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What do some Afro-Brazilian religions actually believe? (Washington Post)

 February 6 at 3:30 AM

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Candomblé is a Brazilian religion developed from animist beliefs, imported by African slaves. But the quasi-respectability gained in recent decades is now under attack from radical Evangelical Christians – a growing force in Catholic Brazil – who regard it as the devil’s work. (The Washington Post)

RIO DE JANEIRO — In its contemporary form, Brazil’s Candomblé religion looks about as removed from Western Christianity as could be imagined. It must have seemed positively diabolical, then, to the brutal Portuguese overlords whose slaves imported it from Africa, and whom they believed had been converted. Those slaves may have cleverly “synchronized” their own deities with Catholic saints to be able to continue worshiping, but they did not synchronize their beliefs.

This does not make Candomblé the devil’s work. It does not have the concept of heaven and hell, nor a rigid moral code in the sense that Christians would understand it. Instead, believers are supposed to fulfill their destiny, whatever that might be. Both men and women can become priests. Homosexuality is accepted, secretive animal sacrifices play an important role and the sexual lives of devotees are their own business when they are outside the walls of the Candomblé “house,” or center.

Decorative body paint, jewelry and costumes are part in a Candomble ceremony in Rio de Janeiro on Jan. 23. (Lianne Milton for The Washington Post)

There are elaborate theatrical rituals, with costumes and accessories that can include robes, small swords and shields, a mini archer’s bow, and even as witnessed in one ceremony in Rio, an elaborate silver helmet with a tiny figure on a plinth on top that looked like something a 19th-century Prussian army officer might have sported.

But these accoutrements are no more outlandish than a Catholic Mass might have appeared to an 19th-century African who had just been enslaved. Candomblé is a religion like any other, with its own rules, hierarchies and sense of the spiritual. This is true especially in Brazil, where the existence of spirituality and an afterlife is regarded as an incontestable truth by the majority of the population — be they Catholics, or followers of more esoteric, yet tolerated religions, such as the spiritualist sect that follows the teachings of 19th-century French writer Hippolyte Léon Denizard Rivail, who wrote the Spiritist Codification under the pseudonym Allan Kardec.

Or followers of both, because many Catholics have no problem also being spiritualists. Religious duality is popular in Brazil, one reason why some estimates put followers of Candomblé and its sister religion, Umbanda, in the tens of millions, not the official half a million or so who admitted to it in the 2010 government census.

Candomblé is an oral culture with no sacred text. There are seven Candomblé nations — or variations – such as Ketu and Angola, depending on which Brazilian state it developed in, and where in Africa the slaves practicing it came from. They believe in a supreme being, called Olódùmarè (whose name can be spelled with or without the accents). Beneath this god are 16 Orixás — deities, or entities — many of whom have characteristics that are distinctly human in nature.

Yemanjá, the sea goddess, is given gifts like flowers or champagne by millions of Brazilians every New Year’s Eve. She is sometimes associated with the Virgin Mary, but she is also famously vain.

The warrior Ogum is linked to Saint George — courageous and persistent, and popular in Brazil for these qualities.

Then there is a female Orixá of the wind, Iansã, who is — as might be expected in Brazil — a more sensual deity.

Nature is perhaps the single most important factor in Candomblé, and each Orixá is connected to an element. “All of them are responsible for a part of nature,” said Rodrigo Silva, “father-of-saint,” or priest of the Logun Edé Palace Candomblé center. It is not uncommon to see Candomblé being practiced on beaches, or in waterfalls. “Our gods are ecological gods,” said Beatriz Moreira Costa, 84, a revered priestess called Mother Beatá.

In its sister religion, Umbanda, invented in Rio in the early 20th century, both the Catholic God and reincarnation also play a part. “It is a Christian doctrine,” said Tábata Lugao, 27, a recent convert. Orixás and Catholic saints are synchronized — but Umbanda also has its own holy figures, such as Preto Velho, or “Old Black Man,” a wily old slave figure who smokes a pipe.

The mostly female, middle-age worshippers being “incorporated” by Preto Velho at a recent Umbanda ceremony in São Gonçalo, near Rio, drank beer and smoked cigars and appeared to be enjoying themselves enormously, but they also took their ceremony extremely seriously — another kind of quintessentially Brazilian religious duality.

Unlike Umbanda, Candomblé initiates spend 21 days in seclusion living in the center, before being initiated as Yaô (this can also be spelled in different ways). Then they can be “incorporated” by Orixás — and initiates have individual Orixás they must follow.

After seven years as a Yaô, they become an Egbomi, and can then decide if they want to progress to the highest stage, that of father-of-saint or mother-of-saint.

The musicians who play percussion and sing the songs in African languages at Candomblé ceremonies that aim to honor and conjure up the Orixás are another kind of Yaô, called Ogá.

This does not necessarily involve being righteous, and it is here, perhaps, that Candomblé is most controversial. Those priests who sell curses or spells, via lower-level spirits called Exús, prompt some of the prejudice that surrounds the religion. “There are those who have pleasure in doing bad, others who like to help,” said Silva.

His center, he emphasized, does not get involved in the darker side of Candomblé’s neighborhood witchcraft, pejoratively called Macumba in Brazil. “It was made to protect and help people who need this help,” he said. “We fight for peace.”

Em busca da tradição do jarê (Faperj)

Vilma Homero

06/03/2014

Um dos princípios da antropologia diz que é o engajamento pessoal numa realidade bem diferente da nossa, traduzindo-a para um público mais amplo, que faz um bom antropólogo. Foi seguindo à risca esse conceito que o catarinense Gabriel Banaggia, criado em Niterói, rumou para a Chapada Diamantina, no interior da Bahia. A viagem exploratória, pensada para durar um mês, acabou resultando em um trabalho de campo contínuo que levou um ano, possibilitando ao pesquisador vivenciar a realidade de uma das religiões de matriz africana menos conhecidas do País: o jarê. O assunto foi tema de sua tese de doutorado em Antropologia Social no Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolvida como bolsista Doutorado Nota 10, da FAPERJ, e desdobrada em um livro, a ser lançado até 2015, com apoio da Fundação, por meio do Auxílio à Editoração (APQ 3).

Nas proximidades de um terreiro, a árvore onde mora um Eru; no centro, atabaque do Palácio de Ogum; e detalhe de árvore que serve de morada a um espírito no terreiro Pai Gil de Ogum. Gabriel Banaggia

A escolha do tema seguiu indicação do orientador de Banaggia, Marcio Goldman, professor do programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. E resultou no que Goldman avalia como um belo trabalho. “A tese de doutorado de Banaggia é praticamente o primeiro trabalho acadêmico de fôlego que investiga o jarê urbano da Chapada Diamantina. Essa religião de matriz africana é uma das menos conhecidas fora de sua área de abrangência. Além de analisar as características específicas dessa religião, a tese também faz uma contribuição inovadora e brilhante para o campo dos estudos afro-brasileiros”, elogia Goldman.
Mas para quem não conhece, o que é exatamente o jarê? Prática religiosa agraciada no fim de 2013 com o prêmio Culturas Populares, do Ministério da Cultura, o jarê está circunscrito à Chapada Diamantina, e intimamente ligado à história do lugar. Foi criado por escravas e libertas, vindas principalmente das cidades de Cachoeira e São Félix, e levadas àquela área de garimpo de diamantes. Muitas se fixaram nas cidades de Lençóis e Andaraí, onde deram início ao culto do chamado jarê de nagô – aquele que só cultuava as divindades africanas, os orixás. “Isso se deu nos séculos XVIII e XIX, mais ou menos na mesma época em que também tinha início o candomblé jeje-nagô em Salvador”, conta Banaggia. Mas a convivência com os descendentes de indígenas na região foi fazendo com que aos poucos suas entidades fossem sendo incluídas no jarê, dando surgimento à forma contemporânea dessa religião.

Um dos caboclos incorporado no curador; e adepta se abaixa em deferência para saudar a Iansã também incorporada. Calil Netto

“Podemos dizer que uma das características do jarê é sua capacidade de adaptação. Enquanto no interior das casas de culto se faziam rituais somente para os orixás, tal como no candomblé, do lado de fora, se cultuavam entidades indígenas. No jarê atual, ambas as práticas foram unidas e passaram a incluir também o culto ao chamado ‘povo velho’, antepassados admirados por sua sabedoria ou poder de cura, e ao ‘povo das águas’, entidades ligadas aos rios, cachoeiras e mares. Todos esses seres orientam e trabalham para a cura espiritual”, explica Banaggia. Diferentemente do que ocorre no candomblé, liderado majoritariamente por mães de santo, no jarê predominam pais de santo na iniciação de novos adeptos.

Pedro de Laura, que ficou conhecido como um dos maiores mestres do jarê da Chapada Diamantina. Associação do Jarê

As únicas referências que Banaggia tinha sobre o tema de sua pesquisa ao chegar a Lençóis eram os estudos de Ronaldo de Salles Senna, antropólogo nascido na própria Chapada, e o de Miriam Rabelo, que nos anos 1980 focou sua tese de doutorado sobre o tema. “A diferença é que procurei me concentrar na cidade diamantífera de Lençóis, considerada como o berço dessa religião. A cidade, que surgiu da corrida em busca de diamantes em meados do século XIX, chegou a ter uma população de 30 mil habitantes em seus tempos áureos. Na década de 1970, no entanto, eram 5 mil habitantes, número que, hoje, se estabilizou em 10 mil, dos quais 85% são negros. Ainda hoje dominada por uma elite branca – tal como nos tempos do apogeu do garimpo de diamantes, em que a cidade chegou a contar com um subconsulado francês –, Lençóis agora vive do turismo. Os remanescentes da antiga elite são atualmente os donos de pousadas, de restaurantes, os que comandam as atividades do setor terciário”, explica o pesquisador.
Com o fim do garimpo, uma nova configuração econômica começou a mudar a face da cidade. “Com a alta dos preços dos aluguéis e as novas atividades do turismo, as casas de jarê foram se instalando cada vez mais distantes da cidade e mais perto da mata, em locais sem luz nem água encanada. Mas o preconceito com relação às religiões de matriz africana também leva seus adeptos, especialmente em cidades pequenas, a se tornarem bastante discretos sobre suas práticas”, acrescenta. Foi esse cenário que o “carioca” Banaggia, como se tornou conhecido na cidade, encontrou em Lençóis. Nos primeiros meses da pesquisa, em que se dedicou basicamente à história do lugar e do garimpo, deu a sorte de conhecer Sandoval, filho do já falecido Pedro de Laura, um dos maiores mestres do jarê, e que se tornaria um de seus quatro guias na pesquisa. “Sandoval foi uma das pessoas que me abriram as primeiras portas. Assim como Gilson, antigo garimpeiro e filho de outro adepto de importância na religião; Elias, um brilhante jovem da região que por conta própria se aprofundava numa pesquisa informal sobre o assunto; e Áurea, tia de Sandoval, filha de santo e uma das senhoras mais empenhadas em manter vivo o jarê. É sempre um deles que me orienta ao longo de cada um dos capítulos da tese.”

Gabriel Banaggia: um ano de trabalho de campo na Chapada Diamantina. Arquivo pessoal

Seguindo à risca a frase de Pierre Verger, o antropólogo francês estudioso do candomblé de Salvador – que dizia que a qualidade da pesquisa depende da qualidade das relações pessoais com seus interlocutores –, Banaggia enfronhou-se nas casas de jarê mata adentro. “Foi um processo demorado até ser aceito. Fui conhecendo os rituais, as práticas e as pessoas.” Pelo que Banaggia observou, há uma grande comunhão do jarê com a natureza. Em certo sentido, é um tanto mais democrático do que o candomblé, já que durante os rituais não há separação entre os que realizam as práticas e a assistência. Todos podem entrar em transe. E o jarê segue igualmente uma orientação terapêutica bastante pronunciada.
“Há uma grande procura para tratar um misto de doenças físicas e espirituais. Nada que suplante recorrer à medicina tradicional para casos mais graves. Nessas situações, como a de uma cirurgia, por exemplo, é comum se pedir para que as entidades iluminem as mãos e a mente dos médicos”, conta o pesquisador. Ele também chama a atenção para a alta incidência de alcoolismo na região, o que acaba sendo um dos motivos recorrentes para os atendimentos no jarê. “Em Lençóis, costuma-se dizer que quem não bebe, já bebeu. No jarê, esse é um dos pedidos mais frequentes de tratamento espiritual. E os relatos afirmam que se alcançam bons resultados”, fala.

De sua convivência na região e com os praticantes do jarê, Banaggia pôde perceber que uma das características mais fortes do culto é a resiliência. “Vi na religião uma enorme capacidade de resistência criativa às perdas populacionais, culturais e linguísticas. Seus adeptos não se mostram resignados a essa situação, mas reagem de forma resoluta e com enorme persistência, exibindo uma tremenda vitalidade em continuar a prática do jarê”, afirma Banaggia. Entre as iniciativas para manter forte o jarê estão a associação com programas do governo, organizações não governamentais e também pesquisadores. “Hoje, essas alianças são importantes para os adeptos dessa religião”, explica. Por isso mesmo, em 2007, por iniciativa de Sandoval, e à semelhança do que já aconteceu com muitos terreiros de candomblé de Salvador, foi feito um pedido de tombamento ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tanto do jarê como bem cultural imaterial quanto de sua mais antiga casa de culto em Lençóis. “Conseguir esse tombamento poderá configurar novos passos importantes para manter viva a tradição do jarê”, conclui.

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