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Entidade esotérica que controla o tempo faz parceria com Doria (Região Noroeste)

BIZARRO

08/02/2017 – as 17:00:00

Pouca gente sabe no Brasil, mas no Rio de Janeiro o povo se acostumou a ver um espírito tendo contrato com a prefeitura para controlar o tempo e evitar enchentes e outras tragédias. O contrato com a Fundação Cacique Cobra Coral começou com o prefeito César Maia em 2001 e durou até a última gestão, de Eduardo Paes.

O novo prefeito, bispo evangélico Marcelo Crivella, não renovou o contrato. Mas o que será de Cobra Coral, o espírito que encarna na médium Adelaide Scritori e já teria encarnado antes no cientista Galileu Galilei e no ex-presidente dos Estados Unidos, Abraham Lincoln?

Segundo o jornal O Globo, o espírito de Cobra Coral, por meio de seu porta-voz Osmar Santos, firmou parceria com o prefeito de São Paulo, João Doria Júnior, para diminuir os impactos das chuvas na maior cidade do país.

“São Paulo vai exigir mais esforço e empenho pessoal do cacique. É muito mais difícil atuar para dispersar as chuvas por ser uma cidade mais plana. No Rio, o relevo ajuda, pois tem como desviar as nuvens para regiões montanhosas ou o mar”, disse Santos ao jornal.

João Doria apela para o ‘sobrenatural’ em São Paulo (Encontro)

O prefeito anunciou um contrato com a fundação Cacique Cobra Coral, que, supostamente, consegue controlar o tempo

por Marcelo Fraga  08/02/2017 08:14

Instagram/jdoriajr/Reprodução

O prefeito de São Paulo, João Dória Júnior, já causou polêmica com seu projeto Cidade Linda e, agora, acaba de fechar uma parceria com uma entidade “sobrenatural” que diz controlar o tempo (foto: Instagram/jdoriajr/Reprodução)

Recém-empossado prefeito de São Paulo, o empresário João Doria Júnior começou sua trajetória à frente da capital paulista com medidas polêmicas. Logo nos primeiros dias no poder, ele já se vestiu de Gari, simulou ser cadeirante e mandou apagar grafites em pontos famosos de SP. Agora, a mais nova ação de Doria também promete causar controvérsia.

De acordo com a jornalista Cleo Guimarães, responsável pela coluna Gente Boa, do jornal O Globo, o prefeito fechou uma parceria com a fundação Cacique Cobra Coral (FCCC), conhecida por, supostamente, conseguir “intervir” no tempo de forma mediúnica – teria “poderes sobrenaturais”.

De acordo com Cleo Guimarães, a FCCC estaria de mudança para a China, mas, a entidade decidiu permanecer no Brasil porque pretende dar “atenção especial a São Paulo”. Ainda segundo a jornalista, a fundação negociou com os chineses um trabalho à distância. Não se sabe qual função terá a Cacique Cobra Coral no país mais populoso do mundo.

Em seu site oficial, a FCCC afirma que sua missão é “minimizar catástrofes que podem ocorrer em razão dos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”. Isso, segundo a entidade, é feito por meio de sua presidente, Adelaide Scritori, filha do fundador, Ângelo Scritori. Ela, supostamente, incorpora o espírito do Cacique Cobra Coral e, assim, consegue intervir no clima.

Um dos casos famosos de atuação da fundação se deu em 2009, quando a médium Adelaide Scritori foi convocada pela prefeitura do Rio de Janeiro para usar seus supostos poderes para evitar a tempestade que prevista para a tradicional festa de Réveillon em Copacabana.

Prefeito de São Paulo firma parceria com a Fundação Cacique Cobra Coral (O Globo)

POR CLEO GUIMARÃES

05/02/2017 13:05

Osmar Santos e João Dória

Osmar Santos e João Dória | Divulgação

João Doria, prefeito de São Paulo, fechou parceria com a Fundação Cacique Cobra Coral, a entidade esotérica que teria o poder de controlar o clima. O contrato com a prefeitura paulista havia sido firmado na gestão José Serra e finalizado com Gilberto Kassab. A fundação estava de mudanças para a China, mas desistiu porque quer dar uma atenção especial a SP. No entanto, negociou com os chineses de trabalhar à distância.

Deslizamentos e enchentes: culpar as chuvas mais uma vez? (JC)

JC 5373, 14 de março de 2016

Artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos, geólogo e consultor em Geologia de Engenharia, Geotecnia e Meio Ambiente

A cada novo período chuvoso voltam às manchetes as mortes e sinistros associados a deslizamentos de encostas e enchentes. Tragédias insistentemente anunciadas, mas anualmente recorrentes dado ao descompromisso com que a administração pública em seus três níveis tem lidado com a questão.

Todos estão fartos de saber que esses fenômenos decorrem diretamente das formas equivocadas com que se expandem nossas cidades, impermeabilizando seus territórios, canalizando e retificando seus rios, ocupando terrenos, como encostas de alta declividade e margens de córrego, que não poderiam nunca ser ocupados dada sua já altíssima suscetibilidade natural a riscos, mas também ocupando terrenos de média declividade, onde a ocupação urbana seria aceitável, com a utilização de técnicas construtivas e urbanísticas totalmente inadequadas, que acabam transformando mesmo essas áreas em um verdadeiro canteiro de situações de risco.

E com toda essa realidade, escancarada anualmente pelo meio técnico e repercutida pelos meios de comunicação, a pungente verdade é que nossas autoridades sequer tomaram a providência mínima e cristalina de parar de errar, ou seja, parar de cometer os erros que estão na exata origem causal dessas tragédias de cunho geológico, geotécnico e hidrológico. Por consequência, o que se vê é, ao invés da redução do número de áreas de risco, a sua contínua multiplicação.

Como resultado, uma perspectiva de futuro assustadora: as tragédias em áreas de risco tendem a crescer em frequência e letalidade, na exata proporção do crescimento de nossas cidades.

Dentro desse panorama é preciso que se compreenda que do ponto de vista técnico não há lacuna alguma nos conhecimentos básicos de geologia, geotecnia e hidrologia, necessários para a boa solução desses problemas. Os fenômenos de enchentes e deslizamentos nos mais variados contextos geológicos do País são já bastante estudados e conhecidos. Os instrumentos que permitirão um correto planejamento do uso e ocupação do solo urbano são dominados, como a essencial Carta Geotécnica, um mapa municipal que informa sobre os locais que não poderão nunca ser ocupados e as áreas que poderão ser ocupadas caso sejam utilizadas as técnicas adequadas para tanto. Por paradoxal que possa parecer, o Brasil é liderança internacional nesse campo tecnológico.

Vale registrar apenas que não possuímos no País uma cultura técnica arquitetônica e urbanística especialmente adequada à ocupação de terrenos com maior declividade. Isso se verifica tanto nas formas espontâneas utilizadas pela própria população de baixa renda na autoconstrução de suas moradias, como também em projetos privados ou públicos  de maior porte que contam com o suporte técnico de arquitetos e urbanistas e têm, apesar do erro básico e grave de concepção, sua implantação autorizada pelos órgãos municipais responsáveis para tanto.

Em ambos os casos, ou seja, no empirismo popular e nos projetos mais elaborados, prevalece infelizmente a cultura técnica da área plana. Isto é, através de cortes e aterros obtidos por operações de terraplenagem nas encostas obsessivamente se procura produzir platôs planos sobre os quais irá ser edificado o empreendimento. Um fatal erro técnico de concepção. Esse tem sido o cacoete técnico que está invariavelmente presente na maciça produção de áreas de risco nas cidades brasileiras que, de alguma forma, crescem sobre relevos mais acidentados.

Vale insistir, no entanto, a maior dificuldade para a boa solução desses problemas continua a residir na falta de vontade e no descompromisso das administrações públicas em finalmente decidir ordenar corretamente a expansão urbana de suas cidades. Nesse mister é fundamental perceber que as populações mais pobres somente deixarão de optar por áreas de risco para instalar suas moradias quando o poder público, através de ousados Programas Habitacionais, lhes oferecer alternativas dignas e seguras de moradia na mesma faixa de custos que ela hoje só encontra na ocupação das áreas de risco. Essa é a verdade nua e crua da questão. Ou essa equação básica é resolvida, ou a instalação de novas situações de risco sempre superarão, em muito, o esforço em desarmar as já instaladas.

Em resumo, é preciso que as autoridades públicas deixem de irresponsavelmente ver a questão das áreas de risco como um problema de Defesa Civil e Corpo de Bombeiros, por mais heroicas que sejam essas corporações, e passem a entendê-la como um elemento próprio do campo das Políticas Habitacionais e de Planejamento Urbano. Somente sob essa ótica a administração pública passará ao comando ativo da situação, deixando de agir apenas a reboque das tragédias, situação em que lhes sobra apenas a descompostura esperta de, como sempre, culpar as chuvas pelos infortúnios.

Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”.
  • Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia 

* Esse artigo expressa apenas a opinião do autor.

Queda de homicídios em SP é obra do PCC, e não da polícia, diz pesquisador (BBC Brasil)

Thiago Guimarães
De Londres

12/02/2016, 15h21 

Policiais militares da Rota durante operação na periferia de São Paulo

Policiais militares da Rota durante operação na periferia de São Paulo. Mario Ângelo/ SigmaPress/AE

Em anúncio recente, o governo de São Paulo informou ter alcançado a menor taxa de homicídios dolosos do Estado em 20 anos. O índice em 2015 ficou em 8,73 por 100 mil habitantes – abaixo de 10 por 100 mil pela primeira vez desde 2001.

“Isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação. Policiais morreram, perderam suas vidas, heróis anônimos, para que São Paulo pudesse conseguir essa conquista”, disse na ocasião o governador Geraldo Alckmin (PSDB).Para um pesquisador que acompanhou a rotina de investigadores de homicídios em São Paulo, o responsável pela queda é outro: o próprio crime organizado – no caso, o PCC (Primeiro Comando da Capital), a facção que atua dentro e fora dos presídios do Estado.

“A regulação do PCC é o principal fator sobre a vida e a morte em São Paulo. O PCC é produto, produtor e regulador da violência”, diz o canadense Graham Willis, em defesa da hipótese que circula no meio acadêmico e é considerada “ridícula” pelo governo paulista.

Professor da Universidade de Cambridge (Inglaterra), Willis lança nova luz sobre a chamada “hipótese PCC”, num trabalho de imersão que acompanhou a rotina de policiais do DHPP (Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa) de São Paulo entre 2009 e 2012.

A pesquisa teve acesso a dezenas de documentos internos apreendidos com um membro do PCC e ouviu moradores, comerciantes e criminosos em uma comunidade dominada pela facção na zona leste de São Paulo, em 2007 e 2011.

Teorias do ‘quase tudo’

O trabalho questiona teorias que, segundo Willis, procuram apoio em “quase tudo” para explicar o notório declínio da violência homicida em São Paulo: mudanças demográficas, desarmamento, redução do desemprego, reforço do policiamento em áreas críticas.

“O sistema de segurança pública nunca estabeleceu por que houve essa queda de homicídios nos últimos 15 anos. E nunca transmitiu uma história crível. Falam em políticas públicas, policiamento de hotspots (áreas críticas), mas isso não dá para explicar”, diz.

Em geral, a argumentação de Willis é a seguinte: a queda de 73% nos homicídios no Estado desde 2001, marco inicial da atual série histórica, é muito brusca para ser explicada por fatores de longo prazo como avanços socioeconômicos e mudanças na polícia.

Isso fica claro, diz o pesquisador, quando se constata que, antes da redução, os homicídios se concentravam de forma desproporcional em bairros da periferia da capital paulista: Jardim Ângela, Cidade Tiradentes, Capão Redondo, Brasilândia.

A pacificação nesses locais – com quedas de quase 80% – coincide com o momento, a partir de 2003, em que a estrutura do PCC se ramifica e chega ao cotidiano dessas regiões.

“A queda foi tão rápida que não indica um fator socioeconômico ou de policiamento, que seria algo de longo prazo. Deu-se em vários espaços da cidade mais ou menos na mesma época. E não há dados sobre políticas públicas específicas nesses locais para explicar essas tendências”, diz ele, que baseou suas conclusões em observações de campo.

Vídeo: http://tvuol.tv/bgdw3x

Canal de autoridade

Criado em 1993 com o objetivo declarado de “combater a opressão no sistema prisional paulista” e “vingar” as 111 mortes do massacre do Carandiru, o PCC começa a representar um canal de autoridade em áreas até então caracterizadas pela ausência estatal a partir dos anos 2000, à medida que descentraliza suas decisões.

Os pilares dessa autoridade, segundo Willis e outros pesquisadores que estudaram a facção, são a segurança relativa, noções de solidariedade e estruturas de assistência social. Nesse sentido, a polícia, tradicionalmente vista nesses locais como violenta e corrupta, foi substituída por outra ordem social.

“Quando estive numa comunidade controlada pela facção, moradores diziam que podiam dormir tranquilos com portas e janelas destrancadas”, escreve Willis no recém-lançado The Killing Consensus: Police, Organized Crime and the Regulation of Life and Death in Urban Brazil (O Consenso Assassino: Polícia, Crime Organizado e a Regulação da Vida e da Morte no Brasil Urbano, em tradução livre), livro em que descreve os resultados da investigação.

Antes do domínio do PCC, relata Willis, predominava uma violência difusa e intensa na capital paulista (que responde por 25% dos homicídios no Estado). Gangues lutavam na economia das drogas e abriam espaço para a criminalidade generalizada. O cenário muda quando a facção transpõe às ruas as regras de controle da violência que estabelecera nos presídios.

“Para a organização manter suas atividades criminosas é muito melhor ficar ‘muda’ para não chamar atenção e ter um ambiente de segurança controlado, com regras internas muito rígidas que funcionem”, avalia Willis, que descreve no livro os sistemas de punição da facção.

O pesquisador considera que as ondas de violência promovidas pelo PCC em São Paulo em 2006 e em 2012, com ataques a policiais e a instalações públicas, são pontos fora da curva, episódios de resposta à violência estatal.

“Eles não ficam violentos quando o problema é a repressão ao tráfico, por exemplo, mas quando sentem a sua segurança ameaçada. E a resposta da polícia é ser mais violenta, o que fortalece a ideia entre criminosos de que precisam de proteção. Ou seja, quanto mais você ataca o PCC, mais forte ele fica.”

Apuração em xeque

Willis critica a forma como São Paulo contabiliza seus mortos em situações violentas – e diz que o cenário real é provavelmente mais grave do que o discurso oficial sugere.

Ele questiona, por exemplo, a existência de ao menos nove classificações de mortes violentas em potencial (ossadas encontradas, suicídio, morte suspeita, morte a esclarecer, roubo seguido de morte/latrocínio, homicídio culposo, resistência seguida de morte e homicídio doloso) e diz que a multiplicidade de categorias mascara a realidade.

“Em geral, a investigação de homicídios não acontece em todo o caso. Cada morte suspeita tem que ser avaliada primeiramente por um delegado antes de se decidir se vai ser investigado como homicídio, enquanto em varias cidades do mundo qualquer morte suspeita é investigada como homicídio.”

Para ele, deveria haver mais transparência sobre a taxa de resolução de homicídios (que em São Paulo, diz, fica em torno de 30%, mas inclui casos arquivados sem definições de responsáveis) e sobre o próprio trabalho dos policiais que apuram os casos, que ele vê como um dos mais desvalorizados dentro da instituição.

“Normalmente se pensa em divisão de homicídios como organização de ponta. Mas é o contrário: é um lugar profundamente subvalorizado dentro da polícia, de policiais jovens ou em fim de carreira que desejam sair de lá o mais rápido possível. Policiais suspeitam de quem trabalha lá, em parte porque investigam policiais envolvidos em mortes, mas também porque as vidas que investigam em geral não têm valor, são pessoas de partes pobres da cidade.”

Para ele, o desaparelhamento da investigação de homicídios contrasta com a estrutura de batalhões especializados em repressão, como a Rota e a Força Tática da Polícia Militar.

“Esses policiais têm carros incríveis, caveirões, armas de ponta. Isso mostra muito bem a prioridade dos políticos, que é a repressão física a moradores pobres e negros da periferia. Não é investigar a vida dessas pessoas quando morrem.”

Outro lado

Críticos da chamada “hipótese PCC” costumam levantar a seguinte questão: se a retração nos homicídios não ocorreu por ação da polícia, como explicar a queda em outros índices criminais? Segundo o governo, por exemplo, São Paulo teve queda geral da criminalidade no ano passado em relação a 2014. A facção, ironizam os críticos, estaria então ajudando na queda desses crimes também?

“Variações estatísticas não necessariamente refletem ações do Estado”, diz Willis. Para ele, estudos já mostraram que mais atividade policial não significa sempre menor criminalidade.

Willis diz ainda que as variações estatísticas nesses outros crimes não são significativas, e que o PCC não depende de roubos de carga, veículos ou bancos, mas do pequeno tráfico de drogas com o qual os membros bancam as contribuições obrigatórias à facção.

A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo disse considerar a hipótese de Willis sobre o declínio dos homicídios “ridícula e amplamente desmentida pela realidade de todos os índices criminais” do Estado.

Afirma que a taxa no Estado é quase três vezes menor do que a média nacional (25,1 casos por 100 mil habitantes) e “qualquer pesquisador com o mínimo de rigor sabe que propor uma relação de causa e efeito neste sentido é brigar contra as regras básicas da ciência”.

A pasta informou que todos crimes cometidos por policiais no Estado são punidos – citou 1.445 expulsões, 654 demissões e 1.849 policiais presos desde 2011 – e negou a existência de grupos de extermínio nas corporações.

Sobre o fato de não incluir mortes cometidas por policiais na soma oficial dos homicídios, mas em categoria à parte, disse que “todos os Estados” brasileiros e a “maioria dos países, inclusive os Estados Unidos” adotam a mesma metodologia.

A secretaria não comentou as considerações de Willis sobre a estrutura da investigação de homicídios no Estado e a suposta prioridade dada à forças voltadas à repressão.

Fundação Cacique Cobra Coral dá data para o fim da crise hídrica (Glamurama/UOL)

Osmar Santos, da Fundação Cacique Cobra Coral

Nem só de más notícias vive a presidente Dilma Rousseff. Por intermédio do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, ela tem recebido diariamente informes da Fundação Cacique Cobra Coral, entidade esotérica especializada em fenômenos climáticos, no monitoramento meteorológico e conveniada com o Ministério de Minas e Energia, o governo do Estado do RJ e a Prefeitura do Rio.

Os relatórios apontam uma tendência de elevação nos níveis dos reservatórios do Sudeste antes do verão chegar. Com isso, o governo poderá anunciar em breve a redução nos preços da energia. O informe mais recente diz que, após a antecipação do período chuvoso ainda na primavera, prometido pela entidade em 27 de setembro, mais três poderosos fenômenos voltarão a atuar no Sudeste para ajudar a elevar o nível dos mananciais: Alta da Bolívia, Baixa do Chaco e ZACS (Zona de Convergência do Atlântico Sul).

A região Sudeste vai continuar recebendo um verdadeiro bombardeio de chuva nos próximos dias.

Protocolo Climático do Estado de São Paulo é lançado internacionalmente na COP21 (Revista Fapesp)

09 de dezembro de 2015

Elton Alisson, de Paris  |  Agência FAPESP – A Secretaria Estadual do Meio Ambiente lançou internacionalmente na terça-feira (08/12), durante um evento paralelo à 21ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP21), na Embaixada do Brasil em Paris, o Protocolo Climático do Estado de São Paulo.

O Protocolo visa estimular empresas e entidades estabelecidas no Estado de São Paulo a adotarem medidas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas, incluindo iniciativas de redução das emissões de gases de efeito estufa, de aumento da eficiência hídrica e energética e de práticas de responsabilidade socioambiental, com intuito de atender à Política Estadual de Mudanças Climáticas (PEMC).

De adesão voluntária, o Protocolo Climático já conta com a adesão de mais de 60 empresas e entidades, como o Carrefour, a Natura, o Grupo Votorantim, a Dow e Associação Paulista de Supermercados (Apas), entre outras.

“O Protocolo permitirá ao Governo do Estado de São Paulo identificar empresas e entidades líderes em mitigação e adaptação às mudanças climáticas, que podem servir de modelo para outras”, disse Patricia Iglecias, secretária estadual do Meio Ambiente, durante o evento.

De acordo com ela, o Protocolo foi apresentado ao secretário geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, na última sexta-feira (04/12), durante o Climate Summit for Local Leaders – outro evento paralelo à COP21 que reuniu centenas de representantes de municípios, estados e regiões do mundo em Paris, para discutir ações de mitigação e adaptação às mudanças climáticas implementadas por governos subnacionais .

Os estados de Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal também manifestaram interesse de replicar a experiência do protocolo, contou Iglecias.

“Esperamos que outros estados também repliquem essa iniciativa. O papel dos governos subnacionais e o engajamento das empresas e da sociedade civil são fundamentais para implementação das medidas de mitigação e adaptação que estão sendo discutidas pelos governos nacionais na COP21”, avaliou.

Durante o evento, 28 empresas e entidades que aderiram ao protocolo climático paulista apresentaram exemplos de medidas de redução de emissões de gases de efeito estufa e de boas práticas socioambientais que implementaram nos últimos anos e assinaram o termo de adesão ao Protocolo.

A Natura, por exemplo, atingiu a meta de reduzir em 33,2% suas emissões de gases de efeito estufa em 2013 por meio de medidas como a substituição de embalagens por versões mais ecológicas.

“Conseguimos uma redução de 41% nas emissões de gases de efeito estufa na produção de uma de nossas principais linhas de produtos por meio da substituição da embalagem por uma versão com refil [que pode ser recarregada]”, disse Keyvan Macedo, gerente de sustentabilidade da fabricante de cosméticos.

O Carrefour, por sua vez, conseguiu reduzir 450 mil quilômetros no transporte de produtos do seu centro de distribuição para as lojas, em razão de um programa de logística inteligente, reduzindo a emissão de poluentes. A empresa estabeleceu a meta de reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 40% até 2025 e 70% até 2040. A Dow, por sua vez, tem um plano para diminuir as emissões de gases de efeito estufa nas Olimpíadas no Rio de Janeiro, em 2016, segundo representantes da empresa.

“São Paulo produz bens e serviços de alto valor agregado e pode trazer uma considerável vantagem competitiva se passar a produzir cada vez mais com maior eficiência e menor intensidade de carbono”, avaliou Iglecias.

“A transição para uma economia que atenda a essas necessidades pode e deve ser impulsionada por parcerias com o setor privado”, afirmou.

Assinatura de memorandos

Durante o evento, também foi assinado um memorando de entendimento entre a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio) e o R20 – Regions of Climate Action – uma iniciativa internacional lançada em 2011 pelo ator e ex-governador da Califórnia, nos Estados Unidos, Arnold Schwarzenegger para promover uma economia de baixo carbono – para captação de US$ 50 milhões para o Programa Nascentes, de restauração dos mananciais paulistas.

Também foi lançado no evento um Protocolo de Boas Práticas Sociambientais para o Setor Financeiro com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O protocolo funcionará como uma regulamentação estadual da normativa do Banco Central a respeito das políticas internas socioambientais de instituições financeiras atuantes no Estado de São Paulo.

“O Protocolo de Boas Práticas Socioambientais para o Setor Financeiro surgiu de um termo de minuta de responsabilidade socioambiental desenvolvido pela Febraban e o Ministério Público Federal em parceria com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente”, explicou Iglecias.

A secretária também anunciou durante o evento o lançamento do Fundo Climático Paulista.

A ideia do fundo é captar recursos para substituição das atuais fontes energéticas de edifícios públicos paulistas por alternativas mais eficientes.

“Queremos que isso traga uma mudança da matriz energética dos prédios públicos do Estado de São Paulo. Entendemos que o setor público também tem que dar sua contribuição para mitigação e adaptação às mudanças climáticas”, afirmou Iglecias.

Participaram do evento o embaixador do Brasil na França, Paulo César de Oliveira Campos, o secretário de mudanças climáticas e qualidade ambiental do Brasil, Carlos Klink, os deputados Ricardo Tripoli e Orlando Morando, e representante de ONGs, órgãos do governo de São Paulo, entidades e associações do Brasil e da França.

Privilégios ancestrais (Pesquisa Fapesp)

28.10.2015 


Autor do livro Direito e justiça em terras d’el rei na São Paulo colonial 1709 – 1822, Adelto Gonçalves fala sobre como a organização das estruturas de poder na sociedade, o funcionamento da Justiça paulista e a formação de privilégios da elite naquela época descrevem as raízes dos desmandos públicos no Brasil.

Artigos de pesquisadores do INPE diagnosticam as condições de seca no Sudeste (INPE)

JC, 5246, 24 de agosto de 2015

O texto foi publicado na versão online da revista Theoretical and Applied Climatology

Publicado na versão online da revista Theoretical and Applied Climatology, o artigo Precipitation diagnostics of an exceptionally dry event in São Paulo, Brazil apresenta um diagnóstico das condições de déficit de chuva observadas sobre o sudeste do Estado de São Paulo, incluindo sua região metropolitana, durante os dois últimos verões (2013/2014 e 2014/2015).

Segundo Caio Coelho, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e um dos autores do trabalho, o artigo responde a uma série de questões sobre a manifestação de eventos extremos de seca.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores da Divisão de Operações do CPTEC/INPE revelam a excepcionalidade do déficit de chuva observado durante o verão 2013/2014, quando comparado a outros verões desde 1961/62, e que a região estudada vem sofrendo com déficit de chuva desde o final da década de 1990. Eventos de seca semelhantes foram observados no passado, porém de menor magnitude em termos de déficit de chuva. Um dos fatores que contribuiu para o déficit expressivo de precipitação durante o verão 2013/2014 foi o término exageradamente antecipado da estação chuvosa.

Outro trabalho do CPTEC/INPE publicado na versão online da revista Climate Dynamics, realizado em colaboração com pesquisadores da Universidade de São Paulo e Universidade Federal de Itajubá, destaca que a seca sobre o Sudeste durante o verão 2014 teve como raiz as condições de chuvas anômalas na região tropical ao norte da Austrália, desencadeando uma sequência de processos entre a região tropical e extratropical do oceano Pacífico, até atingir a região Sudeste do Brasil e oceano Atlântico adjacente.

Este trabalho, intitulado The 2014 southeast Brazil austral summer drought: regional scale mechanisms and teleconnections, revela o estabelecimento de um sistema anômalo de alta pressão sobre o oceano Atlântico adjacente aquecido, que forçou os sistemas frontais a realizar trajetórias oceânicas, favoreceu a manutenção do aquecimento oceânico através da incidência de radiação solar, transportou umidade da Amazônia para o sul do Brasil, e desfavoreceu a formação de eventos de Zona de Convergência do Atlântico Sul, um dos principais mecanismos de produção de chuva sobre a região Sudeste do Brasil.

Mais detalhes sobre os estudos na página: http://www.cptec.inpe.br/noticias/noticia/127760

(Inpe)

Sabesp considera fim do Cantareira e corre contra o tempo (Exame)

JC, 5201, 22 de junho de 2015

A crise da água em São Paulo ainda não acabou

Depois que a seca do ano passado deixou São Paulo à beira de um racionamento severo de água, as chuvas do final do verão deram à Sabesp – a grande culpada pela crise, segundo autoridades municipais – uma segunda chance para aumentar investimentos em infraestrutura.

Com o início da estação seca, há uma corrida contra o tempo para desviar rios e conectar sistemas antes que os já prejudicados reservatórios de água fiquem baixos novamente.

A corrida contra o tempo ressalta a situação precária da maior metrópole da América do Sul após duas décadas sem nenhum grande projeto hídrico.

Os reservatórios ainda não se recuperaram da seca do ano passado e os meteorologistas estão prevendo meses mais quentes à frente por causa do fenômeno climático El Niño.

“A infraestrutura não foi a prioridade da Sabesp nos últimos anos. Eles não adotaram medidas para evitar a crise”, disse Pedro Caetano Mancuso, diretor do Centro de Referência em Segurança da Água da Universidade de São Paulo.

“Embora a Sabesp esteja disposta a fazer a lição de casa agora, a questão é se ela será concluída ou não a tempo de evitar um problema ainda maior”.

A Sabesp – empresa sob controle estatal -,disse que foi a severidade da seca do ano passado, e não a falta de investimentos em infraestrutura, a causa da crise.

“Nós estávamos preparados para uma seca tão ruim ou pior que a de 1953”, quando a Sabesp enfrentou uma crise similar, disse o presidente Jerson Kelman a vereadores, em uma audiência no dia 13 de maio.

“O que aconteceu em 2014 foi que tivemos metade do volume de chuva daquele ano. Para isso, nós não estávamos preparados”.

‘Previsível’

Em um relatório, em 10 de junho, a Câmara de Vereadores de São Paulo culpou a Sabesp pela crise que cortou o abastecimento em alguns bairros, dizendo que a seca já era previsível.

“Se a Sabesp tivesse investido os dividendos distribuídos na Bolsa de Nova York em obras para modernizar os sistemas que abastecem a capital e na manutenção da rede, não estaríamos enfrentando o racionamento travestido de redução de pressão”, disse Laércio Benko, vereador que liderou a comissão criada para investigar a escassez no abastecimento de água em São Paulo.

O maior dos projetos de infraestrutura que a Sabesp necessita neste ano para garantir o fornecimento de água potável está atrasado.

O projeto para conectar o Rio Pequeno ao reservatório da Billings, originalmente programado para ser concluído em maio, não será terminado até agosto devido a atrasos nas licenças ambientais e de uso da terra, disse a assessoria de imprensa da Sabesp em uma resposta a perguntas por e-mail. Se concluído neste ano, o pacote de cinco obras de emergência em que a Sabesp está investindo seria suficiente para evitar o racionamento, segundo a empresa.

Reservatório principal

Sem os projetos, e se as chuvas ficarem no nível do ano passado ou abaixo dele, a Sabesp projeta que seu reservatório principal – conhecido como Cantareira – poderá secar até agosto, segundo projeções internas obtidas pela Bloomberg News.

No pior cenário previsto pela empresa, poderá haver cortes no abastecimento de água na maior parte da área metropolitana de São Paulo cinco dias por semana, segundo o documento, que foi preparado como parte de um plano de contingência para São Paulo.

A Sabesp disse no e-mail que as chuvas, até agora, têm sido positivas. Para acelerar os investimentos de emergência agora, a Sabesp está cortando gastos e aumentando os preços da água. A empresa reduzirá os gastos com coleta e tratamento de esgoto pela metade neste ano, disseram executivos em uma teleconferência com investidores em abril. O aumento de tarifa reflete o “estresse financeiro” da Sabesp, disse o diretor financeiro Rui Affonso na conferência.

Queda das ações

As ações da Sabesp caíram 4,8 por cento na segunda-feira, pior desempenho das negociações em São Paulo, depois que a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) afirmou ter entrado com uma liminar para impedir o aumento de tarifa.

“A seca do ano passado será totalmente sentida nos resultados deste ano”, disse Alexandre Montes, analista de ações da Lopes Filho Associados Consultores de Investimentos, em entrevista por telefone, do Rio. “Mesmo se a seca diminuir agora, e mesmo se tudo sair bem, os resultados da Sabesp vão cair”.

(Revista Exame)

Cemaden faz nova projeção da reserva do Cantareira no período de seca (MCTI/Cemaden)

Levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais indica chuvas e reservas abaixo da média histórica até dezembro

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI) aponta no último relatório, publicado na quarta-feira (27), as situações críticas do Reservatório do Sistema Cantareira, indicando chuvas e reservas abaixo da média histórica, até dezembro deste ano.

Essa situação ocorrerá mesmo com a inclusão dos dados da diminuição da captação de água do reservatório, prevista para os meses de setembro até novembro, anunciada pelo Comunicado Conjunto da Agência Nacional de Água (ANA) e do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), na última semana de maio.

Com base nas redes pluviométricas do Cemaden e do DAEE, cobrindo as sub-bacias de captação do Sistema Cantareira, durante o período de outubro de 2014 a março de 2015, a precipitação média espacial acumulada foi de 879 milímetros (mm), equivalente a 73,5% da média climatológica, registrada em 1.161 mm para o mesmo período.

A precipitação média espacial acumulada no mês de abril de 2015 foi de 52,4 mm, representando 58,4% da média climatológica do mês, registrado em 89,83 mm. A chuva acumulada no período de 1º até 29 de maio de 2015 foi registrada com uma precipitação média de 55,3 mm, que representa 70,7% do total de chuvas da média histórica do mesmo período, registrada em 78,2 mm. No relatório, também são indicados os valores da precipitação média dos dados da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que têm algumas variações com relação aos dados do Cemaden.

Na situação atual, a vazão média do Sistema Cantareira, ou seja, o cálculo entre o volume de água e o seu reabastecimento com as chuvas, está abaixo da média climatológica. A vazão média afluente ao Sistema Cantareira no mês de maio foi de 14,02 metros cúbicos por segundo (m3/s), ou seja, 63,4% abaixo da vazão média mensal de 38,27 m3/s. Também está abaixo da vazão mínima histórica de 19,90 m3/s, representando apenas 29,5% do total da média histórica.

Projeções

O relatório do cenário hídrico do Sistema Cantareira, divulgado, periodicamente, desde janeiro de 2015, tem os cálculos das projeções da vazão afluente no modelo hidrológico, implementado pelo Cemaden, com base na previsão de chuva do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe para sete dias. A partir do oitavo dia, são apresentadas projeções com base em cinco cenários de chuvas (na média histórica, 25% e 50% abaixo e acima da média). Finalmente, considerando um cenário de extração ou captação de água do Sistema Cantareira são obtidas as projeções da evolução do armazenamento.

No último relatório, considerou-se a extração total do Sistema Cantareira igual a 17,0 m³ por segundo no período de 1º de junho a 31 de agosto e também no mês de dezembro de 2015. No período de 1º de setembro a 30 de novembro, considerou-se a captação de água dos reservatórios igual a 13,5 m³ por segundo.

No cenário de precipitações pluviométricas na média climatológica, no final da estação seca, início de outubro, o volume armazenado seria de 188,66 milhões de m3, aproximadamente. “Esse volume armazenado representa 14,9% da reserva total do Cantareira, ou seja, a soma do volume útil e os dois volumes mortos, com o total estimado em 1.269,5 milhões de m³”, destaca a hidróloga do Cemaden Adriana Cuartas, responsável pelo relatório do Cantareira.

Nesse cenário de precipitações dentro da média histórica, no dia 1º de dezembro de 2015, o volume armazenado seria, aproximadamente, de 227,72 milhões de m³, que representaria 17,9% do volume da reserva total do Cantareira.

Para um cenário de precipitações pluviométricas iguais à média climatológica, o chamado volume morto 1 seria recuperado ao longo da última semana de dezembro, aproximadamente. Considerando o cenário de chuvas 25% acima da média climatológica, o volume morto 1 seria recuperado na última semana de novembro.

Acesse o documento.

(MCTI, via Cemaden)

Presidente de CPI defende que prefeitura de SP aplique multas à Sabesp (Estadão)

Em São Paulo

13/05/201515h19

11.mai.2015 - Carroceria de veículo fica visível na margem da represa Jaguari-Jacareí, no interior de São Paulo, devido ao baixo nível das águas

11.mai.2015 – Carroceria de veículo fica visível na margem da represa Jaguari-Jacareí, no interior de São Paulo, devido ao baixo nível das águas. Pablo Schettini/Futura Press/Futura Press/Estadão Conteúdo

O presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Sabesp na Câmara Municipal de São Paulo, vereador Laércio Benko (PHS), afirmou nesta quarta (13) que a comissão defenderá uma posição mais efetiva da prefeitura de São Paulo em relação à aplicação de multas contra a Sabesp. A companhia de saneamento comandada pelo governo paulista cortou o fornecimento sem aviso prévio, enfrenta dificuldades na atividade de recapeamento de ruas após obras realizadas e ainda despeja esgoto em mananciais, segundo ele.

“Temos que fazer com que Sabesp devolva à Prefeitura, através de multas, aquilo que ela não praticou. Temos que propor penalidades ao prefeito, e também cobrar dele que a prefeitura realize a regularização dos nossos mananciais onde há ocupação indevida”, afirmou Benko, após o encerramento da sessão de hoje da CPI da Sabesp.

O relatório que está sendo elaborado pelo vereador Nelo Rodolfo (PMDB) também cita outra medida importante que deve ser levada à avaliação dos vereadores que compõem a CPI. Ele defende a criação de uma agência reguladora municipal, nos mesmos moldes da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp), esta estadual. “Mas ainda quero pensar mais sobre essa questão, para não estarmos apenas criando mais uma autarquia”, disse.

Benko reforçou, após a sessão da CPI, a contrariedade em relação ao fato de a Sabesp ser uma empresa listada em Bolsa. Durante a sessão, que contou com a presença do presidente da Sabesp, Jerson Kelman, o vereador criticou a distribuição de dividendos em um momento no qual a companhia precisa fazer investimentos para garantir o abastecimento de água.

Kelman rebateu a afirmação alegando que a Sabesp, por ser uma empresa aberta, deve respeitar a legislação e distribuir o equivalente a 25% do lucro líquido anual, o que foi proposto para 2015. Benko classificou com um “tapa na cara do cidadão paulistano” a distribuição de dividendos em um momento como o atual.

O vereador chegou a propor que a Sabesp fizesse provisões para recursos a serem destinados a obras, mas a possibilidade foi descartada pelo presidente da companhia de saneamento. “A provisão é um detalhe contábil. Para garantirmos investimentos em nosso planejamento plurianual, é preciso que tenhamos lucro para poder investir”, disse Kelman após a sessão.

O relatório do vereador Rodolfo também deve levantar a possibilidade de o contrato entre Sabesp e a prefeitura de São Paulo ser reavaliado. Nesse caso, pondera Benko, a grande dúvida estaria em quem assumiria o trabalho de saneamento feito pela Sabesp. O presidente da CPI afirmou que ainda não há convergência em relação ao pré-relatório elaborado pelo colega do PMDB. As atividades da CPI serão encerradas no próximo dia 29 de maio e o relator tem um prazo de até 15 dias, após essa data, para a conclusão do documento.

Responsabilidade

Questionado sobre a não convocação do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, à CPI da Sabesp, Benko ressaltou que a comissão convocou aqueles que eram considerados os principais envolvidos no processo: Kelman e a ex-presidente da Sabesp, Dilma Pena. “Acredito que o governador estava muito mal assessorado pela antiga presidência da Sabesp, e que agora chegou uma pessoa que abriu os olhos de todos”, disse Benko, que disputou a eleição a governador de São Paulo em 2014 contra o governador reeleito Alckmin. O governo de São Paulo é controlador da Sabesp e, como tal, indica o maior número de membros do conselho de administração da companhia de saneamento.

“Após o início do trabalho da CPI, em que nós desmascaramos a Dilma Pena, mostramos que ela estava administrando a Sabesp de uma forma péssima e foi trocada a presidência da Sabesp, as coisas começaram a funcionar”, disse. “Mas não estou dizendo que o governador não tenha responsabilidade, nem que ele tenha”, complementou. Benko disse que os vereadores podem entrar com ação popular, medida que pode ser feita por qualquer cidadão, e criticou a ausência do procurador geral do Estado às sessões da CPI.

Em relação à situação de abastecimento da cidade neste momento, o presidente da CPI destacou que não há um rodízio, mas sim a redução da pressão, o que afeta o abastecimento principalmente na região Norte do município, atendida pelo sistema Cantareira. “Precisamos torcer para a chuva. Rodízio eu acredito que não vai haver, mas a falta de água vai se agravar”, previu Benko.

Torneiras secam em São Paulo. Nível baixo do reservatório Atibainha, do sistema Cantareira, é percebido pela marca de água na ponte; desmatamento do Rio Amazonas, a centenas de quilômetros de São Paulo, pode estar contribuindo para a seca. Ao se cortar a floresta, sua capacidade de liberar umidade no ar é reduzida, diminuindo as chuvas no Sudeste Mauricio Lima/The New York Times

Possibilidade de caos social por falta de água em SP mobiliza comando do Exército (Opera Mundi)

Lúcia Rodrigues | São Paulo – 30/04/2015 – 12h43

‘Painel sobre defesa’ organizado pelo Comando Militar do Sudeste tratou possibilidade de capital paulista ficar sem água a partir de julho deste ano como assunto de segurança nacional

Volume morto na represa Jaguari-Jacareí, no Sistema Cantareira, em janeiro desse ano (Mídia Ninja)

Por que o Comando Militar do Sudeste (CMSE) está interessado na crise da falta de água em São Paulo?

A resposta veio na tarde da última terça-feira, 28 de abril, durante o painel organizado pelo Exército, que ocorreu dentro de seu quartel-general no Ibirapuera, zona sul da capital paulista.

Durante mais de três horas de debate, destinado a oficiais, soldados e alguns professores universitários e simpatizantes dos militares que lotaram o auditório da sede do comando em São Paulo, foi se delineando o real motivo do alto generalato brasileiro estar preocupado com um assunto que aparentemente está fora dos padrões de atuação militar.

A senha foi dada pelo diretor da Sabesp, Paulo Massato, que ao lado de Anicia Pio, da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), e do professor de engenharia da Unicamp, Antonio Carlos Zuffo, traçaram um panorama sobre como a crise hídrica está impactando o Estado paulista.

Massato foi claro. Se as obras emergenciais que estão sendo feitas pela companhia não derem resultado e se chover pouco, São Paulo ficará sem água a partir de julho deste ano. O cenário descrito pelo dirigente da Sabesp é catastrófico e digno de roteiro de filme de terror.

“Vai ser o terror. Não vai ter alimentação, não vai ter energia elétrica… Será um cenário de fim de mundo. São milhares de pessoas e o caos social pode se deflagrar. Não será só um problema de desabastecimento de água. Vai ser bem mais sério do que isso…”, enfatiza durante sua intervenção, para na sequência lançar uma súplica de esperança: “Mas espero que isso não aconteça”.

Ele destaca que na região metropolitana de São Paulo vivem 20 milhões de pessoas, quando o ideal seriam quatro milhões. Destas, segundo Massato, três milhões seriam faveladas que furtariam água. “Furtam água ou pegam sem pagar”, conta, arrancando risos da platéia.

Blindagem

Nenhuma crítica, no entanto, foi dirigida ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) pelos presentes durante todo o evento. Apenas uma pessoa se manifestou durante a fala de Massato, afirmando que faltou planejamento estatal. Mas foi interrompido por uma espécie de mestre de cerimônias do comando militar  que ciceroneava o evento,  pedindo que ele deixasse a questão para as perguntas a serem dirigidas aos debatedores. A pergunta não voltou a ser apresentada.

Mas o resultado pela falta de investimento e planejamento do governo paulista já provoca calafrios na cervical do establishment do Estado. As cenas de Itu podem se reproduzir em escala exponencial na região metropolitana de São Paulo. E é contra isso que o Exército quer se precaver.

O dirigente da Sabesp citou um caso que ocorreu na região do Butantã, zona oeste da capital. De acordo com ele, houve uma reação violenta porque a água não chegou em pontos mais altos do bairro. “Não chegou na casa do ‘chefe’, e aí ele mandou incendiar três ônibus. Aqui o pessoal é mais organizado…”

Em sua intervenção, a dirigente da Fiesp, Anícia Pio, frisa que muito se tem falado sobre a crise de abastecimento da população, mas que não se pode desconsiderar o impacto sobre a indústria paulista. “A crise só não foi maior, porque a crise econômica chegou (para desacelerar a produção).”

De acordo com ela, o emprego de milhares de pessoas que trabalham no setor está em risco se houver o agravamento da crise hídrica.

Se depender das projeções apresentadas pelo professor Zuffo, da Unicamp, a situação vai se complicar.  Segundo ele, o ciclo de escassez de água pode durar 20, 30 anos.

Moradores do Jardim Umuarama, em rodízio não oficializado pelo governo de SP (Sarah Pabst)

A empresária destaca ainda que não se produz água em fábricas e que, por isso, é preciso investir no reuso e em novas tecnologias de sustentabilidade. E critica o excesso de leis para o setor, que de acordo com ela é superior a mil.

O comandante militar do Sudeste, general João Camilo Pires de Campos, anfitrião do evento, se sensibilizou com as criticas da representante da Fiesp e prometeu conversar pessoalmente com o presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, deputado Fernando Capez (PSDB),  sobre o excesso de legislação que atrapalha o empresariado.

Ele também enfatiza que é preciso conscientizar a população sobre a falta de água e lamenta a grande concentração populacional na região. “Era preciso quatro milhões e temos 20 milhões…”, afirma se referindo aos números apresentados por Massato.

O general Campos destaca a importância da realização de obras, mas adverte que “não se faz engenharia para amanhã”. E cita para a plateia uma expressão do ex-presidente, e também general do Exército, Ernesto Geisel, para definir o que precisa ser feito. “O presidente Geisel dizia que na época de vacas magras é preciso amarrar o bezerro.”

“Não há solução fácil, o problema é sério”, conclui o comandante.

Sério e, por isso, tratado como assunto de segurança nacional pelo Exército. O crachá distribuído aos presentes pelo Comando Militar do Sudeste trazia a inscrição: Painel sobre defesa.

Ora pois, uma língua bem brasileira (Pesquisa Fapesp)

Análise de textos antigos e de entrevistas expõe as marcas próprias do idioma no país, o alcance do R caipira e os lugares que preservam modos antigos de falar

CARLOS FIORAVANTI | ED. 230 | ABRIL 2015

Estudo para Partida da monção, 1897, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). Os bandeirantes saíam de Porto Feliz rumo ao Centro-Oeste

Estudo para Partida da monção, 1897, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). Os bandeirantes saíam de Porto Feliz rumo ao Centro-Oeste

A possibilidade de ser simples, dispensar elementos gramaticais teoricamente essenciais e responder “sim, comprei”, quando alguém pergunta “você comprou o carro?”, é uma das características que conferem flexibilidade e identidade ao português brasileiro. A análise de documentos antigos e de entrevistas de campo ao longo dos últimos 30 anos está mostrando que o português brasileiro já pode ser considerado único, diferente do português europeu, do mesmo modo que o inglês americano é distinto do inglês britânico. O português brasileiro ainda não é, porém, uma língua autônoma: talvez seja – na previsão de especialistas, em cerca de 200 anos – quando acumular peculiaridades que nos impeçam de entender inteiramente o que um nativo de Portugal diz.

A expansão do português no Brasil, as variações regionais com suas possíveis explicações, que fazem o urubu de São Paulo ser chamado de corvo no Sul do país, e as raízes das inovações da linguagem estão emergindo por meio do trabalho de cerca de 200 linguistas. De acordo com estudos da Universidade de São Paulo (USP), uma inovação do português brasileiro, por enquanto sem equivalente em Portugal, é o Rcaipira, às vezes tão intenso que parece valer por dois ou três, como em porrrta ou carrrne.

Associar o R caipira apenas ao interior paulista, porém, é uma imprecisão geográfica e histórica, embora o R desavergonhado tenha sido uma das marcas do estilo matuto do ator Amácio Mazzaropi em seus 32 filmes, produzidos de 1952 a 1980. Seguindo as rotas dos bandeirantes paulistas em busca de ouro, os linguistas encontraram o Rsupostamente típico de São Paulo em cidades de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e oeste de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul, formando um modo de falar similar ao português do século XVIII. Quem tiver paciência e ouvido apurado poderá encontrar também na região central do Brasil – e em cidades do litoral – o S chiado, uma característica hoje típica do falar carioca que veio com os portugueses em 1808 e era um sinal de prestígio por representar o falar da Corte. Mesmo os portugueses não eram originais: os especialistas argumentam que o Schiado, que faz da esquina uma shquina, veio dos nobres franceses, que os portugueses admiravam.

A história da língua portuguesa no Brasil está trazendo à tona as características preservadas do português, como a troca do L pelo R, resultando em pranta em vez deplanta. Camões registrou essa troca em Os lusíadas – lá está um frautas no lugar de flautas – e o cantor e compositor paulista Adoniran Barbosa a deixou registrada em diversas composições, em frases como “frechada do teu olhar”, do samba Tiro ao Álvaro. Em levantamentos de campo, pesquisadores da USP observaram que moradores do interior tanto do Brasil quanto de Portugal, principalmente os menos escolarizados, ainda falam desse modo. Outro sinal de preservação da língua identificado por especialistas do Rio de Janeiro e de São Paulo, dessa vez em documentos antigos, foi a gente ou as gentes como sinônimo de “nós” e hoje uma das marcas próprias do português brasileiro.

Célia Lopes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontrou registros de a gente em documentos do século XVI e, com mais frequência, a partir do século XIX. Era uma forma de indicar a primeira pessoa do plural, no sentido de todo mundo com a inclusão necessária do eu. Segundo ela, o emprego de a gente pode passar descompromisso e indefinição: quem diz a gente em geral não deixa claro se pretende se comprometer com o que está falando ou se se vê como parte do grupo, como em “a gente precisa fazer”. Já o pronome nós, como em “nós precisamos fazer”, expressa responsabilidade e compromisso. Nos últimos 30 anos, ela notou, a gente instalou-se nos espaços antes ocupados pelo nós e se tornou um recurso bastante usado por todas as idades e classes sociais no país inteiro, embora nos livros de gramática permaneça na marginalidade.

Linguistas de vários estados do país estão desenterrando as raízes do português brasileiro ao examinar cartas pessoais e administrativas, testamentos, relatos de viagens, processos judiciais, cartas de leitores e anúncios de jornais desde o século XVI, coletados em instituições como a Biblioteca Nacional e o Arquivo Público do Estado de São Paulo. A equipe de Célia Lopes tem encontrado também na feira de antiguidades do sábado da Praça XV de Novembro, no centro do Rio, cartas antigas e outros tesouros linguísticos, nem sempre valorizados. “Um estudante me trouxe cartas maravilhosas encontradas no lixo”, ela contou.

Sem título da série Estudo para bandeirantes, sem data, de Henrique Bernardelli, (Acervo Pinacoteca do Estado de SP) paulistas expandiram a língua portuguesa conquistando  outras regiões

De vossa mercê para 
Os documentos antigos evidenciam que o português falado no Brasil começou a se diferenciar do europeu há pelo menos quatro séculos. Uma indicação dessa separação é o Memórias para a história da capitania de São Vicente, de 1793, escrito por frei Gaspar da Madre de Deus, nascido em São Vicente, e depois reescrito pelo português Marcelino Pereira Cleto, que foi juiz em Santos. Comparando as duas versões, José Simões, da USP, encontrou 30 diferenças entre o português brasileiro e o europeu. Uma delas é encontrada ainda hoje: como usuários do português brasileiro, preferimos explicitar os sujeitos das frases, como em “o rapaz me vendeu o carro, depois ele saiu correndo e ao atravessar a rua ele foi atropelado”. Em português europeu, seria mais natural omitir o sujeito, já definido pelo tempo verbal – “o rapaz vendeu-me o carro, depois saiu a correr…” –, resultando em uma construção gramaticalmente impecável, embora nos soe um pouco estranha.

Um morador de Portugal, se lhe perguntarem se comprou um carro, responderá com naturalidade “sim, comprei-o”, explicitando o complemento do verbo, “mesmo entre falantes pouco escolarizados”, observa Simões. Ele nota que os portugueses usam mesóclise – “dar-lhe-ei um carro, com certeza!” –, que soaria pernóstica no Brasil. Outra diferença é a distância entre a língua falada e a escrita no Brasil. Ninguém fala muito, mas muinto. O pronome você, que já é uma redução de vossa mercê e de vosmecê, encolheu ainda mais, para , e grudou no verbo: cevai?

“A língua que falamos não é a que escrevemos”, diz Simões, com base em exemplos como esses. “O português escrito e o falado em Portugal são mais próximos, embora também existam diferenças regionais.” Simões complementa as análises textuais com suas andanças por Portugal. “Há 10 anos meus parentes de Portugal diziam que não entendiam o que eu dizia”, ele observa. “Hoje, provavelmente por causa da influência das novelas brasileiras na televisão, dizem que já estou falando um português mais correto.”

“Conservamos o ritmo da fala, enquanto os europeus começaram a falar mais rápido a partir do século XVIII”, observa Ataliba Castilho, professor emérito da USP, que, nos últimos 40 anos, planejou e coordenou vários projetos de pesquisa sobre o português falado e a história do português do Brasil. “Até o século XVI”, diz ele, “o português brasileiro e o europeu eram como o espanhol, com um corte silábico duro. A palavra falada era muito próxima da escrita”. Célia Lopes acrescenta outra diferença: o português brasileiro conserva a maioria das vogais, enquanto os europeus em geral as omitem, ressaltando as consoantes, e diriam tulfón para se referir ao telefone.

Há também muitas palavras com sentidos diferentes de um lado e de outro do Atlântico. Os estudantes das universidades privadas não pagam mensalidade, mas propina. Bolsista é bolseiro. Como os europeus não adotaram algumas palavras usadas no Brasil, a exemplo de bunda, de origem africana, podem surgir situações embaraçosas. Vanderci Aguilera, professora sênior da Universidade Estadual de Londrina (Uel) e uma das linguistas empenhadas no resgate da história do português brasileiro, levou uma amiga portuguesa a uma loja. Para ver se um vestido que acabava de experimentar caía bem às costas, a amiga lhe perguntou: “O que achas do meu rabo?”.

016-023_CAPA_Portugues_230O soldado e a filha do fazendeiro
No acervo de documentos sobre a evolução do português paulista, está uma carta de 1807, escrita pelo soldado Manoel Coelho, que teria seduzido a filha de um fazendeiro. Quando soube, o pai da moça, enfurecido, forçou o rapaz a se casar com ela. O soldado, porém, bateu o pé: não se casaria, como ele escreveu, “nem por bem nem por mar”. Simões estranhou a citação ao mar, já que o quiproquó se passava na então vila de São Paulo, mas depois percebeu: “Olha o Rcaipira! Ele quis dizer ‘nem por bem nem por mal!’”. O soldado escrevia como falava, não se sabe se casou com a filha do fazendeiro, mas deixou uma prova valiosa de como se falava no início do século XIX.

“O R caipira era uma das características da língua falada na vila de São Paulo, que aos poucos, com a crescente urbanização e a chegada de imigrantes europeus, foi expulsa para a periferia ou para outras cidades”, diz Simões. “Era a língua dos bandeirantes.” Os especialistas acreditam que os primeiros moradores da vila de São Paulo, além de porrta, pulavam consoantes no meio das palavras, falando muié em vez de mulher, por exemplo. Para aprisionar índios e, mais tarde, para encontrar ouro, os bandeirantes conquistaram inicialmente o interior paulista, levando seu vocabulário e seu modo de falar. O R exagerado ainda pode ser ouvido nas cidades do chamado Médio Tietê como Santana de Parnaíba, Pirapora do Bom Jesus, Sorocaba, Itu, Tietê, Porto Feliz e Piracicaba, cujos moradores, principalmente os do campo, o pintor ituano José Ferraz de Almeida Júnior retratou, até ser assassinado pelo marido de sua amante em Piracicaba. Os bandeirantes seguiram depois para outras matas da imensa Capitania de São Paulo, constituída em 1709 com os territórios dos atuais estados de São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Rondônia, Tocantins, Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina (ver mapa).

Manoel Mourivaldo Almeida, também da USP, encontrou sinais do português paulista antigo em Cuiabá, a capital de Mato Grosso, que permaneceu com relativamente pouca interação linguística e cultural com outras cidades depois do fim do auge da mineração de ouro, há dois séculos. “O português culto dos séculos XVI ao XVII tinha um Schiado”, conclui Almeida. “Os paulistas, quando foram para o Centro-Oeste, falavam como os cariocas hoje!” O ator e diretor teatral cuiabano Justino Astrevo de Aguiar reconhece a herança paulista e carioca, mas considera um traço mais evidente do falar local o hábito de acrescentar um J ou um T antes ou no meio das palavras, como em djeitocadju ou tchuva, uma característica da pronúncia típica do século XVII, que Almeida identificou também entre moradores de Goiás, Minas Gerais, Maranhão e na região da Galícia, na Espanha.

Almeida apurou o ouvido para as variações do português no Brasil por conta de sua própria história. Filho de portugueses, nasceu em Piritiba, interior da Bahia, saiu de lá aos 7 anos, morou em Jaciara, interior de Mato Grosso, e depois 25 anos em Cuiabá, foi professor da universidade federal e se mudou para São Paulo em 2003. Ele reconhece que fala como paulista nos momentos mais formais – embora prefira falar éxtra em vez de êxtra como os paulistas –, mas quando descontrai assume o ritmo de falar baiano e o vocabulário matogrossense. Ele estuda o modo de falar cuiabano desde 1991, por sugestão de um colega professor, Leônidas Querubim Avelino, especialista em Camões, que havia verificado sinais do português arcaico por lá. Avelino lhe contou que um roceiro cego de Livramento, a 30 quilômetros de Cuiabá, comentou que ele estava “andando pusilo”, no sentido de fraco. Avelino reconheceu uma forma reduzida de pusilânime, que não era mais usada em Portugal.

“Os moradores de Cuiabá e de algumas outras cidades, como Cáceres e Barão de Melgado, em Mato Grosso, e Corumbá, em Mato Grosso do Sul, preservam o português paulista do século XVIII mais do que os próprios paulistas. Paulistas do interior e também da capital hoje falam dia, com um d seco, enquanto na maior parte do Brasil se diz djia”, observou Almeida. “O modo de falar pode mudar dependendo do acesso à cultura, da motivação e da capacidade de perceber e articular sons de modo diferente. Quem procurar nos lugares mais distantes dos grandes centros urbanos vai encontrar sinais de preservação do português antigo.”

Rua 25 de março, 1894, de Antonio Ferrigno (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). A cidade de São Paulo tinha um sotaque próprio

Rua 25 de março, 1894, de Antonio Ferrigno (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). A cidade de São Paulo tinha um sotaque próprio

De 1998 a 2003, uma equipe coordenada por Heitor Megale, da USP, seguiu a rota das bandeiras do século XVI em busca de traços da língua portuguesa antiga que tenham permanecido ao longo de quatro séculos. As entrevistas com moradores com 60 anos a 90 anos de quase 40 cidades ou povoados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso trouxeram à tona termos esquecidos como mamparra(fingimento) e mensonha (mentira), uma palavra de um dos poemas de Francisco de Sá de Miranda do século XV, treição, usada no interior de Goiás no sentido de surpresa, e termos da linguagem popular ainda usados em Portugal, como despoispercisão e tristura, comuns no sul de Minas. O que parecia anacronismo ganhou valor. Dizer sancristia em vez de sacristia não era um erro, “mas uma influência preservada do passado, quando a pronúncia era assim”, relatou o Jornal da Manhã, de Paracatu, Minas, em 20 de dezembro de 2001.

Ao norte, a língua portuguesa expandiu-se para o interior a partir da cidade de Salvador, que foi a capital do Brasil Colônia durante três séculos. Salvador era também um centro de fermentação da língua, por receber multidões de escravos africanos, que aprendiam o português como língua estrangeira, mas também ofereciam seu vocabulário, ao qual já haviam se somado as palavras indígenas.

Para impedir que a língua de Camões se desfigurasse ao cruzar com os dialetos nativos, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, secretário de Estado do reino, resolveu agir. Em 1757, Pombal expulsou os jesuítas, entre outras razões de ordem política, porque estavam ensinando a doutrina cristã em língua indígena, e, por decreto, fez do português a língua oficial do Brasil. O português se impôs sobre as línguas nativas e ainda hoje é a língua oficial, embora os linguistas alertem que não possa ser chamada de nacional por causa das 180 línguas indígenas faladas no país (eram 1.200, estima-se, quando os portugueses chegaram). A miscigenação linguística, que reflete a mistura de povos formadores do país, explica em boa parte as variações regionais de vocabulário e de ritmos, sintetizadas em um mapa dos falares do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo. É fácil encontrar variações em um mesmo estado: os moradores do norte de Minas falam como os baianos, os da região central mantêm o autêntico mineirês, no sul a influência paulista é intensa e a leste o modo de falar assemelha-se ao sotaque carioca.

A pandorga e o bigato
Há 10 anos um grupo de linguistas estuda um dos resultados da miscigenação linguística: os diferentes nomes com que um mesmo objeto pode ser chamado, registrados por meio de entrevistas com 1.100 pessoas em 250 localidades. Brasil afora, o brinquedo feito de papel e varetas que se empina ao vento por meio de uma linha é chamado de papagaio, pipa, raia ou pandorga – ou ainda coruja em Natal e João Pessoa –, de acordo com o primeiro volume do Atlas linguístico do Brasil, publicado em outubro de 2014 com os resultados das entrevistas nas capitais (Editora UEL). Já o aparelho com luzes vermelha, amarela e verde usado em cruzamentos de ruas para regular o trânsito é chamado apenas de sinal no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte e também de semáforo nas capitais do Norte e Nordeste. Goiânia registrou os quatro nomes para o mesmo objeto: sinal, semáforo, sinaleiro e farol.

Começa agora a busca de explicações para essas diferenças. “Onde nasci, em Sertanópolis, a 42 quilômetros de Londrina”, disse Vanderci Aguilera, uma das coordenadoras do Atlas, “chamamos bicho de goiaba de bigato por influência dos colonizadores, que eram imigrantes italianos vindos do interior paulista”. Segundo ela, os moradores dos três estados do Sul chamam urubu de corvo por influência dos europeus, enquanto os do Sudeste mantiveram o nome tupi, urubu.

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP).No final do século XIX o pronome você já era mais formal que o tu

Cena de família de Adolfo Augusto Pinto, 1891, de Almeida Júnior (Acervo Pinacoteca do Estado de SP). No final do século XIX o pronome você já era mais formal que o tu

Cada estado – ou região – tem seu próprio patrimônio linguístico, que deve ser respeitado, enfatizam os especialistas. Os professores de português, alerta Vanderci, não deveriam repreender os alunos por chamarem beija-flor de cuitelo, como é comum no interior do Paraná, nem recriminar os que dizem carochurascoou baranco, como é comum entre os descendentes de poloneses e alemães no Sul, mas ensinar outras formas de falar e deixar a meninada se expressar como quiser quando estiver com a família ou com os amigos. “Ninguém fala errado”, ela enfatiza. “Todo mundo fala de acordo com sua história de vida, com o que foi transmitido pelos pais e depois modificado pela escola. Nossa fala é nossa identidade, não temos por que nos envergonhar.”

A diversidade do português brasileiro é tão grande que, apesar do empenho dos locutores de telejornais de alcance nacional em tentar criar uma língua neutra, despida de sotaques locais, “não há um padrão nacional”, assegura Castilho. “Há diferenças de vocabulário, gramática, sintaxe e pronúncia mesmo entre pessoas que adotam a norma culta”, diz ele. Insatisfeito com as teorias importadas, Castilho criou a abordagem multissistêmica da linguagem, segundo a qual qualquer expressão linguística mobiliza simultaneamente quatro planos (léxico, semântica, discurso e gramática), que deveriam ser vistos de modo integrado e não mais separadamente. Ao lado de Verena Kewitz, da USP, ele tem debatido essa abordagem com estudantes de pós-graduação e com outros especialistas do Brasil e no exterior.

Também está claro que o português brasileiro se refaz continuamente. As palavras podem morrer ou ganhar novos sentidos. Almeida contou que Celciane Vasconcelos, uma das estudantes de seu grupo, verificou que somente os moradores mais antigos do litoral paranaense conheciam a palavra sumaca, um tipo de barco antes comum, que hoje não se constrói mais, tirando a antiga serventia da palavra que hoje nomeia uma praia em Paraty (RJ). Os modos antigos de falar podem ressurgir. O R caipira, asseguram os linguistas, está voltando, até mesmo em São Paulo, e readquirindo status, na esteira dos cantores de música sertaneja. “Hoje ser caipira é chique”, assegura Vanderci. Ou ao menos é aceitável e parte do estilo pessoal, como o da apresentadora de TV Sabrina Sato.

Bilhetes de amor
Os linguistas têm notado a expansão do tratamento informal. “Tenho 78 anos e devia ser tratado por senhor, mas meus alunos mais jovens me tratam por você”, diz Castilho, aparentemente sem se incomodar com a informalidade, inconcebível em seus tempos de estudante. O você, porém, não reinará sozinho. Célia Lopes, com sua equipe da UFRJ, verificou que o tu predomina em Porto Alegre e convive com o você no Rio de Janeiro e em Recife, enquanto você é o tratamento predominante em São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador. O tu já era mais próximo e menos formal que vocênas quase 500 cartas do acervo on-line da UFRJ, quase todas de poetas, políticos e outras personalidades do final do século XIX e início do XX.

Como ainda faltava a expressão do falar das pessoas comuns, Célia e sua equipe exultaram ao encontrar 13 bilhetes escritos em 1908 por Robertina de Souza para seu amante e para seu marido. Esse material era parte de um processo-crime movido contra o marido, que expulsou de sua casa um amigo e a própria mulher ao saber que tinham tido um caso extraconjungal e depois matou o ex-amigo. Em um dos 11 bilhetes para o amante, Álvaro Mattos, Robertina, que assinava como Chininha, escreveu: “Eu te adoro te amo até a morte sou tua só tu é meu só o meu coracao e teu e o teu coracao é meu. Chininha e todinha tua ate a morte”. Já o marido, Arthur Noronha, que recebeu apenas dois bilhetes, ela tratava de modo mais formal: “Eu rezo pedindo a Deus para você me perdoar, mas creio que voce não tem coragem de ver morrer um filho o filha”. E mais adiante: “Não posso me separar de voce e do meu filho a não ser com a morte”. Não se sabe se ela voltou para casa, mas o marido foi absolvido, por alegar que matou o outro homem em defesa da honra.

Outro sinal da evolução do português brasileiro são as construções híbridas, com um verbo que não concorda mais com o pronome, do tipo tu não sabe?, e a mistura dos pronomes de tratamento você e tu, como em “se você precisar, vou te ajudar”. Os portugueses europeus poderiam alegar que se trata de mais uma prova de nossa capacidade de desfigurar a língua lusitana, mas talvez não tenham tanta razão para se queixar. Célia Lopes encontrou a mistura de pronomes de tratamento, que ela e outros linguistas não consideram mais um erro, em cartas do marquês do Lavradio, que foi vice-rei do Brasil de 1769 a 1796, e, mais de dois séculos depois, em uma entrevista do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Projeto
Projeto de história do português paulista (PHPP – Projeto Caipira) (nº 11/51787-5); Modalidade Projeto Temático; Pesquisador responsável Manoel Mourivaldo Santiago Almeida(USP); Investimento R$ 87.372,10 (FAPESP).

Alckmin descarta repor volume morto até abril (Estadão)

Fabio Leite e Lucas Sampaio – O Estado de S. Paulo

31 Março 2015 | 03h 00

Pela primeira vez, governo admite que chuvas não vão tirar o Sistema Cantareira da dependência da reserva profunda

SÃO PAULO – Mesmo com as chuvas acima da média em fevereiro e março, o Sistema Cantareira não vai conseguir recuperar totalmente o volume morto até o fim de abril, admitiu pela primeira vez o governo Geraldo Alckmin (PSDB). Projeção feita pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) revela que o principal manancial paulista deve encerrar o próximo mês com nível 6% abaixo de zero, ou seja, ainda na reserva profunda.

“Poderemos atingir um total armazenado em torno de 420 bilhões de litros, ao fim de abril, 65 bilhões de litros abaixo do ‘zero’ do volume útil por gravidade”, afirmou o superintendente do DAEE, Ricardo Borsari, em ofício encaminhado ao presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, no dia 20 deste mês.

O volume de água é o mesmo registrado em 21 de agosto do ano passado. Os dois órgãos são responsáveis pela gestão conjunta do Sistema Cantareira.

Sistema Cantareira abastece 5,6 milhões 

Sistema Cantareira abastece 5,6 milhões

O manancial, formado por quatro represas, tem 1,47 trilhão de litros, dos quais 982 bilhões fazem parte do volume útil, porque ficam acima do nível dos túneis de captação e podem ser retirados por gravidade, e 485 bilhões, do volume morto, que só podem ser captados por bombas. Destes, 287,5 bilhões de litros foram liberados em duas cotas para a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) abastecer a região metropolitana, onde 5,6 milhões de pessoas ainda dependem da água do sistema.

Nesta segunda-feira, 30, o Cantareira operava com 18,9% da capacidade, segundo a Sabesp, que inclui as duas cotas do volume morto no cálculo. Na prática, contudo, o nível estava em -10,4%, se considerada a quantidade de água da reserva profunda usada como negativo, como quer o Ministério Público Estadual (MPE). No sábado, o Estado mostrou que o sistema tem atualmente 57% menos água do que há um ano, déficit de 243 bilhões de litros.

O documento faz parte das negociações entre a ANA, do governo Dilma Rousseff, e o DAEE, do governo Alckmin, para definir a retirada de água do Cantareira. Por causa das discordâncias entre os órgãos, desde 15 de março o manancial é operado pela Sabesp sem uma regra estabelecida.

O presidente da agência federal quer definir uma metodologia de operação e metas futuras de armazenamento até 30 de novembro.

No ofício, Borsari diz que a projeção considera a manutenção das atuais condições de entrada de água (60% das médias mensais históricas) e retirada (10 mil litros por segundo), como ocorre desde fevereiro. Neste cenário, o volume morto só será recuperado no dia 22 de julho, segundo o simulador lançado em janeiro pelo Estado.

Justiça. Em ação civil movida em 2014, o MPE pede que os gestores do Cantareira e da Sabesp operem o manancial para que ele chegue ao fim de abril com 10% positivos, mesmo índice registrado em 30 de abril do ano passado. O governo Alckmin afirma que essa meta é impossível de ser atingida.

Após duas liminares terem sido concedidas e depois derrubas pela Justiça, o juiz federal Wilson Zauhy Filho decidiu, na semana passada, suspender o processo até o dia 11 de maio, quando o DAEE se comprometeu a entregar, em juízo, os estudos da proposta que será feita pela Sabesp para a renovação da outorga do Sistema Cantareira e as respostas às propostas feitas pela ANA para a gestão do manancial durante a crise.

‘Escolha foi respeitar rito ambiental ou fornecer água’, diz secretário de SP (Folha de S.Paulo)

[Detalhe para o uso da palavra “rito”]

FABRÍCIO LOBEL
GUSTAVO URIBE
DE SÃO PAULO
EDUARDO SCOLESE
EDITOR DE “COTIDIANO”

30/03/2015  03h00

Em meio à pior crise de abastecimento enfrentada pela Grande SP, o secretário estadual Benedito Braga (Recursos Hídricos) diz que a gestão Geraldo Alckmin (PSDB) teve de escolher: levar água para a população no período de seca ou respeitar o rito ambiental tradicional para dar andamento a obras emergenciais.

Foi escolhida a primeira opção, de acordo com ele.

“Se fossem respeitados os ritos, não teríamos condições de prover essa água à população em julho [de 2015]”, afirma o secretário, que diz que deverão ser usados “atalhos” para cumprir as exigências.

Em entrevista à Folha, o secretário, que assumiu a pasta em janeiro em meio à crise de abastecimento, avaliou como muito reduzidas as chances de um rodízio de água neste ano.

Para Braga, que é professor de engenharia hidráulica da USP e presidente do Conselho Mundial da Água, as pessoas que torcem pelo rodízio querem ver uma “situação realmente ruim” em SP.

Entre as principais obras emergenciais previstas para este ano está a ligação entre dois mananciais, o Rio Grande e o Alto Tietê. Outras deverão reverter rios da Serra do Mar, alguns em área de Mata Atlântica, para abastecer os reservatórios da Grande SP.

Karime Xavier/Folhapress
O secretário estadual Recursos Hídricos Benedito Braga (Recursos Hídricos)
O secretário estadual de Recursos Hídricos, Benedito Braga, durante entrevista à Folha

*

Folha – Um rodízio neste ano está completamente descartado em São Paulo?

Benedito Braga – Em função das condições que prevalecem nos nossos sistemas de armazenamento, as chances de termos um rodízio são bastante baixas –e nós estamos trabalhando da forma mais conservadora possível, não fazendo hipóteses de que vamos ter grandes chuvas daqui para frente.

É importante observar que, depois dessa crise, não temos uma condição de previsibilidade [de chuvas] muito boa, como tínhamos antes.

Então, não podemos garantir que não vamos ter rodízio. Temos tudo preparado para tomar as decisões dependendo da condição do clima que prevalecer neste ano. Tudo vai depender de como vem a estação seca [de abril a setembro].

Qual deve ser o custo da crise neste ano para a população?

O custo não será diferente do que está sendo agora. Durante este ano, nós teremos ainda que adotar medidas de redução de pressão que incomodam as pessoas, porque é uma situação fora do normal.

É muito importante termos em conta que a situação que vivemos é muito melhor do que uma situação de rodízio.

Haverá um custo muito menor do que aquele que teríamos se implantássemos o rodízio [interrupção completa do fornecimento de água].

O balanço financeiro da Sabesp relativo a 2014 mostrou que o lucro da empresa caiu pela metade. Essa queda será repassada ao consumidor?

O que houve foi uma queda no lucro [de R$ 1,9 bilhão para R$ 903 milhões]. A redução do lucro era esperada, em função da redução do consumo e da concessão de bônus.

Não tem como repassar para a população, isso é um resultado que tivemos em função da crise da água.

Mas essa queda poderá impactar as obras programadas para este ano?

Não. O custo dessas obras não é exagerado. Há previsão orçamentária e não há atraso nenhum nas obras sob o ponto de vista físico e financeiro.

Pela urgência das obras, a questão ambiental não está sendo atropelada?

Nós temos uma situação em que, se fossem seguidos os ritos tradicionais do setor ambiental, nós não teríamos condições de prover essa água à população em julho.

Então, a questão é uma escolha. O que vocês preferem: seguir o rito ambiental ou trazer água para a população?

O governo fez a escolha?

Fez a escolha de seguir o rito dentro da emergência. E, dentro da emergência, você tem atalhos para o setor ambiental. Tudo está sendo feito dentro da mais absoluta regra da lei e da ordem.

A única coisa é que isso teve que ser feito de uma forma mais rápida. E o rito, dentro dessa forma mais rápida, é diferente das obras tradicionais, em que você tem o relatório de impacto ambiental, audiência pública e assim por diante.

Mas a Cetesb faz todas as análises, (…) e o governo não está fazendo nada fora da lei.

Está sendo feita uma obra de emergência, mas dentro de todos os ritos da lei de licitações e da lei ambiental.

As chuvas recentes fizeram com que o governo estadual recuasse na transparência em relação à crise, como não informar o real risco de um rodízio? Não são os mesmos erros do ano passado?

Não, não há erros nem em 2014 nem em 2015 e não haverá erros em 2016. Trabalhamos com uma boa expectativa de passar este ano, mas nos preparando para o pior, que é um plano de contingência.

Estamos fazendo tudo dentro da mais absoluta técnica. Não existe falta de transparência, porque informamos diariamente a situação dos reservatórios da região metropolitana. Não há nenhuma falta de transparência.

Como o senhor classifica a atual situação?

Nós estamos caminhando para ocupar minimamente o volume morto, o que significa que ainda é uma situação muito difícil. Nós gostaríamos que o reservatório estivesse praticamente cheio.

Mas, com essa reserva que estamos acumulando e com as obras que estamos trazendo, temos a possibilidade de superar a crise, mas não é ainda uma situação confortável.

O sr. disse que não houve erros em 2014. Como eleitor, mesmo fora do cargo, o sr. se sentiu atendido pelas declarações do governo sobre a crise?

As decisões tomadas foram corretas. Em 2014, ainda havia o final do ano como uma época em que normalmente há as chuvas e os reservatórios enchem.

Então, tomar uma medida como o rodízio, como muita gente queria, eu sempre fui publicamente contra. Entraram com o incentivo econômico [bônus para quem economizar], depois com as válvulas redutoras de pressão. E foi tudo muito lógico.

Mas a sobretaxa veio só depois da eleição…

Não quero entrar nesse detalhe de sobretaxa [pagamento adicional para quem extrapolar o consumo médio]. O que estou dizendo é que o que foi feito em 2014 foi certo.

Esse negócio de dizer que o governo errou não está certo. Talvez, as pessoas que insistiram muito em rodízio queriam ver uma situação realmente ruim. Seria fácil fazer o rodízio, é só fechar a manivela. O duro é fazer o que a Sabesp fez: colocar válvulas e sofrer o impacto econômico de colocar o bônus.

Então o sr. acha que ter negado que haveria desabastecimento e que seriam usados os dois volumes mortos foram medidas acertadas?

O resultado foi muito bom. Não tivemos desabastecimento, tivemos 1% da população impactada com as medidas. Portanto não tenho crítica.

Mas há problemas de desabastecimento em alguns bairros na periferia de São Paulo…

Não se pode negar que haja uma crise hídrica. É como em uma guerra dizer: “Você vai me matar com uma uma [arma calibre] 45 ou com uma 22?”. É querer colocar regra em meio a uma situação muito complicada. É querer que todo mundo tenha água quando tivemos um ano de 2014 que teve 50% menos água que a mínima de 1953.

A tarifa hoje é muito barata?

São Paulo tem uma das menores tarifas do Brasil. Tem 21 Estados que praticam tarifas acima da tarifa da Sabesp.

Acho que o custo da água, em função da dificuldade de encontrar novos mananciais e dos custos operacionais… Acho que a tarifa hoje no Estado é aquém do necessário.

A crise traz algum benefício?

Acho que sim. O pessoal no Sudeste não sabia que tinha que fazer a barba abrindo e fechando a torneira. O nordestino já sabia disso há muito tempo. A crise trouxe essa consciência.

Sabesp inicia obras às pressas sem avaliar risco (OESP)

Fabio Leite – O Estado de S. Paulo

15 Março 2015 | 02h 01

Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo desengavetou planos sem ter tempo de estudar impacto ambiental

SÃO PAULO – A busca por novos mananciais para suprir a escassez hídrica a curto prazo e tentar evitar o rodízio oficial de água na Grande São Paulo levou a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) a tirar do papel uma série de projetos engavetados há anos e a executá-los a toque de caixa sem Estudo de Impacto Ambiental (EIA), aprovação em comitês ou decreto de estado de emergência.

Até o momento, são seis obras (uma já concluída) que envolvem transposições entre rios e reservatórios com o objetivo de aumentar a oferta de água para conseguir abastecer 20 milhões de pessoas durante o período seco (que vai de abril a setembro) sem decretar racionamento generalizado. A principal delas é a interligação do Sistema Rio Grande com o Alto Tietê, o segundo manancial mais crítico (21% da capacidade), melhor só que o Cantareira.

Segundo a Sabesp, já foi iniciada a construção de 11 quilômetros de adutora e uma estação de bombeamento para levar até 4 mil litros por segundo da Billings, no ABC, para a Represa Taiaçupeba, em Suzano. A conclusão está prevista para julho. Técnicos do governo Geraldo Alckmin (PSDB) afirmam, contudo, que uma obra desse porte precisaria de EIA, aprovação no Comitê da Bacia do Alto Tietê, além da outorga do Departamento de Águas e Energia Elétrica de São Paulo (DAEE).

A principal das obras é a interligação do Sistema Rio Grande com o Alto Tietê, o segundo manancial mais crítico (21% da capacidade), melhor só que o Cantareira.

A principal das obras é a interligação do Sistema Rio Grande com o Alto Tietê, o segundo manancial mais crítico (21% da capacidade), melhor só que o Cantareira.

Com a provável reversão das águas do poluído corpo central da Billings para o Braço Rio Grande, já manifestada pela Sabesp, seria preciso ainda aprovação prévia do Conselho Estadual do Meio Ambiente (Consema) e de outorga da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), já que a represa também fornece água para geração de energia na Usina Henry Borden, em Cubatão. Todo esse trâmite teve de ser seguido para a execução da ligação Billings-Guarapiranga, pelo Braço Taquacetuba, na crise de 2000.

“Ou o governo decreta estado de emergência para tocar as chamadas obras emergenciais sem licitação e estudo de impacto ambiental, com perda de capacidade de concorrência e de participação social, ou então licita e produz os relatórios necessários. Do jeito que está, há uma incoerência brutal”, afirmou o engenheiro Darcy Brega Filho, especialista em gestão de sustentabilidade e ex-funcionário da Sabesp.

Mar. No pacote de obras emergenciais estão a interligação de dois rios de vertente marítima (que deságuam no mar), Itatinga e Capivari, para rios que são afluentes das Represas Jundiaí (Alto Tietê) e Guarapiranga. As duas intervenções recém-anunciadas pela Sabesp já constavam do Plano Diretor de Águas e Abastecimento (PDAA) de 2004 e ficaram engavetadas. Cada uma deve aumentar a vazão dos sistemas em 1 mil litros por segundo e também precisariam de aprovação do Comitê da Bacia da Baixada Santista.

“Sem dúvida, é preciso de obras emergenciais para trazer água para a região metropolitana, mas isso não anula uma avaliação mais acurada desse conjunto de transposições para calcular a eficiência desses projetos e seus efeitos indiretos”, afirmou o especialista em recursos hídricos José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia e vice-presidente do Instituto Acqua.

Um exemplo citado por funcionários do governo sobre a falta de avaliação dos projetos é a construção de 9 quilômetros de adutora para levar 1 mil litros por segundo do Rio Guaió para a Represa Taiaçupeba. As obras começaram em fevereiro e devem ser concluídas em maio, segundo a Sabesp. Técnicos da área afirmam que durante o período de estiagem a vazão média desse rio é de apenas 300 litros por segundo, ou seja, 70% menor do que a pretendida.

Funcionários da Sabesp marcam greve geral (Conta D’Água)

11 de março de 2015

Trabalhadores contestam as demissões que estão ocorrendo na empresa e vão parar as atividades no dia 19 de março. “Os trabalhadores e a população não podem ser penalizados enquanto a Sabesp quer agradar e atender a demanda dos acionistas”, diz presidente do Sintaema

Por SpressoSP

Os funcionários da Companhia de Saneamento Básico de São Paulo (Sabesp) convocaram, na noite de ontem (10), greve geral a partir do dia 19 de março, por tempo indeterminado. A decisão foi tomada em assembleia no Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente de São Paulo (Sintaema).

Foto: Sintame. Em assembléia, centenas de trabalhadores da Sabesp aprovaram greve a partir do dia 19 de março.

O sindicato exige a readmissão dos 400 funcionários pensados pela companhia somente neste ano. “A Sabesp já demitiu 400 e pretende chegar aos 600, não podemos admitir isso. Os trabalhadores são essenciais em todas as situações, e principalmente em um momento como este de crise hídrica”, disse o presidente do Sintaema, Rene Vicente, durante o encontro.

“Somos totalmente contra qualquer demissão. Os trabalhadores e a população não podem ser penalizados enquanto a Sabesp quer agradar e atender a demanda dos acionistas”, concluiu.

Na última semana, a Sabesp iniciou um plano de reestruturação em seu quadro pessoal. De acordo com o Sintaema, 300 dispensas já haviam sido homologadas em todo o estado, sendo 70% na área operacional da empresa.

California’s terrifying climate forecast: It could face droughts nearly every year (Washington Post)

March 2 2015

Not long ago, scientists at NASA and two major universities warned of an inevitable “megadrought” that will parch the southwestern United States for 35 years, starting around 2050. By then, a new study says, Californians should be fairly accustomed to long, harsh and dry conditions.

Over the past 15 years, temperatures have been rising in the Golden State, resulting in annual periods of extreme and blazing heat, while the cycle of low and moderate precipitation cycles have not changed since 1977. That means that it’s far more likely that extreme heat years will coincide with dry years.

[NASA: A ‘megadrought’ will grip U.S. in the coming decades]

That’s a recipe for drought, the authors said. Mix searing heat with little to no rain and snow, then bake.

Unlike other climate studies that sound an alarm for impact far into the future, the Stanford University study led by associate professor Noah Diffenbaugh pored through historical data from the U.S. National Climatic Data Center to explain current conditionsand concluded that California should get used to it. It was published Monday afternoon in the journal of the Proceedings of the National Academy of Sciences.

Diffenbaugh and two graduate students at Stanford’s School of Earth, Energy an Environmental Sciences explored the role temperature has played in California’s drought for 120 years. Between 1896 and 1994, climate patterns in the state created a 50 percent chance that a year of extremely warm temperatures would merge with a year of moderately dry conditions. But between 1995 and 2014, extreme temperature years were so common that their chance of combining with dry years increased to 80 percent.

The forecast is negative, but not necessarily the outlook, the authors said. California has opportunities to manage its risks with smart water policies that use precipitation to bank ground water so that farms, which use 77 percent of the state’s water, can survive. The statewide water use is similar to what it was 40 years ago, meaning that even though the population has exploded to 33 million, Californians share about as much water now as they did in the 1970s.

State officials can learn from advanced water management practices already in use in the Middle East in nations such as Saudi Arabia and Israel.

“California was already on the cusp, where 100 percent of the years are not only warm but severely warm,” said Diffenbaugh, a senior fellow at Stanford’s university’s Woods Institute for the Environment. “When a low precipitation year occurs with warm conditions, it’s twice as likely to result in drought.”

[Tropical forests may be vanishing even faster than previously thought]

As part of the study, the researchers also observed the impact of greenhouse gases from human activity — carbon dioxide, nitrous oxide and methane from power plants, vehicles, factories and other sources — on temperature and precipitation, Diffenbaugh said. Graduate students Daniel Swain and Danielle Touma were co-authors for the study.

“A lot of this paper is about greenhouse gas emissions that have already happened,” Diffenbaugh said. “Really what California is experiencing is the cumulative emissions of greenhouse gases globally. And the United States has been responsible for a large fraction. Historically the United States has been responsible for a quarter of the emissions and the European Union another quarter.”

Even if world governments that are sharply divided over the approach to lowering greenhouse gas emissions somehow managed to reach a consensus, California will still feel the heat well into the future, Diffenbaugh said.

[How dust leaves the Sahara and floats to Amazon forest]

California, the nation’s most populous state, is suffering one of its worst droughts ever, fueled by the exact conditions cited  in the study — record-low precipitation and record-high heat. The lowest calendar year of precipitation on record in the state happened between 2013 and 2014, and 2014 was the hottest year in California history.

Earlier scientific research suggests that the extremely dry and hot period between 2012 and 2014 might be the worst in a millennium, the study said. But even that can’t hold a candle to the droughts expected 35 years from now. Scientists at NASA and at Cornell and Columbia universities said climate models used for a study released two weeks ago show 80 percent chance of an extended drought between 2050 and 2099, lasting more than three decades if world governments fail to act aggressively to mitigate the effects of climate change.
North America has experienced so-called megadroughts before, during the 12th and 13th centuries. But those were caused by natural changes in weather patterns that give megadroughts a 10 percent chance of forming at any time. The harsh future drought will be the result of human-caused warming.

An international panel of leading climate scientists said in 2013 that the planet is warming at an accelerated pace and found with 95 percent certainty that human activity is the cause. The past three decades have been the hottest on the planet since 1850. Carbon concentrations in the atmosphere have increased 40 percent since then, and carbon, methane and nitrous oxide are at levels unprecedented in at least 800,000 years.

“With climate change, the likelihood of a megadrought goes up considerably,” said Toby R. Ault, an assistant professor in the department of Earth and atmospheric sciences at Cornell, one of the co-authors. Benjamin I. Cook of NASA’s Goddard Institute for Space Studies and Jason E. Smerdon of  Columbia’s Lamont-Doherty Earth Observatory were the other authors for that study.

After 2050, there is “overwhelming evidence of a dry shift,” Ault said, “way drier than the megadroughts of the 1100s and 1200s.” The cause, Smerdon continued, “is twofold, reductions in rainfall and snowfall. Not just rainfall but soil moisture … and changes in evaporation that dry out the soil much more than normal.”

Leading to the theorized megadrought, California is likely to experience a series of micro droughts, researchers say.

[West’s historic drought stokes fears of water crisis]

A third study published three years ago had similar findings. The research is newly published, but its findings are not dramatically different from similar studies in the past. Beverly Law, a specialist in global change biology at Oregon State University’s College of Forestry, co-authored a study of megadroughts three years ago.
It showed that a drought that affected the American West from 2000 to 2004 compared to conditions seen during the medieval megadroughts. But the predicted megadrought this century would be far worse. Law said the NASA study confirmed her previous findings.

“We took the climate model . . . and compared” two periods, 2050 to 2099 and 1950 to 1999, she said. “What it showed is this big, red blotch over Southern California.”

Carro “símbolo” da falta de água no Cantareira foi roubado há 20 anos em SP (UOL)

Fabiana Maranhão

Do UOL, em São Paulo

03/03/201509h26 Atualizada 03/03/201515h11 

Seca em SP revela carros, construções antigas e lixo

19.fev.2015 – As chuvas que têm atingido São Paulo em fevereiro estão recuperando o nível do sistema Cantareira, que fornece água para 6,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Na montagem, a imagem onde aparece menos água foi feita em dezembro de 2014. Já a foto que mostra a represa mais cheia é deste mês. Com a elevação, carros que surgiram com a seca e não foram retirados voltam a ser encobertos pelas águas Leia mais Estadão Conteúdo

A carcaça de um carro que se tornou uma espécie de símbolo da falta de água no Cantareira, sistema que abastece um terço da população da Grande São Paulo(6,5 milhões de pessoas), foi furtado há 20 anos.

Segundo a SSP (Secretaria de Segurança Pública), após averiguar o número do chassi, a polícia descobriu que o veículo foi furtado em 1995 na cidade de São Paulo.

O caso é investigado pela delegacia de Nazaré Paulista (a 64 km de São Paulo). A polícia ainda não identificou os suspeitos pelo crime.

A carcaça passou a chamar a atenção de quem passava pela região da represa Atibainha, que faz parte do sistema Cantareira, depois que foi grafitada em 2014 pelo artista Mundano. No carro, foi escrito “Bem-vindo ao deserto da Cantareira”, um protesto contra a crise de falta de água.

O veículo foi removido da represa em 25 de fevereiro. Um dia depois, o desenho do carro com a mesma mensagem foi grafitado na pilastra perto de onde a carcaça ficava e que servia de referência para as subidas e quedas do nível do reservatório.

De acordo com a SSP, 31 carros foram retirados do Atibainha desde o ano passado. Levantamento feito pela reportagem do UOL revela que, desde o meio do ano passado, ao menos 83 veículos foram tirados do fundo de reservatórios em São Paulo.

Os primeiros começaram a aparecer em meados de agosto de 2014, à medida que foram caindo os níveis de água das represas de São Paulo por causa da falta de chuva.

Evelson de Freitas/Agência Estado

Grafite em pilastra na represa Atibainha reproduz carro que virou símbolo da seca

Seco e colorido: Grafiteiros vão ao Cantareira em protesto artístico (Conta D’Água)

Em tempos de seca grafiteiros fazem arte-protesto no complexo cantareira e dão medidor de nível de água para a população

Por Henrique Santana, da Revista Vaidapé

2 de março de 2015

Submersos no maior colapso de abastecimento de água da história do Estado de São Paulo, grafiteiros resolveram dar um rolê pela represa de Atibainha, em Nazaré Paulista, para fazer o que sabem melhor: grafitar. A Vaidapé participou da ação do início ao fim e o registro vocês conferem nesta reportagem.

O time foi composto por grandes nomes do graffite da cidade: Thiago Mundano, encabeçador do projeto “Pimp My Carroça”, que estiliza o principal objeto de trabalho dos carroceiros paulistas; Mauro, do movimento Imargem; Enivo, um dos responsáveis pelo polêmico graffite nos Arcos do Jânio, criticado por fazer uma suposta exaltação ao líder venezuelano, Hugo Chavez; Subtu, famoso pelos desenhos de macacos brancos espalhados pela cidade; e Fel, exímio escalador de prédios, que estampa desenhos gigantes edifícios da cidade.

O APARELHO DE MEDIÇÃO

A trupe do spray foi ao Cantareira com o objetivo de fazer um graffite-medidor. As pinturas, realizadas em baixo da ponte da represa de Atibainha , serão usadas de parâmetro para acompanhar o nível da água. “Estamos aqui para ver, de fato, o nível da água do Cantareira, porque não dá para confiar muito no que a gente vê na TV, no que a Sabesb diz, no que dizem nossos governadores. Então a gente veio fazer uma arte para ser um nivelador, para a população que vem aqui também possa acompanhar a situação da água Não é porque cresceu um pouquinho que está bem. O nível está negativo e a gente vai acompanhar por essa arte, que é um jeito de trazer um novo olhar para essa crise hídrica”, explica Mundano.

Torneiras colocadas por Mundano em cactos da represa (Foto: André D’Elia)

Subtu, o famoso pintor de macacos brancos, criticou o desperdício de água e não deixou de lado seu carro chefe, estampando na ponte mais um de seus primatas. “Eu fiz o macaco assim, desperdiçando água, porque o macaco é o ser humano desprovido de inteligência. Então ele é meio burro e tal. É para fazer uma referência a essas pessoas que não se tocaram ainda que a gente está numa crise violenta de água, que continua lavando o carro, que não reutiliza a água. Então é meio que isso, ele tá na ‘gozolândia’, ele tá aqui na Cantareira despejando água da garrafinha”, provoca.

“A gente está aqui hoje, na Cantareira, fazendo o que a gente mais gosta de fazer, que é arte, que é pintar. E hoje tá servindo como um alerta, como uma crítica”, conta Enivo ao falar que a ideia é que os graffites sejam submerso — caso o nível da represa volte a subir.

O protesto artístico surgiu de uma camaradagem que aflorou nas ruas de São Paulo. Apesar dos grafiteiros atuarem em diferentes regiões da cidade, a afinidade entre seus projetos individuais e os roles pelo asfalto quente da terra da garoa fez com que seus caminhos se cruzassem. Enivo pontua que a ação “acaba sendo um encontro de amigos para pintar, mas agora com um porquê”.

ARTE DENTRO E FORA DE CASA

Além do graffite-medidor, a ida para a represa de Atibainha teve outros porquês. Tanto Mundano quanto Mauro irão, no dia 7 de março, inaugurar a exposição “Ver-A-Cidade Mudana”, na galeria A7MA, Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. O nome da mostra faz referência ao trabalho dos dois artistas. A ideia é construir um diálogo entre a arte exposta dentro e fora das galerias. Enivo é um dos sócios da A7MA, que abriu espaço para que artistas independentes consigam vender obras para garantir sua subesistência.

“Para a gente, que é artista, grafiteiro, é um prazer e uma missão poder falar disso, seja nas ruas, seja aqui nesse marco, nesse lugar monumental, importante para a sociedade paulistana. E também poder mostrar isso em um ambiente fechado, relacionando toda essa nossa poética em obras móveis que as pessoas podem olhar, podem até levar para casa. Então, na galeria A7MA, a gente vai fazer está exposição e vai relacionar tudo isso: arte na rua e arte dentro dos espaços”, diz Mauro, que também é idealizador de outros projetos, como o Cartograffiti.

Grafites de Mauro e Mundano, lado a lado na represa de Atibainda (Foto: André D’Elia)

Os artistas também vão abordar temas relativos a crise de abastecimento, levando para a galeria o projeto dos cinco grafiteiros no Cantareira. A arte ganha moldes de protesto e navega de Nazaré Paulista ao centro. Do subúrbio seco aos bairros em que o racionamento não veio.

A arte vai ao sertão paulista e os arredores da terra rachada ganham vida. Enquanto isso, os moradores da ‘gozolândia’ central continuam sem ver a cor da falta d’água. Na periferia, por outro lado, a torneira que não pinga já virou rotineira.

Noemi Jaffe: A semântica da seca (Folha de S.Paulo)

26/02/2015  02h00

Emmanuel Levinas disse que a “consciência é a urgência de uma destinação dirigida a outro, e não um eterno retorno sobre si mesmo”. Penso que, embora não pareça, a frase se relaciona intimamente à “crise hídrica” em São Paulo.

Temos sido obrigados a ouvir e a falar em “crise hídrica”, na “maior seca em 84 anos” e expressões afins, que culpam a natureza, e não em catástrofe, colapso, responsabilidade ou palavras de igual gravidade.

O cidadão comum vive, na gestão do governo paulista, sob um regime eufemístico de linguagem, em aparência elegante, mas, na verdade, retoricamente totalitário, com o qual somos obrigados a conviver e, ainda, forçados a mimetizar.

“Crise hídrica”, “plano de contingência”, “obras emergenciais”, “volume morto”, “reservatórios”, tal como vêm sendo usados, não são mais que desvios covardes da linguagem e da política para ocultar o enfrentamento do real.

Não há água, houve grande incompetência, haverá grandes dificuldades, é necessário um plano emergencial de orientação e a criação de redes de contenção e de solidariedade. É preciso construir e distribuir cisternas, caixas d’água para a população carente, ensinar medidas de economia, mobilizar as subprefeituras para ações localizadas e, sobretudo, expor pública e claramente medidas restritivas à grande indústria e à agricultura, que podem ser bem mais perdulárias do que o cidadão.

Mas nada disso se diz ou faz. E por quê? A impressão que tenho é a de que a maioria dos políticos não trabalha sob o regime da responsabilidade –a condição de “destinação ao outro”–, mas sim na forma do “eterno retorno sobre si mesmo”.

Vive-se, em São Paulo, uma situação de absurdo, em que, além das enormes dificuldades cotidianas –deslocamento, saúde, segurança, educação, enchentes, e agora, a de ter água–, ainda é preciso ouvir o presidente da Sabesp dizer que São Pedro “tem errado a pontaria”.

Meu impulso é o de partir para o vocativo: “Ei, presidenta Dilma, deputados federais, governador Alckmin, prefeito Haddad, vereadores! Ouçam! Nós os elegemos para que vocês batalhem por nós, e não por seus mandatos! Nós é que somos aquele, o outro, a quem vocês devem responsabilidade!”.

Ou não tem relação com a “crise hídrica” um deputado federal receber cerca de R$100.000,00 por mês em “verbas de gabinete”? Por que deputados têm direito a um benefício que, entre outros, lhes garante seguro de saúde e carro, se quem ganha muitíssimo menos não tem?

Desafio os deputados, um a um, a abrirem mão publicamente de seus seguros de saúde e a usarem o transporte público para irem ao trabalho –a entrarem no real.

Até quando a população, sobretudo a mais carente, que tem poucos instrumentos para amenizar o que já sofre, vai ser tutelada e oprimida sob o manto eufemístico da “maior seca em 84 anos”?

Queremos o real, a linguagem responsável, que explicita o olhar para o outro e dá sustentação e liberdade para que se possam superar as dificuldades com autonomia.

O eufemismo livra os políticos e aliena a população da chapa maciça do real. Ele representa um estado semelhante à burocracia ineficaz. Como ser responsável se, para cada ação, há infinitas mediações?

O resultado é que as mediações acabam por alimentar muito mais a si mesmas do que ao objetivo final e inicial de governar: ser para o outro –no caso, nós, impotentes diante do que nos obrigam e do que, há meses, nos forçam a presenciar.

NOEMI JAFFE, 52, é doutora em literatura brasileira pela USP e autora de “O que os Cegos Estão Sonhando?” (editora 34)

Afinal quanta água tem no Cantareira? (Conta d’Água)

Saindo do volume morto: 10%, 8% ou -19%?

25 fev 2015

por José Bueno e Luiz de Campos Jr para Rios e Ruas

Hoje assistimos e ouvimos nos noticiários sobre mais uma elevação no nível do Sistema Cantareira. Finalmente — e só no fim de Fevereiro — saímos da Reserva Técnica 2 (Volume Morto 2) e atingimos a “cota zero” da Reserva Técnica 1. Mas o que isso quer dizer na prática? Já é possível respirarmos um pouco mais aliviados com relação a segurança do nosso abastecimento de água? Infelizmente e definitivamente, não!

Como podemos ver no gráfico, estamos muito abaixo dos níveis registrados nos últimos quatro anos para esta mesma data. Ainda são necessários mais 182 bilhões de litros apenas para encher a Reserva Técnica 1 e atingir a “cota zero” do chamado Volume Útil. Tivemos um Fevereiro bem chuvoso na Cantareira (ninguém pode culpar S. Pedro este mês), já são quase 70mm acima da média histórica. Mas, a partir de agora as médias mensais tendem a diminuir continuamente — e drasticamente — até o final do inverno. Não vai bastar rezar, com certeza.

A SABESP divulgou no seu boletim de hoje que atingimos 10,7% do volume total do sistema. Essa informação não ajuda — na verdade confunde — o entendimento da realidade nos reservatórios. E cremos que essa confusão se dá por duas características desse índice:

1. O cálculo é feito a partir da soma do Volume Útil (antes de maio/2014) + Reserva Técnica 1 (após maio/2014) + Reserva Técnica 2 (após outubro/2014);
2. Mesmo utilizando esse total, o cálculo está simplesmente errado.

No primeiro caso, ao optar por utilizar o volume total de água disponível para calcular a porcentagem, a SABESP parece querer que esqueçamos que na verdade estamos utilizando as Reservas Técnicas, que só podem ser utilizadas em caráter extraordinário. Melhor seria que ela separasse e deixasse explícito o que é Reserva Técnica do que é Volume Útil no seu índice. Por exemplo, como fizemos no gráfico, colocando as porcentagens como negativas enquanto não ultrapassarmos as cotas das Reservas Técnicas.

No segundo caso é ainda mais grave e básico: um erro matemático. Uma vez que a SABESP está considerando a soma total (Volume Útil + Reservas Técnicas) no cálculo do índice, tinha de utilizar o volume somado para calcular as porcentagens, mas está usando apenas o valor do Volume Útil [!]. Resultado: um índice com valor nominal maior do que o correto. No índice de hoje, por exemplo, o resultado correto é de 8,3% e não 10,7% [!!]. Em se mantendo o procedimento e caso atinjamos a cota máxima do sistema em algum momento futuro — tomara! — o índice que representará o sistema “cheio” será de absurdos 129,2% [!].

Dada esta inusitada situação, com o objetivo de contribuir para o melhor entendimento da realidade e para a maior transparência dos dados, o Rios e Ruas decidiu atualizar e publicar diariamente o gráfico de comparação do volume do Sistema Cantareira de 2011 a 2015 na mesma data de cada ano, utilizando as duas formas de representá-los.


Fonte dos Dados: SABESP
Para saber mais sobre o erro no cálculo: 
Guia Rápido

Vamos defender a água (Conta d’Água)

24 fev 2015

Você vem tomando banho de gato para economizar água? Não descarrega a privada se ela estiver apenas com xixi? Usa a água da lavadora de roupas para limpar o quintal? Sua casa está cheia de caixas d’água e baldes para armazenar chuva?

Oi! Estamos falando com você porque estamos na mesma situação.

O governador Geraldo Alckmin e a Sabesp — que vivem no reino da fantasia — dizem que não há racionamento, que não há falta de água na cidade.

Mas –na vida real– ou falta água todo dia, ou falta durante muitos dias seguidos, como já vem acontecendo na zona leste da capital.

Agora, o governador e a Sabesp dizem que os mananciais estão se recuperando com as chuvas de verão.

Eles querem nos tranquilizar porque têm medo do povo na rua.

A verdade é que os reservatórios de água, as represas e os rios que abastecem a região metropolitana de São Paulo estão nos níveis mais baixos da história.

As chuvas que têm desabado sobre a cidade são como uns caraminguás entrando numa conta que já está estourada no cheque especial. Sim, porque explorar o volume morto do sistema Cantareira (como ainda está acontecendo) é como entrar no cheque especial: fácil entrar, difícil sair.

Quando começar a estiagem, a partir de abril, aí é que a coisa vai ficar feia:

Seca climática sem reserva de água é o mesmo que aumento de doenças, fechamento de fábricas, comércio e escolas, desemprego.

Em uma palavra: sofrimento.

O pior de tudo é que enquanto nós fazemos uma economia danada e enfrentamos a interrupção no fornecimento de água, a Sabesp premiou 500 empresas privilegiadas com o direito de receber todo santo dia milhões de litros de água potável — e elas pagam uma tarifa camarada, bem mais baixa do que a dos cidadãos comuns.

É justo isso?

A reponsabilidade por tanto desmando é do governo do Estado, que não fez os investimentos necessários para reduzir os vazamentos nos canos de água da rede de abastecimento; que privatizou parte da Sabesp e distribuiu gordas fatias dos lucros para acionistas na bolsa de valores de Nova York; que preferiu culpar São Pedro a tomar providências; que presenteia com agrados os amigos da empresa.

E eles ainda querem aumentar a tarifa da água em abril!

Porque não queremos mais ser enganados; porque a população exige a elaboração de um plano de emergência para lidar com a seca; porque não queremos pagar nem um centavo a mais pela água que a Sabesp não entrega, porque não aceitamos privilégios no acesso à água, vamos fazer um grande ato público nesta quinta-feira (26 de fevereiro).

A iniciativa, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), já conseguiu a adesão de vários movimentos sociais e de ambientalistas. A concentração será às 17h no Largo da Batata, em Pinheiros. De lá sairemos em passeata para o Palácio dos Bandeirantes, mansão onde vive o governador Geraldo Alckmin.

Vamos dizer bem alto para ele que não aceitamos pagar o pato pela crise que não criamos;

Que exigimos água boa, limpa e cristalina para todos (e não só para os mais ricos e privilegiados);

Chega de irresponsabilidade com a vida da população!