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O Brasil deveria mudar o modo como lida com a memória da escravidão? (BBC Brasil)

29 outubro 2016

Exposição 'Mãe Preta', no Rio de Janeiro

O Brasil recebeu a maioria dos africanos escravizados enviados às Américas

Uma sala com peças de um navio que levava para o Brasil 500 mulheres, crianças e homens escravizados é a principal atração do novo museu sobre a história dos americanos negros, em Washington.

Numa segunda-feira de outubro, era preciso passar 15 minutos na fila para entrar na sala com objetos do São José – Paquete de África, no subsolo do Museu de História e Cultura Afroamericana.

Inaugurado em setembro pelo Smithsonian Institution, o museu custou o equivalente a R$ 1,7 bilhão se tornou o mais concorrido da capital americana: os ingressos estão esgotados até março de 2017.

Em 1794, o São José deixou a Ilha de Moçambique, no leste africano, carregado de pessoas que seriam vendidas como escravas em São Luís do Maranhão. A embarcação portuguesa naufragou na costa da África do Sul, e 223 cativos morreram.

Visitantes – em sua maioria negros americanos – caminhavam em silêncio pela sala que simula o porão de um navio negreiro, entre lastros de ferro do São José e algemas usadas em outras embarcações (um dos pares, com circunferência menor, era destinado a mulheres ou crianças).

“Tivemos 12 negros que se afogaram voluntariamente e outros que jejuaram até a morte, porque acreditam que quando morrem retornam a seu país e a seus amigos”, diz o capitão de outro navio, em relato afixado na parede.

Prova de existência

Expor peças de um navio negreiro era uma obsessão do diretor do museu, Lonnie Bunch. Em entrevista ao The Washington Post, ele disse ter rodado o mundo atrás dos objetos, “a única prova tangível de que essas pessoas realmente existiram”.

Destroços do São José foram descobertos em 1980, mas só entre 2010 e 2011 pesquisadores localizaram em Lisboa documentos que permitiram identificá-lo. Um acordo entre arqueólogos marinhos sul-africanos e o Smithsonian selou a vinda das peças para Washington.

Museu de História e Cultura Afroamericana

Inaugurado em setembro, o Museu de História e Cultura Afroamericana custou US$ 1,7 bilhão. DIVULGAÇÃO/SMITHSONIAN

Que o destino do São José fosse o Brasil não era coincidência, diz Luiz Felipe de Alencastro, professor emérito da Universidade de Paris Sorbonne e um dos maiores especialistas na história da escravidão transatlântica.

Ele afirma à BBC Brasil que fomos o paradeiro de 43% dos africanos escravizados enviados às Américas, enquanto os Estados Unidos acolheram apenas 0,5%.

Segundo um estudo da Universidade de Emory (EUA), ao longo da escravidão ingressaram nos portos brasileiros 4,8 milhões de africanos, a maior marca entre todos os países do hemisfério.

Esse contingente, oito vezes maior que o número de portugueses que entraram no Brasil até 1850, faz com que Alencastro costume dizer que o Brasil “não é um país de colonização europeia, mas africana e europeia”.

O fluxo de africanos também explica porque o Brasil é o país com mais afrodescendentes fora da África (segundo o IBGE, 53% dos brasileiros se consideram pretos ou pardos).

Por que, então, o Brasil não tem museus ou monumentos sobre a escravidão comparáveis ao novo museu afroamericano de Washington?

Apartheid e pilhagem da África

Para Alencastro, é preciso considerar as diferenças nas formas como Brasil e EUA lidaram com a escravidão e seus desdobramentos.

Ele diz que, nos EUA, houve uma maior exploração de negros nascidos no país, o que acabaria resultando numa “forma radical de racismo legal, de apartheid”.

Crianças brincam no Museu de História e Cultura Afroamericana

Museu virou um dos mais concorridos da capital americana e está com os ingressos esgotados até março. BBC BRASIL / JOÃO FELLET

Até a década de 1960, em partes do EUA, vigoravam leis que segregavam negros e brancos em espaços públicos, ônibus, banheiros e restaurantes. Até 1967, casamentos inter-raciais eram ilegais em alguns Estados americanos.

No Brasil, Alencastro diz que a escravidão “se concentrou muito mais na exploração dos africanos e na pilhagem da África”, embora os brasileiros evitem assumir responsabilidade por esses processos.

Ele afirma que muitos no país culpam os portugueses pela escravidão, mas que brasileiros tiveram um papel central na expansão do tráfico de escravos no Atlântico.

Alencastro conta que o reino do Congo, no oeste da África, foi derrubado em 1665 em batalha ordenada pelo governo da então capitania da Paraíba.

“O pelotão de frente das tropas era formado por mulatos pernambucanos que foram barbarizar na África e derrubar um reino independente”, ele diz.

Vizinha ao Congo, Angola também foi invadida por milicianos do Brasil e passou vários anos sob o domínio de brasileiros, que a tornaram o principal ponto de partida de escravos destinados ao país.

“Essas histórias são muito ocultadas e não aparecem no Brasil”, ele afirma.

Reparações históricas

Para a brasileira Ana Lucia Araújo, professora da Howard University, em Washington, “o Brasil ainda está muito atrás dos EUA” na forma como trata a história da escravidão.

“Aqui (nos EUA) se reconhece que o dinheiro feito nas costas dos escravos ajudou a construir o país, enquanto, no Brasil, há uma negação disso”, ela diz.

Autora de vários estudos sobre a escravidão nas Américas, Araújo afirma que até a ditadura (1964-1985) era forte no Brasil a “ideologia da democracia racial”, segundo a qual brancos e negros conviviam harmonicamente no país.

São recentes no Brasil políticas para atenuar os efeitos da escravidão, como cotas para negros em universidades públicas e a demarcação de territórios quilombolas.

Ferragens usadas em navios negreiros

Expor peças de um navio negreiro era uma obsessão do diretor do museu. DIVULGAÇÃO/SMITHSONIAN

Ela diz que ainda poucos museus no Brasil abordam a escravidão, “e, quando o fazem, se referem à população afrobrasileira de maneira negativa, inferiorizante”.

Segundo a professora, um dos poucos espaços a celebrar a cultura e a história afrobrasileira é o Museu Afro Brasil, em São Paulo, mas a instituição deve sua existência principalmente à iniciativa pessoal de seu fundador, o artista plástico Emanoel Araújo.

E só nos últimos anos o Rio de Janeiro passou a discutir o que fazer com o Cais do Valongo, maior porto receptor de escravos do mundo. Mantido por voluntários por vários anos, o local se tornou neste ano candidato ao posto de Patrimônio da Humanidade na Unesco.

Para a professora, museus e monumentos sobre a escravidão “não melhoram as vidas das pessoas, mas promovem um tipo de reparação simbólica ao fazer com que a história dessas populações seja reconhecida no espaço público”.

Visibilidade e representação

Para o jornalista e pesquisador moçambicano Rogério Ba-Senga, a escravidão e outros pontos da história entre Brasil a África têm pouca visibilidade no país, porque “no Brasil os brancos ainda têm o monopólio da representação social dos negros”.

“Há muitos negros pensando e pesquisando a cultura negra no Brasil, mas o centro decisório ainda é branco”, diz Ba-Senga, que mora em São Paulo desde 2003.

Para ele, o cenário mudará quando negros forem mais numerosos na mídia brasileira – “para que ponham esses assuntos em pauta” – e nos órgãos públicos.

Para Alencastro, mesmo que o Estado brasileiro evite tratar da escravidão, o tema virá à tona por iniciativa de outros grupos.

“Nações africanas que foram pilhadas se tornaram independentes. Há nesses países pessoas estudando o tema e uma imigração potencialmente crescente de africanos para o Brasil”, ele diz.

Em outra frente, o professor afirma que movimentos brasileiros em periferias e grupos quilombolas pressionam para que os assuntos ganhem espaço.

“Há hoje uma desconexão entre a academia e o debate no movimento popular, mas logo, logo tudo vai se juntar, até porque a maioria da população brasileira é afrodescentente. Os negros são maioria aqui.”

Catálogo traz à tona História Indígena e Escravidão Negra no Brasil (Nossa Ciência)

PESQUISA Segunda, 31 de Outubro de 2016

Mônica Costa

Crédito: Acervo pessoal

Pesquisa investigou documentos referentes ao Brasil, no período colonial, que constam do Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa/Portugal

“Temos uma imensa documentação fantástica vinculada ao Quilombo dos Palmares, ao tráfico negreiro. Em relação à questão indígena, temos inúmeros povos e grupos étnicos que souberam negociar com a Coroa Portuguesa, lideranças indígenas que souberam lutar em favor do seu próprio povo.” A afirmação é da professora Juciene Ricarte, da Universidade Federal e Campina Grande (UFCG) sobre o conteúdo dos Catálogos Gerais dos Manuscritos Avulsos e em Códices referentes à História Indígena e à Escravidão Negra no Brasil Existentes no Arquivo Histórico Ultramarino, recentemente lançados em Campina Grande (PB)

Durante quatro anos, o projeto analisou 136.506 mil verbetes/documentos entre os anos de 1581 e 1843 que constam do Arquivo Histórico Ultramarino (AHU), de Lisboa, em Portugal. Foram analisadas cartas relatórios, requerimentos, cartas régias, alvarás, provisões, consultas, relatos de viagens, entre outros documentos geridos pela burocracia administrativa portuguesa e que lidavam com as questões indígenas e da escravidão no Brasil Colonial. Segundo a coordenadora do projeto, os documentos falam do cotidiano da Colônia. “Tem situações e narrativas de luta em mocambos, mocambos com indígenas e negros, levantes em aldeamentos, da vida desses protagonistas”, explica.

Guerra dos Bárbaros

Ao final, o projeto catalogou 6.009 verbetes, sendo 3.052 sobre a História Indígena e 2.957 referentes à escravidão negra em todas as regiões do País. Professora do Programa de Pós-Graduação em História, Juciene garante que muitas monografias, dissertações, teses e livros poderão surgir a partir dessas duas coleções, que contêm ainda todos os documentos digitalizados. “Pesquisadores, antropólogos, historiadores, memorialistas poderão usar esses documentos porque tem mais do que os livros-catálogos com o resumo. Por exemplo, se a pessoa quiser pesquisar sobre os Potiguaras com os Janduis, na Guerra dos Bárbaros, procura no DVD e com o número do verbete, ela vai encontrar a imagem digitalizada do manuscrito. Então, ela pode imprimir, arquivar no próprio computador, ampliar, reduzir e ainda tem acessibilidade para cegos.”

Além da produção dos livros-catálogos, o projeto realizou a gravação dos verbetes em áudio para promover a acessibilidade aos deficientes visuais “Esse formato é extremamente necessário e importante para o que objetivamos de acessibilidade no tocante às fontes históricas. Nenhum outro sistema de informação no trato com documentação de questões étnicas foi produzido com a possibilidade não só da leitura de verbetes, mas da escuta dos resumos”, ressaltou.

Povos exterminados

Tendo concluído o Pós-Doutorado na Universidade Nova de Lisboa, em 2015, Juciene afirma que os pesquisadores encontraram histórias e memórias sobre o cotidiano de diversos grupos indígenas que nem existem mais. São lutas e resistências de muitos que deram a própria vida, etnocídios, povos que foram exterminados lutando por seus territórios tradicionais, outros se adaptando à nova realidade colonial para também sobreviver.

Ela explica que é no período colonial que ocorrem as primeiras relações interétnicas entre indígenas e não-indígenas, entre negros e não-negros, entre senhores e escravos e entre missionários e indígenas. São as primeiras relações do que iria constituir o povo brasileiro. A etnohistoriadora argumenta que a documentação recolhida mostra homens e mulheres que são sujeitos do seu tempo e que tanto indígenas, quanto os homens e mulheres negros conseguiram construir relações e sociabilidade num mundo que, muitas vezes, era de dominação. “Quando se constituiu os aldeamentos indígenas sob a tutela de missionários, da Igreja e depois, com a Lei do Marquês de Pombal, quando expulsaram os jesuítas, esses indígenas sabiam muito bem construir novos espaços nesse mundo colonial, mesmo deixando de falar a própria língua, porque eram obrigados, continuavam sendo indígenas, resistiam, lutavam e ao mesmo tempo, tentavam sobreviver naquela realidade que lhe era imposta. Assim também os homens e mulheres negros. A ideia de escravidão negra é que fossem submetidos. Absolutamente! Eles construíam negociações ou atos de violências numa tentativa de sobreviver num mundo de escravidão”, narra.

Nordeste

Relacionado ao que hoje compreende o nordeste, a coordenadora do projeto esclarece que foi catalogada importante documentação sobre grupos étnicos que já não existem mais no Rio Grande do Norte ou na Paraíba. São os indígenas do sertão, da chamada Guerra dos Bárbaros, além de outros grupos étnicos que viviam ao longo do Rio São Francisco, muitos mocambos e quilombos. Esses documentos podem inclusive ser usados em laudos antropológicos para identificação de territórios tradicionais tanto indígenas, quanto negros.

Justificando a importância do trabalho, a professora afirma que ele não fala apenas do passado, porque negros e indígenas continuam existindo hoje, lutando por inclusão étnico-racial. “Nos próprios livros didáticos de História, é como se a História Indígena e a História do Negro no Brasil não fosse importante e com um instrumento de pesquisa como esse, a gente muda a historiografia nacional, contribui para que esses protagonistas, reais sujeitos históricos do Brasil, tenham vez na escrita da História”, ressalta.

Os produtos culturais – compostos por livros-catálogos e DVD´s – foram realizados por uma equipe de 43 pesquisadores da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) em parceria com a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB), através do Edital Cultural da Petrobrás/2010. Os recursos foram de R$ 500 mil. A tiragem de cada Catálogo é de dois mil exemplares, a serem distribuídos para todas as universidades brasileiras, arquivos históricos, Movimento Negro e Movimento Indígena. A distribuição será gratuita e exclusivamente para instituições.

‘Na África, indaguei rei da minha etnia por que nos venderam como escravos’ (BBC Brasil)

14 janeiro 2016

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Image captionA convite de produtora, arquiteto fez exame genético e foi até Camarões para conhecer seus ancestrais

“Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem”, queixa-se o arquiteto baiano Zulu Araújo, de 63 anos, em referência à população negra descendente dos 4,8 milhões de africanos escravizados recebidos pelo país entre os séculos 16 e 19.

Araújo foi um dos 150 brasileiros convidados pela produtora Cine Group para fazer um exame de DNA e identificar suas origens africanas.

Ele descobriu ser descendente do povo tikar, de Camarões, e, como parte da série televisiva Brasil: DNA África, visitou o local para conhecer a terra de seus antepassados.

“A viagem me completou enquanto cidadão”, diz Araújo. Leia, abaixo, seu depoimento à BBC Brasil:

“Sempre tive a consciência de que um dos maiores crimes contra a população negra não foi nem a tortura, nem a violência: foi retirar a possibilidade de que conhecêssemos nossas origens. Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem.

Meu sobrenome, Mendes de Araújo, é português. Carrego o nome da família que escravizou meus ancestrais, pois o ‘de’ indica posse. Também carrego o nome de um povo africano, Zulu.

 

Momento em que o Zulu confronta o rei tikar sobre a venda de seus antepassados

Ganhei o apelido porque meus amigos me acharam parecido com um rei zulu retratado num documentário. Virou meu nome.

Nasci no Solar do Unhão, uma colônia de pescadores no centro de Salvador, local de desembarque e leilão de escravos até o final do século 19. Comecei a trabalhar clandestinamente aos 9 anos numa gráfica da Igreja Católica. Trabalhava de forma profana para produzir livros sagrados.

Bom aluno, consegui passar no vestibular para arquitetura. Éramos dois negros numa turma de 600 estudantes – isso numa cidade onde 85% da população tem origem africana. Salvador é uma das cidades mais racistas que eu conheço no mundo.

Ao participar do projeto Brasil: DNA África e descobrir que era do grupo étnico tikar, fiquei surpreso. Na Bahia, todos nós especulamos que temos ou origem angolana ou iorubá. Eu imaginava que era iorubano. Mas os exames de DNA mostram que vieram ao Brasil muito mais etnias do que sabemos.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo”, diz Zulu sobre chegada a Camarões

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Pergunta sobre escravidão a rei camaronense foi tratada como “assunto delicado” e foi respondida apenas no dia seguinte

Quando cheguei ao centro do reino tikar, a eletricidade tinha caído, e o pessoal usava candeeiros e faróis dos carros para a iluminação. Mais de 2 mil pessoas me aguardavam. O que senti naquele momento não dá para descrever, de tão chocante e singular.

As pessoas gritavam. Eu não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia tudo. Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo.

O povão me encarava como uma novidade: eu era o primeiro brasileiro de origem tikar a pisar ali. Mas também fiquei chocado com a pobreza. As pessoas me faziam inúmeros pedidos nas ruas, de camisetas de futebol a ajuda para gravar um disco. Não por acaso, ali perto o grupo fundamentalista Boko Haram (originário da vizinha Nigéria) tem uma de suas bases e conta com grande apoio popular.

De manhã, fui me encontrar com o rei, um homem alto e forte de 56 anos, casado com 20 mulheres e pai de mais de 40 filhos. Ele se vestia como um muçulmano do deserto, com uma túnica com estamparias e tecidos belíssimos.

Depois do café da manhã, tive uma audiência com ele numa das salas do palácio. Ele estava emocionado e curioso, pois sabia que muitos do povo Tikar haviam ido para as Américas, mas não para o Brasil.

Fiz uma pergunta que me angustiava: perguntei por que eles tinham permitido ou participado da venda dos meus ancestrais para o Brasil. O tradutor conferiu duas vezes se eu queria mesmo fazer aquela pergunta e disse que o assunto era muito sensível. Eu insisti.

Ficou um silêncio total na sala. Então o rei cochichou no ouvido de um conselheiro, que me disse que ele pedia desculpas, mas que o assunto era muito delicado e só poderia me responder no dia seguinte. O tema da escravidão é um tabu no continente africano, porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente.

No dia seguinte, o rei finalmente me respondeu. Ele pediu desculpas e disse que foi melhor terem nos vendido, caso contrário todos teríamos sido mortos. E disse que, por termos sobrevivido, nós, da diáspora, agora poderíamos ajudá-los. Disse ainda que me adotaria como seu primeiro filho, o que me daria o direito a regalias e o acesso a bens materiais.

Foi uma resposta política, mas acho que foi sincera. Sei que eles não imaginavam que a escravidão ganharia a dimensão que ganhou, nem que a Europa a transformaria no maior negócio de todos os tempos. Houve um momento em que os africanos perderam o controle.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.”

Um intelectual senegalês me disse que, enquanto não superarmos a escravidão, não teremos paz – nem os escravizados, nem os escravizadores. É a pura verdade. Não dá para tratar uma questão de 500 anos com um sentimento de ódio ou vingança.

A viagem me completou enquanto cidadão. Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.

Acho que os exames de DNA deveriam ser reconhecidos pelo governo, pelas instituições acadêmicas brasileiras como um caminho para que possamos refazer e recontar a história dos 52% dos brasileiros que têm raízes africanas. Só conhecendo nossas origens poderemos entender quem somos de verdade.”

Global wildlife decline driving slave labor, organized crime (Science Daily)

Date: July 24, 2014

Source: University of California – Berkeley

Summary: Global decline of wildlife populations is driving increases in violent conflicts, organized crime and child labor around the world, according to a experts. Researchers call for biologists to join forces with experts such as economists, political scientists, criminologists, public health officials and international development specialists to collectively tackle a complex challenge.


Global decline of wildlife populations is driving increases in violent conflicts, organized crime and child labor around the world, according to a policy paper led by researchers at the University of California, Berkeley. The authors call for biologists to join forces with experts such as economists, political scientists, criminologists, public health officials and international development specialists to collectively tackle a complex challenge.

The paper, to be published Thursday, July 24, in the journal Science, highlights how losses of food and employment from wildlife decline cause increases in human trafficking and other crime, as well as foster political instability.

“This paper is about recognizing wildlife decline as a source of social conflict rather than a symptom,” said lead author Justin Brashares, associate professor of ecology and conservation at UC Berkeley’s Department of Environmental Science, Policy and Management. “Billions of people rely directly and indirectly on wild sources of meat for income and sustenance, and this resource is declining. It’s not surprising that the loss of this critical piece of human livelihoods has huge social consequences. Yet, both conservation and political science have generally overlooked these fundamental connections.”

Fishing and the rise of piracy

Fewer animals to hunt and less fish to catch demand increasingly greater effort to harvest. Laborers — many of whom are children — are often sold to fishing boats and forced to work 18-20 hour days at sea for years without pay.

“Impoverished families are relying upon these resources for their livelihoods, so we can’t apply economic models that prescribe increases in prices or reduced demand as supplies become scarce,” said Brashares. “Instead, as more labor is needed to capture scarce wild animals and fish, hunters and fishers use children as a source of cheap labor. Hundreds of thousands of impoverished families are selling their kids to work in harsh conditions.”

The authors connected the rise of piracy and maritime violence in Somalia to battles over fishing rights. What began as an effort to repel foreign vessels illegally trawling through Somali waters escalated into hijacking fishing — and then non-fishing — vessels for ransom.

“Surprisingly few people recognize that competition for fish stocks led to the birth of Somali piracy,” said Brashares. “For Somali fishermen, and for hundreds of millions of others, fish and wildlife were their only source of livelihood, so when that was threatened by international fishing fleets, drastic measures were taken.”

The authors also compared wildlife poaching to the drug trade, noting that huge profits from trafficking luxury wildlife goods, such as elephant tusks and rhino horns, have attracted guerilla groups and crime syndicates worldwide. They pointed to the Lord’s Resistance Army, al-Shabab and Boko Haram as groups known to use wildlife poaching to fund terrorist attacks.

Holistic solutions required

“This paper begins to touch the tip of the iceberg about issues on wildlife decline, and in doing so the authors offer a provocative and completely necessary perspective about the holistic nature of the causes and consequences of wildlife declines,” said Meredith Gore, a Michigan State University associate professor in the nascent field of conservation criminology who was not part of the study.

As potential models for this integrated approach, the authors point to organizations and initiatives in the field of climate change, such as the Intergovernmental Panel on Climate Change, and the United for Wildlife Collaboration. But the paper notes that those global efforts must also be accompanied by multi-pronged approaches that address wildlife declines at a local and regional scale.

“The most important bit from this article, I think, is that we need to better understand the factors that underlie fish and wildlife declines from a local perspective, and that interdisciplinary approaches are likely the best option for facilitating this understanding,” said Gore.

The authors give examples of local governments heading off social tension, such as the granting of exclusive rights to hunting and fishing grounds to locals in Fiji, and the control of management zones in Namibia to reduce poaching and improve the livelihoods of local populations.

“This prescribed re-visioning of why we should conserve wildlife helps make clearer what the stakes are in this game,” said UC Santa Barbara assistant professor Douglas McCauley, a co-author who began this work as a postdoctoral researcher in Brashares’ lab. “Losses of wildlife essentially pull the rug out from underneath societies that depend on these resources. We are not just losing species. We are losing children, breaking apart communities, and fostering crime. This makes wildlife conservation a more important job than it ever has been.”

Journal Reference:

  1. J. S. Brashares, B. Abrahms, K. J. Fiorella, C. D. Golden, C. E. Hojnowski, R. A. Marsh, D. J. McCauley, T. A. Nunez, K. Seto, L. Withey. Wildlife decline and social conflict. Science, 2014; 345 (6195): 376 DOI: 10.1126/science.1256734

Rio’s Race to Future Intersects Slave Past (New York Times)

By  – MARCH 8, 2014

Slave ships in the 19th century docked at the huge stone Valongo wharf, exposed by archaeologists near Rio’s port. CreditLianne Milton for The New York Times

RIO DE JANEIRO — Sailing from the Angolan coast across the Atlantic, the slave ships docked here in the 19th century at the huge stone wharf, delivering their human cargo to the “fattening houses” on Valongo Street. Foreign chroniclers described the depravity in the teeming slave market, including so-called boutiques selling emaciated and diseased African children.

The newly arrived slaves who died before they even started toiling in Brazil’s mines were hauled to a mass grave nearby, their corpses left to decay amid piles of garbage. As imperial plantations flourished, diggers at the Cemitério dos Pretos Novos — Cemetery of New Blacks — crushed the bones of the dead, making way for thousands of new cadavers.

Now, with construction crews tearing apart areas of Rio de Janeiro in the building spree ahead of this year’s World Cup and the 2016 Summer Olympics, stunning archaeological discoveries around the work sites are providing new insight into the city’s brutal distinction as a nerve center for the Atlantic slave trade.

Petrúcio Guimarães dos Anjos and his wife, Ana de la Merced Guimarães, in their home. Credit Lianne Milton for The New York Times

But as developers press ahead in the surroundings of the unearthed slave port — with futuristic projects like the Museum of Tomorrow, costing about $100 million and designed in the shape of a fish by the Spanish architect Santiago Calatrava — the frenzied overhaul is setting off a debate over whether Rio is neglecting its past in the all-consuming rush to build its future.

“We’re finding archaeological sites of global importance, and probably far more extensive than what’s been excavated so far, but instead of prioritizing these discoveries our leaders are proceeding with their grotesque remaking of Rio,” said Sonia Rabello, a prominent legal scholar and former city councilwoman.

The city has installed plaques at the ruins of the slave port and a map of an African heritage circuit, which visitors can walk to see where the slave market once functioned. Still, scholars, activists and residents of the port argue that such moves are far too timid in comparison with the multibillion-dollar development projects taking hold.

Beyond the Museum of Tomorrow, which has been disparaged by critics as a costly venture drawing attention away from Rio’s complex history, developers are working on an array of other flashy projects, like a complex of skyscrapers branded in homage to Donald Trump and a gated community of villas for Olympic judges.

At the same time, descendants of African slaves who live as squatters in crumbling buildings around the old slave port are organizing in an effort to obtain titles for their homes, pitting them against a Franciscan order of the Roman Catholic Church that claims ownership of the properties.

“We know our rights,” said Luiz Torres, 50, a history teacher and leader in the property rights movement. With the slave market’s ruins near his home as testament, he added, “Everything that happened in Rio was shaped by the hand of blacks.”

Crushed human bones from a cemetery were discovered in the home of Mr. and Ms. Guimarães during a renovation. Credit Lianne Milton for The New York Times

Scholars say the scale of the slave trade here was staggering. Brazil received about 4.9 million slaves through the Atlantic trade, while mainland North America imported about 389,000 during the same period, according to the Trans-Atlantic Slave Trade Database, a project at Emory University.

Rio is believed to have imported more slaves than any other city in the Americas, outranking places like Charleston, S.C.; Kingston, Jamaica; and Salvador in northeast Brazil. Altogether, Rio received more than 1.8 million African slaves, or 21.5 percent of all slaves who landed in the Americas, said Mariana P. Candido, a historian at the University of Kansas.

Activists say the archaeological discoveries merit at least a museum and far more extensive excavations, pointing to projects elsewhere like the International Slavery Museum in the British port city Liverpool, where slave ships were prepared for voyages; the Old Slave Mart Museum in Charleston and Elmina Castle, a slave trading site on Ghana’s coast.

“The horrors committed here are a stain on our history,” said Tânia Andrade Lima, the chief archaeologist at the dig that exposed Valongo, built soon after Portugal’s prince regent, João VI, fled from Napoleon’s armies in 1808, transferring the seat of his empire to Rio from Lisbon.

The squalid wharf functioned until the 1840s, when officials buried it under more elegant docks designed to receive Brazil’s new empress from Europe. Both wharves were eventually buried under landfill and a residential port district, called Little Africa.

Many descendants of slaves settled where the slave market once functioned, with African languages spoken in the area into the 20th century. While the district is gaining recognition as a cradle of samba, one of Brazil’s most treasured musical traditions, it was long neglected by the authorities.

Artifacts from the old wharf where slave ships docked. Credit Lianne Milton for The New York Times

Black Consciousness Day is observed annually in Brazil on Nov. 20 to reflect on the injustices of slavery. In 2013 Ms. Rabello, the legal scholar, pointed out, Rio’s hard-charging mayor, Eduardo Paes, who is overseeing the biggest overhaul of the city in decades, did not attend the ceremony at Valongo, where residents began a campaign to have it recognized as a Unesco World Heritage site. Complicating the debate over how Rio’s past should be balanced alongside the city’s frenetic reconstruction, some families still live on top of the archaeological sites, occasionally excavating Brazil’s patrimony on their own.

“When I first saw the bones, I thought they were the result of a gruesome murder involving previous tenants,” said Ana de la Merced Guimarães, 56, the owner of a small pest control company who lives in an old house where workers doing a renovation first discovered remains from the mass grave in 1996.

It turned out Ms. Guimarães was living above a dumping ground for dead slaves that was used for decades, until around 1830. Estimates vary, but scholars say that as many as 20,000 people were buried in the grave, including many children.

Ms. Guimarães and her husband opted to stay in their property, opening a modest nonprofit organization on the premises, where visitors can view portions of the archaeological dig. The authorities have plans to build a light-rail project on their street, which may lead to more discoveries.

“This was a place of unspeakable crimes against humanity, but it’s also where we live,” Ms. Guimarães said in her home, complaining that public agencies had provided her organization with little support.

Washington Fajardo, a senior adviser to Rio’s mayor on urban planning issues, said that some important steps had been taken at the archaeological sites, including the designation of the slave port as an environmental protection area. And he said that a plan under consideration would create an urban archaeology laboratory where visitors could view archaeologists studying material from the sites.

A dilapidated house near where the Valongo slave market in Rio de Janeiro once functioned. Credit Lianne Milton for The New York Times

Mr. Fajardo also emphasized that at another new venture in the port, the Rio Art Museum, residents of the area make up more than half the staff.

“We’d like to do more,” he said, referring to the slave cemetery. “It’s complex because there are people living on top of the site. If they want to stay, we have to respect their wishes.”

Throughout Rio, other discoveries are being made. Near the expansion of a subway line, researchers recently found relics belonging to Pedro II, Brazil’s last emperor before he was overthrown in 1889. And near the slave port, archaeologists found cannons thought to be part of a four-century-old marine defense system.

But none of the discoveries have been quite as striking as the unearthing of the Valongo wharf in 2011 and the earlier excavations of the cemetery under Ms. Guimarães’s home. Beyond the large stones of the wharf itself, archaeologists found items that helped reconstruct the daily lives of slaves, including copper pieces thought to be talismans and dominoes used for gambling.

Between the slave port and the cemetery, visitors can also view the Ladeira do Valongo, where the depots of Rio’s slave market once horrified foreign travelers. One visitor, Robert Walsh, a British clergyman who came to Brazil in 1828, wrote about the transactions.

“They are handled by the purchaser in different parts, exactly as I have seen butchers feeling a calf,” he said. “I sometimes saw groups of well-dressed females here, shopping for slaves, exactly as I have seen English ladies amusing themselves at our bazaars.”

Slavery’s legacy is clear across Brazil, where more than half of its 200 million people define themselves as black or mixed race, giving the nation more people of African descent than any other country outside Africa. In Rio, the large majority of slaves came from what is now Angola, said Walter Hawthorne, a historian at Michigan State University.

“Rio was a culturally vibrant African city,” Dr. Hawthorne said. “The foods people ate, the way they worshiped, how they dressed and more were to a large extent influenced by Angolan cultural norms.”

Brazil abolished slavery in 1888, making it the last country in the Americas to do so. Now the relatively relaxed approach to the archaeological discoveries is raising doubts about how willing the authorities are to revisit such aspects of Brazilian history.

“Archaeologists are exposing the foundations of our unequal society while we are witnessing a perverse attempt to remake the city into something resembling Miami or Dubai,” said Cláudio Lima Castro, an architect and scholar of urban planning. “We’re losing an opportunity to focus in detail on our past, and maybe even learn from it.”