complexo do Alemão, a sprawling patchwork of slums. A bullet pierced her abdomen, and she bled to death.

“They left her there to squirm on the ground like some sort of animal,” said her mother, Maria Rosalina Rafael Castilho, 59, a maid who lives in the gritty outskirts of Rio de Janeiro. “The politicians talk about the pride of hosting the World Cup, but that is an insult,” she said. “They can’t even protect their own police, much less the visitors to Rio.”

With the start of the global soccer tournament in Brazil less than two weeks away, a crime wave is setting nerves on edge across Rio de Janeiro, which is expecting nearly 900,000 visitors. A security overhaul was supposed to showcase a safer Rio on the global stage, but muggings are surging, homicides are climbing, and there has been a spike in shootings of police officers.

Maria Rosalina Rafael Castilho holding a picture of her daughter Alda Rafael Castilho, a police officer who was shot and killed in Rio de Janeiro in February.CreditAna Carolina Fernandes for The New York Times

At least 110 officers have been shot in Rio so far this year, an increase of nearly 40 percent from the same period last year, according to figures compiled independently by the Brazilian journalist Roberta Trindade with the help of police officers. Most of the episodes involved on-duty officers, but in some cases, off-duty officers were shot in assaults when they were identified as police.

In one bloody 16-day stretch in May, Ms. Trindade recorded 14 shootings of police officers, including two who were killed. Altogether, at least 30 on-duty and off-duty police officers have been shot dead this year, she said, including Ms. Castilho, the aspiring psychologist.

The security forces have been trying to reclaim territory in the city from the control of heavily armed drug gangs, and until recently, the deployment of special teams called Pacifying Police Units in dozens of favelas was viewed as a major achievement. But the officers have come under increasing attack in these “pacified” favelas, and the security gains are eroding.

Effectively acknowledging that Rio’s stretched police force cannot guarantee security for the World Cup, state officials have turned to the national government for help, asking for 5,300 troops from the armed forces to help patrol city streets, the way troops did for the United Nations Conference on Sustainable Development in 2012.

Officials contend that Rio is still safer than it used to be, despite the setbacks and the request for troops, and they point out that other Latin American cities like Caracas, Venezuela, or Tegucigalpa, Honduras, and even some Brazilian cities like Salvador, have higher homicide rates. In Rio, the rate was 20.5 per 100,000 residents last year, well below the rate of 37.8 per 100,000 recorded in 2007 before the security push into the favelas. During that time, the number of police officers in the city and the surrounding state rose to 47,710 from 37,950.

“We’re still distant from the earlier levels of criminality,” said Roberto Sá, a senior security official of the state government. “There are areas where an actual war had to be waged just for the police to enter. Now the police can do so without so many personnel because drug traffickers are losing their territorial bases.”

Contending that the new crime wave is an anomaly, Mr. Sá pointed to the state’s measure of armed attacks on the police, which is limited to officers killed on duty: seven so far this year. While that figure was regrettable, he said, the killings often get little notice in the Brazilian news media, while in many other countries, “the people who die become heroes.”

“I know it is undesirable, but we live in this kind of culture in Latin America, one of violence and criminality,” he said. “We have to understand that this is the reality.”

The challenge facing the police here was thrown into sharp relief in February when the commander of Rio’s “pacification” police forces, Col. Frederico Caldas, was caught in a gun battle in Rocinha, one of Rio’s largest slums. He dove to the ground to avoid a spray of bullets, and wound up having to undergo surgery to remove fragments of rock and plastic from one of his eyes.

Homicides rose 17 percent last year in Rio de Janeiro State, the first increase since 2010. The state recorded 4,761 homicides, with 1,323 of them in the city; by contrast, New York City, with a larger population than Rio, recorded 333 homicides in the same period.

A Pacifying Police Unit officer in Rio de Janeiro. At least 110 officers have been shot so far this year, an increase of nearly 40 percent from the same period last year. CreditMario Tama/Getty Images

A surge in street crime is also jolting residents. Street robberies and vehicle thefts increased sharply this year to levels higher than when the favela pacification program began in 2008, according to official figures. There were 20,252 reported muggings of pedestrians in the first quarter this year, up 46.5 percent from a year earlier.

On Rio’s streets, on television and across social media in Brazil, the crime wave is playing out in ways that are at once surreal and horrific.

A crew from the television network Globo recently interviewed a woman near Rio’s old center on the subject of crime, and in the middle of the interview, an assailant tried to rip a necklace from her neck.

In another episode that tested some residents’ faith in the Rio police, a driver recorded video footage on his smartphone showing the body of a woman hanging out of a police vehicle and being dragged along the pavement through traffic.

The police officers in the vehicle claimed they were taking the woman, a 38-year-old favela resident from the northern part of the city, to a hospital after she suffered gunshot wounds. They said they had not noticed that her body was dangling from the rear of their vehicle. However, an investigation concluded that the woman had been shot and killed by two of the officers, though not intentionally.

Military police officers stood during a presentation of troops that are responsible for security ahead of the World Cup in Rio de Janeiro.CreditPilar Olivares/Reuters

“The legitimacy of the police is at a disturbingly low point,” said Luiz Eduardo Soares, a former top security official in Rio. “The pacification process simply shifted crime to other parts of Rio’s metropolitan area. Now we’re seeing the police coming under attack even in the favelas, which they are calling pacified.”

Security experts attribute some of the animosity toward the police to the resilience of drug gangs like Comando Vermelho, which originated in a Rio prison in the 1970s, and the growth of smaller criminal groups like Terceiro Comando Puro, formed after a split from Comando Vermelho in the 1980s.

Police officers say their jobs are made harder by inadequate training and low pay. But at the same time, the persistence of brutal police tactics, involving the abduction and torture of some residents, contributes to the anger against the police in some communities.

In Rocinha, the hillside favela overlooking some of Rio’s most exclusive residential districts, the disappearance last year of Amarildo de Souza, a 42-year-old construction worker, set off street protests. Investigators found that he was given electric shocks and asphyxiated with a plastic bag after police officers detained him in during a sweep of drug-trafficking suspects.

To the further outrage of many here, investigators said Maj. Edson Santos, the police commander in Rocinha at the time, bribed two witnesses in the case to say that drug traffickers were to blame for what happened to Mr. de Souza.

“This honeymoon within a large part of Rio’s population and the media was deeply shaken,” said Julita Lemgruber, a former director of Rio’s penitentiary system, referring to the hopes raised by security gains in recent years. “The case of Amarildo was a turning point.”

Polícia de São Paulo cogita prender manifestantes antes da Copa (OESP)

Jogo entre Brasil e Croácia preocupa a Secretaria de Segurança Pública

29 de maio de 2014 | 17h 00

Brian WInter – Reuters

SÃO PAULO – A polícia de São Paulo está tentando prender manifestantes de uma facção violenta antes do início da Copa do Mundo, em duas semanas, usando escutas telefônicas e outros mecanismos de vigilância para evitar confrontos que prejudiquem o torneio.

Manifestações preocupam governo e Fifa - Sergio Castro/Estadão

Sergio Castro/Estadão. Manifestações preocupam governo e Fifa

O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, disse à Reuters que a polícia está preparando possíveis acusações criminais contra um pequeno número de líderes dos manifestantes, que, segundo ele, estão conspirando para “cometer atos de violência, quebrar, depredar, agredir pessoas”.

O trabalho de inteligência ainda não está finalizado, por isso não está claro se os promotores irão concordar em fazer acusações que resultariam em prisões preventivas, declarou Grella.

A probabilidade de manifestações violentas é uma das maiores preocupações do governo brasileiro e da Fifa à medida que se aproxima o dia 12 de junho, início do Mundial.

Brasileiros revoltados com o gasto de dinheiro público no torneio, entre outras queixas, vêm organizando protestos periódicos há um ano. Embora a maioria dos manifestantes sejam pacíficos, vários protestos resultaram em embates com a polícia e vandalismo, que as autoridades atribuem a um pequeno número de estudantes e outros jovens.

A “intensa operação de inteligência” descrita por Grella é uma das mais abrangentes das forças de segurança do país, mas as agências federais também estão reunindo informações sobre os manifestantes.

Grella afirmou que a polícia usou imagens de câmeras de vigilância e registros internos para identificar os manifestantes mais violentos e, em alguns casos, grampearam seus telefones e monitoraram suas mídias sociais e e-mails.

O objetivo, ele disse, é identificar casos de violência premeditada e organizada que constituiriam “associação criminosa” – acusação semelhante à de conspiração mais comumente utilizada no Brasil contras facções do crime organizado.

Se os promotores concordarem em fazer as acusações, alguns líderes dos manifestantes poderiam ser detidos imediatamente e presos por um período de alguns dias ou mais, afirmou Grella.

“É um policiamento preventivo que garante o direito de manifestação e a liberdade de expressão, ao mesmo tempo em que procura organizar esses movimentos de forma que eles perturbem o menos possível a vida do cidadão e evidentemente evitar os atos de violência”, disse o secretário.

Ele disse que preparar um processo contra os manifestantes é “difícil, mas não impossível”.

“Quero crer com a sua conclusão talvez nas próximas semanas possamos ter eventualmente alguns pedidos de prisão”, acrescentou.

CETICISMO
Duas fontes de alto escalão do Ministério Público, que teria que aprovar as acusações criminais contra os manifestantes, declararam estar céticos quanto à legitimidade das acusações de conspiração.

A professora universitária Esther Solano, que estudou os protestos ao longo do ano passado, disse que, de forma geral, eles não têm uma liderança e uma organização, tornando difícil para a polícia identificar arruaceiros em potencial.

“O que (a polícia) está tentando fazer parece excessivo”, disse ela. “Isso mostra a pressão que a polícia e os políticos estão sofrendo para evitar uma grande bagunça durante a Copa do Mundo”.

O Ministério da Justiça, que supervisiona a polícia em todo o país, não respondeu de imediato a pedidos de comentário.

Indagado se as manifestações podem ser maiores do que aquelas que atraíram centenas de milhares de pessoas às ruas em junho passado, durante a Copa das Confederações, espécie de aquecimento da Copa do Mundo, Grella declarou: “É difícil dizer”.

Ele declarou, entretanto, que o dia 12 de junho, quando a seleção brasileira estreia contra a Croácia na Arena Corinthians, em São Paulo, “é o que mais nos preocupa” em termos de manifestações.

Grella disse não ter recebido indicações de uma ameaça em particular de terroristas internacionais ou facções do crime organizado do Brasil.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Índios e policiais se enfrentam em estádio da Copa em Brasília (AFP)

Por Por Yana MARULL | AFP – 27 mai 2014

27 de maio – Brasília, Brasil – Os manifestantes fizeram um ato em frente à rodoviária e, em seguida, decidiram seguir em direção ao estádio com uma taça alternativa da Copa do Mundo para substituir o troféu original, que está em exibição em Brasília, na área externa da arena.

A polícia dispersou com bombas de gás lacrimogênio um protesto pacífico contra a Copa de indígenas e movimentos sociais, nesta terça-feira, em frente ao estádio Mané Garrincha, que vai ser o palco de vários jogos do Mundial em Brasília, constatou a AFP.

A apenas 16 dias do início da competição, policiais da tropa de choque lançaram gases contra cerca de mil manifestantes, inclusive idosos e crianças, para impedir que se aproximassem do estádio.

Alguns manifestantes responderam atirando pedras contra os cerca de 500 agentes que cercavam o estádio.

Pouco antes, cerca de quinhentos chefes indígenas de cem etnias de todo o Brasil – inclusive o cacique Raoni, de 84 anos, um ícone da defesa da Amazônia – subiram no teto do Congresso para reivindicar políticas para seus povos.

“Subir no Congresso foi um ato de coragem, demonstração de que somos guerreiros e defendemos nossos direitos”, disse à AFP Tamalui Kuikuru, da região do Xingu, no Mato Grosso (centro-oeste).

Os índios, que estavam pintados, usando plumas, arcos e flechas tradicionais, desceram pacificamente do teto do Congresso logo depois, percorreram a Esplanada dos Ministérios e, em seguida, juntaram-se às centenas de manifestantes contrários à Copa e ao movimento dos sem-teto que marchavam na direção do estádio.

Duzentos policiais acompanham o protesto e o mesmo número resguarda o estádio Mané Garrincha, onde está o troféu da Copa, em exibição para o público nas cidades sede antes do torneio.

“A Copa é para quem? Não é para nós!”, clamava um manifestante com um alto-falante. “Não quero a Copa, quero esse dinheiro para a saúde e a educação”, gritava.

O protesto acontece em um contexto de protestos contra a Copa do Mundo e greves em vários setores às vésperas do Mundial, que se estenderá entre 12 de junho e 13 de julho.

Uma greve de motoristas de ônibus paralisou nesta terça Salvador (nordeste), uma das 12 cidades-sede da Copa, e o policiamento foi reforçado para garantir a segurança das unidades em circulação.

– “Espantar o mal” –

Em Brasília, os indígenas iniciaram seu protesto com orações tradicionais, ao ritmo de chocalhos, na Praça dos Três Poderes, cercada pelo Palácio do Planalto – sede da Presidência -, pelo Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal.

Alguns mais velhos usavam fumaça para “espantar o mal”, explicaram à AFP.

“Antes de fazer a Copa do Mundo, o Brasil devia pensar melhor na saúde, na educação, na moradia. Vemos manifestações dos povos: não se gastam tantos milhões para um evento que não traz benefícios”, disse o indígena Neguinho Truká, da etnia Truká de Pernambuco (nordeste), com um cocar tradicional de plumas azuis e vermelhas na cabeça.

Os indígenas multiplicaram seus protestos na capital durante o governo da presidente Dilma Rousseff, a quem acusam de deter a demarcação de suas terras ancestrais e de favorecer os grandes agricultores.

 

– Onda de greves –

O Brasil foi sacudido por uma onda de protestos em junho do ano passado, durante a Copa das Confederações, contra os elevados gastos públicos nos estádios.

Os protestos, que continuaram durante meses, embora com menos intensidade, têm sido mais vinculados nas últimas semanas a movimentos sociais organizados, de sindicatos a partidos radicais de esquerda, ONGs críticas ao Mundial, o Movimento de Camponeses Sem-terra ou os Sem-teto.

Vários setores, de policiais a professores, passando pelos motoristas de ônibus de várias cidades como Rio, São Paulo, Salvador e São Luís do Maranhão, têm aproveitado a proximidade da Copa para pedir aumentos salariais e fazer greves.

Os trabalhadores do metrô de São Paulo, que transporta diariamente 4,5 milhões de pessoas, devem votar nesta terça-feira se entram em greve. “O mais provável é que aprovemos a greve. Só teríamos que definir a data”, declarou à AFP um porta-voz do sindicato.

Os motoristas de ônibus de São Paulo fizeram uma greve de dois dias na semana passada, que afetou mais de um milhão de pessoas e provocou engarrafamentos gigantescos.

Os professores da rede de ensino público do município e do estado do Rio também estão em greve e na segunda-feira, 200 deles bloquearam rapidamente a saída do ônibus que transportava a seleção brasileira até a concentração, em Teresópolis. “Não vai ter Copa; vai ter greve”, diziam alguns cartazes.

Trabalhadores dos setores de transporte e saúde do Rio de Janeiro também estudavam entrar em greve. Os vigilantes bancários do Rio estão paralisados há quase um mês.

A ditadura venceu (Folha de S.Paulo)

Vladimir Safatle

01/04/2014 03h00

Hoje é o dia que marca, afinal, os 50 anos do golpe militar ocorrido em 1º de abril de 1964. Durante as últimas semanas, a sociedade brasileira foi obrigada a ler afirmações de personagens como o senhor Leônidas Pires Gonçalves, primeiro ministro do Exército pós-ditadura, insultando o país ao dizer que: “a revolução (sic) não matou ninguém” e que ela teria sido uma necessidade histórica.

Antes, correntistas do banco Itaú, uma instituição tão organicamente ligada à ditadura que teve um de seus donos, o senhor Olavo Setúbal, nomeado prefeito biônico da cidade de São Paulo, receberam uma singela agenda onde se lia que o dia de hoje seria o aniversário da dita “revolução”. Ninguém, nem nas Forças Armadas nem no setor empresarial que tramou e alimentou o golpe teve a dignidade de pedir à sociedade perdão por um regime que destruiu o país.

É claro que ainda hoje há os que procuram minimizar a ditadura afirmando que ela foi responsável por conquistas econômicas relevantes. Raciocínio semelhante foi, por um tempo, utilizado no Chile.

Tanto em um caso quanto no outro esse raciocínio é falso. A inflação brasileira em 1963 era de 78%. Vinte anos depois, em 1983, era de 239%. O endividamento chegou, ao final da ditadura, a US$ 100 bilhões, legando um país de economia completamente cartelizada, que se transformara na terceira nação mais desigual do mundo e cujas decisões eram tomadas não pelo ministro da economia, mas pelos tecnocratas do Fundo Monetário Internacional chefiados pela senhora Ana Maria Jul. A concentração e a desigualdade se acentuaram, o êxodo rural destruiu nossas cidades, a educação pública foi destroçada, a começar por nossas universidades.

Mas o maior exemplo desse revisionismo histórico encontra-se na crença, de 68% da população brasileira, de que aquele era um período de menos corrupção. Alguém deveria enviar para cada uma dessas pessoas os dossiês de casos como: Coroa-Brastel, Capemi, Projeto Jari, Lutfalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.

Tudo isso apenas demonstra o fracasso que foi, até agora, o dever de memória sobre a ditadura.

Mas o que poderíamos esperar de governos, como o de Fernando Henrique Cardoso, cujos fiadores eram Antônio Carlos Magalhães e Jorge Bornhausen, e de Luiz Inácio Lula da Silva/Dilma Rousseff, que tem em José Sarney um de seus pilares e em Antonio Delfim Netto um de seus principais conselheiros?

Como esperar uma verdadeira política contra a ditadura de governos que dependem de figuras vindas diretamente da ditadura?

Foi assim, de maneira silenciosa, que a ditadura venceu.

Manifestações neozapatistas (Fapesp)

Estudo examina as formas de interação entre os net-ativistas, as redes digitais e a territorialidade

JULIANA SAYURI | Edição 217 – Março de 2014

A máscara Anonymus  foi um dos símbolos  das manifestações do exterior usados pelos  que não queriam  mostrar o rosto

A máscara Anonymus foi um dos símbolos das manifestações do exterior usados pelos que não queriam mostrar o rosto

Muitos textos foram escritos sobre as passeatas de junho de 2013 no Brasil, especialmente em relação ao teor político, à legitimidade e à importância histórica dessas manifestações. Enquanto alguns intelectuais foram surpreendidos por sua dimensão, outros viram nas ruas uma expressão altamente simbólica das articulações do “net-ativismo”. Esta é, a propósito, a expressão-chave de um estudo sob o tema apoiado pela FAPESP,Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais, liderado pelo sociólogo italiano Massimo Di Felice, coordenador do Centro de Pesquisa Atopos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

O trabalho, impulsionado pelo caráter internacional do net-ativismo, teve a colaboração de três sociólogos europeus: Michel Maffesoli, fundador e diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano da Universidade Sorbonne, em Paris; José Bragança de Miranda, do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, e Alberto Abruzzese, do Núcleo Italiano de Midialogia da Universidade Livre de Língua e Comunicação, em Milão. Os três, aliás, e mais Pierre Levy, participaram de 6 a 8 de novembro passado do congresso internacional sobre “Net-ativismo, redes digitais e novas práticas de democracia”, na ECA-USP, cujos textos principais deverão estar reunidos em livro no final deste semestre.

Enquanto debatiam a montagem de  um observatório internacional sobre o net-ativismo, Di Felice e colegas encontraram numerosas analogias, especialmente de forma, entre os novos modelos de participação nas redes digitais, entre 2011 e 2013. “Embora  fossem surpreendentemente parecidas as  reivindicações”, observa ele, os pesquisadores optaram por analisar as características das formas de interação entre os ativistas, as redes digitais e a territorialidade. Ou seja, em vez das motivações e dos argumentos políticos, “o que norteou a pesquisa foi a descrição das interacões nessas manifestacões e a amplitude de sua localização”, acrescenta.

Protesto no Congresso Nacional  em junho de 2013 contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte, na saúde e educação

Protesto no Congresso Nacional em junho de 2013 contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte, na saúde e educação

Antes, portanto, da efervescência política e cultural estimulada por diversas mobilizações nas redes e nas ruas, dentro e fora do eixo Rio-São Paulo, o sociólogo já tinha dado seus primeiros passos na investigação do potencial do ativismo articulado nas redes. “O início do estudo foi inspirado por meus percursos, que me levaram a investigar na década passada as formas de conflito na América Latina”, conta Di Felice. A princípio, o pesquisador se dedicou ao movimento zapatista, no México de 1994, que inaugurou o primeiro modelo de protesto global com cartas espalhadas na internet. “Em qualquer canto do mundo, todos os movimentos atuais encontram o zapa-tismo como movimento inspirador. Foi um marco. O rosto coberto dos black blocs e dos Anonymous vem dos zapatistas, assim como a recusa da luta pelo poder, a aversão às tradicionais bandeiras ideológicas e aos partidos políticos de qualquer tendência e a possibilidade de criar uma comunicação própria, como alternativa às mídias oficiais. Esses elementos já se encontravam todos no zapatismo”, diz.

A pesquisa de Di Felice identificou três momentos distintos para o ativismo digi-tal. Primeiro, na década de 1990, o desen-volvimento de movimentos internacionais temáticos, com a difusão de ativismos em redes centralizadas, e de movimentos teóricos da estética na Austrália e na Índia, que pretendiam criar estratégias de ações com os chamados tactical media. Sua atuação se dava nas artes e na política com a busca de  táticas inovadoras de intervenções, com rápida ramificação internacional. Um exemplo é o surgimento dos protestos digitais do movimento Cyberpunk.

No segundo momento, ainda na década de 1990 e começo dos anos 2000, Di Felice assistiu aos desdobramentos da fase indígena e cibernética que encontrou expressão na luta zapatista e inspirou o Fórum Social Mundial. Assim vieram as primeiras práticas de protesto midiático internacional, em cidades como Seattle (em 1999), Praga (em 2000) e Davos (em 2001), marcando a experimentação das primeiras formas de conflitualidade, levando, com a internet, a ação social para dimensões planetárias.

Protestos em Seattle, em novembro de 1999

Protestos em Seattle, em novembro de 1999

Por fim, o terceiro momento ocorreu a partir de 2000 e alcança o presente. Nele, o pesquisador destaca um novo ativismo, que, em muitos casos, provocou processos radicais de transformação – como no caso da Primavera Árabe, com a derrocada de regimes no Egito de Hosni Mubarak, na Líbia de Muamar Kadafi e na Tunísia de Zine el-Abdine Ben Ali – e o surgimento de novas movimentos, como o 5 Estrelas-M5S, na Itália (2009), o #YoSoy132, no México (2012), os indignados do M15, na Espanha (2011), e o M12M de Portugal (2011). Sem esquecer o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e as jornadas de junho, no Brasil (2013).

Mas o que mudou para propiciar o boom de movimentos tão amplos e diversos? Para Di Felice, a chave está na passagem da web 1.0 para a web 2.0. Antes, a internet era uma rede de computadores conectados por modems e linhas telefônicas, permitindo apenas a troca de textos e de imagens. Eram os tempos das primeiras noções de cibercultura. Na década de 1990, o ciberativismo era considerado uma modalidade de ação política direta de base, marcada pela difusão de informações na rede a fim de boicotar o consumo e realizar ocupações e protestos relacionados aos direitos humanos, civis e ecológicos.

Agora, com o avanço tecnológico e o advento das redes sociais digitais, a internet se tornou uma plataforma plural e conflitiva, com mobilidade e agilidade, facilitando o intercâmbio e o compartilhamento não só de textos e de imagens, mas de outros formatos multimídia. É possível dialogar, criar redes temáticas, trocar conteúdos e buscar soluções de forma colaborativa em tempo real. De acordo com Di Felice, o net-ativismo corresponde a uma forma intensiva de interação na rede, entre indivíduos, territórios e tecnologias digitais. Ao contrário de outros tempos, marcados pela oposição à globalização, esse novo ativismo sinaliza uma identidade cidadã global, possível e presente nas redes digitais, com pautas reivindicatórias direcionadas à democracia, à equidade e à sustentabilidade. “A internet é uma construção coletiva. É uma rede inteligente”, define Di Felice, em entrevista realizada por Skype, conectando Roma-São Paulo.

Na mesma linha, Henrique Antoun, autor de A internet e a rua (Sulina, 2013) e coordenador do Cibercult, laboratório da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa: “As redes digitais permitem que as populações experimentem as relações socioglobais e locais de modo lúdico e possam propor novas formas de trabalho, projetos autônomos e novos modos de coletividade e governança. Com o ciberativismo, a massa estúpida se fez uma multidão inteligente, fazendo o pensamento guiar as ações coletivas e submetendo a centralidade da estratégia ao descentramento das táticas”.

Movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2011

Movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2011

Nesse contexto, o estudo liderado por Di Felice, além de construir uma tipologia da ação net-ativista que caracteriza a qualidade da ação em frontal, imersiva, dialógica e reticular, indicou três características para a definição de net-ativismo. A primeira se refere à singular ecologia das ações que acontecem ao mesmo tempo nas ruas e nas redes digitais. “É uma nova ecologia, muito complexa, agregando dispositivos de conectividade, cidades, corpos e informacões digitais (Big data), por meio de diferentes tipos de atores e de interações. Não há mais distinção entre o mundo ‘real’ e o mundo ‘virtual’”, diz o pesquisador. “Isso inaugura uma nova forma de cidadania que supera a esfera pública, antes possibilitada pela mídia da opinião ‘publicada’, ou seja, pela opinião difundida na esfera pública midiática. Agora todo cidadão pode produzir e compartilhar informações.” Basta pensar nas últimas manifestações embaladas pela hashtag #vemprarua. O manifestante está presente fisicamente na rua e, ao mesmo tempo, pode registrar e postar fotos no Facebook comentando o protesto em tempo real e expandindo assim a localidade de sua atuação. Pode gravar e postar vídeos no YouTube, mostrando realidades diferentes das propagadas pela mídia tradicional. E pode também postar no Twitter, narrando impressões pessoais sobre o que acontece na rua e na rede.

Se não há mais contraposição aparente entre o universo “real” e o “virtual”, o que dizer da diferença entre a esfera pública e o espaço privado? “Atualmente não habitamos só o território, mas também redes inteligentes”, explica. “Esse processo que começou com a eletricidade amplia-se quantitativamente com as redes digitais e os dispositivos de conexão móveis. A conexão ubíqua aos fluxos informativos mediante dispositivos me permitem alterar a minha situação social e a minha experiência da localidade. Onde estamos e onde agimos é hoje cada vez mais o resultado de relações em redes ecológicas complexas”, comenta Di Felice.

A segunda característica do net-ativismo seria a valorização do anonimato (influenciada pelo movimento zapatista) e a recusa de uma identidade política ideológica, sintetizada num líder (recusa reverberada nos protestos no Brasil, por exemplo). Não há um centro difusor de ordens e ideias, mas uma relação horizontal entre os net-ativistas. A terceira característica seria a recusa da institucionalização, expressa na aversão a partidos políticos de quaisquer orientações, o que diferencia essencialmente os movimentos sociais nas redes digitais e os movimentos sociais modernos. “O ativismo digital possibilita a superação da velha ideia de militante, dos ativos nos grêmios universitários e nos partidos políticos. Isso se superou, pois todos nós podemos atuar nas redes digitais. Na rede estão presentes as atividades culturais, os estudos, as relações sociais. Assim, temos uma nova forma de democracia, em que o cidadão é chamado a ser cidadão  ativo todos os dias – e não só na participação com um voto a cada quatro anos”, diz Di Felice.

Mas o net-ativismo está estritamente ligado ao #vemprarua? Isto é, para se realizar, é preciso estar de corpo e alma presente nas manifestações? Talvez não. “O net-ativismo não pode ser pensado apenas na dimensão do protesto ou do conflito. Há redes de cidadãos pensando soluções para diversos impasses de nosso tempo”, observa Di Felice. “A passeata é apenas a expressão visível das redes. Na verdade, o aspecto mais importante do ativismo em rede é o acesso às informações e os debates para a solução direta dos problemas através da criação de redes de inovação.” Na visão do pesquisador, “aí temos um importante papel das universidades. Elas têm a obrigação de estar nas redes e participar desse processo histórico que marca a passagem da sociedade do espetáculo para a sociedade das redes”, conclui.

Projeto
Net-ativismo: ações colaborativas e novas formas de participação em redes digitais (nº 2010/50999-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadorresponsável Massimo Di Felice; Investimento R$ 30.267,23 (FAPESP).

Artigo científico
DI FELICE, M. Ser redes: o formismo digital dos movimentos net-ativistasRevista Matrizes – USP. v. 7, n. 2, p. 49-71. 2013.

São Paulo terá Justiça rápida para detidos em grandes manifestações (Folha de São Paulo)

REYNALDO TUROLLO JR.

DE SÃO PAULO

21/03/2014 03h30

A Justiça de São Paulo ganhará, a partir de hoje, um órgão específico para analisar com rapidez casos de prisão em flagrante em grandes protestos. A medida é uma resposta às manifestações que, desde junho de 2013, têm terminado com dezenas de detidos após depredações.

O novo órgão também vai agilizar a transformação dos inquéritos policiais em processos criminais. Uma consequência esperada pelas autoridades é que a punição de alguns manifestantes sirva de exemplo a outros.

Eventuais prisões em flagrante que ocorram amanhã, quando estão previstas duas manifestações na capital paulista, já serão encaminhadas ao órgão. A expectativa das autoridades é que ele seja útil também durante a Copa.

O Tribunal de Justiça de São Paulo é o primeiro do país a implantar o Ceprajud (Centro de Pronto Atendimento Judiciário), conforme orientação do Conselho Nacional de Justiça e do Ministério da Justiça.

“Na hipótese de um evento monstruoso, que acarrete 300 prisões em flagrante, o centro vai ter uma estrutura para comportar esse aumento repentino”, afirma o juiz Kleber de Aquino, assessor da presidência do TJ para assuntos de segurança pública.

Hoje, o manifestante detido é levado ao distrito policial, onde o delegado decide se irá liberá-lo ou prendê-lo em flagrante, de acordo com a gravidade do delito.

Quando alguém fica preso, uma cópia do auto de flagrante deve seguir em 24 horas para o Dipo (departamento que centraliza flagrantes), no fórum da Barra Funda.

Um juiz do Dipo decide se a prisão será mantida –decretando a preventiva– ou se o manifestante será liberado, mediante aplicação de medidas restritivas, como proibição de ir a certos lugares.

No caso de centenas de flagrantes de uma vez, o Dipo pode acabar atrasando a análise das prisões em dois ou três dias, explica Aquino. Por isso, essa análise passará a ser feita por juízes de plantão 24 horas no Ceprajud.

O centro poderá ainda convocar juízes e funcionários extras para atender à demanda.

“Essas decisões [sobre manter preso ou soltar] é que devem ser tomadas em caráter de urgência”, diz o juiz.

“A finalidade é a apreciação célere de procedimentos criminais de urgência e de eventuais excessos da repressão policial no curso de grandes manifestações.”

Martim de Almeida Sampaio, da comissão de direitos humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), critica a criação de uma “força-tarefa” do Judiciário para esses flagrantes e diz considerá-la parte de um conjunto de medidas para coibir protestos.

“Manifestantes que cometerem abuso devem ser punidos, mas essa via rápida voltada exclusivamente a eles é um pouco exagerada”, diz.

“A demanda da sociedade é por uma Justiça ágil, mas não voltada exclusivamente a processos contra movimento social”, afirma o advogado.

Facebook: um mapa das redes de ódio (Carta Capital)

Pesquisa vasculha território obscuro da internet: as comunidades que clamam por violência policial, linchamentos, mortes dos “esquerdistas” e novo golpe militar

por Patrícia Cornils — publicado 11/03/2014 15:13

ódio.jpg

Imagem: Vitor Teixeira

Por Patrícia Cornils entrevistando Fabio Malini

No dia 5 de março o Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo, publicou um mapa de redes de admiradores das Polícias Militares no Facebook. São páginas dedicadas a defender o uso de violência contra o que chamam de “bandidos”, “vagabundos”, “assaltantes”, fazer apologia a linchamentos e ao assassinato, defender policiais, publicar fotos de pessoas “justiçadas” ou mortas violentamente, vender equipamentos bélicos e combater os direitos humanos.

Para centenas de milhares de seguidores dessas páginas, a violência é a única mediadora das relações sociais, a paz só existe se a sociedade se armar e fizer justiça com as próprias mãos, a obediência seria o valor supremo da democracia. Dentro dessa lógica, a relação com os movimentos populares só poderia ser feita através da força policial. Qualquer ato que escape à ordem ou qualquer luta por direitos é lido como um desacato à sociedade disciplinada. Um exemplo: no sábado, dia 8 de março, a página “Faca na Caveira” publicou um texto sobre o Dia Internacional das Mulheres no qual manda as feministas “se foderem”. Em uma hora, recebeu 300 likes. Até a tarde de domingo, 1473 pessoas haviam curtido o texto.

Abaixo o professor Fábio Malini explica como fez a pesquisa e analisa o discurso compartilhado por esses internautas. “O que estamos vendo é só a cultura do medo midiático passando a ter os seus próprios veículos”, diz ele. Explore as redes neste link.

Como você chegou a esse desenho das redes? O que ele representa?

É um procedimento simples em termos de pesquisa. O pesquisador cria uma fanpage no Facebook e passa a dar “like” num conjunto de fanpages ligada à propagação da violência. Em seguida, usamos uma ferramenta que identifica quais os sites que essas fanpages curtem. E, entre elas, quais estão conectadas entre si. Se há conexão entre uma página com outra, haverá uma linha. Se “Faca na Caveira” curte “Fardado e Armados˜há um laço, uma linha que as interliga. Quando fazemos isso para todas as fanpages, conseguimos identificar quais são as fanpages da violência (bolinhas, nós) mais conectadas e populares. Isso gera um grafo, que é uma representação gráfica de uma rede interativa. Quanto maior é o nó, mais seguida é a página para aquela turma. No grafo, “Polícia Unida Jamais será vencida” é a página mais seguida pela rede. Não significa que ela tem mais fãs. Significa que ela é mais relevante para essa rede da violência. Mas a ferramenta de análise me permite ver mais: quem são as páginas mais populares no Facebook, o que elas publicam, o universo vocabular dos comentários, a tipologia de imagens que circula etc.

O que você queria ver quando pesquisou esse tema? E o que achou de mais interessante?

Pesquisei durante apenas uma semana para testar o método de extração de dados. Descobri que o Labic, laboratório que coordeno, pode ajudar na construção da cultura de paz nesse país, desvelando os ditos dessas redes, que estão aí, lotadas de fãs e públicas no Facebook. Assustei-me em saber a ecologia midiática da repressão no Facebook, em função da agenda que esses sites estabelecem.

Primeiro há um horror ao pensamento de esquerda no país. Isso aparece com inúmeros textos e imagens que satirizam qualquer política de direitos humanos ou ligadas aos movimentos sociais. Essas páginas funcionam como revides à popularização de temas como a desmilitarização da Polícia Militar ou textos de valorização dos direitos humanos. Atualmente, muitas dessas páginas se articulam em função da “Marcha pela Intervenção Militar”. Um de seus maiores ídolos é o deputado Jair Bolsonaro.

Após os protestos no Brasil, a estrutura de atenção dos veículos de comunicação de massa se pulverizou, muito tráfego da televisão está escoando para a internet, o que faz a internet brasileira se tornar ainda mais “multicanal”, com a valorização de experiências como Mídia Ninja, Rio na Rua, A Nova Democracia, Outras Palavras, Revista Fórum, Anonymous, Black Blocs. São páginas muito populares. Mas não estão sozinhas. Há uma guerra em rede. E o pensamento do “bandido bom, bandido morto” hoje se conformou em votos. Esse pensamento foi capaz de construir redes sociais em torno dele.

A despolitização, a corrupção, os abusos de poder, a impunidade, estão na raiz da força alcançada por essas redes da violência e da justiça com as próprias mãos. E não tenho dúvida: essas redes, fortes, vão conseguir ampliar seu lastro eleitoral. Vão ajudar na eleição de vários políticos “linha dura”. Em parte, o crescimento dessas redes se explica também em função de forças da esquerda que passaram a criminalizar os movimentos de rua e ficaram omissas a um conjunto de violações de direitos humanos. O silêncio, nas redes, é resignação. O que estamos vendo é só a cultura do medo midiática passando a ter os seus próprios veículos de comunicação na rede.

Você escreveu que “é bom conhecer e começar a minerar todos os conteúdos que são publicadas nelas.” Por que?

Porque é preciso compreender a política dessas redes e seus temas prioritários. Instituir um debate por lá e não apenas ficar no nosso mundo. É preciso dialogar afirmando que uma sociedade justa é a que produz a paz, e não uma sociedade que só obedece ordens. Estamos numa fase de mídia em que se calar para não dar mais “ibope” é uma estratégia que não funciona. É a fala franca, o dito corajoso, que é capaz de alterar (ou pelo menos chacoalhar) o discurso repressor.

É interessante, ao coletarmos e minerarmos os dados, notar que muitas dessas páginas articulam um discurso de Ode à Repressão com um outro pensamento: o religioso, cujo Deus perdoa os justiceiros. Isso se explica porque ambos são pensamentos em que o dogma, a obediência, constituem valores amplamente difundidos. Para essas redes, a defesa moral de uma paz, de um cuidado de si, viria da capacidade de os indivíduos manterem o estado das coisas sem qualquer questionamento, qualquer desobediência.

No lugar da Política enfrentar essas redes, para torná-las minoritárias e rechaçadas, o que vemos? Governantes que passam a construir seus discursos e práticas em função dessa cultura militarizada, dando vazão a projetos que associam movimentos sociais a terrorismo. Daí há uma inversão de valores: a obediência torna-se o valor supremo de uma democracia. E a política acaba constituindo-se naquilo que vemos nas ruas: o único agente do Estado em relação com os movimentos é a polícia.

O grafo mostra as relações entre os diversos nós dessa rede. Mas e se a gente quiser saber o que essas redes conversam? As PMs estão no centro de vários debates importantes hoje: o tema da desmilitarização. A repressão às manifestações. O assassinato de jovens pobres, pretos, periféricos. Esses nós conversam sobre essas coisas? Em que termos?

Sim, esses nós se republicam. Tal como páginas ativistas se republicam, tais como páginas de esporte se republicam. Todo ente na internet está constituindo numa rede para formar uma perspectiva comum. As ferramentas para coletar essas informaçoes públicas estão muito simplificadas e na mão de todos. Na tenho dúvida que as abordagens científicas das Humanidades serão cada vez mais centrais, pois a partir de agora o campo das Humanidades lidará com milhões de dados. É uma nova natureza que estamos vendo emergir com a circulação de tantos textos, imagens, comportamentos etc.

Você escreveu que “os posts das páginas, em geral, demonstram o processo de construção da identidade policial embasada no conceito de segurança, em que a paz se alcança não mediante a justiça, mas mediante a ordem, a louvação de armamentos e a morte do outro.” Pode dar exemplos de como isso aparece? E por que isso é grave? Afinal, na visão dos defensores e admiradores da polícia, as posições que defendem dariam mais “paz” à sociedade.

Sábado, 8 de março, foi o Dia Internacional da Mulher. Uma das páginas, a Faca na Caveira, deu parabéns às mulheres guerreiras. Mas mandaram as feministas se foderem. O post teve 300 likes em menos de meia hora e na tarde de domingo tinha 1473 likes. A paz só será alcançada com ordem e obediência, dizem. No fundo, essas redes revelam-se como repressoras de qualquer subjetividade inventiva. Por isso, são homofóbicas e profundamente etnocêntricas de classes. É uma espécie de decalque do que pensa a classe média conectada no Brasil, que postula que boné de “aba reta” em shopping é coisa da bandidagem.

Em Vitória, onde resido, em dezembro de 2013, centenas de jovens que curtiam uma roda de funk nas proximidade de um shopping tiveram que entrar nesse recinto para fugir da repressão da polícia, que criminaliza essa cultura musical. Imediatamente foi um “corre-corre” no centro comercial. Os jovens foram todos colocados sentados, sem camisa, no centro da Praça de Alimentação. Em seguida, foram expulsos em fila indiana pela polícia, sob os aplausos da população. Depois, ao se investigar o fato, nenhum deles tinha qualquer indício de estar cometendo crime. Essa cultura do aplauso está na rede e é forte. É um ódio à invenção, à diferença, à multiplicidade. É por isso que a morte é o elemento subjetivo que comove essa rede. Mostrar possíveis criminosos mortos, no chão, com face, tórax ou qualquer outro parte do corpo destruída pelos tiros, é um modo de reforçar a negação da vida.

Essas redes conversam com outras redes não dedicadas especificamente à questão das PMs? Vi, por exemplo, que tem um “Dilma Rousseff Não”, um “Caos na Saúde Pública” e um “Movimento Contra Corrupção”. Que ligações as pessoas ali estabelecem entre esses temas?

Sim, são páginas que se colocam no campo da direita mais reacionária do país. Mas isso também é um índice da transmutação do conservadorismo no Brasil. Infelizmente, o controle da corrupção se tornou um fracasso. Essa condição fracassada alimenta a despolitização. E a despolitização é o combustível para essas páginas. Mas a despolitização não é apenas um processo produzidos pelos “repressores”, mas por sucessivos governos mergulhados em escândalos e que são tecidos por relações políticas absolutamente cínicas em nome de alguma governabilidade.

Rio police demonstrate (Rio Real)

Posted on February 26, 2014by 

On both sides of the field: preparedness is tantamount

Police in protesters' shoes

Police in protesters’ shoes

Commander Vidal Araújo

Commander Vidal Araújo, in fatigues

Rio’s Batalhão de Choque, the crowd control division of the state military police, today showed members of the foreign press an example of their daily training exercises, as Rio approaches the June-July World Cup.

Tool box

Tool box

Working in conjunction with police motorcyclists and helicopter imaging personnel, the “Shock Battalion” went through a hierarchy of responses, from negotiation via megaphone with leaders (which solves 90% of all such situations, according to commander André Luiz Araújo Vidal), to arrests (until recently, carried out by another division), to tear gas (colored smoke, not the real stuff). Rubber bullets weren’t used, though they have been in real street violence; after causing serious injuries, the bullets were shelved  last October. A water cannon is expected to be available by the time the ball starts getting kicked around.

Police on high

Police on high

In the act

In the act

Click here to watch a video of the helicopter imaging work, plus the “demonstration” at ground level.

Araújo Vidal said the Rio police have been adapting techniques and strategies shared by French and Spanish police.

Police coming off duty hammed up the part of demonstrators, even to the point of chanting the traditional Acordou, o gigante acordou, “The giant has awakened”. They threw empty water bottles at Battalion comrades in formation, then lit a tire and some trash in flames. The challenge of the uniformed police was to arrest those committing crimes, such as acts of vandalism, and disperse the protesters. Araújo Vidal emphasized that demonstrating is a right that Brazilians hold under the democratic regime.

Yellow for tear gas

Yellow for tear gas

More tools

Scary

Brazil’s Congress is currently working on a legislative response to the street violence of recent days, particularly the death of a Brazilian cameraman, hit by a firecracker that protesters allegedly threw.

Two hundred Shock Battalion troops will initially be at the ready during each upcoming demonstration, Araújo Vidal said, out of a total corps of 1,000. Martial arts techniques are used in making arrests, although the Rio police don’t call themselves ninjas, as do the São Paulo cops. During a Não vai ter Copa (There’ll be no World Cup) protest last weekend there, police arrested more than 200 people, including several journalists.

SONY DSC

At the ready

Neat formation

Kingpins

“We are concerned with journalists, we want them to use protective gear, and we ask them to stay behind our formation, both so they can see what’s being thrown at us and also for their own protection,” said Araújo Vidal.

Asked what impact last year’s Confederation Cup had on the Battalion’s plans, the commander said it was a laboratory for the World Cup and the 2016 Olympic Games. “We are learning every day,” he added.

SONY DSC

An update might be in order

SONY DSC

While the Rio police have upgraded their training and equipment, the Battalion headquarters, a century-old building, suffers from neglect. Plants grow out of cracks and the antique décor still glorifies militarism, something State Public Safety Secretary José Mariano Beltrame has been trying to downplay among military police since the 2008 rollout of Rio’s program to pacify at least 40 favelas before the Cup starts.

But then, this is the Batalhão de Choque.

SONY DSC

Meanwhile, the mood in Rio is unusually sour, with heat, prices and transportation knots top-of-mind for many cariocas. Those who are able to will leave the city over Carnival, which begins this Friday. Those who stay will seek the pleasures of the Momo King — or air conditioning.

Brazil will use robots to police the 2014 World Cup (Daily Caller)

Tech

Thomas Ryder, iRobot

12:16 PM 02/21/2014

Giuseppe Macri

Brazil is adopting the security of the future after securing a deal with a robot manufacturer to deploy robots programmed to police the 2014 FIFA World Cup games.

The Brazilian government has agreed to pay $7.2 million to Massachusetts-based iRobot for 30 of its PackBot robots, according to a Robohub report. The robots will be programmed to analyze suspicious-looking objects in 12 cities hosting World Cup match-ups across Brazil beginning in June.

PackBots can travel at speeds up to 9 mph and have an extremely versatile mobility system, able to traverse rough terrain and even stairs. iRobot’s models include a host of sensors including GPS, video, thermal detection, electronic compass and system diagnostics. The robots weigh about 40 pounds and can be folded to fit into a backpack, making them ideal for quick deployment.

The model is exceptionally durable, able to survive a hard fall onto concrete from two meters, and has a full 360-degree range of rotation.

The same robots were recently used to assess the Japanese Fukushima Nuclear power plant meltdown resulting from the 2011 Japanese earthquake and tsunami. More than 800 have been used in Iraq and Afghanistan war zones, among other countries, since 2007.

Read more: http://dailycaller.com/2014/02/21/brazil-will-use-robots-to-police-the-2014-world-cup/#ixzz2uB5QbjbD

Governo regulamenta uso das Forças Armadas contra manifestações sociais (Vox Política)

Portaria está em vigor desde 20 de dezembro de 2013. Celso Amorim, ministro da Defesa, aprovou o documento.

 | quinta-feira, 23 janeiro 2014 – 2:30

anexo

O ministro da Defesa, Celso Amorim, aprovou no fim do ano passado uma Portaria que regulamenta o uso das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) em manifestações sociais, protestos e outras ocasiões que possam comprometer “a ordem pública”.

A regra, presente no Manual “Garantia da Lei e da Ordem”, validado junto com a Portaria, está em vigor desde 20 de dezembro, data de sua publicação no Diário Oficial da União. Logo no segundo capítulo, o documento ressalta que, apesar do apreço ao conceito de não-guerra, as operações poderão ter “o uso de força de forma limitada”.

Esse emprego das Forças Armadas nessas operações seria autorizado “em situações de esgotamento dos instrumentos a isso previstos”, ou seja, “quando, em determinado momento, forem eles formalmente reconhecidos pelo respectivo Chefe do Poder Executivo Federal ou Estadual como indisponíveis, inexistentes ou insuficientes ao desempenho regular da missão constitucional”.

Entre as principais ameaças elencadas pelo Ministério da Defesa, duas se destacam por fazer referência à Copa do Mundo e às manifestações de 2013: o combate ao bloqueio de vias públicas de circulação e a ofensiva contra a sabotagem nos locais de grandes eventos. Para tanto, os soldados têm autorização de controlar até o fluxo dos cidadãos.

O anexo do “Controle de Distúrbios em Ambiente Urbano” é o que cita de maneira mais contundente a oposição a grupos populares de protesto.

Em “Cenário”, conforme imagem destacada no início da reportagem, o alerta estatal vislumbra a “atuação de elementos integrantes de movimentos sociais reivindicatórios, de oposição ou protesto, comprometendo a ordem pública”, reservando aos governos estaduais e federal o direito de traçar limites. No apêndice de operações psicológicas, os movimentos sociais recebem classificação ainda pior: forças oponentes.

Protestos contra Copa do Mundo terminam com atos de violência (OESP)

Manifestantes ateiam fogo em carro durante protesto contra a realização da Copa do Mundo no Brasil, na região central de São Paulo, neste sábado.

São Paulo, 25 jan (EFE).- Os protestos que aconteceram neste sábado em diferentes pontos do Brasil contra a organização da Copa do Mundo transcorreram em sua maioria com normalidade, embora em cidades como São Paulo tenham sido registrados vários atos de violência e destruição de patrimônio público.

No final da manifestação da capital paulista, que durante as primeiras horas aconteceu de maneira pacífica, um grupo de manifestantes quebrou vidros de várias agências bancárias e de uma concessionária, além de terem atacado um veículo da Polícia.

Na mesma avenida, um automóvel foi incendiado após ser atingido por um objeto inflamável, embora alguns dos manifestantes tenham tentado apagar as chamas.

Além dos estabelecimentos que iam fechando à passagem do protesto, um hotel no qual vários manifestantes tinham se refugiado por volta das 20h foi fechado pelas tropas de choque da Polícia Militar, que em várias ocasiões tentou dispersar os presentes com tiros para o ar e bombas de efeito moral.

Por enquanto, não há informação de feridos nem detidos.

Os protestos se repetiram em mais de uma dezena de cidades, como Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte, embora em todas elas a presença de manifestantes tenha sido muito menor do que a esperada.

Na sexta-feira, mais de 40 mil pessoas confirmaram sua presença nas manifestações através das redes sociais, previstas a princípio em mais de 30 cidades, enquanto em São Paulo, onde aconteceu a mais movimentada, se concentraram ao redor de 2.500 pessoas, segundo a PM.

Em Goiânia, 200 pessoas protestaram esta manhã pelo mesmo motivo. O encontro aconteceu com tranquilidade, embora no último momento alguns encapuzados tenham queimado vários pneus.

A manifestação foi promovida por várias organizações sociais com o objetivo de criticar a despesa elevada do Governo na realização da competição, em detrimento de outros serviços como educação e saúde.

O manifesto da convocação denuncia, entre outros fatos, a despesa extra prevista da organização do Mundial e atribui o aumento do orçamento à corrupção nas instituições responsáveis pela construção dos novos estádios que estão sendo construídos para o evento esportivo.

“É um absurdo que o Brasil organize uma Copa do Mundo porque há problemas na saúde, na educação e na habitação que estão em condições péssimas”, afirmou à Agência Efe Daivis Souza, que participava do protesto de São Paulo. EFE

*   *   *

Protesto no Brasil contra a Copa deixa saldo de 143 detidos (OESP)

25.jan.2014

São Paulo, 26 jan (EFE).- Pelo menos 143 pessoas foram detidas neste sábado acusadas de participar de distúrbios ocorridos nas manifestações que aconteceram em diferentes cidades em protesto contra a organização da Copa do Mundo.

Em São Paulo, 128 pessoas foram detidas, por enquanto, após as manifestações registradas na capital paulista, e que terminaram com confrontos entre a Polícia e os manifestantes, informou a Polícia Militar (PM) através de sua conta no Twitter.

Em Fortaleza, 15 pessoas foram aprisionadas pelos protestos registrados em frente do estádio Arena das Dunas, inaugurado na quarta-feira passada pela presidente Dilma Rousseff.

Um grupo de manifestantes tentou invadir o estádio, danificou uma arquibancada de acesso ao local e ateou fogo em uma loja utilizada pelos trabalhadores da recém inaugurada obra, informou a “Folha de São Paulo”.

De acordo com as autoridades, 15 pessoas foram detidas por tal ação.

As manifestações começaram de forma pacífica na maior parte das cidades, embora tenham terminado com alguns focos de violência em algumas delas. EFE