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O que um xamã africano de Burquina Faso vê em um hospital psiquiátrico (WakingTimes)

[Apesar de ter como fonte site que frequentemente publica artigos associados a teorias de conspiração norteamericanas, este artigo é aqui disponibilizado em português em razão de interessantes paralelos entre o pensamento do xamâ burquinabê mencionado no texto e as formas como a doença mental é entendida pelas tradições espiritualistas brasileiras, sejam as comumente denominadas afro-brasileiras, as de matriz indígena e o kardecismo. Tradução do Google Translator.]

Por WakingTimes, 22 de agosto de 2014

Stephanie Marohn com Malidoma Patrice Somé

Dr. Malidoma Somé.
Fonte: kellybroganmd.com

A visão xamânica da doença mental

Na visão xamânica, a doença mental sinaliza “o nascimento de um curador”, explica Malidoma Patrice Somé. Os transtornos mentais são emergências ou crises espirituais, e precisam ser considerados como tal para que o curandeiro seja auxiliado em seu desenvolvimento.

O que os ocidentais veem como doença mental, o povo Dagara considera como “boas notícias do outro mundo”. A pessoa que está passando pela crise foi escolhida como meio para a comunicação de uma mensagem do reino espiritual à comunidade. “Desordem mental, desordem comportamental de todos os tipos, sinalizam o fato de que duas energias obviamente incompatíveis se fundiram no mesmo campo”, diz o Dr. Somé. Esses distúrbios ocorrem quando a pessoa não obtém ajuda para lidar com a presença da energia do reino espiritual.

Uma das coisas que o Dr. Somé encontrou quando veio pela primeira vez aos Estados Unidos, em 1980, para um curso de pós-graduação, foi como o país lida com doenças mentais. Quando um colega estudante foi enviado a um instituto mental devido à “depressão nervosa”, o Dr. Somé foi visitá-lo.

“Fiquei tão chocado. Essa foi a primeira vez que fiquei cara a cara com o que é feito aqui para pessoas que exibem os mesmos sintomas que eu vi em minha aldeia”. O que impressionou o Dr. Somé foi que a atenção dada a esses sintomas era baseada na patologia, na ideia de que o quadro é algo que precisa ser interrompido. Isso estava em total oposição à maneira como sua cultura vê tal situação. Enquanto olhava os pacientes, alguns em camisa de força, dopados com medicamentos ou gritando, ele pensou: “Então é assim que os curadores que estão tentando nascer são tratados nesta cultura. Que perda! É uma lástima que uma pessoa que finalmente está sendo alinhada com um poder do outro mundo está sendo simplesmente desperdiçada”.

Uma forma de dizer isso que pode fazer mais sentido para a mente ocidental é que nós, no Ocidente, não somos ensinados a reconhecer a existência de fenômenos psíquicos, o mundo espiritual, e muito menos treinados em como lidar com ele. Na verdade, há recusa à aceitação da existência das habilidades psíquicas. Quando as energias do mundo espiritual emergem na psique ocidental, o indivíduo se descobre despreparado para integrá-las ou mesmo reconhecer o que está acontecendo. O resultado é, em geral, aterrorizante. Sem o contexto adequado e assistência para lidar com a intrusão de outro nível de realidade, a pessoa acaba sendo considerada mentalmente doente. Drogas antipsicóticas em alta dosagem agravam o problema e evitam a integração que poderia levar ao desenvolvimento e crescimento espiritual do indivíduo que recebeu essas energias.

No hospital psiquiátrico, o Dr. Somé viu muitos “seres” rondando os pacientes, “entidades” que são invisíveis para a maioria das pessoas, mas que os xamãs e médiuns são capazes de ver. “Eles estavam causando as crises naquelas pessoas”, diz ele. Pareceu-lhe que esses seres estavam tentando anular o efeito dos medicamentos nos corpos das pessoas com as quais os seres estavam tentando se fundir, aumentando a dor dos pacientes no processo. “Os seres agiam quase como uma espécie de escavadeira no campo de energia das pessoas. Atuavam com ferocidade. As pessoas sujeitas a seus efeitos apenas gritavam e gritavam”, disse ele. Ele não suportou permanecer naquele ambiente e teve que sair.

Na tradição Dagara, a comunidade ajuda a pessoa a reconciliar as energias de ambos os mundos – “o mundo dos espíritos, com o qual ela está fundida, e a comunidade”. Essa pessoa é então capaz de servir de ponte entre os mundos e ajudar os vivos com as informações e a cura de que precisam. Assim, a crise espiritual termina com o nascimento de um curador. “O relacionamento do outro mundo com o nosso é de apoio e suporte”, explica o Dr. Somé. “Na maioria das vezes, o conhecimento e as habilidades que surgem desse tipo de fusão vêm diretamente do outro mundo”.

Os seres que estavam aumentando a dor dos internos na enfermaria do hospital psiquiátrico estavam, na verdade, tentando se fundir com os internos para transmitir mensagens a este mundo. As pessoas com as quais eles escolheram se unir não estavam sendo assistidas no aprendizado de como serem uma ponte entre os mundos, e as tentativas de comunicação eram ineficazes. O resultado era a manutenção do desequilíbrio energético inicial e a interrupção do processo de nascimento de um curador.

“A cultura ocidental ignorou sistematicamente o nascimento de curadores”, afirma o Dr. Somé. “Consequentemente, o outro mundo continua tentando o maior número de pessoas possível, com o objetivo de chamar a atenção de alguém. Os seres do outro mundo aumentam seus esforços nesse sentido”. Os espíritos são atraídos por pessoas cujos sentidos não foram anestesiados. “A sensitividade é quase entendida como um convite”, observa ele.

Quem desenvolve os chamados transtornos mentais são aqueles que são sensitivos, o que é visto na cultura ocidental como hipersensibilidade. As culturas indígenas não veem as coisas dessa maneira e, como resultado, as pessoas sensitivas não se consideram excessivamente sensíveis. No Ocidente, “é a sobrecarga da cultura em que estão que os está destruindo”, observa o Dr. Somé. O ritmo frenético, o bombardeio dos sentidos e a energia violenta que caracterizam a cultura ocidental podem sobrecarregar pessoas sensitivas.

Esquizofrenia e energias estranhas

Na esquizofrenia, existe uma “receptividade especial a um fluxo de imagens e informações que não pode ser controlado”, afirmou o Dr. Somé. “Quando esse tipo de descarga ocorre em um momento inesperado, e principalmente quando se trata de imagens que são assustadoras e contraditórias, a pessoa passa a ter delírios”.

O que é necessário nesta situação é primeiro separar a energia da pessoa das energias estranhas, usando a prática xamânica (o que é conhecido como uma “varredura”) para limpar a camada externa da aura do indivíduo. Com a limpeza de seu campo de energia, a pessoa não capta mais uma enxurrada de informações e, portanto, não tem mais motivos para se assustar e se perturbar, explica o Dr. Somé.

Então, é possível ajudar a pessoa a se alinhar com a energia do espírito que está tentando vir do outro mundo e dar à luz o curador. O bloqueio dessa emergência é o que cria problemas. “A energia do curador é uma energia de alta voltagem”, observa ele. “Quando está bloqueada, simplesmente queima a pessoa. É como um curto-circuito. Os fusíveis estão queimando. É por isso que pode ser realmente assustador, e eu entendo por que essa cultura prefere confinar essas pessoas. Aqui eles estão gritando e gritando, e são colocados em camisas de força. Essa é uma imagem triste”. Novamente, a abordagem xamânica é trabalhar no alinhamento das energias para que não haja bloqueio, “fusíveis” não explodam e a pessoa possa se tornar o curador que deve ser.

Deve-se notar, no entanto, que nem todos os seres espirituais que entram no campo energético de uma pessoa estão lá com o propósito de promover a cura. Também existem energias negativas, que são presenças indesejáveis ​​na aura. Nesses casos, a abordagem xamânica é removê-los da aura, ao invés de trabalhar para alinhar as energias discordantes.

Alex: louco nos Estados Unidos, curador na África

Para testar sua crença de que a visão xamânica da doença mental é válida tanto no mundo ocidental quanto nas culturas indígenas, o Dr. Somé levou um paciente mental de volta para a África com ele, para sua aldeia. “Fui instigado por minha própria curiosidade a tentar descobrir se há verdade na universalidade de que a doença mental pode estar conectada a um alinhamento com um ser de outro mundo”, diz o Dr. Somé.

Alex era um americano de 18 anos que sofreu um surto psicótico quando tinha 14. Ele teve alucinações, era suicida e passou por ciclos severos de depressão. Ele estava em um hospital psiquiátrico e havia recebido muitos medicamentos, mas nada estava ajudando. “Os pais fizeram tudo – sem sucesso”, diz o Dr. Somé. “Eles não sabiam mais o que fazer.”

Com a permissão deles, o Dr. Somé levou seu filho para a África. “Depois de oito meses lá, Alex havia voltado a ser praticamente normal”, disse o Dr. Somé. “Ele foi capaz até de participar com curadores em atividades de cura; sentar com eles o dia todo e ajudá-los, auxiliando-os no que eles estavam fazendo com seus clientes… Ele passou cerca de quatro anos na minha aldeia”. Alex ficou por escolha própria, não porque precisava de mais cura. Ele se sentiu “muito mais seguro na aldeia do que nos Estados Unidos”.

Para alinhar sua energia e a do ser do reino espiritual, Alex passou por um ritual xamânico específico para casos como o dele, embora um pouco diferente daquele usado com o povo Dagara. “Ele não nasceu na aldeia, então outra coisa era necessária. Mas o resultado foi semelhante, mesmo que o ritual não fosse literalmente o mesmo”, explica o Dr. Somé. O fato de que o alinhamento de energias funcionou para curar Alex demonstrou ao Dr. Somé que a conexão entre seres espirituais e a doença mental é realmente universal.

Após o ritual, Alex começou a compartilhar as mensagens que o espírito comm o qual estava vinculado tinha para este mundo. Infelizmente, as pessoas com quem ele estava falando não falavam inglês (o Dr. Somé estava ausente naquele momento). A experiência levou, no entanto, Alex a ir para a faculdade estudar psicologia. Ele voltou para os Estados Unidos depois de quatro anos porque “ele descobriu que todas as coisas que ele precisava fazer foram feitas e ele poderia seguir em frente com sua vida”.

A última coisa que o Dr. Somé ouviu foi que Alex estava fazendo pós-graduação em psicologia em Harvard. Ninguém pensava que ele jamais seria capaz de concluir os estudos de graduação, muito menos obter um diploma de pós-graduação.

O Dr. Somé resume do que se tratava a doença mental de Alex: “Ele estava estendendo a mão. Foi uma chamada de emergência. Seu trabalho e propósito era ser um curador. Ele disse que ninguém estava prestando atenção nisso”.

Depois de ver como a abordagem xamânica funcionou bem para Alex, Dr. Somé concluiu que os seres espirituais são um problema tanto no Ocidente quanto em sua comunidade na África. “Mas a questão ainda permanece, a resposta para este problema deve ser encontrada aqui, em vez de ter que ir até o exterior para buscar a resposta. Tem que haver um caminho pelo qual um pouco de atenção além da patologia de toda essa experiência conduza à possibilidade de inventar o ritual adequado para ajudar as pessoas”.

Desejo de conexão espiritual

Um traço comum que o Dr. Somé notou nos transtornos “mentais” no Ocidente é “uma energia ancestral muito antiga que foi paralisada, e que finalmente está desabrochando na pessoa”. Seu trabalho, então, é rastreá-lo, voltar no tempo para descobrir o que é esse espírito. Na maioria dos casos, o espírito está ligado à natureza, principalmente com montanhas ou grandes rios, diz ele.

No caso das montanhas, a título de exemplo para explicar o fenômeno, “é um espírito da montanha que caminha lado a lado com a pessoa e, como resultado, cria uma distorção no espaço-tempo que está afetando a pessoa presa nela”. O que é necessário é uma fusão ou alinhamento das duas energias, “para que a pessoa e o espírito da montanha se tornem um”. Novamente, o xamã conduz um ritual específico para trazer esse alinhamento.

O Dr. Somé acredita que se depara com essa situação com frequência nos Estados Unidos porque “a maior parte da estrutura deste país é feita da energia da máquina, e o resultado disso é a desconexão e o rompimento do passado. Você pode fugir do passado, mas não pode se esconder dele”. O espírito ancestral do mundo natural vem nos visitar. “Não é tanto o que o espírito deseja, mas sim o que a pessoa deseja”, diz ele. “O espírito vê em nós um chamado para algo grandioso, algo que dê sentido à vida, e então o espírito está respondendo a isso.”

Essa chamada, que nem sabemos que estamos fazendo, reflete “um forte desejo por uma conexão profunda, uma conexão que transcende o materialismo e a posse de coisas e se move para uma dimensão cósmica tangível. A maior parte desse desejo é inconsciente, mas para os espíritos, consciente ou inconsciente não faz diferença”. Eles respondem a qualquer um.

Como parte do ritual de fusão da energia da montanha e humana, aqueles que estão recebendo a “energia da montanha” são enviados para uma área montanhosa de sua escolha, onde pegam uma pedra que os chama. Eles trazem aquela pedra de volta para o resto do ritual e a mantêm como uma companhia; alguns até carregam consigo. “A presença da pedra ajuda muito a sintonizar a capacidade perceptiva da pessoa”, observa o Dr. Somé. “Eles recebem todos os tipos de informações que podem usar, então é como se eles obtivessem alguma orientação tangível do outro mundo sobre como viver suas vidas”.

Quando é a “energia do rio”, os chamados vão ao rio e, depois de falar com o espírito do rio, encontram uma pedra d’água para trazer de volta para o mesmo tipo de ritual do espírito da montanha.

“As pessoas pensam que algo extraordinário deve ser feito em uma situação extraordinária como essa”, diz ele. Normalmente não é esse o caso. Às vezes, é tão simples quanto carregar uma pedra.

Uma abordagem ritual sagrada para doenças mentais

Uma das contribuições que um xamã pode trazer ao mundo ocidental é ajudar as pessoas a redescobrir os rituais, que infelizmente está faltando. “O abandono do ritual pode ser devastador. Do ponto de vista espiritual, o ritual é inevitável e necessário se quisermos viver”, escreve o Dr. Somé em Ritual: Power, Healing and Community. “Dizer que o ritual é necessário no mundo industrializado é um eufemismo. Vimos em meu próprio povo que provavelmente é impossível viver uma vida sã sem ele”.

O Dr. Somé não acreditava que os rituais de sua aldeia tradicional poderiam simplesmente ser transferidos para o Ocidente, então, ao longo de seus anos de trabalho xamânico aqui, ele projetou rituais que atendem às necessidades muito diferentes dessa cultura. Embora os rituais mudem de acordo com o indivíduo ou grupo envolvido, ele acha que há necessidade de certos rituais em geral.

Um deles envolve ajudar as pessoas a descobrirem que sua angústia vem do fato de serem “chamadas por seres do outro mundo para cooperar com elas na realização do trabalho de cura”. O ritual permite que eles saiam da angústia e aceitem esse chamado.

Outra necessidade ritual está relacionada à iniciação. Nas culturas indígenas de todo o mundo, os jovens são iniciados na idade adulta quando atingem uma certa idade. A falta dessa iniciação no Ocidente é parte da crise em que as pessoas estão aqui, diz o Dr. Somé. Ele exorta as comunidades a reunir “os poderes criativos de pessoas que tiveram esse tipo de experiência, em uma tentativa de chegar a algum tipo de ritual alternativo que pelo menos comece a diminuir esse tipo de crise”.

Com muito cuidado, fala sobre as necessidades daqueles que vêm a ele em busca de ajuda envolve fazer uma fogueira e, em seguida, colocar na fogueira “itens que simbolizam questões carregadas dentro dos indivíduos. . . Podem ser questões de raiva e frustração contra um ancestral que deixou um legado de assassinato e escravidão ou qualquer coisa, coisas com as quais o descendente tem que conviver ”, explica ele. “Se essas coisas forem abordadas como coisas que estão bloqueando a imaginação humana, o propósito de vida da pessoa e até mesmo a visão da vida da pessoa como algo que pode melhorar, então faz sentido começar a pensar em termos de como transformar esse bloqueio em uma estrada que pode levar a algo mais criativo e mais gratificante. ”

O exemplo de problemas com ancestrais está ligado aos rituais elaborados pelo Dr. Somé que tratam de uma disfunção séria na sociedade ocidental e no processo “desencadeiam a iluminação” nos participantes. Esses são rituais ancestrais, e a disfunção a que se destinam é o abandono em massa do culto dos ancestrais. Alguns dos espíritos que tentam se comunicar, conforme descrito anteriormente, podem ser “ancestrais que desejam se fundir com um descendente na tentativa de curar o que não foram capazes de fazer enquanto estavam em seu corpo físico.”

“A menos que a relação entre os vivos e os mortos esteja em equilíbrio, o caos se instala”, diz ele. “Os Dagara acreditam que, se tal desequilíbrio existe, é dever dos vivos curar seus ancestrais. Se esses ancestrais não forem curados, sua energia doentia assombrará a alma e a psique daqueles que são responsáveis ​​por ajudá-los”. Os rituais se concentram em curar o relacionamento com nossos ancestrais, tanto em questões específicas de um ancestral individual quanto em questões culturais mais amplas contidas em nosso passado. O Dr. Somé viu curas extraordinárias ocorrerem nesses rituais.

Adotar uma abordagem ritual sagrada para a doença mental em vez de considerar a pessoa como um caso patológico dá à pessoa afetada – e, de fato, à comunidade em geral – a oportunidade de começar a olhar para ela desse ponto de vista também, o que leva a “uma infinidade de oportunidades e iniciativas rituais que podem ser muito, muito benéficas para todos os envolvidos”, afirma. Dr. Somé.

Extraído de: The Natural Medicine Guide to Schizophrenia (Capítulo 9) e The Natural Medicine Guide to Bipolar Disorder (Capítulo 10). Stephanie Marohn.

Isenção de responsabilidade: as informações neste artigo não se destinam a substituir os cuidados médicos. Você precisa consultar seu médico sobre qualquer alteração em sua medicação. O autor e a editora se isentam de qualquer responsabilidade sobre como você opta por empregar as informações contidas neste livro e o resultado ou consequências de qualquer um dos tratamentos cobertos.

Banzo: a depressão e o suicídio de escravizados eram fatos corriqueiros (Aventuras na História)

aventurasnahistoria.uol.com.br

Renato Pinto Venâncio, 13/09/2020

Assim funcionavam os antigos navios negreiros – Getty Images

Pouco discutido nos livros, os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de se alimentar

“Apareceu ontem enforcado com um baraço [corda de fios de linho], dentro de um alçapão, na casa da rua da Alfândega, nº 376, sobrado, o preto Dionysio, escravo de D.
Olimpya Theodora de Souza, moradora na mesma casa. O infeliz preto, querendo sem dúvida apressar a morte, fizera com uma thesoura pequenos ferimentos no braço…”

Essa nota, chocante, publicada no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, em 22 de junho de 1872, revela uma faceta pouco conhecida da escravidão: os escravos se suicidavam. E com o índice de “mortes voluntárias” entre eles, quando comparado ao de homens livres, era duas ou três vezes mais elevado.

Os suicídios de escravos também se diferenciavam em outros aspectos. O mais notável deles era o fato de atribuir-se o gesto ao banzo. Ainda hoje se discute o significado dessa palavra. O mais aceito tem uma remota origem africana, equivalendo a “pensar” ou “meditar”. O termo também, há tempos, designou uma doença.

Em 1799, por exemplo, Luiz António de Oliveira Mendes apresentou, na Academia Real de Ciências de Lisboa, um estudo sobre “as doenças agudas e crônicas que mais frequentemente acometem os pretos recém-tirados da África”. O banzo constava entre elas.

Os sintomas? Os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de se alimentar, mesmo “oferecendo-se-lhes” – afirma o médico – “as melhores comidas, assim do nosso trato e costume, como as do seu país…”, falecendo pouco tempo depois.

No século 19, com o desenvolvimento das primeiras teorias psicológicas, o comportamento dos escravos banzeiros foi reconhecido como distúrbio mental. Em 1844, Joaquim Manoel de Macedo, na tese médica intitulada Considerações Sobre a Nostalgia, afirma o seguinte: “[…] estamos convencidos de que a espantosa mortandade que entre nós se observa nos africanos, principalmente nos recém-chegados, bem como de que o número de suicídios que entre eles se conta, tem seu tanto de dívida a nostalgia […]” 

Aos poucos, a associação entre nostalgia e banzo se tornou popular. No Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de 1875, de Joaquim de Macedo Soares, é possível ler a seguinte definição: “banzar: estar pensativo sobre qualquer caso; triste sem saber de quê; sofrer do spleen dos ingleses; tristeza e apatia simultânea; sofrer de nostalgia, como os negros da Costa quando vinham para cá, e ainda depois de cá estarem”.

Hoje, a palavra “nostalgia”, difundida na literatura, é sinônimo de “saudade”, um sentimento. Situação bem diferente é pensá-la como doença. Tal rótulo – assim como o de banzo – provavelmente encobria uma vasta gama de problemas psicológicos ou psiquiátricos, que iam da depressão à esquizofrenia; ou eram provocados pela desnutrição, por doenças contagiosas.

Não faltam exemplos de aproximações entre suicídio e doença mental. O citado Jornal do Commercio registra ocorrências de mortes voluntárias associadas a delírios: “Valentim, escravo de Faria & Miranda, estabelecidos na rua dos Lázaros nº 26, sofria há dias violenta febre, e era tratado pelo Dr. Antonio Rodrigues de Oliveira. Anteontem [20 de maio de 1872], às 9 horas da noite, ao que parece, em um acesso mais forte, Valentim feriu-se com um golpe no pescoço”.

Outras vezes se reconhecia explicitamente a loucura: “Suicidouse ontem [8 de março de 1872] à 1 hora da tarde, enforcando-se, a preta africana Justina, de 50 anos, escrava de Narciso da Silva Galharno. O Sr. 2º Delegado tomou conhecimento do fato e procedeu a corpo delito. Consta que a preta sofria de alienação mental”.

Como todos os testemunhos do passado, os textos acima devem ser lidos com olhos críticos: o registro de suicídio pode encobrir assassinatos praticados por senhores. Tal fato não implica em diminuir o banzo como uma das expressões trágicas da loucura comum a milhões de pessoas vítimas do tráfico de escravos.

Por outro lado, a divulgação desse sofrimento nos jornais deve ter contribuído para a formação da sensibilidade abolicionista na sociedade imperial. Por isso, o banzo pode ser entendido como uma forma não intencional de protesto político, um exemplo primário
de luta pela não-violência.


**Professor de História e co-autor do livro Ancestrais: Uma Introdução Á História da África Atlântica, 2003. 

++ A seção Coluna não representa, necessariamente, a opinião do site Aventuras na História. 

You’re facing a lot of choices amid the pandemic. Cut yourself slack: It’s called decision fatigue (USA Today)

Grace Hauck | USA TODAY | 08.30.2020

Is it safe to go to the grocery store? Can my kids have a play date? Will the other child wear a mask? Can I send them back to school? When my boss asks me to come back to the office, should I?

Shayla Bell lies awake at night racking her brain for answers and preparing for another day of unprecedented choices. 

“There’s all these little, small decisions all the time,” said Bell, a suburban Chicago retail professional with two kids. “I find myself being my own devil’s advocate so often to try to reach the best conclusion. And I’m tired.”

Six months since the United States declared the coronavirus pandemic a state of emergency, millions of isolated Americans are at their wits’ end, exhausted from making a seemingly endless series of health and safety decisions for themselves and their loved ones. There’s a name for this phenomenon, and researchers call it decision fatigue.

“It’s a state of low willpower that results from having invested effort into making choices,” said Roy Baumeister, a psychology professor at Florida State University who coined the term in 2010. “It leads to putting less effort into making further choices, so either choices are avoided or they are made in a very superficial way.”

Like a mental gas tank, the human brain has a limited capacity of energy, and as you make decisions throughout the day, you deplete that resource. As you become fatigued, you may be inclined to avoid additional decisions, stick to the status quo or base a decision on a single criteria, Baumeister said. 

When we’re able to maintain daily routines, the brain can automate decisions and rely on heuristics – or mental shortcuts – to avoid fatigue. But the pandemic has disrupted many of our routines, forcing us to allocate more mental energy to decision-making.

The effects of decision fatigue have serious implications for people in positions of authority. Jonathan Levav, who studies behavioral decision theory at Stanford University, found that judges serving on parole boards in Israel were more likely to give favorable rulings at the very beginning of the workday or after a food break than later in a sequence of cases, after the judges had made more decisions.

“If you make a lot of decisions repeatedly, that has an effect on subsequent decisions,” Levav said. “As people make more decisions, they’re more likely to simplify whatever subsequent decisions they’re dealing with.”

Similar studies have found that people making decisions on behalf of loved ones in intensive care units or nurses working telemedicine shifts, experience decision fatigue over time, which can impair their ability to make informed decisions for the patient or provide efficient recommendations, respectively.

We’re not just making a greater number of daily decisions. We’re also making high-stakes, moral decisions, said Elizabeth Yuko, a writer and staff member at the Fordham University Center for Ethics Education.

“It’s fatigue with making decisions that have consequences we’ve never had to deal with before,” Yuko said. “These things come with such a moral weight on them, it comes with even more stress.”

For parents and guardians, in particular, the stakes are high. Erin Scarpa, a mother of two who works at a bank in New Jersey, said she temporarily relocated her family to North Carolina specifically to avoid making decisions about socializing with neighbors. Scarpa said she’s particularly concerned about reports of patients suffering lasting damage from COVID-19.

“You’re talking about decisions that could limit your child’s life forever,” Scarpa said. “That’s a whole other concept.”

Sneha Dave, a recent college graduate living with an inflammatory bowel disease and unidentified respiratory condition, said she struggled with crippling decision fatigue at the beginning of the pandemic.

“There’s been so many times where I go to the grocery store where I turn around because there are too many cars there. I spend a lot of time deciding what the right time to go to the grocery store is or whether I should go in,” she said.

Dave said she’s still grappling with a big decision – whether or not to pursue a round of treatment for her bowel disease, which would severely weaken her immune system – but she’s slowly learned how to cope with her decision fatigue.

“The chronic illness community has been able to adapt significantly better and make these decisions a little easier because these are decisions we’ve made our whole lives,” Dave said.

How statewide COVID-19 policies affect decision fatigue

Streamlined state and nationwide policies on COVID-19 have the potential to alleviate decision fatigue, some researchers said, but the notion of greater regulation carries contentious political implications.

“The more that requirements are in place, such as mask mandates, the less it’s a personal choice about what to do. And it makes it easier to make other, related decisions,” said Kathleen Vohs, a professor at the University of Minnesota who studies self-control. “You don’t have to agonize about whether it’s safe to go to the grocery store when you know that others will have masks on.”

Mandates may also cause people to feel depleted if they find it difficult to comply with a policy, researchers said. Others may be making such specific, preferential decisions that statewide policies wouldn’t be enough to alleviate decision fatigue.

Sheena Iyengar, a Columbia Business School professor and author studying the psychology and economics of choice, is gathering data on how Americans feel about statewide COVID-19 policies.

Contrary to classical economic theory, Iyengar’s work has found that, in some contexts, people may prefer to have their choices limited or entirely removed. For example, people are more likely to purchase jams or chocolates – or to undertake optional class essay assignments – when offered a limited rather than extensive array of choices. Study participants reported greater satisfaction with their selections when their options had been limited.

A similar trend may be playing out when it comes to COVID-19 policies, Iyengar said. Her preliminary findings suggest that people living in states with face mask policies reported being “happier” than those in states without mask mandates. The findings may simply be driven by political preferences, Iyengar said.

“There’s a naturally occurring experiment, although that experiment falls along political lines,” she said.

Tips for avoiding decision fatigue

There are some simple strategies for avoiding decision fatigue, researchers said. Many center on general health and well-being, such as maintaining a nutritious diet, getting a full night’s sleep and exercising regularly. Others focus on timing your decisions and developing routines to cut out unnecessary choices.

“Willpower diminishes and decision fatigue increases over the course of the day, so if you have important decisions to make, make them in the morning after a full night’s sleep and a good breakfast,” Baumeister said. “Be aware this is affecting you.”

Plan out tomorrow’s schedule the day before, said Dovid Spinka, a staff clinician at the Center for Anxiety in New York City. Prep or plan your meals for the week. Lay out your clothes in the evening, or – like Steve Jobs – develop a uniform.

If you begin to fade during the day, take a short break, go for a walk or practice mindfulness or breathing exercises, Spinka said. Prioritize your decisions, and try to focus on one at a time. If you’re facing a big decision but feel drained, take a nap or grab a snack. Write down your initial thoughts, but don’t make the decision yet. Come back to it when you’re feeling refreshed, or proactively delay the decision to a set date.

Especially in highly emotional times, people who tend to suppress their emotions may be more prone to experience decision fatigue, said Grant Pignatiello, a researcher at Case Western Reserve University. It’s important to be aware of how you’re feeling and talk to others about it.

“We are all going through a collective trauma of this pandemic, so it’s important that we cut ourselves a little slack. If we need to take a nap at the end of the day, watch Netflix or go for a walk, it’s OK,” Pignatiello said.

For Bell, that means granting herself some grace.

“I feel like we’re all – even the coolest cucumbers – we’re all at a higher stress level now,” she said. “So try to have some grace for yourself and others, and understand that we’re all doing the best we think we can.”

Not quite all there. The 90% economy that lockdowns will leave behind (The Economist)

It will not just be smaller, it will feel strange

BriefingApr 30th 2020 edition

Apr 30th 2020

Editor’s note: The Economist is making some of its most important coverage of the covid-19 pandemic freely available to readers of The Economist Today, our daily newsletter. To receive it, register here. For our coronavirus tracker and more coverage, see our hub

IN THE 1970s Mori Masahiro, a professor at the Tokyo Institute of Technology, observed that there was something disturbing about robots which looked almost, but not quite, like people. Representations in this “uncanny valley” are close enough to lifelike for their shortfalls and divergences from the familiar to be particularly disconcerting. Today’s Chinese economy is exploring a similarly unnerving new terrain. And the rest of the world is following in its uncertain steps.

Whatever the drawbacks of these new lowlands, they are assuredly preferable to the abyss of lockdown. Measures taken to reverse the trajectory of the pandemic around the world have brought with them remarkable economic losses.

Not all sectors of the economy have done terribly. New subscriptions to Netflix increased at twice their usual rate in the first quarter of 2020, with most of that growth coming in March. In America, the sudden stop of revenue from Uber’s ride-sharing service in March and April has been partially cushioned by the 25% increase of sales from its food-delivery unit, according to 7Park Data, a data provider.

Yet the general pattern is grim. Data from Womply, a firm which processes transactions on behalf of 450,000 small businesses across America, show that businesses in all sectors have lost substantial revenue. Restaurants, bars and recreational businesses have been badly hit: revenues have declined some two-thirds since March 15th. Travel and tourism may suffer the worst losses. In the EU, where tourism accounts for some 4% of GDP, the number of people travelling by plane fell from 5m to 50,000; on April 19th less than 5% of hotel rooms in Italy and Spain were occupied.

According to calculations made on behalf of The Economist by Now-Casting Economics, a research firm that provides high-frequency economic forecasts to institutional investors, the world economy shrank by 1.3% year-on-year in the first quarter of 2020, driven by a 6.8% year-on-year decline in China’s GDP. The Federal Reserve Bank of New York draws on measures such as jobless claims to produce a weekly index of American economic output. It suggests that the country’s GDP is currently running about 12% lower than it was a year ago (see chart 1).

These figures fit with attempts by Goldman Sachs, a bank, to estimate the relationship between the severity of lockdowns and their effect on output. It finds, roughly, that an Italian-style lockdown is associated with a GDP decline of 25%. Measures to control the virus while either keeping the economy running reasonably smoothly, as in South Korea, or reopening it, as in China, are associated with a GDP reduction in the region of 10%. That chimes with data which suggest that if Americans chose to avoid person-to-person proximity of the length of an arm or less, occupations worth approximately 10% of national output would become unviable.

The “90% economy” thus created will be, by definition, smaller than that which came before. But its strangeness will be more than a matter of size. There will undoubtedly be relief, fellow feeling, and newly felt or expressed esteem for those who have worked to keep people safe. But there will also be residual fear, pervasive uncertainty, a lack of innovative fervour and deepened inequalities. The fraction of life that is missing will colour people’s experience and behaviour in ways that will not be offset by the happy fact that most of what matters is still available and ticking over. In a world where the office is open but the pub is not, qualitative differences in the way life feels will be at least as significant as the drop in output.

The plight of the pub demonstrates that the 90% economy will not be something that can be fixed by fiat. Allowing pubs—and other places of social pleasure—to open counts for little if people do not want to visit them. Many people will have to leave the home in order to work, but they may well feel less comfortable doing so to have a good time. A poll by YouGov on behalf of The Economist finds that over a third of Americans think it will be “several months” before it will be safe to reopen businesses as normal—which suggests that if businesses do reopen some, at least, may stay away.

Ain’t nothing but tired

Some indication that the spending effects of a lockdown will persist even after it is over comes from Sweden. Research by Niels Johannesen of Copenhagen University and colleagues finds that aggregate-spending patterns in Sweden and Denmark over the past months look similarly reduced, even though Denmark has had a pretty strict lockdown while official Swedish provisions have been exceptionally relaxed. This suggests that personal choice, rather than government policy, is the biggest factor behind the drop. And personal choices may be harder to reverse.

Discretionary spending by Chinese consumers—the sort that goes on things economists do not see as essentials—is 40% off its level a year ago. Haidilao, a hotpot chain, is seeing a bit more than three parties per table per day—an improvement, but still lower than the 4.8 registered last year, according to a report by Goldman Sachs published in mid-April. Breweries are selling 40% less beer. STR, a data-analytics firm, finds that just one-third of hotel beds in China were occupied during the week ending April 19th. Flights remain far from full (see chart 2).

This less social world is not necessarily bad news for every company. UBS, a bank, reports that a growing number of people in China say that the virus has increased their desire to buy a car—presumably in order to avoid the risk of infection on public transport. The number of passengers on Chinese underground trains is still about a third below last year’s level; surface traffic congestion is as bad now as it was then.

Wanting a car, though, will not mean being able to afford one. Drops in discretionary spending are not entirely driven by a residual desire for isolation. They also reflect the fact that some people have a lot less money in the post-lockdown world. Not all those who have lost jobs will quickly find new ones, not least because there is little demand for labour-intensive services such as leisure and hospitality. Even those in jobs will not feel secure, the Chinese experience suggests. Since late March the share of people worried about salary cuts has risen slightly, to 44%, making it their biggest concern for 2020, according to Morgan Stanley, a bank. Many are now recouping the loss of income that they suffered during the most acute phase of the crisis, or paying down debt. All this points to high saving rates in the future, reinforcing low consumption.

A 90% economy is, on one level, an astonishing achievement. Had the pandemic struck even two decades ago, only a tiny minority of people would have been able to work or satisfy their needs. Watching a performance of Beethoven on a computer, or eating a meal from a favourite restaurant at home, is not the same as the real thing—but it is not bad. The lifting of the most stringent lockdowns will also provide respite, both emotionally and physically, since the mere experience of being told what you can and cannot do is unpleasant. Yet in three main ways a 90% economy is a big step down from what came before the pandemic. It will be more fragile; it will be less innovative; and it will be more unfair.

Take fragility first. The return to a semblance of normality could be fleeting. Areas which had apparently controlled the spread of the virus, including Singapore and northern Japan, have imposed or reimposed tough restrictions in response to a rise in the growth rate of new infections. If countries which retain relatively tough social-distancing rules do better at staving off a viral comeback, other countries may feel a need to follow them (see Chaguan). With rules in flux, it will feel hard to plan weeks ahead, let alone months.

Can’t start a fire

The behaviour of the economy will be far less predictable. No one really knows for how long firms facing zero revenues, or households who are working reduced hours or not at all, will be able to survive financially. Businesses can keep going temporarily, either by burning cash or by tapping grants and credit lines set up by government—but these are unlimited neither in size nor duration. What is more, a merely illiquid firm can quickly become a truly insolvent one as its earnings stagnate while its debt commitments expand. A rise in corporate and personal bankruptcies, long after the apparently acute phase of the pandemic, seems likely, though governments are trying to forestall them. In the past fortnight bankruptcies in China started to rise relative to last year. On April 28th HSBC, one of the world’s largest banks, reported worse-than-expected results, in part because of higher credit losses.

Furthermore, the pandemic has upended norms and conventions about how economic agents behave. In Britain the share of commercial tenants who paid their rent on time fell from 90% to 60% in the first quarter of this year. A growing number of American renters are no longer paying their landlords. Other creditors are being put off, too. In America, close to 40% of business-to-business payments from firms in the spectator-sports and film industries were late in March, double the rate a year ago. Enforcing contracts has become more difficult with many courts closed and social interactions at a standstill. This is perhaps the most insidious means by which weak sectors of the economy will infect otherwise moderately healthy ones.

In an environment of uncertain property rights and unknowable income streams, potential investment projects are not just risky—they are impossible to price. A recent paper by Scott Baker of Northwestern University and colleagues suggests that economic uncertainty is at an all-time high. That may go some way to explaining the results of a weekly survey from Moody’s Analytics, a research firm, which finds that businesses’ investment intentions are substantially lower even than during the financial crisis of 2007-09. An index which measures American nonresidential construction activity 9-12 months ahead has also hit new lows.

The collapse in investment points to the second trait of the 90% economy: that it will be less innovative. The development of liberal capitalism over the past three centuries went hand in hand with a growth in the number of people exchanging ideas in public or quasi-public spaces. Access to the coffeehouse, the salon or the street protest was always a partial process, favouring some people over others. But a vibrant public sphere fosters creativity.

Innovation is not impossible in a world with less social contact. There is more than one company founded in a garage now worth $1trn. During lockdowns, companies have had to innovate quickly—just look at how many firms have turned their hand to making ventilators, if with mixed success. A handful of firms claim that working from home is so productive that their offices will stay closed for good.

Yet these productivity bonuses look likely to be heavily outweighed by drawbacks. Studies suggest the benefits of working from home only materialise if employees can frequently check in at an office in order to solve problems. Planning new projects is especially difficult. Anyone who has tried to bounce ideas around on Zoom or Skype knows that spontaneity is hard. People are often using bad equipment with poor connections. Nick Bloom of Stanford University, one of the few economists to have studied working from home closely, reckons that there will be a sharp decline in patent applications in 2021.

Cities have proven particularly fertile ground for innovations which drive long-run growth. If Geoffrey West, a physicist who studies complex systems, is right to suggest that doubling a city’s population leads to all concerned becoming on aggregate 15% richer, then the emptying-out of urban areas is bad news. MoveBuddha, a relocation website, says that searches for places in New York City’s suburbs are up almost 250% compared with this time last year. A paper from New York University suggests that richer, and thus presumably more educated, New Yorkers—people from whom a disproportionate share of ideas may flow—are particularly likely to have left during the epidemic.

Something happening somewhere

Wherever or however people end up working, the experience of living in a pandemic is not conducive to creative thought. How many people entered lockdown with a determination to immerse themselves in Proust or George Eliot, only to find themselves slumped in front of “Tiger King”? When mental capacity is taken up by worries about whether or not to touch that door handle or whether or not to believe the results of the latest study on the virus, focusing is difficult. Women are more likely to take care of home-schooling and entertainment of bored children (see article), meaning their careers suffer more than men’s. Already, research by Tatyana Deryugina, Olga Shurchkov and Jenna Stearns, three economists, finds that the productivity of female economists, as measured by production of research papers, has fallen relative to male ones since the pandemic began.

The growing gender divide in productivity points to the final big problem with the 90% economy: that it is unfair. Liberally regulated economies operating at full capacity tend to have unemployment rates of 4-5%, in part because there will always be people temporarily unemployed as they move from one job to another. The new normal will have higher joblessness. This is not just because GDP will be lower; the decline in output will be particularly concentrated in labour-intensive industries such as leisure and hospitality, reducing employment disproportionately. America’s current unemployment rate, real-time data suggest, is between 15-20%.

The lost jobs tended to pay badly, and were more likely to be performed by the young, women and immigrants. Research by Abi Adams-Prassl of Oxford University and colleagues finds that an American who normally earns less than $20,000 a year is twice as likely to have lost their job due to the pandemic as one earning $80,000-plus. Many of those unlucky people do not have the skills, nor the technology, that would enable them to work from home or to retrain for other jobs.

The longer the 90% economy endures, the more such inequalities will deepen. People who already enjoy strong professional networks—largely, those of middle age and higher—may actually quite enjoy the experience of working from home. Notwithstanding the problems of bad internet and irritating children, it may be quite pleasant to chair fewer meetings or performance reviews. Junior folk, even if they make it into an office, will miss out on the expertise and guidance of their seniors. Others with poor professional networks, such as the young or recently arrived immigrants, may find it difficult or impossible to strengthen them, hindering upward mobility, points out Tyler Cowen of George Mason University.

The world economy that went into retreat in March as covid-19 threatened lives was one that looked sound and strong. And the biomedical community is currently working overtime to produce a vaccine that will allow the world to be restored to its full capacity. But estimates suggest that this will take at least another 12 months—and, as with the prospects of the global economy, that figure is highly uncertain. If the adage that it takes two months to form a habit holds, the economy that re-emerges will be fundamentally different.

Why You Should Ignore All That Coronavirus-Inspired Productivity Pressure (Chronicle of Higher Education)

By Aisha S. Ahmad March 27, 2020

Among my academic colleagues and friends, I have observed a common response to the continuing Covid-19 crisis. They are fighting valiantly for a sense of normalcy — hustling to move courses online, maintaining strict writing schedules, creating Montessori schools at their kitchen tables. They hope to buckle down for a short stint until things get back to normal. I wish anyone who pursues that path the very best of luck and health.

Yet as someone who has experience with crises around the world, what I see behind this scramble for productivity is a perilous assumption. The answer to the question everyone is asking — “When will this be over?” — is simple and obvious, yet terribly hard to accept. The answer is never.

Global catastrophes change the world, and this pandemic is very much akin to a major war. Even if we contain the Covid-19 crisis within a few months, the legacy of this pandemic will live with us for years, perhaps decades to come. It will change the way we move, build, learn, and connect. There is simply no way that our lives will resume as if this had never happened. And so, while it may feel good in the moment, it is foolish to dive into a frenzy of activity or obsess about your scholarly productivity right now. That is denial and delusion. The emotionally and spiritually sane response is to prepare to be forever changed.

The rest of this piece is an offering. I have been asked by my colleagues around the world to share my experiences of adapting to conditions of crisis. Of course, I am just a human, struggling like everyone else to adjust to the pandemic. However, I have worked and lived under conditions of war, violent conflict, poverty, and disaster in many places around the world. I have experienced food shortages and disease outbreaks, as well as long periods of social isolation, restricted movement, and confinement. I have conducted award-winning research under intensely difficult physical and psychological conditions, and I celebrate productivity and performance in my own scholarly career.

I share the following thoughts during this difficult time in the hope that they will help other academics to adapt to hardship conditions. Take what you need, and leave the rest.

Stage No. 1: Security

Your first few days and weeks in a crisis are crucial, and you should make ample room to allow for a mental adjustment. It is perfectly normal and appropriate to feel bad and lost during this initial transition. Consider it a good thing that you are not in denial, and that you are allowing yourself to work through the anxiety. No sane person feels good during a global disaster, so be grateful for the discomfort of your sanity. At this stage, I would focus on food, family, friends, and maybe fitness. (You will not become an Olympic athlete in the next two weeks, so don’t put ridiculous expectations on your body.)

Next, ignore everyone who is posting productivity porn on social media right now. It is OK that you keep waking up at 3 a.m. It is OK that you forgot to eat lunch and cannot do a Zoom yoga class. It is OK that you have not touched that revise-and-resubmit in three weeks.

Ignore the people who are posting that they are writing papers and the people who are complaining that they cannot write papers. They are on their own journey. Cut out the noise.

Know that you are not failing. Let go of all of the profoundly daft ideas you have about what you should be doing right now. Instead, focus intensely on your physical and psychological security. Your first priority during this early period should be securing your home. Get sensible essentials for your pantry, clean your house, and make a coordinated family plan. Have reasonable conversations with your loved ones about emergency preparedness. If you have a loved one who is an emergency worker or essential worker, redirect your energies and support that person as your top priority. Identify their needs, and then meet those needs.

No matter what your family unit looks like, you will need a team in the weeks and months ahead. Devise a strategy for social connectedness with a small group of family, friends, and/or neighbors, while maintaining physical distancing in accordance with public-health guidelines. Identify the vulnerable and make sure they are included and protected.

Sign up to get our Quick Tip newsletter: Twice a week, we’ll send you fast advice to help you thrive. It’s free to receive, and you’ll get a mix of small suggestions designed to help you succeed in your job and your academic life.

The best way to build a team is to be a good teammate, so take some initiative to ensure that you are not alone. If you do not put this psychological infrastructure in place, the challenge of necessary physical-distancing measures will be crushing. Build a sustainable and safe social system now.

Stage No. 2: The Mental Shift

Once you have secured yourself and your team, you will feel more stable, your mind and body will adjust, and you will crave challenges that are more demanding. Given time, your brain can and will reset to new crisis conditions, and your ability to do higher-level work will resume.

This mental shift will make it possible for you to return to being a high-performance scholar, even under extreme conditions. However, do not rush or prejudge your mental shift, especially if you have never experienced a disaster before. One of the most relevant posts I saw on Twitter (by writer Troy Johnson) was: “Day 1 of Quarantine: ‘I’m going to meditate and do body-weight training.’ Day 4: *just pours the ice cream into the pasta*” — it’s funny but it also speaks directly to the issue.

Now more than ever, we must abandon the performative and embrace the authentic. Our essential mental shifts require humility and patience. Focus on real internal change. These human transformations will be honest, raw, ugly, hopeful, frustrated, beautiful, and divine. And they will be slower than keener academics are used to. Be slow. Let this distract you. Let it change how you think and how you see the world. Because the world is our work. And so, may this tragedy tear down all our faulty assumptions and give us the courage of bold new ideas.

Stage No. 3: Embrace a New Normal

On the other side of this shift, your wonderful, creative, resilient brain will be waiting for you. When your foundations are strong, build a weekly schedule that prioritizes the security of your home team, and then carve out time blocks for different categories of your work: teaching, administration, and research. Do the easy tasks first and work your way into the heavy lifting. Wake up early. The online yoga and crossfit will be easier at this stage.

Things will start to feel more natural. The work will also make more sense, and you will be more comfortable about changing or undoing what is already in motion. New ideas will emerge that would not have come to mind had you stayed in denial. Continue to embrace your mental shift. Have faith in the process. Support your team.

Understand that this is a marathon. If you sprint at the beginning, you will vomit on your shoes by the end of the month. Emotionally prepare for this crisis to continue for 12 to 18 months, followed by a slow recovery. If it ends sooner, be pleasantly surprised. Right now, work toward establishing your serenity, productivity, and wellness under sustained disaster conditions.

None of us knows how long this crisis will last. We all want our troops to be home before Christmas. The uncertainty is driving us all mad.

Of course, there will be a day when the pandemic is over. We will hug our neighbors and our friends. We will return to our classrooms and coffee shops. Our borders will eventually reopen to freer movement. Our economies will one day recover from the forthcoming recessions.

Yet we are just at the beginning of that journey. For most people, our minds have not come to terms with the fact that the world has already changed. Some faculty members are feeling distracted and guilty for not being able to write enough or teach online courses properly. Others are using their time at home to write and report a burst of research productivity. All of that is noise — denial and delusion. And right now, denial only serves to delay the essential process of acceptance, which will allow us to reimagine ourselves in this new reality.

On the other side of this journey of acceptance are hope and resilience. We will know that we can do this, even if our struggles continue for years. We will be creative and responsive, and will find light in all the nooks and crannies. We will learn new recipes and make unusual friends. We will have projects we cannot imagine today, and will inspire students we have not yet met. And we will help each other. No matter what happens next, together, we will be blessed and ready to serve.

In closing, I give thanks to those colleagues and friends who hail from hard places, who know this feeling of disaster in their bones. In the past few days, we have laughed about our childhood wounds and have exulted in our tribulations. We have given thanks and tapped into the resilience of our old wartime wounds. Thank you for being warriors of the light and for sharing your wisdom born of suffering. Because calamity is a great teacher.

Aisha Ahmad is an assistant professor of political science at the University of Toronto and the author of the award-winning book Jihad & Co: Black Markets and Islamist Power (Oxford University Press, 2017). Her Twitter is @ProfAishaAhmad.

Quarentena: porque você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora (Medium)

Uma pesquisadora com experiência em ambientes adversos dá conselhos aos acadêmicos ansiosos com a quebra de rotina causada pelo coronavírus

Por Aisha S. Ahmad, no Chronicle of Higher Education.
Tradução de Renato Pincelli.

O QUE TENHO OBSERVADO entre meus colegas e amigos acadêmicos é uma resposta comum à contínua crise da COVID-19. Eles estão lutando bravamente para manter um senso de normalidade — correndo para os cursos online, mantendo rigorosos cronogramas de escrita e criando escolinhas Montessori nas mesas de cozinha. A expectativa deles é apertar os cintos por um breve período, até que as coisas voltem ao normal. Para qualquer um que segue esse caminho, desejo muita saúde e boa sorte.

Entretanto, como alguém que tem experiência com diversas crises ao redor do mundo, o que eu vejo por trás dessa busca pela produtividade é uma suposição perigosa. A resposta para a pergunta que todo mundo está se fazendo — “Quando isso vai acabar?” — é simples é óbvia, mas difícil de engolir. A resposta é nunca.

Catástrofes globais mudam o mundo e esta pandemia é muito semelhante a uma grande guerra. Mesmo que a crise do coronavírus seja contida dentro de alguns meses, o legado dessa pandemia vai viver conosco por anos, talvez décadas. Isso vai mudar o modo como nos movemos, como construímos, como aprendemos e nos conectamos. É simplesmente impossível voltar à vida como se nada disso tivesse acontecido. Assim, embora possa parecer bom por enquanto, é tolice mergulhar num frenesi de atividade ou ficar obcecado com sua produtividade acadêmica neste momento. Isso é negação e auto-ilusão. A resposta emocional e espiritualmente saudável seria se preparar para ser mudado para sempre.

O resto deste artigo é um conselho. Fui constantemente procurada por meus colegas ao redor do mundo para compartilhar minhas experiências de adaptação às condições de crise. Claro que sou apenas uma humana, lutando como todo mundo para se ajustar à pandemia. Entretanto, já trabalhei e vivi sob condições de guerra, conflitos violentos, pobreza e desastres em muitos lugares do mundo. Passei por racionamento de comida e surtos de doenças, bem como prolongados períodos de isolamento social, restrição de movimento e confinamento. Conduzi pesquisas premiadas sob condições físicas e psicológicas extremamente difíceis — e tenho orgulho de minha produtividade e desempenho na minha carreira de pesquisadora.

Deixo aqui os seguintes pensamentos durante esse momento difícil na esperança de que eles ajudem outros acadêmicos a se adaptar a essas condições duras. Pegue o que precisa e deixe o resto.

Primeiro Estágio: Segurança

SEUS PRIMEIROS dias ou suas primeiras semanas numa crise são cruciais e você deveria ter um amplo espaço para fazer um ajuste mental. É perfeitamente normal e aceitável sentir-se mal ou perdido durante essa transição inicial. Considere positivo que não esteja em negação e que está se permitindo trabalhar apesar da ansiedade. Nenhuma pessoa sã sente-se bem durante um desastre global, então agradeça pelo desconforto que sente. Neste estágio, eu diria para focar em alimentação, família, amigos e talvez exercícios físicos — mas você não vai virar um atleta olímpico em quinze dias, então baixe sua bola.

Em seguida, ignore todo mundo que está postando a pornografia da produtividade nas mídias sociais. Está bem se você continua acordado às 3 da manhã. Está bem esquecer de almoçar ou não conseguir fazer uma teleaula de ioga. Está bem se faz três semanas que você nem toca naquele artigo-que-só-falta-revisar-e-submeter.

Ignore tanto as pessoas que dizem estar escrevendo papers quanto as que reclamam de não conseguir escrever. Cada qual está em sua jornada. Corte esse ruído.

Saiba que você não está fracassando. Livre-se das ideias profundamente toscas que você tem a respeito do que deveria estar fazendo agora. Em vez disso, seu foco deve se voltar prioritariamente para sua segurança física e mental. Neste começo de crise, sua prioridade deveria ser a segurança da sua casa. Adquira itens essenciais para sua dispensa, limpe seu lar e faça um plano de coordenação com sua família. Tenha conversas razoáveis sobre preparos de emergência com seus entes queridos. Se você é próximo de alguém que trabalha nos serviços de emergência ou num ramo essencial, redirecione suas energias e faça do apoio a essa pessoa uma prioridade. Identifique e cubra as necessidades dessas pessoas.

Não importa como é o perfil da sua família: vocês vão ter que ser um time nas próximas semanas ou meses. Monte uma estratégia para manter conexões sociais com um pequeno grupo de familiares, amigos e/ou vizinhos, mas mantenha o distanciamento físico de acordo com as orientações de saúde pública. Identifique os vulneráveis e garanta que eles estejam incluídos e protegidos.

A melhor maneira de construir um time é ser um bom companheiro de equipe, então tome alguma iniciativa para não ficar sozinho. Se você não montar essa infra-estrutura psicológica, o desafio das medidas de distanciamento social necessárias pode ser esmagador. Crie uma rede sustentável de apoio social — agora.

Segundo Estágio: Modificação Mental

ASSIM QUE estiver seguro junto com seu time, você vai começar a se sentir mais estável e seu corpo e sua mente vão se adaptar, fazendo-o buscar desafios mais exigentes. Depois de um tempo seu cérebro pode e vai reiniciar sob condições de crise e você vai reaver sua capacidade de trabalhar em alto nível.

Essa modificação mental permitirá que você volte a ser um pesquisador de alta performance, mesmo sob condições extremas. No entanto, você não deve tentar forçar sua modificação mental, especialmente se você nunca passou por um desastre. Um dos posts mais relevantes que vi no Twitter (do escritor Troy Johnson) dizia: “Dia 1 da Quarentena — vou meditar e fazer treinamento físico. Dia 4 — ah, vamos misturar logo o sorvete com o macarrão”. Pode parecer engraçado, mas diz muito sobre o problema.

Mais do que nunca, precisamos abandonar o performativo e abraçar o autêntico. Modificar nossas essências mentais exige humildade e paciência. Mantenha o foco nessa mudança interna. Essas transformações humanas vão ser sinceras, cruas, feias, esperançosas, frustrantes, lindas e divinas — e serão mais lentas do que os acadêmicos atarefados estão acostumados. Seja lento. Permita-se ficar distraído. Deixe que isso mude o modo como você pensa e como você vê o mundo. Porque o nosso trabalho é o mundo. Que essa tragédia, enfim, nos faça derrubar todas as nossas suposições falhas e nos dê coragem para ter novas ideias.

Terceiro Estágio: Abrace o Novo Normal

Do outro lado dessa mudança, seu cérebro maravilhoso, criativo e resiliente estará te esperando. Quando suas fundações estiverem sólidas, faça uma agenda semanal priorizando a segurança do seu time doméstico e depois reserve blocos de tempo para as diferentes categorias do seu trabalho: ensino, administração e pesquisa. Faça primeiro as tarefas simples e vá abrindo caminho até os pesos-pesados. Acorde cedo. Aquela aula online de ioga ou crossfit vai ser mais fácil nesse estágio.

A essa altura, as coisas começam a parecer mais naturais. O trabalho também vai fazer mais sentido e você estará mais confortável para mudar ou desfazer o que estava fazendo. Vão surgir ideias novas, que nunca lhe passariam pela cabeça se você tivesse ficado em negação. Continue abraçando sua modificação mental, tenha fé no processo e dê apoio ao seu time.

Lembre-se que isso é uma maratona: se você disparar na largada, vai vomitar nos seus pés até o fim do mês. Esteja emocionalmente preparado para uma crise que vai durar 12 ou 18 meses, seguida de uma recuperação lenta. Se terminar antes, será uma surpresa agradável. Neste momento, trabalhe para estabelecer sua serenidade, sua produtividade e seu bem-estar sob condições prolongadas de desastre.

Nenhum de nós sabe quanto tempo essa crise vai durar. Gostaríamos de receber nossas tropas de volta ao lar antes do Natal. Essa incerteza nos enlouquece.

Porém, virá o dia em que a pandemia estará acabada. Vamos abraçar nossos vizinhos e amigos. Vamos retornar às nossas salas de aula e cantinhos do café. Nossas fronteiras voltarão a se abrir para o livre movimento. Nossas economias, um dia, estarão recuperadas das recessões por vir.

Só que, agora, estamos no começo desta jornada. Muita gente ainda não entendeu o fato de que o mundo já mudou. Alguns membros da faculdade sentem-se distraídos ou culpados por não conseguir escrever muito ou dar aulas online apropriadas. Outros usam todo seu tempo em casa para escrever e relatam um surto de produtividade. Tudo isso é ruído — negação e ilusão. Neste momento, essa negação só serve para atrasar o processo fundamental da aceitação, que permite que a gente possa se reinventar nessa nova realidade.

Do outro lado desta jornada de aceitação estão a esperança e a resiliência. Nós sabemos que podemos passar por isso, mesmo que dure anos. Nós seremos criativos e responsivos; vamos lutar em todas as brechas e recantos possíveis. Vamos aprender novas receitas e fazer amizades desconhecidas. Faremos projetos que nem podemos imaginar hoje e vamos inspirar estudantes que ainda estamos para conhecer. E vamos nos ajudar mutuamente. Não importa o que vier depois: juntos, estaremos preparados e fortalecidos.

Por fim, gostaria de agradecer aos colegas e amigos que vivem em lugares difíceis, que sentem na própria pele essa sensação de desastre. Nos últimos anos, rimos ao trocar lembranças sobre as dores da infância e exultamos sobre nossas tribulações. Agradecemos à resiliência que veio com nossas velhas feridas de guerra. Obrigado a vocês por serem os guerreiros da luz e por partilhar de sua sabedoria nascida do sofrimento — porque a calamidade é uma grande professora.


AISHA AHMAD é professora-assistente de Ciências Políticas na Universidade de Toronto, no Canadá, onde também dá cursos avançados sobre Segurança Internacional. Fruto de pesquisas feitas no Afeganistão, Paquistão, Somália, Mali e Líbano, seu livro “Jihad & Co: Black Markets and Islamist Power” (2017) explora as motivações econômicas por trás dos conflitos no mundo islâmico. Este artigo com conselhos sobre produtividade acadêmica em condições adversas foi publicado originalmente no “Chronicle of Higher Education” em 27/03/20.

To Battle Isolation, Elders and Children Connect as Pen Pals (New York Times)

Original article

Pen pal programs have sprouted up around the world as schools and senior centers try to keep older adults connected and children occupied.

By Mihir Zaveri, April 10, 2020

Mike Boggs found himself staring out the window at his assisted living center in Sioux City, Iowa, wondering when the coronavirus pandemic would end and when he would be able to safely go outside again.

Mr. Boggs, 63, struggled with dementia. He missed his wife, who was no longer allowed to visit. When the center decided in late March to halt communal meals to protect its residents, he felt his world grow even smaller.

Days before in the same city, Lincoln Colling, 15, found out that his school, East High School, would close. There would be no more team sports and no more student council meetings. Boredom set in.

But in their isolation — and despite their five-decade age difference — Mr. Boggs and Lincoln have forged a new connection. They have become pen pals through an informal partnership between the assisted living center and the student council at Lincoln’s school aimed at connecting teenagers with older adults, a population that was at risk of being socially isolated even before the coronavirus outbreak forced them into further seclusion.

In recent weeks, similar programs have sprouted up in Australia and Europe, and across the United States — in Sioux City; Madison, Conn.; Clear Lake, Texas; and beyond — as schools, nursing homes, libraries and senior centers try to keep older adults connected and children occupied.

Participants in a pen pal program that has matched students at East High School in Sioux City, Iowa, with residents of the Bickford Senior Living center. Clockwise from top left, Ella Voloshen, 17; Tiffany Su, 16; Maroldine Grabe; Lincoln Colling, 15; Payton East and Alivia Pick, both 11; and Mike Boggs.

Mr. Boggs received his first letter from Lincoln the day that the center, Bickford Senior Living, ended communal dining. Lincoln wrote casually on a page of notebook paper about how team sports had been shut down, how he was running to stay in shape and how his basketball team won a city championship last year.

“It affected me pretty personally,” Mr. Boggs said in an interview. “I’ve never had a pen pal before. This is a first time for me. I think it’s a great idea to keep open communication with the kids while we’re isolated inside — to keep that open line going.”

Mr. Boggs wrote in a one-page response: “Remember to eat a lot of spinach like Popeye that will keep you strong.”

Lincoln said that getting a letter back from Mr. Boggs was “so cool.”

“I feel like I could do this for a very long time,” Lincoln said.

Older people tend to have fewer social connections, particularly as their physical and mental health declines, said Dawn Carr, a sociology professor at Florida State University who studies aging and health. They are less likely to have jobs and the casual relationships that come with those jobs, she said.

Social isolation and loneliness are linked to poorer physical and mental health outcomes, said Dr. Carr, who is also a faculty associate at the Pepper Institute for Aging and Public Policy. Because people over 60 — and especially those over 80 — are particularly vulnerable to the coronavirus, social-distancing measures strictly warn or prohibit people from interacting with them.

“They are less likely now than ever to have even the small interactions that they had in daily life,” Dr. Carr said.

The pen pal programs are trying to change that.

“It makes a connection between a younger person and an older person,” said Pat McCormick, 79, who received a letter at Bickford Senior Living from a student who wrote about cheerleading and an upcoming trip to Texas. “It’s interesting for me to hear what these young people are doing.”

A similar program in Warminster, Pa., sought volunteers to write one email a week about a personal hobby or a funny story that would then be passed along to someone living in a nursing home. (The program’s website now says it is “at capacity” and cannot take any more volunteers.) In March, a retirement community in Sedro-Woolley, Wash., put out a call on social media for letters from children “in an effort to stay connected to our community and help parents combat boredom with their little ones at home.”

Dr. Carr said that such programs would be more successful in helping older people who are isolated if they encouraged two-way communication — a “back and forth” — and created social bonds. She said that intergenerational communication could be particularly beneficial, fostering empathy and civic engagement.

“Maybe this terrible thing that’s happened to us can shed light on the importance of building programs that actually work,” she said.

Town officials in Madison, Conn., started a pen pal program after its senior center — which holds exercise classes and games during the day, among other services — shuttered in mid-March in response to the pandemic.

“You have two populations that are stuck at home, that are isolated,” said Heather Noblin, the center’s assistant director of senior services.

For about two weeks, Ms. Noblin has been matching older adults with children. She had made more than a dozen matches as of Thursday afternoon. The “letters” would be sent through email to keep from potentially exposing recipients to the coronavirus. She said interest in the program was growing.

“I think it’s definitely still bubbling,” she said.

Christina Acampora read about the program in a local newspaper on March 26. Her daughter, Lucia, 9, already had a pen pal with a peer in New Jersey. But the idea of corresponding with an older person intrigued them both.

“I think that it’s good for the seniors because they can’t have any visitors,” Lucia said.

Lucia was matched with LouAnne Castrilli, 65, who recently retired as an administrative assistant with Madison’s Youth and Family Services department.

“She told me the things that she likes and the things that she does,” Ms. Castrilli said. “She likes ballet, and things like that, and then she asked me a bunch of questions, like what is my favorite color, what do I do for fun. Then we got talking back and forth.”

The new pen pals have exchanged four emails so far. Ms. Castrilli said they were the highlight of her day. And as it turned out, she and Lucia have a lot in common. They both like walking on the beach. They both like scrapbooking. They share a favorite color, pink.

“Maybe when this is all over,” Ms. Castrilli said, “maybe we will get to meet each other, which will be kind of fun.”

Mihir Zaveri is a general assignment reporter on the Express Desk. He previously worked at The Houston Chronicle.

Quase metade dos sobreviventes do último coronavírus teve transtornos mentais (Folha de S.Paulo)

Artigo original

Matheus Moreira – 12 de fevereiro de 2020

Entre 2002 e 2003, um coronavírus provocou pânico no mundo e quase 800 mortes pela Sars (síndrome respiratória aguda grave). Mas os estragos não pararam ali: quatro anos depois, 42% dos sobreviventes haviam desenvolvido algum transtorno mental. 

A maioria deles (54,5%) manifestou transtorno de estresse pós-traumático, e 39% tiveram depressão, de acordo com um estudo publicado em 2014 na revista especializada East Asian Arch Psychiatry.

O medo é comum em momentos de crise em saúde pública e, portanto, faz parte da resposta a epidemias, aponta outro artigo, publicado na semana passada na revista médica The Lancet e que trata dos impactos da nova epidemia de coronavírus para a saúde mental.

Segundo os autores, há poucos dados sobre o programa desenvolvido pelo governo chinês para acompanhamento e tratamento psicossocial de seus cidadãos, mas, por outro lado, há um extenso plano de “intervenção emergencial em crises psicológicas” para profissionais de saúde da China, fruto do aprendizado da epidemia da Sars.

A cartilha prevê o acompanhamento psicológico de grupos de risco entre os infectados e familiares para prevenção de comportamentos impulsivos e tendências suicidas, por exemplo. 

No dia 28 de janeiro, o governo chinês inaugurou uma linha direta para que os cidadãos possam ligar para requerer ajuda psicológica emergencial, outra forma de prevenir que o que aconteceu após a epidemia de Sars.

Pacientes infectados ou com suspeita de infecção podem manifestar, principalmente, medo das consequências de portar a doença. Já aqueles que estão em quarentena podem ter experiências que vão do tédio à solidão, incluindo acessos de raiva. 

Esses sentimentos e sintomas de sofrimento psíquico podem levar a transtornos de ansiedade, ataques de pânico, depressão, agitação psicomotora (movimentos indesejados devido ao estresse), delírio e suicídio. 

Os efeitos psicológicos de epidemias também podem afetar equipes em hospitais. Durante a Sars, os profissionais de saúde que participaram dos esforços contra a doença apresentaram transtorno de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade, medo e frustração devido à possibilidade de serem contaminados e contaminarem familiares e amigos e à impossibilidade de salvar todos os pacientes atendidos.

Até a terça (11), mais de 43 mil pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus e outras 1.018 morreram. A epidemia atual já superou a Sars em todos os níveis. 

Os dados são importantes e são atualizados diariamente como serviço à população, mas o excesso de informação pode levar ao medo, senão pânico, segundo o artigo. 

Ana Bock, professora de psicologia social da PUC de São Paulo, explica que o medo da epidemia pode gerar a sensação de que ela é ainda maior.  

“Apesar da informação qualificada, as pessoas nem sempre estão preparadas para compreendê-la. O medo está ligado à fragilidade de lidar com a informação”, afirma. 

Já o professor de medicina da USP (Universidade de São Paulo) Esper Kallás aponta que apesar de haver muita informação disponível, a divulgação e a discussão sobre o tema podem ser benéficos. Para ele, cada segundo gasto em conversas sobre ciência é, na verdade, um investimento.

“Vejo o acesso à informação como oportunidade de discutir saúde pública com a população, de discutir investimento em pesquisa. Acho que isso constrói uma relação com a sociedade que nos permite avançar nesses assuntos.”

Além do sofrimento psicológico de pessoas que tem acesso à essas informações, Bock ressalta que pessoas já fragilizadas e/ou com quadros de transtornos mentais podem sofrer neste momento com mais intensidade. 

No domingo (9), 34 brasileiros e seus parentes que foram evacuados da China chegaram ao Brasil para ficar de quarentena em uma base militar em Anápolis (GO). 

Eles estão sujeitos aos efeitos do isolamento na saúde mental, mas há diferentes tipos de isolamento. 

De acordo com Bock, o isolamento costuma ser usado para promover sofrimento, mas o caso não se aplica aos repatriados. “O isolamento é uma questão ruim para o psicológico. Quando colocamos um filho de castigo, o mandamos para o quarto, para ficar sozinho. Nas prisões,  há a solitária como punição”, lembra. 

No caso dos brasileiros repatriados, buscou-se atenuar a sensação de isolamento. No local onde eles passarão as próximas semanas, há brinquedos para as sete crianças que integram o grupo, telão para filmes, Wi-Fi, plantas, doces e comidas saborosas.

O plano de quarentena do governo, disponível no site do Ministério da Saúde, indica que há uma equipe de assistência psicossocial à disposição dos brasileiros para atenuar o sofrimento psíquico e prevenir o transtorno de estresse pós-traumático). 

A equipe conta com um psicologo e um psiquiatra. Além da avaliação psicológica primária, já na chegada, haverá avaliações semanais. Em casos de sofrimento psíquico, o plano prevê avaliação de risco e abordagem terapêutica (psicoterapia, administração de remédios e observação).

Ficar fechado em casa pode afetar a saúde mental: o que fazer para não explodir

Renzo Taddei – 3 de abril de 2020; atualizado em 4 de abril de 2020

A imensa maioria das discussões atuais a respeito dos problemas trazidos pela pandemia de COVID-19 centrou-se, até o momento, no binômio sistema de saúde-economia. O isolamento social faz a curva baixar e desorganiza amplos setores da economia; o chamado isolamento vertical, sem a necessária testagem em massa, preserva a economia mas mantém a trajetória do sistema de saúde rumo ao colapso. Parece não haver mais dúvida que, sem os recursos que permitiriam às autoridades realizar testes na intensidade do que se viu na Coréia do Sul, não há alternativa responsável que não seja permanecer fechado em casa.

Ocorre, no entanto, que há um terceiro elemento na questão, e que só agora, passadas as primeiras semanas desde que o distanciamento social começou seriamente em lugares como São Paulo, começa a se fazer visível: o isolamento afeta a saúde mental das pessoas. A imensa maioria dos meus colegas acadêmicos pensou que os problemas de trabalhar em casa seriam a falta de infraestrutura (como cadeiras desconfortáveis, internet instável, ou competição com outros membros da família pelo uso do computador), de ambiente suficientemente silencioso (com as crianças brincando ao redor) para que as reuniões digitais ocorressem sem interrupções, ou mesmo da disciplina necessária para trabalhar em ambiente onde o corpo aprendeu a relaxar. Os indícios de que havia algo mais na equação começaram a aparecer na forma de memes nas redes sociais. Em um dos áudios engraçados que circulou pelo WhatsApp, uma voz feminina dizia que, se ela sobrevivesse ao vírus, o mesmo provavelmente não ocorreria ao seu casamento. Em outro, o áudio de origem argentina apresenta um homem em uma conferência de trabalho por Internet, dizendo aos colegas da necessidade de se ter paciência e calma com as alterações exigidas no momento, enquanto uma criança grita de forma ininterrupta ao fundo. Em dado momento, o mesmo homem explode em ataque de fúria, gritando com a criança para que esta se cale. Em outro áudio, um homem lista rituais e mandingas que surgiram no lares, como reação ao medo generalizado – a enorme quantidade e suposta incompatibilidade entre tais rituais compondo a carga humorística da mensagem.

Passadas as primeiras semanas, tais memes cessaram. O que me ocorreu foi que, ao invés das pessoas terem se acostumado com a situação e esta, portanto, ter perdido o caráter de novidade que sustenta o humor, a realidade aponta para exatamente o contrário disso: o confinamento começou a afetar a saúde mental das pessoas, e o assunto perdeu a graça, porque virou sofrimento. No últimos dias, uma série de artigos na imprensa internacional e em postagens nas redes sociais mostra que o assunto ganhou visibilidade nos países em que o confinamento ocorre há mais tempo. No Brasil, grupos especializados nas áreas de psicologia e psiquiatria já haviam alertado (e aqui) para essa questão. Agora, ela efetivamente bate à porta de todos nós.

Há muitos motivos mais visíveis, nos debates públicos, do que o tema da saúde mental: além das recomendações médicas para evitar o contágio, dos reflexos devastadores na economia, e do debate planetário a respeito dos distintos protocolos de tratamento e eficácia dos medicamentos, há a questão incontornável dos óbitos produzidos pela epidemia e como o luto impacta as famílias afetadas. Discutirei o tema das mortes e do luto em outro texto.

Há muitas razões pelas quais o confinamento afeta a saúde mental das pessoas. Na minha área de atuação, a antropologia, há trabalhos de referência importantes sobre essa questão. Como este texto não é acadêmico, não vou fazer referências específicas (ver exemplo aqui). Mas o que parece claro na literatura é que, enquanto indivíduos, nossa existência nos coloca em muitos papéis sociais distintos, com identidades, e portanto formas de pensar, de organizar nossas emoções, e de nos relacionarmos com as outras pessoas, diversas. Isso nos conecta com ecossistemas variados de formas de pensar, sentir e agir. Quando estou na universidade lidando com colegas, sem que eu me dê conta, meus pensamentos, postura corporal e formas de uso da fala se ajustam à situação, de modo que as coisas fluam com naturalidade. Quando estou em sala de aula, com estudantes, novamente, de forma inconsciente, eu assumo identidade distinta, o que ocasiona um ajuste de mente, corpo, fala e atitude. Em casa, o mesmo ocorre em contextos que me evocam na qualidade de cônjuge, ou na qualidade de pai. E assim sucessivamente, em uma grande variedade de contextos sociais. Não há nada de patológico em mudar de identidade – e portanto de padrão de pensamento, postura corporal, estilo de fala e atitude -; bizarro seria tratar meus estudantes como trato minha esposa, ou me relacionar com meus colegas como o faço com minha filha. Um indivíduo saudável sabe transitar por grande número de contextos sociais, e ao mesmo tempo sabe identificar, muitas vezes de forma inconsciente, que padrão de pensamentos-emoções-comportamentos-atitudes é apropriado para cada contexto. Lembro-me de estudante, fanática torcedora do Corinthians, que vinha a todas as minhas aulas com a camiseta do clube, e sistematicamente faltava às aulas nas quartas-feiras em que o time jogava. Um dia eu disse a ela que iria reprovar por faltas em minha disciplina, e que poderia ver o jogo no reprise da televisão. Ela respondeu de bate-pronto: “tem coisas que eu não falo na frente da minha avó”. O que ela estava me dizendo é que é impossível reproduzir em casa o contexto do estádio; e que o estádio era importante dentro do rol de contextos sociais dentro dos quais ela transitava, e que permitiam a ela que vivesse toda a gama de emoções necessárias para que se mantivesse feliz e saudável.   

Essa grande variedade de contextos de vida social nos proporciona a possibilidade de vivência e manifestação de amplo espectro de emoções e padrões de ideias, e isso, aparentemente, é fundamental para a manutenção da saúde de nosso ser, em um contexto em que o físico, o mental e o emocional estão profundamente imbricados. É exatamente aqui que o confinamento desorganiza a vida das pessoas: ele reduz drasticamente a quantidade de contextos sociais que experimentamos e vivemos, e ao fazer isso, limita a gama de emoções e as formas de manifestação corporal passíveis de manifestação. Como resultado, as pessoas começam a sentir-se ansiosas, deprimidas, irritadiças, e eventualmente agressivas. Em escala demográfica, aumentam os casos de violência doméstica de todos os tipos, bem como a incidência de sintomas de doenças mentais.  

Como mencionei acima, sou antropólogo, e não psicólogo ou psiquiatra. Ocorre, no entanto, que por ter vivido experiência traumática no passado (estava em Nova York no dia 11 de setembro de 2001), vivo em relação intensa com tais profissionais há duas décadas, na qualidade de paciente. Um detalhe relevante, para a discussão apresentada neste texto, é que não foi exatamente após o ataque terrorista que meus sintomas de síndrome de estresse pós-traumático surgiram. Três ano depois do evento mencionado, foi a ansiedade relacionada com a defesa da minha tese de doutorado que fez a caldeira explodir.  

Se, nos parágrafos acima, eu descrevi algumas das razões pelas quais o confinamento pode afetar a saúde mental da uma pessoa, a situações é bastante mais crítica quando se trata de gente com problemas prévios de saúde mental. Como é de amplo conhecimento, há muitas décadas o mundo vive uma epidemia de depressão e outras formas de patologias da mente. Na minha experiência de professor universitário, o crescimento do número de casos de estudantes com depressão ou distúrbios de ansiedade e pânico na última década é assustador. Ao mesmo tempo, vivemos em um país em que a doença mental ainda é um tabu entre largas parcelas da população, e onde o tema é visto pelas lentes da discriminação e do preconceito, muitas vezes pela própria pessoa que sofre. Dos países do norte a indústria cultural nos trouxe a imagem de que quem sucumbe à enfermidade mental é uma pessoa fracassada.

É assim, portanto, que a pandemia de COVID-19 nos encontra: uma parcela da população padecendo de sofrimentos psíquicos e emocionais, com acompanhamento de especialista; outra parcela, imensamente maior do que a primeira, com sintomas mas sem acompanhamento algum, em razão de preconceito próprio ou alheio, de falta de acesso a serviços de saúde mental, ou de falta de informação. Outra ainda, carregando nas costas o custo emocional, contido e abafado, de experiências traumáticas do passado, mantido sob controle com muito esforço, e portanto sem sintomas mais pronunciados. Se, para as pessoas que não possuem histórico nem sintomas de doenças mentais, o confinamento pode fazer com que estas coisas apareçam, para os que convivem com elas a perspectiva é de dias difíceis pela frente. Muitas caldeiras irão estourar.

Que fique bem claro que nada disso é argumento em favor de que se abandone a estratégia de distanciamento social horizontal. É apenas a constatação de que, se efetivamente não temos alternativa, é preciso enfrentar o desafio com coragem, paciência, compreensão, e ajuda especializada. No que diz respeito a este último item, é oportuno lembrar que, de todas as categorias profissionais, os psicólogos constituem grupo para o qual trabalhar em casa sempre foi prática comum. Nos últimos anos, muitos psicólogos passaram a fazer atendimentos pela Internet de forma rotineira. É em virtude disso que pode-se afirmar com segurança que a oferta de serviços de tratamento psicológico não se desorganizou com a pandemia. Quem procurar indicação de psicólogo pela Internet provavelmente encontrará, sem muita dificuldade, profissional que faça o atendimento em condições perfeitamente compatíveis com o distanciamento social horizontal. O mesmo está ocorrendo com os profissionais da psiquiatria.

Para algumas pessoas, talvez o custo do tratamento psicológico ou psiquiátrico seja impedimento para a procura de ajuda profissional. No contexto do agravamento da crise econômica, uma série de entidades e grupos passou a oferecer serviços de apoio psicológico de forma gratuita e remota; há grupos que ofereciam tais serviços de forma gratuita anteriormente à pandemia, e apenas se prepararam para maior volume de demanda. Uma lista de tais organizações é oferecida no final deste texto.

Na minha experiência de quem tem que gerir uma caldeira sempre à beira da explosão, além da incontornável psicoterapia e do comumente recomendado tratamento com medicações psiquiátricas, senti necessidade de complementação destas coisas com exercícios. Qualquer pessoa que comece tratamento psicológico ou psiquiátrico vai escutar isso dos profissionais da saúde mental: exercício é fundamental. Eu adiciono a isso, no entanto, outra forma de exercício: o exercício emocional. O que eu quero dizer com isso é que existem estratégias interessantes para lidar com emoções represadas e que estão incomodando:

– Uma delas é um exercício da yoga chamado “sopro ha” (há vários vídeos no Youtube ensinando o exercício – como este, por exemplo). Aliás, uma combinação conveniente entre exercícios físicos e técnicas de gestão das emoções é o livro chamado Yoga Para Nervosos, do venerado mestre Hermógenes, e disponível em PDF aqui.

– Meditação ajuda tremendamente. Há muitos apps de meditação gratuitos online, e vídeos no youtube também. Além da meditação do tipo mindfulness, há algumas específicas para ajudar o indivíduo a aceitar a realidade que me parecem especialmente eficazes.

– Outra técnica é ver filmes de gêneros diversos, e que evocam emoções diferentes. Especialmente recomendados são os filmes que fazem chorar. Tem muita gente que tem dificuldade em chorar. O choro é uma forma importantíssima de reequilíbrio das emoções. Quem acha que não vai precisar chorar nisso tudo que estamos passando provavelmente não entendeu o que está por vir e vai ver a caldeira explodir antes do que imagina.

Algumas pessoas acham que uma boa estratégia para liberar as tensões é o álcool. Na verdade, o álcool deve ser evitado a todo custo, não apenas porque existe o perigo real do crescimento dos casos de alcoolismo, como porque há correlação direta e forte entre o álcool e a violência doméstica.

Por fim, para que essas coisas funcionem, as pessoas precisam aprender a prestar a atenção às próprias emoções, e às emoções de quem está ao seu redor. Se estamos todos afetados pela pandemia, ainda que de formas diversas, e estamos todos sujeitos aos solavancos emocionais diários do contexto presente, não há remédio que não passe, necessariamente, pela paciência, pela compreensão e pela empatia. O que eu espero é que, com boa ajuda de profissionais da saúde mental, aprendendo a identificar as próprias emoções e a dos que nos rodeiam, e a usar estratégias de modo a gerir tais emoções de forma construtiva (mesmo que dificultosa), sejamos todos capazes de evitar que as nossas emoções, desorganizadas e confusas como estão agora, produzam qualquer coisa que se assemelhe à violência.  


Serviços de ajuda psicológica gratuitos:

1) A PonteAPonte criou banco de dados com mapeamento de ações de arrecadação e prestação de serviços às comunidades no contexto do COVID-19, disponível no link https://bit.ly/3bPUWYp. Um dos serviços mapeados é a oferta de ajuda psicológica gratuita. Reproduzo abaixo os dados disponíveis na data de 3 de abril de 2020 (o banco de dados é atualizado e expandido constantemente).

– Relações simplificadas: psicólogos, psicanalistas e outros profissionais criaram iniciativas de solidariedade e de escuta para dar suporte emocional durante a pandemia. Agendamento pelo site https://www.relacoessimplificadas.com.br/escuta

– Ana Horta, docente da escola paulista de enfermagem da Unifesp, formou um grupo de 40 psicólogos disponíveis para o trabalho de acolhimento voluntário e online dos profissionais que estão na linha de frente dessa pandemia. O nome e celular do interessado deve ser enviado ao email acolhimentocovid@gmail.com

– A Chave da Questão: grupo de psicólogos que atendem online e de forma gratuita. Contato pelo site: https://www.achavedaquestao.com/

– Escuta Viva: grupo de psicanalistas oferece escuta psicanalítica online. Prioridade para idosos, moradores de periferias e trabalhadores da saúde, mas aberto a todos. Contato pelo site: https://escuta-viva.reservio.com

– Varandas Terapêuticas: o Instituto Gerar de Psicanálise oferece grupos terapêuticos online mediados por psicanalistas para a superação do confinamento. O pagamento é voluntário. Contato pelo site: https://institutogerar.com.br/clinica-instituto-gerar/#varandas-terapeuticas

– Cruzando Histórias: escuta ou apoio psicológico, acolhimento e orientação profissional grátis com 200 psicólogos e mentores de carreira para pessoas desempregadas e em dificuldades especiais. Contato pelo site: https://www.cruzandohistorias.org/post/escutacao-especial

– Lugar de Fala: grupo de psicólogos, psicanalistas e médicos oferece apoio. Contato pelo site: https://fernandanoyapinto.wixsite.com/lugardefala

– A empresa Mão na Roda oferece serviço de escuta solidária, através de encontros semanais online, por iniciativa de Sandra Tudisco. Pagamento voluntário. Contato pelo telefone: (11) 97120-1803

– A psicóloga Fanny Carvalho Aranha do grupo Humanic oferece ajuda psicológica online gratuita. Contato através do site: http://www.humanic.com.br

– Grupo de psicólogos disponibiliza atendimento para as pessoas que estão mais sensíveis a essa mudança de rotina que estamos atravessando. Trata-se de um acompanhamento psicológico breve. Entrar em contato com os profissionais e agendar atendimento:  

Anna Carolina Kolhy: (11) 98155-9015

Felipe Sitta: (11) 99625-8383

Fernanda Portugal: (11) 98269-7807

Jennyfer Gonçalves: (11) 98220-9223

Jessica Gomes: (18) 99806-4063

Luana Estima: (11) 99412-8780

Marcia Voboril: (11) 99829-6700

Nancy Caneparo: (11) 98182-6852

Rafaela Midori: (11) 99891-1128

Sueli Rugno: (11) 99641-1446


2) Artigo da Folha de S.Paulo: Psicanalistas oferecem atendimento gratuito online; saiba onde encontrar (01/04/2020), com lista de serviços gratuitos. Acessar os links das instituições:

Psicanálise na Praça Roosevelt, de São Paulo
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise na Rua, de Brasília
Contato: facebook.com/psinarua
Atendimentos às sextas, das 16h30 às 18h30, e aos sábados, 10h às 12h

Psicanálise na Praça, de Porto Alegre
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h

Psicanálise de Rua, de São Carlos (SP)
Atendimentos aos sábados, das 11h às 14h, para pessoas da região de São Carlos

Grupo bate-papo, de Brasília
Atendimentos: terças, às 13h; quartas, às 10h e às 14h; sextas, às 10h

Varandas Terapêuticas – Instituto Gerar
Contato: tel. (11) 3032-6905 e (11) 97338-3974
Atendimentos: mediante agendamento
Pagamento voluntário

EscutAto – Instituto de Psicologia da USP (IPUSP)
Atendimentos: mediante agendamento


3) CVV — Centro de Valorização da Vida. Atendimento por voluntários, por telefone ou chat.

Converse por chat: http://www.cvv.org.br/chat.php

Converse por telefone: 141 (veja os horários de atendimento)

Seja voluntário do CVV


Ver ainda:

Artigo Saúde mental para quem não tem condições de pagar, por Victor Freitas, publicado no portal Medium em 5 de maio de 2018

Artigo Depressão: saiba onde encontrar atendimento gratuito, de Marcela Fonseca, publicado no site Moda Sem Crise em 08 de agosto de 2018

‘It’s OK to feel anxious.’ How a professor in China faced coronavirus disruptions and fears (Science)

Robert Neubecker

By Kai Liu – Mar. 17, 2020 , 9:00 AM

In early February, I was working from home when I received a message informing me—and all the other professors at my university in China—that courses would be taught online because of the novel coronavirus. I was already feeling anxious about the mounting epidemic, and my university had locked its doors a few days earlier. Then, when I realized I’d have to teach students online, my anxiety level grew. I didn’t have any experience with online teaching platforms. I was also skeptical about how effective they’d be. “How will I gauge the students’ reactions to my lectures through a computer screen?” I wondered. “Will they learn anything?”

people sitting at a dinner table

I live in Xuzhou, China—roughly 500 kilometers from Wuhan, the epicenter of the COVID-19 pandemic. Unlike Wuhan, my city isn’t on lockdown, but residents have been discouraged from going outside and many businesses and institutions are closed. I’ve spent most of the past 2 months at home, along with my wife and daughter, fearful of the future and wondering when life will get back to normal.  

Thankfully, none of my family members, friends, or colleagues have tested positive for the novel coronavirus. Working from home is also possible for me because my research doesn’t involve lab work. But the spread of the virus and the rapidly rising death toll have weighed heavily on my mind. I’ve found it difficult to sleep. I’ve also had trouble focusing on work. One day early in the outbreak, I sat down at my computer intending to write a grant proposal. But all I could do was stare at the screen.

Years ago, I’d heard that Taoism philosophies were helpful for finding internal peace. So, I decided to listen to a few recordings. One instructed listeners to “govern [yourself] by doing nothing that goes against nature.” That resonated with me because I realized that I’d been trying to push my anxieties aside and force myself to concentrate on work—an approach that wasn’t working because it didn’t feel natural. From then on, I told myself that it was OK to feel anxious, even if it impeded my work. That helped to lessen my internal struggles.

Over the past 2 months, I’ve also learned how to teach courses online, and I have found unexpected joy in that process—even though I struggled at first. There were multiple online teaching platforms to choose from, and I didn’t know which one was best or how to use it. I opted for a platform that had a large server, thinking that it would cope better with heavy usage. My university provided some helpful guidance, and I also learned through trial and error.

I’ve spent most of the past 2 months at home … wondering when life will get back to normal.

My first lecture was especially difficult because I couldn’t see the students’ faces. I was accustomed to lecturing in front of an audience. Online, I felt like I was speaking at my students but not getting anything in return. I communicated with a few of them afterward to get their feedback and they agreed with me, saying that I needed to find a way to make my lectures more interactive. So, I started to encourage my students to leave questions for me in the platform’s comment section during my lectures.

Almost immediately, my students started peppering me with questions. I was surprised by the level of engagement. In a normal classroom setting, they are afraid to raise their hands; most wait until after the lecture is over to approach me and ask a question. But online, students were more comfortable sharing their questions in front of the entire class. That was a great outcome because if one student has a question, it’s likely that another student has the same question and would benefit from hearing the answer. I’ve also been pleased to see from the homework assignments that they are following my teaching well.

China was the first country to close its universities, but over the past month, universities in Italy, the United States, and elsewhere have made similar moves. I hope that my story can provide inspiration for academics who are fearful of what’s to come. It’s OK to feel anxious. But I’d also recommend staying open to change. You never know what you’ll learn.

Original publication

Why nutritional psychiatry is the future of mental health treatment (The Conversation)

A lack of essential nutrients is known to contribute to the onset of poor mental health in people suffering from anxiety and depression, bipolar disorder, schizophrenia and ADHD. Nutritional psychiatry is a growing discipline that focuses on the use of food and supplements to provide these essential nutrients as part of an integrated or alternative treatment for mental health disorders.

But nutritional approaches for these debilitating conditions are not widely accepted by mainstream medicine. Treatment options tend to be limited to official National Institute for Care Excellence (NICE) guidelines which recommend talking therapies and antidepressants.

Use of antidepressants

Antidepressant use has more than doubled in recent years. In England 64.7m prescriptions were issued for antidepressants in 2016 at a cost of £266.6m. This is an increase of 3.7m on the number of items prescribed in 2015 and more than double than the 31m issued in 2006.

A recent Oxford University study found that antidepressants were more effective in treating depression than placebo. The study was led by Dr Andrea Cipriani who claimed that depression is under treated. Cipriani maintains that antidepressants are effective and a further 1m prescriptions should be issued to people in the UK.

This approach suggests that poor mental health caused by social conditions is viewed as easily treated by simply dispensing drugs. But antidepressants are shunned by people whom they could help because of the social stigma associated with mental ill-health which leads to discrimination and exclusion.

Prescriptions for 64.7m items of antidepressants were dispensed in England in 2016, the highest level recorded by the NHS. Shutterstock

More worrying is the increase in the use of antidepressants by children and young people. In Scotland, 5,572 children under 18 were prescribed antidepressants for anxiety and depression in 2016. This figure has more than doubled since 2009/2010.

But according to British psychopharmacologist Professor David Healy, 29 clinical trials of antidepressant use in young people found no benefits at all. These trials revealed that instead of relieving symptoms of anxiety and depression, antidepressants caused children and young people to feel suicidal.

Healy also challenges their safety and effectiveness in adults. He believes that antidepressants are over-prescribed and that there is little evidence that they are safe for long-term use. Antidepressants are said to create dependency, have unpleasant side effects and cannot be relied upon to always relieve symptoms.

Nutrition and poor mental health

In developed countries such as the UK people eat a greater variety of foodstuffs than ever before – but it doesn’t follow that they are well nourished. In fact, many people do not eat enough nutrients that are essential for good brain health, opting for a diet of heavily processed food containing artificial additives and sugar.

The link between poor mental health and nutritional deficiencies has long been recognised by nutritionists working in the complementary health sector. However, psychiatrists are only now becoming increasingly aware of the benefits of using nutritional approaches to mental health, calling for their peers to support and research this new field of treatment.

It is now known that many mental health conditions are caused by inflammation in the brain which ultimately causes our brain cells to die. This inflammatory response starts in our gut and is associated with a lack of nutrients from our food such as magnesium, omega-3 fatty acids, probiotics, vitamins and minerals that are all essential for the optimum functioning of our bodies.

Recent research has shown that food supplements such as zinc, magnesium, omega 3, and vitamins B and D3 can help improve people’s mood, relieve anxiety and depression and improve the mental capacity of people with Alzheimer’s.

Magnesium is one of most important minerals for optimal health, yet many people are lacking in it. One studyfound that a daily magnesium citrate supplement led to a significant improvement in depression and anxiety, regardless of age, gender or severity of depression. Improvement did not continue when the supplement was stopped.

Omega-3 fatty acids are another nutrient that is critical for the development and function of the central nervous system – and a lack has been associated with low mood, cognitive decline and poor comprehension.

Research has shown that supplements like zinc, magnesium and vitamins B and D can improve the mental capacity of people with Alzheimer’s. Shutterstock

The role of probiotics – the beneficial live bacteria in your digestive system – in improving mental health has also been explored by psychiatrists and nutritionists, who found that taking them daily was associated with a significant reduction in depression and anxiety. Vitamin B complex and zinc are other supplements found to reduce the symptoms of anxiety and depression.

Hope for the future?

These over-the-counter” supplements are widely available in supermarkets, chemists and online health food stores, although the cost and quality may vary. For people who have not responded to prescription drugs or who cannot tolerate the side effects, nutritional intervention can offer hope for the future.

There is currently much debate over the effectiveness of antidepressants. The use of food supplements offer an alternative approach that has the potential to make a significant difference to the mental health of all age groups.

The emerging scientific evidence suggests that there should be a bigger role for nutritional psychiatry in mental health within conventional health services. If the burden of mental ill health is to be reduced, GPs and psychiatrists need to be aware of the connection between food, inflammation and mental illness.

Medical education has traditionally excluded nutritional knowledge and its association with disease. This has led to a situation where very few doctors in the UK have a proper understanding of the importance of nutrition. Nutritional interventions are thought to have little evidence to support their use to prevent or maintain well-being and so are left to dietitians, rather than doctors, to advise on.

But as the evidence mounts up, it is time for medical education to take nutrition seriously so that GPs and psychiatrists of the future know as much about its role in good health as they do about anatomy and physiology. The state of our mental health could depend on it.

Distúrbios na academia (Pesquisa Fapesp)

Universidades trabalham no desenvolvimento de estratégias de prevenção e atendimento psicológico de alunos de graduação e pós-graduação

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 262 | DEZEMBRO 2017

 

© PEDRO FRANZ

O caso de um estudante de doutorado que se suicidou nos laboratórios do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em agosto deste ano, colocou em evidência a discussão sobre as pressões enfrentadas pelos que optam por seguir a carreira acadêmica e os distúrbios psicológicos relacionados à vida na pós-graduação. Esse é um assunto que aos poucos começa a ser mais discutido no Brasil. No entanto, ainda são poucas as universidades brasileiras que investem na criação de centros de atendimento psicológico aos seus estudantes de graduação e pós-graduação.

O problema é mundial. Na Bélgica, um estudo publicado em maio na revista Research Policy verificou que um terço dos 3.659 estudantes de doutorado das universidades da região de Flandres corria o risco de desenvolver algum tipo de doença psiquiátrica.
Em 2014, um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, constatou que 785 (31,4%) de 2.500 estudantes de pós-graduação apresentavam sinais de depressão. O estudo fazia parte de um trabalho mais amplo, desenvolvido desde 1994, quando se constatou que 10% dos pós-graduandos e dos pesquisadores em estágio de pós-doutorado da universidade já haviam considerado se suicidar.

No Reino Unido, um estudo publicado em 2001 na Educational Psychology verificou que 53% dos pesquisadores das universidades britânicas sofriam de algum distúrbio mental, enquanto na Austrália a taxa foi considerada até quatro vezes maior no meio acadêmico em comparação com a população de modo geral. Apesar de se basearem em uma amostra relativamente pequena, esses estudos evidenciam uma preocupação que começa a se tornar latente no meio acadêmico no mundo: estudantes de graduação e pós-graduação estão sujeitos a pressões que podem desencadear uma série de transtornos mentais.

Como nos outros países, no Brasil, a quantidade de estudos, dados e iniciativas envolvendo esse assunto ainda é singela. Em São Paulo, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) pretende lançar no início de 2018  o projeto “Bem viver para tod@s”. A iniciativa prevê a realização de palestras e debates com especialistas em saúde mental da própria universidade. “O objetivo é orientar alunos e professores sobre como identificar e lidar com esses problemas”, explica Cleópatra da Silva Planeta, pró-reitora de Extensão Universitária e coordenadora do projeto.

Algumas universidades já contam com serviços de atendimento para seus estudantes. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, o Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante (Sappe), ligado à Pró-reitoria de Graduação, atua há 30 anos dando assistência psicológica e psiquiátrica aos alunos de graduação e pós-graduação. De acordo com a psiquiatra Tânia Vichi Freire de Mello, coordenadora do Sappe, cerca de 40% dos estudantes da universidade que procuram o serviço estão no mestrado ou doutorado. “A maioria relata experimentar insônia, estresse e ansiedade, além de crises de pânico e depressão”, ela conta. “É comum dizerem que tentam contornar esses problemas a partir do consumo de bebidas alcoólicas e drogas psicoativas, como maconha.”Esses problemas costumam ser resultado de uma convergência de fatores, na concepção do psiquiatra Neury José Botega, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Segundo ele, a dinâmica da pós-graduação é marcada por prazos apertados, pressão para publicar artigos, carga de trabalho excessiva e cobranças. “Vários estudantes alegam não conseguir dar conta dos prazos ou saber lidar com o nível de exigência dos professores e orientadores”, comenta. São frequentes os casos de crises de estresse, ansiedade, pânico e depressão. “Muitas vezes a continuidade dos estudos fica inviável e o aluno entra em desespero por não conseguir tocar suas atividades.”

Um relatório divulgado em 2011 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que mapeou a vida social, econômica e cultural de quase 20 mil estudantes de graduação das universidades federais brasileiras, verificou que 29% deles já haviam procurado atendimento psicológico e 9%, psiquiátrico, o que envolve problemas mais sérios. O estudo também constatou que 11% já haviam tomado ou estavam tomando medicação psiquiátrica.

Um problema bastante comum entre os estudantes de pós-graduação, segundo Tamara Naiz, presidente da Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG), é a chamada síndrome de burnout, quando o indivíduo atinge um nível grave de exaustão por trabalhar demais sem descansar. Há também a síndrome do impostor, que aflige acadêmicos que não conseguem aceitar os resultados alcançados como mérito próprio. “O desenvolvimento de transtornos na pós-graduação é um reflexo dos problemas da academia, que oferece poucas oportunidades”, ela destaca. “Ao mesmo tempo, as exigências e pressões envolvendo prazos curtos para qualificação e defesa, cobrança excessiva ou injusta por publicações em revistas de alto impacto, contribuem para agravar esse quadro.”

Também a relação com o orientador pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios psicológicos. Vários são os casos registrados pela ANPG de atitudes abusivas ou negligentes relatados por estudantes que sofreram assédio moral durante reuniões ou aulas. Igualmente frequentes são os casos que chegam à ANPG de orientadores omissos diante de questões ligadas à pesquisa de seus orientandos ou aqueles que solicitam aos alunos tarefas não relacionadas às suas pesquisas. Em outros casos, os relatos são de corte de bolsas e reprovação não justificadas ou com justificativas falsas ou não acadêmicas. Também o assédio sexual, em suas diversas formas, e a discriminação de gênero, que ainda persistem no mundo, são apontados como fatores desencadeadores de distúrbios psicológicos na academia, sobretudo entre as mulheres.

O caso da medicina
A grande maioria dos estudos em epidemiologia psiquiátrica envolvendo o ambiente acadêmico brasileiro está relacionada aos alunos de graduação, sobretudo os de medicina. Isso porque o curso costuma ser caracterizado pela pressão contínua por boas notas e extenuante carga horária de aulas e estudo. Além disso, o ambiente entre os próprios estudantes é marcado pela competitividade desde o vestibular, em geral sempre muito concorrido. Um estudo publicado em 2013 na Revista Brasileira de Educação Médica por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, envolvendo 384 estudantes de medicina, verificou que 33,6% tinham algum tipo de transtorno mental, como ansiedade, depressão e somatoformes, doenças que persistem apesar de as desordens físicas não explicarem a natureza e extensão dos sintomas nem o sofrimento ou as preocupações do indivíduo.Segundo a médica psiquiatra Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da USP, a dificuldade na administração do tempo, o contato diário com a morte, o medo de adquirir doenças ou cometer erros e o sentimento de impotência diante de certas enfermidades contribuem para que esses estudantes estejam mais suscetíveis ao desenvolvimento de transtornos mentais. “O aluno da área da saúde precisa ter mais resiliência para poder manter seu desempenho de estudo, pesquisa e atendimento às pessoas enfermas”, ela ressalta. Apenas nos últimos cinco anos, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) registrou 22 tentativas de suicídio envolvendo alunos de medicina, segundo dados publicados em setembro no jornal O Estado de S. Paulo. Já nas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do ABC (UFABC), cinco estudantes se suicidaram no mesmo período.

Isso tem estimulado algumas universidades brasileiras a investirem na criação de núcleos de prevenção e atendimento psicológico específico para esses estudantes. Na Unicamp, há o Grupo de Apoio aos Estudantes de Graduação em Medicina, Fonoaudiologia e Residentes (Grapeme) da FCM. Já a USP conta desde 1986 com o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno (Grapal), entidade dedicada ao atendimento dos alunos dos cursos de fisioterapia, fonoaudiologia, medicina e terapia ocupacional, além dos residentes da FM-USP. Desde agosto a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem dois núcleos de atendimento psicológico aos estudantes de graduação e pós-graduação.

Paralelamente, essas instituições estão trabalhando para capacitar professores para que possam se antecipar a esses problemas. Segundo Tania Vichi Freire de Mello, do Sappe, é importante que eles fiquem atentos a mudanças súbitas de comportamento de seus alunos ou queda no rendimento acadêmico. A busca por orientação ou tratamento psicológico pode evitar que o estudante abandone o curso. A conclusão é de um levantamento feito em 2016 que analisou o perfil de 1.237 alunos que passaram pelo atendimento do Sappe. No estudo, eles verificaram que a taxa de evasão de curso entre os atendidos pelo serviço era menor quando comparada com aqueles que não recorreram ao serviço.

Para Botega, da FCM-Unicamp, é importante que os professores se mostrem mais abertos para conversar sobre esse assunto com seus alunos, sem desmerecer suas angústias. “Em geral, os professores estão mais preocupados com o desempenho acadêmico de seus estudantes, sem se darem conta de que isso está relacionado à sanidade mental do aluno”, afirma o psiquiatra. “É preciso agir no sentido de acolher esses estudantes, orientá-los e, se for preciso, encaminhá-los aos serviços de atendimento”, destaca Botega.

Universidades não têm diagnóstico da saúde mental de seus alunos de pós (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

As principais universidades brasileiras não sabem o que se passa com a saúde mental de seus estudantes de pós-graduação.

É o que se depreende das respostas que 19 instituições de ensino superior deram ao questionário enviado pela reportagem sobre o assunto. Foram procuradas as 20 primeiras colocadas do Ranking Universitário Folha (RUF ) além da melhor da região Norte, a UFPA. Juntas, elas abrigam mais de 70% dos alunos de mestrado e doutorado do país. Apenas PUC-Rio e UnB não responderam.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Na última segunda (18), a Folhapublicou reportagem com parte dos quase 300 depoimentos enviados ao jornal por alunos de mestrado e doutorado de todo o Brasil em que eles contam suas agruras e dificuldades durante a pós.

À pergunta “Qual é o diagnóstico da instituição sobre a saúde mental de seus alunos de pós-graduação?”, sete universidades afirmaram que não possuíam um; seis não responderam à questão e seis manifestaram algum tipo de preocupação com o assunto, sem, porém, apresentarem qualquer resposta concreta acerca do tema.

“Ainda não há a percepção, dentro da universidade, de que essas questões são ligadas ao ensino e à vida acadêmica. Em geral, considera-se que é um problema do aluno”, diz Tânia de Mello, coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Unicamp.

“Como a universidade poderá ter um diagnóstico de algo que ela nem considera um problema?”, questiona.

Para o psicólogo Robson Cruz, professor da PUC-MG e pesquisador da saúde mental de estudantes de pós, outra razão para a falta de atenção das universidades a essa questão é a dificuldade de lidar com ela, já que os problemas variam de acordo com a área.

Nas humanas, por exemplo, a relação com a escrita –como elaboração da tese e artigos– pode ser a parte mais penosa. Já nas áreas experimentais, a maior questão é a carga excessiva de trabalho dentro de um laboratório, explica Cruz.

ATENDIMENTO

Todas as instituições procuradas possuem algum tipo de assistência psicológica e psiquiátrica, seja em serviços voltados ao corpo discente ou a toda a comunidade universitária. Nenhuma, porém, possui uma assistência específica para a pós-graduação.

“Existe um certo entendimento de que o pós-graduando, por já ter passado pela graduação e em geral ter bolsa, é alguém que possui autonomia e independência, quase um pesquisador, e que, portanto, não precisaria receber muito apoio. É um engano”, diz Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientação Psicológica da USP de Ribeirão Preto.

Na visão de Cruz, diante das especificidades da pós, seria necessário um treinamento especializado de profissionais para lidar com esses estudantes.

Já Tânia de Mello acredita não ser necessária tal especialização. “Claro que ajuda quando você entende esse universo, mas uma boa rede de acolhimento deve conseguir dar conta dessas questões.”

O mais importante, diz, é haver uma boa estrutura de acolhimento no momento de crise. “Teria de ser algo acessível. A continuidade do tratamento pode até ser feita em outro lugar. É como funciona a maior parte dos serviços nos EUA e no Reino Unido”, diz Mello.

Ressaltando que se trata de uma realidade diversa da brasileira, Mello cita como exemplo a Universidade de Berkeley, nos EUA, que disponibiliza uma linha direta para que os estudantes em crise possam ligar, com divisão por língua, origem étnica e orientação sexual. “Não há nada similar por aqui.”

PREVENÇÃO

No campo da prevenção e da educação, o quadro parece ainda pior. Nove das 19 universidades ou não possuem ou não informaram a existência de ações nesse sentido. As dez restantes ou promovem iniciativas esporádicas (não vinculados a programas específicos), reduzidas, ou ainda estão implantando ações mais robustas.

Nenhuma, no entanto, implementou medidas que visem preparar o docente para para lidar com seus alunos, sobretudo orientandos, algo considerado fundamental pelos especialistas ouvidos.

“Temos de preparar os orientadores para ter uma visão mais humana da orientação”, afirma Eduardo Benedicto.

Mello lembra que “em geral, o docente não tem subsídios para lidar com a questão, pois não recebe qualquer treinamento das universidades para identificar e ajudar o aluno que enfrenta um transtorno mental.”
Cruz, por sua vez, aponta que o problema é mais embaixo e deveria ser objeto da própria formação dos docentes. “Eles simplesmente não são preparados para serem orientadores. Não há nenhuma ênfase, durante o mestrado e o doutorado, em ensino, didática, relação interpessoal, processo de orientação etc.”

Além de ações voltadas aos docentes, os especialistas sugerem a criação de “espaços de segurança” em que os alunos possam confidenciar suas angústias e fazer denúncias de assédio moral e sexual.

“Seriam espaços onde as pessoas pudessem falar com mais naturalidade sobre o tema e desmistificá-lo, ou seja, deixar claro que esse sofrimento existe, que tem a ver com a pós e que se pode falar disso”, afirma Tânia de Mello.

Universidades que enviaram respostas: Ufscar, UFRJ, UFPA, Univ. Fed. de Santa Maria, UFF, UFMG, UFC, UFBA, UFPR, Univ. Fed. de Viçosa, Unicamp, USP, Unesp, PUC-RS, Unifesp, Uerj, UFPE, UFSC, UFRGS

Orientadores de pós-graduação impõem dificuldades a alunos (Folha de S.Paulo)

ANÁLISE

Diego Padgurschi – 26.fev.2016/Folhapress

GABRIEL ALVES
DE SÃO PAULO

Uma das características mais marcantes da pós-graduação “stricto sensu” –mestrado e doutorado– é aquilo que podemos definir como o mito da forja.

Muitos orientadores (que mandam e desmandam na vida do aluno), pensam que quanto mais dificuldades eles impuserem, mais bem preparados –forjados– sairão os futuros mestres e doutores. E os fracos que fiquem pelo caminho.

Deixar discípulos quebrarem a cara não seria abandono, e sim lição de vida. No fim das contas eles não vão ter de se virar sozinhos?

A verdade é que muitas vezes dedicar um tempinho para os estudantes de pós fica lá no finzinho da lista de obrigações do pesquisador.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Antes ele tem que garantir sua própria biografia, publicando artigos e capítulos de livros, viajar para dar palestras, registrar suas patentes, cuidar de suas empresas…

É nesse contexto que se revela o feudal sistema de poder acadêmico. Não raro o professor delega parte de suas obrigações, como orientações e aulas, para pós-doutorandos, doutorandos e mestrandos.

Não é por acaso nem é tão raro que os elos mais fracos da cadeia acabem rompendo, como mostraram as reportagens sobre saúde mental na pós recentemente veiculadas por esta Folha.

Nesse contexto ainda há outras questões: o país tem de perseguir uma meta numérica na formação de doutores? Que tipo de doutor temos de formar? A que custo e em que prazo? Faz falta um jeito inteligente de lidar com a questão.

Já se foi o tempo em que o papel da pós-graduação era abastecer a academia com pesquisadores e docentes.

Muitos orientadores, por sua vez, se queixam de alunos despreparados, mas não têm como rejeitá-los: sem reposição na base da pirâmide, a produção fica estagnada.

Trocando em miúdos, o orientador ganha o direito de explorar por alguns anos uma força de trabalho barata (ou gratuita) em troca de atestar a formação de um novo mestre ou doutor, por mais que o título seja imerecido. Conscientemente ou não, alguns não veem aí um mau negócio.

E pode ser até mais grave. Em ciências experimentais, às vezes é adotado o “estágio probatório”, período que o futuro pós-graduando se dedica a aprender as técnicas usadas em um laboratório, a se inserir na rotina –sem receber nada por isso. Só depois é que vem a matrícula e, quem sabe, a bolsa. Desacompanhada de vários benefícios trabalhistas, vale notar.

Estudantes de mestrado e doutorado relatam suas dores na pós-graduação (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

Após a publicação da reportagem ‘Suicídio levanta questões sobre saúde mental na pós’, no final de outubro, a Folha recebeu 272 depoimentos de alunos de pós-graduação de todo o país, dos quais uma parcela está reproduzida abaixo. Eles permitem traçar um retrato das principais agruras e dificuldades enfrentadas por estudantes de mestrado e doutorado no Brasil –e das consequências em sua saúde mental.

Vistos em conjunto, os relatos chamam a atenção, em primeiro lugar, pelo fato de terem sido escritos por estudantes dos mais diversos cursos, instituições e regiões do país.

A maioria dos depoimentos, como seria de esperar, provém de discentes de grandes universidades públicas, como USP, Unicamp, Unesp, e as federais do Rio e de Minas Gerais, que concentram a maior parte dos estudantes de pós-graduação.

Não são poucos, porém, aqueles redigidos por alunos de instituições de menor porte, como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ou particulares, como a PUC-PR e a Universidade Metodista de SP.

Os relatos vieram ainda das cinco regiões do país e de estudantes de toda a sorte de áreas e carreiras: de letras a matemática, de biologia a engenharia.

Vídeo: dores da pós

 

O ORIENTADOR

Na intersecção da maioria das dificuldades descritas pelos estudantes –pressão exagerada, carga de trabalho frequentemente excessiva, solidão, assédio moral, entre outras– encontra-se a figura do orientador, o professor responsável por ajudá-los a realizar a tese e prepará-los para a pesquisa acadêmica.

Ele não apenas possui um papel central na formação intelectual do estudante como, pela maneira como a pós-graduação é organizada no país, detém poder considerável sobre a sua rotina.

Assim, a maneira como se desenvolve o relacionamento entre mestre e discípulo acaba sendo determinante para o sucesso ou o fracasso deste durante o mestrado ou o doutorado. Não raro, como atestam os relatos, orientadores se mostram despreparados para lidar com os alunos e exercer o papel esperado na formação deles.

Parte desse problema talvez advenha da falta de regras claras acerca do que separa cobranças normais de exigências descabidas.

Diante disso, e dada a importância dessa relação, uma das providências possíveis de serem tomadas por universidades e institutos de pesquisa que abrigam alunos de pós é preparar seus docentes para lidar com os orientandos. Também poderia ser estabelecido alguma espécie de código de conduta que esclarecesse aos orientadores o limite a partir do qual suas atitudes se tornam humilhações, maus-tratos e abusos.

AMBIENTE

Outro fator que colabora para esse quadro, embora seja costumeiramente negligenciado, é o ambiente estressante onde habitam os professores universitários. Em alguma medida, essa carga acaba se transferindo para os alunos.

Docentes, em seu dia a dia, precisam lidar com prazos apertados, obter financiamentos para seus projetos de pesquisa, dar aulas, orientar alunos, corrigir provas e teses, preparar relatórios para agências de fomento, além de sofrerem pressão para produzir artigos de alto impacto.

Além das pressões e dificuldades próprias da pós-graduação, os estudantes precisam ainda lidar com a estigmatização dos transtornos mentais dentro do ambiente acadêmico, onde ansiedade, depressão e pânico são frequentemente associados à fraqueza, incapacidade e despreparo.
Tal estigmatização -que não difere da maneira como tais enfermidades são vistas na sociedade- debilita ainda mais o aluno que já passa por dificuldades, e pode, ao ser introjetada, desestimulá-lo a buscar a ajuda necessária nos serviços de saúde.

Também nessa linha educativa, ações simples, como campanhas ou grupos de discussão, podem compor uma estratégia no combate ao preconceito que ronda a questão.

VALOR DAS BOLSAS

Diversos estudantes contam, em seus depoimentos, a situação de precariedade econômica em que vivem devido ao valor das bolsas de estudo pagas pelo governo federal. De fato, R$ 1.500 (para o mestrado) e R$ 2.200 (para o doutorado) –montantes que não são reajustados desde 2013– não constituem valores atrativos nem suficientes para exercer uma função altamente especializada e que, em grande parte dos casos, demanda dedicação exclusiva.

De outro lado, a Capes, ligada ao MEC e maior financiadora do país, paga 90 mil bolsas a mestrandos e doutorandos. Se numa época de grave restrição econômica já é difícil manter esse número estável, é pouco provável que esse valor aumente de maneira significativa.

Nesse cenário surge uma discussão sobre qual seria o modelo de financiamento mais adequado para esse sistema, debate que vem acompanhado da discussão de que tipo de pós-graduação o país deseja ter. É melhor investir em mais bolsas, ainda que pagando somas menores, ou deve-se buscar um valor maior para elas, quiçá competitivo com o que é pago pela iniciativa privada, mas numa quantidade reduzida?

Essas são apenas algumas das questões trazidas à luz pelos depoimentos enviados por pós-graduandos.

Não se deve, por certo, generalizar para todos os alunos de mestrado e doutorado os dramas expostos nesses relatos; tampouco se deve menosprezá-los, como se refletissem apenas situações isoladas ou queixas de alunos problemáticos.

Tais problemas resultam da maneira como o sistema de pós-graduação é organizado no país e, portanto, precisam ser enfrentados por todos os atores que o constituem.

Afinal, o aluno que tem a sua saúde mental afetada, embora seja o mais prejudicado, também gera custos para toda a cadeia: o grupo de pesquisa ao qual pertence, o programa de pós ao qual está vinculado, a universidade em que estuda e a agência de fomento que financia a sua bolsa.

DEPOIMENTOS ENVIADOS À FOLHA

A sensação de ser uma impostora é diária em um meio onde há pressão o tempo todo, de todas as formas possíveis. No mês que antecedeu minha defesa [conclusão do curso], chorei todos os dias. Esquecia de comer, me sentia culpada ao sair com os amigos no fim de semana, pois deveria estar terminando minha dissertação, mesmo que estivesse esgotada.

Além disso, minha orientadora sumia por meses. Faltando algumas semanas, para a defesa, ela viajou para o exterior. Escrevi tudo sozinha, sem direcionamento, até a sua volta, quando precisei virar noites para terminar a tempo.Acordei diversas vezes sem querer acordar. Levantar da cama e encarar o dia era um desafio que eu não conseguia enfrentar sem derramar lágrimas.

Fiz terapia durante quase todo o processo, mas precisei parar no final, pois a minha bolsa terminou; o programa de pós nunca ofereceu auxílio psicológico.

Neurociências, Universidade Federal de Minas Gerais


O mestrado significou longos meses de tortura e sofrimento. Minha orientadora me tratava com pouco caso, atribuindo o fracasso a mim mesmo quando não tinha a ver comigo.

Ela era sempre impositiva, me mantinha sempre sob sujeição e nunca me deu sequer um elogio; só fui elogiado no dia da defesa. Como morava numa república, longe de casa e não tinha com quem conversar, foram várias as situações que, mesmo sabendo que não cometeria suicídio, pensava “até que não seria má ideia”. Foram os dois anos mais trágicos da minha vida.

Ciências Sociais, Universidade Federal de Juiz de Fora


No meu mestrado, tive síndrome do pânico e achei que não ia conseguir terminar.

Com apoio psicológico da universidade consegui concluir, apesar do péssimo relacionamento com minha orientadora, que me cobrava muito e não entendia que estava doente.

Cinco anos depois da defesa a minha tese continua jogada na estante e não consigo sequer olhar para ela. Entrei no doutorado, mas acabei desistindo. Hoje estou bem com essa escolha, pois o meio acadêmico não é para pessoas sensíveis.

Linguística, Unicamp


Nunca consegui terminar o doutorado. Estava prestes a qualificar [exame crucial que precede a defesa da tese] quando o meu orientador simplesmente me agarrou no laboratório.

Denunciei o assédio, mas nunca deu em nada. Eu fui a quinta aluna atacada por ele. Nunca houve punição por parte do programa de pós ou da universidade.

Tive que trocar de orientador, e então, para me atrapalhar, ele me excluiu do sistema antes que eu pudesse concluir a transferência. Tive que recomeçar tudo do zero: disciplinas, projeto, experimentos. Eu não me conformava de ter sido a vítima e também a pessoa que estava sendo punida.

Todo mundo sabia da história, mas ninguém fez nada. Ele andava solto falando que eu era “a menininha não sabia ser cantada sem ficar bravinha”. Tentei por mais um ano, até que perdeu o sentido. Eu não aguentava mais.

Microbiologia, USP


No doutorado, minha pesquisa parecia travada. Nada dava certo, faltava orientação adequada. Eu estava tentando produzir algo muito novo e meu orientador não conseguia ajudar. Tive que desenvolver uma nova metodologia, o que deu muito trabalho.

Gastei quase três anos do meu doutorado nessa etapa, algo que não era para ser nem 25% da minha tese.

Estava, obviamente, muito atrasado. Em vez de receber algum mérito pelo desenvolvimento do método praticamente sem ajuda de colaboradores, fui muito criticado por estar atrasado e acabei sendo reprovado na minha qualificação.

Existe uma segunda chance de se qualificar, mas uma nova reprovação te desliga da pós. Nesse ponto comecei a dar sinais de depressão. Não conseguia dormir porque ficava pensando muito nisso. Passava noites em claro.

Comecei a ter fortes crises de ansiedade. Meu peito doía sem parar, meu coração acelerava loucamente. Fui parar no hospital universitário duas vezes achando que estava tendo um infarto.

Fizeram exames, mas nada foi constatado. O médico perguntou todo o meu histórico. No fim, só restou um diagnóstico: crise de ansiedade. O tratamento parece ser simples: parar de se preocupar. Só parece, porque obviamente não é.

Biologia, USP


Logo que entrei senti que seria mais complicado do que imaginei. Meu orientador não orientava, ele desorientava todos os seus alunos. Para completar, o (des)orientador passou em um concurso em outra universidade e foi embora.

Aí ele me abandonou de vez. Quando vinha ao laboratório, os orientandos que estavam mais próximos de defender ou de qualificar tinham prioridade e nunca sobrava tempo pra me atender. Meus e-mails raramente eram respondidos. Pedi para ter uma co-orientadora e fui informada de que “não havia necessidade”. Entrei no mestrado com 64 quilos, saí com 84. Ganhei 20 quilos em dois anos.

Descontava minha ansiedade, minhas frustrações, minha raiva e minha tristeza na comida. Quando comia, tinha o meu único momento de prazer.

Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Minas Gerais


Meu orientador cobrava presença diária nas atividades do laboratório, mas nunca me orientou. Fiz tudo sozinha. Além do professor não orientar, o ambiente era extremamente hostil.

Minha defesa de projeto, no meio do curso, foi traumática. Meus familiares não aguentaram assistir a tanta humilhação. Eu mesma não aguentei e chorei o tempo todo.

Na minha defesa final não foi diferente: humilhação em cima de humilhação. Para não me despedaçar eu foquei no diploma do mestrado que eu estava prestes a receber.

Agronomia, Universidade Federal de Lavras


Tive uma orientadora autoritária, “workaholic”, estressada e que gostava de humilhar seus alunos. Abandonei o projeto, para o qual tinha bolsa de estudos, e fui em busca de um orientador mais justo.

Concluí o mestrado com esse orientador e atualmente faço doutorado. As coisas estão um pouco melhores, mas atualmente sofremos com o corte de verbas. Conheço muitas outros alunos que foram humilhados e passaram por situações difíceis; é algo comum. No fundo, é um ciclo. Os orientadores, quando alunos, passaram pelas mesmas coisas e replicam isso, achando normal.

Tecnologia em Processos Químicos e Bioquímicos, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Eu deveria seguir uma carga horária de quatro a seis horas diárias, de acordo com o regulamento da bolsa. Mas não há fiscalização e ninguém sabe o que se passa dentro de um laboratório.

Quem manda é o orientador, que não se apossa apenas do seu trabalho, mas também da sua vida pessoal a depender de seu temperamento.
Tem dias que passo 12h na universidade, mais precisamente num laboratório que não deve ter mais que cinco metros quadrados.

E não é porque tenho muito trabalho a fazer, mas por capricho do chefe. Não me permitiram sequer arrumar um emprego à noite para somar a uma ultrapassada bolsa de R$ 1.500.

Quanto ao meu projeto, meu orientador faz questão de me lembrar com esses termos: “Você está fodida”.

Doenças Tropicais, Universidade Federal do Pará


É triste quando o que você ama se volta contra você. Finalizei o mestrado há dois anos e não consigo abrir a minha dissertação.

Minha ex-orientadora se tornou um pesadelo, ainda ando nas ruas conferindo todas as placas dos carros do mesmo modelo que ela tinha.

Ela sempre trabalhou com o esquema de hierarquia, em que ela, que estava no topo, podia fazer tudo, e nós deveríamos aceitar calados.

Com relação à dissertação, lembro que ela me cobrou com três meses de antecedência, e eu perguntava a ela sobre as correções até que um dia ela me disse que a única pessoa que havia olhado a minha dissertação foi a filha dela de dois anos e me mostrou vários desenhos que a criança havia feito.

Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa


Ao entrar no mestrado sofri com as cobranças exageradas; fiquei doente, precisei de ajuda de psicólogo e neurologista, tive crises de ansiedade, não conseguia dormir. Pensava em suicídio, sim.

No doutorado tentamos retirar a medicação, pois parecia que havia me adaptando à rotina. Não deu certo. Em um mês, a ansiedade e a insônia tinham voltado.

É como se você tivesse que ser mil e uma utilidades, os orientadores exigem que o pós-graduando realize, além da sua pesquisa, outras demandas do laboratório, dê aulas em seu lugar… a jornada chega a doze horas diárias. Além disso, temos de produzir artigos e escrever inúmeros relatórios para as agências de fomento.

Biologia, Unesp


Dentro do laboratório nem sempre as coisas funcionam bem. Às vezes o experimento dá certo, e mil outras vezes, não. Era duro escutar que talvez eu não tivesse capacidade suficiente para fazer o básico, quando muitas vezes o erro era do acaso…

Sim, as coisas podem dar errado, mas dentro da ciência o erro era sempre meu, e também dos meus colegas, mas nunca dos orientadores.

O aluno de pós não é um trabalhador: não há salário, há bolsa; não há férias; não há função específica; é uma espécie de escravidão.

Que pós-graduando nunca entrou no laboratório às 7h e saiu às 23h? Qual nunca ficou até o dia 24/12 no laboratório? Qual nunca teve que repetir o mesmo experimento 200 vezes só para mostrar ao orientador que a hipótese dele estava errada?

Tudo isso machuca muito. Quantos professores não abrem a boca só para ferir o aluno? Poucos são aqueles que protegem e ensinam.

Fisiologia Humana, USP


O medo e a vergonha de ser rotulado de fraco, de louco, de exagerado são maiores do que a vontade de gritar. Como ser indiferente a jornadas cansativas, professores semideuses, orientadores abusivos?

Nunca me senti tratado como gente enquanto estive na pós, pois colocar família, saúde ou lazer, mesmo que poucas vezes, à frente das atividades acadêmicas é visto como crime. Não foram poucos os amigos que desistiram. Pior ainda, outros permaneceram, vivendo a base de remédio para dar conta.

Eu já acordei assustada depois de sonhar com meu orientador me questionando por estar dormindo. Isso quando eu conseguia dormir. Tive que me encher de ansiolíticos e antidepressivos para dar conta de continuar viva.

No último semestre do mestrado, os remédios perderam o efeito. Eu não dormia, não descansava, não conseguia escrever a dissertação. Com ajuda médica consegui defender. No doutorado tudo piorou, pois a relação com meu orientador foi se desgastando e eu tomei aversão ao trabalho e ao laboratório.

Minha depressão piorou muito e eu desenvolvi síndrome do pânico e fobia social. Cheguei ao fundo do poço e o suicídio passou a ser encarado como uma alternativa na minha vida.

Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco


Estou no meu primeiro ano de mestrado e tenho passado por muitas dificuldades. A pós-graduação já me causou muita perturbação, começando pelo ambiente de trabalho, onde as pessoas fazem você se sentir absolutamente um nada.

Além disso, o orientador te pressiona, te desmerece, quer te humilhar, muitas vezes por coisas pequenas.

A pior coisa do mundo é ter de fingir que tudo isso é normal, pois, caso contrário, vou ser tachada de fraca, imatura, burra, aquela que não aguenta. Está sendo a pior coisa do mundo.

Eu gostava muito da ideia de fazer o mestrado, mas depois que entrei eu sinto que foi uma das piores escolhas da minha vida. Já pensei em me matar e sumir. Estou fazendo acompanhamento com psiquiatra e psicólogo.

Na instituição onde estudo, depressão é vista como frescura, ou desculpa do aluno que não quer entregar um trabalho digno.

Entomologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia


Enquanto estive no Brasil, sofri com depressão e crises de pânico. Foi só na Suécia, onde fui fazer o período sanduíche do doutorado, que eu me senti pela primeira vez respeitada como pessoa dentro do ambiente acadêmico. Lá, cada aluno tem ao menos uma cadeira e mesa individual.

Aqui, nós sentamos no meio do laboratório junto com as bactérias que cultivamos, ou próximo a reagentes cancerígenos. O salário dos meus colegas na Suécia é similar ao de um emprego regular.

Também há pressão por lá, mas o orientador é responsável para com os alunos. Não se espera que o doutorando desempenhe algo se não forem dados recursos e condições adequadas para isso. Os colegas são cooperativos, não competitivos. Existe um ambiente de ganha-ganha.

Ciência de Alimentos, Unicamp


Estou no meu segundo ano de doutorado e já fiz planos de suicídio mais de uma vez. O meu departamento ameaça quem não produz com cortes de bolsa e devolução das que já recebeu e outras coisas.

As exigências aumentam, mas as condições para cumprir o que eles pedem não melhoram. Minha orientadora (uma santa) sugeriu que eu procurasse um psiquiatra depois de perceber que eu não estava bem. Meus colegas, por estarem disputando materiais comigo, me tratam mal.

As fofocas e bullying são algo assustador, e atingem todos aqueles que mostram fragilidade. Quem fica deprimido, é covarde, alguém que não deveria ter entrado no programa.

As meninas que querem se casar ou ter filhos são ameaçadas de perder a bolsa por “não prestigiarem suas carreiras”.

No mestrado, eu tinha alucinações. Trabalhava de segunda a segunda. Mal dormia e comia. Quase perdi parte do pulmão por um descolamento da pleura num incidente de bicicleta que causei porque queria morrer.

Microbiologia, Universidade Federal do Paraná


Tive um sério problema de melancolia durante o mestrado. Não cheguei a ir a um médico, mas o choro antes de dormir denunciava meu estado.
Cheguei a travar diante da sala de aula, devido à pressão que sentia. Estudávamos de 12 a 14 horas por dia. Resenhávamos 500 páginas por semana.

Os professores riam das nossas caras quando tentávamos apresentar novas ideias e interpretações. A bolsa não pagava nem o aluguel. O terrorismo acadêmico é verdadeiro.

Até agora, escrevendo esse texto, sinto meu sangue ferver de raiva e ódio pelo que me fizeram passar. Ainda bem que fui consciente: posterguei meu sonho de ser acadêmico, mas ganhei minha vida de volta.

Relações Internacionais, PUC-Rio


No mestrado, a frieza no laboratório, a cobrança por resultados que não dependiam de mim, e sim de equipamentos, e as longas horas de trabalho me fizeram desenvolver crises insuportáveis de fibromialgia, perda de apetite a ponto de ficar com o peso corporal incompatível com a saúde e uma tristeza tão profunda que ia chorando no caminho de casa até o laboratório.

Terminei e resolvi mudar de área de pesquisa. Estava contente por iniciar um novo ciclo no doutorado. E não demorou para eu passar pelas mesmas humilhações públicas, pressões e desamparo anteriores, além de ter tido insônia, ansiedade, sensação de impotência

Educação em Ciência e Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado no mesmo laboratório. O mais comum são estudantes sem perspectivas, desanimados, sem conseguir ver a luz no fim do túnel. Vários amigos e colegas tiveram depressão.

Duas pessoas do meu laboratório tiveram paralisia facial. Uma amiga, também do laboratório, teve um surto psicótico no ano passado. Foi horrível. E nossa chefa nem queria avisar a família, que vive em Recife. Me chamou de alarmista e imatura.

Mesmo após de ter concluído a pós, um certo trauma ficou. Eu ainda não consigo passar um final de semana sem sentir culpa por não estar trabalhando, lendo um artigo, escrevendo um “paper”. É uma loucura que só entende quem passa.

Fisiologia e Biofísica, USP


No meio do doutorado tive problemas com a minha pesquisa, o que levou a uma carga maior de trabalho e a muito estresse. Isso se somou à precariedade financeira, ao medo do futuro e aos questionamentos que sempre aparecem na mente dos pós-graduandos: o que eu estou fazendo? Onde vou chegar fazendo isso?

Comecei a ter crises de refluxo gastroesofágico combinados com crises de pânico.

Não há glamour na pesquisa científica. Ao contrário, ficamos isolados, com pouco contato social e trabalhamos incessantemente em projetos e publicações de artigos, além de vivermos sob prazos apertados. Isso é pouco discutido porque somos vistos como “privilegiados”, que são remunerados para estudar.

Ciências Florestais, Universidade de Brasília


No mestrado, as preocupações com relação a prazos me fizeram entrar em um estado no qual não conseguia fazer mais nada da vida que não fosse estudar. Se saía num sábado para me divertir, me sentia como se estivesse fazendo algo muito errado. Fiz uma viagem num feriado com a família e, nesses poucos dias, a consciência pesada por não estar estudando era tanta que cheguei a ter taquicardia. Já no doutorado, comecei a apresentar um quadro depressivo.

A pós-graduação é um ambiente de muita incerteza e não existe acolhimento para alunos que passam por problemas assim. Cheguei a um ponto no qual não queria mais levantar da cama. Viver doía. Não cheguei a pensar em suicídio especificamente, mas pensava que morrer não seria ruim.

Economia, Universidade Federal Fluminense


Uma relação bastante conturbada resultou na troca de orientador e de projeto. Na prática, fiquei com pouco tempo para desenvolver a pesquisa. Pressão, prazos apertados e vida pessoal e familiar problemáticas me renderam uma depressão.

Eis algumas frases que ouvi durante a doença: “Depressão é frescura”, “Isso é preguiça mesmo”, “mãe de família não deveria cogitar a ideia de pós graduação, nunca irá acompanhar o ritmo”.

Será que a pós é um contrato de escravidão? Não temos direitos, apenas deveres?

Botânica, Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Estamos todos doentes? (JC)

JC, 5707, 25 de julho de 2017

Pesquisadora da Unicamp alerta para influência da indústria farmacêutica no crescimento do número de diagnósticos de transtornos mentais

Dados do National Institute of Mental Health (NIMH, 2012) apontam que 46% dos norte-americanos preenchem os critérios de diagnóstico de um transtorno mental. Na Europa essa porcentagem corresponde a 38%. Nos Estados Unidos, o diagnóstico de transtorno bipolar em crianças e adolescentes aumentou 40 vezes, entre 1994 e 2003, e uma entre cinco crianças tem um surto de transtorno mental por ano, de acordo com dados do Centro de Controle de Doenças, daquele país (CDC, 2013).

Há pesquisas que indicam que 10% da população mundial teria algum tipo de transtorno, um número que segundo a médica pediatra, Maria Aparecida Affonso Moysés, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), inviabiliza qualquer esforço de política pública. “Temos que começar a questionar como esses números são construídos. Na verdade, mudanças nos critérios do diagnóstico se tornaram muito frouxos nos últimos anos”, afirmou a médica, em sua conferência na Reunião Anual da SBPC. “É muito difícil qualquer um de nós não se encaixar nos critérios. Os testes que detectam algumas dessas doenças são verdadeiras armadilhas”, alertou.

Ela refutou a ideia de que vivemos uma epidemia de doenças mentais. “O que temos é uma epidemia de diagnósticos de transtornos mentais”, disse. Na primeira vez em que foi publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, em 1952, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), tinha 106 categorias de transtornos mentais. Em sua última edição, em 2013, foram listadas 300 categorias. “Alterar as normas para caracterização de um transtorno e criar doenças novas contribuíram para essa epidemia amplamente patrocinada pela indústria farmacêutica”, declarou Moysés. “Antes de vender remédios, o departamento de marketing da indústria de fármacos trabalha para vender doenças”, diz. Déficit de atenção, transtorno de descontrole de humor, transtorno de aprendizagem, depressão, transtorno opositor desafiante, hiperatividade, são algumas dessas doenças fabricadas para vender medicamentos. “Onde está a ciência e ética nesse campo?”, questionou a médica. Segundo ela, esses medicamentos são largamente receitados para crianças e adultos, como se fossem 100% seguros, mas boa parte deles provoca dependência química.

Um exemplo é o metilfenidato, base de uma classe de estimulantes do sistema nervoso central, vendido entre outras, com a marca “Ritalina”. O medicamento age inibindo a receptação de dopamina na sinapse, o que teria como resultado o aumento do nível de concentração. Conforme explicou Moysés, ele é receitado para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), não pelo seu efeito terapêutico, mas pelas reações adversas. No sistema nervoso central o metilfenidato provoca o efeito “zombie like”, quando a pessoa fica contida em si mesma. “Eu comparo esse fármaco a uma droga da obediência porque o indivíduo perde a capacidade de questionar, de sentir. É um tipo de contenção química. O aumento de concentração, tão propagado, é, na verdade, uma redução do foco da atenção, isto é, a pessoa presta atenção em uma coisa de cada vez”, afirmou. “Não existe uma pílula que nos faça prestar atenção. Para isso, precisamos de bons professores com boas condições de trabalho”.

Na opinião da pesquisadora da Unicamp, vivemos em um projeto de sociedade que estimula e premia comportamentos homogêneos, punindo as singularidades. “Não é à toa que assistimos cortes significativos nos orçamentos da ciência e da educação. Temos que ser iguais porque as diferenças incomodam cada vez mais. Entretanto, neutralizar os sonhadores, os que pensam diferente é um genocídio do futuro”, disse.

O combate ao que a médica chama de patologização da sociedade passa pelos campos da saúde, da educação e por uma revisão das políticas públicas para que elas não sejam submissas ao mercado. Outro setor é o da formação profissional. Nas escolas de medicina, a técnica não pode se sobrepor à ética e ao aspecto humano. Toda avaliação e diagnóstico têm que respeitar saberes, valores, história e a cultura porque “a vida não é mercadoria”, finalizou.

Por Patricia Mariuzzo para o Jornal da Ciência

Psychedelic drug ayahuasca improves hard-to-treat depression (New Scientist)

DAILY NEWS 14 April 2017

Woman drinks mixture containing ayahuasca

From shamanistic ritual to medical treatment? Eitan Abramovich/AFP/Getty Images

It tastes foul and makes people vomit. But ayahuasca, a hallucinogenic concoction that has been drunk in South America for centuries in religious rituals, may help people with depression that is resistant to antidepressants.

Tourists are increasingly trying ayahuasca during holidays to countries such as Brazil and Peru, where the psychedelic drug is legal. Now the world’s first randomised clinical trial of ayahuasca for treating depression has found that it can rapidly improve mood.

The trial, which took place in Brazil, involved administering a single dose to 14 people with treatment-resistant depression, while 15 people with the same condition received a placebo drink.

A week later, those given ayahuasca showed dramatic improvements, with their mood shifting from severe to mild on a standard scale of depression. “The main evidence is that the antidepressant effect of ayahuasca is superior to the placebo effect,” says Dráulio de Araújo of the Brain Institute at the Federal University of Rio Grande do Norte in Natal, who led the trial.

Bitter brew

Shamans traditionally prepare the bitter, deep-brown brew of ayahuasca using two plants native to South America. The first, Psychotria viridis, is packed with the mind-altering compound dimetheyltryptamine (DMT). The second, the ayahuasca vine (Banisteriopsis caapi), contains substances that stop DMT from being broken down before it crosses the gut and reaches the brain.

To fool placebo recipients into thinking they were getting the real thing, de Araújo and his team concocted an equally foul tasting brown-coloured drink. They also carefully selected participants who had never tried ayahuasca or other psychedelic drugs before.

A day before their dose, the participants filled in standard questionnaires to rate their depression. The next day, they spent 8 hours in a quiet, supervised environment, where they received either the placebo or the potion, which produces hallucinogenic effects for around 4 hours. They then repeated filling in the questionnaires one, two and seven days later.

Both groups reported substantial improvements one and two days after the treatment, with placebo scores often as high as those of people who had taken the drug. In trials of new antidepressant drugs, it is common for as many as 40 per cent of participants to respond positively to placebos, says de Araújo.

But a week into this trial, 64 per cent of people who had taken ayahuasca felt the severity of their depression reduce by 50 per cent or more. This was true for only 27 per cent of those who drank the placebo.

Psychedelic treatments

“The findings suggest a rapid antidepressant benefit for ayahuasca, at least for the short term,” says David Mischoulon of Massachusetts General Hospital in Boston. “But we need studies that follow patients for longer periods to see whether these effects are sustained.”

“There is clearly potential to explore further how this most ancient of plant medicines may have a salutary effect in modern treatment settings, particularly in patients who haven’t responded well to conventional treatments,” says Charles Grob at the University of California, Los Angeles.

If the finding holds up in longer studies, it could provide a valuable new tool for helping people with treatment-resistant depression. An estimated 350 million people worldwide experience depression, and between a third to a half of them don’t improve when given standard antidepressants.

Ayahuasca isn’t the only psychedelic drug being investigated as a potential treatment for depression. Researchers have also seen some benefits with ketamine and psilocybin, extracted from magic mushrooms, although psilocybin is yet to be tested against a placebo.

Journal reference: bioRxiv, DOI: 10.1101/103531

What Did Neanderthals Leave to Modern Humans? Some Surprises (New York Times)

Geneticists tell us that somewhere between 1 and 5 percent of the genome of modern Europeans and Asians consists of DNA inherited from Neanderthals, our prehistoric cousins.

At Vanderbilt University, John Anthony Capra, an evolutionary genomics professor, has been combining high-powered computation and a medical records databank to learn what a Neanderthal heritage — even a fractional one — might mean for people today.

We spoke for two hours when Dr. Capra, 35, recently passed through New York City. An edited and condensed version of the conversation follows.

Q. Let’s begin with an indiscreet question. How did contemporary people come to have Neanderthal DNA on their genomes?

A. We hypothesize that roughly 50,000 years ago, when the ancestors of modern humans migrated out of Africa and into Eurasia, they encountered Neanderthals. Matings must have occurred then. And later.

One reason we deduce this is because the descendants of those who remained in Africa — present day Africans — don’t have Neanderthal DNA.

What does that mean for people who have it? 

At my lab, we’ve been doing genetic testing on the blood samples of 28,000 patients at Vanderbilt and eight other medical centers across the country. Computers help us pinpoint where on the human genome this Neanderthal DNA is, and we run that against information from the patients’ anonymized medical records. We’re looking for associations.

What we’ve been finding is that Neanderthal DNA has a subtle influence on risk for disease. It affects our immune system and how we respond to different immune challenges. It affects our skin. You’re slightly more prone to a condition where you can get scaly lesions after extreme sun exposure. There’s an increased risk for blood clots and tobacco addiction.

To our surprise, it appears that some Neanderthal DNA can increase the risk for depression; however, there are other Neanderthal bits that decrease the risk. Roughly 1 to 2 percent of one’s risk for depression is determined by Neanderthal DNA. It all depends on where on the genome it’s located.

Was there ever an upside to having Neanderthal DNA?

It probably helped our ancestors survive in prehistoric Europe. When humans migrated into Eurasia, they encountered unfamiliar hazards and pathogens. By mating with Neanderthals, they gave their offspring needed defenses and immunities.

That trait for blood clotting helped wounds close up quickly. In the modern world, however, this trait means greater risk for stroke and pregnancy complications. What helped us then doesn’t necessarily now.

Did you say earlier that Neanderthal DNA increases susceptibility to nicotine addiction?

Yes. Neanderthal DNA can mean you’re more likely to get hooked on nicotine, even though there were no tobacco plants in archaic Europe.

We think this might be because there’s a bit of Neanderthal DNA right next to a human gene that’s a neurotransmitter implicated in a generalized risk for addiction. In this case and probably others, we think the Neanderthal bits on the genome may serve as switches that turn human genes on or off.

Aside from the Neanderthals, do we know if our ancestors mated with other hominids?

We think they did. Sometimes when we’re examining genomes, we can see the genetic afterimages of hominids who haven’t even been identified yet.

A few years ago, the Swedish geneticist Svante Paabo received an unusual fossilized bone fragment from Siberia. He extracted the DNA, sequenced it and realized it was neither human nor Neanderthal. What Paabo found was a previously unknown hominid he named Denisovan, after the cave where it had been discovered. It turned out that Denisovan DNA can be found on the genomes of modern Southeast Asians and New Guineans.

Have you long been interested in genetics?

Growing up, I was very interested in history, but I also loved computers. I ended up majoring in computer science at college and going to graduate school in it; however, during my first year in graduate school, I realized I wasn’t very motivated by the problems that computer scientists worked on.

Fortunately, around that time — the early 2000s — it was becoming clear that people with computational skills could have a big impact in biology and genetics. The human genome had just been mapped. What an accomplishment! We now had the code to what makes you, you, and me, me. I wanted to be part of that kind of work.

So I switched over to biology. And it was there that I heard about a new field where you used computation and genetics research to look back in time — evolutionary genomics.

There may be no written records from prehistory, but genomes are a living record. If we can find ways to read them, we can discover things we couldn’t know any other way.

Not long ago, the two top editors of The New England Journal of Medicine published an editorial questioning “data sharing,” a common practice where scientists recycle raw data other researchers have collected for their own studies. They labeled some of the recycling researchers, “data parasites.” How did you feel when you read that?

I was upset. The data sets we used were not originally collected to specifically study Neanderthal DNA in modern humans. Thousands of patients at Vanderbilt consented to have their blood and their medical records deposited in a “biobank” to find genetic diseases.

Three years ago, when I set up my lab at Vanderbilt, I saw the potential of the biobank for studying both genetic diseases and human evolution. I wrote special computer programs so that we could mine existing data for these purposes.

That’s not being a “parasite.” That’s moving knowledge forward. I suspect that most of the patients who contributed their information are pleased to see it used in a wider way.

What has been the response to your Neanderthal research since you published it last year in the journal Science?

Some of it’s very touching. People are interested in learning about where they came from. Some of it is a little silly. “I have a lot of hair on my legs — is that from Neanderthals?”

But I received racist inquiries, too. I got calls from all over the world from people who thought that since Africans didn’t interbreed with Neanderthals, this somehow justified their ideas of white superiority.

It was illogical. Actually, Neanderthal DNA is mostly bad for us — though that didn’t bother them.

As you do your studies, do you ever wonder about what the lives of the Neanderthals were like?

It’s hard not to. Genetics has taught us a tremendous amount about that, and there’s a lot of evidence that they were much more human than apelike.

They’ve gotten a bad rap. We tend to think of them as dumb and brutish. There’s no reason to believe that. Maybe those of us of European heritage should be thinking, “Let’s improve their standing in the popular imagination. They’re our ancestors, too.’”

Estudo mostra que indústria e psiquiatria criaram doenças e remédios que não curam (Carta Campinas)

By Carta Campinas / sexta-feira, 01 jul 2016 10:38 AM

robert whitaker fotografia de videoUma série de reportagens e livros publicados ao longo de 25 anos pelo jornalista Robert Whitaker (foto), especialista em questões de ciência e medicina, abriu uma crise na prática médica da psiquiatria e na solução mágica de curar os transtornos mentais com medicação.

O jornalista, do The Boston Globe, o mesmo jornal das série de reportagens que gerou o filme Spotlight, levantou dados alarmantes sobre a indústria farmacêutica das doenças mentais e sua incapacidade de curar.  “Em 1955, havia 355.000 pessoas em hospitais com um diagnóstico psiquiátrico nos Estados Unidos; em 1987, 1,25 milhão de pessoas no país recebia aposentadoria por invalidez por causa de alguma doença mental; em 2007, eram 4 milhões. No ano passado, 5 milhões.

Para ele, associações médicas e a indústria estão criando pacientes e mercado para seus remédios. “Se olharmos do ponto de vista comercial, o êxito desse setor é extraordinário. Temos pílulas para a felicidade, para a ansiedade, para que seu filho vá melhor na escola. O transtorno por déficit de atenção e hiperatividade é uma fantasia. É algo que não existia antes dos anos noventa”, diz.

Mas essa não é uma crítica simplificada ou econômica, mas bem mais fundamentada durante mais de duas décadas.  “O que estamos fazendo de errado?”, questionam os estudos de Whitaker que também levantou informações de que pacientes de esquizofrenia evoluem melhor em países em que são menos medicados. Outro dado importante foi o estudo da Escola de Medicina de Harvard, que em 1994, mostrou que a evolução de pacientes com esquizofrenia, que foram medicados, pioraram em relação aos anos 70, quando a medicação não era dominante.

A batalha de Whitaker contra os comprimidos como solução tem ganhado apoio. Importantes escolas de medicina o convidam a explicar seus trabalhos e o debate está aberto nos Estados Unidos. “A psiquiatria está entrando em um novo período de crise no país, porque a história que nos contaram desde os anos 80 caiu por terra. A história falsa nos Estados Unidos e em parte do mundo desenvolvido é que a causa da esquizofrenia e da depressão seria biológica. Foi dito que esses distúrbios se deviam a desequilíbrios químicos no cérebro: na esquizofrenia, por excesso de dopamina; na depressão, por falta de serotonina. E nos disseram que havia medicamentos que resolviam o problema, assim como a insulina faz pelos diabéticos”, afirmou em entrevista ao jornal El Pais.

Para ele, os psiquiatras sempre tiveram um complexo de inferioridade. “O restante dos médicos costumava enxergá-los como se não fossem médicos autênticos. Nos anos 70, quando faziam seus diagnósticos baseando-se em ideias freudianas, eram muito criticados. E como poderiam reconstruir sua imagem diante do público? Vestiram suas roupas brancas, o que lhes dava autoridade. E começaram a se chamar a si mesmos de psicofarmacólogos quando passaram a prescrever medicamentos. A imagem deles melhorou. O poder deles aumentou. Nos anos 80, começaram a fazer propaganda desse modelo, e nos noventa, a profissão já não prestava atenção a seus próprios estudos científicos. Eles acreditavam em sua própria propaganda”, relata.

Para Whitaker, houve uma união do útil ao agradável.  Uma história que melhorou a imagem pública da psiquiatria e ajudou a vender medicamentos. No final dos anos oitenta, o comércio desses fármacos movimentava  US$ 800 milhões por ano. Vinte anos mais tarde, já eram US$ 40 bilhões. “Se estudarmos a literatura científica, observamos que já estamos utilizando esses remédios há 50 anos. Em geral, o que eles fazem é aumentar a cronicidade desses transtornos”, afirma de forma categórica.

Essa mensagem, segundo o próprio Whitaker, pode ser perigosa, mas ele não traz conselhos médicos nos estudos (Anatomy of an Epidemic ), não é para casos individuais. “Bom, se a medicação funciona, fantástico. Há pessoas para quem isso funciona. Além disso, o cérebro se adapta aos comprimidos, o que significa que retirá-los pode ter efeitos graves. O que falamos no livro é sobre o resultado de maneira geral. É para que a sociedade se pergunte: nós organizamos o atendimento psiquiátrico em torno de uma história cientificamente correta ou não?”, diz.

Whitaker foi muito criticado, apesar de seu livro contar com muitas evidências e ter recebido prêmios. Mas a obra desafiou os critérios da Associação Norte-Americana de Psiquiatria (APA) e os interesses da indústria farmacêutica. Mas desde 2010 novos estudos confirmaram suas pesquisas. Entre eles, os trabalhos dos psiquiatras Martin Harrow e Lex Wunderink e o fato de a prestigiada revista científica British Journal of Psychiatry já assumir que é preciso repensar o uso de medicamentos. “Os comprimidos podem servir para esconder o mal-estar, para esconder a angústia. Mas não são curativos, não produzem um estado de felicidade”, diz. Veja texto completo. Ou Aqui

Veja vídeo com Robert Whitaker, pena que ainda não está legendado em português.

 

Gut feeling: Research examines link between stomach bacteria, PTSD (Science Daily)

Date:
April 25, 2016
Source:
Office of Naval Research
Summary:
Could bacteria in your gut be used to cure or prevent neurological conditions such as post-traumatic stress disorder (PTSD), anxiety or even depression? Two researchers think that’s a strong possibility.

Dr. John Bienenstock (left) and Dr. Paul Forsythe in their lab. The researchers are studying whether bacteria in the gut can be used to cure or prevent neurological conditions such as post-traumatic stress disorder (PTSD), anxiety or depression. Credit: Photo courtesy of Dr. John Bienenstock and Dr. Paul Forsythe

Could bacteria in your gut be used to cure or prevent neurological conditions such as post-traumatic stress disorder (PTSD), anxiety or even depression? Two researchers sponsored by the Office of Naval Research (ONR) think that’s a strong possibility.

Dr. John Bienenstock and Dr. Paul Forsythe–who work in The Brain-Body Institute at McMaster University in Ontario, Canada–are investigating intestinal bacteria and their effect on the human brain and mood.

“This is extremely important work for U.S. warfighters because it suggests that gut microbes play a strong role in the body’s response to stressful situations, as well as in who might be susceptible to conditions like PTSD,” said Dr. Linda Chrisey, a program officer in ONR’s Warfighter Performance Department, which sponsors the research.

The trillions of microbes in the intestinal tract, collectively known as the gut microbiome, profoundly impact human biology–digesting food, regulating the immune system and even transmitting signals to the brain that alter mood and behavior. ONR is supporting research that’s anticipated to increase warfighters’ mental and physical resilience in situations involving dietary changes, sleep loss or disrupted circadian rhythms from shifting time zones or living in submarines.

Through research on laboratory mice, Bienenstock and Forsythe have shown that gut bacteria seriously affect mood and demeanor. They also were able to control the moods of anxious mice by feeding them healthy microbes from fecal material collected from calm mice.

Bienenstock and Forsythe used a “social defeat” scenario in which smaller mice were exposed to larger, more aggressive ones for a couple of minutes daily for 10 consecutive days. The smaller mice showed signs of heightened anxiety and stress–nervous shaking, diminished appetite and less social interaction with other mice. The researchers then collected fecal samples from the stressed mice and compared them to those from calm mice.

“What we found was an imbalance in the gut microbiota of the stressed mice,” said Forsythe. “There was less diversity in the types of bacteria present. The gut and bowels are a very complex ecology. The less diversity, the greater disruption to the body.”

Bienenstock and Forsythe then fed the stressed mice the same probiotics (live bacteria) found in the calm mice and examined the new fecal samples. Through magnetic resonance spectroscopy (MRS), a non-invasive analytical technique using powerful MRI technology, they also studied changes in brain chemistry.

“Not only did the behavior of the mice improve dramatically with the probiotic treatment,” said Bienenstock, “but it continued to get better for several weeks afterward. Also, the MRS technology enabled us to see certain chemical biomarkers in the brain when the mice were stressed and when they were taking the probiotics.”

Both researchers said stress biomarkers could potentially indicate if someone is suffering from PTSD or risks developing it, allowing for treatment or prevention with probiotics and antibiotics.

Later this year, Bienenstock and Forsythe will perform experiments involving fecal transplants from calm mice to stressed mice. They also hope to secure funding to conduct clinical trials to administer probiotics to human volunteers and use MRS to monitor brain reactions to different stress levels.

Gut microbiology is part of ONR’s program in warfighter performance. ONR also is looking at the use of synthetic biology to enhance the gut microbiome. Synthetic biology creates or re-engineers microbes or other organisms to perform specific tasks like improving health and physical performance. The field was identified as a top ONR priority because of its potential far-ranging impact on warfighter performance and fleet capabilities.


Journal Reference:

  1. S. Leclercq, P. Forsythe, J. Bienenstock. Posttraumatic Stress Disorder: Does the Gut Microbiome Hold the Key? The Canadian Journal of Psychiatry, 2016; 61 (4): 204 DOI: 10.1177/0706743716635535

What a Shaman Sees in A Mental Hospital (Waking Times)

By  August 22, 2014

The Dark Side of Ayahuasca (Men’s Journal)

By   Mar 2013

Every day, hundreds of tourists arrive in Iquitos, Peru, seeking spiritual catharsis or just to trip their heads off. But increasingly often their trip becomes a nightmare, and some of them don’t go home at all.

The dark side of ayahuasca

Credit: Joshua Paul

Kyle Nolan spent the summer of 2011 talking up a documentary called ‘Stepping Into the Fire,’ about the mind-expanding potential of ayahuasca. The film tells the story of a hard-driving derivatives trader and ex-Marine named Roberto Velez, who, in his words, turned his back on the “greed, power, and vice” of Wall Street after taking ayahuasca with a Peruvian shaman. The film is a slick promotion for the hallucinogenic tea that’s widely embraced as a spirit cure, and for the Shimbre Shamanic Center, the ayahuasca lodge Velez built for his guru, a potbellied medicine man called Master Mancoluto. The film’s message is that we Westerners have lost our way and that the ayahuasca brew (which is illegal in the United States because it contains the psychedelic compound DMT) can set us straight.

Last August, 18-year-old Nolan left his California home and boarded a plane to the Amazon for a 10-day, $1,200 stay at Shimbre in Peru’s Amazon basin with Mancoluto – who is pitched in Shimbre’s promotional materials as a man to help ayahuasca recruits “open their minds to deeper realities, develop their intuitive capabilities, and unlock untapped potential.” But when Nolan – who was neither “flaky” nor “unreliable,” says his father, Sean – didn’t show up on his return flight home, his mother, Ingeborg Oswald, and his triplet sister, Marion, went to Peru to find him. Initially, Mancoluto, whose real name is José Pineda Vargas, told them Kyle had packed his bags and walked off without a word. The shaman even joined Oswald on television pleading for help in finding her son, but the police in Peru remained suspicious. Under pressure, Mancoluto admitted that Nolan had died after an ayahuasca session and that his body had been buried at the edge of the property. The official cause of death has not yet been determined.

Pilgrims like Nolan are flocking to the Amazon in search of ayahuasca, either to expand their spiritual horizons or to cure alcoholism, depression, and even cancer, but what many of them find is a nightmare. Still, the airport in Iquitos is buzzing with ayahuasca tourism. Vans from shamanic lodges pick up psychedelic pilgrims from around the world, while taxi drivers peddle access to Indian medicine men. “It reminds me of how they sell cocaine and marijuana in Amsterdam,” one local said. “Here, it’s shamans and ayahuasca.”

Devotees talk about ayahuasca’s cathartic and life-changing power, but there is a dark side to the tourism boom as well. With money rolling in and lodges popping up across Peru’s sprawling Amazon, a new breed of shaman has emerged – and not all of them can be trusted with the powerful drug. Deaths like Nolan’s are uncommon, but reports of molestation, rape, and negligence at the hands of predatory and inept shamans are not. In the past few years alone, a young German woman was allegedly raped and beaten by two men who had administered ayahuasca to her, two French citizens died while staying at ayahuasca lodges, and stories persist about unwanted sexual advances and people losing their marbles after being given overly potent doses. The age of ayahuasca as purely a medicinal, consciousness-raising pursuit seems like a quaint and distant past.A powerful psychedelic, DMT is a natural compound found throughout the plant kingdom and in mammals (including humans). Scientists don’t know why it’s so prevalent in the world, but studies suggest a role in natural dreaming. DMT doesn’t work if swallowed alone, thanks to an enzyme in the gastrointestinal system that breaks it down. In a feat of prehistoric chemistry, Amazonian shamans fixed that by boiling two plants together – the ayahuasca vine and a DMT-containing shrub called chacruna – which shuts down the enzyme and allows the DMT to slip through the gut into the bloodstream.

Ayahuasca almost always induces vomiting before the hallucinogenic odyssey begins. It can be both horrifying and strangely blissful. One devotee described an ayahuasca trip as “psychotherapy on steroids.” But for all the root’s spiritual and therapeutic benefits, the ayahuasca boom is as wild and unmanageable as the jungle itself. One unofficial stat floating around Iquitos says the number of arriving pilgrims has grown fivefold in two years. Roger Rumrrill, a journalist who has written 25 books on the Amazon region, including several on shamanism, told me there’s “a corresponding boom in charlatans – in fake shamans, who are targeting foreigners.”

Few experts blame the concoction itself. Alan Shoemaker, who organizes an annual shamanism conference in Iquitos, says, “Ayahuasca is one of the sacred power plants and is completely nonaddictive, has been used for literally thousands of years for healing and divination purposes . . . and dying from overdose is virtually impossible.”

Still, no one monitors the medicine men, their claims, or their credentials. No one is making sure they screen patients for, say, heart problems, although ayahuasca is known to boost pulse rates and blood pressure. (When French citizen Celine René Margarite Briset died from a heart attack after taking ayahuasca in the Amazonian city of Yurimaguas in 2011, it was reported she had a preexisting heart condition.) And though many prospective ayahuasca-takers – people likely to have been prescribed antidepressants – struggle with addiction and depression, few shamans know or care to ask about antidepressants like Prozac, which can be deadly when mixed with ayahuasca. Reports suggested that a clash of meds killed 39-year-old Frenchman Fabrice Champion, who died a few months after Briset in an Iquitos-based lodge called Espiritu de Anaconda (which had already experienced one death and has since changed its name to Anaconda Cosmica). No one has been charged in either case.

Nor is anyone monitoring the growing number of lodges offering to train foreigners to make and serve the potentially deadly brew. Rumrrill scoffs at the idea. “People study for years to become a shaman,” he said. “You can’t become one in a few weeks….It’s a public health threat.” Disciples of ayahuasca insist that a shaman’s job is to control the movements of evil spirits in and out of the passengers, which in layman’s terms means keeping people from losing their shit. An Argentine tourist at the same lodge where Briset died reportedly stabbed himself in the chest after drinking too much of the tea. I met a passenger whose face was covered in thick scabs I assumed were symptoms of an illness for which he was being treated. It turns out he’d scraped the skin off himself during an understatedly “rough night with the medicine.” Because of ayahuasca’s power to plow through the psyche, many lodges screen patients for bipolar disorders or schizophrenia. But one local tour guide told me about a seeker who failed to disclose that he was schizophrenic. He drank ayahuasca and was later arrested – naked and crazed – in a public plaza. Critics worry that apprentice programs are churning out ayahuasqueros who are incapable of handling such cases.

Common are stories of female tourists who, under ayahuasca’s stupor, have faced sexual predators posing as healers. A nurse from Seattle says she booked a stay at a lodge run by a gringo shaman two hours outside Iquitos. When she slipped into ayahuasca’s trademark “state of hyper-suggestibility,” things got weird. “He placed his hands on my breast and groin and was talking a lot of shit to me,” she recalls. “I couldn’t talk. I was very weak.” She said she couldn’t confront the shaman. During the next session, he became verbally abusive. Fearing he might hurt her, she snuck off to the river, a tributary of the Amazon, late that night and swam away. She was lucky. In 2010, a 23-year-old German woman traveled to a tiny village called Barrio Florida for three nights of ayahuasca ceremonies. She ended up raped and brutally beaten by a “shaman” and his accomplice, who were both arrested. Last November, a Slovakian woman filed charges against a shaman, claiming she’d been raped during a ceremony at a lodge in Peru.

Even more troubling than ayahuasca is toé, a “witchcraft plant” that’s a member of the nightshade family. Also called Brugmansia, or angel’s trumpet, toé is known for its hallucinogenic powers. Skilled shamans use it in tiny amounts, but around Iquitos, people say irresponsible shamans dose foreigners with it to give them the Disneyland light shows they’ve come to expect. But there are downsides, to say the least. “Toé,” warns one reputable Iquitos lodge, “is potentially very dangerous, and excessive use can cause permanent mental impairment. Deaths are not uncommon from miscalculated dosages.” I heard horror stories. One ayahuasca tourist said, “Toé is a heavy, dark plant that’s associated with witchcraft for a reason: You can’t say no. Toé makes you go crazy. Some master shamans use it in small quantities, but it takes years to work with the plants. There’s nothing good to come out of it.”

Another visitor, an engineer from Washington, D.C., blames toé for his recent ayahuasca misadventure. He learned about ayahuasca on the internet and booked a multinight stay at one of the region’s most popular lodges. By the second night, he felt something was amiss. “When the shaman passed me the cup that night, he said, ‘We’re going to put you back together.’ I knew something was wrong. It was unbelievably strong.” The man says it hit him like a wave. “All around me, people started moaning. Then the yells and screaming started. Soon, I realized that medics were coming in and out of the hut, attending to people, trying to calm them down.” He angrily told me he was sure, based on hearing the bad trips of others who’d been given the substance, they had given him toé. “Ayahuasca,” he says, “should come with a warning label.”

Kyle’s father, Sean, suspects toé may have played a part in his son’s death, but he says he’s still raising the money he needs to get a California coroner to release the autopsy report. Mancoluto couldn’t be reached for comment, but his former benefactor, the securities trader Roberto Velez, now regrets his involvement with Mancoluto. “The man was evil and dangerous,” he says, “and the whole world needs to know so that no one ever seeks him again.” Some of Mancoluto’s former patients believe his brews included toé and have taken to the internet, claiming his practices were haphazard. (He allegedly sat in a tower overseeing his patients telepathically as they staggered through the forest.) One blog reports seeing a client “wandering out of the jungle, onto the road, talking to people who weren’t there, waving down cars, smoking imaginary cigarettes, and his eyes actually changed color, all of which indicated a high quantity of Brugmansia in Mancoluto’s brew.”

Shoemaker says that even though the majority of ayahuasca trips are positive and safe, things have gotten out of hand. “Misdosing with toé doesn’t make you a witch,” he says. “It makes you a criminal.” Velez, whose inspirational ayahuasca story was the focus of the film that sparked Kyle Nolan’s interest, is no longer an advocate. “It’s of life-and-death importance,” he warns, “that people don’t get involved with shamans they don’t know. I don’t know if anyone should trust a stranger with their soul.”

See also: Ayahuasca at Home: An American Experience

Related: Bucky McMahon’s goes Down the Monkey Hole on a Ayahuasca Retreat

Read more: http://www.mensjournal.com/magazine/the-dark-side-of-ayahuasca-20130215#ixzz3uxd2HGGI

Active ingredient in magic mushrooms reduces anxiety, depression in cancer patients (Science Daily)

Date: December 10, 2015

Source: American College of Neuropsychopharmacology

Summary: Psilocybin, found in magic mushrooms, decreased anxiety and depression in patients diagnosed with life-threatening cancer. New research shows that patients who received a psilocybin dose that altered perception and produced mystical-type experiences reported significantly less anxiety and depression compared with patients who received a low dose of the drug. The positive effects lasted 6 months.


A single dose of psilocybin, the major hallucinogenic component in magic mushrooms, induces long-lasting decreases in anxiety and depression in patients diagnosed with life-threatening cancer according to a new study presented at the annual meeting of the American College of Neuropsychopharmacology.

Patients who receive a cancer diagnosis often develop debilitating symptoms of anxiety and depression. Reports from the 1960s and 1970s suggest that hallucinogenic drugs such as LSD may alleviate such symptoms in cancer patients, but the clinical value of hallucinogenic drugs for the treatment of mood disturbances in cancer patients remains unclear. In this new study, Roland Griffiths and colleagues from the Johns Hopkins University School of Medicine investigated the effects of psilocybin on symptoms of anxiety and depression in individuals diagnosed with life-threatening cancer. Five weeks after receiving a dose of psilocybin sufficiently high to induce changes in perception and mystical-type experiences, patients reported significantly lower levels of anxiety and depression compared with patients that received a low dose of the drug. The positive effects on mood persisted in the patients at 6 month follow-up.

The authors suggest that a single dose of psilocybin may be sufficient to produce enduring decreases in negative mood in patients with a life-threatening cancer.

Small advances: understanding the micro biome (ABC RN)

Tuesday 1 September 2015 4:27PM

Amanda Smith

Microbes

IMAGE: THE HUMAN MICROBIOME MAY PLAY A ROLE IN EVERYTHING FROM OBESITY TO ASTHMA (FLICKR/PACIFIC NORTHWEST NATIONAL LABORATORY)

What is it that makes you, you? While you’re made up of 10 trillion human cells, 100 trillion microbial cells also live on you and in you. This vast array of microscopic bugs may be your defining feature, and scientists around the world are racing to find out more. Amanda Smith reports.

AUDIO: https://soundcloud.com/abc_rn/excerpt-the-body-microbial/s-oz6JA

Microbes, it seems, are the next big thing. Around the world, scientists are researching the human microbiome—the genes of our microbes—in the hope of unlocking quite a different way to understand sickness and health.

At the Microbiome Initiative at the University of California, San Diego, Rob Knight runs the American Gut Project, a citizen science initiative where you can get your microbiome sequenced.

Breast milk is meant to present the baby with a manageable dose of everything in the environment. It samples the entire environment—everything the mother eats, breathes, touches.

MAUREEN MINCHIN, AUTHOR OF MILK MATTERS.

‘What we can do right now is put you on this microbial map, where we can compare your microbes to the microbes of thousands of other people we’ve already looked at,’ he says. ‘But what we need to do is develop more of a microbial GPS that doesn’t just tell you where you are, but tells you where you want to go and what you need to do, step by step, in order to get there.’

The Australian Centre for Ecogenomics is also setting up a service where you can get your gut microbes analysed. The centre’s director, Phillip Hugenholtz, predicts that in years to come such a process will be a diagnostic procedure when you go to the doctor, much like getting a blood test.

‘I definitely think that’s going to become a standard part of your personalised medicine’, he says. ‘Micro-organisms are sometimes a very good early indicator of things occurring in your body and so it will become something that you’d go and get done maybe once or twice a year to see what’s going on.’

While this level of interest in the microbiome is new, the first person to realise we’re all teeming with micro-organisms was Dutchman Anton Leeuwenhoek, way back in 1676. Leeuwenhoek was interested in making lenses, and constructed himself a microscope.

‘He was looking at the scum from his teeth, and was amazed to see in this scraped-off plaque from inside his own mouth what he called hundreds of different “animalcules swimming a-prettily”,’ says Tim Spector, professor of genetic epidemiology at Kings College London.

‘He was the first to describe this, and it took hundreds of years before people actually believed that we were completely full of these microbes and we’d co-evolved with them.’

Microbes have come a long way over the last century. Until recent advances in DNA sequencing, all tummy bugs were considered bad.

‘We used to think that there was no such thing as a good microbe in our guts, that they were all out to do us no good, and we’ve basically spent the last 100 years trying to eliminate them with disinfectants and then the last 50 years with antibiotics,’ says Spector.

This has given rise to the ‘hygiene hypothesis’, which contends that by keeping ourselves too clean, we’re denying ourselves the microbes necessary to keep our immune system balanced, resulting in all sorts of chronic diseases.

‘Over the last half-century, as infectious diseases like polio and measles and hepatitis and so-on have plummeted in their frequency, chronic diseases—everything from obesity to diabetes to inflammatory bowel disease—have been skyrocketing,’ says the Microbiome Initiative’s Rob Knight.

‘So the idea is that potentially without exposure to a diverse range of healthy microbes our immune systems might be going into overdrive and attacking our own cells, or overreacting to harmless things we find in the environment.’

Antonie van Leeuwenhoek

IMAGE: ANTONIE VAN LEEUWENHOEK WAS THE FIRST MICROBIOLOGIST AND THE FIRST TO OBSERVE MICRO-ORGANISMS USING A MICROSCOPE. (LICENSED UNDER PUBLIC DOMAIN VIA COMMONS)

In terms of human DNA, we’re all 99.99 per cent identical. However our microbial profiles can differ enormously. We might share just 10 per cent of our dominant microbial species with others.

According to Knight, some of the differences are explained by method of birth.

‘If you come out the regular way you get coated with microbes as you’re passing through your mother’s birth canal,’ he says.

Babies delivered by Caesarian section, on the other hand, have microbes that are mostly found on adult skin, from being touched by different doctors and nurses.

‘One thing that’s potentially interesting about that is differences between C-section and vaginally delivered babies have been reported: higher rates in C-section babies of asthma, allergies, atopic disease, even obesity. All of those have been linked to the microbiome now.’

Also important to the development of healthy microbiota in babies is breastfeeding, according to Maureen Minchin, the author of Milk Matters.

‘We’ve known for over 100 years that breast milk and formula result in very, very different gut flora in babies, but it’s only very recently that anyone has thought to look and see what breast milk does contain, and at last count there were well over 700 species of bacteria in breast milk,’ she says.

According to Minchin, breastfeeding is the bridge between the womb and the world for babies.

‘Breast milk is meant to present the baby with a manageable dose of everything in the environment. It samples the entire environment—everything the mother eats, breathes, touches. Her microbiome is present in that breast milk and will help create the appropriate microbiome in the baby.’

Minchin is an advocate of the World Health Organisation’s recommendation to breastfeed exclusively to six months and then continue breastfeeding while introducing other foods through the first and second year.

Related: Why the digestive system and its bacteria are a ‘second brain’

So if what babies are fed is important for their microbiome, what about adults? Tim Spector says research into microbes is yielding new information about healthy eating.

‘It’s going to soon revolutionise how we look at food and diet. This is one of the most exciting things in science at the moment, because it’s obviously much easier to change your microbes than it is to change your genes.’

‘Most processed foods only contain about five ingredients, and in a way our epidemic of the last 30 years of obesity and allergy is that our diets have become less and less diverse.’

According to Spector, studies of people with various chronic diseases, obesity and diabetes show a common feature, which is that their gut microbes have a much-reduced diversity compared to healthy people.

He likes to use the analogy of a garden: ‘A neglected garden has very few species, not much fertilised soil, and this allows weeds to take over in great numbers,’ he says.

‘I think this is a nice concept because we’re very good gardeners, humans, and I think we need to start using those principles—fertilising, adding soil, experimenting and avoiding adding nasty toxins to our own bodies as we would our gardens.’

May your gut flora bloom!