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Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

Carlos Fausto e Luiz Costa: Estupro e assassinato de indígenas atestam nosso fracasso civilizacional (Folha de S.Paulo)

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Povos da Amazônia viraram alvo de garimpeiros e facções que querem roubar suas terras e seus direitos

Carlos Fausto

21 de maio de 2022


[RESUMO] Em abril, mês em que se comemora o Dia do Índio, inúmeros relatos de assassinato, intimidação e estupro de indígenas ganharam repercussão na imprensa, exemplos trágicos que se repetem em um quadro de falta de fiscalização, investigações superficiais e normalização da violência por parte da sociedade.

“A Marca da Maldade”, filme de Orson Welles de 1958, começa com um plano-sequência no qual um homem arma uma bomba e a coloca no porta-malas de um carro. O plano dura mais de três minutos, nos quais a vida flui normalmente. A tragédia, porém, está anunciada. Sabemos o que vai acontecer, apesar de não sabermos quando.

Nos últimos anos, bombas vêm sendo colocadas em muitas partes da Amazônia, visando especialmente as terras indígenas. Como são múltiplas e plantadas por vários atores em diferentes lugares, acabam por minar nossa capacidade de reação. O excesso desorienta, e a violência se vê normalizada.

No mês de abril, quando se comemora o Dia do Índio, várias más notícias ocuparam as páginas dos jornais. Eis alguns dos títulos: “Garimpeiros abusam sexualmente de indígenas durante invasão e obrigam ingestão de gasolina com água, denunciam entidades” (O Globo, 21.abr), “Menina ianomâmi de 12 anos foi estuprada e morta por garimpeiros, diz líder indígena” (Estado de S. Paulo, 27.abr), “Justiça determina segurança da Força Nacional na terra dos Parakanã” (Amazônia Real, 1º.mai).

A ampla divulgação desses episódios é um fato positivo, que resulta, sobretudo, do acesso dos indígenas à internet. Contudo, sempre que são noticiados, logo surge uma reação para desacreditar os relatos.

Os órgãos responsáveis fazem uma investigação superficial e concluem que não há evidências de crime –como se crime não houvesse na própria invasão de terras protegidas, na derrubada da cobertura florestal, na contaminação de cursos d’água e nas ameaças à população indígena local.

Já assistimos a isso na história da Amazônia. O caso mais célebre é o do genocídio perpetrado pelos barões da borracha, no Peru e na Colômbia, nas primeiras décadas do século 20.

O sistema extrativista ali funcionava à base de assassinatos, tortura e estupros, mas poucos queriam acreditar nisso, mesmo quando testemunhas oculares davam conta de que se “matava a sangue frio”, que “os corpos eram devorados por cães”, que “as crianças eram desmembradas e jogadas ao fogo” (conforme registros do “Libro Azul Británico: Informes de Roger Casement y Otras Cartas sobre las Atrocida­des en el Putumayo”).

Há algumas semanas, os parakanãs da bacia do Tocantins veem-se ameaçados pela população de Novo Repartimento (PA). Em 24 de abril, três jovens invadiram a terra indígena para caçar e desapareceram. Vários áudios logo começaram a circular na região: “Vamos entrar na aldeia e vamos começar a matar índio” ou “vamos reunir 200 homens armados para botar os índios para correr”.

Esses áudios desenterraram fantasmas que pareciam sepultados. Em 1930, o então diretor da Estrada de Ferro do Tocantins reuniu um grupo armado para atacar os asurinis, que, junto com os parakanãs, “atrapalhavam” a construção da ferrovia. O grupo alcançou um acampamento asurini e matou vários indígenas, incluindo mulheres e crianças.

No retorno da expedição, o chefe de polícia segredou ao funcionário local do Serviço de Proteção aos Índios: “O meu galão é o refrigério de minha família, mas eu prefiro perdê-lo a fazer outra viagem com o mesmo fim desta feita agora; nunca vi tanta barbaridade” (trecho do inquérito da Inspetoria do Pará e Maranhão sobre massacre sofrido por índios bravios em Tocantins, julho de 1930).

Quarenta anos depois do massacre, a Transamazônica cortaria o território dos parakanãs, levando à sua “pacificação”, como se costuma chamar o desastroso processo que, no caso, causou a morte de um terço da população. Desde então, as relações com a população local foram se acomodando, mas agora parecem ter azedado de vez.

Em 30 de abril, os corpos dos caçadores foram encontrados dentro da Terra Indígena Parakanã, levando a novas ameaças nas redes sociais, inclusive uma que propunha “leis de extermínio a toda essa raça e seus defensores”.

No dia 2 de maio, os parakanãs responderam, divulgando uma nota dirigida aos “Prezados amigos(as) e irmãos(ãs) toria (não indígena) de Novo Repartimento e familiares”, na qual afirmam: “Sempre nós vivemos aqui. Vocês chegaram depois, nasceram depois. Por isso nós queremos dizer para que não nos ameace, não digam que não nos querem na cidade, pois esse lugar é nosso também. Nós desejamos viver em paz. Não lancem o seu ódio contra os awaete, pois isso não é justo” (Grupo de Maroxewara –awaete parakanã).

Alguns dias antes desse episódio, a 2.000 quilômetros dali, os kanamaris da aldeia Jarinal, na Terra Indígena Vale do Javari, no sudoeste da Amazônia, tiveram suas casas invadidas por garimpeiros.

Eles chegaram exigindo tratamento médico pela equipe da Secretaria Especial de Saúde Indígena. Uma vez atendidos, não partiram. Fizeram festa até o amanhecer, obrigando os kanamaris a beber uma mistura de gasolina e água.

Situada no médio curso do rio Jutaí, Jarinal é uma aldeia bastante remota. No alto curso do rio, vivem povos em isolamento voluntário, tornando a área ainda mais sensível. Apesar das promessas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) jamais implantou uma base avançada na região.

De início, aliás, o próprio órgão duvidou dos relatos dos kanamaris. Foi preciso que um representante do Conselho Indígena Kanamari do Juruá e Jutaí (Cikaju) enviasse áudios e fotos por WhatsApp para que se pudesse embasar a denúncia oferecida ao MPF (Ministério Público Federal).

Uma semana depois, o cacique de Jarinal comunicou que estava sendo ameaçado de morte, dessa vez por caçadores de uma fazenda contígua à terra indígena, que se utilizam regularmente de trilhas dentro da área.

Ainda no mesmo mês de abril, outra tragédia atingiu os povos indígenas, dessa vez em Roraima. Em 25 de abril, Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena local, denunciou que uma menina yanomami de 12 anos havia sido estuprada e morta por garimpeiros na comunidade de Aracaçá, na região de Waikás. Após ampla divulgação pela imprensa, uma equipe com agentes da Polícia Federal se deslocou para lá.

No dia seguinte, já se noticiava que não havia indícios de crime. Lançavam-se, assim, dúvidas sobre a veracidade da denúncia. A maquinaria para desacreditar os “relatos” indígenas fora novamente posta em ação.

Em nota de 29 de abril, Júnior Hekurari afirma que, ao chegarem à comunidade de Aracaçá, dois dias antes, encontraram a aldeia vazia e em chamas. Após certo tempo, alguns moradores apareceram, mas afirmaram que nada podiam dizer, pois haviam recebido 5 gramas de ouro para ficarem em silêncio. A cultura da sedução e do terror, tão bem-conhecida na história da Amazônia, impera na região.

Estupro e morte se tornaram fatos corriqueiros nas áreas invadidas da Terra Indígena Yanomami. No relatório “Yanomami sob ataque” (2022), da Hutukara Associação Yanomami, encontram-se vários depoimentos na língua indígena, acompanhados de tradução, que deixam isso nítido.

Eis um trecho ilustrativo de um depoimento de uma mulher: “Estão transando muito com as mulheres. É tanto assim que, em 2020, três moças, que tinham apenas por volta de 13 anos, morreram. Os garimpeiros transaram muito com essas moças, embriagadas de cachaça. Elas eram novas, tendo apenas tido a primeira menstruação”.

Bebida, estupro, violência, intimidação, morte. Os indígenas são violados, o ambiente é violado, e você que nos lê, também é (ainda que pense nada ter a ver com isso).

A exploração mineral no Brasil, mesmo fora de áreas indígenas, não é fiscalizada. Os recursos da Amazônia são drenados sem qualquer benefício coletivo, alimentando a engrenagem que, há séculos, gera riqueza para poucos e pobreza para muitos em nosso país.

Não é de surpreender que facções criminosas estejam atuando nos garimpos da região. Afinal, é um negócio lucrativo, sem fiscalização, que conta com o beneplácito de várias instâncias de governo.

Os povos indígenas resistem, mas hoje viraram alvos do ódio de uma facção política que lhes quer roubar os direitos e as terras garantidos pela Constituição de 1988. Não se enganem: o que temos diante de nós não é uma derrota política, mas uma regressão civilizacional.

Segredo de polichinelo: ao final do magistral plano-sequência de Orson Welles, a bomba explode e o carro, lançado aos ares, é consumido pelas chamas. É urgente desarmar as bombas e, como costumam dizer os indígenas, “pacificar os brancos”.

Brasil devastou quase 90% da mata atlântica e 20% da Amazônia depois da Independência (Folha de S.Paulo)

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País dilapida patrimônio natural único e ignora urgências da crise do clima

Marcelo Leite

21 de maio de 2022


[RESUMO] A preocupação com o desmatamento é tão antiga quanto a Independência, mas José Bonifácio foi derrotado por oligarquias escravistas em suas tentativas de disciplinar a exploração e a derrubada de florestas. Dois séculos depois, o Brasil de Bolsonaro retrocede à versão mais primitiva do mito do berço esplêndido e trata o ambiente, na contramão da emergência climática, como se fosse fonte inesgotável de riquezas para pilhar.

Em 1822, o patrimônio ambiental do território que se tornava o Império do Brasil não diferia muito do que portugueses haviam encontrado três séculos antes. A devastação da mata atlântica, primeira vítima natural da colonização, prosseguia a ferro e fogo, mas concentrada no entorno de poucos centros urbanos, muitos canaviais, áreas de pecuária e a lavoura incipiente de café.

O mesmo não se pode dizer dos povos indígenas, vários já extintos naquela altura. No século 16, eles contavam algo entre 2 e 8 milhões de indivíduos, calcula-se. Sobreviveram à frente colonial os que se internaram nos sertões da caatinga, do cerrado e da floresta amazônica, deixando a costa para o domínio do branco e a labuta dos escravizados da África.

São hoje 305 povos indígenas remanescentes, segundo o IBGE. No Censo de 2010, somavam 897 mil pessoas, menos de 0,5% da população, das quais 572 mil em áreas rurais (sobretudo aldeias) e 325 mil em cidades.

No mesmo recenseamento, mais de 82 milhões de habitantes se declararam pardos (43,1% do total). Outros 15 milhões se identificaram como pretos (7,6%), perfazendo assim uma maioria de brasileiros descendentes dos 4,8 milhões de negros sequestrados na África.

Essa deriva populacional é indissociável da história do meio ambiente no Brasil. A dizimação de povos indígenas acompanhou a marcha predatória para oeste no século 20, com meios técnicos bem mais poderosos que a limitada força produtiva da legião de escravizados.

Na virada do século 19 para o 20, logo após a Abolição (1888), estima-se que a mata atlântica ainda tinha cerca de 90% da cobertura original de pé, mesmo após quatro séculos de predação. Hoje, 130 anos depois, restam apenas 12,4% da vegetação do bioma. No início do século passado, Amazônia, cerrado e caatinga estavam quase intocados.

A tríade genocídio, escravização e desmatamento compõe a matriz da exploração do território forjada no período colonial, com reflexos até os dias de hoje. A crítica à forma peculiar de atraso, embora atual, não emergiu com a consciência ambiental nos anos 1970, mas já com a própria nação brasileira.

Na proa do ambientalismo precoce esteve José Bonifácio de Andrada e Silva, alcunhado patriarca da Independência, como detalha o historiador José Augusto Pádua no livro “Um Sopro de Destruição: Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil Escravista, 1786-1888“.

Andrada passou a maior parte da vida adulta em Portugal, para onde partiu aos 20 anos. Formou-se na Universidade de Coimbra sob influência do Iluminismo e do naturalista italiano Domenico Vandelli, professor da universidade e crítico da destruição ambiental no país e em suas colônias. Só em 1819, aos 56, retornou ao Brasil, onde se tornaria ministro do Império.

Pádua destaca no livro quatro elementos essenciais da obra de Andrada: visão de mundo fundada na economia da natureza, defesa do progresso econômico como instrumento civilizatório, apologia da racionalização das técnicas produtivas pela aplicação pragmática do conhecimento científico, crítica da exploração destrutiva dos recursos naturais.

Antes mesmo da Independência, ele foi chamado pelo príncipe regente, futuro Pedro 1º, para chefiar o gabinete de ministros. Passou a defender ideias avançadas para a época, como emancipação gradual de escravizados, assimilação de indígenas, educação popular e imigração estrangeira.

Propunha a superação do modelo agrícola colonial calcado no latifúndio, na monocultura e na destruição florestal. Tal prática deveria ser transformada com reforma agrária, difusão de métodos agronômicos modernos e ambientalmente equilibrados, relata Pádua.

Para o visionário, florestas eram fundamentais para manter a fertilidade da terra e a abundância de água. A venda ou a distribuição de terras pela Coroa deveria ficar subordinada à condição de manter um sexto da área com matas originais ou plantadas.

A carreira política de Andrada foi curta. Já em 1823, deixou o ministério, em julho; em novembro, foi preso e exilado na França, onde ficaria até 1829. Retoma os projetos em 1831, como tutor dos filhos do imperador, mas é deposto em 1833. Refugiou-se em Paquetá até a morte, cinco anos depois.

Oligarquias regionais, latifundiárias e escravistas jamais aceitaram o programa de Andrada. Sua derrota, assim como a consagração como estadista, da qual a historiografia omitiu, entretanto, o ideário ambiental, dizem muito sobre a indisposição da elite nacional, desde sempre, para tirar o país do atraso.

Pádua traça um paralelo com os Estados Unidos, outra nação jovem com vastos recursos naturais, mas não tropical, que também dizimou indígenas e explorou negros escravizados. As terras a oeste foram ocupadas cedo com levas de imigrantes, enquanto o Brasil permanecia dependente da escravidão.

Em 1822, a população brasileira era de 4,6 milhões de habitantes, contra 9,6 milhões de norte-americanos. Em 1900, éramos ainda 17,4 milhões, ao passo que, nos EUA, já viviam 76,3 milhões.

“A permanência desse olhar para um horizonte dotado de gigantescas formações naturais e aberto para um avanço futuro praticamente ilimitado, parecendo tornar desnecessários os esforços e os custos envolvidos na conservação e no uso cuidadoso das áreas já abertas, é possivelmente a marca central da história ambiental do Brasil”, diagnostica Pádua.

É o que ele chama de mito do berço esplêndido, expressão tirada do primeiro verso da segunda parte do hino nacional, a menos cantada. Um mito ambíguo, que pôs a natureza exuberante no centro da autoimagem da nação que surgia, motivando as missões científicas de naturalistas patrocinadas pelo Império, mas também a pintava como recurso em aparência infinito a ser explorado.

“Somos definidos pela confluência de abundâncias, abusos e ganâncias”, afirma Natalie Unterstell, do centro de estudos climáticos Talanoa e do Monitor da Política Ambiental, uma parceria com a Folha.

“O mito do berço esplêndido inscreveu uma perspectiva linear e cumulativa de expansão territorial progressiva”, diz.

“O algoritmo original da nação brasileira, que foi infelizmente tão bem demonstrado na devastação da mata atlântica, nos impulsionou a acelerar a destruição ambiental, partindo do pressuposto de que nossa base de recursos é infindável e que o custo da conversão de biodiversidade é nulo.”

Se o algoritmo já estava pronto e, por assim dizer, testado em 1,1 milhão de quilômetros quadrados da mata atlântica (13% do território nacional), demorou a ser aplicado em outros dois biomas florestais muito mais vastos: floresta amazônica(4,2 milhões de km2,ou 49%) e cerrado (2 milhões de km2, 24%).

O sopro de destruição de que fala Pádua só varreria o restante do território no século 20. O ímpeto modernizador que levou à Revolução de 1930 criou a noção de que era preciso ocupar o interior e levar o desenvolvimento para os sertões.

“Governar é povoar”, dizia o presidente Afonso Pena (1906-1909). Washington Luís(1926-1930) aproveitou o mote e o ampliou quando ainda era governador de São Paulo: “Governar é abrir estradas”.

Um século depois dos Estados Unidos, o Brasil iniciava sua Marcha para Oeste, que culminaria com a inauguração de Brasília em 1960. Em lugar de cavalos e carroções, seguiam caminhões, ônibus, tratores e automóveis da nascente indústria automobilística. O petróleo era nosso.

Dos anos 1880, década da Abolição e da República, até 1940, quase 5 milhões de imigrantes chegaram ao país. A população se multiplicou por dez ao longo do século passado, mas em 1950 o Brasil ainda era um país atrasado: apenas 36% da população de 52 milhões vivendo em cidades, 51% de analfabetismo, expectativa de vida de meros 43 anos.

Do ponto de vista ambiental, entretanto, o atraso e o gigantismo legaram ao país uma situação única: 99% da maior floresta tropical do mundo estava de pé na Amazônia, alimentando algumas das maiores bacias hidrográficas do planeta, a garantir água para a nascente potência agropecuária.

Aí sobreveio a ditadura militar (1964-1985), com o ímpeto do chamado milagre econômico e um novo lema territorial: “Integrar para não entregar”. O mito do berço esplêndido passou a alicerçar a paranoia militar da cobiça internacional sobre a Amazônia.

O que era, até aí, uma vocação para destruir, apesar do ufanismo naturalista dos tempos do Império, ganhou escala e impacto com a grande aceleração do pós-guerra, como assinala o historiador José Augusto Pádua.

A população cresceu para mais de 214 milhões de pessoas. A produção de ferro pulou de 9 milhões de toneladas em 1950 para cerca de 400 milhões atualmente. A produção de grãos saltou de 39 milhões, em 1975, para cerca de 210 milhões de toneladas. A taxa de urbanização avançou a 85%.

Esse crescimento teve um lado muito positivo. Com a criação da Embrapa em 1973, na pior fase da ditadura, a agricultura mudou de patamar, ganhou produtividade e conquistou o planalto central para a soja, o milho e o gado bovino.

A produtividade agrícola brasileira subiu à taxa de 3,6% ao ano entre 1975 e 2010, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) –o dobro da velocidade observada nos Estados Unidos no mesmo período.

O Brasil chegou em ótima posição ao boom de commodities dos anos 2000. Surfando na abundância de recursos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criou o Bolsa Família e o ProUni e turbinou o Fies. Cotas raciais foram implementadas. A pobreza diminuiu, e a escolaridade aumentou.

Em contrapartida, o ambiente sofreu. Na euforia do pré-sal, cresceu a produção de petróleo e gás (para não falar da corrupção associada), combustíveis fósseis que agravam o aquecimento global.

A usina de Belo Monte desfigurou para sempre o emblemático Xingu. O rio dá vida e nome ao parque indígena (1961) dos irmãos Villas-Bôas, continuadores do indigenismo benigno do marechal Cândido Rondon. Ali vivem 16 etnias, algumas atraídas para a área para abrir espaço às companhias colonizadoras.

Aliada à incúria do poder público, a mineração de metais, outro setor impulsionado pelo apetite voraz da economia chinesa, desencadeou as hecatombes de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Ao todo, 289 mortos.

O crescimento da população urbana se deu de maneira desorganizada. As cidades incharam, sem saneamento básico, com muito trânsito, favelas e poluição atmosférica.

Quase metade (45%) dos brasileiros não tem acesso à rede de esgoto, e só metade do que se coleta passa por tratamento —o restante chega in natura aos rios, volume de dejetos equivalente a 5,3 milhões de piscinas olímpicas por ano, segundo o Instituto Trata Brasil. É mais que improvável cumprir a meta de universalizar água e esgoto até 2033.

A derrubada do cerrado avançou, e a devastação dessa savana brasileira com enorme biodiversidade ultrapassou metade da cobertura original. A floresta amazônica, que viu as taxas de desmatamento recuarem de 27.779 km2 a 4.571 km2 entre 2004 e 2012, voltou a crescer até alcançar 13.235 km2 em 2021, acumulando 20% de perda da vegetação ainda intacta na época da Independência.

“Na economia, usa-se o termo ‘voo de galinha’ para descrever os ciclos de desenvolvimento, e na área ambiental pode-se usar a mesma analogia”, diz Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa.

“Depois de recordes de descaso, reduzimos drasticamente o desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012, a maior ação de mitigação de emissão de gases de efeito estufa da história contemporânea, mostrando do que o Brasil é capaz quando trabalha sério para implementar uma política pública.”

Em paralelo, avançavam no mundo negociações para mitigar o aquecimento global e o pior da mudança climática. O governo brasileiro evoluiu de posições refratárias para algum protagonismo, a partir da Cúpula da Terra no Rio (1992) e do Protocolo de Kyoto (1997), o que se esboroaria de vez com Jair Bolsonaro (PL).

A destruição da Amazônia se tornou tema mundial em 1988, no governo de José Sarney (PMDB, 1985-1990), poucos anos após o fim da ditadura que cortou a região Norte com a rodovia Transamazônica. Queimadas se multiplicavam nos sensores de satélites, chamando a atenção da opinião pública mundial para a frente de ocupação predatória que resultaria na morte do líder seringueiro Chico Mendes.

Demorou uma década para a diplomacia e a Presidência da República se darem conta da oportunidade do país valorizar seu patrimônio florestal ímpar como capital político (soft power). E, também, para auferir créditos de carbono e pagamentos por serviço ambiental de matas que absorviam gases do efeito estufa da atmosfera.

O governo de Dilma Rousseff (PT) assumiu compromissos voluntários relativamente ambiciosos de diminuição de emissões de carbono para o Acordo de Paris (2015). O Brasil se prontificou a reduzir em 43%, até 2030, o lançamento de gases-estufa gerados, principalmente, pelo desmatamento.

Apesar de pequenos repiques nas cifras de devastação amazônica de 2013 a 2015, a média anual nesse triênio ainda estava em 5.700 km2. À luz da experiência na década anterior, não parecia assim tão difícil cumprir a meta assumida.

Tudo mudou após o impeachment da presidente, em 2016, que contou com amplo apoio da bancada ruralista no Congresso. Já naquele ano o desmate subiu para 7.893 km2 na Amazônia —e não parou mais.

A eleição de Jair Bolsonaro disseminou o retrocesso por todas as frentes. O presidente de extrema direita está cumprindo a promessa de não demarcar um centímetro das 265 terras indígenas ainda em estudos (do total de 725 identificadas).

Bolsonaro diz que não vai acatar eventual decisão do Supremo Tribunal Federal contra o chamado marco temporal, tese de que só têm direito ao reconhecimento de territórios povos que os ocupavam em 1988. Ou seja, os esbulhados antes da Constituição assim permaneceriam.

Políticas para prevenir desmatamento e mudanças climáticas também foram desmontadas, assim como se manietaram os órgãos de fiscalização Ibama e ICMBio. O Planalto inviabilizou o Fundo Amazônia e congelou R$ 3 bilhões para projetos de preservação e desenvolvimento sustentável, doados por Noruega e Alemanha.

“A falta de inteligência e criatividade, assim como a ganância de curto prazo e a preguiça política, podem gerar um cenário cada vez mais trágico no país, ao invés de aproveitar as oportunidades que a conjuntura histórica possa estar apresentando”, lamenta Pádua.

“É claro que o crescimento da grande exportação primária tem peso essencial, mas creio que não explica tudo. O sinal verde para os interesses de curto prazo de agentes econômicos locais, como garimpeiros e madeireiros, também é fundamental. O que espanta é o grau de atraso e a falta de inteligência estratégica na visão ambiental do atual governo. É como se décadas de debate sobre o imperativo da sustentabilidade fossem simplesmente ignoradas.”

A ideia de que repousamos como potência verde em um berço esplêndido de carbono, sem nada precisar fazer para gerar créditos, também é uma ilusão bolsonarista, aponta Natalie Unterstell. “Não somos uma Arábia Saudita do carbono: é preciso muito esforço para acabar com o desmatamento e, assim, conseguir gerar redução de emissões.”

Só depois da Constituição de 1988, mais de 743 mil km2 de floresta amazônica foram ao chão (quase 18% do bioma), ou o triplo da área do estado de São Paulo. Em meros 34 anos, os habitantes do berço esplêndido destruíram na Amazônia quase o mesmo tanto de mata atlântica que levaram cinco séculos para dizimar.

Só essa derrubada na Amazônia contribuiu com cerca de 32 bilhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono (GtCO2e), principal gás do efeito estufa, para agravar o aquecimento global. Para comparação: em um ano (2020), todas as atividades humanas no Brasil geram um total de 2,16 GtCO2e.

Incluindo tudo que se desmatou antes de 1988, um quinto da floresta amazônica já virou fumaça. O restante vai sendo degradado por garimpo, madeireiros ilegais e estradas clandestinas, além do aumento de temperatura e do ressecamento impostos pelo aquecimento global.

Chegando a um quarto de perda, o bioma deve entrar em colapso, prevê a ciência. A tragédia viria com a interrupção da maior célula terrestre de produção de chuvas no planeta, gerando impacto negativo na agricultura do país todo.

Se depender de Bolsonaro e da bancada ruralista incrustada no centrão, é o futuro que nos espera —para o qual fomos alertados há 200 anos pelo patriarca da Independência.

Why is climate ‘doomism’ going viral – and who’s fighting it? (BBC)

bbc.com

23 May 2022


By Marco Silva
BBC climate disinformation specialist

Illustration of two hands holding electronic devices showing melting planets.

Climate “doomers” believe the world has already lost the battle against global warming. That’s wrong – and while that view is spreading online, there are others who are fighting the viral tide.

As he walked down the street wearing a Jurassic Park cap, Charles McBryde raised his smartphone, stared at the camera, and hit the record button.

“Ok, TikTok, I need your help.”

Charles is 27 and lives in California. His quirky TikTok videos about news, history, and politics have earned him more than 150,000 followers.

In the video in question, recorded in October 2021, he decided it was time for a confession.

“I am a climate doomer,” he said. “Since about 2019, I have believed that there’s little to nothing that we can do to actually reverse climate change on a global scale.”

Climate doomism is the idea that we are past the point of being able to do anything at all about global warming – and that mankind is highly likely to become extinct.

That’s wrong, scientists say, but the argument is picking up steam online.

Still from one of Charles McBryde's videos on TikTok
Image caption, “I am a climate doomer,” Charles McBryde told his TikTok followers last October
‘Give me hope’

Charles admitted to feeling overwhelmed, anxious and depressed about global warming, but he followed up with a plea.

“I’m calling on the activists and the scientists of TikTok to give me hope,” he said. “Convince me that there’s something out there that’s worth fighting for, that in the end we can achieve victory over this, even if it’s only temporary.”

And it wasn’t long before someone answered.

Facing up to the ‘doomers’

Alaina Wood is a sustainability scientist based in Tennessee. On TikTok she’s known as thegarbagequeen.

After watching Charles’ video, she posted a reply, explaining in simple terms why he was wrong.

Alaina makes a habit of challenging climate doomism – a mission she has embraced with a sense of urgency.

“People are giving up on activism because they’re like, ‘I can’t handle it any more… This is too much…’ and ‘If it really is too late, why am I even trying?'” she says. “Doomism ultimately leads to climate inaction, which is the opposite of what we want.”

Sustainability scientist and TikToker Alaina Wood
Image caption, Sustainability scientist and TikToker Alaina Wood is on a mission to reassure people it is not too late for the climate
Why it’s not too late

Climate scientist Dr Friederike Otto, who has been working with the UN’s Intergovernmental Panel on Climate Change, says: “I don’t think it’s helpful to pretend that climate change will lead to humanity’s extinction.”

In its most recent report, the IPCC laid out a detailed plan that it believes could help the world avoid the worst impacts of rising temperatures.

It involves “rapid, deep and immediate” cuts in emissions of greenhouse gases – which trap the sun’s heat and make the planet hotter.

“There is no denying that there are large changes across the globe, and that some of them are irreversible,” says Dr Otto, a senior lecturer in climate science at the Grantham Institute for Climate Change and the Environment.

“It doesn’t mean the world is going to end – but we have to adapt, and we have to stop emitting.”

People carry a sign as they attend a protest during the UN Climate Change Conference COP26 in Glasgow.
Fertile ground

Last year, the Pew Research Center in the US ran a poll covering 17 countries, focusing on attitudes towards climate change.

An overwhelming majority of the respondents said they were willing to change the way they lived to tackle the problem.

But when asked how confident they were that climate action would significantly reduce the effects of global warming, more than half said they had little to no confidence.

Doomism taps into, and exaggerates, that sense of hopelessness. In Charles’s case, it all began with a community on Reddit devoted to the potential collapse of civilisation.

“The most apocalyptic language that I would find was actually coming from former climate scientists,” Charles says.

It’s impossible to know whether the people posting the messages Charles read were genuine scientists.

But the posts had a profound effect on him. He admits: “I do think I fell down the rabbit hole.”

Alaina Wood, the sustainability scientist, says Charles’s story is not unusual.

“I rarely at this point encounter climate denial or any other form of misinformation [on social media],” she says. “It’s not people saying, ‘Fossil fuels don’t cause climate change’ … It’s people saying, ‘It’s too late’.”

TikTok’s rules forbid misinformation that causes harm. We sent the company some videos that Alaina has debunked in the past. None was found to have violated the rules.

TikTok says it works with accredited fact-checkers to “limit the spread of false or misleading climate information”.

Young and pessimistic

Although it can take many forms (and is thus difficult to accurately measure), Alaina says doomism is particularly popular among young people.

“There’s people who are climate activists and they’re so scared. They want to make change, but they feel they need to spread fear-based content to do so,” she says.

“Then there are people who know that fear in general goes viral, and they’re just following trends, even if they don’t necessarily understand the science.”

I’ve watched several of the videos that she debunked. Invariably, they feature young users voicing despair about the future.

“Let me tell you why I don’t know what I want to do with my life and why I’m not planning,” says one young woman. “By the year 2050, most of us should be underwater from global warming.” But that’s a gross exaggeration of what climate scientists are actually telling us.

“A lot of that is often fatalistic humour, but people on TikTok are interpreting that as fact,” Alaina says.

But is Charles still among them, after watching Alaina’s debunks? Is he still a climate doomer?

“I would say no,” he tells me. “I have convinced myself that we can get out of this.”

Ações do governo Bolsonaro chegam a apenas 2% dos garimpos na terra yanomami, e faltam aviões (Folha de S.Paulo)

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MPF aponta ainda que só 25% dos pontos de apoio logístico à mineração ilegal foram alvo de fiscalização

Vinicius Sassine e João Gabriel

23 de maio de 2022


Apenas 9 de 421 pontos de garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, contaram com algum tipo de ação policial, dentro de um plano formulado pelo governo Jair Bolsonaro (PL) para tentativa de retirada de garimpeiros que estão na região ilegalmente atrás de ouro. Isso significa que incursões policiais só ocorreram em 2,1% das áreas de garimpo.

A constatação foi feita pelo MPF (Ministério Público Federal) em Roraima, numa investigação sobre a execução do plano operacional formulado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública para a desintrusão de garimpeiros no território yanomami. A retirada foi uma determinação da Justiça Federal.

Investigadores que atuam diretamente em ações de repressão aos garimpos afirmam que não há aeronaves disponíveis em Boa Vista para o combate à atividade ilegal.

Uma aeronave usada pela Polícia Federal fica em Manaus, a mais de 600 km do território, segundo esses investigadores.

As Forças Armadas têm se recusado a fornecer aeronaves, e o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) conta com apenas oito veículos do tipo para atender às necessidades no país inteiro, conforme as fontes ouvidas pela reportagem sob a condição de anonimato.

A Funai (Fundação Nacional do Índio) em Roraima não tem um avião disponível. O MPF não tem nenhuma aeronave.

Em contraponto ao apagão de apoio logístico aéreo para repressão ao garimpo na terra yanomami, mais de cem aeronaves garantem a exploração ilegal de minérios, principalmente ouro e cassiterita, segundo as investigações do MPF e PF. Em maioria, são helicópteros operados por empresários que continuam lucrando com os garimpos ilegais.

Um único grupo, com 12 pilotos de helicóptero, movimentou mais de R$ 200 milhões em dois anos. O grupo fez ainda uso de empresa fantasma e transferências de recursos ao exterior, conforme investigação da PF revelada pela Folha na última quinta-feira (19).

O empresário responsável, Rodrigo Martins de Mello, é pré-candidato a deputado federal pelo PL, partido de Bolsonaro. Ele passou a coordenar um movimento de garimpeiros que tenta legitimar a atividade criminosa na terra indígena e ameaça processar líderes indígenas que os denunciam. Mello não se pronunciou sobre as acusações da polícia.

PF, Ministério da Justiça, Funai, Ministério da Defesa, Exército e Aeronáutica não responderam aos questionamentos da reportagem sobre a falta de aeronaves para combater as atividades ilegais.

Em nota, o Ibama afirmou que não há “indisponibilidade” de aeronaves para suas operações. “[O órgão] possui contrato de locação de oito aeronaves para apoio às atividades de fiscalização ambiental, emergências ambientais e combate a incêndios florestais em todo o território nacional”, disse.

Desde a eleição de Bolsonaro em 2018, explodiu a quantidade de garimpeiros na terra indígena. São 20 mil, segundo associações de indígenas.

O vice-presidente Hamilton Mourão (Republicanos) contesta essa cifra e diz que há cerca de 3.000 garimpeiros na região. O número, no entanto, é considerado subestimado por pessoas ligadas ao combate do garimpo.

O presidente Bolsonaro defende a atividade ilegal, estimula o garimpo no território e tenta regularizar a mineração em terras indígenas.

O plano do Ministério da Justiça foi elaborado no contexto de decisões da Justiça Federal obrigando a retirada dos garimpeiros. Já houve decisões nesse sentido na primeira instância da Justiça, no TRF-1 (Tribunal Regional Federal da 1ª Região) e no STF (Supremo Tribunal Federal).

A falta de ação nos pontos de garimpo ilegal “evidencia, a mais não poder, a absoluta insuficiência das medidas protetivas a cargo do Executivo federal”, afirmou o MPF em Roraima em uma recomendação expedida no último dia 10.

Os procuradores da República Alisson Marugal e Matheus Bueno recomendaram que a ANM (Agência Nacional de Mineração) leiloe 200 toneladas de cassiterita apreendidas e destine os recursos à Funai, para atendimento aos indígenas. O valor é estimado em R$ 24,7 milhões.

A ausência de ações policiais nos pontos mapeados de garimpo é apenas um dos problemas no combate à atividade ilegal na maior terra indígena do país, que na próxima semana comemora 30 anos de sua demarcação.

Dos 277 pontos de apoio usados pelos garimpeiros, como pistas de pouso e portos clandestinos, somente 70 (25,3%) foram fiscalizados desde 2020, segundo levantamento feito pelo MPF.

O apoio aéreo para o combate ao garimpo ilegal é crucial para uma região de difícil acesso. Os percursos por rio são longos e demorados. Órgãos de fiscalização alugam horas de voos de parceiros terceirizados para suas operações.

A recomendação do MPF afirma que, “ao menos de modo constante, as forças estatais não dispõem de, ou não disponibilizam, aeronaves que possibilitem a realização com a frequência necessária de incursões na TI [Terra Indígena] Yanomami objetivando o combate ao garimpo ilegal”.

O garimpo em terras indígenas é proibido por lei. A Constituição Federal determina que a atividade precisa de regularização e de aval do Congresso, o que ainda não existe.

Em 2020, a Justiça determinou que o governo federal expulsasse os garimpeiros da região, o que não ocorreu.

Conforme o MPF, foram registrados 3.059 alertas de desmatamento para o garimpo na terra yanomami, entre agosto de 2020 e fevereiro de 2022. O desmatamento atingiu quase 11 km². Num único mês, em janeiro deste ano, foram 216 alertas.

Caiapós fazem dança da chuva (Folha de S.Paulo)

Artigo original

São Paulo, sábado, 28 de março de 1998

da Reportagem Local

Dois pagés caiapós de Mato Grosso irão a Roraima no domingo para fazer um ritual de dança da chuva, com o objetivo de tentar acabar com o fogo.

Os dois pagés deverão partir de Colider, no norte do Estado, perto do Pará. A viagem de avião até Boa Vista demora cerca de 5h.

De acordo com o índio caiapó Pitisiaru Metupire, o ritual é secreto e deverá ser feito pelos dois pagés, sozinhos, no meio do mato. Antes de fazer o ritual, os pagés passarão algum tempo no interior da mata “estudando” a situação.

“Não dá para explicar como é, porque o trabalho do pagé é bem diferente do do doutor”, diz Metupire. Segundo o índio, os pagés vão conversar com espíritos dos antepassados que, por sua vez, pedirão aos espíritos da chuva e do trovão que provoquem chuva.

O ritual deverá ser feito na aldeia do Demini, onde há montanhas, consideradas fontes de energia.

“A chuva vai começar e não vai parar mais”, disse Metupire, que é da mesma aldeia dos pagés que irão a Boa Vista. De acordo com ele, os caiapós decidiram ajudar os índios ianomâmis e ofereceram a realização do ritual.

“Eles estão precisando de ajuda e nós vamos lá para tentar resolver o problema”, afirmou Metupire. Depois do ritual, os índios ainda ficarão em Roraima para “estudar” os resultados.

Além dos pagés, o administrador da Funai em Colider, Megaron Txucarramãe, também irá a Boa Vista.

João Moreira Salles: Nota sobre três presidentes, duas bombas e o fim do mundo (Piauí)

piaui.folha.uol.com.br

João Moreira Salles | 25 mar 2022_10h37


English version

E aqui estamos nós, cidadãos do mundo, diante de Vladimir Putin como gregos diante da Esfinge: O que você quer, o que pensa, qual o seu enigma, quantos e o quão ferozes são os seus demônios? Qual a sua visão mística da História, o seu sonho imperial, a dimensão purificadora que a violência tem para você? Até onde está disposto a ir? Existem limites? Se existirem, será mais fácil respeitá-los no triunfo ou na derrota? Você é mais perigoso encurralado ou vitorioso?

Ninguém sabe. Numa entrevista ao jornalista Ezra Klein, o analista político e apresentador da CNN Fareed Zakaria diz que hoje no mundo não existe país mais instável do que a Rússia. Mesmo nos regimes totalitários mais fechados, alguma institucionalidade costuma sustentar os processos políticos; protocolos e trâmites burocráticos fazem saber como serão tomadas as decisões. Na antiga União Soviética, quando morria o secretário-geral do Partido Comunista, o Presidium do Soviete Supremo se reunia e era certo que de lá sairia o novo líder do país. Se amanhã o presidente chinês Xi Jinping falecer, a notícia será planetária, mas não traumática, pois virá desacompanhada do temor de abalos institucionais – um membro da alta tecnocracia política logo o substituirá. O mesmo vale para totalitarismos dinásticos, a exemplo da Arábia Saudita e da Coreia do Norte. Morre um Saud, entra um Saud; morre um Kim, entra um Kim.

Não é assim na Rússia de Putin, onde não existem sistemas claros de sucessão nem sucessores presumidos. E isso é um problema. A impressão é que a frase apócrifa de Luiz XIV, O Estado sou eu, dita supostamente por um monarca com herdeiros definidos, conselheiros numerosos e uma vasta entourage burocrática a seu serviço, caberia melhor na boca do atual Rei Sol do Kremlin: A Rússia sou eu.

De fato, é o que parece. As autocracias tradicionais tomam a forma de uma pirâmide, com o líder no vértice e, abaixo dele, por ordem de importância hierárquica, as diferentes camadas da burocracia do Estado. Na Rússia contemporânea, a pirâmide colapsou. Como um tripé que se fecha, os lados foram trazidos para o centro e se juntaram numa linha vertical. Um cajado é a nova forma do Estado, um báculo sobre cujo castão pesa exclusivamente a mão de Putin. A única, é claro, que pesa também sobre aquele botão.

Putin é o homem solitário que, isolado de tudo e de todos, usa quem sabe a suspeita de sua irracionalidade como arma política. Ou talvez, como especulam outros, já tenha se desprendido da realidade. A essa altura, não se desconta nenhuma hipótese. De fevereiro para cá, a possibilidade de um evento fatal entrou nos nossos cálculos. Se esse cenário ainda não é provável, hoje se tornou possível. Muito mais do que há um mês, incomparavelmente mais do que há um ano ou há uma década.

A Europa está assustada. Na Itália, uma empresa de abrigos nucleares que construiu cinquenta dessas estruturas nos últimos 22 anos, só nas duas primeiras semanas da guerra processou quinhentos pedidos. O governo da Bélgica está distribuindo pílulas de iodo a quem apresentar um passaporte belga. Tomado corretamente, o iodo ajuda a absorver a radiação que se aloja na tireoide. Na segunda semana de março, as farmácias do país distribuíram num único dia 30 mil caixas do comprimido.

Embora nem todos se deem conta, tamanha angústia aproxima povos que nunca imaginaram ter alguma afinidade. Gente que vive nas cidades europeias ou norte-americanas não sabe que, desde a invasão da Ucrânia, é nas florestas brasileiras que estão os interlocutores capazes de lhes ensinar como viver diariamente com o medo entranhado no corpo feito bicho. De acordo com uma observação precisa do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, se queremos compreender o que é o fim do mundo, basta perguntar aos habitantes originários das Américas. Eles são especialistas no tema. Dos guaranis no Brasil aos maias no México, muitos deles já experimentaram a destruição dos seus mundos.

Estima-se que no século XVI, quando os primeiros exploradores europeus chegaram à Amazônia, de 8 a 10 milhões de pessoas ocupavam a floresta. Passadas as primeiras décadas do contato, 90% dessa população desapareceria, um extermínio tão radical que seriam necessários quase cinco séculos para que o bioma voltasse ao patamar demográfico do mundo pré-cabralino, o que aconteceu na década de 1960. Os descendentes dessa hecatombe a guardam na memória. Corre pelo corpo deles o que foi vivido por seus ancestrais no passado remoto, por seus avós e pais no passado recente e, para vergonha de todos nós, brasileiros, corre pelo corpo deles o que significa vivê-la no presente. Hoje, mais ainda. No próximo mês, mais do que nunca, como se verá adiante.

O Brasil sempre foi mais lento (a ver, mais relaxado), menos eficiente do que as nações solidamente integradas à lógica industrial. Apesar disso, seria um erro supor que o mundo não tem razões para nos temer. Nossa arma verde-amarela de destruição em massa não produz efeitos tão instantâneos quanto as das nações nucleares, mas é igualmente letal. Trata-se, é claro, da destruição da Amazônia, a nossa bomba ecológica.

O bioma amazônico é um dos sistemas vitais para o funcionamento do planeta. Controla pelo menos três fluxos essenciais à manutenção da vida: o do carbono, o da biodiversidade e o dos ciclos hidrológicos. Esses fluxos vitais, “sistemas de suporte da vida”, na expressão de cientistas, não passam de nove,  o que nos torna responsáveis por pelo menos um terço deles.

Não temos exercido essa responsabilidade, mas já o fizemos, ainda que por apenas uma década. O cenário se agravou a partir de 2015 e entrou em fase crítica em 2019. A Amazônia está prestes a se inviabilizar como floresta tropical. As evidências científicas desse caminho sem volta se acumularam a grande velocidade, tanto que respeitados cientistas anteriormente céticos agora reconhecem: estamos a poucas casas da virada fatal. A continuar nesse ritmo a escalada do desmatamento, não muitos anos – poucos.

Nesse cenário de catástrofe iminente, o governo e sua base de apoio fazem correr em regime de urgência um projeto de lei que licencia a mineração, a exploração de óleo e a construção de hidrelétricas em terras indígenas. Em certas circunstâncias, o texto em discussão prevê autorização provisória de atividades mineradoras enquanto não houver autorização legislativa. Em terras ainda não homologadas, serão dispensados quaisquer estudos de impacto ambiental.

Isso é redação de quem tem pressa para destruir. Significa pilhagem de territórios ancestrais, da morada de povos que, desde o primeiro encontro com brancos, perderam muito, perderam sempre, perderam seu lugar no mundo, adoeceram, empobreceram, entristeceram, foram mendigar nos cruzamentos das cidades e se mataram de melancolia.

Apesar dessa violência histórica constante, são eles, os indígenas, os grandes responsáveis por proteger a maior selva tropical do planeta. Não existe melhor guarda florestal no mundo. Sem cobrar um tostão, eles preservam um sistema sem o qual o equilíbrio do planeta não se manteria. É em terras indígenas que se constata o menor índice de desmatamento. Elas são o último bastião da floresta.

Agora, o governo quer invadir o principal esteio da nossa quase inexistente responsabilidade ambiental. É instrutivo saber quem pretende avançar para dentro dessas terras. Grandes empresas que precisem prestar contas à sociedade hesitarão em entrar nesses territórios até então protegidos. Entre 2020 e 2021, por exemplo, a Vale desistiu de todos os processos minerários em terras indígenas do Brasil – eram 89 –, cancelando requerimentos de pesquisa e lavra. Entende-se: seria comprometer a reputação de uma companhia que, nos últimos anos, viu-se envolvida em dois dos maiores desastres ambientais da história brasileira.

Difícil crer que corporações do porte da Vale tomem caminho diferente. Equivaleria a suicídio corporativo. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade cujos associados respondem por 85% da produção mineral brasileira, publicou uma nota contrária ao projeto de lei, considerando-o inadequado “para os fins a que se destina”. É uma decisão tóxica, essa de avançar sobre terras indígenas incrustadas no maior bioma tropical do planeta, de tomar as últimas áreas em que uma floresta sob ataque ainda resiste, de ferir territórios em que os menores distúrbios ambientais são hoje registrados em tempo real pelos milhares de satélites que cruzam os seus céus. As mineradoras que eventualmente morderem a isca virão de países sem sociedade civil forte e, portanto, não sujeitas à obrigação de transparência. Virão da China, de países do Oriente Médio ou da Ásia Central. Não por coincidência, serão corporações que atuam de preferência em regiões pouco desenvolvidas para se valer de sistemas políticos maleáveis, legislação ambiental frágil e presença débil do Estado.

Se essas empresas periféricas vierem, é certo que bons negócios serão feitos, parte deles tão secreta quanto as emendas do relator ao Orçamento da União. O projeto, contudo, não se destina a atrair chineses ou cazaques. Nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), Luis Mauricio Ferraiuoli Azevedo, não propriamente um ambientalista: “Da forma como está, tem uma veia muito mais voltada ao garimpo do que à mineração.”

Conhecemos bem o garimpo. Como mostram vários estudos recentes, ele se tornou um braço das facções criminosas, a começar pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje domina a atividade em terras yanomamis. O garimpeiro de bateia na beira do rio, brasileiro pobre atrás do seu pão, é um personagem extemporâneo sem outra serventia a não ser mascarar com tinturas sociais uma atividade cada vez mais violenta e capitalizada. Os meios de produção do garimpo atual são balsas que custam 2 milhões de reais, mercúrio de comercialização ilegal no Brasil, condições de trabalho degradantes e fuzis AR-15, agora municiados com projéteis não rastreáveis graças à bonomia presidencial.

Uma novidade dos últimos quatro anos é a expansão vertiginosa do crime organizado para o interior do bioma amazônico. Hoje a floresta é o grande palco da disputa entre o PCC e o Comando Vermelho (CV). As facções estão fazendo a gestão da ilegalidade na Amazônia, seja no garimpo, seja na grilagem, seja no corte de madeira, seja no controle das rotas do tráfico de drogas para a Europa. Comunidades ribeirinhas e indígenas estão sendo cooptadas. O dia a dia de inúmeras cidades pequenas já depende do crime.

Não deixa de ser um projeto de desenvolvimento, o modelo político-administrativo da Baixada Fluminense transplantado para a Amazônia. Tudo considerado – do apoio a grileiros, desmatadores e garimpeiros ao desmonte das agências de vigilância como o Ibama –, não seria errado chamá-lo Programa de Aceleração do Crime. Aproveita-se assim a sigla consagrada.

Dizer que o que está sendo gestado na Amazônia é bem conhecido da primeira família da nação não passa de redundância. Trata-se, afinal, da expansão do esquema das milícias e das facções, precisamente o mundo do qual brotou a engrenagem política que hoje se espraia por todo o país. Há um sentido pedagógico em jamais esquecer que o filho mais velho do presidente, hoje senador da República, condecorou um dos maiores matadores do Rio de Janeiro, o miliciano Adriano da Nóbrega; preso, acusado de homicídio, Nóbrega recebeu na cadeia a mais alta condecoração do Poder Legislativo fluminense, a Medalha Tiradentes.

E aqui estamos nós, brasileiros, diante de Jair Bolsonaro, mas não como se diante da Esfinge, pois o homem não tem enigmas. Sabemos o que ele é e o que ele quer. Conhecemos o seu compêndio de iniquidades.

Conhecemos a sua obscenidade quando se diz solidário com a Rússia, solidário, portanto, com os responsáveis por cenas como a registrada na dolorosa foto de uma família estirada no chão, a mãe de 43 anos, o filho de 18, a filha de 9, mochilas ainda às costas, mortos os três ao tentar fugir da artilharia russa numa ponte nos arredores de Kiev (há um quarto morto na foto, um voluntário de 26 anos que ajudava a família na fuga). Não é uma solidariedade que surpreenda. O presidente, sabemos faz tempo, não é indiferente ao espetáculo da morte violenta. Ao contrário, ela o excita.

Família morta ao tentar fugir da artilharia russa nos arredores de Kiev: a mãe, o filho e a filha, além de um voluntário que os ajudava – Foto: Lynsey Addario/The New York Times/Fotoarena

Conhecemos a sua covardia, o patético dela, quando chama de comediante o presidente da Ucrânia.

Conhecemos a sua corrupção, que começou pequena e vagabunda, miúda como ele à época, e hoje é imensa, do tamanho dos seus meios atuais, que lhe permitem franquear a farra do dinheiro público distribuído sem fiscalização ou vigilância. Corridos três anos e meio de mandato, seria interessante perguntar aos arautos da moralidade se estão satisfeitos com o Orçamento da União entregue a Arthur Lira. Se apaziguados com o sistema que produz parlamentares como Josimar Maranhãozinho (PL-MA), deputado do partido do presidente, investigado pela PF por usar grupos armados para extorquir a sua parte do dinheiro que prefeitos haviam recebido por meio das emendas nebulosas do relator. Se animados com a entrega do Ministério da Educação a pastores evangélicos que cobram os seus bons serviços em barras de ouro. Se reconfortados com o círculo mais íntimo do poder, irmãos de fé e aconselhadores eventuais tais como Fabrício Queiroz e Frederick Wassef – o primeiro, ocupando seus dias pós-cadeia com exegeses no YouTube em que justifica com perspicácia geopolítica a ação russa contra a Ucrânia, país amaldiçoado por “esse governo frouxo, esse governo comédia, que desarmou o povo e entregou as armas”, essa fraqueza típica de “governo de esquerda”; o segundo, réu por injúria racial e racismo, protagonista do triste espetáculo de se recusar a ser atendido por uma garçonete de 18 anos numa pizzaria de Brasília: “Porque você é negra e tem cara de sonsa.” São esses os habitantes do mundo cultivado pelo homem escolhido para restaurar a honra do Brasil.

Sabíamos de tudo isso, e foi com esse catálogo de imoralidades que chegamos a essa versão toda nossa do fim do mundo que agora corre pelo Congresso com a pressa de um bandido.

A floresta será transformada em terra miliciana, numa dinâmica já iniciada. O projeto será votado em abril, sem qualquer debate qualificado. Se passar, o Brasil terá cometido o crime perfeito contra o futuro – o seu próprio e o do planeta. A tristeza disso é infinita. Teremos de viver confrontados cotidianamente pela injustiça cometida no decorrer de nossas vidas, sob os nossos olhos, contra aqueles que, antes de nós, não só fizeram da floresta a sua casa, mas a manipularam e a construíram, num trabalho de milênios em consórcio com outras criaturas. A Amazônia não é apenas um bem natural, é um bem cultural, o legado de uma civilização orgânica que erigiu sua obra não com pedras ou metais, mas com solo e plantas, com madeiras e fungos – essas florestas que, na linda formulação do arqueólogo Eduardo Neves, “são as nossas pirâmides”. São essas pirâmides que agora serão oficialmente entregues à pirataria.

Portanto, aqui estamos, nós brasileiros, a poucos meses de uma escolha que há muito deixou de ser questão apenas política para se tornar questão de civilização.

A Ucrânia “confiou a um comediante o destino de uma nação”, declarou o presidente do Brasil, como quem diz: E deu nisso. De fato, deu em um povo que se uniu numa batalha de vida ou morte pela autodeterminação, pela liberdade e pelo direito de dizer aos pósteros que, na hora terrível, eles se apresentaram e foram honrados. Não é um mau legado.

O Brasil elegeu Bolsonaro e deu nisso. O anjo da História diria: Olhem em volta e contemplem as ruínas. Elas nos cercam e envergonham bem mais do que as de Mariupol ou Kiev. Estas são obra do agressor; aquelas, de brasileiros. A ruína da educação, a ruína da fome, a ruína sanitária, a ruína do desemprego, a ruína política, a ruína ambiental, a ruína moral de bem-pensantes, de liberais com bons diplomas universitários e empregos bem pagos que referendaram um projeto que nunca disfarçou suas tintas.

Historiadores rejeitam o conceito de “homem providencial”, mas em certos momentos é difícil duvidar de sua existência. Gerados pelas circunstâncias históricas, ao chegar ao poder os homens providenciais as radicalizam a tal ponto que desencadeiam mudanças não de intensidade, mas de qualidade. Churchill é um homem providencial, Fidel, Mandela, Gandhi, talvez Volodymyr Zelensky (ainda é cedo). E com certeza Putin, ainda que sua providência seja sinistra.

Em outubro, estaremos diante do nosso grande enigma: Quem somos nós, os brasileiros? Aqueles que dizem não à terra barbarizada ou os que reafirmam a escolha de 2018? Seremos Zelensky ou Putin? Escolheremos vida ou morte?

É preciso interromper a tragédia humanitária na terra ianomâmi (O Globo)


Malu Gaspar

Por Editorial 15/04/2022 00:00

Ianomâmis (Reuter) Ianomâmis (Reuter) | Reuters

São contundentes as conclusões do relatório da Hutukara Associação Yanomami sobre os efeitos nocivos do garimpo ilegal na maior reserva do país, que reúne cerca de 30 mil indígenas numa área de 9 milhões de hectares entre Amazonas e Roraima. Como mostrou O GLOBO, em apenas um ano (de 2020 a 2021), a devastação cresceu 46%, maior taxa desde a demarcação das terras ianomâmis em 1992. A destruição, evidenciada pelas crateras no meio da floresta e pelos rios contaminados com mercúrio, pode ser a ponta mais visível, mas não é a única tragédia. Com o desmatamento, forasteiros levam doenças, violência, drogas e terror.

Segundo o relatório, as aldeias enfrentam uma explosão de casos de malária — em algumas regiões, o aumento foi de mais de 1.000% em dois anos. Comida é outro problema crônico. Estudos mostram que 60% das crianças estão desnutridas. No fim do ano passado, imagens de crianças ianomâmis com as costelas à mostra chocaram o mundo. A situação é agravada pela estrutura precária de saúde e pelas grandes distâncias que separam as aldeias dos postos de atendimento médico.

Estima-se que existam 20 mil garimpeiros ilegais nas terras ianomâmis, sob vista grossa dos órgãos ambientais. Nesse cenário sem lei, os indígenas se tornam presas fáceis de esquemas criminosos. Há relatos de aliciamento de menores, abuso sexual de mulheres e crianças e oferecimento de drogas e bebidas alcoólicas aos indígenas. De acordo com a Hutukara, ao menos três crianças já foram mortas depois de ser abusadas por garimpeiros ilegais.

Não surpreende que a violência impere nesse ambiente de anomia. Na segunda-feira, um conflito entre indígenas numa área de garimpo dentro da terra ianomâmi deixou dois mortos (um indígena e um garimpeiro) e cinco feridos. Segundo relatos, índios tireis, apoiados por garimpeiros, invadiram a aldeia pixanehabi, contrária à exploração mineral na reserva.

Seria incorreto dizer que o Ibama e a Polícia Federal não agem. Na terça-feira, foi deflagrada a Operação Escudo de Palha, para combater o desmatamento ilegal numa comunidade indígena de Mato Grosso. Mas essas ações esporádicas são insuficientes. Além disso, são notórios o desmonte da fiscalização ambiental e a falta de empenho do governo para enfrentar madeireiros, grileiros e garimpeiros ilegais. Infelizmente, a sinalização que emana do Palácio do Planalto é outra.

Durante uma pajelança no Ministério da Justiça no mês passado, o presidente Jair Bolsonaro foi condecorado com a Medalha do Mérito Indigenista, concedida pela Funai “pelos serviços relevantes relacionados com o bem-estar, a proteção e a defesa das comunidades indígenas”. Bolsonaro foi um dos 26 agraciados, entre os quais estavam dez integrantes do primeiro escalão do governo. Para fazer jus à homenagem, presidente e ministros poderiam se esforçar para interromper a tragédia humanitária que se abate sobre os ianomâmis e envergonha o país.

You’ve heard of water droughts. Could ‘energy’ droughts be next? (Science Daily)

Date: April 12, 2022

Source: Columbia University

Summary: Drawing on 70 years of historic wind and solar-power data, researchers built an AI model to predict the probability of a network-scale ‘drought,’ when daily production of renewables fell below a target threshold. Under a threshold set at the 30th percentile, when roughly a third of all days are low-production days, the researchers found that Texas could face a daily energy drought for up to four months straight. Batteries would be unable to compensate for a drought of this length, and if the system relied on solar energy alone, the drought could be expected to last twice as long — for eight months.


Renewable energy prices have fallen by more than 70 percent in the last decade, driving more Americans to abandon fossil fuels for greener, less-polluting energy sources. But as wind and solar power continue to make inroads, grid operators may have to plan for large swings in availability.

The warning comes from Upmanu Lall, a professor at Columbia Engineering and the Columbia Climate School who has recently turned his sights from sustainable water use to sustainable renewables in the push toward net-zero carbon emissions.

“Designers of renewable energy systems will need to pay attention to changing wind and solar patterns over weeks, months, and years, the way water managers do,” he said. “You won’t be able to manage variability like this with batteries. You’ll need more capacity.”

In a new modeling study in the journal Patterns, Lall and Columbia PhD student Yash Amonkar, show that solar and wind potential vary widely over days and weeks, not to mention months to years. They focused on Texas, which leads the country in generating electricity from wind power and is the fifth-largest solar producer. Texas also boasts a self-contained grid that’s as big as many countries’, said Lall, making it an ideal laboratory for charting the promise and peril of renewable energy systems.

Drawing on 70 years of historic wind and solar-power data, the researchers built an AI model to predict the probability of a network-scale “drought,” when daily production of renewables fell below a target threshold. Under a threshold set at the 30th percentile, when roughly a third of all days are low-production days, the researchers found that Texas could face a daily energy drought for up to four months straight.

Batteries would be unable to compensate for a drought of this length, said Lall, and if the system relied on solar energy alone, the drought could be expected to last twice as long — for eight months. “These findings suggest that energy planners will have to consider alternate ways of storing or generating electricity, or dramatically increasing the capacity of their renewable systems,” he said.

Anticipating Future ‘Energy’ Droughts — in Texas, and Across the Continental United States

The research began six years ago, when Lall and a former graduate student, David Farnham, examined wind and solar variability at eight U.S. airports, where weather records tend to be longer and more detailed. They wanted to see how much variation could be expected under a hypothetical 100% renewable-energy grid.

The results, which Farnham published in his PhD thesis, weren’t a surprise. Farnham and Lall found that solar and wind potential, like rainfall, is highly variable based on the time of year and the place where wind turbines and solar panels have been sited. Across eight cities, they found that renewable energy potential rose and fell from the long-term average by as much as a third in some seasons.

“We coined the term ‘energy’ droughts since a 10-year cycle with this much variation from the long-term average would be seen as a major drought,” said Lall. “That was the beginning of the energy drought work.”

In the current study, Lall chose to zoom in on Texas, a state well-endowed with both sun and wind. Lall and Amonkar found that persistent renewable energy droughts could last as long as a year even if solar and wind generators were spread across the entire state. The conclusion, Lall said, is that renewables face a storage problem that can only realistically be solved by adding additional capacity or sources of energy.

“In a fully renewable world, we would need to develop nuclear fuel or hydrogen fuel, or carbon recycling, or add much more capacity for generating renewables, if we want to avoid burning fossil fuels,” he said.

In times of low rainfall, water managers keep fresh water flowing through the spigot by tapping municipal reservoirs or underground aquifers. Solar and wind energy systems have no equivalent backup. The batteries used to store excess solar and wind power on exceptionally bright and gusty days hold a charge for only a few hours, and at most, a few days. Hydropower plants provide a potential buffer, said Lall, but not for long enough to carry the system through an extended dry spell of intermittent sun and wind.

“We won’t solve the problem by building a larger network,” he said. “Electric grid operators have a target of 99.99% reliability while water managers strive for 90 percent reliability. You can see what a challenging game this will be for the energy industry, and just how valuable seasonal and longer forecasts could be.”

In the next phase of research, Lall will work with Columbia Engineering professors Vijay Modi and Bolun Xu to see if they can predict both energy droughts and “floods,” when the system generates a surplus of renewables. Armed with these projections, they hope to predict the rise and fall of energy prices.


Journal Reference:

  1. Yash Amonkar, David J. Farnham, Upmanu Lall. A k-nearest neighbor space-time simulator with applications to large-scale wind and solar power modeling. Patterns, 2022; 3 (3): 100454 DOI: 10.1016/j.patter.2022.100454

Recalled experiences surrounding death: More than hallucinations? (Science Daily)

sciencedaily.com

Global scientific team publishes consensus statement and new guidelines

Date: April 12, 2022

Source: NYU Langone Health / NYU Grossman School of Medicine

Summary: Scientific advances in the 20th and 21st centuries have led to a major evolution in the understanding of death. At the same time, for decades, people who have survived an encounter with death have recalled unexplained lucid episodes involving heightened consciousness and awareness. These have been reported using the popular — yet scientifically ill-defined — term ‘near-death experiences’.


Scientific advances in the 20th and 21st centuries have led to a major evolution in the understanding of death. At the same time, for decades, people who have survived an encounter with death have recalled unexplained lucid episodes involving heightened consciousness and awareness. These have been reported using the popular — yet scientifically ill-defined — term “near-death experiences.”

A multidisciplinary team of national and international leaders, led by Sam Parnia, MD, PhD, director of Critical Care and Resuscitation Research at NYU Grossman School of Medicine, have published “Guidelines and Standards for the Study of Death and Recalled Experiences of Death,” a multi-disciplinary consensus statement and proposed future directions in the Annals of the New York Academy of Sciences.Thisstudy, which examined the accumulated scientific evidence to date, represents the first-ever, peer-reviewed consensus statement for the scientific study of recalled experiences surrounding death.

The researchers on the study represent many medical disciplines, including the neurosciences, critical care, psychiatry, psychology, social sciences and humanities, and represent many of the world’s most respected academic institutions including Harvard University, Baylor University, University of California Riverside, University of Virginia, Virginia Commonwealth University, Medical College of Wisconsin, and the Universities of Southampton and London.

Among their conclusions:

  1. Due to advances in resuscitation and critical care medicine, many people have survived encounters with death or being near-death. These people — who are estimated to comprise hundreds of millions of people around the world based on previous population studies — have consistently described recalled experiences surrounding death, which involve a unique set of mental recollections with universal themes.
  2. The recalled experiences surrounding death are not consistent with hallucinations, illusions or psychedelic drug induced experiences, according to several previously published studies. Instead, they follow a specific narrative arc involving a perception of: (a) separation from the body with a heightened, vast sense of consciousness and recognition of death; (b) travel to a destination; (c) a meaningful and purposeful review of life, involving a critical analysis of all actions, intentions and thoughts towards others; a perception of (d) being in a place that feels like “home,” and (e) a return back to life.
  3. The experience of death culminates into previously unidentified, separate subthemes and is associated with positive long-term psychological transformation and growth.
  4. Studies showing the emergence of gamma activity and electrical spikes — ordinarily a sign of heightened states of consciousness on electroencephalography (EEG) — in relation to death, further support the claims of millions of people who have reported experiencing lucidity and heightened consciousness in relation to death.
  5. Frightening or distressing experiences in relation to death often neither share the same themes, nor the same narrative, transcendent qualities, ineffability, and positive transformative effects.

“Cardiac arrest is not a heart attack, but represents the final stage of a disease or event that causes a person to die,” lead author Parnia explains. “The advent of cardiopulmonary resuscitation (CPR) showed us that death is not an absolute state, rather, it’s a process that could potentially be reversed in some people even after it has started.

“What has enabled the scientific study of death,” he continues, “is that brain cells do not become irreversibly damaged within minutes of oxygen deprivation when the heart stops. Instead, they ‘die’ over hours of time. This is allowing scientists to objectively study the physiological and mental events that occur in relation to death.”

So far, the researchers say, evidence suggests that neither physiological nor cognitive processes end with death and that although systematic studies have not been able to absolutely prove the reality or meaning of patients’ experiences and claims of awareness in relation to death, it has been impossible to disclaim them either.

“Few studies have explored what happens when we die in an objective and scientific way, but these findings offer intriguing insights into how consciousness exists in humans and may pave the way for further research,” Parnia adds.

Journal Reference

Sam Parnia, Stephen G. Post, Matthew T. Lee, Sonja Lyubomirsky, Tom P. Aufderheide, Charles D. Deakin, Bruce Greyson, Jeffrey Long, Anelly M. Gonzales, Elise L. Huppert, Analise Dickinson, Stephan Mayer, Briana Locicero, Jeff Levin, Anthony Bossis, Everett Worthington, Peter Fenwick, Tara Keshavarz Shirazi. Guidelines and standards for the study of death and recalled experiences of death––a multidisciplinary consensus statement and proposed future directions. Annals of the New York Academy of Sciences, 2022; DOI: 10.1111/nyas.14740

Watchers of the earth (AEON)

Indigenous peoples around the world tell myths which contain warning signs for natural disasters. Scientists are now listening.

Watchers of the earth | Aeon

Native knowledge. A Moken woman stares out to sea. Photo by Taylor Weidman/LightRocket/Getty

Carrie Arnold is a freelance science writer, whose work has appeared in the Washington Post, Scientific American and Slate, among others. Her latest book is Decoding Anorexia (2012). She lives in Virginia.

Edited by Pam Weintraub

Shortly before 8am on 26 December 2004, the cicadas fell silent and the ground shook in dismay. The Moken, an isolated tribe on the Andaman Islands in the Indian Ocean, knew that the Laboon, the ‘wave that eats people’, had stirred from his ocean lair. The Moken also knew what was next: a towering wall of water washing over their island, cleansing it of all that was evil and impure. To heed the Laboon’s warning signs, elders told their children, run to high ground.

The tiny Andaman and Nicobar Islands were directly in the path of the tsunami generated by the magnitude 9.1 earthquake off the coast of Sumatra. Final totals put the islands’ death toll at 1,879, with another 5,600 people missing. When relief workers finally came ashore, however, they realised that the death toll was skewed. The islanders who had heard the stories about the Laboon or similar mythological figures survived the tsunami essentially unscathed. Most of the casualties occurred in the southern Nicobar Islands. Part of the reason was the area’s geography, which generated a higher wave. But also at the root was the lack of a legacy; many residents in the city of Port Blair were outsiders, leaving them with no indigenous tsunami warning system to guide them to higher ground.

Humanity has always courted disaster. We have lived, died and even thrived alongside vengeful volcanoes and merciless waves. Some disasters arrive without warning, leaving survival to luck. Often, however, there is a small window of time giving people a chance to escape. Learning how to crack open this window can be difficult when a given catastrophe strikes once every few generations. So humans passed down stories through the ages that helped cultures to cope when disaster inevitably struck. These stories were fodder for anthropologists and social scientists, but in the past decade, geologists have begun to pay more attention to how indigenous peoples understood, and prepared for, disaster. These stories, which couched myth in metaphor, could ultimately help scientists prepare for cataclysms to come.

Anyone who has spent time around small children gets used to the question ‘why?’ Why is the sky blue? Why do birds fly? Why does thunder make such a loud noise? A friend’s mother told us that thunder was God going bowling in the sky. Nature need not be scary and unpredictable, even if it was controlled by forces we could neither see nor understand.

The human penchant for stories and meaning is nothing new. Myths and legends provide entertainment, but they also transmit knowledge of how to behave and how the world works. Breaking the code of these stories, however, takes skill. Tales of gods gone bowling during summer downpours seems nonsensical on the surface, but know a little about the sudden thunderclaps and the clatter of bowling pins as they’re struck by a ball, and the story makes sense.

In 1968, Dorothy Vitaliano, a geologist at Indiana University, pioneered the study of cultural myths that told of real geological events. Ancient Sanskrit tales told of entire cities that sunk beneath the waves with all the hallmarks of a tsunami. Plato’s story of the utopian Atlantis, destroyed by the gods in a wreckage of fire, might have referred to a volcano that partially destroyed the Greek island of Thera more than 3,500 years ago.

this story wasn’t simply a saga of angry gods but a geological record of an ancient eruption

Vitaliano published her work in a folklore journal, not a scientific one. It would take another geologist, Patrick Nunn of the University of the Sunshine Coast in Australia, to bring the field more fully into the physical sciences. Nunn’s work in the paradisiacal South Pacific gave him the opportunity to immerse himself in the islands’ traditional cultures. A group on Fiji regaled him with a story of Tanovo, the ancient chief of the Fijian island of Ono. One day, Tanovo ran across his main rival, the chief of the volcano Nabukelevu. To intimidate Tanovo, the volcano chief made Nabukelevu rise up and belch gas and burning rock into the air. Tanovo responded by weaving massive baskets to remove the mountain, dropping the debris in the ocean to create new islands. To Nunn, this story wasn’t simply a saga of angry gods but a geological record of an ancient eruption. Pressure from magma can make a volcano expand in size before the release of gas and ash. Geologists knew that small islands around Fiji were the result of volcanic rubble, but Nunn was the first geologist to hear these stories and read between the lines.

The problem was that the best geological evidence Nunn could find dated the last eruption of Nabukelevu to 50,000 years in the past, long before any humans inhabited Fiji. Nunn wrote off the tale as merely a fanciful story, and it would have remained that way if not for a new road being built near the volcano. When construction workers dug out the roadbed, they discovered pottery fragments mixed in a three-foot layer of ash. Further analysis revealed that the fragments were 3,000 years old, dating to 1,000 years after humans first arrived on Fiji.

These stories, in synch with archaeological finds, provided evidence of ‘geological events we don’t have access to any other way. There are not many examples of wholly invented myths – ancient humans were not like modern fiction writers. The point of these stories was to pass knowledge along,’ Nunn explained.

Brian McAdoo, a tsunami scientist at Yale-NUS in Singapore, began his career plumbing the depths of the ocean in high-tech submersibles to understand the earthquakes that triggered tsunamis. In 1998, a magnitude 7.1 earthquake struck off the northern coast of Papua New Guinea, triggering a tsunami estimated to have killed more than 2,000 on the island. The quake was comparatively gentle for such a deadly tsunami, which led McAdoo to begin looking at the social and cultural factors that made some geological disasters deadlier than others. His research introduced him to local tribes who told him traditional stories about earthquakes and tsunamis from the past.

‘A lot of the people we talked to said that their grandmothers would tell these stories about how their grandmothers survived a tsunami,’ McAdoo said.

As McAdoo was delving into the mysteries of Fijian stories in the southwestern Pacific, other scientists were using a similar strategy to study seismic events in the Pacific Northwest. Brian Atwater, an employee of the United States Geological Survey (USGS) in the 1970s and ’80s, was tasked with mapping the earthquake risks across Northern California, Oregon, and Washington. To do that, Atwater needed information about previous earthquakes that had struck the area. Written records dated back only about 200 years, so Atwater, now at the University of Washington in Seattle, initially relied on information that he could glean from the soil and rocks.

His work sent him into areas where native peoples had lived for thousands of years, and they told the government scientist their own myths about gods who walked the earth, stomping their feet and making the ground shake, as well as giant waves that swept over the land shortly thereafter.

In 2007, Atwater identified a massive earthquake that spawned an equally massive tsunami, decimating villages and forever altering the landscape of the Pacific Northwest. When his team dated the debris from the earthquake, he discovered it had occurred around the year 1700.

‘It was a horrible thing – the burial of a house and no doubt its occupants. It’s a really sobering experience to sift through those artefacts’

When Japanese seismologists heard of this date, they immediately contacted Atwater about a rogue tsunami that no one could explain. The Japanese, of course, were long familiar with tsunamis, having coined the word. They knew that the wall of water always followed an earthquake, and people living along the coast had learned to seek higher ground when they felt the ground start to shake. Yet in the 12th year of the Genroku era, or 1700 CE, a tsunami had hurtled itself into Japan’s eastern shore, but without an accompanying earthquake.

Modern seismologists guessed that the tsunami must have been spawned by an earthquake on the other side of the Pacific, but they couldn’t be any more specific. Atwater’s work gave them the missing information: in the Cascades, the Juan de Fuca plate dives beneath the North American plate, but it doesn’t move smoothly. The rocks get stuck, and tension builds. When the stress becomes too high, the fault ruptures and the plates move – a process that humans describe as an earthquake. Based on the precise recordings of the Japanese tsunami, the researchers provided a much more precise date for the earthquake that devastated the Pacific Northwest. Sometime around 9pm on Tuesday, 26 January 1700, a magnitude 9.0 earthquake hit as the plates violently released the stress pent up in the rocks.

‘It was a horrible thing to contemplate – the burial of a house and no doubt its occupants, as well as so many other parts of their lives. It’s a really sobering experience to sift through those artefacts,’ Atwater said.

Linking traditional Native American stories to historic records of a Japanese tsunami was considered an exception, not the start of a fruitful geological collaboration. It seemed that McAdoo, Nunn and Atwater’s explorations would be confined to the fringes of geology.

Then the 2004 tsunami struck.

A century before, a tsunami had slammed into the Indonesian island of Simeulue, killing hundreds and leaving even more homeless. The event was seared into the memory of those who survived, determined to pass their hard-earned wisdom along to their children. Their instructions were devastatingly simple: if the water recedes after an earthquake, run immediately to high ground. They didn’t invoke gods or the supernatural, but these types of warnings likely formed the kernel of later myths and traditional stories, Nunn says. During the tsunami of 2004, their efficacy was clear. On Simeulue, with a population of more than 80,000, only seven people died. Before the roar of the waves drowned out human voices, the island was filled with shouts of ‘Smong! Smong! Smong!’, the local word for a tsunami.

Such stories regularly cropped up in the weeks and months following the tsunami. Residents of remote villages knew exactly what to do and survived with relatively few casualties. As the stories gained in popularity, the idea that they had valid geological merit began to grow.

‘The 2004 tsunami completely changed how science looked at disasters. There were more conversations between social scientists, natural scientists, and engineers, which led to more insights on how and why these disasters happened,’ McAdoo said.

Most recently, a paper in Science published in August 2016 revealed geological evidence for a massive ancient flood in China that had long been rumoured to have spurred the formation of the country’s first imperial dynasty. Around 4,000 years ago, the stories go, an ‘Emperor Yu’ rose to power based on his ability to drain lowlands of flood. No one knew whether Emperor Yu was a real person or whether the floodwaters he tamed actually existed.

Yet studying the landslides in the Jishi Gorge that dammed the Yellow River high in the Tibetan plateau, a team of Chinese scientists gathered archaeological and geological evidence to demonstrate that the dams failed right around the time that China’s first dynasty emerged. The failure rerouted the Yellow River, a dynamic that could lead to persistent flooding downstream. The researchers also found evidence of large-scale drainage projects in the Yellow River delta that popped up not long after the Jishi Gorge landslides.

My personal suburban legends left me intimately familiar with what to do if I ever saw a funnel cloud

The destructive power of natural disasters hasn’t diminished in the thousands of years during which these stories were told and retold. And humanity now faces an even greater catastrophe in the form of climate change. Unlike floods, earthquakes, tsunamis and volcanoes, the devastation from global warming isn’t sudden and violent. It has been creeping up on us for decades, but that doesn’t mean it will be any less deadly. To fight these changes, humanity needs a new set of tales.

On Fiji, 25-year-old Betty Barkha is traversing her homeland to gather stories of how locals are responding to increased cyclones and flooding caused by our changing climate. These stories might not have the nail-biting drama of oral epics filled with supernatural forces, but they can connect with readers and listeners in ways that dry data from government agencies can’t.

Most humans don’t spend their evenings swapping stories around a campfire, but we haven’t lost our penchant for myth. The same summer storms caused by gods gone bowling could also generate tornadoes. As a child in the Midwest, I knew all the signs: a sky that looked like pea soup, wind that had the angry roar of an oncoming train, and the plaintive wail of a warning siren. A few years before I was born, a tornado had ripped through my town, leaving a path of debris less than a quarter mile from my home. Decades later, stories are still told of how a gas station was levelled on one side of the street but a building diagonally across was untouched. My personal suburban legends left me intimately familiar with what to do if I ever saw a funnel cloud.

Whether the disaster is earthquake, volcano or ocean wave, modern responses will likely involve cutting-edge science, but chances are we’ll also be spinning stories for aeons to come.

13 April 2017

Brasil oficializa ‘pedalada climática’ em nova meta de redução de gases (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Phillippe Watanabe

7 de abril de 2022


Uma atualização das metas de redução de gases estufa foi registrada pelo Brasil, nesta quinta-feira (7), na UNFCCC (sigla em inglês para Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima), formalizando, dessa forma, uma “pedalada climática“.

As novas metas aparecem mais de cinco meses depois da COP26, a Conferência das Nações Unidas para Mudanças Climáticas, e, mesmo assim, ainda não formalizam todas promessas feitas durante o evento à comunidade internacional.

Entre os objetivos atualizados está a neutralidade de carbono até 2050, a redução, em 2025, de 37% dos gase estufa, em comparação com as emissões de 2005, e a diminuição, em 2030, de 50% dos gases, também em comparação com 2005.

As emissões brasileiras são resultado, principalmente, de desmatamento e atividade pecuária.

As promessas, feitas durante a COP, de zerar o desmatamento até 2030 e de redução na emissão de metano não constam no documento, ausência apontada por entidades como o Política por Inteiro e o Observatório do Clima.

Os cortes de emissões de gases para 2030 e a neutralidade de carbono em 2050 tinham sido anunciados pelo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite, em 1º de novembro do ano passado.

As organizações também criticam a “pedalada climática” das metas apresentadas.

A pedalada ocorre pela mudança no dado das emissões de 2005, que foi atualizado nos mais recentes inventários nacionais de gases estufa, ou seja, ocorreu uma mudança na base de comparação.

A primeira NDC brasileira (sigla para contribuição nacional determinada e que pode ser, de modo mais simples, traduzida como meta climática) é de 2015, ano do Acordo de Paris. Nela, o Brasil se compromete a até 2030 reduzir em 43%, em relação a 2005, as emissões de gases estufa. Nesse cenário e com os dados disponíveis naquele momento, o país emitiria, em 2030, cerca de 1,208 gigatoneladas de gás carbônico equivalente (em linhas gerais, uma soma dos gases que causam o aquecimento global).

Com a evolução nas metodologias para medir os gases, os dados de 2005 sofreram correções e aumentaram. A meta brasileira, porém, não foi alinhada a essa correção e permaneceu em 43% de redução. Como os dados de base (2005) são menores, a redução de 43% passou a significar emissões maiores em 2030 (cerca de 1,620 gigatoneladas), em comparação ao prometido inicialmente. Surgiu, assim a pedalada climática.

Aumentando-se mais o percentual de corte de emissões, a situação poderia ser corrigida com a nota meta nacional submetida ao UNFCCC. Mas isso não aconteceu. Considerando o documento que foi submetido com 50% de redução de emissões, o Brasil em 2030 estará emitindo 1,281 gigatoneladas de CO2e (leia gás carbônico equivalente), segundo análises do Observatório do Clima e do Política por Inteiro.

O alerta sobre a manutenção da pedalada já tinha sido soado no momento em que Leite anunciou a nova meta, na COP26. No dia anterior à promessa, o Brasil havia, inclusive, submetido uma carta-adendo à UNFCCC em que oficializava somente a meta de neutralidade climática até 2050, sem citações aos objetivos desta década.

Organizações apontam que as novas metas nacionais não aumentam a ambição climática, algo que era esperado das nações que assinaram o Acordo de Paris.

“O teto de emissões estipulado para 2030 está uma Colômbia inteira (em termos de emissões anuais) acima daquele estipulado anteriormente pelo Governo do Brasil”, afirma uma análise produzida pelo Política por Inteiro. Já o teto de 2025 está uma Polônia inteira acima do estipulado anteriormente aponta o documento.

O Política por Inteiro ainda aponta que o país deve resolver em definitivo a questão de atualização de metas. “As sucessivas demonstrações de retrocesso afetam diretamente a credibilidade do país na esfera internacional”, diz a análise.

O Observatório do Clima aponta que o país está descumprindo o Acordo de Paris e que mente no documento enviado ao UNFCCC ao afirmar que está aumentando sua ambição.

“Continua sendo um retrocesso, num momento em que as Nações Unidas fazem um chamado para os países aumentarem suas ambições. O Brasil não responde ao chamado e ainda continua retrocedendo”, diz, em nota, Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

Lei de Cotas pode ser alterada com exclusão de critérios raciais para seleção de alunos (Carta Capital)

cartacapital.com.br

No texto sancionado por Dilma Rousseff, está prevista uma revisão do sistema após dez anos de implantação, o que ocorrerá em agosto próximo

Por Fabíola Mendonça e Rodrigo Martins | 11.03.2022 05h30


No início de 2021, uma família negra de Caçapava, no interior paulista, teve uma dupla conquista para celebrar. A técnica de enfermagem Sandra Baptista, de 53 anos, obteve uma bolsa de estudos integral para cursar Gestão Pública em uma universidade privada de Santos. Já a filha Lívia ­Gabrielle dos Santos da Silva, de 18 anos, foi aprovada no processo seletivo do curso de Engenharia Química da USP, no campus de Lorena, e tornou-se a primeira integrante do núcleo familiar a ter acesso a uma universidade pública. Até então, apenas outro filho teve a oportunidade de cursar uma faculdade, com financiamento pelo Fies.

Sandra precisou adiar por muitos anos o sonho do ensino superior. Chegou a iniciar alguns cursos no passado, mas precisou abandoná-los em decorrência de problemas financeiros. Agora, com os filhos crescidos, acredita ser possível conciliar o trabalho com a graduação a distância. Lívia, por sua vez, entrou na USP logo após o Ensino Médio. Não foi uma tarefa fácil, ainda mais em tempos de pandemia. “Começava às 7 e meia da manhã e seguia com os estudos até 9 da noite, sem descanso”, relembra. Um sacrifício necessário para dar conta das aulas remotas da escola, a elaboração do trabalho de conclusão de curso e o reforço do Emancipa, um cursinho popular, mantido por voluntários.

ANTES EM MINORIA, OS NEGROS HOJE SOMAM 51,2% DOS ALUNOS DAS UNIVERSIDADES FEDERAIS. AS VAGAS PARA BRANCOS TAMBÉM CRESCERAM

Beneficiária do sistema de cotas, ela recebe uma bolsa de 500 reais para custear a moradia e tem direito a refeições gratuitas no restaurante universitário. “Como divido o apartamento com duas amigas, consigo pagar a maior parte dos gastos. Ainda assim, preciso da ajuda dos meus pais para cobrir algumas despesas”, comenta. “Sem as cotas e sem esse auxílio financeiro do programa de permanência, eu jamais conseguiria fazer esse curso na USP. Os alunos da escola pública estão em muita desvantagem em relação aos de colégios particulares. E acho muito justo que a população negra tenha acesso facilitado às universidades, até para reparar os três séculos e meio de escravidão e toda a exclusão que sofremos desde então. Após a Abolição, por muitos anos nos impediram de estudar e até mesmo de trabalhar em algumas profissões, como cocheiro. Nada mais justo do que termos, ao menos, a possibilidade de modificar o nosso futuro.”

Assim como Lívia, centenas de milhares de brasileiros tiveram acesso à universidade pública facilitado pelas cotas raciais, implantadas oficialmente no Brasil a partir da Lei 12.711, de 2012. No texto sancionado por Dilma Rousseff, está prevista uma revisão do sistema de cotas após dez anos de implantação, o que ocorrerá em agosto próximo. O governo ainda não se pronunciou formalmente sobre o tema, mas o ministro da Educação, o pastor presbiteriano Milton Ribeiro, já se manifestou no passado contra a reserva de vagas por critérios étnico-raciais. Pior: no Congresso, representantes da base bolsonarista e da autointitulada “direita liberal” se articulam para derrubar o mecanismo, mantendo apenas os critérios sociais.

Em artigo publicado no Jornal da Ciência, um veículo da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, o advogado José Eduardo Cardoso, ex-ministro da Justiça, esclarece que a lei não tem prazo de validade. “No seu texto não existe nenhuma data estabelecendo o fim da sua vigência. Ao contrário, o que existe, no seu art. 7º, é a previsão de que se realize uma revisão dos seus termos, ‘no prazo de dez anos’, e não a afirmação da ‘perda­ da sua vigência’ após o período de dez anos”. Ou seja, a legislação não vai caducar, caso os parlamentares decidam analisar o tema com calma em outro momento, fora do afogadilho do período eleitoral.

“Sim, podemos ocupar espaços de poder“, diz Joana Guimarães, primeira reitora negra do País – Imagem: UFSB

Cleber Santos, presidente da Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e professor da Unifesp, reforça essa linha de raciocínio e não descarta judicializar a questão, caso seja retirada da lei a reserva de vagas nas universidades para pretos, pardos e indígenas (PPI). “A lei não tem uma expiração prevista para ocorrer em 2022. Fala de monitoramento e avaliação por parte dos órgãos públicos responsáveis, o que não ocorreu”, observa. “É preciso entender a revisão como um processo de aperfeiçoamento a partir desse monitoramento e avaliação, com dados concretos.”

A possibilidade da exclusão dos critérios raciais preocupa os defensores das cotas, sobretudo quando se considera o perfil do governo Bolsonaro, sempre refratário a políticas públicas inclusivas. “Há o enorme risco de aprovarem uma nova legislação que limite as cotas ou abram a possibilidade de o presidente Jair Bolsonaro vetar um trecho específico, que leve à exclusão de algum grupo beneficiado”, chama atenção Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação e atual presidente da SBPC. “É preciso destacar que todas as cotas são sociais, pois os beneficiários precisam ser, necessariamente, egressos de escolas públicas. Você pode ser negro, pode ser indígena, pode ter alguma deficiên­cia… Não terá direito à reserva de vagas a menos que tenha cursado os três anos do Ensino Médio na rede pública. Não vejo por que mudar esse sistema. Ele não prejudica ninguém. As cotas levam em conta a proporção de todos os grupos étnicos e pessoas com deficiência existentes em cada estado, nem mais nem menos.”

Uma das iniciativas para acabar com as cotas raciais foi apresentada pelo deputado Kim Kataguiri, do DEM. Em tramitação na Câmara, o Projeto de Lei 4125/21 estabelece que as vagas deveriam ser destinadas exclusivamente aos alunos de baixa renda. “Além de inconstitucionais, as políticas de discriminação positiva não fazem o menor sentido. Quem é excluído da educação é o pobre, que entra cedo no mercado de trabalho e depende dos serviços educacionais do Estado, que, em geral, são de péssima qualidade”, diz o parlamentar. “A pobreza não tem cor.”

Fontes: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE): Pesquisas Anuais de Domicílios (1996, 2003 e 2014) e Censo 2010. V Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) graduandos(as) das Ifes (2018).

O militante do MBL, que recentemente lamentou o fato de a Alemanha ter criminalizado o nazismo em um podcast, parece ignorar os indicadores sociais, sempre mais desfavoráveis à população negra, mesmo quando se comparam grupos com a mesma escolaridade ou faixa de renda. “Perder o componente racial é retroceder mais de 130 anos de história. As cotas ainda não respondem a toda necessidade da população brasileira, sobretudo a que vive discriminação histórica. É visível que avançou a presença dos estudantes negros nas universidades federais, mas é também visível a imensidão do lado de fora”, afirma Matilde Riberio, ex-ministra da Secretaria Especial de Igualdade Racial no governo Lula. “A manutenção do componente racial é uma responsabilidade do Estado e da sociedade, considerando que, em todos os dados estatísticos de todas as áreas das políticas públicas, você identificará que a população negra é preterida.”

A lei determina que todas as universidades e institutos federais de ensino devem reservar ao menos 50% das vagas dos cursos de graduação para alunos que tenham cursado integralmente o Ensino Médio em escolas públicas. Desse montante, metade das vagas será destinada a pessoas com renda de até um salário mínimo e meio per capita. A outra é distribuída entre pretos, pardos e indígenas e pessoas com deficiência, considerando a proporcionalidade das populações em cada estado, segundo o último Censo do ­IBGE. “O sistema de ensino é ruim para todos, brancos e não brancos, mas, quando a gente olha para o Ensino Médio, 71,7% dos jovens fora da escola são negros”, comenta José Nilton, professor de Educação das Relações Étnico-Raciais, disciplina obrigatória em todos os cursos da UFRPE.

A maior virtude da Lei de Cotas é o fato de ser uma política abrangente e multidimensional, com uma combinação de critérios que combate, simultaneamente, as desigualdades socioeconômicas e as raciais, ressalta Adriano Senkevics, doutor em Educação pela USP e pesquisador do Inep. Dessa forma, democratizou-se o acesso às universidades federais, inclusive nas carreiras mais prestigiadas, como medicina e engenharia. “Não se pode dizer que a legislação privilegia grupos que teriam condições financeiras de disputar vagas pelo sistema universal, pois todos os cotistas, sem exceção, precisam ser egressos de escola pública, dos quais metade deles também de renda baixa. E não bastaria manter apenas os critérios sociais, pois a desigualdade possui especificidades de cunho racial”, explica Senkevics.

O ministro-pastor Milton Ribeiro e o deputado Kim Kataguiri acreditam que a pobreza não tem cor. Quem sabe na Suécia, vai saber… – Imagem: Luis Fortes/MEC e Deputados do DEM

Em estudo publicado há três anos na Cadernos de Pesquisa, revista científica da Fundação Carlos Chagas, Senkevics e ­Ursula Mattioli Mello, pesquisadora do Institute for Economic Analysis, de ­Barcelona, revelaram o impacto da Lei de Cotas nas universidades. O porcentual de alunos egressos de escolas públicas e com renda de até um salário mínimo e meio, independentemente do perfil racial, aumentou de 48,12%, em 2012, para 54,8% em 2016. Dentro desse grupo, a maior expansão deu-se entre pretos, pardos e indígenas, cuja participação cresceu de 24,9% para 34% no mesmo período. “Ou seja, se a legislação não contemplasse os critérios raciais, haveria uma menor representatividade étnica no ensino superior.”

O impacto da Lei de Cotas foi ainda mais expressivo nas instituições de ensino que tardaram a adotar políticas afirmativas. A UFC, para citar um exemplo, não possuía qualquer sistema de reserva de vagas até então e dobrou o porcentua­l de ingressantes provenientes da escola pública em quatro anos – a participação desse grupo aumentou de 28,4%, em 2012, para 56,9%, em 2016. No caso da Ufes, que desde 2008 reservava de 40% a 50% das vagas para alunos da rede pública, o aumento foi tímido, de apenas 1,2%.

Autor do projeto pioneiro sobre cotas no Brasil, implantado na UnB em 2003, o antropólogo e professor José Jorge Carvalho acompanha esse debate há mais de 30 anos e diz ser incalculável a evolução da participação de pretos, pardos e indígenas nas universidades públicas. “Uma revolução foi feita. Eu lembro de dar aula há 20 anos em uma turma que eram todos brancos, às vezes tinha um único estudante negro. Agora, se você entrar na sala de aula, ela está integrada racialmente, com estudantes negros, brancos, indígenas, de baixa renda. É uma revolução social, racial e étnica gigantesca”, avalia. “A partir das cotas, os estudantes negros e indígenas começaram a questionar o currículo­ ensinado – eurocêntrico, centrado na cultura branca europeia. Queriam saber quando iriam estudar os escritores e poetas negros, a psicologia e a filosofia negras, a arte e o pensamento indígenas. A universidade cresceu intelectualmente.”

“SE REVISAR A LEI NESTE MOMENTO, HÁ O ENORME RISCO DE APROVAREM UMA NOVA LEGISLAÇÃO QUE LIMITE AS COTAS”, ALERTA JANINE RIBEIRO

Embora não considere o momento mais adequado para a revisão da Lei de Cotas, em razão da pressão de grupos reacionários pela supressão dos critérios raciais, Senkevics acredita que há, sim, aspectos que podem ser aperfeiçoados. Hoje, para definir o porcentual de vagas reservadas aos PPI em cada estado, são utilizados os dados do Censo Demográfico, realizado a cada dez anos. Além disso, a pandemia atrasou a realização do último levantamento, que deveria ter acontecido em 2020. O Censo está defasado e poderia perfeitamente ser substituído pela Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar, atualizada constantemente pelo IBGE.

Outro ponto sensível é a ausência de regulamentação sobre o trabalho das comissões verificadoras das cotas, criadas para combater as fraudes na autodeclaração racial dos alunos. “Isso tem provocado uma crescente judicialização de casos, além de trazer prejuízos para todos os envolvidos: o estudante que é expulso nos anos finais de conclusão do curso, a universidade que gastou recursos para a formação desse aluno e o próprio cotista que perdeu aquela vaga”, observa ­Senkevics. “Com critérios mais claros, esse problema tende a ser minimizado.”

Fonte: IBGE, Pnad Contínua, 2018.

Autor de um projeto que propõe a prorrogação da Lei de Cotas por 50 anos e inclui na proposta políticas de assistência para a permanência dos estudantes, o ­deputado Valmir Assunção, do PT, defende a criação do Conselho Nacional das Ações Afirmativas do Ensino Superior, cuja finalidade seria monitorar a aplicação das regras, com a participação dos movimentos negro e estudantil das próprias universidades. Com os sucessivos cortes e congelamentos de recursos para o ensino superior desde 2015, as instituições de ensino enfrentam uma dificuldade cada vez maior de oferecer auxílio-moradia e refeições gratuitas aos alunos de baixa renda.

“Essa política material que garante assistência educacional é o que proporciona aos estudantes em vulnerabilidade a possibilidade de permanecerem nesses cursos onde a exigência é bem maior, como medicina. Mas, com os cortes, a gente não consegue atender a todos”, lamenta ­Cássia ­Virgínia Maciel, pró-reitora de Ações Afirmativas da UFBA, ressaltando que, em 2021, o corte na assistência estudantil da instituição foi de 7,2 milhões de reais. “Os valores repassados nunca deram para as universidades trabalharem com folga. Mas não havia essa política de negação do conhecimento como existe no governo atual”, completa Denise Góes, coordenadora da ­Comissão de Políticas Raciais da UFRJ, ressaltando que a universidade fluminense, a partir de 2019, precisou limitar a concessão de bolsas para alunos com renda ­per capita­ de até meio salário mínimo – antes, o benefício estendia-se a quem tinha até um salário mínimo e meio.

Importante observar que os brancos e asiáticos sofreram uma perda apenas relativa, em termos meramente proporcionais. “O número de vagas nas universidades federais passou de cerca de 100 mil, em 2001, para mais de 230 mil em 2011. Ou seja, o número de vagas para alunos não cotistas aumentou 15% nesse período, de 100 mil para 115 mil”, observa ­Janine Ribeiro. “A expansão da rede federal de ensino superior permitiu que ninguém fosse prejudicado com as cotas. Foi um jogo de ganha-ganha.”

“É VISÍVEL A PRESENÇA DOS NEGROS NAS UNIVERSIDADES, MAS É TAMBÉM VISÍVEL A IMENSIDÃO DO LADO DE FORA”, DIZ A EX-MINISTRA MATILDE RIBEIRO

A 5ª Pesquisa Nacional de Perfil Socioeconômico e Cultural dos(as) Graduandos(as) dos Ifes, realizada pela Andifes, corrobora a avaliação de Janine Ribeiro. Em termos porcentuais, a participação da população branca nas universidades federais caiu de 53,9%, em 2010, para 43,3%, em 2018. Não houve, porém, redução do número de alunos brancos. Ao contrário, o quantitativo aumentou de 353,8 mil para 520 mil no mesmo período. As cotas apenas asseguraram maior participação de grupos étnicos sub-representados. A população preta e parda, antes minoritária, passou a representar 51,2% do total de alunos.

O Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa, vinculado à Uerj, também tem dados que mostram a evolução das cotas nas universidades federais. Segundo o estudo, em 2012, havia pouco mais de 30 mil vagas para os cotistas e 110 mil para ampla concorrência. Sete anos depois, quase 138 mil pretos, pardos, indígenas e pessoas com deficiência puderam fazer um curso superior graças ao sistema. E isso não significou redução de vagas para brancos, pois havia mais de 125 mil ofertas para ampla concorrência, 15 mil a mais que em 2012. “A reserva de vagas foi e é a principal política de mobilidade social do País. É preciso não só manter, mas ampliar, e acabar com a visão de que não existe racismo no Brasil”, diz Penildo Silva Filho, pró-reitor de graduação da UFBA.

“A reparação mal começou“, observa Matilde – Imagem: Valter Campanato/ABR

Primeira mulher negra eleita reitora de uma universidade federal, a geóloga Joana Guimarães chama atenção para o caráter simbólico, histórico, cultural e socioeconômico das cotas. “O fato de eu estar como reitora de uma universidade tem um significado, passa a mensagem de que temos o direito de ocupar espaços de poder. Contribui para uma mudança de olhar, para que os alunos negros se sintam capazes”, destaca a docente, da UFSB. “O que faltou a eles foi oportunidade, pois são tão inteligentes quanto qualquer aluno branco. A única diferença são as condições, o ponto de partida.”

A representatividade também é percebida pela população indígena. Formado em jornalismo pela UFPE, Tarisson Nawa, de 25 anos, está concluindo mestrado e já foi aprovado para o doutorado da UFRJ, dentro da reserva para indígenas. Isso porque, mesmo sem a obrigatoriedade de cota na pós-graduação, muitos programas instituíram a ação afirmativa. “A gente não via perspectiva de entrar na universidade”, comenta. “As cotas são uma possibilidade de deixarmos de ser objeto de pesquisa para sermos autores da pesquisa. Não precisamos mais ser pesquisados por não indígenas, vamos construir as nossas próprias narrativas a partir das nossas vidas, numa cosmovisão dos povos indígenas.”

Sobre a adoção das cotas no mestrado e no doutorado, o coordenador dos Programas de Pós-Graduação em Direito da PUC Minas, Marciano Seabra Godoi, destaca a necessidade de pessoas negras e indígenas passarem a produzir conhecimento. “Quem pesquisa e cria teorias é o público da pós-graduação. É preciso colocar essa população para disputar narrativas. Se você coloca os cotistas só na graduação, nega a eles a produção do saber.” •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1199 DE CARTACAPITAL, EM 16 DE MARÇO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O revide da casa-grande”

Leia mais em https://www.cartacapital.com.br/politica/lei-de-cotas-pode-ser-alterada-com-exclusao-de-criterios-raciais-para-selecao-de-alunos/. O conteúdo de CartaCapital está protegido pela legislação brasileira sobre direito autoral. Essa defesa é necessária para manter o jornalismo corajoso e transparente de CartaCapital vivo e acessível a todos.

Editorial: Misinformation is blocking climate action, and the U.N. is finally calling it out (Los Angeles Times)

latimes.com

By The Times Editorial Board March 7, 2022 3 AM PT


A landmark U.N. climate report on the escalating effects of global warming broke new ground by finally highlighting the role of misinformation in obstructing climate action. It was the first time one of the Intergovernmental Panel on Climate Change’s exhaustive assessments has called out the ways in which fossil fuel companies, climate deniers and conspiracy theorists have sown doubt and confusion about climate change and made it harder for policymakers to act.

The expert panel’s report released last week mostly focused on the increasing risk of catastrophe to nature and humanity from climate change. But it also laid out clear evidence of how misinformation about climate change and the “deliberate undermining of science” financed and organized by “vested economic and political interests,” along with deep partisanship and polarization, are delaying action to reduce greenhouse gas emissions and adapt to their impacts.

The assessment describes an atmosphere in which public perception about climate change is continually undermined by fossil fuel interests’ peddling of false, misleading and contrarian information and its circulation through social media echo chambers; where there’s an entrenched partisan divide on climate science and solutions; and people reject factual information if it conflicts with their political ideology.

Sound familiar? It should, because the climate misinformation landscape is worse in the United States than practically any other country.

While the section on misinformation covers only a few of the more than 3,600 pages in the report approved by 195 countries, it’s notable that it’s in a chapter about North America and calls out the U.S. as a hotbed for conspiracy theories, partisanship and polarization. A 2018 study of 25 countries that was cited in the IPCC report found that the U.S. had a stronger link between climate skepticism and conspiratorial and conservative ideology than in any other nation tested. These forces aren’t just a threat to democracy, they are major roadblocks to climate action and seem to have sharpened with the Trump presidency and the COVID-19 pandemic.

Misinformation was included in the North America chapter for the first time this year “because there has been a lot of research conducted on the topic since the last major IPCC report was published in 2014,” said Sherilee Harper, one of the lead authors and an associate professor at the University of Alberta in Canada. “Evidence assessed in the report shows how strong party affiliation and partisan opinion polarization can contribute to delayed climate action, most notably in the U.S.A., but also in Canada.”

The IPCC’s language is measured but leaves no doubt that the fossil fuel industry and politicians who advance its agenda are responsible. It is shameful that fossil fuel interests have been so successful in misleading Americans about the greatest threat to our existence. The industry has engaged in a decades-long campaign to question climate science and delay action, enlisting conservative think tanks and public relations firms to help sow doubt about global warming and the actions needed to fight it.

These dynamics help explain why U.S. politicians have failed time after time to enact significant federal climate legislation, including President Biden’s stalled but desperately needed “Build Back Better” bill that includes $555 billion to spur growth in renewable energy and clean transportation. And they show that combating disinformation is a necessity if we are to break through lawmakers’ refusal to act, which is increasingly out of step with Americans’ surging levels of alarm and concern about the overheating of the planet.

“We’ve seen misinformation poisoning the information landscape for over three decades, and over that time the public has been getting more and more polarized,” said John Cook, a postdoctoral research fellow at the Climate Change Communication Research Hub at Monash University in Australia. “The U.S. is the strongest source of misinformation and recipient of misinformation. It’s also the most polarized on climate.”

Cook and his colleagues studied misinformation on conservative think-tank websites and contrarian blogs over the last 20 years and charted the evolution of the climate opposition from outright denial of the reality of human-caused climate change and toward attacking solutions such as renewable energy or seeking to discredit scientists.

Cook said his research has found the most effective way to counter climate obstruction misinformation is to educate people about how to identify and understand different tactics, such as the use of fake experts, cherry-picked facts, logical fallacies and conspiracy theories. For example, seeing words such as “natural” or “renewable” in fossil fuel advertising raises red flags that you’re being misled through greenwashing.

“It’s like teaching people the magician’s sleight-of-hand trick,” Cook said.

There have been important efforts recently to hold the fossil fuel industry accountable for disinformation. In a hearing that was modeled on tobacco industry testimony from a generation ago, House Democrats hauled in oil executives last fall to answer to allegations that their companies have concealed their knowledge of the risks of global warming to obstruct climate action (they, unsurprisingly, denied them).

Perhaps we are getting closer to a turning point, where public realization that we’ve been misinformed by polluting industries begins to overcome decades of planet-endangering deceit and delay. Having the world’s scientists finally begin to call out the problem certainly can’t hurt.

Marcelo Leite: Virada Psicodélica – Artigo aponta injustiça psicodélica contra saber indígena (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Marcelo Leite

7 de março de 2022


A cena tem algo de surreal: pesquisador europeu com o corpo tomado por grafismos indígenas tem na cabeça um gorro com dezenas de eletrodos para eletroencefalografia (EEG). Um membro do povo Huni Kuin sopra rapé na narina do branco, que traz nas costas mochila com aparelhos portáteis para registrar suas ondas cerebrais.

A Expedition Neuron aconteceu em abril de 2019, em Santa Rosa do Purus (AC). No programa, uma tentativa de diminuir o fosso entre saberes tradicionais sobre uso da ayahuasca e a consagração do chá pelo chamado renascimento psicodélico para a ciência.

O resultado mais palpável da iniciativa, até aqui, apareceu num controverso texto sobre ética, e não dados, de pesquisa.

O título do artigo no periódico Transcultural Psychiatry prometia: “Superando Injustiças Epistêmicas no Estudo Biomédico da Ayahuasca – No Rumo de Regulamentação Ética e Sustentável”. Desde a publicação, em 6 de janeiro, o texto gerou mais calor que luz –mesmo porque tem sido criticado fora das vistas do público, não às claras.

Os autores Eduardo Ekman Schenberg, do Instituto Phaneros, e Konstantin Gerber, da PUC-SP, questionam a autoridade da ciência com base na dificuldade de empregar placebo em experimentos com psicodélicos, na ênfase dada a aspectos moleculares e no mal avaliado peso do contexto (setting) para a segurança do uso, quesito em que cientistas teriam muito a aprender com indígenas.

Entre os alvos das críticas figuram pesquisas empreendidas na última década pelos grupos de Jaime Hallak na USP de Ribeirão Preto e de Dráulio de Araújo no Instituto do Cérebro da UFRN, em particular sobre efeito da ayahuasca na depressão. Procurados, cientistas e colaboradores desses grupos não responderam ou preferiram não se pronunciar.

O potencial antidepressivo da dimetiltriptamina (DMT), principal composto psicoativo do chá, está no foco também de pesquisadores de outros países. Mas outras substâncias psicodélicas, como MDMA e psilocibina, estão mais próximas de obter reconhecimento de reguladores como medicamentos psiquiátricos.

Dado o efeito óbvio de substâncias como a ayahuasca na mente e no comportamento da pessoa, argumentam Schenberg e Gerber, o sistema duplo-cego (padrão ouro de ensaios biomédicos) ficaria inviabilizado: tanto o voluntário quanto o experimentador quase sempre sabem se o primeiro tomou um composto ativo ou não. Isso aniquilaria o valor supremo atribuído a estudos desse tipo no campo psicodélico e na biomedicina em geral.

Outro ponto criticado por eles está na descontextualização e no reducionismo de experimentos realizados em hospitais ou laboratórios, com o paciente cercado de aparelhos e submetido a doses fixadas em miligramas por quilo de peso. A precisão é ilusória, afirmam, com base no erro de um artigo que cita concentração de 0,8 mg/ml de DMT e depois fala em 0,08 mg/ml.

A sanitização cultural do setting, por seu lado, faria pouco caso dos elementos contextuais (floresta, cânticos, cosmologia, rapé, danças, xamãs) que para povos como os Huni Kuin são indissociáveis do que a ayahuasca tem a oferecer e ensinar. Ao ignorá-los, cientistas estariam desprezando tudo o que os indígenas sabem sobre uso seguro e coletivo da substância.

Mais ainda, estariam ao mesmo tempo se apropriando e desrespeitando esse conhecimento tradicional. Uma atitude mais ética de pesquisadores implicaria reconhecer essa contribuição, desenvolver protocolos de pesquisa com participação indígena, registrar coautoria em publicações científicas, reconhecer propriedade intelectual e repartir eventuais lucros com tratamentos e patentes.

“A complementaridade entre antropologia, psicanálise e psiquiatria é um dos desafios da etnopsiquiatria”, escrevem Schenberg e Gerber. “A iniciativa de levar ciência biomédica à floresta pode ser criticada como uma tentativa de medicalizar o xamanismo, mas também pode constituir uma possibilidade de diálogo intercultural centrado na inovação e na resolução de ‘redes de problemas’.”

“É particularmente notável que a biomedicina se aventure agora em conceitos como ‘conexão’ e ‘identificação com a natureza’ [nature-relatedness] como efeito de psicodélicos, mais uma vez, portanto, se aproximando de conclusões epistêmicas derivadas de práticas xamânicas. O desafio final seria, assim, entender a relação entre bem-estar da comunidade e ecologia e como isso pode ser traduzido num conceito ocidental de saúde integrada.”

As reações dos poucos a criticar abertamente o texto e suas ideias grandiosas podem ser resumidas num velho dito maldoso da academia: há coisas boas e novas no artigo, mas as coisas boas não são novas e as coisas novas não são boas. Levar EEG para a floresta do Acre, por exemplo, não resolveria todos os problemas.

Schenberg é o elo de ligação entre o artigo na Transcultural Psychiatry e a Expedition Neuron, pois integrou a incursão ao Acre em 2019 e colabora nesse estudo de EEG com o pesquisador Tomas Palenicek, do Instituto Nacional de Saúde Mental da República Checa. Eis um vídeo de apresentação, em inglês:

“Estamos engajados, Konstantin e eu, em projeto inovador com os Huni Kuin e pesquisadores europeus, buscando construir uma parceria epistemicamente justa, há mais de três anos”, respondeu Schenberg quando questionado sobre o cumprimento, pelo estudo com EEG, das exigências éticas apresentadas no artigo.

Na apresentação da Expedition Neuron, ele afirma: “Nessa primeira expedição curta e exploratória [de 2019], confirmamos que há interesse mútuo de cientistas e uma cultura indígena tradicional da Amazônia em explorar conjuntamente a natureza da consciência e como sua cura tradicional funciona, incluindo –pela primeira vez– registros de atividade cerebral num cenário que muitos considerariam demasiado desafiador tecnicamente”.

“Consideramos de supremo valor investigar conjuntamente como os rituais e medicinas dos Huni Kuin afetam a cognição humana, as emoções e os vínculos de grupo e analisar a base neural desses estados alterados de consciência, incluindo possivelmente experiências místicas na floresta.”

Schenberg e seus colaboradores planejam nova expedição aos Huni Kuin para promover registros de EEG múltiplos e simultâneos com até sete indígenas durante cerimônias com ayahuasca. A ideia é testar a “possibilidade muito intrigante” de sincronia entre cérebros:

“Interpretada pelos Huni Kuin e outros povos ameríndios como um tipo de portal para o mundo espiritual, a ayahuasca é conhecida por fortalecer intensa e rapidamente vínculos comunitários e sentimentos de empatia e proximidade com os outros.”

Os propósitos de Schenberg e Gerber não convenceram a antropóloga brasileira Bia Labate, diretora do Instituto Chacruna em São Francisco (EUA). “Indígenas não parecem ter sido consultados para a produção do texto, não há vozes nativas, não são coautores, e não temos propostas específicas do que seria uma pesquisa verdadeiramente interétnica e intercultural.”

Para a antropóloga, ainda que a Expedition Neuron tenha conseguido autorização para a pesquisa, algo positivo, não configura “epistemologia alternativa à abordagem cientificista e etnocêntrica”. Uma pesquisa interétnica, em sua maneira de ver, implicaria promover uma etnografia que levasse a sério a noção indígena de que plantas são espíritos, têm agência própria, e que o mundo natural também é cultural, tem subjetividade, intencionalidade.

“Todos sabemos que a bebida ayahuasca não é a mesma coisa que ayahuasca freeze dried [liofilizada]; que o contexto importa; que os rituais e coletivos que participam fazem diferença. Coisas iguais ou análogas já haviam sido apontadas pela literatura antropológica, cujas referências foram deixadas de lado pelos autores.”

Labate também discorda de que os estudos com ayahuasca no Brasil negligenciem o reconhecimento de quem chegou antes a ela: “Do ponto de vista global, é justamente uma marca e um diferencial da pesquisa científica brasileira o fato de que houve, sim, diálogo com participantes das religiões ayahuasqueiras. Estes também são sujeitos legítimos de pesquisa, e não apenas os povos originários”.

Schenberg e Palenicek participaram em 2020 de um encontro com outra antropóloga, a franco-colombiana Emilia Sanabria, líder no projeto Encontros de Cura, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). Ao lado do indígena Leopardo Yawa Bane, o trio debateu o estudo com EEG no painel virtual “Levando o Laboratório até a Ayahuasca”, da Conferência Interdisciplinar sobre Pesquisa Psicodélica (ICPR). Há vídeo disponível, em inglês:

Sanabria, que fala português e conhece os Huni Kuin, chegou a ser convidada por Schenberg para integrar a expedição, mas declinou, por avaliar que não se resolveria a “incomensurabilidade epistemológica” entre o pensamento indígena e o que a biomedicina quer provar. Entende que a discussão proposta na Transcultural Psychiatry é importante, apesar de complexa e não exatamente nova.

Em entrevista ao blog, afirmou que o artigo parece reinventar a roda, ao desconsiderar um longo debate sobre a assimilação de plantas e práticas tradicionais (como a medicina chinesa) pela ciência ocidental: “Não citam a reflexão anterior. É bom que ponham a discussão na mesa, mas há bibliografia de mais de um século”.

A antropóloga declarou ver problema na postura do artigo, ao apresentar-se como salvador dos nativos. “Não tem interlocutor indígena citado como autor”, pondera, corroborando a crítica de Labate, como se os povos originários precisassem ser representados por não índios. “A gente te dá um espacinho aqui no nosso mundo.”

A questão central de uma colaboração respeitosa, para Sanabria, é haver prioridade e utilidade no estudo também para os Huni Kuin, e não só para os cientistas.

Ao apresentar esse questionamento no painel, recebeu respostas genéricas de Schenberg e Palenicek, não direta e concretamente benéficas para os Huni Kuin –por exemplo, que a ciência pode ajudar na rejeição de patentes sobre ayahuasca.

Na visão da antropóloga, “é linda a ideia de levar o laboratório para condições naturalistas”, mas não fica claro como aquela maquinaria toda se enquadraria na lógica indígena. No fundo, trata-se de um argumento simétrico ao brandido pelos autores do artigo contra a pesquisa psicodélica em ambiente hospitalar: num caso se descontextualiza a experiência psicodélica total, socializada; no outro, é a descontextualização tecnológica que viaja e invade a aldeia.

Sanabria vê um dilema quase insolúvel, para povos indígenas, na pactuação de protocolos de pesquisa com a renascida ciência psicodélica. O que em 2014 parecia para muitos uma nova maneira de fazer ciência, com outros referenciais de avaliação e prova, sofreu uma “virada capitalista” desde 2018 e terminou dominado pela lógica bioquímica e de propriedade intelectual.

“Os povos indígenas não podem cair fora porque perdem seus direitos. Mas também não podem entrar [nessa lógica], porque aí perdem sua perspectiva identitária.”

“Molecularizar na floresta ou no laboratório dá no mesmo”, diz Sanabria. “Não vejo como reparação de qualquer injustiça epistêmica. Não vejo diferença radical entre essa pesquisa e o estudo da Fernanda [Palhano-Fontes]”, referindo-se à crítica “agressiva” de Schenberg e Gerber ao teste clínico de ayahuasca para depressão no Instituto do Cérebro da UFRN, extensiva aos trabalhos da USP de Ribeirão Preto.

A dupla destacou, por exemplo, o fato de autores do estudo da UFRN indicarem no artigo de 2019 que 4 dos 29 voluntários no experimento ficaram pelo menos uma semana internados no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal. Lançaram, com isso, a suspeita de que a segurança na administração de ayahuasca tivesse sido inadequadamente tratada.

“Nenhum desses estudos tentou formalmente comparar a segurança no ambiente de laboratório com qualquer um dos contextos culturais em que ayahuasca é comumente usada”, pontificaram Schenberg e Gerber. “Porém, segundo nosso melhor conhecimento, nunca se relatou que 14% das pessoas participantes de um ritual de ayahuasca tenham requerido uma semana de hospitalização.”

O motivo de internação, contudo, foi trivial: pacientes portadores de depressão resistente a medicamentos convencionais, eles já estavam hospitalizados devido à gravidade de seu transtorno mental e permaneceram internados após a intervenção. Ou seja, a internação não teve a ver com terem tomado ayahuasca.

Este blog também questionou Schenberg sobre o possível exagero em pinçar um erro que poderia ser de digitação (0,8 mg/ml ou 0,08 mg/ml), no artigo de 2015 da USP de Ribeirão, como flagrante de imprecisão que poria em dúvida a superioridade epistêmica da biomedicina psicodélica.

“Se dessem mais atenção aos relatos dos voluntários/pacientes, talvez tivessem se percebido do fato”, retorquiu o pesquisador do Instituto Phaneros. “Além da injustiça epistêmica com os indígenas, existe a injustiça epistêmica com os voluntários/pacientes, que também discutimos brevemente no artigo.”

Schenberg tem vários trabalhos publicados que se encaixariam no paradigma biomédico agora em sua mira. Seria seu artigo com Gerber uma autocrítica sobre a atividade pregressa?

“Sempre fui crítico de certas limitações biomédicas e foi somente com muito esforço que consegui fazer meu pós-doc sem, por exemplo, usar um grupo placebo, apesar de a maioria dos colegas insistirem que assim eu deveria fazer, caso contrário ‘não seria científico’…”.

“No fundo, o argumento é circular, usando a biomedicina como critério último para dar respostas à crítica à biomedicina”, contesta Bia Labate. “O texto não resolve o que se propõe a resolver, mas aprofunda o gap [desvão] entre epistemologias originárias e biomédicas ao advogar por novas maneiras de produzir biomedicina a partir de critérios de validação… biomédicos.”

World’s nations start to hammer out first global treaty on plastic pollution (Science)

science.org

“Ambitious” efforts could set waste reduction targets, establish scientific advisory body

23 Feb 2022

By Erik Stokstad

Plastic waste piles up on a beach off Panama City. Nations will try to negotiate a new treaty aimed at reducing the global problem. LUIS ACOSTA/AFP/GETTY IMAGES

Each year, an estimated 11 million tons of plastic waste enter the ocean, equivalent to a cargo ship’s worth every day. The rising tide—in the oceans and beyond—is just a symptom of much wider problems: unsustainable product design, short-sighted consumption, and insufficient waste management, scientists say. To curb the flood, says Jenna Jambeck, an environmental engineer at the University of Georgia, “we need to take more action and it needs to be further upstream” in the production process.

That’s exactly what negotiators from 193 countries are setting out to do when they meet in Nairobi, Kenya, next week. Their ambitious goal: to create a negotiating committee that will try to hammer out, within 2 years, a new global treaty intended to curb plastic pollution.

An already released proposal, modeled on the United Nations’s climate treaty, would have nations adopt action plans, set binding waste reduction targets, and establish monitoring systems and a new global scientific advisory body. “It’s about time,” says Chelsea Rochman, an ecologist at the University of Toronto who has called on nations to tackle the issue.

Existing international efforts to reduce marine litter and exposure to hazardous chemicals include some measures related to plastic pollution. But no global treaty tries to reduce pollution by targeting a product’s entire life cycle, from its birth as a raw material to its death—if it becomes trash. Taking such a broad approach to plastics, says Anja Brandon, a policy analyst at the Ocean Conservancy, “is going to be a much bigger scientific endeavor.”

For one thing, rigorous, comparable numbers on the scope and sources of the problem are scarce, making it difficult to identify pollution hot spots or detect trends. Nonprofit groups and government agencies use dozens of varying protocols for surveying beach litter, for example. Methods of counting microplastics in water—shed from synthetic fabrics, for example, or formed when large plastic objects degrade—also vary. “There are several holes in the data,” Jambeck says.

The new treaty could help by promoting or establishing standard measuring and accounting methods. One such approach, called environmental economic accounting, is already being used in some countries to track various raw materials. And a method known as mass balance analysis, which tracks the amount of material entering and leaving production processes, holds promise for quantifying the amount of recycled plastic used in new products.

Even after scientists settle on standard metrics, collecting those numbers could be a challenge, Jambeck notes, especially in developing nations with relatively weak regulatory and research infrastructures. The United Nations Environment Programme (UNEP), which is hosting the upcoming meeting, has worked to increase monitoring capacity with training programs and online courses. Such efforts would be aided by a new treaty that encourages funding and technological advances. Remote sensing via satellites and drones, for example, could more easily identify plastic pollution trends, reducing the need for labor-intensive ground surveys.

More detailed industrial data on plastics production, transport, and consumption could also help nations curb pollution, researchers say. But many countries allow companies to keep such numbers private, making it difficult to calculate how plastic is moving through the economy and into the environment. And no one systematically tracks that information. The Ocean Conservancy, for example, has struggled to find out how much recycled plastic firms are using, Brandon says. Researchers are still pondering which numbers would be most useful, and how the treaty might help make that information more available.

Negotiators will also confront a key question: How much plastic pollution is too much? It’s clear that plastic bags, discarded fishing gear, and microplastics can kill wildlife, but scientists are just beginning to figure out how to calculate the risks. The treaty could help catalyze such efforts, says Rochman, who recently helped California regulators devise protocols for setting microplastic thresholds to protect people and ecosystems.

The political will to reduce plastic waste will be much higher if it’s known to harm humans, says Karen Raubenheimer, a policy researcher at the University of Wollongong. But she thinks any final agreement is unlikely to call for hard caps on new plastic. “It will be challenging in the short-term to stop using virgin plastic,” Raubenheimer says.

A big reason is that many uses of plastic are seen as essential. Single-use plastic items are common in health care, for example, to prevent contamination and infections, and in the food industry to keep fruit, vegetables, and other products from spoiling. Even disposable bottles can be vital in areas without clean water.

Negotiators might call for the reduction or elimination of what UNEP has called “unnecessary, avoidable and problematic plastic,” such as single-use shopping bags, takeout cutlery, or plastic beads in cosmetics. But analysts say nations must also focus on ways to reuse and recycle plastic materials. Currently, researchers estimate that less than 10% of plastic products are recycled. Smarter product designs that drive better waste management practices could boost that number, reducing the demand for virgin materials.

Trying to finalize the new treaty in just 2 years is “highly ambitious,” UNEP admits. But researchers who have watched the plastic pile up are delighted that the talks are even getting started. “People are putting high level resources to try to solve this problem in a way that we didn’t see a decade ago,” says Kara Lavender Law, a physical oceanographer at the Sea Education Association. “It’s actually astonishing.”

How a little-discussed revision of climate science could help avert doom (Washington Post)

washingtonpost.com

Mark Hertsgaard, Saleemul Huq, Michael E. Mann

Feb. 23, 2022

We can reduce global temperatures faster than we once thought — if we act now

One of the biggest obstacles to avoiding global climate breakdown is that so many people think there’s nothing we can do about it.

They point out that record-breaking heat waves, fires and storms are already devastating communities and economies throughout the world. And they’ve long been told that temperatures will keep rising for decades to come, no matter how many solar panels replace oil derricks or how many meat-eaters go vegetarian. No wonder they think we’re doomed.

But climate science actually doesn’t say this. To the contrary, the best climate science you’ve probably never heard of suggests that humanity can still limit the damage to a fraction of the worst projections if — and, we admit, this is a big if — governments, businesses and all of us take strong action starting now.

For many years, the scientific rule of thumb was that a sizable amount of temperature rise was locked into the Earth’s climate system. Scientists believed — and told policymakers and journalists, who in turn told the public — that even if humanity hypothetically halted all heat-trapping emissions overnight, carbon dioxide’s long lifetime in the atmosphere, combined with the sluggish thermal properties of the oceans, would nevertheless keep global temperatures rising for 30 to 40 more years. Since shifting to a zero-carbon global economy would take at least a decade or two, temperatures were bound to keep rising for at least another half-century.

But guided by subsequent research, scientists dramatically revised that lag time estimate down to as little as three to five years. That is an enormous difference that carries paradigm-shifting and broadly hopeful implications for how people, especially young people, think and feel about the climate emergency and how societies can respond to it.

This revised science means that if humanity slashes emissions to zero, global temperatures will stop rising almost immediately. To be clear, this is not a get-out-of-jail-free card. Global temperatures will not fall if emissions go to zero, so the planet’s ice will keep melting and sea levels will keep rising. But global temperatures will stop their relentless climb, buying humanity time to devise ways to deal with such unavoidable impacts. In short, we are not irrevocably doomed — or at least we don’t have to be, if we take bold, rapid action.

The science we’re referencing was included — but buried — in the United Nations Intergovernmental Panel on Climate Change’s most recent report, issued in August. Indeed, it was first featured in the IPCC’s landmark 2018 report, “Global warming of 1.5 C.”That report’s key finding — that global emissions must fall by 45 percent by 2030 to avoid catastrophic climate disruption — generated headlines declaring that we had “12 years to save the planet.” That 12-year timeline, and the related concept of a “carbon budget” — the amount of carbon that can be burned while still limiting temperature rise to 1.5 degrees Celsius above preindustrial levels — were both rooted in this revised science. Meanwhile, the public and policy worlds have largely neglected the revised science that enabled these very estimates.

Nonscientists can reasonably ask: What made scientists change their minds? Why should we believe their new estimate of a three-to-five-year lag time if their previous estimate of 30 to 40 years is now known to be incorrect? And does this mean the world still must cut emissions in half by 2030 to avoid climate catastrophe?

The short answer to the last question is yes. Remember, temperatures only stop rising once global emissions fall to zero. Currently, emissions are not falling. Instead, humanity continues to pump approximately 36 billion tons of carbon dioxide a year into the atmosphere. The longer it takes to cut those 36 billion tons to zero, the more temperature rise humanity eventually will face. And as the IPCC’s 2018 report made hauntingly clear, pushing temperatures above 1.5 degrees C would cause unspeakable amounts of human suffering, economic loss and social breakdown — and perhaps trigger genuinely irreversible impacts.

Scientists changed their minds about how much warming is locked in because additional research gave them a much better understanding of how the climate system works. Their initial 30-to-40-year estimates were based on relatively simple computer models that treated the concentration of carbon dioxide in the atmosphere as a “control knob” that determines temperature levels. The long lag in the warming impact is due to the oceans, which continue to warm long after the control knob is turned up. More recent climate models account for the more dynamic nature of carbon emissions. Yes, CO2 pushes temperatures higher, but carbon “sinks,” including forests and in particular the oceans, absorb almost half of the CO2 that is emitted, causing atmospheric CO2 levels to drop, offsetting the delayed warming effect.

Knowing that 30 more years of rising temperatures are not necessarily locked in can be a game-changer for how people, governments and businesses respond to the climate crisis. Understanding that we can still save our civilization if we take strong, fast action can banish the psychological despair that paralyzes people and instead motivate them to get involved. Lifestyle changes can help, but that involvement must also include political engagement. Slashing emissions in half by 2030 demands the fastest possible transition away from today’s fossil-fueled economies in favor of wind, solar and other non-carbon alternatives. That can happen only if governments enact dramatically different policies. If citizens understand that things aren’t hopeless, they can better push elected officials to make such changes.

As important as minimizing temperature rise is to the United States, where last year’s record wildfires in California and the Pacific Northwest illustrated just how deadly climate change can be, it matters most in the highly climate-vulnerable communities throughout the global South. Countless people in Bangladesh, the Philippines, Madagascar, Africa’s Sahel nations, Brazil, Honduras and other low-income countries have already been suffering from climate disasters for decades because their communities tend to be more exposed to climate impacts and have less financial capacity to protect themselves. For millions of people in such countries, limiting temperature rise to 1.5 degrees C is not a scientific abstraction.

The IPCC’s next report, due for release Feb. 28, will address how societies can adapt to the temperature rise now underway and the fires, storms and rising seas it unleashes. If we want a livable future for today’s young people, temperature rise must be kept as close as possible to 1.5 C. The best climate science most people have never heard of says that goal remains within reach. The question is whether enough of us will act on that knowledge in time.

Opinião – Pablo Acosta: Ciências comportamentais podem complementar forma tradicional de fazer política (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

22.fev.2022 às 4h00


Tradicionalmente, os gestores elaboram políticas públicas tendo como base um agente econômico racional, ou seja, uma pessoa capaz de avaliar cada decisão, maximizando sua utilidade para interesse próprio. Ignoram, porém, as poderosas influências psicológicas e sociais que afetam o comportamento humano e desconsideram que pessoas são falíveis, inconstantes e emocionais: têm problemas com autocontrole, procrastinam, preferem o status quo e são seres sociais. É com base nesse agente “não tão racional” que as ciências comportamentais se apresentam para complementar a forma tradicional de fazer política.

Por exemplo: já nos aproximamos da marca de dois anos desde a declaração pela Organização Mundial da Saúde de estado de pandemia da Covid-19 em 11 de março de 2020. Foram anos desafiadores para governos, empresas e indivíduos. Mas apesar de 2021 ter apresentado sinais de recuperação, há ainda um longo e árduo caminho a ser percorrido para retornar ao menos às condições pré-pandemia. Não apenas na saúde, mas também no equilíbrio das economias, no aumento da produtividade, na retomada de empregos, na recuperação das lacunas de aprendizagem, na melhora do ambiente de negócios, no combate às mudanças climáticas, etc. Obviamente, essa não é uma tarefa simples para governos e organizações. Poderíamos encarar esses desafios de forma diferente e adaptar a maneira de fazer políticas públicas para torná-las mais eficientes e custo-efetivas, aumentando seus impactos e alcance?

A resposta é sim. O sucesso de políticas públicas depende, em parte, da tomada de decisão e da mudança de comportamentos. Por isso, focar mais nas pessoas e no contexto da tomada de decisão se torna cada vez mais imperativo. É importante considerar como pessoas se relacionam entre si e com instituições, como se portam frente às políticas e conhecer bem o ambiente em que estão inseridas.

A abordagem comportamental é científica e alia conceitos da psicologia, economia, antropologia, sociologia e neurociência. Orientada pelo contexto e baseada em evidências, concilia teoria e prática em diversos setores. Sua aplicação pode abranger uma simples mudança no ambiente da tomada de decisão (arquitetura de escolhas), um “empurrãozinho” (nudge) para influenciar a melhor decisão para o indivíduo, mantendo liberdade de escolhas, e pode ser mais ampla, visando a mudança de hábito. Para além disso, pode ser chave no enfrentamento de desafios de políticas como abandono escolar, violência doméstica e de gênero, pagamento de impostos, redução de corrupção, desastres naturais, mudanças climáticas, entre outros.

O uso de insights comportamentais em políticas públicas já não é mais novidade. Mais de uma década se passou desde a publicação (2008) do livro Nudge (“Nudge: como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade”, em português), que impulsionou o campo de forma espetacular. Conceitos da psicologia, já amplamente discutidos e aceitos por décadas, foram utilizados no contexto das decisões econômicas e, assim, a economia/ciência comportamental se consolidou.

Acompanhando a expansão e relevância do tema, o Banco Mundial, lançou em 2015 o Relatório sobre o Desenvolvimento Mundial: Mente, Sociedade e Comportamento. Em 2016, iniciou sua própria unidade comportamental, a eMBeD (Unidade Mente, Comportamento e Desenvolvimento) e tem promovido o uso sistemático de insights comportamentais em políticas e projetos de desenvolvimento e apoiado diversos países para solucionar problemas de forma rápida e escalável.

No Brasil, temos atuado na capacitação de gestores para o uso de insights comportamentais, em contribuições em pesquisas, como na Pesquisa sobre Ética e Corrupção no Serviço Público Federal (Banco Mundial e CGU) e em apoio técnico na identificação de evidências, como para informar soluções para aumentar a poupança entre a população de baixa renda. Nossos especialistas prepararam também diagnósticos comportamentais para entender por que clientes não pagam a conta em dia ou deixam de se conectar ao sistema de esgoto. Realizamos experimentos com mensagens comportamentais a fim de estimular a utilização de meios digitais de pagamentos e incentivar o pagamento de contas em dia no setor de água e saneamento. Neste último, apresentando resultados positivos com possibilidade de aumento de arrecadação a um custo baixo, já que as mensagens ressaltando consequências e reciprocidade, por exemplo, aumentaram os pagamentos em dia e a quantia total paga. Para cada mil clientes que receberam o SMS com insights comportamentais, de seis a 11 clientes a mais pagaram as contas. Para 2022, há atividades planejadas, como parte de um projeto de desenvolvimento, que usará insights comportamentais para reduzir o descarte de resíduos em sistemas de drenagem e aumentar o uso consciente de espaços públicos.

As ciências comportamentais não são a solução para os grandes desafios globais. Mas é preciso ressaltar o potencial de sua complementariedade na construção de políticas públicas. Cabe aos gestores aproveitarem esse momento de maior maturidade da área para expandirem seus conhecimentos. Vale ainda surfar na onda de ascensão de áreas complementares, como cesign e ciência de dados, para centrar o olhar no indivíduo e no contexto da decisão e, baseando-se em evidências e de maneira transparente, influenciar as escolhas e promover mudança de comportamento, de forma a aumentar o impacto das políticas públicas a fim de não só retomar as condições pré-Covid, mas melhorar ainda mais a vida e o bem-estar de todos, especialmente da população mais pobre e vulnerável.

Esta coluna foi escrita em colaboração com meus colegas do Banco Mundial Juliana Neves Soares Brescianini, analista de operações, e Luis A. Andrés, líder de programa do setor de Infraestrutura.

Preceitos da Pombagira: mulheres de terreiros e lutas (Outras Palavras)

outraspalavras.net

por AzMina

Publicado 17/02/2022 às 15:11 – Atualizado 17/02/2022 às 15:23

Visita a espaços de culto de religiões de matriz africana – que historicamente têm mulheres como líderes. As Iaôs e Ialorixás tornam-se referências nas lutas pelo direito à igualdade religiosa, de raça e de gênero

Por Aymê Brito, no AzMina

“Exu (…) exerce forte domínio sobre as mulheres e as moças”, dizia uma coluna de opinião no jornal O Estado de São Paulo, em 1973. Escrito no período da Ditadura Militar no Brasil, o artigo demonizava as religiões de matriz africana e demonstrava preocupação que as mulheres abandonassem o “lar” em troca da vida nos terreiros. Quase cinco décadas depois, o machismo e o racismo seguem presentes na vida das mulheres que escolhem fazer parte das religiões afro-brasileiras, mas elas resistem e lideram terreiros.

Não é comum vê-las em cargos de liderança em outras religiões, como na Igreja Católica com padres e papas homens. Já nas religiões de matriz africana, as mulheres quase sempre são maioria, ocupando os postos mais altos. Quem frequenta os barracões (como também são chamados os terreiros) percebe isso.

Seja como mulheres de santo, senhoras do ilê, sacerdotisas ou herdeiras do axé, elas conquistaram um protagonismo que não ficou restrito aos terreiros. Axé Muntu! Essa é uma expressão criada pela intelectual Lélia Gonzalez – uma mistura das línguas Iorubá (axé: poder, energia) com o dialeto Kimbundo (muntu: gente). A socióloga e ativista usou muito de sua vivência como mulher do candomblé na produção intelectual que fez sobre a vida e posição das mulheres negras na sociedade brasileira.

Nesta reportagem trazemos as falas de Mãe Du, Nailah, Kenya e Renata, que, assim como Lélia, mostram que a influência dos povos de terreiros pode ser encontrada hoje no espaço acadêmico, na militância, na política, na culinária e em vários outros campos da sociedade.

Num país marcado por profundas desigualdades sociorraciais como o Brasil, os terreiros e as mulheres à frente deles – as macumbeiras, como elas mesmas se chamam – desempenham um papel social muito além da religião. Elas realizam uma verdadeira “feitiçaria” ao conciliar a tradição de diferentes povos, resistir às opressões e ajudar a proporcionar um espaço de acolhimento a quem sempre foi excluído.

Perseguição à cultura e às mulheres

A perseguição aos terreiros e barracões, que já dura mais de 500 anos, e as campanhas de difamação na imprensa geraram uma falta de conhecimento generalizada. “A umbanda, com seus sucedâneos e religiões assemelhadas, é entre nós um subproduto da ignorância associada à politicalha. Seu terreno de eleição já foi o quilombo e o mocambo. Modernamente é a favela e o escritório eleitoral” – dizia mais um trecho da coluna do jornal paulista, publicada logo após uma festa em comemoração ao Dia de Oxóssi.

Noticiários racistas como esse não eram (e não são) raros. Resquícios de uma sociedade que até 1832 obrigava todos a se converterem à religião oficial do Estado – na época, a Cristã. Isso fez com que outras expressões religiosas fossem criminalizadas, sofrendo com opressão policial e apreensão de objetos sagrados – que até hoje nunca foram devolvidos.

A cientista política e também praticante do Candomblé, Nailah Neves, Ìyàwó ty Ọ̀ṣun (seu nome de santo), afirma que essa perseguição também era resultado do fato de as mulheres serem maioria e liderarem as casas de axé. “Terreiros, quilombos e escolas de samba, que eram espaços de resistência e de valorização da cultura negra matriarcal, eram um grande risco para o projeto eugenista e patriarcal do Estado brasileiro.”

Passados 34 anos da Constituição Federal que, em seu artigo 5, passou a garantir a liberdade de crença e proteção aos locais de cultos religiosos diversos, a discriminação não teve fim. Em 2021, um estudo da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa apontou que 91% dos ataques que ocorreram no estado do Rio de Janeiro eram contra as mesmas religiões – as de Racistradição africana. 

Ensinamentos da pombagira

Kenya Odara (primeira na imagem), de 23 anos, é uma das cofundadoras do coletivo de mulheres negras Siriricas Co e atualmente frequenta o terreiro de Candomblé Àse Efon Omibainà, composto apenas por mulheres. “Quando estamos nos terreiros não nos preocupamos só com a questão religiosa, somos mulheres negras, toda a nossa existência é política.” Foto: Divulgação/ Arquivo Pessoal

Embora as investidas contra os afro-religiosos não tenham sido poucas, os terreiros e as mulheres continuam passando de geração em geração os preceitos e fundamentos do povo de axé. Renata Pallottine, de 36 anos, é bisneta de Dona Maria, Mãe de Santo, de uma casa de umbanda no interior de São Paulo, e cresceu aprendendo os valores civilizatórios desta comunidade.

Advogada pelos direitos das mulheres e atuante no combate ao racismo religioso, Renata atualmente é responsável pela área jurídica do coletivo Terreiro Resiste, movimento de defesa das comunidades tradicionais. Hoje, como uma das filhas de santo mais velhas de um terreiro na capital paulista, ela conta que foi essa vivência que contribuiu para o seu engajamento na luta:

“Quem nasce umbandista já aprende com a Pombagira que a desigualdade de gênero mata, aniquila e silencia, e que mulheres, sobretudo as racializadas, devem ocupar lugar de poder e decisão dentro das nossas comunidades.”

A Pombagira é uma das entidades cultuadas nessas religiões, que representa as encruzilhadas e é conhecida por simbolizar uma figura feminina ligada ao prazer e à liberdade sexual. Renata explica que a figura da pombagira em muitos lugares é temida exatamente por romper com a lógica patriarcal: “mulher que poeticamente nos ensina a autonomia dos corpos femininos”.

Renata também chama atenção para a história dessas religiões, que vêm de uma cultura de valorização de povos ancestrais socialmente excluídos, mas passou por um forte embranquecimento nos últimos anos. “Em 1908, um homem branco, militar, espírita, de São Gonçalo, teria fundado a religião só porque deu nome às práticas que já existiam nos morros cariocas. Como é possível fundar algo que já existe?”, questionou a advogada.

A família de santo

Eu, repórter desta matéria, cresci ouvindo as histórias das macumbeiras, contadas por Elza Mendes, baiana de 72 anos, mulher negra e minha avó. Ela lida com a ignorância da sociedade sobre sua cultura há pelo menos 50 anos. “Ninguém vê com bons olhos, ainda hoje as pessoas têm muito medo, acham que é magia”, desabafa. Mas ressalta sempre o sentimento que há no terreiro de pertencer a uma comunidade. “Quando você abraça um terreiro, você começa a fazer parte de uma comunidade”, diz ela.

Hoje candomblecista, Elza foi a primeira a se tornar uma Iaô num dia de feitura, recebendo o título de dofona.

Glossário:

Iorubá: é um grupo étnico-linguístico da África Ocidental, principalmente na Nigéria e no Congo. Varia conforme o local e é usada nos rituais de matrizes africanas.

– Feitura no santo: é a iniciação de alguém no culto aos orixás. Pode vir com novo nome e assume novas funções. O ritual varia segundo a religião e pode durar até três meses.

Orixás (em iorubá: Òrìṣà): divindades representadas pela natureza, acredita-se que tenham existido anteriormente em Orum (céu em iorubá).

Aborós: orixás de energia masculina. Podem ser incorporados por pessoas de todos os gêneros.

Ayabás: orixás de energia feminina. Podem ser incorporados por pessoas de todos os gêneros.

Dona Elza conta que quando se começa a fazer parte de um terreiro você se torna também integrante de uma família de santo. “Tanto é que a gente diz irmão, tio, filho de santo”, comentou. Em muitos lugares os terreiros são conhecidos por serem receptivos a todo tipo de gente. “Uma mãe de santo nunca deixa de acolher um filho, mesmo se não tiver onde morar, será bem recebido no terreiro.”

Esse acolhimento está intimamente ligado à presença das mulheres na religião e a própria história dos negros no Brasil, conforme explica a pesquisadora Jacyara Silva, professora e coordenadora do núcleo de estudos afro-brasileiros da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). “É importante lembrar que as famílias dos negros que chegavam ao Brasil eram separadas por estratégia de dominação.”

Após o sequestro da população negra do continente africano, a formação das “famílias de santo” foi o jeito encontrado para preservar a identidade cultural e reconstruir essa ideia de família que havia sido destruída na escravidão. As grandes responsáveis por refazer esses laços familiares, dentro das religiões afro-brasileiras, foram as mulheres negras, as Yalorixás. Os barracões passaram a se tornar presentes na maior parte das regiões periféricas do país, acolhendo as pessoas que eram estigmatizadas pela sociedade, como mães solo e o público LGBTQIA+. 

“Não quer dizer que não existam nos terreiros os mesmos problemas que existem fora deles”, explicou Jacyara. As religiões de matriz africana estão inseridas dentro de uma sociedade onde racismo, machismo e transfobia são estruturais. Por isso, o cotidiano dos terreiros não está isento dessas questões. Mas, “pode estar na estrutura, mas não é institucionalizado”, ponderou a pesquisadora.

Debatendo fora dos terreiros

Maria do Carmo, Omó de Omolú Iemanjá Oxalá, conhecida como Mãe Du, é uma das mulheres à frente de um terreiro de Umbanda, na cidade de Viçosa, no interior de Minas Gerais. Apesar do grande respeito que conquistou entre os seus, teve que encarar o preconceito das mães e professoras da escola em que a sua filha estudava. “As pessoas ficaram meio cismadas”, conta.

A força de seguir por mais de 20 anos na defesa dos povos de terreiros vem da crença de que o amanhã será melhor que o hoje. A trajetória dela no culto aos orixás já tem, na verdade, 50 anos. “Fui a primeira Yaô daqui, andei pela cidade toda de branquinho.” Atualmente Mãe Du está na Umbanda, mas foi iniciada dentro do Candomblé, onde teve que passar por diversos processos até se tornar de fato umaIaô – filha de santo. Se tornar feita no santo é uma vitória para a maioria das mulheres de axé, por ser um processo de várias etapas, que requer muito tempo de dedicação e prática dentro do terreiro.

Ela também é líder espiritualista e integra o Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial de Viçosa. Os cargos fora do terreiro são um marco e uma representação importante para quem é de religiões de matriz africana, mas também são espaços arriscados. “Defender aquilo que se é, hoje em dia, é perigoso, principalmente para nós mulheres.”

O preconceito acaba afastando outros praticantes dos encontros e debates religiosos, por preferirem se resguardar. Mas, Mãe Du – que tem viajado nos últimos anos para falar das religiões de matriz africana nas universidades – sente que agora as pessoas começaram a querer entender mais sobre sua cultura.

Hierarquia ancestral

Em boa parte da tradição africana, a hierarquia não se baseia no gênero, mas sim na experiência e conhecimento. “O matriarcalismo é natural de vários povos africanos, até porque a hierarquia não é por gênero como os europeus impuseram, é por ancestralidade”, explicou a candomblecista Nailah Neves.

As religiões de matriz africana não dividem o mundo entre bem e mal, emoção e ciência, corpo e alma, homens e mulheres. Nailah argumenta que essa lógica binária foi imposta aos povos que estavam sendo colonizados, por influência do eurocentrismo cristão. Existe na Umbanda e no Candomblé uma outra forma de ver e se relacionar com o mundo. “Não são apenas religiões, são povos e comunidades tradicionais, assim como são os quilombos.”

As religiões afro-brasileiras que conhecemos hoje são fruto das características de diversos povos africanos que se encontram no país e, exatamente por isso, elas variam conforme a nação ou tradição de origem, como acontece no caso do Candomblé, da Umbanda, do Batuque e do Xangô.

Sem nenhum tipo de livro oficial, como a Bíblia, os fundamentos são passados por gerações via tradição oral, e nem sempre são os mesmos em todos os lugares. Os preceitos e costumes não estão “escritos em pedra”.

AÇÕES E ESPAÇOS OCUPADOS PELAS MULHERES DE AXÉ NOS ÚLTIMOS ANOS:

  • No Brasil, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, 21 de janeiro, data que assegura a diversidade religiosa, foi criado em homenagem a uma líder religiosa, a Mãe Gilda. Em 1999, ela teve seu terreiro em Salvador invadido e depredado por fundamentalistas religiosos e acabou falecendo no ano seguinte.
  • Em 2021, a Organização das Mulheres de Axé do Brasil (MAB) realizou uma campanha de combate a violência menstrual. Elas distribuíram mais de 23 mil pacotes de absorventes higiênicos para pessoas em situação de vulnerabilidade econômica e social.
  • O Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (FONSANPOTMA), presidido pela médica e líder religiosa Kato Mulanji, é uma das organizações que lutam para garantir soberania alimentar aos povos tradicionais.
  • Desde 2017, as mulheres de axé conquistaram o reconhecimento da profissão de baiana de acarajé e passaram a ter direitos aos benefícios profissionais. Em 2005 elas já tinham sido reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.
  • Pelo país todo, terreiros são responsáveis por projetos de atendimento à comunidade, oficinas, distribuição de alimentos e ações de combate a violência. O Ilê Omolu Oxum, liderado pela ialorixá Mãe Meninazinha de Oxum, em atividade na Baixada Fluminense desde 1968, é um dos que oferece orientação às mulheres vítimas de violência. 

Orangutans instinctively use hammers to strike and sharp stones to cut, study finds (Science Daily)

Untrained, captive orangutans complete major steps in making and using stone tools

Date: February 16, 2022

Source: PLOS

Summary: Untrained, captive orangutans can complete two major steps in the sequence of stone tool use: striking rocks together and cutting using a sharp stone, according to a new study.


Untrained, captive orangutans can complete two major steps in the sequence of stone tool use: striking rocks together and cutting using a sharp stone, according to a study by Alba Motes-Rodrigo at the University of Tübingen in Germany and colleagues, publishing February 16 in the open-access journal PLOS ONE.

The researchers tested tool making and use in two captive male orangutans (Pongo pygmaeus) at Kristiansand Zoo in Norway. Neither had previously been trained or exposed to demonstrations of the target behaviors. Each orangutan was provided with a concrete hammer, a prepared stone core, and two baited puzzle boxes requiring them to cut through a rope or a silicon skin in order to access a food reward. Both orangutans spontaneously hit the hammer against the walls and floor of their enclosure, but neither directed strikes towards the stone core. In a second experiment, the orangutans were also given a human-made sharp flint flake, which one orangutan used to cut the silicon skin, solving the puzzle. This is the first demonstration of cutting behavior in untrained, unenculturated orangutans.

To then investigate whether apes could learn the remaining steps from observing others, the researchers demonstrated how to strike the core to create a flint flake to three female orangutans at Twycross Zoo in the UK. After these demonstrations, one female went on to use the hammer to hit the core, directing the blows towards the edge as demonstrated.

This study is the first to report spontaneous stone tool use without close direction in orangutans that have not been enculturated by humans. The authors say their observations suggest that two major prerequisites for the emergence of stone tool use — striking with stone hammers and recognizing sharp stones as cutting tools — may have existed in our last common ancestor with orangutans, 13 million years ago.

The authors add: “Our study is the first to report that untrained orangutans can spontaneously use sharp stones as cutting tools. We also found that they readily engage in lithic percussion and that this activity occasionally leads to the detachment of sharp stone pieces.”



Journal Reference:

  1. Alba Motes-Rodrigo, Shannon P. McPherron, Will Archer, R. Adriana Hernandez-Aguilar, Claudio Tennie. Experimental investigation of orangutans’ lithic percussive and sharp stone tool behaviours. PLOS ONE, 2022; 17 (2): e0263343 DOI: 10.1371/journal.pone.0263343

Flies possess more sophisticated cognitive abilities than previously known (Science Daily)

Immersive virtual reality and real-time brain activity imaging showcase Drosophila’s capabilities of attention, working memory and awareness

Date: February 17, 2022

Source: University of California – San Diego

Summary: Common flies feature more advanced cognitive abilities than previously believed. Using a custom-built immersive virtual reality arena, neurogenetics and real-time brain activity imaging, researchers found attention, working memory and conscious awareness-like capabilities in fruit flies.


Fruit fly (stock image). Credit: © Arif_Vector / stock.adobe.com

As they annoyingly buzz around a batch of bananas in our kitchens, fruit flies appear to have little in common with mammals. But as a model species for science, researchers are discovering increasing similarities between us and the miniscule fruit-loving insects.

In a new study, researchers at the University of California San Diego’s Kavli Institute for Brain and Mind (KIBM) have found that fruit flies (Drosophila melanogaster) have more advanced cognitive abilities than previously believed. Using a custom-built immersive virtual reality environment, neurogenetic manipulations and in vivo real-time brain-activity imaging, the scientists present new evidence Feb. 16 in the journal Nature of the remarkable links between the cognitive abilities of flies and mammals.

The multi-tiered approach of their investigations found attention, working memory and conscious awareness-like capabilities in fruit flies, cognitive abilities typically only tested in mammals. The researchers were able to watch the formation, distractibility and eventual fading of a memory trace in their tiny brains.

“Despite a lack of obvious anatomical similarity, this research speaks to our everyday cognitive functioning — what we pay attention to and how we do it,” said study senior author Ralph Greenspan, a professor in the UC San Diego Division of Biological Sciences and associate director of KIBM. “Since all brains evolved from a common ancestor, we can draw correspondences between fly and mammalian brain regions based on molecular characteristics and how we store our memories.”

To arrive at the heart of their new findings the researchers created an immersive virtual reality environment to test the fly’s behavior via visual stimulation and coupled the displayed imagery with an infra-red laser as an averse heat stimulus. The near 360-degree panoramic arena allowed Drosophila to flap their wings freely while remaining tethered, and with the virtual reality constantly updating based on their wing movement (analyzed in real-time using high-speed machine-vision cameras) it gave the flies the illusion of flying freely in the world. This gave researchers the ability to train and test flies for conditioning tasks by allowing the insect to orient away from an image associated with the negative heat stimulus and towards a second image not associated with heat.

They tested two variants of conditioning, one in which flies were given visual stimulation overlapping in time with the heat (delay conditioning), both ending together, or a second, trace conditioning, by waiting 5 to 20 seconds to deliver the heat after showing and removing the visual stimulation. The intervening time is considered the “trace” interval during which the fly retains a “trace” of the visual stimulus in its brain, a feature indicative of attention, working memory and conscious awareness in mammals.

The researchers also imaged the brain to track calcium activity in real-time using a fluorescent molecule they genetically engineered into their brain cells. This allowed the researchers to record the formation and duration of the fly’s living memory since they saw the trace blinking on and off while being held in the fly’s short-term (working) memory. They also found that a distraction introduced during training — a gentle puff of air — made the visual memory fade more quickly, marking the first time researchers have been able to prove such distractedness in flies and implicating an attentional requirement in memory formation in Drosophila.

“This work demonstrates not only that flies are capable of this higher form of trace conditioning, and that the learning is distractible just like in mammals and humans, but the neural activity underlying these attentional and working memory processes in the fly show remarkable similarity to those in mammals,” said Dhruv Grover, a UC San Diego KIBM research faculty member and lead author of the new study. “This work demonstrates that fruit flies could serve as a powerful model for the study of higher cognitive functions. Simply put, the fly continues to amaze in how smart it really is.”

The scientists also identified the area of the fly’s brain where the memory formed and faded — an area known as the ellipsoid body of the fly’s central complex, a location that corresponds to the cerebral cortex in the human brain.

Further, the research team discovered that the neurochemical dopamine is required for such learning and higher cognitive functions. The data revealed that dopamine reactions increasingly occurred earlier in the learning process, eventually anticipating the coming heat stimulus.

The researchers are now investigating details of how attention is physiologically encoded in the brain. Grover believes the lessons learned from this model system are likely to directly inform our understanding of human cognition strategies and neural disorders that disrupt them, but also contribute to new engineering approaches that lead to performance breakthroughs in artificial intelligence designs.

The coauthors of the study include Dhruv Grover, Jen-Yung Chen, Jiayun Xie, Jinfang Li, Jean-Pierre Changeux and Ralph Greenspan (all affiliated with the UC San Diego Kavli Institute for Brain and Mind, and J.-P. Changeux also a member of the Collège de France).



Journal Reference:

  1. Dhruv Grover, Jen-Yung Chen, Jiayun Xie, Jinfang Li, Jean-Pierre Changeux, Ralph J. Greenspan. Differential mechanisms underlie trace and delay conditioning in Drosophila. Nature, 2022; DOI: 10.1038/s41586-022-04433-6

Americans’ Trust in Scientists, Other Groups Declines (Pew Research Center)

pewresearch.org

Republicans’ confidence in medical scientists down sharply since early in the coronavirus outbreak

By Brian Kennedy, Alec Tyson and Cary Funk

February 15, 2022


How we did this

Pew Research Center conducted this study to understand how much confidence Americans have in groups and institutions in society, including scientists and medical scientists. We surveyed 14,497 U.S. adults from Nov. 30 to Dec. 12, 2021.

The survey was conducted on Pew Research Center’s American Trends Panel (ATP) and included an oversample of Black and Hispanic adults from the Ipsos KnowledgePanel. A total of 3,042 Black adults (single-race, not Hispanic) and 3,716 Hispanic adults were sampled.

Respondents on both panels are recruited through national, random sampling of residential addresses. This way nearly all U.S. adults have a chance of selection. The survey is weighted to be representative of the U.S. adult population by gender, race, ethnicity, partisan affiliation, education and other categories. Read more about the ATP’s methodology.

Here are the questions used for this report, along with responses, and its methodology.

This is made possible by The Pew Charitable Trusts, which received support from Chan Zuckerberg Initiative DAF, an advised fund of Silicon Valley Community Foundation.


Pew Research Center conducted this study to understand how much confidence Americans have in groups and institutions in society, including scientists and medical scientists. We surveyed 14,497 U.S. adults from Nov. 30 to Dec. 12, 2021.

The survey was conducted on Pew Research Center’s American Trends Panel (ATP) and included an oversample of Black and Hispanic adults from the Ipsos KnowledgePanel. A total of 3,042 Black adults (single-race, not Hispanic) and 3,716 Hispanic adults were sampled.

Respondents on both panels are recruited through national, random sampling of residential addresses. This way nearly all U.S. adults have a chance of selection. The survey is weighted to be representative of the U.S. adult population by gender, race, ethnicity, partisan affiliation, education and other categories. Read more about the ATP’s methodology.

Here are the questions used for this report, along with responses, and its methodology.

This is made possible by The Pew Charitable Trusts, which received support from Chan Zuckerberg Initiative DAF, an advised fund of Silicon Valley Community Foundation.

Americans’ confidence in groups and institutions has turned downward compared with just a year ago. Trust in scientists and medical scientists, once seemingly buoyed by their central role in addressing the coronavirus outbreak, is now below pre-pandemic levels.

Chart shows public confidence in scientists and medical scientists has declined over the last year

Overall, 29% of U.S. adults say they have a great deal of confidence in medical scientists to act in the best interests of the public, down from 40% who said this in November 2020. Similarly, the share with a great deal of confidence in scientists to act in the public’s best interests is down by 10 percentage points (from 39% to 29%), according to a new Pew Research Center survey.

The new findings represent a shift in the recent trajectory of attitudes toward medical scientists and scientists. Public confidence in both groups had increased shortly after the start of the coronavirus outbreak, according to an April 2020 survey. Current ratings of medical scientists and scientists have now fallen below where they were in January 2019, before the emergence of the coronavirus.

Scientists and medical scientists are not the only groups and institutions to see their confidence ratings decline in the last year. The share of Americans who say they have a great deal of confidence in the military to act in the public’s best interests has fallen 14 points, from 39% in November 2020 to 25% in the current survey. And the shares of Americans with a great deal of confidence in K-12 public school principals and police officers have also decreased (by 7 and 6 points, respectively).

Large majorities of Americans continue to have at least a fair amount of confidence in medical scientists (78%) and scientists (77%) to act in the public’s best interests. These ratings place them at the top of the list of nine groups and institutions included in the survey. A large majority of Americans (74%) also express at least a fair amount of confidence in the military to act in the public’s best interests. Roughly two-thirds say this about police officers (69%) and K-12 public school principals (64%), while 55% have at least a fair amount of confidence in religious leaders.

The public continues to express lower levels of confidence in journalists, business leaders and elected officials, though even for these groups, public confidence is tilting more negative. Four-in-ten say they have a great deal or a fair amount of confidence in journalists and business leaders to act in the public’s best interests; six-in-ten now say they have not too much or no confidence at all in these groups. Ratings for elected officials are especially negative: 24% say they have a great deal or fair amount of confidence in elected officials, compared with 76% who say they have not too much or no confidence in them.

The survey was fielded Nov. 30 through Dec. 12, 2021, among 14,497 U.S. adults, as the omicron variant of the coronavirus was first detected in the United States – nearly two years since the coronavirus outbreak took hold. Recent surveys this year have found declining ratings for how President Joe Biden has handled the coronavirus outbreak as well as lower ratings for his job performance – and that of Congress – generally.

Partisan differences over trust in medical scientists, scientists continue to widen since the coronavirus outbreak

Democrats remain more likely than Republicans to express confidence in medical scientists and scientists to act in the public’s best interests.

Chart shows Democrats remain more confident than Republicans in medical scientists; ratings fall among both groups

However, there has been a significant decline in public confidence in medical scientists and scientists among both partisan groups.

Among Democrats and Democratic-leaning independents, nine-in-ten express either a great deal (44%) or a fair amount (46%) of confidence in medical scientists to act in the public’s best interests. However, the share expressing strong confidence in medical scientists has fallen 10 points since November 2020.

There has been a similar decline in the share of Democrats holding the strongest level of confidence in scientists since November 2020. (Half of the survey respondents were asked about their confidence in “medical scientists,” while the other half were asked about “scientists.”)

Still, ratings for medical scientists, along with those for scientists, remain more positive than those for other groups in the eyes of Democrats and independents who lean to the Democratic Party. None of the other groups rated on the survey garner as much confidence; the closest contenders are public school principals and the military. About three-quarters (76%) of Democrats and Democratic leaners have at least a fair amount of confidence in public school principals; 68% say the same about the military.

There has been a steady decline in confidence in medical scientists among Republicans and Republican leaners since April 2020. In the latest survey, just 15% have a great deal of confidence in medical scientists, down from 31% who said this in April 2020 and 26% who said this in November 2020. There has been a parallel increase in the share of Republicans holding negative views of medical scientists, with 34% now saying they have not too much or no confidence at all in medical scientists to act in the public’s best interests – nearly three times higher than in January 2019, before the coronavirus outbreak.

Republicans’ views of scientists have followed a similar trajectory. Just 13% have a great deal of confidence in scientists, down from a high of 27% in January 2019 and April 2020. The share with negative views has doubled over this time period; 36% say they have not too much or no confidence at all in scientists in the latest survey.

Republicans’ confidence in other groups and institutions has also declined since the pandemic took hold. The share of Republicans with at least a fair amount of confidence in public school principals is down 27 points since April 2020. Views of elected officials, already at low levels, declined further; 15% of Republicans have at least a fair amount of confidence in elected officials to act in the public’s best interests, down from 37% in April 2020.

Race and ethnicity, education, partisan affiliation each shape confidence in medical scientists

People’s assessments of scientists and medical scientists are tied to several factors, including race and ethnicity as well as levels of education and partisan affiliation.

Chart shows confidence in medical scientists declines among White, Black and Hispanic adults since April 2020

Looking across racial and ethnic groups, confidence in medical scientists declined at least modestly among White and Black adults over the past year. The decline was especially pronounced among White adults.

There is now little difference between how White, Black and Hispanic adults see medical scientists. This marks a shift from previous Pew Research Center surveys, where White adults were more likely than Black adults to express high levels of confidence in medical scientists.

Among White adults, the share with a great deal of confidence in medical scientists to act in the best interests of the public has declined from 43% to 29% over the past year. Ratings are now lower than they were in January 2019, before the coronavirus outbreak in the U.S.

Among Black adults, 28% say they have a great deal of confidence in medical scientists to act in the public’s best interests, down slightly from November 2020 (33%).

The share of Hispanic adults with a strong level of trust in medical scientists is similar to the share who expressed the same level of trust in November 2020, although the current share is 16 points lower than it was in April 2020 (29% vs 45%), shortly after measures to address the coronavirus outbreak began. Ratings of medical scientists among Hispanic adults continue to be lower than they were before the coronavirus outbreak. In January 2019, 37% of Hispanic adults said they had a great deal of confidence in medical scientists.

While the shares of White, Black and Hispanic adults who express a great deal of confidence in medical scientists have declined since the early stages of the coronavirus outbreak in the U.S., majorities of these groups continue to express at least a fair amount of confidence in medical scientists, and the ratings for medical scientists compare favorably with those of other groups and institutions rated in the survey.

Chart shows White Democrats express higher levels of confidence in medical scientists than Black, Hispanic Democrats

Confidence in scientists tends to track closely with confidence in medical scientists. Majorities of White, Black and Hispanic adults have at least a fair amount of confidence in scientists. And the shares with this view continue to rank at or above those for other groups and institutions. For more on confidence in scientists over time among White, Black and Hispanic adults, see the Appendix.

Confidence in medical scientists and scientists across racial and ethnic groups plays out differently for Democrats and Republicans.

White Democrats (52%) are more likely than Hispanic (36%) and Black (30%) Democrats to say they have a great deal of confidence in medical scientists to act in the public’s best interests. However, large majorities of all three groups say they have at least a fair amount of confidence in medical scientists.

Among Republicans and Republican leaners, 14% of White adults say they have a great deal of confidence in medical scientists, while 52% say they have a fair amount of confidence. Views among Hispanic Republicans are very similar to those of White Republicans, in contrast to differences seen among Democrats.

There are similar patterns in confidence in scientists. (However, the sample size for Black Republicans in the survey is too small to analyze on these measures.) See the Appendix for more.

Americans with higher levels of education express more positive views of scientists and medical scientists than those with lower levels of education, as has also been the case in past Center surveys. But education matters more in assessments by Democrats than Republicans.

Chart shows college-educated Democrats express high levels of confidence in medical scientists

Democrats and Democratic leaners with at least a college degree express a high level of confidence in medical scientists: 54% have a great deal of confidence and 95% have at least a fair amount of confidence in medical scientists to act in the public’s interests. By comparison, a smaller share of Democrats who have not graduated from college have confidence in medical scientists.

Among Republicans and Republican leaners, college graduates are 9 points more likely than those with some college experience or less education to express a great deal of confidence in medical scientists (21% vs. 12%).

There is a similar difference between those with higher and lower education levels among Democrats when it comes to confidence in scientists. Among Republicans, differences by education are less pronounced; there is no significant difference by education level in the shares holding the strongest level of confidence in scientists to act in the public’s interests. See the Appendix for details.

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Ressignificação da Semana de Arte Moderna incorpora aspectos da cultura negra (Pesquisa Fapesp)

José Tadeu Arantes | 18 de fevereiro de 2022

Agência FAPESP – O esforço de reinterpretação de um passado imaginário, cheio de silêncios e ausências, por um presente que também não está livre de ambiguidades, mas no qual certos ocultamentos começam a ser desvelados: este foi, em certa medida, o fio condutor da mesa “Escritas, arquivos e ressignificações”, que deu sequência à série de encontros on-line “100 Anos da Semana de Arte Moderna: Pesquisa, Arte e Literatura”, promovida pela FAPESP.

Em mesa-redonda que integra a série 100 Anos da Semana de Arte Moderna: Pesquisa, Arte e Literatura, especialistas promovem uma espécie de “desbranqueamento” do evento que inaugurou um novo tempo na cultura brasileira (Mário de Andrade; foto: Wikimedia Commons)

“A Semana de Arte Moderna tornou-se um capital simbólico importante, especialmente agora”, disse o primeiro participante da mesa, Pedro Meira Monteiro, professor na Princeton University, nos Estados Unidos.

Monteiro lembrou que as comemorações da Semana sempre foram marcadas pela controvérsia. E destacou a “guerra de narrativas do cinquentenário”, quando, em plena ditadura, em 1972, houve uma tentativa de normalizar o legado da Semana com uma exposição oficial no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Na margem oposta do espectro político, não havia muito tempo que o Rei da Vela, de Oswald de Andrade (1890-1954), tinha sido montado por José Celso Martinez Corrêa, no Teatro Oficina, em São Paulo; que Macunaíma, de Mário de Andrade (1893-1945), virara filme, sob a direção de Joaquim Pedro de Andrade; que os poetas concretistas haviam redescoberto Oswald; e que o enorme acervo de Mário fora transferido para o Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP).

“A Semana era puxada para todos os lados. Aliás, desde o seu início, a Semana serviu às direitas e às esquerdas, como uma espécie de butim de uma guerra imaginária”, resumiu.

Segundo Monteiro, a melhor leitura da Semana atualmente é a do rapper Emicida, nome artístico do compositor, cantor e multiartista Leandro Roque de Oliveira (nascido em 1985), em seu filme AmarElo – É Tudo Pra Ontem (2020). “Emicida promove uma espécie de hermenêutica urbanística, lembrando do passado negro que marca o centro de São Paulo – uma cidade que é vista como centro nervoso da imigração europeia, o que já é signo de um apagamento importante. E somos levados pela imaginação do Teatro Municipal à estação São Bento do Metrô, que funciona como um canal subterrâneo, imaginário e real, que conecta às periferias, onde as luzinhas das quebradas se confundem com as estrelas. Estação São Bento, que é uma espécie de buraco mágico de Alice, onde se entra e sai em direção a um determinado universo que o discurso hegemônico prefere apagar, que é a São Paulo negra, dos pretos e das pretas”, afirmou.

Essa linha crítica, que opera uma espécie de “desbranqueamento” da Semana de Arte Moderna, também foi seguida por Lígia Fonseca Ferreira, professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Especialista na vida e na obra do escritor e abolicionista Luiz Gama (1830-1882), Ferreira falou, entre outros tópicos, de textos que permaneceram por muito tempo inéditos e da enorme correspondência de Mário de Andrade, que foram temas de sua pesquisa de pós-doutorado e continuam a ser estudados por ela e por estudantes sob sua orientação. Nesse conjunto, destacou a figura de “Mário de Andrade, africanista”, título do capítulo que escreveu para o livro Mário de Andrade: aspectos do folclore brasileiro (Global Editora), organizado por Telê Ancona Lopez, com estabelecimento do texto, apresentação e notas de Angela Teodoro Grillo.

Ferreira começou sua apresentação lendo e comentando trechos de um discurso escrito por Mário de Andrade para a cerimônia de encerramento das comemorações do cinquentenário da Abolição da Escravidão, em 1938. O escritor modernista era, então, diretor do Departamento de Cultura do Município de São Paulo e se dedicou com total afinco aos preparativos da celebração. Mas não pôde ler seu discurso porque foi exonerado – ou, como ele mesmo disse, “jogado fora” – do departamento pouco tempo antes, em consequência do cerceamento das liberdades democráticas provocado pela instalação, por Getúlio Vargas, da ditatura do Estado Novo. “O texto permaneceu inédito até poucos anos atrás”, informou Ferreira.

E leu um trecho, no qual Mário de Andrade afirmava que o Departamento de Cultura fizera questão de “trazer os negros para esta sala de brancos”, referindo-se especialmente ao convite feito ao doutor Francisco Lucrécio (1909-2001), um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (FNB), para participar da conferência comemorativa que deveria ter ocorrido no Teatro Municipal de São Paulo.

Ferreira enfatizou que o estudo dos inéditos e, principalmente, da correspondência trocada pelos intelectuais, com o rigor metodológico com que começou a ser feito no século 21, vai banindo ficções, fazendo correções biográficas e trazendo informações que permaneceram ocultas. “Essas correspondências acabam constituindo redes entre si”, ressaltou.

Entre vários exemplos, a pesquisadora mencionou a correspondência de Mário de Andrade com Roger Bastide (1898-1974), um dos principais integrantes da famosa “missão francesa”, contratada no final dos anos 1930 para dar estofo à recém-criada Universidade de São Paulo (USP). Bastide ocupou a cátedra de sociologia e tornou-se um nome referencial no estudo das religiões afro-brasileiras, vindo, inclusive, a ser iniciado no candomblé na Bahia. “Mal chegou ao Brasil, em 1938, ele escreveu a Mário de Andrade, agradecendo os livros que este lhe enviara, e dizendo: ‘eles serão para mim o guia mais seguro para penetrar nas profundezas da alma negra, pois quase sempre a intuição do poeta vai mais longe do que a atenção do cientista’”, citou Ferreira.

Para além de sua enorme simpatia por todo tipo de manifestação cultural, a ênfase dada por Mário de Andrade à cultura negra talvez atendesse também a uma motivação mais íntima, pois, no contexto de uma sociedade de hegemonia branca e racista, seu fenótipo exibia traços de ascendência africana. Traços que ele procurou ocultar, sem negar completamente. Assim como procurou ocultar, sem negar completamente, sua polimórfica sexualidade.

Esses elementos biográficos, antes camuflados nos retratos oficiais e empurrados para o campo da insinuação ou da maledicência, só em anos mais recentes passaram a ser tratados com maior franqueza, em um processo ainda penoso e controverso, mas bastante promissor, de ressignificação.

Fervilhante rede de sociabilidade

Nesse processo, que diz respeito não apenas à figura de Mário de Andrade, mas que abarca todo o chamado modernismo e muito mais, a recuperação, a conservação e o estudo crítico da correspondência, das cartas trocadas pelos protagonistas, adquirem especial importância. E esse foi exatamente o tópico tratado com maior profundidade na terceira e última apresentação da mesa, feita por Marcos Antonio de Moraes, pesquisador e docente do IEB-USP.

Em uma exposição intitulada “Modernismo e Epistolografia”, Moraes falou da centralidade das correspondências no movimento modernista brasileiro. E citou a respeito um trecho interessantíssimo de uma crônica de Mário de Andrade: “Eu sempre afirmo que a literatura brasileira só principiou escrevendo realmente cartas com o movimento modernista. Antes, com alguma rara exceção, os escritores brasileiros só faziam estilo epistolar. Mas cartas com assunto, falando mal dos outros, xingando, contando coisas, dizendo palavrões, discutindo problemas estéticos e sociais, cartas de pijama, só mesmo com o modernismo as cartas se tornaram uma forma espiritual de vida em nossa literatura”.

Com essa formulação, segundo Moraes, “Mário aponta para a configuração de uma vigorosa, abrangente, fervilhante rede de sociabilidade”. E acrescentou que o autor de Pauliceia Desvairada parecia não ter dúvidas de que esse material, que circulava em sigilo, viria a ser, algum dia, amplamente conhecido.

Em um levantamento bastante exaustivo, Moraes contabilizou até a data presente um total de 325 livros de cartas. Desse montante, 33 volumes são cartas de Mário de Andrade, sem contar as reedições. “Portanto, mais de 10% do total”, disse. Conforme o próprio Mário de Andrade o definiu, trata-se de um “gigantismo epistolar”.

O próprio Moraes organizou e publicou a correspondência entre Mário de Andrade e Manuel Bandeira, em uma coleção que já recebeu dois prêmios Jabuti. Para este ano, entre outros livros, está prevista a publicação da correspondência entre Mário de Andrade e Oswald de Andrade, sob a edição de Gênese Andrade. Bastante aguardada, essa obra talvez lance alguma luz sobre a tão comentada, mas nunca bem compreendida, briga que afastou os dois principais protagonistas da Semana de Arte Moderna.

Com moderação de Mirhiane Mendes de Abreu, professora da Unifesp, a mesa “Escritas, arquivos e ressignificações” pode ser assistida na íntegra em: www.youtube.com/watch?v=d-j-Cu0s6-k.

Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Opinion | Why We Are Not Facing the Prospect of a Second Civil War (New York Times)

nytimes.com


Jamelle Bouie

Feb. 15, 2022

At the Georgia State Capitol, demonstrating against the inauguration of President Biden on Jan. 20, 2021.
Credit: Joshua Rashaad McFadden for The New York Times

It has not been uncommon, in recent years, to hear Americans worry about the advent of a new civil war.

Is Civil War Ahead?” The New Yorker asked last month. “Is America heading to civil war or secession?” CNN wondered on the anniversary of the Jan. 6 attack on the Capitol. Last week, Representative Adam Kinzinger of Illinois told “The View” that “we have to recognize” the possibility of a civil war. “I don’t think it’s too far of a bridge to think that’s a possibility,” he said.

This isn’t just the media or the political class; it’s public opinion too. In a 2019 survey for the Georgetown Institute of Politics, the average respondent said that the United States was two-thirds of the way toward the “edge of a civil war.” In a recent poll conducted by the Institute of Politics at Harvard, 35 percent of voting-age Americans under 30 placed the odds of a second civil war at 50 percent or higher.

And in a result that says something about the divisions at hand, 52 percent of Trump voters and 41 percent of Biden voters said that they at least “somewhat agree” that it’s time to split the country, with either red or blue states leaving the union and forming their own country, according to a survey conducted by the Center for Politics at the University of Virginia (where I am a visiting scholar).

Several related forces are fueling this anxiety, from deepening partisan polarization and our winner-take-all politics to our sharp division across lines of identity, culture and geography. There is the fact that this country is saturated with guns, as well as the reality that many Americans fear demographic change to the point that they’re willing to do pretty much anything to stop it. There is also the issue of Donald Trump, his strongest supporters and their effort to overturn the results of the 2020 presidential election. Americans feel farther apart than at any point in recent memory, and as a result, many Americans fear the prospect of organized political violence well beyond what we saw on Jan. 6, 2021.

There is, however, a serious problem with this narrative: The Civil War we fought in the 19th century was not sparked by division qua division.

White Americans had been divided over slavery for 50 years before the crisis that led to war in 1861. The Missouri crisis of 1820, the nullification crisis of 1832, the conflict over the 1846 war with Mexico and the Compromise of 1850 all reflect the degree to which American politics rested on a sectional divide over the future of the slave system.

What made the 1850s different was the extent to which that division threatened the political economy of slavery. At the start of the decade, the historian Matthew Karp writes in “This Vast Southern Empire: Slaveholders at the Helm of American Foreign Policy,” “slaveholding power and slaveholding confidence seemed at their zenith,” the result of “spiking global demand for cotton” and the “dependence of the entire industrial world on a commodity that only American slaves could produce with profit.”

But with power came backlash. “Over the course of the decade,” Karp notes, “slavery was prohibited in the Pacific states, came under attack in Kansas and appeared unable to attach itself to any of the great open spaces of the new Southwest.” The growth of an avowedly antislavery public in the North wasn’t just a challenge to the political influence of the slaveholding South; it also threatened to undermine the slave economy itself and thus the economic basis for Southern power.

Plantation agriculture rapidly exhausted the soil. The sectional balance of Congress aside, planters needed new land to grow the cotton that secured their influence on the national (and international) stage. As Karp explains, “Slaveholders in the 1850s seldom passed up an opportunity to sketch the inexorable syllogism of King Cotton: The American South produced nearly all the world’s usable raw cotton; this cotton fueled the industrial development of the North Atlantic; therefore, the advanced economies of France, the northern United States and Great Britain were ruled, in effect, by Southern planters.” The backlash to slavery — the effort to restrain its growth and contain its spread — was an existential threat to the Southern elite.

It was the realization of that threat with the election of Abraham Lincoln — whose Republican Party was founded to stop the spread of slavery and who inherited a federal state with the power to do so — that pushed Southern elites to gamble their future on secession. They would leave the union and attempt to forge a slave empire on their own.

The point of this compact history, with regard to the present, is that it is irresponsible to talk about civil war as a function of polarization or division or rival ideologies. If those things matter, and they do, it is in how they both reflect and shape the objective interests of the people and factions in dispute.

Which is to say that if you’re worried about a second Civil War, the question to ask isn’t whether people hate each other — they always have, and we tend to grossly exaggerate the extent of this country’s political and cultural unity over time — but whether that hate results from the irreconcilable social and economic interests of opposing groups within the society. If it must be one way or the other, then you might have a conflict on your hands.

That’s where America was with slavery. That’s why our actual Civil War has been called the impending crisis. I’m not sure there’s anything in American society right now that plays the same role that the conflict over slavery did. Whatever our current challenges, whatever our current divisions, I do not think the United States is where it was in 1860. We have enough problems ahead of us already without having to worry about war breaking out here.

‘You Need a Yes on All of Those Levels’ — Experts Discuss the Future of Ocean-Based Carbon Removal Research (NASEM)

Feature Story | February 11, 2022

By Megan Lowry

Imagine an ocean enabled to help solve one of society’s biggest threats: carbon dioxide. In one proposed scenario, a system of pipes and pumps would move water from the surface to the deep ocean. In another, massive seaweed farms would dot the coastlines. And in yet another, nutrients sprinkled on the ocean surface would encourage the growth of photosynthesizing plankton. Each of these are part of a set of proposed — albeit still largely theoretical — strategies to remove CO2 from the atmosphere using the ocean.

Covering 70 percent of the world’s surface, the ocean is what researchers call a natural carbon sink. Through photosynthesis, currents, and other natural processes, the ocean and its plants and marine life pull CO2 from the air, which is then eventually stored in the deepest parts of the sea. As the world seeks to meet net-zero emissions goals and avoid the worst impacts of climate change, some have proposed interventions like those described above to capture CO2.

A National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine report released late last year calls for a $125 million research program to explore six different nascent ocean-based CO2 removal strategies — and to help society gain a greater understanding of their risks, benefits, and potential impacts.

But these proposals to change ocean processes are not without controversy and debate. A recent National Academies webinar explored the most pressing social questions around ocean CO2 removal.

“Messing about with the oceans” is something that always raises a strong public response, said Nick Pidgeon, professor of environmental psychology and risk and director of the Understanding Risk Research Group at Cardiff University. “They just don’t like the feel of this. It just doesn’t seem right.”

“People value the ocean. It’s often seen as a wild space,” added Holly Buck, assistant professor of environment and sustainability at the University at Buffalo and member of the committee that wrote the 2021 National Academies report. “People are concerned about it being industrialized or tampered with.”

Some of the potential risks of ocean-based CO2 removal identified in the National Academies report include unintended environmental effects — for example, mass seaweed farming could trigger unpredictable and unwanted changes to local ecosystems, and artificial upwelling and downwelling of water could change ocean surface temperatures. There’s also risk in these strategies failing to work after investing time and resources, risk in scaling them to the level needed to significantly impact atmospheric CO2, and the risk that any efficacy they could have won’t last. 

One particular point of contention is the worry that developing the ability to remove carbon from the atmosphere on a mass scale might slow progress in reducing carbon emissions in the first place. “There’s opposition to carbon removal generally … because people are concerned that it might delay or deter mitigation,” said Pidgeon.

Ocean-based CO2 removal approaches explored in the National Academies’ report

Ocean-based CO2 removal approaches explored in the National Academies’ report


“It’s absolutely clear that in order to meet our targets, we are likely to need some form of carbon removal.”


But even with significant reductions to carbon emissions, “it’s absolutely clear that in order to meet our targets, we are likely to need some form of carbon removal,” said Pidgeon.

“There may be a point in time where the harm from climate change may outweigh those risks [of ocean-based carbon removal],” added Buck. “It’s very hard to say anything about that, given our low level of information.”

Research recommended by the National Academies report could shed more light on these risks and trade-offs, and enable more informed decision-making in climate policy. Buck emphasized that now is the time for researchers to be creating this knowledge: “We should be finding this out sooner rather than later.”

Buck said that it’s important for the public to be involved in any research that moves forward. Pidgeon agreed. “You have to engage them very early,” he said. “That’s one of the lessons that have been learned from other technologies … that have encountered extreme opposition. If you don’t bring people in early, they’re likely to find out at the wrong time and get very frustrated.”

To incorporate community views and ethical considerations into their work, Pidgeon said researchers can look to parallel scientific issues in which there is public contention and debate, such as nuclear waste disposal or human health. 

“A good example might be human embryo technology,” said Pidgeon. “In the U.K., we have a panel of ethicists and lay citizens and others who are given these particular conundrums to wrestle with, when the scientists come up with research proposals in potentially controversial areas.” He added, “We need to learn from some of those other experiences if we are to take forward this technology.”


Keeping the public involved in research also means “you may identify ways in which the science has to change.”


Bringing non-scientists into the research can also help illuminate which aspects of ocean-based carbon removal are truly relevant and most important to a community. “As scientists, we tend to think about an issue in a certain way,” said Pidgeon. “And that may not relate to what really matters to someone in a coastal community.” Keeping the public involved in research also means “you may identify ways in which the science has to change.”

Given the urgent and immediate impacts of climate change being felt around the world, one attendee asked if scientists truly have time for careful research that includes the public. Buck replied, “We do, and there’s huge risks to not doing it, because we want to set up a system that’s going to work.”

“You need a yes on all of those levels,” said Pidgeon. “You need your ethics board to say yes. You need the general conversation at the citizen level to say yes. And you need the local community’s consent as well.”