Evento Sexta do Mês (FFLCH-USP), 8/11/2017. Com: Ana Claudia Marques (USP) e Renzo Taddei (Unifesp). Mediação: Ana Fiori (PPGAS/USP).
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Universidades não têm diagnóstico da saúde mental de seus alunos de pós (Folha de S.Paulo)
FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO
As principais universidades brasileiras não sabem o que se passa com a saúde mental de seus estudantes de pós-graduação.
É o que se depreende das respostas que 19 instituições de ensino superior deram ao questionário enviado pela reportagem sobre o assunto. Foram procuradas as 20 primeiras colocadas do Ranking Universitário Folha (RUF ) além da melhor da região Norte, a UFPA. Juntas, elas abrigam mais de 70% dos alunos de mestrado e doutorado do país. Apenas PUC-Rio e UnB não responderam.
Na última segunda (18), a Folhapublicou reportagem com parte dos quase 300 depoimentos enviados ao jornal por alunos de mestrado e doutorado de todo o Brasil em que eles contam suas agruras e dificuldades durante a pós.
À pergunta “Qual é o diagnóstico da instituição sobre a saúde mental de seus alunos de pós-graduação?”, sete universidades afirmaram que não possuíam um; seis não responderam à questão e seis manifestaram algum tipo de preocupação com o assunto, sem, porém, apresentarem qualquer resposta concreta acerca do tema.
“Ainda não há a percepção, dentro da universidade, de que essas questões são ligadas ao ensino e à vida acadêmica. Em geral, considera-se que é um problema do aluno”, diz Tânia de Mello, coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Unicamp.
“Como a universidade poderá ter um diagnóstico de algo que ela nem considera um problema?”, questiona.
Para o psicólogo Robson Cruz, professor da PUC-MG e pesquisador da saúde mental de estudantes de pós, outra razão para a falta de atenção das universidades a essa questão é a dificuldade de lidar com ela, já que os problemas variam de acordo com a área.
Nas humanas, por exemplo, a relação com a escrita –como elaboração da tese e artigos– pode ser a parte mais penosa. Já nas áreas experimentais, a maior questão é a carga excessiva de trabalho dentro de um laboratório, explica Cruz.
ATENDIMENTO
Todas as instituições procuradas possuem algum tipo de assistência psicológica e psiquiátrica, seja em serviços voltados ao corpo discente ou a toda a comunidade universitária. Nenhuma, porém, possui uma assistência específica para a pós-graduação.
“Existe um certo entendimento de que o pós-graduando, por já ter passado pela graduação e em geral ter bolsa, é alguém que possui autonomia e independência, quase um pesquisador, e que, portanto, não precisaria receber muito apoio. É um engano”, diz Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientação Psicológica da USP de Ribeirão Preto.
Na visão de Cruz, diante das especificidades da pós, seria necessário um treinamento especializado de profissionais para lidar com esses estudantes.
Já Tânia de Mello acredita não ser necessária tal especialização. “Claro que ajuda quando você entende esse universo, mas uma boa rede de acolhimento deve conseguir dar conta dessas questões.”
O mais importante, diz, é haver uma boa estrutura de acolhimento no momento de crise. “Teria de ser algo acessível. A continuidade do tratamento pode até ser feita em outro lugar. É como funciona a maior parte dos serviços nos EUA e no Reino Unido”, diz Mello.
Ressaltando que se trata de uma realidade diversa da brasileira, Mello cita como exemplo a Universidade de Berkeley, nos EUA, que disponibiliza uma linha direta para que os estudantes em crise possam ligar, com divisão por língua, origem étnica e orientação sexual. “Não há nada similar por aqui.”
PREVENÇÃO
No campo da prevenção e da educação, o quadro parece ainda pior. Nove das 19 universidades ou não possuem ou não informaram a existência de ações nesse sentido. As dez restantes ou promovem iniciativas esporádicas (não vinculados a programas específicos), reduzidas, ou ainda estão implantando ações mais robustas.
Nenhuma, no entanto, implementou medidas que visem preparar o docente para para lidar com seus alunos, sobretudo orientandos, algo considerado fundamental pelos especialistas ouvidos.
“Temos de preparar os orientadores para ter uma visão mais humana da orientação”, afirma Eduardo Benedicto.
Mello lembra que “em geral, o docente não tem subsídios para lidar com a questão, pois não recebe qualquer treinamento das universidades para identificar e ajudar o aluno que enfrenta um transtorno mental.”
Cruz, por sua vez, aponta que o problema é mais embaixo e deveria ser objeto da própria formação dos docentes. “Eles simplesmente não são preparados para serem orientadores. Não há nenhuma ênfase, durante o mestrado e o doutorado, em ensino, didática, relação interpessoal, processo de orientação etc.”
Além de ações voltadas aos docentes, os especialistas sugerem a criação de “espaços de segurança” em que os alunos possam confidenciar suas angústias e fazer denúncias de assédio moral e sexual.
“Seriam espaços onde as pessoas pudessem falar com mais naturalidade sobre o tema e desmistificá-lo, ou seja, deixar claro que esse sofrimento existe, que tem a ver com a pós e que se pode falar disso”, afirma Tânia de Mello.
Universidades que enviaram respostas: Ufscar, UFRJ, UFPA, Univ. Fed. de Santa Maria, UFF, UFMG, UFC, UFBA, UFPR, Univ. Fed. de Viçosa, Unicamp, USP, Unesp, PUC-RS, Unifesp, Uerj, UFPE, UFSC, UFRGS
Orientadores de pós-graduação impõem dificuldades a alunos (Folha de S.Paulo)
ANÁLISE
Diego Padgurschi – 26.fev.2016/Folhapress
Uma das características mais marcantes da pós-graduação “stricto sensu” –mestrado e doutorado– é aquilo que podemos definir como o mito da forja.
Muitos orientadores (que mandam e desmandam na vida do aluno), pensam que quanto mais dificuldades eles impuserem, mais bem preparados –forjados– sairão os futuros mestres e doutores. E os fracos que fiquem pelo caminho.
Deixar discípulos quebrarem a cara não seria abandono, e sim lição de vida. No fim das contas eles não vão ter de se virar sozinhos?
A verdade é que muitas vezes dedicar um tempinho para os estudantes de pós fica lá no finzinho da lista de obrigações do pesquisador.
Antes ele tem que garantir sua própria biografia, publicando artigos e capítulos de livros, viajar para dar palestras, registrar suas patentes, cuidar de suas empresas…
É nesse contexto que se revela o feudal sistema de poder acadêmico. Não raro o professor delega parte de suas obrigações, como orientações e aulas, para pós-doutorandos, doutorandos e mestrandos.
Não é por acaso nem é tão raro que os elos mais fracos da cadeia acabem rompendo, como mostraram as reportagens sobre saúde mental na pós recentemente veiculadas por esta Folha.
Nesse contexto ainda há outras questões: o país tem de perseguir uma meta numérica na formação de doutores? Que tipo de doutor temos de formar? A que custo e em que prazo? Faz falta um jeito inteligente de lidar com a questão.
Já se foi o tempo em que o papel da pós-graduação era abastecer a academia com pesquisadores e docentes.
Muitos orientadores, por sua vez, se queixam de alunos despreparados, mas não têm como rejeitá-los: sem reposição na base da pirâmide, a produção fica estagnada.
Trocando em miúdos, o orientador ganha o direito de explorar por alguns anos uma força de trabalho barata (ou gratuita) em troca de atestar a formação de um novo mestre ou doutor, por mais que o título seja imerecido. Conscientemente ou não, alguns não veem aí um mau negócio.
E pode ser até mais grave. Em ciências experimentais, às vezes é adotado o “estágio probatório”, período que o futuro pós-graduando se dedica a aprender as técnicas usadas em um laboratório, a se inserir na rotina –sem receber nada por isso. Só depois é que vem a matrícula e, quem sabe, a bolsa. Desacompanhada de vários benefícios trabalhistas, vale notar.
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Human societies evolve along similar paths (University of Exeter)
Societies ranging from ancient Rome and the Inca empire to modern Britain and China have evolved along similar paths, a huge new study shows.
Despite their many differences, societies tend to become more complex in “highly predictable” ways, researchers said.
These processes of development – often happening in societies with no knowledge of each other – include the emergence of writing systems and “specialised” government workers such as soldiers, judges and bureaucrats.The international research team, including researchers from the University of Exeter, created a new database of historical and archaeological information using data on 414 societies spanning the last 10,000 years. The database is larger and more systematic than anything that has gone before it.
“Societies evolve along a bumpy path – sometimes breaking apart – but the trend is towards larger, more complex arrangements,” said corresponding author Dr Thomas Currie, of the Human Behaviour and Cultural Evolution Group at the University of Exeter’s Penryn Campus in Cornwall.
“Researchers have long debated whether social complexity can be meaningfully compared across different parts of the world. Our research suggests that, despite surface differences, there are fundamental similarities in the way societies evolve.
“Although societies in places as distant as Mississippi and China evolved independently and followed their own trajectories, the structure of social organisation is broadly shared across all continents and historical eras.”
The measures of complexity examined by the researchers were divided into nine categories. These included:
- Population size and territory
- Number of control/decision levels in administrative, religious and military hierarchies
- Information systems such as writing and record keeping
- Literature on specialised topics such as history, philosophy and fiction
- Economic development
The researchers found that these different features showed strong statistical relationships, meaning that variation in societies across space and time could be captured by a single measure of social complexity.
This measure can be thought of as “a composite measure of the various roles, institutions, and technologies that enable the coordination of large numbers of people to act in a politically unified manner”.
Dr Currie said learning lessons from human history could have practical uses.
“Understanding the ways in which societies evolve over time and in particular how humans are able to create large, cohesive groups is important when we think about state building and development,” he said.
“This study shows how the sciences and humanities, which have not always seen eye-to-eye, can actually work together effectively to uncover general rules that have shaped human history.”
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The new database of historical and archaeological information is known as “Seshat: Global History Databank” and its construction was led by researchers from the University of Exeter, the University of Connecticut, the University of Oxford, Trinity College Dublin and the Evolution Institute. More than 70 expert historians and archaeologists have helped in the data collection process.
The paper, published in Proceedings of the National Academy of Sciences, is entitled: “Quantitative historical analysis uncovers a single dimension of complexity that structures global variation in human social organisation.”
Michael Shermer: A favor da razão (Pesquisa Fapesp)
Divulgador de ciência norte-americano combate irracionalismos e fundamentalismos em voga
Escritor se dedica a divulgar explicações científicas para fenômenos supostamente extraordinários ou sobrenaturais. © LÉO RAMOS CHAVES
Colunista desde 2001 da edição norte-americana da revista Scientific American, o californiano Michael Shermer, 63 anos, dedica-se a divulgar explicações científicas que refutam a existência de fenômenos supostamente extraordinários ou sobrenaturais, como a possibilidade de ressurreição, e a combater ideias pseudocientíficas. Formado em psicologia, com doutorado em história da ciência, é autor de livros sobre ciência, moral e religião e editor da revista Skeptic. Também leciona um curso básico sobre ceticismo na Universidade Chapman, uma instituição regional de ensino superior do sul da Califórnia mantida pela denominação protestante Discípulos de Cristo. Shermer, que já foi religioso e hoje é ateu, esteve em São Paulo no início de outubro para participar de um evento sobre divulgação da ciência.
O senhor acredita que ser religioso e fazer ciência é incompatível?
Muitos cientistas profissionais são pessoas religiosas. Então, aparentemente, isso é possível. Mas é lógico proceder assim? Acho que na maioria das vezes não. Os cientistas que são religiosos adotam uma estratégia para lidar com ciência e religião: colocam esses temas em diferentes categorias mentais e não os deixam se sobrepor. A maioria das afirmações religiosas pode ser testada pela ciência. Se os religiosos dizem que a Terra tem 10 mil anos de idade e os geólogos, que ela tem 4,5 bilhões de anos, não se pode somar essas duas idades e dividir por dois para encontrar a verdade. Uma dessas afirmações está simplesmente errada. No caso, a dos religiosos. Mas, quando se trata de determinar valores morais, a espiritualidade, o sentido da vida, o que é certo e o que é errado, a maioria das pessoas acha que isso só pode ser obtido por meio da religião. Não concordo com isso. Acho que podemos usar o método científico para abordar esses temas. Devemos trabalhar e nos esforçar mais para proceder assim.
Como o método científico pode ajudar nesse tipo de questão?
Vou dar um exemplo. Podemos usar a ciência para determinar qual é o melhor sistema político para se viver. Há muitos dados sobre isso, acumulados ao longo de uns 500 anos. A democracia é melhor do que teocracias, ditaduras, monarquias e estados comunistas. Estes últimos são estados falidos. É possível medir as consequências dos sistemas políticos em termos dos níveis de sobrevivência da população e do desenvolvimento. Esse é um argumento utilitário. As sociedades em que foram implantados esses sistemas políticos são experimentos naturais que foram conduzidos pelo homem. Quando houve o desmembramento da Coreia em dois países [em 1948], o norte e o sul eram iguais. Hoje os dois países não são nem remotamente parecidos. Cada um tem um sistema político, legal e econômico diferente. Por que a antiga Alemanha Ocidental era mais desenvolvida do que a Oriental? Essas perguntas podem e devem ser respondidas por cientistas políticos e econômicos. Isso é ciência.
O senhor acha que a ciência social deve ser encarada da mesma forma que as chamadas ciências duras? Não é mais difícil fazer previsões no campo da ciência social do que em química ou na matemática?
Sim. Mas, na verdade, acho que as ciências duras, no sentido de que são mais difíceis de fazer, são as sociais. Nelas, há muito mais variáveis envolvidas. Átomos, moléculas, gases, rochas, planetas e estrelas, todos esses objetos de estudo apresentam um número limitado de variáveis. São sistemas mais previsíveis. Como disse, o comportamento dos seres humanos, da economia, envolve muito mais variáveis. Mas essa ciência pode ser feita. Aliás, tem sido feita há séculos. Adam Smith [1723-1790] fez isso no seu livro Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações. Ele é o Newton [1643-1727] da economia. Mas essa minha posição é minoritária entre os cientistas. Eles não sabem nada das “ciências moles”.
Por que as pessoas acreditam em poderes sobrenaturais e explicações religiosas para fenômenos naturais?
O cérebro humano está biologicamente preparado para acreditar nessas coisas. As pessoas podem encontrar padrões em certos eventos e tentam estabelecer causas e conexões entre eles. As pessoas acham que esses padrões não são aleatórios, inanimados. Os eventos ocorreriam por uma razão. Elas acreditam que há uma entidade por trás deles, um espírito, uma força, alguém manipulando as cordinhas. Daí é um passo para chamar essa força de Deus, espírito, fantasma, alienígena, anjo ou demônio. O mundo sempre viveu assim até o momento em que a ciência desbancou essas ideias. Não é que as pessoas sejam ignorantes ou pouco instruídas. Apenas é mais fácil seguir esse caminho. As teorias sobre conspirações modernas também se alimentam dessa lógica.
Por que o criacionismo é tão forte nos Estados Unidos?
Vejo duas razões. Somos, de longe, a nação mais religiosa entre as industrializadas do Ocidente. Nenhum país da Europa chega nem mesmo perto. E não se trata de qualquer tipo de religião. Os Estados Unidos são protestantes, batistas. A maioria dos católicos, até o papa, fez as pazes com Darwin [1809-1882] e a teoria da evolução. Para eles, a evolução foi a forma que Deus encontrou para criar as espécies. Newton também achava que a gravidade era o jeito de Deus criar planetas. Já os protestantes, sobretudo os fundamentalistas, precisam crer que a Bíblia está certa. Eles fazem uma leitura literal, não de forma metafórica, da Bíblia. Se a Bíblia fala em dias, entendem que se trata literalmente de dias – não de uma figura de linguagem que se refere a uma noção de tempo. Outra razão diz respeito a uma tensão entre religião e política na arena pública, a despeito da existência da divisão entre Igreja e Estado. Não há, por exemplo, um conselho geral que dite o currículo para todas as escolas públicas do país. Cada estado, cada condado, às vezes cada distrito, tem os seus próprios conselhos. Às vezes, há uma maioria de religiosos fundamentalistas nesses conselhos e eles decidem ensinar criacionismo ao lado da teoria da evolução, ou até no lugar dela.
Estudantes de mestrado e doutorado relatam suas dores na pós-graduação (Folha de S.Paulo)
Após a publicação da reportagem ‘Suicídio levanta questões sobre saúde mental na pós’, no final de outubro, a Folha recebeu 272 depoimentos de alunos de pós-graduação de todo o país, dos quais uma parcela está reproduzida abaixo. Eles permitem traçar um retrato das principais agruras e dificuldades enfrentadas por estudantes de mestrado e doutorado no Brasil –e das consequências em sua saúde mental.
Vistos em conjunto, os relatos chamam a atenção, em primeiro lugar, pelo fato de terem sido escritos por estudantes dos mais diversos cursos, instituições e regiões do país.
A maioria dos depoimentos, como seria de esperar, provém de discentes de grandes universidades públicas, como USP, Unicamp, Unesp, e as federais do Rio e de Minas Gerais, que concentram a maior parte dos estudantes de pós-graduação.
Não são poucos, porém, aqueles redigidos por alunos de instituições de menor porte, como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ou particulares, como a PUC-PR e a Universidade Metodista de SP.
Os relatos vieram ainda das cinco regiões do país e de estudantes de toda a sorte de áreas e carreiras: de letras a matemática, de biologia a engenharia.
O ORIENTADOR
Na intersecção da maioria das dificuldades descritas pelos estudantes –pressão exagerada, carga de trabalho frequentemente excessiva, solidão, assédio moral, entre outras– encontra-se a figura do orientador, o professor responsável por ajudá-los a realizar a tese e prepará-los para a pesquisa acadêmica.
Ele não apenas possui um papel central na formação intelectual do estudante como, pela maneira como a pós-graduação é organizada no país, detém poder considerável sobre a sua rotina.
Assim, a maneira como se desenvolve o relacionamento entre mestre e discípulo acaba sendo determinante para o sucesso ou o fracasso deste durante o mestrado ou o doutorado. Não raro, como atestam os relatos, orientadores se mostram despreparados para lidar com os alunos e exercer o papel esperado na formação deles.
Parte desse problema talvez advenha da falta de regras claras acerca do que separa cobranças normais de exigências descabidas.
Diante disso, e dada a importância dessa relação, uma das providências possíveis de serem tomadas por universidades e institutos de pesquisa que abrigam alunos de pós é preparar seus docentes para lidar com os orientandos. Também poderia ser estabelecido alguma espécie de código de conduta que esclarecesse aos orientadores o limite a partir do qual suas atitudes se tornam humilhações, maus-tratos e abusos.
AMBIENTE
Outro fator que colabora para esse quadro, embora seja costumeiramente negligenciado, é o ambiente estressante onde habitam os professores universitários. Em alguma medida, essa carga acaba se transferindo para os alunos.
Docentes, em seu dia a dia, precisam lidar com prazos apertados, obter financiamentos para seus projetos de pesquisa, dar aulas, orientar alunos, corrigir provas e teses, preparar relatórios para agências de fomento, além de sofrerem pressão para produzir artigos de alto impacto.
Além das pressões e dificuldades próprias da pós-graduação, os estudantes precisam ainda lidar com a estigmatização dos transtornos mentais dentro do ambiente acadêmico, onde ansiedade, depressão e pânico são frequentemente associados à fraqueza, incapacidade e despreparo.
Tal estigmatização -que não difere da maneira como tais enfermidades são vistas na sociedade- debilita ainda mais o aluno que já passa por dificuldades, e pode, ao ser introjetada, desestimulá-lo a buscar a ajuda necessária nos serviços de saúde.
Também nessa linha educativa, ações simples, como campanhas ou grupos de discussão, podem compor uma estratégia no combate ao preconceito que ronda a questão.
VALOR DAS BOLSAS
Diversos estudantes contam, em seus depoimentos, a situação de precariedade econômica em que vivem devido ao valor das bolsas de estudo pagas pelo governo federal. De fato, R$ 1.500 (para o mestrado) e R$ 2.200 (para o doutorado) –montantes que não são reajustados desde 2013– não constituem valores atrativos nem suficientes para exercer uma função altamente especializada e que, em grande parte dos casos, demanda dedicação exclusiva.
De outro lado, a Capes, ligada ao MEC e maior financiadora do país, paga 90 mil bolsas a mestrandos e doutorandos. Se numa época de grave restrição econômica já é difícil manter esse número estável, é pouco provável que esse valor aumente de maneira significativa.
Nesse cenário surge uma discussão sobre qual seria o modelo de financiamento mais adequado para esse sistema, debate que vem acompanhado da discussão de que tipo de pós-graduação o país deseja ter. É melhor investir em mais bolsas, ainda que pagando somas menores, ou deve-se buscar um valor maior para elas, quiçá competitivo com o que é pago pela iniciativa privada, mas numa quantidade reduzida?
Essas são apenas algumas das questões trazidas à luz pelos depoimentos enviados por pós-graduandos.
Não se deve, por certo, generalizar para todos os alunos de mestrado e doutorado os dramas expostos nesses relatos; tampouco se deve menosprezá-los, como se refletissem apenas situações isoladas ou queixas de alunos problemáticos.
Tais problemas resultam da maneira como o sistema de pós-graduação é organizado no país e, portanto, precisam ser enfrentados por todos os atores que o constituem.
Afinal, o aluno que tem a sua saúde mental afetada, embora seja o mais prejudicado, também gera custos para toda a cadeia: o grupo de pesquisa ao qual pertence, o programa de pós ao qual está vinculado, a universidade em que estuda e a agência de fomento que financia a sua bolsa.
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DEPOIMENTOS ENVIADOS À FOLHA
A sensação de ser uma impostora é diária em um meio onde há pressão o tempo todo, de todas as formas possíveis. No mês que antecedeu minha defesa [conclusão do curso], chorei todos os dias. Esquecia de comer, me sentia culpada ao sair com os amigos no fim de semana, pois deveria estar terminando minha dissertação, mesmo que estivesse esgotada.
Além disso, minha orientadora sumia por meses. Faltando algumas semanas, para a defesa, ela viajou para o exterior. Escrevi tudo sozinha, sem direcionamento, até a sua volta, quando precisei virar noites para terminar a tempo.Acordei diversas vezes sem querer acordar. Levantar da cama e encarar o dia era um desafio que eu não conseguia enfrentar sem derramar lágrimas.
Fiz terapia durante quase todo o processo, mas precisei parar no final, pois a minha bolsa terminou; o programa de pós nunca ofereceu auxílio psicológico.
Neurociências, Universidade Federal de Minas Gerais
O mestrado significou longos meses de tortura e sofrimento. Minha orientadora me tratava com pouco caso, atribuindo o fracasso a mim mesmo quando não tinha a ver comigo.
Ela era sempre impositiva, me mantinha sempre sob sujeição e nunca me deu sequer um elogio; só fui elogiado no dia da defesa. Como morava numa república, longe de casa e não tinha com quem conversar, foram várias as situações que, mesmo sabendo que não cometeria suicídio, pensava “até que não seria má ideia”. Foram os dois anos mais trágicos da minha vida.
Ciências Sociais, Universidade Federal de Juiz de Fora
No meu mestrado, tive síndrome do pânico e achei que não ia conseguir terminar.
Com apoio psicológico da universidade consegui concluir, apesar do péssimo relacionamento com minha orientadora, que me cobrava muito e não entendia que estava doente.
Cinco anos depois da defesa a minha tese continua jogada na estante e não consigo sequer olhar para ela. Entrei no doutorado, mas acabei desistindo. Hoje estou bem com essa escolha, pois o meio acadêmico não é para pessoas sensíveis.
Linguística, Unicamp
Nunca consegui terminar o doutorado. Estava prestes a qualificar [exame crucial que precede a defesa da tese] quando o meu orientador simplesmente me agarrou no laboratório.
Denunciei o assédio, mas nunca deu em nada. Eu fui a quinta aluna atacada por ele. Nunca houve punição por parte do programa de pós ou da universidade.
Tive que trocar de orientador, e então, para me atrapalhar, ele me excluiu do sistema antes que eu pudesse concluir a transferência. Tive que recomeçar tudo do zero: disciplinas, projeto, experimentos. Eu não me conformava de ter sido a vítima e também a pessoa que estava sendo punida.
Todo mundo sabia da história, mas ninguém fez nada. Ele andava solto falando que eu era “a menininha não sabia ser cantada sem ficar bravinha”. Tentei por mais um ano, até que perdeu o sentido. Eu não aguentava mais.
Microbiologia, USP
No doutorado, minha pesquisa parecia travada. Nada dava certo, faltava orientação adequada. Eu estava tentando produzir algo muito novo e meu orientador não conseguia ajudar. Tive que desenvolver uma nova metodologia, o que deu muito trabalho.
Gastei quase três anos do meu doutorado nessa etapa, algo que não era para ser nem 25% da minha tese.
Estava, obviamente, muito atrasado. Em vez de receber algum mérito pelo desenvolvimento do método praticamente sem ajuda de colaboradores, fui muito criticado por estar atrasado e acabei sendo reprovado na minha qualificação.
Existe uma segunda chance de se qualificar, mas uma nova reprovação te desliga da pós. Nesse ponto comecei a dar sinais de depressão. Não conseguia dormir porque ficava pensando muito nisso. Passava noites em claro.
Comecei a ter fortes crises de ansiedade. Meu peito doía sem parar, meu coração acelerava loucamente. Fui parar no hospital universitário duas vezes achando que estava tendo um infarto.
Fizeram exames, mas nada foi constatado. O médico perguntou todo o meu histórico. No fim, só restou um diagnóstico: crise de ansiedade. O tratamento parece ser simples: parar de se preocupar. Só parece, porque obviamente não é.
Biologia, USP
Logo que entrei senti que seria mais complicado do que imaginei. Meu orientador não orientava, ele desorientava todos os seus alunos. Para completar, o (des)orientador passou em um concurso em outra universidade e foi embora.
Aí ele me abandonou de vez. Quando vinha ao laboratório, os orientandos que estavam mais próximos de defender ou de qualificar tinham prioridade e nunca sobrava tempo pra me atender. Meus e-mails raramente eram respondidos. Pedi para ter uma co-orientadora e fui informada de que “não havia necessidade”. Entrei no mestrado com 64 quilos, saí com 84. Ganhei 20 quilos em dois anos.
Descontava minha ansiedade, minhas frustrações, minha raiva e minha tristeza na comida. Quando comia, tinha o meu único momento de prazer.
Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Minas Gerais
Meu orientador cobrava presença diária nas atividades do laboratório, mas nunca me orientou. Fiz tudo sozinha. Além do professor não orientar, o ambiente era extremamente hostil.
Minha defesa de projeto, no meio do curso, foi traumática. Meus familiares não aguentaram assistir a tanta humilhação. Eu mesma não aguentei e chorei o tempo todo.
Na minha defesa final não foi diferente: humilhação em cima de humilhação. Para não me despedaçar eu foquei no diploma do mestrado que eu estava prestes a receber.
Agronomia, Universidade Federal de Lavras
Tive uma orientadora autoritária, “workaholic”, estressada e que gostava de humilhar seus alunos. Abandonei o projeto, para o qual tinha bolsa de estudos, e fui em busca de um orientador mais justo.
Tecnologia em Processos Químicos e Bioquímicos, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Eu deveria seguir uma carga horária de quatro a seis horas diárias, de acordo com o regulamento da bolsa. Mas não há fiscalização e ninguém sabe o que se passa dentro de um laboratório.
Quem manda é o orientador, que não se apossa apenas do seu trabalho, mas também da sua vida pessoal a depender de seu temperamento.
Tem dias que passo 12h na universidade, mais precisamente num laboratório que não deve ter mais que cinco metros quadrados.
E não é porque tenho muito trabalho a fazer, mas por capricho do chefe. Não me permitiram sequer arrumar um emprego à noite para somar a uma ultrapassada bolsa de R$ 1.500.
Quanto ao meu projeto, meu orientador faz questão de me lembrar com esses termos: “Você está fodida”.
Doenças Tropicais, Universidade Federal do Pará
É triste quando o que você ama se volta contra você. Finalizei o mestrado há dois anos e não consigo abrir a minha dissertação.
Minha ex-orientadora se tornou um pesadelo, ainda ando nas ruas conferindo todas as placas dos carros do mesmo modelo que ela tinha.
Ela sempre trabalhou com o esquema de hierarquia, em que ela, que estava no topo, podia fazer tudo, e nós deveríamos aceitar calados.
Com relação à dissertação, lembro que ela me cobrou com três meses de antecedência, e eu perguntava a ela sobre as correções até que um dia ela me disse que a única pessoa que havia olhado a minha dissertação foi a filha dela de dois anos e me mostrou vários desenhos que a criança havia feito.
Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa
Ao entrar no mestrado sofri com as cobranças exageradas; fiquei doente, precisei de ajuda de psicólogo e neurologista, tive crises de ansiedade, não conseguia dormir. Pensava em suicídio, sim.
No doutorado tentamos retirar a medicação, pois parecia que havia me adaptando à rotina. Não deu certo. Em um mês, a ansiedade e a insônia tinham voltado.
É como se você tivesse que ser mil e uma utilidades, os orientadores exigem que o pós-graduando realize, além da sua pesquisa, outras demandas do laboratório, dê aulas em seu lugar… a jornada chega a doze horas diárias. Além disso, temos de produzir artigos e escrever inúmeros relatórios para as agências de fomento.
Biologia, Unesp
Dentro do laboratório nem sempre as coisas funcionam bem. Às vezes o experimento dá certo, e mil outras vezes, não. Era duro escutar que talvez eu não tivesse capacidade suficiente para fazer o básico, quando muitas vezes o erro era do acaso…
Sim, as coisas podem dar errado, mas dentro da ciência o erro era sempre meu, e também dos meus colegas, mas nunca dos orientadores.
O aluno de pós não é um trabalhador: não há salário, há bolsa; não há férias; não há função específica; é uma espécie de escravidão.
Que pós-graduando nunca entrou no laboratório às 7h e saiu às 23h? Qual nunca ficou até o dia 24/12 no laboratório? Qual nunca teve que repetir o mesmo experimento 200 vezes só para mostrar ao orientador que a hipótese dele estava errada?
Tudo isso machuca muito. Quantos professores não abrem a boca só para ferir o aluno? Poucos são aqueles que protegem e ensinam.
Fisiologia Humana, USP
O medo e a vergonha de ser rotulado de fraco, de louco, de exagerado são maiores do que a vontade de gritar. Como ser indiferente a jornadas cansativas, professores semideuses, orientadores abusivos?
Nunca me senti tratado como gente enquanto estive na pós, pois colocar família, saúde ou lazer, mesmo que poucas vezes, à frente das atividades acadêmicas é visto como crime. Não foram poucos os amigos que desistiram. Pior ainda, outros permaneceram, vivendo a base de remédio para dar conta.
Eu já acordei assustada depois de sonhar com meu orientador me questionando por estar dormindo. Isso quando eu conseguia dormir. Tive que me encher de ansiolíticos e antidepressivos para dar conta de continuar viva.
No último semestre do mestrado, os remédios perderam o efeito. Eu não dormia, não descansava, não conseguia escrever a dissertação. Com ajuda médica consegui defender. No doutorado tudo piorou, pois a relação com meu orientador foi se desgastando e eu tomei aversão ao trabalho e ao laboratório.
Minha depressão piorou muito e eu desenvolvi síndrome do pânico e fobia social. Cheguei ao fundo do poço e o suicídio passou a ser encarado como uma alternativa na minha vida.
Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco
Estou no meu primeiro ano de mestrado e tenho passado por muitas dificuldades. A pós-graduação já me causou muita perturbação, começando pelo ambiente de trabalho, onde as pessoas fazem você se sentir absolutamente um nada.
Além disso, o orientador te pressiona, te desmerece, quer te humilhar, muitas vezes por coisas pequenas.
A pior coisa do mundo é ter de fingir que tudo isso é normal, pois, caso contrário, vou ser tachada de fraca, imatura, burra, aquela que não aguenta. Está sendo a pior coisa do mundo.
Eu gostava muito da ideia de fazer o mestrado, mas depois que entrei eu sinto que foi uma das piores escolhas da minha vida. Já pensei em me matar e sumir. Estou fazendo acompanhamento com psiquiatra e psicólogo.
Na instituição onde estudo, depressão é vista como frescura, ou desculpa do aluno que não quer entregar um trabalho digno.
Entomologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia
Enquanto estive no Brasil, sofri com depressão e crises de pânico. Foi só na Suécia, onde fui fazer o período sanduíche do doutorado, que eu me senti pela primeira vez respeitada como pessoa dentro do ambiente acadêmico. Lá, cada aluno tem ao menos uma cadeira e mesa individual.
Aqui, nós sentamos no meio do laboratório junto com as bactérias que cultivamos, ou próximo a reagentes cancerígenos. O salário dos meus colegas na Suécia é similar ao de um emprego regular.
Também há pressão por lá, mas o orientador é responsável para com os alunos. Não se espera que o doutorando desempenhe algo se não forem dados recursos e condições adequadas para isso. Os colegas são cooperativos, não competitivos. Existe um ambiente de ganha-ganha.
Ciência de Alimentos, Unicamp
Estou no meu segundo ano de doutorado e já fiz planos de suicídio mais de uma vez. O meu departamento ameaça quem não produz com cortes de bolsa e devolução das que já recebeu e outras coisas.
As exigências aumentam, mas as condições para cumprir o que eles pedem não melhoram. Minha orientadora (uma santa) sugeriu que eu procurasse um psiquiatra depois de perceber que eu não estava bem. Meus colegas, por estarem disputando materiais comigo, me tratam mal.
As fofocas e bullying são algo assustador, e atingem todos aqueles que mostram fragilidade. Quem fica deprimido, é covarde, alguém que não deveria ter entrado no programa.
As meninas que querem se casar ou ter filhos são ameaçadas de perder a bolsa por “não prestigiarem suas carreiras”.
No mestrado, eu tinha alucinações. Trabalhava de segunda a segunda. Mal dormia e comia. Quase perdi parte do pulmão por um descolamento da pleura num incidente de bicicleta que causei porque queria morrer.
Microbiologia, Universidade Federal do Paraná
Tive um sério problema de melancolia durante o mestrado. Não cheguei a ir a um médico, mas o choro antes de dormir denunciava meu estado.
Cheguei a travar diante da sala de aula, devido à pressão que sentia. Estudávamos de 12 a 14 horas por dia. Resenhávamos 500 páginas por semana.
Os professores riam das nossas caras quando tentávamos apresentar novas ideias e interpretações. A bolsa não pagava nem o aluguel. O terrorismo acadêmico é verdadeiro.
Até agora, escrevendo esse texto, sinto meu sangue ferver de raiva e ódio pelo que me fizeram passar. Ainda bem que fui consciente: posterguei meu sonho de ser acadêmico, mas ganhei minha vida de volta.
Relações Internacionais, PUC-Rio
No mestrado, a frieza no laboratório, a cobrança por resultados que não dependiam de mim, e sim de equipamentos, e as longas horas de trabalho me fizeram desenvolver crises insuportáveis de fibromialgia, perda de apetite a ponto de ficar com o peso corporal incompatível com a saúde e uma tristeza tão profunda que ia chorando no caminho de casa até o laboratório.
Terminei e resolvi mudar de área de pesquisa. Estava contente por iniciar um novo ciclo no doutorado. E não demorou para eu passar pelas mesmas humilhações públicas, pressões e desamparo anteriores, além de ter tido insônia, ansiedade, sensação de impotência
Educação em Ciência e Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro
Fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado no mesmo laboratório. O mais comum são estudantes sem perspectivas, desanimados, sem conseguir ver a luz no fim do túnel. Vários amigos e colegas tiveram depressão.
Duas pessoas do meu laboratório tiveram paralisia facial. Uma amiga, também do laboratório, teve um surto psicótico no ano passado. Foi horrível. E nossa chefa nem queria avisar a família, que vive em Recife. Me chamou de alarmista e imatura.
Mesmo após de ter concluído a pós, um certo trauma ficou. Eu ainda não consigo passar um final de semana sem sentir culpa por não estar trabalhando, lendo um artigo, escrevendo um “paper”. É uma loucura que só entende quem passa.
Fisiologia e Biofísica, USP
No meio do doutorado tive problemas com a minha pesquisa, o que levou a uma carga maior de trabalho e a muito estresse. Isso se somou à precariedade financeira, ao medo do futuro e aos questionamentos que sempre aparecem na mente dos pós-graduandos: o que eu estou fazendo? Onde vou chegar fazendo isso?
Comecei a ter crises de refluxo gastroesofágico combinados com crises de pânico.
Não há glamour na pesquisa científica. Ao contrário, ficamos isolados, com pouco contato social e trabalhamos incessantemente em projetos e publicações de artigos, além de vivermos sob prazos apertados. Isso é pouco discutido porque somos vistos como “privilegiados”, que são remunerados para estudar.
Ciências Florestais, Universidade de Brasília
No mestrado, as preocupações com relação a prazos me fizeram entrar em um estado no qual não conseguia fazer mais nada da vida que não fosse estudar. Se saía num sábado para me divertir, me sentia como se estivesse fazendo algo muito errado. Fiz uma viagem num feriado com a família e, nesses poucos dias, a consciência pesada por não estar estudando era tanta que cheguei a ter taquicardia. Já no doutorado, comecei a apresentar um quadro depressivo.
A pós-graduação é um ambiente de muita incerteza e não existe acolhimento para alunos que passam por problemas assim. Cheguei a um ponto no qual não queria mais levantar da cama. Viver doía. Não cheguei a pensar em suicídio especificamente, mas pensava que morrer não seria ruim.
Economia, Universidade Federal Fluminense
Uma relação bastante conturbada resultou na troca de orientador e de projeto. Na prática, fiquei com pouco tempo para desenvolver a pesquisa. Pressão, prazos apertados e vida pessoal e familiar problemáticas me renderam uma depressão.
Eis algumas frases que ouvi durante a doença: “Depressão é frescura”, “Isso é preguiça mesmo”, “mãe de família não deveria cogitar a ideia de pós graduação, nunca irá acompanhar o ritmo”.
Será que a pós é um contrato de escravidão? Não temos direitos, apenas deveres?
Botânica, Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro
As mudanças climáticas sob o olhar indígena (Blogue Cidadãos do Mundo)
02/11/2017 18:15
Por Sucena Shkrada Resk
Subestimar os conhecimentos tradicionais que se perpetuam por gerações é um ato de ignorância que tem se repetido por décadas. No contexto das mudanças climáticas, essa constatação se torna mais evidente, pois a vivência dos povos indígenas e suas relações cosmológicas ancestrais são experiências que dialogam de forma concreta com a Ciência e trazem aprendizados a um campo político e econômico controverso, cujos interesses conflitam com o que a sabedoria e a razão científica expõem. Por meio das analogias e inferências, da relação entre o comportamento das estrelas e constelações ou das aves com o uso da terra e o ecossistema, os efeitos das ações antrópicas emergem nesta transcendência cadenciada.
Em tempos de Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP-23), que acontece em Bonn, na Alemanha, entre 6 e 17 de novembro, abrir a escuta, sem ranços, para esses olhares transversais pode dar mais respostas para a inovação de paradigmas de desenvolvimento em um palco político antagônico, que tem impedido reais avanços localmente e de forma global e podem emperrar acordos já firmados, desde a COP-21, em Paris. Um desenvolvimento ainda calcado em um mundo tratado como mercadoria.
O vídeo-documentário “Vozes Indígenas Num Clima em Mudança”, produzido pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), traz uma escuta interessante de diferentes representantes de etnias sobre o tema. O sensível documentário “Para onde foram as Andorinhas?”, do Instituto Socioambiental e Instituto Catitu, é outro canal de comunicação audiovisual que possibilita reflexões, como também a publicação “Mudanças Climáticas e a Percepção Indígena”, da Operação Amazônia Nativa (OPAN). As falas de todos os indígenas, da Amazônia ao Xingu, entoam um grito de alerta sobre a relação conflitante do homem branco com a terra, as águas, ou seja, com todo o planeta Terra (Pachamama).
Esses povos têm diferenças culturais, que traduzem suas histórias e identidades, entretanto, não impõem fronteiras em seus discursos ao tratar do “bem-viver”, do respeito entre os mundos material e imaterial, e reverberam o propósito de bem coletivo aos parentes, aos povos tradicionais e à toda sociedade. São Baniwa, Guajajara, Idioriê, Kayabi, Krenak, Manoki, Mehinako, Munduruku, Wará, Xavante, entre outros.
Com a lente de aumento sobre todo o país, trata-se de um universo de 305 etnias e de pelo menos, 896,9 mil indígenas, de acordo com o Censo Demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010. Hoje também existe o Comitê Indígena de Mudanças Climáticas, com representantes das cinco regiões do país. Um espaço de incidência política que merece mais reverberação.
Em outubro, ao ouvir a narrativa da liderança indígena André Baniwa, da Amazônia, em evento do Observatório do Clima (OC), realizado em São Paulo, sobre os dados mais recentes do Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), essa gama de significativas leituras foi reforçada.
Por meio da construção de uma cartografia que tem a contribuição estratégica dos mais idosos nas aldeias, com o subsídio de calendários do uso da terra indígenas, que usam elementos de sinalização como os animais, os processos de mudanças em duas décadas reportam a um estado de apreensão. Esses dados resultam, segundo ele, na reação atual do seu povo para buscar caminhos para a sustentabilidade e bem-viver em seus territórios. Para isso, há reuniões coletivas para discutir o assunto.
“…O calendário indígena de cada povo Baniwa (de acordo com o território que vivem) é diferente. Acompanha estrelas e constelações, cada período da fase importante para a agricultura, para a pesca. Algum sinal de passarinho, andorinha antes da pesca, por exemplo, significa fartura de peixe. Hoje não existe mais este movimento, são sinais práticos…O tucunaré diminuiu de tamanho nos últimos 20 anos”.
Segundo ele, as piracemas não existem mais de forma organizada… “Agora tem muita chuva no Rio Negro e não tem peixe. Observamos, desde 2002, esse processo de cheias frequentes. Cobriram pedras antigas (lugares sagrados), que temos sobre o entendimento do mundo…”.
Nesse diálogo entre a Terra e o mundo espiritual, André sinaliza que a natureza está dando alertas. “…Atualmente há trovejadas constantes na região das aldeias, o que não ocorria. Estamos procurando entender o que isso significa. Isso nos preocupa, porque (no campo das relações sociais e políticas) nossos direitos estão sendo ameaçados e é consequência de decisões políticas, nos grandes centros do mundo…Se não houver mudança de atitude…”, deixa este alerta.
O indígena já havia levado a sua mensagem ao Espaço do Clima da Sociedade Civil, na COP-21, ao lado de outros parentes, sobre a questão climática, em evento realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), quando destacou: “Os xamãs do povo Baniwa dizem que esse mundo vai parar daqui a algum tempo e não haverá sinal de vida. Será um período silencioso, na nossa previsão…”.
André ainda destaca o importante trabalho de pesquisa que está sendo realizado por outros parentes, como os Tukano e de outras etnias. Uma amostra dessa interação dos povos indígenas com o processo das mudanças climáticas é o levantamento Ciclos Anuais dos Povos Indígenas do Rio Tiquié. com apoio do ISA.
Leia mais: http://cidadaosdomundo.webnode.com/news/as-mudancas-climaticas-sob-o-olhar-indigena/
The new astrology (Aeon)
By fetishising mathematical models, economists turned economics into a highly paid pseudoscience
04 April, 2016
Alan Jay Levinovitz is an assistant professor of philosophy and religion at James Madison University in Virginia. His most recent book is The Gluten Lie: And Other Myths About What You Eat (2015).Edited by Sam Haselby
What would make economics a better discipline?
Since the 2008 financial crisis, colleges and universities have faced increased pressure to identify essential disciplines, and cut the rest. In 2009, Washington State University announced it would eliminate the department of theatre and dance, the department of community and rural sociology, and the German major – the same year that the University of Louisiana at Lafayette ended its philosophy major. In 2012, Emory University in Atlanta did away with the visual arts department and its journalism programme. The cutbacks aren’t restricted to the humanities: in 2011, the state of Texas announced it would eliminate nearly half of its public undergraduate physics programmes. Even when there’s no downsizing, faculty salaries have been frozen and departmental budgets have shrunk.
But despite the funding crunch, it’s a bull market for academic economists. According to a 2015 sociological study in the Journal of Economic Perspectives, the median salary of economics teachers in 2012 increased to $103,000 – nearly $30,000 more than sociologists. For the top 10 per cent of economists, that figure jumps to $160,000, higher than the next most lucrative academic discipline – engineering. These figures, stress the study’s authors, do not include other sources of income such as consulting fees for banks and hedge funds, which, as many learned from the documentary Inside Job (2010), are often substantial. (Ben Bernanke, a former academic economist and ex-chairman of the Federal Reserve, earns $200,000-$400,000 for a single appearance.)
Unlike engineers and chemists, economists cannot point to concrete objects – cell phones, plastic – to justify the high valuation of their discipline. Nor, in the case of financial economics and macroeconomics, can they point to the predictive power of their theories. Hedge funds employ cutting-edge economists who command princely fees, but routinely underperform index funds. Eight years ago, Warren Buffet made a 10-year, $1 million bet that a portfolio of hedge funds would lose to the S&P 500, and it looks like he’s going to collect. In 1998, a fund that boasted two Nobel Laureates as advisors collapsed, nearly causing a global financial crisis.
The failure of the field to predict the 2008 crisis has also been well-documented. In 2003, for example, only five years before the Great Recession, the Nobel Laureate Robert E Lucas Jr told the American Economic Association that ‘macroeconomics […] has succeeded: its central problem of depression prevention has been solved’. Short-term predictions fair little better – in April 2014, for instance, a survey of 67 economists yielded 100 per cent consensus: interest rates would rise over the next six months. Instead, they fell. A lot.
Nonetheless, surveys indicate that economists see their discipline as ‘the most scientific of the social sciences’. What is the basis of this collective faith, shared by universities, presidents and billionaires? Shouldn’t successful and powerful people be the first to spot the exaggerated worth of a discipline, and the least likely to pay for it?
In the hypothetical worlds of rational markets, where much of economic theory is set, perhaps. But real-world history tells a different story, of mathematical models masquerading as science and a public eager to buy them, mistaking elegant equations for empirical accuracy.
As an extreme example, take the extraordinary success of Evangeline Adams, a turn-of-the-20th-century astrologer whose clients included the president of Prudential Insurance, two presidents of the New York Stock Exchange, the steel magnate Charles M Schwab, and the banker J P Morgan. To understand why titans of finance would consult Adams about the market, it is essential to recall that astrology used to be a technical discipline, requiring reams of astronomical data and mastery of specialised mathematical formulas. ‘An astrologer’ is, in fact, the Oxford English Dictionary’s second definition of ‘mathematician’. For centuries, mapping stars was the job of mathematicians, a job motivated and funded by the widespread belief that star-maps were good guides to earthly affairs. The best astrology required the best astronomy, and the best astronomy was done by mathematicians – exactly the kind of person whose authority might appeal to bankers and financiers.
In fact, when Adams was arrested in 1914 for violating a New York law against astrology, it was mathematics that eventually exonerated her. During the trial, her lawyer Clark L Jordan emphasised mathematics in order to distinguish his client’s practice from superstition, calling astrology ‘a mathematical or exact science’. Adams herself demonstrated this ‘scientific’ method by reading the astrological chart of the judge’s son. The judge was impressed: the plaintiff, he observed, went through a ‘mathematical process to get at her conclusions… I am satisfied that the element of fraud… is absent here.’
Romer compares debates among economists to those between 16th-century advocates of heliocentrism and geocentrism
The enchanting force of mathematics blinded the judge – and Adams’s prestigious clients – to the fact that astrology relies upon a highly unscientific premise, that the position of stars predicts personality traits and human affairs such as the economy. It is this enchanting force that explains the enduring popularity of financial astrology, even today. The historian Caley Horan at the Massachusetts Institute of Technology described to me how computing technology made financial astrology explode in the 1970s and ’80s. ‘Within the world of finance, there’s always a superstitious, quasi-spiritual trend to find meaning in markets,’ said Horan. ‘Technical analysts at big banks, they’re trying to find patterns in past market behaviour, so it’s not a leap for them to go to astrology.’ In 2000, USA Today quoted Robin Griffiths, the chief technical analyst at HSBC, the world’s third largest bank, saying that ‘most astrology stuff doesn’t check out, but some of it does’.
Ultimately, the problem isn’t with worshipping models of the stars, but rather with uncritical worship of the language used to model them, and nowhere is this more prevalent than in economics. The economist Paul Romer at New York University has recently begun calling attention to an issue he dubs ‘mathiness’ – first in the paper ‘Mathiness in the Theory of Economic Growth’ (2015) and then in a series of blog posts. Romer believes that macroeconomics, plagued by mathiness, is failing to progress as a true science should, and compares debates among economists to those between 16th-century advocates of heliocentrism and geocentrism. Mathematics, he acknowledges, can help economists to clarify their thinking and reasoning. But the ubiquity of mathematical theory in economics also has serious downsides: it creates a high barrier to entry for those who want to participate in the professional dialogue, and makes checking someone’s work excessively laborious. Worst of all, it imbues economic theory with unearned empirical authority.
‘I’ve come to the position that there should be a stronger bias against the use of math,’ Romer explained to me. ‘If somebody came and said: “Look, I have this Earth-changing insight about economics, but the only way I can express it is by making use of the quirks of the Latin language”, we’d say go to hell, unless they could convince us it was really essential. The burden of proof is on them.’
Right now, however, there is widespread bias in favour of using mathematics. The success of math-heavy disciplines such as physics and chemistry has granted mathematical formulas with decisive authoritative force. Lord Kelvin, the 19th-century mathematical physicist, expressed this quantitative obsession:
When you can measure what you are speaking about and express it in numbers you know something about it; but when you cannot measure it… in numbers, your knowledge is of a meagre and unsatisfactory kind.
The trouble with Kelvin’s statement is that measurement and mathematics do not guarantee the status of science – they guarantee only the semblance of science. When the presumptions or conclusions of a scientific theory are absurd or simply false, the theory ought to be questioned and, eventually, rejected. The discipline of economics, however, is presently so blinkered by the talismanic authority of mathematics that theories go overvalued and unchecked.
Romer is not the first to elaborate the mathiness critique. In 1886, an article in Science accused economics of misusing the language of the physical sciences to conceal ‘emptiness behind a breastwork of mathematical formulas’. More recently, Deirdre N McCloskey’s The Rhetoric of Economics(1998) and Robert H Nelson’s Economics as Religion (2001) both argued that mathematics in economic theory serves, in McCloskey’s words, primarily to deliver the message ‘Look at how very scientific I am.’
After the Great Recession, the failure of economic science to protect our economy was once again impossible to ignore. In 2009, the Nobel Laureate Paul Krugman tried to explain it in The New York Times with a version of the mathiness diagnosis. ‘As I see it,’ he wrote, ‘the economics profession went astray because economists, as a group, mistook beauty, clad in impressive-looking mathematics, for truth.’ Krugman named economists’ ‘desire… to show off their mathematical prowess’ as the ‘central cause of the profession’s failure’.
The mathiness critique isn’t limited to macroeconomics. In 2014, the Stanford financial economist Paul Pfleiderer published the paper‘Chameleons: The Misuse of Theoretical Models in Finance and Economics’, which helped to inspire Romer’s understanding of mathiness. Pfleiderer called attention to the prevalence of ‘chameleons’ – economic models ‘with dubious connections to the real world’ that substitute ‘mathematical elegance’ for empirical accuracy. Like Romer, Pfleiderer wants economists to be transparent about this sleight of hand. ‘Modelling,’ he told me, ‘is now elevated to the point where things have validity just because you can come up with a model.’
The notion that an entire culture – not just a few eccentric financiers – could be bewitched by empty, extravagant theories might seem absurd. How could all those people, all that math, be mistaken? This was my own feeling as I began investigating mathiness and the shaky foundations of modern economic science. Yet, as a scholar of Chinese religion, it struck me that I’d seen this kind of mistake before, in ancient Chinese attitudes towards the astral sciences. Back then, governments invested incredible amounts of money in mathematical models of the stars. To evaluate those models, government officials had to rely on a small cadre of experts who actually understood the mathematics – experts riven by ideological differences, who couldn’t even agree on how to test their models. And, of course, despite collective faith that these models would improve the fate of the Chinese people, they did not.
Astral Science in Early Imperial China, a forthcoming book by the historian Daniel P Morgan, shows that in ancient China, as in the Western world, the most valuable type of mathematics was devoted to the realm of divinity – to the sky, in their case (and to the market, in ours). Just as astrology and mathematics were once synonymous in the West, the Chinese spoke of li, the science of calendrics, which early dictionaries also glossed as ‘calculation’, ‘numbers’ and ‘order’. Li models, like macroeconomic theories, were considered essential to good governance. In the classic Book of Documents, the legendary sage king Yao transfers the throne to his successor with mention of a single duty: ‘Yao said: “Oh thou, Shun! The li numbers of heaven rest in thy person.”’
China’s oldest mathematical text invokes astronomy and divine kingship in its very title – The Arithmetical Classic of the Gnomon of the Zhou. The title’s inclusion of ‘Zhou’ recalls the mythic Eden of the Western Zhou dynasty (1045–771 BCE), implying that paradise on Earth can be realised through proper calculation. The book’s introduction to the Pythagorean theorem asserts that ‘the methods used by Yu the Great in governing the world were derived from these numbers’. It was an unquestioned article of faith: the mathematical patterns that govern the stars also govern the world. Faith in a divine, invisible hand, made visible by mathematics. No wonder that a newly discovered text fragment from 200 BCE extolls the virtues of mathematics over the humanities. In it, a student asks his teacher whether he should spend more time learning speech or numbers. His teacher replies: ‘If my good sir cannot fathom both at once, then abandon speech and fathom numbers, [for] numbers can speak, [but] speech cannot number.’
Modern governments, universities and businesses underwrite the production of economic theory with huge amounts of capital. The same was true for li production in ancient China. The emperor – the ‘Son of Heaven’ – spent astronomical sums refining mathematical models of the stars. Take the armillary sphere, such as the two-metre cage of graduated bronze rings in Nanjing, made to represent the celestial sphere and used to visualise data in three-dimensions. As Morgan emphasises, the sphere was literally made of money. Bronze being the basis of the currency, governments were smelting cash by the metric ton to pour it into li. A divine, mathematical world-engine, built of cash, sanctifying the powers that be.
The enormous investment in li depended on a huge assumption: that good government, successful rituals and agricultural productivity all depended upon the accuracy of li. But there were, in fact, no practical advantages to the continued refinement of li models. The calendar rounded off decimal points such that the difference between two models, hotly contested in theory, didn’t matter to the final product. The work of selecting auspicious days for imperial ceremonies thus benefited only in appearance from mathematical rigour. And of course the comets, plagues and earthquakes that these ceremonies promised to avert kept on coming. Farmers, for their part, went about business as usual. Occasional governmental efforts to scientifically micromanage farm life in different climes using li ended in famine and mass migration.
Like many economic models today, li models were less important to practical affairs than their creators (and consumers) thought them to be. And, like today, only a few people could understand them. In 101 BCE, Emperor Wudi tasked high-level bureaucrats – including the Great Director of the Stars – with creating a new li that would glorify the beginning of his path to immortality. The bureaucrats refused the task because ‘they couldn’t do the math’, and recommended the emperor outsource it to experts.
The equivalent in economic theory might be to grant a model high points for success in predicting short-term markets, while failing to deduct for missing the Great Recession
The debates of these ancient li experts bear a striking resemblance to those of present-day economists. In 223 CE, a petition was submitted to the emperor asking him to approve tests of a new li model developed by the assistant director of the astronomical office, a man named Han Yi.
At the time of the petition, Han Yi’s model, and its competitor, the so-called Supernal Icon, had already been subjected to three years of ‘reference’, ‘comparison’ and ‘exchange’. Still, no one could agree which one was better. Nor, for that matter, was there any agreement on how they should be tested.
In the end, a live trial involving the prediction of eclipses and heliacal risings was used to settle the debate. With the benefit of hindsight, we can see this trial was seriously flawed. The helical rising (first visibility) of planets depends on non-mathematical factors such as eyesight and atmospheric conditions. That’s not to mention the scoring of the trial, which was modelled on archery competitions. Archers scored points for proximity to the bullseye, with no consideration for overall accuracy. The equivalent in economic theory might be to grant a model high points for success in predicting short-term markets, while failing to deduct for missing the Great Recession.
None of this is to say that li models were useless or inherently unscientific. For the most part, li experts were genuine mathematical virtuosos who valued the integrity of their discipline. Despite being based on inaccurate assumptions – that the Earth was at the centre of the cosmos – their models really did work to predict celestial motions. Imperfect though the live trial might have been, it indicates that superior predictive power was a theory’s most important virtue. All of this is consistent with real science, and Chinese astronomy progressed as a science, until it reached the limits imposed by its assumptions.
However, there was no science to the belief that accurate li would improve the outcome of rituals, agriculture or government policy. No science to the Hall of Light, a temple for the emperor built on the model of a magic square. There, by numeric ritual gesture, the Son of Heaven was thought to channel the invisible order of heaven for the prosperity of man. This was quasi-theology, the belief that heavenly patterns – mathematical patterns – could be used to model every event in the natural world, in politics, even the body. Macro- and microcosm were scaled reflections of one another, yin and yang in a unifying, salvific mathematical vision. The expensive gadgets, the personnel, the bureaucracy, the debates, the competition – all of this testified to the divinely authoritative power of mathematics. The result, then as now, was overvaluation of mathematical models based on unscientific exaggerations of their utility.
In ancient China it would have been unfair to blame li experts for the pseudoscientific exploitation of their theories. These men had no way to evaluate the scientific merits of assumptions and theories – ‘science’, in a formalised, post-Enlightenment sense, didn’t really exist. But today it is possible to distinguish, albeit roughly, science from pseudoscience, astronomy from astrology. Hypothetical theories, whether those of economists or conspiracists, aren’t inherently pseudoscientific. Conspiracy theories can be diverting – even instructive – flights of fancy. They become pseudoscience only when promoted from fiction to fact without sufficient evidence.
Romer believes that fellow economists know the truth about their discipline, but don’t want to admit it. ‘If you get people to lower their shield, they’ll tell you it’s a big game they’re playing,’ he told me. ‘They’ll say: “Paul, you may be right, but this makes us look really bad, and it’s going to make it hard for us to recruit young people.”’
Demanding more honesty seems reasonable, but it presumes that economists understand the tenuous relationship between mathematical models and scientific legitimacy. In fact, many assume the connection is obvious – just as in ancient China, the connection between li and the world was taken for granted. When reflecting in 1999 on what makes economics more scientific than the other social sciences, the Harvard economist Richard B Freeman explained that economics ‘attracts stronger students than [political science or sociology], and our courses are more mathematically demanding’. In Lives of the Laureates (2004), Robert E Lucas Jr writes rhapsodically about the importance of mathematics: ‘Economic theory is mathematical analysis. Everything else is just pictures and talk.’ Lucas’s veneration of mathematics leads him to adopt a method that can only be described as a subversion of empirical science:
The construction of theoretical models is our way to bring order to the way we think about the world, but the process necessarily involves ignoring some evidence or alternative theories – setting them aside. That can be hard to do – facts are facts – and sometimes my unconscious mind carries out the abstraction for me: I simply fail to see some of the data or some alternative theory.
Even for those who agree with Romer, conflict of interest still poses a problem. Why would skeptical astronomers question the emperor’s faith in their models? In a phone conversation, Daniel Hausman, a philosopher of economics at the University of Wisconsin, put it bluntly: ‘If you reject the power of theory, you demote economists from their thrones. They don’t want to become like sociologists.’
George F DeMartino, an economist and an ethicist at the University of Denver, frames the issue in economic terms. ‘The interest of the profession is in pursuing its analysis in a language that’s inaccessible to laypeople and even some economists,’ he explained to me. ‘What we’ve done is monopolise this kind of expertise, and we of all people know how that gives us power.’
Every economist I interviewed agreed that conflicts of interest were highly problematic for the scientific integrity of their field – but only tenured ones were willing to go on the record. ‘In economics and finance, if I’m trying to decide whether I’m going to write something favourable or unfavourable to bankers, well, if it’s favourable that might get me a dinner in Manhattan with movers and shakers,’ Pfleiderer said to me. ‘I’ve written articles that wouldn’t curry favour with bankers but I did that when I had tenure.’
When mathematical theory is the ultimate arbiter of truth, it becomes difficult to see the difference between science and pseudoscience
Then there’s the additional problem of sunk-cost bias. If you’ve invested in an armillary sphere, it’s painful to admit that it doesn’t perform as advertised. When confronted with their profession’s lack of predictive accuracy, some economists find it difficult to admit the truth. Easier, instead, to double down, like the economist John H Cochrane at the University of Chicago. The problem isn’t too much mathematics, he writes in response to Krugman’s 2009 post-Great-Recession mea culpa for the field, but rather ‘that we don’t have enough math’. Astrology doesn’t work, sure, but only because the armillary sphere isn’t big enough and the equations aren’t good enough.
If overhauling economics depended solely on economists, then mathiness, conflict of interest and sunk-cost bias could easily prove insurmountable. Fortunately, non-experts also participate in the market for economic theory. If people remain enchanted by PhDs and Nobel Prizes awarded for the production of complicated mathematical theories, those theories will remain valuable. If they become disenchanted, the value will drop.
Economists who rationalise their discipline’s value can be convincing, especially with prestige and mathiness on their side. But there’s no reason to keep believing them. The pejorative verb ‘rationalise’ itself warns of mathiness, reminding us that we often deceive each other by making prior convictions, biases and ideological positions look ‘rational’, a word that confuses truth with mathematical reasoning. To be rational is, simply, to think in ratios, like the ratios that govern the geometry of the stars. Yet when mathematical theory is the ultimate arbiter of truth, it becomes difficult to see the difference between science and pseudoscience. The result is people like the judge in Evangeline Adams’s trial, or the Son of Heaven in ancient China, who trust the mathematical exactitude of theories without considering their performance – that is, who confuse math with science, rationality with reality.
There is no longer any excuse for making the same mistake with economic theory. For more than a century, the public has been warned, and the way forward is clear. It’s time to stop wasting our money and recognise the high priests for what they really are: gifted social scientists who excel at producing mathematical explanations of economies, but who fail, like astrologers before them, at prophecy.
Estamos todos doentes? (JC)
Pesquisadora da Unicamp alerta para influência da indústria farmacêutica no crescimento do número de diagnósticos de transtornos mentais
Dados do National Institute of Mental Health (NIMH, 2012) apontam que 46% dos norte-americanos preenchem os critérios de diagnóstico de um transtorno mental. Na Europa essa porcentagem corresponde a 38%. Nos Estados Unidos, o diagnóstico de transtorno bipolar em crianças e adolescentes aumentou 40 vezes, entre 1994 e 2003, e uma entre cinco crianças tem um surto de transtorno mental por ano, de acordo com dados do Centro de Controle de Doenças, daquele país (CDC, 2013).
Há pesquisas que indicam que 10% da população mundial teria algum tipo de transtorno, um número que segundo a médica pediatra, Maria Aparecida Affonso Moysés, da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), inviabiliza qualquer esforço de política pública. “Temos que começar a questionar como esses números são construídos. Na verdade, mudanças nos critérios do diagnóstico se tornaram muito frouxos nos últimos anos”, afirmou a médica, em sua conferência na Reunião Anual da SBPC. “É muito difícil qualquer um de nós não se encaixar nos critérios. Os testes que detectam algumas dessas doenças são verdadeiras armadilhas”, alertou.
Ela refutou a ideia de que vivemos uma epidemia de doenças mentais. “O que temos é uma epidemia de diagnósticos de transtornos mentais”, disse. Na primeira vez em que foi publicado pela Associação Americana de Psiquiatria, em 1952, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), tinha 106 categorias de transtornos mentais. Em sua última edição, em 2013, foram listadas 300 categorias. “Alterar as normas para caracterização de um transtorno e criar doenças novas contribuíram para essa epidemia amplamente patrocinada pela indústria farmacêutica”, declarou Moysés. “Antes de vender remédios, o departamento de marketing da indústria de fármacos trabalha para vender doenças”, diz. Déficit de atenção, transtorno de descontrole de humor, transtorno de aprendizagem, depressão, transtorno opositor desafiante, hiperatividade, são algumas dessas doenças fabricadas para vender medicamentos. “Onde está a ciência e ética nesse campo?”, questionou a médica. Segundo ela, esses medicamentos são largamente receitados para crianças e adultos, como se fossem 100% seguros, mas boa parte deles provoca dependência química.
Um exemplo é o metilfenidato, base de uma classe de estimulantes do sistema nervoso central, vendido entre outras, com a marca “Ritalina”. O medicamento age inibindo a receptação de dopamina na sinapse, o que teria como resultado o aumento do nível de concentração. Conforme explicou Moysés, ele é receitado para crianças com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), não pelo seu efeito terapêutico, mas pelas reações adversas. No sistema nervoso central o metilfenidato provoca o efeito “zombie like”, quando a pessoa fica contida em si mesma. “Eu comparo esse fármaco a uma droga da obediência porque o indivíduo perde a capacidade de questionar, de sentir. É um tipo de contenção química. O aumento de concentração, tão propagado, é, na verdade, uma redução do foco da atenção, isto é, a pessoa presta atenção em uma coisa de cada vez”, afirmou. “Não existe uma pílula que nos faça prestar atenção. Para isso, precisamos de bons professores com boas condições de trabalho”.
Na opinião da pesquisadora da Unicamp, vivemos em um projeto de sociedade que estimula e premia comportamentos homogêneos, punindo as singularidades. “Não é à toa que assistimos cortes significativos nos orçamentos da ciência e da educação. Temos que ser iguais porque as diferenças incomodam cada vez mais. Entretanto, neutralizar os sonhadores, os que pensam diferente é um genocídio do futuro”, disse.
O combate ao que a médica chama de patologização da sociedade passa pelos campos da saúde, da educação e por uma revisão das políticas públicas para que elas não sejam submissas ao mercado. Outro setor é o da formação profissional. Nas escolas de medicina, a técnica não pode se sobrepor à ética e ao aspecto humano. Toda avaliação e diagnóstico têm que respeitar saberes, valores, história e a cultura porque “a vida não é mercadoria”, finalizou.
Por Patricia Mariuzzo para o Jornal da Ciência









Adelaide ao lado de Paulo Coelho (à dir.), ex-vice-presidente da fundação: grandes eventos e celebridades (Arquivo Pessoal/Veja SP)














Clelia O. Rodríguez is an educator, born and raised in El Salvador, Central America. She graduated from York University with a Specialized Honours BA, specializing in Spanish Literature. She earned her MA and PhD from The University of Toronto. Professor Rodríguez has taught undergraduate and graduate courses in Spanish language, literature and culture at the University of Toronto, Washington College, the University of Ghana and the University of Michigan, most recently. She was also a Human Rights Traveling Professor in the United States, Nepal, Jordan, and Chile as part of the International Honors Program (IHP) for the School of International Training (SIT). She taught Comparative Issues in Human Rights and Fieldwork Ethics and Comparative Research Methods. She is interested in decolonozing approaches to teaching and engaging in critical pedagogy methodologies in the classroom.





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