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Fungi: Key to tree survival in warming forest (Science Daily)

Date:
July 22, 2015
Source:
Northern Arizona University
Summary:
Much like healthy bacteria in one’s gut supports health of the human body, fungus in soil can be integral to survival of trees, according to a new study.

Pinyon pine test plot east of Flagstaff, Ariz. Credit: Photo by Thomas Whitham

Much like healthy bacteria in one’s gut supports health of the human body, fungus in soil can be integral to survival of trees. Northern Arizona University researcher Catherine Gehring reached this conclusion while studying pinyon-juniper woodlands in northern Arizona, which support nearly 1,000 unique species.

“Just like the human microbiome, plants have a micro biome. It just tends to be fungi instead of bacteria,” Gehring said. “Every tissue of a plant that you look at has fungi inside of it and we are trying to figure out what they do and if they are going to be important for allowing plants to survive climate change.”

Along with a team of researchers, Gehring is studying pinyon pine trees and their susceptibility to severe drought conditions. While many tree species become vulnerable to insects during drought conditions, Gehring’s team discovered a twist: the pinyons that were insect-resistant were not surviving the drought.

“That group of trees had 60 percent mortality and the group susceptible to insects had only 20 percent mortality,” Gehring said.

The answers to this mystery were underground. The group of drought-tolerant trees a different community of beneficial fungi than the trees that died during drought.

Offspring from the two groups, when planted in a greenhouse without fungi, grow to the same size. When the beneficial fungus is included in the soil, the community of fungi associated with drought tolerant trees allowed their seedlings to grow much larger in drought conditions.

Fungi often manifest above ground as mushrooms, but in northern Arizona’s pinyon habitat, the microorganisms are primarily below ground. The species of fungi that are so important during drought are new to science, Gehring said.

There is an interchange after fungi set up residence among roots: fungus gives the tree nutrients and water from the soil and the tree takes sugar from photosynthesis and shares it with the fungi.

Gehring believes understanding the processes and contributions of fungi could have consequences for many species. As warming conditions kill off families of trees, restoration best practices could include replanting and supplementing with fungi-rich soil.

Experiments are conducted in a greenhouse, at field sites and a research garden northwest of Flagstaff.

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Da crise emergirá o pós-capitalismo? (Outras Palavras)

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Jornalista britânico que cobriu levantes pós-2011 em todo o mundo aposta: sistema não suportará sociedade conectada em rede que ajudou a criar

28/07/2015

Entrevista a Jonathan Derbyshire, em Prospect | Tradução: Gabriela Leite Inês Castilho | Imagem: Banksy

Ao cobrir, para a TV britânica, a fase mais recente da crise na Grécia, o jornalista Paul Mason alcançou quase-onipresença em seu país: Mason falando com Alexis Tsipras e outros membros do Syriza; Mason em mangas de camisa diante da câmera, diante do banco central da Grécia; Mason desviando de bombas em outro confronto entre anarquistas e a polícia — isso forma parte da iconografia da crise grega para muitos britânicos.

Agora, enquanto a Grécia e o resto da Europa recuperam seu fôlego, Mason retornou para a Inglaterra para lançar seu novo livro: “Post-Capitalism: a guide to our future” [“Pós-capitalismo: um guia para nosso futuro”]. Não é um trabalho de reportagem, mas uma ampla análise histórica e econômica. Inspirada pela análise de Marx sore relações sociais capitalistas, ela vai, no entanto, além disso — de uma maneira que, reconhece o autor, talvez não agrade alguns de seus amigos na extrema esquerda. O livro é uma análise do “neoliberalismo” — o capitalismo altamente financeirizado que dominou a maior parte do mundo desenvolvido nos últimos 30 anos — e, ao mesmo tempo, uma tentativa de imaginar o que poderia substituí-lo.

“Pós-Capitalismo: Um Guia para Nosso Futuro”, de Paul Mason, foi publicado por Allen Lane.

O capitalismo, escreve Mason, é um sistema altamente adaptativo: “Nos grandes momentos de encruzilhada, ele se transforma e muda, em resposta ao perigo”. Seu instinto mais básico de sobrevivência, ele argumenta, “é impulsionar mudanças tecnológicas”. Mas o autor acredita que as tecnologias de informação que o capitalismo desenvolveu nos últimos vinte anos ou mais não são, apesar das aparências, compatíveis com o capitalismo — não em sua forma presente, e talvez nem em qualquer outra forma. “Quando o capitalismo não puder mais se adaptar à mudança tecnológica, o pós-capitalismo irá se tornar necessário”.

Mason não está sozinho ao acreditar que a humanidade está à beira de uma profunda revolução tecnológica, é claro. Ouve-se isso de outras vozes: que falam, por exemplo, sobre a “Segunda Era da Máquina” e a promessa (assim como a ameaça) de máquinas inteligentes e da “internet das coisas”. O que torna singular a análise de Mason é, no entanto, a maneira pela qual ele funde um balanço das mutações tecnológicas do que costumava ser chamado de “capitalismo tardio” com uma tentativa de identificar o que Engels chamou, no final do século XIX, de a “parteira da sociedade”, a classe capaz de liderar a transformação social. Segundo o livro, não será a velha classe trabalhadora, como Marx e Engels pensaram, mas o que Mason chama de “rede”. Ao colocar em contato permanente milhões de pessoas, Mason escreve, “o capitalismo da informação criou um novo agente de mudança na história: o ser humano bem formado e conectado”.

Encontrei-me com Mason em Londres e comecei a entrevista pedindo a ele:

Paul Mason: para ele, "indivíduos em rede"  são um novo sujeito histórico, que substituíram a velha classe trabalhadora do marxismo, e se converteram no que Engels chamava de "parteiros da história"

Descreva, por favor, o modelo “neoliberal”, que segundo você chegou a um ponto de ruptura

O neoliberalismo é tanto uma ideologia quanto um modelo econômico. O capitalismo precisa ser compreendido em seu conjunto em cada fase de sua existência. Vivemos o que podemos chamar de capitalismo neoliberal. Este sistema que funciona com um núcleo que opera de acordo com valores neoliberais e uma periferia que não opera. Argumento que o neoliberalismo, como sistema funcional, está em crise porque sua mola central — o amplo consumo financeirizado, combinado com baixo crescimento dos salários — é uma máquina para produzir bolhas e seu estouro. No livro, sustento que uma eventual saída para o sistema (rumar para um info-capitalismo bem sucedido) pode ser viável em certas circunstâncias, mas esta transição é improvável.

Lado a lado com o que você identifica como as características negativas do neoliberalismo (financeirização excessiva e desestabilizadora), também há a revolução tecnológica.

O neoliberalismo foi a forma econômica na qual ocorreram os avanços mais dramáticos da técnica humana sobre a natureza. Em segundo lugar, foi o período no qual países como China e Índia desenvolveram-se de modo surpreendente, um fenômeno que ainda precisa ser compreendido em sua totalidade. Argumento, porém, que esta forma econômica não é mais capaz de conter os níveis do dinamismo tecnológico que conseguiu liberar. Não acredito que o próprio neoliberalismo, eu seus próprios valores neoliberais, seja o condutor da mudança tecnológica. A economista Mariana Mazzicato prova esse ponto: não são apenas o Vale do Silício, o empreendedorismo e o dinheiro dos fundos de hedge que produzem o iPhone — é a Nasa, são as grandes universidades como Stamford.

O que estamos vendo hoje é que a rapidez da inovação não está sendo combinada com implementação de políticas ou evolução de modelos de negócios. Isso impõe uma questão: até que ponto o poder de transformação destas novas tecnologias resultará numa terceira revolução industrial? Eu não vejo isso acontecer sob paradigma neoliberal.

Mas, como você mesmo aponta, a nova tecnologia também foi possibilitadora do neoliberalismo, por ter aprimorado a capacidade de explorar o que é chamado algumas vezes de “capital humano”.

A era Keynesiana produziu a última geração de indivíduos hierarquizados, coletivizados. Eu fui produzido por ela e sei que este mundo acabou. Uma das virtudes de se ter 55 anos é ter visto o novo mundo nascer. Hoje, como Foucault afirma, somos empreendedores do self. A internet permitiu que as massas fossem parte do laboratório social do self. Ela nos permite fazê-lo de uma maneira que nem começamos a entender. Ela criou um novo sujeito humano.

A divergência entre eu e os apoiadores do neoliberalismo é em torno de uma questão: o sujeito humano vai transcender o sistema atual, romper com ele e reformar a sociedade humana? Todas as visões de transformação social têm, a partir de agora, de enxergar o que eu chamo de “indivíduo em rede”. Acredito que as revoltas que narrei em meu livro anterior, Why It’s Kicking Off Everywhere (“Por que está começando em todo lugar”, em tradução livre), são revoltas destas pessoas. Se elas são um novo sujeito histórico, que substitui a velha classe trabalhadora do marxismo, essa é uma grande coisa. É uma grande novidade que devemos buscar compreender.

Você lamenta o mundo que perdemos? O mundo keynesiano de coletividades e solidariedades? Poucas partes de seu livro têm tom de elegia. A nota dominante é mais de excitação com as possibilidades econômicas e políticas que as novas tecnologias e novos modos de subjetividade humana oferecem.

Eu lamento, sim. Escrevi em meu primeiro livro, Live Working or Die Fighting (Viva trabalhando ou morra lutando”, em tradução livre), que o que estamos lamentando, e o que ficou para trás, foi uma anomalia na história do movimento dos trabalhadores. Foi um movimento de trabalhadores socialmente estável, que construiu um caminho de coexistência pacífica com o capital. O que fiz foi cavar na história e descobrir que a indisciplinada história do trabalho foi a de pessoas que foram, elas mesmas e de sua própria maneira, empreendedoras de si mesmas. E tiveram um nível de quase total oposição ao mundo que viveram, coisa que a geração do meu pai, a da era keynesiana, não teve.

De que tradições você está falando, especificamente?

Anarquismo na comuna de Paris. Anarco-sindicalismo nos EUA — os Wobblies. O que o comunismo acrescentou a essas histórias foi a coletividade. Mas se você esquecer as histórias oficiais marxistas sobre a Comuna ou os Wobblies, descobrirá que é uma história de indivíduos rebeldes. Quando comecei a mergulhar nessa história, percebi que a era Keynesiana, apesar do nosso luto, foi uma anomalia.

Também foi uma anomalia na história do capitalismo, não? Não é essa uma das mensagens do livro de Thomas Pikkety, O Capital no Século XXI?

É uma anomalia na história do capitalismo. Também é uma anomalia da história da classe trabalhadora.

Vamos nos voltar ao aspecto econômico de sua argumentação no livro. Sua afirmação é que o capitalismo não consegue “capturar o ‘valor’ gerado pela nova tecnologia.” Você pode desenvolver isso um pouco?

Assim que soubemos que estávamos em uma economia da informação, ficou óbvio que a categoria das coisas chamadas pelos economistas de “externalidades” seriam importantes. O teorista do capital cognitivo, Yann Moulier-Boutang, coloca desta maneira (e eu concordo): toda a questão do capitalismo do século XXI é saber quem captura as externalidades. Devem ser as empresas, que vão ter posse delas e utilizá-las, como faz o Google? A externalidade positiva para o Google é que ele pode ver o que estamos buscando, mas nós não conseguimos ver o que nós mesmo estamos. Então ele pode, agora, construir um modelo de negócio monopolizado, com base nos segredos revelados por sua mineração de dados.

Você quer dizer que, sob os atuais arranjos, o capitalismo só pode capturar o valor gerado pelas novas tecnologias por meio do monopólio? Google, Apple e outros estão ganhando muito dinheiro com isso.

Eles estão ganhando dinheiro. Criaram um monopólio da informação. E, especialmente no que diz respeito aos bens de informação, têm conseguido suprimir o mecanismo de formação de preços. Ele iria, em condições naturais, reduzir o preço da informação que estão vendendo a zero. Eu digo no livro que a declaração da missão da Apple deveria ser, na verdade: “Existimos para prevenir a abundância de música!” Ou, do Google: “Existimos para prevenir a abundância do autoconhecimento das pessoas sobre o que elas fazem na internet”.

Existem dois problemas com isso. Primeiro, é lógico sugerir que nenhum desse monopólios pode sobreviver. Certamente, seu valor de mercado não reflete sua capacidade para continuar monopolizando o que fazem. Segundo: portanto, você não pode ter a completa utilização da informação. A próxima questão é: Existe um meio termo? Haverá algum espaço, que possamos explorar, entre o monopólio e a liberdade? Acredito realmente que sim. Não estou dizendo que tudo deve ser de graça. Estou dizendo que deve haver múltiplos modelos de negócio entre o monopólio e a liberdade.

Você não está dizendo, então, que os mercados vão desaparecer em um futuro pós-capitalista? Afinal, mercados e capitalismo não são a mesma coisa. Mercados são apenas mecanismos para alocar recursos.

É natural — e está acontecendo — que a natureza social da informação leve a formas de atividade de não-mercado. A Wikipédia é uma forma de atividade não mercantil — é um buraco de 3 milhões de dólares no mundo da propaganda.

Você escreve, em certo ponto, que os membros “mais perspicazes” da elite global já são lúcidos a ponto de abordar algumas das questões com as quais você lida no livro — por exemplo, a desigualdade, seu impacto sobre o crescimento, a “estagnação secular” e o papel da negociação coletiva na garantia de salários maiores. O antigo secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, escreveu vastamente sobre todos estes três problemas, oferecendo diagnósticos não tão diferentes dos seus.

Há pessoas na elite global que se permitiram entender o que estamos passando. Uma das coisas que compreendem é que a desigualdade vai ser desfuncional. Não apenas não querem ser linchados em suas camas, mas também entendem que o dinamismo das economias capitalistas só será retomado se houver um aumento dos salários. Também compreenderam a chamada questão do limite de juro zero — a ideia de que, em uma economia onde as taxas de juros reais estão constantemente zeradas, será constantemente necessário adotar políticas monetárias não-ortodoxas. Políticas monetária não-ortodoxas são arenosas. Qualquer um que entendeu a crítica de Keynes nos anos 1920 e começo dos 1930 vai entender o problema da “viscosidade”. Nos anos trinta, os salários eram pegajosos — eles não iriam cair o suficiente. Agora, é a política monetária que é pegajosa. O problema é: de onde o novo dinamismo da economia virá? Larry Summers entende isso. E pessoas nos mercados de títulos também.

O passo final é que eles olham aos choques exógenos e isso os aterroriza. Isso me aterroriza também. As pessoas no poder, nos ministérios da Fazenda, não vão se autorizar a quantificar a gravidade dos choques que estão a caminho. Se 60% dos títulos emitidos pelos Tesouros nacionais tornarem-se insolventes devido aos custos relacionados com o envelhecimento das populações, algo que as agências de risco consideram provável; se a imigração acontecer na escala que se espera; se tivermos nove bilhões de pessoas clamando para entrar no mundo desenvolvido…

Se o neoliberalismo fosse um sistema funcional, como era nos idos de 2001, e não tivesse deixado esta condição, você provavelmente poderia dizer: “Droga, as coisas vão ficar realmente difíceis, mas provavelmente será possível resolver.” Mas esse capitalismo eclerosado, estagnado e fibrilado sob o qual vivemos desde 2008, não tem chance alguma de sobreviver às tormentas. E mesmo que eu esteja errado sobre a transição que vejo e desejo, seus defensores teriam de aparecer e dizer o que um info-capitalismo dinâmico, o que uma terceira revolução industrial poderia ser.

Mas me parece que Summers ou alguém como o economista Robert Gordon teriam que aceitar a parte de diagnóstico de sua análise…

Certo. Mas a razão pela qual não atravessei o caminho até o território do Robert Gordon é que lá está a produtividade potencial. Sua visão da produtividade potencial inerente à tecnologia da informação transbordando para o mundo real … Acho que é maior do que ele aceita ser.

Por que você pensa que ele subestima isso?

É porque pessoas como Gordon não estão preparadas para entrar nesse mundo inferior, entre valor de uso e valor de troca, que as externalidades representam. Não acho que lendo meu livro a maioria das pessoas aceitarão que a transição, potencialmente, se dá em direção ao  mundo não-mercantil, centralizado na informação, de baixa intensidade de trabalho, pós-capitalista. Mas se pensam que estamos indo em direção a uma forma de info-capitalismo com uma terceira revolução industrial, eles precisam contar para nós qual é a síntese de alto-valor. Que cara terá essa era eduardiana da terceira revolução industrial?

Haverá sinais desse futuro na chamada economia do compartilhamento? Em empreendimentos como Airbnb e Uber?

Meu palpite é que eles são o AltaVista da economia de partilha. O teórico social francês André Gorz explorou isso. Disse que é perfeitamente possível imaginar o capitalismo colonizando as relações interpessoais. O Uber é isso – a questão não são os motoristas de taxi, mas as pessoas darem carona umas às outras. Gorz prevê que nos tornaríamos provedores mútuos de microsserviços. Mas disse: “Essa não pode ser uma economia de alto-valor”. Esse é o problema. Você não pode construir um negócio garimpando a reserva da capacidade automobilística de todos, sua capacidade para fazer massagem Reiki, a meia hora sobressalente de cada eletricista. Você pode fazê-lo, e a economia da partilha é a maneira perfeita para fazê-lo, mas isso simplesmente não resulta na era eduardiana, na Belle Epoque. A Belle Epoque será o sequenciamento de genes e a possibilidade de gastar metade do dia jogando squash.

A maioria dos marxistas detestará esta hipótese. Significa dizer, contra Marx, que a humanidade se liberta por si própria, que as pessoas podem descobrir, dentro do capitalismo, recursos mentais para imaginar um novo futuro e ir direto a ele de um modo que, de 1844 em diante, Marx pensou ser impossível.

Você toma emprestada a ideia de “ciclo longo” do economista soviético Nikolai Kondratieff. Ele argumentava que a história do capitalismo pode ser entendida como uma sucessão de ciclos, cada um deles com uma ascensão turbinada por inovação tecnológica com duração de aproximadamente 25 anos, seguida de uma queda com aproximadamente a mesma duração e que geralmente acaba numa depressão. Esses longos ciclos são muito mais longos que os ciclos de negócio identificados com a economia convencional. Por que você considera proveitosa a abordagem de Kondratieff?

Penso que necessitamos de teorias maiores que os ciclos de negócio e menores que a destruição completa do sistema. Quando você aplica a teoria de Kondratieff ao período pós 1945, percebe o sistema funcionando perfeitamente até 1973. E então ele desmorona. O neoliberalismo vem junto e resolve o problema destruindo o poder de barganha do trabalho. Olhar para as coisas através das lentes de Kondratieff força você a colocar a questão: será o neoliberalismo a forma bem sucedida do novo capitalismo ou o fim da linha que prolongou o ciclo por tempo demais? Escolho a segunda alternativa.

Em que parte do ciclo nos encontramos agora?

Estamos bem no fim de um quarto longo ciclo muito prolongado. Estamos na fase de depressão do quarto longo ciclo, que coincidiu com a ascensão tecnológica do quinto. De modo que acredito que os longos ciclos podem sobrepor-se. Penso que estamos numa posição incomum, do ponto de vista histórico. Claramente, a revolução da informação está ai e as bases de um tipo de capitalismo completamente novo podem estar emergindo. O que aconteceu é que as velhas relações sociais da metade passada da onda anterior não irão adiante. Não há Keynes, apenas o reminiscente do velho. Se você olha para Mark Zuckerberg, do Facebook, ou Jeff Bezos, da Amazon, verá que são pessoas agnósticas sobre o futuro de todo o sistema. Eles veem apenas o futuro de sua própria corporação.

Meu uso de Kondratieff é para tentar responder a pergunta sobre onde estamos. As outras periodicidades – o ciclo de negócio de dez anos e a época, de 500 anos – não são suficientes. Não há uma cadeira de Estudos Pós Capitalistas na Universidade de Wolverhampton! Eles estão na infância.

Você mencionou André Gorz. No livro, você cita um trecho em que ele diz, em 1980, que a classe trabalhadora está morta. Se estava certo, quem será o agente de mudança social?

O fato terrível e desafiante pode ser que, se o capitalismo tem um início, um meio e um fim, então o movimento dos trabalhadores também. Em outras palavras, o declínio da luta trabalhista organizada, com base no trabalho manual, especializado, branco e masculino, parece-me partedo que está acontecendo ao capitalismo. Sou alguém que veio deste background e viveu mergulhado nele. Mas argumento que o sujeito histórico que trará o pós-capitalismo já existe e é o indivíduo em rede. A noção de Antonio Negri de “fábrica social” era arrogante nos anos 1970s, porque era muito cedo. Mas me parece ser justa agora – todos nós participamos na criação de marcas, no estabelecimento de escolhas de consumo, estamos alimentando o capitalismo financeiro por meio do nosso uso das finanças. Por isso, consigo comprar a ideia de que existe uma fábrica social. Se quiser desligá-la, deve fazer como William Benbow sugeriu na década de 1820, parando a “grande festa”. Agora, duvido que isso vá acontecer. Portanto, a maneira menos utópica de fazer isso é lutando pelos interesses dos indivíduos em rede, para que eles não tenham suas informações roubadas, arbitrariamente acessadas pelo Estado, para seus estilos de vida poderem florescer, para que eles tenham escolhas.

São tantos os levantes que cobri – Turquia e Brasil são bons exemplos. São assalariados em rede que não aguentam os níveis de corrupção e intromissão em suas vidas – o islamismo na Turquia, corrupção no Brasil. Que tipo de revolução é essa? Há uma discussão entre aqueles que se envolveram com meu livro: se este é o agente, é “por si” ou “em si”, como diria Marx. Seriam essas pessoas capazes de adquirir um nível espontâneo de entendimento da situação que os levasse a tomar algumas das medidas políticas insinuadas neste livro como um caminho a seguir? Neste momento eles ainda não chegaram lá, claramente. O que são é muito hábeis em construir seu espaço pessoal. Podemos zombar disso, por ser em pequena escala. Mas, ao construir um espaço que é simultaneamente econômico e pessoal, penso que esta geração está fazendo algo muito significativo.

Será que os impregno com a mesma inevitabilidade e teleologia com que o marxismo impregnou a classe trabalhadora? Não. No livro, gasto muito tempo desmontando a compreensão marxista de classe trabalhadora. Sempre senti, como alguém que tem essa bagagem, que o kit de ferramentas que o marxismo tinha para descrever a classe trabalhadora era dos menos convincentes – sobretudo para a própria classe trabalhadora.

A certa altura, você altura escreve que o marxismo é uma grande “teoria da história”, porm se equivoca como “teoria da crise”. O que quer dizer com isso?

Quero dizer que é uma grande teoria para analisar a sociedade de classes. Por exemplo, durante a revolução do Egito em 2011, tendo lido O 18 Brumário de Luis Bonaparte, de Marx, eu poderia dizer aos radicais egípcios que, quando o caos se instalasse, as mesmas pessoas que estavam ao lado deles dariam as boas vindas à ditadura. É provável que o capitalismo evocasse algo novo, capaz de impor ordem. O que impôs desordem foi a Irmandade Muçulmana. Ver as mesmas pessoas que tinham apoiado a revolução chamando o general Sisi para derrubar a Irmandade faz sentido, se você leu O 18 Brumário.

Eu perguntei a Alexis Tsipras antes de o Syriza ser eleito: “Quais seriam as ameaças para um governo de esquerda, se você conquistasse o poder?” Contei a ele: “Você se lembra que [Salvador] Allende nomeou [Augusto] Pinochet [no Chile]? Allende nomeou o general para deter um golpe militar. Nós rimos. A questão, você poderia argumentar, é que o governo da Grécia está sendo colonizado pelas mesmas forças que ele imaginou estar ali para combater. Neste momento, a elite empresarial está pensando: “Apenas Tsipras pode governar a Grécia.” Eles prefeririam que ele governasse a Grécia sem a extrema esquerda do próprio partido. Sempre encontro capitalistas gregos que me dizem: “Se Tsipras nos escutasse, a Grécia seria um grande país.”

O marxismo força você a fazer perguntas que não são feitas pelos jornalistas mainstream. Neste momento, a questão mais importante para os gregos é: o que está acontecendo com as massas? As massas não estão derrotadas. Elas não acreditam que Tsipras é Luis Bonaparte. Muitos fazem objeção ao que ele fez, mas não acreditam que ele seja uma força da reação. Eles acreditam no que está dizendo – que está fazendo algo contra a própria vontade e que irá compensar isso com um ataque à oligarquia. Esperam que esse ataque à oligarquia aconteça. Minha observação é de que houve uma grande radicalização, na Grécia. Quando o verão terminar, veremos uma renovação real tanto das lutas de base como do radicalismo do governo.

O foco naquilo que as pessoas estão dizendo nos pubs é algo que interessa muito a dois tipos de pessoas: às forças da polícia secreta e aos marxistas! Eu gasto o maior tempo possível ouvindo as pessoas.

Qual é o desafio jornalístico para ventilar esse tipo de questão? Trabalhar para uma rede de TV como o Channel Four impõe certamente certas restrições ao modo como você opera.

Um bom jornalista de assuntos sociais, que é o que penso ser, irá, na Grécia por exemplo, conversar com primeiros-ministros, ministros de Estado, mas irá também atrás dos estivadores, dos anarquistas. Ainda por cima, você tem somente dois minutos e trinta segundos. Essa é a razão por que gastei os últimos seis meses buscando recursos e realizando um grande documentário que virá a público, espero, no final deste ano, e que conta a história do Syriza desde as bases, a partir das ruas. Queria fazer isso porque no meu trabalho diário nunca poderia contar essa história. É simplesmente impossível.

E sobre a acusação, frequentemente dirigida a você (e feita várias vezes, durante os últimos meses na Grécia) de que, ao operar dessa forma, você excede os limites da propriedade jornalística ou da isenção?

Penso que todos estão errados! A realidade é que o mundo é governado por uma elite dedicada a reforçar, de modo às vezes completamente aberto, a desigualdade e tudo o que a acompanha. Na Grécia, a “austeridade” é uma forma de coerção. Fico feliz de dizer isso porque essa é a minha análise da realidade. Muita gente no Financial Times ou no Wall Street Journal não compartilha dessa minha visão. Mas estou muito feliz, e meus patrões estão permanentemente felizes com o modo como pratico o jornalismo. As pessoas que não gostam devem simplesmente acostumar-se a ele.

Com ideias como as que estão neste livro, a razão de divulgar uma ideia radical é que você não espera que Andy Burnham ou Tim Farron, [dirigentes do Partido Trabalhista britânico] irão telefonar e dizer, “gosto disso, Paul. Vamos incluir na política do partido.” A questão é ser um pouco do contra. Há pensamento único demais. Meu desejo com esse livro é fazer como num workshop de teatro – levar as pessoas a uma experiência fora do corpo, a ficar largadas no chão, na piscina das próprias lágrimas. Então, quando elas voltarem à segurança do grupo, talvez possam fazer alguma coisa mais honesta.

How Facebook’s Algorithm Suppresses Content Diversity (Modestly) and How the Newsfeed Rules Your Clicks (The Message)

Zeynep Tufekci on May 7, 2015

Today, three researchers at Facebook published an article in Science on how Facebook’s newsfeed algorithm suppresses the amount of “cross-cutting” (i.e. likely to cause disagreement) news articles a person sees. I read a lot of academic research, and usually, the researchers are at a pains to highlight their findings. This one buries them as deep as it could, using a mix of convoluted language and irrelevant comparisons. So, first order of business is spelling out what they found. Also, for another important evaluation — with some overlap to this one — go read this post by University of Michigan professor Christian Sandvig.

The most important finding, if you ask me, is buried in an appendix. Here’s the chart showing that the higher an item is in the newsfeed, the more likely it is clicked on.

Notice how steep the curve is. The higher the link, more (a lot more) likely it will be clicked on. You live and die by placement, determined by the newsfeed algorithm. (The effect, as Sean J. Taylor correctly notes, is a combination of placement, and the fact that the algorithm is guessing what you would like). This was already known, mostly, but it’s great to have it confirmed by Facebook researchers (the study was solely authored by Facebook employees).

The most important caveat that is buried is that this study is not about all of Facebook users, despite language at the end that’s quite misleading. The researchers end their paper with: “Finally, we conclusively establish that on average in the context of Facebook…” No. The research was conducted on a small, skewed subset of Facebook users who chose to self-identify their political affiliation on Facebook and regularly log on to Facebook, about ~4% of the population available for the study. This is super important because this sampling confounds the dependent variable.

The gold standard of sampling is random, where every unit has equal chance of selection, which allows us to do amazing things like predict elections with tiny samples of thousands. Sometimes, researchers use convenience samples — whomever they can find easily — and those can be okay, or not, depending on how typical the sample ends up being compared to the universe. Sometimes, in cases like this, the sampling affects behavior: people who self-identify their politics are almost certainly going to behave quite differently, on average, than people who do not, when it comes to the behavior in question which is sharing and clicking through ideologically challenging content. So, everything in this study applies only to that small subsample of unusual people. (Here’s a post by the always excellent Eszter Hargittai unpacking the sampling issue further.) The study is still interesting, and important, but it is not a study that can generalize to Facebook users. Hopefully that can be a future study.

What does the study actually say?

  • Here’s the key finding: Facebook researchers conclusively show that Facebook’s newsfeed algorithm decreases ideologically diverse, cross-cutting content people see from their social networks on Facebook by a measurable amount. The researchers report that exposure to diverse content is suppressed by Facebook’s algorithm by 8% for self-identified liberals and by 5% for self-identified conservatives. Or, as Christian Sandvig puts it, “the algorithm filters out 1 in 20 cross-cutting hard news stories that a self-identified conservative sees (or 5%) and 1 in 13cross-cutting hard news stories that a self-identified liberal sees (8%).” You are seeing fewer news items that you’d disagree with which are shared by your friends because the algorithm is not showing them to you.
  • Now, here’s the part which will likely confuse everyone, but it should not. The researchers also report a separate finding that individual choice to limit exposure through clicking behavior results in exposure to 6% less diverse content for liberals and 17% less diverse content for conservatives.

Are you with me? One novel finding is that the newsfeed algorithm (modestly) suppresses diverse content, and another crucial and also novel finding is that placement in the feed is (strongly) influential of click-through rates.

Researchers then replicate and confirm a well-known, uncontested and long-established finding which is that people have a tendency to avoid content that challenges their beliefs. Then, confusingly, the researchers compare whether algorithm suppression effect size is stronger than people choosing what to click, and have a lot of language that leads Christian Sandvig to call this the “it’s not our fault” study. I cannot remember a worse apples to oranges comparison I’ve seen recently, especially since these two dynamics, algorithmic suppression and individual choice, have cumulative effects.

Comparing the individual choice to algorithmic suppression is like asking about the amount of trans fatty acids in french fries, a newly-added ingredient to the menu, and being told that hamburgers, which have long been on the menu, also have trans-fatty acids — an undisputed, scientifically uncontested and non-controversial fact. Individual self-selection in news sources long predates the Internet, and is a well-known, long-identified and well-studied phenomenon. Its scientific standing has never been in question. However, the role of Facebook’s algorithm in this process is a new — and important — issue. Just as the medical profession would be concerned about the amount of trans-fatty acids in the new item, french fries, as well as in the existing hamburgers, researchers should obviously be interested in algorithmic effects in suppressing diversity, in addition to long-standing research on individual choice, since the effects are cumulative. An addition, not a comparison, is warranted.

Imagine this (imperfect) analogy where many people were complaining, say, a washing machine has a faulty mechanism that sometimes destroys clothes. Now imagine washing machine company research paper which finds this claim is correct for a small subsample of these washing machines, and quantifies that effect, but also looks into how many people throw out their clothes before they are totally worn out, a well-established, undisputed fact in the scientific literature. The correct headline would not be “people throwing out used clothes damages more dresses than the the faulty washing machine mechanism.” And if this subsample was drawn from one small factory located everywhere else than all the other factories that manufacture the same brand, and produced only 4% of the devices, the headline would not refer to all washing machines, and the paper would not (should not) conclude with a claim about the average washing machine.

Also, in passing the paper’s conclusion appears misstated. Even though the comparison between personal choice and algorithmic effects is not very relevant, the result is mixed, rather than “conclusively establish[ing] that on average in the context of Facebook individual choices more than algorithms limit exposure to attitude-challenging content”. For self-identified liberals, the algorithm was a stronger suppressor of diversity (8% vs. 6%) while for self-identified conservatives, it was a weaker one (5% vs 17%).)

Also, as Christian Sandvig states in this post, and Nathan Jurgenson in this important post here, and David Lazer in the introduction to the piece in Science explore deeply, the Facebook researchers are not studying some neutral phenomenon that exists outside of Facebook’s control. The algorithm is designed by Facebook, and is occasionally re-arranged, sometimes to the devastation of groups who cannot pay-to-play for that all important positioning. I’m glad that Facebook is choosing to publish such findings, but I cannot but shake my head about how the real findings are buried, and irrelevant comparisons take up the conclusion. Overall, from all aspects, this study confirms that for this slice of politically-engaged sub-population, Facebook’s algorithm is a modest suppressor of diversity of content people see on Facebook, and that newsfeed placement is a profoundly powerful gatekeeper for click-through rates. This, not all the roundabout conversation about people’s choices, is the news.

Late Addition: Contrary to some people’s impressions, I am not arguing against all uses of algorithms in making choices in what we see online. The questions that concern me are how these algorithms work, what their effects are, who controls them, and what are the values that go into the design choices. At a personal level, I’d love to have the choice to set my newsfeed algorithm to “please show me more content I’d likely disagree with” — something the researchers prove that Facebook is able to do.

New Territories in Acre and Why They Matter (E-flux)

Journal #59, 11/2014

Marjetica Potrč

The Croa River community consists of approximately four hundred families spread out across eighty thousand hectares of Amazonian forest. They aspire to see the land they inhabit become an extraction reserve, and in fact, it is in the process of becoming precisely this: one of the new territories in Acre. As such, it is a good example of the current trend toward territorialization in the Brazilian state. It is also a good example of what territories stand for: self-organization, sustainable growth, and local knowledge.


Territorialization of Acre State (1988, 1999, 2006), Courtesy the artist

The Croa community’s land is located a few hours’ drive and a short boat ride from Cruzeiro do Sul. A small city, Cruzeiro do Sul is a major center for the western part of Acre and the region around the Jurua River. There are daily flights from Rio Branco, and the town is accessible by road from Rio Branco six months of the year and by the Jurua River throughout the year. From Cruzeiro do Sul it takes two to three weeks to travel by boat to Manaus. In short, the Croa community is nestled in the western corner of Brazil’s Amazonian forest and, from the perspective of São Paulo, seems a remote and isolated place—something that, in our world of excessive connectivity, is considered a negative. But from the perspective of the people who live there, relative isolation can be a bonus. The communities I saw, including the Croa community, draw strength from their cultural identity and a sustainable economy. Not all these communities are strong, but they understand clearly that both these conditions are necessary if they are to thrive. The communities are well connected among themselves and, beyond Acre, with the world—strangely enough, many of the things that concern them are, in fact, more closely related to world issues than to specifically Brazilian ones.


Left: Ashanika Indian, Acre. Photo by Mauro Almeida. Right: Marjetica Potrč, Drawing No.1/7: Pattern Protects, 2007, 7 drawings. Courtesy the artist and Galerie Nordenhake, Berlin.

When such communities reach out to others, they want to do it on their own terms. They want to interact in a positive way with others and at the same time remain separate. By reaffirming their own territories, they are actively participating in the creation of twenty-first-century models of coexistence, where the melting pot of global cities is balanced by centers where people voluntarily segregate themselves. After all, one of the most successful and sought-after models of living together today is the gated community—the small-scale residential entity. But unlike gated communities, which represent static strategies of retreat and self-enclosure, the new territories in Acre are dynamic and proactive: they reach out to others.


Isolation and Connectivity, Left: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo. Right: Marjetica Potrč, Drawing No.5/12, Florestania, 2006, 12 drawings. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York.

Statement #1: The world must be pixelized! Democracy is particles!

Over the past two decades, Acre has been pixelizing itself into new territories, such as extraction reserves and Indian territories, along with sustainable urban territories. The government supports the territorialization of the state. These new territories are the result of collaboration between the government and local communities. The communities are self-organized entities and, basically, bottom-up initiatives. Their focus is on empowering their own people (education is a primary concern); practicing the sustainable extraction of forest-based resources; and developing a small-scale economy as both a tool for their communities’ survival (several communities have been successfully selling their goods on the global market) and as a counter-model to the globalized economy created by multinational companies and organizations. The Acrean communities have a particular approach to land ownership. In the new territories, the emphasis is not on the individual owning land and extracting resources from it solely for his own benefit, but on the collective ownership and sustainable management of natural resources for the benefit of the whole community. Here, the existence of an individual is understood essentially as coexistence. Being always means “being with,” and “I” does not take precedence over “we.”1 In short, the new territories suggest forms of living together that go beyond neoliberalism and its understanding of individualism, liberal democracy, and market capitalism.

Notice that the new territories of Acre represent a social and economic alternative to China’s new territories, which are characterized by fast-growing, large-scale economies and an ideology of progress. The territories of Acre, by contrast, are grounded in a small-scale economy; the people who live there feel a personal responsibility both toward their own communities and toward the world community.

In fact, in their dynamics of deregulation and strategies of transition, Acre’s new territories suggest a different comparison: with the European Union as it is today. As a geopolitical entity, Europe is constantly expanding. It is a body in flux. Within its shifting boundaries, the consequences of the gradual dissolution of the social state and the ideology of multiculturalism can be seen in territories consolidated around ethnic groups and other kinds of communities. As last year’s rejection of the EU constitution by French and Dutch voters indicates, people want to live in a more localized European Union; similarly, the EU explores a paradigm in which regional entities serve as a counterbalance to the nation-state. An emphasis on the local means that more decisions are taken at the local level and bottom-up initiatives are on the increase. The state of “transition” is accepted as a working model, and there is a civil society in the making that is quite different not only from the society of twentieth-century modernism, which feared any threat to unity, but also from the present-day ideology of globalization. As regionalism and localism gain ground, new models of coexistence emerge, such as urban villages and urban villas, new typologies of residential architecture. In the heyday of the modernist national state, a residential community could mean some ten thousand people. Today, an urban village means two thousand people—a dramatic shrinkage from the earlier model. Another important distinction is that today’s urban villages are, again, bottom-up initiatives, while the modernist residential community was organized from the top down. The question is: just how far is it possible to “downscale” the world community?

The territories in Acre are the result of “degrowth,” the process by which society fragments and pixelizes itself down to the level of the local community, and sometimes even further, to the level of the individual.2 Age-old wisdom tells us that when individuals take responsibility for building their own lives, they also build their communities, and beyond that, the world community: “When I build my life, I build the world.” As the Acrean territories show, communities see the consequences of such practices very clearly: they see “upscaling”—the scaling down of the economy and the pixelation of territories produce a new kind of connectedness: “upgrowth.” In Acre, particles and group identities are forces of democracy.

Statement #2: We must grow up strong together!

A precondition for communities in the new territories to thrive is that they draw strength from a sustainable economy, local experience—a loose notion that embraces the importance of cultural identity—and education. The communities believe that territories which are strong in these areas have the best chance to prosper. Although the emphasis is clearly on the local (they see rural communities as guaranteeing greater dignity, in contrast to the kind of life migrants to urban centers experience), they do not romanticize localness. They see themselves as players in the contemporary world: they had to overcome both the colonial past and the dominant globalizing pressures of the present. Theirs is a post-colonial, post-neoliberal practice. From where they stand, they see the future as their present.

Universidade da Floresta (University of the Forest), Acre. Left: video still by Garret Linn, in Marjetica Potrč, Florestania: A New Citizenship, video, 2006. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

Practice #1: We are growing up together strong; we are connected! But first, let’s isolate ourselves. Only then we will be able to connect on our own terms.

The new territories of Acre are, indeed, strong and well aware of the benefits that come from being connected. Clearly, local emphasis, self-esteem, and connectedness make a perfect match, not a contradiction. I am thinking in particular of an ongoing initiative by Indian tribes to connect their remote areas via satellite through solar-powered communication centers. Representatives from the tribes are traveling all the time—at least this was the impression I received from encountering them on the streets of Rio Branco and at airports, or, for that matter, not seeing them because they were in São Paulo while I was in Rio Branco, or in Rio Branco when I was in Cruzeiro do Sul. Indeed, I had the feeling that they traveled more than Paulistas. An Acrean can with justice say to a Paulista: “I know you, but you don’t know me.” The general feeling one gets in São Paulo is that Acre is very far away, an unknown, isolated region, not well connected at all. This perspective of the center toward the periphery is overturned in Acre, where territories are understood as centers that want to connect on their own terms. Acreans don’t see themselves as being too isolated. They like their degree of isolation. They draw on the wisdom of the forest: the “center” is a place in the forest where the “game”—the chance to make a good life for oneself thanks to the proximity of natural resources and community infrastructure—is strong and multiple connections to the outside world are not necessarily a bonus; the “periphery,” meanwhile, is along the river, where a person may be more connected to the world outside but the “game” is not so strong. As always—and as common wisdom tells us—the center is what’s most important.


School Bus, Croa Community, Acre. Left: video still by Garret Linn, in Marjetica Potrč, Florestania: A New Citizenship, video, 2006. Courtesy the artist and Max Protetch Gallery, New York. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

Practice #2: We marry local experience with hi-tech knowledge!

The new territories of Acre are strong “centers” with rich local experience; they balance connectedness and isolation well. In a way, these territories are perfect islands: you can reach anyone from here but not everyone can reach you. The next most important thing is their practice of self-sustainable management—the result of blending local experience and hi-tech knowledge. Hi-tech sustainable solutions help them upgrade their living conditions, and allow them to communicate and trade from remote locations with little or no energy infrastructure. Advanced technology (such as solar-powered satellite dishes) means that at last, in the twenty-first century, the remote territories of Acre can themselves become centers, no less than other places, by using self-generated energy, which in turn gives them greater freedom in communicating. Without a doubt, the combination of local experience (from the territories) with hi-tech knowledge (from Brazil) is potentially a geopolitical advantage. But can it really work without the support of the state?

Practice #3: Happiness is: growing in small steps! Ours is a dignified life! We are accountable for ourselves and to others!

Those who manage the sustainable extraction of forest-based resources see the small-scale economy both as a tool for their own survival as well as a new economic model that is necessary for the survival of the planet and society at large. In Acre, clichés acquire real meaning: “The survival of the rain forest is the survival of the earth; the rain forest is the final frontier; the world is one community.” It feels as if Acre’s government and its people are on a mission. Does the future of the world depend on locally managed territories and small-scale economies providing a balance to the globalizing forces of multinational companies and organizations? The people I spoke with in Acre are convinced of this. But there’s a Catch-22, an obvious contradiction that resides in the very notion of sustainability. While any nonsustainable extraction of forest resources would have dire consequences not only to these communities but also to the entire world, efforts to achieve self-sustainable management of the forest through a small-scale economy present important challenges. Can the territories really survive and even thrive on this? Apart from natural resources, how well does local knowledge trade on the global market?

Practice #4: We protect what belongs to us! Cupuaçu is ours!

The new territories of Acre are strong centers and well connected; they practice self-sustainability and self-protection. The protection of the new territories is a must, not only because of the long history of their cultures being abused—which means self-protection comes naturally to those who live here—but also because of the ongoing threat of bio-piracy. The unlawful theft of natural resources in a region whose greatest wealth is biodiversity ranges from famous incidents involving the theft of rubber tree seeds (which led to the collapse of the region’s rubber extraction economy), to recent cases of a Japanese company, among others, attempting to patent the indigenous fruit known as cupuaçu (the Japanese patent has recently been revoked). So it’s no surprise, really, that Acre’s efforts to protect the territories from outsiders may seem excessive. The remoteness of their location does not guarantee sufficient protection for the Indian territories. If visitors to an extraction reserve are viewed with healthy suspicion because of fears that they might be involved with bio-piracy, a visit to an Indian tribe is extremely difficult to arrange. The main reason for this is to shield indigenous cultures. In theory, all would-be visitors to an Indian tribe must state their reasons for wanting to travel there, and visits must then be approved by the community. In this way, the territories remind us of the fortified city-states of Renaissance Italy or today’s contested territories in the West Bank. Indeed, the Acrean practice of planting trees as border protection in defense of one’s territory mirrors practices by Palestinians and Jewish settlers before the erection of the Israeli Barrier Wall halted negotiations between the two communities. A major difference, however, is that, while the Acrean territories may recall walled cities, they are not closed off. Today, the borders of these fragile and contested territories are porous. They permit and even welcome negotiations. And as for any precise demarcation of these territories’ borders, this remains in flux for the simple reason that rivers change their course and villages relocate themselves in the search for natural resources. And here is a contradiction: these strong territories are in fact fragile territories. To be able to exist and prosper, they need to be constantly communicating with the world and negotiating with their neighbors.

Practice #5: We are not objects of study! We want to share our knowledge on equal terms! In a horizontal world, education must be horizontal! To each group, their own education! We are unique!

Education—learning and sharing knowledge—is a crucial issue for the new territories, but the same may be said for the whole of Brazil and beyond. We have learned that the riches of education, though seemingly immaterial, are what guarantee the material wealth of nations. Today, the richest countries are those with the strongest educational systems. This awareness is even more important in the context of Brazil, ranked first in the world in the gap between rich and poor—which also means there is an immense gap where education is concerned. The new territories of Acre, although wealthy in both natural and intellectual resources, cannot hope to provide the kind of high-quality education the rich world demands. But being so inventive, the people of Acre organize things differently. The goal is to customize education for particular groups in the community. Established hierarchies are put in question, and education is organized in a way that makes sense for the community. Schools and local knowledge are cherished and protected—just as the territories themselves are. It struck me that the demands that shape education are, in a way, similar to those that shape the territories. Both exist for their people and both are necessary for people’s prosperity and aspirations, framing the life of the community.

Two collaborations are under way in Acre that I find especially inspiring. One involves the building of schools in remote areas for primary education; this is a collaboration between the local communities and the government. A typical school of this sort is equipped with extensive solar paneling and a satellite dish—in other words, an energy supply and a means of communication with the world. The second collaboration concerns higher education. This is the University of the Forest, whose goal is to bring together the knowledge of rubber-tappers, Indians, academics, and scientists so as to marry local experience with Western science. This makes sense. Brazil, after all, is a hi-tech country where the knowledge of those who live in the forest is not taught in the classroom but experienced directly. Indians and rubber-tappers, the caretakers of the forest, don’t want to be objects of research. They want to contribute to our shared knowledge on an equal basis. They want to trade their knowledge as they see fit. I see the University of the Forest as a new and important model for higher education.

Statement #3: The people of the ’60s were thinkers; we are doers!

My aim in writing this was to make sense of what I experienced during my stay in Acre in March and April 2006. I know that my assessment of the situation is far from thorough, but so be it. For me, it all comes down to the question: “What does it mean to live a dignified and responsible life today?” I realize that the community structures in Acre are not intended as models for other communities. The things I have mentioned here are simply their practice—the practice of sustainable existence. For me, their strategies recall other twenty-first-century experiences, such as the new states of the Western Balkans, which were formed when the region collapsed in the wars in the 1990s; like Acre, this region, too, has become pixelized into small territories—territories that are rejuvenating themselves by implementing practices and pursuing aspirations similar to those of the people of Acre. In both cases, downscaling is producing a scaling up: these particles and group identities are not static and self-enclosed, but dynamic and open to the world. I believe that faster and slower worlds can exist simultaneously in parallel realities, and the Western Balkans and Acre seem to me to be fast worlds, in some ways ahead of the rest. So it’s possible for us to learn from their practices.

I loved what I saw in Acre. It would be nice to think that the proposals of Constant and Yona Friedman, as well as other thinkers of the 1960s, such as Hélio Oiticica and Lygia Clark, who dreamed of a world community, provided inspiration for the people who are today forging Acre’s new territories, but I know that the Acreans have very likely never heard of them. Still, it’s beautiful to see that the doers of today are materializing the ideas of the thinkers of the ’60s. I thought it was fantastic how everyone we talked with in Acre saw clearly the benefits of their practices, for both themselves and the world community, and understood how to implement them. The new Acrean territories make me hopeful for our future coexistence. Their success is evidence that humanity can function as an intelligent organism. As it reaches critical mass, the world community, combined with a free-market economy, is generating alternative approaches to today’s neoliberalism, whether this means an emphasis on small-scale economies or a society based on local communities. Most importantly, those who live in the Acrean territories understand themselves as particles in, and contributors to, the world community.


Rural School “Luiz Placido Fernandes,” Acre. Left: Courtesy of Seplands and Prodeem, the State of Acre, Brazil. Right: Marjetica Potrč, drawing for project The Struggle for Spatial Justice (A luta por justiça espacial) for 27a. Bienal de São Paulo.

For sharing their vision and experience, I am particularly grateful to Camila Sposati, who provided me with a superb introduction to Acre and its people, to Sergio de Carvalho e Souza, who was an incredible guide for understanding the new territories, to members of the Croa community (Gean Carlos de Oliveira and Silvana Rossi), to representatives of the Indians (Luiz Waldenir Silva de Souza and Mutsa Katukina), the extraction reserves, and the government (Chico Genu and Marcus Vinicius), as well as to Manuela Carneiro da Cunha, co-author of the Enciclopédia da Floresta and a key figure in the University of the Forest, and many others besides.

Software tool allows scientists to correct climate ‘misinformation’ from major media outlets (ClimateWire)

ClimateWire, April 13, 2015.

Manon Verchot, E&E reporter
Published: Monday, April 13, 2015
After years of misinformation about climate change and climate science in the media, more than two dozen climate scientists are developing a Web browser plugin to right the wrongs in climate reporting.

The plugin, called Climate Feedback and developed by Hypothes.is, a nonprofit software developer, allows researchers to annotate articles in major media publications and correct errors made by journalists.

“People’s views about climate science depend far too much on their politics and what their favorite politicians are saying,” said Aaron Huertas, science communications officer at the Union of Concerned Scientists. “Misinformation hurts our ability to make rational decisions. It’s up to journalists to tell the public what we really know, though it can be difficult to make time to do that, especially when covering breaking news.”

An analysis from the Union of Concerned Scientists found that levels of inaccuracy surrounding climate change vary dramatically depending on the news outlet. In 2013, 72 percent of climate-related coverage on Fox News contained misleading statements, compared to 30 percent on CNN and 8 percent on MSNBC.

Through Climate Feedback, researchers can comment on inaccurate statements and rate the credibility of articles. The group focuses on annotating articles from news outlets it considers influential — like The Wall Street Journal or The New York Times — rather than blogs.

“When you read an article it’s not just about it being wrong or right — it’s much more complicated than that,” said Emmanuel Vincent, a climate scientist at the University of California, Merced’s Center for Climate Communication, who developed the idea behind Climate Feedback. “People still get confused about the basics of climate change.”

‘It’s crucial in a democracy’

According to Vincent, one of the things journalists struggle with most is articulating the effect of climate change on extreme weather events. Though hurricanes or other major storms cannot be directly attributed to climate change, scientists expect warmer ocean temperatures and higher levels of water vapor in the atmosphere to make storms more intense. Factors like sea-level rise are expected to make hurricanes more devastating as higher sea levels allow storm surges to pass over existing infrastructure.

“Trying to connect a weather event with climate change is not the best approach,” Vincent said.

Climate Feedback hopes to clarify issues like these. The group’s first task was annotating an article published inThe Wall Street Journal in September 2014.

In the piece, the newspaper reported that sea-level rise experienced today is the same as sea-level rise experienced 70 years ago. But in the annotated version of the story, Vincent pointed to research from Columbia University that directly contradicted that idea.

“The rate of sea level rise has actually quadrupled since preindustrial times,” wrote Vincent in the margins.

Vincent hopes that tools like Climate Feedback can help journalists learn to better communicate climate research and can make members of the public confident that the information they are receiving is credible.

Researchers who want to contribute to Climate Feedback are required to have published at least one climate-related article that passed a peer review. Many say these tools are particularly important in the Internet era, when masses of information make it difficult for the public to wade through the vast quantities of articles and reports.

“There are big decisions that need to be made about climate change,” Vincent said. “It’s crucial in a democracy for people to know about these issues.”

Brasileiro faz música em dueto com fungo (BBC)

10 março 2015

Crédito: Edurado Miranda e Ed Braun

Biocomputador com mofo toca dueto com piano

Um músico brasileiro apresentou na Grã-Bretanha um dueto inédito: no piano, ele interagiu com um fungo.

E mofo toca música? Nas mãos de Eduardo Miranda, sim.

Especialista em música computadorizada, ele transformou a decomposição em composição: seu novo trabalho usa culturas do fungo Physarum polycephalumcomo um componente central de um biocomputador interativo, que recebe sinais de som e envia de volta as respostas.

“A composição, Biocomputer Music, se desenvolve como uma interação entre mim e a máquina Physarum,” disse Miranda.

“Eu toco alguma coisa, o sistema escuta, toca alguma coisa de volta, e então eu respondo, e assim por diante.”

Brasileiro de Porto Alegre, Miranda leciona na Universidade de Plymouth, na Inglaterra.

Ele disse à BBC Brasil que Heitor Villa-Lobos tem uma grande inflluência em sua obra e que gostaria de levar a apresentação Biocomputer para o Brasil, mas que, por enquanto, questões técnicas impedem que ele viaje com o equipamento.

Funcionamento

O mofo Physarum forma um componente eletrônico vivo e mutante em um circuito que processa sons captados por um microfone treinado no piano.

Credito: Eduardo Miranda e Ed Braun

Projeto foi desenvolvido na Universidade de Plymouth

Pequenos tubos formados pelo Physarum têm a propriedade elétrica de agir como uma resistência variável que muda de acordo com tensões aplicadas anteriormente, de acordo com Ed Braund, aluno de doutorado no Centro Interdisciplinar de Computer Music Research na Universidade de Plymouth.

“As notas de piano são transformados em uma onda elétrica complexa que enviamos através de um desses túbulos Physarum. A resistência Physarum muda em função das entradas anteriores, e as notas musicais viram, então, uma nova saída que é então enviada de volta para o piano. O biocomputador atua como um dispositivo de memória”, acrescenta Miranda.

“Quando você diz a ele para tocar novamente, ele vai embaralhar as notas enviadas. Pode até gerar alguns sons que não estavam nas notas tocadas. A máquina tem um pouco de ‘criatividade’.”

Enquanto o pianista toca piano na forma convencional, utilizando as teclas, o biocomputador induz notas por pequenos eletroímãs que pairam milímetros acima das cordas de metal, imbuindo a música com um tom etéreo.

Acaso

Miranda compara seu uso de um biocomputador às técnicas “aleatórias” do compositor de vanguarda americano John Cage (1912-1992), que se voltou para o livro chinês de mudanças i-ching e ao lançamento de dados para controlar partes de suas composições.

Credito: Eduardo Miranda e Ed Braund

Som de computador tem traço ‘etéreo’

“John Cage acreditava no acaso, mas não na aleatoriedade. Ele queria aproveitar a estrutura que estava fora de seu controle. Aqui nós temos o efeito, programado em uma máquina viva. Eu acho que isso é o sonho de John Cage realizado.”

Miranda vem explorando há algum tempo o uso de computadores em peças interativas de composições eletrônicas, mas valoriza a simplicidade do processador Physarum.

“O que eu ouço é muito diferente de ter um computador digital programado com cadeias de dados. Não é inteligente, mas é vivo. O que é interessante…”

A estreia de Biocomputer Music ocorreu no Peninsular Arts Contemporary Music Festival “Biomusic” no dia 1º de março.

Manifestações neozapatistas (Fapesp)

Estudo examina as formas de interação entre os net-ativistas, as redes digitais e a territorialidade

JULIANA SAYURI | Edição 217 – Março de 2014

A máscara Anonymus  foi um dos símbolos  das manifestações do exterior usados pelos  que não queriam  mostrar o rosto

A máscara Anonymus foi um dos símbolos das manifestações do exterior usados pelos que não queriam mostrar o rosto

Muitos textos foram escritos sobre as passeatas de junho de 2013 no Brasil, especialmente em relação ao teor político, à legitimidade e à importância histórica dessas manifestações. Enquanto alguns intelectuais foram surpreendidos por sua dimensão, outros viram nas ruas uma expressão altamente simbólica das articulações do “net-ativismo”. Esta é, a propósito, a expressão-chave de um estudo sob o tema apoiado pela FAPESP,Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais, liderado pelo sociólogo italiano Massimo Di Felice, coordenador do Centro de Pesquisa Atopos da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).

O trabalho, impulsionado pelo caráter internacional do net-ativismo, teve a colaboração de três sociólogos europeus: Michel Maffesoli, fundador e diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano da Universidade Sorbonne, em Paris; José Bragança de Miranda, do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagem da Universidade Nova de Lisboa, e Alberto Abruzzese, do Núcleo Italiano de Midialogia da Universidade Livre de Língua e Comunicação, em Milão. Os três, aliás, e mais Pierre Levy, participaram de 6 a 8 de novembro passado do congresso internacional sobre “Net-ativismo, redes digitais e novas práticas de democracia”, na ECA-USP, cujos textos principais deverão estar reunidos em livro no final deste semestre.

Enquanto debatiam a montagem de  um observatório internacional sobre o net-ativismo, Di Felice e colegas encontraram numerosas analogias, especialmente de forma, entre os novos modelos de participação nas redes digitais, entre 2011 e 2013. “Embora  fossem surpreendentemente parecidas as  reivindicações”, observa ele, os pesquisadores optaram por analisar as características das formas de interação entre os ativistas, as redes digitais e a territorialidade. Ou seja, em vez das motivações e dos argumentos políticos, “o que norteou a pesquisa foi a descrição das interacões nessas manifestacões e a amplitude de sua localização”, acrescenta.

Protesto no Congresso Nacional  em junho de 2013 contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte, na saúde e educação

Protesto no Congresso Nacional em junho de 2013 contra gastos na Copa, corrupção e por melhorias no transporte, na saúde e educação

Antes, portanto, da efervescência política e cultural estimulada por diversas mobilizações nas redes e nas ruas, dentro e fora do eixo Rio-São Paulo, o sociólogo já tinha dado seus primeiros passos na investigação do potencial do ativismo articulado nas redes. “O início do estudo foi inspirado por meus percursos, que me levaram a investigar na década passada as formas de conflito na América Latina”, conta Di Felice. A princípio, o pesquisador se dedicou ao movimento zapatista, no México de 1994, que inaugurou o primeiro modelo de protesto global com cartas espalhadas na internet. “Em qualquer canto do mundo, todos os movimentos atuais encontram o zapa-tismo como movimento inspirador. Foi um marco. O rosto coberto dos black blocs e dos Anonymous vem dos zapatistas, assim como a recusa da luta pelo poder, a aversão às tradicionais bandeiras ideológicas e aos partidos políticos de qualquer tendência e a possibilidade de criar uma comunicação própria, como alternativa às mídias oficiais. Esses elementos já se encontravam todos no zapatismo”, diz.

A pesquisa de Di Felice identificou três momentos distintos para o ativismo digi-tal. Primeiro, na década de 1990, o desen-volvimento de movimentos internacionais temáticos, com a difusão de ativismos em redes centralizadas, e de movimentos teóricos da estética na Austrália e na Índia, que pretendiam criar estratégias de ações com os chamados tactical media. Sua atuação se dava nas artes e na política com a busca de  táticas inovadoras de intervenções, com rápida ramificação internacional. Um exemplo é o surgimento dos protestos digitais do movimento Cyberpunk.

No segundo momento, ainda na década de 1990 e começo dos anos 2000, Di Felice assistiu aos desdobramentos da fase indígena e cibernética que encontrou expressão na luta zapatista e inspirou o Fórum Social Mundial. Assim vieram as primeiras práticas de protesto midiático internacional, em cidades como Seattle (em 1999), Praga (em 2000) e Davos (em 2001), marcando a experimentação das primeiras formas de conflitualidade, levando, com a internet, a ação social para dimensões planetárias.

Protestos em Seattle, em novembro de 1999

Protestos em Seattle, em novembro de 1999

Por fim, o terceiro momento ocorreu a partir de 2000 e alcança o presente. Nele, o pesquisador destaca um novo ativismo, que, em muitos casos, provocou processos radicais de transformação – como no caso da Primavera Árabe, com a derrocada de regimes no Egito de Hosni Mubarak, na Líbia de Muamar Kadafi e na Tunísia de Zine el-Abdine Ben Ali – e o surgimento de novas movimentos, como o 5 Estrelas-M5S, na Itália (2009), o #YoSoy132, no México (2012), os indignados do M15, na Espanha (2011), e o M12M de Portugal (2011). Sem esquecer o Occupy Wall Street, nos Estados Unidos (2011), e as jornadas de junho, no Brasil (2013).

Mas o que mudou para propiciar o boom de movimentos tão amplos e diversos? Para Di Felice, a chave está na passagem da web 1.0 para a web 2.0. Antes, a internet era uma rede de computadores conectados por modems e linhas telefônicas, permitindo apenas a troca de textos e de imagens. Eram os tempos das primeiras noções de cibercultura. Na década de 1990, o ciberativismo era considerado uma modalidade de ação política direta de base, marcada pela difusão de informações na rede a fim de boicotar o consumo e realizar ocupações e protestos relacionados aos direitos humanos, civis e ecológicos.

Agora, com o avanço tecnológico e o advento das redes sociais digitais, a internet se tornou uma plataforma plural e conflitiva, com mobilidade e agilidade, facilitando o intercâmbio e o compartilhamento não só de textos e de imagens, mas de outros formatos multimídia. É possível dialogar, criar redes temáticas, trocar conteúdos e buscar soluções de forma colaborativa em tempo real. De acordo com Di Felice, o net-ativismo corresponde a uma forma intensiva de interação na rede, entre indivíduos, territórios e tecnologias digitais. Ao contrário de outros tempos, marcados pela oposição à globalização, esse novo ativismo sinaliza uma identidade cidadã global, possível e presente nas redes digitais, com pautas reivindicatórias direcionadas à democracia, à equidade e à sustentabilidade. “A internet é uma construção coletiva. É uma rede inteligente”, define Di Felice, em entrevista realizada por Skype, conectando Roma-São Paulo.

Na mesma linha, Henrique Antoun, autor de A internet e a rua (Sulina, 2013) e coordenador do Cibercult, laboratório da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), analisa: “As redes digitais permitem que as populações experimentem as relações socioglobais e locais de modo lúdico e possam propor novas formas de trabalho, projetos autônomos e novos modos de coletividade e governança. Com o ciberativismo, a massa estúpida se fez uma multidão inteligente, fazendo o pensamento guiar as ações coletivas e submetendo a centralidade da estratégia ao descentramento das táticas”.

Movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2011

Movimento Occupy Wall Street, em setembro de 2011

Nesse contexto, o estudo liderado por Di Felice, além de construir uma tipologia da ação net-ativista que caracteriza a qualidade da ação em frontal, imersiva, dialógica e reticular, indicou três características para a definição de net-ativismo. A primeira se refere à singular ecologia das ações que acontecem ao mesmo tempo nas ruas e nas redes digitais. “É uma nova ecologia, muito complexa, agregando dispositivos de conectividade, cidades, corpos e informacões digitais (Big data), por meio de diferentes tipos de atores e de interações. Não há mais distinção entre o mundo ‘real’ e o mundo ‘virtual’”, diz o pesquisador. “Isso inaugura uma nova forma de cidadania que supera a esfera pública, antes possibilitada pela mídia da opinião ‘publicada’, ou seja, pela opinião difundida na esfera pública midiática. Agora todo cidadão pode produzir e compartilhar informações.” Basta pensar nas últimas manifestações embaladas pela hashtag #vemprarua. O manifestante está presente fisicamente na rua e, ao mesmo tempo, pode registrar e postar fotos no Facebook comentando o protesto em tempo real e expandindo assim a localidade de sua atuação. Pode gravar e postar vídeos no YouTube, mostrando realidades diferentes das propagadas pela mídia tradicional. E pode também postar no Twitter, narrando impressões pessoais sobre o que acontece na rua e na rede.

Se não há mais contraposição aparente entre o universo “real” e o “virtual”, o que dizer da diferença entre a esfera pública e o espaço privado? “Atualmente não habitamos só o território, mas também redes inteligentes”, explica. “Esse processo que começou com a eletricidade amplia-se quantitativamente com as redes digitais e os dispositivos de conexão móveis. A conexão ubíqua aos fluxos informativos mediante dispositivos me permitem alterar a minha situação social e a minha experiência da localidade. Onde estamos e onde agimos é hoje cada vez mais o resultado de relações em redes ecológicas complexas”, comenta Di Felice.

A segunda característica do net-ativismo seria a valorização do anonimato (influenciada pelo movimento zapatista) e a recusa de uma identidade política ideológica, sintetizada num líder (recusa reverberada nos protestos no Brasil, por exemplo). Não há um centro difusor de ordens e ideias, mas uma relação horizontal entre os net-ativistas. A terceira característica seria a recusa da institucionalização, expressa na aversão a partidos políticos de quaisquer orientações, o que diferencia essencialmente os movimentos sociais nas redes digitais e os movimentos sociais modernos. “O ativismo digital possibilita a superação da velha ideia de militante, dos ativos nos grêmios universitários e nos partidos políticos. Isso se superou, pois todos nós podemos atuar nas redes digitais. Na rede estão presentes as atividades culturais, os estudos, as relações sociais. Assim, temos uma nova forma de democracia, em que o cidadão é chamado a ser cidadão  ativo todos os dias – e não só na participação com um voto a cada quatro anos”, diz Di Felice.

Mas o net-ativismo está estritamente ligado ao #vemprarua? Isto é, para se realizar, é preciso estar de corpo e alma presente nas manifestações? Talvez não. “O net-ativismo não pode ser pensado apenas na dimensão do protesto ou do conflito. Há redes de cidadãos pensando soluções para diversos impasses de nosso tempo”, observa Di Felice. “A passeata é apenas a expressão visível das redes. Na verdade, o aspecto mais importante do ativismo em rede é o acesso às informações e os debates para a solução direta dos problemas através da criação de redes de inovação.” Na visão do pesquisador, “aí temos um importante papel das universidades. Elas têm a obrigação de estar nas redes e participar desse processo histórico que marca a passagem da sociedade do espetáculo para a sociedade das redes”, conclui.

Projeto
Net-ativismo: ações colaborativas e novas formas de participação em redes digitais (nº 2010/50999-6); Modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular; Pesquisadorresponsável Massimo Di Felice; Investimento R$ 30.267,23 (FAPESP).

Artigo científico
DI FELICE, M. Ser redes: o formismo digital dos movimentos net-ativistasRevista Matrizes – USP. v. 7, n. 2, p. 49-71. 2013.

A mobilidade dos movimentos sociais (Fapesp)

Análise das redes de organizações da sociedade civil contraria tese da “onguização”

MÁRCIO FERRARI | Edição 216 – Fevereiro de 2014

© NARA ISODA

Movimentos sociais tiveram papéis ativos nos processos de democratização ocorridos na América Latina nas últimas décadas do século XX. Daquele período até os dias de hoje, muitos passaram por uma evolução amplamente registrada na literatura das ciências sociais, especialmente naquela dedicada ao estudo da sociedade civil na região. Um aspecto quase consensual entre os pesquisadores do setor é que a partir dos anos 1990 houve uma renovação da sociedade civil e que ela se deu de forma substitutiva – isto é, com certos tipos de atores tomando o lugar de outros. Isso teria culminado, a partir dos anos 1990, numa preponderância das organizações não governamentais (ONGs), deslocamento que ficou conhecido como “onguização” dos movimentos sociais, entre os que estudam esses fenômenos.

Em suma, os movimentos populares, formados pelos próprios interessados nas demandas de mudança, teriam cedido espaço para organizações que também defendem mudanças, mas em nome de grupos que não são seus membros constituintes (atividade chamada de advocacy nas ciências sociais). Essas ações teriam acarretado uma despolitização da sociedade civil.

O cientista político Adrian Gurza Lavalle, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP), pesquisador do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), no entanto, vem conduzindo estudos que contradizem a tese da “onguização”. Um mapeamento das organizações em dois dos maiores conglomerados urbanos da América Latina, São Paulo e Cidade do México, que configuram as “ecologias organizacionais” das cidades da região, demonstrou que as ONGs conquistaram e mantiveram protagonismo, mas os movimentos sociais também estão em posição de centralidade, apesar das predições em contrário. “Nossas pesquisas contrariam diagnósticos céticos que mostram uma sociedade civil de organizações orientadas principalmente para a prestação de serviços e a trabalhar com assuntos públicos de modo desenraizado ou pouco voltado para a população de baixa renda”, diz Gurza Lavalle, que também é pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). “Mais: elas mostram que a sociedade civil se modernizou, se diversificou e se especializou funcionalmente, tornando as ecologias organizacionais da região mais complexas, sem que essa complexidade implique a substituição de um tipo de ator por outro.”

© MARA ISODA

Essas conclusões vêm de uma sequência de estudos comandados por ele nos últimos anos. Os mais recentes foram desenvolvidos em coautoria com Natália Bueno no CEM, um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP. O trabalho tem como pesquisadores convidados Ernesto Isunza Vera (Centro de Estudios Superiores en Antropología Social, de Xalapa, México) e Elisa Reis (Universidade Federal do Rio de Janeiro). Concentra-se no papel das organizações civis e na composição das ecologias organizacionais nas sociedades civis de diversas cidades no México e no Brasil.

O que o cientista político apresenta nos seus estudos de rede pode ser uma contribuição para que os tomadores de decisão conheçam melhor a heterogeneidade das organizações civis. “Há implicações claras para a regulação sobre o terceiro setor, no sentido de que ela se torne menos uma camisa de força e mais um marco que ofereça segurança jurídica aos diferentes tipos de organizações da sociedade civil que recebem recursos públicos ou exercem funções públicas”, diz o pesquisador.

“O trabalho que vem sendo realizado por Gurza Lavalle, seus alunos e colaboradores é especialmente valioso porque, por meio da análise de redes, permite mapear com mais rigor e de maneira mais fina as relações entre os movimentos sociais”, diz Marisa von Bülow, professora do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB), especializada no estudo das sociedades civis latino-americanas. “A análise de redes não é necessariamente o melhor método, mas complementa muito bem métodos como as pesquisas qualitativas e de campo, as entrevistas etc. Permite que se vejam coisas que não poderiam ser lidas com tanta clareza pelas vias tradicionais. No caso das pesquisas de Gurza Lavalle, acabaram mostrando que as sociedades civis da região são mais diversas e plurais do que se pensava.”

“As análises que tínhamos eram geralmente leituras impressionistas ou dados sem capacidade de produzir inferências”, diz Gurza Lavalle. Ele tirou da literatura local a evolução dos atores sociais na região, que identifica duas ondas distintas de inovação na mobilização social: tomando como plano de comparação as organizações tradicionais como as entidades assistenciais ou as associações de bairro, a nova onda de atores surgida nos anos 1960, 1970 e metade dos 1980, e a novíssima onda de atores que ganhou força nos anos 1990.

A primeira se caracterizou pelas organizações criadas em razão de demandas sociais de segmentos amplos da população durante a vigência do regime militar. É o caso das pastorais incentivadas pela Igreja Católica e os movimentos por moradia, pela saúde e contra a carestia. As organizações da segunda onda costumam ser agrupadas na denominação de ONGs, que por sua vez deram origem às entidades articuladoras, aquelas que trabalham para outras organizações, e não para indivíduos, segmentos da população ou movimentos localizados – por exemplo, a Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong) ou a Rede Brasileira Agroflorestal (Rebraf).

A análise de redes, segundo Gurza Lavalle, permitiu avaliar a influência das associações, “tanto no seio da sociedade civil quanto em relação a outros atores sociais e políticos”. Esse resultado foi obtido por um conjunto de medidas de centralidade que computam os vínculos no interior da rede, não só aqueles diretos ou de vizinhança, mas, sobretudo, aqueles indiretos ou entre uma organização e os vínculos de outra organização com a qual a primeira interage e aos quais não tem acesso direto. “Quando nos relacionamos, estamos vinculados de forma indireta aos vínculos dos outros”, diz o pesquisador.

© NARA ISODA

A análise de redes, de acordo com o cientista político, registrou desenvolvimento acelerado nas últimas duas décadas e é aplicável a diversas áreas do conhecimento. “Graças aos avanços da análise de redes é possível, por exemplo, detectar padrões de difusão de doenças, pois permite identificar estruturas indiretas que não estão à disposição dos indivíduos, mas atuam num quadro maior. É um caminho para superar as caracterizações extremamente abstratas e estilizadas dos atores comuns nas ciências sociais, mas sem abrir mão da generalização de resultados.” Segundo Gurza Lavalle, uma das principais vantagens desse método é complementar e ir além dos estudos de caso e controlar as declarações das próprias organizações estudadas (autodescrição) e investigar as posições objetivas dos atores dentro das redes, bem como as estruturas de vínculos que condensam e condicionam as lógicas de sua atuação.

O método de amostragem adotado para apurar a estrutura de vínculos entre as organizações é conhecido como bola de neve. Cada entidade foi chamada a citar cinco outras organizações importantes no andamento do trabalho da entidade entrevistada. Na cidade de São Paulo foram ouvidos representantes de 202 associações civis, que geraram um total de 827 atores diferentes, 1.368 vínculos e 549.081 relações potenciais. Essa rede permitiu identificar claramente a vitalidade dos movimentos sociais, semelhante à das ONGs. Além disso, o estudo detectou quatro tendências da ecologia organizacional da sociedade civil em São Paulo e, em menor grau, na Cidade do México: ampliação, modernização, diversificação e, em alguns casos, especialização funcional (capacidade de desenvolver funções complementares com outras organizações).

O que o pesquisador utiliza como aproximação aos “movimentos sociais” são organizações populares, “entidades cuja estratégia de atuação distintiva é a mobilização popular”, como o Movimento de Moradia do Centro, a Unificação de Lutas de Cortiços e, numa escala bem maior, o Movimento dos Sem-Terra. Estas, na rede, estão em pé de igualdade com as ONGs e as articuladoras. Numa posição de “centralidade intermediária” estão as pastorais, os fóruns e as associações assistenciais. Finalmente, em condição periférica, estão organizações de corte tradicional, como as associações de bairro e comunitárias.

“As organizações civis passaram a desempenhar novas funções de intermediação, ora em instituições participativas como representantes de determinados grupos, ora gerindo uma parte da política, ora como receptoras de recursos públicos para a execução de projetos”, diz Gurza Lavalle. “As redes de organizações civis examinadas são produto de bolas de neve iniciadas em áreas populares da cidade e por isso nos informam a respeito da capacidade de intermediação das organizações civis em relação a esses grupos sociais.”

Outros estudos confirmam as conclusões do trabalho conduzido por Gurza Lavalle, como os de Lígia Lüchmann, professora do Departamento de Sociologia e Ciência Política da Universidade Federal de Santa Catarina, que vem estudando as organizações civis de Florianópolis. “Eu confirmaria a ideia de que a sociedade civil é hoje funcionalmente mais diversificada do que costumava ser, com atores tradicionais coexistindo com os novos”, diz. Ela cita, na capital catarinense, a atuação de articuladoras como a União Florianopolitana de Entidades Comunitárias e o Fórum de Políticas Públicas.

No cenário latino-americano, Gurza Lavalle e Marisa von Büllow veem o Brasil como um caso excepcional de articulação das organizações sociais ao conseguir acesso ao poder público, o que não ocorre no México. Gurza Lavalle cita como exemplos os casos do Estatuto da Cidade, que teve origem no Fórum Nacional da Reforma Urbana, e do ativismo feminista no interior do Movimento Negro, cuja história é um componente imprescindível da configuração do campo da saúde para a população negra dentro da política nacional de saúde, embora sejam mais conhecidos os casos do movimento pela reforma da saúde ou do ativismo de organizações civis na definição das diretrizes das políticas para HIV/Aids.

Projeto
Centro de Estudos da Metrópole – CEM (nº 2013/07616-7); Modalidade Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid); Pesquisadora responsável Martha Teresa da Silva Arretche; Investimento R$ 7.103.665,40 para todo o Cepid (FAPESP).

Artigo científico
GURZA LAVALLE, A. e Bueno, N. S. Waves of change within civil society in Latin America: Mexico City and Sao PauloPolitics & Society. v. 39, p. 415-50, 2011.

Model predicts growth, death of membership-based websites (Science Daily)

Date: February 4, 2014

Source: Carnegie Mellon University

Summary: Facebook is a proven success in what the late Nobel laureate Herbert Simon called “the marketplace of attention.” A new model assesses the viability of websites and social networks in this new attention economy to predict which sites are sustainable and which are not. The model attempts to replicate the dynamics of membership sites, including the role of active users as catalysts of website activity, turning dormant website members into active users and keeping them active.

Chart of Facebook use including predictions for future use. Credit: Image courtesy of Carnegie Mellon University

Facebook, now celebrating its 10th anniversary, is a proven success in what the late Nobel laureate Herbert Simon called “the marketplace of attention.” A new model devised at Carnegie Mellon University assesses the viability of websites and social networks in this new attention economy to predict which sites are sustainable and which are not.

The model, developed by Bruno Ribeiro, a post-doctoral researcher in Carnegie Mellon’s Computer Science Department, attempts to replicate the dynamics of membership sites such as Facebook, LinkedIn and TeaPartyNation, including the role of active users as catalysts of website activity, turning dormant website members into active users and keeping them active.

In applying the model to six years of user statistics for 22 membership-based websites, Ribeiro found that it was able to reliably predict which sites will be sustainable for the foreseeable future — including the Huffington Post news site, Ashley Madison dating site and The Blaze commentary site — and which sites could not be sustained, such as Flixster.com, OccupyWallSt.org and TeaPartyPatriots.org.

Unlike a recent, widely publicized academic study that predicted an 80 percent drop in Facebook membership from 2015 to 2017, Ribeiro’s model shows Facebook to be sustainable for the foreseeable future. As with all of these predictions, however, Ribeiro points out that even sustainable sites are vulnerable to upstarts that steal the attention of their members, as Facebook famously did to MySpace.

Ribeiro said his model could help investors understand which sites are self-sustaining and which are likely to fail, as well as help website managers identify and correct problems in the dynamics of attention to their sites.

It’s not enough to look at the total membership or the growth of membership of a site to understand which sites will be successful, Ribeiro said. His model accounts for the tendency of active members to become inactive, the influence that active members can have in encouraging friends to join or become active members, and the role of marketing and media campaigns in convincing people to join.

Ribeiro said he was inspired to take this approach by the writings of Simon, a Carnegie Mellon professor who won the 1978 Nobel Prize in economics. Simon had observed that many information systems were designed as if information was scarce, when the problem was just the opposite. “A wealth of information creates a poverty of attention and a need to allocate that attention efficiently among the overabundance of information sources that might consume it,” he said.

Ribeiro tested the model by evaluating both successful and unsuccessful sites. “If you don’t look at the negative examples, you never understand what makes for success,” he explained. Six years of daily number of active users (DAU) data, beginning in 2007, were obtained for 22 sites from Alexa, a Web analytics company. “This study couldn’t have been done even two years ago,” he added, “because data of this quality and breadth simply didn’t exist.”

In addition to separating the self-sustaining from the unsustainable sites, the model was able to discern which sites grew primarily from word of mouth, such as Facebook, Meetup.com and LinkedIn, and those powered by media and marketing, such as The Blaze, Bandstack and OccupyWallSt.

Unfortunately, the model also suggests that in the quest for attention, many sites are likely to increase annoying behaviors, such as sending emails about what friends on the site are doing.

“If this model is correct, social network sites will try to make your friends’ lives seem more interesting and your feedback on their posts more urgent,” Ribeiro said. Many teens, for instance, seem glued to their smartphones for fear of missing something that might get posted on a social site by or about a friend. “From the model’s perspective it is beneficial for companies to be encouraging this type of behavior,” he added.

O Brasil ‘bipolar’ vem a Davos (Folha de S.Paulo)

23/01/2014  03h26

Clóvis Rossi

DAVOS – Marcelo Neri, o economista que chefia a Secretaria de Assuntos Estratégicos, lamenta que o Brasil viva o que chama de “situação bipolar”: uma boa parte do empresariado está pessimista com os rumos da economia, ao passo que o que Elio Gaspari chamaria de “andar de baixo” está satisfeito com a inclusão ocorrida nos últimos anos.

O ideal, para Neri, seria que “pessimistas fossem menos pessimistas, e otimistas menos otimistas”.

A segunda parte da equação é inalcançável, brinca o ministro, na medida em que “o brasileiro foi heptacampeão mundial de otimismo” (ficou em primeiro lugar na pesquisa Gallup sobre a satisfação com a própria vida, entre 2006 e 2012).

Em 2013, no entanto, as coisas mudaram ligeiramente: houve uma queda na satisfação, para o 18º lugar no mundo, coincidindo com as manifestações de junho. Mas, já em outubro, de 0 a 10, o brasileiro dava 7 para a sua satisfação com a vida, o terceiro lugar no planeta.

O ministro tem uma explicação para a “bipolaridade”: economistas e executivos costumam olhar muito para o PIB, que, de fato, está crescendo mediocremente, como disse ontem a mexicana Alícia Bárcenas, secretária-executiva da Cepal, a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe.

Já o comum dos mortais olha para a sua própria vida e vê que ela melhorou nos últimos anos, inclusive no ano passado: enquanto o PIB per capita, até novembro, crescia apenas 1,8%, a renda mediana subia 5,2%.

Como, então, explicar os protestos de junho? Para Neri, “a casa melhorou, mas o seu entorno [leia-se: serviços públicos] não. As pessoas querem uma outra agenda, após o crescimento com redução da desigualdade”.

Neste ponto, uma observação pessoal que já fiz várias vezes ao hoje ministro e da qual ele não discorda: caiu a desigualdade entre salários, mas não entre o rendimento do capital e do trabalho, até porque é muito difícil medir o primeiro desses rendimentos.

E os rolezinhos? Neri admitiu, em mesa-redonda ontem em Davos: “Não acho que saibamos o que está acontecendo”.

Mas, em conversa com jornalistas, arriscou palpites: primeiro, a sociedade está muito mais interligada, do que decorre o uso das redes sociais como ponto de referência para os rolezinhos, e “a população jovem nunca foi e nunca mais será tão grande como agora”.

É desse Brasil “bipolar” que Dilma embarcou ontem para se apresentar amanhã a uma parte do público, inclusive estrangeiro, que está majoritariamente entre inquieta e pessimista sobre o Brasil.

Palpite meu: se ela focar sua fala na sessão plenária e na conversa reservada com executivos no “feel good factor”, esse sentir-se bem do andar de baixo, não vai desfazer o mal-estar. O que o povo de Davos quer são certezas sobre a situação fiscal brasileira, ou seja, sobre as sobras para pagar a dívida.

Não por acaso, esse tema apareceu no primeiro lugar entre os riscos globais medidos por uma grupo de peritos para o Fórum Econômico Mundial, ao lado do crescimento da desigualdade.

Facebook Data Scientists Prove Memes Mutate And Adapt Like DNA (TechCrunch)

Posted Jan 8, 2014 by  (@joshconstine)

Richard Dawkins likened memes to genes, but a new study by Facebook shows just how accurate that analogy is. Memes adapt to their surroundings in order to survive, just like organisms. Post a liberal meme saying no one should die for lack of healthcare, and conservatives will mutate it to say no one should die because Obamacare rations their healthcare. And nerds will make it about Star Wars.

Facebook’s data scientists used anonymized data to determine that “Just as certain genetic mutations can be advantageous in specific environments, meme mutations can be propagated differentially if the variant matches the subpopulation’s beliefs or culture.”

Take this meme:

“No one should die because they cannot afford health care, and no one should go broke because they get sick. If you agree, post this as your status for the rest of the day”.

In September 2009, 470,000 Facebook users posted this exact phrase as a status update. But a total of 1.14 million status updates containing 121,605 variants of the meme were spawned, such as “No one should be frozen in carbonite because they can’t pay Jabba The Hut”. Why? Because humans help bend memes to better fit their audience.

In the chart below you can see how people of different political leanings adapted the meme to fit their own views, and likely the views of people they’re friends with. As Facebook’s data scientists explain, “the original variant in support of Affordable Care Act (aka Obamacare) was propagated primarily by liberals, while those mentioning government and taxes slanted conservative. Sci-fi variants were slightly liberal, alcohol-related ones slightly conservative”. That matches theories by Dawkins and Malcom Gladwell.

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Average political bias (-2 being very liberal, +2 being very conservative) of users reposting different variants of the “no one should” meme.

As I wrote in my Stanford Cybersociology Master’s program research paper, memes are more shareable if they’re easy to remix. When a meme has a clear template with substitutable variables, people recognize how to put their own spin on it. They’re then more likely to share their own modified creations, which drives awareness of the original. When I recognized this back in 2009, I based my research on Lolcats and Soulja Boy, but more recently The Harlem Shake meme proved me right.

Facebook’s findings and my own have signficant implications for marketers or anyone looking to make a message go viral. Once you know memes are naturally inclined to mutate, and that these mutations increase sharing, you can try to purposefully structure your message in a remixable way. By creating and seeding a few variants of your own, you can crystallize how the template works and encourage your audience to make their own remixes.

As you can see in this graph from my research paper, usage of the word “haz” as in the Lolcat phrase “I can haz cheezburger” grew increasingly popular for several years. Meanwhile, less remixable memes often only create a spike in mentions for a few days. I posit that high remixability — or adaptability — keeps memes popular for a much longer period of time.

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Rise in mentions of the word “haz” in Facebook wall posts, indicating sustained popularity of the highly remixable Lolcats memes – as shown on the now defunct Facebook Lexicon tool

For social networks like Facebook, understanding how memes evolve could make sure we continue to see fresh content. Rather than showing us the exact copies of a meme over and over again in the News Feed, Facebook’s algorithms could purposefully search for and promote mutated variations.

That way instead of hearing about healthcare over and over, you might see that “No one should twerk just because they can’t avoid hearing Miley Cyrus on the radio. If you agree, sit perfectly still with your tongue safely inside your mouth for the rest of the day.”

A internet e o “orgasmo democrático” (Outras Palavras)

06/11/2013 – 10h05

por Marcos Nunes Carreiro, do Outras Palavras

rede A internet e o “orgasmo democrático”

A emergente participação em rede não produzirá novas ideologias unitárias ou revoluções, mas poderá destruir o velho jogo da governança representativa.

Muito se fala de como as redes sociais vêm modificando o pensamento social e ampliando a capacidade de reflexão, sobretudo dos jovens, em razão da participação fundamental da internet nas manifestações e protestos que tomaram o Brasil nos últimos meses. As mani­festações já viraram pauta nas escolas e com certeza serão conhecidas das próximas gerações. Mas, afinal, qual é o papel político-social das redes sociais e da internet?

Há quem diga que o momento atual do Brasil é de orgasmo democrático, ao ver milhares de pessoas saindo às ruas em razão da situação político-econômica do país. E é realmente instigante acompanhar a efervescência da sociedade, até para quem não tem ânimo de participar. Todavia, há discordância quanto ao termo “orgasmo democrático”. O professor da Faculdade de Comu­nicação da Universidade Federal de Goiás (UFG), Magno Medeiros, por exemplo, diz que orgasmo é um fenômeno fugaz e de satisfação imediata, ao contrário do que vive o Brasil atualmente.

Para ele, o que ocorre, na verdade, é a erupção de uma dor crônica, sedimentada há várias décadas em torno da insatisfação em relação aos direitos de cidadania. “Direitos básicos, como ter um transporte urbano decente, como ter o direito de ser bem tratado na rede pública de saúde, como ter uma educação de qualidade e de acesso democrático a todos. O Brasil experimentou, nos últimos anos, avanços consideráveis no campo da redução das desigualdades sociais e da minimização dos bolsões de pobreza, mas os setores sociais pobres e miseráveis, que emergiram para a classe C, querem mais do que apenas consumir bens básicos como geladeira, fogão, computador, celular, etc. Eles querem ser tratados com dignidade”, diz.

Ideologia social

O autor da expressão que titula a matéria é o italiano Massimo Di Felice, doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP) e PHD em sociologia pela Universidade Paris Descartes V, Sorbonne. Di Felice é professor da Escola de Comu­nica­ção e Artes da USP, onde fundou o Centro de Pesquisa Atopos e coordena as pesquisas “Redes digitais e sustentabilidade” e “Net-ativismo: ações colaborativas em redes digitais”.

O termo “orgasmo democrático” surgiu quando o professor foi questionado sobre como, antes, o que reunia milhares de pessoas eram ideologias políticas, e hoje já não é assim. Seria então possível afirmar que vivemos a época de um processo de criação democrática de ideologia social? Segundo Di Felice, a razão política ocidental moderna europeia, positivista e portadora de uma concepção unitária da história, criou as democracias nacionais representativas, que se articulavam pelo agenciamento da conflitualidade através dos partidos políticos e dos sindicatos. E a estrutura comunicativa dessas instituições, correspondente aos fluxos comunicativos da mídia analógica – imprensa, TV e jornais –, é centralizada e vertical, além de maniqueísta, isto é, divide e organiza o mundo em mocinhos e vilões, direita e esquerda, revolucionários e reacionários etc.

Contudo, as redes digitais criaram outros tipos de fluxo comunicativo, descentralizados, que permitem o acesso às informações e a participação de todos na construção de significados. “A razão política moderna é fálica e cristã, busca dominar o mundo, rotula pensamentos enquanto os simplifica, necessita de inimigos e promete a salvação. Já a lógica virtual é plural, se alimenta do presente e não possui ideologia, além de viver o presente ato impulsivo”, analisa.

Ele diz ser normal que a sociedade queira identificar e julgar os movimentos, rotulando-os por exemplo de “fascistas”, pois, segundo ele, a razão ordenadora odeia o novo e o que não compreende. “Porém, julgar os diversos não-movimentos que nasceram pelas redes (espontâneos e não unitários) é como julgar a emoção e a conectividade orgiástica (‘orghia’ em grego significa “sentir com”). A democracia do Brasil está passando de sua dimensão pública televisiva, eleitoral e representativa, para a dimensão digital-conectiva. O país está experimentando um orgasmo democrático. A lógica é, como diria Michel Maffesoli, dionisíaca e não ideológica.”

Segundo Di Felice, do ponto de vista sociopolítico, as arquiteturas informativas digitais e as redes sociais estão trazendo, no mundo inteiro, alterações qualitativas que podem ser classificadas em dez pontos: 1. A possibilidade técnica do acesso de todos a todas as informações; 2. O debate coletivo em rede sobre a questões de interesse público; 3. O fim do monopólio do controle e do agenciamento das informações por parte dos monopólios econômicos e políticos das empresas de comunicação; 4. O fim dos pontos de vista centrais e das ideologias políticas modernas (seja de esquerda ou direita) que tinham a pretensão de controlar e agenciar a conflitualidade social; 5. O fim dos partidos políticos e da cultura representativa de massa que ordenavam e controlavam a participação dos cidadãos, limitando-a ao voto a cada quatro anos.

A partir do sexto ponto, o professor classifica aquilo que trata da evolução sistêmica: 6. O advento de uma lógica social conectiva que se expressa na capacidade que as redes sociais digitais têm de reunir, em tempo real, uma grande quantidade de setores diversos e heterogêneos da população em torno de temáticas de interesse comum; 7. A passagem de um tipo de imaginário político baseado na representação identitária e dialética (esquerda-direita; progressistas-reacionários, etc.) para uma lógica experiencial, conectiva e tecno-colaborativa, que se articula não mais através das ideologias, mas através da experiência entre indivíduos, informações e territórios; 8. O advento de um novo tipo de gestão pública e de democracia; 9. A transformação da relação entre político e cidadão e do papel dos eleitos, que passam a ser considerados não mais como representantes do poder absoluto, mas porta-vozes e meros executores da vontade popular que os vigia a cada decisão; 10. A passagem de um imaginário político, baseado em uma esfera pública na qual a participação dos cidadãos era apenas opinativa, para formas de deliberação coletiva e práticas de decisão colaborativas que se articulam autonomamente nas redes. Acompanhe a entrevista:

Massimo Di Felice 350x200 A internet e o “orgasmo democrático”

Massimo Di Felice

Os protestos são organizados nas redes, mas nota-se que há líderes surgindo nas ruas. Como o senhor vê isso?

Os movimentos nascem nas redes, atuam em ruas, mas não em ruas comuns. Eles atuam em “ruas conectadas” e reproduzindo em tempo real, nas redes, os acontecimentos das manifestações. Através da computação móvel, debatem e buscam soluções continuamente, expressando uma original forma de relação tecno-humana e inaugurando o advento de uma dimensão meta-geográfica e atópica (do greco a-topos: lugar indescritível, lugar estranho, fora do comum). Embora o sociólogo espanhol Manuel Castells defenda que os movimentos sociais contemporâneos nascem nas redes e que somente depois, nas ruas, ganham maior visibilidade, não me parece ser esta a sua descrição mais apropriada. Ao contrário: o que está acontecendo em todas as ruas, em diversos países do mundo, é o advento de uma dimensão imersiva e informativa do conflito, que se exprime numa espacialidade plural, conectiva e informativa. Os manifestantes habitam espaços estendidos, decidem suas estratégias e seus movimentos nas ruas através da interação contínua nas “social networks” e da troca instantânea de informações. Não somente se deslocam conectados, mas a manifestação é tal e acontece de fato somente se é postada na rede, tornando-se novamente digital, isto é, informação. Não é mais possível pensar em espaços físicos versus espaços informativos. Os conflitos são informativos. Jogos de trocas entre corpos e circuitos informativos, experimentações do surgimento de uma carne informatizada, que experimenta as suas múltiplas dimensões: a informativa digital e a sangrenta material, golpeada e machucada. Ambas são reais e nenhuma é separada da outra, mas cada uma ganha a sua “veracidade” no seu agenciamento com a outra.

Todos esses dias de junho, em São Paulo, e em muitas outras capitais, jogamos games coletivos – todos fomos conectados a circuitos de informações, espaços e curtos-circuitos que alteravam nossos movimentos segundo as imagens e as interações dos demais membros do jogo. Todos experimentamos a nossa plural e interativa condição habitativa. O sangue dos manifestantes, golpeados pelos policiais, não caía apenas no chão das ruas, mas se derramava em espacialidades informativas. A polícia, através da computação móvel e das conexões instantâneas, tornou-se mídia, cúmplice de um ato informativo, e os manifestantes experimentaram o prazer de transformar seus corpos em informação. Transformar a polícia em mídia foi uma das grandes contribuições destes movimentos, que não possuem líderes nem direção única. Todas as tentativas oportunistas de direcionar e organizar os conjuntos de movimentos serão desmascaradas. Estamos falando da sociedade civil conectada e não deste ou daquele movimento social. Os atores destes movimentos, portanto, não são apenas os humanos, menos ainda alguns líderes. Não estamos falando de movimentos tradicionais que aconteciam nos espaços urbanos e industriais. Estamos, de fato, já em outro mundo.

Fora das redes, ainda há muita gente sem entender o que as manifestações significam, ou como elas surgiram. No ambiente virtual, há maior entendimento sobre o tema?

As manifestações do Brasil são expressões de uma transformação qualitativa que desde o advento da internet altera a forma de participação e o significado da ação social. O Centro de Pesquisa Atopos, da Universidade de São Paulo, está finalizando uma pesquisa internacional sobre o tema, com o apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo).

A pesquisa analisou as principais formas de net- ativismo em quatro países (Brasil, França, Itália e Portugal). Os resultados são interessantes e mostram claramente alguns elementos comuns que, mesmo em contextos diferentes, se reproduzem e aparecem como caraterísticas parecidas. Isso sublinha, mais uma vez, a importância das redes de conectividade e as caraterísticas tecno-informativas dessas expressões de conflitualidade que surgem na origem, na organização e nas formas de atuação destes movimentos. Em síntese, as principais caraterísticas comuns a todos eles são as seguintes: 1. O net-ativismo se coloca fora da tradição política moderna, pois expressa um novo tipo de conflitualidade que não tem como objetivo a disputa pelo poder. Todos os movimentos que marcam as diversas formas de conflitualidade contemporânea (os Zapatistas, os Indignados, Occupy Wall Street, Anonymous, M15 etc.) não têm como objetivo tornar-se partidos políticos e concorrer nas eleições. São todos explicitamente apartidários e contra a classe política. Reúnem-se todos contra a corrupção, os abusos e a incapacidade dessas mesmas classes políticas e de seus representantes; 2. São movimentos e ações que não estão organizados de forma tradicional, isto é, não são homogêneos, compostos por pessoas que se reconhecem na mesma ideologia ou em torno do mesmo projeto político. Ao contrário: são formas de protesto compostas por diversos atores e nos quais, como numa arquitetura reticular, as contraposições não são dialéticas e não inviabilizam a ação; 3. Possuem uma forma organizativa informal e, sobretudo, sem líderes e sem hierarquias; 4. O anonimato é um valor, não somente porque permite a defesa perante ações repressivas, mas porque é a forma através da qual é defendida a não-identidade, coletiva ou individual, de seus membros e das ações. Na tradição das ações net-ativistas, a ausência de identidade e a não visibilidade é o meio através do qual a conflitualidade não se institucionaliza, tornando-se, assim, irreconhecível, não identificável e capaz de conservar a sua própria eficácia conflitiva; 5. São movimentos ou ações temporários e, portanto, não duradouros, cujas finalidades e ambições máximas são o próprio desaparecimento.

Estes e outros elementos que encontramos em todas as ações net-ativistas são parte, já, de uma tradição que possui textos e reflexões que vão desde o cyberpunk até as contribuições de Hakim Bey, a guerrilha midiática de Luther Blisset, até a conflitualidade informativa zapatista. Os Anonymous e os Indignados e as diversas formas de conflitualidade digital contemporâneas são, na sua especificidade, a continuação disso. Não há uniformidade, nem pertença de nenhum tipo, mas inspiração.

A questão informativa é a grande façanha da tecnologia?

Na teoria da opinião pública, estamos assistindo a uma grande passagem do líder de opinião para o empreendedor cognitivo. O líder de opinião ganhava seu poder de persuasão através do poder midiático que lhe permitia, de forma privilegiada, através da TV ou das páginas de um jornal, alcançar grande parte da população de um país. Esta figura, geralmente um comentarista, um cientista político, um profissional da comunicação, um político ou uma personalidade pública, é hoje substituído no interior das novas dinâmicas dos fluxos informativos por outro tipo de informante e de mediador. Este é aquele que, por ter vivenciado ou por ter sido o próprio protagonista de um acontecimento, distribui, através das mídias digitais, diretamente, sem mediações, o acontecimento.

É o caso dos manifestantes que postaram tudo o que aconteceu nas ruas durante as manifestações. Nenhum comentarista ou líder de opinião conseguiu competir e disputar com eles outra versão dos acontecimentos. Eles, os manifestantes, fizeram a cobertura do evento com seus celulares, suas câmeras baratas, a partir do próprio lugar dos acontecimentos, ao vivo. A maioria das informações que circulavam foi produzida por eles. Isso foi possível porque existe uma tecnologia que permite que isso seja possível. Isto é, também um fato político que quebra em pedaços décadas de estudos sociológicos sobre a relação entre mídia e política, entre mídia e poder. A grande transformação que as redes digitais produzem é a interatividade. As pessoas conectadas buscam suas informações, as ordenam, obtêm mais fontes e elementos para avaliá-las. Digamos que, tendencialmente, a população é mais consciente, pois tem acesso direto a uma quantidade infinita de informações sobre qualquer tipo de assunto, tornando-se eles mesmos editores e criadores de conteúdo. Da mesma maneira, pelos mesmos dinamismos informativos, eles se tornam políticos, administradores e transformadores de suas cidades ou de suas localidades.

O senhor é europeu, mas vive há muitos anos na América Latina. Como difere o processo de expressão massiva entre os dois continentes?

Absolutamente não se distingue. Os movimentos possuem todos eles as mesmas características. Em cada país temos situações específicas e atores diferentes, mas que atuam de maneira análoga: através das redes digitais. Possuem a mesma específica forma de organização coletiva: não institucionalizada e sem hierarquia. Expressam as mesmas reivindicações: contra a corrupção dos partidos políticos, por maior transparência e eficiência, melhor qualidade dos serviços públicos. Desconfiam todos de seus representantes e querem decidir diretamente sobre os assuntos que lhes interessam.

Quais as consequências dessa posição que as manifestações assumem?

A rede é o “Além do Homem” do filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Não é fácil, no seu interior, construir éticas coletivas, nem majoritárias, pois o seu dinamismo é emergente e sua forma, temporária. A participação em rede não irá produzir novas ideologias unitárias, menos ainda revoluções, pois sua razão não é abstrata e universal, mas particular e conectiva, mutante e incoerente. Apenas poderá destruir o velho jogo vampiresco da governança representativa e partidária, pois esta não é mais representativa e gera um sistema baseado na corrupção, em que a corrupção não é exceção, mas regra e norma do jogo.

As ideologias políticas que prometiam a igualdade e a salvação do mundo fracassaram, não apenas em seu intento socioeconômico igualitário, mas naquele mais importante: de produzir um novo imaginário social e cultural que nos tornasse parte de uma sociedade mais justa, na qual pudéssemos nos tornar melhores do que somos. A não-ética coletiva das redes não será um decálogo de normas e uma visão de mundo organizada e proferida pela boca das vanguardas, ou dos líderes iluminados, sempre prontos a surfar uma nova onda, mas será muito mais humildemente particular. Não mudará o mundo, mas resolverá através da conectividade problemas concretos e específicos, que têm a ver com a qualidade do ar, o direito à informação, o preço do transporte público, a qualidade do atendimento nos hospitais, a qualidade da educação. Isto é: tudo aquilo que partido nenhum jamais conseguiu fazer.

Para certa esquerda, está em marcha o acirramento de um fascismo nas manifestações, cujo sintoma é a rejeição de partidos nas passeatas. Uma ala da direita, com o apoio da imprensa, também contesta as manifestações como sendo “armação” da esquerda.

É visível para todos o oportunismo e o desespero de uma cultura política da modernidade que se descobriu, de repente, obsoleta e fora da história. Nenhum partido de esquerda consegue hoje representar os anseios e as utopias sequer de uma parte significativa da população. Eles se encontram na singular e cômica situação do menino escoteiro que, para cumprir sua boa ação, tenta convencer a velhinha a atravessar a rua para poder ajudá-la. Só que a velhinha não quer cruzar a rua, mas deseja ir em outra direção. A lógica dialética, eurocêntrica e cristã, baseada na contraposição entre o bem e o mal, marca toda a cultura política da esquerda – que hoje se configura como uma religião laica, não mais racional nem propositiva, mas histérica.

O advento dos movimentos e das manifestações expressou com clareza o desaparecimento do papel de vanguarda, e a incapacidade histórica de análise e de abertura à diversidade e ao livre debate dos partidos. Como na lógica da salvação religiosa, o bom e o justo existem e justificam a sua função somente enquanto existe o mal. A caça às bruxas é uma exigência, a última tentativa de justificar sua função, e uma necessidade ainda de sua presença em defesa dos mais “fracos” e “necessitados”. Não excluo que, em casos não representativos, tenhamos tido a presença de grupos de alguns poucos e isolados indivíduos de direita. Mas a reação e a caça às bruxas que foi gerada é de natureza histérica e a-racional, a última tentativa de voltar no tempo e na história – um passado ameaçador em que havia necessidade de uma ordem, de uma ideologia e de uma vanguarda que representasse o confortador papel da figura paterna.

* Massimo Di Felice estará presente esta semana no I Congresso Internacional de Net-Ativismo, na USP, ao lado de outros pesquisadores renomados: Pierre Lévy, Michel Maffesoli, José Bragança de Miranda e Alberto Abruzzese. 

** Publicado originalmente no site Outras Palavras.

Building Cyberinfrastructure Capacity for the Social Sciences (American Anthropological Association)

Posted on October 9, 2013 by Joslyn O.

Today’s guest blog post is by Dr. Emilio Moran. Dr. Moran is Distinguished Professor Emeritus, Indiana University and Visiting Hannah Distinguished Professor, Michigan State University.

emilio-moran_profileThe United States and the world are changing rapidly.  These new conditions challenge the ability of the social, behavioral and economic sciences to understand what is happening at a national scale and in people’s daily local lives.   Forces such as globalization, the shifting composition of the economy, and the revolution in information brought about by the internet and social media are just a few of the forces that are changing Americans’ lives.  Not only has the world changed since data collection methods currently used were developed, but the ways now available to link information and new data sources have radically changed. Expert panels have called for increasing the cyber-infrastructure capability of the social, behavioral, and economic (SBE) sciences so that our tools and research infrastructure keep pace with these changing social and informational landscapes.  A series of workshops for the past three years has met to address these challenges and they now invite you to provide them with feedback on the proposal below and you are invited to attend a Special Event at this year’s AAA meeting in Chicago, Saturday, November 23, 2013 from 1215 to 1:30 pm at the Chicago Hilton Boulevard C room.

Needed is a new national framework, or platform, for social, behavioral and economic research that is both scalable and flexible; that permits new questions to be addressed; that allows for rapid response and adaptation to local shocks (such as extreme weather events or natural resource windfalls); and that facilitates understanding local manifestations of national phenomena such as economic downturns.  To advance a national data collection and analysis infrastructure, the approach we propose —  building a network of social observatories — is a way to have a sensitive instrument to measure how local communities respond to a range of natural and social conditions over time.  This new scientific infrastructure will enable the SBE sciences to contribute to societal needs at multiple levels and will facilitate collaboration with other sciences in addressing questions of critical importance.

Our vision is that of a network of observatories designed from the ground up, each observatory representing an area of the United States.  From a small number of pilot projects the network would develop (through a national sampling frame and protocol) into a representative sample of the places where people live and the people who live there. Each observatory would be an entity, whether physical or virtual, that is charged with collecting, curating, and disseminating data from people, places, and institutions in the United States.  These observatories must provide a basis for inference from what happens in local places to a national context and ensure a robust theoretical foundation for social analysis.  This is the rationale for recommending that this network of observatories be built on a population-based sample capable of addressing the needs of the nation’s diverse people but located in the specific places and communities where they live and work.  Unlike most other existing research platforms, this population and place-based capability will ensure that we understand not only the high-density urban and suburban places where the majority of the population lives, but also the medium- and low-density exurban and rural places that represent a vast majority of the land area in the nation.

To accomplish these objectives, we propose to embed in these regionally-based observatories a nationally representative population-based sample that would enable the observatory data to be aggregated in such a way as to produce a national picture of the United States on an ongoing basis.  The tentative plan would be to select approximately 400 census tracts to represent the U.S. population while also fully capturing the diversity that characterizes local places. The individuals, institutions and communities in which these census tracts are embedded will be systematically studied over time and space by observatories spread across the country. During the formative stages the number of census tracts and the number of observatories that might be needed, given the scope of the charge that is currently envisioned, will be determined.

These observatories will study the social, behavioral and economic experiences of the population in their physical and environmental context at fine detail. The observatories are intended to stimulate the development of new directions and modes of inquiry.  They will do so through the use of diverse complementary methods and data sources including ethnography, experiments, administrative data, social media, biomarkers, and financial and public health record. These observatories will work closely with local and state governments to gain access to administrative records that provide extensive data on the population in those tracts (i.e. 2 million people) thereby providing a depth of understanding and integration of knowledge that is less invasive and less subject to declining response rates than survey-derived data.

To attain the vision proposed here we need the commitment and enthusiasm of the community to meet these challenges and the resolve to make this proposed network of observatories useful to the social sciences and society. For more details on our objectives and reports from previous meetings, visit http://socialobservatories.org/. Please contribute your ideas at the site so that the proposal can benefit from your input and come to Chicago for the Special Event on Saturday, November 23, 2013. We are particularly interesting in hearing how this platform could help you in your future research. This is an opportunity for anthropological strengths in ethnography and local research to contribute its insights in a way that will make a difference for local people and for the nation.

Emilio F. Moran, co-Chair of the SOCN
Distinguished Professor Emeritus, Indiana University and
Visiting Hannah Distinguished Professor, Michigan State University

Explosive Dynamic Behavior On Twitter and in the Financial Market (Science Daily)

Oct. 7, 2013 — Over the past 10 years, social media has changed the way that people influence each other. By analysing data from the social networking service, Twitter, and stock trading in the financial market, researchers from the Niels Bohr Institute have shown that events in society bring rise to common behaviour among large groups of people who do not otherwise know each other The analysis shows that there are common features in user activity on Twitter and in stock market transactions in the financial market.

The results are published in the scientific journal, PNAS, Proceedings of the National Academy of Sciences.

The figure shows how often the international brands IBM, Pepsi and Toyota have been mentioned during a five-week period on Twitter. The activity is during long periods relatively steady and is then interrupted by sudden activity spikes. The research from NBI shows that there are common features in user activity on Twitter and in stock market transactions in the financial market. (Credit: Niels Bohr Institute)

“The whole idea of the study is to understand how social networks function. The strength of using the popular social media, Twitter, is that they are more than 200 million users worldwide, who write short messages about immediate experiences and impressions. This means that you can directly study human behaviour in crowds on the web. Twitter can be seen as a global social sensor,” explains Joachim Mathiesen, Associate Professor of physics at the Niels Bohr Institute at the University of Copenhagen.

Dynamic Twitter behaviour

Joachim Mathiesen developed a programme that could follow the use of Twitter constantly. He could see that there were periods with relatively steady activity and then there would be a very abrupt and intense upswing in activity. Suddenly there was an event that everyone had to respond to and there was an explosion in the amount of online activity.

“There arises a collective behaviour between people who otherwise do not know each other, but who are coupled together via events in society,” explains Joachim Mathiesen.

The analysis also took into account how frequently approximately 100 international brands, like Pepsi, IBM, Apple, Nokia, Toyota, etc. occurred in messages on Twitter. Here too, the level is characterised by days of steady activity, which is interrupted by sudden, but brief explosions of activity.

“Something happens that encourages people to write on Twitter, and suddenly the activity explodes. This is a kind of horde behaviour that is driven by an external even and gets crowds to react,” says Joachim Mathiesen.

But why is a physicist concerning himself with social behaviour?

“As physicists, we are good at understanding large amounts of complex data and we can create systems in this sea of coincidences. Complex systems are seen in many contexts and are simply learning about human behaviour in large social groups,” he explains.

The model calculations shed light on the statistical properties of large-scale user activity on Twitter and the underlying contexts. Similarly, he analysed the fluctuations in the activity of trading shares on the financial market.

“We saw prolonged intervals with steady activity, after which there was sudden and almost earthquake like activity. An even starts an avalanche in the trading. Statistically, we see the same characteristic horde behaviour in the financial markets as we do on Twitter, so the two social systems are not that different,” concludes Joachim Mathiesen.

Journal Reference:

  1. J. Mathiesen, L. Angheluta, P. T. H. Ahlgren, M. H. Jensen.Excitable human dynamics driven by extrinsic events in massive communitiesProceedings of the National Academy of Sciences, 2013; DOI: 10.1073/pnas.1304179110

Politics and Perceptions: Social Media, Politics Collide in New Study (Science Daily)

Oct. 8, 2013 — It bothered Lindsay Hoffman and colleagues to see other researchers making broad yet vague claims about the role social media plays in political participation.

So they decided to study it.

In a paper to be published in November in the journal Computers in Human Behavior, the University of Delaware associate professor in the departments of Communication and of Political Science and International Relations and her co-authors explored how people perceive their own political behaviors online. It is part of a larger goal to better understand why people engage in politics both on- and offline.

The study is titled “Does My Comment Count? Perceptions of Political Participation in an Online Environment.” Dannagal Young, associate professor of communication, and Philip Jones, associate professor of political science and international relations, teamed up with Hoffman for the study.

It was built around the question of whether, when people engage in political behavior online — “liking” a candidate’s Facebook page, tweeting their thoughts about a political platform, signing a virtual petition — they see their activities as having influence on the functions of government (participation) or as communication with others.

“A lot of people in the 2008 elections were participating on Facebook and on blogs,” Hoffman said (Twitter didn’t play as strong a role then). .” .. We were interested in which is participatory and which is seen as communication.”

Hoffman said many claims had been made about the substantial role social media has played in mobilizing people to become more politically active. Some also believe online political engagement is replacing traditional, offline forms of political behavior, prompting people to play a less active role when it comes to activities like voting.

But without a way to define how people perceived what they were doing when they engaged in politics online, Hoffman and her co-authors were skeptical.

The UD researchers relied on a survey of roughly 1,000 randomly selected American adults to assess what people were doing politically on- and offline, what they had done in the past, to what extent they thought their activities were a good way to influence the government and to what extent they thought their actions were a good way to communicate with others.

The survey, which was completed in the summer of 2010, focused on 11 political behaviors, including voting in an election, communicating online about politics, signing up for online political information, friending or “liking” a candidate or politician and putting up a yard sign or wearing a political shirt.

The work led the researchers to conclude people have a realistic notion of what they are doing when they engage in politics online.

“People are more savvy than we think they are,” Hoffman said. “They viewed every type of behavior mentioned except voting as communication.”

People in the study perceived their on- and offline behaviors as playing different political roles. They seemed not to be replacing traditional, offline political engagement with online behaviors, Hoffman and her co-authors found.

“They are not duped into thinking they can influence government or take a hands-off approach” just by being involved online, she said.

Those in the study who reported being more confident in government and their ability to have an impact were even more motivated to engage in online political activities when they perceived it as communication, the study also found.

“If people see it as communication, they are more likely to participate,” Hoffman said. “Communication is a key cornerstone in political involvement.”

This study was one of the first funded through a $50,000 Innovations through Collaborations Grant awarded by the College of Arts and Sciences’ Interdisciplinary Humanities Research Center, which supports cross-disciplinary work.

Hoffman first met Jones in 2009, when he joined the University. They discovered they shared academic interests, and the grant helped bring their ideas together. The collaboration between the three researchers also resulted in a second publication examining the impact of candidate emotion on political participation. That studied was published online in the journal New Media and Society in December 2012.

“It was the summer of 2010 when we did the online survey asking about how people participate in politics online,” said Hoffman. “There were a lot of high emotions, the tea party was forming, and we wondered how that might impact certain types of political behaviors.”

The study worked toward filling a void in the literature, where few have looked at the effect a candidate’s emotions — like anger, anxiety and hopefulness — have on how people engage in politics. It also challenged the notion that emotional candidates sway voters, particularly those least involved or least knowledgeable about politics.

The researchers found that the online emotional appeal of a candidate did not influence a person’s likelihood of participating on that candidate’s behalf, unless that person was already highly engaged and knowledgeable. The particular emotion expressed was unimportant.

Hoffman is pleased the collaboration with Young and Jones proved so fruitful.

“You hope for the best: to have good data and results that are interesting and compelling,” said Hoffman. “I am really proud of our collaborations.”

Journal Reference:

  1. Lindsay H. Hoffman, Philip Edward Jones, Dannagal Goldthwaite Young. Does my comment count? Perceptions of political participation in an online environmentComputers in Human Behavior, 2013; 29 (6): 2248 DOI: 10.1016/j.chb.2013.05.010

Robots Take Over Economy: Sudden Rise of Global Ecology of Interacting Robots Trade at Speeds Too Fast for Humans (Science Daily)

Sep. 11, 2013 — Recently, the global financial market experienced a series of computer glitches that abruptly brought operations to a halt. One reason for these “flash freezes” may be the sudden emergence of mobs of ultrafast robots, which trade on the global markets and operate at speeds beyond human capability, thus overwhelming the system. The appearance of this “ultrafast machine ecology” is documented in a new study published on September 11 in Nature Scientific Reports.

Typical ultrafast extreme events caused by mobs of computer algorithms operating faster than humans can react. (Credit: Neil Johnson, University of Miami)

The findings suggest that for time scales less than one second, the financial world makes a sudden transition into a cyber jungle inhabited by packs of aggressive trading algorithms. “These algorithms can operate so fast that humans are unable to participate in real time, and instead, an ultrafast ecology of robots rises up to take control,” explains Neil Johnson, professor of physics in the College of Arts and Sciences at the University of Miami (UM), and corresponding author of the study.

“Our findings show that, in this new world of ultrafast robot algorithms, the behavior of the market undergoes a fundamental and abrupt transition to another world where conventional market theories no longer apply,” Johnson says.

Society’s push for faster systems that outpace competitors has led to the development of algorithms capable of operating faster than the response time for humans. For instance, the quickest a person can react to potential danger is approximately one second. Even a chess grandmaster takes around 650 milliseconds to realize that he is in trouble — yet microchips for trading can operate in a fraction of a millisecond (1 millisecond is 0.001 second).

In the study, the researchers assembled and analyzed a high-throughput millisecond-resolution price stream of multiple stocks and exchanges. From January, 2006, through February, 2011, they found 18,520 extreme events lasting less than 1.5 seconds, including both crashes and spikes.

The team realized that as the duration of these ultrafast extreme events fell below human response times, the number of crashes and spikes increased dramatically. They created a model to understand the behavior and concluded that the events were the product of ultrafast computer trading and not attributable to other factors, such as regulations or mistaken trades. Johnson, who is head of the inter-disciplinary research group on complexity at UM, compares the situation to an ecological environment.

“As long as you have the normal combination of prey and predators, everything is in balance, but if you introduce predators that are too fast, they create extreme events,” Johnson says. “What we see with the new ultrafast computer algorithms is predatory trading. In this case, the predator acts before the prey even knows it’s there.”

Johnson explains that in order to regulate these ultrafast computer algorithms, we need to understand their collective behavior. This is a daunting task, but is made easier by the fact that the algorithms that operate below human response times are relatively simple, because simplicity allows faster processing.

“There are relatively few things that an ultrafast algorithm will do,” Johnson says. “This means that they are more likely to start adopting the same behavior, and hence form a cyber crowd or cyber mob which attacks a certain part of the market. This is what gives rise to the extreme events that we observe,” he says. “Our math model is able to capture this collective behavior by modeling how these cyber mobs behave.”

In fact, Johnson believes this new understanding of cyber-mobs may have other important applications outside of finance, such as dealing with cyber-attacks and cyber-warfare.

Journal Reference:

  1. Neil Johnson, Guannan Zhao, Eric Hunsader, Hong Qi, Nicholas Johnson, Jing Meng, Brian Tivnan. Abrupt rise of new machine ecology beyond human response time.Scientific Reports, 2013; 3 DOI: 10.1038/srep02627

Occupying Wall Street: Places and Spaces of Political Action (Places)

PEER REVIEWED: JONATHAN MASSEY & BRETT SNYDER

The Design Observer Group

09.17.12
Occupy Wall Street digital activity timeline
Occupy Wall Street activity online. Click image to enlarge. [Timeline by the authors]

For nine weeks last fall crowds gathered every evening at the eastern end of Zuccotti Park, where a shallow crescent of stairs creates a modest amphitheater, to form the New York City General Assembly. A facilitator reviewed rules for prioritizing speakers and gestures by which participants could signal agreement or dissent. Over two hours or more, they worked through issues of common concern — every word repeated by the assembly, which formed a human microphone amplifying the speaker’s voice — until they reached consensus.

Such was the daily practice of Occupy Wall Street, paralleled in more than a thousand cities around the world. Participants borrowed tactics from Quaker meetings, Latin American popular assemblies, Spanish acampadas, and other traditions of protest and political organization. They also enacted something foundational to the western democratic tradition: constituting a polity as a group of speaking bodies gathered in a central public place.

At the same time, another crowd assembled in a range of online spaces. Moving between the physical and the virtual, participants navigated a hypercity built of granite and asphalt, algorithms and information, appropriating its platforms and creating new structures within it. As they posted links, updates, photos and videos on social media sites; as they deliberated in chat rooms and collaborated on crowdmaps; as they took to the streets with smartphones, occupiers tested the parameters of this multiply mediated world.

What is the layout of this place? What are its codes and protocols? Who owns it? How does its design condition opportunities for individual and collective action? Looking closely at these questions, we learn something about the possibilities for public life and political action created at the intersection of urban places and online spaces.


Top: Occupiers camp in Liberty Plaza as news vans line up across the street. Middle: Detail of#OccupyMap. Bottom: Occupy coordinators meet in the atrium of 60 Wall Street. [Photos by Jonathan Massey]

Occupying the Public Square 
Zuccotti Park — or Liberty Plaza — was the site not only of General Assembly but also of the bustling camp that materialized and sustained the occupation. As architects, we were fascinated by the intensive use of this privately owned public space. As citizens, we were inspired by the movement’s critique of the U.S. political system and its experiment with alternate forms of social organization. After the arrest of 700 protesters on the Brooklyn Bridge, Jonathan began visiting Liberty Plaza and occasionally participating in rallies. Brett tracked the movement’s use of new media to expose inequalities in wealth distribution. Jonathan enlisted friends to survey and document the encampment, while Brett developed an interactive project, Public Space 2.0, that linked Occupy to broader questions about public space. Following the eviction of occupiers in New York and other cities, we decided to collaborate on a project examining the spatial and social organization of Liberty Plaza.

In the tradition of urban demonstrations and sit-ins, the camp claimed a prominent and symbolically charged city space in order to call attention to a political cause. It provided logistical support as the first day of protest extended into a two-month occupation. It gave visitors a point of entry into the movement and its ideas. Moreover, it prefigured in microcosm the alternative polity desired by many participants, modeling and testing modes of self-organization partly autonomous from those provided by the state and the market.

As such, it embodied one of the defining tensions of Occupy Wall Street: between the aims of protest and prefiguration. [1] One reason for claiming Liberty Plaza was to command the attention of the public and the state. Indeed, the blog post that sparked the movement, by the Canadian magazine Adbusters, urged activists to create “a Tahrir moment” by insistently repeating “one simple demand” akin to the call for Egyptian president Hosni Mubarak’s resignation. [2] But some of the New York activists who planned the occupation pursued a vision of autonomous self-organization and self-government informed by anarchist principles. Occupiers refused to formulate their objectives as political demands, even though doing so might have strengthened their grip on the public imagination. Instead of a unified plea to elected representatives, broadcast from a central square, Occupy yielded a polyphony of discussions in the agoras of the hypercity.

Occupy Wall Street police observation tower
Top: Occupiers in mid-October. Bottom: NYPD Skywatch portable surveillance tower. [Photos by Jonathan Massey]

From its founding on September 17, 2011, the occupation traced contours of regulation and control. Its location, design and construction limned the legal, juridical and police affordances of New York’s public realm, revealing the constraints placed on people assembling to form a counterpublic — a public operating according to practices distinct from those of the mainstream. [3] The declared site of the first protest, carnival, and General Assembly was Chase Manhattan Plaza, but occupiers arrived to find the corporate space closed off by barricades and patrolled by police. Prior General Assemblies had been held in New York public parks and squares, but organizers knew the city tightly controlled those spaces by requiring permits, enforcing nighttime closures and barricading areas. The use of city sidewalks was also curtailed. Bloombergville, a sidewalk encampment near City Hall, had survived for three weeks in July, but a test camp-out on Wall Street on September 1 had been broken up by police. [4] When demonstrators found Chase Plaza closed, they moved to the privately-owned Zuccotti Park, three blocks away, claiming the space with signs, megaphones, sleeping bags and blankets.

The following weeks confirmed that the state would use police control to assert its hegemony over the terms of public assembly and discourse. When protesters crossed the border of Liberty Plaza onto city streets or squares, they encountered “order maintenance policing,” a euphemistic directive that empowers New York police to intervene in public events irrespective of criminal action. Over the past 15 years, the NYPD has expanded the practice to assert control over parades, festivals and rallies, often arresting participants for “disorderly conduct” and releasing them without charge. [5] Under this vague authority, NYPD limited the range and duration of Occupy demonstrations and tightly controlled their internal dynamics through barricades, kettling and arrests.

And yet Occupy Wall Street showed that possibilities foreclosed on private and public land could be actualized in the liminal territory of the city’s privately owned public spaces(POPS) — plazas, arcades and other spaces built by real estate developers in return for density bonuses under the terms of the 1961 Zoning Resolution. [6] The occupation of Zuccotti Park was made possible by ambiguities in the POPS system, which has created places where the city government must negotiate authority with corporate owners as well as site occupants. Even so, the city intervened in the camp’s internal organization and operation: fire marshals prohibited tents and other structures in the early weeks; they removed generators as the weather grew cold in late October; and, shortly after midnight on November 15, police forcibly cleared the park.

Zuccotti Park after eviction of protestors
Top: The planned site of the September 17 protest, Chase Manhattan Plaza, was barricaded at the request of its corporate owners. [Photo by David Shankbone] Bottom: Police patrol Zuccotti Park on November 15 after evicting protesters. [Photo by Jonathan Massey]

During the two-month occupation, protesters rewrote the social and spatial codes that had determined use of the block for decades. Created in the late 1960s as a POPS concession linked to the construction of One Liberty Plaza, the park was rebuilt by new owners Brookfield Properties in 2006 to a design by Cooper Robertson & Partners that serves downtown office workers by encouraging passive recreations like lunch and chess while discouraging active ones like cycling and skateboarding. In a related feature on Places, we look more closely at the Cooper Robertson design and its transformation into the Liberty Plaza encampment.

Stepping partially outside state and market systems, occupiers created their own structures for discussion and governance; for provision of daily services; for medical care and sacred space; for music, dance and art. Some aspects of this counterpublic resembled the exhilarating, liberatory “Temporary Autonomous Zones” described by anarchist writer Hakim Bey. [7] Others were pragmatic, even bureaucratic. Within days, working groups resembling urban agencies — dedicated to issues like Comfort, Medical, Kitchen, Library, Sanitation and Security — created a series of nodes or workstations that cut diagonally across the park. They appropriated design elements such as retaining walls, benches and tables to define functional zones.

In overlaying the permanent landscape of the park with new activities and installations, the occupation created what anthropologist Tim Ingold calls a “taskscape”: a topography of related activities deployed in space and changing over time. [8] Through their patterns of spatial appropriation, occupiers responded to the asymmetries of the park — its slope, the priority of Broadway relative to Trinity Place, and the more favorable sun and wind exposures available in the northeast corner — by programming the plaza along a gradient. Running from north and east to south and west, this gradient shaded from public to private, mind to body, waking to sleeping, and reason to faith. Outreach/Media/Legal claimed the location that afforded the most shelter and the best sun exposure while also being situated far from the noise and dust of the World Trade Center construction site.


Kitchen compost station and The People’s Library. [Photos by Jonathan Massey]

On the austere geometry of a tasteful corporate plaza, just under 33,000 square feet, the occupation created an entire world in which you could meditate, change your wardrobe, update your blog, cook lentils, read a book, sweep up litter, bandage a wound, bang a drum, roll a cigarette, debate how best to challenge corporate hegemony, make art, wash dishes and have sex, usually in the company of others.  The square teemed with friends and strangers, allies and antagonists; it was intensely public and interactive. Daily activities were saturated with a talky sociability in which the challenges and opportunities of every action, every decision, were open to reinterpretation and negotiation. At any moment, the call of “Mic check!” could ring out across the camp, obligating participants to drop personal conversations and become part of a communal discourse. The act of chanting in unison, as a human microphone, created a common sense of purpose, established relationships among neighbors and intensified awareness of surrounding bodies.

This new world could feel exhilarating and inspiring but also threatening and claustral. It was crowded. It was charged with strong emotions. Its core members were working hard, and they were often tired. On top of reforming global capitalism, they had to handle fights, thefts, drug use and sexual assaults, while operating under the strain of official hostility, police surveillance, constant interaction with supportive and hostile visitors, and weather. Radical openness and participatory self-government proved taxing. As the occupation stretched from days into weeks and months, participants took shelter from cold, rain and snow in tents and tarps. The plaza became more internalized and lost some of its intense sociability.

The functional zoning also reinforced sociological differences in the camp. Many of the most active members identified themselves as coordinators or occupiers. These groups were not mutually exclusive, but they gravitated toward spaces in separate ends of the park.Coordinators, who facilitated discussions and posted on blogs, often spent nights at home, while occupiers put their bodies on the line by living and sleeping in the park. A spatial gradient emerged, with occupiers’ tents clustered toward the western end. Not surprisingly, these constituencies were marked by differences in class, education level, ethnicity, sexuality and gender. The Daily Show even aired a skit about the differences, using “uptown” and “downtown” to describe the two ends of the park. [9]

Occupy Wall Street Sanitation Workstation


Top: Sanitation workstation. [Photo by Jonathan Massey] Bottom: Liberty Plaza Site Map drawn by Occupy participant on October 10. Click image to enlarge. [Map by Jake Deg]

Organizers worked hard to build the institutions needed to sustain the micro-city, but its autonomy was inherently limited; the camp was shaped by its adjacencies to the social, commercial and political networks of Lower Manhattan and the Financial District. Businesses provided restrooms. Sympathetic unions made facilities available. Organizations lent kitchen and office space. Individuals donated money, books, clothing and food. Murray Bergtraum High School opened its auditorium to meetings of the OWS Spokescouncil. A local government authority, Manhattan Community Board 1, mediated among protesters, neighborhood residents, Brookfield Properties and city officials in discussions about drum noise and other issues where order maintenance was enforced through claims about “quality of life.”

These interactions extended the spatial and social gradients of Liberty Plaza across a broader urban geography. Dozens of working groups met in the enclosed atrium at 60 Wall Street, a privately owned public space at the base of an office tower built by J.P. Morgan and currently occupied by Deutsche Bank. In that large room, designed by Roche and Dinkeloo and clad in marble and mirror and decorated with palm trees and postmodern grottoes, they shared space with chess-players and well-heeled denizens of the Financial District. From morning to night they used the tables, benches, chairs and wifi of the climate-controlled space as a purposeful, orderly extension of the eastern end of Liberty Plaza, establishing commuting patterns that figured 60 Wall as the Occupy office.

Occupying the Internet 
The Wall Street protests would not have materialized without extensive work by on-the-ground activists in New York. But it was the Adbusters blog post that gave the action a name and date. It also gave them #occupywallstreet, the first of thousands of #Occupy hashtags that enabled the spontaneous assembly of strangers on Twitter and other internet platforms. In the months leading up to the first occupation, and in the year afterward, Occupy established an online presence unmatched in the history of social action, leveraging multiple online spaces to stage protests and to generate a distinctive counter-public and alternative polity.


Top: Occupiers connect via laptops and smartphones from Liberty Plaza. [Photo by David Shankbone] Bottom: Instagram photo sent by Occupy activist: “Riding in a bus with 50 others, in cuffs writing this.” [Photo by pulseprotest]

In the United States, the internet was largely exempt from the state control and censorship that curtailed protest activity on the street, but it was inherently open to surveillance and imposed another set of exclusions based on access to online spaces and protocols. Its various platforms afforded ties that were both broader and weaker than those at Liberty Plaza. Discussions took place in specialized forums and channels quite unlike the multisensory, multiparticipatory assemblies, meetings, marches and rallies of the physical realm. From its inception, Occupy tested the capacities of the internet’s virtual spaces to sustain organizational activity, deliberative discourse and other kinds of public-making. [10]

As with the physical occupation, many online actions had precedent in earlier movements, from the anti-globalization protests of the 1990s to the Arab Spring of 2011. For years U.S. activists have used sites like Indymedia to distribute information and mobilize protest participation. [11] After posting its call to action, Adbusters sent word to its email distribution list and created a Facebook event, mobilizing a pre-existing network of followers. As one of the largest privately owned public spaces online, Facebook became a key platform for the Occupy movement. Facebook profiles such as OccupyWallSt,Gilded.Age and OccupyTogether, created in the weeks leading up to the first protest, provided broadly accessible channels for information. When individuals “liked” or commented on items in these newsfeeds, Occupy ideas propagated through user-generated social networks. Throughout the fall, members used the site’s text, link, note, and photo and video sharing features to endorse events and activities. [12]

During the groundwork phase, organizers also used open-source web-coding tools to create dedicated Occupy websites. The most important were Occupywallst.org, a Github site launched in mid-July as a clearinghouse and contact-point for the movement;NYCGA.net, a WordPress site created a few weeks later to serve the New York City General Assembly and its working groups; and the blog Occupytogether.org. These sites combined newsfeeds and social media links with manifestos, videos, crowdmaps and other resources, and they linked together other sites to create a sprawling landscape of information.


A selection of the more than 1600 posts submitted to the 99 Percent Project in October 2011.

In parallel, organizers tapped the internet’s capacity to build what sociologists Jennifer Earl and Katrina Kimport call “e-movements”: politically effective campaigns that circulate in the media without necessarily coalescing into mass gatherings. Online tools provide immediate and inexpensive site design and back-end functionality, allowing organizations or individuals to launch awareness campaigns and other political actions that demand little money or time from participants. [13] One such tool for Occupy activists was the image-based microblogging site Tumblr. In late summer, the 99 Percent Project invited people to “get known” as part of a majority disenfranchised by the super-rich. Under the slogan “We Are the 99 Percent,” the image blog featured self-portraits of working- and middle-class Americans holding handwritten signs or letters describing the circumstances of their indebtedness. The project called attention to the rise in income inequality and helpedpopularize the rhetoric of “the 99 percent.” [14] After September 17, it became an online analogue to Liberty Plaza, enabling a geographically dispersed set of participants to join the occupation of Wall Street and forging a common consciousness about debt and disenfranchisement. The self-portraits were often shot at a computer desk with a webcam, and overwhelmingly they were set in domestic interiors like living rooms, dens and bedrooms. But the handwritten signs pointed to a world outside those walls, evoking the signs of the homeless explaining their misfortunes and asking for help, as well as the signs of protesters bearing expressions of solidarity and calls to action. [15]


Global crowdmap on the Ushahidi platform. [Screenshot by the authors]

Contours of the Hypercity 
In the summer of 2011, before the first protesters had set foot in Liberty Plaza, the Occupy movement was evolving toward a model of General Assembly that hybridized online and offline discourse. While street activists in New York were practicing consensus decision-making in public parks, online participants were responding to a poll Adbusters created using Facebook’s “question” function: “What is our one demand?” Answers included abolishing capitalism, demilitarizing the police, legalizing marijuana, reinstating the Glass-Steagall Act and freeing the unicorns. (The winner was “Revoke Corporate Personhood.”) Through this asynchronous online polling, Facebook supported a weak form of political discussion that prefigured the stronger and more interactive deliberations that filled Liberty Plaza.

By September 10, General Assembly minutes were being posted online at NYCGA. Over time these became more elaborate, and note-takers projected their evolving documents on a screen in Liberty Plaza so that participants could respond to the minutes-in-the-making. Assembly meetings were livestreamed so that participants across the globe could follow in real time, and some were archived online in audio and video formats. Congregants also livetweeted the assemblies under Twitter handles such as @DiceyTroop and @LibertySqGA. These accounts attracted thousands of followers, many of whom responded to live events, adding a layer of online conversation that augmented the face-to-face assemblies.

Hybrid discussions were the norm for the working groups that handled the day-to-day and week-to-week activity of Occupy Wall Street. During and after the occupation, working groups met regularly at Liberty Plaza, the 60 Wall atrium, Union Square and other locations throughout New York. A blackboard at Liberty Plaza listed some of these meetings, but more reliable information was found online at NYCGA, where nearly every working group had a page with a blog, activity wall, shared documents and event calendar, and discussion forum involving members who had never attended the face-to-face meetings. By spring 2012, the site hosted roughly 90 working groups, some with just a handful of registered users and a couple of posts, others with many hundreds of users and more than 2,000 entries.


Top: Blackboard at Liberty Plaza announces working group meetings. [Photo by Jonathan Massey] Bottom left: Livestream at Occupy Detroit. [Photo by Stephen Boyle] Bottom right: “People’s Mic: Please join the Conversation.” 24/7 internet broadcast from Occupy Wall Street. [Photo by Chris Rojas]

As the weather changed in late October, the Town Planning forum hosted extensive discussions on a topic that simultaneously preoccupied the group’s in-person meetings and the General Assembly: how to sustain the camp into the winter. One participant lit up the forum with a long post advocating event tents that would cover large expanses of the park in communal enclosures, as an alternative to individual camping tents. “Safety teams are unfortunately learning … that privacy equals risk,” wrote Sean McKeown, “because privacy allows for unseen violence, unseen sexual menace, and for drugs, alcohol, and weapons to be kept in shockingly large number if we are to guess by the number of needles found around tents lately since they have gone up.” [16] Members suggested building geodesic domes or frame structures with salvaged materials, or claiming regulatory exemption by designating the camp as a Native American sacred site. The reconfiguration of Liberty Plaza at the beginning of November was negotiated simultaneously in the park, in dispersed work-group meetings, and on the internet.

While online forums, as the Latin term implies, evoke the experience of face-to-face discussion, other online technologies create public spaces without analogue in the physical world. The Twitter hashtag, for example, enables radically new modes of creating, discovering and organizing affinity clusters, which proved useful in movements like the January 25 Egyptian Revolution and the Green Revolution in Iran. In self-conscious emulation of those precedents, Adbusters branded September 17 with the hashtag#occupywallstreet, signaling an expectation that participants would use Twitter to communicate with one another and with larger publics.

It took more than a week for the hashtag to catch on, and from July 25 through the end of August, the four hashtags #occupywallstreet, #occupywallst, #occupy and #ows together accounted for an average of only 27 messages per day. Activity increased in September, and by the day of occupation, Twitter volume on this group of hashtags hit 78,351 as the broader public of participants, bystanders and commentators joined organizers in using the platform for realtime micoblogging of information, opinions and photos. Twitter’s instantaneous syndication was a valuable conduit for time-sensitive news, and its 140-character message limit was well suited to the mobile devices that predominated in Liberty Plaza. Some activists used photo, video and geotagging features on their phones to make Twitter a medium for mapping and building the extended Occupy taskscape. Volume on those four hashtags peaked at 411,117 on November 15, the day protesters were evicted from the park. [17]


Visualization of the Occupy movement online, July to December 2011, including activity on Google, Facebook, Twitter, blogs, and We Are the 99 Percent. Click image to enlarge. [Timeline by the authors]

Many other online spaces provided venues for discourse and arenas for participation. Internet relay chat channels allowed participants to talk to one another, individually and in groups. Live video streams from Liberty Plaza and other camps opened real-time windows onto parks, squares and streets around the world. Occupystreams.org compiled more than 250 such livestreams, each flanked on screen by a chat feed. Video and photo-sharing sites such as YouTube, Vimeo, Flickr and Instagram enabled participants to post, share and discuss images of Occupy protests, police actions, and other content. Much of this activity garnered only limited interest, but some posts went viral, such as the late September videoof a high-ranking NYPD officer pepper-spraying women who had already been corralled on the sidewalk. Edited and annotated with the low-tech tools that support user-generated content, the video broadened awareness of and sympathy for the occupation.

As social media expanded the range of channels for participation in Occupy Wall Street, it also changed the nature of the public that joined. Extrapolating from the work of anthropologist Jeffrey S. Juris, we can contrast the network logics that predominated in summer 2011, when organizations and activists used email lists and websites to mobilize pre-existing networks, with a new set of aggregation logics that developed as the event took off. Social media engaged many thousands of people who had no pre-existing connection to social change organizations and activist networks. These virtual spaces, even more than city parks, became points of encounter where previously unrelated individuals aggregated to form popular assemblies.

Focusing on Occupy Boston, Juris suggests that while the alter-globalization protests of the 1990s created “temporary performative terrains along which networks made themselves and their struggles visible,” the Occupy movement activated a wider public. “Rather than providing spaces for particular networks to coordinate actions and physically represent themselves,” he writes, “the smart mob protests facilitated by social media such as Facebook and Twitter make visible crowds of individuals aggregated within concrete locales.” [18]

Political scientist Stephania Milan has characterized Occupy protests as “cloud protesting,” comparing the movement to “a cloud where a set of ‘soft resources’ coexist: identities, narratives, and know-how, which facilitate mobilization,” much as social media hosted via cloud computing gives individuals the tools for “producing, selecting, punctuating, and diffusing material like tweets, posts and videos.” [19]


Top: Protest sign in Times Square: “Get off the internet. I’ll Meet you in the streets.” [Photo by Geoff Stearns] Bottom: Collaboratively edited User Map at OccupyWallSt.org.

Though Milan and Juris don’t address them, we could add crowdmaps to the list of “cloud tools” that activated aggregation logics in the Occupy movement. Online maps populated by user-generated content were published at Take the SquareUS Day of Rage,OccupyWallSt.org, and Occupy.net. Most used Ushahidi, free open-source crowdmapping software developed in 2008 in Kenya to support disaster relief and response efforts. By compiling data into a common geospatial framework, these crowdmaps visualized Occupy participants and camps as discrete elements that aggregated to form a global phenomenon. They associated people, texts, images and videos with particular places, constructing hypergeographies of action and potential. Animated timeline features encouraged users to visualize themselves and local events as part of a process of “#globalchange.”

The most robust crowdmap was the #OccupyMap at Occupy.net, built by the Tech Ops working group of NYCGA. It provided a web interface for reporting events such as marches, rallies and police interventions, with easy media embedding and compatibility with the Ushahidi app on iOS and Android mobile devices. It also populated automatically from Twitter: any tweet from a location-enabled device that included the hashtag #occupymap generated a geotagged report that could incorporate photos and videos via the Twitpic and Twitvid apps. By spring 2012, the map had aggregated some 900 entries from New York City into a database that could be sorted geographically and temporally, by medium and by event type — all viewable via map, timeline and photo interfaces. By pulling together disparate events and data across space and time, the #OccupyMap created a counterpublic integrated through its use of online media to contest state and corporate control of urban places.

The Occupy crowdmaps were most compelling rhetorically at larger scales, where they visualized landscapes fundamentally distinct from those visible in city streets. In counterpoint to the intense attention paid to Liberty Plaza, these virtual geographies redefined the public of Occupy Wall Street as a dispersed set of agents linked more by online communication channels than by proximity. Viewed at national scale, the red placemarker icons on the User Map at OccupyWallSt.org suggested a crowd of hot air balloons that had landed — or were preparing to take off — all across the country. In places they clustered so tightly as to create red contours marking an otherwise invisible topography of radicalism. But at the local scale, what had seemed a continuous landscape of occupiers thinned out; zooming in on Liberty Plaza, you saw only a forlorn green oblong scattered with a few markers.

Open-Source Urbanism 
While some online activists relied on corporate media such as Facebook and Twitter to reach a broad public, many made a point of using open-source software, sources and methods such as wikicoding. Occupy websites became spaces for the elaboration of what Christopher Kelty calls a recursive public, “a public that is vitally concerned with the material and practical maintenance and modification of the technical, legal, practical, and conceptual means of its own existence.” [20] In the physical realm, Liberty Plaza and other occupied spaces functioned as offline analogues of a wiki page. Participants without much prior affiliation built new worlds and organized themselves to maintain them while avoiding hierarchy and formalization whenever they could. At these “wikicamps,” open-source urbanism operated at a scale simultaneously local and global. [21] The New York camp was built with knowledge, idea and resources from Spain and Argentina, Chiapas and Cairo, as well as from local coalitions.


Jonathan Massey and Brett Snyder map Liberty Plaza’s functional zones and activities. See the sidebar  “Mapping Liberty Plaza” for axonometric drawings of the site’s transformation.

Participants have continued to explore the ways that digital media can reshape our public spaces and public spheres. One example is a course project at The New School that emerged from a multi-day, multi-city “hackathon” sponsored by the working group Occupy Research. The Twitter bot @OccupyPOPS is a script that cross-references check-ins on social media sites Foursquare and Twitter with the New York City government database of privately-owned public spaces, then automatically tweets a call to temporarily occupy a particular POPS at a specific date and time. Created by Christo de Klerk, @OccupyPOPS mobilizes virtual spaces, physical places and social networks to reshape urban public space and the regulations that govern it. Other New York-based projects addressing the issues foregrounded by Occupy include #whOWNSpace and The Public School, as well as pre-existing initiatives like Not an Alternative.

Open-source hypercity urbanism becomes increasingly important as governments constrain public assembly in the offline world. On November 15, the state cleared the experimental agora at Liberty Plaza. Police and sanitation workers with bulldozers removed tents and tarps while resisting occupiers fell back to the People’s Kitchen. As NYPD blockaded the surrounding streets and airspace, people and texts and media feeds streamed out from an atmosphere made toxic by chemical and sonic weapons. Coordinated police actions evicted occupiers in Oakland, Portland, Denver and other cities.

Occupy Wall Street working groups and General Assemblies continue to meet in the 60 Wall Street atrium and other public locations, and to stage intermittent marches, rallies and actions. Occupations were sustained in other cities around the world, and activists tried several times to retake Zuccotti Park. Without its base camp, the Occupy movement relied even more extensively on websites and other online media as its primary means of communication and self-representation. This activity expanded into an array of diffuse campaigns: to reduce and renegotiate student debt; to resist foreclosures and reclaim bank-owned houses; and to challenge corporate power on many fronts.


Top: Sign posted at the 60 Wall atrium on November 15: “No excessive use of space.” [Photo byJohanna Clear] Bottom: Protesters remove police barriers and reoccupy Zuccotti Park on November 17. [Photo by Brennan Cavanaugh]

Occupy Wall Street had an immediate impact on U.S. domestic politics. Counteracting anti-deficit rhetoric from the Republican Party and Tea Party activists who sought to cut social services while borrowing heavily to fund wars and regressive income redistributions, the Occupy movement shifted the focus of mainstream political discourse to income inequality and the burdens of consumer debt. For many participants and observers, though, its more compelling achievement was to embody a minimally hierarchical communitarian polity that combined consensual direct democracy with a high degree of individual autonomy, and also a voluntary sharing economy with the market logics and state service provision that dominate everyday urban life. The longer-term impact of #OWS may well stem from the techniques it modeled online and in the streets for building new publics and polities.

What might this history mean for the future of public space and political action? Events are still unfolding, so the question is open-ended. But here are some provisional conclusions:

  • Online tools are rapidly changing the dynamics of political action. The aggregative, rhizomatic, and exponentially expanding character of the Occupy movement reflects the distinctive capacities of social media.
  • Media are accelerating the pace of discourse and action. Flash mobs and viral tweets may be excessively hyped, but the compressed temporality of the new media landscape is reflected in the rapid emergence, metastasis, and dormancy of Occupy Wall Street.
  • Digital communities are good at building systems. Wikicoding and other modes of online collaboration can build online venues fast and well.
  • These communities may still require face-to-face interaction to achieve substantive change. Digital communication is easy, but for that reason it can feel too light and weightless to mobilize people for the tenacious action it often takes to achieve deep structural changes.
  • Bodies in the street still matter for commanding attention and galvanizing engagement.
  • Modern forms of police control violate basic civil liberties. From the constraints placed on all manner of public assembly to the everyday civil rights violations of the stop-and-frisk system, police in New York and some other American cities have passed a dangerous tipping point.
  • Asserting a broad right to the city means claiming public places, online and offline, for assembly, dialogue and deliberation by multiple publics with varying spatial and temporal requirements.
  • Privately owned public spaces offer platforms for experimentation. The prevalence of corporate enclaves in our cities and online often homogenizes and constrains public life, but Occupy Wall Street showed that POPS can be sites for public-making and political action.
  • But users should reclaim some of the value we create in using corporate media. Activists should find ways to gain at least partial control over the valuable and revealing information trails that users generate through activity online and in our cities.

Finally, initiative is shifting to global-local coalitions. While Occupy was often framed in nationalist terms, its more pervasive character was simultaneously transnational and highly local, reflecting the new geographies of capitalism and its media. The intersections between global and local, online and face-to-face, reformist and radical are promising sites for the creation of the new publics and polities that might open up futures beyond the neoliberal state.


Editors’ Note
 

See the sidebar “Mapping Liberty Plaza” for axonometric drawings of the site’s transformation, by Jonathan Massey and Brett Snyder.For related content on Places, see also “Occupy: What Architecture Can Do” and “Occupy: The Day After,” by Reinhold Martin, and “Housing and the 99 Percent,” by Jonathan Massey.

Authors’ Note 

Andrew Weigand and Grant D. Foster assisted with research and visualization for this project.

We would like to thank many colleagues who contributed research and ideas. Early discussions about Occupy Wall Street included Joy Connolly, Elise Harris, Greg Smithsimon and Jenny Uleman. Matt Boorady, Timothy Gale, Steve Klimek, Gabriella Morrone and Nathaniel Wooten contributed to the mapping and surveying of Liberty Plaza. Jennifer Altman-Lupu, Rob Daurio and Katie Gill shared Occupy Wall Street maps they had made and gathered. The Transdisciplinary Media Studio at Syracuse University supported our research with funding from a Chancellor’s Leadership Initiative.

The project benefited from feedback at two stages. The Aggregate Architectural History Collaborativeworkshopped an early version of the text. Organizers and participants in the National Endowment for the Humanities Summer Institute in Digital Humanities, “Digital Cultural Mapping,” held at UCLA in June and July 2012, helped us develop the project both intellectually and representationally. Particular thanks to organizers Todd Presner, Diane Favro and Chris Johanson, and to consultants Zoe Borovsky, Yoh Kawano, David Shepard and Elaine Sullivan, as well as Micha Cárdenas of USC.

Notes 

1. See Doug Singsen, “Autonomous Zone on Wall Street?,” Socialist Worker, October 11, 2011.
2. “#OCCUPYWALLSTREET,” Adbusters, July 31, 2011.
3. On Occupy Oakland as a counterpublic, see Allison Laubach Wright, “Counterpublic Protest and the Purpose of Occupy: Reframing the Discourse of Occupy Wall Street,” Plaza: Dialogues in Language and Literature 2.2 (Spring 2012): 138-146.
4. “Nine Arrested and Released Without Charge in Occupy Wall Street Test Run,” Occupy Wall Street, September 8, 2011. For early histories of OWS in New York, see Writers for the 99%, Occupying Wall Street: The Inside Story of an Action that Changed America (New York and London: OR Books, 2011), andOccupyScenes from Occupied America, ed. Astra Taylor, Keith Gessen, et al. (London: Verso, 2011).
5. See Alex Vitale, “NYPD and OWS: A Clash of Styles,” in OccupyScenes from Occupied America, 74-81; and Vitale, City of Disorder: How the Quality of Life Campaign Transformed New York Politics (New York: NYU Press, 2008).
6. On the POPS system, see Jerold S. Kayden et al., Privately Owned Public Spaces: The New York City Experience (John Wiley & Sons, 2000); and Benjamin Shepard and Greg Smithsimon, The Beach Beneath the Streets: Contesting New York City’s Public Spaces (Albany: Excelsior Editions/State University of New York Press, 2011), Chs. 2-3.
7. Hakim Bey, T.A.Z.: The Temporary Autonomous ZoneOntological AnarchyPoetic Terrorism (New York: Autonomedia, 1985). See also Shepard and Smithsimon, The Beach Beneath the Streets, Ch. 1.
8. Tim Ingold, “The Temporality of the Landscape,” World Archaeology, 25:2 (1993): 152-174. Thanks to Jennifer Altman-Lupu for suggesting this way of understanding Liberty Plaza.
9. The Daily Show with Jon Stewart, “Occupy Wall Street Divided,” 16 November 2011. For a more serious account, see Writers for the 99%, Occupying Wall Street, 61-67.
10. The Occupy movement online combined two modes that Sándor Végh describes as “internet-enhanced activism” and “internet-enabled activism.” See “Classifying Forms of Online Activism: The Case of Cyberprotests against the World Bank,” in Cyberactivism: Online Activism in Theory and Practice, ed. Martha McCaughey and Michael D. Ayers (Portsmouth, NH: Routledge, 2003), 71-96. These approaches constituted what we might call a digital repertory of contention. See Charles Tilly, Regimes and Repertoires (Chicago: University of Chicago Press, 2006), and Brett Rolfe, “Building an Electronic Repertoire of Contention,” Social Movement Studies 4:1 (May 2005): 65-74.
11. Jennifer Earl and Katrina Kimport call this “e-mobilization”: using the web to facilitate and coordinate in-person protest. See Digitally Enabled Social Change: Activism in the Internet Age (Cambridge: MIT Press, 2011).
12. Some commentators even used the site’s “notes” function to publish commentaries on and critiques of the movement for others to discuss and repost. See, for instance, Greg Tate’s note “Top Ten Reasons Why So Few Blackfolk Seem Down to Occupy Wall Street,” 17 October 2011.
13. See Earl and Kimport, Digitally Enabled Social Change, Introduction.
14. See Adam Weinstein, “‘We Are the 99 Percent’ Creators Revealed,” Mother Jones, 7 October 2011, and Rebecca J. Rosen, “The 99 Percent Tumblr and Self-Service History,” The Atlantic, 10 October 2011.
15. After a slow start in August 2011, participation in the 99 Percent Project spiked at the beginning of October 2011, as the Brooklyn Bridge march and arrests spread awareness of Occupy Wall Street. Activity peaked on October 20, when site managers posted 264 photos and site visitors added nearly 6,000 comments. By the end of May 2012, the project encompassed 3255 posts and more than 134,000 comments.
16. Sean McKeown, “Winter Event Tents for Liberty Plaza,” Town Planning forum, New York City General Assembly.
17. Twitter data is drawn from a dataset compiled by social analytics company PeopleBrowsr.
18. Jeffrey S. Juris, “Reflections on #Occupy Everywhere: Social media, public space, and emerging logics of aggregation,” American Ethnologist 39:2 (2012): 259-79: 260-61.
19. Stefania Milan, “Cloud Protesting: On Mobilization in Times of Social Media,” lecture, 10 February 2012 (abstract).
20. Christopher Kelty, Two Bits: The Cultural Significance of Free Software (Duke University Press, 2008). See also “Recursive Public,” The Foundation for P2P Alternatives.
21. “Wikicamps” adapts the term that sociologist Manuel Castells used to describe the camps that filled Spanish plazas beginning in May 2011. See Castells, “The Disgust Becomes a Network” (translation of “#Wikiacampadas,” La Vanguardia, 28 May 2011), trans. Hugh Green, Adbusters 97 (2 August 2011).

Muito além de uma resposta do poder público (Canal Ibase)

Renzo Taddei, Colunista do Canal Ibase

Link original: http://www.canalibase.org.br/muito-alem-de-uma-resposta-do-poder-publico/

15/07/2013

Na quarta-feira, dia 10 de julho, o Juca Kfouri afirmou em entrevista à Agência Pública que “se não houver respostas, as manifestações serão maiores em 2014”. Na sexta (12) a Deutsche Welle publicou entrevista com Marina Silva, onde ela afirma que a reação do Congresso Nacional e da Presidência da República está “aquém da grandeza dos protestos”. Acredito que a imensa maioria dos analistas concorda com esse ponto: o governo não foi capaz, até o momento, de dar respostas à altura do que pede a ocasião. Nesse texto, no entanto, eu gostaria de discutir dimensões dos acontecimentos que estamos vivenciando que transcendem a resposta do estado.

Inicialmente, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido último do que estamos vivendo. Isso me parece redutor, porque coloca o estado no centro de tudo. Sou da opinião de que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é o fortalecimento de redes de organização, de articulação social, cultural e política; redes essas que existem de forma independente ao estado. A assembleia popular horizontal que ocorreu sábado (13) em Belo Horizonte, transmitida ao vivo na Internet pela PósTV/mídia NINJA, é um exemplo disso. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador perpétuo de tudo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. Em uma palavra, o que esses movimentos têm como fundamento de ação é a afirmação de que o mundo é maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Foto: Mídia Ninja

É em função disso que a tentativa de encontrar uma causa fundamental ou mais urgente, que dê uma identidade ao movimento das ruas, é tarefa vã. Trata-se da tentativa de negar a dimensão múltipla das manifestações, e, ao mesmo tempo, de não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo.

Que dimensão é essa? Em sua última coluna na Carta Capital, Vladimir Safatle afirma que além da crise de representação política, há o esgotamento do ciclo de desenvolvimento com distribuição de renda da época de Lula. A solução para isso é impossível no governo Dilma, diz Safatle, porque requer uma reforma fiscal que seja verdadeiramente de esquerda, algo impossibilitado pelo modelo de alianças partidárias que caracteriza o lulismo. Safatle tem razão, mas essa é apenas metade da história. A outra metade é exógena ao sistema político; está ligada a uma transformação maior em curso, que nos afasta das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis.

Ou seja, Safatle faz referência a um modelo de governabilidade em crise; eu diria que essa é apenas a ponta do iceberg: o que está em crise é o sistema todo; mais que o governo, é o próprio estado que se mostra incapaz de responder às demandas políticas da população. Isso se dá no contexto da crise do modelo republicano francês – crise que afeta a França há décadas e que se faz visível agora no Brasil. Aqui estou fazendo referência a como nosso sistema político, como o francês, depende do esforço do estado na criação de uma certa subjetividade política nos cidadãos; subjetividade essa que, em escala populacional, faz com que o país seja administrável à distância, quase que por controle remoto. Falando em bom português: há um esforço do estado e das instituições (escolas, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de forma que estes sejam politicamente passivos; o Brasil é mais administrável se todo mundo pensar de forma semelhante, e mais ainda se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV, anestesiados. Esse é o contexto da democracia representativa no Brasil, aquele que reduz a participação política da população às eleições, e onde grande parte das pessoas sequer consegue lembrar em quem votou para os cargos legislativos.

É esse modelo de estado que está em crise, e que nem a reforma política, nem a tributária, irá resolver. A crise da representatividade não se resume à falta de confiança na classe política; há também, e fundamentalmente, uma nova consciência do direito à diferença; para além de ser ineficiente e corrupto, o estado é entendido como fascista porque cala (com o apoio da FIFA, do COB e de empresários do petróleo) qualquer forma de diferença que se mostre inadministrável. Os ataques à imprensa corporativa, e em especial à Rede Globo, tem essa questão como pano de fundo, e não a questão da corrupção. A emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, são parte desse movimento. Resulta disso tudo a recusa a qualquer forma de representação, e a participação direta, nas ruas e na Internet, é seu principal sintoma.

Sendo assim, não vejo possibilidade de avanço no país que não passe pela transformação das instituições políticas, algumas vezes de forma radical (como a desmilitarização das polícias), de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir. Nesse contexto, não se trata do povo pedir e do governo atender. Ao invés disso, povo e governo tem a difícil missão de transformarem, juntos ou não, o estado em outra coisa, diferente do que ele é na atualidade.

A disputa dos sentidos associados à violência

Existe uma clara disputa pelos sentidos do que está ocorrendo, envolvendo governos, mídias, partidos, movimentos sociais. É importante notar que nem sempre essa disputa tem como objetivo o fazer-se ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Como resposta possível a essa questão, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não constando nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A polícia mostra que tem consciência de que está numa guerra de imagens: um sem número de policiais tem atuado na repressão às manifestações sem suas identificações; quando convém, no entanto, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa.

pm Manifestações– continuação

Foto: Movimento Passe Livre

O que não se pode ignorar, no entanto, é que existe uma dimensão pedagógica na violência policial. Para um bocado de gente, as balas de borracha e o gás lacrimogêneo estão servido como uma espécie de rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. Um jornalista gastronômico inglês que participou das manifestações de ontem (11 de julho) no Rio de Janeiro, e sofreu na pele a brutalidade policial, escreveu em seu site: “agora entendo como eventos como esse podem radicalizar as pessoas”. Tais acontecimentos estão ensinando a população a respeito do fascismo do estado; está fazendo parte da classe média experimentar o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Ou as duas coisas. Eu tenho a impressão de que essa repolitização está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

E o que é que pode dar errado? Há um outro lado dessa dimensão constitutiva da violência: a ação policial, não mediada por lideranças políticas responsáveis e capazes (e está claro a ausência disso em cidades como o Rio de Janeiro), pode criar uma realidade política inexistente no Brasil: grupos organizados de guerrilha urbana, que se armam para enfrentar a polícia. Recentemente, em debate sobre as manifestações no Instituto de Estudos Avançados da USP, Massimo Canevacci, antropólogo italiano, mencionou o conceito de mimese como algo importante na compreensão do que está ocorrendo no Brasil, em sua relação com eventos internacionais, como o que ocorre na Turquia, por exemplo. Isso imediatamente me trouxe à mente algo que vi em minha pesquisa de campo na periferia de Buenos Aires, junto a torcidas organizadas de futebol. Encontrei uma correlação entre o momento em que a polícia militar instalou delegacias nos bairros de periferia e começou uma história de conflito com as torcidas locais, e o início do uso de armas de fogo pelas mesmas torcidas (coisa que anteriormente era vista como sinal de covardia). Obviamente é difícil afirmar que existe uma relação causal entre uma coisa e outra; de qualquer forma, a ideia de equilíbrio de forças é parte fundamental do discurso dos líderes de torcidas mais velhos. Minha hipótese é que a polícia, que obviamente não tem qualquer interesse em igualar forças, mas sim de subjugar o outro, ao inserir uma desigualdade nesse panorama de busca do equilíbrio de forças, acabou fazendo com que as torcidas buscassem as mesmas armas de combate, o que resultou na adoção de armas de fogo pelas mesmas. Novamente, trata-se apenas de uma hipótese. Mas vejamos o que está ocorrendo no Brasil: nas primeiras manifestações de junho, não havia qualquer intenção, por parte dos manifestantes, de entrar em combate com a polícia. Foram brutalizados; e a brutalização tem se repetido, por várias semanas consecutivas, no país todo. Como resultado, o que temos visto é a disposição crescente, por parte de grupos específicos (e cada vez maiores), em preparar-se para o combate com a polícia: do uso de vinagre como instrumento de resistência, nas manifestações de junho, passamos a ver o uso de rojões e coquetéis molotov, como na última quinta (11), no Rio de Janeiro. Esses grupos estão mimetizando a ação da polícia, e isso se dá porque as lideranças políticas estão com suas cabeças enterradas, como avestruzes, e deixaram à polícia a responsabilidade de fazer política pública de segurança. Ou seja, não há interlocução; a polícia impõe a violência como única forma de comunicação. O Brasil pode estar a caminho de criar o seu Weather Underground, e isso é tudo o que a polícia precisa para justificar níveis ainda mais altos de violência contra a população civil, em razão do fortalecimento de agendas da direita. É essencial que as novas lideranças políticas, dos movimentos sociais, busquem atuar para desarticular essa guerrilha urbana nascente, de modo que o movimento todo não caia nisso que é, claramente, uma armadilha.

Foto: Manifestações Brasil 24h (Facebook)

The Real War on Reality (New York Time)

THE STONE June 14, 2013, 12:00 pm

By PETER LUDLOW

If there is one thing we can take away from the news of recent weeks it is this: the modern American surveillance state is not really the stuff of paranoid fantasies; it has arrived.

The revelations about the National Security Agency’s PRISM data collection program have raised awareness — and understandably, concern and fears — among American and those abroad, about the reach and power of secret intelligence gatherers operating behind the facades of government and business.

Surveillance and deception are not just fodder for the next “Matrix” movie, but a real sort of epistemic warfare.

But those revelations, captivating as they are, have been partial —they primarily focus on one government agency and on the surveillance end of intelligence work, purportedly done in the interest of national security. What has received less attention is the fact that most intelligence work today is not carried out by government agencies but by private intelligence firms and that much of that work involves another common aspect of intelligence work: deception. That is, it is involved not just with the concealment of reality, but with the manufacture of it.

The realm of secrecy and deception among shadowy yet powerful forces may sound like the province of investigative reporters, thriller novelists and Hollywood moviemakers — and it is — but it is also a matter for philosophers. More accurately, understanding deception and and how it can be exposed has been a principle project of philosophy for the last 2500 years. And it is a place where the work of journalists, philosophers and other truth-seekers can meet.

In one of the most referenced allegories in the Western intellectual tradition, Plato describes a group of individuals shackled inside a cave with a fire behind them. They are able to see only shadows cast upon a wall by the people walking behind them. They mistake shadows for reality. To see things as they truly are, they need to be unshackled and make their way outside the cave. Reporting on the world as it truly is outside the cave is one of the foundational duties of philosophers.

In a more contemporary sense, we should also think of the efforts to operate in total secrecy and engage in the creation of false impressions and realities as a problem area in epistemology — the branch of philosophy concerned with the nature of knowledge. And philosophers interested in optimizing our knowledge should consider such surveillance and deception not just fodder for the next “Matrix” movie, but as real sort of epistemic warfare.


To get some perspective on the manipulative role that private intelligence agencies play in our society, it is worth examining information that has been revealed by some significant hacks in the past few years of previously secret data.

Important insight into the world these companies came from a 2010 hack by a group best known as LulzSec  (at the time the group was called Internet Feds), which targeted the private intelligence firm HBGary Federal.  That hack yielded 75,000 e-mails.  It revealed, for example, that Bank of America approached the Department of Justice over concerns about information that WikiLeaks had about it.  The Department of Justice in turn referred Bank of America to the lobbying firm Hunton and Willliams, which in turn connected the bank with a group of information security firms collectively known as Team Themis.

Team Themis (a group that included HBGary and the private intelligence and security firms Palantir Technologies, Berico Technologies and Endgame Systems) was effectively brought in to find a way to undermine the credibility of WikiLeaks and the journalist Glenn Greenwald (who recently broke the story of Edward Snowden’s leak of the N.S.A.’s Prism program),  because of Greenwald’s support for WikiLeaks. Specifically, the plan called for actions to “sabotage or discredit the opposing organization” including a plan to submit fake documents and then call out the error. As for Greenwald, it was argued that he would cave “if pushed” because he would “choose professional preservation over cause.” That evidently wasn’t the case.

Team Themis also developed a proposal for the Chamber of Commerce to undermine the credibility of one of its critics, a group called Chamber Watch. The proposal called for first creating a “false document, perhaps highlighting periodical financial information,” giving it to a progressive group opposing the Chamber, and then subsequently exposing the document as a fake to “prove that U.S. Chamber Watch cannot be trusted with information and/or tell the truth.”

(A photocopy of the proposal can be found here.)

In addition, the group proposed creating a “fake insider persona” to infiltrate Chamber Watch.  They would “create two fake insider personas, using one as leverage to discredit the other while confirming the legitimacy of the second.”

Psyops need not be conducted by nation states; they can be undertaken by anyone with the capabilities and the incentive to conduct them.

The hack also revealed evidence that Team Themis was developing a “persona management” system — a program, developed at the specific request of the United States Air Force, that allowed one user to control multiple online identities (“sock puppets”) for commenting in social media spaces, thus giving the appearance of grass roots support.  The contract was eventually awarded to another private intelligence firm.

This may sound like nothing so much as a “Matrix”-like fantasy, but it is distinctly real, and resembles in some ways the employment of “Psyops” (psychological operations), which as most students of recent American history know, have been part of the nation’s military strategy for decades. The military’s “Unconventional Warfare Training Manual” defines Psyops as “planned operations to convey selected information and indicators to foreign audiences to influence their emotions, motives, objective reasoning, and ultimately the behavior of foreign governments, organizations, groups, and individuals.” In other words, it is sometimes more effective to deceive a population into a false reality than it is to impose its will with force or conventional weapons.  Of course this could also apply to one’s own population if you chose to view it as an “enemy” whose “motives, reasoning, and behavior” needed to be controlled.

Psyops need not be conducted by nation states; they can be undertaken by anyone with the capabilities and the incentive to conduct them, and in the case of private intelligence contractors, there are both incentives (billions of dollars in contracts) and capabilities.


Several months after the hack of HBGary, a Chicago area activist and hacker named Jeremy Hammond successfully hacked into another private intelligence firm — Strategic Forcasting Inc., or Stratfor), and released approximately five million e-mails. This hack provided a remarkable insight into how the private security and intelligence companies view themselves vis a vis government security agencies like the C.I.A. In a 2004 e-mail to Stratfor employees, the firm’s founder and chairman George Friedman was downright dismissive of the C.I.A.’s capabilities relative to their own:  “Everyone in Langley [the C.I.A.] knows that we do things they have never been able to do with a small fraction of their resources. They have always asked how we did it. We can now show them and maybe they can learn.”

The Stratfor e-mails provided us just one more narrow glimpse into the world of the private security firms, but the view was frightening.  The leaked e-mails revealed surveillance activities to monitor protestors in Occupy Austin as well as Occupy’s relation to the environmental group Deep Green Resistance.  Staffers discussed how one of their own men went undercover (“U/C”) and inquired about an Occupy Austin General Assembly meeting to gain insight into how the group operates.

Stratfor was also involved inmonitoring activists who were seeking reparations for victims of a chemical plant disaster in Bhopal, India, including a group called Bophal Medical Appeal. But the targets also included The Yes Men, a satirical group that had humiliated Dow Chemical with a fake news conference announcing reparations for the victims.  Stratfor regularly copied several Dow officers on the minutia of activities by the two members of the Yes Men.

One intriguing e-mail revealed that the Coca-Cola company was asking Stratfor for intelligence on PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) with Stratfor vice president for Intelligence claiming that “The F.B.I. has a classified investigation on PETA operatives. I’ll see what I can uncover.” From this one could get the impression that the F.B.I. was in effect working as a private detective Stratfor and its corporate clients.

Stratfor also had a broad-ranging public relations campaign.  The e-mails revealed numerous media companies on its payroll. While one motivation for the partnerships was presumably to have sources of intelligence, Stratfor worked hard to have soap boxes from which to project its interests. In one 2007 e-mail, it seemed that Stratfor was close to securing a regular show on NPR: “[the producer] agreed that she wants to not just get George or Stratfor on one time on NPR but help us figure the right way to have a relationship between ‘Morning Edition’ and Stratfor.”

On May 28 Jeremy Hammond pled guilty to the Stratfor hack, noting that even if he could successfully defend himself against the charges he was facing, the Department of Justice promised him that he would face the same charges in eight different districts and he would be shipped to all of them in turn.  He would become a defendant for life.  He had no choice but to plea to a deal in which he may be sentenced to 10 years in prison.  But even as he made the plea he issued a statement, saying “I did this because I believe people have a right to know what governments and corporations are doing behind closed doors. I did what I believe is right.”  (In a video interview conducted by Glenn Greenwald with Edward Snowden in Hong Kong this week, Snowden expressed a similar ethical stance regarding his actions.)

Given the scope and content of what Hammond’s hacks exposed, his supporters agree that what he did was right. In their view, the private intelligence industry is effectively engaged in Psyops against American public., engaging in “planned operations to convey selected information to [us] to influence [our] emotions, motives, objective reasoning and, ultimately, [our] behavior”? Or as the philosopher might put it, they are engaged in epistemic warfare.

The Greek word deployed by Plato in “The Cave” — aletheia — is typically translated as truth, but is more aptly translated as “disclosure” or “uncovering” —   literally, “the state of not being hidden.”   Martin Heidegger, in an essay on the allegory of the cave, suggested that the process of uncovering was actually a precondition for having truth.  It would then follow that the goal of the truth-seeker is to help people in this disclosure — it is to defeat the illusory representations that prevent us from seeing the world the way it is.  There is no propositional truth to be had until this first task is complete.

This is the key to understanding why hackers like Jeremy Hammond are held in such high regard by their supporters.  They aren’t just fellow activists or fellow hackers — they are defending us from epistemic attack.  Their actions help lift the hood that is periodically pulled over our eyes to blind us from the truth.

Peter Ludlow is a professor of philosophy at Northwestern University and is currently co-producing (with Vivien Weisman) a documentary on Hacktivist actions against private intelligence firms and the surveillance state.

O sentido das manifestações não se resume à demanda por uma resposta do Estado. O mundo é muito maior que o sistema político.

Entrevista com Renzo Taddei, professor de sociologia da Universidade Federal de São Paulo, sobre as manifestações no Brasil.

Por Marcos Nepomuceno, do blog do Templo.

Como os protestos brasileiros se relacionam com as manifestações turcas, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street nos EUA, o movimento 15M na Espanha e as revoltas das periferias em Paris e Londres, em 2005 e 2011? Há uma interseção comum de causas entre eles?

Em minha opinião, há três pontos de interseção que vale a pena mencionar. Em primeiro lugar, as instituições políticas formais sofrem de uma aguda crise de legitimidade, e em todos os contextos mencionados, ainda que por razões estruturais e conjunturais diferentes em cada um dos casos, essa crise cruzou a fronteira da estabilidade do convívio social cotidiano; as sociedades entraram em uma espécie de ebulição. Em segundo lugar, há a existência da Internet, da telefonia celular e das redes sociais como uma dimensão da vida coletiva que possibilita formas novas de relação entre pessoas, entre pessoas e ideias, e em especial entre as pessoas e a política. E, em terceiro lugar, o grande ator social em todos esses casos é a juventude. Essas são três coisas inter-relacionadas, e a relação entre elas está em franca transformação. O que vejo nas redes sociais, e o que escuto dos jovens sobre sua relação com a política, é diferente hoje do que era há apenas um mês.

Mas, ainda que pareça haver alguns pontos de interseção, é preciso ter cuidado para que não se esvazie as coisas que cada um destes eventos tem de peculiar. Há muitas e importantes diferenças entre eles. O Occupy Wall Street tem um foco muito claro na crítica à concentração de renda promovida pelo capitalismo liberal norte-americano, com o consequente empobrecimento de grande parte da população, e no fato de que o governo trabalha para a manutenção desse sistema concentrador. Não há referências à corrupção, como aqui – pelo menos não na forma como nós comumente entendemos corrupção. A agenda coletiva era bastante mais clara, e não houve destruição de equipamentos públicos; o caráter da manifestação foi, em geral, mais pacífico. Essa diferença de agendas pode explicar porque, por exemplo, uma coisa ocorreu em Wall Street, no coração financeiro do capitalismo mundial, e outra resultou na depredação de edifícios do governo, como ocorreu em Brasília há duas semanas.

Por outro lado, em Nova York, na Espanha, na Turquia e no Brasil há a participação de gente de todas as classes sociais, com especial participação das classes médias urbanas, enquanto os eventos de Paris e Londres são caracterizados pela presença majoritária de jovens oriundos de comunidades de imigrantes e de minorias étnicas empobrecidas. A questão da exclusão social é relevante aqui, porque enquanto isso parece ser um elemento claro dos eventos de Paris e Londres, há analistas que sugerem que parte do que está ocorrendo no Brasil está relacionado com a ascensão social de segmentos da população brasileira; estes, ao sentirem-se economicamente integrados, agora demandam integração política. Ou seja, o problema da exclusão estaria relacionado às manifestações de forma inversa em cada um dos casos. Essa hipótese, no entanto, me parece algo extravagante, carente de embasamento sociológico.

De todas as causas apresentadas, ou não, qual a mais urgente no caso brasileiro?

O Brasil é um país heterogêneo, com muita diversidade social e cultural, e o sentido de urgência está ligado ao lugar de onde se fala e se vive. Não se pode apresentar uma perspectiva como sendo universalmente mais urgente. Veja, por exemplo, a forma como Davi Kopenawa, líder yanomami, pensa as manifestações e as demandas sociais a elas vinculadas. Ainda que existam pontos de convergência com as demandas que vemos nas ruas, elas não se resumem à mesma coisa. Não há razão pra pensar que a causa é a mesma, nos diversos cantos do Brasil.

Além disso, as manifestações são fenômenos complexos, com diversos níveis de ação e interpretação possíveis. Há coisas não ditas verbalmente, mas materializadas na ação da multidão, que geralmente não são levadas em consideração. Por exemplo, na minha percepção, uma coisa não dita explicitamente nos cartazes e gritos da multidão, mas que é variável fundamental nisso tudo, é a emergência de novas formas de associação política, frente à incapacidade das instituições políticas em dar conta de novas formas de participação e novas demandas sociais. Os problemas causados pela natureza das polícias, e sua péssima relação com a população, é um sintoma disso. Trata-se de colocar em pauta as relações entre a população e o estado, relações que estão em franca transformação. Este é um processo que o estado tenta, sem sucesso, conter. São necessárias mudanças não apenas nas práticas de governo, mas no próprio desenho institucional do estado, e a desmilitarização das polícias é parte fundamental disso.

Desta forma, tentar encontrar uma causa fundamental ou mais urgente é negar a dimensão múltipla das manifestações, e é, ao mesmo tempo, não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo. Essa transformação maior que está em curso está nos afastando das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis. Nosso sistema político formal, ainda que fruto de mudanças recentes, de algumas décadas apenas, se mostra demasiado engessado para dar conta do dinamismo das transformações sociais que estão em curso. Há uma marcada assincronia entre estado e setores mais dinâmicos da população, e essa assincronia só parece crescer com o tempo.

Sendo assim, se há algo urgente no Brasil, esse algo é a transformação das instituições políticas de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir.

A horizontalidade na liderança dos movimentos abre espaço para sua descaracterização?

Para que ocorra uma descaracterização, é preciso que exista o reconhecimento de características previamente percebidas e entendidas. Mas isso não existe no momento atual. Muitas reuniões estão sendo organizadas, no meio acadêmico e no âmbito dos movimentos sociais, para que se construa um diagnóstico a respeito do que está ocorrendo. E esse diagnóstico é difícil porque o que está se passando não é uma coisa, mas muitas ao mesmo tempo, algumas vezes de forma inter-relacionada, outras de forma independente. Qualquer diagnóstico é parcial, e desconfio que a maioria tenha – em especial os que a mídia e o poder público se apressam em produzir -, na verdade, o objetivo de tentar colocar as coisas sob controle, de forma conservadora, mais do que efetivamente produzir uma descrição das coisas como estas estão ocorrendo. Os fenômenos que estamos observando desafiam nossos recursos linguísticos e narrativos. Isso sempre foi assim no que diz respeito aos fenômenos de multidão, e por isso mesmo é que há tanta ansiedade, tanto naqueles que tem no controle público seu trabalho, os gestores públicos, como naqueles que tem como trabalho o controle das ideias, dentre os quais estão os acadêmicos.

Como são muitas coisas ocorrendo ao mesmo tempo, e não uma massa homogênea de gente demandando a mesma coisa, não se pode esperar que exista apenas uma liderança, definida claramente. Isso faz o trabalho da mídia mais difícil, porque não se enquadra nos seus modelos limitados de análise da ação política. No entanto, devido ao fato de que a energia da multidão é, ao mesmo tempo, algo perigoso e também um recurso valioso para a transformação política, muitos tentam apoderar-se dela de alguma forma. Ou seja, é de se esperar que existam disputas pelo controle dessa energia. Em minha opinião, no entanto, a emergência de uma liderança é que descaracterizaria o movimento, porque seria a negação de sua multiplicidade, e o sinal de que essa multiplicidade foi sequestrada.

Isso não significa a ausência de liderança, mas essa liderança se constrói de outras formas, num padrão de redes de associações dinâmicas. São muitos líderes, com protagonismos variáveis, em função das formas como as redes se configuram a cada momento. Certamente se dirá que a ausência de liderança claramente identificável fará com que as manifestações se enfraqueçam, ou que uma parte da coisa toda descambe para o caos destrutivo. Ainda que existam riscos nisso tudo que estamos vivendo, grande parte dos analistas da mídia e do poder público não entende os novos padrões de liderança desses processos de associação e ação em rede. As manifestações vão cessar em algum momento, mas não em função de falta de liderança, nem porque a energia do movimento tenha deixado de existir. As associações em rede parecem ser capazes de manter essa energia em estado “latente” por tempo indeterminado, e então de provocar uma ação rápida e explosiva, através de padrões virais de comunicação distribuída. Líderes políticos (e jornalistas) que não dedicam parte do seu tempo a monitorar as redes sociais, e a Internet, de forma mais ampla, mostram não terem entendido esse aspecto das transformações sociais em curso.

Muitos grupos surgiram na disputa de sentidos do movimento após a emergência dos protestos. Como essa vontade social de se fazer ouvir pode ser aproveitada? Os conflitos internos e cisões fazem parte do amadurecimento do processo para mudanças efetivas?

Inicialmente, é preciso que se diga que as ações na disputa pelos sentidos nem sempre têm como objetivo vontades específicas de se fazer ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Por outro lado, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não conste nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A própria polícia percebeu isso: quando convém, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa; nas ações de repressão violenta às manifestações, por outro lado, um sem número de policiais escondeu suas identificações.

Há também os casos de violência entre manifestantes, o que tem assustado muitos analistas. Nas grandes manifestações em São Paulo, havia gente de todo o espectro político, da extrema direita (neonazistas) à extrema esquerda. O convívio entre esses grupos é muito difícil; não se pode esperar grandes alianças que consigam costurar todas as incompatibilidades; a lógica agora é mais molecular. O rechaço às bandeiras acabou tomando uma dimensão maior do que era de se imaginar, e minha opinião a esse respeito é que isso se dá em função dos níveis alarmantes de analfabetismo político no Brasil. Uma amiga, declaradamente anarquista, foi agredida por manifestantes porque caminhava ao lado de pessoas com camisetas do PT; segundo ela, qualquer um que usasse roupas vermelhas corria o risco de apanhar na Avenida Paulista. Pessoas dos movimentos sociais e das centrais sindicais também foram hostilizadas. O clima é de rejeição ao sistema político, mas a classe média politicamente analfabeta (ou politicamente analfabetizada) não consegue identificar com clareza quem é ou não integrante da parte podre do sistema, e acaba hostilizando tudo que seja minimamente institucionalizado. O próprio governo é agora vítima do conservadorismo dessa classe média politicamente analfabeta. No entanto, a atual situação de analfabetismo político é sistêmica e estrutural, e não apenas mérito ou culpa de alguém especificamente.

O que não se pode ignorar, no entanto, é a dimensão pedagógica disso tudo. Pra um bocado de gente que saiu às ruas, as balas de borracha ou gás lacrimogêneo serviram como rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. A classe média vive por experiência própria o fascismo do estado, experimenta o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Eu tenho a impressão de que é isso que está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

Por fim, a questão indaga sobre a vontade de se fazer ouvir. Antes de responder a isso, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido disso tudo. Isso me parece redutor e perigoso, porque coloca o estado novamente no centro de tudo, e me parece que uma das coisas que está ocorrendo é exatamente o oposto disso. Ou seja, o que eu estou dizendo é que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é a formação de redes de organização, de articulação social, cultural e política, de forma independente do estado. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador de tudo, o tempo todo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. O mundo é muito maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Os protestos que se alastraram pelo país, e no resto do mundo, tem na internet seu epicentro de força e disseminação. Lá também reside sua fraqueza? Qual seria ela?

Não se sabe exatamente, de antemão, quais são as forças e fraquezas dos protestos. Essas coisas, força e fraqueza, se constroem à medida que os protestos ocorrem, que a coisa toda vai se desenrolando, nos tempos e nos espaços, físicos e virtuais. O que estamos vivendo mostra que a Internet é uma plataforma poderosíssima, em sua capacidade de coagular energia política em ações materiais; no entanto, ainda é possível que corporações e governos exerçam controle censor sobre ela, como vemos no Facebook e na China. O fato de que tanta atividade política ocorra dentro do Facebook faz com que esta atividade seja vulnerável a censura, em geral justificada em função das normas obscuras e obtusas da corporação. Me parece fundamental que uma versão aberta e colaborativa do Facebook seja criada. Outra vulnerabilidade é que a existência da Internet exige investimentos em infraestrutura muito altos, o que tende a colocar o controle físico do funcionamento da rede na mão dos governos. De qualquer forma, me parece que a tendência inexorável de desenvolvimento tecnológico aponta para padrões descentralizados de comunicação, o que tende a dificultar essas ações de censura.

Como você vê a emergência de novas formas de narrativa e cobertura de mídias alternativas, como a NINJA, no contexto virtual?

Em certo sentido, trata-se de uma das novidades mais revolucionárias dentro de tudo o que está ocorrendo, porque pode gerar transformações reais nas comunidades imaginadas nas quais nos encontramos. Ninguém nasce brasileiro ou paulista; nós aprendemos a nos sentirmos essas coisas e a agir no mundo em função disso. Há um esforço do estado e das instituições (escola, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de formas específicas. De maneira geral, o brasileiro é produzido para ser politicamente passivo: o Brasil é mais administrável se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV – em especial se for futebol -, anestesiados. Vivemos a cidadania como zumbis do capitalismo: vivemos para trabalhar, trabalhamos para pagar contas, educamos nossos filhos para que eles trabalhem, como se isso fosse um fim em si. O sucesso é o sucesso no trabalho, o valor de cada um se reduz ao seu potencial de produtor de bens econômicos.

As manifestações, a multidão, operam em outra lógica; a emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, também. Isso é um pesadelo para o status quo. Há uma ansiedade geral, hoje, no sentido de entender o que está acontecendo. Para grande parte da população, isso é sintoma da passividade mental à qual somos induzidos: imaginamos o mundo como estando fora dele. A lógica das manifestações é diferente: as coisas não estão acontecendo, nós é que as estamos fazendo acontecer. E mídias como a NINJA e a PósTV são capazes de traduzir isso em novas formas de linguagem midiática.

Redes sociais são apontadas por especialistas como fundamentais nas mobilizações populares (Jornal da Ciência)

JC e-mail 4763, de 08 de Julho de 2013.

Por Paloma Barreto / Jornal da Ciência

Antropóloga, filósofo e comunicadora analisam o papel dessa forma de comunicação nos protestos que ocorrem no país

O que há em comum entre a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, a revolta na Turquia e as manifestações que estão acontecendo no Brasil? Além de perturbarem o sistema político estabelecido e buscarem mudanças, estes movimentos sociais do século XXI utilizam as redes sociais como principal ferramenta de articulação e mobilização. Ana Lúcia Enne, antropóloga e professora do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF), analisou o papel das novas mídias nos protestos que pararam dezenas de cidades brasileiras nas últimas semanas. “Elas são fundamentais no contexto contemporâneo por oferecerem caminhos contra-hegemônicos de divulgação de informações e posições”, afirmou.

As hashtags – palavras-chave antecedidas pelo símbolo “#”, que designam o assunto que se deseja discutir em tempo real nas redes sociais – verásqueumfilhoteunãofogeàluta, #ogiganteacordou e #primaverabrasileira tomaram as páginas do facebook e twitter de milhares de brasileiros. A convocação dos internautas chegou a levar mais de um milhão de pessoas às ruas de todo o Brasil na noite do dia 20 de junho. “Como ficou claro neste momento histórico, as redes precisam das ruas para construir um movimento realmente ativo e capaz de gerar mudanças sociais. As mobilizações virtuais e físicas são complementares e servem a propósitos distintos”, observou Ana.

A antropóloga critica a atuação da grande mídia, e acredita que hoje a internet disputa espaço com os antigos veículos de comunicação na cobertura de acontecimentos. “Principalmente entre os jovens, que utilizam as ferramentas das novas tecnologias de comunicação e informação diariamente, em larga escala, ficou evidente o caráter manipulador, por vezes mentiroso, simplificador e atrelado aos interesses políticos e econômicos da grande mídia. Isso evidenciou o descrédito com essas instituições e a busca permanente por outras formas de expressão e visibilidade”.

Essa “batalha de sentidos” foi citada pela diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco/UFRJ), Ivana Bentes, em seu perfil no facebook. “A palavra de ordem das manifestações, o #vemprarua, é remix genial da publicidade da Fiat para a Copa. Ou seja, não tem nenhuma multidão amorfa ou acéfala, mas atravessada de singularidades e disputas. Temos mais é que perguntar quem fala e de onde fala. E faz todo o sentido disputar os sentidos do que está acontecendo”, publicou no dia 22 de junho.

Quando os protestos brasileiros tomaram grandes dimensões e alcançaram o noticiário internacional, especialistas se empenharam na busca de explicações para os acontecimentos. Entre eles, o filósofo francês Pierre Lévy classificou a revolta brasileira como o “experimento de uma nova forma de comunicação” em entrevista para o jornal O Globo. “Você não confia na mídia em geral, você confia em pessoas ou em instituições organizadas. Comunicação autônoma significa que sou eu que decido em quem confiar, e ninguém mais. Eu consigo distinguir a honestidade da manipulação, a opacidade da transparência”, afirmou o pesquisador de cibercultura.

Manifestações do século XXI

Em dezembro de 2010, um jovem ateou fogo ao próprio corpo como forma de manifestação contra as condições de vida na Tunísia. O ato desesperado culminou na Primavera Árabe, uma onda de revoltas em quase 20 países que já conseguiu derrubar quatro governos. Em maio deste ano, a ameaça de demolição do parque Taksim Gezi para a construção de um shopping deu início aos protestos na Turquia. No Brasil, em circunstâncias totalmente diferentes, a aumento de 20 centavos nas passagens de ônibus em São Paulo foi o estopim para que milhares de cidadãos de diversos municípios saíssem às ruas reivindicando melhorias nos serviços públicos e mudanças do sistema político.

“A adesão às manifestações está relacionada a algumas variáveis. Primeiro, uma sensação de insatisfação generalizada em relação a uma série de fatores que afetam o brasileiro diretamente, como saúde, educação, transporte, corrupção etc. A questão dos vinte centavos foi sentida como uma gota d’dágua, um transbordamento do copo, se transformando em uma pauta unificadora, capaz de aglutinar multidões insatisfeitas e com diversas outras causas para protestar”, considerou Ana Enne.

A professora acrescentou que a etapa mais difícil do processo é a catalisação dos manifestantes. Neste aspecto, ela acredita que as ações truculentas das forças de segurança, disseminadas na internet através de depoimentos e vídeos, foram fundamentais para sensibilizar outras pessoas. “A explicitação da violência policial, experiência dolorosa vivida cotidianamente por muitos brasileiros, contra manifestantes pacíficos em várias cidades brasileiras, também deu vida e impulsionou o movimento. Foi a partir das divulgações dessas imagens que as passeatas ganharam uma densidade numérica impressionante”.

Também nesta perspectiva, o movimento brasileiro se assemelha aos internacionais. Na Turquia, a repressão dos primeiros protestos por parte da polícia motivou uma maior adesão de pessoas à revolta. A foto de uma mulher de vermelho sendo atacada por um jato de gás lacrimogêneo em Istambul foi replicada nas redes sociais e causou ainda mais indignação nos internautas. No Brasil, dentre os conteúdos de violência policial disseminados, um dos que teve mais repercussão foi a imagem de Giuliana Vallone, repórter da Folha de S Paulo atingida no olho por uma bala de borracha no dia 13 de junho.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, conhecido por ser um “intelectual conectado”, é um dos principais analistas do papel da internet nos movimentos sociais contemporâneos. No dia 11 de junho, durante o evento “Fronteiras do Pensamento”, em São Paulo, ele foi questionado sobre o protesto que ocorria na Avenida Paulista naquele momento contra o aumento das passagens de ônibus. “Todos os movimentos sociais na história, são, sobretudo, emocionais. Não são pontualmente reivindicativos. Não é o transporte. Em algum momento, há um fato que provoca a indignação. Ao sentir a possibilidade de estarem juntos, ao sentir que há muitas pessoas que pensam o mesmo fora do âmbito institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe. Mas, com certeza não é o que está aí”, avaliou Castells.

Esta matéria está na página 8 do Jornal da Ciência impresso. As 12 páginas podem ser acessadas em PDF:
http://www.jornaldaciencia.org.br/impresso/JC740.pdf

Juventude “apolítica” reinventa a política (Envolverde/IPS)

02/7/2013 – 09h20

por Fabiana Frayssinet, da IPS

n11 300x225 Juventude “apolítica” reinventa a política

A estudante Stephany Gonçalves dos Santos escreve seu politizado cartaz. Foto: Fabiana Frayssinet/IPS

Rio de Janeiro, Brasil, 2/7/2013 – Com palavras de ordem contra os partidos políticos, as manifestações juvenis no Brasil trazem consigo o paradoxo de uma nova e efetiva forma de fazer política, que consegue respostas concretas dos poderes do Estado. A palavra de ordem nas ruas é “partidos políticos, não”, e a maioria dos manifestantes se declara, com orgulho “apolítica”. “Não tenho nenhum partido”, diz à IPS a estudante Stephany Gonçalves dos Santos.

Como centenas de milhares de estudantes que protestam, convocados por meio das redes sociais, como o Facebook, ela escreve um cartaz para um protesto no Rio de Janeiro, com lápis de cor em uma simples cartolina. E escolhe a frase “Um filho teu não foge à luta”, do hino nacional brasileiro. “Estou aqui por um ideal de país. quero que meu país seja democrático. Mas onde há repressão não há democracia”, argumentou Stephany, referindo-se à dura resposta policial que, longe de aplacar os protestos, estimulou muitos a aderirem a eles.

“O governo quer alienar o povo com o futebol”, acrescentou, ao abordar outro tema de descontentamento: os gastos milionários em instalações para competições esportivas como a Copa das Confederações, a Copa do Mundo em 2014 e as Olimpíadas em 2016. Stephany vive em um país onde diariamente se respira futebol e este é parte de uma cultura popular tão arraigada quanto o carnaval. Mas reclama, indignada, do dinheiro que se deixou de investir em educação e saúde para construir grandes instalações esportivas. “Construíram estádios de primeiro mundo, mas ao redor deles não temos nada. É uma falta de respeito com o povo”, afirmou.

A revolta nasceu de um tema específico: o aumento das passagens de ônibus, serviço já caro e ineficiente. Porém, se estendeu a outras áreas: saúde, educação e a suposta corrupção de muitos dirigentes políticos. “A maioria dos que participam do movimento constitui uma massa de jovens que se sentem muito desgostosos com a atual vida política”, apontou à IPS o especialista político William Gonçalves, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. “Eles repudiam a corrupção e a cumplicidade de forças que se apresentam como progressistas com as que são símbolo do atraso”, afirmou, referindo-se a alianças parlamentares forjadas pelos partidos para governarem.

Pelas dimensões e pela diversidade territorial do Brasil e da sua população, nenhum partido pode assegurar a Presidência e a maioria das cadeiras no Congresso. “Desta forma, temos um parlamentarismo disfarçado, já que todos os partidos que chegam à Presidência só podem governar aliando-se a outros que têm a única ambição de obter cargos em troca de apoio parlamentar”, explicou Gonçalves. “Até o Partido dos Trabalhadores é prisioneiro dessa aliança. A saída seria uma reforma política”, acrescentou.

Tal reforma, largamente reclamada, não saía das gavetas oficiais. E, curiosamente, foi o susto diante da “apolítica” ebulição das ruas que conseguiu em poucos dias que esse assunto entrasse na agenda oficial. Os manifestantes também conseguiram reduzir o preço do transporte público, a aprovação em tempo recorde de uma lei que declara a corrupção crime “hediondo” e a votação de outra lei para destinar royalties do petróleo para a saúde e educação.

Isto é ser apolítico? O dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, João Pedro Stédile, acredita que não. “A juventude não é apolítica, pelo contrário. Tanto não é, que levou a política às ruas, mesmo sem ter consciência de seu significado”, afirmou em uma entrevista ao jornal Brasil de Fato. “A juventude está cansada dessa forma de fazer política, burguesa e mercantilista. O mais grave é que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se amoldaram a esses métodos. E, portanto, gerou-se na juventude uma repulsa à forma de atuar dos partidos”, ressaltou.

Para o historiador Marcelo Carreiro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, “este é um novo dado da história nacional, cujo contexto já era claramente observável no esvaziamento dessas instituições”. Carreiro disse à IPS que “as manifestações confirmam essa caducidade das instituições e mostram, apesar de tudo, que a população pode estar mais politicamente ativa que nunca”.

Os três poderes do Estado tomaram nota e já começam a propor e discutir formas alternativas de incluir a cidadania em mecanismos mais dinâmicos e participativos. A presidente Dilma Rousseff deu um passo nessa direção ao admitir que “estas vozes têm de ser ouvidas” porque “deixaram evidente que superam os mecanismos tradicionais das instituições, dos partidos, das entidades de classe e da própria imprensa”. Uma proposta em debate é estabelecer a consulta popular como instrumento permanente de democracia direta.

Algumas organizações não governamentais propõem, por outro lado, a participação efetiva de diferentes grupos sociais, comunidades e bairros, em decisões sobre onde e como aplicar orçamentos de saúde, educação, infraestrutura, transporte e saneamento. “Tudo o que está acontecendo com estas novas expressões da sociedade em rede – no Brasil e em outros países – aponta para uma reinvenção da política para reinventar a democracia”, opinou Augusto de Franco, diretor da organização Escola de Redes. Os jovens manifestantes atiraram a primeira pedra, e não somente contra a repressão policial.

POSTV, de pós-jornalistas para pós-telespectadores (Observatório da Imprensa)

ECOS DO PROTESTO

Por Elizabeth Lorenzotti em 25/06/2013 na edição 752

Como diria Henfil, deu até no New York Times. “One group, called N.I.N.J.A., a Portuguese acronym for Independent Journalism and Action Narratives, has been circulating through the streets with smartphones, cameras and a generator held in a supermarket cart – a makeshift, roving production studio” (NYT, 20/6/2013, íntegra aqui).

N.I.N.J.A., sigla em português para Narrativas Independentes Jornalismo e Ação é o grupo responsável pela POSTV, sua mídia digital independente. E não nasceu agora, mas há um ano e meio, e está ancorada no movimento nacional Circuito Fora do Eixo. Nas manifestações que tomaram as ruas de várias capitais, ganhou maior visibilidade e chegou a picos de audiência de 120 mil espectadores. O que significa uma marca de 1,2 dos ibopes oficiais – e não é pouco, pois muitos programas da TV aberta não o atingem.

Nesses tempos fora do eixo e de paradigmas, talvez seja este o embrião da nova mídia do futuro que já é hoje – uma POSTV feita por pós-jornalistas, para pós-telespectadores.

Com seus smartphones e câmeras, eles protagonizam uma grande novidade na cobertura dessas manifestações e na alternativa à mídia tradicional. Segundo um dos ninjas, Bruno Torturra, trata-se de outra concepção de mídia. E sua diferença com a tradicional começa pela “honestidade, a ética, o posicionamento integrado dentro dos protestos e não lançando mão de analistas; sem drones, sem helicópteros, mas testemunhando. E a credibilidade pela não edição, a não mediação de interesses comerciais. A grande mídia teve e tem grande papel no tamanho da alienação política do país”.

“Tenho de ficar”

Mas o que é, e como é feita a POSTV? Na semana passada, no meio das manifestações, um garoto tuitava: “Não precisamos de mídia partidarista, temos celulares!”.

Síntese perfeita de novos tempos aos quais os jornalistas da mídia tradicional precisam ficar atentos. Enquanto a Globo ficava do alto de edifícios, sitiada, a mídia independente sempre esteve no meio das ruas nesses dias de rebelião. “Estamos aqui, do alto deste edifício”, diziam os repórteres globais. Mas quem quer ficar vendo manifestação do alto de edifícios?, eu me perguntei. E fui às redes, onde encontreiwww.postv.orgpor meio de chamadas no Facebook, onde o N.I.N.J.A. tem uma página.

E vi, na noite/madrugada de terça-feira (18/6), a cobertura de Filipe Peçanha, 24 anos, comunicador da Casa Fora do Eixo já há alguns anos, documentando ao vivo, em São Paulo, durante horas e sem edição, os embates entre manifestantes e a tropa de choque da Polícia Militar, desde a Praça da Sé até a Avenida Paulista. “Antes de a polícia chegar, a manifestação era totalmente pacífica. Saímos por volta das 17 horas, demos a volta pelo Parque Dom Pedro, subimos de novo para a Sé, partimos para a Augusta. Em todo o trajeto que acompanhei, enquanto não houve polícia não houve tumulto. Daí voltamos porque soubemos dos incidentes na sede da Prefeitura. E voltamos para a Paulista, porque a tropa de choque foi para lá.”

Chegaram às 20 horas, não havia mais muitos manifestantes. Mas o painel da Copa do Mundo, da Fifa com Coca Cola, foi incendiado. Caíram muitas latinhas, um catador veio retirar e os manifestantes disseram: “Que bom, pelo menos alguém aproveita alguma coisa da Coca Cola”.

Estes relatos todos foram feitos pela POSTV. Quando chegou a polícia, manifestantes foram muito agredidos e um deles praticamente enforcado por meia dúzia de policiais. Filipe entrevistou dois rapazes de branco que ajudaram a apagar o fogo.

– Quem são vocês? Bombeiros?

– Não, nós somos protestantes.

– Protestantes? Da igreja?

– Não, viemos aqui por vontade própria protestar, mas somos contra o vandalismo.

“Depois”, conta Filipe, “entrevistei os dois de novo, sentados no meio fio. Um deles disse que tirar as latinhas do painel tudo bem, mas incendiar não, e que a PM estava de parabéns por ter acabado com aquilo.”

O repórter comentou: “Não, eu vi muita violência da PM, acho que você não viu o que eu vi”.

“Coloquei o meu ponto de vista”, diz Filipe.

Alguns criticam, via Twitter, e dizem que a cobertura não é plural. Responde Filipe: “Nós documentamos o que está acontecendo do ponto de vista de quem participa também. A Mídia Ninja se compreende como narrativa independente de jornalismo e ação, e essa ação é o ativismo, que nos coloca em movimento em tempo real, não só fazendo produção de conteúdo, mas também nos envolvendo com o processo. O Ninja está envolvido com as manifestações de rua. A gente estava dentro, junto com os manifestantes”.

Portanto trata-se de uma cobertura com lado. Mas quem não tem?

No meio das manifestações, eles dão voz a gente de todos os tipos e matizes, numa espécie de método socrático de entrevista. Como o rapaz que se dizia a favor do Movimento Passe Livre (MPL), mas contra partidos.

– E como você acha que deveriam dirigido o país?

– Ah, eu acho que quem devia dirigir é uma mulher de cabelos vermelhos que começou o movimento, não sei o nome dela.

– O país deveria ser dirigido por ela?

– É, eu acho. E não devia ter partidos.

– Mas o MPL não é contra partidos, você não apoia o movimento?

– Apoio, mas não nessa parte.

Um certo major Felix, durante os conflitos na Paulista, também foi entrevistado. Depois de muito tempo, deu este nome.

– Por que o senhor não está com a identificação na farda?

– (Sem resposta)

– Quem é seu comandante?

– Não sei.

– O senhor é comandando por ele e não sabe o nome dele?

Outra entrevista, feita em Belo Horizonte, palco de repressão violentíssima da Força Nacional em dia de jogo, no sábado (22/6), houve outra entrevista parecida feita por Gian Martins. Transmiti a íntegra do Facebook, onde muitos de nós sabemos que há censura e a sentimos, mas foi deletada, junto com vários outros posts referentes às manifestações. Mais ou menos assim, era uma espécie de coletiva de um coronel no meio da rua:

POSTV- A proibição de manifestações em capitais onde há Copa, imposta pela Fifa, na cria um Estado de exceção?

Coronel – Não posso opinar, mas quando você elege um representante político, está dando a ele um cheque em branco…

Depois de algum tempo a POSTV se retira e comenta: “Jornalistas são muito redundantes em suas perguntas, só querem saber quantos feridos.

Repórter do Hoje em Dia: “Que pergunta não foi feita?”

POSTV quer que conversem, mas o colega vai embora.

“É uma pena”, diz ele, “poderia ser um bom debate.”

Em certo momento a POSTV, junto a várias pessoas, leva gás lacrimogêneo e ninguém tem vinagre. Um fogo de artifício desencadeou o gás e muitas cacetadas.

“Estou com medo”, diz o repórter da POSTV na Praça Sete, que já estava havia doze horas trabalhando direto.

Já em Salvador, um colaborador que se juntou à POSTV no sábado (22/6), também dia de jogo de Copa e de manifestações, e de repressão violenta, que conquistou 8 mil pós-espectadores, exclamava: “Quero ver agora quem diz que baiano é preguiçoso”, enquanto corria esbaforido da polícia pelas ruas de Salvador. Atingido por gás pimenta, foi se recuperar no banheiro do Shopping Iguatemi, teve de tirar a camiseta e lavar, porque “ardia como churrasquinho”.

“Eu não vou embora, eu tenho de ficar” ele dizia. Em outro momento, comentou que um policial pediu para diminuírem o gás. Nem eles estavam aguentando.

Colaboradores no Brasil e no exterior

Pós-repórteres “precisam ter disposição e também coragem de ficar no meio dos manifestantes, questionar a polícia e os próprios manifestantes”, diz Bruno Torturra.

O bravo pós-repórter de Salvador é novíssimo membro da mídia, ofereceu seus serviços em cima da hora. Assim tem acontecido na POSTV por esses dias. Muita gente chegando, de todo o país e do exterior – onde várias transmissões são feitas na Europa, com brasileiros se solidarizando ao movimento.

No domingo (23/6), a página do NI.N.J.A. no Facebook postou uma convocação de correspondentes para ajudar na cobertura em tempo real dos protestos:

“Fotógrafos, repórteres, cinegrafistas, cidadãos a fim de entrar em nossas tropas, escrevam para midianinja@gmail.com dizendo de onde são e como podem colaborar. Estamos começando a cadastrar gente do país todo. Primeiro passo na montagem de uma rede nacional de jornalismo independente antes do lançamento do nosso site. Quem anima?”

Em 30 minutos já havia 125 compartilhamentos. No dia 24, até às 19 horas, havia 735 “curtir” e 413 compartilhamentos. Gente oferecendo material de todos os cantos, gente perguntando o que é preciso, muita gente.

Segundo Bruno Torturra, é impossível dizer o número de colaboradores porque, devido ao caráter de rede, há pessoas que se dispõem a ser um ninja por um dia, ou por horas. Na quinta-feira (20/6), o N.I.N.J.A. cobriu 50 cidades. Em São Paulo, o núcleo é de seis a oito pessoas, com idade média de 22 anos e nenhum com formação jornalística.

A cobertura via internet chama-se streaming. Da Wikipédia:

Streaming, fluxo de mídia, é uma forma de distribuir informação multimídianumaredeatravés de pacotes. É frequentemente utilizada para distribuir conteúdo multimédia através da Internet. Em streaming, as informações multimédia não são, usualmente, arquivadas pelo usuário que está recebendo o stream (a não ser a arqueação temporária no cache do sistema ou que o usuário ativamente faça a gravação dos dados) – a mídia é reproduzida à medida que chega ao usuário, desde que a sua largura de banda seja suficiente para reproduzir os conteúdos em tempo real. Isso permite que um usuário reproduza conteúdos protegidos por direitos de autor, na Internet, sem a violação desses direitos, similar ao rádio ou televisão aberta. A informação pode ser transmitida em diversas arquiteturas, como na forma Multicast IP ou Broadcast.”

A POSTV utiliza o TwitCasting, mas é possível usar também o Android, entre outras plataformas. E o trabalho é completamente copyleft. Em todas as praças, eles explicam como transmitem e convocam as pessoas a também serem o que chamam de “midialivristas”. Com um celular, uma banda 3G e um laptop na mochila para recarregar. A cada meia hora saem do ar, recarregam e voltam em minutos. Claro que perdem espectadores; os insistentes voltam, outros chegam.

Há dificuldades de sinal quando há muita gente com celular, há raros locais com wi-fi. “Fazemos cobertura de rua faz tempo, criando tecnologia há um ano e meio”, conta Bruno Torturra. E não é só streaming. A mídia tem fotógrafos que mandam da câmera para o fone, do fone para a rede, e a cobertura é instantânea na página do Facebook. “A gente faz o que dá, mas vai até o fim. Se não tem 3G, temos alguém com carro, que leva o cartão do fotógrafo até onde encontra internet e volta”.

Liberdade de expressão e força da rede

O projeto começou em junho de 2011, após o sucesso das transmissões ao vivo das Marchas da Maconha e da Liberdade, em São Paulo, Depois, foram lançados alguns programas, como o Supremo Tribunal Liberal(Claudio Prado), o Segunda Dose (Bruno Torturra) e Desculpe a Nossa Falha (Lino Bocchini). E começaram as transmissões de festivais independentes de música em todo o país.

Eles explicam que a POSTV, na prática, reinventa e potencializa a tecnologia do streaming, baseando-se em dois pontos centrais: “Liberdade de expressão absoluta (aproveitando que não temos anunciantes nem padrinhos) e a força da nossa rede, que é grande e divulga forte todos os programas”.

Os formatos também são livres: programas de debate, transmissão de shows, sofá armado no meio da rua com o apresentador entrevistando os passantes. E como estão na internet sempre ao vivo, a interatividade é outro ponto responsável pelo sucesso da iniciativa. Quem está assistindo manda comentários e perguntas por Twitter, e-mail e até mesmo entra por Skype e participa do papo. Já deram vários furos, como as imagens da prisão do rapper Emicida durante um show em Belo Horizonte. E também foi o veículo escolhido pelo ex-ministro Franklin Martins para sua primeira entrevista após deixar o governo.

E o financiamento? Quem sustenta?

A rede Ninja faz parte do Circuito Fora do Eixo; em São Paulo tem base em uma das Casas, no Cambuci. Circuito Fora do Eixo é uma rede de trabalhos concebida por produtores culturais das regiões centro-oeste, norte e sul no fim de 2005. Começou com uma parceria entre produtores das cidades de Cuiabá (MT), Rio Branco (AC), Uberlândia (MG) e Londrina (PR) que queriam estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia de produção e o escoamento de produtos nesta rota desde então batizada de Circuito Fora do Eixo.

Hoje o circuito está em 25 das 27 unidades federativas do Brasil. O sul, o centro-oeste, o sudeste e o norte são regiões totalmente associadas, já que contam com todos os estados inclusos. Há 72 pontos espalhados pelo país, que “gostam de produzir eventos culturais, debater comunicação colaborativa, pensar sustentabilidade, pensar políticas públicas da cultura”.

Dezesseis gestores de diferentes pontos do Brasil migraram para São Paulo, formando a Casa Fora do Eixo SP, nos limites da Liberdade. “Mas basicamente, nós experimentamos, compartilhamos e aprimoramos tecnologias livres de se produzir cultura”, dizem em seu site.

Atualmente a sustentabilidade da POSTV se dá via Circuito Fora do Eixo, mas continuam as discussões sobre crowdfunding – ou financiamento coletivo, que consiste na obtenção de capital para iniciativas de interesse coletivo por meio da agregação de múltiplas fontes de financiamento, em geral pessoas físicas interessadas nos projetos – e toda e qualquer ideia de autossustentabilidade.

Aliás, na terça-feira (25/6) foi convocada uma discussão aberta na Praça Roosevelt, em São Paulo, atual “Praça Rosa”, para “discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial”.

Esta é a integra da convocação

“A cobertura das manifestações mostrou que a velha mídia está mais caduca do que nunca, mas que ainda tem um grande poder. A mídia tradicional no Brasil é concentrada, nada plural e nada diversa. Muitas vezes ela se comporta como um partido político, tentando dar a pauta e organizar os setores mais conservadores. Enquanto isso, a internet tem sido o espaço arejado de diálogo e organização, mas o acesso à rede ainda é limitado a 40% das residências, com um serviço péssimo das empresas de telecomunicações, que ainda querem acabar com a neutralidade da rede. As grandes corporações que atuam na rede faturam bilhões sobre a violação de privacidade dos usuários, e vários governos usam essas informações para controlar os cidadãos. Venha discutir as saídas para garantir a comunicação como um direito e não como um simples negócio comercial.

Censura no Facebook

No sábado (22/6), amigos denunciaram no Facebook o bloqueio da página do N.I.N.J.A.

“Fomos denunciados por conteúdo impróprio ou pornográfico. Estão ‘analisando o caso’. Mas não tivemos qualquer argumento detalhado ou chance de defesa escrita. Acreditamos que pode ter sido fruto de denúncias de usuários contra fotos da manifestação anti-cura gay, anti-Feliciano de ontem. Fotos em que não havia qualquer pornografia, apenas material de afeto e felicidade explícita. Pedimos que compartilhem e pressionem o Facebook a recolocá-la no ar. Infelizmente, por enquanto, essa é nossa principal plataforma de divulgação da nossa dedicada cobertura independente dos protestos no Brasil.”

A página foi desbloqueada depois de cerca de quatro horas. O mesmo não aconteceu com a do jornalBrasil de Fato, bloqueada desde o dia 16 de junho. Os jornalistas não conseguem postar a não ser com um programa especial (ver aqui).

Portanto, não se trata de paranoia, e existem páginas em todo o mundo denunciando a censura no Facebook. No ano passado, jornalistas, escritores, poetas e artistas protagonizaram um “Dia contra a Censura ao Nu no Facebook”. O robô censor de Mark Zuckerberg atira a esmo e censura qualquer nu, seja de Michelangelo, Leonardo, os grandes clássicos e/ou menos famosos. Nem Lady Godiva escapou. Além de mães amamentando, que são alvos planetários da censura facebookiana. O protesto consistiu em publicar nus variadíssimos e foi parar nos jornais.

Instalou-se a discussão sobre quem censura. Robôs? Censores contratados? Denúncias de anônimos? Muitos concluíram que se trata de todas as alternativas, em vigor até hoje. O portal UOL divulgou texto, no ano passado, afirmando a existência de censores contratados em todo o mundo por um dólar a hora de trabalho. Além de imagens, textos também são censurados. O que se estranha é que, por mais que denúncias sejam feitas, páginas como “Golpe Militar 2014” continuem no ar, assim como páginas neonazistas e propagadoras de violência (ver aqui).

O poeta, ensaísta e tradutor Claudio Willer deste então compõe um dossiê sobre censura nesta rede, que até o dia 24 de junho contabilizava 61 relatos (ver aqui).

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Elizabeth Lorenzotti é escritora e jornalista, autora de Suplemento Literário – Que Falta ele Faz (ensaio),Tinhorão, o Legendário (biografia) e As Dez Mil Coisas (poesia)

La privatización de los comunes que encendió la Primavera Turca / A Primavera do Direito à Cidade (outraspalavras.net)

10/6/2013

Bernardo Gutierrez | Tradução: Bruna Bernacchio

Taksim é nosso, Istambul é nossa!”. Os gritos não pertencem a algum dos jovens que ocuparam o Parque Taksim Gezi, da capital turca, na virada do mês. Tampouco é um mote que esteja correndo o mundo no Twitter, sob a tag #OccupyGezi. “Taksim é nosso” está sendo pronunciado por um cidadão anônimo no vídeo Tkasim Square (Istambul Commons), durante uma manifestação celebrada no outono passado. “Taksim é nosso” – continua a voz no megafone – “não importa as opções políticas que tenham as pessoas”.

O vídeo foi produzido no âmbito do projeto Mapeando o Comum [Mapping the Commons], idealizado pelo estúdio sevilhano Hacktitetura e desenvolvido pelo ativistaPablo de Soto, em Atenas e Istambul. E contextualiza com perfeição a vertiginosa insurreição que está vivendo Istambul e toda a Turquia. O centro comercial planejado pelo governo de Recep Tayyip Erdogan, que incendiou #OccupyGezi, é apenas a ponta de um iceberg maior: um duro plano neoliberal para privatizar bens comuns (águas, bosques) e espaço público. Até que ponto o ataque ao comu, e concretamente a privatização dos espaços urbanos deflagraram a Primavera Turca?

O projeto Mapeando o Comum — definido por seus próprios autores como uma performance que pode tornar-se reflexão, uma obra de arte ou uma ação social — é um verdadeiro passeio pelas raízes de #OccupyGezi. A cartografia, realizada na plataformaMeipi, organiza o comu de Istambul em quatro categorias: bens naturais, cultura, espaço público e digital. Os vídeos publicados, todos com falas parcialmente em inglês, resumem os ataques que o o espaço público sofre na era Erdogan.

“Communication space”, por exemplo, revela, por meio dos protestos dos estudantes universitários, a luta pelo conhecimento e comunicação livres. Em “Water as a commons”, o assunto central é a privatização da gestão da água na região. “For-rest”denuncia que a terceira ponte sobre o estreito de Bósforo, que o governo de Erdogan planeja, implicaria na desaparecimento do bosque Belgrado, pulmão verde da cidade. A repressão no espaço público de manifestações sócio-culturais como festas nas ruas ou o fim da única praça de pedestres (Galata Square) de Istambul são tema os vídeos Cultural expressions in public space e o Galata Tower Square.

Até que ponto a privatização selvagem dos bens comuns naturais e urbanos de Istambul incendiou a revolta de #OccupyGezi? O ativista Pablo de Soto, em declarações ao jornal espanhol El Diario, sustenta que os fatos estão intrinsecamente relacionados: “O corte das árvores para construir um centro comercial para a elite e os turistas foi o pavio de incêndio, o catalizador final dos protestos por justiça social e econômica”.

A arquiteta turca Pelin Tan, em seu artigo Um relato de Gezi Park reforma a tese: “Para o governo turco, as novas políticas urbanas são a desculpa para atos de segragação, para incentivar estilos de vida neoliberais, o progressivo endividamento dos seus cidadãos, exploração, racismo, corrupção, e a instalação de um estado de exceção que viola os direitos humanos”. Por sua vez, a prestigiosa plataforma Architizer também situa os bens comuns urbanos como claro estopim da revolta.

#OccupyGezi é muito mais que um grito ecologista para salvar os árvores de Taksim. Mas não exclusivamente é apenas uma revolta antagonista contra a arrogância macropolítica do governo turco ou a suposta tentativa de islamização da Turquia que, segundo a imprensa ocidental, Erdogan conduz.

Em A Catedral e o Bazar, o hacker Eric S. Raymond contrapunha dois modelos na elaboração de software. A Catedral representa o modelo de desenvolvimento hermético e vertical do software proprietário. O bazar, com sua dinâmica horizontal e barulhenta, representaria a Linux e outros projetos de software livre, baseados no trabalho comunitário. Nenhum lugar como Istambul, com seu barulhento Gran Bazar, encarna melhor a metáfora urbana da tese de Raymond. De um lado, a catedral de receitas top down e privatizantes, do Governo de Erdogan. Do outro, o grande bazar humano de Istambul, seu espaço público, a tradição comunal das comunidades da cidade. #OccupyGezi e sua convivência humana resumem o choque de trens da história, entre dois modelos incompatíveis.

Derya Calik, estudante e ativista, descreve em uma entrevista a estratégia da catedral neoliberal contra os manifestantes de Taksim. “Na Turquia, não temos uma boa conexão 3G. Quando muito usada, a rede entra em colapso. Além disso, muitas pessoas foram informadas do uso de inibidores de sinal, por parte da polícia. Por isso, começamos a utilizar uma conexão VPN (Rede Virtual Privada). E, além disso, as lojas, restaurantes, hotéis e os residentes da zona cederam Wi-Fi aos manifestantes, abrindo as senhas de suas redes”. O bazar colaborativo de Istambul, no momento, driblou a aprisionadora catedral de Erdogan.

É possível fazer alguma comparação entre #OccupyGezzi e a acampada da Porta do Sol de Madri do 15M ou do Occupy Wall Street em Zuccotti? Pelin Tan, no texto já citado, destaca que “a ocupação de Gezi é um símbolo de estar juntos no comum (a arquiteta emprega a quase intraduzível palavra commoning), apesar de nossas diferenças”. Em #OccupyGezi, continua ela, envolveu-se “gente de diferentes classes, bairros e movimentos culturais — mais que organizações políticas e grupos de oposição”. Uma auto-organização transversal do bazar colaborativo, que a violência policial multiplicou até limites não esperados. Da praça ao mundo. Do hiperlocal à geopolítica.

Já o ativista Orsan Selap, habitual nas listas de correios de TakeTheSquare.net criadas no início do 15M espanhol, ressalta a El Diario a importância das redes na incipiente Primavera Turca: “O pensamento peer-to-peer (P2P) e em favor do comum nos dá uma alternativa clara ao capitalismo. Nesses momentos, nas redes sociais, as ruas e as lutas de Istambul estão convertendo-se em algo com muitos vínculos internacionais”.

(esquerda) Imagem do video Taksin Square, de Mapping the Commons; (direita) projeto do shopping em Taksim

De Taksim ao mundo. Do hiperlocal ao global. Do urbano à geopolítica. Em seu aclamado livro Cidades rebeldes, o sociólogo David Harvey afirma que a “revolução será urbana ou não será”. E adapta ao século XXI “o direito à cidade”, um velho grito dos anos sessenta, título de um mítico livro de Henry Lefebvre. O direito à cidade seria um “espaço social com interações e práticas onde a produção social tem lugar”.

A metrópole moderna tem um papel importante na produção do comum. Curiosamente, os movimentos sociais de Istambul estão remesclando o grito de Lefebvre-Harvey. No texto “O movimento pelo Direito à Cidade e o verão turco”, a jornalista independente Jay Cassano faz um detalhado repasse dos ataques neoliberais que Istambul está sofrendo nos últimos tempos, além do projeto de centro comercial para Gezi Taksim.

Jay cita em seu artigo a conversão do histórico cine Emek em shopping center. Menciona a terceira ponte sobre o Bósforo. E destaca o forte processo de segragação que Istambul está sofrendo, especialmente nos “bairros históricos de Sulukule, Tarlabasi, Tophane e Fener-Balat, onde vivem os imigrantes e a minoria curda”. Precisamente, Mapeando os Comuns dedica um vídeo ao distrito de Fenet-Balat-Ayvansaray, onde os vizinhos resistem ao plano urbanístico do Ajuntamento pela Associação Febayder.

O coletivo Reclaim Istambul, inspirado no coletivo britânico Reclaim the streets, que lutava pelo espaço público, faz uma verdadeira lista dos horrores urbanísticos planejados para a capital turca: “Centenas de edifícios gradeados, torres de escritórios, centros comerciais e projetos multiusos crescendo como flechas em toda a cidade”. Entre a penca de projetos de corte neoliberal, destacam Via Port Venezia (“redesenhamos Veneza e a trouxemos a Istambul”) ou Mall of Istambul (“aproveite de perto de um dos maiores shoppings da Turquia”). Em certo sentido, #OccupyGezi nasceu como grito coletivo para evitar que a milenária Istambul acabe se convertendo em Las Vegas ou Dubai.

O Reclaim Istambul é responsável por um dos documentários mais polêmicos dos últimos tempo, Ekümenópolis. Com um verdadeiro coquetel de imagens, entrevistas, músicas, gráficos e animações, Ekümenópolis desenha o selvagem ataque ao comum urbano e natural que sofre a cidade. A contundência de sua sinopse dá uma ideia da dureza de seu conteúdo: “Há alguns anos, Istambul tinha 3,5 milhões de habitantes. Hoje somos 15 milhões e em 15 anos seremos 23. Foram ultrapassados os limites ecológicos e de população. Perdeu-se a coesão social. Aqui surgiu uma imagem do urbanismo neoliberal: Ekümenópolis”.

“É mais que uma revolução tecnológica: é uma revolução cultural. Os rígidos modelos verticais para intensificar os sistemas de produção de massa do século passado estão sendo substituídos por flexíveis redes peer-to-peer, que nos levam até uma nova estética de códigos”. A frase é do arquiteto Joseph Grima, diretor da última edição da Bienal de Desenho de Istambul, celebrada ao final de 2012. Adhocracy, o título da Bienal, não foi casual. A adocracia, outro termo recentemente ressuscitado, é um novo modelo de organização flexível, intuitiva, transversal. A adocracia é horizontal, rotativa. Por isso, Adhocracy foi muito mais que uma exposição. Foi um laboratório.

Uma de suas comissárias, Ethel Baraona (dPr-Barcelona), respondendo a um questionário sobre #OccupyGezi, destaca o vínculo da Bienal com o comum urbano: “Uma grande parte dos projetos estava relacionada com o ativismo urbano, com a intenção de chamar a atenção do espaço público como espaço de intercâmbio de conhecimentos e de ação”. A Bienal adocrata espalhou por Istambul o dinamismo de coletivos-projetos como Crafting NeigborhoodsRecetas UrbanasOpen Structures,Maker Faire Africa, Arduino ou Zuloark (representando o madrilenho El Campo de Cebada).

Especialmente metafórico foi o projeto Drone Shade, da artista James Bridle. Depois de polvilhar de sombras de “drones” (aviões não tripulados) a Faixa de Gaza ou Londres, James desenhou com linhas brancas, no coração urbano de Istambul, a suposta sombra dos drones que os Estados Unidos utilizam da Turquia. O espaço público como tabuleiro do mundo. Como metáfora geopolítica. A metralhadora top down e neoliberal de Erdogan, representada em uma forma de contornos brancos. A aliança militar estadounidense-turca, que persegue o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) no norte da Turquia e no norte do Irã, como uma verdade ao rés do chão. A cidade como campo de batalha.

Será #OccupyGezi é a primeira revolução incendiada pelo comum urbano? Talvez a primeira, mas não a última. O modelo da catedral neoliberal de Istambul replica-se em todo o mundo. As remoções e a especulação imobiliária no Rio de Janeiro pré-olímpico são um exemplo. O projeto EuroVegas de Madri, como destaca Pablo de Soto, “é um escândalo de privatização e exceção da legalidade com mesmo grau destrutivo do parque Gezi em Taksim”.

Chegou a era das Cidades Rebeldes de David Harvey? Veremos uma sequência de revoluções urbanas em um planeta que esgota seus recursos naturais a um ritmo assustador? Ainda que não haja respostas, existem intuições. O antropólogo e ativista do 15M Adolfo Estalella, em seu provocador texto El procomún no es un commons vaticina uma forte politização dos núcleos urbanos: “O pró-comum é a figura que permite politizar a cidade. Se há dez anos a globalização era o objetivo de ativismo, agora é a cidade. Por isso, o comum é, para o ativismo atual o que a globalização era para este há dez anos”.

http://outraspalavras.net/2013/06/10/a-primavera-do-direito-a-cidade/

fonte original: http://www.eldiario.es/turing/privatizacion-comunes-encendio-Primavera-Turca_0_139986455.html