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Marcelo Leite: Virada Psicodélica – Artigo aponta injustiça psicodélica contra saber indígena (Folha de S.Paulo)

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Marcelo Leite

7 de março de 2022


A cena tem algo de surreal: pesquisador europeu com o corpo tomado por grafismos indígenas tem na cabeça um gorro com dezenas de eletrodos para eletroencefalografia (EEG). Um membro do povo Huni Kuin sopra rapé na narina do branco, que traz nas costas mochila com aparelhos portáteis para registrar suas ondas cerebrais.

A Expedition Neuron aconteceu em abril de 2019, em Santa Rosa do Purus (AC). No programa, uma tentativa de diminuir o fosso entre saberes tradicionais sobre uso da ayahuasca e a consagração do chá pelo chamado renascimento psicodélico para a ciência.

O resultado mais palpável da iniciativa, até aqui, apareceu num controverso texto sobre ética, e não dados, de pesquisa.

O título do artigo no periódico Transcultural Psychiatry prometia: “Superando Injustiças Epistêmicas no Estudo Biomédico da Ayahuasca – No Rumo de Regulamentação Ética e Sustentável”. Desde a publicação, em 6 de janeiro, o texto gerou mais calor que luz –mesmo porque tem sido criticado fora das vistas do público, não às claras.

Os autores Eduardo Ekman Schenberg, do Instituto Phaneros, e Konstantin Gerber, da PUC-SP, questionam a autoridade da ciência com base na dificuldade de empregar placebo em experimentos com psicodélicos, na ênfase dada a aspectos moleculares e no mal avaliado peso do contexto (setting) para a segurança do uso, quesito em que cientistas teriam muito a aprender com indígenas.

Entre os alvos das críticas figuram pesquisas empreendidas na última década pelos grupos de Jaime Hallak na USP de Ribeirão Preto e de Dráulio de Araújo no Instituto do Cérebro da UFRN, em particular sobre efeito da ayahuasca na depressão. Procurados, cientistas e colaboradores desses grupos não responderam ou preferiram não se pronunciar.

O potencial antidepressivo da dimetiltriptamina (DMT), principal composto psicoativo do chá, está no foco também de pesquisadores de outros países. Mas outras substâncias psicodélicas, como MDMA e psilocibina, estão mais próximas de obter reconhecimento de reguladores como medicamentos psiquiátricos.

Dado o efeito óbvio de substâncias como a ayahuasca na mente e no comportamento da pessoa, argumentam Schenberg e Gerber, o sistema duplo-cego (padrão ouro de ensaios biomédicos) ficaria inviabilizado: tanto o voluntário quanto o experimentador quase sempre sabem se o primeiro tomou um composto ativo ou não. Isso aniquilaria o valor supremo atribuído a estudos desse tipo no campo psicodélico e na biomedicina em geral.

Outro ponto criticado por eles está na descontextualização e no reducionismo de experimentos realizados em hospitais ou laboratórios, com o paciente cercado de aparelhos e submetido a doses fixadas em miligramas por quilo de peso. A precisão é ilusória, afirmam, com base no erro de um artigo que cita concentração de 0,8 mg/ml de DMT e depois fala em 0,08 mg/ml.

A sanitização cultural do setting, por seu lado, faria pouco caso dos elementos contextuais (floresta, cânticos, cosmologia, rapé, danças, xamãs) que para povos como os Huni Kuin são indissociáveis do que a ayahuasca tem a oferecer e ensinar. Ao ignorá-los, cientistas estariam desprezando tudo o que os indígenas sabem sobre uso seguro e coletivo da substância.

Mais ainda, estariam ao mesmo tempo se apropriando e desrespeitando esse conhecimento tradicional. Uma atitude mais ética de pesquisadores implicaria reconhecer essa contribuição, desenvolver protocolos de pesquisa com participação indígena, registrar coautoria em publicações científicas, reconhecer propriedade intelectual e repartir eventuais lucros com tratamentos e patentes.

“A complementaridade entre antropologia, psicanálise e psiquiatria é um dos desafios da etnopsiquiatria”, escrevem Schenberg e Gerber. “A iniciativa de levar ciência biomédica à floresta pode ser criticada como uma tentativa de medicalizar o xamanismo, mas também pode constituir uma possibilidade de diálogo intercultural centrado na inovação e na resolução de ‘redes de problemas’.”

“É particularmente notável que a biomedicina se aventure agora em conceitos como ‘conexão’ e ‘identificação com a natureza’ [nature-relatedness] como efeito de psicodélicos, mais uma vez, portanto, se aproximando de conclusões epistêmicas derivadas de práticas xamânicas. O desafio final seria, assim, entender a relação entre bem-estar da comunidade e ecologia e como isso pode ser traduzido num conceito ocidental de saúde integrada.”

As reações dos poucos a criticar abertamente o texto e suas ideias grandiosas podem ser resumidas num velho dito maldoso da academia: há coisas boas e novas no artigo, mas as coisas boas não são novas e as coisas novas não são boas. Levar EEG para a floresta do Acre, por exemplo, não resolveria todos os problemas.

Schenberg é o elo de ligação entre o artigo na Transcultural Psychiatry e a Expedition Neuron, pois integrou a incursão ao Acre em 2019 e colabora nesse estudo de EEG com o pesquisador Tomas Palenicek, do Instituto Nacional de Saúde Mental da República Checa. Eis um vídeo de apresentação, em inglês:

“Estamos engajados, Konstantin e eu, em projeto inovador com os Huni Kuin e pesquisadores europeus, buscando construir uma parceria epistemicamente justa, há mais de três anos”, respondeu Schenberg quando questionado sobre o cumprimento, pelo estudo com EEG, das exigências éticas apresentadas no artigo.

Na apresentação da Expedition Neuron, ele afirma: “Nessa primeira expedição curta e exploratória [de 2019], confirmamos que há interesse mútuo de cientistas e uma cultura indígena tradicional da Amazônia em explorar conjuntamente a natureza da consciência e como sua cura tradicional funciona, incluindo –pela primeira vez– registros de atividade cerebral num cenário que muitos considerariam demasiado desafiador tecnicamente”.

“Consideramos de supremo valor investigar conjuntamente como os rituais e medicinas dos Huni Kuin afetam a cognição humana, as emoções e os vínculos de grupo e analisar a base neural desses estados alterados de consciência, incluindo possivelmente experiências místicas na floresta.”

Schenberg e seus colaboradores planejam nova expedição aos Huni Kuin para promover registros de EEG múltiplos e simultâneos com até sete indígenas durante cerimônias com ayahuasca. A ideia é testar a “possibilidade muito intrigante” de sincronia entre cérebros:

“Interpretada pelos Huni Kuin e outros povos ameríndios como um tipo de portal para o mundo espiritual, a ayahuasca é conhecida por fortalecer intensa e rapidamente vínculos comunitários e sentimentos de empatia e proximidade com os outros.”

Os propósitos de Schenberg e Gerber não convenceram a antropóloga brasileira Bia Labate, diretora do Instituto Chacruna em São Francisco (EUA). “Indígenas não parecem ter sido consultados para a produção do texto, não há vozes nativas, não são coautores, e não temos propostas específicas do que seria uma pesquisa verdadeiramente interétnica e intercultural.”

Para a antropóloga, ainda que a Expedition Neuron tenha conseguido autorização para a pesquisa, algo positivo, não configura “epistemologia alternativa à abordagem cientificista e etnocêntrica”. Uma pesquisa interétnica, em sua maneira de ver, implicaria promover uma etnografia que levasse a sério a noção indígena de que plantas são espíritos, têm agência própria, e que o mundo natural também é cultural, tem subjetividade, intencionalidade.

“Todos sabemos que a bebida ayahuasca não é a mesma coisa que ayahuasca freeze dried [liofilizada]; que o contexto importa; que os rituais e coletivos que participam fazem diferença. Coisas iguais ou análogas já haviam sido apontadas pela literatura antropológica, cujas referências foram deixadas de lado pelos autores.”

Labate também discorda de que os estudos com ayahuasca no Brasil negligenciem o reconhecimento de quem chegou antes a ela: “Do ponto de vista global, é justamente uma marca e um diferencial da pesquisa científica brasileira o fato de que houve, sim, diálogo com participantes das religiões ayahuasqueiras. Estes também são sujeitos legítimos de pesquisa, e não apenas os povos originários”.

Schenberg e Palenicek participaram em 2020 de um encontro com outra antropóloga, a franco-colombiana Emilia Sanabria, líder no projeto Encontros de Cura, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). Ao lado do indígena Leopardo Yawa Bane, o trio debateu o estudo com EEG no painel virtual “Levando o Laboratório até a Ayahuasca”, da Conferência Interdisciplinar sobre Pesquisa Psicodélica (ICPR). Há vídeo disponível, em inglês:

Sanabria, que fala português e conhece os Huni Kuin, chegou a ser convidada por Schenberg para integrar a expedição, mas declinou, por avaliar que não se resolveria a “incomensurabilidade epistemológica” entre o pensamento indígena e o que a biomedicina quer provar. Entende que a discussão proposta na Transcultural Psychiatry é importante, apesar de complexa e não exatamente nova.

Em entrevista ao blog, afirmou que o artigo parece reinventar a roda, ao desconsiderar um longo debate sobre a assimilação de plantas e práticas tradicionais (como a medicina chinesa) pela ciência ocidental: “Não citam a reflexão anterior. É bom que ponham a discussão na mesa, mas há bibliografia de mais de um século”.

A antropóloga declarou ver problema na postura do artigo, ao apresentar-se como salvador dos nativos. “Não tem interlocutor indígena citado como autor”, pondera, corroborando a crítica de Labate, como se os povos originários precisassem ser representados por não índios. “A gente te dá um espacinho aqui no nosso mundo.”

A questão central de uma colaboração respeitosa, para Sanabria, é haver prioridade e utilidade no estudo também para os Huni Kuin, e não só para os cientistas.

Ao apresentar esse questionamento no painel, recebeu respostas genéricas de Schenberg e Palenicek, não direta e concretamente benéficas para os Huni Kuin –por exemplo, que a ciência pode ajudar na rejeição de patentes sobre ayahuasca.

Na visão da antropóloga, “é linda a ideia de levar o laboratório para condições naturalistas”, mas não fica claro como aquela maquinaria toda se enquadraria na lógica indígena. No fundo, trata-se de um argumento simétrico ao brandido pelos autores do artigo contra a pesquisa psicodélica em ambiente hospitalar: num caso se descontextualiza a experiência psicodélica total, socializada; no outro, é a descontextualização tecnológica que viaja e invade a aldeia.

Sanabria vê um dilema quase insolúvel, para povos indígenas, na pactuação de protocolos de pesquisa com a renascida ciência psicodélica. O que em 2014 parecia para muitos uma nova maneira de fazer ciência, com outros referenciais de avaliação e prova, sofreu uma “virada capitalista” desde 2018 e terminou dominado pela lógica bioquímica e de propriedade intelectual.

“Os povos indígenas não podem cair fora porque perdem seus direitos. Mas também não podem entrar [nessa lógica], porque aí perdem sua perspectiva identitária.”

“Molecularizar na floresta ou no laboratório dá no mesmo”, diz Sanabria. “Não vejo como reparação de qualquer injustiça epistêmica. Não vejo diferença radical entre essa pesquisa e o estudo da Fernanda [Palhano-Fontes]”, referindo-se à crítica “agressiva” de Schenberg e Gerber ao teste clínico de ayahuasca para depressão no Instituto do Cérebro da UFRN, extensiva aos trabalhos da USP de Ribeirão Preto.

A dupla destacou, por exemplo, o fato de autores do estudo da UFRN indicarem no artigo de 2019 que 4 dos 29 voluntários no experimento ficaram pelo menos uma semana internados no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal. Lançaram, com isso, a suspeita de que a segurança na administração de ayahuasca tivesse sido inadequadamente tratada.

“Nenhum desses estudos tentou formalmente comparar a segurança no ambiente de laboratório com qualquer um dos contextos culturais em que ayahuasca é comumente usada”, pontificaram Schenberg e Gerber. “Porém, segundo nosso melhor conhecimento, nunca se relatou que 14% das pessoas participantes de um ritual de ayahuasca tenham requerido uma semana de hospitalização.”

O motivo de internação, contudo, foi trivial: pacientes portadores de depressão resistente a medicamentos convencionais, eles já estavam hospitalizados devido à gravidade de seu transtorno mental e permaneceram internados após a intervenção. Ou seja, a internação não teve a ver com terem tomado ayahuasca.

Este blog também questionou Schenberg sobre o possível exagero em pinçar um erro que poderia ser de digitação (0,8 mg/ml ou 0,08 mg/ml), no artigo de 2015 da USP de Ribeirão, como flagrante de imprecisão que poria em dúvida a superioridade epistêmica da biomedicina psicodélica.

“Se dessem mais atenção aos relatos dos voluntários/pacientes, talvez tivessem se percebido do fato”, retorquiu o pesquisador do Instituto Phaneros. “Além da injustiça epistêmica com os indígenas, existe a injustiça epistêmica com os voluntários/pacientes, que também discutimos brevemente no artigo.”

Schenberg tem vários trabalhos publicados que se encaixariam no paradigma biomédico agora em sua mira. Seria seu artigo com Gerber uma autocrítica sobre a atividade pregressa?

“Sempre fui crítico de certas limitações biomédicas e foi somente com muito esforço que consegui fazer meu pós-doc sem, por exemplo, usar um grupo placebo, apesar de a maioria dos colegas insistirem que assim eu deveria fazer, caso contrário ‘não seria científico’…”.

“No fundo, o argumento é circular, usando a biomedicina como critério último para dar respostas à crítica à biomedicina”, contesta Bia Labate. “O texto não resolve o que se propõe a resolver, mas aprofunda o gap [desvão] entre epistemologias originárias e biomédicas ao advogar por novas maneiras de produzir biomedicina a partir de critérios de validação… biomédicos.”

Weaving Indigenous knowledge into the scientific method (Nature)

nature.com

Saima May Sidik

11 January 2022; Correction 24 January 2022


Dominique David-Chavez working with Randal Alicea, a Caribbean Indigenous farmer, in his tobacco drying shed in Cidra, Borikén.
Dominique David-Chavez works with Randal Alicea, an Indigenous farmer, in his tobacco-drying shed in Cidra, Borikén (Puerto Rico).Credit: Norma Ortiz

Many scientists rely on Indigenous people to guide their work — by helping them to find wildlife, navigate rugged terrain or understand changing weather trends, for example. But these relationships have often felt colonial, extractive and unequal. Researchers drop into communities, gather data and leave — never contacting the locals again, and excluding them from the publication process.

Today, many scientists acknowledge the troubling attitudes that have long plagued research projects in Indigenous communities. But finding a path to better relationships has proved challenging. Tensions surfaced last year, for example, when seven University of Auckland academics argued that planned changes to New Zealand’s secondary school curriculum, to “ensure parity between mātauranga Māori”, or Maori knowledge, and “other bodies of knowledge”, could undermine trust in science.

Last month, the University of Auckland’s vice-chancellor, Dawn Freshwater, announced a symposium to be held early this year, at which different viewpoints can be discussed. In 2016, the US National Science Foundation (NSF) launched Navigating the New Arctic — a programme that encouraged scientists to explore the wide-reaching consequences of climate change in the north. A key sentence in the programme description reflected a shift in perspective: “Given the deep knowledge held by local and Indigenous residents in the Arctic, NSF encourages scientists and Arctic residents to collaborate on Arctic research projects.” The Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada and New Zealand’s Ministry of Business, Innovation and Employment have made similar statements. So, too, have the United Nations cultural organization UNESCO and the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services.

But some Indigenous groups feel that despite such well-intentioned initiatives, their inclusion in research is only a token gesture to satisfy a funding agency.

There’s no road map out of science’s painful past. Nature asked three researchers who belong to Indigenous communities in the Americas and New Zealand, plus two funders who work closely with Northern Indigenous communities, how far we’ve come toward decolonizing science — and how researchers can work more respectfully with Indigenous groups.

DANIEL HIKUROA: Weave folklore into modern science

Daniel Hikuroa is an Earth systems and environmental humanities researcher at Te Wānanga o Waipapa, University of Auckland, New Zealand, and a member of the Māori community.

We all have a world view. Pūrākau, or traditional stories, are a part of Māori culture with great potential for informing science. But what you need to understand is that they’re codified according to an Indigenous world view.

For example, in Māori tradition, we have these things called taniwha that are like water serpents. When you think of taniwha, you think, danger, risk, be on your guard! Taniwha as physical entities do not exist. Taniwha are a mechanism for describing how rivers behave and change through time. For example, pūrākau say that taniwha live in a certain part of the Waikato River, New Zealand’s longest, running for 425 kilometres through the North Island. That’s the part of the river that tends to flood. Fortunately, officials took knowledge of taniwha into account when they were designing a road near the Waikato river in 2002. Because of this, we’ve averted disasters.

Sometimes, it takes a bit of explanation to convince non-Indigenous scientists that pūrākau are a variation on the scientific method. They’re built on observations and interpretations of the natural world, and they allow us to predict how the world will function in the future. They’re repeatable, reliable, they have rigour, and they’re accurate. Once scientists see this, they have that ‘Aha!’ moment where they realize how well Western science and pūrākau complement each other.

We’re very lucky in New Zealand because our funding agencies help us to disseminate this idea. In 2005, the Ministry of Research, Science and Technology (which has since been incorporated into the Ministry of Business, Innovation and Employment) developed a framework called Vision Mātauranga. Mātauranga is the Māori word for knowledge, but it also includes the culture, values and world view of Māori people. Whenever a scientist applies for funding, they’re asked whether their proposal addresses a Māori need or can draw on Māori knowledge. The intent of Vision Mātauranga is to broaden the science sector by unlocking the potential of Māori mātauranga.

In the early days of Vision Mātauranga, some Indigenous groups found themselves inundated with last-minute requests from researchers who just wanted Indigenous people to sign off on their proposals to make their grant applications more competitive. It was enormously frustrating. These days, most researchers are using the policy with a higher degree of sophistication.

Vision Mātauranga is at its best when researchers develop long-term relationships with Indigenous groups so that they know about those groups’ dreams and aspirations and challenges, and also about their skill sets. Then the conversation can coalesce around where those things overlap with the researchers’ own goals. The University of Waikato in Hamilton has done a great job with this, establishing a chief-to-chief relationship in which the university’s senior management meets maybe twice a year with the chiefs of the Indigenous groups in the surrounding area. This ongoing relationship lets the university and the Indigenous groups have high-level discussions that build trust and can inform projects led by individual labs.

We’ve made great progress towards bridging Māori culture and scientific culture, but attitudes are still evolving — including my own. In 2011, I published my first foray into using Māori knowledge in science, and I used the word ‘integrate’ to describe the process of combining the two. I no longer use that word, because I think weaving is a more apt description. When you weave two strands together, the integrity of the individual components can remain, but you end up with something that’s ultimately stronger than what you started with.

DOMINIQUE DAVID-CHAVEZ: Listen and learn with humility

Dominique David-Chavez is an Indigenous land and data stewardship researcher at Colorado State University in Fort Collins, and a member of the Arawak Taíno community.

People often ask how can we integrate Indigenous knowledge into Western science. But framing the question in this way upholds the unhealthy power dynamic between Western and Indigenous scientists. It makes it sound as though there are two singular bodies of knowledge, when in fact Indigenous knowledge — unlike Western science — is drawn from thousands of different communities, each with its own knowledge systems.

At school, I was taught this myth that it was European and American white men who discovered all these different physical systems on Earth — on land, in the skies and in the water. But Indigenous people have been observing those same systems for hundreds or thousands of years. When Western scientists claim credit for discoveries that Indigenous people made first, they’re stealing Indigenous people’s contributions to science. This theft made me angry, but it also drove me. I decided to undertake graduate studies so that I could look critically at how we validate who creates knowledge, who creates science and who are the scientists.

To avoid perpetuating harmful power dynamics, researchers who want to work in an Indigenous people’s homeland should first introduce themselves to the community, explain their skills and convey how their research could serve the community. And they should begin the work only if the community invites them to. That invitation might take time to come! The researchers should also build in time to spend in the community to listen, be humbled and learn.

If you don’t have that built-in relational accountability, then maybe you’re better off in a supporting role.

Overall, my advice to Western researchers is this: always be questioning your assumptions about where science came from, where it’s going and what part you should be playing in its development.

MARY TURNIPSEED: Fund relationship building and follow-ups

Mary Turnipseed is an ecologist and grantmaker at the Gordon and Betty Moore Foundation, Palo Alto, California.

I’ve been awarding grants in the Arctic since 2015, when I became a marine-conservation programme officer at the Gordon and Betty Moore Foundation. A lesson I learnt early on about knowledge co-production — the term used for collaborations between academics and non-academics — is to listen. In the non-Indigenous parts of North America, we’re used to talking, but flipping that on its end helps us to work better with Indigenous communities.

Listening to our Indigenous Alaskan Native partners is often how I know whether a collaboration is working well or not. If the community is supportive of a particular effort, that means they’ve been able to develop a healthy relationship with the researchers. We have quarterly check-ins with our partners about how projects are going; and, in non-pandemic times, I frequently travelled to Alaska to talk directly with our partners.

One way in which we help to spur productive relationships is by giving research teams a year of preliminary funding — before they even start their research — so that they can work with Indigenous groups to identify the questions their research will address and decide how they’re going to tackle them. We really need more funding agencies to set aside money for this type of early relationship-building, so that everyone goes into a project with the same expectations, and with a level of trust for one another.

People working on the Ikaaġvik Sikukun collaboration in the snow cutting on ice core samples.
Members of the Ikaaġvik Sikukun collaboration at the Native Village of Kotzebue, Alaska.Credit: Sarah Betcher/Farthest North Films

Developing relationships takes time, so it’s easiest when Indigenous communities have a research coordinator, such as Alex Whiting (environmental programme director for the Native Village of Kotzebue), to handle all their collaborations. I think the number of such positions could easily be increased tenfold, and I’d love to see the US federal government offer more funding for these types of position.

Funding agencies should provide incentives for researchers to go back to the communities that they’ve worked with and share what they’ve found. There’s always talk among Indigenous groups about researchers who come in, collect data, get their PhDs and never show up again. Every time that happens, it hurts the community, and it hurts the next researchers to come. I think it’s essential for funding agencies to prevent this from happening.

ALEX WHITING: Develop a toolkit to decolonize relationships

Alex Whiting is an environmental specialist in Kotzebue, Alaska, and a formally adopted member of the Qikiktagrukmiut community.

A lot of the time, researchers who operate in a colonial way aren’t aware of the harm they’re doing. But many people are realizing that taking knowledge without involving local people is not only unethical, but inefficient. In 1997, the Native Village of Kotzebue — a federally recognized seat of tribal government representing the Qikiktagrukmiut, northwest Alaska’s original inhabitants — hired me as its environmental programme director. I helped the community to develop a research protocol that lays out our expectations of scientists who work in our community, and an accompanying questionnaire.

By filling in the one-page questionnaire, researchers give us a quick overview of what they plan to do; its relevance and potential benefit to our community; the need for local involvement; and how we’ll be compensated financially. This provides us with a tool through which to develop relationships with researchers, make sure that our priorities and rights are addressed, and hold researchers accountable. Making scientists think about how they’ll engage with us has helped to make research a more equitable, less extractive activity.

We cannot force scientists to deal with us. It’s a free country. But the Qikiktagrukmiut are skilled at activities such as boating, travelling on snow and capturing animals — and those skills are extremely useful for fieldwork, as is our deep historical knowledge of the local environment. It’s a lot harder for scientists to accomplish their work without our involvement. Many scientists realize this, so these days we get 6–12 research proposals per year. We say yes to most of them.

The NSF’s Navigating the New Arctic programme has definitely increased the number of last-minute proposals that communities such as ours get swamped with a couple of weeks before the application deadline. Throwing an Indigenous component into a research proposal at the last minute is definitely not an ideal way to go about things, because it doesn’t give us time to fully consider the research before deciding whether we want to participate. But at least the NSF has recognized that working with Indigenous people is a thing! They’re just in the growing-pains phase.

Not all Indigenous groups have had as much success as we have, and some are still experiencing the extractive side of science. But incorporating Indigenous knowledge into science can create rapid growths in understanding, and we’re happy we’ve helped some researchers do this in a respectful way.

NATAN OBED: Fund research on Indigenous priorities

Natan Obed is president of Inuit Tapiriit Kanatami, and a member of the Inuit community.

Every year, funding agencies devote hundreds of millions of dollars to work that occurs in the Inuit homeland in northern Canada. Until very recently, almost none of those agencies considered Inuit peoples’ priorities.

These Indigenous communities face massive social and economic challenges. More than 60% of Inuit households are food insecure, meaning they don’t always have enough food to maintain an active, healthy life. On average, one-quarter as many doctors serve Inuit communities as serve urban Canadian communities. Our life expectancy is ten years less than the average non-Indigenous Canadian’s. The list goes on. And yet, very little research is devoted to addressing these inequities.

Last year, the Inuit advocacy organization Inuit Tapiriit Kanatami (the name means ‘Inuit are united in Canada’) collaborated with the research network ArcticNet to start its own funding programme, which is called the Inuit Nunangat Research Program (INRP). Funding decisions are led entirely by Inuit people to ensure that all grants support research on Inuit priorities. Even in the programme’s first year, we got more requests than we could fund. We selected 11 proposals that all relate directly to the day-to-day lives of Inuit people. For example, one study that we’re funding aims to characterize a type of goose that has newly arrived in northern Labrador; another focuses on how social interactions spread disease in Inuit communities.

Our goal with the INRP is twofold: first, we want to generate knowledge that addresses Inuit concerns, and second, we want to create an example of how other granting agencies can change so that they respect the priorities of all groups. We’ve been moderately successful in getting some of the main Canadian granting agencies, such as the Canadian Institutes of Health Research, to allocate more resources to things that matter to Inuit people. I’d like to think that the INRP gives them a model for how to become even more inclusive.

We hope that, over the next ten years, it will become normal for granting agencies to consider the needs of Indigenous communities. But we also know that institutions change slowly. Looking back at where we’ve been, we have a lot to be proud of, but we still have a huge task ahead of us.

These interviews have been edited for length and clarity.

For better science, increase Indigenous participation in publishing (Nature)

10 January 2022

Amending long-established processes to include fresh perspectives is challenging, but journal editor Lisa Loseto is trying to find a path forward.

Saima May Sidik

Lisa Loseto at a campfire, where she is shutting down a research site at a traditional whaling camp.
Lisa Loseto stands by a campfire.Credit: Oksana Schimnowski

Lisa Loseto is a research scientist at Fisheries and Oceans Canada, a federal government department whose regional offices include one in Winnipeg, where she is based. Some of Northern Canada’s Indigenous people have shaped her research into how beluga whales (Delphinapterus leucas) interact with their environments, and have taught her to rethink her own part in the scientific method. As co-editor-in-chief of the journal Arctic Science since 2017, she is looking at ways to increase Indigenous representation in scientific publishing, including the editorial and peer-review processes.

What got you thinking about the role of Indigenous people in scientific publishing?

In 2020, Arctic Science published a special issue centred on knowledge co-produced by Western scientists and Indigenous people. As production of that issue progressed, the peer-review and editorial processes stuck out as aspects lacking Indigenous representation. We were soliciting papers to highlight the contributions of Indigenous knowledge — but the peer-review process was led by non-Indigenous editors like myself, and academics to review the articles. A few members of the editorial board thought, ‘Let’s talk about this and think about ways to provide more balance.’ We discussed the issue in a workshop that included representatives from several groups that are indigenous to Canada’s Arctic.

What did the workshop reveal about the Indigenous participants’ perceptions of scientific publishing?

For a lot of people, publishing seemed like a distant concept, so we explained how the editorial and peer-review processes work. We described peer review as a method for validating knowledge before it’s published, and many Indigenous participants recognized similarities between that process and one in their own lives: in the Arctic, each generation passes down knowledge of how to live in a harsh environment, and over time this knowledge is tested and refined. The Indigenous workshop participants said, “We would die if we didn’t have the peer-review process.”

The scientific method used by Westerners is colonial: it emphasizes objectivity and performing experiments in the absence of outside influences. This mindset can feel alienating for many Indigenous people, who see themselves as integral parts of nature. This makes me think scientific publishing doesn’t fit an Indigenous framework.

The dense jargon and idiosyncratic structures of scientific publications make them difficult for people without a formal scientific education to jump into. Even people training to become scientists often don’t get involved in publishing until they’re in graduate school because there’s so much background knowledge that they need to have first.

If a journal article draws on Indigenous knowledge, should it include an Indigenous peer reviewer?

Perhaps, but trying to force Indigenous perspectives into a process that was created to advance Western priorities can come with its own problems. Scientific publications serve the dual purposes of disseminating information and acting as a tool of measure for scientists’ careers. Most members of Indigenous groups aren’t concerned with building up their academic CVs; in fact, some are uncomfortable with being named as authors because they see their knowledge as part of a collective body, rather than belonging solely to themselves. So do publications have the same weight for Indigenous people? Maybe not. In light of this, is participating in this system really the best use of time for Indigenous people who aren’t in academia — especially when their communities are already overtaxed with researchers’ requests for guidance through prepublication aspects of performing research in remote areas?

In Arviat, Nunavut, Canada, a local woman demonstrates historic tools used by Inuit, with a polar tent in background.
Indigenous communities hold a wealth of knowledge that can advance science.Credit: Galaxiid/Alamy

As an alternative to contributing to research articles, we’re considering starting a commentary section of Arctic Science. This could give more Indigenous people a venue to publish their views on the scientific process, and their observations of natural trends, in a less technical format.

Can Indigenous journal editors help to bridge the divide between Indigenous people and academic publications?

Yes, but there are very few Indigenous journal editors. Historically, editor positions have been reserved for senior scientists, and many senior scientists are white men. I’m trying to bring on more early-career scientists as editors, as this group is often more diverse. By moving away from offering these positions to only the most senior scientists, I think we’ll see a shift in demographics. At the same time, I don’t want to put the burden of bridging current divides entirely on Indigenous people. That job is for all of us.

What is Arctic Science planning to do moving forward?

My hope is to build an Indigenous advisory group that can advise Arctic Science on the peer-review process generally and consider, on a case-by-case basis, whether articles could benefit from an Indigenous peer reviewer. Beyond that, we’re still figuring out how to engage more people without being prescriptive about how they’re engaged.

What do you hope these actions will achieve?

Publications are power. Policy decisions are based on things that are written down and tangible: peer-reviewed papers and reports. Not only do scientific publications guide policy decisions, they also determine who gets money. The more you publish, and the better the journals you publish in, the more power you have.

Indigenous communities have tremendous knowledge, but much of it is passed down orally rather than published in written form. I think the fact that Indigenous representation is weak in academia, including in publishing, upholds the power imbalance that exists between Indigenous people and settlers. I want to find a better balance.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00058-x

This interview has been edited for length and clarity.

Climate change: Voices from global south muted by climate science (BBC)

By Matt McGrath
Environment correspondent

October 6, 2021

climate researcher

Climate change academics from some of the regions worst hit by warming are struggling to be published, according to a new analysis.

The study looked at 100 of the most highly cited climate research papers over the past five years.

Less than 1% of the authors were based in Africa, while only 12 of the papers had a female lead researcher.

The lack of diverse voices means key perspectives are being ignored, says the study’s author.

Researchers from the Carbon Brief website examined the backgrounds of around 1,300 authors involved in the 100 most cited climate change research papers from 2016-2020.

They found that some 90% of these scientists were affiliated with academic institutions from North America, Europe or Australia.

Africa
Issues of concern to African climate researchers were in danger of being ignored

The African continent, home to around 16% of the world’s population had less than 1% of the authors according to the analysis.

There were also huge differences within regions – of the 10 authors from Africa, eight of them were from South Africa.

When it comes to lead authors, not one of the top 100 papers was led by a scientist from Africa or South America. Of the seven papers led by Asian authors, five were from China.

“If the vast majority of research around climate change is coming from a group of people with a very similar background, for example, male scientists from the global north, then the body of knowledge that we’re going to have around climate change is going to be skewed towards their interests, knowledge and scientific training,” said Ayesha Tandon from Carbon Brief, who carried out the analysis and says that “systemic bias” is at play here.

“One study noted that a lot of our understanding of climate change is biased towards cooler climates, because it’s mainly carried out by scientists who live in the global north in cold climates,” she added.

There are a number of other factors at play that limit the opportunities for researchers from the global south. These include a lack of funding for expensive computers to run the computer models, or simulations, that are the bedrock of much climate research.

Other issues include a different academic culture where teaching is prioritised over research, as well as language barriers and a lack of access to expensive libraries and databases.

Ice research
Most of the leading papers on climate change were published by institutions in the global north

Even where researchers from better-off countries seek to collaborate with colleagues in the developing world, the efforts don’t always work out well.

One researcher originally from Tanzania but now working in Mexico explained what can happen.

“The northern scientist often brings his or her own grad students from the north, and they tend to view their local partners as facilitators – logistic, cultural, language, admin – rather than science collaborators,” Dr Tuyeni Mwampamba from the Institute of Ecosystems and Sustainability Research in Mexico told Carbon Brief.

Researchers from the north are often seen as wanting to extract resources and data from developing nations without making any contribution to local research, a practice sometimes known as “helicopter science”.

For women involved in research in the global south there are added challenges in getting your name on a scientific paper

Women in science
A scientist at work in Cote D’Ivoire

“Women tend to have a much higher dropout rate than men as they progress through academia,” said Ayesha Tandon.

“But then women also have to contend with stereotypes and sexism, and even just cultural norms in their country or from the upbringing that might prevent them from spending as much time on their science or from pursuing it in the way that men do.”

The analysis suggests that the lack of voices from women and from the global south is hampering the global understanding of climate change.

Solving the problem is not going to be easy, according to the author.

“This is a systemic problem and it will progress and keep getting worse, because people in positions of power will continue to have those privileges,” said Ayesha Tandon.

“It’s a problem that will not just go away on its own unless people really work at it.”

Estudantes produzem dicionário biográfico Excluídos da História (Agência Brasil)

Olimpíada de história do Brasil foi criada em 2009 na Unicamp

Publicado em 15/08/2020 – 18:49 Por Akemi Nitahara – Repórter da Agência Brasil – Rio de Janeiro

Do cacique Tibiriçá, nascido antes de 1500 e batizado pelos jesuítas como Martim Afonso de Sousa, que teve papel importante na fundação da cidade de São Paulo a Jackson Viana de Paula dos Santos, jovem escritor nascido em Rio Branco (AC) no ano 2000, fundador da Academia Juvenil de Letras e representante da região norte na Brazil Conference, em Harvard.

Essas são as duas pontas de uma linha do tempo que busca contar a história de importantes personagens brasileiros que estão fora dos livros oficiais, num total de 2.251 verbetes, publicados agora como dicionário biográfico Excluídos da História.

O trabalho foi feito pelos 6.753 estudantes que participaram da quinta fase da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) do ano passado, entre os dias 3 e 8 de junho de 2019, divididos em equipes de três participantes cada.

A olimpíada foi criada em 2009 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e reúne atualmente mais de 70 mil estudantes dos ensinos fundamental e médio em uma maratona de busca pelo conhecimento em história do Brasil. A competição tem cinco fases online, com duração de uma semana cada, e uma prova para os finalistas das equipes mais bem pontuadas para definir os medalhistas.

Começou com samba

A Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB) é um projeto que iniciou no ano de 2009, no âmbito do Museu Exploratório de Ciências da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e que prossegue sendo elaborado por docentes e pós-graduandos

O dicionário biográfico Excluídos da História foi feito pelos estudantes que participaram da quinta fase da Olimpíada Nacional em História do Brasil (ONHB), iniciativa criada em 2009 pela Unicamp  Divulgação/Unicamp/Direitos Reservados

A coordenadora da Olimpíada Nacional em História do Brasil, Cristina Meneguello, explica que a história do dicionário começou a partir do samba enredo da Estação Primeira de Mangueira, escola campeã do carnaval carioca no ano passado, que levou para a Sapucaí o enredo História para Ninar Gente Grande.

Os versos abriram alas para os “heróis de barracões” com “versos que o livro apagou” para contar “a história que a história não conta” e mostrar “um país que não está no retrato” e o “avesso do mesmo lugar”. Versos que caíram no gosto popular antes mesmo do desfile oficial, sendo tocado em blocos de rua e rodas de samba pela cidade.

Segundo Cristina, a discussão sobre os excluídos da história foi intensa entre os historiadores depois do carnaval no ano passado e o tema permeou toda a competição, que começou no dia 6 de maio.

“Logo na primeira fase da prova a gente fez uma pergunta usando o próprio samba enredo da Mangueira. A gente usa documentos variados, letra de música, propaganda, documentos históricos mais clássicos, imagens, etc. A gente já tinha definido que esse seria o tema da tarefa deles para a quinta fase e fomos colocando as perguntas para eles irem entendendo o tema desde a primeira fase”, lembra.

De acordo com a professora, originalmente não havia a intenção de se publicar o material produzido pelos estudantes. Porém, diante da riqueza e diversidade das pesquisas apresentadas, a coordenação decidiu compartilhar o material com professores, estudantes e todos os interessados, disponibilizando o conteúdo online.

“A gente já sabia que ia ficar uma tarefa muito boa, porque esse conhecimento que eles produzem a partir da escola é sempre muito surpreendente. Mas teve uma série de fatores. O primeiro foi que realmente ficou muito bom o trabalho realizado pelos participantes. Depois, o template que foi criado, com essas quatro páginas como se fosse de um livro didático, ficou um design muito bom e ganhou a medalha de prata no Brasil Design Award no ano passado, como design de sistema educativo”.

Personagens desconhecidos

A escolha do personagem era livre para os estudantes, dentro do critério de ser importante para a história do Brasil e não ser lembrado nos livros didáticos. Cristina diz que o resultado surpreendeu a organização, com verbetes sobre pessoas com importância local e regional, inclusive muitos ainda vivos, mostrando que os participantes entenderam que a história é construída continuamente por personagens diversos, inclusive os que não são apontados pelos historiadores.

“Superou nossa expectativa. Nós observamos que esses personagens desconhecidos são personagens negros, são mulheres importantes para a história do Brasil, são mulheres negras, são líderes locais. Muitos fizeram o verbete de pessoas que estão vivas. São líderes indígenas, pessoas perseguidas na ditadura militar, professores que foram censurados na ditadura militar. Temos de personagens do Brasil colônia até pessoas que estão vivas nesses verbetes”.

Alguns personagens foram lembrados por mais de um grupo, portanto, há verbetes repetidos no dicionário, mas que trazem abordagens diferentes sobre a mesma pessoa.

O grupo da estudante Juliana Kreitlon Pereira foi um dos dois que escreveram sobre Mercedes Baptista, a primeira bailarina negra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

A sugestão da personagem foi feita por Juliana, que estava no último ano da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa e conheceu a história de Mercedes Baptista pelo professor de História da Dança Paulo Melgaço, semanas antes do desafio da olimpíada.

“A Mercedes sempre fez questão de trazer a dança brasileira para os palcos. Foi uma das coisas que mais me chamou atenção. Ela trabalhou com a Katherine Dunham, uma pesquisadora de movimento e coreógrafa dos Estados Unidos. A Mercedes viu o quanto a gente precisava desse tipo de estudo no Brasil também. Ela recorreu a vários movimentos culturais, coisas que já ocorriam no Brasil mas não tinham holofote. E ela sempre quis trazer bastante atenção para isso”.

Falecida em 2014, Mercedes teve sua estátua inaugurada em 2016 no Largo da Prainha, no circuito Pequena África da zona portuária do Rio de Janeiro.

Juliana se diz muito feliz com a publicação do dicionário online. “Eu não sabia que seria publicado. A gente se esforçou tanto, eu li o livro dela inteiro, até porque era muito interessante. Pensei, poxa, não vai acontecer nada. Quando foi publicado eu fiquei muito feliz porque mais pessoas poderiam conhecer essa bailarina”.

Já a equipe do estudante Lucas do Herval Costa Teles de Menezes decidiu escrever sobre um personagem que representasse o Rio de Janeiro e estivesse presente no cotidiano, mas que as pessoas não percebessem. Um personagem que não tivesse sido completamente apagado da história. O escolhido tem um feriado municipal em sua homenagem em Niterói e dá nome à estação das barcas que chegam do Rio de Janeiro e à praça em frente a ela, onde tem uma estátua: o indígena temiminó Araribóia.

“Eu achei interessante a dinâmica que o personagem teve com os povos estrangeiros, no caso, os portugueses e os franceses. Porque, geralmente, quando a gente aprende sobre a relação dos povos indígenas e os povos europeus invasores, a gente não pensa muito em identificar esses povos indígenas, nunca aprende sobre a história individual de uma figura indígena. Eu achei que ele teve uma história individual muito interessante, foi uma figura de liderança, teve muito envolvimento em mais de uma narrativa política daquela época, e isso me chamou atenção.”

O grupo de Lucas foi o único a lembrar de Araribóia, conhecido como fundador de Niterói e figura fundamental na disputa entre portugueses e franceses que levou à expulsão destes.

Olímpiada

A 12ª edição da Olimpíada Nacional em História do Brasil está com inscrições abertas até o dia 7 de setembro. Podem se inscrever equipes de três estudantes de 8º e 9º anos do ensino fundamental e todos os anos do ensino médio, com a orientação de um professor ou uma professora, de escolas públicas e particulares.

Diferentemente da maioria das olimpíadas científicas, a ONHB estimula a busca pelo conhecimento em história, e não avaliar o que o estudante já sabe por meio de uma prova.

“É um sistema de aprendizagem participar de olimpíadas. Ela é muito exigente e não quer aferir se os estudantes já sabem, ela dá tempo para eles estudarem, perguntam para o professor, perguntam uns para os outros. Tem uma pergunta de uma coisa que ele nunca ouviu falar, não viu na escola. Mas do lado tem um texto, ele lê, se informa, pesquisa na internet e volta para responder. Nesse processo ele aprendeu história. Eu não estou muito interessada se ele já sabia, mas se ele aprendeu naquele momento, o nosso objetivo pedagógico é esse”, afirma Cristina Meneguello.

A primeira edição da ONHB, em 2009, contou com 15 mil participantes. No ano passado, o número chegou a 73 mil. Por causa da pandemia de covid-19, a competição deste ano será online, não havendo a prova presencial para os finalistas que normalmente é aplicada na Unicamp.

As fases são compostas por questões de múltipla escolha e uma tarefa que será corrigida por outros grupos. Serão escolhidas 400 equipes finalistas, o dobro do usual, com distribuição de 20 medalhas de ouro, 30 de prata e 40 de bronze, que serão enviadas para as escolas.

Ouça na Radioagência Nacional

Edição: Lílian Beraldo