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‘Para mim, o termo mudança climática significa vingança da Terra’ (Sumaúna)

O líder político Davi Kopenawa. Foto: Victor Moriyama/ISA

Voz da Floresta

Em entrevista exclusiva a SUMAÚMA, o líder político Davi Kopenawa conta de sua esperança de que Lula tenha se tornado mais sábio para ser capaz de proteger a Amazônia: “Antes, ele errou. Não quero que nos engane novamente”

Sumaúma

22 novembro 2022

O nome de Davi Kopenawa foi anunciado para compor a equipe de transição que discutirá a criação do Ministério dos Povos Originários, promessa de campanha do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva. Grande liderança política dos Yanomami, que ocupam há milênios a floresta amazônica entre o Brasil e a Venezuela, Davi é uma referências dos povos originários no planeta. Em sua trajetória de enfrentamento dos invasores de suas terras, não há notícia de que tenha jamais se corrompido. Nem por riqueza material nem por vaidade, mal que acomete alguns líderes ao penetrar no insidioso mundo dos brancos – ou napëpë, na língua Yanomam, palavra traduzida também como “inimigo”. Davi se manteve fiel a sua ancestralidade, aos seus mais velhos, à cosmopolítica xamânica, o que faz dele uma árvore muito sólida no complexo mundo que une numa palavra impingida pelos colonizadores – “indígenas” – mais de 300 povos no Brasil com culturas muito diversas. O xamã chega à equipe de transição com esperanças, mas também com memória: “Antes, Lula errou. Ele está mais velho, talvez tenha ficado mais sábio. Talvez Lula tenha aberto o seu pensamento, mas ninguém sabe o que ele esconde em seu coração. Não quero que nos engane novamente”.

Radical no seu compromisso com a palavra, que na política que aprendeu não pode ser sacrificada em nome de interesses, a verdade para Davi Kopenawa é inegociável. Dessa retidão que não admite uma “boca que fala mentiras” vêm as respostas do intelectual da Amazônia nesta entrevista feita na língua Yanomam pela indigenista e antropóloga Ana Maria Machado (e traduzida por ela) a pedido de SUMAÚMA. Autor, com o antropólogo francês Bruce Albert, de A queda do céu (Companhia das Letras, 2015), livro que representa uma inflexão na antropologia, Davi sabe que fala para aqueles que chama de “povo da mercadoria”. Observador atento dos debates climáticos que frequenta pelos palcos do mundo, ele acredita que Lula só irá se mover se houver forte pressão e financiamento da proteção da Amazônia pelos países monetariamente mais ricos, em especial os europeus.

Davi Kopenawa é também um competente tradutor de mundos. Consegue traduzir o universo dos brancos para os Yanomami e também traz até nós, nesta entrevista, recados que lhes são passados pelos xapiripë [espíritos auxiliares dos xamãs]. Traduz ainda o pedido de socorro de uma velha liderança, que não conhece o mundo dos brancos para além do horror da destruição do garimpo que devora toda vida em sua aldeia. Com o território invadido por milhares de garimpeiros, hoje o contexto é pior do que qualquer outro na trajetória de brutalidades vivida pelos Yanomami desde o primeiro contato com os brancos, na primeira metade do século 20: há envolvimento do crime organizado, com armas pesadas, e aliciamento dos indígenas mais jovens.

O líder Yanomami espera que a expulsão dos invasores do território de seu povo seja o primeiro ato do presidente após a posse, em 1º de janeiro. Para que a vitória de Lula se tornasse possível em uma disputa tão apertada com o extremista de direita Jair Bolsonaro, ele conta ter sido necessário um esforço conjunto dos xamãs em 30 de outubro, data do segundo turno da eleição. Faz ainda um apelo aos leitores, para que deixem de comprar ouro, esse ouro com sangue Yanomami e também de outros povos originários, esse ouro que destrói a verdadeira riqueza, a floresta, para colocar valor no metal convertido em mercadoria ordinária.

A seguir, a palavra de Davi Kopenawa.


ANA MARIA MACHADO: Agora que Lula venceu a eleição, o que você espera do novo presidente?

DAVI KOPENAWA: Eu vou explicar para os napëpë [napë = branco, inimigo, estrangeiro + = plural] o que nós, da comunidade do Watorikɨ, estamos pensando. Nós ficamos sabendo que aquele que já foi presidente voltará ao poder, então dissemos assim: “Dessa vez, ele talvez tenha se tornado mais sábio. Antes, ele errou, mas agora talvez esteja pensando corretamente, e por isso quero que ele se torne um presidente de verdade. Não quero que nos engane novamente. Ele vai voltar a ser o presidente e ficará de fato atento às nossas terras. Ele irá olhar para nós e pensar sobre nós. Se ele nos defender, ficaremos contentes com ele”.

O que está acontecendo hoje na Terra Indígena Yanomami que Lula precisa resolver com mais urgência?

Hoje, a fala dos velhos, dos líderes Yanomami, é cheia de sofrimento. Apenas eu frequento a cidade, e por isso consigo espalhar essas palavras. Tudo está muito ruim em nossas terras, os garimpeiros levam o horror. Agora que Lula virou presidente, em primeiro lugar precisa expulsá-los, retirá-los de verdade. Eu não estou dizendo isso sem razão, mas sim porque estamos vivendo o caos. E por quê? Porque eles assorearam os rios, porque poluem as águas e porque as águas se tornaram muito turvas nos lugares onde só tem um rio correndo. Eles estragaram as cabeceiras dos rios que nascem em nossas serras. Aqueles de nós que vivem perto do garimpo estão sofrendo, passando fome. Os garimpeiros não param de chegar. Nós [Yanomami] conversamos entre os diferentes lugares da nossa terra, temos a radiofonia para nos comunicar. Um parente mais velho da região do Xitei, que me trata como filho, disse que a situação ali está calamitosa. Ele disse que as pessoas mais velhas como ele estão cansadas de ver os garimpeiros sempre chegando, sempre trabalhando nas águas, sempre sujando as águas. E não é só isso: estão muito bravos por causa das armas. Aqueles Yanomami mais ignorantes disseram que os garimpeiros poderiam chegar lá levando armas. Porém, aquelas pessoas que destroem a floresta têm armas pesadas. Essas armas não são como as flechas, os garimpeiros distribuem revólveres. Eles tratam os mais novos como se fossem lideranças, iludem os Yanomami mais jovens dizendo: “Pegue uma arma! Se você tiver uma arma, será nosso amigo. Se você ficar contra nós, não irá receber uma arma”. Ao falarem assim com os jovens, aumentaram a quantidade de armas entre os Yanomami, e os garimpeiros fazem que nos matemos entre nós. Esse meu pai lá do Xitei explicou: “Se não estivéssemos nos matando entre nós, eu não precisaria estar aqui explicando. Meu filho, vá e diga isso para aquele que se tornou o líder [presidente]. Que afaste os garimpeiros que trabalham em nossa terra. Diga isso a ele. Você conhece os líderes dos napëpë, cobre que façam isso, que acabem com essas pessoas que estão em nossas terras, que as levem para longe”. Foi isso que meu pai me disse, e estou passando para a frente. É por tudo isso que eu estou reivindicando: Lula, não comece trabalhando nas terras dos brancos primeiro. Antes, retire os garimpeiros da nossa terra. Agora, Lula, você se tornou o presidente e, no mês de janeiro, vai se sentar no Palácio do Planalto. Nesse dia, comece a mandar os garimpeiros embora.

Era isso que eu queria dizer para vocês, brancos. E não estou dizendo isso à toa. Não quero ficar aqui sofrendo enquanto tiram minha imagem [filmam], o que estou reivindicando é verdadeiro, a terra adoecida está se espalhando por todos os cantos. É porque tem malária demais e porque o descontrole da malária chegou com o garimpo, é porque as nossas mulheres estão sofrendo demais, é porque nos lugares das terras altas onde não tem mais caça o espírito da fome, Ohinari, se aproximou. Já que eu conheço o novo presidente, vou cobrar, dizendo: “Quando você discursou, eu o escutei. Todos nós guardamos suas palavras em nossos ouvidos. Nós indígenas e também os napëpë, todos ouvimos suas palavras pelo celular. Não queremos ficar com nosso pensamento em sofrimento caso você esteja mentindo. Que seja verdade o que você disse em reunião, que caso se tornasse presidente novamente iria proteger os povos indígenas, que estão sofrendo no Brasil. Eu não quero que continuem destruindo a floresta que vocês brancos chamam de Amazônia. Portanto, Lula, é isso que estou te cobrando, que você faça isso primeiro”.

É verdade. Lula disse que não irá aceitar garimpo em terra indígena. Mas, nos anos 1990, quando seus parentes mais velhos morreram na primeira invasão garimpeira [1986-1993], quando aconteceu a operação Selva Livre, que tirou 40 mil garimpeiros, naquele tempo não havia crime organizado e milícias envolvidos nem os jovens Yanomami eram aliciados como agora. Hoje em dia o tráfico de drogas está misturado ali, assim como pessoas que fugiram da prisão. Eles têm armas pesadas e bombas. Será que não vai ser mais difícil tirar os garimpeiros hoje? Será que os jovens Yanomami que estão envolvidos vão opor alguma resistência? Apesar de termos Lula agora no governo, será possível acabar com o garimpo?

É verdade que hoje em dia a situação está muito ruim, tem muitas coisas misturadas. Os napëpë têm trazido drogas, cachaça e até cocaína. Com tudo isso misturado, os garimpeiros ficam alterados. Eles trabalham drogados. Os homens cheiram cocaína e ficam sentindo tesão pelas nossas mulheres. Como eles não vêm acompanhados de suas mulheres, eles cheiram cocaína e o pensamento deles fica alterado, eles ficam destemidos e pensam assim: “Já que eu estou drogado, estou sem medo. Já que estou sem medo, eu chamo as mulheres Yanomami, como suas vaginas e faço filhos nelas”. Hoje em dia essas pessoas também têm metralhadoras, bombas, e os garimpeiros dizem: “Se quiserem nos expulsar, mesmo sendo a Polícia Federal, nós vamos matá-los”. Além disso, tem também o mercúrio usado para separar o ouro, que está no meio de tudo. Tudo isso é terrível. O presidente Lula vai mandá-los sair, mas talvez não o escutem. Eu também fico pensando sobre isso. Se o escutarem, todas as pessoas do Brasil e da Europa, aqueles outros que querem que ele mantenha a floresta amazônica em pé e saudável, para mim está certo se eles o mandarem cuidar da floresta e lhe derem dinheiro para que retire os garimpeiros. Se for criada uma frente mundial em que todos nós conversemos juntos, unindo as autoridades dos napëpë e nós, indígenas, então conseguiremos nos defender, pois nós, indígenas, já sabemos lutar. Essa não é a terra dos garimpeiros, e já que eles têm causado o horror em nossas terras, levando muita desgraça misturada, já que eles têm feito as crianças sofrerem, magras e desnutridas, já que o garimpo mata os Yanomami pelo mal das epidemias, pelo mal da fome nos rios Uraricoera, Mucajaí, nas cabeceiras do rio Catrimani, e também em Homoxi, Xitei, Parafuri e Parima, nós temos que lutar.

Mas, para curar a Terra-floresta, vocês precisam também baixar o preço do ouro, precisam cortar isso. Vocês, napëpë, que pedem ouro, que compram ouro, precisam parar. Vocês das lojas de ouro, precisam baixar o preço. Como o ouro é muito caro, os garimpeiros estão sempre invadindo minha terra. Você, mulher que entende nossa língua Yanomam, vai escrever e traduzir, e para aqueles que captam minha imagem, quando eu aparecer, quando vocês ouvirem minhas palavras, me levem a sério, concordem comigo, e digam: “Sim, é verdade! Nós erramos. Nós não sabemos respeitar. Até falamos em respeito, mas estamos enganando, nossas bocas não dizem a verdade”. Era isso que eu queria dizer a vocês.

Quando Lula se tornou presidente pela primeira vez, em 2003, ele mudou a regulação das ONGs, o que levou ao fim da Urihi-Saúde Yanomami. A Urihi fez um excelente trabalho de atendimento de saúde para os Yanomami [entre 1999 e 2004] e conseguiu erradicar a malária em sua terra. Hoje, estamos vendo a malária fora de controle. O que o governo deve fazer com relação à saúde indígena?

Foi o seguinte: no início, Lula errou. Ele não sabia pensar direito. E, por ter errado no início, aconteceu isso. Ele também fez [a Usina Hidrelétrica de] Belo Monte, e esse foi um grande erro. Estragou um grande rio sem razão. Também errou com a saúde indígena. Lula errou na saúde, no assunto de viver bem e saudável, e tudo enfraqueceu. Os remédios pararam de chegar, os funcionários napëpë que trabalham em nossas terras, como técnico de enfermagem, médico e dentista, passaram a trabalhar de forma precária, já que não enviavam material. Então eu sei um pouco sobre isso, mas escondo essas palavras. Quando Lula se tornar mesmo o presidente, eu quero falar de perto com ele. “Lula, você me conhece, você precisa melhorar a saúde indígena. Precisa limpar novamente a saúde indígena, fazer os técnicos e profissionais de saúde trabalharem de verdade”. No governo de Bolsonaro, são os políticos que escolhem os coordenadores de saúde; [com Lula] eu e os conselheiros locais [representantes de toda a Terra Indígena Yanomami] vamos sentar para indicar alguém que a gente conheça, que seja nosso amigo e que trabalhe bem com a gente, só assim a saúde vai melhorar. É isso que quero dizer a Lula. Já que a saúde é prioridade para podermos viver bem, para nossos filhos crescerem bem, e considerando que estamos em uma situação lastimável, vou reivindicar isso. O presidente Jair Bolsonaro acabou com a nossa saúde. Ele nos matou como se fôssemos peixes.

Lula disse que vai criar o Ministério dos Povos Originários. O que você pensa disso?

É verdade. Ele disse que faria isso caso se tornasse presidente. E, já que ele disse, agora temos mulheres indígenas jovens que possuem o conhecimento dos napëpë, sabem agir como napëpë. Existem também jovens que sabem agir como os napëpë, sabem usar as máquinas, os celulares. E, já que temos essas pessoas que sabem trabalhar assim, eu penso o seguinte: “Awei, presidente Lula, já que você disse com clareza, eu deixei isso fixado no meu pensamento”. Acho que a dra. Joenia [Wapichana] já tem experiência, pois ela trabalhou como deputada federal por 4 anos, ela já sabe lutar. Como ela é advogada, já sabe escutar os políticos, e por isso eu gostaria que Lula a indicasse para ministra. Se Joenia disser que deseja se tornar ministra dos Povos Originários, nós vamos apoiá-la, faremos ela assentar naquela cadeira. Ter uma mulher indígena assentada ali nos trará mais sabedoria. Temos outras, como Sônia Guajajara e Célia Xakriabá, que acabaram de se eleger deputadas. A dra. Joenia não foi eleita, por isso estou pensando nela, que é muito inteligente e já sabe lutar. Então, foi isso que os meus sonhos disseram, e por isso fiz aparecer essa ideia.

Nós, napëpë, somos o povo da mercadoria e estamos acabando com as florestas e com o planeta. Por isso o mundo está preocupado com a crise climática, e para contê-la é preciso conservar as florestas. Sabemos que vocês têm sabedoria para isso. Que recado você teria a dar sobre esse assunto?

Todos os napëpë ficam falando de proteger as florestas. Falam de mudanças climáticas, desmatamento, poluição dos rios, mercúrio, doenças, mineração. Assim, Lula atentou para essas questões. Outras pessoas, os europeus, falam sobre as mudanças climáticas, fazem reuniões. Mas as pessoas não resolvem isso, não resolveram nada. Esse termo, “mudanças climáticas”, para mim é outra coisa. Eu chamo mesmo de “vingança da Terra”, de “vingança do mundo”, é assim que eu digo. Os napëpë chamam de “mudanças climáticas”, mas nós, Yanomami, quando fazemos xamanismo, chamamos de “transformação do mundo, tornar o mundo ruim já que os napëpë causam a revolta da Terra”. Os napëpë incendeiam as árvores; a Terra-floresta está com raiva, está se vingando, está fazendo chover muito, ter grandes ondas de calor, em alguns lugares está faltando água e em outros está chovendo demais, e outros ainda estão frios. Foi pelo fato de as pessoas dizerem isso, por termos ficado falando sobre isso, que Lula abriu seu pensamento. Ou melhor: talvez tenha aberto seu pensamento. Nós não sabemos o que ele esconde em seu coração. O que eu escondo em meu coração e em meu pensamento, o que nós escondemos das pessoas, é um segredo. Por isso talvez Lula esteja ainda nos enganando. Se o pensamento dele estiver nos enganando, ele vai resolver os pequenos problemas, mas não os grandes. Mas se outros napëpë, aqueles que vivem na outra margem do oceano [Europa], se eles forem ajudar e oferecerem um grande financiamento, talvez o pensamento de Lula mude. É assim que eu penso. Lula não cresceu sozinho. O povo levantou as palavras de Lula, vocês fizeram ele assentar naquela cadeira [da presidência]. Hoje em dia ele está mais velho, talvez tenha se tornado mais sábio.

Davi, você me disse que vocês, xamãs, ajudaram Lula a se eleger. Conte como foi isso, por favor.

Nós, xamãs que vivemos no Watorikɨ e também os outros xamãs de outras casas, como o Maxokapi, eu os mandei fazer isso [xamanismo para apoiar Lula]. Nós ajudamos Lula, nós o levantamos: eu, Carlos, os xamãs mais jovens, Tenose, Valmir, Dinarte, Geremias, Pernaldo, Manoel. Lula ficou apoiado na hutukara [céu]. Então os xamãs pediram para eu dizer a Lula: “Awei! Você quase perdeu. Se os espíritos xapiripë [xapiri = espírito auxiliar dos xamãs + = plural] não tivessem chegado ali, você não teria se tornado presidente outra vez. Você não os viu, eles estavam no Watorikɨ, e no dia 30 chegaram [até você]. Já que eles conhecem Brasília, já que Davi conhece aquela terra, nós, xapiripë, também conhecemos, nós olhamos no mapa e, pelo fato de termos chegado lá, nós tivemos vitória”.

Nós, xamãs de duas comunidades, trabalhamos por isso. Nós inalamos yakoana [pó da árvore virola sp, usado pelos xamãs para ver os xapiripë]. Chegamos até o grande xapiri, Omama, e dissemos a ele: “Awei! Você que é grande xapiri, que conhece o mundo inteiro, conhece todas as terras, já que seus olhos enxergam essas coisas por dentro e também pela superfície, já que seus olhos estão atentos a tudo o que ocorre no mundo, nós queremos elevar Lula para que ele se torne presidente outra vez, nós iremos apoiar o pensamento dele. Vamos manter nosso pensamento primeiro no céu, na hutukara, e assim ele vai se levantar [ter chances de ganhar a eleição]. O outro, Bolsonaro, aquele que tem a boca cheia de ignorância, se o povo dele o apoiar e o levantar, iremos sofrer muito. O presidente Jair Bolsonaro é terrível, e, se ele ganhar as eleições, aí sim ficaremos sofrendo. Ele é um apoiador da ditadura militar, portanto não faz amizade com a floresta. Não cuida dos rios e não sente tristeza por nós, povos da floresta”. Então, como Omama fez a nossa terra nos primeiros tempos, ele escreveu em um papel a expressão “defensor da floresta”, e foi isso que nós, xamãs, decidimos e dissemos: “Vamos escolher aquele que quer nos manter vivendo com saúde, vamos negar o papel onde está escrito o nome daquele que não quer o nosso bem-viver”.

Por causa disso, nós, do Watorikɨ, chegamos até Lula, chegamos a Brasília. Ao chegarmos lá, os napëpë não nos viram, pois chegamos bem suavemente. Com calma e devagar, chegamos até o pensamento dele. “Awei! Você, Lula, já que quer se tornar presidente outra vez, se apoie aqui onde Omama apoiou o nosso pensamento. Se você se apoiar aqui, vai se tornar o presidente. E, caso você se torne o presidente, queremos que você pense em nós em primeiro lugar. Diminua aqueles que estão sempre fazendo coisas ruins, torne-os pequenos. Feche esse buraco da maldade.”

U.N. Climate Talks End With a Deal to Pay Poor Nations for Damage (New York Times)

nytimes.com

Brad Plumer, Max Bearak, Lisa Friedman, Jenny Gross

Nov. 20, 2022


Nations reached a landmark deal to compensate developing nations for climate harm. But some leaders said the summit didn’t go far enough in addressing the root causes of global warming.

A man in a dark suit, seated at a long desk, reads while others stand next to him and applaud. In the background, a wall is blue with a wavy light blue line.
Sameh Shoukry, the Egyptian foreign minister, seated, reading a statement at the closing session of climate talks in Sharm el Sheikh. Credit: Mohamed Abd El Ghany/Reuters

Nov. 20, 2022, 3:33 a.m. ET

SHARM EL SHEIKH, Egypt — Diplomats from nearly 200 countries concluded two weeks of climate talks on Sunday by agreeing to establish a fund that would help poor, vulnerable countries cope with climate disasters made worse by the greenhouse gases from wealthy nations.

The decision on payments for loss and damage caused by global warming represented a breakthrough on one of the most contentious issues at United Nations climate negotiations. For more than three decades, developing nations have pressed rich, industrialized countries to provide compensation for the costs of destructive storms, heat waves and droughts linked to rising temperatures.

But the United States and other wealthy countries had long blocked the idea, for fear that they could face unlimited liability for the greenhouse gas emissions that are driving climate change.

The loss and damage agreement hammered out in this Red Sea resort town makes clear that payments are not to be seen as an admission of liability. The deal calls for a committee with representatives from 24 countries to work over the next year to figure out exactly what form the fund should take, which countries and financial institutions should contribute, and where the money should go. Many of the other details are still to be determined.

Developing countries hailed the deal as a landmark victory.

“The announcement offers hope to vulnerable communities all over the world who are fighting for their survival from climate stress,” said Sherry Rehman, the climate minister of Pakistan, which suffered catastrophic flooding this summer that left one-third of the country underwater and caused $30 billion in damages. Scientists later found that global warming had worsened the deluges.

While the new climate agreement dealt with the damages from global warming, it did far less to address the greenhouse gas emissions that are the root cause of the crisis. Experts say it is crucial for all nations to slash their emissions much more rapidly in order to keep warming at relatively safe levels. But the deal did not go much beyond what countries agreed to last year at U.N. climate talks in Glasgow.

“The loss and damage deal agreed is a positive step, but it risks becoming a ‘fund for the end of the world’ if countries don’t move faster to slash emissions,” said Manuel Pulgar-Vidal, who presided over the United Nations summit in 2014 and is now the climate lead for the World Wide Fund for Nature. “We cannot afford to have another climate summit like this one.”

The new agreement emphasizes that countries should strive to limit global warming to 1.5 degrees Celsius, or 2.7 degrees Fahrenheit, above preindustrial levels. Beyond that threshold, scientists say, the risk of climate catastrophes increases significantly. Early in the summit, some negotiators feared that the talks would abandon a focus on that target, which many vulnerable nations, such as low-lying islands in the Pacific, see as essential to their survival.

Current policies by national governments would put the world on track for a much hotter 2.1 to 2.9 degrees Celsius of warming this century, compared with preindustrial levels. Staying at 1.5 degrees would require countries to slash their fossil-fuel emissions roughly in half this decade, a daunting task.

India and more than 80 other countries wanted language that would have called for a “phase-down” of all fossil fuels, not just coal, but also oil and gas. That would have gone beyond the deal at Glasgow, which called for a “phase-down” of coal only. But that effort was blocked by major oil producers like Canada and Saudi Arabia, as well as by China, according to people close to the negotiations.

“It is more than frustrating to see overdue steps on mitigation and the phaseout of fossil energies being stonewalled by a number of large emitters and oil producers,” said Annalena Baerbock, the German foreign minister, in a statement.

A man in a dark suit and a woman in black bump fists.
Xie Zhenhua, China’s special envoy for climate, and Sherry Rehman, Pakistan’s climate minister, at the COP27 closing session on Sunday. Credit: Peter Dejong/Associated Press

Frans Timmermans, the European Union’s top climate official, said the deal fell far short of what was needed and was a sign of the growing gap between climate science and national climate policies. Too many countries blocked measures needed to address global warming, he said.

“Friends are only friends if they also tell you things you might not want to hear,” Mr. Timmermans said. “This is the make-or-break decade, but what we have in front of us is not enough of a step forward for people and planet.”

The two-week summit, which had been scheduled to end on Friday, stretched until dawn on Sunday as exhausted negotiators from nearly 200 nations clashed over fine print. The talks came at a time of multiple crises. Russia’s invasion of Ukraine has roiled global food supply and energy markets, stoked inflation and spurred some countries to burn more coal and other alternatives to Russian gas, threatening to undermine climate goals.

At the same time, rising global temperatures have intensified deadly floods in places like Pakistan and Nigeria, as well as fueled record heat across Europe and Asia. In the Horn of Africa, a third year of severe drought has brought millions to the brink of famine.

Much of the focus over the past two weeks was on loss and damage.

Developing nations — largely from Asia, Africa, Latin America, the Caribbean and South Pacific — fought first to place the debate over a loss and damage fund on the formal agenda of the two-week summit. And then they were relentless in their pressure campaign, arguing that it was a matter of justice, noting they did little to contribute to a crisis that threatens their existence. They made it clear that a summit held on the African continent that ended without addressing loss and damage would be seen as a moral failure.

As the summit neared its end, the European Union consented to the idea of a loss and damage fund, though it insisted that any aid should be primarily focused on the most vulnerable nations, and that aid might include a wide variety of options such as new insurance programs in addition to direct payments.

That left the United States, which has pumped more greenhouse gases into the atmosphere than any nation in history, as the last big holdout. By Saturday, as talks stretched into overtime, American officials said that they would accept a loss and damage fund, breaking the logjam.

Still, major hurdles remain.

There is no guarantee that wealthy countries will deposit money into the fund. A decade ago, the United States, the European Union and other wealthy emitters pledged to mobilize $100 billion per year in climate finance by 2020 to help poorer countries shift to clean energy and adapt to future climate risks through measures like building sea walls. They are still falling short by tens of billions of dollars annually.

And while American diplomats agreed to a fund, money must be appropriated by Congress. Last year, the Biden administration sought $2.5 billion in climate finance but secured just $1 billion, and that was when Democrats controlled both chambers. With Republicans set to take over the House in January, the prospects of Congress approving an entirely new pot of money for loss and damage appear dim.

“Sending U.S. taxpayer dollars to a U.N. sponsored green slush fund is completely misguided,” said Senator John Barrasso, Republican of Wyoming. “The Biden administration should focus on lowering spending at home, not shipping money to the U.N. for new climate deals. Innovation, not reparations, is key to fighting climate change.”

The United States and the European Union secured language in the deal that could expand the donor base to include major emerging economies like China and Saudi Arabia. The United Nations currently classifies China as a developing country, which has traditionally exempted it from obligations to provide climate aid, even though it is now the world’s biggest emitter of greenhouse gases as well as the second-largest economy. The new changes are likely to spark fights in the future, since China has fiercely resisted being treated as a developed nation in global climate talks.

For their part, a variety of European nations have voluntarily pledged more than $300 million to address loss and damage so far, with most of that money going toward a new insurance program to help countries recover from disasters like flooding. Poorer countries have praised those early efforts while noting that they may ultimately face hundreds of billions of dollars per year in unavoidable, irreversible climate damages.

“We have the fund, but we need money to make it worthwhile,” said Mohamed Adow, executive director of Power Shift Africa, a group that aims to mobilize climate action across the continent. “What we have is an empty bucket. Now we need to fill it so that support can flow to the most impacted people who are suffering right now at the hands of the climate crisis.”

Mariana Belmont – Movimentos negro e indígena lançam ‘Declaração de Resistência’ na COP27 (ECOA Uol)

uol.com.br

OPINIÃO

Mariana Belmont – Colunista do UOL

10/11/2022 06h00

COP 27 acontece no Egito. Imagem: Sayed Sheasha/Reuters


Os integrantes dos povos indígenas de Abya Yala e dos povos negros e afrodescendentes em representação dos povos e comunidades e diásporas do Canadá, Estados Unidos, México, Chile, Honduras, Nicarágua, Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Uruguai, Brasil, Haiti, Argentina, Guatemala, República Dominicana, Trinidad e Tobago, Panamá, Suriname, Jamaica, Porto Rico, Uganda, Cuba, Venezuela, no marco da rememoração dos 530 anos de resistência dos Povos Indígenas, Negros e Afrodescendentes lançam na COP27 a “Declaração de Resistência anticolonial indígena, negra e afrodescendente“, com uma lista importante de proposições para outros tempos no mundo.

A articulação se apresenta como um movimento anticolonial, antirracista, antixenofóbico, antipatriarcal, antihomofóbico e antilesbotransfóbico.

Como Movimento de Libertação Negra e Indígena, a nossa luta é interseccional, transeccional, antirracista, feminista comunitária, Afrofeminista, mulherista africana, de identidades políticas diversas em comunidade.

Buscamos evidenciar e questionar a inegável relação existente entre colonialismo, capitalismo, patriarcado e racismo. Reivindicando a autonomia de seus corpos e reconhecendo a complementaridade dos que habitam os territórios e a participação das mulheres e dissidências para a defesa da vida, o território e a preservação dos saberes e conhecimentos ancestrais.

Em busca da formação de uma plataforma sustentada em redes comunitárias sólidas, integradas por organizações e coletivos sociais indígenas, negros e afrodescendentes do continente, com o fim de favorecer o acionar coletivo, solidário, coordenado e organizado.

No Brasil organizações como Instituto de Referência Negra Peregum, Uneafro Brasil, Criola, Instituto Perifa Sustentável e Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (CONAQ) assinaram a declaração, reforçando a importância de um diálogo internacional entre os povos.

Entre as proposições estão que o dia 12 de outubro seja declarado como o dia da resistência ao extermínio dos Povos Indígenas, Negros e Afrodescendentes de Abya Yala. Declarando que a luta dos povos é articulada, diversa, continental, inclusiva e plural. Sendo considerados com urgência protagonistas em igualdade de direitos em qualquer processo ou projeto que afete as comunidades e territórios.

Criação de projetos e a implementação de ações diretas, políticas públicas, ações afirmativas e de reparação interculturais e interseccionais que garantam a distribuição justa e equitativa da riqueza, o acesso à saúde, à soberania alimentar, à água potável e de qualidade para que possamos viver em ambientes seguros e dignos.

Direito ao território é direito e eles reivindicam isso. “Todas as terras indígenas e territórios negros devem ser devolvidos aos seus legítimos donos. As terras devem ser devolvidas aos seus respectivos povos. Todas as comunidades negras e afrodescendentes devem ter livre titulação sobre as terras em que habitam. E livre acesso aos seus recursos naturais como praias, selvas, pântanos, bosques andinos, planícies, bacias, rios, glaciares, vales interandinos, pântanos em altura, lagos, pradarias, manguezais, baías, ladeiras, quebradas e terras não-cultivadas as quais não devem ser privatizadas nem exploradas de nenhuma forma”.

E reforçando que não pode existir justiça climática sem justiça racial. Entendendo que a justiça climática reconhece que a mudança climática tem impactos distintos de acordo às condições econômicas, sociais, raciais e de gênero. E que a justiça racial é um eixo fundamental na luta contra as desigualdades produto do sistema colonial, capitalista, extrativista e agroexportador.

Crise climática é crise de classes, diz ator britânico que aponta racismo no debate (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Na peça ‘Can I Live?’, Fehinti Balogun, com rap, animação e poesia, apresenta a colonização e a exploração de países africanos como temas centrais na discussão

Cristiane Fontes

2 de novembro de 2022


Foi em 2017, durante a preparação para a peça “Myth”, uma parábola climática da Royal Shakespeare Company, que o artista Fehinti Balogun acabou se dando conta da gravidade da crise do clima.

“Após ter feito muitas coisas, consegui meu primeiro papel principal numa peça no West End em Londres. Era o ano mais quente da história”, lembra o ator e dramaturgo britânico. “E, pela primeira vez, percebi que as plantações estavam morrendo, os campos estavam secos. Comecei a desenvolver uma espécie de ansiedade que nunca tive antes”, completa.

Com isso, veio o choque: “Eu tinha o trabalho que eu sempre sonhei, algo que eu tinha estudado para fazer, e, de repente, isso não significava nada”.

Balogun se juntou ao grupo ativista Extinction Rebellion, participou de diversos protestos e organizou uma palestra sobre o tema. Essa jornada o levou à produção de uma peça teatral que, durante a pandemia, foi transformada em um filme.

O ator britânico Fehinti Balogun, que criou a peça ‘Can I live?’, sobre mudanças climáticas. Fonte: New York Times/Tom Jamieson, 29.out.2021

Intitulada “Can I Live?” (posso viver?), a produção explica as mudanças climáticas a partir da perspectiva de uma pessoa negra, usando diversas performances musicais.

A mãe de Balogun, imigrante nigeriana, é quem guia a história. Fora da tela, também foi ela quem inspirou a criação do texto, a partir de questionamentos ao filho —que ele gravou secretamente para escutar de novo e pensar a respeito.

“Por que você está sacrificando sua carreira para fazer parte desses grupos?”, ela perguntava.

Mesmo discordando, o filho reconheceu na indignação da mãe um ponto muito importante: a discussão climática ficou elitizada e branca e ainda não foi capaz de incluir os segmentos mais pobres da população.

“Can I Live?”, pelo contrário, se propõe a não só trazer os dilemas pessoais do autor, que se misturam aos problemas mundiais e aos dados científicos, como é didática e criativa ao explicar, por exemplo, o efeito estufa em forma de rap. Criado com a companhia de teatro britânica Complicité, o filme mescla linguagens como animação, poesia e música.

“O objetivo é criticar descaradamente o sistema, sem culpar uma pessoa específica. Não se trata de envergonhar as pessoas, mas, sim, de educá-las e conectar-se com elas”, define Balogun.

Depois de uma turnê online, o filme foi exibido em eventos como a COP26 (conferência da ONU sobre mudanças climáticas realizada em 2021 na Escócia) e a London Climate Action Week.

A ideia, diz Balogun, é fazer “Can I Live?”, que ainda não foi lançado no Brasil, chegar a movimentos de base, para estimular conversas sobre a crise climática entre aqueles que não costumam se conectar com o assunto.

Quando perguntado sobre a agenda climática no Reino Unido, o autor é categórico: “Temos um governo que não está levando isso tão a sério quanto deveria e que nunca levou o racismo tão a sério quanto deveria. Temos toda uma economia baseada num histórico de escravidão que não é debatida. Então, dentro das escolas, apagamos essa história. O que aprendemos neste país não está nem perto do que deveria ser”.

Quando e por que você se envolveu com a agenda da crise climática?

Após ter feito muitas coisas, consegui meu primeiro papel principal numa peça no West End em Londres. Era o ano mais quente da história, depois de outro ano ter sido o ano mais quente da história, depois de o último antes disso ter sido o mais quente… E, pela primeira vez, eu percebi que as plantações estavam morrendo, os campos estavam secos. Comecei a desenvolver uma espécie de ansiedade que nunca tive antes. Eu tinha o trabalho que eu sempre sonhei, algo que eu tinha estudado para fazer, e, de repente, isso não significava nada.

Então comecei a tentar me envolver em diferentes projetos e me juntei ao [grupo ativista] Extinction Rebellion. E comecei a discutir tudo com minha mãe, que perguntava: “Por que você está sacrificando sua carreira para fazer parte desses grupos?”. E eu pensava: “Não, essa é a única coisa importante que estou fazendo”. E nós continuamos discutindo muito isso tudo.

Eu gravei secretamente tudo o que ela me disse, peguei os pontos importantes dela e transformei numa apresentação sobre o clima, porque percebi que meu papel era poder usar meu privilégio de ser um ator e ter essa formação.

Eu não sou de uma família particularmente rica. Cresci sem muito dinheiro, morando em habitação social, e o que eu tenho agora é devido ao meu trabalho como ator, aos meus contatos e a todas essas perspectivas diferentes. Então eu montei essa palestra, que é como um TED Talk, usando as mensagens de voz da minha mãe.

Esse trabalho decolou, uma coisa levou à outra e começamos a trabalhar em uma peça, que depois virou um filme, “Can I Live?”. Foi assim que essa jornada climática de repente tomou conta da minha vida.

Sua mãe é a verdadeira estrela do filme. Quais foram as coisas importantes que ela levantou sobre o assunto?

Muitas. Uma delas é exatamente o que significa resistir quando você é uma minoria, e o que significa para a sua criação. Isso afeta não apenas o seu futuro, mas também a ideia que foi passada a pessoas como minha mãe, minhas tias, meus tios sobre o que é o “bom imigrante”.

Não é algo que ela tenha me dito explicitamente, mas que eu intuí de tudo o que ela estava me dizendo. Você não é capaz de reagir porque tem sorte de ter o que tem, entende? Ela dizia: “Há pessoas que estão esperando para entrar no país. Há pessoas que estão esperando conseguir a cidadania. E você acha que eles vão criticar aquele país que diz que eles não deveriam estar lá?”.

Para o público no Brasil que ainda não teve a chance de assistir ao filme, como você o descreveria?

Basicamente, o filme é uma explicação das mudanças climáticas a partir da perspectiva de uma pessoa negra. O objetivo é criticar descaradamente o sistema, sem culpar uma pessoa específica. Não se trata de envergonhar as pessoas, mas, sim, de educá-las e conectar-se com elas.

Eu quero que as pessoas assistam e vejam a si mesmas no filme todo ou em algumas partes, ou que vejam sua mãe ou sua avó ou seus amigos nas conversas. O filme tinha como objetivo levar as pessoas por essa jornada histórica até onde estamos agora e descobrirem o que podem fazer.

Colocamos o filme para distribuição online durante a pandemia. As pessoas pagavam o que podiam. A ideia era tentar torná-lo o mais acessível possível. Não foi algo como: “Ei, nós fizemos uma obra de arte!”, mas ela é exibida num teatro muito metido onde as pessoas se sentem desconfortáveis e têm dificuldades para acessar.

A ideia foi descentralizar esta obra e distribuí-la para o maior número de pessoas possível, e oferecê-la a movimentos de base, para que pudessem exibi-lo e conversar a partir disso e incluir nessas conversas pessoas que não costumavam se conectar.

A propósito, como envolver nas questões climáticas pessoas que estão lutando para sobreviver?

Acho que a coisa mais importante que aprendi sobre me comunicar com as pessoas é que você precisa ir ao encontro delas. Você não pode chegar em alguém esperando que essa pessoa tenha o seu mesmo nível de entusiasmo ou raiva, ou desgosto, ou desdém, porque todo mundo tem algo acontecendo em suas vidas.

O que temos no sistema é que constantemente nos dizem que temos que consertar algo individualmente, e que é nossa culpa individual. O fato de você estar passando por tanta insegurança alimentar é porque você não trabalhou duro o suficiente, ou porque 20 anos atrás você não economizou isso, ou fez aquilo. E se você tivesse feito todas essas coisas, você estaria bem e a culpa é sua e blá, blá, blá.

Você tem de olhar para essa questão de um ponto de vista estrutural. Estrutural e espiritual. Eu posso despejar todas as minhas ideias sobre estrutura e coisas de ativismo em cima de você, mas, no final das contas, se seu prato está cheio, seu prato está cheio; você já chegou no seu limite. A questão é muito mais profunda, e é muito solitário e difícil saber que você tem muitos problemas que precisa consertar. No final, o que está mesmo no centro disso é ter uma comunidade.

E como você descreveria o debate sobre mudanças climáticas no Reino Unido no momento?

Essa é uma pergunta difícil! Agora no Reino Unido temos um governo que não está levando isso tão a sério quanto deveria e que nunca levou o racismo tão a sério quanto deveria.

Temos toda uma economia baseada num histórico de escravidão que não é debatida. Então, dentro das escolas, apagamos essa história. O que aprendemos neste país não está nem perto do que deveria ser, na verdade. Mas, se estivermos falando de pensamentos e sentimentos em relação às mudanças climáticas, as pessoas sabem disso, embora não saibam o que fazer.

Na COP26, no ano passado, você participou de eventos com artistas e ativistas indígenas brasileiros. Como o discurso deles ecoou com você e no Reino Unido?

A COP é um evento decepcionante, via de regra. Não me inspirou nem um pouco. O que foi inspirador foram todos os ativistas que estavam lá e pessoas diferentes de muitos países diferentes, fazendo coisas incríveis e falando sobre tantas coisas. É uma comunidade muito forte.

Mas é muito difícil no Reino Unido. O patriotismo está apenas conectado a um ponto de vista ideológico e imperialista do mundo, que diz: “Eu sou superior a você”. Então por que aprender com aquele ativista brasileiro diferente? Já os indígenas eram o oposto disso. A mensagem deles era: “Estes somos nós! E vamos compartilhar isso com vocês! Vamos proteger isso para as gerações futuras!”.

Na sua visão, como fortalecer o movimento global de justiça climática, considerando o atual contexto político?

Parte do movimento dos direitos civis estava ligado à educação, à educação em massa e para certas comunidades. A ideia não é trabalhar com o medo, mas sim trabalhar através do medo para chegar a soluções.

Então, para fortalecer o movimento, [precisamos de] educação em massa, especificamente em certas zonas; e precisamos que diferentes movimentos de base se unam.

Em termos de mudança na narrativa, quais são as estratégias que você considera mais importantes?

Precisamos mudar a narrativa sobre riqueza e propriedade. Nós realmente precisamos entender que a crise climática é uma crise de classes, e dentro dessa crise de classes, há uma interseccionalidade muito racista.

Simplesmente entender essas coisas eu acho que vai ajudar muito; e é muito difícil, porque dentro do ideal capitalista, [a economia] só funciona se você sentir falta de alguma coisa. Eles só podem vender maquiagem para você se você acreditar que precisa de maquiagem. Eu não estou dizendo que as pessoas não devem usar maquiagem, mas, sim, que você só vai comprar algo se achar que precisa daquilo.

São essas mudanças de narrativas sobre o que achamos que é necessário e o que é, na verdade, necessário.

E precisamos de bondade radical. Radical no sentido de que não somos uma cultura muito indulgente.

O debate político anda muito polarizado, inclusive no Brasil, como você deve saber. Você poderia descrever melhor a ideia de bondade radical?

O que quero dizer com bondade radical não é apenas ser radicalmente gentil com a pessoa com opiniões opostas, mas também ser radicalmente gentil consigo mesmo.

Por que estou tentando fazer com que alguém que, fundamentalmente, me odeia goste de mim? Como isso me ajuda ou ajuda a outra pessoa? No final das contas, independentemente de eles terem dito que gostavam ou não de mim, eles vão embora e eu fico com esse sentimento. A única maneira de lidar com isso é ter uma comunidade atrás de você que esteja disposta a compartilhar isso com você.

Você sabe o que isso significa? Significa se afastar da postura individual de “eu vou consertar o mundo” para algo como “estas são as pessoas que eu preciso para poder fazer isso”.

Eu sempre falo, você tem que fazer uma escolha quando você fala com alguém, especialmente com alguém com uma opinião oposta a você que não tem interesse direto no assunto, como por exemplo, racismo, sexismo, ou mesmo mudanças climáticas.

Quando a pessoa não é afetada emocional, física e praticamente pela coisa e argumenta contra você, você tem que se perguntar: “Eu tenho condições de me envolver nisso hoje? Até onde quero ir? Vou ter alguém cuidando de mim quando a conversa terminar?”. Então a bondade radical não é apenas ter um espaço para a outra pessoa: é para você mesmo.


Raio-X

Fehinti Balogun

Ator, dramaturgo, escritor e pintor britânico de origem nigeriana, nascido em Greenwich, em Londres. Além de “Can I Live?”, participou de peças como “Myth” (mito), “The Importance of Being Earnest” (a importância de ser prudente) e “Whose Planet Are You On?” (você está no planeta de quem?). No cinema, fez trabalhos como “Juliet, Nua e Crua”, “Duna” e “Walden”. Na TV, participou das séries “I May Destroy You” (posso te destruir), “Informer” (informante) e “O Filho Bastardo do Diabo”, cuja primeira temporada estreia no fim de outubro na Netflix no Brasil.

Análise: Com ‘mutirão’ na COP, Lula abre primeiro governo climático do Brasil (Folha de S.Paulo)

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Mudanças sociais e globais levam terceiro mandato a ver na política do clima uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas

Mathias Alencastro

1 de novembro de 2022


A ascensão da COP do Egito a primeiro palco da nova diplomacia do governo eleito se deve a duas dinâmicas interdependentes. A eleição de Lula encerra um ano terrível, porém transformador, para a política climática.

Por um lado, a Guerra da Ucrânia deu ímpeto às indústrias fósseis, que atravessavam um raro período de declínio, enquanto as divisões crescentes entre o Ocidente e o Oriente, mas também entre o Norte e o Sul Global, agravaram a crise da governança climática.

Por outro, a transição energética se tornou uma questão de segurança nacional para os países desenvolvidos, com implicações extraordinárias para a diplomacia e os investimentos internacionais.

Em seguida, a sociedade civil brasileira se fortaleceu através da emergência de uma geração de cientistas, ativistas e políticos de excelência e da multiplicação de organizações que estabeleceram a relação entre democracia, clima e justiça social. Essas mudanças tornaram inevitável a metamorfose do terceiro mandato de Lula em primeiro governo climático do Brasil.

Na América Latina, a onda rosa tem sido quase sempre acompanhada por uma onda verde. A plataforma climática do chileno Gabriel Boric era uma exigência do movimento de contestação popular, enquanto a do colombiano Gustavo Petro veio junto com a renovação da esquerda depois do acordo de paz.

O caso brasileiro, todavia, é excepcional, porque a política climática transformou de fora para dentro o Partido dos Trabalhadores, que tem na luta sindical e nacionalista das energias fósseis uma das suas principais referências históricas. O PT segue o caminho de outros partidos de centro-esquerda que viram na política climática uma oportunidade para novas alianças e reformas programáticas.

Em agosto deste ano, o governo de Joe Biden foi salvo pelos ativistas climáticos que obrigaram o Senado a aprovar um novo pacote econômico. O governo de coalizão do social-democrata Olaf Scholz depende mais do que nunca do seu vice Robert Habeck, o líder dos Verdes.

Se a COP27 virar um mutirão de lideranças brasileiras, ela será o palco de Lula e de toda a frente ampla que derrotou a extrema direita.

Além dos símbolos e dos discursos, o governo Lula será avaliado pela sua capacidade de superar o enfrentamento com os movimentos populistas que acomete tantas outras democracias.

A política climática do governo de Emmanuel Macron jamais se reergueu do choque provocado pelos coletes amarelos, um protesto desencadeado por causa de uma taxa de carbono.

Na Europa e nos Estados Unidos, os oportunistas que encabeçaram os movimentos antivacinas se converteram em expoentes dos protestos contra a alta dos preços de energia. O próprio movimento de caminhoneiros golpistas a favor de Jair Bolsonaro também é uma manifestação da hiperdependência do Brasil do sistema rodoviário e da indústria de carbono.

A partir de agora, toda a política é política climática.

O projeto Planeta em Transe é apoiado pela Open Society Foundations.

The Scientist’s Warning: Climate Change Has Pushed Earth To ‘Code Red’ (Forbes)

David Bressan

Oct 27, 2022,07:10am EDT

Reports Indicate 2016 Was Hottest Year On Record
Greenhouse gases are among the chief causes of global warming and climate change. Getty Images

An international team led by Oregon State University researchers says in a report published today that the Earth’s vital signs have reached “code red” and that “humanity is unequivocally facing a climate emergency.”

In the special report, “World Scientists’ Warning of a Climate Emergency 2022,” the authors note that 16 of 35 planetary vital signs they use to track climate change are at record extremes. The report’s authors share new data illustrating the increasing frequency of extreme heat events and heat-related deaths, rising global tree cover loss because of fires, and a greater prevalence of insects and diseases thriving in the warming climate. Food insecurity and malnutrition caused by droughts and other climate-related extreme events in developing countries are increasing the number of climate refugees.

The researchers note that in 2022 atmospheric carbon-dioxide peaked at levels not seen for millions of years. Earth is on track to heat up between 2.1 and 2.9 degrees by the end of the century compared to pre-industrial times, according to a new report from the United Nations Framework Convention on Climate Change.

William Ripple, a distinguished professor in the OSU College of Forestry, and postdoctoral researcher Christopher Wolf are the lead authors of the report, and 10 other U.S. and global scientists are co-authors.

“Look at all of these heat waves, fires, floods and massive storms,” Ripple said. “The specter of climate change is at the door and pounding hard.”

The report follows the original World Scientists’ Warning to Humanity, published in 1992, and the 2017 updated version World Scientists’ Warning to Humanity: A Second Notice, co-signed by more than 15,000 scientists in 184 countries.

“As we can see by the annual surges in climate disasters, we are now in the midst of a major climate crisis, with far worse to come if we keep doing things the way we’ve been doing them,” Wolf said.

“As Earth’s temperatures are creeping up, the frequency or magnitude of some types of climate disasters may actually be leaping up,” said the University of Sydney’s Thomas Newsome, a co-author of the report. “We urge our fellow scientists around the world to speak out on climate change.”

“The Scientist’s Warning” is a documentary by the research team summarizing the report’s results and can be watched online:

Material provided by the Oregon State Universityand the American Institute of Biological Sciences.

Entenda como funciona o processo de compensação de carbono (Folha de S.Paulo)

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Créditos devem saltar 50 vezes no Brasil até 2030; desmatamentos respondem por até 80% dos gases do efeito estufa

Naief Haddad

25 de outubro de 2022


“Carbono vira ‘moeda de troca’ entre países” era o título de reportagem da Folha de 10 de novembro de 1998. O texto dizia que cientistas de Brasil, China e Índia discutiam a criação de créditos financeiros para projetos contra o aquecimento global. Àquela altura, o mercado de carbono surgia como iniciativa promissora, que reforçaria a agenda de preservação ambiental impulsionada pelo Protocolo de Kyoto, de 1997.

Era uma ideia valiosa com potencial de expansão: o carbono, um modo simplificado de se referir à emissão de gases que causam o aquecimento global, vai ao mercado como um certificado, que pode ser vendido para países e, como se decidiu posteriormente, para empresas e pessoas físicas. Cada certificado —o chamado crédito de carbono— garante que 1 tonelada de dióxido de carbono foi impedida de ser lançada na atmosfera.

Esses créditos talvez tivessem se espalhado pelo planeta não fosse o desastre financeiro global de 2008. “Os países da Europa, os grandes compradores de créditos de carbono naquele momento, foram afetados. Esse mercado teve que se reestruturar”, conta Plínio Ribeiro, CEO da Biofílica Ambipar, uma das principais companhias brasileiras que desenvolvem projetos florestais para a geração de créditos de carbono.

Há pouco mais de cinco anos, esse caminho voltou a demonstrar seu potencial vigoroso —no caso do Brasil, muito mais pelas ações da iniciativa privada do que por medidas do governo federal.

A 21ª conferência sobre mudança do clima (COP21), em 2015, em Paris, representou um marco na virada. “Ela reconheceu a conservação florestal como um dos principais mecanismos de combate às mudanças climáticas. Das emissões mundiais, 15% são de desmatamento em florestas tropicais. No Brasil, isso representa mais de 80% das emissões”, explica Ribeiro.

A partir daí, iniciativas brasileiras que patinavam começaram a crescer. Foram emitidos 5,2 milhões de créditos de carbono em 2019, de acordo com as certificadoras Verified Carbon Standard e Gold Standard. Em 2020, esse número subiu para 13,5 milhões; no ano passado, chegou a 44,4 milhões.

Nesse período, empresas voltadas ao desenvolvimento de projetos ambientais alcançaram um novo patamar. No ano passado, a Biofílica foi comprada pela Ambipar, o que permitiu que ampliasse seus negócios. Ao receber aporte de R$ 200 milhões da Shell, a Carbonext também se fortaleceu.

David Canassa, da Reservas Votorantim, lembra caso recente para mostrar a ascensão do setor. “Acabo de voltar do Climate Week, em Nova York. Há quatro anos, o Pacto Global Brasil, que integra a programação, encheu uma sala com 30 brasileiros. Desta vez, eram 250.”

O dado mais incisivo sobre o potencial de crescimento desse mercado no Brasil vem de relatório lançado há cerca de um mês pela consultoria McKinsey & Company. “O mercado de créditos no país deve saltar de US$ 1 bilhão atual para US$ 50 bilhões em 2030”, afirma.

O crescimento é bem-vindo, mas ainda parece insuficiente, avalia Janaína Dallan, CEO da Carbonext. “A urgência climática é tão grande que precisaríamos de muito mais empresas nesse mercado para não atingir o aumento de 1,5ºC”, diz. Ela se refere ao principal objetivo acordado na cúpula de Glasgow (COP26), na Escócia, em 2021.

O evento reforçou como meta evitar que o aquecimento global ultrapasse um aumento de 1,5°C em relação ao século 19, o que implicaria cortes substanciais nas emissões de CO2. A quase totalidade das iniciativas se concentra na Amazônia, mas, aos poucos, novos projetos se consolidam em outras regiões. No início de outubro, a Biofílica Ambipar conquistou o prêmio Environmental Finance pelo projeto AR Corredores de Vida, no oeste paulista. A iniciativa é feita em parceria com o IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas).

Com a experiência na administração do Legado das Águas, maior reserva privada de mata atlântica do Brasil, a Reserva Votorantim acaba de lançar uma metodologia que permite o pagamento de serviços ambientais nesse bioma.

Mas vale lembrar: só a ampliação do mercado de créditos de carbono não será suficiente para evitar que se alcance o temido 1,5ºC, segundo Ricardo Piquet, diretor do Museu do Amanhã, que se tornou referência na área ambiental. “Gerar créditos a serem pagos por empresas ou países poluidores não resolve o problema. A solução conjugada é a ideal: você reduz emissão de gases e, no caso daquilo que não consegue gerar de imediato, compensa com o crédito de carbono”, diz Piquet.

O objetivo essencial é que, ao cotejar emissão e captura de carbono, sob métodos auditados, a empresa chegue à soma zero ou acumule créditos. A Klabin coleciona prêmios nesse setor sem que comercialize crédito de carbono, o que é possível graças, entre outros motivos, ao fato de manter áreas de floresta nativa.

Com 23 unidades no Brasil, a produtora de papéis captura cerca de 11 milhões de toneladas de carbono/ano. Suas operações emitem por volta de 6,5 toneladas, segundo Francisco Razzolini, diretor de sustentabilidade. No cardápio de medidas tomadas pela Klabin, está a substituição do óleo combustível por materiais renováveis de biomassa.

MERCADO DE CARBONO EM 10 PONTOS

1 – O QUE É CARBONO?

Neste contexto, não se trata, é claro, de um produto físico. Carbono é um modo bem simplificado de chamar a emissão de gases que provocam o aquecimento global. Como o mais comum deles é o CO2 (gás carbônico), o termo carbono passou a ser um sinônimo desses gases nas discussões climáticas.

2 – COMO FUNCIONA ESTE MERCADO?

De modo geral, como a maioria dos outros: quem tem sobrando vende para quem precisa, de preferência a um preço que satisfaça aos dois lados.

3 – COMO O CARBONO É QUANTIFICADO PARA QUE SEJA NEGOCIADO?

Cada tonelada de gás carbônico corresponde a um crédito de carbono, que pode ser comprado ou vendido. Um exemplo: uma empresa precisava reduzir sua emissão em 1.000 toneladas de CO2, mas consegue cortar 1.500 toneladas. Assim, ela fica com 500 créditos de carbono, que pode vender a uma outra companhia que não conseguiu bater sua meta.

4 – OS CRÉDITOS VALEM SÓ PARA EMISSÕES CORTADAS?

Não, valem também para o gás carbônico capturado —por exemplo, por novas árvores plantadas, que absorvem a substância da atmosfera para crescer. Cada tonelada de CO2 adicional absorvida por uma nova mata dá direito a um crédito.

5 – O QUE A COP26 (NOV.2021 EM GLASGLOW) DECIDIU SOBRE O MERCADO DE CARBONO?

O encontro aprovou a taxa de 5% sobre a transação de créditos de carbono comercializados entre projetos do setor privado ou de ONGs. Mas as transações entre os países ficaram livres de taxa e, portanto, sem contribuição para os fundos de adaptação. Pelo mercado de carbono regulamentado na COP26, países podem comprar “autorizações” de emissão de carbono para ajudar a cumprir suas metas climáticas, remunerando aqueles países cujas ações, em compensação, reduzem emissões.

6 – E O BRASIL? COMO ESTÁ?

O país, infelizmente, ainda não tem um mercado de carbono regulado, ao contrário do que acontece em países da Europa, na China, na Nova Zelândia e no Cazaquistão. Em maio deste ano, o governo federal publicou um decreto com as bases para a criação de um mercado, mas ainda existem muitas lacunas sobre sua execução, que impedem que o país entre plenamente no circuito global. Assim, as transações têm se restringido a projetos internos do setor privado.

7 – COMO ESSE MERCADO FUNCIONA PARA AS EMPRESAS?

Com o apoio de especialistas, responsáveis por calcular a emissão de CO2, as companhias chegam à conclusão de qual é a meta a ser alcançada. Caso polua acima dessa cota, a empresa precisará comprar mais créditos de carbono, que são vendidos por organizações que desenvolvem projetos de sustentabilidade, como a Biofílica Ambipar, e/ou pelas organizações que conseguiram cortar suas emissões.

8 – EU, PESSOA FÍSICA, POSSO ENTRAR NESTE MERCADO?

Sim. Empresas como a Carbonext, uma das principais desenvolvedoras de projetos de geração de créditos de carbono no Brasil, oferecem iniciativas para pessoas físicas.

9 – O QUE É ‘GREENWASHING’?

A expressão, que em inglês significa “lavagem verde”, costuma ser usada no sentido de propaganda sustentável enganosa, o que vale tanto para empresas quanto para governos e até mesmo para eventos climáticos. Em outras palavras, o “greenwashing” se dá quando uma organização tenta mostrar que faz mais em prol do meio ambiente do que realmente faz.

10 – COMO EVITAR O ‘GREENWASHING’?

Transparência é fundamental para não embarcar no “greenwashing”. Empresas devem dar visibilidade não só aos compromissos estabelecidos, mas às estratégias e evidências de resultados. Estimular o envolvimento de profissionais de ESG nas discussões das áreas de marketing e comunicação corporativa também pode ajudar a evitar distorções.

Meta dos EUA é atingir US$ 150 bilhões para o clima até 2030, diz diretora da Usaid (Folha de S.Paulo)

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Gillian Caldwell, responsável pela nova estratégia da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional, diz que plano prioriza apoio a indígenas e mulheres

Cristiane Fontes

5 de outubro de 2022


“Esse dinheiro não apenas tornará nosso planeta mais limpo, mais verde e mais seguro, mas também nos poupará dinheiro a longo prazo, tanto por meio dos empregos verdes quanto do que não precisaremos gastar em respostas humanitárias no futuro”, afirmou Samantha Power, chefe da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), no lançamento da nova estratégia climática do órgão.

“Sabemos que cada dólar investido em adaptação às mudanças climáticas pode render de US$ 2 a US$ 10 em benefícios. Portanto, implementar essa estratégia não é apenas a coisa necessária a fazer, é também a decisão mais econômica e inteligente a ser feita”, completou ela, que foi embaixadora dos EUA na ONU de 2013 a 2017, no governo de Barack Obama.

O plano, anunciado em abril, conta com um orçamento de US$ 600 milhões e inaugura a intenção de transformar a Usaid em uma agência climática. À frente desse projeto está Gillian Caldwell, diretora de assuntos climáticos.

A estratégia estabelece metas ambiciosas, como alcançar até 2030 a redução das emissões de carbono em 6 bilhões de toneladas. “Isso equivale a quase todas as emissões dos EUA num ano inteiro”, diz à Folha Caldwell, que já foi CEO da ONG Global Witness e liderou a campanha 1Sky, responsável pela mobilização de mais de 600 entidades para aprovar leis sobre clima nos EUA.

Para isso, além da gestão de projetos em diversos países e da mobilização de múltiplos setores do governo americano, faz parte da estratégia dar assistência técnica também ao setor privado. A ideia é que investidores tenham acesso a projetos confiáveis relacionados às mudanças climáticas. Assim, como um todo, a meta é mobilizar US$ 150 bilhões para financiamento climático até 2030, incluindo aportes públicos e privados.

Apesar da cifra elevada, Caldwell pondera que são necessários “de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões por ano até 2030 para atender às necessidades globais de mitigação e adaptação”. “Precisamos acelerar substancialmente os investimentos”, alerta.

Outros objetivos são aumentar a resiliência e a capacidade adaptativa de 500 milhões de pessoas no planeta, especialmente de povos indígenas, mulheres e jovens, e promover a conservação, o uso sustentável e a restauração de 100 milhões de hectares de locais que são grandes estoques de carbono, como é o caso da Amazônia.

No Brasil, a Usaid mantém projetos em parceria com o governo federal e gestões estaduais. “No ano passado, nossas ações na área de biodiversidade no Brasil protegeram habitats de espécies ameaçadas de extinção e geraram impactos positivos em 45 milhões de hectares de terras em todo o país. Para fins de comparação, é uma área maior que a Califórnia”, conta Caldwell.

Na entrevista, a gestora também comenta, entre outros pontos, a Lei de Redução da Inflação, pacote ambiental recém-lançado pelo governo Biden.

Quais são os principais objetivos da nova estratégia climática da Usaid? Ela foi lançada nos EUA no Dia da Terra, 22 de abril, e permanecerá em vigor até 2030. Trata-se da estratégia mais ambiciosa que a Usaid já lançou para tentar enfrentar a crise climática. De fato, todos os órgãos do governo Biden estão sendo encorajados a adotar uma postura mais ambiciosa em relação à mitigação e adaptação climáticas.

Portanto, a estratégia estabelece uma série de metas muito ambiciosas e de alto nível a serem alcançadas até 2030, como, a redução das emissões de carbono em 6 bilhões de toneladas. Isso equivale a quase todas as emissões dos EUA num ano inteiro. Além disso, muito será realizado por meio de soluções baseadas na natureza. Queremos proteger e preservar 100 milhões de hectares de paisagens com grande estoque de carbono.

Ademais, por meio da iniciativa Prepare de adaptação e resiliência, promovida pelo presidente [Biden], da qual a Usaid é a implementadora líder, queremos aumentar a resiliência e a capacidade adaptativa de meio bilhão de pessoas em todo o mundo.

Por fim, queremos garantir intervenções capazes de mudar os sistemas em pelo menos 40 países ao redor do mundo, para aumentar a participação de comunidades marginalizadas, tais como povos indígenas e comunidades locais, mulheres e jovens.

Qual é o orçamento que vocês têm para implementar a estratégia? O orçamento total da Usaid é de cerca de US$ 25 bilhões para o exercício financeiro atual. [Samantha] Power, nossa administradora, repetidamente se refere à Usaid como uma agência climática, então, em certo nível, estamos pensando no que podemos fazer com esses US$ 25 bilhões. O orçamento especificamente destinado a questões climáticas está na casa de US$ 600 milhões.

Como a senhora pretende trabalhar com países como o Brasil para a conservação dos 100 milhões de hectares? Já somos muito ativos no Brasil. No ano passado, nossas ações na área de biodiversidade no Brasil protegeram habitats de espécies ameaçadas de extinção e geraram impactos positivos em 45 milhões de hectares de terras em todo o país. Para fins de comparação, é uma área maior que a Califórnia.

Também estamos contribuindo para evitar mais de 300 milhões de toneladas métricas de emissões de gases de efeito estufa. Além disso, fortalecemos a gestão de 189 áreas protegidas no Brasil, 83% das quais são territórios indígenas e quilombolas.

Em termos gerais, conforme já mencionei, a estratégia climática enfatiza o envolvimento de povos indígenas e comunidades locais em todo o nosso trabalho de formulação [de políticas e programas]. Isso se deve ao fato de as comunidades indígenas cuidarem das paisagens mais importantes do mundo em termos de estoque de carbono.

O atual desmantelamento das políticas ambientais brasileiras afeta o que a Usaid vem tentando fazer no país? Bem, nós temos uma cooperação com o governo brasileiro para proteger a biodiversidade. Nosso foco é colaborar não apenas com o governo federal, mas também com os governos subnacionais e regionais no Brasil, que é onde temos uma colaboração mais próxima.

Na sua opinião, como a agenda de adaptação e resiliência deve ser modificada ou atualizada, considerando os últimos eventos climáticos extremos observados no mundo todo? Os impactos da crise climática estão sendo sentidos de forma muito intensa em todo o mundo, ainda mais do que haviam previsto os cientistas. Sabemos que as consequências serão desastrosas. Basta ver o que está acontecendo no Paquistão, onde níveis recorde de monções deixaram mais de um terço do país debaixo d’água.

Portanto, a necessidade é urgente, tanto de reduzir as emissões e evitar as piores consequências da crise climática quanto de ajudar as comunidades a aumentar sua resiliência e capacidade de adaptação. É por isso que a Usaid trabalha em ambas as frentes: mitigação e adaptação.

Na iniciativa Prepare, que é nosso plano emergencial de adaptação e resiliência, temos três focos. O primeiro é apoiar o trabalho de cientistas e meteorologistas, tomadores de decisão e comunidades para fortalecer os sistemas de alerta precoce e outros serviços de informação climática. Isso está de acordo com o apelo do secretário-geral da ONU [o português António Guterres] por alerta antecipado para todos.

Muitas comunidades não são alertadas sobre eventos climáticos e meteorológicos extremos que podem ameaçar suas vidas e meios de subsistência. Mesmo 24 horas de antecedência são capazes de reduzir substancialmente os riscos e as perdas de vidas e meios de subsistência.

Em segundo lugar, estamos apoiando iniciativas locais para integrar boas práticas de adaptação climática às políticas de planejamento e aos orçamentos nacionais e locais. Quando examinamos as políticas de planejamento e os orçamentos de infraestrutura, saúde, segurança hídrica e alimentar, deslocamentos e migração, percebemos que os riscos climáticos nem sempre são abordados de forma sistemática. Por isso, estamos fornecendo conhecimentos técnicos para garantir que as análises climáticas sejam incorporadas ao modelo de todos esses programas.

Em terceiro lugar, queremos realmente tentar eliminar o déficit em investimentos financeiros e adaptação climática. Nossa meta é catalisar US$ 150 bilhões em financiamento público e privado, e uma grande ênfase deve ser dada à adaptação. O setor privado está começando a investir em respostas climáticas, especialmente na mitigação. Contudo, apenas 3% dos recursos privados são destinados a ações de adaptação.

Sabemos que precisamos de US$ 3 trilhões a US$ 5 trilhões por ano até 2030 para atender às necessidades globais de mitigação e adaptação. Precisamos acelerar substancialmente os investimentos.

Como está, até o momento, a implementação do plano internacional de financiamento climático? Estamos nos concentrando em quatro áreas principais. A primeira é fornecer assistência técnica e desenvolvimento de “pipelines”para garantir que o setor privado tenha acesso a projetos confiáveis e capazes de receber investimentos em mitigação e adaptação.

Se observarmos a proliferação global de compromissos relativos a zerar as emissões líquidas —em Glasgow [na Escócia, onde foi realizada a última conferência do clima da ONU, a COP26, em 2021] e além—, veremos que há bilhões de dólares em recursos do setor privado disponíveis, apenas aguardando a oportunidade certa para que sejam investidos em projetos climáticos positivos. Muitos investidores do setor privado dirão que simplesmente não há projetos suficientes com a credibilidade ou a integridade que eles buscam.

A segunda área tem a ver com o que chamamos de ambiente propício. Em outras palavras, ajudar os governos a aumentar o investimento, garantindo que haja políticas e incentivos fiscais adequados em vigor. É pouco provável que alguém consiga estimular investimentos em economias de energias renováveis sem fornecer créditos fiscais, como os que a Lei de Redução da Inflação nos EUA acaba de oferecer.

Os US$ 369 bilhões que a Lei de Redução da Inflação de 2022 direcionou para a transição das energias renováveis já deram resultados. Estamos vendo bilhões de dólares em novos compromissos.

A terceira é usar nosso poder de mobilização para reunir uma diversidade de partes interessadas —governos, investidores do setor privado ou instituições multilaterais como o Banco Mundial— para realmente garantir que estejamos unindo forças para maximizar nosso potencial de investimento.

Por fim, estamos ampliando o uso de ferramentas financeiras inovadoras. Como um órgão público de desenvolvimento internacional, obviamente temos condições de fornecer subsídios capazes de reduzir os riscos de investimentos do setor privado. O que queremos fazer é fornecer capital concessional que reduza a percepção de riscos e aumente o retorno potencial dos investimentos do setor privado.

O presidente Biden estava disposto a mobilizar mais de US$ 11 bilhões em financiamento climático para países em desenvolvimento, o que não foi possível, como sabemos. Na sua opinião, como mobilizar fundos para a crise climática neste momento tão crucial e tão desafiador? O presidente Biden se comprometeu a quadruplicar o financiamento climático dos EUA e chegar a US$ 11,4 bilhões até 2024, e esse compromisso permanece firme. Obviamente, precisamos do apoio do Congresso para conseguirmos fazer isso.

Se houver dotação orçamentária, o que também depende do Congresso, o orçamento da Presidência para o exercício financeiro de 2023 —um ano antes da meta prometida de 2024— seria capaz de cumprir a promessa por meio de uma combinação de financiamento direto e indireto.

Além disso, precisamos trabalhar em conjunto com nossos aliados para cumprir a promessa feita no Acordo de Paris, de US$ 100 bilhões anuais para mitigação e adaptação climáticas em países em desenvolvimento. Isso ainda não é, nem de longe, o suficiente, mas ainda temos que atingir essa meta, que é muito importante.

Qual a sua opinião sobre o mercado voluntário de carbono? Ele é considerado por certas pessoas uma fonte de financiamento importante, enquanto, para outras, é prejudicial para as comunidades locais e ineficaz para a redução de emissões? Bem, creio que os mercados de carbono constituem uma das muitas ferramentas para catalisar todas as mudanças necessárias. É inegável que, em certas situações, os mercados de carbono se mostraram ineficazes na mobilização de financiamento para as comunidades locais ou na geração de benefícios reais de conservação.

Ao mesmo tempo, o mercado voluntário de carbono está crescendo exponencialmente. Em 2021, já era avaliado em US$ 2 bilhões. Então precisamos achar a solução certa: isso já está acontecendo, quer você queira, quer não.

Meu foco é garantir que ele seja o mais íntegro e equitativo possível. Precisamos de dados e monitoramento transparentes para garantir que as reduções de emissões sejam reais e que os fundos gerados por meio das reduções de emissões realmente beneficiem as comunidades locais.


Raio-X

Gillian Caldwell, 56

Com formação nas universidades Harvard e Georgetown, é advogada, ativista e cineasta. Atualmente é diretora para assuntos climáticos da Usaid (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional), além de administradora-adjunta do órgão. Antes, foi CEO da ONG Global Witness. De 2007 a 2010, foi diretora da campanha 1SKy, iniciativa de mais de 600 organizações para aprovar a legislação climática nos EUA. Caldwell já recebeu diversos reconhecimentos no setor de empreendedorismo social, incluindo o Prêmio Skoll.

Cloud Wars: Mideast Rivalries Rise Along a New Front (New York Times)

nytimes.com

Alissa J. Rubin, Bryan Denton


Artificial lakes like this one in Dubai are helping fuel an insatiable demand for water in the United Arab Emirates.
Artificial lakes like this one in Dubai are helping fuel an insatiable demand for water in the United Arab Emirates.

As climate change makes the region hotter and drier, the U.A.E. is leading the effort to squeeze more rain out of the clouds, and other countries are rushing to keep up.

Aug. 28, 2022

ABU DHABI, United Arab Emirates — Iranian officials have worried for years that other nations have been depriving them of one of their vital water sources. But it was not an upstream dam that they were worrying about, or an aquifer being bled dry.

In 2018, amid a searing drought and rising temperatures, some senior officials concluded that someone was stealing their water from the clouds.

“Both Israel and another country are working to make Iranian clouds not rain,” Brig. Gen. Gholam Reza Jalali, a senior official in the country’s powerful Revolutionary Guards Corps, said in a 2018 speech.

The unnamed country was the United Arab Emirates, which had begun an ambitious cloud-seeding program, injecting chemicals into clouds to try to force precipitation. Iran’s suspicions are not surprising, given its tense relations with most Persian Gulf nations, but the real purpose of these efforts is not to steal water, but simply to make it rain on parched lands.

As the Middle East and North Africa dry up, countries in the region have embarked on a race to develop the chemicals and techniques that they hope will enable them to squeeze rain drops out of clouds that would otherwise float fruitlessly overhead.

With 12 of the 19 regional countries averaging less than 10 inches of rainfall a year, a decline of 20 percent over the past 30 years, their governments are desperate for any increment of fresh water, and cloud seeding is seen by many as a quick way to tackle the problem.

The tawny mountain range that rises above Khor Fakkan in the United Arab Emirates is where summer updrafts often create clouds that make excellent candidates for seeding.

And as wealthy countries like the emirates pump hundreds of millions of dollars into the effort, other nations are joining the race, trying to ensure that they do not miss out on their fair share of rainfall before others drain the heavens dry — despite serious questions about whether the technique generates enough rainfall to be worth the effort and expense.

Morocco and Ethiopia have cloud-seeding programs, as does Iran. Saudi Arabia just started a large-scale program, and a half-dozen other Middle Eastern and North African countries are considering it.

China has the most ambitious program worldwide, with the aim of either stimulating rain or halting hail across half the country. It is trying to force clouds to rain over the Yangtze River, which is running dry in some spots.

While cloud seeding has been around for 75 years, experts say the science has yet to be proven. And they are especially dismissive of worries about one country draining clouds dry at the expense of others downwind.

The life span of a cloud, in particular the type of cumulus clouds most likely to produce rain, is rarely more than a couple of hours, atmospheric scientists say. Occasionally, clouds can last longer, but rarely long enough to reach another country, even in the Persian Gulf, where seven countries are jammed close together.

But several Middle Eastern countries have brushed aside the experts’ doubts and are pushing ahead with plans to wring any moisture they can from otherwise stingy clouds.

Today, the unquestioned regional leader is the United Arab Emirates. As early as the 1990s, the country’s ruling family recognized that maintaining a plentiful supply of water would be as important as the nation’s huge oil and gas reserves in sustaining its status as the financial and business capital of the Persian Gulf.

While there had been enough water to sustain the tiny country’s population in 1960, when there were fewer than 100,000 people, by 2020 the population had ballooned to nearly 10 million. And the demand for water soared, as well. United Arab Emirates residents now use roughly 147 gallons per person a day, compared with the world average of 47 gallons, according to a 2021 research paper funded by the emirates.

Currently, that demand is being met by desalination plants. Each facility, however, costs $1 billion or more to build and requires prodigious amounts of energy to run, especially when compared with cloud seeding, said Abdulla Al Mandous, the director of the National Center of Meteorology and Seismology in the emirates and the leader of its cloud-seeding program.

After 20 years of research and experimentation, the center runs its cloud-seeding program with near military protocols. Nine pilots rotate on standby, ready to bolt into the sky as soon as meteorologists focusing on the country’s mountainous regions spot a promising weather formation — ideally, the types of clouds that can build to heights of as much as 40,000 feet.

They have to be ready on a moment’s notice because promising clouds are not as common in the Middle East as in many other parts of the world.

“We are on 24-hour availability — we live within 30 to 40 minutes of the airport — and from arrival here, it takes us 25 minutes to be airborne,” said Capt. Mark Newman, a South African senior cloud-seeding pilot. In the event of multiple, potentially rain-bearing clouds, the center will send more than one aircraft.

The United Arab Emirates uses two seeding substances: the traditional material made of silver iodide and a newly patented substance developed at Khalifa University in Abu Dhabi that uses nanotechnology that researchers there say is better adapted to the hot, dry conditions in the Persian Gulf. The pilots inject the seeding materials into the base of the cloud, allowing it to be lofted tens of thousands of feet by powerful updrafts.

And then, in theory, the seeding material, made up of hygroscopic (water attracting) molecules, bonds to the water vapor particles that make up a cloud. That combined particle is a little bigger and in turn attracts more water vapor particles until they form droplets, which eventually become heavy enough to fall as rain — with no appreciable environmental impact from the seeding materials, scientists say.

That is in theory. But many in the scientific community doubt the efficacy of cloud seeding altogether. A major stumbling block for many atmospheric scientists is the difficulty, perhaps the impossibility, of documenting net increases in rainfall.

“The problem is that once you seed, you can’t tell if the cloud would have rained anyway,” said Alan Robock, an atmospheric scientist at Rutgers University and an expert in evaluating climate engineering strategies.

Another problem is that the tall cumulus clouds most common in summer in the emirates and nearby areas can be so turbulent that it is difficult to determine if the seeding has any effect, said Roy Rasmussen, a senior scientist and an expert in cloud physics at the National Center for Atmospheric Research in Boulder, Colo.

Israel, a pioneer in cloud seeding, halted its program in 2021 after 50 years because it seemed to yield at best only marginal gains in precipitation. It was “not economically efficient,” said Pinhas Alpert, an emeritus professor at the University of Tel Aviv who did one of the most comprehensive studies of the program.

Cloud seeding got its start in 1947, with General Electric scientists working under a military contract to find a way to de-ice planes in cold weather and create fog to obscure troop movements. Some of the techniques were later used in Vietnam to prolong the monsoon season, in an effort to make it harder for the North Vietnamese to supply their troops.

While the underlying science of cloud seeding seems straightforward, in practice, there are numerous problems. Not all clouds have the potential to produce rain, and even a cloud seemingly suitable for seeding may not have enough moisture. Another challenge in hot climates is that raindrops may evaporate before they reach the ground.

Sometimes the effect of seeding can be larger than expected, producing too much rain or snow. Or the winds can shift, carrying the clouds away from the area where the seeding was done, raising the possibility of “unintended consequences,” notes a statement from the American Meteorological Society.

“You can modify a cloud, but you can’t tell it what to do after you modify it,” said James Fleming, an atmospheric scientist and historian of science at Colby College in Maine.

“It might snow; it might dissipate. It might go downstream; it might cause a storm in Boston,” he said, referring to an early cloud-seeding experiment over Mount Greylock in the Berkshire Mountains of western Massachusetts.

This seems to be what happened in the emirates in the summer of 2019, when cloud seeding apparently generated such heavy rains in Dubai that water had to be pumped out of flooded residential neighborhoods and the upscale Dubai mall.

Despite the difficulties of gathering data on the efficacy of cloud seeding, Mr. Al Mandous said the emirates’ methods were yielding at least a 5 percent increase in rain annually — and almost certainly far more. But he acknowledged the need for data covering many more years to satisfy the scientific community.

Over last New Year’s weekend, said Mr. Al Mandous, cloud seeding coincided with a storm that produced 5.6 inches of rain in three days — more precipitation than the United Arab Emirates often gets in a year.

In the tradition of many scientists who have tried to modify the weather, he is ever optimistic. There is the new cloud-seeding nanosubstance, and if the emirates just had more clouds to seed, he said, maybe they could make more rain for the country.

And where would those extra clouds come from?

“Making clouds is very difficult,” he acknowledged. “But, who knows, maybe God will send us somebody who will have the idea of how to make clouds.”

Seca histórica atinge metade do México e leva a espiral de violência e desespero (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Crise climática impacta chuvas, e dois terços do país enfrentam problemas no fornecimento de água

Maria Abi-Habib e Bryan Avelar

7 de agosto de 2022


O homem vestindo um boné de beisebol azul enche baldes com água de um caminhão do governo. Fonte: New York Times

O México —ou grande parte do país— está ficando sem água. Uma seca extrema tem deixado as torneiras secas, e quase dois terços dos municípios enfrentam escassez que vem obrigando as pessoas a encarar horas em filas para entregas de água feitas pelo governo em alguns locais.

A falta d’água está tão grave que moradores já fizeram barreiras em rodovias e sequestraram funcionários para exigir mais carregamentos. Os números são mesmo assustadores: em julho, 8 dos 32 estados enfrentaram estiagem de extrema a moderada, levando 1.546 dos 2.463 municípios a enfrentar cortes no fornecimento, segundo a Comissão Nacional de Água.

Em meados de julho, a seca atingia 48% do território do México —no ano passado, a situação afetou 28% do país.

Vincular uma seca isolada à crise climática requer análise, mas cientistas não têm dúvida de que o aquecimento global pode alterar os padrões de chuva no mundo e está elevando a probabilidade de ocorrência de secas.

Do outro lado da fronteira norte, nos últimos anos a maior parte da metade ocidental dos EUA sofre com estiagem de moderada a severa. São as duas décadas mais secas na região em 1.200 anos.

A crise está especialmente aguda em Monterrey, um dos centros econômicos mais importantes do México, com uma região metropolitana de 5 milhões de habitantes. Alguns bairros estão sem água há 75 dias, levando escolas a fechar as portas antes das férias de verão. Um jornalista percorreu várias lojas à procura de água potável, incluindo um supermercado Walmart, em vão.

Baldes estão em falta no comércio ou são vendidos a preços astronômicos, enquanto os habitantes juntam recipientes para coletar a água distribuída por caminhões enviados aos bairros mais afetados. Alguns usam latas de lixo limpas, e crianças lutam para ajudar a carregar a água.

A crise afeta inclusive as regiões de alta renda. “Aqui a gente tem que sair à caça de água”, diz Claudia Muñiz, 38, cuja família frequentemente tem passado uma semana sem água corrente. “Num momento de desespero, as pessoas explodem.”

Monterrey fica no norte do México e viu sua população crescer nos últimos anos, acompanhando o boom econômico. O clima tipicamente árido da região não ajuda a suprir as necessidades da população, e a crise climática reduz as chuvas já escassas.

Hoje os moradores podem caminhar sobre o leito da represa da barragem de Cerro Prieto, que no passado era uma das maiores fontes de água da cidade e uma importante atração turística, com animados restaurantes à beira da água, pesca, passeios de barco e esqui aquático.

A chuva que caiu em julho em partes do estado de Nuevo León, que faz divisa com o Texas e cuja capital é Monterrey, representou apenas 10% da média mensal registrada desde 1960, segundo Juan Ignacio Barragán Villareal, diretor-geral da agência local de recursos hídricos. “Nem uma gota caiu no estado inteiro em março”, diz. Foi o primeiro março sem chuvas desde que se começou a registrar esses dados, em 1960.

Hoje o governo distribui 9 milhões de litros de água por dia para 400 bairros. O motorista de caminhão-pipa Alejandro Casas conta que, quando começou na função há cinco anos, ajudava os bombeiros e era chamado uma ou duas vezes por mês para levar água a um local incendiado. Ele passava muitos dias de trabalho apenas olhando para o telefone.

Mas desde janeiro ele trabalha sem parar, fazendo até dez viagens por dia, para suprir cerca de 200 famílias a cada vez. Quando ele chega a um local, uma longa fila já serpenteia pelas ruas. Pessoas levam recipientes que comportam até 200 litros e passam a tarde sob o sol para receber água só à meia-noite —e ela pode ser a única entregue por até uma semana.

Ninguém policia as filas, por isso é comum ocorrerem brigas, com moradores de outras comunidades tentando se infiltrar. Em maio o caminhão de Casas foi assaltado por jovens que subiram no assento do passageiro e o ameaçaram, exigindo que ele levasse o veículo ao bairro deles. “Se a gente não fosse para onde eles queriam, iam nos sequestrar.”

Casas seguiu a ordem, encheu os baldes dos moradores e foi libertado.

Maria de los Angeles, 45, nasceu e cresceu em Ciénega de Flores, cidade próxima a Monterrey. Ela diz que a crise está afetando sua família e seu negócio. “Nunca antes vi isso. Só temos água nas torneiras a cada quatro ou cinco dias”, diz.

O viveiro de plantas de jardim é a única fonte de renda de sua família e requer mais água do que a que chega apenas ocasionalmente às torneiras. “Toda semana sou obrigada a comprar um tanque que me custa 1.200 pesos [R$ 300] de um fornecedor particular”, diz. É metade de sua receita semanal. “Não aguento mais.”

Pequenos e microempresários como ela estão frustrados por serem abandonados à própria sorte, enquanto as grandes indústrias podem operar quase normalmente: as fábricas conseguem receber 50 milhões de metros cúbicos de água por ano, devido a concessões federais que lhes garantem acesso especial aos aquíferos da cidade.

O governo está tendo dificuldade em responder à crise. Para tentar mitigar estiagens futuras, o estado está investindo US$ 97 milhões na construção de uma estação de tratamento de águas servidas e pretende comprar água de uma estação de dessalinização em construção num estado vizinho. Também gastou US$ 82 milhões para alugar mais caminhões, pagar motoristas adicionais e cavar mais poços.

O governador de Nuevo León, Samuel García, recentemente exortou o mundo a agir em conjunto para combater a crise climática. “Ela nos alcançou”, escreveu no Twitter. “Hoje precisamos cuidar do ambiente, é uma questão de vida ou morte.”

Greta Thunberg delivers a climate warning at Glastonbury (BBC)

By Mark Savage
BBC Music Correspondent

June 25, 2022

Climate activist Greta Thunberg speaking on the Pyramid Stage during the Glastonbury Festival
Image caption, The 19-year-old activist criticised world leaders in a speech to festival-goers

Greta Thunberg has made a surprise appearance at Glastonbury, to warn of the dangers of climate change.

The earth’s biosphere is “not just changing, it is destabilising, it is breaking down,” the 19-year-old told festival-goers from the Pyramid Stage.

She criticised world leaders for “creating loopholes” to protect firms whose emissions cause climate change.

“That is a moral decision… that will put the entire living planet at risk”, she added.

But she ended on a message of hope, telling festival-goers they had the power to make a difference.

“We are capable of the most incredible things,” she said. “Once we are given the full story… we will know what to do. There is still time to choose a new path, to step back from the cliff.

“Instead of looking for hope, start creating that hope yourself.

Greta Thunberg
Image caption, The climate activist also visited the festival’s Park area during her visit

“Make no mistake, no-one else is going to do this for us,” she concluded. “Right here and now is where we stand our ground.”

Thunberg was introduced on stage by Glastonbury organiser Emily Eavis, who called her “the most inspirational speaker of her generation.”

The activist spoke against a backdrop of the “warming stripes”, a vivid illustration of how the average global temperature has soared in recent decades.

Her appearance was warmly received by the crowd, who joined her in a chant of “climate justice” at the end of her speech.

Thunberg’s speech comes three years after Sir David Attenborough made a cameo on the Pyramid Stage.

The broadcaster thanked festival-goers for cutting their plastic use, after organisers banned single-use plastic bottles.

Grenfell plea

Thunberg spoke after an invigorating performance from rapper AJ Tracey, who opened his set with a powerful, angry message about the Grenfell Tower disaster.

In a pre-recorded video, the West London musician accused those responsible for the fire of “hiding behind a legal framework”, while young black men were being “arrested and convicted every day with haste for acts a lot less significant”.

AJ Tracey
Image caption, AJ Tracey gave one of the most compelling performances of the day so far

“The worst thing of the whole situation is [that] Grenfell could happen again,” he continued.

“Our buildings are not safe and thousands of low-income people, people who grew up just like I did, go to bed every night not knowing if it’ll be their last. They tuck their children in at night and don’t know if they’ll wake up in flames.”

Tracey, who grew up in Ladbroke Grove, knows many of the victims, survivors and bereaved.

He ended his message by addressing the Prime Minister directly.

“Boris Johnson, I want to ask you a question: 72 of our friends and family are dead and there’s been zero arrests,” he said. “Why?”

The rapper went on to perform a muscular set of hip-hop, grime and 2-step, rearranging many of his songs to work with a live band.

“I’m hoping that the crowd are receptive to me trying to give them a different take on my usual set,” he told BBC News ahead of the performance.

He said his musical versatility came from his upbringing.

“My dad used to be a rapper, my mum used to be a DJ on the radio, playing jungle, house, garage… so I’ve got quite a mix.

“My mum’s Welsh and my dad’s from Trinidad – so the British sounds and the Caribbean sounds come into one, and I’ve been inspired by it.”

The star brought his mother to Glastonbury and she watched his show from the side of the Pyramid stage.

“She’s going to be rocking out, man. She’s my biggest fan,” he said.

“She doesn’t have a scrapbook but she’s a photographer so she takes loads of personal pictures and has her own little personal archive.”

Paul McCartney will headline the festival later on Saturday night, and is scheduled to play a marathon two-and-three-quarter hour set.

Fans arrived at the barriers in front of the Pyramid stage early on Saturday morning to make sure they had a front row seat for the show.

Brasil oficializa ‘pedalada climática’ em nova meta de redução de gases (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Phillippe Watanabe

7 de abril de 2022


Uma atualização das metas de redução de gases estufa foi registrada pelo Brasil, nesta quinta-feira (7), na UNFCCC (sigla em inglês para Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), formalizando, dessa forma, uma “pedalada climática“.

As novas metas aparecem mais de cinco meses depois da COP26, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, e, mesmo assim, ainda não formalizam todas promessas feitas durante o evento à comunidade internacional.

Entre os objetivos atualizados está a neutralidade de carbono até 2050, a redução, em 2025, de 37% dos gase estufa, em comparação com as emissões de 2005, e a diminuição, em 2030, de 50% dos gases, também em comparação com 2005.

As emissões brasileiras são resultado, principalmente, de desmatamento e atividade pecuária.

As promessas, feitas durante a COP, de zerar o desmatamento até 2030 e de redução na emissão de metano não constam no documento, ausência apontada por entidades como o Política por Inteiro e o Observatório do Clima.

Os cortes de emissões de gases para 2030 e a neutralidade de carbono em 2050 tinham sido anunciados pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, em 1º de novembro do ano passado.

As organizações também criticam a “pedalada climática” das metas apresentadas.

A pedalada ocorre pela mudança no dado das emissões de 2005, que foi atualizado nos mais recentes inventários nacionais de gases estufa, ou seja, ocorreu uma mudança na base de comparação.

A primeira NDC brasileira (sigla para contribuição nacional determinada e que pode ser, de modo mais simples, traduzida como meta climática) é de 2015, ano do Acordo de Paris. Nela, o Brasil se compromete a até 2030 reduzir em 43%, em relação a 2005, as emissões de gases estufa. Nesse cenário e com os dados disponíveis naquele momento, o país emitiria, em 2030, cerca de 1,208 gigatoneladas de gás carbônico equivalente (em linhas gerais, uma soma dos gases que causam o aquecimento global).

Com a evolução nas metodologias para medir os gases, os dados de 2005 sofreram correções e aumentaram. A meta brasileira, porém, não foi alinhada a essa correção e permaneceu em 43% de redução. Como os dados de base (2005) são menores, a redução de 43% passou a significar emissões maiores em 2030 (cerca de 1,620 gigatoneladas), em comparação ao prometido inicialmente. Surgiu, assim a pedalada climática.

Aumentando-se mais o percentual de corte de emissões, a situação poderia ser corrigida com a nota meta nacional submetida ao UNFCCC. Mas isso não aconteceu. Considerando o documento que foi submetido com 50% de redução de emissões, o Brasil em 2030 estará emitindo 1,281 gigatoneladas de CO2e (leia gás carbônico equivalente), segundo análises do Observatório do Clima e do Política por Inteiro.

O alerta sobre a manutenção da pedalada já tinha sido soado no momento em que Leite anunciou a nova meta, na COP26. No dia anterior à promessa, o Brasil havia, inclusive, submetido uma carta-adendo à UNFCCC em que oficializava somente a meta de neutralidade climática até 2050, sem citações aos objetivos desta década.

Organizações apontam que as novas metas nacionais não aumentam a ambição climática, algo que era esperado das nações que assinaram o Acordo de Paris.

“O teto de emissões estipulado para 2030 está uma Colômbia inteira (em termos de emissões anuais) acima daquele estipulado anteriormente pelo Governo do Brasil”, afirma uma análise produzida pelo Política por Inteiro. Já o teto de 2025 está uma Polônia inteira acima do estipulado anteriormente aponta o documento.

O Política por Inteiro ainda aponta que o país deve resolver em definitivo a questão de atualização de metas. “As sucessivas demonstrações de retrocesso afetam diretamente a credibilidade do país na esfera internacional”, diz a análise.

O Observatório do Clima aponta que o país está descumprindo o Acordo de Paris e que mente no documento enviado ao UNFCCC ao afirmar que está aumentando sua ambição.

“Continua sendo um retrocesso, num momento em que as Nações Unidas fazem um chamado para os países aumentarem suas ambições. O Brasil não responde ao chamado e ainda continua retrocedendo”, diz, em nota, Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Clima, gênero e a interseccionalidade (Clima Info)

climainfo.org.br


Por Tatiane Matheus*

O planeta Terra vive uma emergência climática e a necessidade de soluções e ações se tornou ainda mais urgente com a crise mundial ocasionada pela pandemia da COVID-19. Um novo pacto social, político e econômico verde precisa ser debatido e muitas coisas precisam ser colocadas em prática para não haver um colapso ainda maior.

As mulheres não são (e nem devem ser vistas como) vítimas, nem heroínas. Mas, sim, estão nos grupos dos mais vulneráveis na emergência climática. Em diferentes aspectos, não apenas por questões de gênero. Raça, etnia, classe social, região, por exemplo, podem fazer com que esses impactos sejam vivenciados de formas distintas.

Mesmo representando a metade da população mundial e sendo as mais impactadas pelos efeitos do aquecimento global, as mulheres não possuem uma representatividade proporcional nas principais esferas de decisão; nem nas possíveis soluções das quais poderiam ser beneficiadas, elas são contempladas.

Até nos postos de trabalho gerados pelos investimentos em setores da Economia Verde – aqueles que colaboram para a redução dos efeitos da emergência climática – as mulheres têm igualdade. Importantes esferas de decisão, como as Conferências do Clima (COPs), também não possuem a devida proporcionalidade de gênero nos postos de liderança, como divulgado no final do ano passado: “Mulheres pedem igualdade de gênero no comando da COP26”.

O grupo de Trabalho sobre Gênero & Clima do Observatório do Clima também entende que as mulheres têm suas vidas significativamente afetadas pelas mudanças climáticas e muitos problemas são potencializados pelas injustiças estruturais em relação ao gênero.

Interseccionalidade é o estudo da sobreposição ou intersecção de identidades sociais e sistemas relacionados de opressão, dominação ou discriminação que nos permite compreender melhor as desigualdades e a sobreposição dessas opressões e discriminações existentes em nossa sociedade. Levando-se em conta o conceito de intersecção, mulheres indígenas, mulheres quilombolas, mulheres negras, mulheres da periferia, agricultoras, mães solteiras e chefes de família são impactadas de formas distintas. Até mesmo ao buscar responder a pergunta: Por que a produção de artigos científicos por mulheres caiu brutalmente durante a pandemia, vamos encontrar entre as respostas possíveis que a divisão sexual do trabalho doméstico e de cuidado existente em nossa sociedade acabam impactando as mulheres.

“Não existe hierarquia de opressão, já aprendemos. Identidades sobressaltam aos olhos ocidentais, mas a interseccionalidade se refere ao que faremos politicamente com a matriz de opressão responsável por produzir diferenças, depois de enxergá-las como identidades. Uma vez no fluxo das estruturas, o dinamismo identitário produz novas formas de viver, pensar e sentir, podendo ficar subsumidas a certas identidades insurgentes, ressignificadas pelas opressões”, como explica a doutora em Estudos Interdisciplinares de Gênero, Mulheres e Feminismos pela Universidade Federal da Bahia, Carla Akotirene, em seu livro Interseccionalidade.

Um exemplo emblemático sobre com muitas questões importantes podem se tornar “imperceptíveis” se não trouxermos o olhar da interseccionalidade é o discurso da intelectual Sojourner Truth, em 1851, “E eu não sou uma mulher?” em uma convenção pelos Direitos das Mulheres, onde ela questiona o conceito de “mulher universal”, sob seu ponto de vista de uma ex-escrava. Para se buscar uma retomada verde inclusiva — um novo pacto social econômico que seja de fato inclusivo —, deve-se  levar em conta o conceito de interseccionalidade para que possa tirar da invisibilidade muitas pessoas.

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), os países pobres são os que mais sofrem as consequências imediatas da mudança climática por causa das condições desfavoráveis pré-existentes. Apesar de todas as regiões do planeta estarem sendo afetadas, os danos serão maiores para aqueles que tenham mais vulnerabilidades socioeconômicas e a sua localização geográfica.

Segundo as estimativas do Parlamento Europeu, 70% das 1,3 bilhões de pessoas em situação de pobreza em todo o mundo são mulheres.  Entretanto, o relatório da ONU Mulheres (2020) mostra que apenas cinco dos 75 estados membros da Organização das Nações Unidas reconheceram que as considerações de gênero são importantes para responder aos riscos de segurança relacionados ao clima. A pandemia causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2) trouxe à tona muitas diferenças sociais que já eram óbvias, mas não eram enxergadas — talvez não quisessem enxergá-las ou eram invisíveis por serem naturalizadas — por muitos.

Como apontado no artigo “Por que somente o investimento econômico em ‘setores verdes’ não basta”, para se reduzir as desigualdades estruturais de gênero e raça presentes no Brasil e trazer um desenvolvimento sustentável para uma retomada verde inclusiva são necessários: debater o tema e dar a devida nomenclatura para casos de racismo ambiental, falta de equidade de gênero e outras desigualdades;  ter ações coordenadas que busquem políticas macroeconômicas e de desenvolvimento, políticas industriais e setoriais que considerem as dimensões sociais, ambientais e climáticas; gerar apoio para que micro e pequenas empresas atuem nos novos setores da economia de baixo carbono; buscar desenvolvimento de habilidades e competências profissionais; priorizar saúde e segurança no trabalho; ampliar ofertas de proteção social; defender os direitos universais e os serviços públicos;  e criar políticas públicas e ações que promovam a garantia dos Direitos Fundamentais do Trabalho.

______

*Tatiane Matheus é pesquisadora no ClimaInfo e membro do Grupo de Trabalho de Gênero & Clima do Observatório do Clima.

ClimaInfo, 8 de março de 2021.

New study ties solar variability to the onset of decadal La Nina events (Science Daily)

[Linking solar activity to the onset of droughts in places like Northeast Brazil has historically been treated as something that did not deserve attention by mainstream meteorology. The El Niño Southern Oscillation – of which La Niña is part – was always presented as the main causal factor for droughts. This new study connects solar activity with the La Niña. The interesting thing here is that many local farmers seen as knowledgeable about rains and drought in NE Brazil mention a 10 years period for the repetition of climate events. -RT]

Date: April 5, 2021

Source: National Center for Atmospheric Research/University Corporation for Atmospheric Research

Summary: A new study shows a correlation between the end of solar cycles and a switch from El Nino to La Nina conditions in the Pacific Ocean, suggesting that solar variability can drive seasonal weather variability on Earth.


A new study shows a correlation between the end of solar cycles and a switch from El Nino to La Nina conditions in the Pacific Ocean, suggesting that solar variability can drive seasonal weather variability on Earth.

If the connection outlined in the journal Earth and Space Science holds up, it could significantly improve the predictability of the largest El Nino and La Nina events, which have a number of seasonal climate effects over land. For example, the southern United States tends to be warmer and drier during a La Nina, while the northern U.S. tends to be colder and wetter.

“Energy from the Sun is the major driver of our entire Earth system and makes life on Earth possible,” said Scott McIntosh, a scientist at the National Center for Atmospheric Research (NCAR) and co-author of the paper. “Even so, the scientific community has been unclear on the role that solar variability plays in influencing weather and climate events here on Earth. This study shows there’s reason to believe it absolutely does and why the connection may have been missed in the past.”

The study was led by Robert Leamon at the University of Maryland-Baltimore County, and it is also co-authored by Daniel Marsh at NCAR. The research was funded by the National Science Foundation, which is NCAR’s sponsor, and the NASA Living With a Star program.

Applying a new solar clock

The appearance (and disappearance) of spots on the Sun — the outwardly visible signs of solar variability — have been observed by humans for hundreds of years. The waxing and waning of the number of sunspots takes place over approximately 11-year cycles, but these cycles do not have distinct beginnings and endings. This fuzziness in the length of any particular cycle has made it challenging for scientists to match up the 11-year cycle with changes happening on Earth.

In the new study, the researchers rely on a more precise 22-year “clock” for solar activity derived from the Sun’s magnetic polarity cycle, which they outlined as a more regular alternative to the 11-year solar cycle in several companion studies published recently in peer-reviewed journals.

The 22-year cycle begins when oppositely charged magnetic bands that wrap the Sun appear near the star’s polar latitudes, according to their recent studies. Over the cycle, these bands migrate toward the equator — causing sunspots to appear as they travel across the mid-latitudes. The cycle ends when the bands meet in the middle, mutually annihilating one another in what the research team calls a terminator event. These terminators provide precise guideposts for the end of one cycle and the beginning of the next.

The researchers imposed these terminator events over sea surface temperatures in the tropical Pacific stretching back to 1960. They found that the five terminator events that occurred between that time and 2010-11 all coincided with a flip from an El Nino (when sea surface temperatures are warmer than average) to a La Nina (when the sea surface temperatures are cooler than average). The end of the most recent solar cycle — which is unfolding now — is also coinciding with the beginning of a La Nina event.

“We are not the first scientists to study how solar variability may drive changes to the Earth system,” Leamon said. “But we are the first to apply the 22-year solar clock. The result — five consecutive terminators lining up with a switch in the El Nino oscillation — is not likely to be a coincidence.”

In fact, the researchers did a number of statistical analyses to determine the likelihood that the correlation was just a fluke. They found there was only a 1 in 5,000 chance or less (depending on the statistical test) that all five terminator events included in the study would randomly coincide with the flip in ocean temperatures. Now that a sixth terminator event — and the corresponding start of a new solar cycle in 2020 — has also coincided with an La Nina event, the chance of a random occurrence is even more remote, the authors said.

The paper does not delve into what physical connection between the Sun and Earth could be responsible for the correlation, but the authors note that there are several possibilities that warrant further study, including the influence of the Sun’s magnetic field on the amount of cosmic rays that escape into the solar system and ultimately bombard Earth. However, a robust physical link between cosmic rays variations and climate has yet to be determined.

“If further research can establish that there is a physical connection and that changes on the Sun are truly causing variability in the oceans, then we may be able to improve our ability to predict El Nino and La Nina events,” McIntosh said.


Story Source:

Materials provided by National Center for Atmospheric Research/University Corporation for Atmospheric Research. Original written by Laura Snider. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Robert J. Leamon, Scott W. McIntosh, Daniel R. Marsh. Termination of Solar Cycles and Correlated Tropospheric Variability. Earth and Space Science, 2021; 8 (4) DOI: 10.1029/2020EA001223

Natural disasters must be unusual or deadly to prompt local climate policy change (Science Daily)

Date: August 28, 2020

Source: Oregon State University

Summary: Natural disasters alone are not enough to motivate local communities to engage in climate change mitigation or adaptation, a new study has found. Rather, policy change in response to extreme weather events appears to depend on a combination of factors, including fatalities, sustained media coverage, the unusualness of the event and the political makeup of the community.

Natural disasters alone are not enough to motivate local communities to engage in climate change mitigation or adaptation, a new study from Oregon State University found.

Rather, policy change in response to extreme weather events appears to depend on a combination of factors, including fatalities, sustained media coverage, the unusualness of the event and the political makeup of the community.

Climate scientists predict that the frequency and severity of extreme weather events will only continue to increase in coming decades. OSU researchers wanted to understand how local communities are reacting.

“There’s obviously national and state-level climate change policy, but we’re really interested in what goes on at the local level to adapt to these changes,” said lead author Leanne Giordono, a post-doctoral researcher in OSU’s College of Public Health and Human Sciences. “Local communities are typically the first to respond to extreme events and disasters. How are they making themselves more resilient — for example, how are they adapting to more frequent flooding or intense heat?”

For the study, which was funded by the National Science Foundation, Giordono and co-authors Hilary Boudet of OSU’s College of Liberal Arts and Alexander Gard-Murray at Harvard University examined 15 extreme weather events that occurred around the U.S. between March 2012 and June 2017, and any subsequent local climate policy change.

These events included flooding, winter weather, extreme heat, tornadoes, wildfires and a landslide.

The study, published recently in the journal Policy Sciences, found there were two “recipes” for local policy change after an extreme weather event.

“For both recipes, experiencing a high-impact event — one with many deaths or a presidential disaster declaration — is a necessary condition for future-oriented policy adoption,” Giordono said.

In addition to a high death toll, the first recipe consisted of Democrat-leaning communities where there was focused media coverage of the weather event. These communities moved forward with adopting policies aimed at adapting in response to future climate change, such as building emergency preparedness and risk management capacity.

The second recipe consisted of Republican-leaning communities with past experiences of other uncommon weather events. In these locales, residents often didn’t engage directly in conversation about climate change but still worked on policies meant to prepare their communities for future disasters.

In both recipes, policy changes were fairly modest and reactive, such as building fire breaks, levees or community tornado shelters. Giordono referred to these as “instrumental” policy changes.

“As opposed to being driven by ideology or a shift in thought process, it’s more a means to an end,” she said. “‘We don’t want anyone else to die from tornadoes, so we build a shelter.’ It’s not typically a systemic response to global climate change.”

In their sample, the researchers didn’t find any evidence of mitigation-focused policy response, such as communities passing laws to limit carbon emissions or require a shift to solar power. And some communities did not make any policy changes at all in the wake of extreme weather.

The researchers suggest that in communities that are ideologically resistant to talking about climate change, it may be more effective to frame these policy conversations in other ways, such as people’s commitment to their community or the community’s long-term viability.

Without specifically examining communities that have not experienced extreme weather events, the researchers cannot speak to the status of their policy change, but Giordono said it is a question for future study.

“In some ways, it’s not surprising that you see communities that have these really devastating events responding to them,” Giordono said. “What about the vast majority of communities that don’t experience a high-impact event — is there a way to also spark interest in those communities?”

“We don’t want people to have to experience these types of disasters to make changes.”


Story Source:

Materials provided by Oregon State University. Original written by Molly Rosbach. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Leanne Giordono, Hilary Boudet, Alexander Gard-Murray. Local adaptation policy responses to extreme weather events. Policy Sciences, 2020; DOI: 10.1007/s11077-020-09401-3

Scientists launch ambitious conservation project to save the Amazon (Mongabay)

Series: Amazon Conservation

by Shanna Hanbury on 27 July 2020

  • The Science Panel for the Amazon (SPA), an ambitious cooperative project to bring together the existing scientific research on the Amazon biome, has been launched with the support of the United Nation’s Sustainable Development Solutions Network.
  • Modeled on the authoritative UN Intergovernmental Panel on Climate Change reports, the first Amazon report is planned for release in April 2021; that report will include an extensive section on Amazon conservation solutions and policy suggestions backed up by research findings.
  • The Science Panel for the Amazon consists of 150 experts — including climate, ecological, and social scientists; economists; indigenous leaders and political strategists — primarily from the Amazon countries
  • According to Carlos Nobre, one of the leading scientists on the project, the SPA’s reports will aim not only to curb deforestation, but to propose an ongoing economically feasible program to conserve the forest while advancing human development goals for the region, working in tandem with, and in support of, ecological systems.
Butterflies burst into the sky above an Amazonian river. Image © Fernando Lessa / The Nature Conservancy.

With the Amazon rainforest predicted to be at, or very close to, its disastrous rainforest-to-savanna tipping point, deforestation escalating at a frightening pace, and governments often worsening the problem, the need for action to secure the future of the rainforest has never been more urgent.

Now, a group of 150 leading scientific and economic experts on the Amazon basin have taken it upon themselves to launch an ambitious conservation project. The newly founded Science Panel for the Amazon (SPA) aims to consolidate scientific research on the Amazon and propose solutions that will secure the region’s future — including the social and economic well-being of its thirty-five-million inhabitants.

“Never before has there been such a rigorous scientific evaluation on the Amazon,” said Carlos Nobre, the leading Amazon climatologist and one of the chairs of the Scientific Panel. The newly organized SPA, he adds, will model its work on the style of the authoritative reports produced by the UN Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) in terms of academic diligence and the depth and breadth of analysis and recommendations.

The Amazon Panel, is funded by the United Nation’s Sustainable Development Solutions Network and supported by prominent political leaders, such as former Colombian President, Juan Manuel Santos and the elected leader of the Coordinator of Indigenous Organizations of the Amazon River Basin, José Gregorio Díaz Mirabal. The SPA plans to publish its first report by April 2021.

Timber illegally logged within an indigenous reserve seized by IBAMA, Brazil’s environmental agency, before the election of Jair Bolsonaro. Under the Bolsonaro administration, IBAMA has been largely defunded. Image courtesy of IBAMA.

Reversing the Amazon Tipping Point

Over the last five decades, the Amazon rainforest lost almost a fifth of its forest cover, putting the biome on the edge of a dangerous cliff. Studies show that if 3 to 8% more forest cover is lost, then deforestation combined with escalating climate change is likely to cause the Amazon ecosystem to collapse.

After this point is reached, the lush, biodiverse rainforest will receive too little precipitation to maintain itself and quickly shift from forest into a degraded savanna, causing enormous economic damage across the South American continent, and releasing vast amounts of forest-stored carbon to the atmosphere, further destabilizing the global climate.

Amazon researchers are now taking a proactive stance to prevent the Amazon Tipping Point: “Our message to political leaders is that there is no time to waste,” Nobre wrote in the SPA’s press release.

Amid escalating forest loss in the Amazon, propelled by the anti-environmentalist agenda of Brazilian President Jair Bolsonaro, experts fear that this year’s burning season, already underway, may exceed the August 2019 wildfires that shocked the world. Most Amazon basin fires are not natural in cause, but intentionally set, often by land grabbers invading indigenous territories and other conserved lands, and causing massive deforestation.

“We are burning our own money, resources and biodiversity — it makes no sense,” Sandra Hacon told Mongabay; she is a prominent biologist at the Brazilian biomedical Oswaldo Cruz Foundation and has studied the effects of Amazon forest fires on health. It is expected that air pollution caused by this year’s wildfire’s, when combined with COVID-19 symptoms, will cause severe respiratory impacts across the region.

Bolivian ecologist Marielos Penã-Claros, notes the far-reaching economic importance of the rainforest: “The deforestation of the Amazon also has a negative effect on the agricultural production of Uruguay or Paraguay, thousands of kilometers away.”

The climate tipping point, should it be passed, would negatively effect every major stakeholder in the Amazon, likely wrecking the agribusiness and energy production sectors — ironically, the sectors responsible for much of the devastation today.

“I hope to show evidence to the world of what is happening with land use in the Amazon and alert other governments, as well as state and municipal-level leadership. We have a big challenge ahead, but it’s completely necessary,” said Hacon.

Cattle ranching is the leading cause of deforestation in the Brazilian Amazon, but researchers say there is enough already degraded land there to support significant cattle expansion without causing further deforestation. The SPA may in its report suggest viable policies for curbing cattle-caused deforestation. Image ©Henrique Manreza / The Nature Conservancy.

Scientists offer evidence, and also solutions

Creating a workable blueprint for the sustainable future of the Amazon rainforest is no simple task. The solutions mapped out, according to the Amazon Panel’s scientists, will seek to not only prevent deforestation and curb global climate change, but to generate a new vision and action plan for the Amazon region and its residents — especially, fulfilling development goals via a sustainable standing-forest economy.

The SPA, Nobre says, will make a critical break with the purely technical approach of the United Nation’s IPCC, which banned policy prescriptions entirely from its reports. In practice, this has meant that while contributing scientists can show the impacts of fossil fuels on the atmosphere, they cannot recommend ending oil subsidies, for example. “We inverted this logic, and the third part of the [SPA] report will be entirely dedicated to searching for policy suggestions,” Nobre says. “We need the forest on its feet, the empowerment of the traditional peoples and solutions on how to reach development goals.”

Researchers across many academic fields (ranging from climate science and economics to history and meteorology) are collaborating on the SPA Panel, raising hopes that scientific consensus on the Amazon rainforest can be reached, and that conditions for research cooperation will greatly improve.

Indigenous Munduruku dancers in the Brazilian Amazon. The SPA intends to gather Amazon science and formulate socio-economic solutions in order to make sound recommendations to policymakers. Image by Mauricio Torres / Mongabay.

SPA participants hope that a thorough scientific analysis of the rainforest’s past, present and future will aid in the formulation of viable public policies designed to preserve the Amazon biome — hopefully leading to scientifically and economically informed political decisions by the governments of Amazonian nations.

“We are analyzing not only climate but biodiversity, human aspects and preservation beyond the climate issues,” Paulo Artaxo, an atmospheric physicist at the University of São Paulo, told Mongabay.

Due to the urgency of the COVID-19 pandemic, the initiative’s initial dates for a final report were pushed forward by several months, and a conference in China cancelled entirely. But the 150-strong team is vigorously pushing forward, and the first phase of the project — not publicly available — is expected to be completed by the end of the year.

The hope on the horizon is that a unified voice from the scientific community will trigger long-lasting positive changes in the Amazon rainforest. “More than ever, we need to hear the voices of the scientists to enable us to understand how to save the Amazon from wanton and unthinking destruction,” said Jeffrey Sachs, the director of the UN Sustainable Development Solutions Network, on the official launch website called The Amazon We Want.

Banner image: Aerial photo of an Amazon tributary surrounded by rainforest. Image by Rhett A. Butler / Mongabay.

Global climate models do not easily downscale for regional predictions (Science Daily)

Date:
August 24, 2016
Source:
Penn State
Summary:
One size does not always fit all, especially when it comes to global climate models, according to climate researchers who caution users of climate model projections to take into account the increased uncertainties in assessing local climate scenarios.

One size does not always fit all, especially when it comes to global climate models, according to Penn State climate researchers.

“The impacts of climate change rightfully concern policy makers and stakeholders who need to make decisions about how to cope with a changing climate,” said Fuqing Zhang, professor of meteorology and director, Center for Advanced Data Assimilation and Predictability Techniques, Penn State. “They often rely upon climate model projections at regional and local scales in their decision making.”

Zhang and Michael Mann, Distinguished professor of atmospheric science and director, Earth System Science Center, were concerned that the direct use of climate model output at local or even regional scales could produce inaccurate information. They focused on two key climate variables, temperature and precipitation.

They found that projections of temperature changes with global climate models became increasingly uncertain at scales below roughly 600 horizontal miles, a distance equivalent to the combined widths of Pennsylvania, Ohio and Indiana. While climate models might provide useful information about the overall warming expected for, say, the Midwest, predicting the difference between the warming of Indianapolis and Pittsburgh might prove futile.

Regional changes in precipitation were even more challenging to predict, with estimates becoming highly uncertain at scales below roughly 1200 miles, equivalent to the combined width of all the states from the Atlantic Ocean through New Jersey across Nebraska. The difference between changing rainfall totals in Philadelphia and Omaha due to global warming, for example, would be difficult to assess. The researchers report the results of their study in the August issue of Advances in Atmospheric Sciences.

“Policy makers and stakeholders use information from these models to inform their decisions,” said Mann. “It is crucial they understand the limitation in the information the model projections can provide at local scales.”

Climate models provide useful predictions of the overall warming of the globe and the largest-scale shifts in patterns of rainfall and drought, but are considerably more hard pressed to predict, for example, whether New York City will become wetter or drier, or to deal with the effects of mountain ranges like the Rocky Mountains on regional weather patterns.

“Climate models can meaningfully project the overall global increase in warmth, rises in sea level and very large-scale changes in rainfall patterns,” said Zhang. “But they are uncertain about the potential significant ramifications on society in any specific location.”

The researchers believe that further research may lead to a reduction in the uncertainties. They caution users of climate model projections to take into account the increased uncertainties in assessing local climate scenarios.

“Uncertainty is hardly a reason for inaction,” said Mann. “Moreover, uncertainty can cut both ways, and we must be cognizant of the possibility that impacts in many regions could be considerably greater and more costly than climate model projections suggest.”

Anthropologies #21: Weather changes people: stretching to encompass material sky dynamics in our ethnography (Savage Minds)

See original text here.

September 24, 2015.

This entry is part 10 of 10 in the Anthropologies #21 series.

Heid Jerstad brings our climate change issue to a close with this thoughtful essay. Jerstad (BA Oxford, MRes SOAS) is writing up her PhD on the effects of weather on peoples lives at the university of Edinburgh. Having done fieldwork in the western Indian Himalayas, she is particularly interested in the range of social and livelihood implications that weather (and thus climate change) has. She is on twitter @entanglednotion –R.A.

For most people, the climate change issue is a bundle of scientific ideas, or maybe a chunk of guilt lurking behind that short haul flight. The words have fused together to form a single stone, immobile and heavy. Change is a bit of a nothing word anyway – anything can change, and who is to say if it is good or bad, drastic or practically unnoticeable?

But what about climate? It is a big science-y word, neither human nor particularly tangible. Climate is about a place – engrained, palimpsested, with time-depth. That big sky, those habits – the Frenchman advising wine and bed on a rainy day, the Croatian judge lenient because there was a hot wind from the Sahara that day. This is weather I am talking about, seasons, years, the heat, damp and sparkling frost.

People care about the weather. We consider ourselves used to this or good at observing that. My home has more weather than other places – it is colder in winter, the air is clearer and brighter – because it is mine. My sunsets – this is eastern Norway – are vibrant and fill the sky, my sky will snow in June with not a cloud, my nose can feel that special tingle when it gets to below -20˚c. The north is not gloomy in winter – the snow is bright white, the hydro-fuelled streetlights illuminate empty streets and windows seal the warmth in.

What is your weather? It would be safe to assume it is part of the climate and I would go out on a limb and say I think you care about it. Am I wrong?

When the weather matters to people, the task becomes one of bridging this caring and the climate change science and projections. Looking at the impact of these weather changes in different areas of life is, then, going to make up a steadily larger part of useful climate change research.

Mead famously convened a conference with Kellogg titled ‘The Atmosphere: Endangered and Endangering’ in 1975, and Douglas published Risk and Blame in 1992. In the new millennium Strauss and Orlove (2003), Crate and Nuttall (2009) and Hastrup and Rubow (2014) brought edited volumes to the debate. It seems to be fairly well established, then, that climate change is a matter for anthropologists, as phrased by the AAA statement on climate change: ‘Climate change is rooted in social institutions and cultural habits. … Climate change is not a natural problem, it is a human problem.’ What then, can anthropologists do, about this problem?

Anthropologists provide description. The mapping of people’s stories of how the weather is ‘going wrong’, stories of change, and of coping and consequences is underway (Crate 2008 described the effects of unusual winter melt on the Vilui Sakha in Siberia, Cruikshank 2005 explored the tendrils of meaning surrounding glaciers between Alaska, British Colombia and the Yukon territory). Linked to the description, of course, and not really disentanglable from it is the explanation. Explanations and understandings of weather and weather changes in the places where they are happening, whether Chesapeake Bay, the Marshall Islands, or Rajasthan, India, fill in the social significance of what had been an empty sky (Paolisso 2003, Rudiak-Gould 2013, Grodzins-Gold 1998). The weather changes, in fact, constitute one of those satisfying areas of inquiry which concern those asked as much as the anthropologist.

The question of knowledge, however, can still seem a barrier when climate scientists are those with a mandate to understand changing weather. Anna Tsing, in the Firth Lecture at the Association of Social Anthropologists of the UK and Commonwealth’s (ASA) 2015 conference in Exeter, brought the contextual ecological study of mushrooms and the trees that they are mutual with in the forests of Japan and China to illustrate the gains anthropology can make when we give up scepticism of natural science. Earlier in the year, Moore, at the launch of the Centre of the Anthropology of Sustainability (CAOS) at University College London used microbial research to break down the bounded image of the body, where on the cellular level culture and biology shape each other – for instance when poor black women in the States eat fish which contains mercury and this affects the biological development of their children. Tsing and Moore brought together what might previously have been considered within the remit of ecology or biology to make important points about the capacity of anthropology—and to suggest where we might go next, expanding vision of social science. When mushrooms and microbes are appropriate topics for anthropological research, then looking at the climate and its material as well as social effects (rotting, drying, illness (Jerstad 2014)) starts to look feasible.

The anthropocene is a term which has been shown to have considerable analytical purchase outside of geology, illuminating moral and political debates about blame, the north-south divide and the global movement of materials, people and plants (Chakrabarty 2014, Tsing 2013). These ideas have been applyied in the study of climate scientists themselves (Simonetti 2015) as well as climate policy (Lahsen 2009). The anthropocene, i.e. the world as subject to the effects of human activities such as climate change, may be read as a set of material relationships, where the weather, bodies and landscapes meet, as Ingold showed (2010). This term allows the larger picture, where the world and all the people in it – those people for whom climate change matters – to be considered in a single conceptual space. In this space climate change can be seen as part of the encompassing extra-somatic human activity which defines our world as we are starting to understand it.

The anthropocene and climate change, however, both involve the challenge of how to follow the conceptual and material threads that lead from these global issues and into particular, ethnographically described lives:

 A close examination of scientific practice makes clear that localizing is as much a problem for climate researchers as it is for ethnographers. This holds not only for the     interconnectedness of the global and the local climate, but also for the separation of climate change as a ‘scientific fact’ on the one hand, and a ‘matter of concern’ on the other. Climate research offers an insight into a messy world of ramifications, surprising activities and unexpected “social” context (Krauss 2009:149–50).

Anthropological work has the reflexive capacity to deal with the messy world Krauss refers to here, where these ramifications, surprising activities and unexpected ‘social’ context are part of the particular places where we, as anthropologists, work, taking cues from events and observations around us. In my own fieldwork I found all kinds of unanticipated connections between weathers and other aspects of life. With a research proposal full of religion and ‘belief’ I ended up with far more material interests, guided by the sometimes patient and sometimes exasperated villagers with whom I lived in the western Indian Himalayas.

I was walking with Karishma to get green grass one day during the monsoon. She told me that our village (Gau) is famous for being misty, and therefore that the girls are known, both for working hard and for being beautiful, because even though they are outside the mistiness keeps them pale. So apparently on festival days people say that the girls from this village are gori (white) because there is so much mist here. But Karishma pointed out that this can’t be true because there is mist only in the rainy season. Then she said that the girls here wear sweaters to stay gori. Also, she said girls of this village have a reputation for being hard working so people ask for them in marriage when there is a household where work is to be done. This (I think) might be part of why quite a few of the new brides in Gau are not used to doing as much work as women do here. But then Karishma said fairly that it is not just the girls who work hard, everyone works hard in this village (well, most people). She said that when girls go away to study, like she did, then they come back more beautiful. That is to say pale from not being outside. She was saying how on the other hand I had become more black (kala) since being there in the village (this was true).

People, whether Himalayan villagers or Norwegian PhD students, live with weather on an ongoing basis, and consistently live in the weather, which is not always catastrophic but does always impinge (think food perishability, wardrobe choices, sitting in the shade). The considerations people have with regards to the weather, then, necessarily translate to potential climate change concerns. Climate change is a threat, it has potentially deadly dimensions, but weather is inherent to our world, and I would not want to pathologize it.

Weather relates in fundamental ways to sensation and the body, thermal infrastructure, agriculture and animal husbandry, health and illness, disasters and other areas of anthropology (that is to say life). Weather may be implicated in all kinds of ways with other areas of life – for instance the hot/cold symbolism in India which classifies illness, the body, food and even moods. I think that it can be surprisingly easy to forget or ignore weather precisely because it is so pervasive. And this resistance of the mind against focusing on it is a risk when it comes to climate change. It can be tiring to think about. How, after all, do you write about the wind? And people have (Parkin 1995, James 1972, Hsu and Low 2007), but personally I find it challenging just to make a start – capturing the sky with a few black marks on paper feels so unrealistic. In that sense it is a great stretching area for our minds, about the material and the social, about what we mean with words like ‘impact’ and ‘atmosphere’ and the connections between people and places.

Finally there is the role of anthropology in clarifying the terms of the climate change debate. This is a new kind of challenge, it is a global one (hence the usefulness of Tsing’s work, who demonstrated the crucial part material relationships and meetings play in globalisation (2005)), it is to do with both technologies and nature (we can apply Latour, who shows in ‘we have never been modern’ (1993) how ‘modernity’ has not succeeded in cutting us off from the material and natural world around us), it is political, historical (hence Chakrabarty, whose work pushes us to think in new ways about how we are positioned in history and what place climate change has in this context), and there is something about it which is pushing at the edges in all these areas and others, in which new terms are required to even conceive of some of these problematics. Building on what we understand and moving further, in ways that might tread new neural pathways and enable new realities, simply from the newness of our thinking, feels like a worthwhile undertaking. I suggest that the orientation of research which maps out the weather-weight of social life can help bring the people back into climate change.

So the immovable stone of ‘climate change’ is being loosened up, pulled apart to reassemble in illuminating and constructive ways by people contributing to blow away the fog obstructing understanding, using the culminations of what we know so far and the ways in which we can think new thoughts. This effort rewards.

References

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Brasil e mais 169 países assinam acordo sobre mudança climática (Estadão)

Cláudia Trevisan e Altamira Silva Junior – 22 de abril de 201

Dilma: 'O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos'

Dilma: ‘O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos’

Representantes de 170 países assinaram nesta sexta-feira, 22, o Acordo de Paris sobre mudança climática, batendo o recorde da história da Organização das Nações Unidas (ONU) de adesão a um tratado internacional em um único dia. Mas todos ouviram o alerta do secretário-geral da entidade, Ban Ki-Moon, de que as boas intenções terão pouco impacto se a convenção não for ratificada pelos países o mais breve possível. Sem isso, o tratado não entrará em vigor.

“Estamos em uma corrida contra o tempo”, disse Ban no discurso de abertura da cerimônia, no plenário da ONU em Nova York. A urgência foi enfatizada por vários chefes de Estado, incluindo os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e da França, François Hollande.

Dilma assegurou “a pronta entrada em vigor” da convenção, mas essa decisão depende do Congresso. “O caminho que teremos de percorrer agora será ainda mais desafiador: transformar nossas ambiciosas aspirações em resultados concretos”, disse a presidente em seu discurso. E repetiu os compromissos assumidos pelo Brasil durante a negociação do tratado, entre os quais a promessa de reduzir em 37% a emissão de gases poluentes até 2025, na comparação com os patamares registrados em 2005.

Frustração. Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, disse que Dilma frustrou as expectativas de entidades ambientais que esperavam uma sinalização clara de que o Brasil assumirá metas mais ambiciosas em 2018, quando haverá uma avaliação dos resultados do acordo. “O Brasil precisa reconhecer que deve fazer mais que o prometido no ano passado”, disse. “Todos devem, porque estamos na trajetória de 3ºC de aquecimento.”

Aprovado por representantes de 195 nações em dezembro, o tratado prevê uma série de compromissos nacionais com o objetivo de limitar o aumento da temperatura do planeta a 2ºC até o fim do século, em relação ao patamar anterior ao período industrial. Para que entre em vigor, o Acordo de Paris precisa ser ratificado por pelo menos 55 países que representem ao menos 55% das emissões de gases do efeito estufa.

“A era do consumo sem consequências chegou ao fim. Nós temos de intensificar os esforços para ‘descarbonizar’ nossas economias”, ressaltou o secretário-geral das Nações Unidas. Além do caráter simbólico, a cerimônia desta sexta tinha o objetivo de mobilizar os líderes mundiais em torno da ratificação do acordo, de forma que entre em vigor no próximo ano e não em 2020, como inicialmente previsto.

Primeiro a discursar, o presidente da França lembrou que Paris vivia uma situação trágica em dezembro, sob o impacto dos atentados terroristas que haviam provocado a morte de 130 pessoas no mês anterior. Ainda assim, ressaltou, foi possível fechar o acordo histórico sobre mudança climática.

The Stark Realities of Baked-In Catastrophes (Collapse of Industrial Civilization)

02 Apr 2016

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In a civilization gone mad with delusions of grandeur, we’re left with tatters of human sociability held together by rancid mythologies.

Despite human fossil fuel burning recently reported to be “flat”, CO2 levels have been on a tear for the last six months, reaching new worrying levels which have some wondering whether permafrost melt may be contributing to the unusually high spike if no decline happens soon. The giant holes in Siberia serve as an ominous sign. Considering that the current El Niño is contributing only 10% to what we are now seeing, runaway global warming may be accelerating worldwide. But don’t worry, Warren Buffett says climate change is no more of a problem than the Y2K bug and will be profitable through increased premiums and inflation.

Ever dire studies continue to reaffirm worst case scenarios, making clear to anyone paying attention that Earth in the next century will be unrecognizable from its current state. Basic planetary geography and atmospheric conditions will be altered through warming oceans and rising sea levels which are now increasing faster than at any time in the past 2800 years. On average, sea levels were between 50 and 82 feet higher the last time CO2 levels were at 400ppm. Glaciologist Jason Box expects ice melt from the West Antarctic to become the biggest contributor to sea level rise in the coming decades due to a feedback loop not in the climate models. CO2 levels have been increasing around 3ppm per year, a twentyfold increase since pre-industrial times when the highest recorded increase was 0.15 ppm per year. We’ve long since passed the tipping point of melting Arctic summer sea ice; 300-350 ppm of CO2 was the threshold for many parts of the climate. These changes are irreversible on a timescale of human civilizations. Even if all human industrial activity magically ceased today, the footprint man has already left will be felt for eons.

In our warming world, the hydrologic cycle is changing and creating extreme weather; crop-destroying droughts and floods are becoming more frequent. The Jet Stream is transforming into something different, becoming wavier with higher ridges and troughs prone to stagnating in the same region. As global temperatures rise over time, hotter air will be trapped under these layers of high pressure from a mangled Jet Stream, cooking everything to death. Rising winter temperatures are beginning to destroy the “winter chill” needed for many fruit and nut trees to properly blossom and produce maximally. Climate change is also disrupting flower pollination and pushing fish toward North/South poles, robbing poorer countries at Equator of crucial food resources. In a new study, marine scientists are surprised to find a disturbing trend in the increasing numbers of a specific type of phytoplankton, coccolithophores, which have been “typically more abundant during Earth’s warm interglacial and high CO2 periods.”

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Homo sapiens have only been on the planet for the equivalent of a few seconds in geologic time but have managed to overwhelm and foul up all of earth’s natural processes and interdependencies, leaving a distinct layer in the sedimentary record. There is nothing modern humans do that is truly sustainable. Here are a few glaring examples:

No amount of reafforestation or growing of new trees will ultimately off-set continuing CO2 emissions due to environmental constraints on plant growth and the large amounts of remaining fossil fuel reserves,” Mackey says. “Unfortunately there is no option but to cut fossil fuel emissions deeply as about a third of the CO2 stays in the atmosphere for 2 to 20 millennia.

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Relying on machines for answers to the existential problems of a species run amok with planet-destroying tools and weaponry is rather ironic and tragic. We’re locked-up inside a complexity trap of our own making. The human propensity for tool-building coupled with our discovery of fossil fuels has created a set of living arrangements in which we are now enslaved to those machines and tools. The globalized capitalist economy externalizes its destruction and atrocities, keeping the masses in a state of ignorance and denial. Our corporate overlords are not conscientious citizens, but mindless organizations whose sole purpose is to grow profits no matter the external damage done to society and the environment. Between the economic oil hitmen who ensure that profits flow smoothly and GOP politicians who openly espouse their science illiteracy, a hospitable climate for future humans seems remote. Hopeful delusions have given way to the stark reality of our predicament as scholars like Noam Chomsky who originally started his career fighting for a modicum of social justice have now set the bar at just the chance of human survival. Despite the best efforts of scientists, environmentalists, and activists, the wealthy countries most able to do something won’t “get it” until famine, disease, and war come to their country. All is being left for the almighty ‘free market’ to sort out at the same time that climate change, a conflict multiplier, ramps up.

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The sixth mass extinction gathers steam and climate inertia works to catch up to the catastrophic ecological collapse already baked-in. All the while, modern man engages in the spectacle of tribal politics(building walls, exuding military strength, recapturing past glories of their nation) and presidential candidates discuss the size of their penis.

For those who come to understand modern man’s predicament, it can either be the ultimate mind fuck or an epiphany that helps a person appreciate the fragility of life, the urgency of living in the here and now, and the grand cosmic joke of a global, hi-tech civilization that arose from the burning of ancient fossil remains only to have those fumes become a deadly curse, extinguishing any trace of our lofty accomplishments…

The fossil record, Plotnick points out, is much more durable than any human record.

As humanity has evolved, our methods of recording information have become ever more ephemeral,” he said. “Clay tablets last longer than books. And who today can read an 8-inch floppy?” he shrugged. “If we put everything on electronic media, will those records exist in a million years? The fossils will.
– Link

Amid Climate-Fueled Food Crisis, Filipino Forces Open Fire on Starving Farmers (Common Dreams)

Published on Monday, April 04, 2016 by Common Dreams

Police and army forces in the Philippines unleashed bullets on a starving crowd, killing 10, for demonstrating for drought relief

by Nika Knight, staff writer

A wounded farmer is assisted by other demonstrators after Friday’s mass shooting by security forces in the Philippines. (Photo: Kilab Multimedia)

Police and army forces shot at about 6,000 starving farmers and Lumad Indigenous people demonstrating for drought relief in the Philippines on Friday, ultimately killing 10. Observers characterized the security forces’ action as “a strafing.”

“The government’s response to hunger is violence,” said Zeph Repollo, Southeast Asia campaign coordinator for 350.org, in an email to Common Dreams.

Three protesters were immediately killed, and by Monday the death toll had risen to 10 as more demonstrators succumbed to injuries.

“We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”
—Noralyn Laus, demonstrating farmer

The farmers and Indigenous people had been blockading a highway in the Cotabato province for four days in a desperate plea for government aid, after this winter’s record-breaking temperatures produced a three-months-long drought that has destroyed their crops and now threatens their lives.

The demonstrators were asking the government to provide 15,000 sacks of rice to ease the hunger crisis. Provincial governor Emmylou Mendoza has refused to engage the protesters.

“The government’s policy of  systematic land grabbing combined with the intensified El Nino pushed our farmers and indigenous peoples to heighten their struggles with sweat and blood in defense of their right to land and life,” wrote Repollo in a statement.

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

After an especially intense El Nino created a months-long drought and the local government ignored their plight, farmers and Indigenous people blockaded a highway to publicize their need for relief. (Photo: Pinoy Weekly)

On Monday, local farmer Noralyn Laus gave Democracy Now! a firsthand account of the disaster:

“Why we came down here is not to make trouble. We just want to demand for rice, because of the situation of El Niño is leaving our tribes hungry. What happened yesterday, we didn’t start it. They started it by beating us. We wouldn’t be angry if we weren’t beaten up or attacked. We’re having a crisis. We don’t have anything to eat or harvest. Our plants wilted. Even our water has dried up.”

“Our farmers—the country’s food producers—are battered the hardest and are left in poverty and hunger,” Rapollo said. “Civil disobedience will continue to escalate until the government stops playing deaf and blind to the genuine cry of the people.”

Seventy-eight people were still under arrest on Monday, Rapollo said, and a local Methodist Church is sheltering many protesters who escaped the bullets. Rapollo also reported that no members of the armed forces have been relieved of duty or investigated for Friday’s shooting.

The state-sponsored violence in the Philippines portends what turmoil may come as the planet continues to warm, creating more disastrous, extreme weather events worldwide, environmental activists note.

“The conditions that prompted the 3-day blockade gives us a glimpse of what’s ahead if decisive and just actions in addressing climate change remain in the periphery,” said Repollo.

“This is not a distant reality to anywhere in the world,” Repollo wrote to Common Dreams, “unless we change the system that feeds [on] hunger, injustices, and climate catastrophe.”

Medidas de adaptação às mudanças climáticas são anunciadas em Santos (Pesquisa Fapesp)

04 de dezembro de 2015

Samuel Antenor, de Santos | Agência FAPESP – Um estudo internacional sobre a elevação do nível do mar causada pelas mudanças climáticas na cidade de Santos, litoral sul do Estado de São Paulo, resultou em um conjunto de propostas de adaptação, apresentado na terça-feira (01/12) na Associação Comercial de Santos.

No encontro, pesquisadores e representantes da sociedade civil, da Marinha e do Exército  discutiram propostas de ações a serem executadas na cidade nos próximos anos, a fim de enfrentar a elevação do nível do mar e suas consequências na maior cidade portuária do Brasil, ante a perspectiva de aumento da temperatura global acima de 2°C até o final deste século.

As sugestões apresentadas pelo grupo fazem parte da segunda etapa do Projeto Uma estrutura integrada para analisar tomada de decisão local e capacidade adaptativa para mudança ambiental de grande escala: estudos de caso de comunidades no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos (Metropole, na sigla em inglês) que inclui pesquisas sobre a elevação da maré em outras duas cidades: Broward, nos Estados Unidos, e Selsey, na Inglaterra. Realizado por pesquisadores do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e do Instituto Geológico de São Paulo, o estudo, que contou com apoio de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos, foi feito em parceria com pesquisadores da University of South Florida, dos Estados Unidos, e do King’s College London, da Inglaterra é apoiado pela FAPESP, no âmbito de um acordo de cooperação com o Belmont Forum.

Santos foi escolhida não apenas por suas características geográficas e importância estratégica para o Brasil, mas por reunir os mais completos dados sobre elevação de marés no país, registrados desde 1945 por marégrafos e desde 1993 também por satélite (para saber mais sobre o projeto Metropole leia agencia.fapesp.br/21997/).

“Foi elaborada uma estimativa de tendências de nível médio do mar, com dados de marégrafo e de topografia dinâmica por altimetria de satélites, considerando a confiabilidade, estabilidade e consistência desses dados”, explicou Luci Hidalgo Nunes, pesquisadora da Unicamp e participante do projeto.

Os dados coletados pelos pesquisadores foram inseridos na plataforma COAST (Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), desenvolvida por uma empresa norte-americana, que ficou também responsável pelo armazenamento dos dados provenientes das três cidades integrantes do Projeto Metropole.

No caso de Santos, além dos dados espaciais georreferenciados e das variáveis relacionadas à elevação do nível do mar, foram consideradas variáveis socioeconômicas.

A partir disso, foram traçados dois níveis de impacto nas regiões sudeste e noroeste da cidade, englobando diferentes áreas do município, em um total de 13 km², onde vivem 117 mil pessoas, e cujas previsões de elevação do nível do mar ficam entre 18 cm e 23 cm em 2050, com projeções de 36 cm a 45 cm até 2100.

Medidas adaptativas

Considerando os cenários atuais, os dados indicam que o regime de chuvas e as ressacas na região de Santos tenderão a ser mais intensos e mais frequentes nas próximas décadas. Isso decorre do aumento de temperatura global e da consequente elevação do nível do mar, além da possibilidade de eventos extremos.

Em Santos, as sugestões para diminuir as vulnerabilidades costeiras, apresentadas após avaliação de diferentes formas de adaptação, incluem obras de infraestrutura.

Além da preservação e recuperação de manguezais, foram sugeridas a implantação de comportas para controle de marés em rios, a construção de canais de drenagem, o aumento da faixa de areia na Ponta da Praia e a construção de quebra-mar na orla leste do município.

Para a zona noroeste do município, as propostas de medidas adaptativas incluem a dragagem de canais, a criação de um sistema de comportas e estações de bombeamento e a recuperação de mangues. Na região da Ponta da Praia, no sudeste santista, a recomendação é que sejam adotadas medidas para engordamento/alimentação artificial da praia, a construção de um muro de proteção e de um sistema de bombeamento e de melhoria de comporta de canais.

Para mensurar os custos da adoção ou não dessas propostas, foram avaliados dois cenários, com e sem as medidas adaptativas. Para chegar a um custo aproximado das adaptações, foram projetados cenários de perdas baseados exclusivamente no valor dos imóveis nas duas regiões. Custos relacionados a outras variáveis, como saúde e mobilidade, não foram computados.

Com projeções de elevação das marés em 45 cm até 2100, os danos chegariam a R$ 236 milhões na zona noroeste e passariam de R$ 1 bilhão na região sudeste do município, caso não sejam adotadas as medidas adaptativas. Com a adoção das medidas, os custos dos danos seriam nulos na orla e cairiam para R$ 64 milhões na região noroeste.

Os cálculos foram feitos com base em projetos internacionais e na tomada de preços para a execução de projetos feita pela própria administração municipal.

“Buscamos fornecer aos tomadores de decisão a melhor informação possível para o planejamento urbano futuro, quais seriam as ações indicadas e seus benefícios”, explicou José Marengo, pesquisador titular do Cemaden e coordenador do projeto no Brasil.

Políticas públicas

Uma das propostas do projeto é utilizar o conhecimento resultante dessas pesquisas para subsidiar medidas de enfrentamento de problemas advindos das mudanças climáticas e ajudar na tomada de decisões e na formulação de políticas públicas. Nesse sentido, a prefeitura de Santos publicou, também no dia 1º de dezembro, um decreto criando uma comissão municipal de adaptação à mudança do clima.

Entre outros pontos, o texto do decreto sugere a criação de estrutura organizacional, envolvendo o poder público, o setor produtivo e representantes da sociedade civil, para a execução das possíveis medidas a serem adotadas com base nas pesquisas.

“Não se deve esperar por uma catástrofe para usar o conhecimento científico sobre as mudanças climáticas para formular políticas públicas, mas agir de forma preventiva”, afirmou Roberto Greco, do Instituto de Geociências da Unicamp e membro do projeto.

Durante o encontro, foram discutidas diferentes formas de financiamento das propostas, além de ações para conscientizar e sensibilizar a população para a urgência do tema. Uma das tônicas da discussão foi justamente a necessidade de encontrar meios de garantir a participação popular na questão.

Os participantes do encontro reforçaram o caráter público e participativo das ações, que precisariam envolver toda a sociedade, permitindo a atuação pública por meio da representação social, incluindo pessoas físicas, no Conselho proposto em decreto pela atual gestão municipal.

“Santos é precursora neste nível de informação no Brasil, e o projeto só pode ser realizado com a ajuda da prefeitura no fornecimento das informações e apoio técnico para utilização dos dados. Seria impossível fazer um projeto como esse sem esse apoio”, afirmou Nunes.

De acordo com os pesquisadores, considerando não apenas a avaliação do nível do mar mas também aspectos relacionados aos ventos e ao clima, é a primeira vez que se faz um estudo desse tipo no Brasil, com uma clara proposta de subsidiar políticas públicas e a tomada de decisão.

A próxima fase da pesquisa será a elaboração de comparativos entre aspectos relacionados nas três cidades pesquisadas, a fim de trocar informações que reforcem o caráter de urgência das medidas de adaptação. 

Inundações costeiras em Santos podem causar prejuízos bilionários

07 de outubro de 2015

Elton Alisson, de Santos | Agência FAPESP – A inundação de áreas costeiras das zonas sudeste e noroeste de Santos, causada pela combinação da elevação do nível do mar com ressacas, marés meteorológicas e astronômicas e eventos climáticos extremos, pode causar prejuízos acumulados de quase R$ 2 bilhões até 2100 se não forem implementadas medidas de adaptação.

A estimativa é de um estudo internacional, realizado por pesquisadores do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), dos Institutos Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e Geológico (IG) e das Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp), em parceria com colegas da University of South Florida, dos Estados Unidos, do King’s College London, da Inglaterra, além de técnicos da Prefeitura Municipal de Santos.

Os resultados do estudo, que fazem parte do projeto “Uma estrutura integrada para analisar tomada de decisão local e capacidade adaptativa para mudança ambiental de grande escala: estudos de casos de comunidades no Brasil, Reino Unido e Estados Unidos”, apoiado pela FAPESP, no âmbito de um acordo de cooperação com o Belmont Forum, foram apresentados na última quarta-feira (30/09) a representantes da sociedade civil de Santos.

Durante o encontro, os pesquisadores mostraram às lideranças locais projeções de elevação do nível do mar e de impactos econômicos até 2050 e 2100 nas regiões sudeste e noroeste de Santos – que já têm sido impactadas pelo aumento do nível do mar e atuação de eventos extremos – e discutiram possíveis medidas de adaptação para minimizar os riscos.

“Não é preciso esperar 20 ou 30 anos para sentir os efeitos da elevação do nível do mar. É possível implementar agora medidas de adaptação para minimizar os potenciais danos econômicos”, disse José Marengo, pesquisador titular do Cemaden e coordenador do projeto do lado do Brasil, à Agência FAPESP.

Os pesquisadores constataram por meio de dados sobre mudanças no nível do mar em Santos – obtidos por marégrafos na região no período entre 1945 e 1990 e por altimetria de satélite entre 1993 e 2013 –, que ele aumentou, em média, 3 milímetros nos últimos anos na cidade.

Com base nessa constatação, eles estimaram que o nível do mar na cidade pode aumentar entre 18 e 30 centímetros até 2050 e entre 36 centímetros e 1 metro em 2100.

A combinação dessa elevação  com uma sobrelevação causada por uma ressaca forte (ondas elevadas e maré meteorológica) e numa fase de maré de sigízia (maré astronômica de maior amplitude, que ocorre durante as luas cheia e nova, quando o Sol e a Lua estão alinhados em relação à Terra e há maior atração gravitacional), pode resultar em um rápido aumento do nível do mar em Santos de 90 centímetros até 2050 e 95 cm até 2100.

Nessas condições, as regiões sudeste e noroeste de Santos seriam ainda mais inundadas pelo mar e haveria maior erosão da praia.

“A planície costeira de Santos apresenta declividades muito baixas [menores de 2%] e altimetrias inferiores a 3 metros. Além disso, o nível do lençol freático da cidade é muito raso, o que a torna muito suscetível a inundações provocadas pelo mar e alagamentos devido às chuvas intensas”, explicou Joseph Harari, professor do Instituto de Oceanografia (IO) da USP e participante do projeto.

Aumento de ressacas

Os impactos relacionados com a elevação do nível do mar, combinada com marés meteorológicas e astronômicas e eventos meteorológicos, já estão sendo sentidos em Santos há algumas décadas.

Um estudo realizado por Celia Regina de Gouveia Souza, pesquisadora do Instituto Geológico e participante do projeto, constatou que o número de ressacas registradas na cidade teve um salto a partir do final da década de 1990.

Em 2010, por exemplo, foram registrados na cidade 15 eventos de ressaca, contra um número máximo de 4 por ano entre 1960 e início dos anos de 1990.

A pior ressaca do mar na cidade foi registrada em 2005 e levou a prefeitura municipal a colocar um anteparo de pedra no final da Ponta da Praia – região que tem sofrido com erosão costeira acelerada (perda de faixa de praia) desde o começo da década de 1940, com a construção da avenida à beira-mar sobre a praia.

A ressaca do mar, segundo a pesquisadora, está associada com o desenvolvimento de ciclones extratropicais, formados no sul da América do Sul e que avançam pela região Sudeste do Brasil, gerando ondas de alta energia e sobrelevação do nível do mar (maré meteorológica positiva), além de frentes frias que podem trazer muita chuva nas regiões costeiras.

“A intensidade dos impactos gerados na orla pela conjugação dessas condições com a elevação atual do nível do mar está aumentando, mas ainda não sabemos se a magnitude dos eventos tem se modificado”, afirmou Gouveia.

A região noroeste da cidade, por exemplo – onde estão concentrados imóveis cujo valor venal é, em geral, inferior aos da Ponta da Praia e onde vivem cerca de 83 mil pessoas –, sofre periodicamente com inundações, provocadas por marés positivas e de sizígia, além de enchentes.

Já a região sudeste – onde estão situados os imóveis de padrão mais elevado na cidade e onde vivem cerca de 34 mil habitantes – é afetada por alagamentos, causados por chuvas fortes, mas principalmente pela erosão costeira, que vem se agravando muito na Ponta da Praia.

“Essas duas regiões têm padrões diferentes de uso e ocupação do solo, que geram vulnerabilidades e, portanto, danos e perdas também diferentes em relação às projeções de elevação do nível do mar”, explicou Souza.

Cálculo de perdas

Os pesquisadores estimaram os possíveis danos econômicos de inundações costeiras nas zonas sudeste e noroeste de Santos, causadas pela elevação do nível do mar nos diferentes cenários projetados para 2050 e 2100, combinadas com uma sobrelevação da maré em 1,6 metros em 2050 e 1,66 metro em 2100, provocada por um evento extremo com ocorrência de uma vez a cada 100 anos.

Para isso, eles usaram um software de geoprocessamento chamado COAST (sigla de Coastal Adaptation to Sea Level Rise Tool), desenvolvido por uma empresa americana.

O software mensura os potenciais danos em ativos imobiliários provocados por inundação costeira a partir de dados da elevação do nível do mar, de marés astronômicas e meteorológicas e dados espaciais georreferenciados, cruzados com o valor venal do terreno (a soma do que foi gasto na construção do imóvel com o valor estimado do terreno), fornecidos pela prefeitura.

As projeções indicaram que a zona sudeste da cidade deverá ser a mais impactada nos três diferentes cenários de elevação do nível do mar projetados para 2050 e 2100.

Se não for adotada nenhuma medida de adaptação para uma elevação do nível do mar em um metro até 2100 – em um cenário mais extremo –, os danos econômicos podem ser de R$ 1,3 bilhão na região sudeste e de R$ 483,8 milhões na zona noroeste, estimam os pesquisadores.

“O COAST e outros modelos matemáticos ainda não são capazes de estimar a resiliência e a resistência dos ambientes, como por exemplo, como uma praia responde a uma elevação do nível do mar, ou como um manguezal consegue retardar o avanço do mar sobre áreas estuarinas”, afirmou Souza.

“De qualquer forma, é preciso estudar e adotar medidas de adaptação para minimizar os possíveis impactos socioeconômicos”, ponderou.

Algumas das medidas de adaptação que estão sendo adotadas no mundo para enfrentar as inundações e a erosão costeira causadas pelo aumento do nível do mar são barreiras naturais, como faixas de manguezais, implementadas em Palm Beach, na Flórida; engordamento de praia, como feito em Cuba e Miami; diques flutuantes, adotados em Veneza, na Itália; e readequações nos projetos de casas e prédios, para torná-los mais resilientes ao avanço do mar, como feito em Hamburgo, na Alemanha.

Em Santos, os participantes do workshop discutiram e indicaram algumas medidas de adaptação mais viáveis para a cidade.

As propostas serão incorporadas ao sistema COAST e avaliadas pelos pesquisadores nos próximos dois meses.

As propostas mais indicadas para serem implementadas, em termos de custo e prazo, serão apresentadas em um workshop previsto para ocorrer no dia 1º de dezembro.

“A adaptação é um processo caro. Mas é muito mais custoso se não for feito nada”, avaliou Marengo.

Leia mais sobre o projeto em agencia.fapesp.br/santos_pode_se_tornar_mais_suscetivel_a_inundacoes/21977/). 

Extreme weather: Is it all in your mind? (USA Today)

Thomas M. Kostigen, Special for USA TODAY9:53 a.m. EDT October 17, 2015

Weather is not as objective an occurrence as it might seem. People’s perceptions of what makes weather extreme are influenced by where they live, their income, as well as their political views, a new study finds.

There is a difference in both seeing and believing in extreme weather events, according to the study in the journal Environmental Sociology.

“Odds were higher among younger, female, more educated, and Democratic respondents to perceive effects from extreme weather than older, male, less educated, and Republican respondents,” said the study’s author, Matthew Cutler of the University of New Hampshire.

There were other correlations, too. For example, people with lower incomes had higher perceptions of extreme weather than people who earned more. Those who live in more vulnerable areas, as might be expected, interpret the effects of weather differently when the costs to their homes and communities are highest.

Causes of extreme weather and the frequency of extreme weather events is an under-explored area from a sociological perspective. Better understanding is important to building more resilient and adaptive communities. After all, why prepare or take safety precautions if you believe the weather isn’t going to be all that bad or occur all that often?

The U.S. Climate Extremes Index, compiled by the National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), shows a significant rise in extreme weather events since the 1970s, the most back-to-back years of extremes over the past decade since 1910, and all-time record-high levels clocked in 1998 and 2012.

“Some recent research has demonstrated linkages between objectively measured weather, or climate anomalies, and public concern or beliefs about climate change,” Cutler notes. “But the factors influencing perceptions of extreme or unusual weather events have received less attention.”

Indeed, there is a faction of the public that debates how much the climate is changing and which factors are responsible for such consequences as global warming.

Weather, on the other hand, is a different order of things: it is typically defined in the here and now or in the immediate future. It also is largely confined, because of its variability, to local or regional areas. Moreover, weather is something we usually experience directly.

Climate is a more abstract concept, typically defined as atmospheric conditions over a 30-year period.

When weather isn’t experiential, reports are relied upon to gauge extremes. This is when beliefs become more muddied.

“The patterns found in this research provide evidence that individuals experience extreme weather in the context of their social circumstances and thus perceive the impacts of extreme weather through the lens of cultural and social influences. In other words, it is not simply a matter of seeing to believe, but rather an emergent process of both seeing and believing — individuals experiencing extreme weather and interpreting the impacts against the backdrop of social and economic circumstances central to and surrounding their lives,” Cutler concludes.

Sophocles said, “what people believe prevails over the truth.” The consequences of disbelief come at a price in the context of extreme weather, however, as damage, injury, and death are often results.

Too many times do we hear about people being unprepared for storms, ignoring officials’ warnings, failing to evacuate, or engaging in reckless behavior during weather extremes.

There is a need to draw a more complete picture of “weather prejudice,” as I’ll call it, in order to render more practical advice about preparing, surviving, and recovering from what is indisputable: extreme weather disasters to come.

Thomas M. Kostigen is the founder of TheClimateSurvivalist.com and a New York Times bestselling author and journalist. He is the National Geographic author of “The Extreme Weather Survival Guide: Understand, Prepare, Survive, Recover” and the NG Kids book, “Extreme Weather: Surviving Tornadoes, Tsunamis, Hailstorms, Thundersnow, Hurricanes and More!” Follow him @weathersurvival, or email kostigen@theclimatesurvivalist.com.

Extending climate predictability beyond El Niño (Science Daily)

Date: April 21, 2015

Source: University of Hawaii – SOEST

Summary: Tropical Pacific climate variations and their global weather impacts may be predicted much further in advance than previously thought, according to research by an international team of climate scientists. The source of this predictability lies in the tight interactions between the ocean and the atmosphere and among the Atlantic, the Pacific and the Indian Oceans. Such long-term tropical climate forecasts are useful to the public and policy makers, researchers say.


This image shows inter-basin coupling as a cause of multi-year tropical Pacific climate predictability: Impact of Atlantic warming on global atmospheric Walker Circulation (arrows). Rising air over the Atlantic subsides over the equatorial Pacific, causing central Pacific sea surface cooling, which in turn reinforces the large-scale wind anomalies. Credit: Yoshimitsu Chikamoto

Tropical Pacific climate variations and their global weather impacts may be predicted much further in advance than previously thought, according to research by an international team of climate scientists from the USA, Australia, and Japan. The source of this predictability lies in the tight interactions between the ocean and the atmosphere and among the Atlantic, the Pacific and the Indian Oceans. Such long-term tropical climate forecasts are useful to the public and policy makers.

At present computer simulations can predict the occurrence of an El Niño event at best three seasons in advance. Climate modeling centers worldwide generate and disseminate these forecasts on an operational basis. Scientists have assumed that the skill and reliability of such tropical climate forecasts drop rapidly for lead times longer than one year.

The new findings of predictable climate variations up to three years in advance are based on a series of hindcast computer modeling experiments, which included observed ocean temperature and salinity data. The results are presented in the April 21, 2015, online issue of Nature Communications.

“We found that, even three to four years after starting the prediction, the model was still tracking the observations well,” says Yoshimitsu Chikamoto at the University of Hawaii at Manoa International Pacific Research Center and lead author of the study. “This implies that central Pacific climate conditions can be predicted over several years ahead.”

“The mechanism is simple,” states co-author Shang-Ping Xie from the University of California San Diego. “Warmer water in the Atlantic heats up the atmosphere. Rising air and increased precipitation drive a large atmospheric circulation cell, which then sinks over the Central Pacific. The relatively dry air feeds surface winds back into the Atlantic and the Indian Ocean. These winds cool the Central Pacific leading to conditions, which are similar to a La Niña Modoki event. The central Pacific cooling then strengthens the global atmospheric circulation anomalies.”

“Our results present a paradigm shift,” explains co-author Axel Timmermann, climate scientist and professor at the University of Hawaii. “Whereas the Pacific was previously considered the main driver of tropical climate variability and the Atlantic and Indian Ocean its slaves, our results document a much more active role for the Atlantic Ocean in determining conditions in the other two ocean basins. The coupling between the oceans is established by a massive reorganization of the atmospheric circulation.”

The impacts of the findings are wide-ranging. “Central Pacific temperature changes have a remote effect on rainfall in California and Australia. Seeing the Atlantic as an important contributor to these rainfall shifts, which happen as far away as Australia, came to us as a great surprise. It highlights the fact that on multi-year timescales we have to view climate variability in a global perspective, rather than through a basin-wide lens,” says Jing-Jia Luo, co-author of the study and climate scientist at the Bureau of Meteorology in Australia.

“Our study fills the gap between the well-established seasonal predictions and internationally ongoing decadal forecasting efforts. We anticipate that the main results will soon be corroborated by other climate computer models,” concludes co-author Masahide Kimoto from the University of Tokyo, Japan.

Journal Reference:

  1. Yoshimitsu Chikamoto, Axel Timmermann, Jing-Jia Luo, Takashi Mochizuki, Masahide Kimoto, Masahiro Watanabe, Masayoshi Ishii, Shang-Ping Xie, Fei-Fei Jin. Skilful multi-year predictions of tropical trans-basin climate variabilityNature Communications, 2015; 6: 6869 DOI: 10.1038/ncomms7869