A corrente de humanização que se tece em tempos da pandemia da Covid -19 (Blog Cidadãos do Mundo)

25/05/2020 14:32

Por Sucena Shkrada Resk*

Campanhas pelo país impulsionam o exercício de empatia e desprendimento

Uma das características singulares que emerge em tempos de crise é a humanização, que vem carregada daquela palavra ‘aconchegante’ chamada empatia. Problemas da sociedade moderna já existentes se multiplicaram exponencialmente, em tempos de quarentena devido à pandemia da Covid-19, e potencializam hoje o que cada cidadão-solo ou em esforços coletivos pode contribuir aos mais vulneráveis. Assim, as campanhas se ampliam em diferentes regiões do Brasil, com doações de tempo em trabalho, de alimentos, produtos de limpeza, medicamentos para famílias e comunidades mais necessitadas. Como também, doações em itens ou dinheiro para asilos, hospitais públicos e instituições de pesquisa e a causas de PET abandonados.

Este é o mosaico formado por uma rede-cidadã que se forja dia a dia na resiliência às adversidades aqui e em outros lugares no mundo. Caso você se sinta sensibilizado por iniciativas realizadas por organizações idôneas, não se acanhe, parta para as ações dentro de suas possibilidades! É a filosofia do ganha-ganha!

Caso não tenha ideia do ponto de partida, faça um levantamento de entidades em seu bairro ou município, que mantêm trabalhos permanentes assistenciais credenciados ou sobre causas que tenha mais afinidade em suas congregações religiosas ou não. Verifique suas necessidades. Ou quem sabe, se bem mais perto de você, o seu próprio vizinho não está precisando de ajuda? Uma palavra amiga, uma divisão de mantimento, que não faz falta em sua casa, ou se oferecer a fazer uma compra de alimentos, fazem parte deste exercício.

Aqui, em São Caetano do Sul, SP, pesquisei algumas campanhas locais e doei pequenas quantias ao Abrigo Irmã Tereza e ao Lar Bom Repouso. Também a catadores de materiais recicláveis de São Paulo, a indígenas de São Paulo (pelo Instituto Akhanda) e à Campanha Existe Amor, de Milton Nascimento e Criolo e aos franciscanos.  E continuo, neste propósito, também no papel de comunicadora. Cada um vai encontrar ferramentas próprias que dão sentido nesta engrenagem.

Para facilitar a interação entre os elos de quem quer contribuir e quem precisa receber, alguns sites têm feito pontes nestas relações.  Confira alguns:
– Ação da Cidadania: https://www.acaodacidadania.com.br/formas-de-doar
– Agência da ONU para Refugiados: https://doar.acnur.org/acnur/coronavirus.html
– Amigos do Bem (atuação no sertão de Alagoas, Ceará e Pernambuco):  amigosdobem.org/acaoemergencial/
– Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB): https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas
– Central Única das Favelas: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-a-cufa-a-ampliar-seu-combate-ao-coronavirus
– Caritas Brasileira: https://caritas.org.br/
– Cruz Vermelha Brasileira: https://www.cruzvermelha.org.br/pb/category/noticias/covid-19/
– Projeto Mãe das Favelas: https://www.maesdafavela.com.br/
– Campanha p/Comunidade de Paraisópolis (SP): https://www.esolidar.com/en/crowdfunding/detail/3-g10-apoie-paraisopolis-a-combater-o-corona-virus?lang=br/
– Fundo Emergencial para a Saúde – Coronavírus: https://www.bsocial.com.br/causa/fundo-emergencial-para-a-saude-coronavirus-brasil
– Meu Rio (Covid nas Favelas): https://www.covid19nasfavelas.meurio.org.br/
– Defesas civis do seu município e/ou Estado
– Fundos Sociais de Solidariedade dos municípios e estados
– Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): https://secure.unicef.org.br/Default.aspx?origem=covid19
– Hospital das Clínicas de São Paulo: https://viralcure.org/hc
– Médicos Sem Fronteiras: https://coronavirus.msf.org.br/
– Movimento Família apoia Família: https://benfeitoria.com/canal/familias
– Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR: https://solidariedadeaoscatadores.com.br/

É preciso sempre estar atento quanto à transparência das informações sobre as quantias e destinações desses recursos. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) criou a página https://www.monitordasdoacoes.org.br/, que tem apurado o levantamento de doações à causa da Covid-19, com dados de doadores como também de mais de 350 campanhas em andamento no país. Nos informes, há dados de quanto estão recebendo (com no mínimo R$ 10 mil angariados à causa). É mais uma maneira interessante de possibilitar uma certa transparência deste universo, que tem de existir de forma autônoma nos canais de comunicação das instituições envolvidas.

– Plataforma Para Quem Doar: https://redeglobo.globo.com/Responsabilidade-Social/pra-quem-doar/
– Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: https://www.santacasasp.org.br/portal/site/pub/16267/lista-de-doacoes—campanha-de-combate-a-covid-19
– Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras): https://www.sefras.org.br/novo/acao-e-solidariedade-franciscana-covid-19/
– Universidade de São Paulo – USP (plataforma para colaborações a ações de pesquisa): www.usp.br/uspvida

O que importa, no final das contas, é encontrar nestes pequenos gestos, o sentido de pertencimento, pelo qual conseguimos dividir e compartilhar, se possível, de palavras a elementos de necessidade básica. E ter a percepção de que todos estamos juntos em um mesmo barco, mas alguns precisam de mais apoio do que outros, em momentos de crise.

*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Leia mais: https://cidadaosdomundo.webnode.com/news/parte-7-a-corrente-de-humanizacao-que-se-tece-em-tempos-da-pandemia-da-covid-19/

Modeling COVID-19 data must be done with extreme care (Science Daily)

Date: May 19, 2020

Source: American Institute of Physics

Summary: At the beginning of a new wave of an epidemic, extreme care should be used when extrapolating data to determine whether lockdowns are necessary, experts say.

As the infectious virus causing the COVID-19 disease began its devastating spread around the globe, an international team of scientists was alarmed by the lack of uniform approaches by various countries’ epidemiologists to respond to it.

Germany, for example, didn’t institute a full lockdown, unlike France and the U.K., and the decision in the U.S. by New York to go into a lockdown came only after the pandemic had reached an advanced stage. Data modeling to predict the numbers of likely infections varied widely by region, from very large to very small numbers, and revealed a high degree of uncertainty.

Davide Faranda, a scientist at the French National Centre for Scientific Research (CNRS), and colleagues in the U.K., Mexico, Denmark, and Japan decided to explore the origins of these uncertainties. This work is deeply personal to Faranda, whose grandfather died of COVID-19; Faranda has dedicated the work to him.

In the journal Chaos, from AIP Publishing, the group describes why modeling and extrapolating the evolution of COVID-19 outbreaks in near real time is an enormous scientific challenge that requires a deep understanding of the nonlinearities underlying the dynamics of epidemics.

Forecasting the behavior of a complex system, such as the evolution of epidemics, requires both a physical model for its evolution and a dataset of infections to initialize the model. To create a model, the team used data provided by Johns Hopkins University’s Center for Systems Science and Engineering, which is available online at https://systems.jhu.edu/research/public-health/ncov/ or https://github.com/CSSEGISandData/COVID-19.

“Our physical model is based on assuming that the total population can be divided into four groups: those who are susceptible to catching the virus, those who have contracted the virus but don’t show any symptoms, those who are infected and, finally, those who recovered or died from the virus,” Faranda said.

To determine how people move from one group to another, it’s necessary to know the infection rate, incubation time and recovery time. Actual infection data can be used to extrapolate the behavior of the epidemic with statistical models.

“Because of the uncertainties in both the parameters involved in the models — infection rate, incubation period and recovery time — and the incompleteness of infections data within different countries, extrapolations could lead to an incredibly large range of uncertain results,” Faranda said. “For example, just assuming an underestimation of the last data in the infection counts of 20% can lead to a change in total infections estimations from few thousands to few millions of individuals.”

The group has also shown that this uncertainty is due to a lack of data quality and also to the intrinsic nature of the dynamics, because it is ultrasensitive to the parameters — especially during the initial growing phase. This means that everyone should be very careful extrapolating key quantities to decide whether to implement lockdown measures when a new wave of the virus begins.

“The total final infection counts as well as the duration of the epidemic are sensitive to the data you put in,” he said.

The team’s model handles uncertainty in a natural way, so they plan to show how modeling of the post-confinement phase can be sensitive to the measures taken.

“Preliminary results show that implementing lockdown measures when infections are in a full exponential growth phase poses serious limitations for their success,” said Faranda.


Story Source:

Materials provided by American Institute of Physics. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Davide Faranda, Isaac Pérez Castillo, Oliver Hulme, Aglaé Jezequel, Jeroen S. W. Lamb, Yuzuru Sato, Erica L. Thompson. Asymptotic estimates of SARS-CoV-2 infection counts and their sensitivity to stochastic perturbation. Chaos: An Interdisciplinary Journal of Nonlinear Science, 2020; 30 (5): 051107 DOI: 10.1063/5.0008834

COVID-19 crisis causes 17 percent drop in global carbon emissions (Science Daily)

Date: May 19, 2020

Source: University of East Anglia

Summary: The COVID-19 global lockdown has had an ‘extreme’ effect on daily carbon emissions, but it is unlikely to last, according to a new analysis.

Coronavirus and world | Credit: © Photocreo Bednarek / stock.adobe.com

Coronavirus and world concept illustration (stock image). Credit: © Photocreo Bednarek / stock.adobe.com

The COVID-19 global lockdown has had an “extreme” effect on daily carbon emissions, but it is unlikely to last — according to a new analysis by an international team of scientists.

The study published in the journal Nature Climate Change shows that daily emissions decreased by 17% — or 17 million tonnes of carbon dioxide — globally during the peak of the confinement measures in early April compared to mean daily levels in 2019, dropping to levels last observed in 2006.

Emissions from surface transport, such as car journeys, account for almost half (43%) of the decrease in global emissions during peak confinement on April 7. Emissions from industry and from power together account for a further 43% of the decrease in daily global emissions.

Aviation is the economic sector most impacted by the lockdown, but it only accounts for 3% of global emissions, or 10% of the decrease in emissions during the pandemic.

The increase in the use of residential buildings from people working at home only marginally offset the drop in emissions from other sectors.

In individual countries, emissions decreased by 26% on average at the peak of their confinement.

The analysis also shows that social responses alone, without increases in wellbeing and/or supporting infrastructure, will not drive the deep and sustained reductions needed to reach net zero emissions.

Prof Corinne Le Quéré of the University of East Anglia, in the UK, led the analysis. She said: “Population confinement has led to drastic changes in energy use and CO2 emissions. These extreme decreases are likely to be temporary though, as they do not reflect structural changes in the economic, transport, or energy systems.

“The extent to which world leaders consider climate change when planning their economic responses post COVID-19 will influence the global CO2 emissions paths for decades to come.

“Opportunities exist to make real, durable, changes and be more resilient to future crises, by implementing economic stimulus packages that also help meet climate targets, especially for mobility, which accounts for half the decrease in emissions during confinement.

“For example in cities and suburbs, supporting walking and cycling, and the uptake of electric bikes, is far cheaper and better for wellbeing and air quality than building roads, and it preserves social distancing.”

The team analysed government policies on confinement for 69 countries responsible for 97% of global CO2 emissions. At the peak of the confinement, regions responsible for 89% of global CO2 emissions were under some level of restriction. Data on activities indicative of how much each economic sector was affected by the pandemic was then used to estimate the change in fossil CO2 emissions for each day and country from January to April 2020.

The estimated total change in emissions from the pandemic amounts to 1048 million tonnes of carbon dioxide (MtCO2) until the end of April. Of this, the changes are largest in China where the confinement started, with a decrease of 242 MtCO2, then in the US (207 MtCO2), Europe (123 MtCO2), and India (98 MtCO2). The total change in the UK for January-April 2020 is an estimated 18 MtCO2.

The impact of confinement on 2020 annual emissions is projected to be around 4% to 7% compared to 2019, depending on the duration of the lockdown and the extent of the recovery. If pre-pandemic conditions of mobility and economic activity return by mid-June, the decline would be around 4%. If some restrictions remain worldwide until the end of the year, it would be around 7%.

This annual drop is comparable to the amount of annual emission reductions needed year-on-year across decades to achieve the climate objectives of UN Paris Agreement.

Prof Rob Jackson of Stanford University and Chair of the Global Carbon Project who co-authored the analysis, added: “The drop in emissions is substantial but illustrates the challenge of reaching our Paris climate commitments. We need systemic change through green energy and electric cars, not temporary reductions from enforced behavior.”

The authors warn that the rush for economic stimulus packages must not make future emissions higher by delaying New Green Deals or weakening emissions standards.

‘Temporary reduction in daily global CO2 emissions during the COVID-19 forced confinement’, Corinne Le Quéré, Robert B. Jackson, Matthew W. Jones, Adam J. P. Smith, Sam Abernethy, Robbie M. Andrew, Anthony J. De-Gol, David R. Willis, Yuli Shan, Josep G. Canadell, Pierre Friedlingstein, Felix Creutzig, Glen P. Peters, is published in Nature Climate Change on May 19.

The research received support from the Royal Society, the European Commission projects 4C, VERIFY and CHE, the Gordon and Betty Moore Foundation, and the Australian National Environmental Science Program.


Story Source:

Materials provided by University of East Anglia. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Corinne Le Quéré, Robert B. Jackson, Matthew W. Jones, Adam J. P. Smith, Sam Abernethy, Robbie M. Andrew, Anthony J. De-Gol, David R. Willis, Yuli Shan, Josep G. Canadell, Pierre Friedlingstein, Felix Creutzig, Glen P. Peters. Temporary reduction in daily global CO2 emissions during the COVID-19 forced confinement. Nature Climate Change, 2020; DOI: 10.1038/s41558-020-0797-x

In China, quarantine improves air and prevents thousands of premature deaths (Science Daily)

Date: May 20, 2020

Source: Yale School of Public Health

Summary: A new study finds that China’s countrywide ban on traffic mobility from February 10 to March 14, 2020 greatly limited automobile emissions and sharply reduced the country’s often severe air pollution. The improved air quality, in turn, prevented thousands of pollution-related deaths.

Soon after coronavirus appeared, an all-encompassing quarantine put into effect by the Chinese government slowed the spread of the disease and saved lives, but the quarantine also produced another unanticipated health benefit.

A new study led by researchers at the Yale School of Public Health and published in the journal Lancet Planetary Health, finds that China’s countrywide ban on traffic mobility from February 10 to March 14 greatly limited automobile emissions and sharply reduced the country’s often severe air pollution.

The improved air quality, in turn, prevented thousands of pollution-related deaths. More premature deaths were avoided by cleaner air — an estimated 12,125 — than lives lost from the pandemic — 4,633 as of May 4, the study finds.

“This is a very surprising result. The pandemic continues to be a terrible thing for China and the rest of the world, but the decrease in emissions that accompanied it has actually conferred some positive health results,” said Kai Chen, assistant professor at the Yale School of Public Health and the study’s first author. “The question is, how can we have one without the other?”

Although the findings cannot be directly applied to other countries due to different severity of and responses to COVID-19, as well as differing air pollution levels and population characteristics, reduced air pollution levels have been detected in other Asian and European countries and the U.S. after their own lockdowns, Chen said. He notes that this reduction in pollution has likely conferred similar health benefits.

The study found that ground-level air pollution levels dropped remarkably throughout China, with nitrogen dioxide (NO2) dropping by 12.9 ?g/m3 (or 37% compared with before the quarantine period) and fine particulate matter (PM2.5) dropping by 18.9 ?g/m3 (30%) across 367 Chinese cities. The decline in NO2 across China during the quarantine period was so dramatic that it was detected by satellite measurements.

NO2 is a gaseous air pollutant, which is mainly produced from fuel burning in vehicles and power plants. NO2 level before the quarantine (January 5 to 20) was as high as 40.5 ?g/m3 in Wuhan, where the outbreak began in China. During the quarantine (February 10 to March 14), those levels had fallen to 18.8 ?g/m3 (micrograms per cubic meter).

Particulate matter includes all solid and liquid particles suspended in air, many of which are hazardous when inhaled. This mixture includes both organic and inorganic particles, such as dust, pollen, soot, smoke, and liquid droplets. Before the quarantine, PM 2.5 (fine inhalable particles with diameters of 2.5 micrometers or smaller) levels were measured at 62.5 ?g/m3 in many Chinese cities. During the quarantine, the fine particulate matter reading has been 36.5 ?g/m3 in those same locations.

The authors then calculated the number of avoided deaths attributable to these decreases in NO2 and PM2.5 across China based on the short-term association between these pollutants and daily mortality using data from a previous epidemiological study of 272 Chinese cities, and mortality data from the China Health and Family Planning Statistical Yearbook 2018. The authors found that among the more than 12,000 avoided deaths, about two-thirds were from avoided cardiovascular diseases (hypertensive disease, coronary heart disease and stroke) and chronic obstructive pulmonary disease.

The findings illustrate the substantial human health benefits related to cardiovascular disease morbidity and mortality that can be achieved when aggressive air pollution control measures are put in place to reduce emissions from vehicles, such as through climate mitigation-related traffic restrictions or efforts to accelerate the transition to electric vehicles, the authors said.

“This unexpected health benefit suggests that if we were to address the climate crisis as aggressively as we are combating the COVID-19 pandemic with strong political will and urgent action, we could prevent the enormous health burdens associated with climate change,” said co-author Paul T. Anastas, professor at the Yale School of Public Health and the Teresa and H. John Heinz III Chair of Chemistry for the Environment.

The authors said that they want to further identify whether climate or weather-related factors and air pollution could influence population susceptibility to COVID-19.

The paper was written with researchers from the University at Buffalo School of Public Health and Health Professions and Boston University School of Public Health.


Story Source:

Materials provided by Yale School of Public Health. Original written by Michael Greenwood. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Kai Chen, Meng Wang, Conghong Huang, Patrick L Kinney, Paul T Anastas. Air pollution reduction and mortality benefit during the COVID-19 outbreak in China. The Lancet Planetary Health, 2020; DOI: 10.1016/S2542-5196(20)30107-8

Promotoria pede a Covas 8 mil vagas para acolhimento de pessoas em situação de rua (Estadão)

politica.estadao.com.br

Paulo Roberto Netto e Pedro Venceslau

20 de maio de 2020 | 11h20

O Ministério Público de São Paulo emitiu recomendação ao prefeito da capital, Bruno Covas (PSDB), pela criação de 8 mil vagas para acolhimento de pessoas em situação de rua durante a pandemia do novo coronavírus. A proposta inclui o uso da rede hoteleira da cidade e dos prédios públicos municipais ociosos.

Edital da Prefeitura Municipal previa a disponibilização de 500 vagas em hotéis para idosos em situação de rua que estejam acolhidos nos serviços da rede assistencial do município. De acordo com o MP, a oferta é ‘tímida e claramente insuficiente’, visto que haveria cerca de 25 mil pessoas em situação de rua em toda a capital, segundo censo realizado em 2019.

“Destas, estão acolhidas aproximadamente 17.000, que são as vagas disponíveis de acordo com o mesmo censo” afirmou a Promotoria. “Tendo em conta o avanço do vírus e o alto risco de contágio entre a população em situação de rua, é preciso que a Prefeitura Municipal adote providências emergenciais, ainda que provisórias, destinadas à oferta de vagas a todas as pessoas em situação de rua. É preciso, pois, providenciar com urgência a criação de no mínimo 8 mil vagas”.

A recomendação foi determinada após representação do ex-presidenciável Guilherme Boulos, da deputada federal Luiza Erundina (PSOL-SP) e do Padre Júlio Lancellotti.

A Promotoria pede a utilização de mais vagas na rede hoteleira, que se encontra ociosa devido à retratação econômica, ‘inclusive como garantia de manutenção dos estabelecimentos comerciais e de emprego aos trabalhadores’.

Moradores em situação de rua na região da Avenida Paulista, em São Paulo (SP). Foto: Felipe Rau/Estadão

Outra opção é o uso de prédios públicos municipais ociosos, como escolas e centros esportivos.

“É preciso lembrar que a hipótese de confinamento compulsório (dito lockdown), que vem sendo cogitado pelo Governo Estadual e pelo Governo Municipal, tornará a providência aqui discutida indiscutivelmente necessária”, apontou o Ministério Público.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE SÃO PAULO

A Prefeitura de São Paulo vem promovendo diversas ações de combate ao Coronavírus voltadas para a população em situação de vulnerabilidade, sempre seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), Ministério da Saúde (MS) e das secretarias Estadual e Municipal da Saúde. O foco do Município é ampliar a rede de apoio para que todas as comunidades sejam atendidas. Com esse objetivo, a Administração já distribuiu cerca de 170 mil refeições à população em situação de rua, e mais de 280 mil cestas básicas foram entregues a famílias em extrema situa de vulnerabilidade. Na região central, diversas famílias recebem mantimentos, como itens de alimentação, limpeza e higiene. Em toda cidade, foram distribuídos, apenas no último mês,  mais de 50 mil kits de higiene e alimentação. Outra ação em andamento é o cartão alimentação, já entregue a mais 350 mil crianças matriculadas na rede municipal.

ACOLHIMENTOS

A Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS), informa que criou oito novos equipamentos emergenciais, com funcionamento 24h, para acolhimento de pessoas em situação de rua, totalizando 680 novas vagas. Outras 400 vagas serão criadas nos Centros de Educação Unificado (CEUs).

Os Centros de Acolhida têm suas estruturas higienizadas constantemente e são mantidos com as janelas abertas. Nos quartos as camas foram colocadas em distância segura. Todos os eventos agendados nos serviços foram cancelados e as visitas suspensas. Todas essas medidas contribuem para diminuir o risco de contágio.

Neste período de pandemia, a SMADS ampliou a oferta de serviços nos quais as pessoas em situação de rua têm acesso a refeições, banheiros, kits de higiene e orientações. Na região da Luz, por exemplo, desde 26/03 foi instalado um Núcleo de Convivência de caráter emergencial, para servir 200 refeições à população local (almoço e café da tarde). No dia 03/04, outro núcleo começou a funcionar, na região do Cambuci, com capacidade de oferecer café da manhã, almoço e café da tarde para 200 pessoas. A rede municipal conta com 10 Núcleos de Convivência, com 3.172 vagas. Para os Núcleos de Convivência da Sé, Prates, Porto Seguro, Complexo Boracea, Helvetia foram aditados em caráter emergencial mais 1.260 vagas.

A Secretaria informa também que já planeja a utilização de hotéis para abrigar pessoas em situação de rua. Tanto que foi publicada hoje (20) a prorrogação do Edital de Credenciamento nº 002/2020/SMADS, para 500 vagas, até o dia 29/5 para convocar os estabelecimentos hoteleiros, localizados no município, para prestarem serviços de hospedagem às pessoas em situação de rua. A data da sessão pública também foi alterada para o dia 01/06. O objetivo é disponibilizar vagas para idosos que estão nos Centros de Acolhida para Adultos e promover o distanciamento social e aumentar os espaços nos centros de acolhidas para pessoas mais vulneráveis.

Somadas as mais de 1.500 vagas de centros emergenciais e do edital de credenciamento de hotéis às 17,2 mil vagas regulares de acolhimento à população em situação de rua dos 89 serviços de SMADS, a cidade chega próximo das 20 mil vagas de para atendimento a esse público.

O edital e o comunicado estão disponíveis no link abaixo:

Editorial: Pandemia e energia (Diário do Nordeste)

diariodonordeste.verdesmares.com.br

Por Redação, 22 de Maio de 2020

Grave consequência da pandemia do novo coronavírus sobre o setor energético tem preocupado o Governo Federal: a queda do consumo de energia elétrica, que atinge diretamente as empresas distribuidoras, cujo caixa entrou no vermelho. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), sobra energia, e a redução do consumo, que já chegou aos 18%, poderá ser ampliada caso se alonguem ainda mais as interdições ao funcionamento de empresas de todos os tipos. Os prejuízos das companhias distribuidoras são tão elevados, que o Ministério de Minas e Energia e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) calculam em R$ 17 bilhões o tamanho do pacote de socorro que lhes será concedido.

Quando eclodiu a pandemia, a Aneel adotou – por instrução do Ministério da Economia – uma providência emergencial e razoável: proibiu por 90 dias o corte de energia das residências para evitar uma consequência social ainda maior para as famílias já mantidas em isolamento. Mas notou-se um efeito colateral: a inadimplência aumentou – e esta já estava pelo recente acréscimo de dificuldades financeiras da população.

A reabertura da atividade da indústria, do comércio e do serviço será gradual – os economistas preveem que isso se dará em até dois anos, não menos. Cerca de 60% da energia gerada no Brasil são de fonte hidráulica. Neste momento, para sorte do setor, as barragens que movimentam as usinas hidrelétricas estão cheias, o que descarta a possibilidade de um aumento das tarifas de energia. Mas isto não afasta a certeza de que a injeção de R$ 17 bilhões – que sairão do Tesouro Nacional – no caixa das distribuidoras será cobrada, a partir ainda deste ano, dos consumidores pessoas físicas e jurídicas. A conta de luz ficará mais cara por conta da pandemia.

Teme-se que, diante das dificuldades acima relatadas, sejam reduzidos os investimentos que se fazem hoje na geração de energia de fontes renováveis – como a solar e a eólica, concentrada nos estados da região Nordeste, onde são robustos e estáveis os bancos de vento e a insolação. Como demorará a retomada da economia, o consumo de energia também levará pelo menos um ano – nos cálculos dos consultores – para alcançar os níveis do fim de 2019. Desenha-se agora um cenário complicado para todo o setor elétrico nacional. O governo imagina que, passada esta crise, por volta do terceiro trimestre deste ano, poderá atrair o interesse dos investidores para o projeto de privatização da Eletrobras e de algumas de suas empresas, como a Chesf. Mas isto também parece difícil, diante dos desencontros políticos do Governo e com o Congresso Nacional, onde as ideias privatistas enfrentam forte resistência.

Neste instante, além das crises sanitária, econômica, financeira e política, o Brasil convive com mais uma – a do excesso de oferta de energia elétrica. Isto gera um déficit que cresce como bola de neve e que, mais cedo ou mais tarde, cairá em forma de cobrança no colo de cada um dos brasileiros. Em 2001, por causa diferente – a falta de energia – conta semelhante foi cobrada do Governo e de cada cidadão.

O fim do consumo de carne chegou (New York Times)

Se você se preocupa com os trabalhadores pobres, com a justiça racial e com as mudanças climáticas, precisa parar de comer animais.

Por Jonathan Safran Foer – 21 de maio de 2020

Pig farming symbol vector image | Public domain vectors

Algum pânico é mais primitivo do que aquele causado pela ideia de prateleiras vazias nos supermercados? Algum alívio é mais primitivo do que o reconforto fornecido pelas comidas com que temos relação afetiva?

Neste período de pandemia, quase todo mundo está cozinhando mais, postando fotos e vídeos de culinária e pensando em comida em geral. A combinação de escassez de carne e a decisão do presidente Trump de abrir abatedouros, apesar dos protestos de trabalhadores ameaçados, inspirou muitos americanos a considerar o quão essencial é a carne.

É mais essencial que a vida dos trabalhadores pobres que trabalham para produzi-lo? Assim parece. Um número surpreendente de seis em cada 10 municípios que a própria Casa Branca identificou como hot spots do coronavírus abriga os mesmos matadouros que o presidente ordenou a abertura.

Em Sioux Falls, S.D., a fábrica de suínos Smithfield, que produz cerca de 5% da carne suína do país, é um dos maiores centros de contaminação de coronavírus do país. Uma fábrica da Tyson em Perry, Iowa, tinha 730 casos de coronavírus – quase 60% de seus funcionários. Em outra fábrica da Tyson, em Waterloo, Iowa, foram registrados 1.031 casos entre cerca de 2.800 trabalhadores.

Trabalhadores doentes significam o fechamento de fábricas, o que levou ao acúmulo de animais. Alguns criadores estão induzindo abortos em porcas grávidas. Outros são forçados a sacrificar seus animais, muitas vezes com gás ou atirando neles. A situação ficou tão ruim a ponto do senador Chuck Grassley, um republicano de Iowa, pedir ao governo Trump que forneça recursos de saúde mental para os produtores de suínos.

Apesar dessa terrível realidade – e dos efeitos amplamente divulgados das fazendas industriais nas terras, comunidades, animais e saúde humana dos Estados Unidos muito antes dessa pandemia – apenas cerca de metade dos americanos diz que está tentando reduzir o consumo de carne. A carne está incorporada em nossa cultura e histórias pessoais de maneiras muito importantes, desde o peru do Dia de Ação de Graças até o cachorro-quente. A carne vem com cheiros e gostos tão maravilhosos que a satisfação sentida quase se mistura com a sensação do próprio lar. E o que mais é essencial, se não o sentimento provocado pelo lar?

E, no entanto, um número crescente de pessoas sente a inevitabilidade de mudanças iminentes.

A agricultura animal agora é reconhecida como uma das principais causas do aquecimento global. De acordo com a revista The Economist, um quarto dos americanos entre 25 e 34 anos diz ser vegetariano ou vegano, o que talvez seja uma das razões pelas quais as vendas de “carnes” à base de plantas dispararam, com Impossible e Beyond Burgers disponíveis em todos os lugares, da Whole Foods a White Castle.

Nossa mão está se esticando em direção à maçaneta da porta das mudanças nos últimos anos. O Covid-19 acabou por arrombá-la.

No mínimo, nos forçou a encarar o problema. Quando se trata de um assunto tão inconveniente quanto a carne, é tentador fingir que ciência inequívoca é ativismo, encontrar consolo em exceções que não representam o panorama da indústria e falar sobre nosso mundo como se fosse teórico.

Algumas das pessoas mais conscientes que conheço encontram maneiras de não pensar nos problemas da pecuária, da mesma forma como eu encontro maneiras de evitar pensar em mudanças climáticas e desigualdade de renda, ou nos paradoxos dos meus próprios hábitos alimentares. Um dos efeitos colaterais inesperados desses meses de isolamento é que é difícil não pensar nas coisas que são essenciais para quem somos.

Não podemos proteger nosso meio ambiente enquanto continuamos a comer carne regularmente. Esta não é uma perspectiva refutável, mas um fato incontestável. Quer se tornem Whoppers ou bifes alimentados com capim, as vacas produzem uma quantidade enorme de gases de efeito estufa. Se as vacas fossem um país, elas seriam o terceiro maior emissor de gases de efeito estufa do mundo.

De acordo com o diretor de pesquisa do Projeto Drawdown – uma organização sem fins lucrativos dedicada a criar soluções para lidar com as mudanças climáticas – comer uma dieta baseada em vegetais é “a contribuição mais importante que todo indivíduo pode dar para reverter o aquecimento global”.

Os americanos de maneira geral aceitam a ciência das mudanças climáticas. A maioria dos republicanos e democratas diz que os Estados Unidos deveriam ter permanecido no acordo climático de Paris. Não precisamos de novas informações e não precisamos de novos valores. Nós só precisamos atravessar a porta das mudanças, que está aberta.

Não podemos afirmar que nos preocupamos com o tratamento dado aos animais enquanto continuamos a comer carne regularmente. O sistema agrícola em que confiamos é tecido com miséria. As galinhas modernas foram tão geneticamente modificadas que seus próprios corpos se tornaram prisões de dor, mesmo que as libertássemos de suas gaiolas. Os perus são criados para serem tão obesos que são incapazes de se reproduzir sem inseminação artificial. As vacas mães têm seus bezerros arrancados antes do desmame, resultando em sofrimento agudo que podemos ouvir em seus gemidos e medir empiricamente através do cortisol em seus corpos.

Nenhuma etiqueta ou certificação pode evitar esse tipo de crueldade. Não precisamos de nenhum ativista dos direitos dos animais apontando um dedo para nós. Não precisamos nos convencer de nada que já não saibamos. Precisamos ouvir a nós mesmos.

Não podemos proteger-nos contra pandemias enquanto continuamos a comer carne regularmente. Muita atenção foi dada aos mercados de animais silvestres, mas as fazendas industriais, especificamente as de aves, são um campo de geração de pandemias ainda mais importante. Além disso, o C.D.C. relata que três em cada quatro doenças infecciosas novas ou emergentes são zoonóticas – o resultado de nosso relacionamento ruim com animais.

É óbvio que queremos estar seguros. Nós sabemos como nos tornar mais seguros. Mas querer e conhecer não são suficientes.

Essas não são opiniões minhas ou de quem quer que seja, apesar da tendência de publicar essas informações nas seções de opinião. E as respostas para as questões mais comuns levantadas por qualquer questionamento sério da agricultura animal não são opiniões.

Não é fato que precisamos de proteína animal? Não.

Podemos viver uma vida mais longa e saudável sem ela. A maioria dos adultos americanos come aproximadamente o dobro da ingestão recomendada de proteínas – incluindo vegetarianos, que consomem 70% a mais do que precisam. Pessoas que comem dietas ricas em proteínas animais têm maior probabilidade de morrer de doenças cardíacas, diabetes e insuficiência renal. Obviamente, carne, como bolo, pode fazer parte de uma dieta saudável. Mas nenhum nutricionista recomendaria comer bolo com muita frequência.

Se deixarmos o sistema de fazendas industriais entrar em colapso, os agricultores não sofrerão? Não.

As empresas que falam em nome dos agricultores na verdade os exploram. Hoje há menos agricultores americanos do que durante a Guerra Civil, apesar da população americana ser quase 11 vezes maior. Isso não é um acidente, mas um modelo de negócios. O sonho final do complexo industrial de agricultura animal é que as “fazendas” sejam totalmente automatizadas. A transição para alimentos à base de plantas e práticas agrícolas sustentáveis ​​criaria muito mais empregos do que extinguiria.

Não aceite minha palavra. Pergunte a um agricultor se ele ou ela ficaria feliz em ver o fim da agricultura industrial.

O movimento vegetariano não é elitista? Não.

Um estudo de 2015 descobriu que uma dieta vegetariana é US $ 750 por ano mais barata que uma dieta à base de carne. Minorias raciais são desproporcionalmente vegetarianas, e são desproporcionalmente vítimas da brutalidade da agricultura industrial. Os funcionários do matadouro atualmente colocados em situação de risco devido à pandemia, para satisfazer nosso gosto por carne, são predominantemente negros. Sugerir que um modo de agricultura mais barato, mais saudável e menos explorador seja elitista é de fato uma propaganda da indústria.

Não podemos trabalhar com empresas agrícolas para melhorar o sistema alimentar? Não.

A menos que você acredite que aqueles que se tornaram poderosos através da exploração destruirão voluntariamente os veículos que lhes deram uma riqueza espetacular. A agricultura industrial é para a agricultura real o que são os monopólios criminais para o empreendedorismo. Se por um único ano o governo removesse seus US$ 38 bilhões em subsídios e auxílios e exigisse que as empresas de carne e laticínios seguissem as regras capitalistas normais, isso as destruiria para sempre. A indústria não poderia sobreviver no mercado livre.

Talvez mais do que qualquer outro alimento, a carne inspire conforto e desconforto. Isso pode dificultar a ação sobre o que sabemos e queremos. Podemos realmente deslocar a carne do centro de nossos pratos? Essa é a questão que nos leva ao limiar do impossível. Por outro lado, é inevitável.

Com o horror da pandemia nos pressionando, e o questionamento do que é, de fato, essencial, agora podemos ver a porta que sempre esteve lá. Como em um sonho em que nossas casas têm quartos desconhecidos para nós mesmos, podemos sentir que há uma maneira melhor de comer, uma vida mais próxima de nossos valores. Por outro lado, não há algo novo, mas algo que nos chama do próprio passado – um mundo em que os agricultores não eram mitos, corpos torturados não eram comida e o planeta não era a conta no final da refeição.

Uma refeição depois da outra, é hora de cruzar o limiar. Do outro lado estaremos, efetivamente, no nosso lar.

Jonathan Safran Foer é o autor de “Eating Animals” e “We Are the Weather”.

The End of Meat Is Here (New York Times)

If you care about the working poor, about racial justice, and about climate change, you have to stop eating animals.

By Jonathan Safran Foer – May 21, 2020

Credit: Jun Cen

Is any panic more primitive than the one prompted by the thought of empty grocery store shelves? Is any relief more primitive than the one provided by comfort food?

Most everyone has been doing more cooking these days, more documenting of the cooking, and more thinking about food in general. The combination of meat shortages and President Trump’s decision to order slaughterhouses open despite the protestations of endangered workers has inspired many Americans to consider just how essential meat is.

Is it more essential than the lives of the working poor who labor to produce it? It seems so. An astonishing six out of 10 counties that the White House itself identified as coronavirus hot spots are home to the very slaughterhouses the president ordered open.

In Sioux Falls, S.D., the Smithfield pork plant, which produces some 5 percent of the country’s pork, is one of the largest hot spots in the nation. A Tyson plant in Perry, Iowa, had 730 cases of the coronavirus — nearly 60 percent of its employees. At another Tyson plant, in Waterloo, Iowa, there were 1,031 reported cases among about 2,800 workers.

Sick workers mean plant shutdowns, which has led to a backlog of animals. Some farmers are injecting pregnant sows to cause abortions. Others are forced to euthanize their animals, often by gassing or shooting them. It’s gotten bad enough that Senator Chuck Grassley, an Iowa Republican, has asked the Trump administration to provide mental health resources to hog farmers.

Despite this grisly reality — and the widely reported effects of the factory-farm industry on America’s lands, communities, animals and human health long before this pandemic hit — only around half of Americans say they are trying to reduce their meat consumption. Meat is embedded in our culture and personal histories in ways that matter too much, from the Thanksgiving turkey to the ballpark hot dog. Meat comes with uniquely wonderful smells and tastes, with satisfactions that can almost feel like home itself. And what, if not the feeling of home, is essential?

And yet, an increasing number of people sense the inevitability of impending change.

Animal agriculture is now recognized as a leading cause of global warming. According to The Economist, a quarter of Americans between the ages of 25 and 34 say they are vegetarians or vegans, which is perhaps one reason sales of plant-based “meats” have skyrocketed, with Impossible and Beyond Burgers available everywhere from Whole Foods to White Castle.

Our hand has been reaching for the doorknob for the last few years. Covid-19 has kicked open the door.

At the very least it has forced us to look. When it comes to a subject as inconvenient as meat, it is tempting to pretend unambiguous science is advocacy, to find solace in exceptions that could never be scaled and to speak about our world as if it were theoretical.

Some of the most thoughtful people I know find ways not to give the problems of animal agriculture any thought, just as I find ways to avoid thinking about climate change and income inequality, not to mention the paradoxes in my own eating life. One of the unexpected side effects of these months of sheltering in place is that it’s hard not to think about the things that are essential to who we are.

Credit: Jun Cen

We cannot protect our environment while continuing to eat meat regularly. This is not a refutable perspective, but a banal truism. Whether they become Whoppers or boutique grass-fed steaks, cows produce an enormous amount of greenhouse gas. If cows were a country, they would be the third-largest greenhouse gas emitter in the world.

According to the research director of Project Drawdown — a nonprofit organization dedicated to modeling solutions to address climate change — eating a plant-based diet is “the most important contribution every individual can make to reversing global warming.”

Americans overwhelmingly accept the science of climate change. A majority of both Republicans and Democrats say that the United States should have remained in the Paris climate accord. We don’t need new information, and we don’t need new values. We only need to walk through the open door.

We cannot claim to care about the humane treatment of animals while continuing to eat meat regularly. The farming system we rely on is woven through with misery. Modern chickens have been so genetically modified that their very bodies have become prisons of pain even if we open their cages. Turkeys are bred to be so obese that they are incapable of reproducing without artificial insemination. Mother cows have their calves ripped from them before weaning, resulting in acute distress we can hear in their wails and empirically measure through the cortisol in their bodies.

No label or certification can avoid these kinds of cruelty. We don’t need any animal rights activist waving a finger at us. We don’t need to be convinced of anything we don’t already know. We need to listen to ourselves.

We cannot protect against pandemics while continuing to eat meat regularly. Much attention has been paid to wet markets, but factory farms, specifically poultry farms, are a more important breeding ground for pandemics. Further, the C.D.C. reports that three out of four new or emerging infectious diseases are zoonotic — the result of our broken relationship with animals.

It goes without saying that we want to be safe. We know how to make ourselves safer. But wanting and knowing are not enough.

These are not my or anyone’s opinions, despite a tendency to publish this information in opinion sections. And the answers to the most common responses raised by any serious questioning of animal agriculture aren’t opinions.

Don’t we need animal protein? No.

We can live longer, healthier lives without it. Most American adults eat roughly twice the recommended intake of protein — including vegetarians, who consume 70 percent more than they need. People who eat diets high in animal protein are more likely to die of heart disease, diabetes and kidney failure. Of course, meat, like cake, can be part of a healthy diet. But no sound nutritionist would recommend eating cake too often.

If we let the factory-farm system collapse, won’t farmers suffer? No.

The corporations that speak in their name while exploiting them will. There are fewer American farmers today than there were during the Civil War, despite America’s population being nearly 11 times greater. This is not an accident, but a business model. The ultimate dream of the animal-agriculture industrial complex is for “farms” to be fully automated. Transitioning toward plant-based foods and sustainable farming practices would create many more jobs than it would end.

Don’t take my word for it. Ask a farmer if he or she would be happy to see the end of factory farming.

Isn’t a movement away from meat elitist? No.

A 2015 study found that a vegetarian diet is $750 a year cheaper than a meat-based diet. People of color disproportionately self-identify as vegetarian and disproportionately are victims of factory farming’s brutality. The slaughterhouse employees currently being put at risk to satisfy our taste for meat are overwhelmingly brown and black. Suggesting that a cheaper, healthier, less exploitative way of farming is elitist is in fact a piece of industry propaganda.

Can’t we work with factory-farming corporations to improve the food system? No.

Well, unless you believe that those made powerful through exploitation will voluntarily destroy the vehicles that have granted them spectacular wealth. Factory farming is to actual farming what criminal monopolies are to entrepreneurship. If for a single year the government removed its $38-billion-plus in props and bailouts, and required meat and dairy corporations to play by normal capitalist rules, it would destroy them forever. The industry could not survive in the free market.

Perhaps more than any other food, meat inspires both comfort and discomfort. That can make it difficult to act on what we know and want. Can we really displace meat from the center of our plates? This is the question that brings us to the threshold of the impossible. On the other side is the inevitable.

With the horror of pandemic pressing from behind, and the new questioning of what is essential, we can now see the door that was always there. As in a dream where our homes have rooms unknown to our waking selves, we can sense there is a better way of eating, a life closer to our values. On the other side is not something new, but something that calls from the past — a world in which farmers were not myths, tortured bodies were not food and the planet was not the bill at the end of the meal.

One meal in front of the other, it’s time to cross the threshold. On the other side is home.

Jonathan Safran Foer is the author of “Eating Animals” and “We Are the Weather.”

“Eu fui um ‘bot”: as confissões de um agente dedicado a mentir no Twitter (El País)

Ex-funcionário de uma agência explica como funciona a sofisticada máquina das armadilhas na rede social

As redes sociais, terreno de jogo para as campanhas de manipulação.
As redes sociais, terreno de jogo para as campanhas de manipulação.Bill Hinton / EL PAÍS

Jordi Pérez Colomé – 21 may 2020 – 21:43 BRT

“Coordenei uma equipe de trolls formada por 10 pessoas. Mas há equipes maiores no setor”, diz um community manager que durante boa parte da última década atuou em uma agência internacional que vendia serviços de amplificação artificial de mensagens no Twitter. “Trabalhei em projetos em cinco países, entre eles a Espanha. Existe uma demanda para contratos desse tipo que não é anunciada nas Páginas Amarelas”, diz.

Com esta experiência, ele agora quer revelar como funciona esse negócio obscuro capaz de influenciar a opinião pública. Há algumas semanas, começou a contar detalhes em uma conta do Twitter chamada ironicamente @thebotruso (“o robô russo”). O EL PAÍS, que comprovou seu papel na agência em questão, trocou dúzias de mensagens com @thebotruso sobre como são preparadas a executadas atualmente as célebres campanhas de bots e trolls a serviço de empresas, partidos políticos ou clubes esportivos. O ex-funcionário mantém o anonimato porque um contrato de confidencialidade o impede de revelar o conteúdo específico e os clientes de seu antigo trabalho.

O Twitter não é uma réplica da vida real. Mas os debates ou opiniões que dominam a rede frequentemente vão parar na mídia. Ou mesmo na tribuna dos Parlamentos. “As ruas estão ficando cheias de bots”, disse com ironia Santiago Abascal, líder do partido Vox, ao primeiro-ministro espanhol, o socialista Pedro Sánchez, durante um debate nesta segunda-feira, referindo-se a recentes manifestações da direita no país. Uma parte das contas que discutem no Twitter é falsa. O problema é saber quantas ou, mais difícil, quais são, e que influência exercem. “Eu gostava de chamar a atenção de jornalistas afins. Aumenta muito nosso ego que um jornalista pegue os conteúdos de sua conta troll como fonte dos seus artigos, além de ajudar a ganhar visibilidade”, conta @thebotruso.

1. Nem todos são ‘bots’

Por definição se usa bot como sinônimo de conta falsa no Twitter. Mas um bot é uma conta automatizada, não necessariamente falsa. Anos atrás, eles eram os principais encarregados de amplificar mensagens: faziam milhares de retuítes ou likes, ou serviam para engrossar contas de seguidores. Continuam tendo essa finalidade, mas, graças a ações do Twitter e à maior sofisticação dos usuários atuais, ficou mais fácil descobri-los e eliminá-los.

A agência onde @thebotruso trabalhava tem um software para programar bots. Ele dá ordens para fazer tantos retuítes de tais contas ou disparar tuítes previamente redigidos em horários determinados. É barato, mas pouco refinado. “Continua-se trabalhando para amplificar o conteúdo, mas é preciso ser cuidadoso, porque pode acarretar um problema de reputação ao cliente”, diz.

Para evitá-lo, há vários recursos que permitem humanizar ou desvincular esses bots de uma campanha: “Os bots não irão retuitar qualquer coisa que se mexa. Se forem feitas ações com um troll específico, por exemplo, isso gera um padrão, com o que um analista de dados da concorrência seria capaz de levantar a lebre”, diz.

Os bots tampouco seguirão a conta do cliente que os paga, como precaução para uma eventual descoberta. “Se pegarmos como exemplo a causa independentista [da Catalunha], os bots seguirão diferentes partidos, políticos e associações, mas não o cliente final”, explica. Também se observa se há usuários reais interagindo com algum bot. Nesse caso, um funcionário entrará no circuito para responder.

2. A chave são dois tipos de trolls

A definição habitual de troll está associada a um usuário vândalo ou impertinente. Na agência, essas eram suas contas-estrelas. Cada empregado podia administrar 30 delas, cada uma com seu comportamento humano. Os trolls se dividiam em alfa e beta.

As contas alfa difundem a mensagem. Começavam com uma estratégia de “me siga e eu te sigo”, para ganhar peso. Seus tuítes iniciais eram inflados pelos bots e depois interagiam com contas importantes para chamar a atenção. Na Espanha, ficou famosa a conta de Miguel Lacambra, que conseguiu 20.000 seguidores em poucas semanas com uma estratégia similar.

Os trolls beta são os guerrilheiros. Dedicam-se a amansar a crítica. São contas que respondem a tuítes de famosos com insultos ou ameaças. “Os afetados pelos ataques dos beta veem as respostas a seus tuítes e muitas vezes se contêm um pouco na hora de tuitar, dependendo do tema. Sentem-se incômodos e passam a querer ter um perfil mais discreto. O sistema é eficaz. Por isso, continuam sendo contratados e aperfeiçoados. E nós, usuários, continuamos caindo”, diz.

3. O objetivo: enganar o Twitter

Uma parte dos esforços é dedicada a evitar a detecção das armadilhas e aumentar a probabilidade de sucesso: “Os trolls não se seguirão entre si e se limitará a interação entre eles para que liderem vários grupos de diálogo e porque uma relação habitual entre dois ou mais trolls poria a operação em risco”, diz @thebotruso. As contas são mapeadas com uma ferramenta habitual entre pesquisadores, chamada Gephi, para ver se a relação entre eles é destacável: “Esses gephis seriam capazes de revelar a relação entre nossas contas (trolls e bots), por isso todo cuidado é pouco”, diz.

Há, além disso, um objetivo permanente em todas essas operações: evitar padrões. “Cada conta que um troll dirige deve escrever diferente: as pessoas têm tendência a utilizar certas expressões e deixar padrões de escrita, como pôr dois pontos de exclamação ou terminar todas as frases com reticências”, conta.

Os ardis para enganar o Twitter são ainda mais destacáveis com os bots automatizados: “O software comanda todos os bots, que se dividem em grupos. Cada grupo utiliza uma API [ferramenta para usar automaticamente o Twitter]. E o endereço IP é variado de forma aleatória. Chegamos a ter 3.000 ou 4.000 contas em uma mesma API, e me consta que poderiam ser usadas até mais. O problema é que, se você tiver muitas contas tuitando direto sob uma mesma API, pode levar o Twitter a bloqueá-la”, explica. Embora essas ferramentas permitam administrar milhares de contas, é preciso personalizar cada uma delas com foto, nome e biografia. É um trabalho longo demais para que o Twitter derrube 2.000 perfis de uma vez.

4. Toda campanha tem um plano

Cada campanha é preparada com análise de dados e objetivos diários. Os bots e trolls não surgem do nada. Antes de uma campanha, cientistas de dados analisam a conversação pública sobre o tema que interessa ao cliente: um partido que deseja ampliar sua bancada, uma empresa que espera bater um concorrente, ou um time de futebol com problemas de credibilidade.

“Eles veem quantas contas estão participando de um tema e se estabelece quantas seriam necessárias para ter influência”, diz. Também é analisado o sentimento e os influencers desses assuntos: “São feitas listas de contas favoráveis e contrárias, e se analisa o peso que elas têm”, diz. Essa informação é chave para o funcionamento da campanha: “Serve para que o troll saiba com que usuários interagir, para gerar um núcleo com eles, a quais responder e perseguir com os beta, e com que usuários nem sequer vale a pena perder tempo. Não é a mesma coisa iniciar uma conta do tranco ou com uma quantidade imensa de informação. O troll alfa sabe a quem se dirigir, com que tom, e o que comunicar”.

Uma campanha pode chegar a custar um milhão de euros (6,2 milhões de reais). O cliente espera resultados concretos e demonstráveis. Uma campanha média pode exigir entre 1.500 e 2.000 bots e trolls.

Enquanto os usuários normais do Twitter entram na rede para ver o que acontece, estas operações envolvendo centenas de contas falsas têm um plano diário. É como se a cada jornada um chefe mafioso enviasse um grupo de asseclas a uma cidade com um plano delicadamente concebido para que executem uma série de missões concretas e semeiem o pânico sem serem detectados. O objetivo é fazer os cidadãos acreditarem em coisas que não são verdade: não só com notícias falsas, mas também com ações que sugiram que mais gente acredita em determinada coisa do que realmente ocorre. Seria como inflar uma pesquisa de opinião. Claro que frequentemente se enfrentam equipes que buscam justamente o contrário.

Isto não fica só na teoria. Seus efeitos têm consequências no mundo real. “As pessoas tendem a compartilhar sua opinião quando se sentem protegidas pela comunidade”, diz esse agente. “Houve um tempo em que muitos catalães não independentistas não publicavam suas ideias nas redes porque entravam no Twitter e tinham a sensação que meio mundo era independentista.”

Estas ações em redes permitem abrir o caminho para opiniões radicais. De repente, alguém vê que a crítica aberta a imigrantes ou mulheres está permitida. Talvez não seja feita com crueldade ostensiva, e sim com memes ou palavras em código, mas está lá. Não se sabe se essas contas são controladas por uma dúzia de empregados em um escritório.

5. Como enganar um jornalista

Frequentemente, os jornalistas não têm consciência de como é fácil lhes passar mercadoria falsa. Um dos motivos que levou @thebotruso a criar essa conta e querer contar sua experiência foi para tentar advertir dos perigos: “Quem trabalha na mídia nem sempre conhece esse ecossistema. De certo modo, é fácil enganar um jornalista. Eles estão sempre procurando informações e, hoje em dia, a Internet é uma fonte muito grande. Se um jornalista topar com seu conteúdo, vir que tem apoio e que se encaixa no que ele quer (ou precisa) comunicar, talvez pegue. As estratégias para cada caso são diferentes. Por exemplo: para uma empresa acusada de corrupção, criamos um ecossistema que defendia os postos de trabalho (trabalhadores preocupados com as medidas exigidas contra a empresa)”, explica.

6. Como manipular uma pesquisa no Twitter

Os bots são úteis para ganhar uma pesquisa na rede. Estes são os passos que esta agência seguia: “Detecta-se a pesquisa e se faz uma captura de tela. É feito um cálculo para saber quantos votos são necessários para virar os resultados, e o valor de cada ponto percentual. Tem início a operação para que a opção desejada vença. Monitora-se para ver que tudo funciona corretamente”.

7. A criação de um ‘trending topic’

As opções para conseguir um trending topic eram mais reduzidas, mas a estratégia era clara. A agência trabalhava durante dias para atingir seu objetivo. “A primeira coisa é escolher um dia e uma hora. Procura-se não coincidir com eventos como um jogo de futebol ou o Big Brother”, explica @thebotruso. “Escolhe-se uma hashtag, é importante que não tenha sido utilizada antes, porque são mais difíceis de posicionar. Aciona-se a equipe de redatores que escrevem milhares de tuítes durante vários dias para que sejam publicados pela rede de bots”, acrescenta.

Usuários reais também são avisados, para caso tenham interesse. “São enviadas comunicações a pessoas afins para avisar da ação: tal dia, a tal hora, sairemos com tal hashtag para nos queixar, convidamos você à ação para ver se conseguimos ser tendência e fazer que nos ouçam”.

Chega o grande dia: “Os analistas olham quantos tuítes são necessários para entrar nas tendências. Os tuítes são inseridos na plataforma de bots. O cliente dispara o primeiro tuíte. Rapidamente a rede de bots é acionada. É crucial que haja muitos tuítes em um espaço curto de tempo. Os trolls alfa saem com tuítes de impacto. Os analistas de dados monitoram para saber se é preciso disparar mais tuítes, ou se é o caso de frear a rede de bots. Os trolls beta apoiam a ação, respondem aos críticos, estimulam outros usuários com a mesma ideologia”.

Passada a missão, com sucesso ou não, é hora de dissimular as provas: “A ação dos bots é detida e limpa: as contas bot fazem tuítes e retuítes de outros temas para que, se alguém aparecer para ver essas contas, não veja que só entraram para fazer tuítes sobre o trending e foram dormir. Os trolls podem continuar tuitando por algum tempo, e depois farão uma limpa, como os bots”, acrescenta. “Finalmente, prepara-se um relatório para o cliente”.

E como tudo isso afeta quem o faz? “Todos estávamos conscientes do que estávamos pondo em jogo. E eu gosto dessa palavra: jogo. Sempre recomendei a todo mundo que encarasse como jogar War, porque é fácil encarar os projetos como algo pessoal, e às vezes é difícil administrar a diferença entre a sua conta troll e você. Por sorte, nunca tive ninguém de licença por depressão, ansiedade ou nada parecido”.

Not-so-slow burn. The world’s energy system must be transformed completely (The Economist)

The Economist

It has been changed before, but never as fast or fully as must happen now

May 23rd 2020 edition


May 23rd 2020

FOR MORE than 100,000 years humans derived all their energy from what they hunted, gathered and grazed on or grew for themselves. Their own energy for moving things came from what they ate. Energy for light and heat came from burning the rest. In recent millennia they added energy from the flow of water and, later, air to the repertoire. But, important as water- and windmills were, they did little to change the overall energy picture. Global energy use broadly tracked the size of a population fed by farms and warmed by wood.

The combination of fossil fuels and machinery changed everything. According to calculations by Vaclav Smil, a scholar of energy systems at the University of Manitoba, between 1850 and 2000 the human world’s energy use increased by a factor of 15 or so.

The expansion was not homogeneous; over its course the mixture of fossil fuels used changed quite dramatically. These are the monumental shifts historians call “energy transitions”. They require huge amounts of infrastructure; they change the way the economy works; and they take place quite slowly.

James Watt patented his steam engine in 1769; coal did not exceed the share of total energy provided by “traditional biomass”—wood, peat, dung and the like—until the 1900s (see chart overleaf). It was not until the 1950s, a century after the first commercial oil well was drilled in Titusville, Pennsylvania, that crude oil came to represent 25% of humankind’s total primary energy. Energy transitions were slow largely because the growth in total energy use was fast. In the century it took oil to capture a quarter of the total, that total increased. They are also always incomplete. New fuels may reduce the share of the pie that old fuels control, but they rarely reduce the total energy those fuels supply. Much more “traditional biomass” is burned by the world’s poor today than was burned by the whole world in 1900.

To give the world a good chance of keeping global warming, measured against the temperature pre-coal, well below 2°C (3.6°F) will require an energy transition far larger and quicker than any before it. In the next 30-50 years 90% or more of the share of the world’s energy now being produced from fossil fuels will need to be provided by renewable-energy sources, nuclear power or fossil-fuel plants that bury their waste rather than exhaling it.

During this time, the pie will keep growing—but not necessarily as fast as it used to. The direct relationship between GDP and energy use, which held tight until the 1970s, has weakened over the past half century. It is possible for growth per person to continue without energy use per person increasing. Though the population is no longer growing as fast as it did at the 20th-century peak of its increase, it will still be the best part of 2bn higher by mid-century. And all those people should be able to aspire to modern energy services. Today more than 800m people still lack electricity—hence all that burning of traditional biomass.

The good news, however, is that governments say they are willing to push through the change. Previous transitions, though shaped by government policy at national levels, were mostly caused by the demand for new services that only a specific fuel could provide, such as petrol for engines.

The growth in renewable-generation capacity is the exception. It has not been driven by the fact that renewable electrons allow you to do things of which those from coal are not capable. It has largely been driven by government policy. This has not always had the near-term effects for which such policy should aim. Germany’s roll-out of renewables has been offset by its retreat from nuclear, and its emissions have risen. But subsidies there and elsewhere have boosted supply chains and lowered the cost of renewable technologies.

During the 2010s the levelised cost (that is the average lifetime cost of equipment, per megawatt hour of electricity generated) of solar, offshore wind and onshore wind fell by 87%, 62% and 56%, respectively, according to BloombergNEF, an energy-data outfit (see chart overleaf). This has allowed deployments that were unthinkable in the 2000s. Britain now has more than 2,000 offshore wind turbines. They are built by developers chosen based on how low a price they are willing to take for their electricity (the government pledges to make the cost up if the market price falls below it).

In 2015 winning bids were well over £100 ($123) per MWh, far higher than the cost of fossil-fuel electricity. Thanks to predictable policy, fierce competition and technical progress, a recent auction brought a bid as low as £39.65 per MWh, roughly the level of average wholesale power prices. Solar and onshore wind are even less expensive. About two-thirds of the world’s population live in countries where renewables represent the cheapest source of new power generation, says BloombergNEF.

Solar power is the really spectacular achiever, outstripping the expectations of its most fervent boosters. Ramez Naam, a bullish solar investor, recently recalibrated his expectations to foresee a future of “insanely cheap” solar power. By 2030, he reckons, in sunny parts of the world, building large new solar installations from scratch will be a cheaper way of getting electricity than operating fully depreciated fossil-fuel plants, let alone building new ones. Michael Liebreich, a consultant on renewable energies, speculates about a “renewable singularity” in which cheap renewable electricity opens up new markets that demand new capacity which makes electricity cheaper still.

Even without such speculative wonders, the effect of renewables is appreciable. Together with natural gas, which America’s fracking revolution has made cheaper, solar and wind are already squeezing coal, the energy sector’s biggest emitter (a megawatt of coal produces a stream of emissions twice the size of that given off by a megawatt of gas). In 2018 coal’s share of global energy supply fell to 27%, the lowest in 15 years. The pressure that they can apply to oil is not yet as great, because oil mostly drives cars, and electric cars are still rare. But as that changes, renewables will come for oil, as they are already coming for gas.

There are stumbling blocks. Neither the sun nor the wind produces energy consistently. Germany’s solar-power installations produce five times more electricity in the summer than they do in the winter, when demand for electricity is at its peak. Wind strengths vary not just from day to day but from season to season and, to some extent, year to year. This amounts to a speed bump for renewables, not a blockade. Long transmission lines that keep losses low by working at very high voltages can move electricity from oversupplied areas to those where demand is surging. Lithium-ion batteries can store extra energy and release it as needed. The economic stimulus China announced in March includes both ultra-high-voltage grids and electric-vehicle-charging infrastructure.

Thou orb aloft, somewhat dazzling

As the sun and wind account for a larger share of power, renewables might store power by splitting water to create hydrogen to be burned later. More ambitiously, if technologies for pulling carbon dioxide back out of the air improve, such hydrogen could be combined with that scavenged carbon to make fossil-free fuels.

In doing so, they might help remedy the other problem with renewables. There are some emissions which even very cheap electricity cannot replace. Lithium-ion batteries are too bulky to power big planes on long flights, which is where artificial fuels might come in. Some industrial processes, such as cement-making, give out carbon dioxide by their very nature. They may require technology that intercepts the carbon dioxide before it gets into the atmosphere and squirrels it away underground. When emissions cannot be avoided—as may be the case with some of those from farmland—they will need to be offset by removing carbon dioxide from the atmosphere either with trees or technology.

None of this happens, though, without investment. The International Renewable Energy Agency, an advisory group, estimates that $800bn of investment in renewables is needed each year until 2050 for the world to be on course for less than 2°C of warming, with more than twice that needed for electric infrastructure and efficiency. In 2019 investment in renewables was $250bn. The big oil and gas firms invested twice as much in fossil-fuel extraction.

If governments want to limit climate change, therefore, they must do more. They do not have to do everything. If policy choices show that the road away from fossil fuels is right, private capital will follow. Investors are already wary of fossil-fuel companies, eyeing meagre returns and the possibility that action on climate change will leave firms with depreciating assets.

But governments need to make the signals clear. Around the world, they currently provide more than $400bn a year in direct support for fossil-fuel consumption, more than twice what they spend subsidising renewable production. A price on carbon, which hastens the day when new renewables are cheaper than old fossil-fuel plants, is another crucial step. So is research spending aimed at those emissions which are hard to electrify away. Governments have played a large role in the development of solar panels, wind turbines and fracking. There is a lot more to do.

However much they do, though, and however well they do it, they will not stop the climate change at today’s temperature of 1°C above the pre-industrial. Indeed, they will need to expand their efforts greatly to meet the 2°C target; on today’s policies, the rise by the end of the century looks closer to 3°C. This means that as well as trying to limit climate change, the world also needs to learn how to adapt to it. ■

Correction (May 22nd 2020): This article previously stated that Britain had 10,000 offshore wind turbines. In fact that is the total number of turbines; only 2,016 are offshore. We’re sorry for the error.

This article appeared in the Schools brief section of the print edition under the headline “Not-so-slow burn”

Book Review: Why Science Denialism Persists (Undark)

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Two new books explore what motivates people to reject science — and why it’s so hard to shake deep-seated beliefs.

By Elizabeth Svoboda – 05.22.2020

To hear some experts tell it, science denial is mostly a contemporary phenomenon, with climate change deniers and vaccine skeptics at the vanguard. Yet the story of Galileo Galilei reveals just how far back denial’s lineage stretches.

BOOK REVIEW “Galileo and the Science Deniers,” by Mario Livio (Simon & Schuster, 304 pages).

Years of astronomical sightings and calculations had convinced Galileo that the Earth, rather than sitting at the center of things, revolved around a larger body, the sun. But when he laid out his findings in widely shared texts, as astrophysicist Mario Livio writes in “Galileo and the Science Deniers,” the ossified Catholic Church leadership — heavily invested in older Earth-centric theories — aimed its ire in his direction.

Rather than revise their own maps of reality to include his discoveries, clerics labeled him a heretic and banned his writings. He spent the last years of his life under house arrest, hemmed in by his own insistence on the expansiveness of the cosmos.

Nearly 400 years later, the legacy of denial remains intact in some respects. Scientists who publish research about climate change or the safety of genetically modified crops still encounter the same kind of pushback from deniers that Galileo did. Yet denialism has also sprouted some distinctly modern features: As Alan Levinovitz points out in “Natural: How Faith in Nature’s Goodness Leads to Harmful Fads, Unjust Laws, and Flawed Science,” sometimes we ourselves can become unwitting purveyors of denial, falling prey to flawed or false beliefs we may not realize we’re holding.

Levinovitz passionately protests the common assumption that natural things are inherently better than unnatural ones. Not only do people automatically tend to conclude organic foods are healthier, many choose “natural” or “alternative” methods of cancer treatment over proven chemotherapy regimens. Medication-free childbirth, meanwhile, is now considered the gold standard in many societies, despite mixed evidence of its health benefits for mothers and babies.

BOOK REVIEW “Natural: How Faith in Nature’s Goodness Leads to Harmful Fads, Unjust Laws, and Flawed Science,” by Alan Levinovitz (Beacon Press, 264 pages).

“What someone calls ‘natural’ may be good,” writes Levinovitz, a religion professor at James Madison University, “but the association is by no means necessary, or even likely.” Weaving real-life examples with vivid retellings of ancient myths about nature’s power, he demonstrates that our pro-natural bias is so pervasive that we often lose the ability to see it — or to admit the legitimacy of science that contradicts it.

From this perspective, science denial starts to look like a stunted outgrowth of what we typically consider common sense. In Galileo’s time, people thought it perfectly sensible that the planet they inhabited was at the center of everything. Today, it might seem equally sensible that it’s always better to choose natural products over artificial ones, or that a plant burger ingredient called “soy leghemoglobin” is suspect because it’s genetically engineered and can’t be sourced in the wild. Yet in these cases, what we think of as common sense turns out to be humbug.

In exploring the past and present of anti-science bias, Livio and Levinovitz show how deniers’ basic toolbox has not changed much through the centuries. Practitioners marshal arguments that appeal to our tendency to think in dichotomies: wrong or right, saved or damned, pure or tainted. Food is either nourishing manna from the earth or processed, artificial junk. The Catholic Church touted its own supreme authority while casting Galileo as an unregenerate apostate.

In the realm of denialism, Levinovitz writes, “simplicity and homogeneity take precedence over diversity, complexity, and change. Righteous laws and rituals are universal. Disobedience is sacrilege.”

The very language of pro-nature, anti-science arguments, Levinovitz argues, is structured to play up this us-versus-them credo. Monikers like Frankenfood — often used to describe genetically-modified (GM) crops — frame the entire GM food industry as monstrous, a deviation from the supposed order of things. And in some circles, he writes, the word “unnatural” has come to be almost a synonym for “moral deficiency.” Not only is such black-and-white rhetoric seductive, it can give deniers the heady sense that they occupy the moral high ground.

Both pro-natural bias and the Church’s crusade against Galileo reflect the human penchant to fit new information into an existing framework. Rather than scrapping or changing that framework, we try to jerry-rig it to make it function. Some of the jerry-rigging examples the authors describe are more toxic than others: Opting for so-called natural foods despite dubious science on their benefits, for instance, is less harmful than denying evidence of a human-caused climate crisis.

What’s more, many people actually tend to cling harder to their beliefs in the face of contradictory evidence. Studies confirm that facts and reality aren’t likely to sway most people’s pre-existing views. This is as true now as it was at the close of the Renaissance, as shown by some extremists’ stubborn denial that the Covid-19 virus is dangerous.

In the realm of denialism, “simplicity and homogeneity take precedence over diversity, complexity, and change.”

In one of his book’s most compelling chapters, Livio takes us inside a panel of theologians that convened in 1616 to rule on whether the sun was at the center of things. None of Galileo’s incisive arguments swayed their thinking one iota. “This proposition is foolish and absurd in philosophy,” the theologians wrote, “and formally heretical, since it explicitly contradicts in many places the sense of Holy Scripture.” Cardinal Bellarmino warned Galileo that if he did not renounce his heliocentric views, he could be thrown into prison.

Galileo’s discoveries threatened to topple a superstructure that the Church had spent hundreds of years buttressing. In making their case against him, his critics liked to cite a passage from Psalm 93: “The world also is established that it cannot be moved.”

Galileo refused to cave. In his 1632 book, “Dialogue Concerning the Two Chief World Systems,” he did give the views of Pope Urban VIII an airing: He repeated Urban’s statement that no human could ever hope to decode the workings of the universe. But Livio slyly points out that Galileo put these words in the mouth of a ridiculous character named Simplicio. It was a slight Urban would not forgive. “May God forgive Signor Galilei,” he intoned, “for having meddled with these subjects.”

At the close of his 1633 Inquisition trial, Galileo was forced to declare that he abandoned any belief that the Earth revolved around the sun. “I abjure, curse, and detest the above-mentioned errors and heresies.” He swore that he would never again say “anything which might cause a similar suspicion about me.” Yet as he left the courtroom, legend goes, he muttered to himself “E pur si muove” (And yet it moves).

In the face of science denial, Livio observes, people have taken up “And yet it moves” as a rallying cry: a reminder that no matter how strong our prejudices or presuppositions, the facts always remain the same. But in today’s “post-truth era,” as political theorist John Keane calls it, with little agreement on what defines a reliable source, even the idea of an inescapable what is seems to have receded from view.

Levinovitz’s own evolution in writing “Natural” reveals how hard it can be to elevate facts above all, even for avowed anti-deniers. When he began his research, he picked off instances of pro-natural bias as if they were clay pigeons, confident in the rigor of his approach. “Confronted with a false faith, I had resolved that it was wholly evil,” he reflects.

Yet he later concedes that a favoritism toward nature is logical in domains like sports, which celebrate the potential of the human body in its unaltered form. He also accepts one expert’s point that it makes sense to buy organic if the pesticides used are less dangerous to farm workers than conventional ones. By the end of the book, he finds himself in a more nuanced place: “The art of celebrating humanity and nature,” he concludes, depends on “having the courage to embrace paradox.” His quest to puncture the myth of the natural turns out to have been dogmatic in its own way.

In acknowledging this, Levinovitz hits on something important. When deniers take up arms, it’s tempting to follow their lead: to use science to build an open-and-shut case that strikes with the finality of a courtroom witness pointing out a killer.

But as Galileo knew — and as Levinovitz ultimately concedes — science, in its endlessly unspooling grandeur, tends to resist any conclusion that smacks of the absolute. “What only science can promise,” Livio writes, “is a continuous, midcourse self-correction, as additional experimental and observational evidence accumulates, and new theoretical ideas emerge.”

In their skepticism of pat answers, these books bolster the case that science’s strength is in its flexibility — its willingness to leave room for iteration, for correction, for innovation. Science is an imperfect vehicle, as any truth-seeking discipline must be. And yet, as Galileo would have noted, it moves.

Elizabeth Svoboda is a science writer based in San Jose, California. Her most recent book for children is “The Life Heroic.”

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Opinion: The Roots of Modern Medical Denialism

Zizek: Podemos vencer as cidades pós-humanas (Outras Palavras)

Em Nova York, constrói-se, agora, uma distopia: não haverá contato social; as maiorias sobreviverão de trabalhos braçais e subalternos; corporações e Estado controlarão os inseridos. Alternativa: incorporar as novas tecnologias ao Comum

Outras Palavras Tecnologia em Disputa

Por Slavoj Žižek – publicado 21/05/2020 às 21:49 – Atualizado 21/05/2020 às 22:06

Por Slavoj Zizek | Tradução de Simone Paz

As funções básicas do Estado de Nova York, muito em breve, poderão ser “reimaginadas” graças à aliança do governador Andrew Cuomo com a Big Tech personificada. Seria este o campo de testes para um futuro distópico sem contato físico?

Parece que a escolha básica que nos resta para lidar com a pandemia se reduz a duas opções: uma é ao estilo de Trump (com uma volta à atividade econômica sob as condições de liberdade de mercado e lucratividade, mesmo que isso traga milhares de mortes a mais); a outra é a que nossa mídia chama de o “jeitinho chinês” (um controle estatal, total e digitalizado, dos indivíduos).

Entretanto, nos EUA, ainda existe uma terceira opção, que vem sendo divulgada pelo governador de Nova York, Andrew Cuomo, e pelo ex-CEO do Google, Eric Schmidt — em conjunto com Michael Bloomberg e Bill Gates e sua esposa Melinda, nos bastidores. Naomi Klein e o The Intercept chamam essa alternativa de Screen New Deal [alusão jocosa ao Green New Deal, que pressupõe uma Virada Sócioambiental. Screen New Deal seria algo como Virada para dentro das Telas] Ele vem com a promessa de manter o indivíduo a salvo das infecções, mantendo todas as liberdades pessoais que interessam aos liberais — mas será que tem chances de funcionar?

Em uma de suas reflexões sobre a morte, o comediante de stand-up Anthony Jeselnik fala sobre sua avó: “Nós achávamos que ela tinha morrido feliz, enquanto dormia. Mas a autópsia revelou uma verdade horrível: ela morreu durante a autópsia”. Esse é o problema da autópsia de Eric Schmidt sobre nossa situação: a autópsia e suas implicações tornam nossa situação muito mais catastrófica do que é para ser.

Cuomo e Schmidt anunciaram um projeto para “reimaginar a realidade pós-Covid do estado de Nova York, com ênfase na integração permanente da tecnologia em todos os aspectos da vida cívica”. Na visão de Klein, isso levará a um “futuro-sem-contato permanente, altamente lucrativo”, no qual não existirá o dinheiro vivo, nem a necessidade de sair de casa para gastá-lo. Todos os serviços e mercadorias possíveis poderão ser encomendados pela internet, entregues por drone, e “compartilhados numa tela, por meio de uma plataforma”. E, para fazer esse futuro funcionar, seria necessário explorar massivamente “trabalhadores anônimos aglomerados em armazéns, data centers, fábricas de moderação de conteúdo, galpões de manufatura de eletrônicos, minas de lítio, fazendas industriais, plantas de processamento de carne, e prisões”. Existem dois aspectos cruciais que chamam a atenção nesta descrição logo de cara.

O primeiro é o paradoxo de que os privilegiados que poderão usufruir de uma vida nos ambientes sem contato serão, também, os mais controlados: toda a vida deles estará nua à verdadeira sede do poder, à combinação do governo com a Big Tech. Está certo que as redes que são a alma de nossa existência estejam nas mãos de empresas privadas como Google, Amazon e Apple? Empresas que, fundidas com agências de segurança estatais, terão a capacidade de censurar e manipular os dados disponíveis para nós ou mesmo nos desconectar do espaço público? Lembre-se de que Schmidt e Cuomo recebem imensos investimentos públicos nessas empresas — então, não deveria o público ter também acesso a elas e poder controlá-las? Em resumo, como propõe Klein, eles não deveriam ser transformados em serviços públicos sem fins lucrativos? Sem um movimento semelhante, a democracia, em qualquer sentido significativo, será de fato abolida, já que o componente básico de nossos bens comuns — o espaço compartilhado de nossa comunicação e interação — estará sob controle privado

O segundo aspecto é que o Screen New Deal intervém na luta de classes num ponto bem específico e preciso. A crise do vírus nos conscientizou completamente do papel crucial daqueles que David Harvey chamou de “nova classe trabalhadora”: cuidadores de todos os tipos, desde enfermeiros até aqueles que entregam comida e outros pacotes, ou os que esvaziam nossas lixeiras, etc. Para nós, que conseguimos nos auto-isolar, esses trabalhadores se tornaram nosso principal contato com outro, em sua forma corpórea, uma fonte de ajuda, mas também de possível contágio. O Screen New Deal não passa de um plano para minimizar o papel visível dessa classe de cuidadores, que deve permanecer não-isolada, praticamente desprotegida, expondo-se ao perigo viral, para que nós, os privilegiados, possamos sobreviver em segurança — alguns até sonham com a possibilidade de que robôs passem a tomar conta dos idosos e lhes façam companhia… Mas esses cuidadores invisíveis podem se rebelar, exigindo maior proteção: na indústria de frigoríficos nos EUA, milhares de trabalhadores tiveram a covid, e dezenas morreram; e coisas semelhantes estão acontecendo na Alemanha. Agora, novas formas de luta de classes vão surgir

Se levarmos esse projeto à sua conclusão hiperbólica, ao final do Screen New Deal existe a ideia de um cérebro conectado, de nossos cérebros compartilhando diretamente experiências em uma Singularidade, uma espécie de autoconsciência coletiva divina. Elon Musk, outro gênio da tecnologia de nossos tempos, recentemente declarou que ele acredita que em questão de 10 anos a linguagem humana estará obsoleta e que, se alguém ainda a utilizar, será “por motivos sentimentais”. Como diretor da Neuralink, ele diz que planeja conectar um dispositivo ao cérebro humano dentro de 12 meses

Esse cenário, quando combinado com a extrapolação do futuro em casa de Naomi Klein, a partir das ambições dos simbiontes de Big Tech de Cuomo, não lembra a situação dos humanos no filme Matrix? Protegidos, fisicamente isolados e sem palavras em nossas bolhas de isolamento, estaremos mais unidos do que nunca, espiritualmente, enquanto os senhores da alta tecnologia lucram e uma multidão de milhões de humanos invisíveis faz o trabalho pesado — uma visão de pesadelo, se é que alguma vez existiu alguma

No Chile, durante os protestos que eclodiram em outubro de 2019, uma pichação num muro dizia: “Outro fim de mundo é possível”. Essa deveria ser nossa resposta para o Screen New Deal: sim, nosso mundo chegou ao fim, mas um futuro-sem-contato não é a única alternativa, outro fim de mundo é possível.

Countries should seize the moment to flatten the climate curve (The Economist)

economist.com

May 21st 2020 7-8 minutes


The pandemic shows how hard it will be to decarbonise—and creates an opportunity


Editor’s note: Some of our covid-19 coverage is free for readers of The Economist Today, our daily newsletter. For more stories and our pandemic tracker, see our hub

FOLLOWING THE pandemic is like watching the climate crisis with your finger jammed on the fast-forward button. Neither the virus nor greenhouse gases care much for borders, making both scourges global. Both put the poor and vulnerable at greater risk than wealthy elites and demand government action on a scale hardly ever seen in peacetime. And with China’s leadership focused only on its own advantage and America’s as scornful of the World Health Organisation as it is of the Paris climate agreement, neither calamity is getting the co-ordinated international response it deserves.

The two crises do not just resemble each other. They interact. Shutting down swathes of the economy has led to huge cuts in greenhouse-gas emissions. In the first week of April, daily emissions worldwide were 17% below what they were last year. The International Energy Agency expects global industrial greenhouse-gas emissions to be about 8% lower in 2020 than they were in 2019, the largest annual drop since the second world war.

That drop reveals a crucial truth about the climate crisis. It is much too large to be solved by the abandonment of planes, trains and automobiles. Even if people endure huge changes in how they lead their lives, this sad experiment has shown, the world would still have more than 90% of the necessary decarbonisation left to do to get on track for the Paris agreement’s most ambitious goal, of a climate only 1.5°C warmer than it was before the Industrial Revolution.

But as we explain this week (see article) the pandemic both reveals the size of the challenge ahead and also creates a unique chance to enact government policies that steer the economy away from carbon at a lower financial, social and political cost than might otherwise have been the case. Rock-bottom energy prices make it easier to cut subsidies for fossil fuels and to introduce a tax on carbon. The revenues from that tax over the next decade can help repair battered government finances. The businesses at the heart of the fossil-fuel economy—oil and gas firms, steel producers, carmakers—are already going through the agony of shrinking their long-term capacity and employment. Getting economies in medically induced comas back on their feet is a circumstance tailor-made for investment in climate-friendly infrastructure that boosts growth and creates new jobs. Low interest rates make the bill smaller than ever.

Take carbon-pricing first. Long cherished by economists (and The Economist), such schemes use the power of the market to incentivise consumers and firms to cut their emissions, thus ensuring that the shift from carbon happens in the most efficient way possible. The timing is particularly propitious because such prices have the most immediate effects when they tip the balance between two already available technologies. In the past it was possible to argue that, although prices might entrench an advantage for cleaner gas over dirtier coal, renewable technologies were too immature to benefit. But over the past decade the costs of wind and solar power have tumbled. A relatively small push from a carbon price could give renewables a decisive advantage—one which would become permanent as wider deployment made them cheaper still. There may never have been a time when carbon prices could achieve so much so quickly.

Carbon prices are not as popular with politicians as they are with economists, which is why too few of them exist. But even before covid-19 there were hints their time was coming. Europe is planning an expansion of its carbon-pricing scheme, the largest in the world; China is instituting a brand new one. Joe Biden, who backed carbon prices when he was vice-president, will do so again in the coming election campaign—and at least some on the right will agree with that. The proceeds from a carbon tax could raise over 1% of GDP early on and would then taper away over several decades. This money could either be paid as a dividend to the public or, as is more likely now, help lower government debts, which are already forecast to reach an average of 122% of GDP in the rich world this year, and will rise further if green investments are debt-financed.

Carbon pricing is only part of the big-bang response now possible. By itself, it is unlikely to create a network of electric-vehicle charging-points, more nuclear power plants to underpin the cheap but intermittent electricity supplied by renewables, programmes to retrofit inefficient buildings and to develop technologies aimed at reducing emissions that cannot simply be electrified away, such as those from large aircraft and some farms. In these areas subsidies and direct government investment are needed to ensure that tomorrow’s consumers and firms have the technologies which carbon prices will encourage.

Some governments have put their efforts into greening their covid-19 bail-outs. Air France has been told either to scrap domestic routes that compete with high-speed trains, powered by nuclear electricity, or to forfeit taxpayer assistance. But dirigisme disguised as a helping hand could have dangerous consequences: better to focus on insisting that governments must not skew their bail-outs towards fossil fuels. In other countries the risk is of climate-damaging policies. America has been relaxing its environmental rules further during the pandemic. China—whose stimulus for heavy industry sent global emissions soaring after the global financial crisis—continues to build new coal plants (see article).

Carpe covid

The covid-19 pause is not inherently climate-friendly. Countries must make it so. Their aim should be to show by 2021, when they gather to take stock of progress made since the Paris agreement and commit themselves to raising their game, that the pandemic has been a catalyst for a breakthrough on the environment.

Covid-19 has demonstrated that the foundations of prosperity are precarious. Disasters long talked about, and long ignored, can come upon you with no warning, turning life inside out and shaking all that seemed stable. The harm from climate change will be slower than the pandemic but more massive and longer-lasting. If there is a moment for leaders to show bravery in heading off that disaster, this is it. They will never have a more attentive audience. ■

This article appeared in the Leaders section of the print edition under the headline “Seize the moment”

economist.com

Can covid help flatten the climate curve?

May 21st 2020 8-10 minutes


Editor’s note: Some of our covid-19 coverage is free for readers of The Economist Today, our daily newsletter. For more stories and our pandemic tracker, see our hub

AMID COVID-19’s sweeping devastation, its effect on greenhouse gases has emerged as something of a bright spot. Between January and March demand for coal dropped by 8% and oil by 5%, compared with the same period in 2019. By the end of the year energy demand may be 6% down overall, according to the International Energy Agency (IEA), an intergovernmental forecaster, amounting to the largest drop it has ever seen.

Because less energy use means less burning of fossil fuels, greenhouse-gas emissions are tumbling, too. According to an analysis by the Global Carbon Project, a consortium of scientists, 2020’s emissions will be 2-7% lower than 2019’s if the world gets back to prepandemic conditions by mid-June; if restrictions stay in place all year, the estimated drop is 3-13% depending on how strict they are. The IEA’s best guess for the drop is 8%.

That is not enough to make any difference to the total warming the world can expect. Warming depends on the cumulative emissions to date; a fraction of one year’s toll makes no appreciable difference. But returning the world to the emission levels of 2010—for a 7% drop—raises the tantalising prospect of crossing a psychologically significant boundary. The peak in carbon-dioxide emissions from fossil fuels may be a lot closer than many assume. It might, just possibly, turn out to lie in the past.

That emissions from fossil fuels have to peak, and soon, is a central tenet of climate policy. Precisely when they might do so, though, is so policy-dependent that many forecasters decline to give a straight answer. The IEA makes a range of projections depending on whether governments keep on with today’s policies or enact new ones. In the scenario which assumes that current policies stay in place, fossil-fuel demand rises by nearly 30% from 2018 to 2040, with no peak in sight.

The IEA, though, has persistently underestimated the renewable-energy sector. Others are more bullish. Carbon Tracker, a financial think-tank, predicted in 2018 that with impressive but plausible growth in renewable deployment and relatively slow growth in overall demand, even under current policy fossil-fuel emissions should peak in the 2020s—perhaps as early as 2023. Michael Liebreich, who founded BloombergNEF, an energy-data outfit, has also written about a possible peak in the mid 2020s. Depending on how the pandemic pans out he now thinks that it may be in 2023—or may have been in 2019.

Previously, drops in emissions caused by economic downturns have proved only temporary setbacks to the ongoing rise in fossil-fuel use. The collapse of the Soviet Union in 1991, the Asian financial crash in 1997 and the financial crisis of 2007-09 all saw emissions stumble briefly before beginning to rise again (see chart). But if a peak really was a near-term prospect before the pandemic, almost a decade’s worth of setback could mean that, though emissions will rise over the next few years, they never again reach the level they stood at last year.

The alternative, more orthodox pre-covid view was that the peak was both further off and destined to be higher. On this view, emissions will regain their pre-pandemic level within a few years and will climb right on past it. Covid’s damage to the economy probably means that the peak, when it arrives, will be lower than it might have been, says Roman Kramarchuk of S&P Global Platts Analytics, a data and research firm. But an economic dip is unlikely to bring it on sooner.

What, though, if covid does not merely knock demand back, but reshapes it? This shock, unlike prior ones, comes upon an energy sector already in the throes of change. The cost of renewables is dipping below that of new fossil-fuel plants in much of the world. After years of development, electric vehicles are at last poised for the mass market. In such circumstances covid-19 may spur decisions—by individuals, firms, investors and governments—that hasten fossil fuels’ decline.

So far, renewables have had a pretty good pandemic, despite some disruptions to supply chains. With no fuel costs and the preferential access to electricity grids granted by some governments, renewables demand jumped 1.5% in the first quarter, even as demand for all other forms of energy sank. America’s Energy Information Administration expects renewables to surpass coal’s share of power generation in America for the first time this year.

Coal prices have fallen, given the low demand, which may position it well post-pandemic in some places. Even before covid, China was building new coal-fired plants (see article). But the cost of borrowing is also low, and likely to stay that way, which means installing renewables should stay cheap for longer. Renewable developers such as Iberdrola and Orsted, both of which have weathered covid-19 rather well so far, are keen to replace coal on an ever larger scale.

Those who see demand for fossil fuels continuing to climb as populations and economies grow have assumed demand for oil will be much more persistent than that for coal. Coal is almost entirely a source of electricity, which makes it ripe for replacement by renewables. Oil is harder to shift. Electric vehicles are sure to eat into some of its demand; but a rising appetite for petrochemicals and jet fuel, to which lithium-ion batteries offer no competition, was thought likely to offset the loss.

Breaking bounds

Now oil’s future looks much more murky, depending as it does on a gallimaufry of newly questionable assumptions about commuting, airline routes, government intervention, capital spending and price recovery. In the future more people may work from home, and commuting accounts for about 8% of oil demand. But those who do commute may prefer to do so alone in their cars, offsetting some of those gains. Chinese demand for oil has picked up again quickly in part because of reticence about buses and trains.

As to planes, Jeff Currie of Goldman Sachs estimates that demand for oil will recover to pre-crisis levels by the middle of 2022, but that demand for jet fuel may well stay 1.7m barrels a day below what it was as business travel declines. That is equivalent to nearly 2% of oil demand.

Such uncertainty means more trouble for the oil sector, whose poor returns and climate risks have been repelling investors for a while. Companies are slashing spending on new projects. By the mid-2020s today’s underinvestment in oil may boost crude prices—making demand for electric vehicles grow all the faster.

Natural gas, the fossil fuel for which analysts have long predicted continued growth, has weathered the pandemic better than its two older siblings. But it, too, faces accelerating competition. One of gas’s niches is powering the “peaker” plants which provide quick influxes of energy when demand outstrips a grid’s supply. It looks increasingly possible for batteries to take a good chunk of that business.

Those hoping for fossil fuels’ imminent demise should not be overconfident. As lockdowns around the world end, use of dirty fuels will tick back up, as they have in China. Energy emissions no longer rise in lockstep with economic growth, but demand for fossil fuels remains tied to it. Mr Currie of Goldman Sachs, for one, is wary of declaring a permanent decoupling: “I’m not willing to say there is a structural shift in oil demand to GDP.” Even so, a peak of fossil fuels in the 2020s looks less and less farfetched—depending on what governments do next in their struggle with the pandemic. Of all the uncertainties in energy markets, none currently looms larger than that. ■

The religious roots of Trump’s magical thinking on coronavirus (CNN)

Analysis by Daniel Burke, CNN Religion Editor

Updated 1424 GMT (2224 HKT) May 21, 2020

(CNN) As the novel coronavirus has spread across the globe, President Trump has repeated one phrase like a mantra: It will go away.

Since February Trump has said the virus will “go away” at least 15 times, most recently on May 15.

“It’s going to disappear one day,” he said on February 27. “It’s like a miracle.”

Invoking a miracle is an understandable response during a pandemic, but to some, the President’s insistence that the coronavirus will simply vanish sounds dangerously like magical thinking — the popular but baffling idea that we can mold the world to our liking, reality be damned.

The coronavirus, despite Trump’s predictions, has not disappeared. It has spread rapidly, killing more than 90,000 Americans.

In that light, Trump’s response to the pandemic, his fulsome self-praise and downplaying of mass death seems contrary to reality. But long ago, his biographers say, Trump learned how to craft his own version of reality, a lesson he learned in an unlikely place: a church.

It’s called the “power of positive thinking,” and Trump heard it from the master himself: the Rev. Norman Vincent Peale, a Manhattan pastor who became a self-help juggernaut, the Joel Osteen of the 1950s.

“He thought I was his greatest student of all time,” Trump has said.

Undoubtedly, the power of positive thinking has taken Trump a long way — through multiple business failures to the most powerful office in the world.

Trump has repeatedly credited Peale — who died in 1993 — and positive thinking with helping him through rough patches.

Norman Vincent Peale wrote the bestselling 1952 self-help book, "The Power of Positive Thinking." It sold millions of copies.

Norman Vincent Peale wrote the bestselling 1952 self-help book, “The Power of Positive Thinking.” It sold millions of copies.

“I refused to be sucked into negative thinking on any level, even when the indications weren’t great,” Trump said of the early 1990s, when his casinos were tanking and he owed creditors billions of dollars.

But during a global public health crisis there can be a negative side to positive thinking.

“Trump pretending that this pandemic will just go away is not just an unacceptable fantasy,” said Christopher Lane, author of “Surge of Piety: Norman Vincent Peale and the Remaking of American Religious Life.”

“It is in the realm of dangerous delusion.”

Trump says Peale has made him feel better about himself

Though they were professed Presbyterians, it’s more accurate to call Trump’s family Peale-ites.

On Sundays, Trump’s businessman father drove the family from Queens to Peale’s pulpit at Marble Collegiate Church in Manhattan.

The centuries-old edifice was, and remains, the closest thing Trump has to a family church. Funerals for both of his parents were held there, and Peale presided over Trump’s marriage to Ivana at Marble Collegiate in 1977. Two of his siblings were also married in the sanctuary.

The draw, Trump’s biographers say, was Peale, who elevated businessmen like the Trumps to saint-like status as crusaders of American capitalism.

Known as “God’s Salesman,” Peale wrote many self-help books, including “The Power of Positive Thinking,” that sold millions of copies.

From left to right, Donald Trump, Ivana Trump, Ruth Peale and Dr. Norman V. Peale at Peale's 90th birthday party in 1988.

From left to right, Donald Trump, Ivana Trump, Ruth Peale and Dr. Norman V. Peale at Peale’s 90th birthday party in 1988.

Peale drew throngs of followers, but also sharp criticism from Christians who accused him of cherry-picking Bible verses and peddling simplistic solutions.

But the young Donald Trump was hooked.

“He would instill a very positive feeling about God that also made me feel positive about myself,” Trump writes in “Great Again,” one of his books. “I would literally leave that church feeling like I could listen to another three sermons.”

Peale peppered his sermons with pop psychology. Sin and guilt were jettisoned in favor of “spirit-lifters,” “energy-producing thoughts” and “7 simple steps” to happy living.

“Attitudes are more important than facts,” Peale preached, a virtual prophecy of our post-truth age.”Formulate and stamp indelibly on your mind a mental picture of yourself as succeeding,” Peale writes in “The Power of Positive Thinking.”

“Hold this picture tenaciously. Never permit it to fade.”

Peale has also influenced Trump’s spiritual advisers

To this day, Trump surrounds himself with Peale-like figures, particularly prosperity gospel preachers.

One of his closest spiritual confidantes, Florida pastor Paula White, leads the White House’s faith-based office and is a spiritual descendent of Peale’s positive thinking — with a Pentecostal twist.

White, a televangelist, belongs to the Word of Faith movement, which teaches that God bestows health and wealth on true believers.

In a Rose Garden ceremony for the National Day of Prayer earlier this month, White quoted from the Bible’s Book of Job: “If you decree and declare a thing, it will be established.”

“I declare no more delays to the deliverance of Covid-19,” White continued. “No more delays to healing and a vaccination.”

Paula White, a televangelist and religious adviser to President Trump.

Paula White, a televangelist and religious adviser to President Trump.

The Book of Job, a parable of human suffering and powerlessness, may be a strange book for a preacher to cite while “declaring” an end to the pandemic. If it were so easy, Job’s story would involve fewer boils and tortures.

But in a way, White perfectly captures the problem with positive thinking: It tries to twist every situation into a “victory,” even when reality demonstrates otherwise.

“Positive thinking can help people focus on goals and affirm one’s merits,” said Lane, author of the book on Peale. “But it does need a reality check, and to be based in fact.

“Sometimes, the reality is that you’ve failed and need to change course. But to Peale, that wasn’t an option. Even self-doubt was a sin, he taught, an affront to God.

“He had a huge problem with failure,” Lane said. “He would berate people for even talking about it.”

Peale’s teachings can explain why Trump won’t accept criticism

You can hear echoes of Peale’s no-fail philosophy in Trump’s angry response to reporters’ questions about his handling of the coronavirus pandemic, said Trump biographer Michael D’Antonio.

“Nothing is an exchange of ideas or discussion of facts,” D’Antonio said. “Everything is a life or death struggle for the definition of reality. For him, being wrong feels like being obliterated.”

President Donald Trump answers questions with members of the White House Coronavirus Task Force on April 3, 2020 in Washington.

President Donald Trump answers questions with members of the White House Coronavirus Task Force on April 3, 2020 in Washington.

And that’s one reason why the President refuses to accept any criticism or admit to any failure. To do so would puncture his bubble of positivity, not to mention his self-image.

So, despite his administration’s early missteps in preparing for and responding to the coronavirus, Trump won’t acknowledge any errors.

Instead, he has misled the public, claiming in February that the situation was “under control” when it was not; promising a vaccine is coming “very soon,” which it is not; and falsely insisting that “anyone can get tested,” when they could not and many still cannot.

Still, when asked in mid-March to grade his administration’s response, Trump gave himself a perfect score.

“I’d rate it a 10,” he said. “I think we’ve done a great job.”

Trump’s self-appraisal might not match reality. But Peale would be proud.

Ben Tarnoff: Covid-19 and the Cloud (Blueprint Technology/International Progressive)

The internet is a fossil fuel industry.

Ben Tarnoff, 21.05.2020

Ben Tarnoff, co-founder of Logic Magazine, explores the devastating impact of cloud computing on the climate — and makes the case for a radical transformation of the internet as we know it.

As of writing, roughly half of the world’s population is living under lockdown.

Not everyone can remain indoors, of course: millions of working-class people put their lives at risk every day to be the nurses, grocery store clerks, and other essential workers on whom everyone else’s survival depends. But globally, a substantial share of humanity is staying home.

One consequence is a sharp increase in internet usage. Trapped inside, people are spending more time online. The New York Times reports that in January, as China locked down Hubei province — home to Wuhan, the original epicenter of Covid-19 — mobile broadband speeds dropped by more than half because of network congestion. Internet speeds have suffered similar drops across Europe and the United States, as stay-at-home orders have led to spikes in traffic. In Italy, which has one of the highest coronavirus death tolls in the world, home internet use has increased 90 percent.

The internet is already deeply integrated into the daily rhythms of life in much of the world. Under the pressures of the pandemic, however, it has become something more: the place where, for many, life is mostly lived. It is where one spends time with family and friends, goes to class, attends concerts and religious services, buys meals and groceries. It is a source of sustenance, culture, and social interaction; for those who can work from home, it is also a source of income. Quarantine is an ancient practice. Connected quarantine is a paradox produced by a networked age.

Anything that can help people endure long periods of isolation is useful for containing the virus. In this respect, the internet is a blessing — if an unevenly distributed one. Indeed, the pandemic is highlighting the inequalities both within and across countries when it comes to connectivity, and underlining why internet access should be considered a basic human right.

But the new reality of connected quarantine also brings certain risks. The first is social: the greater reliance on online services will place more power in the hands of telecoms and platforms. Our undemocratic digital sphere will only become more so, as the firms that own the physical and virtual infrastructures of the internet come to mediate, and to mold, even more of our existence. The second danger is ecological. The internet already makes very large demands of the earth’s natural systems. As usage increases, those demands will grow.

In our efforts to mitigate the current crisis, then, we may end up making other crises worse. A world in which the internet as it is currently organized becomes more central to our lives will be one in which tech companies exercise more influence over our lives. It may also be one in which life of all kinds becomes harder to sustain, as the environmental impact of a precipitously growing internet accelerates the ongoing collapse of the biosphere — above all, by making the planet hotter.

Machines Heat the Planet

To understand how the internet makes the planet hotter, it helps to begin with a simplified model of what the internet is. The internet is, more or less, a collection of machines that talk to one another. These machines can be big or small — servers or smartphones, say. Every year they become more ubiquitous; in a couple of years, there will be thirty billion of them.

These machines heat the planet in three ways. First, they are made from metals and minerals that are extracted and refined with large inputs of energy, and this energy is generated from burning fossil fuels. Second, their assembly and manufacture is similarly energy-intensive, and thus similarly carbon-intensive. Finally, after the machines are made, there is the matter of keeping them running, which also consumes energy and emits carbon.

Given the breadth and complexity of this picture, it would take a considerable amount of time to map the entire carbon footprint of the internet precisely. So let’s zero in on a single slice: the cloud. If the internet is a collection of machines that talk to one another, the cloud is the subset of machines that do most of the talking. More concretely, the cloud is millions of climate-controlled buildings — ”data centers” — filled with servers. These servers supply the storage and perform the computation for the software running on the internet — the software behind Zoom seders, Twitch concerts, Instacart deliveries, drone strikes, financial trades, and countless other algorithmically organized activities.

The amount of energy consumed by these activities is immense, and much of it comes from coal and natural gas. Data centers currently require 200 terawatt hours per year, roughly the same amount as South Africa. Anders Andrae, a researcher at Huawei, predicts that number will grow 4 to 5 times by 2030. This would put the cloud on par with Japan, the fourth-biggest energy consumer on the planet. Andrae made these predictions before the pandemic, however. All indications suggest that the crisis will supercharge the growth of the cloud, as people spend more time online. This means we could be looking at a cloud even bigger than Japan by 2030 — perhaps even the size of India, the world’s third-biggest energy consumer.

Machine Learning is a Fossil Fuel Industry

What can be done to avert the climate damage of such a development? One approach is to make the cloud run on renewable energy. This doesn’t entirely decarbonize data centers, given the carbon costs associated with the construction of the servers inside of them, but it does reduce their impact. Greenpeace has been waging a campaign along these lines for years, with some success. The use of renewables by data centers has grown, although progress is uneven: according to a recent Greenpeace report, Chinese data centers are still primarily powered by coal. It also remains difficult to accurately gauge how much progress has been made, since corporate commitments to lower carbon emissions are often little more than greenwashing PR. “Greening” one’s data centers can mean any number of things, given a general lack of transparency and reporting standards. A company might buy some carbon offsets, put out a celebratory press release, and call it a day.

Another approach is to increase the energy efficiency of data centers. This is an easier sell for companies, because they have a strong financial incentive to lower their electricity costs: powering and cooling data centers can be extraordinarily expensive. In recent years, they have come up with a number of ways to improve efficiency. The emergence of “hyperscale” data centers, first developed by Facebook, has been especially important. These are vast, automated, streamlined facilities that represent the rationalization of the cloud: they are the digital equivalent of the Fordist assembly line, displacing the more artisanal arrangements of an earlier era. Their economies of scale and obsessive optimizations make them highly energy-efficient, which has in turn moderated the cloud’s power consumption in recent years.

This trend won’t last forever, however. The hyperscalers will max out their efficiency, while the cloud will continue to grow. Even the more conscientious companies will have trouble procuring enough renewables to keep pace with demand. This is why we may also have to contemplate another possibility: not just greening the cloud, or making it more efficient, but constraining its growth.

To consider how we might do that, let’s first consider why the cloud is growing so fast. One of the most important factors is the rise of machine learning (ML). ML is the field behind the current “AI boom.” A powerful tool for pattern recognition, ML can be put to many purposes, from analyzing faces to predicting consumer preferences. To recognize a pattern, though, an ML system must first “learn” the pattern. The way that ML learns patterns is by training on large quantities of data, which is a computationally demanding process. Streaming Netflix doesn’t place much strain on the servers inside a data center; training the ML model that Netflix uses for its recommendation engine probably does.

Because ML hogs processing power, it also carries a large carbon footprint. In a paper that made waves in the ML community, a team at the University of Massachusetts, Amherst found that training a model for natural-language processing — the field that helps “virtual assistants” like Alexa understand what you’re saying — can emit as much as 626,155 pounds of carbon dioxide. That’s about the same amount produced by flying roundtrip between New York and Beijing 125 times.

Training models isn’t the only way that ML contributes to climate change. It has also stimulated a hunger for data that is probably the single biggest driver of the digitization of everything. Corporations and governments now have an incentive to acquire as much data as possible, because that data, with the help of ML, might yield valuable patterns. It might tell them who to fire, who to arrest, when to perform maintenance on a machine, or how to promote a new product. It might even help them build new kinds of services, like facial recognition software or customer-service chatbots. One of the best ways to make more data is to put small connected computers everywhere—in homes and stores and offices and factories and hospitals and cars. Aside from the energy required to manufacture and maintain those devices, the data they produce will live in the carbon-intensive cloud.

The good news is that awareness of ML’s climate impacts is growing, as is the interest among practitioners and activists in mitigating them. Towards that end, one group of researchers is calling for new reporting standards under the banner of “Green AI.” They propose adding a carbon “price tag” to each ML model, which would reflect the costs of building, training, and running it, and which could drive the development of more efficient models.

This is important work, but it needs a qualitative dimension as well as a quantitative one. We shouldn’t just be asking how much carbon an ML application produces. We should also be asking what those applications do.

Do they enable people to lead freer and more self-determined lives? Do they cultivate community and solidarity? Do they encourage more equitable and more cooperative forms of living? Or do they extend corporate and state surveillance and control? Do they give advertisers, employers, and security agencies new ways to monitor and manipulate us? Do they strengthen capitalist class power, and intensify racism, sexism, and other oppressions?

Resistance with Transformation

A good place to start when we contemplate curbing the growth of the cloud, then, is asking whether the activities that are driving its growth contribute to the creation of a democratic society. This question will acquire new urgency in the pandemic, as our societies become more enmeshed in the internet. It is a question that cannot be resolved on a technical basis, however — it is not an optimization problem, like trying to maximize energy efficiency in a data center. That’s because it involves choices about values, and choices about values are necessarily political. Therefore, we need political mechanisms for making these choices collectively.

Politics is necessarily a conflictual affair, and there will be plenty of conflicts that arise in the course of trying to both decarbonize and democratize the internet. For one, there are obvious tensions between the moral imperative of improving and expanding access and the ecological imperative of keeping the associated energy inputs within a sustainable range. But there will also be many cases where restricting and even eliminating certain uses of the internet will serve both social and environmental ends simultaneously.

Consider the fight against facial recognition software that has erupted across the world, from protesters in Hong Kong using lasers to disrupt police cameras to organizers in the United States pushing for municipal bans. Such software is incompatible with basic democratic values; it also helps heat the planet by relying on computationally intensive ML models. Its abolition would thus serve both the people and the planet.

But we need more than abolition. We also need to envision and construct an alternative. A substantive project to decarbonize and democratize the internet must combine resistance with transformation; namely, it must transform how the internet is owned and organized. So long as the internet is held by private firms and run for profit, it will destabilize natural systems and preclude the possibility of democratic control. The supreme law of capitalism is accumulation for accumulation’s sake. Under such a regime, the earth is a set of resources to be extracted, not a set of systems to be repaired, stewarded, and protected. Moreover, there is little room for people to freely choose the course of their lives, because everyone’s choices — even those of capitalists — are constrained by the imperative of infinite accumulation.

Dissolving this law, and formulating a new one, will of course involve a much broader array of struggles than those aimed at building a better internet. But the internet, as its size and significance grows through the pandemic, may very well become a central point of struggle. In the past, the internet has been a difficult issue to inspire mass mobilization around; its current highly privatized form, in fact, is partly due to the absence of popular pressure. The new life patterns of connected quarantine might reverse this trend, as online services become, for many, both a window to the world and a substitute for it, a lifeline and a habitat. Perhaps then the internet will be a place worth struggling to transform, as well as a tool for those struggling to transform everything else.

Bizarre Particles Keep Flying Out of Antarctica’s Ice, and They Might Shatter Modern Physics (Live Science)

By Rafi Letzter September 27, 2018

A team recovers NASA's Antarctic Impulsive Transient Antenna (ANITA) after a successful flight.

A team recovers NASA’s Antarctic Impulsive Transient Antenna (ANITA) after a successful flight. (Image: © Australian Antarctic Division)

There’s something mysterious coming up from the frozen ground in Antarctica, and it could break physics as we know it.

Physicists don’t know what it is exactly. But they do know it’s some sort of cosmic ray — a high-energy particle that’s blasted its way through space, into the Earth, and back out again. But the particles physicists know about — the collection of particles that make up what scientists call the Standard Model (SM) of particle physics — shouldn’t be able to do that. Sure, there are low-energy neutrinos that can pierce through miles upon miles of rock unaffected. But high-energy neutrinos, as well as other high-energy particles, have “large cross-sections.” That means that they’ll almost always crash into something soon after zipping into the Earth and never make it out the other side.

And yet, since March 2016, researchers have been puzzling over two events in Antarctica where cosmic rays did burst out from the Earth, and were detected by NASA’s Antarctic Impulsive Transient Antenna (ANITA) — a balloon-borne antenna drifting over the southern continent.

ANITA is designed to hunt cosmic rays from outer space, so the high-energy neutrino community was buzzing with excitement when the instrument detected particles that seemed to be blasting up from Earth instead of zooming down from space. Because cosmic rays shouldn’t do that, scientists began to wonder whether these mysterious beams are made of particles never seen before.

Since then, physicists have proposed all sorts of explanations for these “upward going” cosmic rays, from sterile neutrinos (neutrinos that rarely ever bang into matter) to “atypical dark matter distributions inside the Earth,” referencing the mysterious form of matter that doesn’t interact with light.

All the explanations were intriguing, and suggested that ANITA might have detected a particle not accounted for in the Standard Model. But none of the explanations demonstrated conclusively that something more ordinary couldn’t have caused the signal at ANITA.

A new paper uploaded today (Sept. 26) to the preprint server arXiv changes that. In it, a team of astrophysicists from Penn State University showed that there have been more upward-going high-energy particles than those detected during the two ANITA events. Three times, they wrote, IceCube (another, larger neutrino observatory in Antarctica) detected similar particles, though no one had yet connected those events to the mystery at ANITA. And, combining the IceCube and ANITA data sets, the Penn State researchers calculated that, whatever particle is bursting up from the Earth, it has much less than a 1-in-3.5 million chance of being part of the Standard Model. (In technical, statistical terms, their results had confidences of 5.8 and 7.0 sigma, depending on which of their calculations you’re looking at.)

Breaking physics

Derek Fox, the lead author on the new paper, said that he first came across the ANITA events in May 2018, in one of the earlier papers attempting to explain them.

“I was like, ‘Well this model doesn’t make much sense,'” Fox told Live Science, “but the [ANITA] result is very intriguing, so I started checking up on it. I started talking to my office neighbor Steinn Sigurdsson [the second author on the paper, who is also at Penn State] about whether maybe we could gin up some more plausible explanations than the papers that have been published to date.”

Fox, Sigurdsson and their colleagues started looking for similar events in data collected by other detectors. When they came across possible upward-going events in IceCube data, he said, he realized that he might have come across something really game-changing for physics.

The surface facility for the IceCube experiment, which is located under nearly 1 mile (1.6 kilometers) of ice in Antarctica. IceCube suggests ghostly neutrinos don't exist, but a new experiment says they do.
The surface facility for the IceCube experiment, which is located under nearly 1 mile (1.6 kilometers) of ice in Antarctica. IceCube suggests ghostly neutrinos don’t exist, but a new experiment says they do. (Image credit: Courtesy of IceCube Neutrino Observatory)

“That’s what really got me going, and looking at the ANITA events with the utmost seriousness,” he said, later adding, “This is what physicists live for. Breaking models, setting new constraints [on reality], learning things about the universe we didn’t know.”

As Live Science has previously reported, experimental, high-energy particle physics has been at a standstill for the last several years. When the 17-mile (27 kilometers), $10 billion Large Hadron Collider (LHC) was completed on the border between France and Switzerland in 2009, scientists thought it would unlock the mysteries of supersymmetry — the mysterious, theoretical class of particles that scientists suspect might exist outside of current physics, but had never detected. According to supersymmetry, every existing particle in the Standard Model has a supersymmetric partner. Researchers suspect these partners exist because the masses of known particles are out of wack — not symmetric with one another.

“Even though the SM works very well in explaining a plethora of phenomena, it still has many handicaps,” said Seyda Ipek, a particle physicist at UC Irvine, who was not involved in the current research. “For example, it cannot account for the existence of dark matter, [explain  mathematical weirdness in] neutrino masses, or the matter-antimatter asymmetry of the universe.”

Instead, the LHC confirmed the Higgs boson, the final undetected part of the Standard Model, in 2012. And then it stopped detecting anything else that important or interesting. Researchers began to question whether any existing physics experiment could ever detect a supersymmetric particle.

“We need new ideas,” Jessie Shelton, a theoretical physicist at the University of Illinois at Urbana-Champaign, told Live Science in May, around the same time that Fox first became interested in the ANITA data.

Now, several scientists not involved in the Penn State paper told Live Science that it offers solid (if incomplete) evidence that something new has really arrived.

“It was clear from the start that if the ANITA anomalous events are due to particles that had propagated through thousands of kilometers of Earth, then those particles were very likely not SM particles,” said Mauricio Bustamante, an astrophysicist at the Niels Bohr Institute at the University of Copenhagen, who was not an author on the new paper.Advertisement

“The paper that appeared today is the first systematic calculation of how unlikely is that these events were due to SM neutrinos,” he added. “Their result strongly disfavors a SM explanation.”

“I think it’s very compelling,” said Bill Louis, a neutrino physicist at Los Alamos National Laboratory who was not involved in the paper and has been following research into the ANITA events for several months.

If standard model particle created these anomalies, they should have been neutrinos. Researchers know that both because of the particles they decayed into, and because no other standard model particle would even have a fragment of a chance in a million of making it through the Earth.

But neutrinos of this energy, Louis said, just shouldn’t make it through the Earth often enough for ANITA or IceCube to detect. It’s not how they work. But neutrino detectors like ANITA and IceCube don’t detect neutrinos directly. Instead, they detect the particles that neutrinos decay into after smashing into Earth’s atmosphere or Antarctic ice. And there are other events that can generate those particles, triggering the detectors. This paper strongly suggests that those events must have been supersymmetric, Louis said, though he added that more data is necessary.

Fox and his colleagues went on to argue that the particles are most likely to be a sort of theoretical supersymmetric particle called “stau sleptons.” Stau sleptons are supersymmetric versions of a Standard Model particle called the tau lepton. The “S” is for “supersymmetric” (really). [Sparticles to Neutrinos: The Coolest Little Particles in the Universe]

Louis said that at this stage he thinks that level of specificity is “a bit of a stretch.”

The authors make a strong statistical case that no conventional particle would be likely to travel through the Earth in this way, he said, but there isn’t yet enough data to be certain. And there’s certainly not enough that they could definitively figure out what particle made the trip.

Fox didn’t dispute that.

“As an observer, there’s no way that I can know that this is a stau,” he said. “From my perspective, I go trawling around trying to discover new things about the universe, I come upon some really bizarre phenomenon, and then with my colleagues, we do a little literature search to see if anybody has ever thought that this might happen. And then if we find papers in the literature, including one from 14 years ago that predict something just like this phenomenon, then that gets really high weight from me.”

He and his colleagues did find a long chain of papers from theorists predicting that stau sleptons might turn up like this in neutrino observatories. And because those papers were written before the ANITA anomaly, Fox said, that suggests strongly to him that those theorists were onto something.

But there remains a lot of uncertainty on that front, he said. Right now, researchers just know that whatever this particle is, it interacts very weakly with other particles, or else it would have never survived the trip through the planet’s dense mass. 

What’s next

Every physicist who spoke with Live Science agreed that researchers need to collect more data to verify that ANITA and IceCube have cracked supersymmetry. It’s possible, Fox said, that when IceCube researchers dig into their data archives they’ll find more, similar events that had previously gone unnoticed. Louis and Bustamante both said that NASA should run more ANITA flights to see if similar upward-going particles turn up.

“For us to be certain that these events are not due to unknown unknowns — say, unmapped properties of the Antarctic ice — we would like other instruments to also detect these sort of events,” Bustamante said.

A team prepares ANITA for flight over the Antarctic ice. (Image credit: NASA)

Over the long-term, if these results are confirmed and the details of what particle is causing them are nailed down, several researchers said that the ANITA anomaly might unlock even more new physics at the LHC.

“Any observation a non-SM particle would be a game changer, because it would tell us which path we should take after the SM,” Ipek said. “The type of [supersymmetric] particle they claim to have produced the signals of, sleptons, are very hard to produce and detect at LHC.”

“So, it is very interesting if they can be observed by other types of experiments. Of course, if this is true, then we will expect a ladder of other [supersymmetric] particles to be observed at the LHC, which would be a complementary test of the claims.”Advertisement

In other words, the ANITA anomalies could offer scientists the key information necessary to properly tune the LHC to unlock more of supersymmetry. Those experiments might even turn up an explanation for dark matter.

Right now, Fox said, he’s just hungry for more data.

Originally published on Live Science.

A Imolação do Mito (Diário do Poder)

Mércio Gomes – 15/05/2020 às 23:30 | Atualizado às 08:05

Um ensaio de interpretação mito-antropológica


Apresentação

A campanha política que resultou na vitória eleitoral de Jair Bolsonaro é dos mais brilhantes feitos pessoais já realizados no Brasil. Com o mínimo de recursos financeiros e com a ajuda de alguns amigos e uma penca de seguidores que havia conquistado algum tempo antes, Jair Bolsonaro batalhou pela confiança de milhões de brasileiros usando de uma linguagem simples e direta, que calou fundo na alma de quem há muito sofria de opressão social e cultural e vivia meio desorientado no mar de novidades extravagantes e práticas amorais. Ao final, alcançou uma vitória retumbante nas urnas de 2018. E o Brasil entrou em êxtase para muitos e desespero para os demais.

Como um homem simples, de origem caipira (modalidade italiana), com conhecimento e estudos limitados sobre o Brasil e o mundo, formado sob a disciplina moral e política de uma instituição conhecida pela rigidez doutrinária, conseguiu alçar-se a tão alto posto na política nacional no intervalo de tempo tão curto e tão de súbito, sem nenhum sinal de aviso, premonição, ou desígnio?

Evidentemente porque ele tem dentro de si um gênio intenso e indefinido de percepção humana, sagacidade e astúcia que o faz alcançar em alto grau o entendimento e a comunicação com seus semelhantes, e dar-lhes segurança moral e sentimento de pertinência, além de uma irrefreável vontade de poder que o guia por um caminho estreito e áspero que o fortalece para suportar as agruras do desapreço e os ataques viciosos de toda sorte de inimigos. Esse gênio foi moldado na vivência crua e autêntica da cultura do povo brasileiro rural e semiurbano – intuitiva, desconfiada, modesta, honesta, tinhosa e transcendental. Por fim, ao contrário de tantos outros que almejaram igual destino, Bolsonaro tem fortuna! Aquela fortuna que só uns poucos recebem das forças da natureza e da cultura, que é mérito do acaso e da sorte, que vem dos deuses ou dos espíritos do mundo. Ou, no melhor do entendimento de Bolsonaro, que vem de Deus Todo-Poderoso, criador do Céu e da Terra. Nisso têm razão seus seguidores mais religiosos: Deus derramou suas maiores graças sobre Bolsonaro!

Junto ao gênio irrefreável, ao alcançar esse posto de proeminência inigualável no Brasil, tido popularmente como um homem raçudo, imprudente e desmedido, Bolsonaro se manteve igual, exatamente o mesmo, ao chegar à presidência da República, como se o Palácio da Alvorada fosse sua casa e seu lar, e o Palácio do Planalto seu escritório particular de ofício.

Lutando para cumprir as metas que traçou em sua campanha Bolsonaro vem mantendo seu eleitorado cativo e embevecido, como sempre, por sua verve estridente e contundente, sem fazer concessões aos bons termos de negociação e sem se importar com a liturgia do cargo supremo. Contudo, concomitantemente, incorreu na reação cruenta e depreciativa dos poderosos perdedores, as gentes do establishment social dominante ciosas de seus privilégios e inconformadas com a ascensão de um representante assumido das classes sociais depreciadas por sua origem, sua humildade social e suas carências educacionais (gente brega e grosseira), uma imprensa gananciosa, porém depreciada e desdenhada, as desvigoradas e viciadas instituições da república – um congresso nacional a serviço de si mesmo, um STF opulento, quase solipsista e desarvorado, e um Judiciário de todo desatento ao juízo e ao cumprimento de seus deveres – todas, nos últimos anos, desafiadas a se auto-reconstituírem por uma nova ética e uma nova governança que sejam propícias às exigências dos novos tempos, ainda indefinidos, porém, sem dúvidas, temerários, ou então, a receber o menoscabo da população e o ímpeto indignado do moralista-mor da República.

Sem adotar qualquer estratégia de recuo ou conciliação, resfolegado por sua intuição política, Bolsonaro persistiu com veemência na sua indômita e inglória luta para manter sua palavra firme na execução das políticas públicas prometidas em campanha – desde a mais simples e elementar até as mais ousadas e sofisticadas – e para fazer recuar ou submeter os adversários e os companheiros de jornada à sua inconciliável vontade. Em troca, as forças que se agregaram contra o concebido salvador da pátria se assomaram cada vez mais ousadas e reptilianas para este agraciado da fortuna. Neste meio termo da pandemia que assola o Brasil e a inocente humanidade, maio de 2020, Bolsonaro alcançou seu ápice de efervescência pessoal e moral ao forçar a destituição do seu ministro da justiça, o insigne ex-juiz Sérgio Moro, que fora responsável pelo dinamismo da Operação Lava Jato e, por consequência, entre tantos outros atos de sentenciar, pela condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por incontornáveis provas de corrupção quando no exercício da presidência da República.

No cômputo parcial dessa aventura ainda inconclusa, parece que o bom homem encontrou o momento de sua verdade, da verdade de sua existência e de seu destino. Do nada subiu aos céus, e do alcançado céu parece querer tombar de chofre à mísera terra. A fortuna sorriu-lhe, mas agora parece arreganhar sua cruel carranca. Aspergido tantas vezes pelas benemerências dos deuses mitológicos, filhos desmedidos de Zeus, agora as Parcas estão soltas no seu encalço.

Não sabemos, ninguém pode saber do que acontecerá a Bolsonaro nos próximos meses de seu mandato. Ou bem se segurará como um político habilidoso, capaz de arregimentar forças políticas na população e no Congresso Nacional para apoiá-lo contra os ataques que se acumulam a cada dia desde as consequências jurídicas da demissão do ex-ministro Sergio Moro e do acúmulo disparado de outros atos intempestivos já ocorridos e certamente a ocorrer, ou bem sucumbirá lentamente, ou talvez de súbito, cortado pela foice inescapável de um impeachment.

Nesse tempos de resguardo, entocados em nossas casas, mal vislumbrando o mundo em funesta inação, acompanhando os acontecimentos e mirando para o futuro, vamos excogitar um pouco melhor sobre Bolsonaro, seu gênio e seu caráter brasileiro, sobre o Brasil que Bolsonaro nos arreganhou com seus gestos desabridos, atitudes toscas e lutas quixóticas, um Brasil que teima em rebater e se esquivar de tudo e qualquer coisa para permanecer o mesmo, sem perder nem os dedos nem os anéis, e que não medirá consequências para suprimir os adversários reais e imaginários.CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

O mundo caipira do jovem Jair

Bolsonaro menino com o pai, segurando uma vara com um trairão.

Na década de 1950 São Paulo, capital e estado, já haviam se estabelecido como a cidade e o estado mais importantes do país, tanto por sua agilidade política, sua consolidação urbana e afirmação de urbanidade e modernidade, quanto pelo crescimento efetivo e equilibrado, entre pequenas e médias fábricas e uma agricultura e pecuária consistentes, de suas cidades interioranas. A capital e sua área metropolitana atraiam novos imigrantes de todo o Brasil, especialmente dos estados vizinhos e do Nordeste, e logo iriam consolidar uma posição central na industrialização pela concentração de fábricas de automóveis, utensílios domésticos e derivados. Os demais estados brasileiros, em menor escala, também efervesciam em diversificação econômica e ampliação de serviços de todas as naturezas. Desde fins do século XIX São Paulo vinha dando provas irrefutáveis de sua capacidade de crescimento e amplitude, mas foi nos anos pós-guerra que o salto maior ocorreu e transformou cidade e estado nos dínamos do desenvolvimento da nação. São Paulo e o Brasil, nos anos 1950 e seguintes, vivenciaram uma época de criação e criatividade, esperança e oferta de muitas novas oportunidades para a gente pobre e desvalida, rural e semiurbana, que se classificava agora como classe trabalhadora, para as classes médias ansiosas por participação ampliada e, sobretudo, para os jovens de todas as estirpes que cresciam, adquiriam formação e buscavam trabalho, e os meninos e meninas que pululavam num mundo novo e promissor.

Foi em 1955 que nasceu Jair, de uma família de descendentes de quinta geração de imigrantes italianos que haviam chegado ao interior de São Paulo para trabalhar como colonos nas fazendas de café, na esperança de um dia se tornarem proprietários de suas próprias terras, ou de se tornarem negociantes ou mesmo gente de bons modos. Os cafeicultores que dominavam a economia paulista desde meados do século XIX sabiam que o trabalho escravo estava inevitavelmente condenado, tanto pela censura mundial e cada vez mais nacional a esse opróbio, quanto pela certeza de sua ineficiência e baixa produtividade em comparação com o trabalho livre. Por isso, ao pensarem no iminente fim do trabalho escravo, criaram para a lavoura o sistema de trabalho conhecido como “colonato”, pelo qual os trabalhadores seriam gente livre, viveriam em moradias providenciadas pela fazenda, receberiam em adiantamento, cujo valor seria descontado de seu salário e emolumentos, os instrumentos de trabalho, alimentação, utensílios domésticos, vestuário e demais necessidades básicas, e ficariam encarregados de cuidar do plantio, limpeza e colheita de certo trecho da plantação. O sistema permitiu a sobrevivência física e a integração social e cultural dos muitos imigrantes, entretanto, sem favorecer vantagens suficientes para a maioria alcançar algum dia acesso à sua própria terra. Ao longo dos decênios, a melhoria dos meios de produção do café provocou a diminuição da quantidade da mão de obra e assim favoreceu a muitos saírem do regime de colonato. Integrados com os caipiras tradicionais que foram os principais responsáveis pela expansão da nova cultura luso-brasileira pelo interior do país, descendentes da mestiçagem entre portugueses e indígenas subjugados como gente servil, e acrescentados de negros escravos e ex-escravos, que haviam de fato colonizado as terras paulistas pelo seu suor e pela permanência na terra, os italianos e outros imigrantes do final do século XIX se amalgamaram de tal sorte que pouco ficou de suas bases culturais, a não ser a influência gramatical sobre o sotaque, a adaptação do milho à tradicional cozinha italiana e, certamente, um certo modo brincalhão e despachado de ser. Um pouco das características culturais caipiras podem ser conhecidas em livros de romance e de dissertações sociológicas e antropológicas, bem como vistas popularmente em filmes de Mazzaropi, em cantos e toadas caipiras, em Tonico e Tinoco, em Adoniran Barbosa e em muitos outros do nosso mundo mais recente.

A emigração desesperada de italianos e outros europeus se deve ao desenvolvimento da mecanização e a reorganização da produção e comercialização de produtos agrícolas na Europa, que causaram uma diminuição expressiva na necessidade de mão de obra e, em consequência, levaram à perda de muitos postos de trabalho na lavoura e, ao cabo, na saída e até expulsão de uma imensa quantidade de lavradores, camponeses de origens medievais e até romanas, “servos da gleba”, do sistema agrícola europeu.

Crescia, para a grande preocupação da elite política e administrativa das cidades europeias, desde os países nórdicos ao Sul europeu, passando pela Alemanha, Inglaterra e outros países, o contingente de pessoas destituídas de meios de sobrevivência, apesar da crescente industrialização e ampliação de serviços, e aumentava assustadoramente o número de desocupados e esfomeados pelas ruas. Em meio século a Europa iria empurrar para fora cerca de 50 milhões de excedentes populacionais, que migraram para as Américas e Oceania. Uma parte de dois a três milhões tiveram por destino o Brasil. Para alguns historiadores esse largo contingente populacional descartado teria resguardado a Europa de revoltas e rebeliões e quiçá de uma possivelmente inevitável revolução social, muito antes da revolução comunista que criou a União Soviética.

Para os países receptores, como o Brasil, essa nova população remodelou seu perfil racial, social e econômico, dando-lhe feições mais europeias e diminuindo, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste, a presença proporcionalmente mais maciça de negros, caboclos e mestiços sobretudo na camada popular. O Brasil embranquecia, para gáudio dos muitos que queriam um país mais europeizado, menos mulato e menos mestiço. Nesse final do século XIX, o Brasil se vergava sob o peso nefasto das ideias e do movimento conhecido com darwinismo social, pelo qual se supunha que as raças e etnias humanas estariam num ordenamento hierárquico de valorização física, intelectual e moral. Os brancos chamados caucasianos estariam no topo da escada evolucionista, que descia pelas ribanceiras dos eslavos, latinos, árabes, asiáticos até alcançar o nadir de valorização racial entre os negros africanos e os indígenas americanos. E o pior é que essa pseudociência construída em ideologia racial propunha ainda que a mestiçagem desvalorizava as raças constituintes, isto é, o mestiço já nascia degenerado e, portanto, inferior aos pais. O Brasil, pela quantidade de negros e mestiços, estaria em tal posição social que, com lamentações despicientes as mais excruciantes, não teria outra saída senão importar estrangeiros de bons genes, ou, na urgência, de qualquer lugar, menos naturalmente da África. Assim, terminaram vindo também, já nos primeiros decênios do século XX, gente do Oriente Médio – judeus, sírios, libaneses, armênios – fugindo dos rigores decadentes do Império Otomano e da sovietização da Europa oriental; e igualmente da China e do Japão, que também sofriam de excesso populacional com parcos meios de sobrevivência.

Assim, juntando a fome com a vontade de comer, a procura por gente europeia e de outros rincões coincidia com sua plena disponibilidade, bem como casava com a política governamental, fruto da pressão dos cientistas da época, de melhoria da raça. Eugenia racial para uma eugenia social, diriam alguns cientistas tomados pela ideologia racial.

Temos então que os antecessores de Jair Bolsonaro vieram da Itália nessa primeira condição de colonos, assentaram sua existência no interior de São Paulo e se agregaram a cultura tradicional de mestiços formados nos períodos históricos anteriores para constituir novas características de mestiçagem cultural brasileira, no caso, o caipira paulista com fortes características indígenas, africanas e europeias. Este é o caldo de cultura em que se desenvolveu a família Bolsonaro nas gerações seguintes até chegar ao pai e à mãe de Jair Bolsonaro que cresceram pelo interior de São Paulo desde então como lavradores em potencial cuidando de pequenas glebas de terra, chácaras, no máximo, quase sempre agregados dependentes do serviço nas grandes fazendeiros. Aqueles que vieram com formação e ofício e decidiram desde cedo a serem urbanos foram abrindo seus espaços nos interstícios da sociedade dominante, adquirindo profissões em ascensão, de engraxates e motoristas a mecânicos em fábricas, mascates, vendedores, até pequenos e grandes empresários. Autonomia e riqueza é o que todos buscavam para suas vidas.

O propósito de embranquecer a população brasileira por meio de imigrantes trouxe benefícios que fizeram intensificar em São Paulo um espírito empresarial singular, uma síntese hiperdialética do bandeirante com o caipira e com o novo imigrante dentro do contexto de mudanças econômicas estruturantes, o qual, talvez, carecia, ou ao menos era menos intenso, em outras regiões do Brasil. São Paulo, já rico do café, estava pronto para dar o salto industrial. Mas a cultura caipira presente no século XIX era já tão sólida e potente que não se desfez nem se desmilinguiu com os imigrantes. Manteve-se firme e forte em suas visões de mundo, em sua fluência social, em sua persistência existencial, em sua virtude moral, em sua sagacidade e em sua desconfiança calejada sobre os poderes constituídos, em sua desarmonia malemolente com a natureza. Esta cultura caipira tradicional, pré-imigrantes europeus e asiáticos, não era constituída exclusivamente do pobre coitado sem-terra, de pé no chão, mascando fumo, pescando traíras nos córregos e caçando tatu nas roças de mandioca, mas se estendia como uma dimensão espiritual da elite local, que mandava nos pobres, certamente, mas também tinha deveres para com eles. Um desses deveres era o cumprimento honrado da palavra dada. Outro era o papel de conciliador e juiz que dirime as controvérsias internas e as disputas entre grupos. Incluída nessa elite estava a sempiterna e ubíqua Igreja Católica, bafejando autoridade em seus dogmas, mas autoritária só de boca para fora, pois dentro de cada vigário dormia uma parte da alma indígena tolerante, do ex-escravo sofrido e benfazejo, de um cristianismo diluído pelas crenças africanas importadas e as crenças dos antigos índios tornado caipiras. E assim essa sólida cultura caipira atraiu os imigrantes, se mesclou com seu jeitão de camponeses desbocados, senza paura, que esperavam mais da vida do que a malemolência, a brutalidade do senhor fazendeiro e a sacanagem fingida dos padres. É aí então que essa mesclagem se torna uma síntese cheia de potenciais de fé, esperança e vontade de lutar, e também de muitas contradições, disputas, desgostos, reclamações e maldades perversas.

Os antepassados de Jair Bolsonaro eram italianos do Vêneto, norte da Itália, gente branca de olhos claros. Eis o seu último e atual rebento, hígido, esguio, lábios finos, olhos esverdeados, cabelos claros e lisos, com quase nenhuma característica indígena ou negra. As trisavós, os bisavós e avós e os pais de Jair parece que em realidade fizeram o possível para não misturar sangue com os caipiras tradicionais. Como assim, que tipo de discriminação é essa? Porque Jair não ganhou nada do negro ou do índio, se é mesmo que não tenha ganhado, pelo aparente que vemos. A convivência dos membros dessa cultura mestiça não traria necessariamente a mistura biológica? Bem, quase certo que sim. Mas não necessariamente em todas as ocasiões e para todos os tipos. Os casamentos entre gente trigueira com brancos italianos aconteceram, sim, de acordo com as circunstâncias amorosas e sociais. Mas sempre houve e permaneceu até os dias de hoje o senso de que brancura é sinal de “nobreza”, alguma nobreza qualquer, alguma distinção biológica qualquer que mostre porque alguém pode se sentir superior a outra. Isso vale, às vezes vale muito, mas às vezes não significa nada. As faces trigueiras, os cabelos pretos e lisos ou encaracolados ou pixains, os narizes e lábios grossos, as maçãs do rosto largas, em comparação com as mesmas características brancas, não perturbam o sono ou a honra das famílias nas comunidades, nos bairros rurais caipiras. Eles apontam para uma ascendência de muito longe, pensam todos, que um dia significou algo, mas que já não têm mais nada a ver com a vida atual e cotidiana. Você, branco de olho azul, quer casar-se com uma igual a si mesmo, tudo bem. Mas no meio do caminho surge uma negrinha ou uma cabrocha que lhe atrai e você sucumbe e muda de ideia sem nenhum problema. A família pode até dizer que a raça vai piorar, mas quando seu filho nascer ele será seu filho lindo, moreninho ou trigueiro. Terá sangue da terra ou da raça.

Evidentemente que nessa cultura caipira pós-imigrante a tez clara da pele continua a ser símbolo de alguma superioridade, de alguma ascendência, ao menos, sobre quem tem a pele escura-preta ou trigueira. Mas, até que ponto da sociabilidade e do bem-estar econômico isto se dá, e que importa, se, ao final, é algum trigueiro quem sobe na vida e carrega consigo filhas e filhos para casar?!

Voltando à família de Jair, não obstante, sempre se pode sugerir que seus pais e seus avós, de algum modo, talvez tivessem uma autoconsciência de sua origem europeia, mesmo que, no decorrer dos anos, essa memória não tenha feito mais qualquer sentido ou não lhes tenha granjeado qualquer vantagem social ou econômica. Esse olhar e esse porte branco-italiano, que vemos nas fotos de Jair e seus irmãos, talvez tenha sido um diferencial para o menino Jair, que, solto no redemoinho do caipiral paulista, tenha tido ganas para subir na vida por saltos quânticos, não por sabedoria caipira, que provavelmente tinham seu pai e sua mãe, mas por aquele quantum de existência passada que o empurrava para sair da vida em que se afundara sua família desde sempre. O camponês italiano quisera se engajar no exército de Garibaldi, o caipira de calça curta que aparece aos seis ou sete anos numa foto com seu pai, exibindo fisgado em uma vara um baita de um trairão, sorriso feliz e atento, parecendo sonhar, sem saber que, por mais que gostasse de tudo que vivia, queria pular fora e procurar outro meio de vida.

Com efeito, alguns anos depois Jair estaria fora da cidadezinha de Eldorado Paulista, localizada no pacato e abandonado vale do Ribeira, zona pobre do sul do estado de São Paulo, para onde seu pai tinha levado a família em busca de melhores condições de vida. Aí, aos 15 anos, em 1970, o adolescente Jair, conhecedor dos lugares ao longo do rio Ribeira, se apresentou para ajudar a uma equipe do Exército a procurar onde estaria o perigoso guerrilheiro Carlos Lamarca e seu grupo que tentavam se instalar na região com o propósito de criar um foco de guerrilha para combater as forças militares da ditadura. Não chegaram a encontrar o guerrilheiro, que logrou fugir para a Bahia, não sem antes furar o cerco bem pelo centro de Eldorado, num tiroteio em que vários se feriram e onde ao lado, no colégio, estava o adolescente Jair Bolsonaro. Lamarca saiu incólume e iria se refugiar no interior da Bahia onde eventualmente iria encarar seu destino final. Nesse interim, Jair se sentiu atraído para entrar no Exército e assim o fez. Sua vida mudaria fatalmente.

O adolescente Jair dá de cara com seu destino

Quando uma tropa de militares do Exército, com suas fardas de caqui, suas botas engraxadas, seus apetrechos e armas tinindo e reluzindo, os óculos escuros, bem treinados para agradar e se impor, chega a uma pequena cidade, abre-se ao seu redor uma aura de poder e mistificação por onde quer que passe. As moças querem ver se são jovens e bonitos, os pais ficam com sentimentos dúbios, os meninos não se envergonham de espiá-los, os homens se sentem ameaçados, e os jovens rapazes partem para o frenesi de saber o que os forasteiros vieram fazer, com que meios, instrumentos e armas, e como poderiam se aproximar para empunhar uma arma com suas próprias mãos, quem sabe dar uns tiros de treinamento, ou, na grande sorte, acompanhar a tropa em alguma expedição. Bem, o rapaz Jair ganhou a sorte grande – fez excursões com a tropa pelo rio e pelo interior da mata bruta, onde tantas vezes foi pescar e caçar, com seu pai ou camaradas. Apesar de jovem, conhecia muitos atalhos nos caminhos, muitos poções de pesca no rio Ribeira e muitas paragens por onde passavam caças grandes e miúdas, alguns coitos ideais para se esconder, talvez.

A cidadezinha de Eldorado tivera desde sempre uma vida pacata de pequenos agricultores, plantadores de bananas, palmiteiros e criadores de gado, uns surtos ocasionais de garimpagem, com um pequeno comércio para atrair freguesia de fora e oferecer serviços urbanos básicos – armazém de secos e molhados, uma ou duas farmácias modestas, armarinhos de miudezas e costura, lojas de materiais de construção, de roupas, de tecidos, de aparelhos domésticos, um modesto tabelionato, um cinema, cabeleireiro, barbearia, e alguns serviços de saúde, um médico com visitas semanais e alguns perdidos ou itinerantes dentistas práticos. Naqueles anos, sua conexão com outras cidades da região era precária por estrada de barro frequentada por tropeiros, cavaleiros e caminhões carregando mercadorias e passageiros. O pai do menino Jair, Sr. Percy Geraldo Bolsonaro, homem sem posses, mas de possibilidades, gostava por tudo de ser caipira, e entre tantas tarefas que seu gênio virador lhe favorecera uma delas era ser prático de dentista, ofício que adquirira como ajudante de dentista quando moravam em Campinas ou Jundiaí, uma das várias cidades em que morou com sua família. Seu filho Jair também se virava bem, desde tenra idade, além de frequentar com entusiasmo a escola, em tirar palmito, pescar para consumo e para vender na rua, roçar, derrubar capoeira, fazer aceiro de roça, capinar por empleitada, tudo em quanto de serviço de roça, e até garimpar pelas barrancas do rio Ribeira e seus córregos, o jovem era capaz de fazer.

Porém, do quê mais gostava em seus jovens anos era pescar e caçar. Gente de cidade grande não faz ideia do que produz na alma do caipira, do caboclo, da gente rural, o entusiasmo de acordar às quatro da madrugada, acender o candeeiro, dar uma checada nas mochilas e trouxas já arrumadas, nas varas de pescar, nos carretéis de linha e anzóis variados, e nas espingardas, conferir no surrado bornal a caixinha de espoleta, os cartuchos de pólvora, os molhos de bucha de cordame e os saquinhos de chumbo, tomar uma xícara de café com rapadura que sua mãe, já desperta, acabara de fazer, e sair no frio da madrugada, sem capote, para se encontrar com colegas e camaradas e partir de montaria ou a pé para o mato, para o rio, para os roçados, para as capoeiras velhas para pescar ou caçar, ou fazer as duas coisas alternadamente, e também aproveitar a viagem para tirar palmito ou colher maracujá do mato. Sentir o frêmito do peixe grande fisgado a puxar forte a linha, arrastar o peixe de supetão e dar-lhe cabo com uma porretada na cabeça; ou enrijecer-se de repente com o estalido de uma folha suavemente pisada por um veado ou uma paca ou uma simples cotia, de retorno à sua dormida diurna no oco de uma centenária árvore caída há dezenas de anos, concentrar toda sua energia sensual nos ouvidos, depois nos olhos, depois paulatinamente agasalhar a espingarda pica-pau entre as mãos e a coronha firme no recosto da junção do ombro com o sovaco, apontar a mira do cano no rumo de onde sentiu vir o crepitar de folhas secas, de repente enxergar o vulto do animal já desconfiado, em passo lento, nervoso, respirar fundo ou não respirar, enquanto a adrenalina sobe ao cérebro e enche o pulmão, garganta seca e olhos que se embaçam e perdem o foco, até que, sem mais se mexer, puxar o cão com o polegar em dois movimentos curtos, mirar para a mancha escura onde imagina esteja o animal, puxar o gatilho duro e sentir o disparo com um estrondo que lhe fere os ouvidos, espirra pólvora queimada nas narinas e o coice da corona no peito e, por um átimo de segundo, já não saber onde está ou o que houve. Breves segundos, pois logo se escuta o estrebuchar das pernas do animal em estertores e corre-se para dar-lhe com uma coronhada ou uma facada na garganta o benefício de pouco sofrimento para a morte.

Muitos brasileiros, exceção aos urbanoides regulamentados, entretanto, tiveram e, pois, ainda podem ter oportunidades de experimentar momentos como esse descrito, momentos que fizeram parte e constituíram elementos essenciais da moral profunda da cultura brasileira, quando ela era ainda íntegra e consistente com a vida urbana e respondia pelos desafios das transformações sociais. Em 1970, só os mais neurastênicos se esquivavam de entender a alegria de caçar, bem como o ato de matar animais domésticos. Em 2020, se contam deles aos milhões. A cultura brasileira está sofridamente dividida entre uma moral tradicional, compatível com um passado construído e, de certo modo, com a moral das culturas tradicionais do mundo inteiro, e uma ética nova, imposta de cima para baixo, de fora para dentro, como tentativa de criar novas modalidades de comportamento que sejam compatíveis com o que se acredita serem as grandes mudanças contemporâneas nascidas da intensidade do desenvolvimento social e econômico e da globalização. Pena e compaixão pelo sofrimento dos animais virou nos últimos tempos horror e nojo pela morte imposta pelos homens aos animais, como se de outro modo fosse possível ao homem encontrar seu alimento fundamental. Essa divisão explica muito da crise brasileira da atualidade.

A chegada dos homens do Exército a Eldorado fez presente toda a verdade do regime político em voga. Que havia um dissenso político no país se sabia por notícias e se sentia à flor da pele. Que havia grupos de guerrilheiros cometendo atrocidades nas cidades, roubando bancos e explodindo quartéis, se sabia pelas notícias televisivas e pelo rádio. Mas que um foco de guerrilheiros estivesse tentando fincar raízes no vale do Ribeira, aproveitando a densidade da mata que caracteriza a região, ninguém fazia ideia, nem por quê, nem precisamente para quê, nem muito menos por que meios. Estaria esse foco de guerrilha criando um exército particular, construindo um forte, cercando uma área de terras, abrindo um campo de aviação? Iria invadir as casas dos moradores, dominá-los, prendê-los, torturá-los, roubá-los, escravizá-los? Teria esse foco poder para invadir São Paulo, tomar o Rio de Janeiro, marchar sobre Brasília? Ou estava simplesmente criando confusão na população, exibindo arrogância e tolices, perturbando a ordem social corriqueira? Se fossem poucos, deveriam ser varridos do seu esconderijo, serem interrogados, torturados, serem mortos, ou, por outra, serem presos, levados para a cidade grande, julgados e condenados à cadeia? A população local nem por um momento cogitou de que os guerrilheiros teriam vindo para liberá-la da opressão ou para criar um experimento social para servir de base a um novo modelo socioeconômico e, quiçá, a uma nova forma de regime político, uma nova democracia com intensa participação dos trabalhadores rurais, da gente oprimida e destituída de seus meios de sobrevivência, quem sabe um regime socialista ou comunista. Tais pensamentos podiam até ter passado pela cabeça de um ou outro, talvez a família de um dos fazendeiros mais abastados e mais bem conectados politicamente, talvez a professora local que fora instruída numa cidade maior e sonhava com ação política no seu município. Para a imensa maioria da população essa notícia de guerrilheiros dentro da mata soara como uma aberração, algo para ser destruído em nome do governo e da paz social.

O certo é que, de acordo com o próprio Bolsonaro, algumas pessoas foram contatadas e se voluntariaram para servir de escoteiros e batedores e levar a equipe do Exército para alguns lugares possíveis de servirem de coito, onde esse bando de guerrilheiros poderia se esconder e se preparar para as futuras batalhas. E o jovem Bolsonaro foi um deles.

A experiência pessoal de Jair nesse acontecimento foi crucial para mudar de rumo na vida, na verdade, encontrar um rumo para a sua vida. Desses soldados e oficiais com olhares confiantes e atitudes concisas e certeiras, com fala de autoridade e visão de futuro, com alojamento, comida e proteção à disposição, havia, sim, um futuro para o jovem sincero, intimorato e virador. Não haveria mais retorno à cidade acanhada, ao desfrute desabrido da natureza, à domesticidade da vida caipira, com suas farras e desafios, suas gozações, suas grosserias rasteiras, seu rastaquerismo, suas impertinências, sua ingenuidade e insciência e, enfim, sua fortitude e capacidade de recuperação diante dos infortúnios. Tudo de bom e de ruim já estavam marcados a ferro e fogo no seu peito e o iriam orientar seus passos nas vitórias e pelos percalços da vida. Jair saberia ver e valorizar nos outros as qualidades e falhas que pareciam com as suas, e confiaria sobretudo em quem lhe parecesse demonstrar ter ares de alma gêmea.

Jair vira militar

A opção de ser militar se ofereceu ao adolescente Jair Bolsonaro como uma benção dos Céus, mas, na verdade, foi, por ironia da História, um presente conjunto da Esquerda revolucionária e da sua nêmese, as Forças Armadas. O salto entre a vida semiurbana do caipiral paulista para a vida da caserna, da ordem unida, da submissão, dos exercícios físicos, da escolaridade sistêmica e positivista, das brincadeiras e gozações entre os cadetes e da grosseria verbal e da forçação física dos sargentos instrutores, da hierarquia formal e da disposição para o desafio individual – não lhe pareceram um salto tão alto e tão desproporcional. Sob muitos aspectos tanto os colegas quanto suas atitudes perante a vida e a ordem unida foram facilmente assimiláveis por um recruta criado como caipira. As brincadeiras de mau gosto se alternavam com a disciplina e a camaradagem necessárias à vida na caserna. O tradicionalismo da caserna se equiparava com o tradicionalismo da cultura de base brasileira. A moral do Exército não divergia da moral da família caipira. Para um recruta com força moral a ideia de auto-sacrifício e dedicação aos outros era uma continuação de seus deveres familiares e obediência aos pais.

O que Bolsonaro aprendeu no Exército foi fundamentalmente que sua vida poderia sempre ser melhor do que fora e do que antes lhe parecera. Dentro de uma disciplina rígida, de um modo de pensar doutrinário, de uma estreiteza comportamental, havia margem para almejar muitas coisas, para ser ambicioso, para sonhar com algo mais – especificamente, para ser líder. E Bolsonaro soube se destacar a cada ano passado como aspirante a oficial na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN), localizada em Rezende, RJ. Depois, como oficial, tenente e até alcançar o posto de capitão, demonstrou ter disciplina, mas também ousadia, a ponto de receber elogios escritos de vários de seus superiores.

Doutrinariamente, Bolsonaro aprendeu que as Forças Armadas são disciplinadas para defender a soberania do Brasil, custe o que custar, inclusive a própria vida de cada militar, e que assim o haviam feito, em conjunto com as forças democráticas, em março de 1964, e continuavam a fazê-lo combatendo grupos guerrilheiros em todas os seus fronts, bem como todos aqueles que pretendessem subverter a ordem política e social. Bolsonaro aprendeu de modo resumido o que estava em jogo na luta política, tanto no plano nacional quanto no plano internacional. Para ele foi ficando claro e decisivo que interessava estar ao lado dos militares contra os subversivos, os comunistas, os liberais irresponsáveis, e toda a chusma canalha dos corruptos – que eram muitos e estavam em todas as partes. A simplicidade dessa doutrina não obscurecia a complexidade de outras questões. Uma delas seria saber que o regime de quartel cria sua própria subversão moral, com uma permanente tendência dos escalões superiores para a pequena corrupção, o aproveitamento de vantagens apenas implícitas, o enrijecimento da hierarquia para uma maior e desnecessária subordinação dos escalões inferiores, e outras coisas mais.

Por fim, o que se via como algo cada vez mais absurdo era a disparidade entre os quadros permanentes e os recrutas, e entre os oficiais de médios e alto escalão em relação aos de patente mais baixa. Os privilégios de direitos de moradia, subvenções, privilégios corporativos, tempo para se reformar eram claramente desproporcionais em favor de altos escalões. O descontentamento sempre existira entre os escalões inferiores, mas agora, já sendo largamente discutido a chegada do prazo de validade do poder dos militares sobre o governo civil, os ressentimentos começavam a aflorar nas reclamações dos baixos escalões, sobretudo em relação às diferenças salariais. Em dado momento, em 1986, o tenente Bolsonaro de repente surge a lume de um modo muito contundente, explicitamente subversivo à ordem. No bojo de reclamações generalizadas por parte do funcionalismo público contra o governo Sarney, o primeiro presidente pós-regime militar, especialmente em relação a defasagem salarial, Bolsonaro escreve uma carta contundente que a revista Veja publica em que denuncia a defasagem salarial como o principal motivo por que tantos aspirantes da AMAN estariam abandonando suas carreiras, e não sendo expulsos por causa de supostos roubos ou indisciplina, ou saindo voluntariamente por outros descontentamentos. O caso catapultou, como diria o próprio anos depois, Bolsonaro ao público e eventualmente à política, e levou o Exército a intervir e disciplinar o tenente Bolsonaro com uma punição de 15 dias de prisão em quartel.

Entretanto, não era mais para Bolsonaro ficar quieto. Quando ele encasqueta com algo, ele vai adiante senza paura, como se não houvesse perigo à frente. Esse comportamento o iria caracterizar na política e na moral pelo resto da vida.

Em 1987, uma jornalista da revista Veja iria fazer uma matéria particularmente escandalosa, e até certo ponto perigosa para a situação política um tanto dúbia em que o novo regime democrático do país ainda se encontrava, em que expunha um certo plano ou esquema feito por dois oficiais egressos da AMAN que objetiva explodir diversos pontos estratégicos na região metropolitana do Rio de Janeiro. Havia inclusive um croquis, supostamente desenhado pelo próprio Tenente Bolsonaro, que delineava explosivos no aqueduto do rio Gamboa, que abastece a cidade do Rio de Janeiro. A jornalista e a revista Veja estavam absolutamente seguros da veracidade da matéria e, na iminência de uma crise entre o Exército e o novo regime político representado pelo presidente Sarney, passado o primeiro passo em que Bolsonaro fora julgado por uma comissão de inquérito do Exército, que empatara na contagem dos votos sobre a inocência do tenente, o caso foi levado ao Supremo Tribunal Militar. Depois de seis meses de idas e vindas, acusações e defesas, matérias e notícias em todos os jornais, Bolsonaro afinal foi considerado inocente. Quer dizer, não teria havido complô algum, o croquis não havia sido desenhado por Bolsonaro, tudo não passara de uma fantasia de uma repórter e da sanha por notícias de uma revista.

Bolsonaro havia se tornado uma figura nacional como um militar que defende a corporação, especialmente justos salários. As Forças Armadas se deram conta de que tinham um problema a resolver e o resolveram promovendo o tenente a capitão e, em pouco tempo, dando oportunidade para ele requerer sua reforma remunerada. Com efeito, Bolsonaro virou capitão em agosto de 1988, já candidato, elegeu-se vereador do Rio de Janeiro em 15 de novembro, com pouco mais de 11.000 votos, e foi reformado em dezembro do mesmo ano.

O legado militar na personalidade de Bolsonaro

Quem vê Bolsonaro em pé, perfilado, hígido como uma estátua, sem pestanejar ou resfolegar, sente que o homem vem da casta militar. A postura perfilada é para Bolsonaro o símbolo máximo de tudo que representa o Exército brasileiro: seriedade, hombridade, auto-sacrifício, doutrinarismo, mando e obediência, submissão e autoridade. Quem o escuta falando em compasso, discursando de improviso ou lendo um discurso redigido, sabe que foi no Exército, lendo a ordem do dia, que ele verdadeiramente aprendeu a ler e a escrever, como se fosse um autômato, um ser da ordem, da corporação. O modo natural de falar em público é proferindo sentenças, rebatendo contradições com firmeza, rebarbativo. Não há diálogo com Bolsonaro, a não ser, talvez, no íntimo de sua família ou entre amigos próximos. Anos de presença política, de fazer campanhas eleitorais e Bolsonaro jamais diminuiu o seu ímpeto rebarbativo com eleitores. Ele não pretende ganhar eleitores pela suavidade e sim pela imposição, e sabe que há muitos e muitos eleitores que querem exatamente isso, essa atitude, pois assim é que são os homens de honra e de palavra.

O positivismo como modo de raciocinar

O positivismo arraigado no militarismo brasileiro que favorece a criação do pensamento como doutrina tem um efeito rígido e inescapável no modo de pensar dos militares ou de quem passa por escolas militares. Já se escreveu bastante sobre esse tema, mas aqui faz-se necessário retoma-lo para darmos um novo foco. A disposição explanativa do positivismo militar pode ser vislumbrada como se fosse um gráfico ou um organograma feitos por um engenheiro ou um administrador de empresas. Aqui temos delineados em caixinhas uma série de conceitos básicos, em geral sem comprovação factual ou abertura à reavaliação, que se distribuem em ordem de causalidade direta, e que vão sendo demonstradas passo a passo até sua conclusão final, a qual vai resultar numa frase grandiloquente que é tomada como a certeza e a verdade doutrinária. Tipo: A soberania nacional depende da guarda das fronteiras. Como se algum país da América do Sul tivesse qualquer peso para invadir o Brasil. Isto vai valer para qualquer tema, desde estratégia e táticas de guerra, passando por concepções da História, até lições de patriotismo, política, ética e religião. Antíteses, nuanças, contradições, ambiguidades, inconsistências e conexões entre os elementos considerados e com outros elementos de natureza díspar a serem incluídos no esquema, e que ganham significado só por meio de outras formas de raciocínio lógico, são necessariamente negados e/ou desconsiderados. Assim o mundo fica claro e compreensível para qualquer um que não se perturbe com a obrigação de se responsabilizar pelos erros e equívocos dessa forma de pensar.

Eis como funciona o positivismo como base lógica na expressão filosófica militar. A bem da verdade, essa forma de raciocínio não é exclusiva aos militares. O positivismo como forma de raciocínio está presente na cultura média brasileira, como se fosse parte do próprio modo de pensar do brasileiro. Ele penetrou e se expandiu na cultura média brasileira com ares de raciocínio intelectual e científico desde o terceiro quartel do século XIX e assim foi responsável pela formação de boa parte da inteligência nacional desde então. Frequentemente o modo positivista de pensar entra em conflito com modos mais complexos ou sofisticados, tais como a dialética e as lógicas da diferença e paraconsistentes, não só em debates epistemológicos nas universidades, mas até em calorosas discussões populares, em mesa de bar, discutindo futebol. Mas a tendência modernosa do brasileiro de não querer discutir quantos anjos cabem na cabeça de um alfinete, ou temas cabulosos e detalhados leva o modo positivista a exercer seu forte apelo de decisão ao resolver as disputas de um modo definitivo. Está mais do que comprovado, isto é verdade, conclui por fim o arguidor vencedor.

No caso Bolsonaro, sua passagem pelo militarismo o assegurou da validade de sua tradição de pensar e argumentar e o fez mais confiante de que discutir nuanças sobre qualquer tema é um desperdício de inteligência. Muitas vezes suas atitudes bruscas parecem autoritarismo em disfarces, mas é só lógica positivista em ação. Quando mais e melhores argumentos lhe são interpostos ele é capaz de recuar de suas opiniões prévias, ponderar e adquirir novas convicções.

A redenção dos militares

Bolsonaro entrou na vida militar em 1972 ao passar num concurso para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas, SP, onde ficou por um ano até que, em março de 1973, com 18 anos, passou em novo concurso e foi para a AMAN com a ideia de se tornar militar definitivamente. Era um tempo em que o prestígio do governo militar e dos militares estava no auge, com crescimento econômico às alturas e presidente popular frequentando estádios de futebol. Não obstante, a pauleira comia solta pelos interstícios da política nacional, como focos de guerrilha em vários locais, especialmente no sul do Pará, e batidas de grupos oficiais e paramilitares exercendo a repressão sem dó nem piedade. E deixou o Exército, em 1988, nos primeiros anos da redemocratização, ao mesmo tempo em que os militares caíam no fundo do poço em falta de prestígio e respeitabilidade.

Nos 15 anos que passou entre Campinas, Resende, Nioaque (MS), em visitas a batalhões de fronteira na Amazônia e em funções burocráticas ou de treinamento no Rio de Janeiro, Bolsonaro viu a força do militarismo se deteriorar rapidamente ao mesmo tempo em que os próprios militares iam temerosamente se recolhendo em seus nichos de conforto na tentativa de criar novos discursos e novos propósitos que justificassem seu período de domínio da nação e amenizassem o mal-estar sofrido por aqueles que haviam se sacrificado no duro ofício de defensores da pátria. Nessa busca de redenção, Bolsonaro saiu com estardalhaço na frente de todos e partiu para fazer a defesa dos militares sem qualquer temor ou vergonha, seja por corporativismo, seja por plena lealdade e convicção intelectual e moral. Com isso ele subiu no conceito de seus colegas, já reformados, e daqueles que continuavam no serviço.

Bolsonaro efetivamente dá sinais claros de que continua a pensar que a redenção dos militares é essencial para o bem-estar do Brasil. Quer reconhecimento da positividade do papel que exerceram nos anos do regime militar, e briga exasperadamente contra quem continua a atacar esse período. Dá a clara impressão de que acredita que um regime militar, pelo menos daquele tipo que foi exercido no nosso país, é mais eficiente do que uma democracia corriqueira, sobretudo uma como a brasileira. Quando surgiram os primeiros sinais de um complô militar, liderado por Chávez, na Venezuela, Bolsonaro soltou vivas de satisfação. Depois, mudou de opinião, talvez porque visse que tinha características da esquerda comunista.

Entretanto, não parece ser esse gosto pelo militarismo uma convicção natural, e sim reativa, pois suas atitudes individualistas, sua vontade de liberdade para fazer o que for possível dentro de uma medida de respeito a terceiros, parece-lhe ser de mais genuína convicção. Por exemplo: pescar em águas marinhas desde um promontório em Mangaratiba, RJ, é considerado por ele uma atitude de liberdade, enquanto ser multado pelo órgão fiscalizador lhe um ato arbitrário do Estado e suas leis, consideradas um tanto espúrias. Que história é essa de um simples pescador de vara e carretilha ter poder para levar à depleção o estoque de tal ou qual peixe do mar? Ou, por outra, por que de tantos pardais, sinais de multa, nas rodovias, senão só para pegar caminhoneiro distraído?

Enfim, não é que se possa dizer que Bolsonaro seja um democrata convicto, que daria a vida por essa forma de regime político, tal qual um Péricles de Atenas, ou, quem sabe, um Ulysses Guimarães (sic), mas é que Bolsonaro é fruto de uma cultura aberta e dada a extravagâncias individualistas, como o é a cultura caipira paulista, que aceita até autoritarismo, porém sob medida, mas não arbitrariedade aleatória, ao gosto de uma cúpula qualquer de Estado. Essa posição política libertária favorece a Bolsonaro uma flexibilidade para entender e encaminhar ideias morais e comportamentais que o grande segmento do povo brasileiro, que vive a cultura tradicional de base, ou que advém dela e dela sente falta, capta e saca com intensa convicção e força d’alma. Uma dessas ideias é a de que o sentimentalismo, a autocomiseração, o mimimi  são perda de tempo e desrespeito aos outros. Como diz a letra de Vinicius de Moraes, que certamente não estaria com Chico Buarque nesse desprezo a Bolsonaro, “prá que chorar, prá que sofrer, se há sempre um novo amor, cada novo amanhecer …”

A ojeriza ao comunismo aumenta

Por uma tremenda ironia do destino, a redenção dos militares brasileiros que deram o golpe de 1964 e construíram o regime militar, de cunho ditatorial, se revela ultimamente com mais precisão no aumento que se observa no Brasil e mundo afora de uma clara ojeriza ao comunismo, seja como forma de governo, seja como doutrinação. Como forma de governo, todos os países que adotaram ou lhes foram impostos regimes comunistas deles se safaram para seu próprio bem. Até Cuba, que permaneceu por mais tempo na imaginação da sociedade brasileira como um país bom para seu povo, precisamente por ser comunista, vem perdendo essa aura de graça e de modelo, mesmo em festejados aspectos sociais, como escolaridade para todos e medicina popular. O colapso da União Soviética, em 1991, e a reviravolta capitalista da China desmoralizaram a ideia de que regimes comunistas e economias comunistas são ideais para a humanidade, e assim já não fazem a cabeça de qualquer jovem ingênuo entrando em universidade pública brasileira. “‘Pera aí, ainda faz, sim, mas com menos vigor e convicção.”

Pois que, a doutrinação comunista, vista como toda análise derivada dos textos de Karl Marx, seus epígonos e seus debatedores, que trata de questões da sociologia, da ciência política, da antropologia, da filosofia, bem como de suas aplicações nas áreas da psicologia e da pedagogia, predomina nas universidades e continua a ser elaborada na mesma linguagem marxista de desde os anos 1960. Esta doutrinação é reconhecidamente um fenômeno mundial e tem sido comentada por muitos filósofos e sociólogos e outros cientistas sociais de cunho conservador desde talvez a chegada nas universidades europeias e americanas dos textos críticos ao comunismo elaborados por autores como o filósofo polonês Leszek Kolakowski até os últimos escritos do inglês Roger Scruton. Nos últimos tempos, tais comentários e críticas se consolidaram como a base de uma espécie de renascimento de um modo de pensar conservador, que havia sido praticamente rejeitado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. No Brasil, que já teve conceituados pensadores conservadores no passado, como Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale e, de certa forma, Antônio Paim, esse renascimento aconteceu graças à inteligência, dedicação e persistência do filósofo Olavo de Carvalho, não sem ter pago um alto preço por sua ousadia intelectual.

Entretanto, o pensamento conservador, que certamente inspirou Bolsonaro nos últimos quatro ou cinco anos de sua vida política, graças à relação de seus filhos com Olavo de Carvalho, é ainda tão somente um ponto de luz azulada na vermelhidão esplendoroso do pensamento esquerdista hegemônico. Pelo tanto que as consequências desse pensamento ocasionou de negativo ao mundo, o fenômeno dessa continuidade se apresenta como um enigma a ser esclarecido. Por que, afinal, depois da debacle comunista, ainda há tanta gente da sociologia e da ciência política que continua a acreditar que as ideias que levam ao comunismo são merecedoras de estudo preponderante e de doutrinação? Há algo nesse mundo da pós-modernidade que necessita da dialética exclusiva para se entender ou se conformar consigo mesmo?

O Capitão Bolsonaro entra para a política

Aos 33 anos de idade, o capitão Bolsonaro se viu subitamente levado a se reformar, não se sabe se a contragosto. Porém, bem ou mal, com uma renda vitalícia, e logo com uma vontade imensa de crescer na política. O privilégio de ganhar uma renda vitalícia em tão tenra idade só se compara com aquele que o futuro presidente da república Fernando Henrique Cardoso recebera por sua aposentadoria compulsória da USP, em 1969, ao arbítrio do AI-5, aos 37 anos de idade.

Efetivamente, o sistema de aposentadoria brasileiro, especialmente nas décadas de 1950 e 1960, tinha as mais generosas garantias, como a do relativamente pouco tempo de serviço, a garantia de aumentos salariais idênticos aos que estavam na ativa e, surpresa!, um adicional de salário para quem se aposentasse sob certas condições. Isto é, era muito vantajoso se aposentar. O sistema era novo, o povo era majoritariamente jovem, se sustentava pelas taxas pagas pelos que trabalhavam e ajudava a população a obter empregos. Deslizou assim facilmente por muitos anos até que, pelo fim do século XX, não conseguia mais se manter nos mesmos termos generosos. A bomba estourou no governo de Fernando H Cardoso, e foi passada adiante, à falta de capacidade política dos governos federais para mudá-lo, e só nesse governo Bolsonaro é que um ministro da economia escolado no neoliberalismo ousou pegar esse touro bravo pelos chifres e empurrar ao Congresso uma lei de previdência social mais condizente com as possibilidades atuais. Já o presidente Bolsonaro se posicionou com toda a força de sua ambiguidade, como pode.

Bolsonaro ainda estava no Exército quando se candidatou e se elegeu na primeira tentativa a vereador do Rio de Janeiro, com mais de 11.000 votos, quase todos obtidos na zona norte e oeste da cidade, particularmente nos bairros onde se encontram instituições, instalações e residências militares. Dois anos depois ele se candidataria a deputado federal e seria eleito com 76.000 votos, e daí por diante sua votação iria ser crescente em quase toda eleição. Quer dizer, ao longo de 29 anos, Bolsonaro manteve e ampliou seu eleitorado pela atenção que lhe dava e pelo tanto de exposição de controvérsias que criou ao longo do tempo. Sua personalidade política se amoldou pela estridência com que apresentava ideias, em geral de ordem comportamental ou moral, rebatia opiniões sobre política e sobre suas atitudes verbais, criticava com veemência a imprensa pelo viés supostamente sempre negativo dado às autoridades, às polícias, enquanto pareciam favoráveis aos criminosos, aos jovens delinquentes, sempre em nome dos direitos humanos. E mantinha-se limpo de qualquer convivência com empresários ou funcionários públicos que lhe pretendesse levar ao caminho da corrupção.

Para quem pertence às classes médias urbanas, com perfil de classe média e alta, sentindo-se possuidor de educação e etiqueta, especialmente no Rio de Janeiro, Bolsonaro parecia um sujeito desequilibrado, com mentalidade autoritária e comportamento fascistoide, defendendo o regime militar, já passado e a ser expungido da história, visto por ele como se tivesse sido a nona maravilha do universo político. Entretanto, para a maioria da população que se sentia cada vez mais excluída das inovações tecnológicas e comportamentais, o comportamento cru e desavergonhado, aparentando honestidade e sinceridade, e as falas francas e diretas de Bolsonaro foram ressoando cada vez mais persuasivas e envolventes, na medida em que a população ia se dando conta de que o desassossego, os crimes e os despautérios que dominavam a vida em seus bairros e comunidades tinham ultrapassado quaisquer atitudes de tolerância ou leniência, independente do papel de ajuda das gangues de bandidos aos que necessitavam, razão pela qual os grupos criminosos tinham crescido e ampliado suas ações nas comunidades e a conformidade por parte da população pobre, desassistida e em geral destituída de razoáveis condições de existência. Os novos e crescentes eleitores de Bolsonaro a princípio aparentavam vir de um estrato social médio-baixo, gente de bairros esquecidos pelo poder público ou desapreciados pelos bairros superiores da cidade, porém em geral com empregos mais ou menos garantidos ou, como se diz correntemente, com capacidade de se virar e criar uma família. Por fim, novos eleitores foram surgindo dos bairros mais pobres e das favelas, onde as condições de vida são duras e sofridas, lugares abandonados pelo serviço público e maltratados pela bandidagem efervescente. Em determinado momento, Bolsonaro alcançou o segmento dos evangélicos pelas posições moralistas contra o aborto e sua veemente contrariedade à leniência do Estado a traficantes, às milícias e a delinquentes em menoridade.

Por um bom tempo, uma boa parte dos eleitores de Bolsonaro sentia que não podia abrir o jogo de ter votado nele ou de gostar de suas posições e opiniões, pelo tanto que eram criticadas na imprensa e pela ojeriza dos segmentos sociais de classe média e alta do Rio de Janeiro.  Comportavam-se com humildade e vergonha diante das críticas e gozações, sem conseguir articular um argumento sequer que não resultasse na condenação e no opróbio de seu vizinho ou colega de trabalho mais fino e educado. Os evangélicos tinham a si mesmos, a proteção grupal, a voz dos pastores e a fé desabrida para encarar as injúrias, e foram eles, efetivamente, que deram um imenso impulso às pretensões mais altas de Bolsonaro. Consequentemente, para Bolsonaro não sobrou nenhuma outra alternativa senão abandonar sua tradicional e cultural religião católica para se imbuir de uma nova fé e da caridade cristãs e se tornar evangélico, pela graça de Deus, o Deus dos judeus, do Velho Testamento. E foi lá, em Israel, nas águas do rio Jordão, que o futuro presidente iria ser ritualmente batizado por um dos mais conceituados e afamados pastores brasileiros.

A mudança de compromisso religioso tem a ver também com a persuasão gentil e de boa fé de uma evangélica que lhe trouxe um novo alento ao coração, sua esposa Michelle Bolsonaro, para quem ele fez até uma operação de reversão de vasectomia para poder gerar uma filha. A trajetória amorosa de Bolsonaro não interessa nesse ensaio, a não ser para registrar o papel de seus filhos em sua carreira política mais recente. Seus três filhos do primeiro casamento, Flávio, Carlos e Eduardo, são há alguns anos políticos e conselheiros do presidente, tendo exercido papéis invulgares na ascensão do pai na campanha presidencial. Seu quarto filho, Renan, do segundo casamento, é ambicioso aluno de uma faculdade de Direito, e sua filha Luiza, já entrando na adolescência, acalenta a benevolência paterna em residência no Palácio Alvorada.

Ao longo de sete eleições consecutivas, com votações crescentes até alcançar o pico de 460.000 votos em 2014, sendo o primeiro mais bem votado deputado federal do estado do Estado do Rio de Janeiro, Bolsonaro trilhou um caminho de atuação parlamentar mais para o lado do medíocre do que de brilhantismo.  Era contado como membro do baixo clero parlamentar, aquele imenso e multipartidário coletivo de deputados que têm muito pouco a dizer ou acrescentar nas pautas legislativas, e que servem muito mais para acompanhar votações distraidamente e fazer número. Os poucos PLs apresentados pelo assíduo, porém infértil, deputado não são dignos de quaisquer comentários airosos. Seu ressalto se dá, de forma consistente, pela discussões que frequentemente provoca, ou de que frequentemente é vítima, nos debates que se dão nas reuniões de comissões sobre temas como violação de direitos humanos, movimentos sociais, políticas protetivas a minorias, feminismo e feminicídio, direitos difusos, ditadura militar, violência policial e, mais recentemente, políticas educacionais para minorias, questões de gênero, direito ao aborto e outros tais temas do mesmo jaez. Nesses debates o Dep. Bolsonaro se destaca pela contundência de suas falas e pela estridência rebarbativa com que se apresenta. Não parece haver meneios e contemporizações entre Bolsonaro e seus debatedores. Ele não parece jamais favorecer espaço para conciliações e meios-termos, nem durante, nem após os debates. Por vezes, o calor dos debates se estende para fora dos salões e chega aos corredores da Câmara dos Deputados. Alguns dos debatedores de Bolsonaro, quase sempre dos partidos de esquerda, também não lhe dão folga, nem remissão, mas aproveitam de toda e qualquer circunstância para atacar e difamar suas posições pelos meios a que têm acesso privilegiado, como as emissoras de rádios e televisão. Alguns deles ficaram notórios nacionalmente graças a esses entreveros pessoais com o deputado. Invariavelmente mal falado, mal comentado e excessivamente vilipendiado como um ser destemperado e de mau caráter, Bolsonaro só começou a melhorar sua posição de contendor na esteira das mídias sociais, o que quer dizer, praticamente, de 2011 ou 2012 ao presente. Aí então o público passou a saber os contextos das discussões, os teores das falas e o valor argumentativo delas, e assim obteve melhores condições, dados e informações para fazer suas avaliações. Bolsonaro passou então a ser mais ouvido e observado e suas falas passaram a ressoar mais substantivas e razoáveis.

Entre os tantos tais entreveros, pode-se destacar dois como de grande contundência. O primeiro é aquele com a Deputada Maria do Rosário, do PT-RS, a propósito do índice de violência a mulher, estupros e feminicídio no Brasil. O debate já fora acalorado na comissão, mas quanto chegou nos corredores a verve de ambos os deputados ganhou ares de briga de botequim. Acusado não só de machista e estuprador, este segundo epíteto evidentemente inaceitável para qualquer inocente, Bolsonaro partiu para os finalmentes ao gritar para a deputada Maria do Rosário que ele, Bolsonaro, só não a estuprava porque ela não valia a pena!

Difícil achar algo de mais escrachado do que essa frase, realmente. Mas houve outro incidente igualmente escandaloso e ominoso, para se dizer o mínimo, quando, durante a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff, em 2016, o Dep. Jean Wyllis, do PSOL-RJ, se esgueirou entre os colegas deputados e tascou uma cusparada no rosto de Jair Bolsonaro, e rapidamente se desembaraçou por entre os colegas e escapou de uma contra-ataque. Isto aconteceu sob as lentes das câmeras de televisão, divulgando o evento ao vivo. O mesmo deputado depois murmurou aos colegas correligionários, espumando orgulho e satisfação com seu feito, que fizera aquilo para rebater a atitude imperdoável de Bolsonaro, na ocasião de pronunciar seu voto pelo impeachment, ao  homenagear descaradamente o falecido Coronel Carlos Alberto Ustra, que ficara notório pela acusação de ter participado de torturas a presos políticos durante o processo da repressão policial aos guerrilheiros esquerdistas, entre 1967 e 1977, aproximadamente. Esse coronel era médico e também teria coonestado práticas de tortura em diversos outros casos. É certo que Bolsonaro e Jean Wyllis nunca de bom grado viajaram no mesmo voo e jamais iriam se dar bem daí por diante. A esse propósito, e antecipando o que caberia dizer mais adiante, fala-se à boca pequena que o ódio de Jean Wyllis seria tão grande e desvairado que ele pode ter sido o deputado do PSOL que teria incitado, em alguma suposta conversa nas dependências da Câmara dos Deputados – sem querer, querendo – a Adélio Bispo a atentar contra a vida de Bolsonaro, o que viria a acontecer em setembro de 2018, no auge da campanha presidencial, em Juiz de Fora. A política brasileira tem de um tudo, mas assassinatos de figuras expressivas são raros. Desde Pinheiro Machado, notório senador pelo Rio Grande do Sul, apunhalado nas costas, no Rio de Janeiro, em 1918, e João Pessoa, governador da Paraíba, candidato a vice-presidente na chapa derrotada do candidato a presidente Getúlio Vargas, baleado em Recife, em 1930, – que não havia crimes de tão largo porte no Brasil. No caso em tela, Bolsonaro por pouco não morreu, mas sua fortuna o levou à vitória presidencial.

Sendo o primeiro exemplo uma amostra da indignidade explícita do comportamento de Bolsonaro, já o segundo pode parecer um momento de sacrifício e, de algum modo, de redenção. O certo é que ambos os incidentes marcaram um momento do Brasil e da história política de Bolsonaro. Os dois deputados contendores, é certo, perderam bastante votos na eleição de 2018, enquanto Bolsonaro se elegeu presidente, mas ambos foram eleitos. Jean Wyllis, por misteriosas razões desconhecidas, renunciou ao seu mandato e se auto-exilou na Europa. Seu substituto e suplente, David Miranda, também do PSOL, com votação irrisória, igualmente faz parte do movimento gay, sendo casado com o notório jornalista americano, aclamado como divulgador de notícias obtidas de hackeamento de celulares e bancos de dados, Glenn Greenwald.

Para os colegas políticos, Bolsonaro se apresenta como um sujeito afável e bem-humorado, com atitudes e brincadeiras de companheirismo, porém com um certo claro distanciamento ou superficialidade de sociabilidade, ainda que isto pareça algo como timidez ou humildade. O jornalista e ex-deputado Fernando Gabeira traçou em breves linhas um perfil de Bolsonaro, de quem foi colega por três mandatos, ambos do estado do Rio de Janeiro, mesmo sendo oriundos de outros estados, perfil este que acentua as características de cordialidade, interesse e discrição. Além da capacidade de ouvir e absorver considerações. Em nenhum momento Gabeira ou qualquer outro colega deputado ou alguma cigana vaticinante teria conjecturado a possibilidade de Bolsonaro um dia pretender seriamente se candidatar e muito menos se tornar presidente da república, tal vinha sendo considerado seu trabalho parlamentar como abaixo da mediocridade, praticamente reativo, raramente proativo. Mas a história, como sabemos, tem caminhos largos e caminhos estreitos, veredas e atalhos, e poucos têm a fortuna de saber qual deles trilhar e em qual momento. Bolsonaro soube.

Bolsonaro e os partidos políticos

Consta no currículo de Bolsonaro que ele já foi membro de sete partidos, e hoje, maio de 2020, está sem partido, ao que parece à espera do registro no Supremo Tribunal Eleitoral de um novo partido que possa chamar de seu, exclusivo. Realmente, é muito inconsistência partidária, muita indecisão, ou melhor, descrença, sobre em que consistem manifestos, missões, declarações, objetivos políticos, análise de conjuntura e como se comportar politicamente em convivência com colegas. Tudo de partido lhe parece pessoal, altissonante, falso, insincero, mentiroso. Para que fazer o jogo? Com efeito, Bolsonaro não tem nem cultiva correligionários, o que ele tem e espera obter cada vez mais são seguidores, sem ou com pouca capacidade e iniciativa de tomar decisões fora de sua alçada.

Por outro lado, ao que parece, de nenhum desses sete partidos Bolsonaro saiu brigado, intrigado ou com inimigos. Seu conforto e satisfação em cada partido parecem ser de curta duração, e para ele parece indiferente o esforço de, a cada novo momento político, sair à procura de novos companheiros em novos partidos. Difícil imaginar as razões dessa inconsistência, quando é evidente que ele tem uma boa disposição para se manter leal a hábitos, convicções e ideias. Imaginem que Bolsonaro tem se servido do mesmo cômodo e simples barbeiro, localizado num bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, há mais de 20 anos! Por que não uns mesmos colegas políticos?

Os partidos aos quais Bolsonaro foi filiado pertencem àquele lado da política chamada de conservadora, ou de direita. Nesse lado pululam dezenas de partidos, quase todos comandados por uma figura política forte e hábil, ou por um pequeno e seleto grupo de correligionários, isto é, de gente que tem os mesmos interesses político-financeiros. Diversos desses partidos estão no rol daqueles que praticavam com afinco e destreza (até serem surpreendidos com as mãos nas botijas) a arte de dar apoio aos governantes em troca de benefícios em verbas a serem usadas em seus currais eleitorais, empregos para seus apaniguados e vantagens financeiras de ordem pessoal, em tudo e por tudo configurando atos considerados corrupção. Entretanto, em nenhum deles Bolsonaro foi jamais visto como alguém que participou de conluios e acordos para auferir benefícios financeiros, seja para suas campanhas políticas, seja para uso pessoal. São poucos os políticos no Brasil que não caíram nessa tentação tão arraigada. A aura de político honesto corresponde ao figurino.

Pelo tanto de experiência que adquiriu em sua carreira política Bolsonaro certamente conhece os meandros de como se dão as trocas de favores e os meios que produzem a corrupção política. Entretanto, em momento algum ele jamais veio a público para denunciar alguém explicitamente como corrupto, muito menos companheiros de partido. Essa discrição corresponde a uma atitude de autonomia individual e respeito ou indiferença ao que outros políticos pensam e fazem. Bolsonaro tem um forte sentimento de que cada pessoa é responsável por si mesma, em primeiro lugar, e só secundariamente pelo coletivo em que participa. Com os que praticaram corrupção Bolsonaro evita se relacionar politicamente, mas não evita o relacionamento pessoal. Certamente que ele tem certo senso dos motivos mais profundos das falhas humanas e do perdão necessário a ser concedido, após o devido arrependimento, por quem de direito. Deve ter algo de sentido cristão nessa atitude, mas, em relação aos seus folgados e desbocados inimigos, Bolsonaro é bem menos aquiescente. São tantos as contradições e ambiguidades do ser humano!

Ao se sentir acossado com cada vez mais intensidade pela mídias e figuras importantes das instituições públicas e privadas, Bolsonaro tem usado a estratégia de não demonstrar recuo, mas rebater a cada momento que puder. Contudo, tem chegado a tais momentos de estridência e ameaças ao seu mandato que uma turma de ministros e congressistas amigos entram no meio para tentar apaziguar os ânimos e procurar resolver as discordâncias e rabugices pela ideia de que são pendências a serem resolvidas. Tem sido assim sua relação com os presidentes da Câmara e do Senado e com o presidente do STF e até com seus ministros mais importantes, como Sergio Moro e Paulo Guedes. Mas não há paz com dirigentes de órgãos como a Associação Brasileira de Imprensa, a Ordem dos Advogados do Brasil e outras de menor escalão político.

Bolsonaro e as mídias digitais

Foi numa visita de trabalho a Fortaleza, em 2015, que Bolsonaro se deu conta que suas falas e suas atitudes perante as questões nacionais discutidas no Congresso e na mídia tradicional tinham chegado a uma camada da população que normalmente não lê nem vê com assiduidade esses veículos de informação. De onde essa gente o teria descoberto? Por que estavam tão entusiasmados com a chegada dele no Aeroporto Pinto Martins?

As mídias digitais, novidades de comunicação muito recentes, com capacidade de exposição crua e chula de fatos e contra-fatos, com facilidade e meneios para persuadir participantes e ganhar aderentes e militantes—WhatsApp, Twitter, Facebook, YouTube e Instagram, principalmente—têm sido o fator fundamental na divulgação das ideias e atitudes de Bolsonaro. Elas que lhe propiciaram o epíteto “mito”, que é gritado com força de fé pelas multidões que o recebem onde quer que vá. Sua eleição de 2018 se deve em boa parte ao papel exercido por essas mídias. Até 2014, quando teve uma votação expressiva para deputado federal pelo Rio de Janeiro, seu nome circulava na mídia tradicional e no boca a boca ainda como um nome execrado, impronunciável, a não ser com derrisão, nos círculos dos bem-pensantes. As mídias digitais desfizeram esse mal-estar embalando as pessoas a não terem vergonha de serem o que são, de estarem descobrindo o que no fundo sempre sentiram de si mesmas, como numa catarse pisco-sociológica de auto-afirmação de si mesmas. Daí por que a gritaria coletiva— mito, mito, mito!!!!!!— produz um clima de ritual religioso, de afirmação de pertencimento e de fé em alguma coisa, em um movimento coletivo, em Bolsonaro.

Assim, Bolsonaro se tornou, sem qualquer prova real de mérito político e com pouquíssimas evidências de elevação moral, uma figura mítica, digamos, ao menos, à moda americana, “icônica”, no sentido de representar virtudes reais ou potenciais de caráter mágico ou profético.

Tudo isso se deu com uma rapidez estonteante e quase inacreditável. Bolsonaro é realmente um fenômeno da pós-modernidade, da era das incertezas e inconsistências humanas. Como já o fora Lula, em tempo recente e talvez um pouco mais arrastado e demorado.

Hoje, o presidente Bolsonaro não precisa dos jornais tradicionais para dizer o que quiser, para passar a mensagem que bem entender. Ele aparece em qualquer lugar, na rampa do Palácio do Planalto, no portão do Palácio da Alvorada, numa caminhada célere com um grupo de ministros e empresários em direção ao STF, e solta o verbo para ser divulgado de imediato pelas redes sociais. Ele e, por consequência direta, uma penca de seus ministros não precisam mais bajular jornalista tradicional nem pagar propaganda aos jornalões sequiosos de verbas públicas para se manter. Neste caso, é possível que a animosidade indobrável de Bolsonaro contra a imprensa tradicional venha a produzir, por reação, uma imprensa revigorada no Brasil, autônoma em suas convicções por se ter tornada autônoma de benefícios financeiros públicos. Seria uma especial ironia fruto do gênio despiroquetado do capitão.

O que está acontecendo na mídia digital brasileira da atualidade é algo digno de assombro para uma geração de gente mais comportada até um passado bem recente. O Twitter, em especial, é um botequim digital de beira de calçada do mais fino estilo brasileiro. Nenhuma declaração bem colocada, bem desenvolvida em argumentos, ponderada e tolerante, sustenta mais do que três “likes” antes de receber uma troletada de escárnio e palavrões em siglas— fdp e VTCN sendo os mais comuns.

Por sua vez, cada lado do confronto se assume como probo, correto e verdadeiro e pespega no outro lado a pecha de desonesto, enganoso e falso. Notícias fajutas, maquinadas, o tradicional boato e os fuxicos viraram “fake news”, assim ganhando um ar de dignidade pós-moderna, já que ninguém quer se sentir fora da onda globalista de bons modos de comportamento.

As fake news viraram a nova besta-fera da enganação e da mentira, porém só os outros têm esse mal costume de produzi-las e divulgá-las. Declara um lado peremptoriamente que Bolsonaro ganhou a eleição presidencial à base de fake news e com a ajuda maquínica de um novo mensageiro não muito angelical, pois também simulador, o robô da internet, o bot, para os que acompanham o linguajar em inglês. Este é um programinha de computador, com o nome matemático-informacional de algoritmo, que é capaz de simular situações e até diálogos com quem com ele interage, e replicar notícias ou escritos ou gráficos ou GIFs quaisquer por milhares e milhares de vezes (como se fosse um irmãozinho do coronavirus) em milhares de aparelhos receptores ligados no aplicativo onde ele foi gerado. Ou além!

O conteúdo das fake news é onde está o problema filosófico mais caliente, digamos assim, dos nossos tempos. Se antes a busca da verdade era uma prerrogativa de quem fazia muita ascese mental, de quem se dedicava a vida inteira, sob o risco de nem conseguir uma esposa ou um marido digno, ou ao menos ricos, ou uma casa decente para morar, agora os Sócrates brasileiros estão bem refastelados em confortáveis poltronas dirimindo a torto e a direito o que é a verdade dos fatos, o que pode ser julgado notícia verdadeira ou falsa, e como os mensageiros dessas fake news podem ser arrancados e conduzidos de suas casas e escritórios, por ordem judicial ou sob vara de marmelo, se necessário for, destituídos do direito de usar das mídias sociais, apartados, quais bezerros em desmame, da frente de seus computadores e celulares, e arrastados a juízo para serem devidamente escrutinados, julgados e punidos a bem da justeza da nova filosofia fabricada na bancada úpsilon do STF pelos nossos doutores Simões Bacamartes redivivos na magistratura, previamente escoladas nas artes protetoras de seus patrícios e patronos, ungidos na França e na Alemanha, que é onde se fazem grandes causídicos, em plantão permanente, a toda hora do dia e da noite, fins de semana, feriados e licenças médicas e tudo.

Os seguidores de Bolsonaro, mas também os não seguidores, estão pagando um preço por suas ousadias de plantarem fofocas e boatos nas mídias digitais especialmente porque estão transformando todo mundo em zumbis e replicantes de fake news. Só ressuscitando Mikonjequison para fazer uma nova versão de Thriller.

Se isto não for uma infâmia, é muita dedicação ao culto misterioso aos deuses da engabelação nacional.

Bolsonaro e os filhos na política

Muita gente fala que a tríade de filhos do progenitor Bolsonaro – o senador Flávio, o vereador na cidade do Rio de Janeiro, Carlos, e o deputado federal por São Paulo, Eduardo – são, na melhor das hipóteses, calos inflamados nas joanetes políticas do pai. Ninguém mais, a não ser os mais próximos e os cupinchas, tem paciência com eles. O mais velho, o atual senador pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, que começou sua carreira como deputado estadual, fazendo dobradinha com o pai, anda de tal modo encrencado com o processo da “rachadinha” que havia no seu gabinete de deputado estadual que nunca adquiriu a fluidez política para atuar com desenvoltura no Senado Federal. Investigações feitas durante o ano de 2018 demonstram que seu gabinete de deputado era dirigido por um ex-policial militar, Edson Queiróz, que antes trabalhara com o próprio Jair Bolsonaro, ex-colega de Exército, acusado de ter íntimas conexões com milicianos da pesada, controladores de algumas favelas do Rio de Janeiro, como a Favela das Pedrinhas. Queiroz era o encarregado de arrecadar as porcentagens dos salários dos funcionários do gabinete de Flávio para serem entregues ao próprio. Por suposto, com esses recursos Flávio teria amealhado um bom dinheiro com o qual fizera investimentos imobiliários e em uma loja de chocolates.

A notícia estourou antes mesmo da posse presidencial e tem desde sempre mobilizado todas as energias e paciência do senador – e algumas do seu pai – na inglória batalha para fazer sua defesa nos tribunais. Tem sido por isso, ao que parece, que Bolsonaro pai tem feito tantas exigências à Polícia Federal, especialmente ao então ministro Sérgio Moro, para encontrar um desfecho positivo para esse caso. O presidente aumentou o seu desgaste pois, um pouco antes da posse, dissera de público que não acreditava nas acusações contra seu filho, mas que, se ficasse provado que Flávio tivesse cometido algum tipo de crime, que ele pagasse por isso conforme os desígnios da Justiça. Qual o quê, ainda que muitos brasileiros, ao ouvir essa declaração, tenha se sentido enternecido pela dura rigidez moral do pai Bolsonaro, logo ficariam decepcionados pelos sinais de que aquela declaração era só da boca para fora, coisa de político tradicional.

É certo que “rachadinhas” constituem um crime ou dolo menor, no conjunto das obras delituosas da política brasileira, pois tem sido praticado com assiduidade e denodo por muitos políticos em todos os níveis e cargos de carreira. O inquérito que levou à investigação contra Flávio Bolsonaro revelou que havia ao menos 15 deputados estaduais na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que tinham contas com iguais suspeitas de rachadinhas, algumas com somas que iam até 30 e 40 milhões de reais, quando o caso de Flávio chegava tão-somente a 1,2 milhões de reais. Mal consolo e péssima justificativa, mas é o que sobrará disso tudo, se é que o processo continuará no mesmo passo que vem tendo desde então.

O segundo filho é o Carlos, o “pit-bull” do pai. Dono de uma personalidade exasperada, afeto a rebater toda e qualquer crítica ao pai, sem sopesar relevância ou conveniência, o vereador Carlos começou sua trajetória de escândalos quando se aboletou, contra toda a liturgia da posse do pai Bolsonaro, no mesmo carro em que desfilavam o presidente e sua esposa pela Esplanada de Brasília, no dia 1º de janeiro de 2019, sob a crença alarmista de que só ele seria capaz de fazer a defesa pessoal do pai em caso de atentado. Carlos é o filho que comanda a mídia pessoal do pai, seu Twitter e WhatsApp, e esse comando tem trazido ao pai muitos momentos de embaraço e mal-estar político pelo despropósito de muitas mensagens postadas. É possível que o pai e os demais membros da família acreditem que Carlos tenha um agudo instinto de sobrevivência e percepção e entenda melhor do que a maioria como a maldade humana age ou pretende agir, especialmente em relação ao pai. Este, já entregue aos caprichos e bizarrices do filho, atua com surpreendente condescendência e delicadeza, aparentemente para não o desgostar.

O terceiro filho, Eduardo, foi eleito com a maior votação jamais obtida por um deputado federal na história brasileira, algo em torno de dois milhões de votos, no estado de São Paulo. Nascido e criado no Rio de Janeiro, de índole e hábitos cariocas, sua entrada na política de São Paulo, desde sua primeira eleição a deputado federal, em 2014, demonstra o quanto de capacidade de transferência de prestígio tem o seu pai. Eduardo parece ser um sujeito simpático e diligente, o que talvez tenha levado seu pai a acreditar que ele poderia se tornar o embaixador brasileiro junto ao governo americano, em Washington. O presidente Bolsonaro fez de tudo para viabilizar o filho nesse cargo, inclusive levando-o para uma audiência pessoal com o presidente Donald Trump. O filho fez de tudo para se mostrar apto ao cargo, inclusive fazendo declarações as mais cândidas possíveis, como a de que sua expertise na língua inglesa seria bastante bom porque teria passado algum tempo nos Estados Unidos, inclusive trabalhando em fritar hambúrgueres em uma cafeteria no Colorado. Também estaria tomando lições de história diplomática e política internacional como preparativo para sua audiência com a banca de senadores avalistas das nomeações presidenciais a tão distinto posto diplomático. Após quase três meses de exposição nacional e internacional, na maior parte com críticas ácidas e frequentemente debochadas, o pai, usando de seu melhor alvitre, sentiu que o filho lhe seria mais útil ajudando na liça política interna, e a nomeação foi cancela.

Para o presidente Bolsonaro seus três filhos são uns bons meninos que só querem o bem da nação. Sua complacência parece ser infinita e seu espanto de que os demais brasileiros não sintam o mesmo lhe assombra como injusto, unfair, mas não havia nada mais a fazer. A mídia tem sido bastante cruel com o presidente Bolsonaro, sobre todo e qualquer tema, mas, com os filhos ela amolou sua peixeira ao extremo: não perdoa nem a rachadinha do Flávio, se verdadeiro for, um crime sem dolo que acomete nove em cada dez políticos estaduais de todo o Brasil, nem muito menos a aspereza de Carlos, sua bravura e suas bravatas, enquanto Eduardo é tratado como um bobo alegre que eventualmente contribuirá para envenenar o prestígio do pai no estado de São Paulo. E o show só acabou de começar!

Bolsonaro e o filósofo Olavo de Carvalho

Na noite da vitória do segundo turno da eleição presidencial, 28 de outubro de 2018, Bolsonaro se apresentou em live, de seu modesto quartel-general da campanha, para agradecer e comemorar seu grande feito, tendo visíveis e conspícuos sobre a mesa três livros para mostrar suas inspirações principais. Um livro era a Bíblia Sagrada, naturalmente, o outro uma biografia de Winston Churchill, um pouco surpreendente, e o terceiro um livro de ensaios ou diatribes político-filosóficos chamado “O imbecil coletivo”, do filósofo e escritor Olavo de Carvalho. Mas, que maluquice é essa, deve ter caído o queixo da metade dos brasileiros que se dão a pachorra de ler e acompanhar as discussões sobre temas da cultura, história, política, ideologia, literatura e filosofia brasileiros, por onde o nome de Olavo já teria circulado, para o bem ou para o mal. Como é que Bolsonaro teria chegado a esse cara?

Olavo de Carvalho é antes de tudo aquilo que os ingleses chamam de “critic”, ou talvez, ensaísta, um intelectual de largo espectro, não necessariamente ligado ao sistema acadêmico, capaz de analisar, discutir e propor ideias sobre temas variados como cultura, literatura, política, filosofia, poesia e ciências sociais, além de filosofia. Sua carreira como intelectual começa cedo, quando aos 19 anos, pelos idos de 1966, tendo abandonado os estudos secundários e nunca entrado na universidade, atraído pelas ideias do Partido Comunista Brasileiro, em sua versão mais democrática e corporativa, embarca no ofício de jornalista, a partir das simples tarefas de aprendiz, como editor de textos, repórter, resenhista de livros, indo aos poucos crescendo para redigir seus próprios textos e comentários. Seu primeiro jornal foi a Folha de São Paulo (hoje aquele que tanto ele como Bolsonaro mais detestam) e daí para uma dezenas de jornais e revistas, uma ruma de publicações importantes ou interessantes, até se mudar para os Estados Unidos, em 2005, onde faz residência na cidade de Richmond, capital do estado de Virginia, a cerca de 100 milhas de Washington, DC. Ainda nos anos 1960 renega seus ideais comunistas, passa a se interessar por temas esdrúxulos, como ocultismo, astrologia e islamismo e embarca em aventuras religiosas, parapsicológicas e astrológicas que resultam na publicação de seus primeiros livros. Desse período, que vai até fins da década de 1980 Olavo ganhou dos adversários e inimigos a pecha despiciente de astrólogo e ocultista, algo que ele retruca com correspondente desprezo. Nesse meio tempo dedica-se a ler, estudar as obras e frequentar autores com um viés mais conservador e liberal. Faz amizades com diversos deles, como Antônio Paim, Miguel Reale, Mário Vieira dos Santos e Bruno Tolentino, em São Paulo, e, já morando no Rio de Janeiro, com Paulo Mercadante, Roberto Campos, Padre Stanislavs Ladusans, reitor da Pontifícia Universidade Católica, José Guilherme Merquior, José Mário Pereira e outros mais.

Na década de 1990 é que Olavo de Carvalho surge com extrema ousadia no campo intelectual brasileiro escrevendo artigos críticos sobre temas do momento, com profundidade de intelectual ilustrado e viés liberal para conservador, e depois uma série de livros com grande capacidade de levantar controvérsias e debates, tais como A nova era e a revolução cultural: Fritjof Capra & Antonio Gramsci; O jardim das aflições: de Epicuro à ressurreição de César – Ensaio sobre o materialismo e a religião civil; e O imbecil coletivo: atualidades inculturais brasileiras; todos seguidos de novas edições pelo tanto de polêmicas e interesses que suscitaram. Em 1994, escreve uma primeira versão de seus estudos sobre Aristóteles, que havia tomado como objeto a partir das aulas e seminários que lhe haviam sido dadas pelo Pe. Stanislavs. Em 1996 sai uma versão mais completa desses estudos em que propõe uma visão nova sobre dois livros de Aristóteles que só teriam vindo a lume praticamente no Renascimento, um sobre poesia e o outro sobre retórica, e propõe que eles fazem parte de um possível sistema de discursos (ou lógicas, como veremos) do grande estagirista. Tal ideia brilhou com um ar de novidade e ousadia, um feito digno de um filósofo que precisava ser levado em consideração. Entretanto, dada a disposição do autor à polêmica e a de filósofos e cientistas brasileiros a se enclausurarem em seus feudos, a obra foi recebida com a atitude tradicional da academia brasileira, primeiro, aos tapas e arranhões, depois, pelo silencioso olvido sepulcral. Não obstante, o livro Aristóteles em nova perspectiva: Introdução à teoria dos quatro discursos, publicado pela editora Topbooks, em 1996, não foi enterrado vivo, mas prosperou e tem ganho novas edições ao longo dos últimos 20 anos de sua publicação. É um livro verdadeiramente precioso e original, cuja argumentação de que a Poética e a Retórica fariam parte do sistema lógico de Aristóteles corre em paralelo com as ideias de um outro filósofo brasileiro, Luiz Sérgio Coelho de Sampaio, cuja visão de lógica indica proximidade com esta visão filosófica de Olavo de Carvalho, e que também recebeu a amarga indiferença da academia de filósofos e cientistas sociais. Por esse paralelismo e por ser a única obra brasileira que parece dialogar com a filosofia de Olavo sobre Aristóteles, valerá a pena discorrer um pouco sobre a filosofia de Sampaio.

A obra de Sampaio pretende reestabelecer o sentido original, delineado por alguns filósofos gregos clássicos, entre eles Parmênides, Heráclito, Platão e Aristóteles, do que seria lógica como modo de pensar, não só o modo de pensar “correto”, por meio matemático ou silogístico. Inclui-se também como pensamento lógico o pensamento transcendental ou identitário, o inconsistente e o paradoxal, o sintético ou dialético, o propriamente sistêmico ou “racional”.  Cada uma dessas quatro lógicas, ou quatro modos básicos de se pensar, iluminam certas áreas de um tema ou questão e se complementam, quando bem juntados e ponderados, para produzir um sentido integral da questão. Esse processo de complementação é regido por uma lógica superior, chamada hiperdialética, que é o que podemos chamar de lógica maior do ser humano. Usar da melhor maneira possível da lógica hiperdialética é o que permite uma pessoa obter uma noção mais abrangente e generosa de uma determinada questão. Generosa porque aceita que, nessa visão abrangente, há visões parciais importantes, mesmo que contraditórias, que precisam ser levadas em conta para esclarecer a questão em tela de forma íntegra. Essas ideias estão contidas no livro Lógica Ressuscitada: Sete Ensaios, publicado pela editora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, em 1998.

Bem, para exemplificar na prática como funciona a visão de Sampaio sobre um determinado tema, tomemos a realidade política dos tempos atuais, que serve de pano de fundo ao motivo deste ensaio.  Tal como a vemos hoje no Brasil, a política e seu discurso inevitável, a ideologia, se exercem em quatro modalidades, ou vieses, para usar um termo da moda: há um modo conservador que deseja que o mundo pare ou até retroceda no tempo, ou ao menos tenha uma ordem fixa e, para muitos, predeterminada; há um modo contrário, que concebe o mundo como em eterna mudança, radicalmente anárquico ou sem direção certa, para a direita ou para a esquerda; terceiro, há um modo dialético que pretende confrontar esses dois vieses para criar uma síntese nova, como se fosse um mundo novo – o mundo teria uma ordem ainda que precária e uma direcionalidade provisória; e há o quarto modo, que pretende ordenar o mundo racionalmente, levando em conta os três modos anteriores, de um modo mais ou menos equilibrado. Esses modos podem ser identificados em atores e agentes políticos, ainda que no Brasil eles se apresentem misturados e até desordenados, como é próprio de nossa cultura conflitiva. Ninguém é puro conservador, ou puro voluntarista, seja de direita ou de esquerda, ou puro radical esquerdista, ou puro racionalista liberal – ainda que, grosso modo, seja possível identificar para onde cada agente político pende um pouco mais. A política, que é a qualidade humana coletiva de exercer o poder para decidir o que é melhor para o coletivo, se realiza numa arena de disputa ferrenha e incessante quanto mais for a divisão social entre grupos e classes sociais, e quanto mais houver carência de consensos entre os grupos. É realmente o prato cheio e apimentado ou nauseabundo que se come todo dia no Brasil.

Como o Brasil poderia encontrar um caminho que transcendesse, que fosse além de cada uma desses modos de exercer a política, reconhecendo e valorizando as qualidades que cada um tem em seu devido lugar e para as devidas e apropriadas situações?

Bem, ao ler alguns livros de Olavo de Carvalho, especialmente, mais uma vez, suas reflexões sobre os quatro discursos de Aristóteles, e confrontando essas reflexões com a história de vida do autor, que inclui uma passagem de jovem adulto pela atuação comunista, uma prolongada pedalada pelos mistérios e indefinições da astrologia, ocultismo e até islamismo e uma aderência racional pelo liberalismo filosófico, dá para entender que Olavo exercita seu potencial hiperdialético em sua busca humana por algo certamente indefinível (como quase todos nós também o fazemos) e que sua atual escolha política de cunho conservador, que já dura uns vinte anos ou mais, não desconsidera essas outras visões em sua atuação filosófica. Já sua atuação política são outros quinhentos por estar não no nível epistemológico da concepção de vida e sim no nível praxeológico, onde pensamento (sempre parcial) e atuação são necessariamente consentâneos.

O reconhecimento do talento filosófico e polímata de Olavo de Carvalho cresceu fora ou, no máximo, pelos interstícios da academia brasileira, das faculdades particulares, em especial, e alcançou um público curioso, às vezes, ingênuo, que estava talvez farto de um discurso enfarento por levar todos os temas, invariavelmente, às ideias de Karl Marx e de seus múltiplos epígonos, ideias que haviam inspirado revoltas populares de trabalhadores e revoluções socialistas ou comunistas cujos resultados, após algumas dezenas de anos, tinham se mostrado defectíveis e portanto inviáveis para sociedades humanas, conforme se via nos últimos anos as evidências da debacle dos regimes comunistas na União Soviética, nos países do Leste Europeu e asiáticos, exceto pela tríade atual de China (em toda sua dubiedade economista), Coréia do Norte e a saudosa Cuba. Hoje, Olavo de Carvalho tem um público cativo de mais de 800.000 leitores e ouvintes de suas palestras, aulas e comentários sobre os temas próprios de um polímata brasileiro, algo que não se via talvez desde os anos 1950-60, com figuras brilhantes como Mário Ferreira dos Santos, Wilson Martins, Sérgio Buarque de Holanda, Tristão de Athayde, Otto Maria Carpeaux e diversos outros. Sua bibliografia se ampliou enormemente na medida em que suas palestras divulgadas ao vivo pela mídia digital iam sendo desgravadas e transformadas em livros. São poucos os intelectuais e jornalistas que acompanham tudo que Olavo tem publicado desde o ano 2000. Olavo certamente se transformou num dos escritores mais prolíficos do Brasil de todos os tempos.

Voltando ao tema Bolsonaro e sua personalidade trágica, é curioso indagar como Olavo de Carvalho teria chegado à sua atenção. Provavelmente através de seus filhos, especialmente Eduardo, o aspirante a embaixador, que o acompanhava na mídia como aluno ou interessado, em busca de um caminho para dar alguma ordem ou sentido às ideias mal-ajambradas do pai ou ao menos edulcorar seu discurso político, o qual almeja o bem do país por uma via diferente da via mais conhecida e batida do discurso político tradicional. Pois, fica evidente que Bolsonaro, se não é louco ou psicopata, é um político com ideias insólitas, trazidas do fundo de sua alma, de sua cultura de base, e de sua experiência de tentar redimir o papel político das Forças Armadas durante o regime militar. Olavo de Carvalho viu em Bolsonaro o homem sincero e honesto, repleto de pureza d’alma, extraído como um diamante bruto da cultura de base brasileira, aquela que um dia formara a base do entendimento entre raças e ideias diversas e até opostas, e se consolidara por via da tolerante religião cristã-católica, e sob a égide de um processo político tradicional de domínio de elites estamentais que criaram um Estado nacional como uma casamata onde só entram os trajados de linho e punhos de seda, ou os treinados para limpar botas militares, ou ao menos os que sabem declamar versos altissonantes com salvas à liberdade e à glória do Brasil. Bolsonaro não é nenhum desses tipos, ainda que tenha servido sob o tacão dos militares em seus dias de tomada de consciência política. O que ele almeja é difícil de saber com certeza, mas os sinais estão por toda parte.

A imprensa, os acadêmicos e o público filopetista não se cansam de zombar e escarnecer de Olavo e Bolsonaro, os dois loucos juntos, guru e discípulo, em um abraço de afogados. Cada um de per se, evidentemente, não dá qualquer bola para isso, sabendo que as ofensas e aleivosias fazem parte do mar tempestuoso de críticas que sempre receberam, de diferentes remetentes, agora milagrosamente unidos a serviço da preservação do status quo, subitamente elevado à altura de tudo de bom e digno para o Brasil. Oh, céus!

Pelo que Olavo tanta fala e Bolsonaro raramente comenta, não há muita conversa entre os dois, nunca teria havido. Entendem-se por sinais, seriam almas gêmeas no redemoinho da política e da inteligência brasileiras. Porém, que se comunicam, que Olavo tem discípulos e admiradores dentro do governo Bolsonaro, que buscam influenciar projetos nacionais, atitudes morais e culturais e políticas internacionais, não restam dúvidas. Resta saber se essas atitudes são extemporâneas ao projeto conservador do governo Bolsonaro, fora do eixo básico formado por militares e colegas políticos, com algumas pessoas ilustres, de modo “técnico” em posições estratégicas, ou se realmente dirigem o espírito do governo e poderiam funcionar como articuladores de uma espécie de ideologia conservadora própria. A incerteza está aberta.

Seja o que for, o que bem interessa a todos é saber se Olavo é um democrata brasileiro, considerando todas as vicissitudes desse regime em nossa história republicana, ou se ele por acaso alimenta um pensamento militarista, com tendências ditatoriais, que pudesse ser aplicado na governança do Brasil. E se essa visão encontra abrigo no pensamento do presidente. Ao que sabemos, as ideias apresentadas por Olavo de Carvalho em seus textos e comentários políticos e filosóficos indicam uma expectativa democrática, seja como realidade inescapável, seja como objeto de desejo. A atitude conservadora de Olavo de Carvalho advém de reflexões que lastram na religião cristã e na civilização ocidental, tendo como base real as experiências de países como a Inglaterra e Estados Unidos que desenvolveram sociedade livres e economias à base do capitalismo, com liberdade para os indivíduos decidirem sobre suas opções de vida e com o mínimo de interferência do Estado. Por outro lado, dadas as vicissitudes da democracia brasileira, reconhecidas raivosamente por Olavo de Carvalho, tais como, a consistente manutenção do patrimonialismo, o arraigado corporativismo da classe média, o desvirtuamento de políticas trabalhistas, os inefáveis conluios de corrupção entre empresas e governos, tudo isso trabalhando em conjunto para o bem do pequeno contingente da elite econômica e o grupo mais amplo o qual ele designa pelo termo “estamento burocrático” que, em sua visão, controlam juntos o Estado brasileiro, Olavo tem feito observações um tanto cavilosas indicando que só com força política e participação popular, e quiçá até militar, é que um governo dito popular e democrático, como o seria o governo Bolsonaro, poderia realizar os seus propósitos políticos de manter o povo brasileiro coeso e cristão com possibilidades de diminuir a distância social e elevar a nação à condição de potência mundial. Com essas dificuldades internas, Olavo de Carvalho calcula que a questão democrática pode se perpetuar como um enfeite inútil, um badulaque político, se a melhoria das condições sociais e econômicas e a virada conservadora que a eleição de Bolsonaro significou não forem alcançadas e sim relegadas a segundo plano. Difícil entender até onde esse raciocínio nos pode levar na resolução de um comprometimento estritamente democrático.

O presidente Bolsonaro e seu primeiro ano de governo

Provavelmente jamais houve um governo que nos primeiros cem dias, no primeiro ano de atuação tenha sofrido tantas críticas pelas mídias, especialmente a imprensa tradicional, e tantos protestos por parte dos perdedores. Se alguém algum dia quiser compilar essas críticas vai cansar a beleza de qualquer leitor. Há matéria para todos os gostos, desde as horríveis gozações contra a ministra Damares Alves, por seu cândido relato, quando falava para um grupo de mulheres sobre qual política pública estava pensando em aplicar, de ter sido estrupada e ter-se imaginado, aos oito anos de idade, num diálogo com o próprio Jesus Cristo, em uma goiabeira. Mas também foram extremamente ridicularizados o ministro Ricardo Velez, nos três meses que ficou no Ministério da Educação, por sua visão radicalmente negativa da educação pública brasileira e pela desimportância que com que tratou as associações da casta superior universitária. Sua própria estampa pessoal parecia deslocada, como se tivesse vindo de décadas passadas, em parte por causa de seu sotaque carregado de castelhanismos da Colômbia, sua terra natal. Velez Rodrigues também carregava a pecha negativa de ter sido indicado, a pedido de Bolsonaro, por Olavo de Carvalho, que, por sua vez, logo declarou que nem bem o conhecia, mas recebera a indicação de outro colega, provavelmente o filósofo Antônio Paim. Bolsonaro, naturalmente, ficou com a brocha na mão, e, para não cair, logo o substituiu pela figura inédita de um professor de Direito que, pronto, passou a se apresentar com pantomimas esquisitas, como a que aparece personificando o ator Gene Kelly, com um guarda-chuva, como se estivesse cantando na chuva, e com postagens provocativas contra as universidade e os cursos de ciências sociais nas mídias sociais. Outro ministro que sentiu o peso das acusações foi o deputado federal por Minas Gerias, Marcelo Álvares Antônio, alçado a ministro do Turismo, aparentemente pelo pleito de agradecimento de Bolsonaro por ter sido socorrido com presteza e dedicação na ocasião da facada sofrida em 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora. O ministro Marcelo Antônio foi acusado pelo Ministério Público de Minas Gerais de ter usado de “laranjas”, ou seja, pessoas que recebiam dinheiro para a campanha, mas que na verdade deveriam devolver grande parte do recebido para o chefe da campanha do partido, no caso, o próprio então deputado Marcelo Antônio. O ministro sobreviveu à saraivada de críticas em jornal e continua no cargo sob a grave suspeita.

Contudo, os ministros que mais sofreram críticas trucidantes e cheias de veneno dos políticos perdedores, da mídia encarniçada e do público filopetista foram Paulo Guedes e Sérgio Moro. Também não há comparação na história do Brasil para tamanhas campanhas difamatórias contra as ideias, os propósitos, os programas que esses ilustres homens públicos apresentaram, mas também escrachamento, e por que não mencionar, esculacho contra essas pessoas e seus familiares, especialmente a Sérgio Moro. Em contraposição, cada um deles respondeu em seus próprios estilos. Paulo Guedes encarou raivoso, de frente, em debates na Câmara Federal, petistas e comunistas, com palavras e observações duras e personalizadas. Sobrou até para Lula. Ganhou moral com isso. Já Moro preferiu o silêncio que diz mais que as palavras, retrucando muito raramente a um ou outro deputado mais histriônico, protegido por sua liberdade de expressão, que o xingava de ladrão. Às acusações levantadas pelo site TheIntercept pelo hackeamento de seu celular, Moro respondia em tuítes frios e pontuais.

Paulo Guedes, o abrangente ministro da Economia, com Ph.D. pela Universidade de Chicago, o berço renascentista do liberalismo econômico americano e quiçá mundial, apresentou um programa novo, ousado e consistente que, de pronto, recebeu os opróbrios despeitados dos economistas de linhas diversas, cujas experiências de governo em geral tinham dado errado (os keynesianos) ou dado certo, com limites (social-democratas). Guedes propôs algo radicalmente liberal, na medida do possível para o Brasil, o que excetuava a privatização tão somente da Petrobras e de alguns grandes bancos estatais, como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. E olha lá! O resto deveria, em princípio, cair na malha da privatização generalizada.

Tantos são os projetos econômicos que Guedes e sua equipe apresentaram que não dá para fazer uma avaliação neste contexto ensaístico. O que vale remarcar é a sua ousadia em fazer essas propostas e sua persistente tentativa para convencer não somente o presidente Bolsonaro mas também o público brasileiro, aqueles que poderão vir a estar sob a guarda de um novo regime de aposentadoria ou de salários, bem como os políticos em geral que, com seus malfadados arranjos e contemporizações, gostariam de manter o regime de aposentadorias tal como está, favorável a si mesmos e a quem os apoia. Para eles um regime político-econômico da ordem patrimonialista continua em boa ordem pelas mesmas garantias que vem desde sempre oferecendo às classes médias superiores, ao empresariado e ao patriciado nacional. Especificamente, nenhum político que se elege à base de um discurso de garantias de preservação de direitos corporativos jamais pularia fora dessa caçamba de sustentação. A simples proposta de estabelecer uma idade mínima para a aposentadoria tem sido visto como um anátema à doutrina de direitos imprescritíveis que estariam inseridas como “cláusulas pétreas” na lápide da nossa sexta constituição republicana, já pela metade emendada.

Guedes persistiu e de certo modo prevaleceu. Certamente fez mais do que seus predecessores mais bem protegidos politicamente. E o fez muitas vezes à revelia das desditosas e vacilantes interrupções da parte do seu chefe. É certo que a estridente torcida dos contrários era para Guedes desistir, renunciar, fugir, se mandar para uma Pasárgada em Barbacena ou em Chicago, e gozar a vida à sombra de sua considerável riqueza obtida por sua sagacidade de tarimbado economista.

Já Sérgio Moro sofreu mais em sua alma, sendo homem de estirpe provinciana e personalidade discreta, dito de índole misteriosamente estratégica, e também já cheio de calos escarmentados pela algaravia odienta e rancorosa dos filopetistas quando de sua ação de magistrado. Guedes, nascido no Rio, mas de ascendência mineira, é o mineirinho quase surgido dos traços de Ziraldo, enquanto Moro podia ser uma figura nova na Turma da Mônica. E já com namorada fixa a tiracolo.

A proposta ministerial de Moro tinha duas vertentes. Uma era diminuir, ou arrefecer fundamentalmente, ou dar um choque fatal na corrupção desenfreada que vinha consumindo o Brasil, na alma e no bolso, nos últimos 20 e tantos anos, ainda que a corrupção tenha sido um dos elementos constitutivos da política nacional desde Cabral, corrupção esta que havia sido exposta em seus mínimos detalhes por sua magistratura na Operação Lava Jato, a qual lhe teria dado fama e reconhecimento. A segunda vertente de sua proposta era criar meios institucionais e instrumentos legais para o combate efetivo contra a violência brasileira, que tem causado a morte de, em média, 40.000 a 50.000 pessoas a cada ano desde o fim da ditadura militar. Esse número havia chegado a 62.000 em 2015, a partir de quando começara a diminuir com lentidão. A violência brasileira tem raízes profundas, diz respeito ao controle das populações que compuseram o contingente pobre e oprimido desde a formação da nação. Entretanto, sua amplitude tinha se estendido muito além desse controle e apontava para a organização de grupos criminosos de diversas naturezas, sobretudo o tráfico e a venda de drogas, seus agentes locais, nacionais e internacionais, e o controle de alguns serviços comerciais e infraestruturais nas comunidades e bairros pobres das grandes cidades.

Cada governo que entrava havia prometido acabar com esse flagelo nacional, mas se perdia nas leis, regras, incompetência subjacente, subterfúgios, conluios e na complexidade das relações entre o objeto do crime, os criminosos, bandidos e milicianos, os policiais e o fruto cobiçado dos crimes. Moro viera para desbaratar essa complexidade, expor suas entranhas e concatenar meios e instrumentos para dar um basta na desgraceira e vergonha nacionais. Para isso o ministro Moro e sua equipe de policiais federais, procuradores e defensores públicos, políticos e advogados elaboraram uma série de programas que teriam que serem transformados em lei, isto é, teriam que passar pelo crivo e adesão dos congressistas.  Aí estava um entrave muito sério. Os programas de Moro envolviam entre os pontos mais conhecidos: mudança para 16 anos como idade mínima para prisão e processo criminal; aumento de prisão em alguns tipos de penas; endurecimento nas saídas legais de presos; diminuição de visitas íntimas, junto com distanciamento em certas visitas; distribuição de presos por periculosidade; separação de presos perigosos para prisões de máxima segurança; encarceramento imediato a partir de condenação de réu em segunda instância, e outras mais. Esta última deixou muitos políticos de cabelo em pé e, por consequência, foi rejeitada ipso facto.

As propostas foram enviadas ao Congresso Nacional logo nos primeiros meses do ano e, como era de se esperar, foram recebidas com muita desconfiança e resistência por parte de grande parte dos parlamentares, liderados na Câmara Federal pelo deputado pelo Rio de Janeiro, Rodrigo Maia, e no Senado Federal pelo inesperado e jejuno senador pelo estado do Amapá, eleito presidente do Senado com um voto a mais do que o número real de senadores, o excepcional Davi Alcolumbre. Ao longo dos meses o ministro Moro se apresentou em várias comissões da Câmara e do Senado onde era invariavelmente recebido de um modo minimamente deselegante por parte de uma hoste de deputados e senadores oposicionistas com ganas de nem permitir que as propostas apresentadas tivessem o dom de serem discutidas.

A resistência a quase todos os itens se fez presente de imediato, tanto em declarações de políticos quanto pela mídia tradicional. Os partidos que haviam sofrido condenações por corrupção e que tinham diversos membros em condições de serem presos, ou presos temporariamente, ou em vias de condenação em segunda instância chiaram muito, em altissonantes brados de indignação. Concomitantemente, estava havendo todo um conjunto de manobras por parte de ministros do STF para relaxar a prisão de diversos presos condenados por corrupção pela Operação Lava Jato. Entre eles estava o ex-presidente Lula, encarcerado nas dependências da Polícia Federal, em Curitiba, desde abril de 2018. Tudo esse processo de resistência aos propósitos de combater a criminalidade e a corrupção, bem como os projetos de lei do ministro Moro, culminaram negativamente quando o STF resolveu, por diferença de apenas 1 voto, desfazer o entendimento interno segundo o qual um condenado em segunda instância poderia, a critério do juiz da segunda instância que havia revisado a condenação original, sentenciar pena de reclusão. Fora essa decisão do STF que levara o Tribunal Regional Federal da 4ª região (TRF-4), em Porto Alegre, a sentenciar Lula à prisão. Agora, com a reviravolta decisória do STF, Lula e dezenas de outros presos por condenação em segunda instância estavam automaticamente libertos. E eis que Lula sai em 9 de novembro de 2019 clamando a população a protestar contra sua prisão e exigindo do STF que ordene novo julgamento por prejuízo de preconceito prévio do então juiz da 13ª Vara Federal, Sérgio Moro.

Em adição, eis que o presidente Bolsonaro, contra todas as explanações de seu ministro Moro, sanciona a lei que estabelece o cargo de juiz de exceção, criando mais um estágio, mais uma dificuldade na luta pelo fortalecimento das leis penais e afrontando um propósito definido por Sérgio Moro como essencial para o exercício proveitoso de seu papel de combater a corrupção e a criminalidade no país. Essa inimaginável decisão de Bolsonaro ressoou pessimamente nas hostes favoráveis ao endurecimento de leis para combater a criminalidade, especialmente de corrupção, mas foi melodia prazerosa aos ouvidos de advogados, bancas advocatícias e políticos com condenações em primeira instância ou indiciados por evidências incontornáveis de crimes, especialmente aqueles que fizeram parte dos governos prévios do PT e PSDB, o que significava uma quantidade bastante grande de deputados e senadores de diversos partidos que haviam feito parte da coalizão petista, e muitos outros que não haviam sido eleitos em 2018.

Neste mesmo final de ano de 2019 outra surpresa desagradável caiu sobre os ombros do ministro Moro vindo diretamente de seu superior Bolsonaro. Era a ideia de desmembrar o Ministério da Justiça e Segurança Pública em duas partes, ficando o titular Sérgio Moro com a Justiça, de um lado, e a Segurança Pública, de outro, com um político do interesse do presidente, sendo que a Polícia Federal ficaria neste ministério adicional. Bolsonaro e um grupo de políticos a ele ligados já vinham falando disso em conchavos, soltando notícias esparsas para testar Moro e outros ministros, especialmente os militares, que tinham muito respeito pelo trabalho de Moro. A pressão ficou grande, mas, afinal, a intenção foi dissolvida por motivos variados, não sem já ter criado um forte sentimento de desagrado e desânimo da parte do ministro Moro. Afinal de contas, não era só que o presidente Bolsonaro, que lhe havia oferecido carta-branca na nomeação e condução desse superministério, condizente com o alto prestígio auferido por Moro na opinião pública, o tivesse abandonado, se não boicotado, em relação aos projetos de lei apresentados por Moro ao Congresso Nacional, mas que, a partir de certo tempo, Bolsonaro tinha adquirido o propósito de retirar do controle de Moro a direção da Polícia Federal e dos instrumentos próprios da Segurança Pública.

Bolsonaro não é homem do tipo ameno e afável, para se dizer o mínimo. E talvez também não tenha claro em sua cabeça o quão longe ele pode ir em suas ousadias, ou o quanto ele precisa saber para recuar. Sobretudo em relação a outros homens igualmente independentes. Mas Moro engoliu em seco mais uma afronta pessoal e permaneceu no governo na entrada do ano. Talvez, afinal, Bolsonaro se desse conta de que a diminuição de 22%, em média, da criminalidade nacional no ano de 2019, vitória essencial, embora não exclusiva, de Moro, já era um produto extremamente valioso politicamente do trabalho do ministro Moro. A população brasileira estava muito satisfeita com esse feito, e o prestígio de Moro se elevara aos píncaros, em certo momento ultrapassando o do próprio Bolsonaro, de acordo com os resultados de diversas pesquisas de opinião pública. Diziam as línguas mais intrigantes que Bolsonaro não suportaria a sombra de Moro por muito mais tempo, mas isso já vinha sendo dito a cada mês em que apareciam pesquisas novas.

Enfim, 2019 foi um ano difícil, de poucas alegrias, algumas vitórias e muita intranquilidade. Jair Bolsonaro aperfeiçoara seu repertório de brincadeiras de mau gosto e soltava uma ou outra a três por dois, até para se divertir, pois em seguida arranjava uma desculpa para desmentir o impropério que havia vituperado um pouco antes.  Concomitantemente, a oposição não arrefecera na sua ânsia de levar Bolsonaro ao desespero e à má governança. Políticos conhecidos, magistrados midiáticos, artistas cansados de velha popularidade, blogueiros jejunos, tuiteiros estridentes, eram muitos os que se enfileiravam para detratar Bolsonaro pelo seu governo, pelos seus ministros, pelas suas propostas, pelos seus filhos, até por sua mulher, acusada de tê-lo traído com um ministro (veja só!), as patacoadas de ministros, os acertos dos ministros, o sotaque paranaense de Moro, a fala ingênua de Damares e, acima de tudo, o espírito autoritário que estava não muito escondido no peito arfante de Bolsonaro – tudo foi motivo para escárnio, críticas e desejos de que logo se conseguissem motivos para abrir um processo de impeachment, uma retirada a camisa de força por motivo de loucura, e, da parte de um descompensado Fernando Henrique Cardoso, sequioso por obter por fim o respeito nacional, a cínica admoestação para que Bolsonaro renunciasse do cargo a bem da nação. Ora vejam!

O presidente Bolsonaro e a COVID-19

O flagelo chinês do coronavirus, caracterizado como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e nomeada COVID-19, teria baixado no Brasil em 26 de fevereiro de 2019 (embora haja suspeitas de que já estaria circulando em janeiro) através de um portador masculino de 51 anos que voltava da Itália, onde o vírus já grassava com força crescente, e desde então já alcança cifras europeias e fatalidades espanholas. Neste 3 de maio[1], somam-se 101.147 brasileiros infectados, dos quais 42.991 já foram curados, 42,813 estão em condições amenas, 8.318 em situação crítica e 7.025 morreram– em todos os estados da União, sendo São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Ceará e Amazonas os mais atingidos, e aumentando. Em um mês provavelmente esse número estará duplicado em todos os aspectos.

O surto começou na China, em fins de dezembro de 2019, em circunstâncias ainda não esclarecidas. A lenda mais pitoresca é que teria surgido do costume dos chineses de comer sopa de morcego, de onde vêm algumas linhagens de vírus corona. No mês de janeiro era uma epidemia que atingira cerca de 10.000 chineses da província de Hubei, cidade de Wuhan, levando 230 pessoas a óbito, e se espalhando para mais 20 países na Ásia e Europa. Em fins de fevereiro, alarme já dado, virara uma pandemia, o Brasil ainda quase imune, e a China com 79.000 infectados, 2.791 mortos. Assim começaram a prognosticar um desastre mundial de proporções incalculáveis. Alguns epidemiologistas muito respeitados projetavam cifras estratosféricas, como 2.000.000 de mortos só nos Estados Unidos. O governo Bolsonaro reconheceu em pouco tempo que a pandemia iria se alastrar pelo país e poderia fazer um estrago impressionante em vidas perdidas. Assim, declarou estado de emergência, aos 4 de fevereiro, cinco dias após a mesma declaração ter sido emitida pela OMS, em 30 de janeiro. Entretanto, visto que não havia ninguém no Brasil com o vírus, tudo parecia meio sem sentido. Os dias de pré-Carnaval já vinham rolando em blocos nos fins de semana, e a partir da sexta-feira, dia 21 de fevereiro, a festa bombou como nunca em todas as cidades, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, com os novos governadores sequiosos por se exibirem e os prefeitos caprichando cheios de garra para mostrarem-se dignos da consideração de seus eleitores na eleição programada para acontecer em outubro. O festeiro governador de São Paulo, em certo momento, comemorou o Carnaval de rua como o maior do Brasil! Quem te viu, quem te vê! Até prefeitos evangélicos, como Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, contrário a esbórnias momescas, abriu mão de seus escrúpulos religiosos e aderiu de bom grado à efeméride e à alegria dos foliões. Ninguém falava ainda em “últimos dias de Pompeia”, por assim dizer. Não faltaram, evidentemente, foliões estrangeiros nem recém-chegados da Europa, onde o coronavirus já granjeava suas primeiras vítimas.

Depois que o coronavirus deu as caras em São Paulo, dia 26 de fevereiro, mesmo então ainda não havia grandes preocupações. Fiando-se em declarações de médicos, como o famoso Drauzio Varella, que dissera em janeiro que o vírus não iria provocar mais do que uma resfriado, o presidente Bolsonaro já fazia declarações no sentido de minimizar sua virulência e para que a população não entrasse em pânico. No dia 7 de março, com agenda marcada, Bolsonaro arribou a Miami, Estados Unidos, em uma missão de governo para um encontro de trabalho com o presidente Donald Trump, e regressou dia 11.  No programa Fantástico, da rede Globo, dia 15 de março, Drauzio Varella já vê a epidemia com preocupação, recomenda cautela e considera que o vírus vai passar e provavelmente só afetará as pessoas com mais de 70 anos. Alguns dias depois, cerca de vinte pessoas da comitiva presidencial são diagnosticadas com o coronavirus, entre eles o secretário de comunicações e o chefe do cerimonial da presidência, e logo o General Augusto Heleno e o senador Davi Alcolumbre, que nem haviam ido a Miami. Evidentemente, o círculo íntimo da presidência e da alta burocracia havia sido contaminado, tendo um exame dado negativo para o presidente Bolsonaro. Menos mal.

De qualquer forma, o vírus se espalhara por Brasília e pelos lados da burocracia nacional, talvez até de suas cidades satélites. A coisa já parecia que ia ficar muito ruim. Hoje, 53 dias depois, dia 3 de maio, são 1.649 casos, com 33 mortes, no Distrito Federal (aos 13 de maio eram 3.192 infectados e 47 mortes, sendo este último índice bem abaixo da média nacional). Não se pode dizer que a comitiva do presidente Bolsonaro tenha sido o fulcro único ou principal da disseminação do coronavirus por Brasília e suas cidades satélites, mas pôde-se ter uma noção de como o vírus se espalhou, ao mesmo tempo em que fica demonstrada a capacidade de enfrentamento médico da capital da República. Não parece ter havido caso para alarme e pandemônio, visto até que tem havido aglomerações imensas de partidários do presidente em demonstrações de apoio a suas ações e em reação a inimigos reais e imaginários. Será que o vírus discrimina negativamente os partidários de Bolsonaro? A ver.

A pandemia COVID-19 paralisou o Brasil, fechou as escolas, as lojas, as empresas, as fábricas, a economia de modo geral, fez o governo mudar por completo seus projetos para este ano e se planejar para gastar bilhões de reais além do seu orçamento original, desembolsando compensações a desempregados atuais e futuros e a empresas para ajudá-las a complementar os salários de seus funcionários, sem ter que demiti-los, na medida do tempo possível. E, com certeza, tem aumentado o nível de estresse do presidente Bolsonaro, dos seus ministros e auxiliares, e de seus inimigos, que aumentam em número e efervescência a cada dia.

O fato de Bolsonaro não parecer se conformar com a paralisação da nação o tem feito se comportar de forma extremada em várias ocasiões e por motivos variados, de certo modo açulando ainda mais o fervor dos oposicionistas para derrubá-lo do governo, de algum modo. O mês de abril inteiro se passou com parte da população rancorosa pela derrota sofrida e pelo desprezo a Bolsonaro a fazer panelaços pontualmente a partir da 20:30, ao sinal de abertura do Jornal Nacional, aquele mesmo jornal televisivo tão odiado por todos. A união faz a força, dir-se-ia.

Na ânsia de quase literalmente passar por cima da COVID-19, Bolsonaro tem feito gestões de muitas maneiras para criar alternativas às medidas de isolamento vertical das pessoas, decretadas pelo próprio governo, via Ministério da Saúde, como fechamento de lojas, fábricas e todo tipo de serviço de transporte, de restaurante e lazer, inclusive passeios em praias, parques e calçadões. Nota-se nos bairros vizinhos à Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, que aves e outros bichos silvestres têm aparecido nos arredores das casas com mais frequência, como se tivessem sentido uma mudança no comportamento dos seus vizinhos humanos. As grandes cidades brasileiras ganharam ares de fantasmas, exceto, verdadeiramente, os bairros pobres, onde fervilham pessoas em lojas e em lazer, inclusive com bailes nos finais de semana.

Por umas duas ou três semanas Bolsonaro tentou de muitas maneiras convencer o Ministério da Saúde, e em especial seu ministro, o ex-deputado Luiz Henrique Mandetta, a instruir os hospitais a prescrever um composto de remédios com base na cloroquina ou no seu derivado hidroxicloroquina, junto com o antibiótico azitromicina e mais um composto de zinco, que curaria todo mundo, particularmente se fosse aplicado nos primeiros estágios da doença, já que estava sendo usado e recomendado por alguns médicos na França e no Brasil. Uma boa parte do país ouviu o Dr. Bolsonaro com atenção, porque, afinal de contas, as recomendações da OMS vinham de um chefe que nem médico era e também era ligado aos interesses chineses, que o haviam eleito cabeça dessa importante organização da ONU. Nisso o Dr. Bolsonaro copiava a fala e a angústia de seu ídolo político, Donald Trump. Já o ministro Mandetta, que estava fazendo considerável sucesso televisivo nas tardes em que aparecia para explicar a evolução da doença no Brasil, e suas possíveis progressões e comparações com outros países, foi acometido daquela conhecida ilusão que bate nos ingênuos de que ele já tinha conseguido um destaque entre os ministros e que podia “peitar” o presidente nas decisões sobre saúde, até que chegou no limite da paciência pouca do seu chefe, que prontamente o demitiu, para a consternação de seus auxiliares e dos oposicionistas que exultavam com a petulância do ministro diante de Bolsonaro.

Em meados de abril, Mandetta pelas costas e um novo ministro, sem devaneios políticos, em vista, havia 30.891 infectados, com 1.952 mortes no Brasil, São Paulo e Rio de Janeiro à frente de todos. Precisamente os estados governados por políticos jejunos cujas eleições haviam dependido fundamentalmente de suas conexões com o candidato Bolsonaro, mas que desde meados do ano passado ambos haviam se rebelado frontalmente e procuravam se distinguir politicamente e em comportamento do seu prévio eleitor maior. Bolsonaro não acata desafios em posição defensiva e logo partiu para o ataque, o qual consistiu em demonstrar que a pandemia não seria tão grave, que havia a cloroquina para ser aplicada e que a economia não podia ficar parada sob o custo de falir o Brasil. Diante da figura melíflua e ciciante do governador Doria, os partidários mais intensos de Bolsonaro começaram a se movimentar para exigir uma flexibilização maior da quarentena. Assim, diversas passeatas e carreatas foram feitas em São Paulo por consecutivos sábados e domingos, as quais repercutiram em outras grandes e médias cidades brasileiras. Um frenesi de contenda política aumentou a temperatura no país ao ponto de alcançar repercussões dilatadas na imprensa mundial. O que é que está acontecendo no Brasil, afinal? Esse presidente é um louco pior do que o Trump?

Bolsonaro x Moro: Ao rei tudo, menos a honra!

A pandemia COVID-19 vai continuar por mais tempo, talvez até setembro, talvez até que surja uma vacina em massa, piorando aqui e acolá, Manaus com seu sistema de saúde em decomposição, arrefecendo aos poucos nas cidades pequenas e médias, as notícias de melhoras em países europeus augurando um novo amanhecer, a China trotando pelo mundo em empáfia de comprador de baratezas, Trump cada vez mais bisonho com seu toupé alaranjado, e as contendas da política nacional comendo fogo pelo Brasil.

Qual o quê, como se estivesse surfando em uma mar de ondas tranquilas da praia da Barra e começasse a se sentir levemente entediado, Bolsonaro volta suas baterias contra a figura sóbria e autocontida do ministro Sérgio Moro declarando em reunião ministerial que vai demitir incontinenti, amanhã, o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, e nomear alguém de sua inteira confiança para que o mantenha ao par dos processos que lhe interessam, como de fato aparece no dia 24 de abril a exoneração de Valeixo no Diário Oficial da União e a nomeação de Alexandre Ramagem Rodrigues, seu policial federal de confiança, amigo de seus filhos. Ao meio dia, Moro envia sua carta de demissão ao Palácio do Planalto e às 14 horas faz um pronunciamento à imprensa expondo, em linguagem fria e pontuada, porém com conteúdo potencialmente explosivo, os motivos de sua demissão e denunciando os propósitos cavilosos do presidente Bolsonaro. Desponta aí uma nova crise política cujas consequências ainda não estão claras, mas certamente serão duradouras.

A demissão de Moro repercute no Brasil e no mundo, e todos se mostram perplexos diante da assombração. Agora, Bolsonaro cai, dizem uns, agora Moro foi para o espaço, dizem outros. Na verdade, os motivos para sua demissão eludem a razão e a imaginação, exceto as dos néscios, por suposto, pois estão muito intricados no coração misterioso do ex-juiz. Alguns diriam, coração sombrio. Talvez nem ele seja capaz de sopesar tudo que levou em consideração para tomar tal radical decisão, em parte em função de aspectos psicológicos que sua consciência, neste momento de sua vida, nem faz questão de saber. E é muito provável que Sérgio Moro seja do tipo de pessoa que pode até discutir as consequências de seus atos com amigos próximos, mas ao final toma suas decisões por algum ponto misterioso e indecidível que surge no horizonte de seu pensamento, não por clareza objetiva. Moro é também um ser trágico. Vê-se isso no exemplo de sua carreira prévia de juiz, nos atos realizados para desvendar os meandros da atuação da corrupção e no jogo complicado de fatores que o levaram a condenar um monte de gente que mal passava por malandro ou esperto, raramente por corrupto, aos olhos do público brasileiro. E agora vê-se estampado em sua face a sua moira, seu destino, em irresolução. Moro está entregue aos deuses e às Parcas, eles que decidirão, nós nem adivinhar podemos.

Num sentido geral pode-se dizer que Moro se demitiu porque não quis ser humilhado por Bolsonaro, seu superior hierárquico e homem reconhecidamente de valor pessoal, que o convidou para ajudar o Brasil a superar seu declínio na moral e nos bons costumes e seu desafortunado crescimento na criminalidade. Foi a cartada política mais festejada nas hostes bolsonaristas, com repercussão positiva até sobre quem não tinha votado no candidato Bolsonaro, a aceitação de Moro ao convite de Bolsonaro para integrar seu governo. Agora, com resultados expressivos no combate à criminalidade no país, com alto reconhecimento e até popularidade, Moro se viu acossado pela sanha de Bolsonaro em querer ter influência direta sobre a cúpula da Polícia Federal, contrariando seus propósitos de campanha de combate ao crime e à corrupção, e até desmoralizando seu compromisso pessoal com o ministro. Moro ainda tentou, junto com alguns ministros militares influentes sobre Bolsonaro, encontrar um meio termo. Se o problema era Valeixo, ele sairia, mas entraria alguém com eficácia e compromisso equivalente. Não, Bolsonaro queria o cargo para colocar o homem de sua confiança, Ramagem, amigo dos filhos, que iria mudar o superintendente do Rio de Janeiro. E, na madrugada do dia seguinte, está o fato consumado no DOU.

Como na peça clássica “O alcaide de Zalamea”, do dramaturgo espanhol, Calderón de La Barca, o infelicitado Pedro Crespo, ao ser confrontado pelo crime que acabara de cometer, declama, indignado, “Ao rei deve-se entregar tudo, seus bens e sua vida, menos a honra, que pertence à alma, que pertence a Deus”, foi o que restou dramaticamente a Moro fazer. Fiquemos assim com a preservação de sua honra como o motivo principal que levou Sérgio Moro a pedir demissão de seu honroso cargo de Ministro da Justiça e Segurança Pública após um ano e quatro meses de sua nomeação.

Por que Bolsonaro é uma figura trágica

Para ser trágico a pessoa não precisa estar ou fazer parte de uma tragédia. Ela própria pode ser a criadora de uma tragédia ou simplesmente a protagonista inesperada dentro de uma tragédia que acontece num mundo que está longe de ser uma sociedade estável, balanceada e com alguma clareza sobre seu futuro. Ao contrário, pode-se até dizer que o Brasil é um criatório de tragédias coletivas, continuamente condenado, como Sísifo, a rolar uma pedra ladeira acima para, ao menor vacilo de descuido, vê-la rolar ladeira abaixo atropelando o que tinha sido construído. E exclamaríamos em uníssono: Brasil, país das tragédias. Nem tanto, nem tanto.

Os gregos clássicos, em tempos de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes, no século V antes de Cristo, é que criaram o gênero literário da tragédia para fazer entender aos seus compatriotas que a vida dos homens não é dirigida de modo algum pela vontade e lucidez de cada um, mas sim, que há forças acima dos homens que os levam a vencer batalhas incríveis, a realizar atos grandiosos ou heróicos para, em pouco tempo descambar do alto do pedestal em derrocada pessoal, carregando consigo a desgraça de muitos, ou a cometer em desvarios incontroláveis atos ignóbeis. O homem que sobe e que desce é sempre o mesmo.

O homem que se eleva no conceito de sua sociedade por atos extraordinários e o faz pensando que é ele o agente único de seus atos se excede em auto-satisfação e acomete daquilo que os gregos chamam de hubris (hybris), isto é, se enche de soberba, o pecado do desmesurado amor a si próprio. Quando isso acontece, na visão dos gregos, os deuses que, por trás, o estavam ajudando a realizar façanhas extra-humanas e atos heróicos, se dão conta de que esse suposto herói foi além da conta, que ele pretende, na verdade, virar um deus ele próprio. E aí os deuses antes benevolentes, se juntam ou até disputam entre si para derrubá-lo de seu alto pedestal inflamado de orgulho e vaidade. Fica claro que a explicação mitológica dos gregos não carece de qualquer enfeite psicológico, muito menos psicanalítico. Ela está muito profundamente aquém desse pântano moderno de justificativas para os atos humanos. Dizendo bem claro, e ao ponto, Bolsonaro não é um homem claramente aloprado porque no fundo sente alguma culpa por seu passado que precisa redimir ou ser perdoado.

Contudo, tampouco pode-se afirmar, sem evitar a fantasia, que Bolsonaro seja um escolhido dos deuses, nem que seja tomado de soberba. Ou pode? O que ele já alcançou a partir de sua humilde posição de caipira paulista, oficial menor do Exército, deputado federal do baixo clero, sem ideias nem liderados, tosco como o quê, ridicularizado por metade da população que o conhecia antes, e por crescente metade que o conhece agora, Bolsonaro é muito mais que qualquer bem-nascido de São Paulo ou do Ceará sonhara ser, não, tivera certeza de que um dia seria. O capitão sem meias palavras, agressivo como um pica-pau, desfazedor de mistificações políticas e sociais, quase um Sócrates expondo as inconsistências dos seus adversários e as hipocrisias dos bem-pensantes, virou MITO num átimo de tempo, num tempo mitológico, não real, tendo combatido minotauros e ciclopes, desprezando sereias e medusas encantatórias, como se fosse Ulisses arribando a Ítaca, aquela Pasárgada onde só os bem-afortunados chegam. Por que, como, por qual merecimento Bolsonaro foi aspergido por tanta graça, tanta fortuna, tanta sorte, tanto carisma para arrebatar multidões de brasileiros com esperança de que ele viria para “salvar” o Brasil de suas desgraças mais recentes – não mais fome, nem deseducação – porém o flagelo mais cruento da violência terrificante, da criminalidade fustigante e da corrupção desmoralizante para toda uma nação. E mais: a incompetência generalizada que degrada a vontade de ser correto, o preconceito aviltante contra os desfavorecidos e especialmente os remediados e os batalhadores que acordaram para exercer suas potencialidades, gente que se orgulha de ser caipira, brega, evangélica, moralista e patriota e que vem sonhando em encontrar seu espaço na civilização brasileira. Não só encontrar, mas também ajudar a modular essa civilização à sua imagem e semelhança. Será difícil para o establishment brasileiro muito ancho de si derrubar Bolsonaro batendo frigideiras por trinta minutos às 20:30 ou gritando que ele é um animal descontrolado.

Os deuses, não os grandes, mas os menores, os invejosos – é que irão desbastar Bolsonaro de sua soberba. E a hora, infelizmente, está chegando ligeira.

Os impasses trágicos do Brasil e sua luta pela superação

Bolsonaro, Moro, Lula são figuras trágicas de nosso tempo, como o foram Getúlio Vargas, Jânio Quadros e uns poucos outros na nossa história recente. Esses antigos subiram alto e caíram desglorificados. Os três primeiros estão sendo perseguidos pelas Parcas. Muitos brasileiros, no seu afã de ser vira-lata, em sua inconsequência em não se saber parte de um todo em transformação, veem o Brasil como um país trágico pelo tanto de oportunidades que ele já teria perdido. Cada qual conta sua versão em seu tempo. Tipos como Bolsonaro, na corda bamba, e, lembrando bem, para o desgosto de alguns, Brizola e Tancredo, são nossos representantes trágicos que não conseguiram levar adiante o andor da história onde deveriam ter chegado. Acabam, como diz a sabedoria popular, nadando, nadando para morrer na praia. E com eles também o Brasil parece morrer na praia.

É muito para lamentar que o presidente Bolsonaro já não conseguirá levar adiante o mínimo que ele prometera que conseguiria. Esse mínimo seria essencial para o país se dar conta de que estava caminhando por dentro de uma bruma parcialmente espargida por nós próprios, pelo suor de nossos corpos em estremecimentos doidivanos, nossa moira, ao que parece, nosso ímpeto autofágico, talvez um tanto desmiolados ou catatônicos caminhando como se fora por uma selva áspera e forte sem ter qualquer noção de onde está o caminho certo e aonde vai dar. Essa bruma não será despargida e o caminho tornado ensolarado enquanto prevalecer o predomínio de uma única visão dominante de nós mesmos, a qual é imposta e instrumentalizada pelo segmento intelectualizado das classes médias como se fora não alguma essência do brasileiro, e sim, um ideal urdido e maquinado daquilo que o brasileiro deve ser.

Os brasileiros que votaram em Bolsonaro em 2018 estão hoje nas ruas sob o perigoso risco de se contaminarem por uma doença traiçoeira e feroz porque não querem abrir mão de uma vitória que os colocou na ribalta do teatro da vida nacional, onde nunca haviam estado. Não há entre eles nenhum Shakespeare, nenhum Álvares de Azevedo, nenhum Dias Gomes, nenhum Nelson Rodrigues para construir uma tragédia como adivinhação, como premonição e como lição. Deles só se há de ouvir impropérios emotivos, versos estridentes desconjuntados, tramas de churrascos e de botequins, como os que saem da boca de seu líder. Entretanto, foram eles em grande parte que construíram o Brasil pelos espaços abertos, fixando corrutelas e arrabaldes por onde quer que passassem, tropeiros do Norte e do Sul tangendo gado e levando cargas de civilização, em busca de um Eldorado que jamais existiu. Eles creem que existirá.

Os tropeiros e assentados de outrora mandaram seus filhos e filhas para as cidades e lá estão eles crescidos buscando seu espaço de liberdade, trabalhando com dureza raramente arrefecida, por muito tempo engurujados em sua timidez e humildade de quem se sente gente de fora, mas agora já cientes de que são gente de dentro, a desafogar toda sua sentida opressão virada mágoa. Não há mais como refreá-los pela engambelação tradicional.

Do lado confortável da vida brasileira, aquele estamento social onde todos se acomodam pelo patrimonialismo, pelos direitos garantidos em cláusulas pétreas e também divinizadas, pelo espírito de corporativismo, pela parentela e pelo clã, há uma mínima minoria que, dizem os economistas, tem o poder real nas mãos, e uma maldizente classe média empoleirada a se bicar por posições mais estratégicas para servir ao poder ou a querer o poder, sem saber como adquiri-lo, sem suportar estar de fora do poder, sem deixar de se consolar olhando de cima para baixo e cagando acintosamente em que passa por baixo.

Uma nação com potencial de grandiosidade não persiste desse jeito, está evidente. A humanidade da atualidade nos olha boquiaberta e a humanidade extemporânea não nos perdoará por vivermos em picuinhas. Bolsonaro, o trágico herói, já mito em vida, sucumbirá como imolação da tragédia e, em remissão, ganhará estátua de bronze nos jardins do nosso Partenon, junto a Bonifácio, Rondon, Getúlio, e luminares como Nelson Rodrigues, Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Luiz Sérgio Sampaio e outros, como homens que lutaram e se sacrificaram para grudar as juntas e os cacos da nação em um conjunto promissor. Talvez não agora, porém, mais dia, menos dia, isso acontecerá, o sol haverá de brilhar mais uma vez.

[1] No dia 13 de maio, eram 189.157 infectados, 78.494 recuperados, 97.584 em situações amenas, 8.318 em condições críticas e 13.149 mortos.

Mércio Gomes, antropólogo, é autor de O Brasil Inevitável (Topbooks, 2019).

Elogio à potência cognitiva dos Cuidados (Outras Palavras)

Tradição intelectual da Modernidade dá valor e poder à Crítica, mas esquece uma forma de compreensão do mundo tão potente quanto ela. É mundana, feminina e transformadora. Inventa complexidades. Resiste a ser mercantilizada

OutrasPalavras Descolonizações por Antonio Lafuente

Publicado 15/05/2020 às 20:41 – Atualizado 17/05/2020 às 13:11

Por Antonio Lafuente, do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CSIC), Madri | Tradução de Simone Paz Hernández | Imagem: Egon Schiele, Grupo de Três Meninas (detalhe)

O coronavírus tem nos ensinado muitas coisas — algumas delas, vamos demorar para esquecer. Porém, poucas foram tão inesperadas como a aproximação entre a cultura crítica e a cultura dos cuidados. Pareciam pertencer a planetas diferentes: uma, ligada à busca de certeza, metodologias conflitantes e gestos públicos; a outra, vizinha da dor, inclinada pelo tácito e reclusa no âmbito privado. Ambas, muito seguras de sua importância, mas muito diferentes em seus reconhecimentos. Para o espírito crítico, sempre existiu um posto de honra entre os inteligentes, os poderosos, os administradores. Os críticos possuem a chave que abre as portas do mundo, desde a empresa e a academia, até o conselho ou comitê. Ser crítico é uma qualidade característica dos que conseguem enxergar além das aparências, dos que sabem ler as entrelinhas e dos que não se deixam levar pelo refrão. Quem não é crítico está sujeito a ser doutrinado, manipulado e menosprezado.

Nosso mundo sempre reservou lugares especiais para a crítica. O espírito crítico nos protege dos farsantes, dos malandros e dos vigaristas. E, como nunca faltam aqueles que querem tirar proveito de nossa ingenuidade, desconhecimento ou incapacidade, fazemos bem em confiar na nobreza daqueles que se dispõem por nós a depurar as ideias, comparar informações e destrinchar propostas. Os debates públicos nos são apresentados muitas vezes como um duelo de espadachins, como um exercício de virtuosismo retórico, como uma amostra do dandismo entre “filhos de alguém”, tão inúteis quando desprezíveis. Isso não tem nada a ver com a crítica, está mais para um produto da vaidade pretensiosa: um embuste entre bobos. Já a crítica, é necessária e urgente. Uma das ferramentas mais valiosasas de que dispomos para navegar entre as tormentas ou para nos guiar entre as brumas. Sem ela, não existiria a civilização.

Os cuidados transitam em outro tipo de abundâncias invisíveis. Eles têm a ver com todas as práticas que levam à reparação ou à manutenção da vida. Possuem relação com o que há de mais simples e comum: dar comida, fornecer aconchego, produzir bem-estar, manter a conversa, ouvir o incabível ou inusitado, oferecer esmero, sentir o futuro, experimentar com os outros, fazer coisas juntos, desfrutar as nuances, acompanhar processos e criar espaços seguros. No mundo, não há nada mais abundante do que a dor, o desconsolo, o desabamento. Nada é mais necessário do que oferecer confiança, paz ou tempo. Seja para descobrir suas (novas) vulnerabilidades, seja ao se encontrar (novamente) estagnado, o que você vai querer por perto não é um cérebro privilegiado capaz de performar uma capacidade de análise impecável. Nesses momentos, precisamos de outro tipo de talento: o de alguém que saiba se colocar em sua situação, em seu lugar, conter a ansiedade de aconselhar, ficar em silêncio, saber ouvir, deixar fluir e acompanhar, enquanto, aos poucos, você se reencontra com a vida que merece ou a resposta que procura.

Não quero dizer que os que pensam não cuidam, nem que os que cuidam não pensam. Isso seria uma simplificação inaceitável e ofensiva. Todos nós podemos passear pelos dois mundos. Podemos utilizar a crítica para reparar aquilo que ouvimos e fazê-lo crescer. Podemos renunciar a usar nossas habilidades para ganhar vantagem e competir melhor. Nada nos obriga a querer sempre ganhar. Não é necessário demonstrar que estamos por cima dos outros, nem temos que tratar nossos adversários como inimigos, traidores ou estúpidos. Na crítica, pode existir um quê de sadismo. É normal que exista, e que toda vez que numa conversa alguém cite um especialista, um fato ou uma prova, para nos dar um soco e calar a boca. Esses críticos são pessoas perigosas das quais é bom se proteger, porque costumam ser implacáveis.

A ciência é um dos terrenos da crítica. Não é o único, nem o mais visível. Os que se gabam de ser críticos são aquelas pessoas da literatura, das artes, das ciências humanas e também, portanto, das ciências sociais. O que eles chamam de “espírito crítico” é muitas vezes percebido como arrogância banal. E é por isso que nós desconfiamos dessa forma de nos desenganarem, que, do outro lado do espelho, é percebida como uma maneira de nos deixar nus. Justamente o oposto daquilo que esperávamos: alguém que nos ajudasse a encontrar as roupas para não nos deixar na intempérie. Abandonados ao acaso, novamente, sem redenção.

A cultura do cuidado não é só compaixão. Precisamos dela, também, para criar outros mundos possíveis e dar espaço às diferentes práticas cognitivas de que precisamos aprender a apreciar. Se o crítico é quem vê mais e melhor, quem cuida possui como ferramenta fundamental de trabalho o tato. Se a simbologia reservou para os inteligentes a figura da coruja, do livro e dos óculos de armação grossa, aqueles que cuidam são representados como pessoas que acariciam com os olhos, com os gestos e com as mãos. As mãos alcançam lugares que os olhos nem conseguem imaginar. O tato é a chave que abre a porta que nos permite imaginar outros mundos possíveis, baseados em cumplicidade, empatia e vulnerabilidade. Nos cuidados, explora-se sem propósitos e sem condicionantes, se avança entre suspeitas e desconfianças, até chegarmos ao lugar onde experimentaremos a companhia como uma bênção. Ou uma epifania.

Se a visão gera a distância entre o sujeito e o objeto, o tato mistura esses dois mundos. A visão cria outros espaços, enquanto o tato inventa a complexidade. Tudo fica interligado e se torna próximo, entrelaçado. A visão quer fazer do mundo um objeto, enquanto o tato torna mundano o objeto. Mundano quer dizer comum, cotidiano, semelhante. Quiçá, também, barato, jovial e compartilhado.

A crise do coronavírus aproximou esses dois mundos para nos ajudar a entendê-los melhor, para descobrirmos que ambos são imprescindíveis e que os dois são deste planeta. Que ambos pertencem ao âmbito público e são duas potências cognitivas que deveriam parar de brigar e se unir num longo abraço. Sim, isso mesmo: um abraço em tempos de coronavírus pode parecer uma transgressão, mas não é, não, não se trata de uma pegadinha: esperamos muito desse atrito, pois não nos conformamos com apenas sobreviver — que é o que nos prometem os cientistas e seus porta-vozes. Não nos conformamos com apenas continuar vivos, pois queremos imaginar mundos mais ousados. A pandemia demonstrou que, em termos cognitivos, é imprescindível que se estruturem adequadamente três epistemes que se destacam: o mundo dos dados, dos modelos de previsão e da inteligência artificial; o mundo da virologia, da epidemiologia, das vacinas e do laboratório; e, por último, mas não menos importante, os territórios da clínica, dos profissionais da saúde e das práticas de cuidados.

Curar corpos nos forçou a cuidar de mundos. De repente, descobrimos que inconsistências estatísticas, causadas por uma coleta de dados ruim, poderiam levar a medidas que nos ameaçariam a todos. Dados não são números, mas coisas que precisam ser produzidas do mesmo jeito que são produzidas as bolas de sinuca: se elas não possuírem as características necessárias, não funcionam, não servem pra nada, não deslizam corretamente e não transmitem os efeitos esperados. Os dados precisam ser interoperáveis. Você precisa projetá-los com precisão, coletá-los com cuidado e transmiti-los a tempo. Podemos ter os melhores matemáticos, construindo os modelos mais sofisticados, porém, fazendo propostas mal-sucedidas porque os coletores de dados se desentenderam ou ficaram desmotivados ou deprimidos. Porque eles pararam de se projetar em seu trabalho com amor e orgulho. Não estavam atentos o suficiente para detectar algo suspeito, uma variação imprópria, um viés inesperado ou, finalmente, uma prática inconsistente. Talvez ninguém os fez acreditar na importância do que estavam fazendo. Talvez eles tenham se cansado de ser invisíveis, ou talvez se convenceram de que eram seres descartáveis, secundários ou irrelevantes.

Fazer vacinas ou, em termos mais gerais, projetar e realizar experimentos não é uma tarefa mecânica. Quem faz experimentos precisa improvisar o tempo todo — ou seja, precisa enfrentar um montão de imprevistos que exigem habilidades que não são ensinadas nos livros, mas que, entretanto, foram aprendidas com os colegas. Experimentar é uma atividade que possui muitas semelhanças com o trabalho dos artesãos. Todos os cientistas experimentais são uma espécie de faz-tudo, pessoas que sabem consertar coisas, que encontram soluções: são próprios bricoleurs. Ou, em outras palavras, pessoas que conseguem trabalhar sem um manual de instruções, e que, principalmente, tornaram-se muito tolerantes à incerteza. Sabem andar às cegas, guiando-se pelas paredes para não bater e mantendo-se conectados a tudo o que acontece para poder ser sensíveis às pequenas diferenças, às nuances esquecidas ou aos tons imperceptíveis. 

Não é ficar observando o seu objeto, mas sim estar abertos a se deixar afetar por qualquer sinal que vier de seu universo ou do ambiente que os cerca para decidir, em tempo real, se essa coisa, ainda não identificada, possui algum significado ou contém alguma mensagem. A relação que os cientistas mantêm com seus objetos, aquilo que não deixa de interpelá-los e que não conseguem parar de olhar, é muito menos objetiva, distante ou abstrata do que nos contaram. É uma relação muito menos crítica do que afetiva, e tem muito mais a ver com as virtudes de quem cuida de alguém ou de algo, do que com os estereótipos de quem observa, aponta e dispara — quero dizer, com as qualidades de um bom crítico.

Ao falarmos da clínica tudo parece mais fácil, porque pouquíssimas pessoas já visitaram um laboratório na vida e a maioria nunca ouviu falar da nova profissão de curador de dados. Mas todos ou já cuidamos, ou já fomos cuidados. Entretanto, reside nessa simplicidade a maior dificuldade — porque corremos o risco de psicologizar os cuidados e de transformá-los em habilidades mentais livres de materialidade. Não será preciso insistir, agora, na importância das máscaras, dos testes, dos termômetros, dos sabonetes, da história clínica e dos aplausos. A maior parte do trabalho possui maior relação com gerir espaços, decidir dosagens, administrar alimentos, conhecer lamentos, identificar sinais, comparar respostas, contrastar experiências, aprender de erros, retificar protocolos, pular algumas normas, enfim: improvisar, corrigir, deixar-se afetar, escutar — tudo isso sem um manual.

Cada quarto de hospital carrega um universo: todos os dias são percorridos todos os climas: o dos bacanas, o dos espertos, o dos exigentes, o dos egoístas, o dos intrigantes, o dos desconfiados, o dos pessimistas, o dos amorosos… todos os universos cabem num só dia. Não é preciso viajar, basta mudar de quarto. Existe um forte desgaste emocional, cuja origem varia. A televisão, sempre apressada e sempre resumindo e generalizando, fala do impacto que a dor do ambiente causa aos profissionais da saúde. É verdade, mas não se resume a isso: essa é só a parte mais midiática. Há muito mais. Existe a vontade de aprender, o desejo de entender, a necessidade de corrigir e a obrigação de curar; tudo isso, ao mesmo tempo e de forma rápida, representa um esforço de intelecção cansativo e infinito, porque os corpos são todos diferentes e o que vale para um pode ser contraproducente para outro.

Assim funciona o saber experiencial: está nos corpos e não nos livros. Pode-se aprender, mas não numa aula. É um saber contrastado, eficiente, tácito e imprescindível. A clínica é a interface entre esses dois mundos, que com tanta frequência negam-se a chegar a um entendimento: o mundo da crítica e o mundo dos cuidados. É tanto uma interface como uma fronteira que precisamos aprender a contrabandear todo dia. Nessa fronteira, somos todos iguais, não há regras claras, não há normas específicas — e nem podem existir. Esse é o interesse das fronteiras que servem para experimentarmos outros mundos possíveis e necessários. Nas fronteiras, há sempre conflitos que, quando são de curto prazo, resolvemos com astúcia, dando um jeito; mas, se pensarmos em formas de convivência relativamente estáveis, precisaremos das ferramentas da diplomacia.

Às vezes, não precisamos de uma demonstração, e sim de uma conversa. Os diplomatas sabem disso melhor do que ninguém, como costumam saber aqueles que fazem parte do mundo dos cuidados. O diplomata compreende que não pode convencer seu interlocutor. E, portanto, precisa renunciar às ferramentas da crítica e admitir que a solução não vai ser imposta por um exercício de depuração de dados, de citação de fontes ou de ampliação dos fatos comprobatórios. Entre os diplomatas, a conversa tem a finalidade de encontrar um relato, um acordo, um espaço de convivência mais complexo que o anterior, onde caibam igualmente os dois pontos de vista, mesmo quando enfrentados. A questão é evitar a guerra, e reiniciar a convivência. E é disso que precisamos agora: uma negociação que torne possível não só a convivência de epistemes. Os mundos dos dados, dos fatos e das experiências precisam um do outro e têm de aprender a conviver sem se censurarem. Nenhum deles é mais coerente ou necessário do que os outros.

Atualmente, fala-se muito em abrir a ciência. Mas não ficou claro o que queremos dizer com isso. Evidentemente, abrir a ciência significa abrir os conteúdos e os dados: dar acesso ao conhecimento disponível, mais ainda quando a maior parte dele é produzida com dinheiro público. Também parece lógico que as infraestruturas que suportam e fazem com que esses dados se tornem operacionais deveriam estar nas mãos dos próprios cientistas, o que equivale a reivindicar soberania para os hardwares e softwares que suportam todo o acervo da ciência aberta. Se a prática da ciência depende de decisões políticas arquitetadas em comitês que definem prioridades, destinam recursos, validam méritos e constroem reputações, parece imprescindível que, também, todas essas operações tenham muita transparência e disponibilização. Tudo isso já foi dito e está na agenda de muitas organizações nacionais e internacionais, não é novidade. Tomara que o coronavírus acelere esses processos em curso.

Além disso, porém, abrir a ciência requer abrir suas ontologias. Não tem a ver apenas com transformar as práticas para que sejam mais operativas, ou, em outras palavras, os “como”, as epistemes. Temos de aprender a escutar aqueles que falam desde outras formas de se aproximar da realidade. É evidente que o respeito às metodologias acreditadas continua de pé. Ninguém aqui falou em fazer tábula rasa. Pelo contrário: os tempos de coronavírus exigem que nenhum conhecimento seja desperdiçado e que demos a todos eles a visibilidade e o mérito que merecem e que precisamos. Cuidar é uma forma de conhecer, envolve outra maneira de se aproximar dos problemas e de encontrar respostas adaptadas para eles. Envolve mobilizar saberes tácitos e afetivos: saberes que, consequentemente, não podem ser codificados. Saberes que não podem ser desvinculados e que são estreitamente ligados às circunstâncias concretas nas quais foram gerados. São saberes dos quais a Modernidade nos ensinou (e até forçou) a desconfiar. Saberes que desde Descartes consideramos contaminados pelas emoções, pelos preconceitos, pelos contextos, ideologias e fragilidades dos corpos envolvidos, já que nem sempre eles enxergam bem, estão atentos ou com as faculdades plenas.

O conhecimento experiencial era desprezado pela sua alta contaminação por todo tipo de aderência local, corporal e cultural. Não foi sequer considerado um ativo a valorizar. Temos museus de etnografia, onde as realidades locais são mostradas como parte de um exotismo turistificável — e, agora, identitário. Justamente o oposto do que consideramos necessário por aqui. Nos interessa o comum e interdisciplinar, como forma de conhecimentos opositores — e não como curiosidades excêntricas e arbitrárias. Não são fruto do capricho, são consequência de uma adaptação secular. O fato de terem sido desvalorizadas fala muito sobre a nossa insensibilidade e, assim, da nossa facilidade em desprezar aquilo que ignoramos. O fato de serem não-codificáveis, tácitos, quer dizer que estamos frente a um saberes que não podem ser coisificados, alienados e mercantilizados. Mas isso não significa que sejam inúteis. Talvez por isso a imensa maioria das pessoas que trabalham com enfermagem e serviços sociais são mulheres. Nada a ver com falta de talento, mas sim com utilizá-lo em outras coisas. As quais, como sabemos, às vezes são as mais importantes. Mas nossa intenção não era fazer uma competição entre a cultura crítica e a cultura dos cuidados, e sim tentar suscitar uma conversa, mais ontológica do que epistêmica, que abrisse o mundo do conhecimento a novas perguntas, diversas soluções e novas formas de convivência. Não é que a gente precise de menos ciência, mas de mais atores: abrir a ciência a conversas difíceis, porém, urgentes. O coronavírus nos pede também uma cura de humildade.

Alerta verde: como os indígenas vêm sentindo as mudanças climáticas na floresta (Mongabay Brasil)

Mongabay Series: Conservação na Amazônia

por Jenny Gonzales em 14 Maio 2020 |

  • Chuvas atrasadas, secas intensas, rios sem água — em diversas partes da Amazônia, comunidades indígenas vêm testemunhando as transformações decorrentes das alterações no clima. O resultado: mais incêndios, menos alimento disponível.
  • Os indígenas acreditam que as mudanças climáticas têm afetado inclusive sua saúde corporal: doenças antes controladas como sarampo e febre amarela ressurgiram na floresta e até a menstruação das mulheres tem chegado mais cedo.
  • Como forma de minimizar os danos, os indígenas se mobilizam de várias maneiras. Entre elas, a aposta em sementes mais resistentes à seca e ao calor, a linha de frente nas brigadas de incêndio e até um aplicativo de celular para compartilhar informações sobre variações no clima.

Na região do Bico do Papagaio, norte de Tocantins, Antonio Veríssimo Apinajé recorda seus tempos de menino na aldeia Taquari, na década de 1970. “Chovia sem parar, por três, quatro dias seguidos, de janeiro a junho. Os rios e as nascentes ficavam cheios. A estação chuvosa começava em outubro, quando minha família plantava mandioca, milho e arroz. Em junho vinha a estação seca, e durava até setembro.”

Não mais, diz o líder do povo Apinajé. “Tem anos que as chuvas demoram para chegar, só em novembro, dezembro, até janeiro, e só então podemos plantar. Em abril a chuva já está parando. Se falta água, não temos como irrigar [a roça]. A mandioca fica pequena, o milho ‘não enche’. As chuvas diminuíram bem nos últimos dez anos.”

Assim como Antonio, boa parte dos indígenas brasileiros vem testemunhando, no dia a dia, as transformações decorrentes das mudanças climáticas. Segundo eles, a natureza vem dando sinais de alteração há pelo menos 15 anos, e com mais rapidez nos últimos tempos.

A ciência, por meio de satélites, corrobora: estudos recentes estimam que ao menos metade da Floresta Amazônica pode se transformar em savana nos próximos 50 anos caso as mudanças climáticas não sejam revertidas.

Área destruída pelo fogo em Rondônia, registrada pela Operação Verde Brasil, do Prevfogo. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama

“Falta de água é o primeiro sinal”, diz Antonio. É indício de que as chuvas estão chegando com atraso — fator que, alternado com secas intensas e prolongadas, termina por prejudicar as colheitas e reduzir a variedade de alimentos disponíveis nas aldeias.

Maria Leonice Tupari, coordenadora da Associação das Guerreiras Indígenas de Rondônia (Agir), relata que na TI onde vive, a Sete de Setembro, “o rio seca com frequência e a água que sobra forma uma espécie de baía, onde os peixes tentam sobreviver. Quando volta a chover, a água morna do leito mistura-se com a água fria que cai e o choque [de temperaturas] mata os peixes pequenos.”

Não bastasse a diminuição de recursos naturais, Maria Leonice tem se inquietado também ao ver ressurgir enfermidades nas aldeias. “Doenças que já tinham sido controladas estão voltando: sarampo, febre amarela… Acredito que isso tem a ver com o clima, a destruição da natureza. E veio um vírus para mostrar nossa fragilidade, trazer reflexão”, diz ela, referindo-se à chegada da covid-19 às aldeias, que até o início de maio já havia infectado mais de 200 indígenas no país.

O clima cada vez mais quente pode estar também alterando o organismo das mulheres Kiriri, no nordeste da Bahia, segundo as próprias relataram a Sineia do Vale, coordenadora do Departamento Ambiental do Conselho Indígena de Roraima (CIR). “As cacicas acreditam que o calor extremo fez com que a tensão pré-menstrual de jovens indígenas chegasse mais cedo.”

Não bastasse a diminuição de recursos naturais, Maria Leonice tem se inquietado também ao ver ressurgir enfermidades nas aldeias. “Doenças que já tinham sido controladas estão voltando: sarampo, febre amarela… Acredito que isso tem a ver com o clima, a destruição da natureza. E veio um vírus para mostrar nossa fragilidade, trazer reflexão”, diz ela, referindo-se à chegada da covid-19 às aldeias, que até o início de maio já havia infectado mais de 200 indígenas no país.

O clima cada vez mais quente pode estar também alterando o organismo das mulheres Kiriri, no nordeste da Bahia, segundo as próprias relataram a Sineia do Vale, coordenadora do Departamento Ambiental do Conselho Indígena de Roraima (CIR). “As cacicas acreditam que o calor extremo fez com que a tensão pré-menstrual de jovens indígenas chegasse mais cedo.”

Atendimento a indígenas em Assunção do Içana, Alto Rio Negro (AM). Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil.

Fumaça afeta as aldeias

A combinação de um clima cada vez mais seco com o avanço das queimadas também produz a intensificação de incêndios, que pode ser potencialmente desastrosa em algumas áreas, sobretudo nas terras indígenas situadas na fronteira do desmatamento.

É o caso da mesma TI Sete de Setembro onde vive Maria Leonice Tupari, território ancestral dos Suruí Paiter na divisa de Rondônia e Mato Grosso, hoje cercado de fazendas de gado. “Os fazendeiros gostam de queimar grandes áreas de terra para limpar o pasto. No ano passado, qualquer coisinha dava incêndio, de bitucas de cigarro a garrafas de vidro. Era lixo jogado por caminhões nas margens de capim seco das estradas”, diz ela.

Segundo a líder das mulheres guerreiras de Rondônia, o fogo causou outro grave problema em 2019, ano recorde de queimadas: “A fumaça gerada fez com que muitos de nós passassem mal, com fortes dores de cabeça, irritação nos olhos e problemas respiratórios. A fumaça era terrível. Crianças e idosos especialmente tiveram de ir aos hospitais da região, que estavam lotados com pessoas das cidades, também intoxicados”.

Antonio Apinajé, a mil quilômetros dali, na beira do Rio Tocantins, tem o mesmo temor: “Ficamos preocupados quando há focos de incêndio na região porque, dependendo do horário e da força do vento, o fogo voa. Vivemos perto da floresta e da vegetação de Cerrado; dá até angústia só de pensar, aquela fumaça pesada fica no ar por dois, três meses,” diz o líder Apinajé.

Como forma de reduzir os danos às vegetação dos biomas, o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais do Ibama (Prevfogo) contrata indígenas, na temporada das queimadas, para atuarem como brigadistas nas TIs onde vivem. “Eles conhecem os territórios melhor do que ninguém, sabem onde está a vegetação mais suscetível ao fogo, onde os incêndios costumam começar e se espalhar,” diz Gabriel Constantino Zacharias, chefe do Prevfogo.

A iniciativa começou em 2013 com 400 indígenas — um terço do total de brigadistas — e foi crescendo ao longo dos anos. Em 2019, porém, caiu pela primeira vez: foram 760 indígenas em campo, vinte a menos do que no ano anterior.

O primeiro ano de um governo é normalmente de restrições orçamentárias”, justifica Zacharias, ao falar da gestão Bolsonaro. Em agosto passado, Alemanha e Noruega suspenderam suas contribuições ao Fundo Amazônia em face do desmatamento crescente no país. Parte desses recursos financiava as roupas e botas dos brigadistas — entre 2014 e 2018, o fundo investiu R$ 14,7 milhões em atividades do Prevfogo nos nove estados amazônicos.

Brigadistas indígenas do PrevFogo em ação de combate a incêndio no Parque Indígena do Xingu. Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Casa de sementes

Em Tocantins, os Apinajé tem se dedicado a pesquisar sementes mais resistentes à seca e ao calor.

“Em vez de usar sementes de arroz, que levam cinco a seis meses para amadurecer, agora só plantamos o arroz ‘ligeiro’, que demora três meses”, diz Antonio Apinajé. “Conseguimos também uma espécie de mandioca que cresce em sete meses, enquanto a que plantávamos antes levava normalmente um ano.”

A oferta de água igualmente influencia o que vai ser cultivado, segundo ele: “Mandioca e feijão não pedem muita chuva, mas arroz, abóbora, milho e banana sim, por isso estamos plantando menos deles”.

Há pouco mais de um ano, o povo Apinajé, formado por 2,8 mil habitantes espalhados em 42 aldeias da TI homônima, criou uma “casa de sementes”, como assim a batizaram, que armazena as espécies mais produtivas e resistentes ao calor. A ideia é ampliar a variedade desse acervo, fazendo intercâmbio de sementes e de experiências agrobiológicas com outros povos, além de agricultores familiares e quilombolas.

Essa proposta vem se difundindo em outros estados amazônicos: em Roraima, por exemplo, lideranças coordenam a formação de uma rede de bancos de sementes entre as regiões do estado onde vivem indígenas. “O projeto parou por causa do coronavírus, mas vamos retomá-lo assim que possível,” diz Sineia do Vale, do CIR, representante do povo Wapichana.

Em agosto passado, o CIR promoveu a organização de um banco de sementes na TI Raimundão, no município de Alto Alegre, e o cultivo de uma área de dois hectares com sementes mais resistentes de milho, mandioca e pimenta, principais alimentos das comunidades locais.

As ações são parte de um plano pioneiro de gestão ambiental que inclui o fator climático, concebido a partir de consultas junto a habitantes das TIs Malacacheta, Jacamim e Manoá-Pium.

Conduzidas por mais de 200 agentes territoriais e ambientais indígenas (Atais), as entrevistas resultaram na publicação do livro Amazad Pana’adinhan — Percepções das Comunidades Indígenas sobre as Mudanças Climáticas — Região Serra da Lua, RR.

Inimaginável até poucos anos atrás, “os conhecimentos ancestrais estão sendo discutidos por cientistas em diversas partes do mundo para ajudar no entendimento das questões climáticas,” diz a líder Wapichana.

Ação de troca de sementes organizada pelo Conselho Indígena de Roraima. Foto: CIR.

Celulares contra o fogo

A colaboração entre ciência e saberes indígenas também se dá por meio da criação de ferramentas tecnológicas, como o Alerta Clima Indígena. Desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o aplicativo fornece dados sobre focos de calor, riscos de seca e desmatamento para ajudar os indígenas a monitorar seus territórios e o entorno. As informações podem ser acessadas mesmo quando os celulares estão sem conexão.

Além disso, por meio do aplicativo, os próprios indígenas podem inserir e compartilhar alertas de fogo e de atividades ilegais em suas terras, como desmatamento, pesca predatória e extração de madeira.

“Os povos indígenas são, por um lado, grandes figuras em mitigar as alterações climáticas, mas, por outro, vivem diretamente com elas e por isso são os mais afetados”, diz Martha Fellows Dourado, pesquisadora do Ipam. “O ACI surgiu como uma ferramenta para apoiar a gestão territorial das TIs na ponta final — as próprias comunidades.”

Usado atualmente em Roraima, Maranhão e Mato Grosso, a meta é que o aplicativo seja empregado em todas as TIs demarcadas do país. E, nos próximos meses, o Alerta Clima Indígena irá ganhar uma função ligada ao coronavírus, de modo que os usuários possam acompanhar a disseminação da covid-19 nas aldeias e cidades.

Para além da tecnologia, Leonice Tupari invoca a espiritualidade dos povos da floresta como forma de reverter o futuro que se anuncia: “Precisamos respeitar a natureza e nos conectar com ela. Somos espíritos aqui na Terra, encarnados na matéria, ligados ao fogo, ao solo, ao vento, a tudo que existe. As pessoas se afastaram dela. Não pisam no solo, não sentem a brisa. É preciso sentir a água, e não falo da água do chuveiro. Nossa espiritualidade está conectada com a natureza.”

O aplicativo Alerta Clima Indígena (ACI), desenvolvido pelo Ipam com apoio do governo da Noruega, permite monitorar focos de calor, desmatamento e dados climáticos nas terras indígenas da Amazônia brasileira. Foto: Ipam.

Imagem do banner: Incêndio em comunidade Huni Kuin, no Acre, em agosto de 2019. Foto: Centro de Cultura Indígena Huwã Karu Yuxibu. 

Mais reportagens da Mongabay sobre a Amazônia aqui.

Mais reportagens da Mongabay sobre povos indígenas aqui.

Opinion | Forty Years Later, Lessons for the Pandemic From Mount St. Helens (New York Times)

nytimes.com

By Lawrence Roberts – May 17, 2020

The tensions we now face between science, politics and economics also arose before the country’s most destructive volcanic eruption.

Mr. Roberts is a former editor at ProPublica and The Washington Post.

Mount St. Helens erupted on May 18, 1980.
United Press International

When I met David A. Johnston, it was on a spring evening, about a month before he would be erased from existence by a gigantic cloud of volcanic ash boiling over him at 300 miles per hour. He was coming through the door of a makeshift command center in Vancouver, Wash., the closest city to the graceful snow-capped dome of Mount St. Helens, a volcano that had been dormant for 123 years. This was April 1980, and Mr. Johnston, a 30-year-old geologist, was one of the first scientists summoned to monitor new warning signs from the mountain — shallow earthquakes and periodic bursts of ash and steam.

As a young reporter I had talked my way into the command center. At first Mr. Johnston was wary; he wasn’t supposed to meet the press anymore. His supervisors had played down the chance that the smoking mountain was about to explode, and they had already reprimanded him for suggesting otherwise. But on this night he’d just been setting measuring equipment deep in the surrounding forest, and his runner-thin frame vibrated with excitement, his face flushed under his blond beard, and Mr. Johnston couldn’t help riffing on the likelihood of a cataclysmic event.

“My feeling is when it goes, it’s going to go just like that,” he told me, snapping his fingers. “Bang!” At best, he said, we’d have a couple of hours of warning.

Mr. Johnston was mostly right. Early on a Sunday morning several weeks later, the mountain did blow, in the most destructive eruption in U.S. history. But there was no warning. At his instrument outpost, on a ridge more than five miles from the summit, Mr. Johnston had only seconds to radio in a last message: “Vancouver! Vancouver! This is it!”

A photograph of David Johnston, who was killed when Mount St. Helens erupted.
Chris Sweda/Daily Southtown, via Associated Press

Monday, May 18, marks the 40th anniversary of the 1980 Mount St. Helens eruption, and as we now face our own struggle to gauge the uncertain risks presented by nature, to predict how bad things will get and how much and how long to protect ourselves, it may be useful to revisit the tension back then between science, politics and economics.

The drama played out on a much smaller stage — one region of one state, instead of the whole planet — but many of the same elements were present: Scientists provided a range of educated guesses, and public officials split on how to respond. Business owners and residents chafed at the restrictions put in place, many flouted them, and a few even threatened armed rebellion. In the end, the government mostly accepted the analyses of Mr. Johnston and his fellow geologists. As a result, while the eruption killed 57 people and flattened hundreds of square miles of dense Pacific Northwest forestland, the lives of hundreds, perhaps thousands, were spared.

At the first warning signs, state and federal officials moved to distance people from the mountain. They sought to block nonessential visitors from nearby Spirit Lake, ringed with scout camps and tourist lodges. Other than loggers, few people hung around the peak year-round, but the population surged in late spring and summer, when thousands hiked, camped and moved into vacation homes. Many regulars dismissed the risk. Slipping past roadblocks became a popular activity. Locals sold maps to sightseers and amateur photographers that showed how to take old logging roads up the mountain. The owner of a nearby general store shared a common opinion of the threat: “It’s just plain bull. I lived here 26 years, and nothing like this happened before.”

Like the probability of a pandemic, though, it was well-established that one of the dozen or so volcanoes in the 800-mile Cascade Range might soon turn active. Averaging two eruptions a century, they were overdue. A 1978 report by the U.S. Geological Survey, where Mr. Johnston worked, identified Mount St. Helens as most likely to blow next. Yet forecasting how big the event could be was a matter of art as well as science. Geologists could model only previous explosions and list the possible outcomes. (“That position was difficult for many to accept, because they believed we could and should make predictions,” a U.S.G.S. report said later.)

Some scientists suggested a much larger evacuation, but uncertainty, a hallmark of their discipline, can be difficult for those making real-time public policy. The guidelines from federal and state representatives camped out in Vancouver, and from Washington’s governor, Dixy Lee Ray, often seemed in conflict. Moreover, the Weyerhaeuser Company, which owned tens of thousands of acres of timber, opposed logging restrictions, even as some crews got nervous about working near the rumbling dome.

By mid-April, a bulge grew on the north flank, a clue that highly pressurized magma was trapped and expanding. If it burst, a landslide might bury Spirit Lake. The governor, a conservative Democrat who was a biologist by training, finally agreed to stronger measures. She ordered an inner “red zone” where only scientists and law enforcement personnel could enter, and a “blue zone” open to loggers and property owners with day passes. If the zones didn’t extend as far as many geologists hoped, they were certainly an improvement.

Then the mountain got deceptively quiet. The curve of seismic activity flattened and turned downward. Many grew complacent, and restless. On Saturday, May 17, people with property inside the red zone massed in cars and pickup trucks at the roadblock on State Highway 504. Hearing rumors that some carried rifles, the governor relented, allowing them through, with a police escort, to check on their homes and leave again. The state patrol chief, Robert Landon, told them, “We hope the good Lord will keep that mountain from giving us any trouble.” The property owners vowed to return the next day.

The next day was Sunday. At 8:32 a.m., a powerful quake shook loose the snow-covered north face of Mount St. Helens, releasing the superheated magma, which roared out of the mountain in a lateral blast faster than a bullet train, over the spot where Mr. Johnston stood, mowing down 230 square miles of trees, hurling trunks into the air like twigs. It rained down a suffocating storm of thick gray ash, “a burning sky-river wind of searing lava droplet hail,” as the poet Gary Snyder described it. Mudflows clogged the river valleys, setting off deadly floods. A column of ash soared 15 miles high and bloomed into a mushroom cloud 35 miles wide. Over two weeks, ash would circle the globe. Among the 57 dead were three aspiring geologists besides Mr. Johnston, as well as loggers, sightseers and photographers.

About a week later, the Forest Service took reporters up in a helicopter. I had seen the mountain from the air before the eruption. Now the sprawling green wilderness that appeared endless and permanent had disappeared in a blink. We flew for an hour over nothing but moonscape. The scientists had done their best, but nature flexed a power far more deadly than even they had imagined.

Lawrence Roberts, a former editor at ProPublica and The Washington Post, is the author of the forthcoming “Mayday 1971: A White House at War, a Revolt in the Streets, and the Untold History of America’s Biggest Mass Arrest.”

Carlos Guerra Schrago: Teoria e prática da evolução (Pesquisa Fapesp)

Disciplina que busca reconstituir as histórias das espécies está, ela própria, em mutação, de acordo com biólogo da UFRJ

Fabrício Marques e Maria Guimarães

Edição 291
mai. 2020

Em companhia de Charles Darwin no Museu de História Natural de Londres, em 2018. Arquivo pessoal

O biólogo Carlos Guerra Schrago, do Departamento de Genética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), faz extensas análises de dados no computador, usa estatística e sequências genéticas. Assentado na teoria evolutiva, seu trabalho ajuda a entender aspectos da realidade, como os caminhos da disseminação de uma doença (a epidemia de zika a partir de 2015) e a diversificação de mamíferos, especialmente roedores e primatas.

A variedade de objetos de estudo é reveladora de como a mesma teoria pode ser aplicada a todos os organismos, com uma diferença importante: com uma vida efêmera enquanto indivíduos, microrganismos são capazes de perpetuar-se por meio de uma rápida multiplicação. Aos olhos de um evolucionista, reconstituir a trilha de modificações genéticas resultante dessa replicação se transforma praticamente em um filme que relata sua história.

Graduado em biologia na UFRJ com especialização em bioinformática no Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), em Petrópolis, Guerra concluiu seu doutorado na UFRJ em 2004 e, entre 2018 e 2019, fez estágio de pós-doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Na entrevista a seguir, concedida por videoconferência, ele fala de mudanças pelas quais a teoria evolutiva vem passando e de como reage quando estudantes contestam a disciplina. Para ele, os pesquisadores caem em uma armadilha quando reagem como se houvesse um embate entre religião e ciência.

 Seu campo de estudo é a evolução viral. Como você vê a pandemia do novo coronavírus?
Ainda não analisei o material bruto do coronavírus, mas chamou a minha atenção que talvez tenha sido a primeira vez que a biologia evolutiva lidou com um problema prático novo, que é avaliar se uma sequência, seja um genoma de vírus ou de bactéria, foi manipulada em laboratório ou não. O trabalho que mostrou que o vírus Sars-CoV-2 não passou por manipulação, publicado em março na revista Nature Medicine, foi assinado por um grupo de virologistas moleculares que trabalham com evolução e teve uma repercussão considerável. É inclusive um problema geopolítico, porque saber se uma sequência teve ou não origem natural implica avaliar se foi objeto de bioterrorismo.

Esse tipo de trabalho também permite analisar a evolução molecular do vírus para traçar como ele está circulando e tentar fazer previsões…
Certamente para a vigilância epidemiológica de qualquer país é relevante saber o ritmo, a taxa de crescimento e de expansão das infecções e tentar traçar de onde esses vírus e sequências vieram. Mas o trabalho feito até agora carece de uma amostragem de sequências maior. É difícil fazer inferências sobre a dinâmica espacial e temporal de uma epidemia quando a amostragem é incompleta. Em relação ao Sars-CoV-2 circulante no Brasil, mostrou-se que são sequências de vírus originadas da Europa e EUA, mas o esforço de obter amostras não foi homogêneo em todos os países.

Talvez a seleção natural não seja a única explicação, mas ainda é a melhor que temos para entender a complexidade dos seres vivos

Seu laboratório trabalha com zika. Qual o alvo dos estudos?
Nossos questionamentos são teóricos e relacionados à epidemia de zika, e o que se aplica à zika vale para qualquer epidemia. As metodologias de bioinformática ou de evolução molecular são as mesmas. Nosso interesse era saber como se comportam parâmetros relevantes para quem trabalha com saúde pública, como a idade da epidemia, de onde ela veio, sua taxa de crescimento. Há uma quantidade enorme de pressupostos teóricos que queríamos avaliar e isso requer simulações computacionais bastante realistas. Nosso trabalho tem sido desenhar simuladores de crescimento e de dinâmica da epidemia, tentando aproximá-los da realidade do vírus no espaço e no tempo. Isso para avaliar a robustez de métodos tradicionalmente usados, por exemplo, para a reconstrução da história evolutiva do vírus ou cálculos da dinâmica espacial. Concluímos que alguns desses métodos têm problemas. Obtivemos valores mais precisos quando usamos as mudanças silenciosas no genoma, ou seja, mudanças no nível do DNA que não são passadas para o que é aparente, o fenótipo. As mudanças não silenciosas, aquelas que acarretam mudança de fato em alguma proteína que afeta um fenótipo, estão submetidas a regimes de seleção e são mais suscetíveis.

O trabalho envolve estatística e bioinformática. É possível explicar para um leigo como isso funciona?
Em publicações de divulgação científica ou mesmo em filmes de ficção científica, sempre aparecem sequências de DNA com aquelas letrinhas: A, C, T e G. São as bases nitrogenadas que se combinam para formar o DNA. Um dos desafios de quem trabalha com evolução molecular e genética é olhar essas letras, com diversas combinações e possibilidades, e tentar desvendar a história por trás delas. É como chegar na sua casa, olhar os cômodos e tentar descobrir o que aconteceu enquanto você estava ausente. Às vezes, é simples. Se você tem um cachorro e encontra tudo rasgado na sala, conclui: foi o cachorro. Mas em muitos casos requer a aplicação de modelos avançados. É algo comum do pensamento humano fazer inferências históricas. Entretanto, em biologia evolutiva é preciso estar respaldado por algo mais quantitativo. Na busca por uma comunicação objetiva, recorremos a inferências estatísticas que permitem quantificar mudanças na natureza. Nessa história, tratamos de tudo, de tempo, de quem é parente de quem, de onde veio, como chegou até aqui. Essas perguntas podem ser aplicadas a vírus, plantas, animais.

Como tem sido a evolução dessa metodologia? Como ela contribui para avançar o conhecimento?
A disciplina evolução molecular e filogenética surgiu na década de 1960, embora os conceitos com que trabalhamos sejam mais antigos – de uma história evolutiva compartilhada, de como a diversidade genética responde a regimes de seleção. Mas eles careciam de métodos mais algorítmicos para serem estudados e só foi possível chegar a esse patamar com o crescimento da utilização de computadores nas ciências naturais. Isso também dependeu do conhecimento sobre as sequências de nucleotídeos – e a estrutura do DNA só foi desvendada nos anos 1950. Até o aparecimento da disciplina, não se tinha ideia de como os genomas evoluíam. Com ela, o tema se tornou objeto de pesquisa e, utilizando dados moleculares, tornou-se possível reconstruir relações evolutivas entre várias espécies e ampliar o conhecimento sobre a árvore da vida, presente nos livros técnicos de ecologia, zoologia, botânica ou qualquer área da biologia. Temos hoje uma biologia bastante unificada pelo discurso evolutivo.

Quando se fala de evolução e seleção natural, as pessoas costumam pensar em animais ou plantas. Você estuda evolução molecular de vírus. O objeto de estudo faz diferença?
Faz diferença porque, no caso dos vírus, a taxa de evolução é muito acelerada e é possível enxergar o processo evolutivo com mais detalhes. Nos grandes mamíferos, é possível enxergar fotografias espalhadas por milhões de anos e fazer inferências sobre o que aconteceu entre uma imagem e outra. No caso dos vírus o espaçamento é menor, mas há algumas complexidades também. O pesquisador precisa estar atento e escolher ferramentas apropriadas para não fazer uma análise enviesada, pois há metodologias para enxergar quadros muito afastados no tempo e outras para quadros muito próximos.

Os vírus usam as células do hospedeiro para se multiplicar e deixam partes de seu material genético inseridos no genoma dos animais. Como os vírus se entrelaçam em nossa história evolutiva?
O que temos até agora são estudos de caso, alguns deles interessantíssimos, mostrando que o papel desses seres é muito mais complexo do que se imaginava. Não há como ponderar se ao longo da história dos mamíferos ou de qualquer outro grupo a contribuição dos vírus tenha sido mais positiva ou mais negativa. Tendemos a achar que é negativa, pois eles são parasitas celulares que utilizam a maquinaria da célula para se replicar e depois a célula morre. Mas nem sempre isso é verdade, e eles podem trazer novidades evolutivas. Isso era inimaginável até algum tempo atrás.

Quanto tempo?
Essas ideias começaram a aparecer por volta dos anos 1990. Depois do entendimento da natureza química do material genético, em 1953, criou-se um conceito de indivíduo muito associado a um único genoma. Entendia-se que, nas células de uma pessoa, o genoma poderia ter pequenas modificações criadas durante o processo de divisão celular. Assim, o genoma de uma célula do fígado poderia ser um pouco diferente do genoma de uma célula do pulmão. Mas ninguém admitiria que outros genomas presentes no organismo, originados de seres tão diferentes quanto bactérias e vírus, poderiam alterar fenótipos e chegar ao ponto de influenciar o comportamento de uma pessoa, como ansiedade e depressão. Chegamos a uma pergunta: afinal de contas, o que é um indivíduo? É apenas o seu genoma ou é o seu genoma e toda essa comunidade de genomas que está presente nesses microrganismos, incluindo os vírus?

Qual será a resposta, na sua avaliação?
O desenvolvimento das técnicas de sequenciamento permite uma análise muito mais detalhada do problema e acho que vamos nos surpreender nos próximos anos. É um desafio considerável inclusive para a bioinformática. A complexidade da informação é gigantesca, porque a variação não é apenas entre pessoas, mas também de uma mesma pessoa ao longo de sua vida. É impossível dar sentido a isso sem o auxílio de computadores. Minha impressão é de que, nos próximos anos, os cursos de biologia terão obrigatoriamente conteúdos de programação de computador para seus estudantes.

O discurso científico é limitado pelo naturalismo metodológico a agentes que devem ter relação mecânica de causa e efeito

Como essa contribuição da microbiologia influencia o conhecimento sobre a teoria da evolução?
O impacto está em andamento. A complexidade do genoma e de sua interação com os genomas de todos esses microrganismos não foi assimilada. Existe uma parcela de pesquisadores que considera a seleção natural a única explicação para a organização surpreendente que vemos nos seres vivos, enquanto outros acham que fenômenos além da seleção natural podem contribuir e defendem que a biologia evolutiva deveria ser reformulada para incorporar essas novidades, abandonando a concepção clássica que vem dos anos 1920. Talvez a seleção natural não seja a única explicação, mas ainda é a melhor que temos para entender a complexidade impressionante dos seres vivos.

Ainda se discute se os vírus são ou não vivos?
A pandemia do coronavírus mostrou que uma molécula de RNA consegue parar o mundo. Dentro das células, essas moléculas levam a uma rede hierárquica de reações em cadeia. Acaba sendo irrelevante perguntar se o vírus é vivo ou não. Esse debate quase virou uma disputa futebolística.

Estamos em um momento no qual se tornou frequente negar a evolução. Como você vive isso na docência?
É um problema real. Com frequência alunos fazem questionamentos de conteúdo religioso, mas raramente é um questionamento filosófico. O que chega em sala de aula é essa interpretação literal, simplista, em que o estudante argumenta: “Ah, não é isso que o capítulo tal do livro tal, do Gênesis, diz”. Acho que isso é bom tema de análise para os sociólogos. Devemos nos perguntar por que isso está aparecendo agora, pois é algo que eu não via 10 anos atrás. É preciso contextualizar o problema. Não se trata de uma disputa entre ciência e religião.

Por que não?
Muitos pesquisadores caem na armadilha e transformam algo que é local e específico em um problema filosófico que não tem solução. Na verdade, estamos lidando com algo muito menos sofisticado. O estudante nunca vem com um discurso teológico avançado. Tenho a impressão de que alguns estudantes entram na aula de evolução achando que é uma disciplina para ensinar ateísmo. Então, é natural que atuem de maneira hostil, porque cresceram em um ambiente familiar religioso e seu entendimento de moral está associado a princípios religiosos.

Como lidar com isso?
Combatendo a percepção de que o discurso científico é pregação ateísta. O professor precisa contextualizar quais são os limites e os agentes do discurso científico. Para o estudante tem que estar claro que o discurso científico é limitado pelo naturalismo metodológico a agentes que devem ter relação mecânica de causa e efeito. Qualquer tipo de agente não natural é incompatível com o universo que caracteriza o discurso científico. Uma vez eu tive de explicar: “Isto aqui é aula de biologia evolutiva, não de apologética ateísta. Eu não sou apologista de matérias do divino, sou biólogo”. Com isso, o aluno fica mais tranquilo e entende que, a partir daqui, fazer qualquer tipo de pulo metafísico é complicado. E isso inclui a aceitação ou rejeição de interpretações metafísicas do naturalismo. Quando alguém diz que hipóteses pseudocientíficas como a do “design inteligente” deveriam entrar nos livros de biologia evolutiva, deve-se indagar o seguinte: o que se propõe está envolto em naturalismo metodológico? Os agentes que estão atuando têm relação mecânica de causa e efeito? Não têm. Então, ótimo, pode-se fazer o que quiser com isso, mas no livro de evolução não entra. Criar essa proteção para o discurso científico evita o problema, mas também tem uma consequência que desagrada a alguns cientistas.

Qual?
A consequência de apresentar o discurso da ciência como apenas um dos discursos possíveis do intelecto humano. Para o cientista, é muito complicado dissociar a relação de igualdade entre ciência e conhecimento. Quando se afirma que existem outras formas de conhecimento fora da proteção do naturalismo metodológico, o cientista tem dificuldade em compreender. Para ele, o mundo só é cognoscível pelo naturalismo metodológico.

Energia e meio ambiente após a covid-19 (Estadão)

opiniao.estadao.com.br

José Goldemberg, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2020 | 03h00

Por mais grave que seja a atual pandemia, ela acabará passando, como aconteceu com outras no passado. Nenhuma, porém – nos tempos modernos –, atingiu tantos países e levou a uma paralisação econômica tão profunda, decorrente da imposição de quarentena, que é indispensável para evitar a propagação da doença.

Uma das muitas consequências desta quarentena é a redução do consumo de energia, principalmente no setor de transporte, que representa mais de 25% de toda a energia consumida no mundo.

O que aconteceu no setor do petróleo foi o que se chama “tempestade perfeita”. A demanda diminuiu justamente na ocasião em que havia excesso de produção. O cartel dos grandes produtores – principalmente a Arábia Saudita e a Rússia – não conseguiu fixar cotas de produção, que mantinham o resto do mundo refém do petróleo que produzia. O preço do petróleo não decorria dos custos de produção, era fixado arbitrariamente para suportar a economia dos regimes políticos e sociais dos países-membros do cartel.

Como consequência da falta de acordo dos produtores, o preço do barril de petróleo caiu de cerca de US$ 80 o barril para menos de US$ 20. No mundo pós covid-19 ele dificilmente voltará aos níveis anteriores, pois grande número de empresas e pessoas descobriram que home office funciona e o mesmo aconteceu com o ensino a distância, além do comércio eletrônico.

A necessidade de deslocamentos vai se reduzir permanentemente, com claros benefícios para a qualidade do ar nos grandes centros urbanos, como as fotografias dos satélites nos mostram. Os benefícios para a saúde, com a diminuição das doenças respiratórias, não foram quantificados ainda, mas certamente ocorrerão. Além disso, as emissões de gases de efeito estufa, cuja redução já se está verificando, não voltarão aos níveis anteriores, o que dará mais tempo para a adoção de medidas de adaptação ao aquecimento global.

O sonho dos ambientalistas de reduzir o consumo de petróleo parece tornar-se realidade graças à covid-19.

O que não vai se reduzir, provavelmente, é o consumo de eletricidade, porque as atividades domésticas (incluindo o home office) requerem mais eletricidade. Daí os grandes planos, já propostos nos Estados Unidos, para aumentar a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis. Nos pacotes de recuperação econômica que estão sendo adotados naquele país, esse é um ingrediente importante.

No Brasil, perderão prioridade as ideias de que o País poderia ser um grande exportador de petróleo, uma vez que produzi-lo do pré-sal custa muito mais do que na Arábia Saudita. Esperar que os royalties da produção de petróleo “salvem” a economia de vários Estados, como o Rio de Janeiro, provavelmente será em vão.

Mais grave ainda, a produção de etanol da cana-de-açúcar – com todas as vantagens ambientais que tem – vai ser afetada seriamente, mas talvez force o setor a fazer duas coisas que deveria ter feito no passado e não fez:

• Instalar grandes reservatórios para estocar etanol, que seria, então, disponível o ano todo, o que permitiria fazer contratos para exportação de longo prazo, o que o setor nunca fez, preferindo vender o álcool no mercado spot.

• Investir pesadamente em pesquisa para aumentar a produtividade da cana-de-açúcar, que deixou de crescer há vários anos. Essa seria a única forma de baixar os custos do etanol, que poderia, então, competir melhor com a gasolina a preços baixos.

O movimento ambiental pós-covid-19 enfrentará também dilemas sérios, pois a urgência de atacar problemas ligados à saúde, como saneamento básico, vai aumentar. As preocupações com mudanças climáticas – que só se concretizarão a logo prazo – parecerão menos prioritárias.

Diante da tragédia causada pela covid-19 há, contudo, expectativas de importantes modificações nas percepções das sociedades atingidas, com reflexos culturais e políticos positivos.

Essas expectativas se baseiam na condução exemplar da crise por governantes como Angela Merkel, na Alemanha, que adotou políticas públicas que reduziram consideravelmente o número de vítimas, em contraste com outros dirigentes, como o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos – e seus seguidores, como o presidente do nosso país –, que minimizaram a gravidade do problema do isolamento social. Angela Merkel percebeu o vulto do problema antes dos outros e preparou seu país para enfrentar a crise, seguindo rigorosamente as estratégias recomendadas por seus cientistas.

É notório que, ao enfrentar problemas complexos, há incertezas e pode haver divergências entre os cientistas, mas a própria natureza do método científico corrige esses problemas. A experiência acaba eliminando as teorias incorretas. Por essa razão, desqualificar o trabalho dos cientistas e o método científico é o pior que dirigentes obscurantistas poderiam fazer no caso da covid-19.

Um maior respeito pela ciência e pelos cientistas poderá ser uma das consequências mais positivas da tragédia humanitária da crise atual.

PROFESSOR EMÉRITO  E EX-REITOR DA UNIVERSIDADE  DE SÃO PAULO (USP)

Qual o tamanho da pandemia do novo coronavírus? (Estadão)

estadao.com.br

Com mais de 300 mil mortes confirmadas no mundo, espalhadas por todos os continentes, a covid-19 já é mais letal que desastres naturais, atentados terroristas e guerras

Renato Vasconcelos e Paulo Beraldo

15 de maio de 2020 | 05h00

Apandemia do novo coronavírus já tem envergadura de desastre. Com mais de 300 mil mortes confirmadas até esta quinta-feira, 14, a covid-19 já matou mais pessoas do que guerras, desastres naturais e atentados terroristas que marcaram a história. Apesar da letalidade da doença, uma grande quantidade de pessoas, incluindo líderes mundiais, continuam a minimizar ou negar a pandemia – que continua a fazer vítimas diárias em todos os continentes.

Para o professor de história da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), João Malaia, o quanto um evento trágico impressiona alguém depende de fatores como a duração, a proximidade de quem morre e a distância física do fenômeno em si. “Muitas mortes em um período curto também tendem a impressionar mais. No caso de uma pandemia, as mortes diárias vão diluindo o sentimento da tragédia, a não ser para aqueles que perdem pessoas próximas”, explica o pesquisador, que coordena um projeto de pesquisa sobre a gripe espanhola no Brasil, o ‘Mais História, por favor!’.

Segundo Malaia, a normalização da morte nos discursos de autoridades como o presidente da República acaba reforçando o sentimento de conformação de parte da população. Olhando para o passado, vê semelhanças na forma como o Brasil lidou com a gripe espanhola. “O governo brasileiro foi muito criticado na época por setores da imprensa por demorar a tomar medidas, principalmente no Rio de Janeiro, então capital federal, quando já se sabia dos casos”, diz.

Imagem aérea mostra o dano causado pelo tsunami na cidade turística de Phuket, na Tailândia, em 26 de dezembro de 2004Reuters

O número de mortes pelo mundo já ultrapassou qualquer desastre natural da história recente. O tsunami de 2004, que varreu países banhados pelo Oceano Índico e considerado o mais mortal da história, vitimou cerca de 230 mil pessoas. O cenário não é muito diferente se observados os contextos regionais e nacionais.


MAIS BAIXAS QUE OS CIVIS DO IRAQUE

Soldado americano observa a derrubada da estátua de Saddam Hussein no centro de Bagdá, em 9 de abril de 2003Goran Tomasevic/Reuters

Na Europa, continente com mais mortos até o momento, somados os quatro países mais afetados pela pandemia – Reino Unido, Itália, França e Espanha – o número de vítimas é maior do que o total de civis mortos nos últimos dez anos da Guerra do Iraque (2009-2019).


EUA

PIOR QUE O VIETNÃ

Corpos de soldados americanos mortos na Batalha do vale Ia Drang, primeira grande derrota do país no Vietnã, em 15 de novembro de 1965Neil Sheehan/The New York Times

Nos Estados Unidos, o número de vítimas do novo coronavírus entre fevereiro e maio – menos de 120 dias – já é maior do que o de militares americanos mortos na Guerra do Vietña (58 mil), que durou 20 anos.

QUASE 30 VEZES O 11 DE SETEMBRO

Equipe de resgate retira homem de uma das torres do World Trade Center, em Nova York, logo após o atentado de 11 de setembro de 2001Shannon Stapleton/Reuters

Seriam necessários mais de 28 atentados iguais aos de 11 de setembro de 2001, que destruiu as torres gêmeas do World Trade Center, para igualar o número de mortos pela covid-19 nos EUA. Já o Estado de Nova York, palco da catástrofe, precisaria presenciar mais de 9 atentados para igualar o número de mortos pela pandemia.


MAIS DE 100 GUERRAS

Parentes de soldados argentinos mortos na Guerra das Malvinas visitam cemitério na ilha pela primeira vez, em 19 de março de 1991Reuters

O Reino Unido, que tomou o posto da Itália de país mais afetado pela pandemia no continente, teria que lutar mais de 130 Guerras das Malvinas para ter o mesmo número de baixas provocadas pelo coronavírus. Se contarmos o número total de mortos na guerra (britânicos e argentinos), seriam necessários mais de 36 conflitos idênticos ao disputado no Atlântico sul.


CUSTO MAIOR QUE A INDEPENDÊNCIA

Quadro retrata a Batalha de San MartinoLuigi Norfini

A Segunda Guerra de Independência da Itália, iniciada em 1859, foi o último episódio no processo de unificação do país. Estima-se que mais de 12 mil vidas foram perdidas durante o conflito, o que equivale a menos da metade das vítimas da pandemia.


1500 ANOS DE TERRORISMO

Mascarados, guerrilheiros do ETA leem anúncio ao vivo na televisão espanhola em 18 de fevereiro de 2004Vincent West/Reuters

Na Espanha, as vítimas da covid-19 somam um número 30 vezes maior do que os mortos em atentados promovidos pela Pátria Basca e Liberdade (ETA). Em 50 anos de atividade, as ações do grupo terrorista vitimaram 584 pessoas. Caso ainda existisse e mantivesse a mesma média de letalidade, o ETA só conseguiria igualar o número de mortes provocadas pela pandemia em 1.586 anos de terrorismo.


ATENTADOS DO ISIS EM PARIS

Brigadistas prestam socorro a feridos perto da boate Bataclan, em 13 de novembro de 2015Christian Hartmann/Reuters

Comparativamente, os mortos pela covid-19 na França correspondem a, aproximadamente, 300 ataques terroristas iguais ao que ocorreu na boate Bataclan, em 25 de novembro de 2015, quando o grupo jihadista Estado Islâmico (ISIS) fez um de seus mais famosos atentados até então.


BRASIL E SÃO PAULO

No caso brasileiro, os mais de 13 mil mortos fazem desastres como o de Brumadinho ficarem pequenos. Teriam que ter ocorrido 52 acidentes iguais ao da cidade mineira para alcançar a mortalidade. O mesmo pode ser dito do massacre do Carandiru. Seriam precisas 122 chacinas para que o número de mortos se igualasse ao do país. Já São Paulo teria que lutar quatro Revoluções Constitucionalistas para igualar as baixas.

REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932

Soldados paulistas combateram, com armamento precário, as poderosas colunas inimigas. Reprodução feita no dia 02 de junho de 2013, dos originais publicados pelo jornal ‘O Estado de S. Paulo’ durante a cobertura da Revolução Constitucionalista de 1932ARQUIVO/AE
Os corpos dos detentos mortos há dois dias são acondicionados de salas e corredores do IML (Instituto Médico Legal)EPITÁCIO PESSOA/ESTADÃO
Helicóptero do Corpo de Bombeiros  e agentes da defesa civil trabalham no resgate dos corpos das vítimas encontrados em um ônibus de funcionários da VALE na região onde ficavam os escritórios da empresa em BrumadinhoWILTON JUNIOR/ ESTADÃO

REVOLUÇÃO TEOCRÁTICA DO IRÃ

Apoiadores do aiatolá Khomeini mostra sua imagem em Teerã, no Irã, durante a revolução islâmica de 1979REUTERS

Na Ásia, onde a pandemia começou, a mortalidade também alcançou níveis históricos. O número de mortos no Irã é duas vezes superior ao número de mortos da Revolução Teocrática que mudou o regime do país em 1979.


EXÉRCITO DE TERRACOTA

Imagem de parte do Exército de Soldados de Terracota de Xian, na ChinaLudovic Marin/ AFP

Na China, o número de mortos sepultados no país já é o equivalente a metade das estátuas do Exército de Terracota, enterradas no túmulo do imperador Qin Shi Huang.


Expediente

Editor executivo multimídia Fabio Sales / Editora de infografia multimídia Regina Elisabeth Silva / Editores assistentes multimídia Adriano Araujo, Carlos Marin, Glauco Lara e William Marioto / Editor de Internacional Cristiano Dias / Reportagem Renato Vasconcelos, Rodrigo Turrer e Paulo Beraldo / Edição de fotografia Sérgio Neves / Foto da capa Juan Carlos Ulate/Reuters / SEO Brenda Zacharias / Designer multimídia Lucas Almeida

A pandemia incide no ano mais importante da história da humanidade. Serão as próximas zoonoses gestadas no Brasil? (UNICAMP)

05, mai – 2020 | 14:02 Ciência, saúde e sociedade: Covid-19

Luiz Marques

Edição de imagem: Renan Garcia

O ano de 2020 será lembrado como o ano em que a pandemia causada pelo vírus SARS-CoV-2 precipitou uma ruptura maior no funcionamento das sociedades contemporâneas. Será provavelmente lembrado também como o momento de uma ruptura da qual nossas sociedades não mais se recuperaram completamente. Isso porque a atual pandemia intervém num momento em que três crises estruturais na relação entre as sociedades hegemônicas contemporâneas e o sistema Terra se reforçam reciprocamente, convergindo em direção a uma regressão econômica global, ainda que com eventuais surtos conjunturais de recuperação. Essas três crises são, como reiterado pela ciência, a emergência climática, a aniquilação em curso da biodiversidade e o adoecimento coletivo dos organismos, intoxicados pela indústria química.i Os impactos cada vez mais avassaladores decorrentes da sinergia entre essas três crises sistêmicas deixarão doravante as sociedades, mesmo as mais ricas, ainda mais desiguais e mais vulneráveis, menos aptas, portanto, a recuperar seu desempenho anterior. São justamente tais perdas parciais, cada vez mais frequentes, de funcionalidade na relação das sociedades com o meio ambiente que caracterizam essencialmente o processo de colapso socioambiental em curso (Homer-Dixon et al. 2015; Steffen et al. 2018; Marques 2015/2018 e 2020).

  1. O ano da pandemia é o do mais crucial ponto de inflexão da história humana

Por sua extensão global e pelo rastro de mortes deixadas em sua passagem, superior a 250 mil vítimas (oficialmente notificadas) em pouco mais de quatro meses, a atual pandemia é um fato cuja gravidade seria difícil exagerar, tanto mais porque novos surtos podem ainda ocorrer nos próximos dois anos, segundo um relatório do Center for Infectious Disease Research and Policy (CIDRAP), da Universidade de Minnesota (Moore, Lipsitch, Barry & Osterholm 2020).

Mas ainda mais grave que o saldo imenso de mortes, é o momento da incidência da pandemia na história humana. Outras pandemias, algumas muito mais letais, ocorreram no século XX, sem afetar profundamente a capacidade de recuperação das sociedades. O que singulariza a atual pandemia é o fato de se somar a diversas crises sistêmicas que ameaçam a humanidade, e isso justamente no momento em que não é mais possível postergar decisões que afetarão crucialmente, e muito em breve, a habitabilidade do planeta. A ciência condiciona a possibilidade de estabilizar o aquecimento médio global dentro, ou não muito além, dos limites almejados pelo Acordo de Paris a um fato incontornável: as emissões de CO2 devem atingir seu pico em 2020 e começar a declinar fortemente em seguida. O IPCC traçou 196 cenários através dos quais podemos limitar o aquecimento médio global a cerca de 0,5oC acima do aquecimento médio atual em relação ao período pré-industrial (1,2oC em 2019). Nenhum deles, lembram Tom Rivett-Carnac e Christiana Figueres, admite que o pico de emissões de gases de efeito estufa (GEE) seja protelado para além de 2020 (Hooper 2020). Ninguém exprime o significado dessa data-limite de modo mais peremptório que Thomas Stocker, co-diretor do IPCC entre 2008 e 2015:ii

“Mitigação retardada ou insuficiente impossibilita limitar o aquecimento global permanentemente. O ano de 2020 é crucial para a definição das ambições globais sobre a redução das emissões. Se as emissões de CO2 continuarem a aumentar além dessa data, as metas mais ambiciosas de mitigação tornar-se-ão inatingíveis”.

Já em 2017, Jean Jouzel, ex-vice-presidente do IPCC, advertia que “para manter alguma chance de permanecer abaixo dos 2oC é necessário que o pico das emissões seja atingido no mais tardar em 2020” (Le Hir 2017). Em outubro do ano seguinte, comentando o lançamento do relatório especial do IPCC, intitulado Global Warming 1.5oC, Debra Roberts, co-diretora do Grupo de Trabalho 2 desse relatório, reforçava essa percepção: “Os próximos poucos anos serão provavelmente os mais importantes de nossa história”. E Amjad Abdulla, representante dos Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) nas negociações climáticas, acrescentava: “Não tenho dúvidas de que os historiadores olharão retrospectivamente para esses resultados [do relatório especial do IPCC de 2018] como um dos momentos definidores no curso da história humana” (Mathiesen & Sauer 2018). Em The Second Warning: A Documentary Film (2018), divulgação do manifesto The Scientist’s Warning to Humanity: A Second Notice, lançado por William Ripple e colegas em 2017 e endossado por cerca de 20 mil cientistas, a filósofa Kathleen Dean Moore faz suas as declarações acima mencionadas: “Estamos vivendo um ponto de inflexão. Os próximos poucos anos serão os mais importantes da história da humanidade”.

Em abril de 2017, um grupo de cientistas, coordenados por Stephan Rahmstorf, lançava The Climate Turning Point, em cujo Prefácio se reafirma a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris (“manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2oC em relação ao período pré-industrial”), esclarecendo que: “essa meta é considerada necessária para evitar riscos incalculáveis à humanidade, e é factível – mas, realisticamente, apenas se as emissões globais atingirem um pico até o ano de 2020, no mais tardar”. Esse documento norteou então a criação, por diversas lideranças científicas e diplomáticas, da Missão 2020 (https://mission2020.global/). Ela definia metas básicas em energia, transporte, uso da terra, indústria, infraestrutura e finanças, de modo a tornar declinante, a partir de 2020, a curva das emissões de gases de efeito estufa e colocar o planeta numa trajetória consistente com o Acordo de Paris. “Com radical colaboração e teimoso otimismo”, escreve Christiana Figueres e colegas da Missão 2020, “dobraremos a curva das emissões de gases de efeito estufa até 2020, possibilitando à humanidade florescer.” De seu lado, António Guterres, cumprindo sua missão de incentivar e coordenar os esforços de governança global, alertava em setembro de 2018: “Se não mudarmos nossa rota até 2020, corremos o risco de deixar passar o momento em que é ainda possível evitar uma mudança climática desenfreada (a runaway climate change), com consequências desastrosas para a humanidade e para os sistemas naturais que nos sustentam”.

Pois bem, 2020, enfim, chegou. Fazendo em 2019 um balanço dos progressos realizados em direção às metas da Missão 2020, o World Resources Institute (Ge et al., 2019) escreve que “na maioria dos casos, a ação foi insuficiente ou o progresso foi nulo” (in most cases action is insufficient or progress is off track). Nenhuma das metas, em suma, foi alcançada e, em dezembro passado, a COP25 em Madri varreu definitivamente, em grande parte por culpa dos governos dos EUA, Japão, Austrália e Brasil (Irfan 2019), as últimas esperanças de uma diminuição iminente das emissões globais de GEE.

  1. A pandemia entra em cena

Mas eis que a Covid-19 irrompe, deslocando, paralisando e adiando tudo, inclusive a COP26. E em pouco mais de três meses resolveu pelo caos e pelo sofrimento o que mais de três décadas de fatos, de ciência, de campanhas e de esforços diplomáticos para diminuir as emissões de GEE mostraram-se incapazes de realizar (já a Conferência de Toronto, de 1988, recomendava “ações específicas” nesse sentido). Ao invés de um decrescimento econômico racional, gradual e democraticamente planejado, o decrescimento econômico abrupto imposto pela pandemia afigura-se já, segundo Kenneth S. Rogoff, como “a mais profunda queda da economia global em 100 anos” (Goodman 2020). Em 15 de abril, o Carbon Brief estimou que a crise econômica deve provocar uma diminuição estimada em cerca de 5,5% nas emissões globais de CO2 em 2020. Em 30 de abril, a Global Energy Review 2020 – The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO2 emissions, da Agência Internacional de Energia (AIE), vai mais longe e estima que “as emissões globais de CO2 devem cair ainda mais rapidamente ao longo dos nove meses restantes do ano, atingindo 30,6 Gt [bilhões de toneladas] em 2020, quase 8% mais baixas que em 2019. Este seria o nível mais baixo desde 2010. Tal redução seria a maior de todos os tempos, seis vezes maior que a redução precedente de 0,4 Gt em 2009, devido à crise financeira e duas vezes maior que todas as reduções anteriores desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. (https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2020/global-energy-and-co2-emissions-in-2020). A Figura 1 indica como essa redução das emissões globais de CO2 reflete a queda na demanda de consumo global de energia primária, comparada com as quedas anteriores.

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Figura 1 – Taxas de mudança (%) na demanda global de energia primária, 1900 – 2020

Fonte: AIE, Global Energy Review 2020 The impacts of the Covid-19 crisis on global energy demand and CO emissions, Abril 2020, p. 11

A redução das emissões globais de CO2 projetada pela AIE para 2020 equivale ou é até pouco maior que os 7,6% de redução anual até 2030 que o IPCC considera imprescindível para conter o aquecimento aquém de níveis catastróficos (Evans 2020). O relatório da AIE apressa-se, contudo, em advertir que, “tal como nas crises precedentes, (…) o repique das emissões pode ser maior que o declínio, a menos que a onda de investimentos para retomar a economia seja dirigido a uma infraestrutura energética mais limpa e resiliente”. Salvo raras exceções, os fatos até agora não autorizam a expectativa de uma ruptura com os paradigmas energéticos e socioeconômicos anteriores. Malgrado o colapso do preço do petróleo, ou justamente por isso, as petroleiras estão se movendo com vertiginosa velocidade para tirar partido desse momento, obtendo, por exemplo, investimentos de USD 1,1 bilhão para financiar a conclusão do famigerado oleoduto Keystone XL, que ligará o petróleo canadense ao Golfo do México (McKibben 2020). Os exemplos desse tipo de oportunismo são inúmeros, inclusive no Brasil, onde os ruralistas se aproveitam da situação para fazer aprovar da Medida Provisória 910, que anistia a grilagem e eleva ainda mais as ameaças aos indígenas. Como bem afirma Laurent Joffrin, em sua Lettre politique de 30 de abril para o jornal Libération (Le monde d’avant, en pire?), o mundo pós-pandemia “corre o risco de parecer furiosamente, a curto prazo ao menos, com o mundo de antes, mas em versão piorada”. E Joffrin emenda: “o ‘mundo de após’ não mudará sozinho. Como para o ‘mundo de antes’, seu futuro dependerá de um combate político, paciente e árduo”. Político e árduo, sem dúvida, mas definitivamente não há mais tempo para paciência.

De qualquer modo, uma redução de quase 8% nas emissões globais de CO2 num ano apenas não abriu sequer um dente na curva cumulativa das concentrações atmosféricas desse gás, medidas em Mauna Loa (Havaí). Elas bateram mais um recorde em abril de 2020, atingindo 416,76 partes por milhão (ppm), 3,13 ppm acima de 2019, um dos maiores saltos desde o início de suas mensurações em 1958. Não se trata apenas de um número a mais na selva de indicadores climáticos convergentes. É o número decisivo. Como lembra Petteri Taalas, Secretário-Geral da Organização Meteorológica Mundial: “A última vez que a Terra apresentou concentrações atmosféricas de CO2 comparáveis às atuais foi há 3 a 5 milhões de anos. Nessa época, a temperatura estava 2oC a 3oC [acima do período pré-industrial] e o nível do mar estava 10 a 20 metros mais alto que hoje” (McGrath 2019). Faltam agora menos de 35 ppm para atingir 450 ppm, um nível de concentração atmosférica de CO2 largamente associado a um aquecimento médio global de 2oC acima do período pré-industrial, nível que pode ser atingido, mantida a trajetória atual, em pouco mais de 10 anos. O que nos aguarda por volta de 2030, mantida a engrenagem do sistema econômico capitalista globalizado e existencialmente dependente de sua própria reprodução ampliada, é nada menos que um desastre para a humanidade como um todo, bem como para inúmeras outras espécies. A palavra desastre não é uma hipérbole. O já mencionado Relatório do IPCC de 2018 (Global Warming 1.5oC) projeta que o mundo a 2oC em média acima do período pré-industrial terá quase 6 bilhões de pessoas expostas a ondas de calor extremo e mais de 3,5 bilhões de pessoas sujeitas à escassez hídrica, entre outras muitas adversidades. Desastre é a palavra que melhor define o mundo para o qual rumamos no horizonte dos próximos 10 anos (ou 20, pouco importa), e é exatamente o vocábulo empregado por Sir Brian Hoskins, diretor do Grantham Institute for Climate Change, do Imperial College em Londres: “Não temos evidência de que um aquecimento de 1,9oC é algo com que se possa lidar facilmente, e 2,1oC é um desastre” (Simms 2017).

Em consequência dessas altíssimas concentrações atmosféricas de CO2, o ano passado já foi o mais quente dos registros históricos na Europa (1,2oC acima do período 1981 – 2010!) e, mesmo sem El Niño, há agora, segundo o NOAA, 74,67% de chances de que 2020 venha a ser o ano mais quente em um século e meio de registros históricos na média global,iii batendo o recorde precedente de 2016 (1,24oC acima do período pré-industrial, segundo a NASA). Não é no espaço deste artigo que se podem elencar os muitos indícios de que 2020 será o primeiro ou segundo (após 2016) ano mais quente entre os sete mais quentes (2014-2020) da história da civilização humana desde a última deglaciação, cerca de 11.700 anos antes do presente. Baste aqui ter em mente que, se março de 2020 for representativo do ano, já perdemos a meta mais ambiciosa do Acordo de Paris, pois a temperatura média desse mês cravou globalmente 1,51oC acima do período 1880-1920, conforme mostra a Figura 2.

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Figura 2 – Anomalias de temperatura em março de 2020 (1,51C na média global), em relação ao período 1880-1920. Fonte: GISS Surface Temperature Analysis (v4), NASA. <https://data.giss.nasa.gov/gistemp/maps/index_v4.html>.

O aquecimento global é uma arma apontada contra a saúde global. Como mostra Sara Goudarzi (2020), temperaturas mais elevadas favorecem a adaptação de micro-organismos a um mundo mais quente, diminuindo a eficácia de duas defesas básicas dos mamíferos contra os patógenos: (1) muitos micro-organismos não sobrevivem ainda a temperaturas superiores a 37oC, mas podem vir a se adaptar rapidamente a elas; (2) o sistema imune dos mamíferos, pois este perde eficiência em temperaturas mais elevadas. Além disso, o aquecimento global amplia o raio de ação de vetores de epidemias, como a dengue, zika e chikungunya, e altera a distribuição geográfica das plantas e animais, levando espécies animais terrestres a se deslocarem em direção a latitudes mais altas a uma taxa média de 17 km por década (Pecl et al. 2017). Aaron Bernstein, diretor do Harvard University’s Center of Climate, Health and the Global Environment, sintetiza bem a interação entre aquecimento global e desmatamento em suas múltiplas relações com novos surtos epidêmicos:iv

“À medida que o planeta se aquece (…) os animais deslocam-se para os polos fugindo do calor. Animais estão entrando em contato com animais com os quais eles normalmente não interagiriam, e isso cria uma oportunidade para patógenos encontrar outros hospedeiros. Muitas das causas primárias das mudanças climáticas também aumentam o risco de pandemias. O desmatamento, causado em geral pela agropecuária é a causa maior da perda de habitat no mundo todo. E essa perda força os animais a migrarem e potencialmente a entrar em contato com outros animais ou pessoas e compartilhar seus germes. Grandes fazendas de gado também servem como uma fonte para a passagem de infecções de animais para pessoas”.

Sem perder de vista as relações entre a emergência climática e essas novas ameaças sanitárias, foquemos em duas questões bem circunscritas e diretamente ligadas à pandemia atual.

  1. A pandemia foi prevista e será, doravante, mais frequente

A primeira questão refere-se ao caráter, por assim dizer, antropogênico da pandemia. Bem longe de ser adventícia, ela é uma consequência, reiteradamente prevista, de um sistema socioeconômico crescentemente disfuncional e destrutivo. Josef Settele, Sandra Díaz, Eduardo Brondizio e Peter Daszak escreveram um artigo, a convite do IPBES, de leitura obrigatória e que me permito citar longamente:

“Há uma única espécie responsável pela pandemia Covid-19: nós. Assim como com as crises climáticas e o declínio da biodiversidade, as pandemias recentes são uma consequência direta da atividade humana – particularmente de nosso sistema financeiro e econômico global baseado num paradigma limitado, que preza o crescimento econômico a qualquer custo. (…) Desmatamento crescente, expansão descontrolada da agropecuária, cultivo e criação intensivos, mineração e aumento da infraestrutura, assim como a exploração de espécies silvestres criaram uma ‘tempestade perfeita’ para o salto de doenças da vida selvagem para as pessoas. (…) E, contudo, isso pode ser apenas o começo. Embora se estime que doenças transmitidas de outros animais para humanos já causem 700 mil mortes por ano, é vasto o potencial para pandemias futuras. Acredita-se que 1,7 milhão de vírus não identificados, dentre os que sabidamente infectam pessoas, ainda existem em mamíferos e pássaros aquáticos. Qualquer um deles pode ser a ‘Doença X’ – potencialmente ainda mais perturbadora e letal que a Covid-19. É provável que pandemias futuras ocorram mais frequentemente, propaguem-se mais rapidamente, tenham maior impacto econômico e matem mais pessoas, se não formos extremamente cuidadosos acerca dos impactos das escolhas que fazemos hoje” (https://ipbes.net/covid19stimulus).

Cada frase dessa citação encerra uma lição de ciência e de lucidez política. A maior frequência recente de epidemias e pandemias tem por causas centrais o desmatamento e a agropecuária, algo bem estabelecido também por Christian Drosten, atual coordenador do combate à Covid-19 na Alemanha, além de diretor do Instituto de Virologia do Hospital Charité de Berlim e um dos cientistas que identificou a pandemia SARS em 2003 (Spinney 2020).

“Desde que tenha oportunidade, o coronavírus está pronto para mudar de hospedeiro e nós criamos essa oportunidade através de nosso uso não natural de animais – a pecuária (livestock). Essa expõe os animais de criação à vida silvestre, mantém esses animais em grandes grupos que podem amplificar o vírus, e os humanos têm intenso contato com eles – por exemplo, através do consumo de carne –, de modo que tais animais certamente representam uma possível trajetória de emergência para o coronavírus. Camelos são animais de criação no Oriente Médio e são os hospedeiros do vírus MERS, assim como do coronavírus 229E – que é uma causa da gripe comum em humanos –, já o gado bovino foi o hospedeiro original do coronavírus OC43, outra causa de gripe”.

Nada disso é novidade para a ciência. Sabemos que a maioria das pandemias emergentes são zoonoses, isto é, doenças infecciosas causadas por bactérias, vírus, parasitas ou príons, que saltaram de hospedeiros não humanos, usualmente vertebrados, para os humanos. Como afirma Ana Lúcia Tourinho, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), o desmatamento é uma causa central e uma bomba-relógio em termos de zoonoses: “quando um vírus que não fez parte da nossa história evolutiva sai do seu hospedeiro natural e entra no nosso corpo, é o caos” (Pontes 2020). Esse risco, repita-se, é crescente. Basta ter em mente que “mamíferos domesticados hospedam 50% dos vírus zoonóticos, mas representam apenas 12 espécies” (Johnson et al. 2020). Esse grupo inclui porcos, vacas e carneiros. Em resumo, o aquecimento global, o desmatamento, a destruição dos habitats selvagens, a domesticação e a criação de aves e mamíferos em escala industrial destroem o equilíbrio evolutivo entre as espécies, facilitando as condições para saltos desses vírus de uma espécie a outra, inclusive a nossa.

4. As próximas zoonoses serão gestadas no Brasil?

O segundo ponto, com o qual concluo este artigo, são as consequências especificamente sanitárias da destruição em curso da Amazônia e do Cerrado. Entre as mais funestas está a crescente probabilidade de que o país se torne o foco das próximas pandemias zoonóticas. Na última década, as megacidades da Ásia do leste, principalmente na China, têm sido o principal “hotspot” de infecções zoonóticas (Zhang et al. 2019). Não por acaso. Esses países estão entre os que mais perderam cobertura florestal no mundo em benefício do sistema alimentar carnívoro e globalizado. O caso da China é exemplar. De 2001 a 2018, o país perdeu 94,2 mil km2 de cobertura arbórea, equivalente a uma diminuição de 5,8% em sua cobertura arbórea no período. “Extração de madeira e agropecuária consomem até 5 mil km2 de florestas virgens todo ano. Na China setentrional e central a cobertura florestal foi reduzida pela metade nas últimas duas décadas”.v Em paralelo com a destruição dos habitats selvagens, o crescimento econômico chinês desencadeou uma demanda por proteínas animais, incluindo as provenientes de animais exóticos (Cheng et al. 2007). Entre 1980 e 2015, o consumo de carne na China cresceu sete vezes e 4,7 vezes per capita (de 15 kg para 70 kg per capita por ano ao longo deste período). Com cerca de 18% da população mundial, a China era em 2018 responsável por 28% do consumo de carne no planeta (Rossi 2018). Segundo um relatório de 2017 do Rabobank, intitulado China’s Animal Protein Outlook to 2020: Growth in Demand, Supply and Trade, a demanda adicional por carne a cada ano na China será de cerca de um milhão de toneladas. “A produção local de carne bovina não consegue acompanhar o crescimento da demanda. Na realidade, a China tem uma escassez estrutural de oferta de carne bovina, que necessita ser satisfeita por importações crescentes”.

A cobertura vegetal dos trópicos tem sido destruída para sustentar essa dieta crescentemente carnívora, não apenas na China, mas em vários países do mundo e particularmente entre nós. No Brasil, a remoção de mais de 1,8 milhão de km2 da cobertura vegetal da Amazônia e do Cerrado nos últimos cinquenta anos, para converter suas magníficas paisagens naturais em zonas fornecedoras de carne e ração animal, em escala nacional e global, representa o mais fulminante ecocídio jamais perpetrado pela espécie humana. Nunca, de fato, em nenhuma latitude e em nenhum momento da história humana, destruiu-se tanta vida animal e vegetal em tão pouco tempo, para a degradação de tantos e para o benefício econômico de tão poucos. E nunca, mesmo para os pouquíssimos que enriqueceram com a devastação, esse enriquecimento terá sido tão efêmero, pois a destruição da cobertura vegetal já começa a gerar erosão dos solos e secas recorrentes, solapando as bases de qualquer agricultura nessa região (na realidade, no Brasil, como um todo).

Em decorrência dessa guerra de extermínio contra a natureza deflagrada pela insanidade dos ditadores militares e continuada pelos civis, atualmente o rebanho bovino brasileiro é de aproximadamente 215 milhões de cabeças, sendo que 80% de seu consumo é absorvido pelo mercado interno, que cresceu 14% nos últimos dez anos (Macedo 2019). Além disso, o Brasil tornou-se líder das exportações mundiais de carne bovina (20% dessas exportações) e de soja (56%), basicamente destinada à alimentação animal. A maior parte do rebanho bovino brasileiro concentra-se hoje nas regiões Norte e Centro-Oeste, com crescente participação da Amazônia. Em 2010, 14% do rebanho brasileiro já se encontrava na região norte do país. Em 2016, essa participação saltou para 22%. Juntas, a região norte e centro-oeste abrigam 56% do rebanho bovino brasileiro (Zaia 2018). Em 2017, apenas 19,8% da cobertura vegetal remanescente do Cerrado permanecia ainda intocada. A continuar a devastação, a pecuária e a agricultura de soja levarão em breve à extinção quase 500 espécies de plantas endêmicas – três vezes mais que todas as extinções documentadas desde 1500 (Strassburg et al. 2017). A Amazônia, que perdeu cerca de 800 mil km2 de cobertura florestal em 50 anos e perderá outras muitas dezenas de milhares sob a sanha ecocida de Bolsonaro, tornou-se, em sua porção sul e leste, uma paisagem desolada de pastos em vias de degradação. O caos ecológico produzido pelo desmatamento por corte raso de cerca de 20% da área original da floresta, pela degradação do tecido florestal de pelo menos outros 20% e pela grande concentração de bovinos na região cria as condições para tornar o Brasil um “hotspot” das próximas zoonoses. Em primeiro lugar porque os morcegos são um grande reservatório de vírus e, entre os morcegos brasileiros, cujo habitat são sobretudo as florestas (ou o que resta delas), circulam pelo menos 3.204 tipos de coronavírus (Maxman 2017). Em segundo lugar porque, como mostraram Nardus Mollentze e Daniel Streicker (2020), o grupo taxonômico dos Artiodactyla (de casco fendido), ao qual pertencem os bois, hospedam, juntamente com os primatas, mais vírus, potencialmente zoonóticos, do que seria de se esperar entre os grupos de mamíferos, incluindo os morcegos. Na realidade, a Amazônia já é um “hotspot” de epidemias não virais, como a leishmaniose e a malária, doenças tropicais negligenciadas, mas com alto índice de letalidade. Como afirma a OMS, “a leishmaniose está associada a mudanças ambientais, tais como o desmatamento, o represamento de rios, a esquemas de irrigação e à urbanização”,vi todos eles fatores que concorrem para a destruição da Amazônia e para o aumento do risco de pandemias. A relação entre desmatamento amazônico e a malária foi bem estabelecida em 2015 por uma equipe do IPEA: para cada 1% de floresta derrubada por ano, os casos de malária aumentam 23% (Pontes 2020).

A curva novamente ascendente desde 2013 da destruição da Amazônia e do Cerrado resultou da execrável aliança de Dilma Rousseff com o que há de mais retrógrado na economia brasileira. Já para a necropolítica de Bolsonaro, a destruição da vida, do que resta do patrimônio natural brasileiro, tornou-se um programa de governo e uma verdadeira obsessão. Bolsonaro está levando o país a dar um salto sem retorno no caos ecológico, de onde a necessidade inadiável de neutralizá-lo por impeachment ou qualquer outro mecanismo constitucional. Não há mais tempo a perder. Entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento amazônico atingiu 9.762 km2, quase 30% acima dos 12 meses anteriores e o pior resultado dos últimos dez anos, segundo o INPE. No primeiro trimestre de 2020, que apresenta tipicamente os níveis mais baixos de desmatamento em cada ano, o sistema Deter, do INPE, detectou um aumento de 51% em relação ao mesmo período de 2019, o nível mais alto para esse período desde o início da série, em 2016. Segundo Tasso Azevedo, coordenador-geral do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), “o mais preocupante é que no acumulado de agosto de 2019 até março de 2020, o nível do desmatamento mais do que dobrou” (Menegassi 2020). Ao monopolizar todas as atenções, a pandemia oferece a Bolsonaro uma oportunidade inesperada para acelerar sua obra de destruição da floresta e de seus povos (Barifouse 2020).

Recapitulemos. O que importa aqui, sobretudo, é entender que a pandemia intervém no momento em que o aquecimento global e todos os demais processos de degradação ambiental estão em aceleração. A pandemia pode acelerá-los ainda mais, na ausência de uma reação política vigorosa da sociedade. Ela acrescenta, em todo o caso, mais uma dimensão a esse feixe convergente de crises socioambientais que impõe à humanidade uma situação radicalmente nova. Pode-se assim formular essa novidade: não é mais plausível esperar, passada a pandemia, um novo ciclo de crescimento econômico global e ainda menos nacional. Se algum crescimento voltar a ocorrer, ele será conjuntural e logo truncado pelo caos climático, ecológico e sanitário. O próximo decênio evoluirá sob o signo de regressões socioeconômicas, pois mesmo a se admitir que a economia globalizada tenha trazido benefícios sociais, eles foram parcos e vêm sendo de há muito superados por seus malefícios. A pandemia é apenas um entre esses malefícios, mas certamente não o pior. Não são mais atuais, portanto, em 2020, as variadas agendas desenvolvimentistas, típicas dos embates ideológicos do século XX. É claro que a exigência de justiça social, bandeira histórica da esquerda, permanece mais que nunca atual. Além de ser um valor perene e irrenunciável, a luta pela diminuição da desigualdade social significa, antes de mais nada, retirar das corporações o poder decisório sobre os investimentos estratégicos (energia, alimentação, mobilidade etc.), assumir o controle democrático e sustentável desses investimentos e, assim, atenuar os impactos do colapso socioambiental em curso. É do aprofundamento da democracia que depende crucialmente, hoje, a sobrevivência de qualquer sociedade organizada num mundo que está se tornando sempre mais quente, mais empobrecido biologicamente, mais poluído e, por todas essas razões, mais enfermo. Sobreviver, no contexto de um processo de colapso socioambiental, não é um programa mínimo. Sobreviver requer, hoje, lutar por algo muito mais ambicioso que os programas socialdemocratas ou revolucionários do século XX. Supõe redefinir o próprio sentido e finalidade da atividade econômica, vale dizer, em última instância, redefinir nossa posição como sociedade e como espécie no âmbito da biosfera.

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i Segundo a Chemical Data Reporting (CDR) da EPA, nos EUA, em 2016 havia 8.707 substâncias ou compostos químicos largamente comercializados, aos quais somos cotidianamente expostos, ignorando na maior parte dos casos seus efeitos e os de suas interações sobre a saúde humana e demais espécies. <https://www.chemicalsafetyfacts.org/chemistry-context/debunking-myth-chemicals-testing-safety/>.

ii <https://mission2020.global/testimonial/stocker/>.

iii Cf. NOAA, Global Annual Temperature Rankings Outlook. Março, 2020 <https://www.ncdc.noaa.gov/sotc/global/202003/supplemental/page-2>.

iv Cf. “Coronavirus, climate change, and the environment”. Environmental Health News, 20/III/2020. <https://www.ehn.org/coronavirus-environment-2645553060.html>.

v Cf. “Deforestation and Desertification in China”. <http://factsanddetails.com/china/cat10/sub66/item389.html>.

vi Leishmaniosis, OMS, 2/III/2020 https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/leishmaniasis.

*** Luiz Marques é professor livre-docente do Departamento de História do IFCH /Unicamp. Pela editora da Unicamp, publicou Giorgio Vasari, Vida de Michelangelo (1568), 2011 e Capitalismo e Colapso ambiental, 2015, 3a edição, 2018. Coordena a coleção Palavra da Arte, dedicada às fontes da historiografia artística, e participa com outros colegas do coletivo Crisálida, Crises SocioAmbientais Labor Interdisciplinar Debate & Atualização (crisalida.eco.br).