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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

UK to make climate risk reports mandatory for large companies (Guardian)

theguardian.com

Larry Elliott, Mon 9 Nov 2020 19.18 GMT. Last modified on Tue 10 Nov 2020 04.37 GMT

St. Paul’s Cathedral and buildings of the City of London financial district are seen as buses cross Waterloo bridge at sunset
Sunak said departure from the EU meant the UK’s financial services sector – which employs more than a million people – was entering a new chapter. Photograph: Toby Melville/Reuters

Large companies and financial institutions in the UK will have to come clean about their exposure to climate risks within five years under the terms of a tougher regime announced by the chancellor, Rishi Sunak.

In an attempt to demonstrate the government’s commitment to tackling global heating, Sunak said the UK would go further than an international taskforce had recommended and make disclosure by large businesses mandatory.

The chancellor also announced plans for Britain’s first green gilt – a bond that will be floated in the financial markets during 2021 with the money raised paying for investment in carbon-reducing projects and the creation of jobs across the country.

In a Commons statement, Sunak said departure from the EU meant the financial services sector – which employs more than a million people – was entering a new chapter.

“This new chapter means putting the full weight of private sector innovation, expertise and capital behind the critical global effort to tackle climate change and protect the environment.

“We’re announcing the UK’s intention to mandate climate disclosures by large companies and financial institutions across our economy, by 2025, going further than recommended by the Task Force on Climate-related Financial Disclosures, and the first G20 country to do so.”

The Treasury said the new disclosure rules and regulations would cover a significant portion of the economy, including listed commercial companies, UK-registered large private companies, banks, building societies, insurance companies, UK-authorised asset managers, life insurers, pension schemes regulated by the Financial Conduct Authority and occupational pension schemes.

The government plans to make Britain a net-zero-carbon country by 2050 and the previous governor of the Bank of England, Mark Carney, told a London conference that the Covid-19 pandemic illustrated the dangers of ill-preparation and of underestimating risks.

Climate change was “a crisis that involves the whole world and from which no one will be able to self-isolate”, Carney said on Monday.

His successor at Threadneedle Street, Andrew Bailey, said the decision to issue a green bond underlined the UK’s commitment to combating climate change – as did Sunak’s announcement that disclosures related to climate change risk would be mandatory by 2025.

Sunak, Carney and Bailey were all speakers at the Green Horizon summit, which took place in London on what would have been the first day of the UN climate change conference in Glasgow had Covid-19 not forced the postponement of the event.

Bailey said: “Our goal is to build a UK financial system resilient to the risks from climate change and supportive of the transition to a net-zero economy. In the aftermath of the financial crisis we took far-reaching action to make the financial system more resilient against crises – Covid is the first real test of those changes.”

Doug Parr, Greenpeace UK’s policy director, said: “Tackling climate change means the corporate sector is not just green round the edges but green right to its core. The chancellor’s plans to make disclosure mandatory for companies is right if the rules are compulsory and thorough. Sign up to the daily Business Today email or follow Guardian Business on Twitter at @BusinessDesk

“The real win would be to make all financial institutions put in place plans to meet the Paris climate agreement by the end of next year, steadily choking off the supply of cash to planet-wrecking activities. Disclosure is a route to making that happen, but not an end in itself.”

Roger Barker, the director of policy and corporate governance at the Institute of Directors, said: “What gets measured gets changed. The problem is there’s a hundred and one different ways of measuring climate impact out there right now. It’s a confusing landscape for companies and investors alike, so bringing in common standards is absolutely the right thing to do.

Fran Boait, the executive director of the campaign group Positive Money, said: “We desperately need more green public investment if we are to have a fair, green transition, so it’s positive that the government has signalled that it is finally taking this more seriously, by issuing green gilts for the first time.”

O que um xamã africano de Burquina Faso vê em um hospital psiquiátrico (WakingTimes)

[Apesar de ter como fonte site que frequentemente publica artigos associados a teorias de conspiração norteamericanas, este artigo é aqui disponibilizado em português em razão de interessantes paralelos entre o pensamento do xamâ burquinabê mencionado no texto e as formas como a doença mental é entendida pelas tradições espiritualistas brasileiras, sejam as comumente denominadas afro-brasileiras, as de matriz indígena e o kardecismo. Tradução do Google Translator.]

Por WakingTimes, 22 de agosto de 2014

Stephanie Marohn com Malidoma Patrice Somé

Dr. Malidoma Somé.
Fonte: kellybroganmd.com

A visão xamânica da doença mental

Na visão xamânica, a doença mental sinaliza “o nascimento de um curador”, explica Malidoma Patrice Somé. Os transtornos mentais são emergências ou crises espirituais, e precisam ser considerados como tal para que o curandeiro seja auxiliado em seu desenvolvimento.

O que os ocidentais veem como doença mental, o povo Dagara considera como “boas notícias do outro mundo”. A pessoa que está passando pela crise foi escolhida como meio para a comunicação de uma mensagem do reino espiritual à comunidade. “Desordem mental, desordem comportamental de todos os tipos, sinalizam o fato de que duas energias obviamente incompatíveis se fundiram no mesmo campo”, diz o Dr. Somé. Esses distúrbios ocorrem quando a pessoa não obtém ajuda para lidar com a presença da energia do reino espiritual.

Uma das coisas que o Dr. Somé encontrou quando veio pela primeira vez aos Estados Unidos, em 1980, para um curso de pós-graduação, foi como o país lida com doenças mentais. Quando um colega estudante foi enviado a um instituto mental devido à “depressão nervosa”, o Dr. Somé foi visitá-lo.

“Fiquei tão chocado. Essa foi a primeira vez que fiquei cara a cara com o que é feito aqui para pessoas que exibem os mesmos sintomas que eu vi em minha aldeia”. O que impressionou o Dr. Somé foi que a atenção dada a esses sintomas era baseada na patologia, na ideia de que o quadro é algo que precisa ser interrompido. Isso estava em total oposição à maneira como sua cultura vê tal situação. Enquanto olhava os pacientes, alguns em camisa de força, dopados com medicamentos ou gritando, ele pensou: “Então é assim que os curadores que estão tentando nascer são tratados nesta cultura. Que perda! É uma lástima que uma pessoa que finalmente está sendo alinhada com um poder do outro mundo está sendo simplesmente desperdiçada”.

Uma forma de dizer isso que pode fazer mais sentido para a mente ocidental é que nós, no Ocidente, não somos ensinados a reconhecer a existência de fenômenos psíquicos, o mundo espiritual, e muito menos treinados em como lidar com ele. Na verdade, há recusa à aceitação da existência das habilidades psíquicas. Quando as energias do mundo espiritual emergem na psique ocidental, o indivíduo se descobre despreparado para integrá-las ou mesmo reconhecer o que está acontecendo. O resultado é, em geral, aterrorizante. Sem o contexto adequado e assistência para lidar com a intrusão de outro nível de realidade, a pessoa acaba sendo considerada mentalmente doente. Drogas antipsicóticas em alta dosagem agravam o problema e evitam a integração que poderia levar ao desenvolvimento e crescimento espiritual do indivíduo que recebeu essas energias.

No hospital psiquiátrico, o Dr. Somé viu muitos “seres” rondando os pacientes, “entidades” que são invisíveis para a maioria das pessoas, mas que os xamãs e médiuns são capazes de ver. “Eles estavam causando as crises naquelas pessoas”, diz ele. Pareceu-lhe que esses seres estavam tentando anular o efeito dos medicamentos nos corpos das pessoas com as quais os seres estavam tentando se fundir, aumentando a dor dos pacientes no processo. “Os seres agiam quase como uma espécie de escavadeira no campo de energia das pessoas. Atuavam com ferocidade. As pessoas sujeitas a seus efeitos apenas gritavam e gritavam”, disse ele. Ele não suportou permanecer naquele ambiente e teve que sair.

Na tradição Dagara, a comunidade ajuda a pessoa a reconciliar as energias de ambos os mundos – “o mundo dos espíritos, com o qual ela está fundida, e a comunidade”. Essa pessoa é então capaz de servir de ponte entre os mundos e ajudar os vivos com as informações e a cura de que precisam. Assim, a crise espiritual termina com o nascimento de um curador. “O relacionamento do outro mundo com o nosso é de apoio e suporte”, explica o Dr. Somé. “Na maioria das vezes, o conhecimento e as habilidades que surgem desse tipo de fusão vêm diretamente do outro mundo”.

Os seres que estavam aumentando a dor dos internos na enfermaria do hospital psiquiátrico estavam, na verdade, tentando se fundir com os internos para transmitir mensagens a este mundo. As pessoas com as quais eles escolheram se unir não estavam sendo assistidas no aprendizado de como serem uma ponte entre os mundos, e as tentativas de comunicação eram ineficazes. O resultado era a manutenção do desequilíbrio energético inicial e a interrupção do processo de nascimento de um curador.

“A cultura ocidental ignorou sistematicamente o nascimento de curadores”, afirma o Dr. Somé. “Consequentemente, o outro mundo continua tentando o maior número de pessoas possível, com o objetivo de chamar a atenção de alguém. Os seres do outro mundo aumentam seus esforços nesse sentido”. Os espíritos são atraídos por pessoas cujos sentidos não foram anestesiados. “A sensitividade é quase entendida como um convite”, observa ele.

Quem desenvolve os chamados transtornos mentais são aqueles que são sensitivos, o que é visto na cultura ocidental como hipersensibilidade. As culturas indígenas não veem as coisas dessa maneira e, como resultado, as pessoas sensitivas não se consideram excessivamente sensíveis. No Ocidente, “é a sobrecarga da cultura em que estão que os está destruindo”, observa o Dr. Somé. O ritmo frenético, o bombardeio dos sentidos e a energia violenta que caracterizam a cultura ocidental podem sobrecarregar pessoas sensitivas.

Esquizofrenia e energias estranhas

Na esquizofrenia, existe uma “receptividade especial a um fluxo de imagens e informações que não pode ser controlado”, afirmou o Dr. Somé. “Quando esse tipo de descarga ocorre em um momento inesperado, e principalmente quando se trata de imagens que são assustadoras e contraditórias, a pessoa passa a ter delírios”.

O que é necessário nesta situação é primeiro separar a energia da pessoa das energias estranhas, usando a prática xamânica (o que é conhecido como uma “varredura”) para limpar a camada externa da aura do indivíduo. Com a limpeza de seu campo de energia, a pessoa não capta mais uma enxurrada de informações e, portanto, não tem mais motivos para se assustar e se perturbar, explica o Dr. Somé.

Então, é possível ajudar a pessoa a se alinhar com a energia do espírito que está tentando vir do outro mundo e dar à luz o curador. O bloqueio dessa emergência é o que cria problemas. “A energia do curador é uma energia de alta voltagem”, observa ele. “Quando está bloqueada, simplesmente queima a pessoa. É como um curto-circuito. Os fusíveis estão queimando. É por isso que pode ser realmente assustador, e eu entendo por que essa cultura prefere confinar essas pessoas. Aqui eles estão gritando e gritando, e são colocados em camisas de força. Essa é uma imagem triste”. Novamente, a abordagem xamânica é trabalhar no alinhamento das energias para que não haja bloqueio, “fusíveis” não explodam e a pessoa possa se tornar o curador que deve ser.

Deve-se notar, no entanto, que nem todos os seres espirituais que entram no campo energético de uma pessoa estão lá com o propósito de promover a cura. Também existem energias negativas, que são presenças indesejáveis ​​na aura. Nesses casos, a abordagem xamânica é removê-los da aura, ao invés de trabalhar para alinhar as energias discordantes.

Alex: louco nos Estados Unidos, curador na África

Para testar sua crença de que a visão xamânica da doença mental é válida tanto no mundo ocidental quanto nas culturas indígenas, o Dr. Somé levou um paciente mental de volta para a África com ele, para sua aldeia. “Fui instigado por minha própria curiosidade a tentar descobrir se há verdade na universalidade de que a doença mental pode estar conectada a um alinhamento com um ser de outro mundo”, diz o Dr. Somé.

Alex era um americano de 18 anos que sofreu um surto psicótico quando tinha 14. Ele teve alucinações, era suicida e passou por ciclos severos de depressão. Ele estava em um hospital psiquiátrico e havia recebido muitos medicamentos, mas nada estava ajudando. “Os pais fizeram tudo – sem sucesso”, diz o Dr. Somé. “Eles não sabiam mais o que fazer.”

Com a permissão deles, o Dr. Somé levou seu filho para a África. “Depois de oito meses lá, Alex havia voltado a ser praticamente normal”, disse o Dr. Somé. “Ele foi capaz até de participar com curadores em atividades de cura; sentar com eles o dia todo e ajudá-los, auxiliando-os no que eles estavam fazendo com seus clientes… Ele passou cerca de quatro anos na minha aldeia”. Alex ficou por escolha própria, não porque precisava de mais cura. Ele se sentiu “muito mais seguro na aldeia do que nos Estados Unidos”.

Para alinhar sua energia e a do ser do reino espiritual, Alex passou por um ritual xamânico específico para casos como o dele, embora um pouco diferente daquele usado com o povo Dagara. “Ele não nasceu na aldeia, então outra coisa era necessária. Mas o resultado foi semelhante, mesmo que o ritual não fosse literalmente o mesmo”, explica o Dr. Somé. O fato de que o alinhamento de energias funcionou para curar Alex demonstrou ao Dr. Somé que a conexão entre seres espirituais e a doença mental é realmente universal.

Após o ritual, Alex começou a compartilhar as mensagens que o espírito comm o qual estava vinculado tinha para este mundo. Infelizmente, as pessoas com quem ele estava falando não falavam inglês (o Dr. Somé estava ausente naquele momento). A experiência levou, no entanto, Alex a ir para a faculdade estudar psicologia. Ele voltou para os Estados Unidos depois de quatro anos porque “ele descobriu que todas as coisas que ele precisava fazer foram feitas e ele poderia seguir em frente com sua vida”.

A última coisa que o Dr. Somé ouviu foi que Alex estava fazendo pós-graduação em psicologia em Harvard. Ninguém pensava que ele jamais seria capaz de concluir os estudos de graduação, muito menos obter um diploma de pós-graduação.

O Dr. Somé resume do que se tratava a doença mental de Alex: “Ele estava estendendo a mão. Foi uma chamada de emergência. Seu trabalho e propósito era ser um curador. Ele disse que ninguém estava prestando atenção nisso”.

Depois de ver como a abordagem xamânica funcionou bem para Alex, Dr. Somé concluiu que os seres espirituais são um problema tanto no Ocidente quanto em sua comunidade na África. “Mas a questão ainda permanece, a resposta para este problema deve ser encontrada aqui, em vez de ter que ir até o exterior para buscar a resposta. Tem que haver um caminho pelo qual um pouco de atenção além da patologia de toda essa experiência conduza à possibilidade de inventar o ritual adequado para ajudar as pessoas”.

Desejo de conexão espiritual

Um traço comum que o Dr. Somé notou nos transtornos “mentais” no Ocidente é “uma energia ancestral muito antiga que foi paralisada, e que finalmente está desabrochando na pessoa”. Seu trabalho, então, é rastreá-lo, voltar no tempo para descobrir o que é esse espírito. Na maioria dos casos, o espírito está ligado à natureza, principalmente com montanhas ou grandes rios, diz ele.

No caso das montanhas, a título de exemplo para explicar o fenômeno, “é um espírito da montanha que caminha lado a lado com a pessoa e, como resultado, cria uma distorção no espaço-tempo que está afetando a pessoa presa nela”. O que é necessário é uma fusão ou alinhamento das duas energias, “para que a pessoa e o espírito da montanha se tornem um”. Novamente, o xamã conduz um ritual específico para trazer esse alinhamento.

O Dr. Somé acredita que se depara com essa situação com frequência nos Estados Unidos porque “a maior parte da estrutura deste país é feita da energia da máquina, e o resultado disso é a desconexão e o rompimento do passado. Você pode fugir do passado, mas não pode se esconder dele”. O espírito ancestral do mundo natural vem nos visitar. “Não é tanto o que o espírito deseja, mas sim o que a pessoa deseja”, diz ele. “O espírito vê em nós um chamado para algo grandioso, algo que dê sentido à vida, e então o espírito está respondendo a isso.”

Essa chamada, que nem sabemos que estamos fazendo, reflete “um forte desejo por uma conexão profunda, uma conexão que transcende o materialismo e a posse de coisas e se move para uma dimensão cósmica tangível. A maior parte desse desejo é inconsciente, mas para os espíritos, consciente ou inconsciente não faz diferença”. Eles respondem a qualquer um.

Como parte do ritual de fusão da energia da montanha e humana, aqueles que estão recebendo a “energia da montanha” são enviados para uma área montanhosa de sua escolha, onde pegam uma pedra que os chama. Eles trazem aquela pedra de volta para o resto do ritual e a mantêm como uma companhia; alguns até carregam consigo. “A presença da pedra ajuda muito a sintonizar a capacidade perceptiva da pessoa”, observa o Dr. Somé. “Eles recebem todos os tipos de informações que podem usar, então é como se eles obtivessem alguma orientação tangível do outro mundo sobre como viver suas vidas”.

Quando é a “energia do rio”, os chamados vão ao rio e, depois de falar com o espírito do rio, encontram uma pedra d’água para trazer de volta para o mesmo tipo de ritual do espírito da montanha.

“As pessoas pensam que algo extraordinário deve ser feito em uma situação extraordinária como essa”, diz ele. Normalmente não é esse o caso. Às vezes, é tão simples quanto carregar uma pedra.

Uma abordagem ritual sagrada para doenças mentais

Uma das contribuições que um xamã pode trazer ao mundo ocidental é ajudar as pessoas a redescobrir os rituais, que infelizmente está faltando. “O abandono do ritual pode ser devastador. Do ponto de vista espiritual, o ritual é inevitável e necessário se quisermos viver”, escreve o Dr. Somé em Ritual: Power, Healing and Community. “Dizer que o ritual é necessário no mundo industrializado é um eufemismo. Vimos em meu próprio povo que provavelmente é impossível viver uma vida sã sem ele”.

O Dr. Somé não acreditava que os rituais de sua aldeia tradicional poderiam simplesmente ser transferidos para o Ocidente, então, ao longo de seus anos de trabalho xamânico aqui, ele projetou rituais que atendem às necessidades muito diferentes dessa cultura. Embora os rituais mudem de acordo com o indivíduo ou grupo envolvido, ele acha que há necessidade de certos rituais em geral.

Um deles envolve ajudar as pessoas a descobrirem que sua angústia vem do fato de serem “chamadas por seres do outro mundo para cooperar com elas na realização do trabalho de cura”. O ritual permite que eles saiam da angústia e aceitem esse chamado.

Outra necessidade ritual está relacionada à iniciação. Nas culturas indígenas de todo o mundo, os jovens são iniciados na idade adulta quando atingem uma certa idade. A falta dessa iniciação no Ocidente é parte da crise em que as pessoas estão aqui, diz o Dr. Somé. Ele exorta as comunidades a reunir “os poderes criativos de pessoas que tiveram esse tipo de experiência, em uma tentativa de chegar a algum tipo de ritual alternativo que pelo menos comece a diminuir esse tipo de crise”.

Com muito cuidado, fala sobre as necessidades daqueles que vêm a ele em busca de ajuda envolve fazer uma fogueira e, em seguida, colocar na fogueira “itens que simbolizam questões carregadas dentro dos indivíduos. . . Podem ser questões de raiva e frustração contra um ancestral que deixou um legado de assassinato e escravidão ou qualquer coisa, coisas com as quais o descendente tem que conviver ”, explica ele. “Se essas coisas forem abordadas como coisas que estão bloqueando a imaginação humana, o propósito de vida da pessoa e até mesmo a visão da vida da pessoa como algo que pode melhorar, então faz sentido começar a pensar em termos de como transformar esse bloqueio em uma estrada que pode levar a algo mais criativo e mais gratificante. ”

O exemplo de problemas com ancestrais está ligado aos rituais elaborados pelo Dr. Somé que tratam de uma disfunção séria na sociedade ocidental e no processo “desencadeiam a iluminação” nos participantes. Esses são rituais ancestrais, e a disfunção a que se destinam é o abandono em massa do culto dos ancestrais. Alguns dos espíritos que tentam se comunicar, conforme descrito anteriormente, podem ser “ancestrais que desejam se fundir com um descendente na tentativa de curar o que não foram capazes de fazer enquanto estavam em seu corpo físico.”

“A menos que a relação entre os vivos e os mortos esteja em equilíbrio, o caos se instala”, diz ele. “Os Dagara acreditam que, se tal desequilíbrio existe, é dever dos vivos curar seus ancestrais. Se esses ancestrais não forem curados, sua energia doentia assombrará a alma e a psique daqueles que são responsáveis ​​por ajudá-los”. Os rituais se concentram em curar o relacionamento com nossos ancestrais, tanto em questões específicas de um ancestral individual quanto em questões culturais mais amplas contidas em nosso passado. O Dr. Somé viu curas extraordinárias ocorrerem nesses rituais.

Adotar uma abordagem ritual sagrada para a doença mental em vez de considerar a pessoa como um caso patológico dá à pessoa afetada – e, de fato, à comunidade em geral – a oportunidade de começar a olhar para ela desse ponto de vista também, o que leva a “uma infinidade de oportunidades e iniciativas rituais que podem ser muito, muito benéficas para todos os envolvidos”, afirma. Dr. Somé.

Extraído de: The Natural Medicine Guide to Schizophrenia (Capítulo 9) e The Natural Medicine Guide to Bipolar Disorder (Capítulo 10). Stephanie Marohn.

Isenção de responsabilidade: as informações neste artigo não se destinam a substituir os cuidados médicos. Você precisa consultar seu médico sobre qualquer alteração em sua medicação. O autor e a editora se isentam de qualquer responsabilidade sobre como você opta por empregar as informações contidas neste livro e o resultado ou consequências de qualquer um dos tratamentos cobertos.

Geoengenharia solar não deve ser descartada, segundo cientistas (TecMundo)

03/11/2020 às 19:00 3 min de leitura

Imagem de: Geoengenharia solar não deve ser descartada, segundo cientistas

Reinaldo Zaruvni

Antes encaradas com desconfiança pela comunidade científica, as metodologias de intervenção artificial no meio ambiente com o objetivo de frear os efeitos devastadores do aquecimento global estão sendo consideradas agora como recursos a serem aplicados em última instância (já que iniciativas para reduzir a emissão de gases dependem diretamente da ação coletiva e demandam décadas para que tenham algum tipo de efeito benéfico). É possível que não tenhamos esse tempo, de acordo com alguns pesquisadores da área, os quais têm atraído investimentos e muita atenção.

Fazendo parte de um campo também referenciado como geoengenharia solar, grande parte dos métodos se vale da emissão controlada de partículas na atmosfera, responsáveis por barrar a energia recebida pelo nosso planeta e direcioná-la novamente ao espaço, criando uma espécie de resfriamento semelhante ao gerado por erupções vulcânicas.

Ainda que não atuem sobre a poluição, por exemplo, cientistas consideram que, diante de tempestades cada vez mais agressivas, tornados de fogo, inundações e outros desastres naturais, tais ações seriam interessantes enquanto soluções mais eficazes não são desenvolvidas.

Diretor do Sabin Center for Climate Change Law, na Columbia Law School, e editor de um livro sobre a tecnologia e suas implicações legais, Michael Gerrard exemplificou a situação em entrevista ao The New York Times: “Estamos enfrentando uma ameaça existencial. Por isso, é necessário que analisemos todas as opções”.

“Gosto de comparar a geoengenharia a uma quimioterapia para o planeta: se todo o resto estiver falhando, resta apenas tentar”, ele defendeu.

Desastres naturais ocasionados pelo aquecimento global tornam intervenções urgentes, defendem pesquisadores.

Desastres naturais ocasionados pelo aquecimento global tornam urgente a ação de intervenções, segundo pesquisadores. Fonte:  Unsplash 

Dois pesos e duas medidas

Entre aquelas que se destacam, pode ser citada a ação empreendida por uma organização não governamental chamada SilverLining, que concedeu US$ 3 milhões a diversas universidades e outras instituições para que se dediquem à busca de respostas para questões práticas. Um exemplo é encontrar a altitude ideal para a aplicação de aerossóis e como inserir a quantidade mais indicada, verificando seus efeitos sobre a cadeia de produção de alimentos mundial.

Chris Sacca, cofundador da Lowercarbon Capital, um grupo de investimentos que é um dos financiadores da SilverLining, declarou em tom alarmista: “A descarbonização é necessária, mas vai demorar 20 anos ou mais para que ocorra. Se não explorarmos intervenções climáticas como a reflexão solar neste momento, condenaremos um número incontável de vidas, espécies e ecossistemas ao calor”.

Outra contemplada por somas substanciais foi a National Oceanic and Atmospheric Administration, que recebeu do congresso norte-americano US$ 4 milhões justamente para o desenvolvimento de tecnologias do tipo, assim como o monitoramento de uso secreto de tais soluções por outros países.

Douglas MacMartin, pesquisador de Engenharia Mecânica e aeroespacial na Universidade Cornell, afirmou que “é certo o poder da humanidade de resfriar as coisas, mas o que não está claro é o que vem a seguir”.

Se, por um lado, planeta pode ser resfriado artificialmente, por outro não se sabe o que virá.

Se, por um lado, o planeta pode ser resfriado artificialmente; por outro, não se sabe o que virá. Fonte:  Unsplash 

Existe uma maneira

Para esclarecer as possíveis consequências de intervenções dessa magnitude, MacMartin desenvolverá modelos de efeitos climáticos específicos oriundos da injeção de aerossóis na atmosfera acima de diferentes partes do globo e altitudes. “Dependendo de onde você colocar [a substância], terá efeitos diferentes nas monções na Ásia e no gelo marinho do Ártico“, ele apontou.

O Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado, financiado também pela SilverLining, acredita ter o sistema ideal para isso — o qual é considerado o mais sofisticado do mundo. Com ele, serão executadas centenas de simulações e, assim, especialistas procurarão o que chamam de ponto ideal, no qual a quantidade de resfriamento artificial que pode reduzir eventos climáticos extremos não cause mudanças mais amplas nos padrões regionais de precipitação ou impactos semelhantes.

“Existe uma maneira, pelo menos em nosso modelo de mundo, de ver se podemos alcançar um sem acionar demais o outro?” questionou Jean-François Lamarque, diretor do laboratório de Clima e Dinâmica Global da instituição. Ainda não há resposta para essa dúvida, mas soluções sustentáveis estão sendo analisadas por pesquisadores australianos, que utilizariam a emissão de água salgada para tornar nuvens mais reflexivas, assim indicando resultados promissores de testes.

Dessa maneira, quem sabe as perdas de corais de recife que testemunhamos tenham data para acabar. Quanto ao resto, bem, só o tempo mostrará.

Ruínas que estavam debaixo d’água há décadas agora podem ser vistas no interior de SP (G1)

g1.globo.com

6 de novembro de 2020


Lago formado durante a inundação para a construção de uma usina hidrelétrica secou devido à forte estiagem.
Estiagem revela construções que estavam submersas há décadas no interior de São Paulo

Vídeo

Estiagem revela construções que estavam submersas há décadas no interior de São Paulo

A estiagem prolongada no interior de São Paulo secou o lago de uma usina hidrelétrica. E revelou uma história encoberta há décadas.

Depois de quase 50 anos embaixo d’água, a ponte da antiga estrada Boiadeira reapareceu no meio do Rio Grande, interior de São Paulo. A estrutura construída com cascalho e madeira na década de 1950 era usada pelas comitivas para levar gado de Minas Gerais até Barretos. Mas em 1975 toda a área em volta foi alagada para a construção do reservatório da usina hidrelétrica de Marimbondo. Desde então, a ponte não foi mais vista.

“Eu não estou vendo o canal do rio, do córrego, dois, três córregos que descem e passam pela ponte. Nós pescávamos ali, pegava peixe grande que vinha do rio, hoje só vê areia”, conta o aposentado Cláudio Geraldelli.

O nível do reservatório chegou a 6,72% no último fim de semana, o pior dos últimos 17 anos e um dos mais críticos do país. Seu Cláudio mostra as redes de pesca que ficaram presas em troncos, até pouco tempo escondidos embaixo d´água.

Por causa do longo período de estiagem a margem do rio recuou mais de um quilômetro. Com isso, ruínas de casas antigas começaram a aparecer no meio da paisagem. Uma era a piscina de uma fazenda que também foi completamente alagada pelo reservatório da usina hidrelétrica, e estava submersa. No chão, muitos tijolos e partes da construção que resistiram a tanto tempo embaixo d’água.

Por toda a margem do rio, são encontradas fundações de casas, paredes, chaminé, blocos de concreto. Restos de construções que faziam parte do município de Guaraci, que está entre as oito cidades que tiveram áreas alagadas pelo Reservatório de Marimbondo, um dos maiores do estado de São Paulo, com quase 500km2 de extensão.

Além de fazer ressurgir um pedaço dessa história, a seca tem trazido prejuízo para quem vive do rio. As embarcações flutuantes usadas por pescadores, que até pouco tempo boiavam no Rio Grande, agora estão em terra seca.

“Depois que inundou isso aqui, é a primeira vez que tem essa seca. Se esse rio continuar como está, provavelmente a gente vai ter que ir embora daqui, porque você não consegue nada, não tem renda do rio”, lamenta o pescador José Antônio Siqueira.

Quem gosta tanto de navegar por essas águas espera que a natureza possa trazer de volta aquela paisagem bonita do Rio Grande.

“A esperança é chuva. Tem que chover bastante para que a represa volte ao normal dela. Aí fica bom para todo mundo”, diz Devaldo Mathias de Menezes, pescador.

ONS: outubro de 2020 é o mais seco em série histórica de 90 anos (Canal Energia)

canalenergia.com.br

Maurício Godoi, da Agência CanalEnergia, de São Paulo (SP)

30 de outubro de 2020


ENA (Energia Natural Afluente) para o mês no Norte foi a terceira pior, no Nordeste a segunda mais baixa do histórico e no Sudeste a pior da história desde o início do monitoramento

O mês de outubro foi o pior em termos de afluências em todo o histórico de 90 anos no Brasil. Foi assim que o Operador Nacional do Sistema Elétrico definiu as afluências do período que se encerra neste sábado, 31 de outubro.

Em três submercados de um total de quatro a energia natural afluente esteve nos primeiros lugares desse incômodo ranking para a geração de energia elétrica. No Sul, a ENA ficou em 21% da média de longo termo, a segunda pior. Mas está no Sudeste/Centro-Oeste o maior problema, em 90 anos esse foi o pior mês em termos de vazões com apenas 53% da média nesse período. O Norte fechou o pódio com o terceiro pior mês do histórico daquela região com 58% da média.

Os dados foram apresentados nesta sexta-feira, 30 de outubro, no segundo dia da reunião para o Programa Mensal de Operação de novembro, mês que inaugura de forma oficial o período úmido 2020/2021.

Para o período, a estimativa inicial do ONS é de que o maior índice de ENA seja verificado no Norte, com 97% da média de longo termo. Depois vem SE/CO com 75% da média histórica, com destaque para a bacia do Tietê que deverá registrar 99% da MLT em novembro. No NE é esperado 67% e no Sul a situação continua pressionada com a previsão do pior nível para um mês de novembro em 90 anos com 28% da média. A previsão é de encerrar novembro com a bacia do rio Iguaçu quase zerada.

Ao mesmo tempo é estimado um crescimento de 2,7% na carga de novembro quando comparado ao mesmo período do ano passado. Há previsão de expansão do consumo em todas as regiões, no Norte 7,4%, 2,7% no SE/CO, 1,9% no Sul e 1,4% no NE. Se as previsões se confirmarem, a demanda ficará em 71.041 MW médios.

O movimento de deplecionamento de reservatórios continua. O destaque está no Sul que poderá perder mais da metade do nível atual, já baixo, e encerrar novembro com apenas 11,5% em todo o subsistema. No SE/CO a previsão é de recuo de 3,7 pontos porcentuais, para 20% do armazenamento máximo. No Norte recuará de 30,4% para 26,8% e no NE está o mais elevado com 45,4% ao final de novembro ante o volume de 56,5% verificado nesta sexta-feira.

Como consequência, o custo marginal de operação médio continua descolado entre o NE que recuou a R$ 150,54 e os demais, que aumentaram a R$ 368,03/MWh. Nesses, o valor da carga pesada está em R$ 378,24, a média a R$ 376,07 e a leve a R$ 360,96/MWh. O valor da carga pesada no NE é menos da metade da leve no restante do país, está em R$ 168,58, a média a R$ 147,32 e a leve a R$ 146,01/MWh.

O que não mudou significativamente é a previsão de despacho térmico que está em 10.282 MW médios, sendo 6.377 MW médios por inflexibildade, 3.718 MW médios por ordem de mérito e 187 MW médios por restrição elétrica. Apesar do comando da geração fora da ordem de mérito autorizada pelo CMSE, o documento do ONS não traz essa informação.

Inteligência artificial já imita Guimarães Rosa e pode mudar nossa forma de pensar (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Hermano Vianna Antropólogo, escreve no blog hermanovianna.wordpress.com

22 de agosto de 2020


[resumo] Espantado com as proezas de tecnologias capazes de produzir textos, até mesmo criando propostas a partir de frase de Guimarães Rosa, antropólogo analisa os impactos gerados pela inteligência artificial, aponta dilemas éticos relativos a seu uso, teme pelo aumento da dependência em relação aos países produtores de softwares e almeja que as novas práticas façam florescer no Brasil modos mais diversos e colaborativos de pensar.

GPT-3 é o nome da nova estrela da busca por IA (inteligência artificial). Foi lançado em maio deste ano pela OpenAI, companhia que vai completar cinco anos desde sua fundação bilionária financiada por, entre outros, Elon Musk.

Até agora, o acesso a sua já lendária gigacapacidade de geração de textos surpreendentes, sobre qualquer assunto, é privilégio de pouca gente rica e poderosa. Há, contudo, atalhos divertidos para pobres mortais: um deles é o jogo “AI Dungeon” (masmorra de IA), criação de um estudante mórmon, que desde julho funciona com combustível GPT-3.

O objetivo dos jogadores é criar obras literárias de ficção com ajuda desse modelo de IA. A linguagem de partida é o inglês, mas usei português, e o bichinho teve jogo de cintura admirável para driblar minha pegadinha.

Fui até mais implicante. Não usei apenas português, usei Guimarães Rosa. Copiei e colei, da primeira página de “Grande Sertão: Veredas”: “Alvejei mira em árvore, no quintal, no baixo do córrego”. O “AI Dungeon”, que até aquele ponto estava falando inglês, pegou a deixa e continuou assim: “Uma fogueira crepitante brinca e lambiça em torno de um lindo carvalho”.

Tudo bem, Rosa nunca escreveria essa frase. Fiz uma busca: crepitar não aparece em nenhum momento de “Grande Sertão: Veredas”, e carvalho não costuma ser vizinho de buritis. Porém, o GPT-3 entendeu que precisava mudar de língua para jogar comigo e resolveu arriscar: uma fogueira não fica deslocada no meu quintal, ainda mais uma fogueira brincante. E fez o favor de confundir Rosa com James Joyce, inventando o verbo lambiçar, que meu corretor ortográfico não reconhece, talvez para sugerir uma lambida caprichada ou sutilmente gulosa.

Fiquei espantado. Não é todo dia que recebo uma resposta tão desconcertante. Fiz outra busca, aproveitando os serviços do Google: não há registro da frase completa que o “AI Dungeon” propôs. Foi realmente uma criação original. Uma criação “bem criativa”.

(E testei Joyce também: quando inseri, de “Ulysses”, sampleado igualmente de sua primeira página, “Introibo ad altare Dei”, o jogo foi apenas um pouco menos surpreendente, mandou de volta a tradução do latim para o inglês.)

Originalidade. Criatividade. A combinação disso tudo parece mesmo atributo de um ser inteligente, que tem consciência do que está fazendo ou pensando.

Pelo que entendo, já que minha pouca inteligência não é muito treinada nessa matéria, o GPT-3, certamente o mais parrudo modelo de geração artificial de textos com intenção de pé e cabeça, tem uma maneira muito especial de pensar, que não sou capaz de diferenciar daquilo que acontece entre nossos neurônios: seu método é estatístico, probabilístico.

Está fundamentado na análise de uma quantidade avassaladora de textos, quase tudo que existe na internet, em várias línguas, inclusive linguagens de computador. Sua estratégia mais simples, e certamente estou simplificando muito, é identificar quais palavras costumam aparecer com mais frequência depois de outras. Assim, em suas respostas, chuta o que no seu “pensamento” parecem ser as respostas mais “prováveis”.

Claro que não “sabe” do que está falando. Talvez, no meu teste Rosa, se tivesse escrito peixe, no lugar do carvalho poderia surgir um “lindo tubarão”; e isso não significaria que essa IA entenda profundamente a distinção peixe-árvore.

Mas qual profundidade o entendimento precisa atingir para ser reconhecido como verdadeiramente inteligente? E o chute não é, afinal, uma característica corriqueira dos artifícios da nossa IA? Não estou chutando aqui descaradamente, falando daquilo que não domino, ou não entendo?

Não estou escrevendo isto para tentar definir o que é inteligência ou consciência; melhor voltarmos a um território mais concreto: a probabilidade. Há algo de inusitado em uma fogueira que brinca. Não deve ser tão comum assim essa associação de ideias ou palavras, mas árvore remeter a carvalho deve indicar um treinamento de “machine learning” (aprendizado de máquina) que não aconteceu no Brasil.

Outros “pés de quê” são por aqui estatisticamente mais prováveis de despontarem em nossas memórias “nacionais” quando penetram no reino vegetal. Estou pensando, é claro, em tema bem batido do debate sobre IA: o “bias”, ou viés, inevitável em seus modelos, consequência dos dados que alimentaram seu aprendizado, não importa quão “deep learning” (aprendizagem profunda) tenha sido.
São conhecidos os exemplos mais preconceituosos, como o da IA de identificação de fotos que classificou pessoas negras como gorilas, pois no seu treinamento a quase totalidade dos seres humanos que “viu” era gente branca. Problema dos bancos de dados? É preciso ir mais “deep”.

Então, lembro-me do primeiro artigo assinado por Kai Fu Lee, empresário baseado na China, que li no jornal The New York Times. Resumo: na corrida pela IA, EUA e China ocupam as primeiras posições, muito na frente dos demais países. Poucas grandes companhias serão vencedoras.

Cada avanço exige muitos recursos, inclusive energéticos tradicionais, vide o consumo insustentável de eletricidade para o GPT-3 aprender a “lambiçar”. Muitos empregos vão sumir. Todo o mundo precisará de algo como “renda universal”. De onde virá o dinheiro?

Resposta assustadora de Kai Fu Lee, em tradução do Google Translator, sem minhas correções: “Portanto, se a maioria dos países não for capaz de tributar a IA ultra-lucrativa, empresas para subsidiar seus trabalhadores, que opções eles terão? Prevejo apenas um: a menos que desejem mergulhar seu povo na pobreza, serão forçados a negociar com o país que fornecer a maior parte de seu IA software —China ou Estados Unidos— para se tornar essencialmente dependente econômico desse país, recebendo subsídios de bem-estar em troca de deixar a nação ‘mãe’ IA. as empresas continuam lucrando com os usuários do país dependente. Tais arranjos econômicos remodelariam as alianças geopolíticas de hoje”.

Apesar dos muitos erros, a conclusão é bem compreensível: uma nova teoria da dependência. Eis o pós-colonialismo, ou o cibercolonialismo, como destino inevitável para a humanidade?

Isso sem tocar em algo central no pacote a ser negociado: a colônia se submeterá também ao conjunto de “bias” da “nação ‘mãe’ IA”. Prepare-se: florestas de carvalho, sem buritis.

Recentemente, mas antes do “hype” do GPT-3, o mesmo Kai Fu Lee virou notícia dando nota B- para a atuação da IA durante a pandemia. Ele passou sua quarentena em Pequim. Diz que entregadores de suas compras foram sempre robôs —e, pelo que vi na temporada 2019 do Expresso Futuro, gravada por Ronaldo Lemos e companhia na China, eu acredito.

Ficou decepcionado, todavia, com a falta de protagonismo do “machine learning” no desenvolvimento de vacinas e tratamentos. Eu, com minha ousadia pouco preparada, chutaria nota semelhante, talvez C+, para seguir o viés universidade americana.

Aplaudi, por exemplo, quando a IBM liberou os serviços do Watson para organizações em seu combate contra o coronavírus. Ou quando empresas gigantes, como Google e Amazon, proibiram o uso de suas tecnologias de reconhecimento facial depois das manifestações antirracistas pelo mundo todo.

No entanto, empresas menores, com IAs de vigilância não menos potentes, aproveitaram a falta de concorrência para aumentar sua clientela. E vimos como os aplicativos de rastreamento de contatos e contaminações anunciam a transparência totalitária de todos os nossos movimentos, através de algoritmos que já tornaram obsoletas antigas noções de privacidade.

Tudo bem assustador, para quem defende princípios democráticos. Contudo, nem o Estado mais autoritário terá garantia de controle de seus próprios segredos.

Esses problemas são reconhecidos por toda a comunidade de desenvolvedores de IA. Há muitos grupos —como The Partnership on AI, que inclui da OpenAI a Electronic Frontier Foundation— que se dedicam há anos ao debate sobre as questões éticas do uso da inteligência artificial.

Debate extremamente complexo e cheio de becos perigosos, como demonstra a trajetória de Mustafa Suleyman, uma das personalidades mais fascinantes do século 21. Ele foi um dos três fundadores da DeepMind, a empresa britânica, depois comprada pelo Google, que criou aquela IA famosa que venceu o campeão mundial de Go, jogo de tabuleiro criado na China há mais de 2.500 anos.

As biografias do trio poderiam inspirar filmes ou séries. Demis Hassabis tem pai grego-cipriota e mãe de Singapura; Shane Legg nasceu no norte da Nova Zelândia; e Mustafa Suleyman é filho de sírio taxista imigrante em Londres.

A história de Suleyman pré-DeepMind é curiosa: enquanto estudava na Universidade de Oxford, montou um serviço telefônico para cuidar da saúde mental de jovens muçulmanos. Depois foi consultor para resolução de conflitos. No mundo da IA —hoje cuida de “policy” no Google— nunca teve papas na língua. Procure por suas palestras e entrevistas no YouTube: sempre tocou em todas as feridas, como se fosse crítico de fora, mas com lugar de fala do centro mais poderoso.

Gosto especialmente de sua palestra na Royal Society, com seu estilo pós-punk e apresentado pela princesa Ana. Mesmo assim, com toda sua consciência política muito clara e preocupações éticas que me parecem muito sinceras, Mustafa Suleyman se viu metido em um escândalo que envolve a acusação de uso sem autorização de dados de pacientes do NHS (serviço britânico de saúde pública) para desenvolvimento de aplicativos que pretendiam ajudar a monitorar doentes hospitalares em estado crítico.

Foram muitas as explicações da DeepMind, do Google e do NHS. Exemplo de problemas com os quais vamos viver cada vez mais e que precisam de novos marcos regulatórios para determinar que algoritmos podem se meter com nossas vidas —e, sobretudo, quem vai entender o que pode um algoritmo e o que pode a empresa dona desse algoritmo.

Uma coisa já aprendi, pensando nesse tipo de problema: diversidade não é importante apenas nos bancos de dados usados em processos de “machine learning”, mas também nas maneiras de cada IA “pensar” e nos sistemas de segurança para auditar os algoritmos que moldam esses pensamentos.

Essa necessidade tem sido mais bem explorada nas experiências que reúnem desenvolvedores de IA e artistas. Acompanho com enorme interesse o trabalho de Kenric Mc Dowell, que cuida da aproximação de artistas com os laboratórios de “machine learning” do Google.

Seus trabalhos mais recentes investem na possibilidade de existência de inteligências não humanas e na busca de colaboração entre tipos diferentes de inteligências e modos de pensar, incluindo a inspiração nas cosmotécnicas do filósofo chinês Yuk Hui, que andou pela Paraíba e pelo Rio de Janeiro no ano passado.

Na mesma trilha, sigo a evolução da prática em artes e robótica de Ken Goldberg, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Ele publicou um artigo no Wall Street Journal em 2017 defendendo a ideia que se tornou meu lema atual: esqueçam a singularidade, viva a multiplicidade.

Através de Ken Goldberg também aprendi o que é floresta randômica (“random forest”), método de “machine learning” que usa não apenas um algoritmo, mas uma mata atlântica de algoritmos, de preferência cada um pensando de um jeito, com decisões tomadas em conjunto, procurando, assim, entre outras vantagens, evitar vieses “individuais”.

Minha utopia desesperada de Brasil: que a “random forest” seja aqui cada vez mais verdejante. Com desenvolvimento de outras IAs, ou IAs realmente outras. Inteligências artificiais antropófagas. GPTs-n ao infinito, capazes de pensar nas 200 línguas indígenas que existem/resistem por aqui. Chatbots que façam rap com sotaque tecnobrega paraense, anunciando as fórmulas para resolução de todos os problemas alimentares da humanidade.

Inteligência não nos falta. Inteligência como a da jovem engenheira Marianne Linhares, que saiu da graduação da Universidade Federal de Campina Grande e foi direto para a DeepMind de Londres.

Em outro mundo possível, poderia continuar por aqui, colaborando com o pessoal de “machine learning” da UFPB (e via Github com o mundo todo), talvez inventando uma IA que realmente entenda a literatura de Guimarães Rosa. Ou que possa responder à pergunta de Meu Tio o Iauaretê, ”você sabe o que onça pensa?”, pensando igual a uma onça. Bom. Bonito.

Ailton Krenak: Receber sonhos (Teoria e Debate)

teoriaedebate.org.br

EDIÇÃO 07 – 06/07/1989 – Alipio Freire e Eugênio Bucci


Remanescentes de uma guerra de extermínio que quase os dizimou ao longo de cinco séculos, os índios brasileiros agora comparecem à sociedade civil brasileira representados por uma nova geração. Ailton Krenak é dessa geração. Com habilidade, inteligência, é capaz de articular alianças e desenvolver políticas inéditas. Ao mesmo tempo, é um ser humano como poucos, que conversa com sua tradição por meio dos sonhos e que sonha com o futuro dos seus netos

Entrevistar Ailton, índio da tribo krenak, 35 anos, é uma experiência definitiva. Ele é um sábio, e há poucos sábios entre nós. Parece que Ailton Krenak conhece, de tempos imemoriais, os segredos mais ancestrais que a cultura dos brancos depois sistematizou, dissecou, ordenou à guisa de interpretação. “Eu não interpreto sonhos, eu recebo sonhos”, diz o índio para quem os sonhos não carecem ser “decifrados”, não precisam passar por leituras que a razão da modernidade precisou de tanta ciência para estruturar.

A sabedoria de Ailton Krenak exerce o fascínio que a natureza pode exercer e que nada tem a ver com a tentação do exótico que é a única atração que, em geral, as pessoas de boa vontade sentem em relação aos índios. É um fascínio necessário do curso natural da vida, um fascínio que encontra ressonância no íntimo de cada ser humano. A sabedoria de Ailton Krenak está contida na atuação política da UNI (União das Nações Indígenas), que ele dirige, cuja intervenção política é hoje decisiva não apenas para os povos indígenas mas para o conjunto da sociedade civil brasileira. No bairro das Perdizes, na cidade de São Paulo, ele falou, ao longo de três horas, para Teoria & Debate, instalado em sua mesa no escritório da UNI, sediado no prédio da Sedes Sapientiae. A leitura desta entrevista, é nossa intenção, deve passar a mesma sensação que nos captou ao fazê-la: uma experiência definitiva. Isso vale tanto para a política que se pense para os índios brasileiros, que deve ser imaginada a partir da formulação de Ailton Krenak – “o ser humano não se preserva, o ser humano se respeita”-, como vale para o que se espera do futuro, para o que se guarda da memória, para o que se vive da vida.

Então, Krenak, quem é você?
Eu sou Ailton Krenak. Sou filho de uma pequena tribo originária da região do Vale do Rio Doce. Nosso território tradicional se estende do litoral do Espírito Santo até entrar um pouco no sertão de Minas. Neste século XX, nós tivemos uma reserva delimitada pelo governo brasileiro. Os vários grupos do povo Krenak foram presos nessa reserva em 1922. Eu nasci em 1953; então, já sou filho da geração dos Krenak do cativeiro. Os Krenak livres viveram até 1922.

Como você saiu da tribo?
Eu saí da minha região com dezessete para dezoito anos, com meu grupo familiar. Nós atravessamos o Vale do Rio Doce inicialmente com destino à divisa do Paraná com o Paraguai, região do Iguaçu. Partimos no final de 68 para fazer a viagem e paramos na saída de São Paulo. E vários jovens arrumaram serviço na indústria.

Vocês já tinham sido alfabetizados?
Não. Eu só fui alfabetizado depois de adulto. Fiz o que corresponde hoje ao primeiro grau, quando já estava com vinte anos.

Então você não chegou à fronteira com o Paraguai e ficou em São Paulo…
Eu cheguei. Meu povo, o grupo familiar todo é que não foi. Eu continuei a viagem e morei com meus tios, que já estavam lá. Fiquei até o verão de 75, quando voltei para São Paulo. Aí eu fiz aqueles cursos de madureza de primeiro e segundo graus.

Você é uma das pessoas mais importantes da atualidade, no que diz respeito à autonomia dos índios, à questão ecológica, à questão da vida no planeta. Você é considerado uma pessoa que está na linha de frente disso tudo. Como se dá esse seu engajamento? Como você passou a manipular todo o código dos brancos?
E tem o Raoni, né? O Raoni não sabe ler, não sabe escrever; ele fala só algumas palavras em português. No início deste ano, ele foi recebido pelo príncipe Charles em Londres, pelo rei da Espanha em Madri, pelos ministros da Alemanha, do Japão e da Itália, pelo papa no Vaticano, por Mitterrand na França. Discutiu com eles a política de proteção da Amazônia; o Raoni é um sábio do povo indígena. É um sábio caiapó. Eu sou membro de uma geração nova das populações indígenas, que está dando continuidade ao que pessoas como Raoni fizeram. Há uma centena de índios da minha geração que são tão atualizados com relação ao mundo em que vivemos quanto eu. Então, essa minha maneira de intervir na realidade do nosso povo é uma experiência em parte pessoal, mas ela não está se dando, de maneira nenhuma, de forma individual. Eu não assumiria nenhuma dessas atividades que assumo, não estaria realizando esse avanço na minha compreensão do mundo, se não tivesse junto comigo desde os xamãs, os pajés mais tradicionais que nunca saíram da aldeia, até pessoas como Marcos Terena, que é piloto de avião. Entre nós existe muito mais coisas em comum, porque somos da mesma geração e somos índios. Nós sentimos que temos uma responsabilidade muito grande com relação aos novos moradores daqui da América. Eles vieram para cá – em alguns casos – fugidos, escorraçados das suas regiões de origem, desprezando essa terra, e agiram aqui – na maioria das vezes – como estrangeiros. Nós queremos conversar com os novos brasileiros para ver se eles conseguem entender os sinais dessa terra, amar esse lugar, protegê-lo, viver aqui não como quem vive num acampamento.

Gostaria que você resumisse as suas atividades. Quais são?
Hoje, eu coordeno um conselho que reúne 180 tribos: a UNI (União das Nações Indígenas). Esse conselho de tribos é uma aliança entre as várias etnias que falam língua diferente, que estão em regiões diferentes do país, que têm uma aliança comum para tratar com os não-índios; não se limita a fazer o tratamento administrativo de política com o Estado. A minha atividade hoje poderia – ser entendida como a de um embaixador. Eu represento uma embaixada indígena junto a instituições e organizações não-indígenas. Agora, eu tomo outras iniciativas no campo da aproximação mesmo e divulgação do pensamento do nosso povo, da articulação de alianças políticas com outros movimentos e outros setores da população regional e nacional que vão até a aliança com os ambientalistas que no mundo inteiro lutam no sentido de preservar o ambiente.

Qual é a sua religião?
A minha religião é a dos meus avós, dos meus antigos.

Você pratica a sua religião?
Eu pratico. Eu acho que a nossa tradição é muito diferente, por exemplo, da dos cristãos, para quem a idéia de praticar uma tradição ou uma religião está vinculada a um conjunto de normas e condutas. Para nós isso não existe. Eu não tenho que ir a um templo, não tenho que ir a uma missa. Eu me relaciono com o meu criador; me relaciono com a natureza e com os fundamentos da tradição do meu povo.

Existe essa natureza aqui em São Paulo?
Ela existe em cada uma das células do meu corpo. Ela existe em cada um dos pequenos, no ar que eu respiro, naquelas plantinhas que estão ali no quintal, na chuva que cai, nos raios de sol que atravessam todos esses concretos e cimentos e passam por este buraquinho da janela aqui. E ela bate com a mesma força e intensidade com que faz uma cachoeira lá no meio do Amazonas ou uma geleira lá no Alaska. Porque a natureza é a vida mesmo. Não há natureza apenas num parque, num jardim.

Você é um cidadão brasileiro, que deve ter cédula de identidade. Você não é um índio que tenha responsabilidade relativa.
A responsabilidade relativa não tem a ver comigo. Ela tem a ver com os outros. Meu avô viveu até 96 anos. Meu avô criou meu pai, todos os meus tios e os netos. E para o governo ele continuava sendo alguém com responsabilidade relativa. Para o meu povo, meu avô foi um sábio, um guerreiro. Para o governo brasileiro ele foi um menino, um sujeito que devia ser vigiado, tutelado. Mas nós podemos observar também que a sociedade brasileira, apesar de já ter aí uns duzentos ou trezentos anos de vida institucional, continua sendo considerada pelo Estado algo parecido. Uma espécie de deficiente mental. Então acho que podemos concluir que isso diz menos respeito ao nosso espírito e ao nosso propósito no mundo e muito mais a uma visão que os outros têm de nós mesmos.

Mas você é um cidadão comum hoje… Você vota, por exemplo?
Eu voto. Pratico vários atos jurídicos que os brasileiros têm o prazer de fazer. E meus parentes, que não exercitam esses chamados direitos civis, são também cidadãos, porque ninguém é mais cidadão na América do que os nossos antigos. Se cidadania se mede por gestos cívicos como votar, tirar cédula de identidade e coisas assim, nós não somos cidadãos. Mas se ser cidadão é você estar instalado numa região, num lugar onde você participa, onde você vive, nós somos os primeiros cidadãos aqui da América. Acho que a maioria das pessoas tem dificuldade de nos considerar remanescentes de uma guerra de colonização. Todos os meus parentes são sobreviventes de uma guerra de ocupação. Quando os seus parentes vieram para cá, involuntariamente se instalaram como forças de ocupação da minha terra. Acredito que a grande maioria veio sem saber o que estava fazendo. Os que vieram sabendo o que estavam fazendo e os que vieram sem saber estavam realizando a ocupação dos nossos territórios. Hoje, se a minha tribo está reduzida a quase uma centena de indivíduos, sendo que no começo do século nós éramos mais de 5 mil pessoas, e se o nosso território atual é uma reserva miserável de 4 mil hectares, isso tem que ser compreendido como parte de minha história, muito mais do que uma cédula de identidade. A minha história é a experiência coletiva do meu povo. A minha história, de maneira nenhuma, se resume ao conjunto de documentos públicos que o governo me deu.

Por que o governo nega esses documentos para os índios e os mantém tutelados e oprimidos?
Acho que você conhece a história das potências que colonizaram outras regiões do mundo e que tratam os nativos como cidadãos de segunda ou terceira categoria. Se você observar, a Inglaterra e a França até recentemente mantinham colônias na África e na Ásia, onde os nativos tinham o status aproximado da mula ou do cavalo. Aqui, no Brasil, os índios continuam tendo um status parecido com o de animais silvestres. Nós somos objeto da atenção do Estado enquanto seres que precisam ser preservados como fauna. Também temos a atenção do Estado como pessoas e indivíduos que precisam ser vigiados para que não entrem num processo de contestação do poder do Estado, de contestação da ordem estabelecida e de questionamento dos crimes que foram praticados contra o nosso povo. Nós somos a memória viva e um testemunho sempre muito explícito da história recente da ocupação desta região do mundo. Cada um dos nossos meninos sabe como foi que os brancos se tornaram senhores desta terra e quando nós deixamos de ser os donos.

Como se dá essa passagem de memória entre os índios?
Você me perguntou há pouco sobre minha educação e alfabetização. Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa. Acredito que quando uma cultura elege essas atividades como coisas que têm valor em si mesmas está excluindo da cidadania milhares de pessoas para as quais a atividade de escrever e ler não tem nada a ver. Como elas não escrevem e não lêem, também nunca serão parte das pessoas que decidem, que resolvem. E quando aceitei aprender a ler e escrever, encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria. Acho que a maioria das crianças que vão hoje para a escola e que são alfabetizadas é obrigada a engolir o peixe com espinha e tudo. É uma formação que não atende à expectativa delas como seres humanos e que violenta sua memória. Na nossa tradição, um menino bebe o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência, nos cantos, nas narrativas. Os cantos narram a criação do mundo, sua fundação e seus eventos. Então, a criança está ali crescendo, aprendendo os cantos e ouvindo as narrativas. Quando ela cresce mais um pouquinho, quando já está aproximadamente com seis ou oito anos, aí então ela é separada para um processo de formação especial, orientado, em que os velhos, os guerreiros, vão iniciar essa criança na tradição. Então, acontecem as cerimônias que compõem essa formação e os vários ritos, que incluem gestos e manifestações externas. Por exemplo, você fura a orelha. Fura o lábio para colocar o botoque. Dependendo de qual povo a que você pertence, você ganha sua pintura corporal, seu paramento, que vai identificar sua faixa etária, seu clã e seu grupo de guerreiros. Esses são os sinais externos da formação. Os sinais internos, os sinais subjetivos, são a essência mesma daquele coletivo. Então você passa a compartilhar o conhecimento, os compromissos e o sonho do seu povo. As grandes festas se constituem em instantes de renovação permanente do compromisso de andar junto, de celebrar a vida, de conquistar as suas aventuras. Então a nossa tradição consiste, de maneira resumida, nesses eventos. A formação é isso.

Você acha que houve conquistas importantes da UNI e do trabalho de vocês aqui?
Acho que sim. Eu disse para um amigo meu outro dia que a UNI só tem sentido porque existem os brancos. Se não existissem brancos aqui, a UNI não existiria, e eu estaria lá na minha aldeia, com o meu povo, com a minha tribo, caçando, guerreando, namorando. Mas como os brancos existem, tive que trocar toda essa vida paradisíaca por uma vida chata de ficar aqui conversando com as pessoas, negociando politicamente, sendo transigente ou intransigente, sendo tolerante e, às vezes, sendo duro. Muito poucas pessoas indígenas fazem isso, ou estão dispostas a pagar esse preço. Nesse sentido, foram positivos esses quase dez anos. A UNI iniciou a sua articulação mais permanente em 1979. Hoje, o Brasil sabe que existe o povo indígena. Acho que vocês sabem que na década de 60 e até o começo da década de 70, mesmo as pessoas mais bem informadas do Brasil se perguntassem a elas sobre índios, iam dizer: “Não, índio não. Não tem. Bem, talvez tenha um ou outro aí guardado em alguma reserva pelos irmãos Vilas Boas”. “Quem são os irmãos Vilas Boas?”, outro diria. “São heróis que têm lutado para guardar como relíquia alguns índios sobreviventes de 1500.” Raoni trouxe para o povo brasileiro e para o mundo cheiro de índio, cara de índio, impressão sobre o índio, expectativa. Em alguns casos, irritação, ódio, carinho, solidariedade. Nós provocamos sentimentos nas pessoas quando mostramos que éramos gente de verdade. Nós provocamos os fazendeiros. Nós provocamos o Conselho de Segurança Nacional, que botou os militares para nos vigiar mais de perto. Mas, em compensação, nós lembramos a milhares de pessoas que ainda estamos vivos e que queremos ser amigos dessas pessoas. E isso é solidariedade. É uma palavra que nós não conhecíamos, mas uma idéia que praticamos há milhares de anos.

De onde vem a sustentação financeira de vocês?
Bem, a UNI praticamente não tem infra-estrutura. Nós temos a cooperação de organizações da sociedade civil, de movimentos que estão junto com a gente, que são solidários para com o povo indígena. Há, por exemplo, o Sedes Sapientiae, que nos oferece este local e a infra-estrutura de serviços, para a gente trabalhar juntos. Contamos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, aberto o tempo inteiro para um trabalho conjunto. A universidade estabelece com a gente um tipo de cooperação. E, mais recentemente, temos conseguido coisas como uma empresa que quer fazer uma política de proteção do meio ambiente e que se dirige assim à gente: “Olha, queremos apoiar algum trabalho de vocês; nós temos interesse nisso”.

Onde estão as alianças das nações indígenas com as diversas camadas do povo brasileiro? Onde estão seus aliados?
Durante esses últimos cinqüenta anos, o povo indígena fez um esforço através de uma ou outra liderança para dialogar com o que a gente chama de sociedade brasileira. Esse diálogo foi bloqueado de todas as formas. Os nossos interlocutores mais permanentes têm sido gente do Estado. O marechal Rondon é como lenda, inclusive para a maioria das tribos indígenas. Porque foi o marechal que criou o SPI (Serviço de Proteção ao Índio) no final do século passado. Toda a política que ele imprimiu ia no sentido de preservar os índios do contato com o Brasil. Então, toda a orientação que o Estado aplicou no seu contato com os povos indígenas procurava segregar as tribos indígenas da nação brasileira. O marechal Rondon, baseado no positivismo, defendia a idéia de que, se nós fôssemos preservados do contato negativo com a nação brasileira, poderíamos evoluir e gradualmente alcançar um estágio de sabedoria, de civilização, que nos habilitasse à convivência civilizada, social. É uma idéia generosa porque o marechal Rondon acreditava que os índios estavam muito expostos a aprender aquilo que havia de mais espúrio no comportamento dos brasileiros. Daí ele fundou aquela máxima: “Morrer se preciso for; matar, nunca”. E esse lema derivava do seguinte princípio: “Nós estamos chegando junto de um povo. Esse povo tem um pensamento e costumes diferentes. Nós somos os invasores; vamos fazer com que esse povo tenha o tempo necessário para nos interpretar. Aí ele se incorpora a nós como parte integrante da nacionalidade”. No começo do século XX, convenhamos que esse pensamento era muito louvável, porque um contemporâneo dele, o general Custer, achava que “índio bom era índio morto”. O que acontece é que não apareceram mais na história do Brasil figuras da grandeza do marechal Rondon, para avançar historicamente esse processo de respeito, conhecimento e reconhecimento da existência de culturas diferentes. Ele foi substituído e toda a sua orientação, contrariada por uma outra leitura, que passou a vigorar a partir da Segunda Guerra Mundial. A leitura de que os índios, enquanto seres estranhos à nacionalidade, precisavam ser rigorosamente vigiados, porque eram potenciais inimigos internos. Quando surge a doutrina da segurança nacional, aquela visão do marechal Rondon é substituída por outra preconceituosa e integracionista, que supõe o seguinte: para eles serem brasileiros, têm que estar integrados às forças de trabalho, ao comportamento, a todas as manifestações culturais, a todos os signos desta pátria. Então, para que garantir terras para eles, se isso pode ser exatamente a base de uma cultura e de uma prática tradicional que só vai reforçar a sua identidade? Teve início um trabalho sistemático de diluição da identidade das tribos indígenas… E aí eles começam a trabalhar com a idéia do índio aculturado. Índio aculturado é um índio sem terra. Ele tem que cooperar como mão-de-obra nos canaviais, nas lavouras, nos garimpos, etc. Aí o povo indígena responde a essa iniciativa do Estado: “Não. Nós achamos que podemos ser, sem deixar de ser quem somos”.

E dos irmãos Vilas Boas, o que você diria?
Os irmãos Vilas Boas são os últimos herdeiros do pensamento de Rondon. Eu os respeito e os coloco num lugar na história da relação do Estado com as sociedades indígenas. Estão situados num tempo histórico que vai de 1940 a 1980.

Eles não se coadunavam com essa política de preconceitos?
É claro que eles traziam na sua formação os equívocos que todos os jovens brasileiros tiveram e receberam na escola. Mas, no contato e na convivência com as comunidades indígenas, fizeram a revisão do que receberam na escola.

Mas eles deixaram algum saldo positivo?
Acredito que a história não se fez de fatos positivos ou de fatos negativos. Na tradição do nosso povo, essa coisa de bem, de mal, de positivo, de negativo não existe de maneira tão simples assim. Nós temos eventos na nossa história antiga que podem ser considerados, numa narrativa, uma catástrofe. Mas nós sabemos que toda catástrofe era o prenúncio de um novo tempo. E quando o Estado, quando o Brasil, na sua relação com o povo indígena, nos possibilitou o contato ou a convivência com personalidades como Rondon, os irmãos Vilas Boas, provavelmente o país deu as melhores personalidades que tinha para tratar com o povo indígena. Então, não cabe a nós fazer o julgamento. Seria a mesma coisa que perguntar se foi positivo ou negativo o Mário Juruna ter sido eleito deputado. Eu já ouvi essa pergunta centenas de vezes.

É uma pergunta que eu queria mesmo fazer.
Acho que essa pergunta está sempre engatilhada na cabeça do repórter, porque a cultura dele é assim. Juruna foi um parlamentar indígena, que teve um primeiro mandato na Câmara Federal; esse fato em si é que tem valor. E ele não se travestiu de branco para ser um parlamentar índio. Ele foi um parlamentar índio com todas as suas dificuldades, com todas as suas deficiências e virtudes. Com todas as suas contradições. E ele revelou muito mais do Brasil do que milhares de parlamentares que passaram por aquela casa desde a instalação da República. A história do Brasil não pode negar esse fato. Na nossa tradição, na tradição indígena, nós temos uma história – a história da fundação do mundo – que nos integra no que poderia ser considerado o Universo. Os fatos dessa história se aproximariam muito dos eventos religiosos. Nós temos uma história que poderíamos chamar de história objetiva, história do mundo, sobre a qual agimos. Nós agimos no mundo, mas somos filhos de uma tradição em que o nosso poder é limitado. Quando comecei a ler a literatura universal, descobri um pensamento nos homens de outra tradição que me assustou – o pensamento de que o homem é total, de que ele pode submeter a natureza e a história. Na minha tradição, isso não existe. Somos parte de eventos importantes. Nós podemos estar ou não nos lugares em determinados momentos. Apesar de estar há muito tempo já convivendo e me relacionando com os fatos marcados pelo calendário do relógio, tenho buscado preservar dentro de mim essa memória. A minha apreciação da história tem que ser cuidadosa e seguir a visão do meu povo. Nós entendemos que somos capazes de mover uma pedra que está na beira do igarapé represando tronquinhos e folhas, mas sabemos que não podemos mover o destino das águas. Nós somos parte dos eventos. Interferimos neles a partir da nossa virtude e do nosso conhecimento, da nossa interação com aquele lugar, mas não podemos agir como seres externos aos eventos.

Mas, por outro lado, quando vocês constroem a UNI, também estão manipulando leis gerais da política, fazendo alguma coisa comparável a uma embaixada e atuando nesse mundo. Vocês também estão lutando e subordinando os acontecimentos a seus objetivos. Então há uma contradição.
Vou contar uma coisa. Se eu for dormir hoje e meus parentes antigos me vierem num sonho para dizer: “Vá pro mato!”, vou embora. Você pode vir aqui amanhã e não verá mais este escritório. Isso significa que dizer que eu estou irremediavelmente no meio disso é só aparência. E as aparências enganam… Por exemplo, existem muitos truques e muitas armadilhas que são postos em nosso espírito para nos testar. Você pode estar seguindo por um caminho, e um ser sobrenatural aparece sugerindo uma situação. Se você acreditar que tudo que está vendo é exato, pode sofrer por isso. Se tiver no espírito a generosidade de aceitar que aquilo não existe, exatamente nesse momento você pode ter decifrado o enigma que o espírito lhe pôs. É nesse sentido que aquilo que aparenta ser pode não ser realmente. Assim, eu não estou aqui em caráter indefinido. Vai chegar o momento em que eu não vou estar mais aqui, e que outros parentes poderão ou não estar realizando isso. Essa é uma atitude em relação à vida um pouco diferente da maioria das atividades que as outras pessoas executam. Alguém, por exemplo, inicia um projeto pessoal, vai ser jornalista ou deputado; isso se torna a vida dessa pessoa. Ela faz todos os julgamentos das oportunidades e conveniências dessa escolha. Para nós, é diferente. Quando eu estou aqui, assumindo uma determinada atividade, e esse círculo se completa, tenho que me assegurar de que o universo das minhas relações esteja preservado. Não posso comprometer minha integridade e o pensamento de meu povo com um simples gesto.

Sendo o sábio que é, você dialoga com outras categorias além daquelas com que o nosso conhecimento consciente consegue dialogar. Você falou há pouco de um sonho em que um antepassado seu pode aparecer. Como o sonho atua na composição dessa sua sabedoria?
O sonho é o instante em que nós estamos conversando e ouvindo os nossos motivos, os nossos sábios, que não transitam aqui nesta realidade. E um instante de conhecimento que não coexiste com este tempo aqui.

Mas o sonho acontece com você, e as pessoas falam coisas no sonho?
Não as pessoas propriamente.

Uma cultura fala no sonho?
É, uma tradição.

Há alguma decisão importante da sua vida que tenha sido tomada no sonho?
A minha vida toda. Eu falei com vocês no começo da nossa conversa sobre os fundamentos da tradição. Nos fundamentos da tradição não há a palavra vazia. Os fundamentos da tradição são como o esteio do Universo. A memória desses fundamentos não é uma coisa decifrável. É como a água do rio: você olha de um determinado ponto a água correndo; quando voltar na manhã seguinte, não verá a mesma água, mas o rio é o mesmo. Ele está ali. Você não distingue. Você só sabe que não é a mesma água porque vê que ela corre, mas é o mesmo rio. O que o meu tataravô e todos os nossos antigos puderam experimentar passa pelo sonho para a minha geração. Tenho o compromisso de manter o leito do sonho preservado para os meus netos. E os meus netos terão que fazer isso para as gerações futuras. Isso é a memória da criação do mundo. Então, não decifro sonhos. Eu recebo sonhos. O leito de um rio não decifra a água, ele recebe a água do rio. Existe uma fronteira que eu procuro não romper, uma fronteira cultural. Quando nós decidimos que queríamos dialogar com o Brasil, tivemos em primeiro lugar que olhá-lo. Nós olhamos durante décadas, durante séculos; ficamos observando essas pessoas indo pro Norte pro Sul, atravessando rios e montanhas, devastando florestas e fazendo guerras. Depois, pensamos: “Eles não são todos iguais. Eles têm diferenças muito grandes entre eles mesmos. Eles precisam ver e entender essas diferenças Para a Partir delas poder construir alguma coisa juntos”. E aí nós começamos a conversar com as pessoas, preservando essa diferença e fazendo um esforço muito grande de aproximação. Há muitas coisas que eu busco entender que para mim significam um esforço terrível. Quando nós preparamos um movimento, temos que pensar muito sobre que tipo de sentimento vamos provocar nas pessoas. Se incitarmos em alguns milhões de pessoas um sentimento contra o nosso povo, estaremos fazendo uma coisa muito perigosa. Se nós criarmos uma imagem irreal de nós mesmos para as pessoas, estaremos fazendo também algo perigoso. Então, tratamos com o Brasil sabendo que ele não é único; ele é diverso. Dialogamos com essas diferenças, fazendo amizades e alianças, inclusive com nossos inimigos. Porque com os amigos você pode viver em paz. Com os inimigos você só sobrevive através das alianças. Os maiores conflitos da nação brasileira não são com os de fora mas com ela mesma. Assim nós levamos raspões e recebemos as fagulhas. Como somos populações com mecanismos de defesa muito frágeis em relação a esse conflito, quando os estilhaços nos atingem, causam grandes estragos. Existe uma tribo que foi contatada agora, lá no Pará, na região do rio Cuminapanema. Quinze dias depois que a rede Globo mostrou o contato com eles, uma equipe de reportagem encontrou a população toda doente, alguns já com risco de morte, porque pegaram uma epidemia naquele contato. Numa tribo, nossa visita pode ser fatal. Estou dando esse exemplo para mostrar que os conflitos mais violentos que ocorrem na sociedade brasileira causam menos estragos que as fagulhas que atingem as nossas comunidades. Então eu acho que esse limite do contato é intenso. Acho que o Mário Juruna quando saiu deputado trincou essa fronteira. Quando Raoni viaja pelo mundo, ele dá um passo naquela linha de limite. Quando a UNI faz um movimento mais organizado, de caráter mais permanente, esboçando um leque de articulações mais amplas, ela clareia a zona da fronteira para o diálogo. Porque provocamos um posicionamento de vários setores da sociedade em relação ao índio. O desenvolvimento desse questionamento implica uma outra coisa importante: o posicionamento das pessoas em relação ao Brasil. Pensar o que vão fazer com o Brasil obriga esse povo a pensar o que vai fazer de si mesmo. Na semana passada, um empresário me perguntou se eu achava positivo o fato de o mundo inteiro estar tendo uma imagem exótica do Brasil na figura de Raoni com o botoque na boca e um cocar na cabeça. O que eu achava disso? Eu disse: “O mundo está vendo o Brasil como quer ver e como sempre acreditou que ele é”. O que eu acho é que muitas pessoas aqui estão incomodadas com que o mundo veja o Brasil na cara do Raoni. Porque o sinhozinho estava reunido na sala tomando café, quando soube que alguém fugiu da senzala e foi fazer fuzarca. Ficou apavorado, chamou o capataz e perguntou: “Mas o que é isso? Fugiu um negro da senzala; foi fazer confusão aí no mundo”. Quem pode mostrar a cara lá fora é o sinhozinho. Ele sai da sala com gravata e paletó e vai se exibir no paraíso. Agora, pessoal da senzala, das malocas, não pode sair por aí se exibindo de tanga, botoque e cocar. O incômodo é tão grande para uma parte da elite brasileira que é mais ou menos como se vocês estivessem exibindo um segredo da família para o público. O Brasil está vendendo o retrato do branco para o mundo há quinhentos anos. De repente, quando ele mostra o pessoal que não é branco…

Agora, você diz que quer passar esse rio do sonho, da tradição e do conhecimento para os seus netos. Você acha possível que isso se passe aqui na cidade?
As pessoas que vivem na cidade estão experimentando uma cultura urbana. Isso atinge a pessoa na sua formação, na sua essência mesmo. Quando falo da minha confiança de passar para os meus filhos a tradição do meu povo, estou reconhecendo a dificuldade a mais que enfrento por ter que fazer isso num lugar inadequado, numa cidade. Mas é possível você preservar e manter uma memória e uma tradição, independentemente do lugar em que se vive. O habitat em que se está é essencial para a formação e mesmo para a experiência permanente de vida, mas ele não é assim determinante. Acredito que passamos para as pessoas, e muito mais para os nossos parentes, algo que não é só resultado do nosso esforço e da nossa virtude. Nesse sentido, acho que as nossas experiências de conhecimento são diferentes. No Ocidente, se o menino nasce, cresce e não é colocado numa escola, ele vai ser um pária. Na nossa tradição, não existe o pária, porque cada pessoa é beneficiária da experiência coletiva. Na nossa sociedade não existe o menor abandonado. O menor abandonado foi uma das figuras mais fantásticas que eu conheci na tradição ocidental. Se uma criança não tem pai nem mãe, ela tem a sociedade. Se a sociedade não tem pai nem Mãe, aí há o caos. Outra coisa que me deixou muito preocupado: quando comecei a ver o tanto de pessoas que não têm acesso às coisas mínimas dessa sociedade aparentemente tão vigorosa. Ela é muito exibicionista: seus prédios monstruosos podem competir com as montanhas; as grandes avenidas querem ser mais largas que os rios; um amontoado de casas pretende competir com as florestas e oculta uma hipocrisia muito grande. Ela tenta esconder milhares de pessoas que ficam encostadas nos prédios, nas calçadas, sem comida, sem alento, sem sonho, sem alegria, tangidas pelo medo, escorraçadas. Isso me tocou profundamente. Como uma sociedade cruel assim pode pretender o bem, o bem estar, o estar bem? Ela está fazendo como um louco que joga bombas para cima, pensando que vão flutuar, sem perceber que irão explodir na sua cabeça. Esses milhões de crianças, de miseráveis, de excluídos da sociedade, vão se constituir em exércitos poderosos, que devorarão os privilégios das pessoas. Eu consigo entender como isso acontece, mas não compreendo por que acontece. Entendo que quando um homem é dono de prédios de apartamentos e dono de fazendas num país como o Brasil, é natural que existam, por exemplo, milhares de favelas. Vejo que isso acontece. Mas não entendo por quê. Aquele homem que faz isso, se está querendo o poder, pratica aquele gesto de louco: está jogando as bombas para cima. Podem não cair na cabeça da primeira geração, nem da segunda, nem da terceira. Mas haverá uma geração deles em cuja cabeça vai explodir essa bomba humana.

Nessa sociedade que tem esses escorraçados, esses excluídos, como é o caso do Brasil, quais as alianças que as nações indígenas fazem? Você começou a falar dos contatos com o Estado. E fora do Estado?
Quando o Estado esgotou o repertório de contato com a gente, também esgotou a nossa paciência. Nesse momento as comunidades indígenas começaram a ver que existia alguém além daquele representante do Estado que ia contatar a tribo. Mas uma coisa interessante aconteceu com nossos parentes, as pessoas que eles conheciam eram do Exército, quando não, enfermeira ou médico. Me lembro de um rapaz que foi comigo visitar esses parentes; eles olharam e perguntaram: Enfermeiro?”. “Não, não sou enfermeiro.” “Médico?” “Não.” Ele não era nem a entidade enfermeiro nem médico. Do Exército ele não era porque não estava fardado. “Quem é você?” “Eu sou um amigo de vocês.” “FUNAI?” “Não. Eu não sou da FUNAI.” “Você não é da FUNAI, não é do Exército, então é médico, não é enfermeiro. Quem é você? Fazendeiro?” “Não. Eu sou amigo. Gosto muito dos índios.” “De qual?” “Assim, de vocês.” “Mas você não conhece a gente.” “Mas vim conhecer. Escutei notícias de vocês e quero ser amigo.” Esse episódio revela muito do que é a sociedade brasileira para a maioria de nossas tribos. Quando o Estado esgotou o repertório de médicos, enfermeiros e pilotos de avião, começamos a descobrir os brasileiros. De repente tinha um parente que um cara virou amigo dele. E a pessoa gostava dele. Foi lá, pescou na aldeia, fez amizade com o povo e, vai ver, é um grande empresário, que tem uma fazenda vizinha da aldeia. Quando aquele parente começa a ampliar a visão que tem do país, observa que aquele cara que está instalado ali perto da reserva é um beneficiário da política estatal de redução do seu território. Aí a amizade começa a esfriar, porque algo que era de coração de um lado, do outro era de intenção. A aproximação daquele vizinho não era uma coisa carinhosa. Não estou dizendo que todo empresário toma a iniciativa de um gesto de aproximação com uma tribo para cooptá-la. Mas isso acontece permanentemente; muitas vezes em grupos de contato recente. Aí, os parentes começam a observar que naquela mesma fazenda ali perto explode um conflito. Os parentes verão que aquele cara simpático tem um monte de homens armados, que matam seringueiro para evacuar a área. Daí um parente olha e fala: “O seringueiro está mais perto de mim. Tem um conjunto de situações que fazem do seringueiro meu vizinho em meu universo muito mais do que o fazendeiro”. Então, você começa esse aprendizado da realidade. Isso vai avançando o questionamento. Observa que o empresário não é seu aliado. Ele no máximo é seu vizinho. Em alguns casos, quanto mais perto dos olhos, mais longe do coração. Aquele seringueirinho que vai lá no caixa-pregos e é escorraçado está mais perto de você do que o fazendeirão que exibe os títulos do Estado. Você observou como as nossas relações com o Estado passam por um conjunto de ritos hereditários, em que o Estado monopoliza o contato e depois começa a preservar a bola para outra classe de gente; o Estado de certa maneira controla o tempo inteiro, porque nós não saímos da relação com ele para conversar com a sociedade civil. Quando se tem uma década de contato com os brancos, ele fica praticamente restrito aos agentes do Estado, porque você não fala a língua portuguesa, ainda está sob controle de endemias. Há os surtos de gripe e de malária; a área ainda está isolada. Passa-se uma década em alguns casos, e você avança esses contatos. Começa sua percepção de Brasil. Hoje existe uma organização indígena que antecipa articulações com a sociedade civil. Já se formou uma visão crítica dessa sociedade civil em relação àquele contato e há a disposição de aliança, mesmo que os parentes arredios não tenham ainda conhecimento disso. Essa novidade coloca a organização indígena como a vanguarda da defesa do nosso interesse e do nosso povo. Porque o processo administrativo de titulação das terras e de distribuição de benefícios na região vai acontecer depois que a FUNAI tiver identificado e demarcado a área, começando os procedimentos administrativos. Nessa época o movimento indígena tem que estar adiantado na sua aliança com a sociedade civil, para criar um cinturão de segurança e não expor seus parentes à brutalidade que a minha tribo sofreu na década de 20. O que nós queremos é que os mais de vinte grupos indígenas que estão sem contato na floresta amazônica posam ser os aliados do futuro e não os seus remanescentes. Queremos que aqueles parentes vítimas do contato possam ser beneficiários dessa articulação do movimento indígena para respeitar seu território, sua pessoa, sua cultura, sua tradição, e não para preservar. Você não preserva seres humanos, você os respeita.

E quais os mecanismos de defesa que vocês têm para chegar lá e atuar?
Quando o “Fantástico” hipocritamente jogou para o Brasil inteiro a imagem daqueles parentes de botoque longo e disse: “FUNAI contata uma tribo arredia no meio da Amazônia. Veja que fantástico; existem lá uns índios da idade da pedra!”, naquela semana eu fui para o ar num programa de rádio. Eu disse o seguinte: “Hoje, engraçado, o ‘Programa de Índio’ vai falar de uns parentes lá do Cuminapanema, um povo da língua tupi muito contemplativo. Eles habitaram a região que vai do paralelo tal ao paralelo tal; os seus vizinhos são a mineradora tal, a madeireira tal e o grande empreendimento tal, que jogam mercúrio na cabeceira do rio. Diante desse assédio, esses parentes formaram uma expedição e avançaram para uma frente de contato, aceitando logo o primeiro. Este não foi na semana passada como o ‘Fantástico’ disse. O primeiro contato deles aconteceu em 1976 com a missão evangélica americana. Até, agora não ocorreu nenhum episódio de conflito, mas a maioria deles está vitimada devido ao contato com os garimpeiros. Estão sofrendo com o envenenamento e buscam socorro médico”. A gente está botando isso na consciência deles. Quando a besta do “Fantástico” vier de novo dizer ‘descobrimos gente da idade da pedra’, quem ouvir essa porcaria muda de canal ou questiona. Quer dizer, estamos colocando a informação à disposição das pessoas para que elas questionem. Outra coisa que eu fiz foi mandar um telex para a procuradoria do Ministério Público, pro Congresso, para a FUNAI, e dei entrevista para a imprensa internacional. Disse a todos o seguinte: ‘Estou responsabilizando a União pelas conseqüências do contato com esses meus parentes. O movimento indígena vai entrar com uma ação no Supremo Tribunal. Índios arredios do Cuminapanema versus União. Queremos comprometer a União, pela primeira vez “na história, por todas as seqüelas do contato. O Estado brasileiro abordou uma nação indígena. Eu quero que haja observadores vigiando em abordagem e exijo uma avaliação das conseqüências do contato. Nós não vamos aceitar um inventário unilateral do território desse povo”. Porque hoje quem fixa o território de um povo tradicional e sua população é a FUNAI. É ela que tem o poder de polícia. Chega na área e faz um inquérito, uma espécie de boletim de ocorrência do contato. Nós não admitimos isso. O movimento indígena quer que as conquistas que conseguimos na Constituição sejam aplicadas na prática. Por exemplo, o Ministério Público tem a função de assistir a sociedade civil. Se o Estado desrespeitar alguém, essa pessoa pode pedir a guarda do Ministério Público para contestar o Executivo. Nós estamos agora buscando a participação do Ministério Público para vigiar a abordagem que o Executivo está fazendo junto a esses parentes. Isso era exclusivo da FUNAI. Antes da Constituinte, somente a FUNAI podia entrar em juízo, em nome dos índios. Nem os índios tinham esse direito em seu próprio nome. Agora, nós podemos convocar o Ministério Público para nos assistir e interpelar o Estado. Isso para nós foi um progresso, um avanço muito grande.

Como foi o trabalho da UNI na elaboração dessa nova Constituição?
Na ocasião em que estávamos discutindo a Assembléia Nacional Constituinte, formulamos uma proposta que eu continuo achando muito interessante. A idéia em que as nações indígenas não concorressem às eleições gerais, mas que apresentassem à Assembléia Nacional Constituinte uma bancada própria. Reivindicávamos que, devido à diversidade das nossas tribos, pudéssemos indicar representantes por região do Brasil. Então, nós teríamos um número de representantes indígenas que participaria da Assembléia Nacional Constituinte, realizando o processo constituinte do povo indígena. Concluída essa etapa, nossas lideranças voltariam para suas regiões de origem e cessariam a intervenção política. Isso não foi aceito e virou outra coisa.

Mas aí não saiu a Assembléia Nacional Constituinte mas o Congresso Constituinte. E como ficou a situação da UNI e das nações indígenas?
Nós definimos um programa mínimo que queríamos levar ao Congresso. São pontos que tratam do reconhecimento dos direitos territoriais, da superação da tutela, e que buscam assegurar no texto da Constituição o caráter de permanência de nossas populações, em lugar da transitoriedade que estava fixada em todos os textos de leis do Brasil. Nós somos índios hoje; amanhã, seremos brasileiros, como se estivéssemos num processo evolutivo, né? O Brasil tem que entender que nós somos populações nacionais, que estamos aqui para ficar. Nós não vamos para lugar nenhum, nem sob o ponto de vista da assimilação ou da integração nem sob o da migração. Nossas populações têm apego às nossas regiões, e o Brasil precisa estabelecer um diálogo com a gente a partir desse dado. Fomos para o Congresso mobilizando a opinião pública e com a participação intensa das lideranças indígenas do país inteiro, o que possibilitou a aprovação do nosso texto. Nada do que botamos no nosso texto foi suprimido. É óbvio que houve uma campanha intensa por parte da ala conservadora, que queria inclusive que não existisse no texto da Constituição uma referência específica aos índios. E nós conseguimos assegurar um capítulo de populações indígenas na Constituição, até mesmo com esse título: “Das Populações Indígenas”.

Qual a relação da UNI e das nações indígenas com os partidos políticos do Brasil?
A relação do movimento indígena e, mais precisamente, da UNI é cautelosa, com respeito à aproximação com qualquer partido político. Se você, pegar o conjunto de todos os partidos, eles não somam vinte anos de existência. Aqueles que se poderia considerar mais críticos e até mais atuantes em relação à realidade econômica que vivemos são partidos que têm cinco ou seis anos de idade. Os partidos não conseguiram ainda expressar uma maturidade compatível com a história, por exemplo, que o povo indígena tem nesse país. Em segundo lugar, não acreditamos que os partidos políticos estão determinados. Eles têm um perfil que responde a uma realidade de sociedade de classes, de interesses, das alianças que na maioria das vezes são estritamente políticas. As populações indígenas não lidam com esse tipo de alianças. Nós estabelecemos alianças tradicionais, que eu costumo chamar de afetivas. As alianças políticas possibilitam coisas constrangedoras, como um presidente da República que gostaria de matar seu vice-presidente ou um vice-presidente que adoraria explodir uma bomba no avião do presidente. As alianças afetivas são feitas com base em outros princípios: identidade, conhecimento, respeito mútuo, amizade e uma profunda compreensão do outro. Isso é a aliança para nós. Não vemos ainda, no Brasil, qualquer partido que esboce esse tipo de respeito.

Enfim, vocês colocam uma ética rígida como base das relações?
Sim. E ela não basta como princípio, tem que estar fundamentada numa prática. Se você elabora hoje um princípio ético e o anuncia, isso para nós é pouco. Levará mais mil ou dois mil anos praticando essa ética para a gente decidir se vale a pena ou não estar junto. Eu sei que o PT, por exemplo, tem pautado a sua prática e seu conjunto de alianças por princípios bastante claros e éticos, mas ele vai ter ainda que caminhar alguns séculos fazendo a depuração dessa sua ética para eu poder dizer quem é.

Ailton, com os outros movimentos da sociedade brasileira, como a UNI e as nações indígenas vêm se relacionando? Por exemplo, com os ambientalistas e os que costumamos chamar de ecologistas?
Os ambientalistas, os ecologistas, assim como os partidos, não têm ainda uma identidade clara. Existe muita declaração de intenção e muito pouca história. Nós nos aproximamos com cuidado dos tais ambientalistas e ecologistas, não com preconceitos, mas com cautela, porque nós queremos ver quem está fazendo declaração de intenção e quem sabe realmente o que está fazendo e tem propósitos de ir além da conversa fiada.

E o que é o movimento, a aliança dos povos da floresta?
A aliança dos povos da floresta é o contraponto disso tudo que nós estamos falando. A aliança dos povos da floresta se dá quando o povo indígena vê o seringueiro – que também está no seu habitat -, a sua prática, a sua vida, a sua luta e junta a sua luta para proteger aquela região. É quando índios e seringueiros vão para uma região onde uma grande empresa como a Bordon está fazendo um desmatamento com incentivos fiscais do governo. Vão acabar com as castanheiras, com as seringueiras. Os índios e os seringueiros se juntam e bloqueiam esse processo, interditando o desmatamento… Os índios, os ribeirinhos e os seringueiros, estão acolhendo, adotando, os colonos como alguém que tem que ser educado. Uma parte deles já está preparada. Mas a grande maioria dos colonos é rebelde, porque foi educada pelo pensamento predatório. Eles estão imitando os grandes fazendeiros. Quando conseguem um lote ou uma gleba do INCRA, eles desmatam a metade – a lei permite – e vendem toda a madeira. Com esse dinheirinho, eles operam um, dois ou três anos. O colono degrada o solo e não tem mais dinheiro para continuar fazendo uma agricultura intensiva. Ele não pode tomar empréstimos do banco, nem receber os incentivos do governo. Então, ele vende a gleba depois do quarto ou quinto ano de titulação para um outro cara, que assim pode desmatar a outra metade. Na terceira venda do lote, a terra está pelada. O terceiro cara vende a terra para um grande proprietário, que a reincorpora ao latifúndio. Eu sei que tem muita gente que analisa e estuda o problema fundiário no Brasil, mas parece que ainda não conseguiram enxergar como a terra fica sempre na mão do latifundiário, mesmo quando se tenta fazer uma reforma agrária. O colono não está preparado para ter terra; ele a entrega para o patrão de novo. Quando a UDR fala isso, todo mundo fica nervoso e declara que a UDR manipula e é mentirosa. Nós estamos falando isso de experiência pró. Alguns vizinhos de áreas indígenas eram beneficiados com a reforma agrária, e cinco anos depois entregaram as terras para grandes proprietários, que incorporaram dezenas de glebas.

E como vocês se aproximam dos colonos nesse trabalho? Qual é a alternativa de tratamento da questão que vocês sugerem? E para a própria questão fundiária?
Bem, se observarmos a própria aliança que envolve índios e seringueiros, poderemos dar um exemplo muito concreto de como isso avança. Os seringueiros que foram colonizar a Amazônia eram os colonos do final do século passado. Eles eram levados pelo governo para expulsar os índios e instalar os seringais. Os patrões que tinham os barracões e incorporaram os seringueiros como trabalhadores patrocinavam as “correrias”, que eram as grandes blitze nas áreas indígenas. Expulsavam, matavam índios e incorporavam os sobreviventes como mão-de-obra do seringal, que anteriormente era território indígena. O patrão se estabelecia ali, abastecia os seringueiros, e criava o regime de barracão, no qual a produção do seringal se afinava com a atividade econômica, recebendo incentivos fiscais, infra-estrutura e financiamento. O governo federal chegou a criar vários programas de caráter nacional como incentivo a essa atividade de produção de borracha. Quando o povo indígena, em especial no Acre e no sul do Amazonas, iniciou a retomada dos territórios, principalmente no início da década de 70, isso provocou conflitos com os seringalistas – aqueles caras que não botam a mão na massa, mas manipulam os seringueiros. Nossas comunidades não foram para um conflito aberto com os seringueiros. Houve um primeiro período de coexistência pacífica, que evoluiu para atividades conjuntas, mandando delegações de índios e seringueiros para Brasília para discutir com o governo federal o reconhecimento dessas áreas indígenas e dos seringais. Até então os seringueiros não sabiam como resolver a questão da posse da terra. Antes eles tinham um patrão que era dono do seringal inteiro, onde dezenas de famílias de seringueiros operavam. Quando eles suprimiram o patrão, apareceu a tendência de cada um deles ter um lote. As lideranças indígenas começaram a mostrar que, se cada um deles tivesse um lote, dali a dez anos estaria tudo na mão dos patrões de novo. Porque eles não iam der comercializar os seus produtos. Eles não tinham uma experiência produtiva construída. As comunidades indígenas começaram a fazer trabalhos conjuntos com os seringueiros, mostrando como se pode viver na floresta. Parte desse aprendizado eles tinham realizado, porque muitas daquelas famílias já estavam lá há mais de um século e incorporaram muitos valores da tradição indígena. Os seus hábitos alimentares incorporaram enorme quantidade de alimentos indígenas. Sua prática de coleta e de caça já está sendo determinada por ciclos culturais e não mais por necessidade econômica. Nós fomos identificando que aquele povo estava migrando para uma prática cultural muito próxima da nossa e que podia ser nosso aliado. Foi quando os seringueiros perceberam que não queriam lotes mas reservas extrativistas. Por que reservas? Porque a reserva extrativista era a maneira de dezenas de famílias de seringueiros terem assegurado seu acesso à terra, dispensando a propriedade. Os seringueiros não são proprietários das reservas extrativistas, e sim seus habitantes. Mas não era simples coletivização. Se você pegar um monte de gente que está nas favelas em torno de São Paulo, dez milhões de hectares de terra, e colocar todos lá, eles não só vão vender todos os lotes como se matar em poucos meses.

Ao nível da estrutura da propriedade, seria uma visão mais de coletivização da terra do que de apropriação e coletivização de espaços?
Está mais próximo disso. É respeito ao planeta Terra. Porque se os homens não conseguirem entender que o lugar em que nós vivemos não pode ser tomado como propriedade, eles vão continuar quebrando a cara. Nossas tribos nunca aceitaram ser proprietárias de seus territórios. Você habita aquele lugar, o defende e protege. Mas você não o defende como propriedade, e sim como habitat. Quando nós fazemos a defesa dos nossos territórios, estamos utilizando o sentido mais completo da palavra “territorialidade”, que envolve um povo, uma tradição, uma cultura, um ecossistema.

Agora, Ailton, e esses grandes grupos econômicos, essas grandes empresas que estão se instalando por aí, qual vai ser o fim deles?
Essas grandes empresas, esses grandes grupos econômicos estão manipulando isso de forma muito astuta. Quando fazem um investimento fantástico, eles o mantêm por um período determinado. Nenhum desses grandes grupos se instala em regiões como o Centro-Oeste ou a Amazônia em caráter permanente. Eles especulam com a ocupação territorial em períodos claramente determinados. Tanto que existem grupos que se instalam nessas regiões considerando que o filé mignon de sua atividade será o desmatamento. Imediatamente após o desmatamento – com o qual ele irá faturar bilhões de dólares vendendo madeira – fará uma monocultura intensiva com maquinário, equipamentos e incentivos fiscais. Quando a terra finalmente entra no estoque de terras que o Estado pode colocar à disposição dos trabalhadores, ela já virou um bagaço. É assim que é feita a história da teria.

O ponto de partida é a predação.
Isso mesmo. Os grandes investimentos são como grandes abutres, porque têm um procedimento predatório horrível.

Agora, dá para dar exemplos de empresas que estão fazendo isso em regiões aqui do Brasil, no Centro-Oeste, no Norte?
Há vários. São grupos empresariais daqui do Sul, especialmente do Paraná, que estão investindo hoje na Amazônia com a seguinte estratégia: escolhem uma região de floresta tropical preservada, com muitos recursos naturais e terra fértil. Depois, montam um programa cuja fachada é de industrialização, de montar um parque industrial. Como uma fábrica para o preparo do papel. O projeto dele supõe infra-estrutura industrial, mão-de-obra. Vai haver empregos. Esse aspecto social do projeto da empresa é o primeiro critério para tomar grana; então, ele toma grana dos incentivos fiscais. Ele não tem um centavo na mão, mas pega bilhões de cruzados para o projeto que ainda está no papel. O governo, além dos incentivos fiscais, dá a facilidade para ele obter grandes extensões de terra para se instalar. A primeira condição para poder implantar o projeto é devastar aquele lugar, ou seja, desmatar. O primeiro proveito que ele tem quando desmata: não gasta um centavo, mas já toma os produtos que havia na floresta como mercadoria. Ele já acumulou os incentivos fiscais e o lucro que teve com o desmatamento. Não investiu um centavo ainda, mas já está com bilhões de cruzados aplicados no mercado financeiro. Esses grupos do Paraná estão agindo especialmente no vale do Jaguari. Agora, estão entrando no Purus e no Juruá e no sul do Amazonas. E ainda conseguem recursos do governo para a infra-estrutura dos projetos. A infra-estrutura pode ser estradas, hidroelétricas e projetos de núcleos habitacionais para instalar a mão-de-obra. Então, esse conjunto de necessidades inventadas em torno do projeto significa investimentos que geram subsídios. Muitas vezes, quando aquele grupo está com a estrutura semimontada, o jogo político de Brasília se altera, o cara entra em desgraça e o projeto vai à falência. Só que aquela experiência redundou na destruição de sua área, na expulsão de várias famílias e na morte de índios, de seringueiros, de ribeirinhos, bem como na expulsão de animais da região e no deslocamento de famílias inteiras que foram para lá. Isso provoca uma clareira no meio da floresta. Esse procedimento acontece e se repete com um descaramento e uma permanência terríveis.

A aliança dos povos da floresta discute essas questões?
Nós tratamos essas questões como prioridade. Nós devemos ter alternativas gerais para as nossas populações diante dessas ameaças. Quando vamos discutir com o governo, não estamos discutindo apenas no sentido de que ele cesse o favorecimento a esses grandes grupos, mas de que respeite o modelo de ocupação diferenciada que estamos imprimindo nessas regiões.

Existem outros segmentos que participam dessa aliança? E no que consiste a aliança propriamente: ela tem um conselho de representação, é um movimento?
A aliança dos povos da florestal uma iniciativa da UNI e do Conselho Nacional dos Seringueiros, que inclui as populações ribeirinhas e comunidades de colonos, mas que não têm ainda uma presença tão expressiva quanto a dos índios e seringueiros. A coordenação da aliança dos povos da floresta é constituída por representantes indígenas, seringueiros e ribeirinhos. É um conselho de representantes. Nós temos pontos em que andamos juntos, mas cada uma das nossas populações tem a sua identidade própria.

Gostaria que você falasse um pouco de como as nações indígenas têm visto o Calha Norte. Como isso tem funcionado?
Eu acredito que o projeto Calha Norte foi uma das primeiras ideias efetivas do governo brasileiro, no sentido de dar um novo tratamento para a questão das populações indígenas, mas foi seguido de outras medidas como o programa Nossa Natureza, que desenvolve e avança alguns conceitos que estão no Calha Norte e outros projetos setoriais do governo. Esse conjunto de medidas configura um novo quadro de relação do Estado com as populações indígenas, no qual as medidas e as providências do Estado são determinadas por um diagnóstico definitivo. Segundo esse diagnóstico, as comunidades indígenas são de interesse da segurança nacional. O Estado nunca havia declarado isso. Agora ele o faz. Em segundo lugar, afirma que as comunidades indígenas têm bloqueado o processo de desenvolvimento e criado dificuldades para a plena implementação das políticas de consolidação da soberania nacional. Esse é o diagnóstico. Então o governo vai tomando providências. A providência que o Calha Norte indicava era a necessidade de trabalhar com as populações indígenas que estão na faixa de fronteira norte do Brasil, na faixa de fronteira da Amazônia com os países vizinhos, no sentido de criar um amortecedor de choque entre essas comunidades indígenas. Criar núcleos populacionais que absorvessem a atenção dos indíos, para que eles não ficassem migrando para regiões vizinhas. Diminuir a intensidade de contato dos índios que estão na fronteira do Brasil com os do lado de lá das fronteiras da Colômbia, da Venezuela, da Bolívia, do Peru, das Guianas. Esses países vivem intensa atividade política e, em alguns casos, mencionam até atividades subversivas, que poderiam contaminar a convivência dos índios com o governo brasileiro. Então, as providências são no sentido de instalar núcleos populacionais com brancos, com brasileiros confiáveis. Instalar regimentos militares próximos dessas áreas, para ir fazendo a retificação da fronteira. Instalar núcleos comerciais e linhas de abastecimento para essas regiões, através da Cobal, Caixa Econômica, bancos, serviço telefônico. Estender a malha viária a essas regiões isoladas do país, para que elas se integrem no mercado. Essas são providências de caráter prático. Existem outras de caráter mais político e até social: iniciar a incorporação dessas comunidades ao processo de desenvolvimento nacional; alfabetizar as crianças em língua portuguesa, já que há uma centena de línguas estranhas que são faladas ali; e levar a televisão. Hoje, se você chegar lá na fronteira do Brasil com a Colômbia, em São Gabriel da Cachoeira, lá no alto rio Negro, os índios já podem receber as emissoras de TV daqui do Sul. Tudo isso com o fim de incorporar essas comunidades ao ideário nacional. O programa Nossa Natureza vem atualizar as providências do governo com relação àquela região, prevendo medidas que seriam de caráter administrativo, no sentido de fazer o real ordenamento territorial da Amazônia. Dentro desse programa, estaria um levantamento ou um estudo eco-agro-ecológico que analisaria a compatibilidade dessas regiões com determinadas práticas econômicas – por exemplo, inventariar as regiões de províncias minerais e direcionar para ali, de forma organizada e racional, segundo o governo, a atividade de exploração mineral. Expandir as fronteiras da exploração mineral da atividade de metalúrgica; levar para lá, por exemplo, o parque siderúrgico: alumínio, ferro etc. A partir do momento em que esses lugares estiverem ocupados, começa o chamamento ao capital para investir. Descobrir as áreas aptas para a agricultura, para que também os grandes investimentos do setor possam ser direcionados; retificar as áreas de preservação ambiental para que também as preocupações planetárias com o meio ambiente possam direcionar os investimentos para a preservação daquelas regiões. Hoje, o governo brasileiro sabe que da mesma maneira que ele pode captar recursos para o setor mineral ou para o setor de investimentos em pecuária, em agricultura, é possível captar também grandes volumes de recursos a pretexto de proteção ambiental. Junto a organismos institucionais o governo consegue grandes empréstimos e até investimentos a fundo perdido, para preservar o meio ambiente.

Alípio Freire é membro do Conselho de Redação de Teoria & Debate.

Eugenio Bucci é editor de Teoria & Debate.

How Inuit Parents Teach Kids To Control Their Anger (NPR)

Goats and Soda STORIES OF LIFE IN A CHANGING WORLD

The Other Side of Anger

March 13, 20199:01 AM ET

Michaeleen Doucleff and Jane Greenhalgh

For more than 30 years, the Inuit welcomed anthropologist Jean Briggs into their lives so she could study how they raise their children. Briggs is pictured during a 1974 visit to Baffin Island. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

For more than 30 years, the Inuit welcomed anthropologist Jean Briggs into their lives so she could study how they raise their children. Briggs is pictured during a 1974 visit to Baffin Island. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Back in the 1960s, a Harvard graduate student made a landmark discovery about the nature of human anger.

At age 34, Jean Briggs traveled above the Arctic Circle and lived out on the tundra for 17 months. There were no roads, no heating systems, no grocery stores. Winter temperatures could easily dip below minus 40 degrees Fahrenheit.

Briggs persuaded an Inuit family to “adopt” her and “try to keep her alive,” as the anthropologist wrote in 1970.

At the time, many Inuit families lived similar to the way their ancestors had for thousands of years. They built igloos in the winter and tents in the summer. “And we ate only what the animals provided, such as fish, seal and caribou,” says Myna Ishulutak, a film producer and language teacher who lived a similar lifestyle as a young girl.

Briggs quickly realized something remarkable was going on in these families: The adults had an extraordinary ability to control their anger.

“They never acted in anger toward me, although they were angry with me an awful lot,” Briggs told the Canadian Broadcasting Corp. in an interview.

Myna Ishulutak (upper right, in blue jacket) lived a seminomadic life as a child. Above: photos of the girl and her family in the hunting camp of Qipisa during the summer of 1974. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Even just showing a smidgen of frustration or irritation was considered weak and childlike, Briggs observed.

For instance, one time someone knocked a boiling pot of tea across the igloo, damaging the ice floor. No one changed their expression. “Too bad,” the offender said calmly and went to refill the teapot.

In another instance, a fishing line — which had taken days to braid — immediately broke on the first use. No one flinched in anger. “Sew it together,” someone said quietly.

By contrast, Briggs seemed like a wild child, even though she was trying very hard to control her anger. “My ways were so much cruder, less considerate and more impulsive,” she told the CBC. “[I was] often impulsive in an antisocial sort of way. I would sulk or I would snap or I would do something that they never did.”

Briggs, who died in 2016, wrote up her observations in her first book, Never in Anger. But she was left with a lingering question: How do Inuit parents instill this ability in their children? How do Inuit take tantrum-prone toddlers and turn them into cool-headed adults?

Then in 1971, Briggs found a clue.

She was walking on a stony beach in the Arctic when she saw a young mother playing with her toddler — a little boy about 2 years old. The mom picked up a pebble and said, “‘Hit me! Go on. Hit me harder,'” Briggs remembered.

The boy threw the rock at his mother, and she exclaimed, “Ooooww. That hurts!”

Briggs was completely befuddled. The mom seemed to be teaching the child the opposite of what parents want. And her actions seemed to contradict everything Briggs knew about Inuit culture.

“I thought, ‘What is going on here?’ ” Briggs said in the radio interview.

Turns out, the mom was executing a powerful parenting tool to teach her child how to control his anger — and one of the most intriguing parenting strategies I’ve come across.

Iqaluit, pictured in winter, is the capital of the Canadian territory of Nunavut. Johan Hallberg-Campbell for NPR

No scolding, no timeouts

It’s early December in the Arctic town of Iqaluit, Canada. And at 2 p.m., the sun is already calling it a day. Outside, the temperature is a balmy minus 10 degrees Fahrenheit. A light snow is swirling.

I’ve come to this seaside town, after reading Briggs’ book, in search of parenting wisdom, especially when it comes to teaching children to control their emotions. Right off the plane, I start collecting data.

I sit with elders in their 80s and 90s while they lunch on “country food” —stewed seal, frozen beluga whale and raw caribou. I talk with moms selling hand-sewn sealskin jackets at a high school craft fair. And I attend a parenting class, where day care instructors learn how their ancestors raised small children hundreds — perhaps even thousands — of years ago.

The elders of Iqaluit have lunch at the local senior center. On Thursdays, what they call “country food” is on the menu, things like caribou, seal and ptarmigan. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Across the board, all the moms mention one golden rule: Don’t shout or yell at small children.

Traditional Inuit parenting is incredibly nurturing and tender. If you took all the parenting styles around the world and ranked them by their gentleness, the Inuit approach would likely rank near the top.(They even have a special kiss for babies, where you put your nose against the cheek and sniff the skin.)

The culture views scolding — or even speaking to children in an angry voice — as inappropriate, says Lisa Ipeelie, a radio producer and mom who grew up with 12 siblings. “When they’re little, it doesn’t help to raise your voice,” she says. “It will just make your own heart rate go up.”

Even if the child hits you or bites you, there’s no raising your voice?

“No,” Ipeelie says with a giggle that seems to emphasize how silly my question is. “With little kids, you often think they’re pushing your buttons, but that’s not what’s going on. They’re upset about something, and you have to figure out what it is.”

Traditionally, the women and children in the community eat with an ulu knife. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Traditionally, the Inuit saw yelling at a small child as demeaning. It’s as if the adult is having a tantrum; it’s basically stooping to the level of the child, Briggs documented.

Elders I spoke with say intense colonization over the past century is damaging these traditions. And, so, the community is working hard to keep the parenting approach intact.

Goota Jaw is at the front line of this effort. She teaches the parenting class at the Arctic College. Her own parenting style is so gentle that she doesn’t even believe in giving a child a timeout for misbehaving.

“Shouting, ‘Think about what you just did. Go to your room!’ ” Jaw says. “I disagree with that. That’s not how we teach our children. Instead you are just teaching children to run away.”

And you are teaching them to be angry, says clinical psychologist and author Laura Markham. “When we yell at a child — or even threaten with something like ‘I’m starting to get angry,’ we’re training the child to yell,” says Markham. “We’re training them to yell when they get upset and that yelling solves problems.”

In contrast, parents who control their own anger are helping their children learn to do the same, Markham says. “Kids learn emotional regulation from us.”

I asked Markham if the Inuit’s no-yelling policy might be their first secret of raising cool-headed kids. “Absolutely,” she says.

Playing soccer with your head

Now at some level, all moms and dads know they shouldn’t yell at kids. But if you don’t scold or talk in an angry tone, how do you discipline? How do you keep your 3-year-old from running into the road? Or punching her big brother?

For thousands of years, the Inuit have relied on an ancient tool with an ingenious twist: “We use storytelling to discipline,” Jaw says.

Jaw isn’t talking about fairy tales, where a child needs to decipher the moral. These are oral stories passed down from one generation of Inuit to the next, designed to sculpt kids’ behaviors in the moment.Sometimes even save their lives.

For example, how do you teach kids to stay away from the ocean, where they could easily drown? Instead of yelling, “Don’t go near the water!” Jaw says Inuit parents take a pre-emptive approach and tell kids a special story about what’s inside the water. “It’s the sea monster,” Jaw says, with a giant pouch on its back just for little kids.

“If a child walks too close to the water, the monster will put you in his pouch, drag you down to the ocean and adopt you out to another family,” Jaw says.

“Then we don’t need to yell at a child,” Jaw says, “because she is already getting the message.”

Inuit parents have an array of stories to help children learn respectful behavior, too. For example, to get kids to listen to their parents, there is a story about ear wax, says film producer Myna Ishulutak.

“My parents would check inside our ears, and if there was too much wax in there, it meant we were not listening,” she says.

And parents tell their kids: If you don’t ask before taking food, long fingers could reach out and grab you, Ishulutak says.

Inuit parents tell their children to beware of the northern lights. If you don’t wear your hat in the winter, they’ll say, the lights will come, take your head and use it as a soccer ball! Johan Hallberg-Campbell for NPR

Then there’s the story of northern lights, which helps kids learn to keep their hats on in the winter.

“Our parents told us that if we went out without a hat, the northern lights are going to take your head off and use it as a soccer ball,” Ishulutak says. “We used to be so scared!” she exclaims and then erupts in laughter.

At first, these stories seemed to me a bit too scary for little children. And my knee-jerk reaction was to dismiss them. But my opinion flipped 180 degrees after I watched my own daughter’s response to similar tales — and after I learned more about humanity’s intricate relationship with storytelling.

Oral storytelling is what’s known as a human universal. For tens of thousands of years, it has been a key way that parents teach children about values and how to behave.

Modern hunter-gatherer groups use stories to teach sharing, respect for both genders and conflict avoidance, a recent study reported, after analyzing 89 stories from nine different tribes in Southeast Asia and Africa. With the Agta, a hunter-gatherer population of the Philippines, good storytelling skills are prized more than hunting skills or medicinal knowledge, the study found.

Today many American parents outsource their oral storytelling to screens. And in doing so, I wonder if we’re missing out on an easy — and effective — way of disciplining and changing behavior. Could small children be somehow “wired” to learn through stories?

Inuit parenting is gentle and tender. They even have a special kiss for kids called kunik. (Above) Maata Jaw gives her daughter the nose-to-cheek Inuit sniff. Johan Hallberg-Campbell for NPR

“Well, I’d say kids learn well through narrative and explanations,” says psychologist Deena Weisberg at Villanova University, who studies how small children interpret fiction. “We learn best through things that are interesting to us. And stories, by their nature, can have lots of things in them that are much more interesting in a way that barestatements don’t.”

Stories with a dash of danger pull in kids like magnets, Weisberg says. And they turn a tension-ridden activity like disciplining into a playful interaction that’s — dare, I say it — fun.

“Don’t discount the playfulness of storytelling,” Weisberg says. “With stories, kids get to see stuff happen that doesn’t really happen in real life. Kids think that’s fun. Adults think it’s fun, too.”

Why don’t you hit me?

Inuit filmmaker and language teacher Myna Ishulutak as a little girl. Anthropologist Jean Briggs spent six months with the family in the 1970s documenting the child’s upbringing. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Back up in Iqaluit, Myna Ishulutak is reminiscing about her childhood out on the land. She and her family lived in a hunting camp with about 60 other people. When she was a teenager, her family settled in a town.

“I miss living on the land so much,” she says as we eat a dinner of baked Arctic char. “We lived in a sod house. And when we woke up in the morning, everything would be frozen until we lit the oil lamp.”

I ask her if she’s familiar with the work of Jean Briggs. Her answer leaves me speechless.

Ishulutak reaches into her purse and brings out Briggs’ second book, Inuit Morality Play, which details the life of a 3-year-old girl dubbed Chubby Maata.

“This book is about me and my family,” Ishulutak says. “I am Chubby Maata.”

In the early 1970s, when Ishulutak was about 3 years old, her family welcomed Briggs into their home for six months and allowed her to study the intimate details of their child’s day-to-day life.

Myna Ishulutak today in Iqaluit, Canada. As the mother of two grown boys, she says, “When you’re shouting at them all the time they tend to kind of block you. So there’s a saying: ‘Never shout at them.’ ” Johan Hallberg-Campbell for NPR

What Briggs documented is a central component to raising cool-headed kids.

When a child in the camp acted in anger — hit someone or had a tantrum — there was no punishment. Instead, the parents waited for the child to calm down and then, in a peaceful moment, did something that Shakespeare would understand all too well: They put on a drama. (As the Bard once wrote, “the play’s the thing wherein I’ll catch the conscience of the king.”)

“The idea is to give the child experiences that will lead the child to develop rational thinking,” Briggs told the CBC in 2011.

In a nutshell, the parent would act out what happened when the child misbehaved, including the real-life consequences of that behavior.

The parent always had a playful, fun tone. And typically the performance starts with a question, tempting the child to misbehave.

For example, if the child is hitting others, the mom may start a drama by asking: “Why don’t you hit me?”

Then the child has to think: “What should I do?” If the child takes the bait and hits the mom, she doesn’t scold or yell but instead acts out the consequences. “Ow, that hurts!” she might exclaim.

The mom continues to emphasize the consequences by asking a follow-up question. For example: “Don’t you like me?” or “Are you a baby?” She is getting across the idea that hitting hurts people’s feelings, and “big girls” wouldn’t hit. But, again, all questions are asked with a hint of playfulness.

The parent repeats the drama from time to time until the child stops hitting the mom during the dramas and the misbehavior ends.

Ishulutak says these dramas teach children not to be provoked easily. “They teach you to be strong emotionally,” she says, “to not take everything so seriously or to be scared of teasing.”

Psychologist Peggy Miller, at the University of Illinois, agrees: “When you’re little, you learn that people will provoke you, and these dramas teach you to think and maintain some equilibrium.”

In other words, the dramas offer kids a chance to practice controlling their anger, Miller says, during times when they’re not actually angry.

This practice is likely critical for children learning to control their anger. Because here’s the thing about anger: Once someone is already angry, it is not easy for that person to squelch it — even for adults.

“When you try to control or change your emotions in the moment, that’s a really hard thing to do,” says Lisa Feldman Barrett, a psychologist at Northeastern University who studies how emotions work.

But if you practice having a different response or a different emotion at times when you’re not angry, you’ll have a better chance of managing your anger in those hot-button moments, Feldman Barrett says.

“That practice is essentially helping to rewire your brain to be able to make a different emotion [besides anger] much more easily,” she says.

This emotional practice may be even more important for children, says psychologist Markham, because kids’ brains are still developing the circuitry needed for self-control.

“Children have all kinds of big emotions,” she says. “They don’t have much prefrontal cortex yet. So what we do in responding to our child’s emotions shapes their brain.”

A lot has changed in the Arctic since the Canadian government forced Inuit families to settle in towns. But the community is trying to preserve traditional parenting practices. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Markham recommends an approach close to that used by Inuit parents. When the kid misbehaves, she suggests, wait until everyone is calm. Then in a peaceful moment, go over what happened with the child. You can simply tell them the story about what occurred or use two stuffed animals to act it out.

“Those approaches develop self-control,” Markham says.

Just be sure you do two things when you replay the misbehavior, she says. First, keep the child involved by asking many questions. For example, if the child has a hitting problem, you might stop midway through the puppet show and ask,”Bobby, wants to hit right now. Should he?”

Second, be sure to keep it fun. Many parents overlook play as a tool for discipline, Markham says. But fantasy play offers oodles of opportunities to teach children proper behavior.

“Play is their work,” Markham says. “That’s how they learn about the world and about their experiences.”

Which seems to be something the Inuit have known for hundreds, perhaps even, thousands of years.

Inuit parents value the playful side of kids even when disciplining them. Above: Maata Jaw and daughter. Johan Hallberg-Campbell for NPR

This story is part of a series from NPR’s Science desk called The Other Side of Anger. There’s no question we are in angry times. It’s in our politics, our schools and homes. Anger can be a destructive emotion, but it can also be a positive force.

Join NPR in our exploration of anger and what we can learn from this powerful emotion. Read and listen to stories in the series here.

Sideline collective has rearranged the entire bible into alphabetical order (Design Boom)

designboom.com

lynne myers, oct 15, 2020


joseph ernst and jan van bruggen of sideline collective have reorganized all 1,364 pages of the king james bible into alphabetical order. this immense undertaking marks part of a project to convert seminal books into something objective, quantifiable, and analytical: data. and with this first book, ‘BIBLE THE’, the pair have broken down the world’s most famous publication, allowing us to see which words are used most often.

sideline collective has rearranged the entire bible into alphabetical order designboom

images courtesy of sideline collective

to make BIBLE THE, ernst and van bruggen used a custom-made piece of software. they’ve taken the entire text of the bible and reorganized it alphabetically from a-z. this distills each text down to its lowest common denominator. it highlights the importance people tend to place on the order of said words – and their meaning – and allows for new and interesting interpretations of the written word, in much the same way as an abstract painting might.

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by analyzing the words found in the bible, sideline collective found that it skews towards a positive bias. for example, ‘good’ is used 720 times, ‘bad’ only 18. ‘love’ is used 308 times and ‘hate’ 87 times. and ‘happy’ less so, at 28 times, but still over twice as much as the 11 uses of ‘sad’. ‘right’ features 358 times, ‘wrong’ just 26. and ‘life’ 451 times, still more than the 371 instances of ‘death’.

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this positive trait also translates into biblical subject matter. for example, ‘heaven’ features 582 times, whereas ‘hell’ only 54. there are 94 ‘angels’ to 55 ‘devils’, 96 ‘saints’ to 48 ‘sinners’, and 302 ‘blessed’ to a mere 3 ‘damned’, and a total of 27 ‘miracles’.

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unsurprisingly, there is no ‘sex’ or ‘intercourse’ in the bible, but there are 17 ‘concubines’, 9 ‘adulterers’, 8 ‘harlots’, 4 ‘sodomites’, 3 instances of ‘copulation’, 3 instances of ‘conception”, 2 ‘whores’, and 1 ‘prostitute’. socio-economically, there are twice as many ‘givers’ as ‘takers’ – 93 ‘poor’ and 81 ‘rich’, 77 ‘rulers’, 237 ‘prophets’, ‘30 nobles’, 480 ‘servants’, 400 ‘priests’, 30 ‘soldiers’, 17 ‘publicans’, 27 ‘workers’, 5 ‘lawyers’, 9 carpenters, 1 ‘fishermen’, 6 ‘lepers’, 3 ‘beggar’s, and 1 ‘slave’.

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in terms of diversity, ‘white’ dominates by about 4:1, featuring 75 times, with ‘black’ just 18 times. but the bible does appear to feature a diverse cast: 256 ‘jews’, 254 ‘philistines’, 98 ‘egyptians’, 61 ‘syrians’, 14 ‘greeks’, 10 ‘cushi’ (north africans), 10 ‘assyrians’, 7 ‘romans’, 7 ‘samaritans’, 5 ‘persians’, 4 ‘babylonians’, 2 ‘libyans’, 2 ‘christians’, a single ‘arab’, and an equal amount of ‘believers’ and ‘infidels’.

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gender-wise, the data suggests that the bible is overwhelmingly biased towards males. at it’s most extreme, the bible has 8,472 instances of the word ‘his’ and only a mere 3 instances of ‘hers’. and while this gender bias persists across the male-female divide, for the most part, it is less pronounced. there are 1,653 references to ‘men’ and only 181 to ‘women’. ‘he’ is used 10,404 times, ‘she’ only 982. ‘him’ 6,659 times to 1,994 uses of ‘her’. 

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this gender bias extends beyond pronouns, to other gender-specific identifiers. there’s only 252 ‘daughters’ to 1,094 ‘sons’, only 8 ‘mothers’ to 548 ‘fathers’, only 4 uses of the term ‘lady’ to 7,830 uses of the term ‘lord’, 3 ‘queens’ to 340 ‘kings’, and just 5 uses of ‘goddess’ to 4,440 uses of ‘god’.

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Rafael Muñoz: Brasil paga alto preço pela falta de política integrada de gestão de risco de desastres (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br – 20 de outubro de 2020

É urgente que se integrem tais questões às amplas políticas de desenvolvimento socioeconômico
Enchente em Itaoca, 2014. Fonte: Agência Brasil

Foi em janeiro de 2011 que o mito de que no Brasil não há desastre foi por terra. Chuvas torrenciais registradas na Região Serrana do Rio de Janeiro provocaram deslizamentos de terra e inundações, deixando um rastro de mais de mil mortos. O ocorrido mostrou a necessidade de priorização da agenda de riscos de desastres que fora, por muito tempo, secundária frente à falta de conhecimento dos reais impactos dos eventos naturais extremos na sociedade e economia brasileiras.

Nesse contexto, o Banco Mundial em parceria com a Sedec (Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil) e a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) conduziu uma análise detalhada de eventos de desastres passados demostrando a real dimensão do problema: entre 1995 e 2019, o Brasil perdeu em média mensalmente cerca de R$ 1,1 bilhão devido a desastres, ou seja, os prejuízos totais para o período são estimados em cerca de R$ 330 bilhões.

Desse total, 20% são perdas direitas (ou danos), a ampla maioria (59%) no setor de infraestrutura enquanto o de habitação responde por 37%. Já as perdas indiretas (ou prejuízos) correspondem a aproximadamente 80% do valor total dos impactos de desastre no país, mais marcantes na agricultura (R$ 149,8 bilhões) e pecuária (R$ 55,7 bilhões) pelo setor privado e água e transporte (R$ 31,9 bilhões) pelo setor público. Em relação aos impactos humanos, a conta é também significava: 4.065 mortes, 7,4 milhões de pessoas temporária ou permanentemente fora de suas casas devido a danos e mais de 276 milhões de pessoas afetadas.

Para além das perdas humanas e econômicas, as políticas públicas para a promoção de avanços socioeconômicos também podem ter sua eficácia reduzida dado que os eventos de desastres comprovadamente afetam indicadores de saúde, poder de compra, acesso a emprego e renda, educação, dentre outros. Investimentos vitais em infraestruturas críticas, como transportes e habitação, também são massivamente impactados devido a ocorrência de desastres.

Diante deste cenário, surge a inevitável pergunta: por que o Brasil ainda não tem uma política integrada de gestão de riscos de desastres e um Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil? De forma a assegurar os tão necessários avanços, a atual gestão da Sedec definiu como prioridade a regulamentação da Lei 12.608/2012 que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil, bem como a formulação do Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Tais ações podem configurar um arcabouço legal e de diretrizes que venham a fomentar melhorias estruturais em políticas públicas. Por exemplo, no setor de habitação pode-se definir protocolos de incorporação de produtos de mapeamento de riscos em decisões de novos investimentos ou mitigação de riscos de desastres em projetos já entregues. No campo do planejamento fiscal, orçamentos mais condizentes com os impactos econômicos de desastres podem ser definidos no exercício de cada ano com vistas a melhor proteger a economia nacional e subnacional. Por fim, investimentos em infraestruturas críticas (por exemplo transportes, água e saneamento, geração e distribuição de energia) bem como manutenção das mesmas sob a ótica de exposição e vulnerabilidade a perigos naturais podem assegurar a continuidade da operação e de negócios em situações extremas, permitindo que serviços essenciais continuem a ser providos à população e que os impactos indiretos na economia sejam reduzidos.

Dado o aumento da frequência e impactos socioeconômicos dos eventos naturais extremos, existe consenso entre os especialistas que o processo de rápida urbanização favoreceu a criação de um cenário mais propício à ocorrência de desastres devido à ocupação inadequada do solo em áreas com perigos naturais e sem o devido tratamento de obras civis para gestão dos processos naturais. Ao mesmo tempo que esse processo levou a uma alta exposição de comunidades vulneráveis no território nacional e no momento em que analisamos os impactos da pandemia de Covid-19 em nossa economia e comunidades, não podemos deixar de considerar como os desastres vêm influenciando (negativamente) há muito tempo as políticas públicas em nosso país.

Felizmente avanços na coleta de dados e evidências permitem agora que os eventos de desastres e seus impactos estejam sob a luz do conhecimento técnico e em posse dos legisladores, administradores públicos e tomadores de decisões por meio de mapas de riscos, previsão de clima e tempo, modelos de inundações e deslizamentos, bem como fóruns de discussão e projetos de financiamento.

Nesse contexto, fica clara a necessidade de adaptação dos modelos de sucesso de gestão de riscos de desastres observados globalmente às características do Brasil. De forma geral, a extensão do território nacional, modelo federalista de administração pública, histórico de eventos de desastres de menor escala e alta frequência cumulativa, dentre outros, implica na necessidade de definição do papel da União e dos governos estaduais e municipais na agenda.

Assim, é urgente que se integre as questões de gestão de riscos de desastres às amplas políticas de desenvolvimento socioeconômico, tais como programas de habitação, planejamento e expansão urbana, investimentos em infraestruturas críticas, incentivos agropecuários, transferência de renda, entre outros.

Adicionalmente, há real oportunidade em se repensar processos de recuperação segundo a ótica de reconstrução melhor (em inglês, Build Back Better) de forma a assegurar que erros do passado não sejam repetidos gerando ou mantendo-se os patamares de riscos de desastres.

Esta coluna foi escrita em colaboração com Frederico Pedroso, especialista em Gestão de Riscos de Desastres do Banco Mundial, Joaquin Toro, especialista líder em Gestão de Riscos de Desastres do Banco Mundial e Rafael Schadeck, engenheiro civil e consultor em Gestão de Riscos de Desastres do Banco Mundial.

Apesar de efeitos negativos, pandemia deixa legado de solidariedade, dizem líderes comunitários (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Lalo de Almeida/Folha Press

Cresce preocupação com educação em comunidades pobres de grandes cidades

Thiago Amâncio, 20 de setembro de 2020

Apesar de pessimistas com o legado negativo de alto desemprego e fome que a pandemia da Covid-19 pode deixar, líderes de comunidades pobres país afora se dizem esperançosos com a solidariedade criada nesses lugares após a chegada da doença.

É o que aponta levantamento feito entre 17 e 30 de agosto pela Rede de Pesquisa Solidária, que monitora as respostas à Covid pelo país. É a quarta rodada de uma enquete feita com 64 lideranças comunitárias nas regiões metropolitanas de Manaus, Recife, Belo Horizonte, Rio, São Paulo, Distrito Federal, Campinas (SP), Salvador, Joinville (SC) e Maringá (PR).

“Quando perguntamos sobre perspectiva para o futuro, houve essa percepção de que a pandemia gerou engajamento, foi uma surpresa para nós. Por um lado, é efeito de uma constatação negativa: as pessoas se sentiram abandonadas e aprenderam que tiveram que se reestruturar para reagir à pandemia”, diz Graziela Castello, diretora-administrativa e pesquisadora do Cebrap.

“Moradores que não tinham história de associativismo, relação com sindicato, com partido, começaram a se organizar. Dos entrevistados, 16%, acham que gerou algum tipo de consciência política na população e que a gestão da pandemia provocou a necessidade de avaliar o governo, pensar nas eleições. Dentro do cenário de abandono completo, talvez tenha impacto positivo de maior prática de cidadania política”, continua.

O principal problema apontado pelas lideranças, no entanto, ainda é a segurança alimentar: 62% dos entrevistados disseram se preocupar com a fome provocada pela pandemia. A falta de trabalho também foi citada por metade dos ouvidos.

Uma outra questão despontou no último questionário feito: a preocupação com a educação. Um em cada cinco entrevistados citou a volta às aulas como um dos problemas mais críticos atualmente.

E aí os líderes se dividem: parte deles se preocupa que o retorno das crianças às escolas possa aumentar a contaminação dentro das comunidades; outra parte se preocupa com o pouco acesso das crianças e adolescentes a ferramentas de ensino remoto, prejudicando a aprendizagem.

“Os familiares são terrivelmente contra o retorno às aulas, mesmo porque se trata de um governo e de um prefeito que não investiu na saúde, não fez um investimento na preparação da volta às aulas, nas salas de aula. Segundo, o governo e o prefeito lá vão colocar um frasco de álcool em gel e um ventilador para fazer a ventilação, e [afirmam que] isso é o suficiente para espantar o vírus. A gente sabe que precisa de um investimento muito maior do que isso”, diz um entrevistado do Tucuruvi, zona norte de São Paulo.

“As famílias não têm internet, telefone, computador em casa. E as crianças estão sem estudar, sem escola. E devido a essa situação elas ficam em casa sem fazer nada. Tem mães analfabetas que não sabem explicar e ajudar nas atividades, ficou muito difícil nas comunidades”, diz outro na Brasilândia, também em São Paulo.

Para Castello, “a diversidade de opiniões mostra o drama que é gerenciar essa situação”, diz. “De um lado, tem o medo da volta às aulas, do impacto nos parentes mais velhos, a preocupação de que as escolas não estão preparadas para voltar. Do outro lado, as lideranças apontam deficiências cognitivas, depressão nas crianças, todo esse processo que o distanciamento tem gerado.”

“As duas coisas são muito perversas. Os pais lidam com o medo da volta e com a impossibilidade da manutenção em casa”, diz a pesquisadora.

A Rede de Pesquisa Solidária reúne dezenas de pesquisadores de instituições públicas e privadas, como a USP, o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) e a Fundação Getulio Vargas (FGV). Desde abril, eles têm produzido boletins semanais, que estão disponíveis no site da iniciativa.

Líder indígena Ailton Krenak vence prêmio Juca Pato de intelectual do ano (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Autor de “A Vida Não É Útil” foi escolhido pela União Brasileira de Escritores

27.set.2020


O líder indígena e escritor Ailton Krenak foi o vencedor da edição deste ano do prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores.

O autor de “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” e do recente “A Vida Não É Útil”, editados pela Companhia das Letras, foi escolhido como intelectual do ano por votação do grupo.

O Juca Pato premia autores que tenham publicado obras de repercussão nacional, em qualquer área do conhecimento, que contribuíram para o desenvolvimento do país e da democracia.

Nos últimos anos, condecorou nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Milton Hatoum.

Krenak concorria contra finalistas como os jornalistas Eliane Brum e Laurentino Gomes, a escritora Maria Valéria Rezende e a filósofa Djamila Ribeiro, colunista deste jornal.

O prêmio está programado para ser entregue em dezembro, em local ainda a ser definido.

Eleição tem recorde de mulheres candidatas e, pela 1ª vez, mais negros que brancos (Folha de S.Paulo)

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Ranier Bragon, Guilherme Garcia e Flávia Faria – 27 de setembro de 2020


Os 526 mil pedidos de registro de candidatura computados até o momento para as eleições municipais de novembro já representam um recorde no número total de candidatos, de postulantes do sexo feminino e, pela primeira vez na história, uma maioria autodeclarada negra (preta ou parda) em relação aos que se identificam como brancos.

O crescimentos de negros e mulheres na disputa às prefeituras e Câmaras Municipais tem como pano de fundo o estabelecimento das cotas de gênero a partir dos anos 90 e as mais recentes cotas de distribuição da verba de campanha e da propaganda eleitoral, decisões essas tomadas pelos tribunais superiores em 2018, no caso das mulheres, e em 2020, no caso dos negros.

A cota eleitoral racial ainda depende de confirmação pelo plenário do STF (Supremo Tribunal Federal), o que deve ocorrer nesta semana.

Em relação à maior presença de negros, especialistas falam também no impacto do aumento de pessoas que se reconhecem como pretas e pardas após ações de combate ao racismo.

Apesar de o prazo de registro de candidatos ter se encerrado neste sábado (26), o Tribunal Superior eleitoral informou que um residual de registros feitos de forma presencial ainda levará alguns dias para ser absorvido pelo sistema.

Além disso, candidatos que não tiveram seu nome inscrito pelos partidos têm até quinta-feira (1º) para fazê-lo, mas isso normalmente diz respeito a um percentual ínfimo de concorrentes.

Os 526 mil pedidos computados até agora já representam 47 mil a mais do total de 2016 e 82% do que o tribunal espera receber este ano, com base nas convenções partidárias —cerca de 645 mil postulantes.

Até a noite deste domingo (27), o percentual de candidatas mulheres era de 34%, 177 mil concorrentes. Nas últimas três eleições, esse índice não passou de 32%. Pelas regras atuais, os partidos devem reservar ao menos 30% das vagas de candidatos e da verba pública de campanha para elas.

Em 2018, a Folha revelou em diversas reportagens que partidos, entre eles o PSL, lançaram candidatas laranjas com o intuito de simular o cumprimento da exigência, mas acabaram desviando os recursos para candidatos homens.

No caso dos negros, o TSE decidiu instituir a partir de 2022 a divisão equânime das verbas de campanha e da propaganda eleitoral entre candidatos negros e brancos.

O ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal, porém, determinou a aplicação imediata da medida. Sua decisão, que é liminar, está sendo analisada pelo plenário da corte, com tendência de confirmação.

Até noite deste domingo, os autodeclarados pretos e pardos somavam 51% dos candidatos (264 mil) contra 48% dos brancos (249 mil). Entre os negros, 208 mil se declaravam pardos e 56 mil, pretos.

O TSE passou a perguntar a cor dos candidatos a partir de 2014. Nas três eleições ocorridas até agora, os brancos sempre foram superiores aos negros, ocupando mais de 50% das vagas de candidatos, apesar de pretos e pardos serem maioria na população brasileira (56%). Em 2016, brancos eram 51%.

Embora o TSE não tenha registrado cor ou raça dos candidatos nos pleitos anteriores, é muitíssimo improvável ter havido eleição anterior com maioria de candidatos negros.

Assim como no recenseamento da população feita pelo IBGE, os candidatos devem declarar a cor ou raça com base em cinco identificações: preta, parda (que formam a população negra do país), branca, amarela ou indígena.

Mais de 42 mil candidatos de todo o país que disputarão as eleições deste ano mudaram a declaração de cor e raça que deram em 2016.

O número equivale a 27% dos cerca de 154 mil que concorreram no último pleito e disputam novamente em 2020. Pouco mais de um terço (36%) alterou a cor de branca para parda. Outros 30% se declaravam pardos e agora se dizem brancos.

Apesar da possibilidade de fraude, especialistas falam no impacto do aumento de pessoas que se reconhecem como pretas e pardas após ações de combate ao racismo.

A decisão de adoção imediata das cotas raciais colocou em posições opostas os núcleos afros dos partidos políticos, favoráveis à decisão, e os dirigentes das siglas, majoritariamente brancos, que em reunião nesta semana com o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Luís Roberto Barroso, chegaram a dizer ser inexequível o cumprimento da medida ainda neste ano.

Também há receio de fraudes em relação às candidaturas negras. E há de se ressaltar que, assim como a cota feminina não resultou até agora em uma presença nos postos de comando de Executivo e Legislativo de mulheres na proporção que elas representam da população, a cota racial também não é garantia, por si só, de que haverá expressivo aumento da participação de negros na política, hoje relegados a pequenas fatias de poder, principalmente nos cargos mais importantes. ​

The covid-19 pandemic is worse than official figures show (The Economist)

economist.com

But some things are improving, and it will not go on for ever

Sep 26th 2020

AS THE AUTUMNAL equinox passed, Europe was battening down the hatches for a gruelling winter. Intensive-care wards and hospital beds were filling up in Madrid and Marseille—a city which, a few months ago, thought it had more or less eliminated covid-19. Governments were implementing new restrictions, sometimes, as in England, going back on changes made just a few months ago. The al-fresco life of summer was returning indoors. Talk of a second wave was everywhere.

Across the Atlantic the United States saw its official covid-19 death toll—higher than that of all western Europe put together—break the 200,000 barrier. India, which has seen more than half a million new cases a week for four weeks running, will soon take America’s unenviable laurels as the country with the largest official case count.

The world looks set to see its millionth officially recorded death from covid-19 before the beginning of October. That is more than the World Health Organisation (WHO) recorded as having died from malaria (620,000), suicide (794,000) or HIV/AIDS (954,000) over the whole of 2017, the most recent year for which figures are available.

Those deaths represent just over 3% of the recorded covid-19 cases, which now number over 32m. That tally is itself an underestimate of the number who have actually been infected by SARSCoV-2, the virus which causes covid 19. Many of the infected do not get sick. Many who do are never seen by any health system.

A better, if still imperfect, sense of how many infections have taken place since the outbreak began at the end of last year can be gleaned from “serosurveys” which scientists and public-health officials have undertaken around the world. These look for antibodies against SARSCoV-2 in blood samples which may have been taken for other purposes. Their presence reveals past exposure to the virus.

Various things make these surveys inaccurate. They can pick up antibodies against other viruses, inflating their totals—an effect which can differ from place to place, as there are more similar-looking viruses circulating in some regions than in others. They can mislead in the other direction, too. Some tests miss low levels of antibody. Some people (often young ones) fight off the virus without ever producing antibodies and will thus not be recorded as having been infected. As a result, estimates based on serosurveys have to be taken with more than a grain of salt.

But in many countries it would take a small sea’s worth of the stuff to bring the serosurvey figures into line with the official number of cases. The fact that serosurvey data are spotty—there is very little, for example, openly available from China—means it is not possible to calculate the global infection rate directly from the data at hand. But by constructing an empirical relationship between death rates, case rates, average income—a reasonable proxy for intensity of testing—and seropositivity it is possible to impute rates for countries where data are not available and thus estimate a global total.

The graphic on this page shows such an estimate based on 279 serosurveys in 19 countries. It suggests that infections were already running at over 1m a day by the end of January—when the world at large was only just beginning to hear of the virus’s existence. In May the worldwide rate appears to have been more than 5m a day. The uncertainties in the estimate are large, and become greater as you draw close to the present, but all told it finds that somewhere between 500m and 730m people worldwide have been infected—from 6.4% to 9.3% of the world’s population. The WHO has not yet released serosurvey-based estimates of its own, though such work is under way; but it has set an upper bound at 10% of the global population.

As the upper part of the following data panel shows, serosurvey results which can be directly compared with the diagnosed totals are often a great deal bigger. In Germany, where cases have been low and testing thorough, the seropositivity rate was 4.5 times the diagnosed rate in August. In Minnesota a survey carried out in July found a multiplier of seven. A survey completed on August 23rd found a 6.02% seropositivity rate in England, implying a multiplier of 12. A national serosurvey of India conducted from the middle of May to early June found that 0.73% were infected, suggesting a national total of 10m. The number of registered cases at that time was 226,713, giving a multiplier of 44. Such results suggest that a global multiplier of 20 or so is quite possible.

If the disease is far more widespread than it appears, is it proportionately less deadly than official statistics, mainly gathered in rich countries, have made it look? Almost certainly. On the basis of British figures David Spiegelhalter, who studies the public understanding of risk at Cambridge University, has calculated that the risk of death from covid increases by about 13% for every year of age, which means a 65-year-old is 100 times more likely to die than a 25-year-old. And 65-year-olds are not evenly distributed around the world. Last year 20.5% of the EU’s population was over 65, as opposed to just 3% of sub-Saharan Africa’s.

But it is also likely that the number of deaths, like the number of cases, is being seriously undercounted, because many people will have died of the disease without having had a positive test for the virus. One way to get around this is by comparing the number of deaths this year with that which would be predicted on the basis of years past. This “excess mortality” method relies on the idea that, though official statistics may often be silent or misleading as to the cause of death, they are rarely wrong about a death actually having taken place.

The excessive force of destiny

The Economist has gathered all-cause mortality data from countries which report them weekly or monthly, a group which includes most of western Europe, some of Latin America, and a few other large countries, including the United States, Russia and South Africa (see lower part of data panel). Between March and August these countries recorded 580,000 covid-19 deaths but 900,000 excess deaths; the true toll of their share of the pandemic appears to have been 55% greater than the official one. This analysis suggests that America’s official figures underestimate the death toll by 30% or more (America’s Centres for Disease Control and Prevention have provided a similar estimate). This means that the real number of deaths to date is probably a lot closer to 300,000 than 200,000. That is about 10% of the 2.8m Americans who die each year—or, put another way, half the number who succumb to cancer. And there is plenty of 2020 still to go.

Add to all this excess mortality unreported deaths from countries where record keeping is not good enough to allow such assessments and the true death toll for the pandemic may be as high as 2m.

What can be done to slow its further rise? The response to the virus’s original vertiginous ascent was an avalanche of lockdowns; at its greatest extent, around April 10th, at least 3.5bn people were being ordered to stay at home either by national governments or regional ones. The idea was to stop the spread of the disease before health-care systems collapsed beneath its weight, and in this the lockdowns were largely successful. But in themselves they were never a solution. They severely slowed the spread of the disease while they were in place, but they could not stay in place for ever.

Stopping people interacting with each other at all, as lockdowns and limits on the size of gatherings do, is the first of three ways to lower a disease’s reproduction number, R—the number of new cases caused by each existing case. The second is reducing the likelihood that interactions lead to infection; it requires mandated levels of social distancing, hygiene measures and barriers to transmission such as face masks and visors. The third is reducing the time during which an infectious person can interact with people under any conditions. This is achieved by finding people who may recently have been infected and getting them to isolate themselves.

Ensuring that infectious people do not have time to do much infecting requires a fast and thorough test-and-trace system. Some countries, including Canada, China, Germany, Italy, Japan, Singapore and Taiwan, have successfully combined big testing programmes which provide rapid results with a well developed capacity for contact tracing and effective subsequent action. Others have foundered.

Networks and herds

Israel provides a ready example. An early and well-enforced lockdown had the expected effect of reducing new infections. But the time thus bought for developing a test-and-trace system was not well used, and the country’s emergence from lockdown was ill-thought-through. This was in part because the small circle around prime minister Binyamin Netanyahu into which power has been concentrated includes no one with relevant expertise; the health ministry is weak and politicised.

Things have been made worse by the fact that social distancing and barrier methods are being resisted by some parts of society. Synagogues and Torah seminaries in the ultra-Orthodox community and large tribal weddings in the Arab-Israeli community have been major centres of infection. While unhappy countries, like Tolstoy’s unhappy families, all differ, the elements of Israel’s dysfunction have clear parallels elsewhere.

Getting to grips with “superspreader” events is crucial to keeping R low. Close gatherings in confined spaces allow people to be infected dozens at a time. In March almost 100 were infected at a biotech conference in Boston. Many of them spread the virus on: genetic analysis subsequently concluded that 20,000 cases could be traced to that conference.

Nipping such blooms in the bud requires lots of contact tracing. Taiwan’s system logs 15-20 contacts for each person with a positive test. Contact tracers in England register four to five close contacts per positive test; those in France and Spain get just three. It also requires that people be willing to get tested in the first place. In England only 10-30% of people with covid-like symptoms ask for a test through the National Health Service. One of the reasons is that a positive test means self-isolation. Few want to undergo such restrictions, and few are good at abiding by them. In early May a survey in England found that only a fifth of those with covid symptoms had self-isolated as fully as required. The government is now seeking to penalise such breaches with fines of up to £10,000 ($12,800). That will reduce the incentive to get tested in the first place yet further.

As much of Europe comes to terms with the fact that its initial lockdowns have not put an end to its problems, there is increased interest in the Swedish experience. Unlike most of Europe, Sweden never instigated a lockdown, preferring to rely on social distancing. This resulted in a very high death rate compared with that seen in its Nordic neighbours; 58.1 per 100,000, where the rate in Denmark is 11.1, in Finland 6.19 and in Norway 4.93. It is not clear that this high death rate bought Sweden any immediate economic advantage. Its GDP dropped in the second quarter in much the same way as GDPs did elsewhere.

It is possible that by accepting so many deaths upfront Sweden may see fewer of them in the future, for two reasons. One is the phenomenon known, in a rather macabre piece of jargon, as “harvesting”. Those most likely to succumb do so early on, reducing the number of deaths seen later. The other possibility is that Sweden will benefit from a level of herd immunity: once the number of presumably immune survivors in the population grows high enough, the spread of the disease slows down because encounters between the infected and the susceptible become rare. Avoiding lockdown may conceivably have helped with this.

On the other hand, one of the advantages of lockdowns was that they provided time not just for the development of test-and-trace systems but also for doctors to get better at curing the sick. In places with good health systems, getting covid-19 is less risky today than it was six months ago. ISARIC, which researches infectious diseases, has analysed the outcomes for 68,000 patients hospitalised with covid-19; their survival rate increased from 66% in March to 84% in August. The greatest relative gains have been made among the most elderly patients. Survival rates among British people 60 and over who needed intensive care have risen from 39% to 58%.

This is largely a matter of improved case management. Putting patients on oxygen earlier helps. So does reticence about using mechanical ventilators and a greater awareness of the disease’s effects beyond the lungs, such as its tendency to provoke clotting disorders.

Nouvelle vague

As for treatments, two already widely available steroids, dexamethasone and hydrocortisone, increase survival by reducing inflammation. Avigan, a Japanese flu drug, has been found to hasten recovery. Remdesivir, a drug designed to fight other viruses, and convalescent plasma, which provides patients with antibodies from people who have already recovered from the disease, seem to offer marginal benefits.

Many consider antibodies tailor-made for the job by biotech companies a better bet; over the past few years they have provided a breakthrough in the treatment of Ebola. The American government has paid $450m for supplies of a promising two-antibody treatment being developed by Regeneron. That will be enough for between 70,000 and 300,000 doses, depending on what stage of the disease the patients who receive it have reached. Regeneron is now working with Roche, another drug company, to crank up production worldwide. But antibodies will remain expensive, and the need to administer them intravenously limits their utility.

It is tempting to look to better treatment for the reason why, although diagnosed cases in Europe have been climbing steeply into what is being seen as a second wave, the number of deaths has not followed: indeed it has, as yet, barely moved. The main reason, though, is simpler. During the first wave little testing was being done, and so many infections were being missed. Now lots of testing is being done, and vastly more infections are being picked up. Correct for this distortion and you see that the first wave was far larger than what is being seen today, which makes today’s lower death rate much less surprising (see data panel).

The coming winter is nevertheless worrying. Exponential growth can bring change quickly when R gets significantly above one. There is abundant evidence of what Katrine Bach Habersaat of the WHO calls “pandemic fatigue” eating away at earlier behavioural change, as well as increasing resentment of other public-health measures. YouGov, a pollster, has been tracking opinion on such matters in countries around the world. It has seen support for quarantining people who have had contact with someone infected fall a bit in Asia and rather more in the West, where it is down from 78% to 63%. In America it has fallen to 55%.

It is true that infection rates are currently climbing mostly among the young. But the young do not live in bubbles. Recent figures from Bouches-du-Rhône, the French department which includes Marseille, show clearly how a spike of cases in the young becomes, in a few weeks, an increase in cases at all ages.

As the fear of such spikes increases, though, so does the hope that they will not be recurring all that much longer. Pfizer, which has promising vaccine candidate in efficacy trials, has previously said that it will seek regulatory review of preliminary results in October, though new standards at the Food and Drug Administration may not allow it to do so in America quite that soon. Three other candidates, from AstraZeneca, Moderna and J&J, are nipping at Pfizer’s heels. The J&J vaccine is a newcomer; it entered efficacy trials only on September 23rd. But whereas the other vaccines need a booster a month after the first jab, the J&J vaccine is administered just once, which will make the trial quicker; it could have preliminary results in November.

None of the companies will have all the trial data they are planning for until the first quarter of next year. But in emergencies regulators can authorise a vaccine’s use based on interim analysis if it meets a minimum standard (in this case, protection of half those who are vaccinated). Authorisation for use under such conditions would still make such a vaccine more credible than those already in use in China and Russia, neither of which was tested for efficacy at all. But there have been fears that American regulators may, in the run up to the presidential election, set the bar too low. Making an only-just-good-enough vaccine available might see social-distancing collapse and infections increase; alternatively, a perfectly decent vaccine approved in a politically toxic way might not be taken up as widely as it should be.

In either case, though, the practical availability of a vaccine will lag behind any sort of approval. In the long run, billions of doses could be needed. A global coalition of countries known as Covax wants to distribute 2bn by the end of 2021—which will only be enough for 1bn people if the vaccine in question, like Pfizer’s or AstraZeneca’s, needs to be administered twice. The world’s largest manufacturer of vaccines, the Serum Institute in India, recently warned that there will not be enough supplies for universal inoculation until 2024 at the earliest.

Even if everything goes swimmingly, it is hard to see distribution extending beyond a small number of front-line health and care workers this year. But the earlier vaccines are pushed out, the better. The data panel on this page looks at the results of vaccinating earlier versus later in a hypothetical population not that unlike Britain’s. Vaccination at a slower rate which starts earlier sees fewer eventual infections than a much more ambitious campaign started later. At the same time increases in R—which might come about if social distancing and similar measures fall away as vaccination becomes real—make all scenarios worse.

By next winter the covid situation in developed countries should be improved. What level of immunity the vaccines will provide, and for how long, remains to be seen. But few expect none of them to work at all.

Access to the safety thus promised will be unequal, both within countries and between them. Some will see loved ones who might have been vaccinated die because they were not. Minimising such losses will require getting more people vaccinated more quickly than has ever been attempted before. It is a prodigious organisational challenge—and one which, judging by this year’s experience, some governments will handle considerably better than others. ■

This article appeared in the Briefing section of the print edition under the headline “Grim tallies”

The unintended consequence of becoming empathetic (Science Daily)

Date: September 16, 2020

Source: Michigan State University

Summary: Many people want to become more empathetic. But, these changes in personality may also lead to changes in political ideologies.


When people say that they want to change things about their personalities, they might not know about the inadvertent consequences these changes could bring. In fact, changes in personality may also lead to changes in political ideologies, say researchers from Michigan State University and the University of Granada, who led the study.

“We found this interesting effect where people wanted to improve on things like being more emotionally connected to others — or, becoming more empathetic,” said William Chopik, assistant professor of psychology at MSU. “But we found that this leads to changes in their political souls as well, which maybe they weren’t intending. We saw that in these personality changes toward greater empathy, people placed a lot more importance upon more liberal ideologies — like how you should treat other people and take others’ perspectives.”

The study, published in the most recent edition of Journal of Research in Personality, is the first to look at shifts in personalities and morals due to volitional change — or, changes one brings upon oneself.

Chopik and co-authors from Southern Methodist University and the University of Illinois asked 414 volunteer participants to take a weekly questionnaire. Such questions included how they would react in certain situations, if they wanted to improve or change themselves, how they felt about helping others and other personality-related queries. Additionally, the researchers measured participants’ “empathic concern” — or, feelings that would arise when they saw someone in need or doing poorly. The researchers continued the weekly questionnaire for four months.

“Among the questions, we asked participants how they felt about five broad moral foundations: care, fairness, loyalty, authority and purity. We tracked sentiments week-to-week,” Chopik said. “While these are common for personality-related assessments, individual moral foundations can also help explain attitudes toward various ideologies, ethical issues and policy debates.”

Generally, liberal and progressive people tend to prioritize two of the five moral foundations: care and fairness; whereas, conservatives draw from all five — including the more binding foundations: loyalty to the ingroup, respect for authority, and observance of purity and sanctity standards, Chopik said.

“Our study shows that when people are motivated to change, they can successfully do so,” he said. “What we were surprised to find was that an upward trajectory for something like perspective-taking aligned with the person’s shift towards the more liberal foundations.”

The researchers did not intend for their study to generalize personality traits of one political party or another, but rather to see if — and how — a person could change themselves and what might be a result of their “moral transformation.”

“Being a better perspective-taker exposes you to all sorts of new ideas, so it makes sense that it would change someone because they would be exposed to more diverse arguments,” Chopik said. “When you become more empathic, it opens up a lot of doors to change humans in other ways, including how they think about morality and ideology — which may or may not have been intended.”


Story Source:

Materials provided by Michigan State University. Original written by Caroline Brooks. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Ivar R. Hannikainen, Nathan W. Hudson, William J. Chopik, Daniel A. Briley, Jaime Derringer. Moral migration: Desires to become more empathic predict changes in moral foundations. Journal of Research in Personality, 2020; 88: 104011 DOI: 10.1016/j.jrp.2020.104011

The Internet Cloud Has a Dirty Secret (Fortune)

fortune.com

By Naomi Xu Elegant, September 18, 2019 6:23 AM GMT-3


The music video for “Despacito” set an Internet record in April 2018 when it became the first video to hit five billion views on YouTube. In the process, “Despacito” reached a less celebrated milestone: it burned as much energy as 40,000 U.S. homes use in a year.

Computer servers, which store website data and share it with other computers and mobile devices, create the magic of the virtual world. But every search, click, or streamed video sets several servers to work — a Google search for “Despacito” activates servers in six to eight data centers around the world — consuming very real energy resources.

A lot of them.

Today, data centers consume about 2% of electricity worldwide; that could rise to 8% of the global total by 2030, according to a study by Anders Andrae, who researches sustainable information and communications technology for Huawei Technologies Ltd.

U.S. data centers consumed 70 billion kilowatt-hours of electricity in 2014, the same amount that 6.4 million American homes used that year. Data centers need electricity to power their servers, storage equipment, backups, and power cooling infrastructure; most servers require temperatures below 80 degrees Fahrenheit to operate, and cooling can comprise up to 40% of electricity usage in conventional data centers.

“People don’t think about the backend consequences of Netflix streaming,” says Debra Tan, the director of Hong Kong-based nonprofit China Water Risk. “The information and communications technology (ICT) sector is probably one of the most power-hungry sectors going forward.”

The global shift toward what Tan calls “cloud-based societies”—and the rise of nascent tech like 5G networks, robotics, artificial intelligence, and cryptocurrencies—means electricity consumption in data centers will keep surging.

Data’s massive carbon footprint

Because servers are housed in nondescript data centers rather than factories with billowing smokestacks, the size of their carbon footprint is easily overlooked.

But the constant and increasing demand for connectivity means ever more energy funneled into these data centers, and much of that energy is non-renewable and contributes to carbon emissions. Data centers contribute 0.3% to global carbon emissions, according to Nature; the ICT sector as a whole contributes over 2%, and those numbers could increase.

The U.S. is home to 3 million data centers, or roughly one for every 100 Americans. A large number are clustered in Loudoun County in northern Virginia. Tech giants like Amazon, Microsoft, and Google operate data centers there, and county officials claim that 70% of the world’s Internet traffic flows through the area’s data centers.

Only 12% of Amazon’s Loudoun County data centers and 4% of Google’s are powered by renewable energy, despite their pledges to shift to 100% clean energy, according to Greenpeace. The region’s low commercial electricity rates make it an attractive site for power-guzzling data centers.

Debra Tan of China Water Risk says that American tech firms with a global presence like Google and Facebook must step up their existing commitments to clean energy, as must Chinese tech companies like Baidu, Alibaba, and Tencent, which sourced 67% of their energy from coal in 2017. China’s data center industry is the world’s second-largest, comprising 8% of the global market.

“The ICT sector can definitely lead the world in aggressive decarbonization because they’re the sector that will add on the most power going forward,” says Tan. “They have the capability [and] they have the scale.”

The data never ends

The Internet’s “never-ending creation of data” explains why electricity demand in data centers will likely surge in the future, says Huawei researcher Anders Andrae, who cites more advanced video, 5G networks, A.I. training, holography, and cryptocurrency mining as some of the drivers.

The energy consumption of Bitcoin mining has been a concern for many watching the rise of cryptocurrencies, and analysts have said Bitcoin mining consumes around 0.3% of global electricity (some skeptics argue that such estimates are exaggerated, however).

In China, the government is starting to crack down on the practice. Authorities in China’s Inner Mongolia province said earlier this month that they will no longer support the crypto mining industry, though they did not issue an official ban.

Inner Mongolia’s cheap electricity, thanks to a wealth of coal, is what first drew crypto miners to the far-flung province. In China, data centers get 73% of their power from coal and 23% from renewable sources. The country’s clean energy industry is still developing, so there is a lack of infrastructure compared to coal-powered sources, which are relatively cheap and abundant—China accounts for half of global coal consumption.

China’s data centers emitted 99 million tons of carbon dioxide in 2018 and will emit two-thirds more by 2023 unless industry addresses its energy consumption, per a 2019 study by Greenpeace and North China Electric Power University.

Ye Ruiqi, a climate and energy campaigner for Greenpeace East Asia, says that the initiative to move the industry towards renewable energy “must come from internet data center companies themselves.”

“We need to start addressing the carbon emissions and air pollutants associated with the source[s] of power that feed into our data centers.” Ye says, noting that a handful of Chinese companies have started shifting to renewables and “the results are promising.”

While consumers can make some daily changes to their consumption—streaming Netflix on medium quality rather than high-definition could save over 75% of carbon and water used—companies and governments must take the lead in the greening of the supply chain and development of renewable energy infrastructure, says Tan.

“We can get more efficient […] but our demand is also going to go up,” Tan says. “Your best bet is to go 100% renewables for the backend, cloud, all the transmission towers, et cetera. If you can get that infrastructure to green then there’s less pressure to curbing demand.”

It will be difficult, but if the sector takes action to shift from coal to renewable energy, electricity consumption can decouple from carbon emissions, Ye says: “Technology innovation doesn’t have to contradict [sustainable] development.”

Are Humans Still Evolving? Scientists Weigh In (Science Alert)

sciencealert.com

Eva Hamrud, Metafact – 20 Sept. 2020


As a species, humans have populated almost every corner of the earth. We have developed technologies and cultures which shape the world we live in.

The idea of ‘natural selection’ or ‘survival of the fittest’ seems to make sense in Stone Age times when we were fighting over scraps of meat, but does it still apply now?

We asked 12 experts whether humans are still evolving. The expert consensus is unanimously ‘yes’, however scientists say we might have the wrong idea of what evolution actually is.

Evolution is not the same as natural selection

Evolution is often used interchangeable with the phrases ‘survival of the fittest’ or ‘natural selection’. Actually, these are not quite the same thing.

‘Evolution’ simply means the gradual change of a population over time.

‘Natural selection’ is a mechanism by which evolution can occur. Our Stone Age ancestors who were faster runners avoided being trampled by mammoths and were more likely to have children. That is ‘natural selection’.

Overtime, the human population became faster at running. That’s evolution.

Evolution can happen without natural selection

That makes sense for Stone Age humans, but what about nowadays? We don’t need to outrun mammoths, we have medicines for when we’re sick and we can go to the shops to get food.

Natural selection needs a ‘selection pressure’ (e.g. dangerous trampling mammoths), so if we don’t have these anymore, does this mean we stop evolving?

Even with no selection pressures, experts say evolution still occurs by other mechanisms.

Professor Stanley Ambrose, an anthropologist from the University of Illinois, explains that “any change in the proportions of genes or gene variants over time is also considered evolution. The variants may be functionally equivalent, so evolution does not automatically equate with ‘improvement'”.

Whilst some genes can be affected by natural selection (e.g. genes that help us run faster), other changes in our DNA might have no obvious effect on us. ‘Neutral’ variations can also spread through a population by a different mechanism called ‘genetic drift’.

Genetic drift works by chance: some individuals might be unlucky and die for reasons which have nothing to do with their genes. Their unique gene variations will not be passed on to the next generation, and so the population will change.

Genetic drift doesn’t need any selection pressures, and it is still happening today.

Natural selection is still happening in humans

As much as we have made things easier for ourselves, there are still selection pressures around us, which mean that natural selection is still happening.

Like all mammals, humans lose the ability to digest milk when they stop breastfeeding. This is because we stop making an enzyme called lactase. In some countries, the population has acquired ‘lactase persistence’, meaning that people make lactase throughout their lives.

In European countries we can thank one specific gene variation for our lactase persistence, which is called ‘-13910*T’. By studying this specific gene variation in modern and ancient DNA samples, researchers suggest that it became common after humans started domesticated and milking animals.

This is an example of natural selection where we have actually made the selection pressure ourselves – we started drinking milk, so we evolved to digest it!

Another example of humans undergoing natural selection to adapt to a lifestyle is the Bajau people, who traditionally live in houseboats in the waters of South East Asia and spend much of their lives diving to hunt fish or collect shellfish.

Ultrasound imaging has found that Bajau people have larger spleens than their neighbours – an adaption which allows them to stay underwater for longer.

There are always selective pressures around us, even ones that we create ourselves.

As Dr Benjamin Hunt from the University of Birmingham puts it, “Our technological and cultural changes alter the strength and composition of the selection pressures within our environment, but selection pressures still exist.”

Evolution can’t be stopped

So, evolution can happen by different mechanisms like natural selection and genetic drift. As our environment is always changing, natural selection is always happening. And even if our environment was ‘just right’ for us, we would evolve anyway!

Dr Alywyn Scally, an expert in evolution and genetics from the University of Cambridge, explains: “As long as human reproduction involves randomness and genetic mutation (and the laws of the Universe pretty much guarantee that this will always be the case at some level), there will continue to be differences from one generation to the next, meaning that the process of evolution can never be truly halted.”

Takeaway: Evolution means change in a population. That includes both easy-to-spot changes to adapt to an environment as well as more subtle, genetic changes.

Humans are still evolving, and that is unlikely to change in the future.

Article based on 12 expert answers to this question: Are humans still evolving?

This expert response was published in partnership with independent fact-checking platform Metafact.io. Subscribe to their weekly newsletter here.

Banzo: a depressão e o suicídio de escravizados eram fatos corriqueiros (Aventuras na História)

aventurasnahistoria.uol.com.br

Renato Pinto Venâncio, 13/09/2020

Assim funcionavam os antigos navios negreiros – Getty Images

Pouco discutido nos livros, os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de se alimentar

“Apareceu ontem enforcado com um baraço [corda de fios de linho], dentro de um alçapão, na casa da rua da Alfândega, nº 376, sobrado, o preto Dionysio, escravo de D.
Olimpya Theodora de Souza, moradora na mesma casa. O infeliz preto, querendo sem dúvida apressar a morte, fizera com uma thesoura pequenos ferimentos no braço…”

Essa nota, chocante, publicada no Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro, em 22 de junho de 1872, revela uma faceta pouco conhecida da escravidão: os escravos se suicidavam. E com o índice de “mortes voluntárias” entre eles, quando comparado ao de homens livres, era duas ou três vezes mais elevado.

Os suicídios de escravos também se diferenciavam em outros aspectos. O mais notável deles era o fato de atribuir-se o gesto ao banzo. Ainda hoje se discute o significado dessa palavra. O mais aceito tem uma remota origem africana, equivalendo a “pensar” ou “meditar”. O termo também, há tempos, designou uma doença.

Em 1799, por exemplo, Luiz António de Oliveira Mendes apresentou, na Academia Real de Ciências de Lisboa, um estudo sobre “as doenças agudas e crônicas que mais frequentemente acometem os pretos recém-tirados da África”. O banzo constava entre elas.

Os sintomas? Os escravos ficavam entristecidos, paravam de falar e, acima de tudo, deixavam de se alimentar, mesmo “oferecendo-se-lhes” – afirma o médico – “as melhores comidas, assim do nosso trato e costume, como as do seu país…”, falecendo pouco tempo depois.

No século 19, com o desenvolvimento das primeiras teorias psicológicas, o comportamento dos escravos banzeiros foi reconhecido como distúrbio mental. Em 1844, Joaquim Manoel de Macedo, na tese médica intitulada Considerações Sobre a Nostalgia, afirma o seguinte: “[…] estamos convencidos de que a espantosa mortandade que entre nós se observa nos africanos, principalmente nos recém-chegados, bem como de que o número de suicídios que entre eles se conta, tem seu tanto de dívida a nostalgia […]” 

Aos poucos, a associação entre nostalgia e banzo se tornou popular. No Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa, de 1875, de Joaquim de Macedo Soares, é possível ler a seguinte definição: “banzar: estar pensativo sobre qualquer caso; triste sem saber de quê; sofrer do spleen dos ingleses; tristeza e apatia simultânea; sofrer de nostalgia, como os negros da Costa quando vinham para cá, e ainda depois de cá estarem”.

Hoje, a palavra “nostalgia”, difundida na literatura, é sinônimo de “saudade”, um sentimento. Situação bem diferente é pensá-la como doença. Tal rótulo – assim como o de banzo – provavelmente encobria uma vasta gama de problemas psicológicos ou psiquiátricos, que iam da depressão à esquizofrenia; ou eram provocados pela desnutrição, por doenças contagiosas.

Não faltam exemplos de aproximações entre suicídio e doença mental. O citado Jornal do Commercio registra ocorrências de mortes voluntárias associadas a delírios: “Valentim, escravo de Faria & Miranda, estabelecidos na rua dos Lázaros nº 26, sofria há dias violenta febre, e era tratado pelo Dr. Antonio Rodrigues de Oliveira. Anteontem [20 de maio de 1872], às 9 horas da noite, ao que parece, em um acesso mais forte, Valentim feriu-se com um golpe no pescoço”.

Outras vezes se reconhecia explicitamente a loucura: “Suicidouse ontem [8 de março de 1872] à 1 hora da tarde, enforcando-se, a preta africana Justina, de 50 anos, escrava de Narciso da Silva Galharno. O Sr. 2º Delegado tomou conhecimento do fato e procedeu a corpo delito. Consta que a preta sofria de alienação mental”.

Como todos os testemunhos do passado, os textos acima devem ser lidos com olhos críticos: o registro de suicídio pode encobrir assassinatos praticados por senhores. Tal fato não implica em diminuir o banzo como uma das expressões trágicas da loucura comum a milhões de pessoas vítimas do tráfico de escravos.

Por outro lado, a divulgação desse sofrimento nos jornais deve ter contribuído para a formação da sensibilidade abolicionista na sociedade imperial. Por isso, o banzo pode ser entendido como uma forma não intencional de protesto político, um exemplo primário
de luta pela não-violência.


**Professor de História e co-autor do livro Ancestrais: Uma Introdução Á História da África Atlântica, 2003. 

++ A seção Coluna não representa, necessariamente, a opinião do site Aventuras na História. 

The Genetic Engineering Genie Is Out of the Bottle (Financial Times)

foreignpolicy.com

Vivek Wadhwa, September 11, 2020

An infrared microscope image shows mosquito larvae with red-glowing eyes, part of an experiment using CRISPR gene-editing technology. MediaNews Group/Orange County Register via Getty Images

Usually good for a conspiracy theory or two, U.S. President Donald Trump has suggested that the virus causing COVID-19 was either intentionally engineered or resulted from a lab accident at the Wuhan Institute of Virology in China. Its release could conceivably have involved an accident, but the pathogen isn’t the mishmash of known viruses that one would expect from something designed in a lab, as a research report in Nature Medicine conclusively lays out. “If someone were seeking to engineer a new coronavirus as a pathogen, they would have constructed it from the backbone of a virus known to cause illness,” the researchers said.

But if genetic engineering wasn’t behind this pandemic, it could very well unleash the next one. With COVID-19 bringing Western economies to their knees, all the world’s dictators now know that pathogens can be as destructive as nuclear missiles. What’s even more worrying is that it no longer takes a sprawling government lab to engineer a virus. Thanks to a technological revolution in genetic engineering, all the tools needed to create a virus have become so cheap, simple, and readily available that any rogue scientist or college-age biohacker can use them, creating an even greater threat. Experiments that could once only have been carried out behind the protected walls of government and corporate labs can now practically be done on the kitchen table with equipment found on Amazon. Genetic engineering—with all its potential for good and bad—has become democratized.

To design a virus, a bio researcher’s first step is to obtain the genetic information of an existing pathogen—such as one of the coronaviruses that cause the common cold—which could then be altered to create something more dangerous. In the 1970s, the first genetic sequencing of a bacterium, Escherichia coli, took weeks of effort and cost millions of dollars just to determine its 5,836 base pairs, the building blocks of genetic information. Today, sequencing the 3,000,000,000 base pairs that make up the human genome, which dictates the construction and maintenance of a human being, can be done in a few hours for about $1000 in the United States. Xun Xu, the CEO of Chinese genomics research company BGI Group, told me by email that he expects to offer full human-genome sequencing in supermarkets and online for about $290 by the end of this year.

The next step in engineering a virus is to modify the genome of the existing pathogen to change its effects. One technology in particular makes it almost as easy to engineer life forms as it is to edit Microsoft Word documents. CRISPR gene editing, developed only a few years ago, deploys the same natural mechanism that bacteria use to trim pieces of genetic information from one genome and insert it into another. This mechanism, which bacteria developed over millennia to defend themselves from viruses, has been turned into a cheap, simple, and fast way to edit the DNA of any organism in the lab.

If experimenting with DNA once required years of experience, sophisticated labs, and millions of dollars, CRISPR has changed all that. To set up a CRISPR editing capability, the experimenter need only order a fragment of RNA and purchase off-the-shelf chemicals and enzymes, costing only a few dollars, on the Internet. Because it’s so cheap and easy to use, thousands of scientists all over the world are experimenting with CRISPR-based gene editing projects. Very little of this research is limited by regulations, largely because regulators don’t yet understand what has suddenly become possible.

China, with its emphasis on technological progress ahead of safety and ethics, has made the most astonishing breakthroughs. In 2014, Chinese scientists announced they had successfully produced monkeys that had been genetically modified at the embryonic stage. In April 2015, another group of researchers in China detailed the first ever-effort to edit the genes of a human embryo. While the attempt failed, it shocked the world: This wasn’t supposed to happen so soon.

In April 2016, yet another group of Chinese researchers reported having succeeded in modifying the genome of a human embryo in an effort to make it resistant to HIV infection, though the embryo was not brought to term. But then, in November 2018, Chinese researcher He Jiankui announced that he had created the first “CRISPR babies”—healthy infants whose genomes were edited before they were born. The People’s Daily gushed over the “historical breakthrough,” but after a global uproar, the Chinese authorities—who, He claims, had supported his efforts—arrested and later sentenced him to three years in prison for unethical conduct. But the Rubicon of biomedical science had been crossed.

China’s legion of rogue scientists is certainly a worry. But gene-editing technology has become so accessible that we could conceivably see teenagers experimenting with viruses. In the United States, anyone who wants to start modifying the genome in their garage can order a do-it-yourself CRISPR kit online for $169, for example. This comes with “everything you need to make precision genome edits in bacteria at home.” For $349, the same company is also offering a human engineering kit, which comes with embryonic kidney cells from a tissue culture originally taken from an aborted female human fetus. Shipment is advertised to take no longer than three days—no special couriers or ice packs needed.

Mail-order DNA fragments enabled a team at the University of Alberta, in 2017, to resurrect an extinct relative of the smallpox virus, horsepox, from scratch by stitching together the fragments. Horsepox is not known to harm humans, but experts warned that the same method could be used by scientists without much specialized knowledge to recreate smallpox—a horrific virus finally eradicated in 1980—within six months at a cost of about $100,000. Had the Canadian scientists used CRISPR, their cost would have been reduced to a fraction.

In my book, The Driver in the Driverless Car, published before the Canadian horsepox resurrection and the Chinese gene-edited babies, I warned about the dangers of gene editing, predicting we would have to make difficult choices about whether to restrict synthetic biology technologies. When used for good purposes, these technologies can help solve the problems of humanity—by quickly finding cures for diseases, for example. When used for evil, they can wreak global havoc of exactly the kind we are now fighting. That is why many people, myself included, have advocated for a moratorium on human gene editing.

But not just a moratorium: There should have been international treaties to prevent the use of CRISPR for gene editing on humans or animals. The U.S. Food and Drug Administration should have kept companies from selling DIY gene-editing kits. Governments should have placed restrictions on labs such as the University of Alberta’s. But none of this happened, nor were there any other checks and balances. It is now too late to stop the global spread of these technologies—the genie is out of the bottle.

Now, the only solution is to accelerate the good side of these technologies while building our defenses. As we are seeing with the development of vaccines for COVID-19, this is possible. In the past, vaccines took decades to create. Now, we are on track to have them within months, thanks to advances in genetic engineering. The Moderna Therapeutics and Pfizer/BioNTech vaccines, which are now in third-stage clinical trials, took only weeks to develop. It is conceivable that this could be reduced to hours once the technologies are perfected.

We can also accelerate the process of testing vaccines and treatments, which has become the slowest part of the development cycle. To test greater numbers of potential cancer drugs more quickly, for example, labs all over the world are creating three-dimensional cell cultures called “patient-derived organoids” from tumor biopsies. The leading company in this field, SEngine Precision Medicine, is able to test more than 100 drugs on these organoids, removing the need to use human subjects as the guinea pigs. Researchers at Harvard University’s Wyss Institute announced in January 2020 that they had developed the first human “organ-on-a-chip” model of the lung that accurately replicates a human organ’s physiology and pathophysiology. Engineers at the Massachusetts Institute of Technology have been developing a microfluidic platform that connects engineered tissues from up to 10 organs, allowing the replication of human-organ interactions for weeks at a time in order to measure the effects of drugs on different parts of the body. Many more such systems are being developed that could accelerate testing and treatment. All these technologies will greatly strengthen our biodefense.

There really is no turning back to correct the mistakes of the past. The genie cannot be put back in the bottle. We must treat the coronavirus pandemic as a full dress rehearsal of what is to come—unfortunately, that includes not only viruses that erupt from nature, but also those that will be deliberately engineered by humans. We must learn very quickly to build the same types of types of defenses that our computers have against their invaders. The good that might ultimately come from this is the cure for all disease. The bad is just about too terrible to think about.

Da personalização do discurso em Aristóteles à personalização com algoritmos de IA (Época Negócios)

epocanegocios.globo.com

Dora Kaufman* – 11 Set 2020 – 10h30

Os algoritmos de inteligência artificial (IA) atuam como curadores da informação, personalizando, por exemplo, as respostas nas plataformas de busca como Google e a seleção do que será publicado no feed de notícias de cada usuário do Facebook. O ativista Eli Pariser (The Filtre Bubble, 2011) reconhece a utilidade de sistemas de relevância ao fornecer conteúdo personalizado, mas alerta para os efeitos negativos da formação de “bolhas” ao reduzir a exposição à opiniões divergentes. Para Cass Sunstein (#republic, 2017), esses sistemas são responsáveis pelo aumento da polarização cultural e política pondo em risco a democracia. Existem muitas críticas à esses sistemas, algumas justas outras nem tanto; o fato é que personalização, curadoria, clusterização, mecanismos de persuasão, nada disso é novo, cabe é investigar o que mudou com a IA.

A personalização do discurso, por exemplo, remete à Aristóteles. A arte de conhecer o ouvinte e adaptar o discurso ao seu perfil, não para convencê-lo racionalmente, mas para conquistá-lo pelo “coração” é o tema da obra “Retórica”. Composta de três volumes, o Livro II é dedicado ao plano emocional listando as emoções que devem conter um discurso persuasivo: ira, calma, amizade, inimizade, temor, confiança, vergonha, desvergonha, amabilidade, piedade, indignação, inveja e emulação. Para o filósofo, todos, de algum modo, praticam a retórica na sustentação de seus argumentos. Essa obra funda as bases da retórica ocidental que, com seus mecanismos de persuasão, busca influenciar o interlocutor seja ele usuário, consumidor, cliente ou eleitor.

Cada modelo econômico tem seus próprios mecanismos de persuasão, que extrapolam motivações comerciais com impactos culturais e comportamentais. Na Economia Industrial, caracterizada pela produção e pelo consumo massivo de bens e serviços, a propaganda predominou como meio de convencimento nas decisões dos consumidores, inicialmente tratados como uma “massa” de indivíduos indistinguíveis. O advento das tecnologias digitais viabilizou a comunicação segmentada em função de características, perfis e preferências similares, mas ainda distante da hipersegmentação proporcionada pelas tecnologias de IA.

A hipersegmentação com algoritmos de IA é baseada na mineração de grandes conjuntos de dados (Big Data) e sofisticadas técnicas de análise e previsão, particularmente os modelos estatísticos de redes neurais/deep learning. Esses modelos permitem extrair dos dados informações sobre seus usuários e/ou consumidores e fazer previsões com alto grau de acurácia – desejos, comportamentos, interesses, padrões de pesquisa, por onde circulam, bem como a capacidade de pagamento e até o estado de saúde. Os algoritmos de IA transformam em informação útil a imensidão de dados gerados nas movimentações online.

Na visão de Shoshana Zuboff (The Age of Surveillance Capitalism, 2019), a maior ameaça não está nos dados produzidos voluntariamente em nossas interações nos meios digitais (“dados consentidos”), mas nos “dados residuais” sob os quais os usuários de plataformas online não exercem controle. Até 2006, os dados residuais eram desprezados, com a sofisticação dos modelos preditivos de IA esses dados tornaram-se valiosos: a velocidade de digitalização, os erros gramaticais cometidos, o formato dos textos, as cores preferidas e mais uma infinidade de detalhes do comportamento dos usuários são registrados e inseridos na extensa base de dados gerando projeções assertivas sobre o comportamento humano atual e futuro. Outro aspecto ressaltado por Zuboff é que as plataformas tecnológicas, em geral, captam mais dados do que o necessário para a dinâmica de seus modelos de negócio, ou seja, para melhorar produtos e serviços, e os utilizam para prever o comportamento de grupos específicos (“excedente comportamental”).

Esses processos de persuasão ocorrem em níveis invisíveis, sem conhecimento e/ou consentimento dos usuários, que desconhecem o potencial e a abrangência das previsões dos algoritmos de IA; num nível mais avançado, essas previsões envolvem personalidade, emoções, orientação sexual e política, ou seja, um conjunto de informações que em tese não era a intenção do usuário revelar. As fotos postadas nas redes sociais, por exemplo, geram os chamados “sinais de previsão” tais como os músculos e a simetria da face, informações utilizadas no treinamento de algoritmos de IA de reconhecimento de imagem.

A escala atual de geração, armazenamento e mineração de dados, associada aos modelos assertivos de personalização, é um dos elementos-chave da mudança de natureza dos atuais mecanismos de persuasão. Comparando os modelos tradicionais com os de algoritmos de IA, é possível detectar a extensão dessa mudança: 1) de mensagens elaboradas com base em conhecimento do público-alvo superficial e limitado, a partir do entendimento das características generalistas das categorias, para mensagens elaboradas com base em conhecimento profundo e detalhado/minucioso do público-alvo, hipersegmentação e personalização; 2) de correlações entre variáveis determinadas pelo desenvolvedor do sistema para correlações entre variáveis determinadas automaticamente com base nos dados; 3) de limitados recursos para associar comportamentos offline e online para capacidade de capturar e armazenar dados de comportamento off-line e agregá-los aos dados capturados online formando uma base de dados única, mais completa, mais diversificada, mais precisa; 4) de mecanismos de persuasão visíveis (propaganda na mídia) e relativamente visíveis (propaganda na internet) para mecanismos de persuasão invisíveis; 5) de baixo grau de assertividade para alto grau de assertividade; 6) de instrumentos de medição/verificação dos resultados limitados para instrumentos de medição/verificação dos resultados precisos; 7) de capacidade preditiva limitada à tendências futuras para capacidade preditiva de cenários futuros e quando vão acontecer com grau de acurácia média em torno de 80-90%; e 8) de reduzida capacidade de distorcer imagem e voz para enorme capacidade de distorcer imagem e voz, as Deep Fakes.

Como sempre, cabe à sociedade encontrar um ponto de equilíbrio entre os benefícios e as ameaças da IA. No caso, entre a proteção aos direitos humanos civilizatórios e a inovação e o avanço tecnológico, e entre a curadoria da informação e a manipulação do consumo, do acesso à informação e dos processos democráticos.

*Dora Kaufman professora do TIDD PUC – SP, pós-doutora COPPE-UFRJ e TIDD PUC-SP, doutora ECA-USP com período na Université Paris – Sorbonne IV. Autora dos livros “O Despertar de Gulliver: os desafios das empresas nas redes digitais”, e “A inteligência artificial irá suplantar a inteligência humana?”. Professora convidada da Fundação Dom Cabral

Hoarding and herding during the COVID-19 pandemic (Science Daily)

The coronavirus pandemic has triggered some interesting and unusual changes in our buying behavior

Date: September 10, 2020

Source: University of Technology Sydney

Summary: Understanding the psychology behind economic decision-making, and how and why a pandemic might trigger responses such as hoarding, is the focus of a new paper.

Rushing to stock up on toilet paper before it vanished from the supermarket isle, stashing cash under the mattress, purchasing a puppy or perhaps planting a vegetable patch — the COVID-19 pandemic has triggered some interesting and unusual changes in our behavior.

Understanding the psychology behind economic decision-making, and how and why a pandemic might trigger responses such as hoarding, is the focus of a new paper published in the Journal of Behavioral Economics for Policy.

‘Hoarding in the age of COVID-19’ by behavioral economist Professor Michelle Baddeley, Deputy Dean of Research at the University of Technology Sydney (UTS) Business School, examines a range of cross-disciplinary explanations for hoarding and other behavior changes observed during the pandemic.

“Understanding these economic, social and psychological responses to COVID-19 can help governments and policymakers adapt their policies to limit negative impacts, and nudge us towards better health and economic outcomes,” says Professor Baddeley.

Governments around the world have implemented behavioral insights units to help guide public policy, and influence public decision-making and compliance.

Hoarding behavior, where people collect or accumulate things such as money or food in excess of their immediate needs, can lead to shortages, or in the case of hoarding cash, have negative impacts on the economy.

“In economics, hoarding is often explored in the context of savings. When consumer confidence is down, spending drops and households increase their savings if they can, because they expect bad times ahead,” explains Professor Baddeley.

“Fear and anxiety also have an impact on financial markets. The VIX ‘fear’ index of financial market volatility saw a dramatic 564% increase between November 2019 and March 2020, as investors rushed to move their money into ‘safe haven’ investments such as bonds.”

While shifts in savings and investments in the face of a pandemic might make economic sense, the hoarding of toilet paper, which also occurred across the globe, is more difficult to explain in traditional economic terms, says Professor Baddeley.

Behavioural economics reveals that our decisions are not always rational or in our long term interest, and can be influenced by a wide range of psychological factors and unconscious biases, particularly in times of uncertainty.

“Evolved instincts dominate in stressful situations, as a response to panic and anxiety. During times of stress and deprivation, not only people but also many animals show a propensity to hoard.”

Another instinct that can come to the fore, particularly in times of stress, is the desire to follow the herd, says Professor Baddeley, whose book ‘Copycats and Contrarians’ explores the concept of herding in greater detail.

“Our propensity to follow others is complex. Some of our reasons for herding are well-reasoned. Herding can be a type of heuristic: a decision-making short-cut that saves us time and cognitive effort,” she says.

“When other people’s choices might be a useful source of information, we use a herding heuristic and follow them because we believe they have good reasons for their actions. We might choose to eat at a busy restaurant because we assume the other diners know it is a good place to eat.

“However numerous experiments from social psychology also show that we can be blindly susceptible to the influence of others. So when we see others rushing to the shops to buy toilet paper, we fear of missing out and follow the herd. It then becomes a self-fulfilling prophesy.”

Behavioral economics also highlights the importance of social conventions and norms in our decision-making processes, and this is where rules can serve an important purpose, says Professor Baddeley.

“Most people are generally law abiding but they might not wear a mask if they think it makes them look like a bit of a nerd, or overanxious. If there is a rule saying you have to wear a mask, this gives people guidance and clarity, and it stops them worrying about what others think.

“So the normative power of rules is very important. Behavioral insights and nudges can then support these rules and policies, to help governments and business prepare for second waves, future pandemics or other global crises.”


Story Source:

Materials provided by University of Technology Sydney. Original written by Leilah Schubert. Note: Content may be edited for style and length.


Journal Reference:

  1. Michelle Baddeley. Hoarding in the age of COVID-19. Journal of Behavioral Economics for Policy, 2020; 4(S): 69-75 [abstract]

I Look White To Many. I’m Black. This Is What White People Say To Me. (HuffPost)

huffpost.com

Cheryl Green Rosario, Guest Writer

Sept. 10, 2020

Courtesy of Cheryl Green Rosario. The author is a fair-skinned Black woman who has been a fly on the wall when white people don’t know anyone of color is looking or listening.
I’ve been a fly on the wall when white people didn’t know anyone of color was looking or listening.

I am a Black woman who for most of my life has often been mistaken for white. And I’m here to tell you that for four decades white people have openly, even sometimes proudly, expressed their racism to me, usually with a wink and a smile, all while thinking I’m white too. 

The incidents pile up, year after year — at a friend’s wedding, when I met a new roommate, at the grocery store, while riding in a taxi, and during innumerable other events from daily life.

As the nation begins, finally, to focus on the social injustice that takes place across this country — from the South where I grew up to the North where I’ve lived for the past 22 years ― I feel the collective pain. Even as a very fair-skinned Black woman with green eyes and light brown hair, I, too, have experienced racism. But I’ve also been a fly on the wall when white people didn’t know anyone of color was looking or listening.

Imagine taking a car service to Newark airport for a business trip, and the driver, a retired white police officer, tells you and your white boss that were he still a cop, he would pull over the Black driver stopped next to us, just because he is Black. Or the white taxi driver who, during a business trip in the South, freely shares broad generalizations about groups of people, looking to either find a kindred soul or spark a debate with a Northerner — one who he thought was white.

Put yourself in my shoes when you move to Reston, Virginia, temporarily while you wait for your apartment to become available in Alexandria, and your new roommate, a young, white male, one who you thought was kind and warm, warns you to be careful of venturing into Washington, D.C., because every time he goes there he gets “robbed by Black people.”

“Really, every time?” I questioned.

Think how upsetting it would be to join your boyfriend at the time (who also looks all white but is biracial) at his friend’s wedding and one of the guests states he doesn’t want his daughter going to a particular concert because there will “be way too many Black people.” 

How do you respond to something like this? How do you respond while at a social gathering where etiquette suggests politely smiling, or at least pretending not to have heard? 

There’s the executive who asks, “Is this the ethnic Cheryl?” when I wear my hair curly rather than straight. What about the random stranger in the grocery store who can’t understand the texture of my son’s hair and repeatedly asks questions about my background while putting her hands all over my son’s head.

Imagine the district retail manager who balks at hiring a Black model for a fashion show I’m in charge of planning, despite the store having a diverse customer base. “She is just not right for this crowd, if you know what I mean.” I knew. But she didn’t know — that maybe I’m not right for her crowd, either.

Then there are the many women who, once they realize I’m Black, want me to help them “understand Black people” because they really haven’t had any exposure; as if we are some type of rare species and I’m their spokesmodel.

Some instances I hope are not coming from a place of hate, but rather incorrect assumptions based on too little information and a too-fast glimpse at my face. The medical records that say white instead of Black. The doctor who doesn’t understand why I’m asking questions related to genetic conditions that are more common to particular ethnic groups. The employee file that doesn’t count me as one of their diverse hires. The committee that doesn’t realize they have a person of color represented. The performer who asks why don’t we have any Black people in the audience tonight — while looking directly at me, seated right in front.

And yet, it still hurts. 

Whether in my personal or professional life — rather ironic, since I work in the field of philanthropy, diversity, equity and inclusion — this is the type of fear, ignorance and lack of self-awareness that I have witnessed and experienced for over 40 years. I’m 51, and I’m exhausted.

I’m tired of weighing, each time, whether I am going to say something in response to these hateful statements—because I must continue to advocate for what is right — or if I am going to walk away because I’m just too damn tired. Or stay silent, while gaining more insight into what really is on the minds of some when they don’t think a Black person is listening?

But do I really need any more insight? Any more proof of what some will say or do if they think no one’s watching? Does it really matter if I’m living in the South or now in the North? In a city or suburbs? At work or running errands around town? At a social event or on public transportation? When it’s clear from my own experiences and the indifferent attitude toward the suffering of others —spotlighted these last months, but enacted for years, decades, centuries before — that some of those same people don’t even care when the eyes of the world are on them.

Yes, I’m exhausted. But I must act.

When I hear racist comments clearly meant for white ears only, I have to stay, I have to stand, I have to speak up, challenge, identify myself, educate. I must walk with my fair-minded brothers and sisters of every color to call out racism whenever I see it and do my part to make this a more just world.

And I must say, “I’m Black, too.”  

Cheryl Green Rosario is working on a memoir about her experiences as a light-skinned Black woman often mistaken for white. 

A Ciência Política brasileira também odeia os povos indígenas? (Boletim Lua Nova)

Leonardo Barros Soares[1]

No fim de 2016, o cientista político professor da universidade de Wisconsin-Milwalkee, Kennan Ferguson, publicou um artigo na revista da American Political Science Association com o título provocativo “ Why does Political Science hate American Indians?” (“Por que a Ciência Política odeia os índios norte-americanos?”, em tradução livre). O texto é uma espécie de ensaio crítico que parte do que o autor considera verdades incontroversas: 1. Há poucos professores indígenas nos departamentos de Ciência Política dos EUA; 2. Poucos assuntos indígenas são tomados, por cientistas políticos, como assuntos políticos importantes; 3. Poucos pontos de vistas de povos indígenas são considerados criticamente dentro da disciplina e; 4. Poucos intelectuais, acadêmicos ou discursos de ativistas indígenas são parte dos programas dos cursos da área.

Não é preciso uma investigação de muita envergadura para constatar que estes pontos se aplicam integralmente ao caso brasileiro. Você, cientista político que me lê, conhece algum colega professor que é indígena? Considera que a política indigenista ou qualquer outro tema ligado aos povos indígenas brasileiros é importante? Os pontos de vista indígenas estão incluídos criticamente em nossos programas de cursos? Se a resposta é negativa a todas essas perguntas – como eu tenho certeza de que são – talvez caiba perguntar, ecoando o texto de Ferguson: a Ciência Política brasileira também odeia os povos indígenas do país?

Nesse texto, busco apresentar brevemente as oito hipóteses de trabalho levantadas por Ferguson no referido texto para explicar o que ele denomina de “processo de eliminação” dos povos indígenas do radar disciplinar da Ciência Política. Devido ao escopo exíguo, o intuito aqui é tão somente o de iniciar algum debate entre nós. Em que pese o fato de que foram pensadas a partir da percepção de Ferguson para os Estados Unidos, como veremos a seguir, as reflexões do autor se aplicam, quase que sem necessidade de qualquer mediação, para o caso brasileiro.  

Antes de adentrarmos na lista de hipóteses, duas palavras. Primeiramente, está para ser publicado na Revista Brasileira de Ciência Política meu artigo no qual traço um amplo diagnóstico do desinteresse da Ciência Política sobre questões indígenas. Nele também demonstro que há exemplos muito interessantes de cientistas políticos não- indígenas e indígenas – sim, eles existem, mas ainda não aqui no Brasil- fazendo trabalhos excepcionais no Canadá, país que parece ser o exemplo também para Ferguson. Aliás, cabe ressaltar que a Canadian Political Science Association talvez seja a única associação profissional do campo que tem um comitê de reconciliação com os povos indígenas do país e que oferece um conjunto de referências sistematizadas para que os professores possam incluir em seus cursos. “Fica a dica” para a Associação Brasileira de Ciência Política, e para conferirem o artigo.

Em segundo lugar,  é forçoso reconhecer que as hipóteses de Ferguson são mais amplas do que as que eu estava desenvolvendo até o momento. Eu julgava que a Ciência Política brasileira não se interessava por povos indígenas basicamente por três motivos: 1. O processo progressivo de especialização das disciplinas científicas e a consequente eleição de certos “objetos” de pesquisa canônicos, quando a questão indígena virou tema cativo da antropologia; 2. O proverbial internalismo da disciplina, ou seja, sua dificuldade de dialogar com outros campos do conhecimento, especialmente a antropologia nacional e; 3. Racismo e ignorância puras e simples, fruto do completo desconhecimento da história e do presente dos povos indígenas brasileiros, o que facilita a perpetuação de uma série de estereótipos perniciosos ligados a uma suposta arcaicidade do modo de fazer política indígena.

Como veremos a seguir, há mais razões do que essas por mim elencadas. Vamos a elas.

As hipóteses de Ferguson sobre o processo de eliminação da temática indígena do campo disciplinar da Ciência Política

  1. A disciplina é estruturada em torno do conceito de estado-nação, um conceito amarrado em torno de uma série de premissas sobre soberania territorial que exclui as vítimas do colonialismo: O conceito de estado-nação é certamente um dos mais importantes e centrais do campo, tomado como unidade de análise precípua de estudos quantitativos e qualitativos de todos os tipos. Ferguson chama a atenção para a necessidade de que falta à disciplina uma reflexão mais profunda e crítica sobre o conceito, de modo a trazer à baila a violência do processo colonial que expulsou indígenas de seus territórios tradicionais e exterminou-os quando possível. Ademais, um conceito monolítico de soberania territorial exclui da equação política o fato de que muitos povos indígenas nunca foram “conquistados” ou “cederam” suas terras para a potência colonizadora, e que remanescem se autocompreendendo como nações soberanas que têm direito a algum grau de controle sobre o território em que habitam. Colega cientista político, você conhece e saberia  elencar os povos indígenas brasileiros e suas reivindicações por soberania territorial?
  2. A Ciência Política sofre de um viés anti-histórico: segundo o autor, a Ciência Política mainstream tem uma parca compreensão dos fenômenos históricos e dificuldade de trabalhar com um conceito de “historicidade rica”. Ademais, ao se aproximar de disciplinas como a Economia, busca mais capacidade preditiva sobre o futuro do que a investigação consequente do passado. Por fim, em suas palavras, “a história para a Ciência Política é o historicismo Whig, uma forma de contar os eventos do passado como um conto procedimental de progressivo acúmulo de riqueza, felicidade e equidade” (p.1032, tradução nossa). Mais uma vez, você seria capaz de falar da história da relação do Estado brasileiro com os povos indígenas e sua evolução ao longo dos séculos?
  3. A política dos grupos de interesse é o tema central para a Ciência Política e, sob esse prisma, os povos indígenas são apenas mais um grupo de interesse: enxergar os povos indígenas como um grupo de interesse “a mais” dentre os demais grupos políticos tem o condão de minimizar a distinção de suas demandas políticas. Estas, grosso modo, são caracterizadas, sobretudo, pela luta pelo reconhecimento de sua legitimidade enquanto atores que almejam deter algum grau de autodeterminação cultural e material em face à pressão por seu desaparecimento ou integração forçada à sociedade colonizadora. Caracterizados assim, grupos indígenas podem facilmente ser integrados a esquemas analíticos em pesquisas sobre “não-brancos”, o que diminui a capacidade de entendimento de suas demandas específicas. Você sabe qual é a pauta de reivindicações da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil?
  4. A centralidade de análises a partir do sistema legal da sociedade nacional exclui as investigações sobre os sistemas legais criados pelos povos indígenas: Em que pese o fato de que o debate recente sobre o chamado Novo Constitucionalismo Latino-Americano tenha colocado em evidênciaas novas constituições da região que, em larga medida, incluíram dispositivos relativos aos direitos dos povos indígenas, a perspectiva de que cientistas políticos trabalhariam com outro paradigma constitucional que não do estado-nação é, para dizer o mínimo, pouco plausível. O debate sobre sistemas legais criados por povos indígenas ainda está confinado a algumas pesquisas no campo do Direito no Brasil e mais avançada em outros países. Colega cientista político, você conhece algum sistema legal instituído por algum povo indígena? Esses códigos legais são escritos ou orais? Em que medida eles se relacionam com o sistema político e jurídico da sociedade circundante?
  5. Mesmo as disciplinas potencialmente mais abertas a receberem contribuições indígenas estão eivadas pelo pressuposto da superioridade europeia: Ferguson argumenta que há dois pressupostos conectados em certas disciplinas do currículo dos cientistas políticos  que facilitam a exclusão dos povos indígenas: a ideia de que autores europeus construíram conceitos universais inquestionáveis e; a ideia de que o conhecimento válido é aquele em formato de texto, o que exclui toda a reflexão política indígena incorporada, por exemplo, em forma de pinturas, cantos ou objetos artesanais. De fato, hoje parece mais comum que o chamado “pensamento decolonial” se torne uma disciplina à parte no currículo dos cientistas políticos do que um componente que atravessa “por dentro” as formulações clássicas de autores tais como Locke, Hobbes e Rousseau. Por outro lado, também parece impensável a ideia de questionar o conceito de soberania territorial a partir, digamos, da exegese de uma “Wampum Belt” (cordões de contas utilizadas por indígenas canadenses para celebrar a realização de um tratado com a coroa britânica). Ou você, colega cientista político, está disposto a mergulhar profundamente no significado político das pinturas corporais de um determinado povo indígena para produzir conhecimento a partir dessa perspectiva?
  6. As categorias consideradas políticas por excelência são de difícil tradução para os contextos indígenas: categorias tais como “líder político”, ou “propriedade fundiária individual”, por exemplo, são inexistentes em muitos povos indígenas. Cientistas políticos normalmente são ávidos por esculpir variáveis independentes e dependentes claramente separadas uma das outras, ou trabalhar com atores e instituições políticas monolíticas, artifícios redutores da complexidade inerente à organização política dos povos indígenas. Assim, um problema de incomensurabilidade conceitual pode ser um desafio a mais para indígenas que queiram adentrar o mundo do campo da Ciência Política e, inversamente, para analistas que possam se interessar pelo tema indígena.
  7. O indivíduo liberal auto orientado da escolha racional como unidade de análise é uma abstração teórica que deslegitima as formas coletivas de pertencimento e de ação: se o Estado é uma ficção teórica que invisibiliza as violências cometidas contra os povos indígenas, assim o é a ideia de indivíduos racionais que agem motivados pela maximização de sua satisfação. A antropologia é pródiga em estudos demonstrando a complexidade das afiliações comunitárias e ontológicas dos povos indígenas brasileiros, e o pressuposto o indivíduo racional-maximizador deve ser profundamente revisto quando da realização de pesquisas relacionadas aos povos indígenas.
  8. Por fim, a própria estrutura institucional do sistema universitário dificulta o acesso e a conexão dos povos indígenas à disciplina: em primeiro lugar, é evidente que muitas universidades estão localizadas distantes das terras indígenas, o que traz uma dificuldade real de presença de indígenas nos campi das instituições. Além disso, a despeito do fato de que já há uma razoável difusão de cotas para indígenas em cursos de graduação, estas ainda são pouco comuns em nível de pós-graduação. Em suma, há uma série de entraves estruturais para que povos indígenas formem seus intelectuais e possam pautar debates acadêmicos de dentro das universidades.

As hipóteses de Kennan Ferguson aqui apresentadas são provocativas e eu espero que possamos, enquanto grupo de scholars do campo da Ciência Política, refletir criticamente sobre cada uma delas. Assim, quem sabe, possamos ter menos receio, no futuro, de respondermos à pergunta que dá título a esse texto.

Referências     

FERGUSON, Kennan. Why does Political Science Hate American Indians? In:  Perspectives on Politics nº.14.vol. 4, 2016.

SOARES, Leonardo Barros Soares: A ausência eloquente: ciência política brasileira, povos indígenas e o debate acadêmico canadense contemporâneo. In: Revista Brasileira de Ciência Política. No prelo.

Referência imagética


[1] Doutor em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Professor da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Pará (UFPA). Realiza Estágio pós-doutoral no Departamento de Estudos Latino-americanos da Universidade de Brasília (ELA/UnB). Membro do Laboratório e Grupo de Estudos em Relações Interétnicas (LAGERI/UnB) e do Réseau d’études Latinoamericaínes de Montréal (RÉLAM/Université de Montréal). E-mail: leobarros@ufpa.br.   

Science and Policy Collide During the Pandemic (The Scientist)

Science and Policy Collide During the Pandemic
ABOVE: MODIFIED FROM © istock.com, VASELENA
COVID-19 has laid bare some of the pitfalls of the relationship between scientific experts and policymakers—but some researchers say there are ways to make it better.

Diana Kwon

Sep 1, 2020

Science has taken center stage during the COVID-19 pandemic. Early on, as SARS-CoV-2 started spreading around the globe, many researchers pivoted to focus on studying the virus. At the same time, some scientists and science advisors—experts responsible for providing scientific information to policymakers—gained celebrity status as they calmly and cautiously updated the public on the rapidly evolving situation and lent their expertise to help governments make critical decisions, such as those relating to lockdowns and other transmission-slowing measures.

“Academia, in the case of COVID, has done an amazing job of trying to get as much information relevant to COVID gathered and distributed into the policymaking process as possible,” says Chris Tyler, the director of research and policy in University College London’s Department of Science, Technology, Engineering and Public Policy (STEaPP). 

But the pace at which COVID-related science has been conducted and disseminated during the pandemic has also revealed the challenges associated with translating fast-accumulating evidence for an audience not well versed in the process of science. As research findings are speedily posted to preprint servers, preliminary results have made headlines in major news outlets, sometimes without the appropriate dose of scrutiny.

Some politicians, such as Brazil’s President Jair Bolsonaro, have been quick to jump on premature findings, publicly touting the benefits of treatments such as hydroxychloroquine with minimal or no supporting evidence. Others have pointed to the flip-flopping of the current state of knowledge as a sign of scientists’ untrustworthiness or incompetence—as was seen, for example, in the backlash against Anthony Fauci, one of the US government’s top science advisors. 

Some comments from world leaders have been even more concerning. “For me, the most shocking thing I saw,” Tyler says, “was Donald Trump suggesting the injection of disinfectant as a way of treating COVID—that was an eye-popping, mind-boggling moment.” 

Still, Tyler notes that there are many countries in which the relationship between the scientific community and policymakers during the course of the pandemic has been “pretty impressive.” As an example, he points to Germany, where the government has both enlisted and heeded the advice of scientists across a range of disciplines, including epidemiology, virology, economics, public health, and the humanities.

Researchers will likely be assessing the response to the pandemic for years to come. In the meantime, for scientists interested in getting involved in policymaking, there are lessons to be learned, as well some preliminary insights from the pandemic that may help to improve interactions between scientists and policymakers and thereby pave the way to better evidence-based policy. 

Cultural divisions between scientists and policymakers

Even in the absence of a public-health emergency, there are several obstacles to the smooth implementation of scientific advice into policy. One is simply that scientists and policymakers are generally beholden to different incentive systems. “Classically, a scientist wants to understand something for the sake of understanding, because they have a passion toward that topic—so discovery is driven by the value of discovery,” says Kai Ruggeri, a professor of health policy and management at Columbia University. “Whereas the policymaker has a much more utilitarian approach. . . . They have to come up with interventions that produce the best outcomes for the most people.”

Scientists and policymakers are operating on considerably different timescales, too. “Normally, research programs take months and years, whereas policy decisions take weeks and months, sometimes days,” Tyler says. “This discrepancy makes it much more difficult to get scientifically generated knowledge into the policymaking process.” Tyler adds that the two groups deal with uncertainty in very different ways: academics are comfortable with it, as measuring uncertainty is part of the scientific process, whereas policymakers tend to view it as something that can cloud what a “right” answer might be. 

This cultural mismatch has been particularly pronounced during the COVID-19 pandemic. Even as scientists work at breakneck speeds, many crucial questions about COVID-19—such as how long immunity to the virus lasts, and how much of a role children play in the spread of infection—remain unresolved, and policy decisions have had to be addressed with limited evidence, with advice changing as new research emerges. 

“We have seen the messy side of science, [that] not all studies are equally well-done and that they build over time to contribute to the weight of knowledge,” says Karen Akerlof, a professor of environmental science and policy at George Mason University. “The short timeframes needed for COVID-19 decisions have run straight into the much longer timeframes needed for robust scientific conclusions.” 

Academia has done an amazing job of trying to get as much information  relevant to COVID gathered and distributed into the policymaking process as possible. —Chris Tyler, University College London

Widespread mask use, for example, was initially discouraged by many politicians and public health officials due to concerns about a shortage of supplies for healthcare workers and limited data on whether mask use by the general public would help reduce the spread of the virus. At the time, there were few mask-wearing laws outside of East Asia, where such practices were commonplace long before the COVID-19 pandemic began.  

Gradually, however, as studies began to provide evidence to support the use of face coverings as a means of stemming transmission, scientists and public health officials started to recommend their use. This shift led local, state, and federal officials around the world to implement mandatory mask-wearing rules in certain public spaces. Some politicians, however, used this about-face in advice as a reason to criticize health experts.  

“We’re dealing with evidence that is changing very rapidly,” says Meghan Azad, a professor of pediatrics at the University of Manitoba. “I think there’s a risk of people perceiving that rapid evolution as science [being] a bad process, which is worrisome.” On the other hand, the spotlight the pandemic has put on scientists provides opportunities to educate the general public and policymakers about the scientific process, Azad adds. It’s important to help them understand that “it’s good that things are changing, because it means we’re paying attention to the new evidence as it comes out.”

Bringing science and policy closer together

Despite these challenges, science and policy experts say that there are both short- and long-term ways to improve the relationship between the two communities and to help policymakers arrive at decisions that are more evidence-based.

Better tools, for one, could help close the gap. Earlier this year, Ruggeri brought together a group of people from a range of disciplines, including medicine, engineering, economics, and policy, to develop the Theoretical, Empirical, Applicable, Replicable, Impact (THEARI) rating system, a five-tiered framework for evaluating the robustness of scientific evidence in the context of policy decisions. The ratings range from “theoretical” (the lowest level, where a scientifically viable idea has been proposed but not tested) to “impact” (the highest level, in which a concept has been successfully tested, replicated, applied, and validated in the real world).

The team developed THEARI partly to establish a “common language” across scientific disciplines, which Ruggeri says would be particularly useful to policymakers evaluating evidence from a field they may know little about. Ruggeri hopes to see the THEARI framework—or something like it—adopted by policymakers and policy advisors, and even by journals and preprint servers. “I don’t necessarily think [THEARI] will be used right away,” he says. “It’d be great if it was, but we . . . [developed] it as kind of a starting point.” 

Other approaches to improve the communication between scientists and policymakers may require more resources and time. According to Akerlof, one method could include providing better incentives for both parties to engage with each other—by offering increased funding for academics who take part in this kind of activity, for instance—and boosting opportunities for such interactions to happen. 

Akerlof points to the American Association for the Advancement of Science’s Science & Technology Policy Fellowships, which place scientists and engineers in various branches of the US government for a year, as an example of a way in which important ties between the two communities could be forged. “Many of those scientists either stay in government or continue to work in science policy in other organizations,” Akerlof says. “By understanding the language and culture of both the scientific and policy communities, they are able to bridge between them.”  

In Canada, such a program was established in 2018, when the Canadian Science Policy Center and Mona Nemer, Canada’s Chief Science Advisor, held the country’s first “Science Meets Parliament” event. The 28 scientists in attendance, including Azad, spent two days learning about effective communication and the policymaking process, and interacting with senators and members of parliament. “It was eye opening for me because I didn’t know how parliamentarians really live and work,” Azad says. “We hope it’ll grow and involve more scientists and continue on an annual basis . . . and also happen at the provincial level.”

The short timeframes needed for COVID-19 decisions have run straight into the much longer timeframes needed for robust scientific conclusions. —Karen Akerlof, George Mason University

There may also be insights from scientist-policymaker exchanges in other domains that experts can apply to the current pandemic. Maria Carmen Lemos, a social scientist focused on climate policy at the University of Michigan, says that one way to make those interactions more productive is by closing something she calls the “usability gap.”

“The usability gap highlights the fact that one of the reasons that research fails to connect is because [scientists] only pay attention to the [science],” Lemos explains. “We are putting everything out there in papers, in policy briefs, in reports, but rarely do we actually systematically and intentionally try to understand who is on the other side” receiving this information, and what they will do with it.

The way to deal with this usability gap, according to Lemos, is for more scientists to consult the people who actually make, influence, and implement policy changes early on in the scientific process. Lemos and her team, for example, have engaged in this way with city officials, farmers, forest managers, tribal leaders, and others whose decision making would directly benefit from their work. “We help with organization and funding, and we also work with them very closely to produce climate information that is tailored for them, for the problems that they are trying to solve,” she adds. 

Azad applied this kind of approach in a study that involves assessing the effects of the pandemic on a cohort of children that her team has been following from infancy, starting in 2010. When she and her colleagues were putting together the proposal for the COVID-19 project this year, they reached out to public health decision makers across the Canadian provinces to find out what information would be most useful. “We have made sure to embed those decision makers in the project from the very beginning to ensure we’re asking the right questions, getting the most useful information, and getting it back to them in a very quick turnaround manner,” Azad says. 

There will also likely be lessons to take away from the pandemic in the years to come, notes Noam Obermeister, a PhD student studying science policy at the University of Cambridge. These include insights from scientific advisors about how providing guidance to policymakers during COVID-19 compared to pre-pandemic times, and how scientists’ prominent role during the pandemic has affected how they are viewed by the public; efforts to collect this sort of information are already underway. 

“I don’t think scientists anticipated that much power and visibility, or that [they] would be in [public] saying science is complicated and uncertain,” Obermeister says. “I think what that does to the authority of science in the public eye is still to be determined.”

Talking Science to PolicymakersFor academics who have never engaged with policymakers, the thought of making contact may be daunting. Researchers with experience of these interactions share their tips for success.
1. Do your homework. Policymakers usually have many different people vying for their time and attention. When you get a meeting, make sure you make the most of it. “Find out which issues related to your research are a priority for the policymaker and which decisions are on the horizon,” says Karen Akerlof, a professor of environmental science and policy at George Mason University.
2. Get to the point, but don’t oversimplify. “I find policymakers tend to know a lot about the topics they work on, and when they don’t, they know what to ask about,” says Kai Ruggeri, a professor of health policy and management at Columbia University. “Finding a good balance in the communication goes a long way.”
3. Keep in mind that policymakers’ expertise differs from that of scientists. “Park your ego at the door and treat policymakers and their staff with respect,” Akerlof says. “Recognize that the skills, knowledge, and culture that translate to success in policy may seem very different than those in academia.” 
4. Be persistent. “Don’t be discouraged if you don’t get a response immediately, or if promising communications don’t pan out,” says Meghan Azad, a professor of pediatrics at the University of Manitoba. “Policymakers are busy and their attention shifts rapidly. Meetings get cancelled. It’s not personal. Keep trying.”
5. Remember that not all policymakers are politicians, and vice versa. Politicians are usually elected and are affiliated with a political party, and they may not always be directly involved in creating new policies. This is not the case for the vast majority of policymakers—most are career civil servants whose decisions impact the daily living of constituents, Ruggeri explains.