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Onde se escondem as poucas onças-pintadas que sobraram (Pesquisa Fapesp)

03 de março de 2017

Pesquisadores compõem retrato dos padrões de deslocamento do maior felino das Américas nos grandes biomas brasileiros. Na Mata Atlântica, restam apenas cerca de 300 indivíduos (foto: Eduardo Cesar/Revista Pesquisa FAPESP)

Peter Moon | Agência FAPESP – Restam apenas cerca de 300 onças-pintadas (Panthera onca) na Mata Atlântica. É muito, muito pouco. São inúmeras as razões para o desaparecimento eminente do maior felino das Américas ao longo do bioma que um dia se estendia desde o norte da Argentina, passando pelo Paraguai e Uruguai, até o Nordeste brasileiro.

A primeira e mais óbvia razão é que só restam 7% da Mata Atlântica original. A segunda, uma consequência direta, é que o pouco que sobrou é composto por áreas muito fragmentadas. Ou seja, as onças remanescentes precisam percorrer áreas muito maiores do que suas congêneres da Amazônia ou do Pantanal, por exemplo, para encontrar caça ou achar parceiros para cruzamento.

E como as áreas são muito fragmentadas, as andanças das onças na Mata Atlântica envolvem riscos cada vez mais frequentes de contato com humanos – o que envolve todo um leque de consequências letais para os grandes felinos. Elas viram alvo de caçadores, são atropeladas, são vítima da retaliação por parte de fazendeiros e pecuaristas ou perseguidas pela população em geral, que tem medo desses bichos.

Todas essas conclusões foram publicadas em novembro em um grande estudo internacional na Scientific Reports, da Nature. Entre os pesquisadores envolvidos no trabalho está o conservacionista Ronaldo Gonçalves Morato, chefe do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Atibaia (SP).

Em outro artigo, publicado no fim de dezembro, Morato e colaboradores vão além das conclusões do trabalho sobre as onças da Mata Atlântica para começar a compor um retrato dos padrões de deslocamento das onças-pintadas em cinco grandes biomas brasileiros – e os riscos que elas correm em cada um deles. O artigo foi publicado na revista PLoS ONE. A pesquisa teve apoio da FAPESP, por meio de uma bolsa de pesquisa, me nível de pós-doutorado no exterior, concedida a Morato para a realização no Smithsonian Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos.

“O objetivo da pesquisa foi verificar as condições de deslocamento e o tamanho da área de vida das onças-pintadas em cada um desses biomas brasileiros: Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga, Pantanal e Amazônia, e também no norte da Argentina”, disse Morato.

Para a obtenção dos dados de deslocamento, entre 1998 e 2016 foram monitorados 44 indivíduos que haviam sido previamente capturados, sedados e neles colocado um colar especial dotado de localizador por satélite (GPS).

Foram estudados 21 indivíduos no Pantanal, 12 na Mata Atlântica, oito na Amazônia, um no Cerrado e dois na Caatinga. Foram amostrados 22 machos e 22 fêmeas. As idades estimadas variaram de 18 meses até 10 anos, sendo que a maioria das onças (41) era adulta, com mais de três anos.

O GPS dos colares foi programado para informar a localização dos animais a cada uma hora, 24 horas por dia. Os períodos de monitoramento variaram de 11 até 1.749 dias (média de 183 dias), enquanto que o número de localizações registradas por indivíduo variou de 53 até 11 mil (média de 2.264). O total de registros somou 81 mil localizações, a maior já realizada no estudo de onças.

“Os colares tinham baterias capazes de durar cerca de 500 dias de uso. Mas bem antes disso, geralmente com 400 dias de monitoramento, acionamos um dispositivo que permite a soltura automática do colar do pescoço do animal. A seguir, tentamos recuperar o colar para seu reúso, o que nem sempre é possível”, disse Morato. Em certos casos, mesmo que o colar seja encontrado, nem sempre continua em condições de uso.

“Sabemos se o animal morreu quando o sinal do GPS permanece na mesma localização por 24 horas. Neste caso, dispara um sinal automático. Foi o que aconteceu no Pantanal Norte em 2010, quando uma onça atacou e matou um pescador. Houve retaliação e algumas onças foram mortas na região. Suspeitamos que um dos animais mortos em nosso projeto tenha sofrido retaliação”, disse.

De acordo com Morato, cerca de 80% dos animais residiam na região de monitoramento. Os demais apresentaram padrões de deslocamento nômades ou estavam em dispersão.

Os machos exibiram as maiores áreas de vida – o território ocupado durante a vida de cada animal. É um resultado compatível com a hipótese de que a necessidade de maiores áreas por parte dos machos de espécies carnívoras está ligada à distribuição das fêmeas e à necessidade de maximizar as oportunidades reprodutivas.

“As onças com a maior área de vida foram as da Mata Atlântica, que muitas vezes precisam se aventurar por pastagens e campos cultivados para passar de um fragmento de floresta ao outro, correndo o risco de contato com humanos”, disse Morato.

Mobilidade limitada

Entre todos os animais, o do Cerrado mostrou necessidade de maior área de vida (1.268 km2). No Brasil, a onça com menor área de vida (36 km2) estava no Pantanal. Para efeito de comparação, a ilha de Santa Catarina tem 424 km2.

“Pela primeira vez conseguimos comparar os deslocamentos das onças nos diversos biomas. O próximo passo envolve saber como os animais se comportam nas diferentes estruturas e paisagens. Queremos verificar quais são os fatores que limitam a mobilidade das onças em cada bioma”, disse Morato.

Segundo o pesquisador, é importante saber o que limita os deslocamentos das onças, uma vez que a saúde do animal depende da sua variabilidade genética, que por sua vez depende da capacidade de os indivíduos encontrarem parceiros sexuais de outros grupos que não os familiares. É a mesma lógica que não indica o casamento entre primos, por exemplo.

O artigo Space Use and Movement of a Neotropical Top Predator: The Endangered Jaguar(http://dx.doi.org/10.1371/journal.pone.0168176), de Ronaldo G. Morato e outros, publicado na PLoS One, pode ser lido em: http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0168176.

O artigo A biodiversity hotspot losing its top predator: The challenge of jaguar conservation in the Atlantic Forest of South America(doi:10.1038/srep37147), publicado na Scientific Reports, pode ser lido em: www.nature.com/articles/srep37147.

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De olho no gato (Fapesp)

Pesquisadores se mobilizam para aumentar em 20% a população de onças-pintadas na mata atlântica em cinco anos

CARLOS FIORAVANTI e RICARDO ZORZETTO | Edição 215 – Janeiro de 2014

O maior felino 
das Américas: 
com baixa diversidade genética e ameaçado pela caça intensiva

O maior felino 
das Américas: 
com baixa diversidade genética e ameaçado pela caça intensiva. © ADRIANO GAMBARINI

O veterinário Ronaldo Morato pretende sair logo atrás de onças-pintadas, se possível já em maio, quando passarem as chuvas do início de ano. Seu plano é colocar um colar especial em cinco onças dessa espécie que vivem nas florestas do sul do estado de São Paulo para acompanhar seus movimentos a distância e conhecer seus espaços favoritos. A definição de áreas prioritárias para a conservação desses animais faz parte de um plano estabelecido em setembro em Campinas para ampliar em 20% a população de onças-pintadas – os maiores felinos das Américas – na mata atlântica, o ambiente florestal em que são mais raras.

O plano propõe a redução da caça, o monitoramento das populações remanescentes, o uso de técnicas como inseminação artificial e a formação de um banco de sêmen de onças-pintadas da mata atlântica. Participantes da reunião – pesquisadores acadêmicos e representantes de empresas e de órgãos do governo – reconheceram que o esforço concentrado em um único ecossistema com metas de curto prazo deve facilitar o trabalho e aumentar a chance de sucesso do plano de ação. Já existe um plano nacional de preservação das onças-pintadas, publicado em dezembro de 2010 no Diário Oficial, com ações previstas até 2020. Em uma avaliação recente, os especialistas verificaram que parte dos objetivos tinha sido atingida e concluíram que trabalhar separadamente nos diferentes ambientes brasileiros poderia ser mais produtivo.

“Se conseguirmos reduzir as pressões atuais, como a caça e a fragmentação da floresta, pode já ser o bastante para aumentarmos a população de onça-pintada na mata atlântica”, diz Morato, coordenador do Centro Nacional de Pesquisas e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade. Em sua sala de trabalho, em um prédio de dois pisos com amplas janelas de vidro e vigas de madeira próximo à rodovia Dom Pedro I, em Atibaia, ele acompanha pelo computador o movimento de oito onças-pintadas nas matas do norte do pantanal. Várias vezes ele sentiu medo e fascínio ao se ver em campo diante desses felinos, que podem chegar a 2,70 metros de comprimento e podem atacar quando se sentem acuados. A primeira vez foi em 1992, recém-formado em veterinária, para anestesiar uma onça-preta e acompanhar outros pesquisadores colocando um colar de monitoramento no animal, ainda como estagiário do biólogo Peter Crawshaw, um dos pioneiros na preservação de felinos silvestres no Brasil. “E nunca mais me desprendi das onças”, diz Morato, aos 47 anos.

“Temos de trabalhar juntos e acreditar que o plano vai dar certo”, ele ressalta. Reduzir a caça e a fragmentação, como ele propõe, exigirá uma atenção permanente dos órgãos de fiscalização ambiental nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e Bahia, por onde a mata atlântica se espalha. Em todo o país, a caça – para a retirada e venda de pele ou como retaliação, quando as onças atacam os rebanhos – ainda é intensa, embora proibida e classificada como crime inafiançável. Em 2013, ele e Elildo Carvalho Jr., outro pesquisador do Cenap, em colaboração com o Instituto Pró-Carnívoros, verificaram que pelo menos 60 onças-pintadas (Panthera onca) e pardas (Puma concolor) foram mortas por caçadores nos últimos dois anos, com base em informações de 100 gestores das unidades de conservação ambiental administradas pelo governo federal. Estima-se que 5.500 representantes dessa espécie se escondam nas florestas brasileiras, principalmente na Amazônia e no pantanal. Mesmo assim, a onça-pintada é considerada vulnerável ao risco de desaparecimento, por causa do declínio populacional.

Na reunião de setembro em Campinas e em uma carta publicada na revista Science em novembro, pesquisadores de várias instituições do país alertaram que a mata atlântica, se nada for feito, pode ser o primeiro ambiente florestal brasileiro a perder essa espécie de felino – ali, a onça-pintada já é classificada como criticamente ameaçada de extinção. Estima-se que a floresta atlântica abrigue apenas 250 onças-pintadas, total considerado baixo para a manutenção das populações. Além do pequeno número de animais, outro problema é a baixa diversidade genética. Os estudos do grupo de Eduardo Eizirik da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio Grande do Sul indicaram que os 250 animais, em consequência de cruzamentos entre eles, correspondem a apenas 50 indivíduos efetivos, geneticamente distintos.

As onças-pintadas ocupam apenas 7% da área total da mata atlântica. Se houvesse mais animais dessa espécie – e também mais oferta de sua dieta favorita, as queixadas, uma espécie de porco selvagem bastante caçada por causa da carne, mas indesejada porque anda em bandos e destrói plantações –, a área ocupada poderia ser três vezes maior, de acordo com as pesquisas do grupo de Mauro Galetti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Seus estudos indicaram que a falta de onças-pintadas, os predadores de topo de cadeia alimentar, pode causar vários tipos de desequilíbrios ecológicos, deixando animais herbívoros como a anta – ou mesmo roedores – se multiplicarem livremente ou favorecendo o crescimento de gramíneas e outras plantas baixas no lugar das árvores.

Região de Boqueirão da Onça

Região de Boqueirão da Onça. © CLAUDIA B. CAMPOS

Valéria Conforti, professora da Universidade de Franca (Unifran), disse que saiu otimista da reunião de setembro em Campinas. “Todos estavam chocados com a situação das onças-pintadas na mata atlântica e se mostraram dispostos a correr riscos e testar o que achamos que pode dar certo”, ela observou. Um de seus planos para este ano é testar, em onças-pintadas mantidas em zoológicos paulistas, uma técnica de inseminação artificial que ela aplicou experimentalmente em gatas domésticas e outros felinos no zoológico de Cincinnati, nos Estados Unidos. Essa abordagem consiste em medir a variação hormonal das onças fêmeas por meio da análise de fezes, identificar o momento mais adequado, induzir a ovulação e fazer a inseminação artificial, depositando sêmen por meio de uma laparoscopia na tuba uterina, em vez do útero, como já se faz, para facilitar o acesso do espermatozoide ao óvulo e aumentar a chance de fertilização. A inseminação artificial já foi aplicada a outros felinos, mas ainda não a onças-pintadas. Se os testes derem certo, Valéria pretende aplicar essa técnica em animais de vida livre em 2015, como forma de aumentar a probabilidade de geração de filhotes sadios e evitar o risco de cruzamento entre animais aparentados.

A transferência de animais de uma mata para outra é uma possibilidade cogitada para repovoar as matas com onças-pintadas. Trata-se, porém, de uma alternativa de custo alto e muitas dificuldades, que exige o apoio de comunidades rurais e fazendeiros que aceitem ter uma onça perto de suas casas ou pastagens. Vários estudos, como os do biólogo Sílvio Marchini, pesquisador da Escola da Amazônia e da Universidade de São Paulo (USP), mostraram que o apoio dos moradores de áreas rurais próximas a matas ocupadas por onças é fundamental para os planos de ação funcionarem. No pantanal, com resultado de um experimento-piloto do Cenap com uma pousada, ganha adesões o argumento de que o lucro com o turismo de observação de onças pode ser maior que a perda de um ou outro boi.

Há relatos de êxito de transferência de felinos nos Estados Unidos e na Espanha, mas no Brasil as poucas tentativas feitas até agora, em florestas a serem cobertas por reservatórios de hidrelétricas, não deram certo. Os animais transferidos não se adaptaram, começaram a comer bois e foram mortos por caçadores ou voltaram a seus locais de origem, a dezenas de quilômetros de distância. Em um dos debates no encontro de setembro em Campinas, os pesquisadores observaram que, nos próximos cinco anos, talvez a criação de conexões – ou corredores – entre os fragmentos de floresta seja uma alternativa mais viável que a inseminação artificial ou a transferência de animais para ampliar as populações de onças-pintadas na mata atlântica. Todos concordaram que se trata de um problema urgente. “Não podemos esperar muito”, disse Valéria Conforti. A onça-pintada já é considerada extinta no Uruguai e nos pampas do Sul do Brasil.

Manuel Silva, morador da região de Boqueirão da Onça (acima), Alessandra e a filha Sara, Cailane Ferreira (ao fundo) e Claudia Campos: diálogo constante

Manuel Silva, morador da região de Boqueirão da Onça, Alessandra e a filha Sara, Cailane Ferreira e Claudia Campos: diálogo constante. © ALEXANDRE ANÉZIO

Um poço para salvar as onças

Mais apreensiva do que quando olhou para os examinadores 
de sua banca de doutorado, 
a bióloga Claudia Campos observou os 50 sertanejos à sua frente na igreja do povoado de Queixo Dantas, norte da Bahia, na tarde de um domingo de julho de 2012. Nervosa, mas com 
voz firme, ao lado dos amigos Claudia Martins, Carolina Esteves e Alexandre Anézio, 
ela sugeriu aos homens que fizessem cercados para manter suas cabras e ovelhas, em vez 
de deixar os animais soltos na caatinga na época de seca, sob 
o risco de serem atacados por onças. Os criadores reagiram: como poderiam deixar os animais presos sem água nem comida, se não chovia há três anos? Se eles aceitassem, ela disse, poderiam construir um poço para tirar água e cultivar plantas para alimentar os animais. Oito deles aderiram ao plano.

A perfuração do poço artesiano estava prevista para o final do mês passado, as plantas que serviriam de alimento para os caprinos seriam semeadas logo depois e os novos cercados, construídos a partir de fevereiro. Se tudo der certo, os animais terão alimento ao longo de todo o ano, como
já se faz em outras partes do sertão do nordeste, e não precisarão mais pastar nas áreas de mata nativa durante 
a seca, reduzindo as chances 
de encontro com as onças; 
os moradores as matam para evitar que ataquem seus animais de criação.

Claudia chegou a Petrolina, Pernambuco, em outubro de 2006, como pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisas 
e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, um dos braços antigos do Ibama, 
para detalhar a distribuição geográfica e os hábitos da 
onça-pintada em uma região
 de 900 mil hectares conhecida como Boqueirão da Onça. 
Ao verem a forasteira chegando em um carro com o logotipo 
do Ibama, os moradores logo diziam que não caçavam bicho nenhum. Conversando muito, ela venceu a desconfiança. “Todos estão cansados de ouvir do governo coisas que poderiam ajudar a vida deles e nunca aconteceram”, ela observou. 
“Já visitei 140 dos quase 
150 povoados da região.”

Aos poucos ela concluiu 
que teria de cuidar dos conflitos entre os moradores e os 
animais silvestres. Em 2009, aos 76 anos, o zoólogo George Schaller, pioneiro mundial na conservação de grandes carnívoros e vice-presidente 
da Panthera, organização que apoia o trabalho na Bahia, percorreu a região e reforçou sua hipótese ao dizer que seria impossível preservar animais silvestres sem a participação dos moradores locais. Claudia estima que por ali vivam 
50 onças-pintadas – ainda não 
viu nenhuma, apenas vê as pegadas durante o dia e 
sente que os animais passam 
por perto quando ela tem 
de dormir no meio da caatinga.

Projetos
1. Uso e ocupação do espaço, movimentação e seleção de hábitat por onça-pintada (Panthera onca) na mata atlântica e caatinga: uma análise comparativa (2013/10029-6); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Ronaldo Gonçalves Morato – Cenap; Investimento R$ 110.627,80 (FAPESP). 2. O uso de método não invasivo para monitoramento da função ovariana em onças-pintadas (Panthera onca) via ensaio imunoenzimático e caracterização dos metabólitos de esteroides fecais por meio de cromatografia líquida de alta eficiência (13/12757-9); Modalidade Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa; Coord. Valeria Amorim Conforti – Unifran; Investimento R$ 35.780,00 (FAPESP).

Artigos científicos
CARVALHO Jr., E.A.R. de e MORATO, R.G. Factors affecting big cat hunting in Brazilian protected areasTropical Conservation Science. v. 6, n. 2, p. 303-10. 2013.
CONFORTI, V. A. et al. Laparoscopic oviductal artificial insemination improves pregnancy success in exogenous gonadotropin-treated domestic cats as a model for endangered felidsBiology of Reproduction. v. 88, p. 112.105353. 2013.

As rotas das suçuaranas (Fapesp)

Felinos conseguem se movimentar em zonas de ocupação humana, mas encontram obstáculos nas estradas

MARIA GUIMARÃES | Edição 199 – Setembro de 2012

A onça-parda (Puma concolor), um dos maiores predadores das Américas, ainda é pouco conhecida pela ciência brasileira. © EDUARDO CESAR (FOTO FEITA NA FUNDAÇÃO ZOOLÓGICO DE SÃO PAULO)

Análises genéticas estão revelando um pouco da história e da ecologia da suçuarana, ou onça-parda (Puma concolor), um dos maiores felinos do Brasil, atrás apenas da onça-pintada. Esses discretos animais são altamente adaptáveis e vivem mesmo em zonas com pouca floresta. Mas enfrentam problemas com a caça e nas estradas, conforme vem mostrando o trabalho paralelo de duas pesquisadoras que nunca se encontraram pessoalmente: Camila Castilho, atualmente na Universidade de São Paulo (USP), e Renata Miotto, agora na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), também da USP, em Piracicaba.

As duas estudaram aspectos genéticos de populações locais de suçuaranas, chegando em grande parte a resultados semelhantes, conforme mostram o artigo de Renata naConservation Genetics em 2011, e de Camila publicado este ano na Genetics and Molecular Biology. O primeiro aspecto importante é que há pouca diferenciação genética nas áreas estudadas, sinal de uma população não fragmentada. Isso indica que esses animais conseguem percorrer grandes distâncias e manter o fluxo de material genético, apesar de não haver continuidade de floresta. É bem diferente do que acontece com a onça-pintada, que se aventura pouco fora das áreas de mata e acaba ficando isolada em fragmentos e gerando populações diferenciadas, conforme já mostraram outros estudos.

Na prática, a onça-parda forma populações contínuas ao longo de áreas extensas. No caso de Camila, que desenvolveu o trabalho durante o doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a área englobava boa parte de Santa Catarina, uma parte do sul do Paraná e algumas amostras no extremo norte do Rio Grande do Sul, um total de mais de 140 mil quilômetros quadrados (km2). O estudo de Renata, à época doutoranda na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), era mais circunscrito, mas nada diminuto: cerca de 1.700 km2 do interior paulista que incluem 15 municípios, entre eles Ribeirão Preto, Rio Claro e São Carlos.

O outro achado semelhante entre os dois estudos mostra que recentemente, em algum ponto do último século, houve uma drástica redução nos números das suçuaranas, que os geneticistas de populações chamam de gargalo populacional. Ao passar por um desses gargalos, a população perde parte da sua diversidade genética, o que em certos casos pode gerar problemas. “A perda de genes é aleatória e é possível que nada importante se vá”, explica Camila, “mas é maior a probabilidade de acontecer um azar”. Um azar seria o animal não poder contar com algum gene essencial para enfrentar a alterações no ambiente. Uma coisa é certa quando se detecta um gargalo: aconteceu algum desequilíbrio na população, seja uma redução importante em tamanho ou, mais raramente, uma alteração drástica na proporção entre machos e fêmeas.

Canavial

É aí que começam as diferenças entre os dois estudos. O interior de São Paulo, onde Renata trabalha, está recoberto de cana-de-açúcar. “A maior parte foi plantada nos anos 1960 e 1970, em razão do Proálcool [Programa Nacional do Álcool]”, diz a pesquisadora. “Os dados genéticos indicam que o gargalo pode ter acontecido nessa época.” Nesse caso, muitas suçuaranas teriam morrido nesse período de intenso desmatamento, e depois aos poucos a população teria voltado a aumentar, à medida que suas presas se adaptaram a viver nos canaviais. “A dieta das onças na região consiste principalmente em tatus, cervos, capivaras e outros roedores”, conta. São animais que aparentemente vêm se adaptando bem à agricultura, alguns deles consumidores de cana-de-açúcar. Com alimento abundante, as suçuaranas podem facilmente viver na região, sem representar problemas para os donos das plantações.

O grande problema que esses animais enfrentam hoje são as estradas movimentadas, praticamente intransponíveis para pedestres – sejam eles humanos ou felinos –, que cortam o estado. Isso pode bloquear as rotas das suçuaranas e, com o tempo, reduzir a variabilidade genética.

Além de limitar o trânsito das suçuaranas, atropelamentos são uma causa importante de mortalidade. “Os machos jovens, que se dispersam para longe da área onde nasceram, são as principais vítimas”, diz Renata. Entre os 23 animais atropelados de sua amostragem, 16 são machos. A suçuarana Anhanguera, apelidada em 2009 com o nome da estrada em que foi atropelada, no interior paulista, era justamente um macho jovem. “Essa mortalidade diferencial pode alterar a razão sexual, o que pode ser detectado como um gargalo.” Isso acontece porque são eles os emissários do material genético, já que se mudam para uma zona distante onde afinal se estabelecem e acasalam.

As fêmeas permanecem mais próximas ao local onde nasceram, conforme Renata mostrou em cinco anos de monitoramento na Estação Ecológica de Jataí, no município de Luis Antônio, perto de Ribeirão Preto. Ao longo desse período ela percorreu trilhas e coletou fezes frescas, de onde extraiu material genético. Os dados, publicados este ano na Biotropica, mostram que todas as onças residentes são fêmeas.

 

Gado

Na Região Sul, Camila deparou com uma relação mais conflituosa entre os seres humanos e o leão-baio, como o felino é conhecido em terras catarinenses. Ali se criam vários tipos de gado – vacas, cabras, ovelhas – de forma extensiva, com os animais sempre soltos no pasto. Além das pacas, cutias e veados, os animais domésticos acabam virando boas refeições para as suçuaranas, que em seguida precisam enfrentar o fazendeiro armado. “Embora a caça seja ilegal, sabemos que acontece muito nessa região”, conta Camila, que aos poucos venceu as resistências e conseguiu que os donos das fazendas lhe cedessem amostras dos leões-baios caçados, para extração de material genético. A zona de estudo da pesquisadora se concentrou no sul de Santa Catarina, onde as fazendas se estendem por campos de altitude com resquícios de floresta – os capões – em meio ao pasto. É nesses capões, e nas matas ao longo de rios, que as suçuaranas se refugiam e onde por vezes encontram uma cabra ou bezerro também em busca de abrigo.

Assim como em São Paulo, os dados de Camila mostram que o gargalo populacional aconteceu no último século, coincidindo com a ampla derrubada da floresta de araucárias que caracterizava a região. Atualmente, a caça parece ser responsável pela maior parte da mortalidade por ali, e não a falta de hábitat. “Conectividade não parece ser um problema”, comenta Camila. Por meio de modelos ecológicos que analisam a paisagem ela sugere, em artigo de 2011 na Mammalian Biology, que não há impedimento para que esses animais se locomovam por toda a sua área de estudo, que abrange boa parte da Região Sul. Um dado genético que corrobora essa ideia é o baixo parentesco entre os indivíduos que conseguiu analisar. “Apenas 6,6% dos indivíduos que analisamos eram aparentados”, conta. Para ela, é preciso conscientizar os fazendeiros da importância ecológica dos grandes predadores e buscar soluções, como a construção de currais onde o gado possa passar a noite.

Mesmo nunca tendo conversado, as duas pesquisadoras continuam a seguir caminhos paralelos. Ambas, atualmente no pós-doutorado, deixaram a genética de lado para se concentrar na análise da paisagem. “São abordagens complementares”, explica Camila. Diante das informações fornecidas pela distribuição da variação genética, surgiram novas perguntas que as levaram a buscar entender o ambiente por onde as onças-pardas circulam em busca de detectar os problemas que elas enfrentam e propor soluções para manter populações viáveis desse grande felino encontrado em quase toda a América, exceto em boa parte da Argentina e na metade leste da América do Norte.

Agora ambas trabalham em São Paulo: Renata está construindo um banco de dados sobre a cobertura vegetal e a ocupação da mesma região que examinou até o momento, incluindo um mapeamento detalhado da malha viária e do fluxo de veículos, que em conjunto com os dados genéticos formarão um modelo de dispersão. Ao mesmo tempo compila dados de atropelamentos e, com ajuda da Polícia Florestal, aumenta sua coleção de amostras genéticas. “A partir desses modelos, quero avaliar as rotas preferenciais no deslocamento das onças para definir o que se pode fazer em termos de manejo da paisagem”, explica. Camila concentra seu projeto no mosaico das serras da Bocaina e da Mantiqueira, no nordeste paulista, que inclui a região de São José dos Campos. Nessa região, avaliará o hábitat disponível e as possibilidades de locomoção das suçuaranas. “Vou criar valores de permeabilidade para detectar as áreas prioritárias em termos de conservação.”

Em conjunto, os dois projetos podem contribuir para reduzir o desequilíbrio que existe entre a América do Norte e a do Sul no que diz respeito ao conhecimento a respeito desse imponente predador. Talvez também cheguem a propostas de práticas pecuárias que melhorem a convivência entre fazendeiros e predadores, e a passarelas ou túneis para travessia de suçuaranas.

Artigos científicos
CASTILHO, C. S. et alGenetic structure and conservation of Mountain Lions in the South-Brazilian Atlantic Rain ForestGenetics and Molecular Biology. v. 35 (1), p. 65-73. 2012.
CASTILHO, C. S. et alLandscape genetics of mountain lions (Puma concolor) in southern BrazilMammalian Biology. v. 76 (4), p. 476-83. 2011.
MIOTTO, R. A. et alMonitoring a puma (Puma concolor) population in a fragmented landscape in Southeast BrazilBiotropica. v. 44 (1), p. 98-104. 2012.
MIOTTO, R. A. et alGenetic diversity and population structure of pumas (Puma concolor) in southeastern Brazil: implications for conservation in a human-dominated landscapeConservation Genecits. v. 12 (6), p. 1.447-55. 2011.

Onças-pintadas ajudam a preservar Caatinga (Valor Econômico)

JC e-mail 4366, de 18 de Outubro de 2011.

Mapear quantas são, como vivem e por onde andam as onças-pintadas da Caatinga permitirá conhecer o efeito da transposição do São Francisco sobre a região.

É bem ali, onde a onça bebe água, que se arma o laço. Em setembro, no auge da seca na Caatinga, foram dez armadilhas na região de Sento Sé, município do norte baiano, às margens do lago de Sobradinho. Cinco pesquisadores, 30 dias, água racionada, nada de luz elétrica, computador ou telefone, e R$ 22 mil de investimento. No fim da expedição, nenhuma onça-pintada ganhou colar com GPS. Mas a frustração dos cientistas dá logo lugar ao planejamento da nova campanha. É nesse compasso que vão perseguindo a criação de uma espécie de “índice-onça de sustentabilidade”, que está relacionado com uma das principais, e mais polêmicas, obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a transposição do rio São Francisco.

Tanto interesse nesse gato hiperbólico – é o maior felino das Américas, o terceiro maior do mundo depois do tigre e do leão, e dono da mordida mais potente entre seus parentes – transcende a biologia. Onça-pintada só vive onde tem água e é predador importante, que regula ecossistemas. Não deixa, por exemplo, a população de capivaras, veados ou ratos explodir. No topo da cadeia alimentar, é uma espécie guarda-chuva. “Protegendo a onça-pintada, está se protegendo todas as outras”, diz o veterinário Ronaldo Gonçalves Morato, 44 anos, um dos poucos especialistas em onças do país das onças.

Na base do estudo está a proposta de se criar, no coração do Semiárido, um corredor de fauna. A tentativa é construir uma área de proteção que leve em conta o potencial econômico da região. Um dos elementos é o Parque Nacional Boqueirão da Onça, em estudo há dez anos. Teria 800 mil hectares e seria a maior unidade de conservação fora da Amazônia. Mas enquanto o governo não resolve se cria ou não o parque, o valor e a grilagem das terras aumentam. Há também o interesse do Ministério das Minas e Energia, que vê na região um bom potencial eólico.

O governo busca consenso para garantir alguma proteção ao terceiro e mais castigado bioma brasileiro. Menos de 2% da Caatinga é área protegida. Mais de 45% da vegetação foi desmatada e a região sofre desertificação. “Temos a visão de que a Caatinga é pobre e pronto. Mas existem paisagens fantásticas e recursos naturais mal aproveitados”, diz Morato. “Explorar a Caatinga com um bom programa turístico, seria bem interessante.”

A diversidade biológica é rica, mesmo com escassez de água. Há centenas de espécies de pássaros, répteis e anfíbios. As paisagens são belas e variadas, há pinturas rupestres e frutas que dão doces exóticos. Na seca, a vegetação fica sem folhas, para gastar menos energia. “O pessoal chama esse cenário de mata branca. É só chover que, três dias depois, está tudo verde. É maravilhoso”, encanta-se Morato.

O parque, que não sai do papel, tomaria 45% do município de Sento Sé, região bem pouco povoada de gente e talvez bem povoada por onças. A pintada, que se espalhava pela Caatinga nos tempos de Lampião, hoje está restrita a 25% do bioma. Os pesquisadores acreditam que existam cinco grandes populações de onças-pintadas no Semiárido, um ou dois animais a cada 100 km2 – em Cáceres, no Pantanal, a densidade é bem mais alta, média de sete onças a cada 100 km2. As estimativas falam em 300 a 400 animais na Caatinga.

Mapear, com alguma precisão, quantas são, como vivem e por onde andam as onças-pintadas do sertão nordestino é ter um indicador ambiental para saber, depois, o quanto a transposição do São Francisco afetou a região. Se as onças-pintadas continuarem por lá depois da obra, é sinal positivo. O projeto faz parte do Programa de Revitalização da Bacia do São Francisco, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com o da Integração Regional. Também conseguiu recursos na BM&F Bovespa. Onças, principalmente as pintadas, são animais glamourosos.

A majestade da espécie-símbolo da fauna brasileira, impressa nas cédulas de R$ 50, é inversamente proporcional ao que se conhece sobre o animal. “Nem sabemos o quanto uma onça-pintada vive”, diz Morato. “A cada pergunta que respondemos, surge uma nova.” Ele começou a carreira fazendo estágio no zoológico de Sorocaba, em São Paulo, o suficiente para perceber que queria mesmo era estudar animais em vida livre.

Morato trabalha com onças há 20 anos, há seis é o coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Mamíferos Carnívoros (Cenap), instituto que estuda uma lista de 26 espécies – de lobos-guará a ariranhas. Só de felinos são oito espécies, entre onças pintadas e pardas, jaguatiricas e gatos-do-mato. Dá para ver da estrada o painel gigante de uma onça-pintada nos vidros da sede do Cenap, em Atibaia. O centro foi criado há 17 anos e é um braço do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Os investimentos no projeto Ecologia e Conservação da Onça-Pintada no Médio São Francisco, ou simplesmente Onças da Caatinga, é de R$ 800 mil em quatro anos. A primeira campanha de captura para colocação do colar foi em 2010, e também não teve êxito. Não é fácil pegar um bicho desses. Os laços de aço são montados perto das áreas que elas costumam frequentar. “A gente identifica os pontos onde as onças passam, e deixamos os laços. Mas às vezes elas andam ao lado do laço e a gente só vê os rastros no dia seguinte. É difícil.”

Difícil é pouco. Para um mês de acampamento em setembro, levaram 300 litros de água por pessoa. Não há estradas, carro não chega, as pedras cortam os pneus. Equipamentos e água são levados a pé. Banho, só de caneca.

Quando dá sorte e a onça cai no laço, os pesquisadores lançam o dardo anestésico e começam a medir o animal: peso, tamanho, tamanho da pata, análise dos dentes. É a hora de colocar o colar com telemetria que pesa 800 gramas e tem um GPS instalado em uma caixinha, na parte da frente. Cada animal tem frequência própria. Depois, programam de quanto em quanto tempo o pesquisador receberá as informações por onde anda a onça – de duas em duas horas, por exemplo. Uma vez por semana, os dados são enviados ao e-mail do cientista pela empresa que administra o satélite. O colar pode ser programado para cair do pescoço depois de determinado período, e ser recolhido. “Fica, por exemplo, 400 dias na onça, e aí cai”, explica Morato.

“A tecnologia favoreceu muito o nosso trabalho”, diz ele. O avanço tecnológico tem seu preço, nada disso é barato. O Cenap usa colares da suíça Televilt, cada um a US$ 3.800. O contrato anual do satélite são outros US$ 1.200 por colar. Hoje existem 40 equipamentos do gênero em onças-pintadas no Brasil. Ao recolher várias informações sobre o comportamento do animal – desde como e para onde se desloca, quais ambientes procura, como se alimenta – os cientistas desenham o tamanho da “área de vida” da onça. “Vou vislumbrando o ambiente que posso sugerir para preservação”, explica Morato.

O “Onças na Caatinga” levantou recursos na BVS&A, portal da Bovespa que lista projetos sociais e ambientais. “Quem tiver interesse pode entrar lá, escolher o que acha interessante, e doar”, diz Sonia Favaretto, diretora de sustentabilidade da Bolsa. A iniciativa resultou em R$ 150 mil em dois anos. O Cenap trabalhou em parceria com a ONG Pró-Carnívoros, que ajuda a viabilizar os projetos de pesquisa.

O papel de regulador ecológico da onça-pintada não é o único. “Com a perda de espécies, perdem-se ambientes, ficamos mais expostos a catástrofes”, aponta Morato. A redução de predadores representa aumento das presas e mais pressão sobre a vegetação. “Isso, a longo prazo, diminui o estoque de carbono”, lembra. Morato defende que é preciso refletir sobre o valor econômico das onças-pintadas e o apelo turístico que representam.