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Distúrbios na academia (Pesquisa Fapesp)

Universidades trabalham no desenvolvimento de estratégias de prevenção e atendimento psicológico de alunos de graduação e pós-graduação

RODRIGO DE OLIVEIRA ANDRADE | ED. 262 | DEZEMBRO 2017

 

© PEDRO FRANZ

O caso de um estudante de doutorado que se suicidou nos laboratórios do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), em agosto deste ano, colocou em evidência a discussão sobre as pressões enfrentadas pelos que optam por seguir a carreira acadêmica e os distúrbios psicológicos relacionados à vida na pós-graduação. Esse é um assunto que aos poucos começa a ser mais discutido no Brasil. No entanto, ainda são poucas as universidades brasileiras que investem na criação de centros de atendimento psicológico aos seus estudantes de graduação e pós-graduação.

O problema é mundial. Na Bélgica, um estudo publicado em maio na revista Research Policy verificou que um terço dos 3.659 estudantes de doutorado das universidades da região de Flandres corria o risco de desenvolver algum tipo de doença psiquiátrica.
Em 2014, um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, constatou que 785 (31,4%) de 2.500 estudantes de pós-graduação apresentavam sinais de depressão. O estudo fazia parte de um trabalho mais amplo, desenvolvido desde 1994, quando se constatou que 10% dos pós-graduandos e dos pesquisadores em estágio de pós-doutorado da universidade já haviam considerado se suicidar.

No Reino Unido, um estudo publicado em 2001 na Educational Psychology verificou que 53% dos pesquisadores das universidades britânicas sofriam de algum distúrbio mental, enquanto na Austrália a taxa foi considerada até quatro vezes maior no meio acadêmico em comparação com a população de modo geral. Apesar de se basearem em uma amostra relativamente pequena, esses estudos evidenciam uma preocupação que começa a se tornar latente no meio acadêmico no mundo: estudantes de graduação e pós-graduação estão sujeitos a pressões que podem desencadear uma série de transtornos mentais.

Como nos outros países, no Brasil, a quantidade de estudos, dados e iniciativas envolvendo esse assunto ainda é singela. Em São Paulo, a Universidade Estadual Paulista (Unesp) pretende lançar no início de 2018  o projeto “Bem viver para tod@s”. A iniciativa prevê a realização de palestras e debates com especialistas em saúde mental da própria universidade. “O objetivo é orientar alunos e professores sobre como identificar e lidar com esses problemas”, explica Cleópatra da Silva Planeta, pró-reitora de Extensão Universitária e coordenadora do projeto.

Algumas universidades já contam com serviços de atendimento para seus estudantes. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), por exemplo, o Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante (Sappe), ligado à Pró-reitoria de Graduação, atua há 30 anos dando assistência psicológica e psiquiátrica aos alunos de graduação e pós-graduação. De acordo com a psiquiatra Tânia Vichi Freire de Mello, coordenadora do Sappe, cerca de 40% dos estudantes da universidade que procuram o serviço estão no mestrado ou doutorado. “A maioria relata experimentar insônia, estresse e ansiedade, além de crises de pânico e depressão”, ela conta. “É comum dizerem que tentam contornar esses problemas a partir do consumo de bebidas alcoólicas e drogas psicoativas, como maconha.”Esses problemas costumam ser resultado de uma convergência de fatores, na concepção do psiquiatra Neury José Botega, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Segundo ele, a dinâmica da pós-graduação é marcada por prazos apertados, pressão para publicar artigos, carga de trabalho excessiva e cobranças. “Vários estudantes alegam não conseguir dar conta dos prazos ou saber lidar com o nível de exigência dos professores e orientadores”, comenta. São frequentes os casos de crises de estresse, ansiedade, pânico e depressão. “Muitas vezes a continuidade dos estudos fica inviável e o aluno entra em desespero por não conseguir tocar suas atividades.”

Um relatório divulgado em 2011 pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), que mapeou a vida social, econômica e cultural de quase 20 mil estudantes de graduação das universidades federais brasileiras, verificou que 29% deles já haviam procurado atendimento psicológico e 9%, psiquiátrico, o que envolve problemas mais sérios. O estudo também constatou que 11% já haviam tomado ou estavam tomando medicação psiquiátrica.

Um problema bastante comum entre os estudantes de pós-graduação, segundo Tamara Naiz, presidente da Associação Nacional dos Pós-graduandos (ANPG), é a chamada síndrome de burnout, quando o indivíduo atinge um nível grave de exaustão por trabalhar demais sem descansar. Há também a síndrome do impostor, que aflige acadêmicos que não conseguem aceitar os resultados alcançados como mérito próprio. “O desenvolvimento de transtornos na pós-graduação é um reflexo dos problemas da academia, que oferece poucas oportunidades”, ela destaca. “Ao mesmo tempo, as exigências e pressões envolvendo prazos curtos para qualificação e defesa, cobrança excessiva ou injusta por publicações em revistas de alto impacto, contribuem para agravar esse quadro.”

Também a relação com o orientador pode contribuir para o desenvolvimento de distúrbios psicológicos. Vários são os casos registrados pela ANPG de atitudes abusivas ou negligentes relatados por estudantes que sofreram assédio moral durante reuniões ou aulas. Igualmente frequentes são os casos que chegam à ANPG de orientadores omissos diante de questões ligadas à pesquisa de seus orientandos ou aqueles que solicitam aos alunos tarefas não relacionadas às suas pesquisas. Em outros casos, os relatos são de corte de bolsas e reprovação não justificadas ou com justificativas falsas ou não acadêmicas. Também o assédio sexual, em suas diversas formas, e a discriminação de gênero, que ainda persistem no mundo, são apontados como fatores desencadeadores de distúrbios psicológicos na academia, sobretudo entre as mulheres.

O caso da medicina
A grande maioria dos estudos em epidemiologia psiquiátrica envolvendo o ambiente acadêmico brasileiro está relacionada aos alunos de graduação, sobretudo os de medicina. Isso porque o curso costuma ser caracterizado pela pressão contínua por boas notas e extenuante carga horária de aulas e estudo. Além disso, o ambiente entre os próprios estudantes é marcado pela competitividade desde o vestibular, em geral sempre muito concorrido. Um estudo publicado em 2013 na Revista Brasileira de Educação Médica por pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em João Pessoa, envolvendo 384 estudantes de medicina, verificou que 33,6% tinham algum tipo de transtorno mental, como ansiedade, depressão e somatoformes, doenças que persistem apesar de as desordens físicas não explicarem a natureza e extensão dos sintomas nem o sofrimento ou as preocupações do indivíduo.Segundo a médica psiquiatra Laura Helena Andrade, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina (FM) da USP, a dificuldade na administração do tempo, o contato diário com a morte, o medo de adquirir doenças ou cometer erros e o sentimento de impotência diante de certas enfermidades contribuem para que esses estudantes estejam mais suscetíveis ao desenvolvimento de transtornos mentais. “O aluno da área da saúde precisa ter mais resiliência para poder manter seu desempenho de estudo, pesquisa e atendimento às pessoas enfermas”, ela ressalta. Apenas nos últimos cinco anos, a Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) registrou 22 tentativas de suicídio envolvendo alunos de medicina, segundo dados publicados em setembro no jornal O Estado de S. Paulo. Já nas universidades federais de São Paulo (Unifesp) e do ABC (UFABC), cinco estudantes se suicidaram no mesmo período.

Isso tem estimulado algumas universidades brasileiras a investirem na criação de núcleos de prevenção e atendimento psicológico específico para esses estudantes. Na Unicamp, há o Grupo de Apoio aos Estudantes de Graduação em Medicina, Fonoaudiologia e Residentes (Grapeme) da FCM. Já a USP conta desde 1986 com o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno (Grapal), entidade dedicada ao atendimento dos alunos dos cursos de fisioterapia, fonoaudiologia, medicina e terapia ocupacional, além dos residentes da FM-USP. Desde agosto a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) tem dois núcleos de atendimento psicológico aos estudantes de graduação e pós-graduação.

Paralelamente, essas instituições estão trabalhando para capacitar professores para que possam se antecipar a esses problemas. Segundo Tania Vichi Freire de Mello, do Sappe, é importante que eles fiquem atentos a mudanças súbitas de comportamento de seus alunos ou queda no rendimento acadêmico. A busca por orientação ou tratamento psicológico pode evitar que o estudante abandone o curso. A conclusão é de um levantamento feito em 2016 que analisou o perfil de 1.237 alunos que passaram pelo atendimento do Sappe. No estudo, eles verificaram que a taxa de evasão de curso entre os atendidos pelo serviço era menor quando comparada com aqueles que não recorreram ao serviço.

Para Botega, da FCM-Unicamp, é importante que os professores se mostrem mais abertos para conversar sobre esse assunto com seus alunos, sem desmerecer suas angústias. “Em geral, os professores estão mais preocupados com o desempenho acadêmico de seus estudantes, sem se darem conta de que isso está relacionado à sanidade mental do aluno”, afirma o psiquiatra. “É preciso agir no sentido de acolher esses estudantes, orientá-los e, se for preciso, encaminhá-los aos serviços de atendimento”, destaca Botega.

Universidades não têm diagnóstico da saúde mental de seus alunos de pós (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

As principais universidades brasileiras não sabem o que se passa com a saúde mental de seus estudantes de pós-graduação.

É o que se depreende das respostas que 19 instituições de ensino superior deram ao questionário enviado pela reportagem sobre o assunto. Foram procuradas as 20 primeiras colocadas do Ranking Universitário Folha (RUF ) além da melhor da região Norte, a UFPA. Juntas, elas abrigam mais de 70% dos alunos de mestrado e doutorado do país. Apenas PUC-Rio e UnB não responderam.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Na última segunda (18), a Folhapublicou reportagem com parte dos quase 300 depoimentos enviados ao jornal por alunos de mestrado e doutorado de todo o Brasil em que eles contam suas agruras e dificuldades durante a pós.

À pergunta “Qual é o diagnóstico da instituição sobre a saúde mental de seus alunos de pós-graduação?”, sete universidades afirmaram que não possuíam um; seis não responderam à questão e seis manifestaram algum tipo de preocupação com o assunto, sem, porém, apresentarem qualquer resposta concreta acerca do tema.

“Ainda não há a percepção, dentro da universidade, de que essas questões são ligadas ao ensino e à vida acadêmica. Em geral, considera-se que é um problema do aluno”, diz Tânia de Mello, coordenadora do Serviço de Assistência Psicológica e Psiquiátrica ao Estudante da Unicamp.

“Como a universidade poderá ter um diagnóstico de algo que ela nem considera um problema?”, questiona.

Para o psicólogo Robson Cruz, professor da PUC-MG e pesquisador da saúde mental de estudantes de pós, outra razão para a falta de atenção das universidades a essa questão é a dificuldade de lidar com ela, já que os problemas variam de acordo com a área.

Nas humanas, por exemplo, a relação com a escrita –como elaboração da tese e artigos– pode ser a parte mais penosa. Já nas áreas experimentais, a maior questão é a carga excessiva de trabalho dentro de um laboratório, explica Cruz.

ATENDIMENTO

Todas as instituições procuradas possuem algum tipo de assistência psicológica e psiquiátrica, seja em serviços voltados ao corpo discente ou a toda a comunidade universitária. Nenhuma, porém, possui uma assistência específica para a pós-graduação.

“Existe um certo entendimento de que o pós-graduando, por já ter passado pela graduação e em geral ter bolsa, é alguém que possui autonomia e independência, quase um pesquisador, e que, portanto, não precisaria receber muito apoio. É um engano”, diz Eduardo Benedicto, coordenador do Centro de Orientação Psicológica da USP de Ribeirão Preto.

Na visão de Cruz, diante das especificidades da pós, seria necessário um treinamento especializado de profissionais para lidar com esses estudantes.

Já Tânia de Mello acredita não ser necessária tal especialização. “Claro que ajuda quando você entende esse universo, mas uma boa rede de acolhimento deve conseguir dar conta dessas questões.”

O mais importante, diz, é haver uma boa estrutura de acolhimento no momento de crise. “Teria de ser algo acessível. A continuidade do tratamento pode até ser feita em outro lugar. É como funciona a maior parte dos serviços nos EUA e no Reino Unido”, diz Mello.

Ressaltando que se trata de uma realidade diversa da brasileira, Mello cita como exemplo a Universidade de Berkeley, nos EUA, que disponibiliza uma linha direta para que os estudantes em crise possam ligar, com divisão por língua, origem étnica e orientação sexual. “Não há nada similar por aqui.”

PREVENÇÃO

No campo da prevenção e da educação, o quadro parece ainda pior. Nove das 19 universidades ou não possuem ou não informaram a existência de ações nesse sentido. As dez restantes ou promovem iniciativas esporádicas (não vinculados a programas específicos), reduzidas, ou ainda estão implantando ações mais robustas.

Nenhuma, no entanto, implementou medidas que visem preparar o docente para para lidar com seus alunos, sobretudo orientandos, algo considerado fundamental pelos especialistas ouvidos.

“Temos de preparar os orientadores para ter uma visão mais humana da orientação”, afirma Eduardo Benedicto.

Mello lembra que “em geral, o docente não tem subsídios para lidar com a questão, pois não recebe qualquer treinamento das universidades para identificar e ajudar o aluno que enfrenta um transtorno mental.”
Cruz, por sua vez, aponta que o problema é mais embaixo e deveria ser objeto da própria formação dos docentes. “Eles simplesmente não são preparados para serem orientadores. Não há nenhuma ênfase, durante o mestrado e o doutorado, em ensino, didática, relação interpessoal, processo de orientação etc.”

Além de ações voltadas aos docentes, os especialistas sugerem a criação de “espaços de segurança” em que os alunos possam confidenciar suas angústias e fazer denúncias de assédio moral e sexual.

“Seriam espaços onde as pessoas pudessem falar com mais naturalidade sobre o tema e desmistificá-lo, ou seja, deixar claro que esse sofrimento existe, que tem a ver com a pós e que se pode falar disso”, afirma Tânia de Mello.

Universidades que enviaram respostas: Ufscar, UFRJ, UFPA, Univ. Fed. de Santa Maria, UFF, UFMG, UFC, UFBA, UFPR, Univ. Fed. de Viçosa, Unicamp, USP, Unesp, PUC-RS, Unifesp, Uerj, UFPE, UFSC, UFRGS

Orientadores de pós-graduação impõem dificuldades a alunos (Folha de S.Paulo)

ANÁLISE

Diego Padgurschi – 26.fev.2016/Folhapress

GABRIEL ALVES
DE SÃO PAULO

Uma das características mais marcantes da pós-graduação “stricto sensu” –mestrado e doutorado– é aquilo que podemos definir como o mito da forja.

Muitos orientadores (que mandam e desmandam na vida do aluno), pensam que quanto mais dificuldades eles impuserem, mais bem preparados –forjados– sairão os futuros mestres e doutores. E os fracos que fiquem pelo caminho.

Deixar discípulos quebrarem a cara não seria abandono, e sim lição de vida. No fim das contas eles não vão ter de se virar sozinhos?

A verdade é que muitas vezes dedicar um tempinho para os estudantes de pós fica lá no finzinho da lista de obrigações do pesquisador.

SAÚDE MENTAL NA PÓS

Antes ele tem que garantir sua própria biografia, publicando artigos e capítulos de livros, viajar para dar palestras, registrar suas patentes, cuidar de suas empresas…

É nesse contexto que se revela o feudal sistema de poder acadêmico. Não raro o professor delega parte de suas obrigações, como orientações e aulas, para pós-doutorandos, doutorandos e mestrandos.

Não é por acaso nem é tão raro que os elos mais fracos da cadeia acabem rompendo, como mostraram as reportagens sobre saúde mental na pós recentemente veiculadas por esta Folha.

Nesse contexto ainda há outras questões: o país tem de perseguir uma meta numérica na formação de doutores? Que tipo de doutor temos de formar? A que custo e em que prazo? Faz falta um jeito inteligente de lidar com a questão.

Já se foi o tempo em que o papel da pós-graduação era abastecer a academia com pesquisadores e docentes.

Muitos orientadores, por sua vez, se queixam de alunos despreparados, mas não têm como rejeitá-los: sem reposição na base da pirâmide, a produção fica estagnada.

Trocando em miúdos, o orientador ganha o direito de explorar por alguns anos uma força de trabalho barata (ou gratuita) em troca de atestar a formação de um novo mestre ou doutor, por mais que o título seja imerecido. Conscientemente ou não, alguns não veem aí um mau negócio.

E pode ser até mais grave. Em ciências experimentais, às vezes é adotado o “estágio probatório”, período que o futuro pós-graduando se dedica a aprender as técnicas usadas em um laboratório, a se inserir na rotina –sem receber nada por isso. Só depois é que vem a matrícula e, quem sabe, a bolsa. Desacompanhada de vários benefícios trabalhistas, vale notar.

Estudantes de mestrado e doutorado relatam suas dores na pós-graduação (Folha de S.Paulo)

FERNANDO TADEU MORAES
DE SÃO PAULO

Após a publicação da reportagem ‘Suicídio levanta questões sobre saúde mental na pós’, no final de outubro, a Folha recebeu 272 depoimentos de alunos de pós-graduação de todo o país, dos quais uma parcela está reproduzida abaixo. Eles permitem traçar um retrato das principais agruras e dificuldades enfrentadas por estudantes de mestrado e doutorado no Brasil –e das consequências em sua saúde mental.

Vistos em conjunto, os relatos chamam a atenção, em primeiro lugar, pelo fato de terem sido escritos por estudantes dos mais diversos cursos, instituições e regiões do país.

A maioria dos depoimentos, como seria de esperar, provém de discentes de grandes universidades públicas, como USP, Unicamp, Unesp, e as federais do Rio e de Minas Gerais, que concentram a maior parte dos estudantes de pós-graduação.

Não são poucos, porém, aqueles redigidos por alunos de instituições de menor porte, como a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, ou particulares, como a PUC-PR e a Universidade Metodista de SP.

Os relatos vieram ainda das cinco regiões do país e de estudantes de toda a sorte de áreas e carreiras: de letras a matemática, de biologia a engenharia.

Vídeo: dores da pós

 

O ORIENTADOR

Na intersecção da maioria das dificuldades descritas pelos estudantes –pressão exagerada, carga de trabalho frequentemente excessiva, solidão, assédio moral, entre outras– encontra-se a figura do orientador, o professor responsável por ajudá-los a realizar a tese e prepará-los para a pesquisa acadêmica.

Ele não apenas possui um papel central na formação intelectual do estudante como, pela maneira como a pós-graduação é organizada no país, detém poder considerável sobre a sua rotina.

Assim, a maneira como se desenvolve o relacionamento entre mestre e discípulo acaba sendo determinante para o sucesso ou o fracasso deste durante o mestrado ou o doutorado. Não raro, como atestam os relatos, orientadores se mostram despreparados para lidar com os alunos e exercer o papel esperado na formação deles.

Parte desse problema talvez advenha da falta de regras claras acerca do que separa cobranças normais de exigências descabidas.

Diante disso, e dada a importância dessa relação, uma das providências possíveis de serem tomadas por universidades e institutos de pesquisa que abrigam alunos de pós é preparar seus docentes para lidar com os orientandos. Também poderia ser estabelecido alguma espécie de código de conduta que esclarecesse aos orientadores o limite a partir do qual suas atitudes se tornam humilhações, maus-tratos e abusos.

AMBIENTE

Outro fator que colabora para esse quadro, embora seja costumeiramente negligenciado, é o ambiente estressante onde habitam os professores universitários. Em alguma medida, essa carga acaba se transferindo para os alunos.

Docentes, em seu dia a dia, precisam lidar com prazos apertados, obter financiamentos para seus projetos de pesquisa, dar aulas, orientar alunos, corrigir provas e teses, preparar relatórios para agências de fomento, além de sofrerem pressão para produzir artigos de alto impacto.

Além das pressões e dificuldades próprias da pós-graduação, os estudantes precisam ainda lidar com a estigmatização dos transtornos mentais dentro do ambiente acadêmico, onde ansiedade, depressão e pânico são frequentemente associados à fraqueza, incapacidade e despreparo.
Tal estigmatização -que não difere da maneira como tais enfermidades são vistas na sociedade- debilita ainda mais o aluno que já passa por dificuldades, e pode, ao ser introjetada, desestimulá-lo a buscar a ajuda necessária nos serviços de saúde.

Também nessa linha educativa, ações simples, como campanhas ou grupos de discussão, podem compor uma estratégia no combate ao preconceito que ronda a questão.

VALOR DAS BOLSAS

Diversos estudantes contam, em seus depoimentos, a situação de precariedade econômica em que vivem devido ao valor das bolsas de estudo pagas pelo governo federal. De fato, R$ 1.500 (para o mestrado) e R$ 2.200 (para o doutorado) –montantes que não são reajustados desde 2013– não constituem valores atrativos nem suficientes para exercer uma função altamente especializada e que, em grande parte dos casos, demanda dedicação exclusiva.

De outro lado, a Capes, ligada ao MEC e maior financiadora do país, paga 90 mil bolsas a mestrandos e doutorandos. Se numa época de grave restrição econômica já é difícil manter esse número estável, é pouco provável que esse valor aumente de maneira significativa.

Nesse cenário surge uma discussão sobre qual seria o modelo de financiamento mais adequado para esse sistema, debate que vem acompanhado da discussão de que tipo de pós-graduação o país deseja ter. É melhor investir em mais bolsas, ainda que pagando somas menores, ou deve-se buscar um valor maior para elas, quiçá competitivo com o que é pago pela iniciativa privada, mas numa quantidade reduzida?

Essas são apenas algumas das questões trazidas à luz pelos depoimentos enviados por pós-graduandos.

Não se deve, por certo, generalizar para todos os alunos de mestrado e doutorado os dramas expostos nesses relatos; tampouco se deve menosprezá-los, como se refletissem apenas situações isoladas ou queixas de alunos problemáticos.

Tais problemas resultam da maneira como o sistema de pós-graduação é organizado no país e, portanto, precisam ser enfrentados por todos os atores que o constituem.

Afinal, o aluno que tem a sua saúde mental afetada, embora seja o mais prejudicado, também gera custos para toda a cadeia: o grupo de pesquisa ao qual pertence, o programa de pós ao qual está vinculado, a universidade em que estuda e a agência de fomento que financia a sua bolsa.

DEPOIMENTOS ENVIADOS À FOLHA

A sensação de ser uma impostora é diária em um meio onde há pressão o tempo todo, de todas as formas possíveis. No mês que antecedeu minha defesa [conclusão do curso], chorei todos os dias. Esquecia de comer, me sentia culpada ao sair com os amigos no fim de semana, pois deveria estar terminando minha dissertação, mesmo que estivesse esgotada.

Além disso, minha orientadora sumia por meses. Faltando algumas semanas, para a defesa, ela viajou para o exterior. Escrevi tudo sozinha, sem direcionamento, até a sua volta, quando precisei virar noites para terminar a tempo.Acordei diversas vezes sem querer acordar. Levantar da cama e encarar o dia era um desafio que eu não conseguia enfrentar sem derramar lágrimas.

Fiz terapia durante quase todo o processo, mas precisei parar no final, pois a minha bolsa terminou; o programa de pós nunca ofereceu auxílio psicológico.

Neurociências, Universidade Federal de Minas Gerais


O mestrado significou longos meses de tortura e sofrimento. Minha orientadora me tratava com pouco caso, atribuindo o fracasso a mim mesmo quando não tinha a ver comigo.

Ela era sempre impositiva, me mantinha sempre sob sujeição e nunca me deu sequer um elogio; só fui elogiado no dia da defesa. Como morava numa república, longe de casa e não tinha com quem conversar, foram várias as situações que, mesmo sabendo que não cometeria suicídio, pensava “até que não seria má ideia”. Foram os dois anos mais trágicos da minha vida.

Ciências Sociais, Universidade Federal de Juiz de Fora


No meu mestrado, tive síndrome do pânico e achei que não ia conseguir terminar.

Com apoio psicológico da universidade consegui concluir, apesar do péssimo relacionamento com minha orientadora, que me cobrava muito e não entendia que estava doente.

Cinco anos depois da defesa a minha tese continua jogada na estante e não consigo sequer olhar para ela. Entrei no doutorado, mas acabei desistindo. Hoje estou bem com essa escolha, pois o meio acadêmico não é para pessoas sensíveis.

Linguística, Unicamp


Nunca consegui terminar o doutorado. Estava prestes a qualificar [exame crucial que precede a defesa da tese] quando o meu orientador simplesmente me agarrou no laboratório.

Denunciei o assédio, mas nunca deu em nada. Eu fui a quinta aluna atacada por ele. Nunca houve punição por parte do programa de pós ou da universidade.

Tive que trocar de orientador, e então, para me atrapalhar, ele me excluiu do sistema antes que eu pudesse concluir a transferência. Tive que recomeçar tudo do zero: disciplinas, projeto, experimentos. Eu não me conformava de ter sido a vítima e também a pessoa que estava sendo punida.

Todo mundo sabia da história, mas ninguém fez nada. Ele andava solto falando que eu era “a menininha não sabia ser cantada sem ficar bravinha”. Tentei por mais um ano, até que perdeu o sentido. Eu não aguentava mais.

Microbiologia, USP


No doutorado, minha pesquisa parecia travada. Nada dava certo, faltava orientação adequada. Eu estava tentando produzir algo muito novo e meu orientador não conseguia ajudar. Tive que desenvolver uma nova metodologia, o que deu muito trabalho.

Gastei quase três anos do meu doutorado nessa etapa, algo que não era para ser nem 25% da minha tese.

Estava, obviamente, muito atrasado. Em vez de receber algum mérito pelo desenvolvimento do método praticamente sem ajuda de colaboradores, fui muito criticado por estar atrasado e acabei sendo reprovado na minha qualificação.

Existe uma segunda chance de se qualificar, mas uma nova reprovação te desliga da pós. Nesse ponto comecei a dar sinais de depressão. Não conseguia dormir porque ficava pensando muito nisso. Passava noites em claro.

Comecei a ter fortes crises de ansiedade. Meu peito doía sem parar, meu coração acelerava loucamente. Fui parar no hospital universitário duas vezes achando que estava tendo um infarto.

Fizeram exames, mas nada foi constatado. O médico perguntou todo o meu histórico. No fim, só restou um diagnóstico: crise de ansiedade. O tratamento parece ser simples: parar de se preocupar. Só parece, porque obviamente não é.

Biologia, USP


Logo que entrei senti que seria mais complicado do que imaginei. Meu orientador não orientava, ele desorientava todos os seus alunos. Para completar, o (des)orientador passou em um concurso em outra universidade e foi embora.

Aí ele me abandonou de vez. Quando vinha ao laboratório, os orientandos que estavam mais próximos de defender ou de qualificar tinham prioridade e nunca sobrava tempo pra me atender. Meus e-mails raramente eram respondidos. Pedi para ter uma co-orientadora e fui informada de que “não havia necessidade”. Entrei no mestrado com 64 quilos, saí com 84. Ganhei 20 quilos em dois anos.

Descontava minha ansiedade, minhas frustrações, minha raiva e minha tristeza na comida. Quando comia, tinha o meu único momento de prazer.

Engenharia Mecânica, Universidade Federal de Minas Gerais


Meu orientador cobrava presença diária nas atividades do laboratório, mas nunca me orientou. Fiz tudo sozinha. Além do professor não orientar, o ambiente era extremamente hostil.

Minha defesa de projeto, no meio do curso, foi traumática. Meus familiares não aguentaram assistir a tanta humilhação. Eu mesma não aguentei e chorei o tempo todo.

Na minha defesa final não foi diferente: humilhação em cima de humilhação. Para não me despedaçar eu foquei no diploma do mestrado que eu estava prestes a receber.

Agronomia, Universidade Federal de Lavras


Tive uma orientadora autoritária, “workaholic”, estressada e que gostava de humilhar seus alunos. Abandonei o projeto, para o qual tinha bolsa de estudos, e fui em busca de um orientador mais justo.

Concluí o mestrado com esse orientador e atualmente faço doutorado. As coisas estão um pouco melhores, mas atualmente sofremos com o corte de verbas. Conheço muitas outros alunos que foram humilhados e passaram por situações difíceis; é algo comum. No fundo, é um ciclo. Os orientadores, quando alunos, passaram pelas mesmas coisas e replicam isso, achando normal.

Tecnologia em Processos Químicos e Bioquímicos, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Eu deveria seguir uma carga horária de quatro a seis horas diárias, de acordo com o regulamento da bolsa. Mas não há fiscalização e ninguém sabe o que se passa dentro de um laboratório.

Quem manda é o orientador, que não se apossa apenas do seu trabalho, mas também da sua vida pessoal a depender de seu temperamento.
Tem dias que passo 12h na universidade, mais precisamente num laboratório que não deve ter mais que cinco metros quadrados.

E não é porque tenho muito trabalho a fazer, mas por capricho do chefe. Não me permitiram sequer arrumar um emprego à noite para somar a uma ultrapassada bolsa de R$ 1.500.

Quanto ao meu projeto, meu orientador faz questão de me lembrar com esses termos: “Você está fodida”.

Doenças Tropicais, Universidade Federal do Pará


É triste quando o que você ama se volta contra você. Finalizei o mestrado há dois anos e não consigo abrir a minha dissertação.

Minha ex-orientadora se tornou um pesadelo, ainda ando nas ruas conferindo todas as placas dos carros do mesmo modelo que ela tinha.

Ela sempre trabalhou com o esquema de hierarquia, em que ela, que estava no topo, podia fazer tudo, e nós deveríamos aceitar calados.

Com relação à dissertação, lembro que ela me cobrou com três meses de antecedência, e eu perguntava a ela sobre as correções até que um dia ela me disse que a única pessoa que havia olhado a minha dissertação foi a filha dela de dois anos e me mostrou vários desenhos que a criança havia feito.

Zootecnia, Universidade Federal de Viçosa


Ao entrar no mestrado sofri com as cobranças exageradas; fiquei doente, precisei de ajuda de psicólogo e neurologista, tive crises de ansiedade, não conseguia dormir. Pensava em suicídio, sim.

No doutorado tentamos retirar a medicação, pois parecia que havia me adaptando à rotina. Não deu certo. Em um mês, a ansiedade e a insônia tinham voltado.

É como se você tivesse que ser mil e uma utilidades, os orientadores exigem que o pós-graduando realize, além da sua pesquisa, outras demandas do laboratório, dê aulas em seu lugar… a jornada chega a doze horas diárias. Além disso, temos de produzir artigos e escrever inúmeros relatórios para as agências de fomento.

Biologia, Unesp


Dentro do laboratório nem sempre as coisas funcionam bem. Às vezes o experimento dá certo, e mil outras vezes, não. Era duro escutar que talvez eu não tivesse capacidade suficiente para fazer o básico, quando muitas vezes o erro era do acaso…

Sim, as coisas podem dar errado, mas dentro da ciência o erro era sempre meu, e também dos meus colegas, mas nunca dos orientadores.

O aluno de pós não é um trabalhador: não há salário, há bolsa; não há férias; não há função específica; é uma espécie de escravidão.

Que pós-graduando nunca entrou no laboratório às 7h e saiu às 23h? Qual nunca ficou até o dia 24/12 no laboratório? Qual nunca teve que repetir o mesmo experimento 200 vezes só para mostrar ao orientador que a hipótese dele estava errada?

Tudo isso machuca muito. Quantos professores não abrem a boca só para ferir o aluno? Poucos são aqueles que protegem e ensinam.

Fisiologia Humana, USP


O medo e a vergonha de ser rotulado de fraco, de louco, de exagerado são maiores do que a vontade de gritar. Como ser indiferente a jornadas cansativas, professores semideuses, orientadores abusivos?

Nunca me senti tratado como gente enquanto estive na pós, pois colocar família, saúde ou lazer, mesmo que poucas vezes, à frente das atividades acadêmicas é visto como crime. Não foram poucos os amigos que desistiram. Pior ainda, outros permaneceram, vivendo a base de remédio para dar conta.

Eu já acordei assustada depois de sonhar com meu orientador me questionando por estar dormindo. Isso quando eu conseguia dormir. Tive que me encher de ansiolíticos e antidepressivos para dar conta de continuar viva.

No último semestre do mestrado, os remédios perderam o efeito. Eu não dormia, não descansava, não conseguia escrever a dissertação. Com ajuda médica consegui defender. No doutorado tudo piorou, pois a relação com meu orientador foi se desgastando e eu tomei aversão ao trabalho e ao laboratório.

Minha depressão piorou muito e eu desenvolvi síndrome do pânico e fobia social. Cheguei ao fundo do poço e o suicídio passou a ser encarado como uma alternativa na minha vida.

Agronomia, Universidade Federal Rural de Pernambuco


Estou no meu primeiro ano de mestrado e tenho passado por muitas dificuldades. A pós-graduação já me causou muita perturbação, começando pelo ambiente de trabalho, onde as pessoas fazem você se sentir absolutamente um nada.

Além disso, o orientador te pressiona, te desmerece, quer te humilhar, muitas vezes por coisas pequenas.

A pior coisa do mundo é ter de fingir que tudo isso é normal, pois, caso contrário, vou ser tachada de fraca, imatura, burra, aquela que não aguenta. Está sendo a pior coisa do mundo.

Eu gostava muito da ideia de fazer o mestrado, mas depois que entrei eu sinto que foi uma das piores escolhas da minha vida. Já pensei em me matar e sumir. Estou fazendo acompanhamento com psiquiatra e psicólogo.

Na instituição onde estudo, depressão é vista como frescura, ou desculpa do aluno que não quer entregar um trabalho digno.

Entomologia, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia


Enquanto estive no Brasil, sofri com depressão e crises de pânico. Foi só na Suécia, onde fui fazer o período sanduíche do doutorado, que eu me senti pela primeira vez respeitada como pessoa dentro do ambiente acadêmico. Lá, cada aluno tem ao menos uma cadeira e mesa individual.

Aqui, nós sentamos no meio do laboratório junto com as bactérias que cultivamos, ou próximo a reagentes cancerígenos. O salário dos meus colegas na Suécia é similar ao de um emprego regular.

Também há pressão por lá, mas o orientador é responsável para com os alunos. Não se espera que o doutorando desempenhe algo se não forem dados recursos e condições adequadas para isso. Os colegas são cooperativos, não competitivos. Existe um ambiente de ganha-ganha.

Ciência de Alimentos, Unicamp


Estou no meu segundo ano de doutorado e já fiz planos de suicídio mais de uma vez. O meu departamento ameaça quem não produz com cortes de bolsa e devolução das que já recebeu e outras coisas.

As exigências aumentam, mas as condições para cumprir o que eles pedem não melhoram. Minha orientadora (uma santa) sugeriu que eu procurasse um psiquiatra depois de perceber que eu não estava bem. Meus colegas, por estarem disputando materiais comigo, me tratam mal.

As fofocas e bullying são algo assustador, e atingem todos aqueles que mostram fragilidade. Quem fica deprimido, é covarde, alguém que não deveria ter entrado no programa.

As meninas que querem se casar ou ter filhos são ameaçadas de perder a bolsa por “não prestigiarem suas carreiras”.

No mestrado, eu tinha alucinações. Trabalhava de segunda a segunda. Mal dormia e comia. Quase perdi parte do pulmão por um descolamento da pleura num incidente de bicicleta que causei porque queria morrer.

Microbiologia, Universidade Federal do Paraná


Tive um sério problema de melancolia durante o mestrado. Não cheguei a ir a um médico, mas o choro antes de dormir denunciava meu estado.
Cheguei a travar diante da sala de aula, devido à pressão que sentia. Estudávamos de 12 a 14 horas por dia. Resenhávamos 500 páginas por semana.

Os professores riam das nossas caras quando tentávamos apresentar novas ideias e interpretações. A bolsa não pagava nem o aluguel. O terrorismo acadêmico é verdadeiro.

Até agora, escrevendo esse texto, sinto meu sangue ferver de raiva e ódio pelo que me fizeram passar. Ainda bem que fui consciente: posterguei meu sonho de ser acadêmico, mas ganhei minha vida de volta.

Relações Internacionais, PUC-Rio


No mestrado, a frieza no laboratório, a cobrança por resultados que não dependiam de mim, e sim de equipamentos, e as longas horas de trabalho me fizeram desenvolver crises insuportáveis de fibromialgia, perda de apetite a ponto de ficar com o peso corporal incompatível com a saúde e uma tristeza tão profunda que ia chorando no caminho de casa até o laboratório.

Terminei e resolvi mudar de área de pesquisa. Estava contente por iniciar um novo ciclo no doutorado. E não demorou para eu passar pelas mesmas humilhações públicas, pressões e desamparo anteriores, além de ter tido insônia, ansiedade, sensação de impotência

Educação em Ciência e Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro


Fiz mestrado, doutorado e pós-doutorado no mesmo laboratório. O mais comum são estudantes sem perspectivas, desanimados, sem conseguir ver a luz no fim do túnel. Vários amigos e colegas tiveram depressão.

Duas pessoas do meu laboratório tiveram paralisia facial. Uma amiga, também do laboratório, teve um surto psicótico no ano passado. Foi horrível. E nossa chefa nem queria avisar a família, que vive em Recife. Me chamou de alarmista e imatura.

Mesmo após de ter concluído a pós, um certo trauma ficou. Eu ainda não consigo passar um final de semana sem sentir culpa por não estar trabalhando, lendo um artigo, escrevendo um “paper”. É uma loucura que só entende quem passa.

Fisiologia e Biofísica, USP


No meio do doutorado tive problemas com a minha pesquisa, o que levou a uma carga maior de trabalho e a muito estresse. Isso se somou à precariedade financeira, ao medo do futuro e aos questionamentos que sempre aparecem na mente dos pós-graduandos: o que eu estou fazendo? Onde vou chegar fazendo isso?

Comecei a ter crises de refluxo gastroesofágico combinados com crises de pânico.

Não há glamour na pesquisa científica. Ao contrário, ficamos isolados, com pouco contato social e trabalhamos incessantemente em projetos e publicações de artigos, além de vivermos sob prazos apertados. Isso é pouco discutido porque somos vistos como “privilegiados”, que são remunerados para estudar.

Ciências Florestais, Universidade de Brasília


No mestrado, as preocupações com relação a prazos me fizeram entrar em um estado no qual não conseguia fazer mais nada da vida que não fosse estudar. Se saía num sábado para me divertir, me sentia como se estivesse fazendo algo muito errado. Fiz uma viagem num feriado com a família e, nesses poucos dias, a consciência pesada por não estar estudando era tanta que cheguei a ter taquicardia. Já no doutorado, comecei a apresentar um quadro depressivo.

A pós-graduação é um ambiente de muita incerteza e não existe acolhimento para alunos que passam por problemas assim. Cheguei a um ponto no qual não queria mais levantar da cama. Viver doía. Não cheguei a pensar em suicídio especificamente, mas pensava que morrer não seria ruim.

Economia, Universidade Federal Fluminense


Uma relação bastante conturbada resultou na troca de orientador e de projeto. Na prática, fiquei com pouco tempo para desenvolver a pesquisa. Pressão, prazos apertados e vida pessoal e familiar problemáticas me renderam uma depressão.

Eis algumas frases que ouvi durante a doença: “Depressão é frescura”, “Isso é preguiça mesmo”, “mãe de família não deveria cogitar a ideia de pós graduação, nunca irá acompanhar o ritmo”.

Será que a pós é um contrato de escravidão? Não temos direitos, apenas deveres?

Botânica, Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro