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A corrente de humanização que se tece em tempos da pandemia da Covid -19 (Blog Cidadãos do Mundo)

25/05/2020 14:32

Por Sucena Shkrada Resk*

Campanhas pelo país impulsionam o exercício de empatia e desprendimento

Uma das características singulares que emerge em tempos de crise é a humanização, que vem carregada daquela palavra ‘aconchegante’ chamada empatia. Problemas da sociedade moderna já existentes se multiplicaram exponencialmente, em tempos de quarentena devido à pandemia da Covid-19, e potencializam hoje o que cada cidadão-solo ou em esforços coletivos pode contribuir aos mais vulneráveis. Assim, as campanhas se ampliam em diferentes regiões do Brasil, com doações de tempo em trabalho, de alimentos, produtos de limpeza, medicamentos para famílias e comunidades mais necessitadas. Como também, doações em itens ou dinheiro para asilos, hospitais públicos e instituições de pesquisa e a causas de PET abandonados.

Este é o mosaico formado por uma rede-cidadã que se forja dia a dia na resiliência às adversidades aqui e em outros lugares no mundo. Caso você se sinta sensibilizado por iniciativas realizadas por organizações idôneas, não se acanhe, parta para as ações dentro de suas possibilidades! É a filosofia do ganha-ganha!

Caso não tenha ideia do ponto de partida, faça um levantamento de entidades em seu bairro ou município, que mantêm trabalhos permanentes assistenciais credenciados ou sobre causas que tenha mais afinidade em suas congregações religiosas ou não. Verifique suas necessidades. Ou quem sabe, se bem mais perto de você, o seu próprio vizinho não está precisando de ajuda? Uma palavra amiga, uma divisão de mantimento, que não faz falta em sua casa, ou se oferecer a fazer uma compra de alimentos, fazem parte deste exercício.

Aqui, em São Caetano do Sul, SP, pesquisei algumas campanhas locais e doei pequenas quantias ao Abrigo Irmã Tereza e ao Lar Bom Repouso. Também a catadores de materiais recicláveis de São Paulo, a indígenas de São Paulo (pelo Instituto Akhanda) e à Campanha Existe Amor, de Milton Nascimento e Criolo e aos franciscanos.  E continuo, neste propósito, também no papel de comunicadora. Cada um vai encontrar ferramentas próprias que dão sentido nesta engrenagem.

Para facilitar a interação entre os elos de quem quer contribuir e quem precisa receber, alguns sites têm feito pontes nestas relações.  Confira alguns:
– Ação da Cidadania: https://www.acaodacidadania.com.br/formas-de-doar
– Agência da ONU para Refugiados: https://doar.acnur.org/acnur/coronavirus.html
– Amigos do Bem (atuação no sertão de Alagoas, Ceará e Pernambuco):  amigosdobem.org/acaoemergencial/
– Articulação de Povos Indígenas do Brasil (APIB): https://www.vakinha.com.br/vaquinha/apoie-os-povos-indigenas
– Central Única das Favelas: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-a-cufa-a-ampliar-seu-combate-ao-coronavirus
– Caritas Brasileira: https://caritas.org.br/
– Cruz Vermelha Brasileira: https://www.cruzvermelha.org.br/pb/category/noticias/covid-19/
– Projeto Mãe das Favelas: https://www.maesdafavela.com.br/
– Campanha p/Comunidade de Paraisópolis (SP): https://www.esolidar.com/en/crowdfunding/detail/3-g10-apoie-paraisopolis-a-combater-o-corona-virus?lang=br/
– Fundo Emergencial para a Saúde – Coronavírus: https://www.bsocial.com.br/causa/fundo-emergencial-para-a-saude-coronavirus-brasil
– Meu Rio (Covid nas Favelas): https://www.covid19nasfavelas.meurio.org.br/
– Defesas civis do seu município e/ou Estado
– Fundos Sociais de Solidariedade dos municípios e estados
– Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef): https://secure.unicef.org.br/Default.aspx?origem=covid19
– Hospital das Clínicas de São Paulo: https://viralcure.org/hc
– Médicos Sem Fronteiras: https://coronavirus.msf.org.br/
– Movimento Família apoia Família: https://benfeitoria.com/canal/familias
– Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR: https://solidariedadeaoscatadores.com.br/

É preciso sempre estar atento quanto à transparência das informações sobre as quantias e destinações desses recursos. A Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR) criou a página https://www.monitordasdoacoes.org.br/, que tem apurado o levantamento de doações à causa da Covid-19, com dados de doadores como também de mais de 350 campanhas em andamento no país. Nos informes, há dados de quanto estão recebendo (com no mínimo R$ 10 mil angariados à causa). É mais uma maneira interessante de possibilitar uma certa transparência deste universo, que tem de existir de forma autônoma nos canais de comunicação das instituições envolvidas.

– Plataforma Para Quem Doar: https://redeglobo.globo.com/Responsabilidade-Social/pra-quem-doar/
– Santa Casa de Misericórdia de São Paulo: https://www.santacasasp.org.br/portal/site/pub/16267/lista-de-doacoes—campanha-de-combate-a-covid-19
– Serviço Franciscano de Solidariedade (Sefras): https://www.sefras.org.br/novo/acao-e-solidariedade-franciscana-covid-19/
– Universidade de São Paulo – USP (plataforma para colaborações a ações de pesquisa): www.usp.br/uspvida

O que importa, no final das contas, é encontrar nestes pequenos gestos, o sentido de pertencimento, pelo qual conseguimos dividir e compartilhar, se possível, de palavras a elementos de necessidade básica. E ter a percepção de que todos estamos juntos em um mesmo barco, mas alguns precisam de mais apoio do que outros, em momentos de crise.

*Sucena Shkrada Resk – jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Leia mais: https://cidadaosdomundo.webnode.com/news/parte-7-a-corrente-de-humanizacao-que-se-tece-em-tempos-da-pandemia-da-covid-19/

Elogio à potência cognitiva dos Cuidados (Outras Palavras)

Tradição intelectual da Modernidade dá valor e poder à Crítica, mas esquece uma forma de compreensão do mundo tão potente quanto ela. É mundana, feminina e transformadora. Inventa complexidades. Resiste a ser mercantilizada

OutrasPalavras Descolonizações por Antonio Lafuente

Publicado 15/05/2020 às 20:41 – Atualizado 17/05/2020 às 13:11

Por Antonio Lafuente, do Centro de Ciências Humanas e Sociais (CSIC), Madri | Tradução de Simone Paz Hernández | Imagem: Egon Schiele, Grupo de Três Meninas (detalhe)

O coronavírus tem nos ensinado muitas coisas — algumas delas, vamos demorar para esquecer. Porém, poucas foram tão inesperadas como a aproximação entre a cultura crítica e a cultura dos cuidados. Pareciam pertencer a planetas diferentes: uma, ligada à busca de certeza, metodologias conflitantes e gestos públicos; a outra, vizinha da dor, inclinada pelo tácito e reclusa no âmbito privado. Ambas, muito seguras de sua importância, mas muito diferentes em seus reconhecimentos. Para o espírito crítico, sempre existiu um posto de honra entre os inteligentes, os poderosos, os administradores. Os críticos possuem a chave que abre as portas do mundo, desde a empresa e a academia, até o conselho ou comitê. Ser crítico é uma qualidade característica dos que conseguem enxergar além das aparências, dos que sabem ler as entrelinhas e dos que não se deixam levar pelo refrão. Quem não é crítico está sujeito a ser doutrinado, manipulado e menosprezado.

Nosso mundo sempre reservou lugares especiais para a crítica. O espírito crítico nos protege dos farsantes, dos malandros e dos vigaristas. E, como nunca faltam aqueles que querem tirar proveito de nossa ingenuidade, desconhecimento ou incapacidade, fazemos bem em confiar na nobreza daqueles que se dispõem por nós a depurar as ideias, comparar informações e destrinchar propostas. Os debates públicos nos são apresentados muitas vezes como um duelo de espadachins, como um exercício de virtuosismo retórico, como uma amostra do dandismo entre “filhos de alguém”, tão inúteis quando desprezíveis. Isso não tem nada a ver com a crítica, está mais para um produto da vaidade pretensiosa: um embuste entre bobos. Já a crítica, é necessária e urgente. Uma das ferramentas mais valiosasas de que dispomos para navegar entre as tormentas ou para nos guiar entre as brumas. Sem ela, não existiria a civilização.

Os cuidados transitam em outro tipo de abundâncias invisíveis. Eles têm a ver com todas as práticas que levam à reparação ou à manutenção da vida. Possuem relação com o que há de mais simples e comum: dar comida, fornecer aconchego, produzir bem-estar, manter a conversa, ouvir o incabível ou inusitado, oferecer esmero, sentir o futuro, experimentar com os outros, fazer coisas juntos, desfrutar as nuances, acompanhar processos e criar espaços seguros. No mundo, não há nada mais abundante do que a dor, o desconsolo, o desabamento. Nada é mais necessário do que oferecer confiança, paz ou tempo. Seja para descobrir suas (novas) vulnerabilidades, seja ao se encontrar (novamente) estagnado, o que você vai querer por perto não é um cérebro privilegiado capaz de performar uma capacidade de análise impecável. Nesses momentos, precisamos de outro tipo de talento: o de alguém que saiba se colocar em sua situação, em seu lugar, conter a ansiedade de aconselhar, ficar em silêncio, saber ouvir, deixar fluir e acompanhar, enquanto, aos poucos, você se reencontra com a vida que merece ou a resposta que procura.

Não quero dizer que os que pensam não cuidam, nem que os que cuidam não pensam. Isso seria uma simplificação inaceitável e ofensiva. Todos nós podemos passear pelos dois mundos. Podemos utilizar a crítica para reparar aquilo que ouvimos e fazê-lo crescer. Podemos renunciar a usar nossas habilidades para ganhar vantagem e competir melhor. Nada nos obriga a querer sempre ganhar. Não é necessário demonstrar que estamos por cima dos outros, nem temos que tratar nossos adversários como inimigos, traidores ou estúpidos. Na crítica, pode existir um quê de sadismo. É normal que exista, e que toda vez que numa conversa alguém cite um especialista, um fato ou uma prova, para nos dar um soco e calar a boca. Esses críticos são pessoas perigosas das quais é bom se proteger, porque costumam ser implacáveis.

A ciência é um dos terrenos da crítica. Não é o único, nem o mais visível. Os que se gabam de ser críticos são aquelas pessoas da literatura, das artes, das ciências humanas e também, portanto, das ciências sociais. O que eles chamam de “espírito crítico” é muitas vezes percebido como arrogância banal. E é por isso que nós desconfiamos dessa forma de nos desenganarem, que, do outro lado do espelho, é percebida como uma maneira de nos deixar nus. Justamente o oposto daquilo que esperávamos: alguém que nos ajudasse a encontrar as roupas para não nos deixar na intempérie. Abandonados ao acaso, novamente, sem redenção.

A cultura do cuidado não é só compaixão. Precisamos dela, também, para criar outros mundos possíveis e dar espaço às diferentes práticas cognitivas de que precisamos aprender a apreciar. Se o crítico é quem vê mais e melhor, quem cuida possui como ferramenta fundamental de trabalho o tato. Se a simbologia reservou para os inteligentes a figura da coruja, do livro e dos óculos de armação grossa, aqueles que cuidam são representados como pessoas que acariciam com os olhos, com os gestos e com as mãos. As mãos alcançam lugares que os olhos nem conseguem imaginar. O tato é a chave que abre a porta que nos permite imaginar outros mundos possíveis, baseados em cumplicidade, empatia e vulnerabilidade. Nos cuidados, explora-se sem propósitos e sem condicionantes, se avança entre suspeitas e desconfianças, até chegarmos ao lugar onde experimentaremos a companhia como uma bênção. Ou uma epifania.

Se a visão gera a distância entre o sujeito e o objeto, o tato mistura esses dois mundos. A visão cria outros espaços, enquanto o tato inventa a complexidade. Tudo fica interligado e se torna próximo, entrelaçado. A visão quer fazer do mundo um objeto, enquanto o tato torna mundano o objeto. Mundano quer dizer comum, cotidiano, semelhante. Quiçá, também, barato, jovial e compartilhado.

A crise do coronavírus aproximou esses dois mundos para nos ajudar a entendê-los melhor, para descobrirmos que ambos são imprescindíveis e que os dois são deste planeta. Que ambos pertencem ao âmbito público e são duas potências cognitivas que deveriam parar de brigar e se unir num longo abraço. Sim, isso mesmo: um abraço em tempos de coronavírus pode parecer uma transgressão, mas não é, não, não se trata de uma pegadinha: esperamos muito desse atrito, pois não nos conformamos com apenas sobreviver — que é o que nos prometem os cientistas e seus porta-vozes. Não nos conformamos com apenas continuar vivos, pois queremos imaginar mundos mais ousados. A pandemia demonstrou que, em termos cognitivos, é imprescindível que se estruturem adequadamente três epistemes que se destacam: o mundo dos dados, dos modelos de previsão e da inteligência artificial; o mundo da virologia, da epidemiologia, das vacinas e do laboratório; e, por último, mas não menos importante, os territórios da clínica, dos profissionais da saúde e das práticas de cuidados.

Curar corpos nos forçou a cuidar de mundos. De repente, descobrimos que inconsistências estatísticas, causadas por uma coleta de dados ruim, poderiam levar a medidas que nos ameaçariam a todos. Dados não são números, mas coisas que precisam ser produzidas do mesmo jeito que são produzidas as bolas de sinuca: se elas não possuírem as características necessárias, não funcionam, não servem pra nada, não deslizam corretamente e não transmitem os efeitos esperados. Os dados precisam ser interoperáveis. Você precisa projetá-los com precisão, coletá-los com cuidado e transmiti-los a tempo. Podemos ter os melhores matemáticos, construindo os modelos mais sofisticados, porém, fazendo propostas mal-sucedidas porque os coletores de dados se desentenderam ou ficaram desmotivados ou deprimidos. Porque eles pararam de se projetar em seu trabalho com amor e orgulho. Não estavam atentos o suficiente para detectar algo suspeito, uma variação imprópria, um viés inesperado ou, finalmente, uma prática inconsistente. Talvez ninguém os fez acreditar na importância do que estavam fazendo. Talvez eles tenham se cansado de ser invisíveis, ou talvez se convenceram de que eram seres descartáveis, secundários ou irrelevantes.

Fazer vacinas ou, em termos mais gerais, projetar e realizar experimentos não é uma tarefa mecânica. Quem faz experimentos precisa improvisar o tempo todo — ou seja, precisa enfrentar um montão de imprevistos que exigem habilidades que não são ensinadas nos livros, mas que, entretanto, foram aprendidas com os colegas. Experimentar é uma atividade que possui muitas semelhanças com o trabalho dos artesãos. Todos os cientistas experimentais são uma espécie de faz-tudo, pessoas que sabem consertar coisas, que encontram soluções: são próprios bricoleurs. Ou, em outras palavras, pessoas que conseguem trabalhar sem um manual de instruções, e que, principalmente, tornaram-se muito tolerantes à incerteza. Sabem andar às cegas, guiando-se pelas paredes para não bater e mantendo-se conectados a tudo o que acontece para poder ser sensíveis às pequenas diferenças, às nuances esquecidas ou aos tons imperceptíveis. 

Não é ficar observando o seu objeto, mas sim estar abertos a se deixar afetar por qualquer sinal que vier de seu universo ou do ambiente que os cerca para decidir, em tempo real, se essa coisa, ainda não identificada, possui algum significado ou contém alguma mensagem. A relação que os cientistas mantêm com seus objetos, aquilo que não deixa de interpelá-los e que não conseguem parar de olhar, é muito menos objetiva, distante ou abstrata do que nos contaram. É uma relação muito menos crítica do que afetiva, e tem muito mais a ver com as virtudes de quem cuida de alguém ou de algo, do que com os estereótipos de quem observa, aponta e dispara — quero dizer, com as qualidades de um bom crítico.

Ao falarmos da clínica tudo parece mais fácil, porque pouquíssimas pessoas já visitaram um laboratório na vida e a maioria nunca ouviu falar da nova profissão de curador de dados. Mas todos ou já cuidamos, ou já fomos cuidados. Entretanto, reside nessa simplicidade a maior dificuldade — porque corremos o risco de psicologizar os cuidados e de transformá-los em habilidades mentais livres de materialidade. Não será preciso insistir, agora, na importância das máscaras, dos testes, dos termômetros, dos sabonetes, da história clínica e dos aplausos. A maior parte do trabalho possui maior relação com gerir espaços, decidir dosagens, administrar alimentos, conhecer lamentos, identificar sinais, comparar respostas, contrastar experiências, aprender de erros, retificar protocolos, pular algumas normas, enfim: improvisar, corrigir, deixar-se afetar, escutar — tudo isso sem um manual.

Cada quarto de hospital carrega um universo: todos os dias são percorridos todos os climas: o dos bacanas, o dos espertos, o dos exigentes, o dos egoístas, o dos intrigantes, o dos desconfiados, o dos pessimistas, o dos amorosos… todos os universos cabem num só dia. Não é preciso viajar, basta mudar de quarto. Existe um forte desgaste emocional, cuja origem varia. A televisão, sempre apressada e sempre resumindo e generalizando, fala do impacto que a dor do ambiente causa aos profissionais da saúde. É verdade, mas não se resume a isso: essa é só a parte mais midiática. Há muito mais. Existe a vontade de aprender, o desejo de entender, a necessidade de corrigir e a obrigação de curar; tudo isso, ao mesmo tempo e de forma rápida, representa um esforço de intelecção cansativo e infinito, porque os corpos são todos diferentes e o que vale para um pode ser contraproducente para outro.

Assim funciona o saber experiencial: está nos corpos e não nos livros. Pode-se aprender, mas não numa aula. É um saber contrastado, eficiente, tácito e imprescindível. A clínica é a interface entre esses dois mundos, que com tanta frequência negam-se a chegar a um entendimento: o mundo da crítica e o mundo dos cuidados. É tanto uma interface como uma fronteira que precisamos aprender a contrabandear todo dia. Nessa fronteira, somos todos iguais, não há regras claras, não há normas específicas — e nem podem existir. Esse é o interesse das fronteiras que servem para experimentarmos outros mundos possíveis e necessários. Nas fronteiras, há sempre conflitos que, quando são de curto prazo, resolvemos com astúcia, dando um jeito; mas, se pensarmos em formas de convivência relativamente estáveis, precisaremos das ferramentas da diplomacia.

Às vezes, não precisamos de uma demonstração, e sim de uma conversa. Os diplomatas sabem disso melhor do que ninguém, como costumam saber aqueles que fazem parte do mundo dos cuidados. O diplomata compreende que não pode convencer seu interlocutor. E, portanto, precisa renunciar às ferramentas da crítica e admitir que a solução não vai ser imposta por um exercício de depuração de dados, de citação de fontes ou de ampliação dos fatos comprobatórios. Entre os diplomatas, a conversa tem a finalidade de encontrar um relato, um acordo, um espaço de convivência mais complexo que o anterior, onde caibam igualmente os dois pontos de vista, mesmo quando enfrentados. A questão é evitar a guerra, e reiniciar a convivência. E é disso que precisamos agora: uma negociação que torne possível não só a convivência de epistemes. Os mundos dos dados, dos fatos e das experiências precisam um do outro e têm de aprender a conviver sem se censurarem. Nenhum deles é mais coerente ou necessário do que os outros.

Atualmente, fala-se muito em abrir a ciência. Mas não ficou claro o que queremos dizer com isso. Evidentemente, abrir a ciência significa abrir os conteúdos e os dados: dar acesso ao conhecimento disponível, mais ainda quando a maior parte dele é produzida com dinheiro público. Também parece lógico que as infraestruturas que suportam e fazem com que esses dados se tornem operacionais deveriam estar nas mãos dos próprios cientistas, o que equivale a reivindicar soberania para os hardwares e softwares que suportam todo o acervo da ciência aberta. Se a prática da ciência depende de decisões políticas arquitetadas em comitês que definem prioridades, destinam recursos, validam méritos e constroem reputações, parece imprescindível que, também, todas essas operações tenham muita transparência e disponibilização. Tudo isso já foi dito e está na agenda de muitas organizações nacionais e internacionais, não é novidade. Tomara que o coronavírus acelere esses processos em curso.

Além disso, porém, abrir a ciência requer abrir suas ontologias. Não tem a ver apenas com transformar as práticas para que sejam mais operativas, ou, em outras palavras, os “como”, as epistemes. Temos de aprender a escutar aqueles que falam desde outras formas de se aproximar da realidade. É evidente que o respeito às metodologias acreditadas continua de pé. Ninguém aqui falou em fazer tábula rasa. Pelo contrário: os tempos de coronavírus exigem que nenhum conhecimento seja desperdiçado e que demos a todos eles a visibilidade e o mérito que merecem e que precisamos. Cuidar é uma forma de conhecer, envolve outra maneira de se aproximar dos problemas e de encontrar respostas adaptadas para eles. Envolve mobilizar saberes tácitos e afetivos: saberes que, consequentemente, não podem ser codificados. Saberes que não podem ser desvinculados e que são estreitamente ligados às circunstâncias concretas nas quais foram gerados. São saberes dos quais a Modernidade nos ensinou (e até forçou) a desconfiar. Saberes que desde Descartes consideramos contaminados pelas emoções, pelos preconceitos, pelos contextos, ideologias e fragilidades dos corpos envolvidos, já que nem sempre eles enxergam bem, estão atentos ou com as faculdades plenas.

O conhecimento experiencial era desprezado pela sua alta contaminação por todo tipo de aderência local, corporal e cultural. Não foi sequer considerado um ativo a valorizar. Temos museus de etnografia, onde as realidades locais são mostradas como parte de um exotismo turistificável — e, agora, identitário. Justamente o oposto do que consideramos necessário por aqui. Nos interessa o comum e interdisciplinar, como forma de conhecimentos opositores — e não como curiosidades excêntricas e arbitrárias. Não são fruto do capricho, são consequência de uma adaptação secular. O fato de terem sido desvalorizadas fala muito sobre a nossa insensibilidade e, assim, da nossa facilidade em desprezar aquilo que ignoramos. O fato de serem não-codificáveis, tácitos, quer dizer que estamos frente a um saberes que não podem ser coisificados, alienados e mercantilizados. Mas isso não significa que sejam inúteis. Talvez por isso a imensa maioria das pessoas que trabalham com enfermagem e serviços sociais são mulheres. Nada a ver com falta de talento, mas sim com utilizá-lo em outras coisas. As quais, como sabemos, às vezes são as mais importantes. Mas nossa intenção não era fazer uma competição entre a cultura crítica e a cultura dos cuidados, e sim tentar suscitar uma conversa, mais ontológica do que epistêmica, que abrisse o mundo do conhecimento a novas perguntas, diversas soluções e novas formas de convivência. Não é que a gente precise de menos ciência, mas de mais atores: abrir a ciência a conversas difíceis, porém, urgentes. O coronavírus nos pede também uma cura de humildade.

Epidemia, empatia e mudança social

Renzo Taddei – 18 de março de 2020

Há uma postagem circulando no Facebook que conta a seguinte história: certa vez alguém perguntou à famosa antropóloga norte-americana Margaret Mead o que ela considerava a primeira evidência da civilização humana. Esse era um debate acalorado em meados do século 20 na antropologia. Alguns autores diziam que a marca de surgimento da civilização era o surgimento da linguagem simbólica (a capacidade do uso de metáforas, por exemplo). Outros diziam que o ponto inicial era o surgimento da percepção de que algumas formas de comportamento – como o incesto – eram inaceitáveis. Outros, a invenção de ferramentas de caça. Outros ainda, a criação de artefatos religiosos. A resposta de Margaret Mead foi surpreendente: ela disse que o início da humanidade estava representado em um fêmur, encontrado em um sítio arqueológico datado em 15 mil anos. O referido osso possuía marca de uma fratura que havia sido curada (esta história está narrada no livro The Best Care Possible: A Physician’s Quest to Transform Care Through the End of Life, Avery, 2012).

A explicação de Mead era a seguinte: nenhum animal, em condições selvagens, é capaz de sobreviver com um osso de fêmur fraturado. Tal animal seria morto por outro animal, ou por provável infecção, antes de que o osso pudesse se refazer. Desta forma, a existência de um fêmur de 15 mil anos curado significa que o indivíduo a quem o osso pertenceu foi ajudado por seus pares, que dele cuidaram, protegeram, e forneceram alimento por um período longo de tempo, de modo que a calcificação do osso fosse possível. O argumento de Mead era, desta forma, que a marca que define a civilização humana é o cuidado para com os que estão doentes ou em situação de vulnerabilidade. Ser humano é ter empatia para com seus pares.

Ocorre, no entanto, que o caminhar da civilização ocidental – a mais materialmente rica e poderosa de toda a história da humanidade – acabou por produzir, a partir do século 19, modos de vida pautados pelo individualismo e pelo hedonismo (que é o pensamento de que a finalidade da existência humana é gozar a vida, ter prazer). Individualismo e hedonismo juntos produzem formas egoístas de entender o mundo e a vida.

Em meio à crise do COVID-19, vemos o mundo ocidental dividido entre tendências egoístas e a capacidade de ter empatia para com quem está em situação de risco. As tendências egoístas se fazem visíveis quando, por exemplo, alguém corre ao supermercado e compra todos os frascos de álcool gel disponíveis, antes que outra pessoa possa fazê-lo; ou quando a pessoa jovem pensa que, por ter altíssima probabilidade de recuperação, caso infectada, não precisa se preocupar tanto se contrai o vírus ou não. O comportamento empático se faz visível quando alguém se oferece para fazer compras para o casal de velhinhos que mora no condomínio, de modo a que estes não precisem sair de casa; ou quando o jovem, em geral saudável, fica em casa quando percebe que tem os sintomas do vírus, de modo que a atenção médica e os kits de exames para a detecção da doença sejam usados em quem realmente está em estado grave. Ou ainda quando alguém percebe que muitas crianças das escolas públicas necessitam da alimentação que ali recebem, e se ficarem em casa irão passar fome, e organiza coleta e distribuição de alimentos para as famílias de tais crianças.

Historicamente falando, as grandes epidemias têm a tendência de virar a balança para o lado da empatia (mesmo que grande parte das pessoas se mantenha em um estado de pânico egoísta). Um artigo publicado em 2018 no jornal britânico The Guardian (https://bit.ly/39Y7L2p) descreveu como a gripe espanhola que matou mais de 10 milhões de pessoas em 1918 foi importante na criação do estado de bem-estar social na Suécia, e resultou no fato de que o país, um dos mais ricos do planeta, tenha desigualdade social muito baixa. A alta mortalidade da gripe espanhola desorganizou a sociedade de tal maneira que injustiças e desigualdades que existiam mas eram invisíveis vieram à tona.

No caso do Brasil contemporâneo, podemos dizer que a crise epidemiológica pode ser entendida, dentro muitas outras coisas mais dramáticas, como um grande experimento sociológico. Ou seja, é possível observar coisas e comportamentos que, em situações mais “normais”, não seriam visíveis. Nesse experimento, podemos observar este embate entre egoísmo individualista e comportamentos empáticos. Há uma virada para o lado da empatia, ou o que caracteriza mais os comportamentos coletivos é o egoísmo individualista? Será que as pessoas que se sentem mais estimuladas a serem solidárias e comportarem-se de forma empática continuarão se comportando desta forma depois do final da crise? Ou seja, a epidemia produzirá mudanças reais na sociedade, como ocorreu na Suécia em 1918?

Outra coisa interessante que nos ajuda a entender o contexto atual em uma chave diferente é o fato de que as epidemias tiveram papéis importante na formação da civilização contemporânea. Yuval Harari menciona isso no capítulo 5 (“A maior fraude de história”) do seu livro Sapiens. As epidemias começaram a fazer parte da vida humana no momento em que as plantas e animais foram domesticados, e a maioria dos agrupamentos humanos passou a viver na mesma terra, praticando agricultura. Surgiram as cidades, ao longo da história sem conhecimento nem infraestrutura sanitária, e isso favoreceu que microrganismos que viviam de forma mais ou menos equilibrada com a ecologia local começassem a causar epidemias. Da invenção da agricultura no oriente médio até a invasão das Américas pelos europeus, passaram-se 10 mil anos. Nestes 10 mil anos, epidemias de todos os tipos avassalaram as populações da Eurásia (Europa+Ásia). Qual o resultado disso? Seleção natural: o ser humano europeu do século 15 possuía imunidade a uma grande quantidade de microrganismos para os quais as populações indígenas das Américas não era imunes. Essa é uma das razões (não a única) pela qual foi a Europa que invadiu as Américas, e não as Américas que invadiram a Europa. Mais de 90% de toda população indígena das Américas morreu nos 150 anos seguintes, quase toda em razão de epidemias trazidas pelos europeus. Há autores que sugerem que a carnificina que vitimou os povos originários foi tão intensa que, quando as florestas cresceram sobre os escombros das civilizações dizimadas, elas sequestraram tanto carbono da atmosfera que isso provocou o resfriamento do planeta (evento que ficou conhecido como pequena era do gelo medieval – ver https://bit.ly/38TeoBC). 

O ponto interessante e delicado, aqui, é a ideia de que as epidemias podem ter outros efeitos sobre as populações além de simplesmente fazer com que uma parte dela morra. Aliás, essa é uma questão pouco entendida da seleção natural de Darwin: o “avanço” de uma espécie, através da adaptação a um ecossistema, depende da morte de um grande número de indivíduos. Harari coloca a questão de forma brusca, no seu livro: a evolução trabalha em favor da espécie, e não do indivíduo. Naturalmente, quase todos os esforços da humanidade desde que esta surgiu se concentraram em desativar os mecanismos da seleção natural. Se voltarmos àquele nosso ancestral de 15 mil anos, com o fêmur partido, cujo colega decidiu que, ao invés de deixar o amigo morrer e ficar com a sua comida, ele iria doar sua energia, tempo e recursos (comida, água, fogo) para que o companheiro pudesse se recuperar, veremos que, naquele exato momento, a humanidade começava a caminhar para longe da seleção natural pura e simples, em direção à empatia. Na verdade, o próprio Darwin afirmou que a empatia é qualidade humana que maximiza a sobrevivência da espécie (hoje sabemos que muitos animais também experimentam sentimentos de empatia).

Há muitas coisas interessantes a serem debatidas aqui. Uma delas é que, mesmo para que se entenda as coisas de forma científica, não se pode abordar o mundo pelo ponto de vista do umbigo dos humanos preocupados apenas com eles mesmos.

The Ideas That Won’t Survive the Coronavirus (New York Times)

Covid-19 is killing off the myth that we are the greatest country on earth.

By Viet Thanh Nguyen

April 10, 2020

Credit: Demetrius Freeman for The New York Times

This article is part of “The America We Need,” a Times Opinion series exploring how the nation can emerge from this crisis stronger, fairer and more free. Read the introductory editorial and the editor’s letter.

Sometimes people ask me what it takes to be a writer. The only things you have to do, I tell them, are read constantly; write for thousands of hours; and have the masochistic ability to absorb a great deal of rejection and isolation. As it turns out, these qualities have prepared me well to deal with life in the time of the coronavirus.

The fact that I am almost enjoying this period of isolation — except for bouts of paranoia about imminent death and rage at the incompetence of our nation’s leadership — makes me sharply aware of my privilege. It is only through my social media feeds that I can see the devastation wreaked on people who have lost their jobs and are worried about paying the rent. Horror stories are surfacing from doctors and nurses, people afflicted with Covid-19, and those who have lost loved ones to the disease.

Many of us are getting a glimpse of dystopia. Others are living it.

If anything good emerges out of this period, it might be an awakening to the pre-existing conditions of our body politic. We were not as healthy as we thought we were. The biological virus afflicting individuals is also a social virus. Its symptoms — inequality, callousness, selfishness and a profit motive that undervalues human life and overvalues commodities — were for too long masked by the hearty good cheer of American exceptionalism, the ruddiness of someone a few steps away from a heart attack.

Even if America as we know it survives the coronavirus, it can hardly emerge unscathed. If the illusion of invincibility is shredded for any patient who survives a near-fatal experience, then what might die after Covid-19 is the myth that we are the best country on earth, a belief common even among the poor, the marginal, the precariat, who must believe in their own Americanness if in nothing else.

Perhaps the sensation of imprisonment during quarantine might make us imagine what real imprisonment feels like. There are, of course, actual prisons where we have warehoused human beings who have no relief from the threat of the coronavirus. There are refugee camps and detention centers that are de facto prisons. There is the economic imprisonment of poverty and precariousness, where a missing paycheck can mean homelessness, where illness without health insurance can mean death.Debatable: Agree to disagree, or disagree better? Broaden your perspective with sharp arguments on the most pressing issues of the week.

But at the same time, prisons and camps have often served as places where new consciousnesses are born, where prisoners become radicalized, become activists and even revolutionaries. Is it too much to hope that the forced isolation of many Americans, and the forced labor of others, might compel radical acts of self-reflection, self-assessment and, eventually, solidarity?

A crisis often induces fear and hatred. Already we are seeing a racist blowback against Asians and Asian-Americans for the “Chinese virus.” But we have a choice: Will we accept a world of division and scarcity, where we must fight over insufficient resources and opportunities, or imagine a future when our society is measured by how well it takes care of the ill, the poor, the aged and the different?

As a writer, I know that such a choice exists in the middle of a story. It is the turning point. A hero — in this case, the American body politic, not to mention the president — is faced with a crucial decision that will reveal who he or she fundamentally is.

We are not yet at the halfway point of our drama. We have barely made it to the end of the first act, when we slowly awaken to the threat coming our way and realize we must take some kind of action. That action, for now, is simply doing what we must to fight off Covid-19 and survive as a country, weakened but alive.

The halfway point comes only when the hero meets a worthy opponent — not one who is weak or marginal or different, but someone or something that is truly monstrous. Covid-19, however terrible, is only a movie villain. Our real enemy does not come from the outside, but from within. Our real enemy is not the virus but our response to the virus — a response that has been degraded and deformed by the structural inequalities of our society.

America has a history of settler colonization and capitalism that ruthlessly exploited natural resources and people, typically the poor, the migratory, the black and the brown. That history manifests today in our impulse to hoard, knowing that we live in an economy of self-reliance and scarcity; in our dependence on the cheap labor of women and racial minorities; and in our lack of sufficient systems of health care, welfare, universal basic income and education to take care of the neediest among us.

What this crisis has revealed is that, while almost all of us can become vulnerable — even corporations and the wealthy — our government prioritizes the protection of the least vulnerable.

If this was a classic Hollywood narrative, the exceptionally American superhero, reluctant and wavering in the first act, would make the right choice at this turning point. The evil Covid-19 would be conquered, and order would be restored to a society that would look just as it did before the villain emerged.

But if our society looks the same after the defeat of Covid-19, it will be a Pyrrhic victory. We can expect a sequel, and not just one sequel, but many, until we reach the finale: climate catastrophe. If our fumbling of the coronavirus is a preview of how the United States will handle that disaster, then we are doomed.

But amid the bumbling, there are signs of hope and courage: laborers striking over their exploitation; people donating masks, money and time; medical workers and patients expressing outrage over our gutted health care system; a Navy captain sacrificing his career to protect his sailors; even strangers saying hello to other strangers on the street, which in my city, Los Angeles, constitutes a nearly radical act of solidarity.

I know I am not the only one thinking these thoughts. Perhaps this isolation will finally give people the chance to do what writers do: imagine, empathize, dream. To have the time and luxury to do these things is already to live on the edge of utopia, even if what writers often do from there is to imagine the dystopic. I write not only because it brings me pleasure, but also out of fear — fear that if I do not tell a new story, I cannot truly live.

Americans will eventually emerge from isolation and take stock of the fallen, both the people and the ideas that did not make it through the crisis. And then we will have to decide which story will let the survivors truly live.

To Battle Isolation, Elders and Children Connect as Pen Pals (New York Times)

Original article

Pen pal programs have sprouted up around the world as schools and senior centers try to keep older adults connected and children occupied.

By Mihir Zaveri, April 10, 2020

Mike Boggs found himself staring out the window at his assisted living center in Sioux City, Iowa, wondering when the coronavirus pandemic would end and when he would be able to safely go outside again.

Mr. Boggs, 63, struggled with dementia. He missed his wife, who was no longer allowed to visit. When the center decided in late March to halt communal meals to protect its residents, he felt his world grow even smaller.

Days before in the same city, Lincoln Colling, 15, found out that his school, East High School, would close. There would be no more team sports and no more student council meetings. Boredom set in.

But in their isolation — and despite their five-decade age difference — Mr. Boggs and Lincoln have forged a new connection. They have become pen pals through an informal partnership between the assisted living center and the student council at Lincoln’s school aimed at connecting teenagers with older adults, a population that was at risk of being socially isolated even before the coronavirus outbreak forced them into further seclusion.

In recent weeks, similar programs have sprouted up in Australia and Europe, and across the United States — in Sioux City; Madison, Conn.; Clear Lake, Texas; and beyond — as schools, nursing homes, libraries and senior centers try to keep older adults connected and children occupied.

Participants in a pen pal program that has matched students at East High School in Sioux City, Iowa, with residents of the Bickford Senior Living center. Clockwise from top left, Ella Voloshen, 17; Tiffany Su, 16; Maroldine Grabe; Lincoln Colling, 15; Payton East and Alivia Pick, both 11; and Mike Boggs.

Mr. Boggs received his first letter from Lincoln the day that the center, Bickford Senior Living, ended communal dining. Lincoln wrote casually on a page of notebook paper about how team sports had been shut down, how he was running to stay in shape and how his basketball team won a city championship last year.

“It affected me pretty personally,” Mr. Boggs said in an interview. “I’ve never had a pen pal before. This is a first time for me. I think it’s a great idea to keep open communication with the kids while we’re isolated inside — to keep that open line going.”

Mr. Boggs wrote in a one-page response: “Remember to eat a lot of spinach like Popeye that will keep you strong.”

Lincoln said that getting a letter back from Mr. Boggs was “so cool.”

“I feel like I could do this for a very long time,” Lincoln said.

Older people tend to have fewer social connections, particularly as their physical and mental health declines, said Dawn Carr, a sociology professor at Florida State University who studies aging and health. They are less likely to have jobs and the casual relationships that come with those jobs, she said.

Social isolation and loneliness are linked to poorer physical and mental health outcomes, said Dr. Carr, who is also a faculty associate at the Pepper Institute for Aging and Public Policy. Because people over 60 — and especially those over 80 — are particularly vulnerable to the coronavirus, social-distancing measures strictly warn or prohibit people from interacting with them.

“They are less likely now than ever to have even the small interactions that they had in daily life,” Dr. Carr said.

The pen pal programs are trying to change that.

“It makes a connection between a younger person and an older person,” said Pat McCormick, 79, who received a letter at Bickford Senior Living from a student who wrote about cheerleading and an upcoming trip to Texas. “It’s interesting for me to hear what these young people are doing.”

A similar program in Warminster, Pa., sought volunteers to write one email a week about a personal hobby or a funny story that would then be passed along to someone living in a nursing home. (The program’s website now says it is “at capacity” and cannot take any more volunteers.) In March, a retirement community in Sedro-Woolley, Wash., put out a call on social media for letters from children “in an effort to stay connected to our community and help parents combat boredom with their little ones at home.”

Dr. Carr said that such programs would be more successful in helping older people who are isolated if they encouraged two-way communication — a “back and forth” — and created social bonds. She said that intergenerational communication could be particularly beneficial, fostering empathy and civic engagement.

“Maybe this terrible thing that’s happened to us can shed light on the importance of building programs that actually work,” she said.

Town officials in Madison, Conn., started a pen pal program after its senior center — which holds exercise classes and games during the day, among other services — shuttered in mid-March in response to the pandemic.

“You have two populations that are stuck at home, that are isolated,” said Heather Noblin, the center’s assistant director of senior services.

For about two weeks, Ms. Noblin has been matching older adults with children. She had made more than a dozen matches as of Thursday afternoon. The “letters” would be sent through email to keep from potentially exposing recipients to the coronavirus. She said interest in the program was growing.

“I think it’s definitely still bubbling,” she said.

Christina Acampora read about the program in a local newspaper on March 26. Her daughter, Lucia, 9, already had a pen pal with a peer in New Jersey. But the idea of corresponding with an older person intrigued them both.

“I think that it’s good for the seniors because they can’t have any visitors,” Lucia said.

Lucia was matched with LouAnne Castrilli, 65, who recently retired as an administrative assistant with Madison’s Youth and Family Services department.

“She told me the things that she likes and the things that she does,” Ms. Castrilli said. “She likes ballet, and things like that, and then she asked me a bunch of questions, like what is my favorite color, what do I do for fun. Then we got talking back and forth.”

The new pen pals have exchanged four emails so far. Ms. Castrilli said they were the highlight of her day. And as it turned out, she and Lucia have a lot in common. They both like walking on the beach. They both like scrapbooking. They share a favorite color, pink.

“Maybe when this is all over,” Ms. Castrilli said, “maybe we will get to meet each other, which will be kind of fun.”

Mihir Zaveri is a general assignment reporter on the Express Desk. He previously worked at The Houston Chronicle.

Excessive empathy can impair understanding of others (Science Daily)

Date:
April 28, 2016
Source:
Julius-Maximilians-Universität Würzburg, JMU
Summary:
People who empathize easily with others do not necessarily understand them well. To the contrary: Excessive empathy can even impair understanding as a new study conducted by psychologists has established.

Excessive empathy can impair understanding as a new study conducted by psychologists from Würzburg and Leipzig has established. Credit: © ibreakstock / Fotolia

People who empathize easily with others do not necessarily understand them well. To the contrary: Excessive empathy can even impair understanding as a new study conducted by psychologists from Würzburg and Leipzig has established.

Imagine your best friend tells you that his girlfriend has just proposed “staying friends.” Now you have to accomplish two things: Firstly, you have to grasp that this nice sounding proposition actually means that she wants to break up with him and secondly, you should feel with your friend and comfort him.

Whether empathy and understanding other people’s mental states (mentalising) — i.e. the ability to understand what others know, plan and want — are interrelated has recently been examined by the psychologists Anne Böckler, Philipp Kanske, Mathis Trautwein, Franca Parianen-Lesemann and Tania Singer.

Anne Böckler has been a junior professor at the University of Würzburg’s Institute of Psychology since October 2015. Previously, the post-doc had worked in the Department of Social Neurosciences at the Max Planck Institute of Human Cognitive and Brain Sciences in Leipzig where she conducted the study together with her co-workers. In the scientific journal Social Cognitive and Affective Neuroscience, the scientists present the results of their work.

“Successful social interaction is based on our ability to feel with others and to understand their thoughts and intentions,” Anne Böckler explains. She says that it had been unclear previously whether and to what extend these two skills were interrelated — that is whether people who empathise easily with others are also capable of grasping their thoughts and intentions. According to the junior professor, the scientists also looked into the question of whether the neuronal networks responsible for these abilities interact.

Answers can be gleaned from the study conducted by Anne Böckler, Philipp Kanske and their colleagues at the Max Planck Institute in Leipzig within the scope of a large-scale study led by Tania Singer which included some 200 participants. The study enabled the scientists to prove that people who tend to be empathic do not necessarily understand other people well at a cognitive level. Hence, social skills seem to be based on multiple abilities that are rather independent of one another.

The study also delivered new insight as to how the different networks in the brain are orchestrated, revealing that networks crucial for empathy and cognitive perspective-taking interact with one another. In highly emotional moments — for example when somebody talks about the death of a close person — activation of the insula, which forms part of the empathy-relevant network, can have an inhibiting effect in some people on brain areas important for taking someone else’s perspective. And this in turn can cause excessive empathy to impair social understanding.

The participants to the study watched a number of video sequences in which the narrator was more or less emotional. Afterwards, they had to rate how they felt and how much compassion they felt for the person in the film. Then they had to answer questions about the video — for example what the persons could have thought, known or intended. Having thus identified persons with a high level of empathy, the psychologists looked at their portion among the test participants who had had good or poor results in the test about cognitive perspective-taking — and vice versa.

Using functional magnetic resonance imaging, the scientists observed which areas of the brain where active at what time.

The authors believe that the results of this study are important both for neuroscience and clinical applications. For example, they suggest that training aimed at improving social skills, the willingness to empathise and the ability to understand others at the cognitive level and take their perspective should be promoted selectively and separately of one another. The group in the Department of Social Neurosciences in Leipzig is currently working on exactly this topic within the scope of the ReSource project, namely how to specifically train different social skills.


Journal Reference:

  1. Artyom Zinchenko, Philipp Kanske, Christian Obermeier, Erich Schröger, Sonja A. Kotz. Emotion and goal-directed behavior: ERP evidence on cognitive and emotional conflictSocial Cognitive and Affective Neuroscience, 2015; 10 (11): 1577 DOI: 10.1093/scan/nsv050