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Torcida única nos clássicos do Rio divide opiniões entre entidades e especialistas (O Globo)

Comandante do Gepe admite que comportamento das organizadas passou do tolerável

POR BERNARDO MELLO / TATIANA FURTADO

16/02/2017 12:25 / atualizado 16/02/2017 17:22

Torcedores socorrem um ferido no confronto entre organizadas de Flamengo e Botafogo – Marcelo Theobald / Agência O Globo

A ação civil pública, do Minstério Público Estadual (MPE), que pede torcida única nos clássicos cariocas ainda será apreciada pelo Juizado do Torcedor e Grandes Eventos. Porém, as autoridades envolvidas diretamente nos casos de brigas entre facções organizadas tendem a concordar com a proibição, ou alguma solução mais efetiva. O argumento voltou à tona após os episódios de violência no confronto entre Botafogo e Flamengo, no último domingo, no Engenhão, que terminaram com a morte de um torcedor e deixaram oito feridos.

A decisão será do juiz Guilherme Schilling, que assumiu o Juizado do Torcedor e Grandes Eventos, este mês. O ex ocupante do cargo, o juiz Marcelo Rubioli, agora no Tribunal de Justiça do Rio, considera que esse pode ser o primeiro degrau para se chegar a um modelo mais seguro para os torcedores.

– Acho que é um caminho. O próximo, talvez, seja inserir os espetáculos esportivos no planjemanto das forças armadas, que estão em caráter excepcional no Rio até o fim do Carnaval. A possibilidade de jogo com portões fechados não é viável do ponto de vista dos clubes. Mas estamos tratando do Estatuto, que prevê a proteção dos torcedores – sugere Rubioli, acrescentando que o interior dos estádios não tem tido problemas graves de segurança, salvo o caso recente do jogo entre Flamengo e Corinthians, no Maracanã. – Hoje, o estádio é um local seguro. No caso de torcida única em clássicos, não haveria aglomeração daquela que não vai entrar nas proximidades. Não tem como garantir qual medida vai ser mais eficaz.

Comandante do Grupamento Especial de Policiamente em Estádios (Gepe), o Major Silvio Luís, informou que vai conversar com o MPE e o Juizado para saber detalhes do pedido, antes de emitir uma opinião sobre o assunto. Porém, o responsável pelo policiamento nos estádios e acompanhamento das organizadas em dias de jogo, ressalta que, diante do comportamento das torcidas, algo precisa ser feito.

– Preciso avaliar o que estão propondo, mas o que posso dizer é que o comportamento das torcidas já passou do tolerável – afirmou o Major, destacando que os clássicos do Rio só não são com torcida dividida igualmente quando a configuração do estádio não permite. – Já tivemos casos assim em São Januário e na Arena da Ilha, onde os visitantes só podem receber 10% dos ingressos.

QUESTÃO ALÉM DOS ESTÁDIOS

As evidências, contudo, apontam que o problema vai além dos estádios. Antes do caso no Engenhão, a última briga de grandes proporções entre torcedores de Flamengo e Botafogo havia acontecido em julho de 2016, terminando com um morto. O conflito ocorreu em Bento Ribeiro, bairro da Zona Norte localizado a mais de 20 km do Estádio Luso-Brasileiro, onde os times se enfrentavam naquele dia.

Para o antropólogo Renzo Taddei, professor da Unifesp e autor de pesquisas sobre torcidas organizadas no futebol, o problema principal não é sequer a falta de policiamento, seja dentro ou fora de estádios. Na avaliação do especialista, torcedores e polícia desenvolveram, ao longo de décadas, uma relação turbulenta que tem questões sociais como pano de fundo:

– Não é à toa que a maior parte da violência a que uma torcida é submetida ou se submete em sua existência são conflitos contra a polícia, e não contra alguma torcida inimiga. O Estado impõe a segmentos inteiros da população um código de comunicação onde não há palavras, apenas brutalidade – avalia.

Torcedores exibem bandeirão pedindo a paz nos estádios em clássico entre Botafogo x Flamengo, marcado por cenas de violência no Engenhão – Marcelo Theobald / Agência O Globo

Taddei argumenta que o distanciamento entre torcidas organizadas e o restante da sociedade tende, na verdade, a acentuar a presença de membros que infringem a lei. Na opinião do antropólogo, lidar com a questão da violência no futebol depende de mais diálogo.

– Se houvesse uma interlocução saudável entre as comunidades das torcidas e o poder público, a mídia e a sociedade em geral, essas situações seriam mais fáceis de serem evitadas. O que eu estou dizendo é que muito menos do que 1% dos integrantes das torcidas causam problemas. Veja só: os Gaviões da Fiel tem cerca de 25 mil associados; as torcidas do Flamengo são também imensas. E qual o saldo do problema com as torcidas? Em 2016 foram 9 mortos em estádios. É muito mais perigoso andar de bicicleta do que ir ao estádio.

PROCURADOR VAI CONTESTAR NA JUSTIÇA

Segundo o blog Gente Boa, a Procuradoria Geral do Estado vai contestar na Justiça o pedido do Ministério Público para que os clássicos do Rio tenham torcida única nos estádios.

– É uma medida inadequada – diz o procurador-geral do Estado, Leonardo Espíndola – O Fla-Flu, por exemplo, é um patrimônio nacional que não pode ser banido por conta da ação de vândalos.

O Botafogo, por meio de nota da assessoria de imprensa, elogiou o trabalho do Gepe, mas se mostrou aberto a experiências que possam tornar os estádios mais seguros.

“Apesar de considerar que no último domingo houve um ponto fora da curva, pois o Gepe sabe fazer escolta, chegada e saída de organizadas, o Botafogo é favorável a experiências no sentido de melhorar as condições de segurança do futebol. Esse tipo de experiência, de torcida única, já deu certo em outros estados. O que o Botafogo não considera simples é ter a responsabilidade de cadastramento de membros de organizadas. É uma premissa quase impossível, porque os clubes não têm poder de fichar torcedores nem tem como controlar acesso a um local. Para o poder público, pode ser mais viável. Se for a decisão dos órgãos competentes, o Botafogo estará pronto para colaborar”, diz a nota.

Já o Flamengo, através de seu presidente Eduardo Bandeira de Mello, disse ser “totalmente contra” a torcida única em clássicos. O Fluminense, por sua vez, mostrou preocupação de que a medida acabe adotada de forma definitiva.

Além do veto à divisão das arquibancadas em clássicos, o promotor Rodrigo Terra também pede aos clubes que “se abstenham de fornecer gratuitamente ingressos às suas torcidas organizadas”. O Botafogo garante que não distribui bilhetes para as organizadas.

Veja também

Leia mais sobre esse assunto em  http://oglobo.globo.com/esportes/torcida-unica-nos-classicos-do-rio-divide-opinioes-entre-entidades-especialistas-20936250#ixzz4Z4rXMmZ1
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Provas #8.754.392.312 e #8.754.392.313 de que o Brasil Odeia Ciência (Meio Bit)

Postado Por  em 12 08 2016

365156

O brasileiro tem um problema sério com ciência. Ele acha que não precisamos dela. Temos basicamente zero programas sobre ciência na TV aberta, versus centenas de horas semanais de programas religiosos. Todo fim de ano canais abrem espaço para videntes e suas previsões para o ano novo, apenas para misteriosamente esquecer de todas as previsões erradas feitas pelas mesmas pessoas no ano anterior.

O Fantástico dedica 95% do tempo de uma reportagem sobre uma pirâmide idiota flutuando por causa de uns imãs, e 5% com cientistas explicando o truque óbvio. Nos comentários do MeioBit? Vários DEFENDENDO a matéria.

Um tempo atrás o Romário apresentou um Projeto de Lei para desburocratizar a importação de material científico como reagentes, que ficam tanto tempo na aduana que acabam estragando. Teve gente que escreveu cartas pra jornal reclamando, dizendo que não se deve investir em ciência, “e sim em saúde e educação”. No final o projeto foi arquivado.

Estatisticamente as chances de achar um astrólogo em um programa desses de entrevistas tipo Fátima são imensas, tanto quanto são ínfimas as de achar um cientista, sendo que o cientista sempre terá um pastor ou pai de santo como “contraponto”.

No Brasil a profissão de BENZEDEIRA é reconhecida pelo governo e tratada como “patrimônio cultural”. Sendo que a diferença entre benzedeiras e charlatões é que elas rezam antes de cobrar.  Agora, como cereja do bolo de bosta, temos isto:

ufeiro

Isso mesmo. Segundo o G1 o excelentíssimo sr deputado Edmir Chedid, do DEM apresentou uma moção propondo o reconhecimento da profissão de ufeiro, que iria garantir direitos aos ufeiros. Ele diz que

reconhecer a atividade científica que busca entender esses fenômenos, possibilitando financiamentos e linhas de pesquisa destinadas a esse fim junto à Universidades e outras instituições públicas ou privadas”.

Ancient-aliens-guy

Não é surpresa que o Google desconheça projetos do deputado relacionados com ciência de verdade. Ele pelo visto passa boa parte do tempo assistindo History Channel, mas os programas errados. E não, não estou exagerado. Ainda o Deputado:

“os contatos ufológicos acontecem desde os mais remotos tempos da humanidade”. “Há muito tempo atrás, acreditavam que os tais seres ou mesmo suas manifestações eram de origem quase divina, onde estes mesmo seres eram os nossos ‘salvadores’, nossos mediadores entre a ignorância e a sabedoria, para viver uma vida digna e feliz.”

Ele quer gastar dinheiro público com “pesquisadores” dessa bobagem que é basicamente uma seita, e preenche todos os requisitos de pseudociência: é quase 100% baseado em informação anedótica, não é reproduzível, não traz justificativas das hipóteses, etc, etc, etc.

Enquanto isso a FAPESP — Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo teve reduzidos em R$ 17 milhões seus repasses para Mestrados e Doutorados, nos últimos 4 anos. Assim não sobra nem pros ufeiros, deputado. O que o senhor tem feito para ajudar a FAPESP? É, eu imaginava.

Acha que acabou? Temos aquele “fenômeno”, aquele grupo picareta chamado Fundação Cacique Cobra Coral, que diz “controlar o tempo” e abusam da credulidade dos retardados, incluindo aí a Prefeitura do Rio que por anos contratou os caras para garantir bom tempo no Réveillon. A taxa de acerto deles? Eu diria que no máximo 50%. A mesma da minha Pedra Controladora do Clima que tenho aqui na minha mesa.

Pior: como todo “místico” no Brasil essa gente é incensada pela mídia, até o Marcelo Tas, que eu julgava inteligente enche a bola dos caras.

Estamos em 2016, imagina-se que gente prometendo controlar o clima através de magia seria no mínimo alvo de risada, certo? Errado. ALGUÉM pagou pra esses espertos irem na Olimpíada de Londres, onde juraram que foram os responsáveis pela pouca chuva na Abertura, e tinham até credencial para um evento com a Dilma. E agora temos… isto:

cacique

Isso mesmo. O tempo está uma bosta, mas eles não falharam. Na matéria do Globo o porta-voz da Fundação diz que o foco deles era garantir o tempo bom na abertura da Olimpíada. Então tá.

Que o clima já estivesse previsto por ciência de verdade, é apenas um detalhe.

O mais triste disso tudo é que todo mundo que promove divulga e protege pseudociência e misticismo faz uso dos benefícios da ciência que diz não “acreditar”. Se ciência é tão ruim assim, incluindo a malvada “alopatia” que tal parar de vacinar suas crianças, rasgar o cartão do pediatra, jogar fora a Insulina e o Isordil e se tratar com chazinhos e homeopatia? GPS? Coisa do capeta, use uma varinha de radbomancia para se achar. Tem uma plantação? Contrate a Cacique Cobra Coral, e não acesse mais as previsões do INPE.

A reserva genética da Humanidade agradecerá.

Governo paga a Cacique Cobra Coral para não chover na Olimpíada, mas se deu mal (Blasting News)

Entidade disse a jornal que não falhou ao tentar prevenir jogos de mau tempo.

Nem mesmo entidade de índio salva Olimpíada da chuva

Nem mesmo entidade de índio salva Olimpíada da chuva 

O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, do PMDB, está tendo um problemão para gerenciar em sua cidade em plena Olimpíada. Desde que os jogos começaram, o município conhecido por ser quente e ensolarado foi assolado pelo frio e ventos. Muitas competições tiveram que ser adiadas, como sessões de tênis e regatas na Lagoa Rodrigues de Freitas. E olha que o #Governo tem uma parceria sobrenatural com a Fundação Cacique Cobra Coral. Há relatos na mídia de que a instituição ganha uma quantia para prevenir a cidade da virada do tempo em grandes eventos. Pelo jeito, a atuação dessa vez não está funcionando. A fundação nega e diz que tudo não poderia estar melhor no Rio.

Os cariocas trocaram os biquínis por casacos e as ressacas já atingem a principal praia da cidade, Copacabana, na Zona Sul do #Rio de Janeiro. Os integrantes da fundação garantem que conseguem incorporar um espírito de um índio do mesmo nome da entidade, que faz com que tragédias climáticas fiquem além da Baía de Guanabara. A crença na entidade fez com que representantes da Cobra Coral fossem à outra Olimpíada. No ano de 2012, por exemplo, eles podiam ser vistos andando por áreas destinadas a governantes, tendo contato até mesmo com o Comitê da hoje presidente afastada Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores (PT).

Em entrevista ao jornal ‘O Globo’ publicada nesta sexta-feira, 12, a médium Adelaide Scritori, que diz que incorpora o espírito do índio poderoso, disse que a principal função foi fazer com que não chovesse na cerimônia de abertura e que as regatas na Baía de Guanabara ocorressem sem lixo. De fato, a abertura dos jogos do Rio de Janeiro aconteceu sem nenhum problema climático. O tempo virou três dias depois e desde então não foi mais controlado. Rajadas de vento chegaram a destruir lonas de estádios e derrubar grades do parque olímpico. As ondas ficaram tão altas que quase invadiram o Centro de Imprensa montado na Zona Sul da Cidade.

O grupo não confirma se realmente recebeu dinheiro da prefeitura e quanto teria recebido.  #Rio2016

Ouvir o cacique (O Globo)

POR JORGE BASTOS MORENO

12/03/2010 10:14

LUIZ GARCIA

É muito simples entender o que é a Fundação Cacique Cobra Coral. Trata-se de organização que se declara beneficente — e não há qualquer prova em contrário — que se atribuiu a missão de “minimizar catástrofes” avisando as autoridades com antecedência. Claro, entender é uma coisa, acreditar é outra. Mas também não falta quem acredite, e, parece, com boas razões.

A fundação foi criada por um certo Angelo Scritori, que morreu em 2002, com alegados 104 anos. Ele recebia os avisos da iminência de desastres naturais do Padre Cícero. Pouco antes de morrer, avisou à praça que seria sucedido pela filha, Adelaide, cujo contato com o outro lado passaria a ser o Cacique Cobra Coral.

Este se comunica com ela falando com sotaque de caboclo brasileiro, embora seja um índio americano Ao avisar sobre a substituição, Padre Cícero informou que o cacique também teria sido, em outras encarnações (se essa é a palavra certa, tratando-se de um espírito), Abraham Lincoln e Galileu Galilei. O leitor não deve ver esse dado com estranheza — até mesmo porque, se é cidadão de pouca fé, francamente, não tem qualquer razão para continuar lendo este artigo.

Mas parece que gente de muita fé não falta. O governo de São Paulo, por exemplo, tem contrato — sem valor financeiro — com a fundação desde 2005. Recebe aviso sobre catástrofes naturais a caminho, com tempo de tomar providências. Se as toma, não se sabe, mas isso não é problema para d. Adelaide.

Ela é bem-sucedida corretora de imóveis, moradora na região próspera dos Jardins de São Paulo. Há algum tempo, definiu com clareza o seu próprio papel como anunciadora de catástrofes: “Funcionamos como uma espécie de air bag. Reduzimos os danos, mas as autoridades têm de fazer a parte delas. O cacique não pode servir de muleta para os homens.”

Talvez como prova disso, a fundação já teve convênio com a Prefeitura de São Paulo, mas o rompeu na gestão do prefeito Gilberto Kassab, porque ele acabara com uma verba destinada a combater causas de desastres climáticos.

Seja como for, o prestígio da Cobra Coral vai além de São Paulo. Em novembro de 2008, a Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado aprovou um convite a Adelaide para ir até lá discutir o apagão em 18 estados. Não sei se chegou a ir, não me lembro de notícia disso, mas o convite existiu.

Aqui no Rio, a fundação está discutindo com a Prefeitura a renovação de um convênio — que não envolve qualquer pagamento — pelo qual a fundação profetiza tempestades e assim ajuda a diminuir os seus efeitos. Sendo de graça, por que não ouvir o cacique?

Texto publicado no Globo de hoje.

Entrevista exclusiva com a médium que incorpora o Cacique Cobra Coral: ‘Trabalho com a reza e a mente’ (O Globo)

POR CLEO GUIMARÃES

24/09/2015 11:40

Adelaide ScritoriAdelaide Scritori | Reprodução

Contratada desde 1984 pela prefeitura e pelo governo do Rio para controlar o clima e evitar tragédias naturais, Adelaide Scritori, a médium que incorporaria o Cacique Cobra Coral tem trabalhado bastante neste Rock in Rio. Embora a previsão para domingo seja de chuva, ela é categórica: “Na Cidade do Rock não vai chover”, diz. Adelaide conversou com a coluna.

Como a senhora descobriu que teria o poder de controlar as condições climáticas?

Quando nasci, no Paraná, meu pai disse que o espírito de Padre Cícero havia se manifestado e avisou que a mais nova integrante da família teria poderes para se comunicar com outro espírito, um ente poderoso o suficiente para alterar fenômenos naturais. Aos sete anos, recebi num centro espírita as primeiras mensagens do Cacique Cobra Coral.

Como faz para alterar os fenômenos naturais? Há algum ritual?

Com reza e usando a mente. No ar, na terra ou no mar. Minhas operações são guiadas pela emoção e pela fé. Cada caso é um caso, como no fim de semana passado, na City do Roque (sic), no Rock in Rio. Ficou muito calor, então efetuei um trabalho de redução das temperaturas, especialmente na Zona Oeste do Rio.

A senhora diz que não cobra pelo trabalho. Como se mantém?

A Fundação Cacique Cobra Coral realmente não tem fins lucrativos. Vivo para a Fundação, e não da Fundação.

FCCC_OGlobo_Nåø vai chover_eu garanto_RockinRio2015

TWITTER: Fundação Cacique Cobra Coral não vai intervir para parar de chover (O Globo)

TWITTER: Fundação Cacique Cobra Coral não vai intervir para parar de chover. http://bit.ly/1Ajje8H 

RETWEETS 152

CURTIRAM 71

16:03 – 15 de fev de 2015

Ver Também

O Globo_Rio

@OGlobo_Rio 2 dia s

A Fundação Cacique Cobra Coral informou que não vai intervir na chuva da Sapucaí, pois a prioridade é encher os reservatórios. #CarnavalRJ

Reinaldo Azevedo

@reinaldoazevedo 1 week

Risco de falta de energia é muito grande. Dilma tem de nomear Cacique Cobra Coral como Ministro da Chuva http://t.co/JuBGt7JvF3

Jornal O Globo

@JornalOGlobo 1 month

Não está fácil: Fundação Cacique Cobra Coral vai deixar o Brasil. http://t.co/INPQir2pDa http://t.co/gBFPaLJBGO

Jornal O Globo

@JornalOGlobo 1 month

Lá vem tempestade: Fundação Cacique Cobra Coral vai deixar o Brasil. http://t.co/CeIF1ujKrx http://t.co/Y0rs0tFlNx

O Globo_Rio

@OGlobo_Rio 1 week

Médium da Fundação Cacique Cobra Coral sofre acidente de carro

http://t.co/USYbxCibj7

Pedro Neschling

@pedroneschling 3 months

O nome disso é desespero, amigs // RT @VejaSP: Pela primeira vez, Alckmin apela para Fundação Cacique Cobra Coral.

Pedro Neschling

@pedroneschling 3 months

Cheguei em São Paulo, choveu 2 dias. Call me Cacique Cobra Coral, bitch.

Aconselhado por espírito indígena, Pezão garante que choverá no Rio (Época)

Relatório do Cacique Cobra Coral, enviado ao governador do Rio, garante normalização dos reservatórios do Rio até maio; presidente Dilma já foi informada

CRISTINA GRILLO
13/02/2015 19h11 – Atualizado em 13/02/2015 20h35

Governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão (Foto: Pedro Farina)

Governador do Rio de Janeiro Luiz Fernando Pezão (Foto: Pedro Farina)

Celebrai, povo fluminense: vem água por aí. Abram as torneiras, durmam no chuveiro e caprichem no banho do carro. Está liberado até encher a piscina de plástico azul das crianças. Basta comungar da mesma confiança que o governador do Rio, Luiz Fernando Pezão. Ele assegura à ÉPOCA, com tranquilidade budista, que racionamento e rodízio são palavras do passado. Cálculos de volume morto e obras na rede de águas são coisas de políticos sem fé. A convicção de Pezão é transcendental: vem dos céus – embora não de São Pedro. Choverá, ora, porque a médium Adelaide Scritori, a pedido de Pezão, consultou o espírito do Cacique Cobra Coral – e o Cacique mandou dizer que a água não tarda e chegará abundante. Quem é Pezão para discutir com o espírito do Cacique?

O último relato do Cacique veio por email – não do além, mas por meio de Adelaide. No documento, enviado no dia 28 de janeiro, garante-se  que “tudo o que faltou em dezembro e janeiro virá em fevereiro, março e abril”. O email, que afastou da cabeça do governador qualquer ideia de racionamento, foi repassado em seguida, como de costume, a Dilma Rousseff. “A presidente se diverte com os emails do cacique. Riu muito de um que afirmava que o culpado da crise hídrica e energética era o Lobão [Edison Lobão, ex-ministro de Minas e Energia]”, disse Pezão à ÉPOCA em seu gabinete, no Palácio Guanabara. Dilma riu, mas Pezão leva os conselhos do Cacique a sério.

Fundação Cacique Cobra Coral (Foto: reprodução)

Imagem do site da Fundação Cacique Cobra Coral (Foto: reprodução)

A médium Adelaide lidera a Fundação Cacique Cobra Coral. Ela afirma incorporar o espírito do Cacique – um meteorologista sobrenatural, com capacidade para segurar uma tempestade aqui, mandar uma chuvinha lá e, graças a esse dom, fazer com que prefeituras e governos contratem a instituição para garantir seus serviços. No relatório que Pezão encaminhou a Dilma há, no entanto, um alerta para a possibilidade de temporais no Rio. Até junho, diz o Cacique, há o risco de chover, em apenas um dia, a quantidade esperada para um mês inteiro. “É preciso ficar alerta para o excesso de precipitação numa mesma localidade, como a zona norte”, avisa a entidade. Preparem a arca de Noé.

Pezão recebe com regularidade os informes que o espírito do Cacique envia à Prefeitura do Rio – o governo do Estado, afirma, não tem contrato com a fundação; a prefeitura, sim. Mas a relação de Pezão com o Cacique é antiga. Vem desde 1997, quando Pezão era prefeito de Piraí, município a 90 quilômetros da capital. “Eu sempre gostei de fazer festas na rua e conversava com eles para ter tempo bom. Chegava o dia da festa, chovia em todos os municípios vizinhos, e Piraí ficava sequinha, sequinha”, contou o governador. Com a prefeitura do Rio, os acordos da entidade mediúnica vêm dos tempos em que Cesar Maia era prefeito, no início de 2001. Eduardo Paes ameaçou romper com a fundação quando tomou posse em seu primeiro mandato, em 2009. Mas as previsões de temporais na noite do réveillon o fizeram rever a decisão. Não choveu e, desde então, além de satélites e outros instrumentos de alta tecnologia, o Rio conta com a expertise do cacique para ajudar nas previsões meteorológicas.

Mesmo sem contrato com o governo do Estado, a Fundação Cacique Cobra Coral parece estar se esforçando para garantir a normalização dos reservatórios. No domingo, dia 8, a médium Adelaide sofreu um acidente de carro na cidade de Paraibuna, em São Paulo. Ela vinha de Minas para o Rio de Janeiro, acompanhando o curso do rio Paraíba do Sul para avaliar, in loco, o nível dos reservatórios. O carro onde estava capotou três vezes e caiu no rio. Adelaide só teve escoriações leves. “Ela estava vendo tudo para informar ao cacique”, disse Pezão, que conecta seu celular para mostrar algumas fotos do acidente. Cair no rio não seria um mau sinal? “Não! Já está tudo certo, vai voltar a chover”, afirmou o confiante governador.

Das amplas janelas do gabinete de Pezão vê-se o jardim, espetacular, reformulado pelo paisagista francês Paul Villon no início do século XX. No meio do jardim, o chafariz de Netuno jorra, voluptuoso, litros e mais litros de água. “Mas é água de reuso”, apressa-se o governador a explicar, ao ouvir a pergunta sobre o desperdício –mesmo com toda a garantia dada pelo cacique de que o Rio está livre de problemas. Mas, pelo sim, pelo não, no dia seguinte o chafariz estava desligado.

Memes ironizam previsão de temporal no Rio nesta quinta-feira (G1)

05/02/2015 17h15 – Atualizado em 05/02/2015 21h53

‘Ciclone In Rio’ e ‘Chuva no Rio #VemGente’ foram criados no Facebook.
Prefeitura montou esquema especial para enfrentar chuva que estava prevista.

Do G1 Rio

Memes da chuva no Rio (Foto: Reprodução de internet)

No Facebook, um evento simulanto o Rock In Rio, com o tema ‘Ciclone in Rio, Eu Fui’ também foi criado (Foto: Reprodução de internet)

A forte chuva que foi prevista por meteorologistas para cair na tarde desta quinta-feira (5) deixou muitos cariocas em alerta. A ausência de um grande temporal até as 20h, no entanto, inspirou os internautas que, desde a manhã, encheram as redes sociais de memes relacionados aos transtornos que seriam causados pela chuva.

No Facebook, pelo menos dois eventos foram criados. O “Ciclone In Rio” e o “Chuva no Rio #VemGente”. Na internet, também circulam fotos com a modelo Nana Gouveia posando perto de pessoas que, em outras situações, se refugiaram da chuva.

No Twitter, o personagem fictício Dilma Bolada, uma sátira da presidente, disse que decidiu mandar a chuva para Brasília. “Mandei desviar o ciclone do Rio de Janeiro para o Congresso Nacional. A cidade maravilhosa não merece uma coisa dessas!”. Na mesma rede social, internautas fazem diversas ironias como: “O governador Pezão acabou de anunciar que a chuva no Rio foi cancelada por questões de falta de água”.

No Twitter, internautas ironizam a chuva (Foto: Reprodução/Twitter)

No Twitter, internautas ironizam a chuva (Foto: Reprodução/Twitter)

Alerta pela manhã
Pela manhã, a Prefeitura do Rio apresentou um esquema especial elaborado por diversos órgãos do município para enfrentar a chuva. Cerca de 3,2 mil agentes foram mobilizados no esquema.

A cidade entrou em estágio de atenção às 6h50, afirmou o prefeito Eduardo Paes durante uma coletiva de imprensa no Centro de Operações Rio, no Centro. O estágio de atenção é o segundo nível em uma escala de três e significa a possibilidade de chuva moderada, ocasionalmente forte.

Chuva no Rio 3 (Foto: Reprodução/Twitter)

Chuva no Rio 6 (Foto: Reprodução/Twitter)

 

Chuva no Rio 8 (Foto: Reprodução/Twitter)

Chuva no Rio (Foto: Reprodução/Twitter)

Chuva no Rio 15 (Foto: Reprodução/Twitter)

Chuva no Rio 7 (Foto: Reprodução/Twitter)

Memes da chuva no Rio (Foto: Reprodução de internet)

Meme brinca com o Cristo Redentor (Foto: Reprodução / Twitter)

Meme brinca com o Cristo Redentor (Foto: Reprodução / Twitter)

Brincadeiras como ator Tony Tornado (Foto: Reprodução/Facebook)

Brincadeiras como ator Tony Tornado (Foto: Reprodução/Facebook)

Diversos memes se espalharam pela web por conta da chuva (Foto: Reprodução/Facebook)

Diversos memes se espalharam pela web por conta da chuva (Foto: Reprodução/Facebook)

Memes da chuva no Rio (Foto: Reprodução de internet)

A modelo Nana Gouveia não escapou das piadas na internet em memes sobre a chuva no Rio (Foto: Reprodução de internet)

Prefeito do Rio diz que foi zombado até pelos filhos após previsão falhar (G1)

06/02/2015 10h22 – Atualizado em 06/02/2015 17h34

Eduardo Paes diz que procedimento para chuva forte será padrão. Piscinões para conter alagamento na Praça da Bandeira serão inaugurados.

Henrique Coelho Do G1 Rio

Prefeito Eduardo Paes garantiu que procedimento contra chuvas fortes se tornará padrão na cidade. (Foto: Henrique Coelho / G1)

Prefeito Eduardo Paes garantiu que procedimento contra chuvas fortes se tornará padrão na cidade. (Foto: Henrique Coelho / G1)

Mesmo após uma chuva menos intensa que o previsto nesta quinta-feira (5), a Prefeitura do Rio  afirmou que vai continuar adotando os mesmos procedimentos com a previsão de uma chuva e ventos fortes.

“As pessoas sempre pedem planejamento, e ainda bem que não aconteceu nada. Mas vamos continuar fazendo isso porque não podemos deixar de dividir as informações que temos com a população”, disse o prefeito Eduardo Paes, que levou na esportiva as brincadeiras publicadas em redes sociais após as chuvas. “Até meus filhos zombaram de mim hoje de manhã, mas eu entendo. Não tenho vocação para Cacique Cobra Coral”, brincou.

Nesta quinta-feira, a Prefeitura do Rio apresentou um esquema especial elaborado por diversos órgãos do município para enfrentar a situação. Cerca de 3,2 mil agentes foram mobilizados no esquema.

“Vamos continuar com o mesmo esquema, com homens da Comlurb, da Guarda municipal, Cet-Rio”, afirmou, acrescentando que quatro novos piscinões na área da Praça da Bandeira, um dos principais pontos de alagamento da cidade, serão inaugurados neste sábado (7).  “Não levamos a sério algumas coisas no passado, e agora vamos ficar sempre atentos”.

Paes criticou ainda o fato de algumas empresas liberarem seus funcionários mais cedo devido à ameaça de chuva forte. “O dia que for para sair mais cedo, nós vamos avisar”, disparou.

Em sua página pessoal no Facebook, Eduardo Paes reiterou que a prefeitura irá manter os alertas quando houver previsão de temporal. No texto, além de comentar o deboche dos próprios filhos, ele falou da seriedade ao tratar da possibilidade de chuva forte na capital.

“A gente já viu muito drama nesta cidade em razão das chuvas, muita gente morrendo e perdendo o seu patrimônio. O que tenho que afirmar é que isso deve passar a ser algo costumeiro na vida da gente. Toda vez que a gente der um alerta desse, as pessoas devem ficar atentas, como pedi ontem”, registrou o prefeito.

saiba mais

Acordo entre governadores autoriza transposição do Rio Paraíba do Sul (Diário do Vale)

Publicado em 27/11/2014, às 15h50
Última atualização em 27/11/2014, às 15h50
Divulgação Governo do Estado
Governadores concordaram que só serão feitas obras com a permissão dos três estados
Acordo: : Governadores concordaram que só serão feitas obras com a permissão dos três estados

Brasília

Os governadores do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB), de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), e de Minas Gerias, Alberto Pinto Coelho (interino) firmaram, durante reunião em Brasília realizada na manhã de ontem, um acordo para realizar a transposição do Rio Paraíba do Sul. As licitações para as obras estão liberadas e podem começar a qualquer momento. O encontro foi convocado pelo ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal (STF), que atuou como mediador.

Para chegar a esse acordo, os três governadores concordaram que só serão permitidas obras das quais os três Estados concordem. Além disso, eles se comprometeram em respeitar, nas obras, estudos de impactos ambiental e  realizar ações de compensação ao meio ambiente, como a recuperação de matas ciliares, por exemplo.

O advogado geral da União, Luís Inácio Adams, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, também participaram da reunião. Todos se comprometeram em entregar a Fux, no dia 28 de fevereiro, um documento com os termos do acordo. Com isso, todas as ações judiciais que tratam do tema serão extintas. O ministro elogiou o acordo firmado entre as partes e disse que todos cederam.

– Os estados manifestaram interesse mútuo em se ajudar. Uma ação jurídica jamais chegaria à solução que conseguimos hoje. Com isso, será feito um acordo técnico, que já está bastante adiantado, buscando uma solução conjunta para a questão. Com o cumprimento das normas estabelecidas no acordo, serão extintas as ações no Ministério Público sobre o tema – disse Fux.

Sem problemas

Após a reunião, os três governadores deram entrevistas dizendo que todos os Estados vão ganhar com o acordo. Por sua vez, Pezão e Coelho, fizeram questão de tranquilizar a população dos seus Estados afirmando que ficará garantido o volume de água para uso futuro de seus moradores. O governador do Rio de Janeiro ainda ressaltou que o acordo será focado na preservação ambiental.

– Falta pouco para fecharmos esse acordo. Está previsto um grande programa de reflorestamento, de tratamento do esgoto da Baixada Fluminense e de municípios como Resende e Barra Mansa. As equipes técnicas que cuidarão disso já estão fechadas, sob o comando do Ministério do Meio Ambiente. É muito importante a solidariedade dos três entes federativos. A população dos três estados vai ganhar com isso – explicou Pezão.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, exaltou a parceria entre os estados.

– Vamos nos debruçar sobre isso. Estamos confiantes em poder garantir a vazão no Rio de Janeiro e fazer a interligação em São Paulo. A participação de Minas Gerais também será importantíssima – disse Alckmin.

Entenda o caso

No início da crise hídrica deste ano, o governo de São Paulo anunciou que faria uma obra para transpor água do Rio Jaguari, de São Paulo, para as represas do sistema Cantareira, que opera com 9,1% de sua capacidade. Os Estados do Rio e de Minas reclamaram da decisão porque a água do Jaguari está em São Paulo, mas abastece o Rio Paraíba do Sul, usado por parte de São Paulo e pelos outros dois Estados. O governo de São Paulo alegava que tinha direito a fazer a obra pelo rio estar em seu Estado.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, entrou então com uma ação no STF para barrar a decisão de São Paulo. O ministro responsável pela ação, Luiz Fux, convocou uma audiência de conciliação nesta quinta-feira com a presença dos governadores dos três Estados, Geraldo Alckmin (SP), Luiz Fernando Pezão (RJ) e Alberto Pinto Coelho (MG), além de representantes do governo federal.

Leia mais:  http://www.diariodovale.com.br/noticias/2,97610,Acordo-entre-governadores-autoriza-transposicao-do-Rio-Paraiba-do-Sul.html#ixzz3KOgUQ000

Fundação Cacique Cobra Coral no Youtube – 1 de setembro de 2014

Cesar Maia – FCCC – Prefeito do Rio de Janeiro dá seu Testemunho – Força da Mente

 

Globo Repórter/World Trade Center

 

Dâniel Fraga: Eduardo Paes e José Serra acreditam que “reza” evitará chuvas

 

Prefeito do Rio, contrata, adivinhos, espiritas do demonio cobra coral

 

Maldição no Rio, Sob o governo de Eduardo Paes

‘Pedagogia do terror’: testemunho de um ex-preso político da democracia (EPSJV Fiocruz)

Novembro 2013

Paulo BrunoEle foi um dos presos políticos da atual democracia brasileira. Participando de uma manifestação organizada pelos professores municipais e estaduais do Rio de Janeiro, que estavam em greve, Paulo Roberto de Abreu Bruno, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP), da Fundação Oswaldo Cruz, foi detido junto com dezenas de outras pessoas no dia 15 de outubro. Acusado sem provas e sem direito à informação ou à presença de advogados, foi encaminhado para a delegacia e, na sequência, para dois presídios, incluindo Bangu 9. Segundo ele, circulou pelos “porões da democracia brasileira”. Desde o início de junho, Paulo Bruno vinha filmando as manifestações que tomaram as ruas do Rio de Janeiro como parte do seu trabalho de pesquisa. Levou algum tempo para que conseguisse falar sobre o assunto, mas nesta entrevista ele narra as humilhações e violências sofridas pelos presos políticos, descreve a rotina de violação de direitos do sistema carcerário brasileiro, destaca a solidariedade dos presos comuns e chama a atenção para a fragilidade das lutas políticas diante do terror que o Estado, representado no caso pelo governo estadual, pode provocar. Como, na prisão, não tiveram acesso sequer a papel e caneta, os registros que se seguem ficaram registrados, até então, apenas na memória do entrevistado.

Você está sendo acusado de quais crimes?

Dano ao patrimônio, roubo, incêndio e organização criminosa. Eu fui preso por volta de 22h30 do dia 15/11 e, no entanto, no documento que assinei no IML constava como se eu tivesse quebrado alguma coisa, por volta das 18h nas proximidades da rua Evaristo da Veiga. Não há nada quebrado lá. Além disso, nesse horário estava a caminho da Avenida Presidente Vargas, depois de embarcar num trem do metrô na estação de Del Castilho, acompanhado de duas pessoas com as quais trabalho.

Vocês sabiam que estavam sendo presos, para onde estavam indo e por que?

Não. Estava na escadaria da Câmara dos Vereadores e o policial só me puxou. Eu tropecei na alça da mochila e minhas moedas se espalharam. Reclamei disso e, autorizado a recolhê-las, pude me recompor. No ônibus, outro policial mais novo, com pouco menos de 30 anos talvez, ficou perto da porta e mandou entrar. Nisso foram entrando pessoas. Na Evaristo da Veiga, próximo à avenida Rio Branco, alguns manifestantes ainda tentaram impedir que o ônibus saísse e os policiais que estavam em frente ao Municipal jogaram bomba de efeito moral para dispersá-los. O ônibus foi embora com uma escolta, vinham dois de moto — de negro também, acho que eram do choque —, com a arma apontada para a gente, dizendo para fechar a janela, xingando. Tentamos abrir a janela e um deles dizia: ‘fecha a janela senão jogo gás de pimenta em vocês’. Aí fechamos a janela. Até então o pessoal estava revoltado, ninguém tinha noção do que iria acontecer. Eu falava para ter calma, era o mais velho. A gente tinha que estar sempre calado e em nenhum momento falaram para onde iríamos. Na delegacia, permanecemos a maior parte do tempo no ônibus. Ficamos lá de molho até 12h30 do outro dia. Soubemos que duas pessoas que estavam na 25ª, se não me engano, ficaram em condições bem piores, num lugar alagado, com um banheiro. No nosso caso, ficamos em lugares da delegacia sentados ou de pé e depois retornamos para o ônibus. Recebemos orientação dos advogados que chegaram à 37ª DP algum tempo depois de só depormos em juízo. Passamos uma procuração para os advogados do DDH [Instituto de Defesa dos Direitos Humanos] e não depusemos.

Como foi a transferência para o presídio?

Pouco antes de 12h30 os carros começaram a se movimentar, vimos chegar aquele furgão usado pelo batalhão de choque, começaram a deslocar os carros em frente à delegacia, a gente previu que fosse acontecer alguma coisa. Imaginamos que iríamos ser transferidos, mas não sabíamos para onde porque não falaram. Alguns PMs começaram a ser mais irônicos e mais agressivos com palavras. Quando alguém pedia alguma coisa, respondiam de forma irônica. Sempre de forma intimidatória. Até que meio dia e pouco — imagino que nesse horário porque também não tínhamos relógio —, colocaram a gente na traseira desse furgão, que era dividido no meio, com dois bancos laterais. Ia uma pessoa em pé e outra sentada, algemadas. Eu não tinha noção de que algema era objeto de tortura, para mim, era só para segurar a mão do preso. Mas conforme você vai mexendo, ela vai apertando. Então, assim que o carro saiu, a algema encaixou no osso do meu pulso, causando uma sensação muito ruim, eu tentei mexer e percebi que ela apertou. Fomos para o IML [Instituto Médico Legal]. Nessa hora eu já não aguentava mais, pedi para tirarem e acabaram abrindo [a algema] lá. Mas isso nem contou lá no exame de corpo delito porque é uma coisa muito rápida, os caras não querem muita conversa. O tratamento que a gente recebeu em todo momento, a não ser em poucas ocasiões no interior da 37ª DP, era como se fôssemos criminosos. Dali saímos também sem que falassem nada. Nos algemaram de novo, colocaram no furgão e fomos para São Gonçalo, para o presídio Patrícia Accioly, no bairro Guaxindiba. Nas transferências, você é sempre humilhado, chamavam a gente de ‘black bosta’, criminosos, assassinos, vagabundos, vândalos etc. Na saída da 37ª, dois policiais nos chamaram de criminosos, falando que seríamos estuprados no presídio. Diziam que iríamos pagar por termos nos metido com policial, que tínhamos matado o amigo deles, incendiado o carro [da polícia]. Tentavam nos filmar com seus celulares. Quando chegou lá, em Guaxindiba, novamente um cardápio de ofensas e atos para nos amedrontar. Você entra, tira a roupa, fica de cócoras, levanta a sola do pé, mão, tudo para ver se está com algum objeto, e depois te encaminham nu para receber calção e camiseta. Para lá a gente foi com a roupa do corpo. Na delegacia da Ilha do Governador, deixamos as coisas com os advogados, porque tinham avisado que iríamos perder tudo no presídio. Primeiro ficamos acocorados num corredor dos presos de alta periculosidade (segundo eles próprios). A primeira pergunta de um desses presos foi se a gente tinha dinheiro. Todo mundo de mão para trás e cabeça para baixo, em pé ou sentado. Não demos ouvido. Começaram a perguntar o que a gente fez, mas ninguém respondeu. Por fim, ele perguntou se a gente estava em manifestação. O preso da frente falou ‘esse Cabral é um filho da puta, tem que sair!’ e o da cela de trás concordou: ‘É isso mesmo!’.
Dali fomos para uma cela num corredor e ficamos só nós, os presos políticos. Eram celas para seis pessoas, com três beliches de cimento. No canto, o banheiro, com um buraco no chão — um vaso sanitário, chamado de “boi” na linguagem da cadeia — e um chuveiro no alto, sem registro. A gente descobriu que a água era aberta duas vezes ao dia. Foi ato contínuo entrarmos na cela e todo mundo se apresentar. As pessoas não se conheciam. A sensação de solidariedade coletiva minimizava a apreensão causada nos deslocamentos (DP-IML-presídio). Entrar na cela naquela circunstância era como “chegar em casa”: enfim, apesar da falta de banho, teríamos a possibilidade de deitar e descansar.

Como foi a rotina dentro do presídio?

Inicialmente fomos informados sobre como funciona o sistema. Rasparam a nossa cabeça também antes de entrarmos na cela. Recebemos sabonete, escova de dente e creme dental. Toalha não! Os presos mais antigos e com bom comportamento fazem o serviço de cortar o cabelo, dar informes sobre o funcionamento, servir as refeições. Eram feitos três “conferes” ao dia: gritavam no corredor (Confere!), ou tocavam na grade e você teria que se posicionar (erguido, mãos para trás e olhar para o chão) para eles contarem. Tinha pão e café pela manhã, almoço, jantar e um copo de uma bebida que parecia guaravita. A gente foi se acostumando com a rotina. No primeiro dia, não chegou água. Chegamos ao presídio quatro horas da tarde talvez, estando desde o dia 15 sem tomar banho — já era dia 16 anoitecendo. Falaram que abririam a água por dez minutos. Nesse dia abriram a água devia ser 3h da manhã. Tinha muito mosquito nesse presídio. Já trabalhei na Amazônia, andei em várias aldeias, mas nunca vi coisa igual. Não dava para dormir. Eles deram um cobertor e a esperança era que o cobertor ajudasse. No meu caso, era velho e furado, então não adiantava porque os mosquitos entravam. Essa primeira noite foi sofrida. A gente meio que fica na expectativa de sair, mas já estava conversando e encarando a possibilidade de ficar mais tempo. As longas conversas entre o grupo que dividia a cela e a comunicação com outros presos políticos de outras celas serviram para nos mantermos num estado emocional equilibrado. Na segunda noite nesse presídio já havíamos aprendido a fazer incensos com papel higiênico, o que afastava os mosquitos, mas deixava a cela esfumaçada.

Vocês receberam a visita de alguém?

Primeiro, recebi visita dos advogados da Asfoc [Sindicato dos Trabalhadores da Fiocruz], Jorge da Hora e Fábio. Eles falaram da mobilização que era prevista para acontecer na Fiocruz e perguntaram sobre o meu estado. Receber notícias de fora do presídio causou um sentimento desconhecido. Não tinha a menor ideia do que poderia estar acontecendo do lado de fora. Era como se estivesse também com o pensamento aprisionado, apesar de consciente do que acontecia. Depois, na tarde do dia 17, chegaram os advogados do DDH junto com uma advogada ligada a uma ONG que trabalha com direitos humanos em presídios. O trabalho dela consiste em visitar todos os presídios do sistema do Rio de Janeiro e ver as condições dos presos. Acho que tinha alguém da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia [Legislativa]. Um pouco depois chegou o [deputado estadual] Marcelo Freixo. Fizemos duas reuniões num refeitório onde tivemos a primeira oportunidade de ver o conjunto dos presos. Dos 19 que éramos quando chegamos à 37ª delegacia, ali já éramos 62. Todo mundo se cumprimentava, apertando a mão. Recebemos uma carta de pessoas de fora. Foi um momento de muita emoção e houve um agradecimento a elas. Aquilo foi muito bom porque a gente estava isolado. É outro universo: no presídio você não tem essa dimensão do que acontece do lado de fora. É outro mundo. Tínhamos consciência de que éramos presos políticos. Foi nosso primeiro contato coletivo com o mundo. O Marcelo Freixo me pareceu muito abatido, falando que a situação era grave, que ele nunca tinha presenciado uma situação dessa no Rio de Janeiro. Comentou que se falava em colocar as forças de segurança nacional na rua e que o Beltrame chegou a aventar isso. E a imprensa estava jogando pesado na nossa criminalização.

E a transferência para Bangu 9?

Na madrugada do dia 17 para o 18, umas 3h30 da manhã, fomos acordados pelos caras batendo [na grade]. “Sai, sai. Deixa tudo!!!”, gritavam. E os meus óculos ficaram na cela. Foi o momento de maior tensão: escuro, aqueles caras enormes todos de preto, gritando muito. A sensação, pelo tratamento, era de que iriam executar a gente. Colocaram a gente num pátio externo, sempre gritando, humilhando, xingando. Eu não fui agredido, mas uma parte do grupo foi agredida com palmatória. Eles queriam que o pessoal dissesse por que o estuprador da Rocinha estava com a orelha cortada e o rosto queimado. Tinha três presos comuns com a gente, um deles era esse estuprador e alguém queimou o cara, só que ele não dividiu cela com a gente em nenhum momento. Mas os caras queriam que a gente dissesse quem foi. Isso eu ouvi do lado de fora de um portão grande de ferro. Fui colocado para fora com outro grupo, de cabeça baixa. Chovera e o chão estava molhado e todos nós estávamos descalços (desde são Gonçalo até a libertação permanecemos nesse estado). Começamos a ouvir interrogatório e, em seguida, batidas e as pessoas gritando. Depois soubemos que era a palmatória de madeira. Isso durou alguns minutos. Fomos colocados num ônibus todo escuro. Dessa vez, sentamos quase todos. Um dos presos políticos estava por desmaiar e outros se esforçavam para mantê-lo acordado. Não era possível ver os rostos mesmo dos que estavam mais próximos de nós. Havia pouca circulação de ar. O Freixo havia dito que possivelmente iríamos para um presídio próximo para aguardar uma solução na justiça. Seria um presídio em São Gonçalo, que ele disse que era mais tranquilo, que estava disposto a aceitar o grupo, tinha espaço. Como eles tiraram a gente de madrugada, só podíamos imaginar para onde estávamos indo, porque estava escuro e, sem relógio nem nada, você perde a noção de espaço e tempo. Só sentíamos o balanço do ônibus, só sabíamos que estávamos em rua esburacada. Depois de algum tempo, pela batida e por alguma luz que entrava, nos demos conta de que estávamos cruzando a ponte Rio-Niterói. Mas, adiante alguém exclamou: “Deodoro!”. Pouco depois chegamos ao Complexo Penitenciário Gericinó, mais especificamente, no presídio Bangu 9 e foi novamente aquela coisa de os caras nos tratarem mal. A fala e a atitude de um policial ficou impregnada na minha memória: ‘Só tem vocês dois de pretos aqui?’. Em seguida segurou a cabeça de um deles e bateu algumas vezes contra a parede. Teve outro preso político que pedia insistentemente para ir ao banheiro, que não aguentava mais. Estavam muito próximo de mim. Gemia… Eu sussurrava para ele: respira fundo. Os caras apenas ironizavam e procuravam humilhá-lo. Mesmo depois de uns cinco pedidos desesperados, o rapaz não teve autorização e evacuou nas calças. Depois disso ordenaram que lavassem o chão.

Fomos para a cela. Quando a gente passa pela triagem, perguntam qual a nossa facção e são apresentadas as seguintes opções num formulário: Comando Vermelho, Amigo dos Amigos, Povo de Israel, milícia ou neutro. Nos identificamos como neutros e ficamos numa galeria juntos com o Povo de Israel, que são os presos que se converteram. O melhor de Bangu é que tinha uma torneira com água 24 horas; no outro não tivemos nem água para beber até a primeira abertura do chuveiro, para banho muito menos. Se quiséssemos beber aquela água imunda, pelo menos havia água, não iríamos morrer de sede. Mas a cela era mais estreita, escura, úmida e quase não tinha espaço para circular. Parece que circulou a informação de que haveria visita do pessoal dos direitos humanos. Aí deram um jeito de transferir a gente para outra cela no final do corredor, onde entrava luz no final da tarde, tinha sol, foi um alento. Além de um pardal que entrava e saía da cela através da grade no alto da parede (no final da tarde ele se alojou num buraco no teto da cela). Dessa cela ouvíamos cantos de outros pássaros. Recebemos somente um lençol branco e limpo que, pelo fato de ser bem largo, dava para cobrir a espuma sobre a qual deitava e, ao mesmo, servir de coberta. As poucas horas que restavam da madrugada permitiram um breve cochilo. No dia 18, acordei com a sensação de que sairia: lavei minha camiseta no banho com caneco e sabonete. Eu pretendia sair limpinho do presídio, estava imundo. Nessa passagem por Bangu, os presos receberam a gente bem. Eles falavam que a gente representava os parentes deles do lado de fora, que a luta era por eles também. Foram acolhedores e respeitosos conosco.

Quando você soube que seria solto?

Durante reunião com o pessoal dos direitos humanos, que aconteceu justamente no corredor, diante da cela onde eu e mais cinco presos estávamos, deram a informação de que tinha saído um habeas corpus. E que a partir desse habeas corpus, em meu nome, a juíza estendeu o benefício para os outros. Dali, voltamos para a cela. O habeas corpus só chegou ao presídio no final da tarde. Nesse meio tempo, chegaram advogadas do DDH, a Luiza maranhão e mais duas que conheciam pessoas comuns a mim e a outros dois presos. A gente foi conversar com as advogadas e, na volta, foi interessante porque um preso parou a gente para conversar no corredor, onde havia outros dois presos soltos. Esse preso falou: ‘Pára que aqui é tranquilo, pode parar’. Parei. ‘Aperta minha mão aí’. Apertei. Tinha outros três na grade festejando a gente e que também queriam apertar as nossas mãos. Eu saí, o Deo [professor da rede municipal do Rio, companheiro de cela] veio mais atrás, parou um pouco e conversou com eles. Eles falaram: ‘Ah, você é professor?A gente é aluno do crime, a gente veio agradecer vocês’. Surpreendeu a gente: por incrível que pareça, tivemos a solidariedade de quem – os policiais falaram – iria nos maltratar. Enfim, foi o ultimo dia lá, saímos à noite. Durante a oração que é feita sempre às 18h, segundo comunicara o preso que servia as refeições, momento em que os presos leem trechos da Bíblia, discursam, cantam — as falas e canções pareciam ter sido construídas no próprio espaço carcerário, pois falavam, muito da situação dos presos —, um dos carcereiros fez uma chamada no início do corredor, o que interrompeu a oração e criou um estado de suspense. Chamaram os nomes dos nove primeiros libertos. A nossa saída pela galeria foi algo comovente! Braços eram estendidos para fora das celas para nos cumprimentar. Olhos brilhantes nos acompanhavam enquanto aguardavam cumprimentos. Ouvia-se um grito: Liberdade! Esperamos quase duas horas fora da cela. Depois saberíamos que foi feito de tudo para que ficássemos mais tempo presos, apesar de os advogados da Asfoc já terem obtido dois habeas corpus antes do que definiu a saída do nosso grupo, detido na 37ª DP.

Dá para descrever os momentos de pavor?

Tem um pavor que é para disciplinar o corpo e, no nosso caso, intimidar. A todo momento falavam que, como era a primeira vez, a gente estava sendo tratado como homem, e que da próxima seríamos tratados de forma diferente. Falavam para que tomássemos cuidado para não voltar para lá. E funciona: nessa noite mesmo tive um sonho com um monte de policial de fuzil atirando nas pessoas aleatoriamente. Isso num nível psicológico. [Mas teve] o físico também, eles bateram em algumas pessoas. Imagino que elas estejam mais frágeis do que eu. Tem essa coisa de incutir o medo. É uma espécie de pedagogia do terror, de você ser educado para não se manifestar, não questionar. Tanto que os últimos atos estiveram meio vazios, as pessoas estão recuando porque foi feita uma coisa exemplar. Isso me faz pensar que essa estrutura de terror não se extingue com mudança de governo, eleições, ela está muito bem estruturada como sistema de tortura… Aparentemente é um sistema legal, no entanto, é uma estrutura em que você entra e é engolido. Quando vem pressão de fora, é diferente. Fora isso, é o sistema de terror. É impossível ressocializar (como sugere o calção que recebemos, com a sigla SEAP e a palavra ressocialização) em tais condições.

Você diz que existe uma pedagogia do terror que funciona. Como é voltar a uma manifestação agora? 

Eu soube de pessoas que não pretendem voltar a manifestações por enquanto. Para mim foi difícil. Nos arredores da Cinelândia, uns dias depois da minha libertação, quando vi o carro e um micro-ônibus da polícia, foi uma sensação muito estranha. Eu fui para casa. A sensação é de que iria repetir tudo que eu falei anteriormente, uma coisa incontrolável, não de ser preso, mas de sentir tudo o que eu senti, de escuridão, de ser puxado para o escuro. De ter sido sequestrado. Mudou também o meu olhar com relação aos policiais. Eu tinha a expectativa de que pudessem se portar como trabalhadores, servidores públicos. Agora eu até entendo a situação de precariedade, que os caras têm que fazer isso para sobreviver, a questão da hierarquia militar etc., mas os possíveis resquícios de solidariedade diminuíram muito. Com a forma como muitos deles tratam as pessoas, não dá para perceber qualquer sinal de compaixão.

Qual a sua avaliação com relação ao sistema judiciário e carcerário brasileiro considerando a situação daqueles que passaram por essa experiência?

Se você está na mão do Estado, está refém do Estado. Estamos em situação de fragilidade. Hoje os grupos mais conservadores estão unidos em torno de um projeto que, a pretexto de viabilizar a Copa do Mundo e as Olimpíadas, visa frear manifestações para assegurar o uso da máquina e dos recursos públicos para garantir os grandes investimentos, o lucro, a expropriação de terras. Não temos certeza se, quando formos a julgamento, podemos ganhar. Essa sociedade democrática que a gente vive é para quem não está dentro desse sistema prisional, só serve para quem nunca passou por lá. Depois que você cai ali, vê que é tudo muito frágil. No escravismo brasileiro, até o século XIX, os escravos que cometiam os “crimes” de fuga das fazendas ou atentado ao “seu senhor”, por exemplo, eram marcados/queimados com a letra “F”. Algo aparentemente superado historicamente se repete com a “marca” que a “passagem” pelo “sistema” deixa em nós. Qualquer um pode ser pinçado, cair ali e pronto! O objetivo dos grupos que controlam as estruturas de poder do Estado é ter você na mão e prorrogar esse processo por anos. Qualquer um de nós, se voltar, com certeza, terá outro tratamento. Eles nos avisaram! Há os que ainda acreditam na possibilidade da luta, garantida nos “direitos constituídos”. Penso que não tem mais direito constituído… Se por um lado a solidariedade presente entre companheiros da Fiocruz e de Manguinhos, em especial, foi extremamente importante para mim, por outro, é surpreendente o silêncio por parte de algumas entidades de classe e parte do meio acadêmico com relação a esse estado de coisas, onde cresce a opressão contra a expressão popular nas ruas, o que coloca o Estado Democrático de Direito como privilégio para poucas pessoas. Também é desprezível o reacionarismo expresso em artigos e ações de intelectuais que, outrora, eram consideradas referências importantes para a crítica ao autoritarismo.

Ainda tem gente presa…

Tem o Jair e o Rafael, um morador de rua. Ambos negros. Segundo as notícias que circulam na internet o Rafael foi preso num prédio abandonado na Lapa, onde ele estava morando. Foi no dia 20 de junho, aquele em que a polícia saiu jogando bomba de gás para todo lado. Ele estava caminhando para o lugar onde iria dormir com uma garrafa plástica de detergente e uma de água sanitária e alegaram que ele estava com material inflamável, com líquidos para produzir incêndio. Foi preso. O cara é morador de rua, está há cinco meses preso, e esteve, durante algum tempo, sem defesa. Já o Jair parece que foi preso por averiguação, e pelo fato de ter passagem anterior, estão dificultando o caso dele. Na reunião com as advogadas, no Bangu 9, foi falado que estava sendo difícil conseguir o habeas corpus para ele.

Você falou que estávamos muito fragilizados e houve uma grande união de forças para acabar com as manifestações. Mas mesmo depois dessa experiência traumática, você continua indo. Por quê?

O que impulsiona a gente a participar é a solidariedade. Aqueles que decidiram o que fazer conosco não têm noção de que, dentro da cadeia, possibilitaram a construção de uma solidariedade entre pessoas que nem se conheciam. Criaram uma liga entre essas pessoas, conheci pessoas de caráter muito firme. A grande maioria lá ficou muito solidária. Eu vejo que de toda essa experiência ruim, de aprisionamento, de repressão, está consolidando um grupo de muitas pessoas com discernimento sobre os fatos e sobre as injustiças presentes em nossa sociedade. Tive oportunidade de rever pessoas que dividiram cela comigo num ato recente de solidariedade aos presos e ex-presos. Algo inexplicável, a repressão produzira laços de amizade e confiança.
Eu volto para as manifestações com a vontade de filmar, mas não sei se vou continuar filmando por enquanto, apesar de querer dar continuidade aos registros históricos e etnográficos que iniciei em junho. Vivemos um processo histórico muito vigoroso e complexo sobre o qual precisamos refletir muito e para isso é necessário que ele seja registrado a partir de olhares diversos. Sou apenas um deles. Também não dá para abdicar de questionar o sistema da forma como está colocado. Afinal de contas, é difícil pensar na construção de um conhecimento científico neutro, principalmente, se levarmos a sério o que sugeria Paulo Freire ao dizer que toda neutralidade afirmada corresponderia a uma opção escondida.

Assim, a passagem pelo sistema prisional e carcerário não poderia ofuscar o nosso olhar sobre a sua dinâmica, sobre a forma como atuam os servidores públicos que os mantêm ativos e, sobretudo, sobre as condições nas quais se encontra seu “público-alvo”, formado por pobres, negros e mestiços em sua grande maioria. Nessa perspectiva, é difícil observar sem críticas um serviço público, financiado com recursos públicos, utilizado para punir parte desse público (presos, seus parentes e amigos). A crítica a esse tipo de serviço não pode ser colocada sem a devida correlação com toda a estrutura de governo do qual faz parte. Na atual conjuntura, essa crítica pode resultar na marcação de um “F” nas nossas costas ou no nosso encarceramento.

Entrevista concedida a André Antunes e Cátia Guimarães – Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz)

O manguezal avança (Fapesp)

01.07.2014

O manguezal da Reserva Biológica de Guaratiba, no Rio de Janeiro, parece estar em migração continente adentro. O movimento é uma resposta à elevação no nível do mar, que pesquisadores do Núcleo de Estudos do Manguezal (Nema), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), atribuem a mudanças globais no clima.

O oceanógrafo Gustavo Duque Estrada, do Nema, foi a campo com a equipe de vídeo de Pesquisa FAPESP para mostrar como o grupo vem monitorando essa floresta costeira desde os anos 1990. Na universidade, o coordenador do grupo, Mário Soares, explica o significado dos resultados de pesquisa para entender os manguezais, suas respostas às mudanças ambientais e sua influência sobre o ambiente, incluindo por meio da capacidade de armazenar carbono. “Áreas que antes eram planícies hipersalinas, lá no início da década de 1990, hoje já são florestas de mangue”, conta.

Rio Grapples With Violence Against Police Officers as World Cup Nears (New York Times)

RIO DE JANEIRO — Alda Rafael Castilho dreamed of being a psychologist, and joined the police force to pay for her studies. Her dream ended at age 27 when gunmen stormed the outpost where she was on duty in Complexo do Alemão, a sprawling patchwork of slums. A bullet pierced her abdomen, and she bled to death.

“They left her there to squirm on the ground like some sort of animal,” said her mother, Maria Rosalina Rafael Castilho, 59, a maid who lives in the gritty outskirts of Rio de Janeiro. “The politicians talk about the pride of hosting the World Cup, but that is an insult,” she said. “They can’t even protect their own police, much less the visitors to Rio.”

With the start of the global soccer tournament in Brazil less than two weeks away, a crime wave is setting nerves on edge across Rio de Janeiro, which is expecting nearly 900,000 visitors. A security overhaul was supposed to showcase a safer Rio on the global stage, but muggings are surging, homicides are climbing, and there has been a spike in shootings of police officers.

Maria Rosalina Rafael Castilho holding a picture of her daughter Alda Rafael Castilho, a police officer who was shot and killed in Rio de Janeiro in February.CreditAna Carolina Fernandes for The New York Times

At least 110 officers have been shot in Rio so far this year, an increase of nearly 40 percent from the same period last year, according to figures compiled independently by the Brazilian journalist Roberta Trindade with the help of police officers. Most of the episodes involved on-duty officers, but in some cases, off-duty officers were shot in assaults when they were identified as police.

In one bloody 16-day stretch in May, Ms. Trindade recorded 14 shootings of police officers, including two who were killed. Altogether, at least 30 on-duty and off-duty police officers have been shot dead this year, she said, including Ms. Castilho, the aspiring psychologist.

The security forces have been trying to reclaim territory in the city from the control of heavily armed drug gangs, and until recently, the deployment of special teams called Pacifying Police Units in dozens of favelas was viewed as a major achievement. But the officers have come under increasing attack in these “pacified” favelas, and the security gains are eroding.

Effectively acknowledging that Rio’s stretched police force cannot guarantee security for the World Cup, state officials have turned to the national government for help, asking for 5,300 troops from the armed forces to help patrol city streets, the way troops did for the United Nations Conference on Sustainable Development in 2012.

Officials contend that Rio is still safer than it used to be, despite the setbacks and the request for troops, and they point out that other Latin American cities like Caracas, Venezuela, or Tegucigalpa, Honduras, and even some Brazilian cities like Salvador, have higher homicide rates. In Rio, the rate was 20.5 per 100,000 residents last year, well below the rate of 37.8 per 100,000 recorded in 2007 before the security push into the favelas. During that time, the number of police officers in the city and the surrounding state rose to 47,710 from 37,950.

“We’re still distant from the earlier levels of criminality,” said Roberto Sá, a senior security official of the state government. “There are areas where an actual war had to be waged just for the police to enter. Now the police can do so without so many personnel because drug traffickers are losing their territorial bases.”

Contending that the new crime wave is an anomaly, Mr. Sá pointed to the state’s measure of armed attacks on the police, which is limited to officers killed on duty: seven so far this year. While that figure was regrettable, he said, the killings often get little notice in the Brazilian news media, while in many other countries, “the people who die become heroes.”

“I know it is undesirable, but we live in this kind of culture in Latin America, one of violence and criminality,” he said. “We have to understand that this is the reality.”

The challenge facing the police here was thrown into sharp relief in February when the commander of Rio’s “pacification” police forces, Col. Frederico Caldas, was caught in a gun battle in Rocinha, one of Rio’s largest slums. He dove to the ground to avoid a spray of bullets, and wound up having to undergo surgery to remove fragments of rock and plastic from one of his eyes.

Homicides rose 17 percent last year in Rio de Janeiro State, the first increase since 2010. The state recorded 4,761 homicides, with 1,323 of them in the city; by contrast, New York City, with a larger population than Rio, recorded 333 homicides in the same period.

A Pacifying Police Unit officer in Rio de Janeiro. At least 110 officers have been shot so far this year, an increase of nearly 40 percent from the same period last year. CreditMario Tama/Getty Images

A surge in street crime is also jolting residents. Street robberies and vehicle thefts increased sharply this year to levels higher than when the favela pacification program began in 2008, according to official figures. There were 20,252 reported muggings of pedestrians in the first quarter this year, up 46.5 percent from a year earlier.

On Rio’s streets, on television and across social media in Brazil, the crime wave is playing out in ways that are at once surreal and horrific.

A crew from the television network Globo recently interviewed a woman near Rio’s old center on the subject of crime, and in the middle of the interview, an assailant tried to rip a necklace from her neck.

In another episode that tested some residents’ faith in the Rio police, a driver recorded video footage on his smartphone showing the body of a woman hanging out of a police vehicle and being dragged along the pavement through traffic.

The police officers in the vehicle claimed they were taking the woman, a 38-year-old favela resident from the northern part of the city, to a hospital after she suffered gunshot wounds. They said they had not noticed that her body was dangling from the rear of their vehicle. However, an investigation concluded that the woman had been shot and killed by two of the officers, though not intentionally.

Military police officers stood during a presentation of troops that are responsible for security ahead of the World Cup in Rio de Janeiro.CreditPilar Olivares/Reuters

“The legitimacy of the police is at a disturbingly low point,” said Luiz Eduardo Soares, a former top security official in Rio. “The pacification process simply shifted crime to other parts of Rio’s metropolitan area. Now we’re seeing the police coming under attack even in the favelas, which they are calling pacified.”

Security experts attribute some of the animosity toward the police to the resilience of drug gangs like Comando Vermelho, which originated in a Rio prison in the 1970s, and the growth of smaller criminal groups like Terceiro Comando Puro, formed after a split from Comando Vermelho in the 1980s.

Police officers say their jobs are made harder by inadequate training and low pay. But at the same time, the persistence of brutal police tactics, involving the abduction and torture of some residents, contributes to the anger against the police in some communities.

In Rocinha, the hillside favela overlooking some of Rio’s most exclusive residential districts, the disappearance last year of Amarildo de Souza, a 42-year-old construction worker, set off street protests. Investigators found that he was given electric shocks and asphyxiated with a plastic bag after police officers detained him in during a sweep of drug-trafficking suspects.

To the further outrage of many here, investigators said Maj. Edson Santos, the police commander in Rocinha at the time, bribed two witnesses in the case to say that drug traffickers were to blame for what happened to Mr. de Souza.

“This honeymoon within a large part of Rio’s population and the media was deeply shaken,” said Julita Lemgruber, a former director of Rio’s penitentiary system, referring to the hopes raised by security gains in recent years. “The case of Amarildo was a turning point.”

Brazil police push into slums in Rio (Washington Post)

By Associated PressPublished: March 30

RIO DE JANEIRO — About 1,000 Brazilian police officers have begun invading a massive complex of slums near Rio de Janeiro’s international airport, the latest impoverished area to be targeted for the government’s “pacification” program.

The security effort began in 2008 and is meant to help secure Rio before this year’s World Cup and the 2016 Olympics.

Armored personnel carriers on loan from the Navy were used during the push into the Mare complex of shantytowns before dawn Sunday. Army soldiers are expected to start patrolling the area in the coming days.
Mare has been dominated by drug gangs for decades. In recent months, they have attacked police outposts in other slums, a direct challenge to security ahead of Brazil’s big events.

To date, there have been 37 police “pacification” outposts created in Rio.

Rio’s Race to Future Intersects Slave Past (New York Times)

By  – MARCH 8, 2014

Slave ships in the 19th century docked at the huge stone Valongo wharf, exposed by archaeologists near Rio’s port. CreditLianne Milton for The New York Times

RIO DE JANEIRO — Sailing from the Angolan coast across the Atlantic, the slave ships docked here in the 19th century at the huge stone wharf, delivering their human cargo to the “fattening houses” on Valongo Street. Foreign chroniclers described the depravity in the teeming slave market, including so-called boutiques selling emaciated and diseased African children.

The newly arrived slaves who died before they even started toiling in Brazil’s mines were hauled to a mass grave nearby, their corpses left to decay amid piles of garbage. As imperial plantations flourished, diggers at the Cemitério dos Pretos Novos — Cemetery of New Blacks — crushed the bones of the dead, making way for thousands of new cadavers.

Now, with construction crews tearing apart areas of Rio de Janeiro in the building spree ahead of this year’s World Cup and the 2016 Summer Olympics, stunning archaeological discoveries around the work sites are providing new insight into the city’s brutal distinction as a nerve center for the Atlantic slave trade.

Petrúcio Guimarães dos Anjos and his wife, Ana de la Merced Guimarães, in their home. Credit Lianne Milton for The New York Times

But as developers press ahead in the surroundings of the unearthed slave port — with futuristic projects like the Museum of Tomorrow, costing about $100 million and designed in the shape of a fish by the Spanish architect Santiago Calatrava — the frenzied overhaul is setting off a debate over whether Rio is neglecting its past in the all-consuming rush to build its future.

“We’re finding archaeological sites of global importance, and probably far more extensive than what’s been excavated so far, but instead of prioritizing these discoveries our leaders are proceeding with their grotesque remaking of Rio,” said Sonia Rabello, a prominent legal scholar and former city councilwoman.

The city has installed plaques at the ruins of the slave port and a map of an African heritage circuit, which visitors can walk to see where the slave market once functioned. Still, scholars, activists and residents of the port argue that such moves are far too timid in comparison with the multibillion-dollar development projects taking hold.

Beyond the Museum of Tomorrow, which has been disparaged by critics as a costly venture drawing attention away from Rio’s complex history, developers are working on an array of other flashy projects, like a complex of skyscrapers branded in homage to Donald Trump and a gated community of villas for Olympic judges.

At the same time, descendants of African slaves who live as squatters in crumbling buildings around the old slave port are organizing in an effort to obtain titles for their homes, pitting them against a Franciscan order of the Roman Catholic Church that claims ownership of the properties.

“We know our rights,” said Luiz Torres, 50, a history teacher and leader in the property rights movement. With the slave market’s ruins near his home as testament, he added, “Everything that happened in Rio was shaped by the hand of blacks.”

Crushed human bones from a cemetery were discovered in the home of Mr. and Ms. Guimarães during a renovation. Credit Lianne Milton for The New York Times

Scholars say the scale of the slave trade here was staggering. Brazil received about 4.9 million slaves through the Atlantic trade, while mainland North America imported about 389,000 during the same period, according to the Trans-Atlantic Slave Trade Database, a project at Emory University.

Rio is believed to have imported more slaves than any other city in the Americas, outranking places like Charleston, S.C.; Kingston, Jamaica; and Salvador in northeast Brazil. Altogether, Rio received more than 1.8 million African slaves, or 21.5 percent of all slaves who landed in the Americas, said Mariana P. Candido, a historian at the University of Kansas.

Activists say the archaeological discoveries merit at least a museum and far more extensive excavations, pointing to projects elsewhere like the International Slavery Museum in the British port city Liverpool, where slave ships were prepared for voyages; the Old Slave Mart Museum in Charleston and Elmina Castle, a slave trading site on Ghana’s coast.

“The horrors committed here are a stain on our history,” said Tânia Andrade Lima, the chief archaeologist at the dig that exposed Valongo, built soon after Portugal’s prince regent, João VI, fled from Napoleon’s armies in 1808, transferring the seat of his empire to Rio from Lisbon.

The squalid wharf functioned until the 1840s, when officials buried it under more elegant docks designed to receive Brazil’s new empress from Europe. Both wharves were eventually buried under landfill and a residential port district, called Little Africa.

Many descendants of slaves settled where the slave market once functioned, with African languages spoken in the area into the 20th century. While the district is gaining recognition as a cradle of samba, one of Brazil’s most treasured musical traditions, it was long neglected by the authorities.

Artifacts from the old wharf where slave ships docked. Credit Lianne Milton for The New York Times

Black Consciousness Day is observed annually in Brazil on Nov. 20 to reflect on the injustices of slavery. In 2013 Ms. Rabello, the legal scholar, pointed out, Rio’s hard-charging mayor, Eduardo Paes, who is overseeing the biggest overhaul of the city in decades, did not attend the ceremony at Valongo, where residents began a campaign to have it recognized as a Unesco World Heritage site. Complicating the debate over how Rio’s past should be balanced alongside the city’s frenetic reconstruction, some families still live on top of the archaeological sites, occasionally excavating Brazil’s patrimony on their own.

“When I first saw the bones, I thought they were the result of a gruesome murder involving previous tenants,” said Ana de la Merced Guimarães, 56, the owner of a small pest control company who lives in an old house where workers doing a renovation first discovered remains from the mass grave in 1996.

It turned out Ms. Guimarães was living above a dumping ground for dead slaves that was used for decades, until around 1830. Estimates vary, but scholars say that as many as 20,000 people were buried in the grave, including many children.

Ms. Guimarães and her husband opted to stay in their property, opening a modest nonprofit organization on the premises, where visitors can view portions of the archaeological dig. The authorities have plans to build a light-rail project on their street, which may lead to more discoveries.

“This was a place of unspeakable crimes against humanity, but it’s also where we live,” Ms. Guimarães said in her home, complaining that public agencies had provided her organization with little support.

Washington Fajardo, a senior adviser to Rio’s mayor on urban planning issues, said that some important steps had been taken at the archaeological sites, including the designation of the slave port as an environmental protection area. And he said that a plan under consideration would create an urban archaeology laboratory where visitors could view archaeologists studying material from the sites.

A dilapidated house near where the Valongo slave market in Rio de Janeiro once functioned. Credit Lianne Milton for The New York Times

Mr. Fajardo also emphasized that at another new venture in the port, the Rio Art Museum, residents of the area make up more than half the staff.

“We’d like to do more,” he said, referring to the slave cemetery. “It’s complex because there are people living on top of the site. If they want to stay, we have to respect their wishes.”

Throughout Rio, other discoveries are being made. Near the expansion of a subway line, researchers recently found relics belonging to Pedro II, Brazil’s last emperor before he was overthrown in 1889. And near the slave port, archaeologists found cannons thought to be part of a four-century-old marine defense system.

But none of the discoveries have been quite as striking as the unearthing of the Valongo wharf in 2011 and the earlier excavations of the cemetery under Ms. Guimarães’s home. Beyond the large stones of the wharf itself, archaeologists found items that helped reconstruct the daily lives of slaves, including copper pieces thought to be talismans and dominoes used for gambling.

Between the slave port and the cemetery, visitors can also view the Ladeira do Valongo, where the depots of Rio’s slave market once horrified foreign travelers. One visitor, Robert Walsh, a British clergyman who came to Brazil in 1828, wrote about the transactions.

“They are handled by the purchaser in different parts, exactly as I have seen butchers feeling a calf,” he said. “I sometimes saw groups of well-dressed females here, shopping for slaves, exactly as I have seen English ladies amusing themselves at our bazaars.”

Slavery’s legacy is clear across Brazil, where more than half of its 200 million people define themselves as black or mixed race, giving the nation more people of African descent than any other country outside Africa. In Rio, the large majority of slaves came from what is now Angola, said Walter Hawthorne, a historian at Michigan State University.

“Rio was a culturally vibrant African city,” Dr. Hawthorne said. “The foods people ate, the way they worshiped, how they dressed and more were to a large extent influenced by Angolan cultural norms.”

Brazil abolished slavery in 1888, making it the last country in the Americas to do so. Now the relatively relaxed approach to the archaeological discoveries is raising doubts about how willing the authorities are to revisit such aspects of Brazilian history.

“Archaeologists are exposing the foundations of our unequal society while we are witnessing a perverse attempt to remake the city into something resembling Miami or Dubai,” said Cláudio Lima Castro, an architect and scholar of urban planning. “We’re losing an opportunity to focus in detail on our past, and maybe even learn from it.”

Shepherd of the City’s Rebirth, Rio’s Mayor Feels the Strains, Too (New York Times)

FEB. 28, 2014

“Don’t ever in your life do a World Cup and the Olympic Games at the same time,” Mr. Paes recently said. “This will make your life almost impossible.” Credit: Marizilda Cruppe for The New York Times

RIO DE JANEIRO — IN his fits of rage, Eduardo Paes, the mayor of Rio de Janeiro, has thrown a stapler at one aide. He threw an ashtray at another. He berated a councilwoman in her chambers, calling her a tramp. Stunning diners at a crowded Japanese restaurant where he was being taunted by one constituent, a singer in a rock band, he punched the man in the face.

While Mr. Paes, 44, has apologized to the targets of his wrath after each episode, he adds that he is under a lot of stress. Normally clocking 15-hour days as he tears up and rebuilds parts of Rio in the most far-reaching overhaul of the city in decades, Mr. Paes is finding that consensus over his plans is elusive.

“Don’t ever in your life do a World Cup and the Olympic Games at the same time,” Mr. Paes recently said at a debate here on Rio’s transformation, making at a stab at gallows humor over the street protests that have seized the city over the past year. “This will make your life almost impossible.”

Mr. Paes has a point. Political leaders across the country may have thought that landing these mega-events would open the way for widespread celebrations of Brazil’s emergence as a developing-world powerhouse, with Rio dazzling in its resurgence. But as Mr. Paes acknowledges, things have not quite worked out that way.

“I’m not cut out to be a masochist, to be someone shouted down and cursed at,” he said in an interview, referring to the way some of his more vocal critics approach him on Rio’s streets. “But this process reflects democratization, the development of citizens in Brazil,” he added. “I don’t think the protests are over.”

Instead of widespread jubilation, Brazil is confronting embarrassing delays in getting stadiums, airports and transit systems finished before the World Cup even starts in June. Protesters are questioning why funds are being lavished on sporting venues when public schools and hospitals remain underfunded. Evictions here of slum dwellers are fueling resentment over big development projects.

Meanwhile, the explosive Mr. Paes, whose political fortunes were rising before the street protests, finds himself at the center of increasingly fierce disputes over what kind of city Rio is turning into.

“I think this guy is a 171,” said Gilva Gomes da Silva, 40, the owner of a tire-repair shop in Favela do Metrô, a slum where his home was demolished. The term 171 is slang on Rio’s streets for someone deceptive, a reference to the penal code number for the crime of fraud. While Mr. Gomes da Silva said that his new public housing unit was acceptable, he complained that the project for which his home was destroyed, a large commercial area for car repairs, had not even materialized. “He’s fooling us,” the tire repairman said of the mayor.

For more than a decade, Brazil has been led by two leftists famous for their struggles. President Dilma Rousseff is a former urban guerrilla who was jailed and tortured during the military dictatorship. Her predecessor, Luiz Inácio Lula da Silva, who rose to the presidency after making his name as a union leader, was born into a family of sharecroppers and never made it past elementary school.

Mr. Paes stands in stark contrast to that. Born into privilege and raised in exclusive districts of Rio, he was educated as a lawyer at the city’s top private university before going into politics.

He cut his teeth in the early 1990s as an aide to César Maia, a former Rio mayor, joining a total of five political parties over the span of his career, finally landing in the centrist Brazilian Democratic Movement Party.

After stints as a city councilman and a congressman, he defeated Fernando Gabeira, an iconic leader of Brazil’s Green Party, in the 2008 mayoral race. And even though Rio’s left rallied around Marcelo Freixo, a human rights activist, in opposition to Mr. Paes in 2012, the mayor glided to re-election with 65 percent of the votes.

But in the space of a few months, the landslide victory gave way to scenes in which Mr. Paes was hounded by protesters. Despite being faced with frequent criticism, Mr. Paes, an aficionado of the short, narrow cigars called cigarrilhas, shows few signs of growing a thicker skin.

Lashing out at the masked protesters called the Black Blocs, named for their black clothing and face-concealing scarves, he called them morons. He defended costly endeavors like the $100 million Museum of Tomorrow, an ambitious project designed by the Spanish architect Santiago Calatrava, saying, “We need icons.” And he insisted on putting his aggressive overhaul of Rio into context.

“I don’t want to compare my city to Zurich, thank God we’re not that boring,” said Mr. Paes over breakfast served by uniformed servants at Rio’s imposing City Hall, a tower commonly called the Piranhão, or Big Harlot, since it stands in an area where the authorities razed a red-light district in the 1970s and ’80s.

“Rio is advancing fast,” he said, “but we’re at a different phase in our civilization.”

FEW people here dispute that Mr. Paes has put into motion a construction spree with few parallels in Rio’s history. Work crews are feverishly rebuilding areas around the port, a dilapidated district of decaying buildings that resembles old Havana, while tearing down eyesores like the elevated highway cutting through the old center.

At the same time, Mr. Paes is overseeing ventures like the Transcarioca, a roadway linking the international airport to Barra da Tijuca, a sprawling zone of residential towers, slums and gated communities, and an array of new installations for the Summer Olympics in 2016, when his second term is scheduled to end.

Mr. Paes’s real estate frenzy has drawn comparisons to the vision of Francisco Pereira Passos, the mayor who ripped apart swaths of Rio at the start of the 20th century to put in Beaux-Arts buildings and boulevards inspired by Paris.

But Mr. Paes insisted that the Pereira Passos era was different because it largely involved attempts to Europeanize coveted areas of Rio. “My projects aren’t in the most noble areas,” he said, contending that the exclusive beachfront districts are mostly absent from his plans.

The bonanza for developers and construction companies is accentuating tension on Rio’s streets, with the huge demonstrations over rising transportation fares and unsatisfactory public services in 2013 evolving into a steady drip of smaller but violent confrontations between protesters and the police.

Some of the animosity is related to efforts by officials to assert control over some of Rio’s favelas, or slums, with new protests erupting over killings of favela residents by the police. Armed gangs in some favelas have aggressively countered police forces in recent weeks, pointing to the erosion of gains made in lowering crime rates.

Mr. Paes argues that certain developments are beyond his control. Responsibility over the police rests with the governor of Rio de Janeiro State, Sérgio Cabral, who may be the only elected official in Rio to have attracted more ire from protesters than Mr. Paes.

Indeed, Mr. Paes seems more admired abroad than at home. At a summit meeting in South Africa in February, he succeeded Michael R. Bloomberg, New York’s former mayor, as the leader of the C40, a network of cities seeking to reduce greenhouse gas emissions.

WHEN in Rio, Mr. Paes insists he is having the time of his life as mayor. He says that he appreciates the vibrancy of Brazil’s democracy and that he still enjoys drinking draft beer at Rio’s botecos, the street dives that are an elemental part of the city’s social fabric. He clearly revels in the perks of his job.

He said Gracie Mansion had nothing on his home, comparing the residence of New York’s mayor to Gávea Pequena, the luxurious palace, replete with tropical gardens and, at least during a stretch in 2013, protesters camped at the entrance, where Mr. Paes lives with his wife and two children.

Mr. Paes argued that the disillusionment with Rio’s political class was generalized and not necessarily directed just at him. Some of Rio’s residents, including those who have grown accustomed to hearing that the city’s time to shine has finally arrived, agree.

“I have nothing against him,” said Gilmar Mello, 47, who owns a small store selling motorcycle gear in Favela do Metrô. His business sits next to a pile of rubble after recent evictions and demolitions in the slum, not far from the refurbished Maracanã soccer stadium. “Everyone who gets into the mayor’s office will do the same thing.”

Jogos promovem maior despejo da história do Rio (Vi o Mundo)

Dario de Negreiros

publicado em 24 de fevereiro de 2014 às 21:56

Amaro Couta da Silva, morador da Vila Autódromo (Fotos Dario de Negreiros)

Rio de remoções: por quais motivos e de que forma a Cidade Olímpica tem promovido a maior leva de despejos de toda a sua história

por Dario de Negreiros, do Rio de Janeiro, especial para o Viomundo* 

No quintal da casa de Amaro Couto da Silva, 58, na Vila Autódromo, zona Oeste do Rio de Janeiro, tem pé de seriguela, cajá, acerola, maracujá, carambola, coco, goiaba e limão. Há ainda algumas galinhas, patos, dois cachorros e um bode – para não falar das outras árvores frutíferas rapidamente listadas pelo morador, mas que escaparam à caneta do repórter.

Talvez o que mais surpreenda aqueles que têm a curiosidade de visitar as casas de moradores ameaçados de remoção em virtude das grandes intervenções urbanas no Rio é como, ao contrário do que se pode imaginar, não são poucos os que vivem em condições de dar inveja aos que se espremem em apartamentos de áreas nobres da capital.

São casas como a da diarista Maria da Penha, 48, também moradora da pacata Vila Autódromo. Ao seu amplo quintal, soma-se ainda uma grande laje coberta, com vista para a lagoa de Jacarepaguá.

 Quintal da casa de Maria da Penha, moradora da Vila Autódromo ameaçada de remoção

“Meu sonho era morar em uma casa com quintal”, diz Penha, que há vinte anos deixou a favela da Rocinha e começou a erguer sua moradia, onde antes só havia um terreno baldio.

Amaro, no terreno de sua casa, construiu também um bar e seis quitinetes, fontes importantes de renda para ele, a esposa e três filhos. “Ficaram insistindo para eu ir ver o apartamento [da proposta de reassentamento]. Não fui e nem vou”, afirma. “Como é que eu vou fazer, lá?”.

Este drama tem sido vivido, no Rio, por mais de 100 mil pessoas, segundo as contas da Anistia Internacional. Entre 2009 e 2013, a Prefeitura admite já ter removido 20.229 famílias, o que equivaleria a aproximadamente 65 mil pessoas, se considerado o tamanho médio da família brasileira.

A elas, acrescentam-se todos os que ainda estão ameaçados de remoção.

“Os ameaçados, nós não sabemos quantos são. A Prefeitura não tem transparência quanto aos projetos, então fica difícil de estimar os impactos”, explica Renata Neder, da Anistia Internacional, segundo quem a capital fluminense estaria vivendo hoje a maior leva de remoções de toda a sua história.

Mas por quais motivos, afinal de contas, estas dezenas de milhares de pessoas estariam sendo despejadas de suas casas? Quais direitos destes moradores estão sendo desrespeitados pelo Estado? Quais alternativas lhes são oferecidas, em quais termos e em que condições?

Os direitos dos moradores e o legado de violações

Se fizermos um recenseamento de todas as salvaguardas que, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), deveriam ser observadas em processos inevitáveis de remoção, encontraremos uma boa lista de tudo o que, de acordo com ativistas, está sendo feito no Rio. Só que ao avesso.

“Uma oportunidade de consulta genuína com aqueles que serão afetados” deve ser oferecida, reza documento oficial da ONU, assim como um “aviso adequado e razoável, para todas as pessoas afetadas, da data agendada para a remoção”.

No Rio, para a ampla maioria das famílias já removidas, foi com uma marcação à tinta, feita no muro de suas casas sem seus consentimentos, que o aviso chegou.

Casas marcadas para remoção na Vila União de Curicica

Caminhando pela Vila União de Curicica, comunidade com cerca de 3 mil moradores localizada na região de Jacarepaguá, na zona Oeste, passa-se por ruas em que quase todas as casas possuem a indesejada marcação: “SMH”, sigla da Secretaria Municipal de Habitação.

“Parece nazista marcando judeu com a Estrela de Davi. Isso não é tortura física, é tortura psicológica.” Esta comparação, por estranho que possa parecer, foi feita pelo próprio prefeito Eduardo Paes, em entrevista ao jornalista Juca Kfouri.

“É uma coisa que a Prefeitura do Rio faz há vinte anos”, justificou-se, à época, o alcaide. “Eu nunca tinha me tocado, ninguém tinha se tocado disso.”

Em junho de 2011, o subprocurador geral de Justiça do Ministério Público Federal do Rio, Leonardo de Souza, havia feito exatamente a mesma analogia, na presença de Jorge Bittar, então secretário de Habitação de Paes. Mas foi necessário que se passassem mais de dois anos para que o prefeito, por decreto, proibisse a prática.

Independentemente da proibição de marcação, as formas e o tempo de notificação, afirma a Anistia Internacional, continuam sendo inadequados.

“O padrão de notificação é baixíssimo, totalmente inaceitável”, diz Renata Neder. “Há casos de famílias que receberam notificação com um dia de antecedência. E até de gente que chegou à sua casa e a encontrou demolida. Zero notificação”.

Elmar Freitas, ao lado do seu bar e dos escombros das casas demolidas, na favela Metrô-Mangueira

Quanto ao modo de consulta à comunidade afetada, é emblemático o caso de Elmar Freitas, 38, dono de um bar e ex-morador, recém-despejado, da favela Metrô-Mangueira, zona Norte do Rio.

Em vez de promover audiências com as comunidades e seus representantes, negociando coletivamente, como recomendam os protocolos internacionais, a Prefeitura, dizem os ativistas, prefere bater de porta em porta.

As casas daqueles que aceitam as propostas iniciais de reassentamento são demolidas e seus escombros, a exemplo do que relata Elmar, são abandonados. Os entulhos dos imóveis de seus vizinhos passaram a servir de banheiro público e ponto de consumo de drogas, acumulam lixo e ratos, exalam mau-cheiro e instalam na vizinhança um verdadeiro cenário de guerra.

“Eu saía na porta da minha casa e só via escombros”, diz Elmar, que ainda viu despencar o movimento do seu bar. “Diminuiu 95% o meu lucro. Aqui era cheio”, diz, apontando dezenas de cadeiras empilhadas e mesas empoeiradas.

“Isso tem sido um padrão claro”, diz Renata Neder. “Demole-se as casas e deixa-se os restos como forma de pressionar os moradores.”

Em outras ocasiões, dizem ativistas e moradores, as demolições de casas anexas provocam a interrupção do fornecimento de água e luz daqueles que ficam. “Eles chegam a destruir casas geminadas, mesmo abalando a estrutura da outra casa”, diz Renato Cosentino.

Mas a lista das salvaguardas internacionalmente acordadas que não estariam sendo cumpridas, ainda não a esgotamos: oferecer, sempre, reassentamento próximo à área de remoção; indenizar adequadamente aqueles que preferirem compensação financeira; garantir que o morador vá melhorar ou, no mínimo, manter o seu padrão de vida atual.

“Eles chegaram batendo na minha porta e falando que eu tinha três opções: Cosmos [bairro no extremo Oeste da cidade, a mais de 60 km do Metrô-Mangueira], albergue ou rua”, conta Elmar.

Depois de intensa mobilização da comunidade, foram construídos os conjuntos de Mangueira 1 e Mangueira 2, localizados em região bastante próxima à favela. Antes disso, contudo, mais de 100 famílias, segundo a Anistia Internacional, acabaram por aceitar a oferta inicial e se mudaram para Cosmos.

No caso das comunidades removidas em função das obras da via Transoeste, a média das indenizações oferecidas, diz Renata Neder, ficou na faixa de R$ 8 mil.

“Eles indenizam apenas pela melhoria ou investimento que você fez no local, sem levar em conta o valor do terreno”, explica Renata, segundo quem todos os que optam pela indenização acabam por piorar o seu padrão de vida.

“Se você tira alguém do Metrô-Mangueira, uma área nobre, e paga apenas pelo tijolo que a pessoa botou naquela casa, com aquele dinheiro ela não vai conseguir nem ir para uma favela daquela região, vai ter que ir para uma favela em área distante”, diz.

As remoções formam, assim, a face mais visível do “legado de violação de direitos”, na expressão de Renato Cosentino, deixado até agora pelas obras relacionadas à Copa e às Olimpíadas.

Mas, analisados de maneira mais ampla, quais devem ser os efeitos das grandes intervenções urbanas ligadas aos megaeventos para a organização sócio-espacial do Rio de Janeiro, como um todo?

“O resultado desse processo é, inexoravelmente, uma cidade muito mais desigual”, afirmou o professor Carlos Vainer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em recente entrevista ao Viomundo.

Aprofundamento da desigualdade que é acompanhado, segundo ele, por aumento de violência, guetificação de áreas pobres, extinção das expectativas de gestão democrática do espaço urbano, criminalização da pobreza e dos movimentos sociais.

“Eu torci bastante para o Brasil ser escolhido sede da Copa, das Olimpíadas”, conta Antônio Carlos de Jesus, 35, um dos moradores ameaçados de remoção na Vila União de Curicica. “Mas não sabia que ia ser assim.”

Pico do morro Dona Marta

Os motivos aparentes e os interesses subjacentes

Como entender a lógica existente por trás da maior onda de remoções da história do Rio? Se funestas são as consequências, justas seriam, ao menos, as motivações iniciais?

Eis uma breve lista, sem pretensões de exaustão, de todos os motivos que já apareceram, em diferentes momentos, para justificar a necessidade de reassentamento dos moradores da Vila Autódromo: obras dos Jogos Panamericanos, perímetro de segurança do Parque Olímpico, área de risco, zona de proteção ambiental, construção de um centro de mídia, da via Transolímpica, de passarelas fixas e móveis, de um estacionamento.

Para estudiosos e ativistas, a falta de transparência dos projetos de intervenção urbana e a mudança constante das alegações que justificariam as remoções seriam sintomas de uma mentira fundamental: as remoções, dizem, longe de constituírem consequências inevitáveis e lastimáveis das operações urbanas, são antes um de seus principais objetivos.

“Os pretextos são os mais variados, mas na verdade são meros pretextos”, afirma Carlos Vainer. “Eles querem limpar aquela área [da Vila Autódromo], fazer um processo de higienização.”

Segundo a Associação de Moradores, a comunidade sequer costuma ser comunicada oficialmente sobre as supostas causas de sua necessidade de reassentamento, descobrindo-as na maioria das vezes por intermédio da imprensa.

“Se antes usaram o argumento de zona de preservação ambiental, como podem, depois, argumentar que vão construir uma via?”, questiona Inalva Mendes Brito, moradora e membro da Associação.

Renato Cosentino, da Justiça Global, oferece uma resposta para a contradição: “É que eles não têm nem o cuidado de manter a mesma mentira”.

Renata Neder, da Anistia Internacional, considera a Vila Autódromo “um exemplo incrível” de como os projetos, ao invés de buscar os menores impactos sociais possíveis – outro imperativo acordado pela ONU –, estão sendo pensados, ao contrário, justamente para promover os despejos.

“Em volta da Vila Autódromo, há um monte de terrenos vazios, que poderiam ser usados para todos os equipamentos que eles gostariam de construir”, diz. “Mas eles querem colocá-los todos onde está a comunidade, para justificar a remoção”.

Entre o final de 2010 e o início de 2011, teria sido a construção da Transoeste, um dos grandes projetos viários da Cidade Olímpica, o fator responsável pela remoção de cerca de 500 das comunidades de Restinga, Vila Harmonia e Vila Recreio II.

“A Transoeste foi construída e a área da qual as casas da Vila Harmonia foram removidas ficou intocada”, conta Carlos Vainer. O mesmo aconteceu, segundo a Anistia Internacional, com parte da área de remoção da Vila Recreio II.

No pico do morro Dona Marta, o governo do Estado, argumentando tratar-se de área de risco, planeja a remoção de 150 famílias. A comissão de moradores, entretanto, conta com um contra-laudo, elaborado pelo engenheiro Maurício Campos, que desmente o perigo.

Como a ocupação do morro, nos anos 1930, se deu de cima para baixo, é no pico que estão as famílias mais antigas da comunidade. Está ameaçada de remoção, inclusive, até mesmo a santa que deu nome ao local, já que é também na parte mais alta da favela que está a capela que abriga a imagem de Santa Marta.

Vitor Lira, morador da favela Santa Marta ameaçado de remoção. A casa de sua família, uma das mais antigas do morro, tem paredes de pedra 

“Eu tenho raízes aqui. Tenho história, luta, sofrimento. Nós não chegamos aqui ontem, não”, diz Vitor Lira, membro da comissão de moradores e cuja família foi uma das primeiras a ocuparem o local.

Vitor não hesita em atribuir aos interesses da especulação imobiliária a tentativa de remoção contra a qual lutam os moradores da favela, localizada no nobre bairro do Botafogo, zona Sul do Rio.

Cinco anos atrás, a primeira de todas as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora) era instalada no Dona Marta. De lá para cá, a valorização dos imóveis e o crescimento da atividade turística têm provocado aumento considerável do custo de vida, causando a saída de antigos moradores. É a chamada “remoção branca”.

“O Estado nunca contribuiu em nada, nunca beneficiou a gente em nada”, diz Vitor, que trabalha como guia turístico no morro. “A gente roeu o osso esse tempo todo e, agora, vai deixar o filé para eles?”.

Um mapa dos reassentamentos, elaborado pelo arquiteto Lucas Faulhaber, mostra com clareza o vetor que orienta esta onda de remoções: é a zona Oeste, região carente de serviços públicos, que recebe a população de baixa renda retirada das áreas nobres ou de interesse da especulação imobiliária.

“Dentre a população de zero a três salários mínimos, 88% dos conjuntos do Minha Casa Minha Vida estão na periferia da zona Oeste”, afirma o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). “São lugares que não têm sequer acesso a saneamento básico, nem zonas de hospitais e de escolas”, diz.

E onde os serviços públicos claudicam, sabe-se bem, florescem as milícias. Conversando com moradores ameaçados de despejos, não é raro ouvir denúncias de que diversos conjuntos do Minha Casa Minha Vida já estariam sob domínio de milicianos.

Antes, até mesmo, da chegada dos futuros proprietários.

“Mais do que ocupar e controlar, os milicianos chegavam a revender os apartamentos”, conta Renato Cosentino, da Justiça Global. “A pessoa chegava lá e tinha alguém no apartamento, dizendo que o havia comprado.”

Casas colocadas à venda ao lado da estátua de Michael Jackson, na parte turística da favela Santa Marta. Aumento do custo de vida tem provocado a saída de muitos moradores

Vila Autódromo: símbolo de resistência e contra-modelo de cidade

Na luta contra a remoção, os moradores da Vila Autódromo, com o auxílio de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense, elaboraram o Plano Popular da Vila Autódromo.

Em dezembro do ano passado, o plano recebeu o prêmio Urban Age Award, concedido pela London School of Economics e pelo Deutsche Bank. Com a premiação, de US$ 80 mil, a associação de moradores planeja construir uma creche.

Enquanto a proposta inicial da Prefeitura previa a remoção de todos os moradores, o Plano Popular manteria 368 das 450 famílias em suas casas, sendo as demais reassentadas na própria comunidade.

“Esse plano se transformou numa espécie de contra-modelo de cidade”, diz Carlos Vainer, que coordenou uma das equipes responsáveis por sua elaboração.

“Enquanto a cidade, dominada pelos interesses empresariais, é anti-democrática, autoritária, ambientalmente destrutiva e transfere recursos públicos para as mãos de empresários privados, esse é um plano democrático, ambientalmente responsável e que economiza recursos públicos”, diz Vainer.

Segundo quadro comparativo divulgado pelo Comitê Popular da Copa do Rio, o plano popular tem custo estimado de R$ 13,5 milhões, contra R$ 68 milhões da proposta oficial.

“Ali, na Vila Autódromo, se trava uma batalha fundamental, do ponto de vista simbólico e cultural, entre dois modelos de cidade”, complementa.

Organizada juridicamente desde 1987, quando se constituiu como um loteamento popular, a Vila Autódromo serviu também de refúgio para militantes perseguidos pela ditadura civil-militar (1964-1985), fato que ajuda a explicar o alto grau de organização política de seus moradores.

“Há um extraordinário espírito de resistência e coesão dessa comunidade”, diz Carlos Vainer.

Até hoje, a Vila Autódromo é uma das poucas comunidades pobres não-pacificadas do Rio que não estão nem sob o controle de milicianos, nem sob o jugo das facções do tráfico.

Além disso, a maioria dos moradores tem, desde 1998, concessão de direito real de uso de seus terrenos por 99 anos, estando, portanto, em situação legal.

Inalva Mendes Brito, da Associação de Moradores da Vila Autódromo 

Tomo uma bronca de Inalva, da associação de moradores, quando lhe pergunto, em tom de desesperança, se ela considera haver alguma remota possibilidade de que o Plano Popular vença as pressões da Prefeitura e consiga, de fato, sair do papel.

“Eu nem te respondo essa pergunta. Seria negar o que nós construímos durante dois anos”, diz. Em seguida, resume aquele que parece ser o desejo maior de todos os que lutam contra as remoções forçadas: “Nós sempre gostamos de ser sujeitos de nosso próprio destino.”

Outro lado

Consultada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Habitação emitiu, por meio de sua assessoria, o seguinte comunicado:

“A Prefeitura vem conduzindo os processos de reassentamento da maneira mais democrática, respeitando os direitos de cada família. O próprio decreto municipal que trata dos reassentamentos estabelece todos os procedimentos obrigatórios para reassentar uma família. Isso implica avisá-las com antecedência, esclarecer sobre a natureza e a importância desse reassentamento, sempre motivado por interesse público mais amplo.


Além das informações prestadas, as famílias são recebidas na própria Secretaria Municipal de Habitação (SMH) para conhecerem os critérios que definem o valor de suas benfeitorias e as alternativas para reassentamento. As famílias são reassentadas de diferentes formas: transferência direta para apartamentos do Programa Minha Casa, Minha Vida; recebimento de aluguel social (R$ 400 por mês) enquanto aguardam uma unidade do Programa Minha Casa, Minha Vida em local desejado; ou indenização. No caso da opção pelo imóvel, as negociações são coletivas. Já quando se trata de indenização, elas são individuais, já que os valores são definidos a partir de critérios de avaliação das moradias.

Todos os reassentamentos são feitos com base em decreto municipal, que estabelece regras claras, baseadas nos direitos humanos e na busca da moradia digna. O primeiro decreto é o de número 20.454, de 24 de agosto de 2001. Depois disso, ao longo do tempo, ele sofreu alterações e atualizações. O mais recente é o 38.197, publicado no Diário Oficial do Município do Rio em 17 de dezembro de 2013. Ele atualiza, sobretudo, os valores pagos aos moradores pela Prefeitura.

De janeiro de 2009 a dezembro de 2013, a Secretaria Municipal de Habitação realizou o reassentamento de 20.299 famílias, que viviam nas áreas informais da cidade. Deste total, 4.953 tiveram que sair de suas casas por viverem em beiras de rios e 8.215 em encostas, ambas as situações classificadas como alto risco. Outros tipos de risco são responsáveis pelo reassentamento de 5.411 famílias, enquanto que 1.720 precisaram deixar suas casas em função de obras.

No quadro atual, 9.320 famílias (cerca de 45% do total de reassentados) receberam imóveis do Minha Casa, Minha Vida, 25% estão recebendo aluguel social e 30% receberam indenização ou realizaram a compra assistida.

A Prefeitura do Rio informa que o processo de transferência dos moradores da Vila Autódromo, que optaram em ir para o Parque Carioca, será feito de forma gradual e deve acontecer a partir da segunda quinzena de março.

Das 285 famílias que deixarão a comunidade para a realização das obras de canalização dos rios e duplicação das Avenidas Salvador Allende e Abelardo Bueno, 253 já optaram entre indenização e imóveis no Parque Carioca – condomínio com 900 unidades localizado a um quilômetro da Vila Autódromo, com apartamentos de dois e três quartos com infraestrutura de lazer, além de creche e espaço comercial.

Elas só serão transferidas para lá quando o empreendimento, que está em fase final de acabamento, estiver concluído. Assim também, qualquer obra na comunidade só acontecerá quando todas as casas estiverem desocupadas.


Quanto ao traçado da Transolímpica, a informação [de que ele teria sido concebido com o intuito de provocar a remoção dos moradores da Vila Autódromo] não procede. A Secretaria Municipal de Obras reafirma que o traçado do corredor expresso Transolímpica foi estudado para evitar o maior número possível de desapropriações e reassentamentos.”

 Obras do Parque Olímpico, vistas da Vila Autódromo

*Dario de Negreiros viajou ao Rio de Janeiro graças ao apoio financeiro dos assinantes do Viomundo, aos quais agradecemos de coração por compartilhar gratuitamente conteúdo jornalístico exclusivo com outros internautas.

Leia também:

Carlos Vainer: A lógica por trás dos megaeventos no Rio

*   *   *

As Brazil Gears Up For Olympics, Some Poor Families Get Moved Out (NPR)

February 27, 2014 3:25 AM
Maria Victoria Agostinho, 5, walks outside her home in the Vila Autodromo area of Rio. Her family is slated for eviction, along with others in the area, to make way for building projects related to the 2016 Summer Olympics.

Maria Victoria Agostinho, 5, walks outside her home in the Vila Autodromo area of Rio. Her family is slated for eviction, along with others in the area, to make way for building projects related to the 2016 Summer Olympics.

Lianne Milton for NPR

Jeane Tomas scraped all her money together to build a house where she could raise her son. She’d been renting in the favela, or shanty town, of Vila Harmonia and wanted to put down roots in the community where she lived when her child was born.

The house went up — only to quickly come down.

“There is this frustration to have worked so hard, dreamed so much to leave everything behind,” she said.

Now that the Winter Olympics in Sochi are over attention will be turning to Brazil, the host of the 2016 Summer Olympics.

Rio de Janeiro is undergoing a massive transformation in advance of the games
and that has brought with it a number of criticisms. Chief among them are the forcible evictions that are taking place across the city.

Tomas was among those who were moved.

It was near her work, near doctors, and other key amenities, she said. About three years ago, she was told she would have to leave to make way for a new road that was being built as part of an infrastructure upgrade.

“And I would ask them, where to? They were asking us to sign papers without knowing where we were going,” she said. “Then they showed us this place and, to be honest, we really didn’t have a choice.”

With the money she received in compensation, she said she couldn’t afford anywhere else.

Jeane Tomas, with her mother, in their two-bedroom apartment, in Rio de Janeiro's far west zone of Campo Grande. The family was relocated to this area three years ago to make way for building projects related to the 2016 Summer Olympics in Rio.

A woman and child at a playground. Nearby, construction is taking place for the Olympic Village.

A youth guides his horse and cart down the main road of Vila Autodromo, an area where many families have been evicted and moved to far away neighborhoods. Construction on the Olympic Village is taking place nearby.

Neighbors gather on Sunday afternoon in Vila Autodromo. More then half of the 3,000 families who have been moved did not want to leave, but say they were pressured.

An elderly woman walks past a home that is marked for eviction in the favela community of Vila Autodromo.

Marcos dos Santos Ribeiro, 11, plays the guitar in his bedroom at home, in Vila Autodromo, where many families have been evicted.

Residents hang out in front of their apartment, in Rio de Janeiro's far west zone of Campo Grande. Many families relocated to this area three years ago to make way for Olympic building.

A resident plays with a kite in the Oiti apartment complex, in Rio de Janeiro's far west zone of Campo Grande. Many families were relocated here three years ago from another part of Rio.

Lianne Milton/for NPR

Some 3,000 Families Uprooted

According to human rights groups, some 3,000 families have already been evicted from their homes in Rio alone. As many as 200,000 people across the country are at risk of the same, according to the Popular Committees for the World Cup and Olympics.

It’s not just the evictions, but also where people are being sent to.

The place where Jeane Tomas now lives is called the OITI complex.

Favelas — for all their poverty — are teeming with life. But the OITI complex feels like it’s on life support. It’s a barren, treeless, apartment compound in a Rio suburb called Campo Grande, miles away from where Tomas lived in Barra de Tijuca.

“Our lives were built around were we lived. The transport is awful here. They talk about this special bus line they built for us out here but it’s not the miracle they say it is. Its chaos,” she said. “There are days when the air-conditioning works, others when it doesn’t. We wait for hours to get out of here.”

The housing is new though and the people live there at a relatively low cost. They pay a small condo fee and utilities.

Still, they don’t own these homes and they can’t rent them to others.

Jeane Tomas complains there are no schools nearby. She still hasn’t been able to enroll her child in daycare. There are no jobs close either. She says her husband lost his job because suddenly he was so far away from it.

Tomas works as a maid and she said she suspects the reason so many people are being moved is because its the Rio elites making the decisions.

“In my opinion, they want us to be there to serve them, then they want us to go as far away as possible,” she said.

Government officials deny those allegations. They say those who have been moved now live in government housing that is far superior to where they lived before.

The Terni apartment complex in Rio de Janeiro's far west zone of Campo Grande. Many residents were relocated to this area because their old neighborhoods were knocked down to make way for building projects related to the Olympics.

The Terni apartment complex in Rio de Janeiro’s far west zone of Campo Grande. Many residents were relocated to this area because their old neighborhoods were knocked down to make way for building projects related to the Olympics.

Lianne Milton for NPR

Upgrades Or Evictions

Leonardo Gryner, the chief operating officer of Rio’s Olympic Organizing Committee, said a few families have been moved to improve the life of many people. The roads and bus lines that have been put in place will allow people to travel more freely, he said.

“One of the main reasons that people live in favelas in Rio is because of transportation,” he said. “When you offer them a new means of transportation, that will help … people to move to new areas farther from the city, living in better conditions that in living in favelas.”

However, activists and academics allege the forcible evictions have more to do with real estate than real help to the poor.

Rio’s Olympic Park is being built in Barra de Tijuca, where Jeane Tomas once lived.

It used to be a poor area. But with the influx of development and roads for the Olympics, luxury apartment complexes are springing up along with Miami-style malls. Land is becoming extremely valuable. For example, the athletes housing during the games is going to be turned into high-end apartment buildings once the games are over.

Orlando Santos Junior is a professor of urban planning at Rio de Janeiro Federal University who has studied the evictions for years.

“The other issue is that the people who are moved live on the margins, if they are uprooted from their networks that allow them to survive it actually makes them worse off, not better,” he said.

He said what is happening is going against the very fabric of what a city should be. In Rio, the changes are creating more homogenous spaces with walls, sometimes real, sometimes invisible, that separate social classes.

Other activists say what are being created are tomorrow’s favelas. As the city moves out these people, they are being trapped in places where they cannot thrive.

Back in the government housing complex, Jeane Tomas said she was grateful for a roof over her head but she spoke wistfully of her former home. On her way to work, she passes the place her favela used to be. Now it’s an empty field next to a new gas station.

Brazil 2014: More than just the World Cup (The Christian Science Monitor)

From elections to transportation fare increases and potentially renewed protests, 2014 promises big stories to watch across Brazil.

By Rachel Glickhouse, Guest blogger / January 2, 2014

People watch fireworks exploding over Copacabana beach during New Year celebrations at the Pavao Pavaozinho slum in Rio de Janeiro, January 1, 2014. Pilar Olivares/Reuters

While 2013 [was] an incredibly interesting year forBrazil, 2014 promises to be even more fascinating. Beyond the World Cup, which promises to occupy much of the year’s headlines, here are some of the big issues to watch.

Transportation fare increases: Governments throughout Brazil backed down on raising bus and subway fares in 2013 after those increases helped spursome of the largest protests seen since redemocratization. Nevertheless, a fare increase could be coming in Rio as early as January.

Inflation and cost of living: In 2013, food prices rose over 9 percent and were the major cause of inflation this year. Overall, inflation this year is estimated at under 6 percent, while some estimates put next year’s inflation at a little over 6 percentSão Paulo and Rio in particular continue to see a rising cost of living.

Consumer debt: With more Brazilians gaining access to the banking system and credit, consumer debt has been a growing problem to keep an eye on. Over the past 12 months, the number of Brazilian families in debt has fluctuated between 60 and 65 percent. Around 20 percent of Brazilians are behind on their bills. Over three-quarters of Brazilians in debt point to credit cardsas the source of their debt; credit card interest rates in Brazil continue to be sky-high, reaching up to 500 percent a year.

Security: While in the past decade, the overall trend for homicides has been an increase in the Northeast and a drop in the Southeast, crimes like robberies andmuggings are rising in cities like Rio and São Paulo. Rio in particular has faced problems with crime this year after a period of seeming improvements.

Pacification in Rio: Though initial results were promising, this year has seen some cracks in Rio’s pacification strategy, such as outbreaks of violence in pacified favelas and revelations of police abuses, the most serious being the torture and murder of favela residents. One of the most important things revealed this year are statistics showing disappearances in pacified favelas rising as murders fall. We’ll see what happens with this trend next year. Fundamentally, the biggest problem with the strategy is the police force itself, as some police have traditionally been criminals themselves, either working directly with drug traffickers or operating in militias when off-duty. Without a major police reform, the strategy could see similar challenges next year.

Health and education policies: One of the major complaints of protesters [last] year was that the government is investing in the World Cup but not enough in hospitals and schools. In 2013, the government began importing Cuban doctors in a bid to bring medical services to underserved areas, which initially was met with controversy that has petered out a bit. Much more remains to be done though, so [this year] it will be interesting to see how the program goes. There were also big teachers’ strikes this year which could potentially happen again in 2014.

Corruption scandals: One of the most important things that happened in 2013 was when a group of defendants in the country’s biggest corruption case went to jail. Parts of the trial are going to drag on next year as some defendants get appeals, but a new corruption scandal would feed another one of the protesters’ complaints.

Protests: While it seems likely that there will be some demonstrations around the World Cup, it remains to be seen whether there will be a repeat of the 2013 protests. That will depend on all of the factors above.

Elections: Brazil will hold presidential and legislative elections in October, which means that federal policies will potentially be designed to appease voters as President Dilma Rousseff seeks reelection. It may not be a year to experiment with reforms or to raise taxes, but it could be a year of bread and circuses.

Infrastructure: While a lot of focus will be on finishing stadiums in time for the games, it remains to be seen how many transportation infrastructure projects, ranging from new highways to airport renovations, will be completed before June. In addition, it will be important to see which major infrastructure projects are moving in an election year, like the Belo Monte dam or the São Francisco water project.

– Rachel Glickhouse is the author of the blog Riogringa.com.

World Cup: Rio favelas being ‘socially cleansed’ in runup to sporting events (The Guardian)

Slum dwellers say thousands forced out of their homes to make way for building projects for tournament and 2016 Olympics

 and  in Rio de Janeiro

The Guardian, Thursday 5 December 2013 17.58 GMT

Boys play football in the Borel favela

Boys playing football in the Borel favela in Rio de Janeira, which will host seven World Cup games followed by the Olympics in 2016. Photograph: Buda Mendes/Getty

The World Cup and the Olympics are being used as a pretext for “social cleansing” as tens of thousands of Rio slum dwellers are driven out to the city periphery, favela residents say.

While millions of eyes turn to north-eastern Brazil for the World Cup draw on Friday, poor communities in Rio de Janeiro are still struggling to be heard as they fight against evictions they say are related to the city’s mega sporting events.

Next year, Rio will host seven games, including the final, followed in 2016 by the Olympics. The city’s mayor, Eduardo Paes, describes this as an opportunity for the city to modernise and create a legacy for future generations. But many of those on the frontline of change feel they are the victims of social cleansing.

At least 19,000 families have been moved to make way for roads, renovated stadiums, an athletes’ village, an ambitious redevelopment of the port area and other projects that have been launched or accelerated to prepare the city for the world’s two biggest sporting events.

“The authorities wouldn’t even enter our community in the past and there was no mention of moving us, but then Brazil won the right to host the World Cup and everything changed,” Maria do Socorro told a hearing in the city council building this week. Socorro’s home of 40 years in the Indiana favela has been marked for demolition.

Countless communities are affected. Among the best known are Vila Autódromo, which will be the site of the main Olympic stadium and athletes’ village; Providência, which is close to the port redevelopment and Indiana, which is about 10 minutes’ drive from the newly refurbished Maracanã stadium.

As was the case in Beijing, London and South Africa before their mega events, the government says such programmes are necessary to modernise the city. Numerous relocations have been carried out in the past as Rio has evolved, but politicians and campaigners say the forthcoming sporting events are driving the process forward at an unprecedented rate, and often in violation of the law. “The government is obliged to publicise preliminary studies, listen to the views of affected communities and offer alternative housing close to their old homes, but the Rio municipality has not complied with any of these laws,” said Renato Cinco, a council member for the leftwing PSOL party.

“People are being moved more than 40km [25 miles] from their homes with very little prior notice and no compensation.”

Civil society groups say the relocations are motivated by surging land values. As new infrastructure is put in place for the World Cup and Olympics, property prices rise in the surrounding areas.

Maracanã stadium

The revamped Maracanã stadium, which is 10 minutes’ drive from the Indiana favela. Photograph: Owen Humphreys/PA

“There is a process of gentrification taking place in the whole city that is connected to the sports events and how the government sees the city: it is no longer a place for residents, but as a business to sell to foreign investors. That’s what the World Cup is about,” said Renata Neder of Amnesty.

“There have been waves of evictions in the past, but this latest one that began after Rio was chosen to host the mega events may be the biggest one yet in terms of numbers.

“The authorities insist that due process has been followed and no residents have been forcibly relocated. The Rio 2016 chief operating officer, Leo Gryner, said the high-profile case of Vila Autódromo showed how far the government was willing to go to accommodate residents.

“In Vila Autódromo the mayor said he would move people to a new place and build nice housing projects for people to move to a new area. People started protesting, saying you couldn’t evict people because of the Olympics. So after some time, the city admitted they should not have forced them to go. They talked to each one of the people living in that area, roughly half said they wanted to move and the other half wanted to stay,” he said.

“Then when they started to see the project going up they realised it was very nice and so they came here to demonstrate and demand to be moved to the new housing! The city talked to everyone.” This is refuted by residents.

That is disputed by residents. And in less prominent cases, residents complain of being harassed by officials and engineers who tell them their homes are not safe. In some cases, this is true. Thousands have died over the years in the floods and landslides that affect many river and hillside favelas during the annual rainy season.

But a visit to the Indiana favela, which sits next to the river Maracanã, suggested the genuine threat to a handful of homes may be being used to justify the clearance of swaths of the community.

Several houses, including two wooden shacks, sat below the flood line and looked too poorly built to withstand a deluge. But the majority of homes marked for demolition – including several that had already been destroyed – were on seemingly firm concrete foundations several metres above the flood line.

“It is true that there are risks from the river, but only in certain places. The problem is that the government is arbitrarily trying to move everyone, even those who are not at risk,” said Ines Ferreira de Abril, a local health worker.”

Many people have already moved out under the relentless pressure from the government. They are going house by house and ultimately, they want to get rid of all of us because this land is very valuable now. They want us out of the way before the big events.”

• This article was amended on 6 December 2013 to clarify that Leo Gryner’s comments about Vila Autódromo are disputed by residents. This article was further amended on 11 December 2013 to correct Renato Cinco’s name, from Renata Silva as the original said.

Brazil: Drug dealers say no to crack in Rio (AP)

By JULIANA BARBASSA

Associated Press

Published: Saturday, Aug. 18, 2012

RIO DE JANEIRO — Business was brisk in the Mandela shantytown on a recent night. In the glow of a weak light bulb, customers pawed through packets of powdered cocaine and marijuana priced at $5, $10, $25. Teenage boys with semiautomatic weapons took in money and made change while flirting with girls in belly-baring tops lounging nearby.

Next to them, a gaggle of kids jumped on a trampoline, oblivious to the guns and drug-running that are part of everyday life in this and hundreds of other slums, known as favelas, across this metropolitan area of 12 million people. Conspicuously absent from the scene was crack, the most addictive and destructive drug in the triad that fuels Rio’s lucrative narcotics trade.

Once crack was introduced here about six years ago, Mandela and the surrounding complex of shantytowns became Rio’s main outdoor drug market, a “cracolandia,” or crackland, where users bought the rocks, smoked and lingered until the next hit. Hordes of addicts lived in cardboard shacks and filthy blankets, scrambling for cash and a fix.

Now, there was no crack on the rough wooden table displaying the goods for sale, and the addicts were gone. The change hadn’t come from any police or public health campaign. Instead, the dealers themselves have stopped selling the drug in Mandela and nearby Jacarezinho in a move that traffickers and others say will spread citywide within the next two years.

The drug bosses, often born and raised in the very slums they now lord over, say crack destabilizes their communities, making it harder to control areas long abandoned by the government. Law enforcement and city authorities, however, take credit for the change, arguing that drug gangs are only trying to create a distraction and persuade police to call off an offensive to take back the slums.

Dealers shake their heads, insisting it was their decision to stop selling crack, the crystalized form of cocaine.

“Crack has been nothing but a disgrace for Rio. It’s time to stop,” said the drug boss in charge. He is Mandela’s second-in-command – a stocky man wearing a Lacoste shirt, heavy gold jewelry and a backpack bulging with $100,000 in drugs and cash. At 37, he’s an elder in Rio’s most established faction, the Comando Vermelho, or Red Command. He’s wanted by police, and didn’t want his name published.

He discussed the decision as he watched the night’s profits pile up in neat, rubber-banded stacks from across the narrow street. He kept one hand on his pistol and the other on a crackling radio that squawked out sales elsewhere in the slum and warned of police.

The talk of crack left him agitated; he raised his voice, drawing looks from the fidgety young men across the road. Although crack makes him a lot of money, he has his own reasons to resent the drug; everyone who comes near it does, he said.

His brother – the one who studied, left the shantytown and joined the air force – fell prey to it. Crack users smoke it and often display more addictive behavior. The brother abandoned his family and his job, and now haunts the edges of the slum with other addicts.

“I see this misery,” he said. “I’m a human being too, and I’m a leader here. I want to say I helped stop this.”

For the ban to really take hold, it would need the support of the city’s two other reigning factions: the Amigos dos Amigos, or Friends of Friends, and the Terceiro Comando, Third Command.

That would mean giving up millions in profits. According to an estimate by the country’s Security Committee of the House and the Federal Police, Brazilians consume between 800 kilos and 1.2 tons of crack a day, a total valued at about $10 million.

It’s unclear how much Rio’s traffickers earn from the drug, but police apprehensions show a surge in its availability in the state. In 2008, police seized 14 kilos; two years later the annual seizure came to 200 kilos, according to the Public Security Institute.

Nonetheless, the other gangs are signing up, said attorney Flavia Froes. Her clients include the most notorious figures of Rio’s underbelly, and she has been shuttling between them, visiting favelas and far-flung high-security prisons to talk up the idea.

“They’re joining en masse. They realized that this experience with crack was not good, even though it was lucrative. The social costs were tremendous. This wasn’t a drug for the rich; it was hitting their own communities.”

As Froes walks these slums, gingerly navigating potholed roads in six-inch stiletto heels and rhinestone-studded jeans, men with a gun in each hand defer to her, calling her “doutora,” or doctor, because of her studies, or “senhora,” or ma’am, out of respect.

“While stocks last, they’ll sell. But it’s not being bought anymore,” she said. “Today we can say with certainty that we’re looking at the end of crack in Rio de Janeiro.”

Even those who question the traffickers’ sudden surge of social conscience say the idea of the city’s drug lords coming together to ban crack isn’t far-fetched. After all, a similar deal between factions kept the drug out of Rio for years.

Crack first took hold in Sao Paulo, the country’s business capital, during the 1990s. In the early 2000s, it spread across Brazil in an epidemic reminiscent of the one the U.S. had experienced decades earlier. A recent survey found it was eventually sold or consumed in 98 percent of Brazilian municipalities. Most of the cities were too understaffed, underfunded and uninformed to resist its onslaught.

And yet, an agreement between factions kept crack a rarity in Rio until a handful of years ago, said Mario Sergio Duarte, Rio state’s former police chief.

“Rio was always cocaine and marijuana,” he said. “If drug traffickers are coming up with this strategy of going back to cocaine and marijuana, it’s not because they suddenly developed an awareness, or because they want to be charitable and help the addicts. It’s just that crack brings them too much trouble to be worth it.”

Duarte believes dealers turned to crack when their other business started losing ground within the city.

Police started taking back slums long given over to the drug trade as Rio vied to host the 2014World Cup and the 2016 Olympics. The plan disrupted trade, and the factions began hemorrhaging money, said Duarte. Crack seemed like the solution, and the drug flooded the market.

“Crack was profit; it’s cheap, but it sells. Addiction comes quick. They were trying to make up their losses,” he said.

Soon, the gangs were being haunted by the consequences.

Unlike the customers who came for marijuana or cocaine, dropped cash and left, crack users hung around the sales points, scraping for money for the next hit. They broke the social code that usually maintains a tense calm in the slums; they stole, begged, threatened or sold their bodies to get their next rock. Their presence made the hard life there nearly unbearable.

The Mandela drug boss said crack even sapped the drug kingpins’ authority.

“How can I tell someone he can’t steal, when I know I sold him the drugs that made him this way?” he said.

Many saw their own family members and childhood friends fall under the drug’s spell.

“The same crack I sell to your son is being sold to mine. I talked to one of the pioneers in selling crack in Rio. His son’s using now. Everyone is saying we have to stop.”

In Mandela, residents had to step over crack users on their way between home and work and warn their children to be careful around the “zombies.”

“There were robberies in the favela, violence, people killed in the middle of the street, people having sex or taking a crap anywhere,” said Cleber, an electronics repair shop owner who has lived in Mandela for 16 years. He declined to give his last name because he lives in a neighborhood ruled bygang members, and like many, prefers not to comment publicly.

“Now we’re going out again, we can set up a barbecue pit outside, have a drink with friends, without them gathering around,” he said. “We’re a little more at ease.”

Researcher Ignacio Cano, at the Violence Analysis Center of Rio de Janeiro State University, said crack is still being sold outside only select communities and that it’s hard to tell if the stop is a temporary, local measure or a real shift in operations citywide.

He said unprecedented pressure bore down on drug gangs once they began selling crack. In particular, the addicts’ encampments were sources of social and health problems, drawing the attention of the authorities.

Since March 2011, dawn raids involving police, health and welfare officials began taking users off the streets to offer treatment, food, a checkup and a hot shower. Since then, 4,706 people have cycled through the system. Of those, 663 were children or teenagers.

“I have operations every day, all over Rio,” said Daphne Braga, who coordinates the effort for the city welfare office.

At the same time, crack became such a dramatic problem nationally that the government allocated special funds to combat it, including a $253 million campaign launched by President Dilma Rousseff in May 2010 to stem the drug trade. Last November, another $2 billion were set aside to create treatment centers for addicts and get them off the streets.

In May, 150 federal police officers occupied a Rio favela to implement a pilot program fighting the crack trade and helping users.

“There are many reasons why they might stop,” said Cano.

Crack’s social cost is clear where the drug is still sold, right outside Mandela and Jacarezinho. In the shantytown of Manguinhos, along a violent area known as the Gaza Strip, an army of crack addicts lives in encampments next to a rail line.

Another couple hundred gather inside the slum, buying from a stand inside a little restaurant. Customers eat next to young men with guns and must step around a table laden with packaged drugs and tightly bound wads of cash to use the restroom. Crack users smoke outside, by the lights of a community soccer field where an animated game draws onlookers late into the night.

The Rev. Antonio Carlos Costa, founder of the River of Peace social service group, knows the dealers and believes the ban on crack here is “real, without return, and has a real chance of spreading to other favelas.”

That’s good news for residents, he said, but users will have to migrate to look for drugs, and that might expose them to real risk.

“They won’t be welcome. This society wants them dead,” he said. “This won’t be a problem that can be solved only with money. We’ll need professionals who really take an interest in these people. We’ll need compassion. It’ll be a challenge to our solidarity.”

Also predicting risks, attorney Froes has prepared a civil court action demanding local and state governments prepare treatment centers for users.

“There will be a great weaning of all these addicts as they’re deprived of drugs,” she said. “We’re not prepared to take on all the people who will need care.”

The addicts recognize the difficulty of their own rehabilitation.

One 16-year-old boy laying on a bare piece of foam said he’d studied until the 2nd grade but couldn’t read. Now, he was going on his third year in the streets.

“Who is going to give me work?” he asked.

Sharing his mattress was a 28-year-old woman. It had been three years since she last saw her three children and parents in Niteroi, the city across the bay from Rio. She was filthy, all of her body bearing the marks of life on the streets: bruises and open wounds, missing front teeth, matted hair.

“I wasn’t born like this. You think my parents want to see me now?” she asked. “I can’t go back there.”

A teenager with jaundiced, bloodshot eyes said she couldn’t remember how long she’d been on the streets, or her age.

She knew her name – Natalia Gonzales – and that she was born in 1997.

“I have nowhere to go,” she said, tears rolling down her cheeks. Softly, she started to sing a hymn, and its call for salvation in the afterlife took on an urgent note.

“God, come save me, extend your hand,” she sang. “Heal my heart, make me live again.”

In the Name of the Future, Rio Is Destroying Its Past (N.Y.Times)

OP-ED CONTRIBUTORS

By THERESA WILLIAMSON and MAURÍCIO HORA

Published: August 12, 2012

THE London Olympics concluded Sunday, but the battle over the next games has just begun in Rio, where protests against illegal evictions of some of the city’s poorest residents are spreading. Indeed, the Rio Olympics are poised to increase inequality in a city already famous for it.

Last month, Unesco awarded World Heritage Site status to a substantial portion of the city, an area that includes some of its hillside favelas, where more than 1.4 million of the city’s 6 million residents live. No favela can claim greater historical importance than Rio’s first — Morro da Providência — yet Olympic construction projects are threatening its future.

Providência was formed in 1897 when veterans of the bloody Canudos war in Brazil’s northeast were promised land in Rio de Janeiro, which was then the federal capital. Upon arriving, they found no such land available. After squatting in front of the Ministry of War, the soldiers were moved to a nearby hill belonging to a colonel, though they were given no title to the land. Originally named “Morro da Favela” after the spiny favela plant typical of the Canudos hills where soldiers had spent many nights, Providência grew during the early 20th century as freed slaves joined the soldiers. New European migrants came as well, as it was the only affordable way to live near work in the city’s center and port.

Overlooking the site where hundreds of thousands of African slaves first entered Brazil, Providência is part of one of the most important cultural sites in Afro-Brazilian history, where the first commercial sambas were composed, traditions like capoeira and candomblé flourished and Rio’s Quilombo Pedra do Sal was founded. Today 60 percent of its residents are Afro-Brazilian.

Over a century after its creation, Providência still bears the cultural and physical imprint of its initial residents. But now it is threatened with destruction in the name of Olympic improvements: almost a third of the community is to be razed, a move that will inevitably destabilize what’s left of it.

By mid-2013 Providência will have received 131 million reais ($65 million) in investments under a private-sector-led plan to redevelop Rio’s port area, including a cable car, funicular tram and wider roads. Previous municipal interventions to upgrade the community recognized its historical importance, but today’s projects have no such intent.

Although the city claims that investments will benefit residents, 30 percent of the community’s population has already been marked for removal and the only “public meetings” held were to warn residents of their fate. Homes are spray-painted during the day with the initials for the municipal housing secretary and an identifying number. Residents return from work to learn that their homes will be demolished, with no warning of what’s to come, or when.

A quick walk through the community reveals the appalling state of uncertainty residents are living in: at the very top of the hill, some 70 percent of homes are marked for eviction — an area supposedly set to benefit from the transportation investments being made. But the luxury cable car will transport 1,000 to 3,000 people per hour during the Olympics. It’s not residents who will benefit, but investors.

Residents of Providência are fearful. Only 36 percent of them hold documentation of their land rights, compared with 70 percent to 95 percent in other favelas. More than in other poor neighborhoods, residents are particularly unaware of their rights and terrified of losing their homes. Combine this with the city’s “divide and conquer” approach — in which residents are confronted individually to sign up for relocation, and no communitywide negotiations are permitted — and resistance is effectively squelched.

Pressure from human rights groups and the international news media has helped. But brutal evictions continue as well as new, subtler forms of removal. As part of the city’s port revitalization plan, authorities declared the “relocations” to be in the interest of residents because they live in “risky areas” where landslides might occur and because “de-densification” is required to improve quality of life.

But there is little evidence of landslide risk or dangerous overcrowding; 98 percent of Providência’s homes are made of sturdy brick and concrete and 90 percent have more than three rooms. Moreover, an important report by local engineers showed that the risk factors announced by the city were inadequately studied and inaccurate.

If Rio succeeds in disfiguring and dismantling its most historic favela, the path will be open to further destruction throughout the city’s hundreds of others. The economic, social and psychological impacts of evictions are dire: families moved into isolated units where they lose access to the enormous economic and social benefits of community cooperation, proximity to work and existing social networks — not to mention generations’ worth of investments made in their homes.

Rio is becoming a playground for the rich, and inequality breeds instability. It would be much more cost-effective to invest in urban improvements that communities help shape through a participatory democratic process. This would ultimately strengthen Rio’s economy and improve its infrastructure while also reducing inequality and empowering the city’s still marginalized Afro-Brazilian population.

Theresa Williamson, the publisher of RioOnWatch.org, founded Catalytic Communities, an advocacy group for favelas. Maurício Hora, a photographer, runs the Favelarte program in the Providência favela.

*   *   *

APRIL 2, 2012

Are the Olympics More Trouble Than They’re Worth?

ProtestingToby Melville/Reuters

Winning a bid to host the Olympics is just the beginning. As London prepares for the 2012 Games this summer, residents have plenty of doubts: Will it be too expensive? Will it disrupt life too much? In the end, will they be better off because of the Games, or just saddled with public debt and a velodrome no one knows what to do with?

What about Rio de Janeiro: Will it come out ahead, after having hosted the Pan American Games in 2007, the World Cup in 2014 and the Olympics in 2016?

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DEBATERS

Neil Jameson

The Games Help Londoners

NEIL JAMESON, LEAD ORGANIZER, LONDON CITIZENS

This is the world’s first “Living Wage Olympics,” and East London residents will reap the rewards.

Julian Cheyne

The Games Hurt Londoners

JULIAN CHEYNE, EVICTED RESIDENT, EAST LONDON

The Olympics are an expensive distraction that sets dangerous precedents, coddling the elite and trampling the poor.

Theresa Williamson

A Missed Opportunity in Rio

THERESA WILLIAMSON, FOUNDER, CATALYTIC COMMUNITIES

In preparing for the World Cup and the Olympics, Rio could make long-term investments and integrate the favelas. Instead it is aggravating its problems.

Bruno Reis

Brazil Can Come Out Ahead

BRUNO REIS, RISK ANALYST IN BRAZIL

These Games represent a golden opportunity, but will Rio de Janeiro repeat the success of Barcelona or the failure of Athens?

Andrew Zimbalist

Venues as an Asset or an Albatross

ANDREW ZIMBALIST, ECONOMIST, SMITH COLLEGE

Olympics planning takes place in a frenzied atmosphere — not optimal conditions for contemplating the future shape of an urban landscape.

Mitchell L. Moss

New York Is Lucky Not to Have the Games

MITCHELL L. MOSS, NEW YORK UNIVERSITY

London will be a morass this summer. Meanwhile, there has never been a better time to visit New York City.