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Sobre renzotaddei

Anthropologist, professor at the Federal University of São Paulo

>Recorde de 2010 confirma aquecimento global e é alerta para desastres climáticos (O Globo, JC)

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Extremo e perigoso

JC e-mail 4183, de 21 de Janeiro de 2011

Marcado por desgraças climáticas de todos os tipos, 2010 foi considerado na quinta-feira pela Organização Mundial de Meteorologia (OMM) uma prova de que o aquecimento global está em curso. Classificado como o ano mais quente desde 1850, quando os registros começaram, 2010 está estatisticamente empatado com 1998 e 2005.

Porém, ele confirma a tendência de aquecimento observada ao longo do século XX e neste começo do XXI. E a década de 2001 a 2010 foi a mais quente da História. Se as emissões de CO2 e outros gases-estufa não forem reduzidas, alertou a OMM, a Terra se tornará cada vez mais quente e instável.

Segundo a OMM, uma agência que integra as Nações Unidas, nenhum fator natural explica a elevação da temperatura do planeta. Os dois principais agentes naturais que influenciam a temperatura planetária foram descartados.

A ação de vulcões, na verdade, contribuiu para reduzir a temperatura e, possivelmente, aliviar o ritmo do aquecimento. Na última década a atividade solar também foi menor do que a normal, o que também teria contribuído para diminuir a temperatura.

As emissões por ação humana dos gases do efeito estufa, todavia, continuam a aumentar.

– 2010 confirma a tendência de aquecimento a longo prazo – declarou na quinta-feira, em Genebra, o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud.

O ano de 2010 foi excepcionalmente quente em quase toda a África, no sul e no oeste da Ásia, na Groenlândia e no Ártico canadense. A camada de gelo sobre o Ártico no verão nunca esteve tão fina, tornando uma das regiões mais frias da Terra (a mais fria é a Antártica) o canário da mina do clima. A OMM alertou que embora a mais forte La Niña desde 1974 esteja em curso contribuindo para reduzir a temperatura global, a tendência é que 2011 também seja um ano marcadamente quente.

Todo tipo de evento climático extremo foi registrado em 2010. Os especialistas da OMM explicam que aquecimento global não significa necessariamente só mais calor.

Aquecimento global implica em extremos climáticos. E 2010 teve uma abundância de ondas de calor e frio extremos, enchentes, supertufões, desmoronamentos e secas.

Isso acontece porque a elevação da temperatura global lança mais energia no sistema climático da Terra. Essa energia desequilibra a delicada e complexa dinâmica climática. É por isso que nevascas e ondas de frio rigoroso podem ser ligadas ao aquecimento global.

– A tendência de aquecimento, infelizmente, prosseguirá e se fortalecerá ano após ano. Porém, a amplitude do problema será determinada pela quantidade de gases do efeito estufa que o homem liberará – alertou Michel Jarraud.

Um estudo independente apresentado esta semana e baseado em dados da própria ONU estimou que até 2020 a Terra estará 2,4 graus Celsius mais quente, com severas consequências na produção global de alimentos. Uma elevação de 2 graus na temperatura média é suficiente para intensificar e multiplicar chuvas, secas e ondas de frio e calor.

– Temos que agir depressa para limitar as emissões – frisou Bob Ward, do Centro de Pesquisa de Mudanças Climáticas Grantham, da Universidade de Londres.
(O Globo, 21/1)

>Pânico pode alimentar ceticismo da população a respeito do aquecimento global (FSP, JC)

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Clima de alarmismo, artigo de Marcelo Leite

JC e-mail 4180, de 18 de Janeiro de 2011

Marcelo Leite é jornalista. Artigo publicado na “Folha de SP Online”:

A nova hecatombe na região serrana do Rio sugere que as previsões sobre desastres inomináveis no futuro, em decorrência da mudança do clima, podem não ser tão exagerados quanto afirmam os céticos do aquecimento global. Tudo depende de conectar causalmente esse tipo de desastre, e sua frequência, com as predições dos modelos climáticos de que uma atmosfera mais quente trará mais eventos meteorológicos extremos como esses – o que não é coisa trivial de fazer.

Pressupor tal conexão, no entanto, já foi muito criticado por pesquisadores do clima. Não haveria uma tragédia planetária por acontecer de imediato, como fantasiou o filme “O Dia Depois de Amanhã”. Agora, uma pesquisa de psicologia aplicada vem corroborar essa percepção, dizendo que mensagens alarmistas sobre a mudança climática podem ser contraproducentes e alimentar o ceticismo na população a respeito do aquecimento global.

O estudo foi publicado por Matthew Feinberg e Robb Willer em dezembro no periódico Psychological Science. Usaram dois experimentos para “provar” que mensagens alarmistas de fato aumentam o ceticismo por contradizerem a tendência das pessoas a acreditar que o mundo é justo.

Se a mudança do clima vai matar, empobrecer ou prejudicar também pessoas inocentes, como as crianças afogadas em lama no Rio, uma reação natural das pessoas seria duvidar de que o aquecimento global seja uma realidade. Li rapidamente o artigo e os dois experimentos não me convenceram muito, mas fica o convite para o leitor formar sua própria opinião.

A tese, porém, é boa. Com efeito, é de pasmar a capacidade de muita gente de não enxergar – ou não querer ver – como são abundantes os indicativos da ciência de que há, sim, uma mudança climática em curso.

Uma explicação, obviamente, é político-ideológica. Muitos optam por não acreditar em aquecimento global porque acham que é uma conspiração dos socialistas para extinguir a liberdade empresarial (por meio de regulamentação) ou a liberdade individual de dirigir jipões movidos a diesel, mas também há socialistas e comunistas – como no Brasil – convencidos de que a conspiração é de imperialistas americanos para impedir o desenvolvimento de países emergentes como o Brasil.

Quem reage irracional e psicologicamente ao alarmismo ou ideológica e canhestramente a fantasmas conspiradores vai ter razão de sobra para se tornar ainda mais cético diante do sítio de internet Global Warning (um trocadilho intraduzível entre Global Warming – aquecimento global – e Global Warning – alerta global).

Trata-se de um esforço para vincular aquecimento global com ameaças à segurança doméstica dos EUA – de bases militares ameaçadas de inundação à dependência de combustíveis fósseis importados. Ou seja, para sensibilizar o americano médio, conservador e republicano e diminuir seu ceticismo diante do fenômeno.

Se Feinberg e Willer estiverem certos, o tiro vai sair pela culatra. E os socialistas céticos tupiniquins vão babar um pouco mais de raiva dos imperialistas.
(Folha de SP Online, 17/1)

>Governo do Ceará quer tirar licenciamentos da Superintendência de Ambiente (FSP)

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17/01/2011 – 21h04

PAOLA VASCONCELOS
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DE FORTALEZA

O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), enviou à Assembleia do Estado um projeto que permite a dispensa de licenciamento ambiental de obras públicas ou privadas de “interesse social”.

Sob a justificativa de possibilitar “o desenvolvimento de obras e atividades de relevância com celeridade”, o texto, que deve ser votado nos próximos dias, vem causando polêmica.

A própria titular da Superintendência Estadual do Meio Ambiente, Lúcia Teixeira, já se manifestou publicamente contra o projeto. O órgão hoje tem competência exclusiva para licenciamentos ambientais no Ceará.

Com o projeto, a responsabilidade nos casos de “interesse social” é transferida para o Conpam (Conselho de Políticas e Gestão do Meio Ambiente), órgão ligado diretamente ao governador.

Apesar de ter assinado a proposta, Cid Gomes recuou e disse não estar convencido sobre o assunto. No entanto, ainda não retirou o texto da tramitação. Existe a possibilidade de a Procuradoria-Geral do Estado fazer alterações.

O deputado estadual Heitor Férrer (PDT) considerou um “estupro à natureza”.

“A obra é de caráter social e o meio ambiente que se lixe? O licenciamento ambiental tem que existir, não existe dispensa para isso. É inconstitucional”, disse Férrer.

O PV do Ceará também divulgou nota posicionando-se “radicalmente contra”.

O deputado Wellington Landim (PSB), à frente do bloco governista na Assembleia, disse que muitos projetos estão emperrados por “excesso de burocracia” na concessão das licenças.

“Não se trata de querer aprovar tudo, mas apenas de receber sim ou não como resposta. Há problemas de ordem exagerada na burocracia”, disse.
A superintendência informou, por meio de nota, que a demora no processo de licenciamento é necessária para que os critérios técnicos sejam verificados com eficácia.

Disse também que os procedimentos adotados são respaldados pela legislação

>Ministros anunciam novo sistema de monitoramento e alerta de desastres (G1)

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JC e-mail 4179, de 17 de Janeiro de 2011

Presidente Dilma se reuniu com quatro ministros nesta segunda (17/1), entre eles Aloizio Mercandante, da C&T, e definiu estruturação do Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais

Depois de uma reunião com a presidente da República, Dilma Rousseff, ministros do governo anunciaram nesta segunda-feira (17) uma reformulação no sistema de monitoramento, alerta e resposta a desastres, como o registrado na região serrana do Rio de Janeiro nos últimos dias.

Participaram do encontro os ministros da Defesa, Nelson Jobim; da Integração Nacional, Fernando Bezerra; da Justiça, José Eduardo Cardozo; e da Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante.

O Ministério da Ciência e Tecnologia começará a trabalhar na estruturação do Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais.

Segundo o ministro Mercadante, 58% dos desastres naturais no Brasil são inundações e 11% deslizamentos.

“O peso dos desastres naturais decorrentes de fortes chuvas está se acentuando, e nós precisamos recorrer aos sistemas de prevenção”, disse Mercadante.

Ele afirmou ainda que a capacidade de previsão do sistema de monitoramento do clima será ampliada por meio de um supercomputador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). “Queremos já implantar parte desse sistema nas áreas mais críticas para o próximo verão”, disse o ministro.

Ainda de acordo com o Ministério da Ciência e Tecnologia, o Brasil tem cerca de 500 áreas de risco de deslizamento de encostas, onde vivem cerca de 5 milhões de pessoas. O número de locais com alerta para inundações chega a 300 em todo o país.

A intenção é gerar informações geoespecializadas dessas áreas de risco para aprimorar a capacidade de previsão. Segundo Mercadante, é preciso adquirir novos equipamentos e conectá-los em um sistema único. A previsão do governo para concluir o trabalho de montagem do sistema é de quatro anos.

A estrutura, segundo o ministro, deve contar com uma sede central de coordenação e escritórios espalhados pelas cinco regiões do país. O sistema será comandado pelo pesquisador Carlos Afonso Nobre, coordenador do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC) do Inpe entre 1991 e 2003.
(Informações do G1, 17/1)

>Chuvas: quem é que vai pagar por isso?

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Por Vilmar Sidnei Demamam Berna*

Não existe explicação que justifique a repetição freqüente e previsível,
verão após verão, de tantas perdas de vida e de patrimônio em função das
chuvas. Temos gente com conhecimento, tecnologias, recursos, então, por que
este problema repete-se em todos os verãos, como já previu Tom Jobim, na
música “Águas de março”?

Dizem que não é de bom tom, e que chega a ser cruel, no momento da tragédia,
quando se contam os mortos e os prejuízos, cobrar culpas e
responsabilidades. Entretanto, em respeito aos que morreram agora, e em
respeito aos que poderão morrer no próximo verão, temos de remexer nesta
ferida. Lembro a pergunta do Lobão, na canção Revanche: “Quem vai pagar por
isso? Até quando as autoridades permitirão, por ação ou omissão, a ocupação
das áreas de encosta frágeis pela sua própria natureza, que irão deslizar de
qualquer jeito, com ou sem floresta por cima? Até quando as margens de rios
e as áreas de várzeas continuarão sendo ocupadas, mesmo com todos sabendo
que mais dia ou menos dia encherão? Antigamente, só os mais pobres eram
afetados, mas agora, os ricos e a classe média também contam seus mortos.
Antes, o problema atingia mais duramente as áreas de risco, mas agora até as
áreas consideradas seguras estão sendo atingidas. E alguns ainda resistem em
admitir o impacto das mudanças climáticas.

Precisamos aprender com os erros, pois se não fizermos isso, é certo que
voltaremos a repeti-los. E entre os mais graves erros está o de só liberarem
recursos para as Prefeituras diante da emergência ou calamidade! Por que não
se liberam recursos antes, já sabendo que cada real gasto em prevenção
economiza mais de 10 na reparação do desastre?

As leis de uso do solo, os planos diretores, as políticas de licenciamento,
estão completamente ultrapassadas ou mesmo mal feitas e precisam ser
revistos para impedir a ocupação das áreas frágeis ainda desocupadas. Onde
estão nossos vereadores tão céleres para conceder títulos e aprovar emendas
ao orçamento para seus bairros?

Quanto às áreas já ocupadas, onde estão nossos prefeitos e governadores para
promoverem sua desocupação, com ordenamento e inteligência, pois se
continuar a não ser feito por bem, a natureza fará por mal, verão após
verão! As populações de baixa renda que foram deixadas à própria sorte para
ocupar áreas de risco e não edificantes precisam ser realocadas. Onde estão
nossas autoridades do Governo Federal e seus programas habitacionais para
essas populações de baixa renda? Poderiam estar incentivando mutirões
remunerados e o cooperativismo para que os próprios futuros moradores
construíssem suas próprias casas, após receberem a devida capacitação, e
apoio técnico necessário, em áreas seguras, gerando trabalho e renda,
aproveitando para incorporar tecnologias limpas e ecoeficientes.

As unidades de conservação, parques e bosques urbanos não seriam só para a
proteção da natureza, mas para proteger as pessoas da natureza. Na medida em
que as áreas de risco fossem desocupadas, em seu lugar seriam criadas essas
unidades de conservação no local, e cada metro quadrado daria ao município o
direito de receber repasses federais e estaduais que os compensassem pela
perda de receita com os impostos, que deixarão de arrecadar sobre estas
áreas protegidas, como já é feito pelo ICMS Ecológico.

Os profissionais de imprensa, por sua vez, vivem em momentos assim situações
equivalente a dos correspondentes de guerra. Como se proteger e ao mesmo
tempo estar na linha de frente dos acontecimentos? Como lidar com fontes
emocionadas, desinformadas, mal informadas? Como improvisar quando o
equipamento falha? Como encontrar as alternativas para transmitir os dados a
serem divulgados? Como lidar com o emocional e o profissional diante dos
dramas vividos pelas pessoas e pelo próprio profissional? Ate aonde ir neste
envolvimento sem prejudicar a tarefa de colher e transmitir a informação?
Como lidar com pessoas fragilizadas sem ser invasivo ou insensível diante da
dor alheia? Como fazer o seu trabalho sem atrapalhar ao trabalho dos outros,
do pessoal do resgate? Como colocar o foco na noticia, ir à raiz do
problema, fazer as perguntas certas às pessoas certas? Não dá para se
imaginar que toda essa capacitação e prontidão para as respostas acontecerão
por um acaso. Onde estão os cursos de capacitação para profissionais de
comunicação que precisam cobrir desastres e calamidades?

A solidariedade humana surpreende em momentos de desastre, como surpreende
também o despreparo. Muito trabalho voluntário é perdido por que falta
coordenação, sistemas de aviso e comunicação, planejamento das ações, onde o
trabalho voluntário ajuda e onde atrapalha, onde é mais necessário, etc. E
nada disso é possível fazer durante o desastre. Então, precisa ser feito
antes. Entretanto, onde estão os cursos de capacitação para voluntários?
Como eles podem ser avisados e serem mantidos informados? A quem recorrer
para serem encaminhadas para a linha de frente de trabalho voluntários? Quem
os ampara psicologicamente diante dos dramas e perdas que irão assistir e
com os quais terão de conviver? Sim, por que ao lado das perdas materiais,
as pessoas sofrem com terríveis perdas espirituais, que podem ser tão ou
mais devastadoras que as perdas materiais. As pessoas podem desmoronar por
dentro, perder o estimulo e a motivação para lutar e se reerguer. Como lidar
com crianças resgatadas sozinhas, que se tornaram órfãos da noite para o
dia, perderam a casa e todas as referências? O lar não está na casa perdida,
nos bens materiais, nos documentos históricos. O lar é espiritual. Está onde
estiver a família ou o que sobrou dela. Pode estar num estádio que reúne os
sobreviventes.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista. Em Janeiro de 1996,
fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br)
e edita desde então a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do
Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (www.portaldomeioambiente.org.br).
Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio
Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas –
http://www.escritorvilmarberna.com.br

>Blame game begins in wake of deadly Brazil floods (CSM)

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As the Brazil floods continue, some blame municipalities for allowing residents to build in insecure areas, while others blame the federal government for misallocating funds

By Andrew Downie, Correspondent / January 14, 2011
São Paulo, Brazil

A resident looks at a destroyed house after a landslide in Teresopolis, Brazil, on Jan. 13. Rescue workers struggled on Thursday to reach areas cut off by floods and landslides that have killed at least 511 people in one of Brazil’s worst natural disasters in decades. Bruno Domingos/Reuters.

With rain still falling in parts of Rio de Janeiro and the death toll from massive flooding topping 500, authorities and experts turned their attention to apportioning blame and deciding how to avoid repeats of what has become a familiar tale in Brazil.

Local officials estimate the death toll at 511 so far, concentrated in four hillside cities north of Rio de Janeiro, after torrential rains caused rivers to jump their banks and hillsides to give way. While national and state authorities are pinning the blame on municipalities for allowing citizens to build in insecure areas, the federal government itself is coming under scrutiny for recently slashing its budget for handling natural disasters.

“There is carelessness at every level of government,” says Gil Castello Branco, the secretary general of Contas Abertas, a non-profit that monitors government spending. “We turn that old saying on its head: We aren’t safe, we are sorry.”

Federal government cut budget for disaster prevention

Even though annual flooding is common around Rio, a proposed national center for disaster management never got off the drawing board and the federal budget for disaster prevention and preparation measures is down 18 percent in 2010, says Mr. Castello Branco.

Last year the government spent just 40 percent of the cash allocated for disaster prevention and preparation, and more than half of that went to Bahia, a state that had no major disasters, because the minister in charge of disbursing funds was running for governor there, Castello Branco says in a telephone interview.

“We are not saying it was illegal, but Bahia should never have got half the money,” he says. “It was in [the minister’s] political interest but not in society’s.”

Triumphant rescues

The flooding that began in the past week is being described as the worst natural disaster in Brazilian history. Footage of the worst-hit areas looked like it came from a Hollywood disaster movie.

One cameraman caught the remarkable scene of a housewife being hauled to safety through roaring river with just a rope around her waist. Another caught the joy of rescue workers discovering a baby alive after being buried in mud for 12 hours.

However, those were rare positive moments.

“It was like something out of Noah’s Ark,” says Marcos Maia, a 31-year old who lost five members of his family and spent most of Wednesday helping out at the local morgue. “An avalanche of rocks just washed their house away.”

When asked to describe the road where he lived, Mr. Maia told the Monitor by telephone: “Now there is no road. It’s just a muddy river.”

It was a rude awakening for Brazilian President Dilma Rousseff, who took office less than two weeks ago and stopped off in one of the cities, Nova Friburgo, for 45 minutes on Thursday. Ms. Rousseff promised the state of Rio de Janeiro more than $1 billion in aid by 2014 but played down the fact this was the third major disaster caused by flooding in the last three years in Brazil, and the second consecutive tragedy in Rio.

Rousseff blames municipalities

Rousseff and Rio state governor Sergio Cabral put the problem down to decades of lax oversight by municipal authorities who allowed people – mostly poor people – to build houses on hillsides vulnerable to landslides. Mr. Cabral said 18,000 people lived in high risk areas in the city of Rio de Janeiro alone and said the city’s mayor would need to make the unpopular decision of removing them.

“Building houses on high risk areas is the rule in Brazil, not the exception,” Rousseff added. “You have to get people away and into secure areas. The two fundamental issues are housing and land use” and that involves putting proper drainage and sewage systems in place.

Experts, however, cautioned that such plans can take decades to carry out and said that politicians have failed to take such sensible steps to avoid repeated tragedy. Floods killed 133 people in the southern state of Santa Catarina in 2008 and left more than 200,000 people homeless in the impoverished Northeast in 2009. In 2010, floods killed 53 people when an entire neighborhood built on a hillside garbage dump gave way in Rio.

>Abertura de represa em Franco da Rocha (SP) foi irresponsável, diz PDT (UOL)

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13/01/2011 – 15h53
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O PDT (Partido Democrático Trabalhista) anunciou nesta quinta-feira (13) que vai entrar com uma ação contra a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico de São Paulo) exigindo apuração rigorosa e cobrando indenização para os moradores de Franco da Rocha prejudicados pelas enchentes desta semana.

Para o partido, a abertura das comportas da represa Paiva Castro, que deixou parte da cidade submersa, foi irresponsável. Escolas, casas, comércios, o fórum, o prédio da prefeitura e a delegacia estão cercados por água devido à decisão da direção da Sabesp.
Enchente paralisa serviços em Franco da Rocha (SP)

“A falta de planejamento da Sabesp, somada a uma comunicação precária, prejudicou milhares de pessoas. Não podemos nos calar diante de tal irresponsabilidade e insensibilidade social por parte da empresa”, afirma o presidente do PDT estadual, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho. “Pela incompetência demonstrada, e pela falta de respeito para com a população, o presidente da Sabesp, Gesner Oliveira, deve ser demitido.”

A direção do PDT também estuda entrar com ação em outras localidades prejudicadas pela mesma situação.

A Sabesp informou que reduziu a vazão da represa. Apesar da medida, a cidade permanecia com a região central alagada. A vazão, que chegou a ser de 80 m3 por segundo, passou a ser de 10 m3/s às 9h de hoje. Apesar disso, a prefeitura afirmou por meio de sua assessoria que a medida ainda não traz tranquilidade a administração municipal devido à chuva que continua atingir a região nesta quinta-feira.

Nesta quarta, o prefeito Márcio Cecchettinio (PSDB) afirmou esperar da Sabesp, responsável pela barragem, uma resposta definitiva sobre a abertura das comportas. Ele ressaltou que gostaria que elas fossem fechadas para que a cidade pare de ser alagada.

A Prefeitura informou que as fortes chuvas elevaram o nível da água represada no Sistema Cantareira e um alerta foi lançado para a necessidade de dar vazão à água e manter o nível máximo de segurança.

O sistema é composto por seis barragens, que passam pelos municípios de Bragança Paulista, Piracaia, Vargem, Joanópolis, Nazaré Paulista, Franco Da Rocha, Mairiporã, Caieiras. A represa de Paiva Castro fica na parte mais baixa, portanto recebe a água acumulada nos demais pontos do sistema.

>Sabesp diz que abertura de comportas de represa em Franco da Rocha era "inevitável" (R7)

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Vice-prefeito atribuiu alagamento em Franco da Rocha à ação da empresa
João Varella, do R7

Entorno do Hospital Estadual do Juqueri, na região central de Franco da Rocha, ficou completamente alagado na manhã desta quarta-feira (12). Luis Cleber/AE.

A direção da Sabesp, empresa responsável pelo saneamento básico em São Paulo, negou que a abertura das comportas da represa Paiva Castro tenha alagado a cidade de Franco da Rocha, na região metropolitana. A empresa atribuiu a enchente – no início da noite desta quarta-feira (12) partes do município permaneciam alagadas – a chuvas fora do comum e informou que a abertura da represa era “inevitável”. Caso contrário, a barragem se romperia e o alagamento seria ainda pior, disseram dirigentes da empresa.

Em entrevista na tarde desta quarta-feira, o presidente da Sabesp, Gesner Oliveira, afirmou que “as represas estão atenuando a ação das chuvas” em Franco da Rocha. Segundo o vice-prefeito, José Antônio Pariz Júnior, o alagamento foi provocado pela abertura da represa Paiva Castro, que, na manhã de terça-feira (11), atingiu o nível máximo.

Paulo Masato, diretor da Sabesp na região metropolitana, confirma que a abertura das comportas é responsável pela permanência da enchente em Franco da Rocha, mas ressalva que a ação era inevitável, uma vez que a represa estava muito cheia por causa das chuvas que atingiram a região. Segundo a Sabesp, a água será escoada gradualmente. Partes da cidade permanecem alagadas, porque o rio Juqueri tem agora capacidade menor de escoamento do que a represa demanda.

– Já tínhamos avisado a Defesa Civil e tivemos que tomar essa decisão de abrir mais as comportas. A Defesa Civil estava junto com a Sabesp. O que tem que fazer é melhorar a canalização do rio Juqueri.

No período das cheias, as represas retêm boa parte da vazão de água que chega ao rio, liberando esse volume aos poucos, de forma controlada, evitando ou reduzindo o impacto das inundações. Segundo Oliveira, a Sabesp segue todas as regras da ANA (Agência Nacional das Águas).
Se não chover, a previsão é de, na noite desta quarta-feira, a abertura comportas seja reduzida, diminuindo assim a área alagada. Masato diz que, a partir de agora, o volume de água no rio Juqueri deve começar a baixar. Segundo ele, no final da manhã desta quarta-feira, a represa Paiva Castro liberava 37,92 m³/s de água. Entre a 0h e a 7h, a barragem chegou a liberar 80 m³/s.

– A represa passou de um nível de 45% de água para, em menos de 18 horas, ir para 97%. Estamos descarregando agora 50 m³/s. A partir das 19h, vamos liberar só 10 m³/s. Isso, se não voltar a chover.

A vazão média da represa é de 1 m³/s – cada metro cúbico de água equivale a 1.000 litros (volume de uma caixa d’água residencial).

O recorde histórico de vazão se deu em janeiro de 1987, quando a represa passou a expelir média de 85 m³/s de água por quatro dias.

Cloro

O presidente da empresa anunciou que haverá distribuição de cloro para a população de Franco da Rocha. O produto deverá ser usado na higienização de casas que foram alagadas. Tendas da Sabesp estão sendo montadas na cidade para orientar os moradores.

– Faremos tudo que é necessário para mitigar os efeitos da chuva e colaborar com qualquer ação que as prefeituras venham a precisar.

Segundo a Sabesp, a prefeitura decidirá quando inicia a distribuição, que começará na estação de trem de Franco da Rocha.

Trovão

Masato teve sua explicação sobre o funcionamento da represa de Paiva Castro interrompiada pelo som de um relâmpago que anunciava chuva que cairia na capital paulista neste quarta-feira (12). A cidade foi colocada em estado de atenção às 17h50.

>Clima ajudou queda de Império Romano (FSP, JC)

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JC e-mail 4178, de 14 de Janeiro de 2011

Estudo mostra que, a partir do século 3, esfriou e parou de chover no Império, e a agricultura entrou em colapso

Não é a resposta que quem corrige vestibulares espera, mas um novo estudo diz que, entre os fatores que levaram o Império Romano ao fim, está uma mudança climática.

Pesquisadores da Universidade Harvard e de várias instituições europeias mostraram que, no auge da expansão de Roma, o clima era quente e chuvoso. Isso fortalece a agricultura e, assim, ajuda a alimentar grandes exércitos, além de permitir uma economia pujante, evitando insatisfações internas.

Isso aconteceu por volta do ano 100 d.C., quando o Mediterrâneo virou um “lago romano”, e o Império chegou a colocar os pés até no Norte da atual Inglaterra, onde concluiu, em 126 d.C., a muralha de Adriano, para manter os inimigos afastados.

Uma hora, porém, a prosperidade acabou. A partir do meio do século 3, mudanças climáticas tornaram o Império Romano mais seco e frio.

Segundo o grupo internacional de pesquisadores, que publicou suas conclusões na “Science”, isso certamente afetou a produção de alimentos e pode ter estimulado causas tradicionalmente relacionadas à decadência de Roma, como a inflação.

Certamente políticas monetárias erradas colaboraram para piorar o cenário de crise econômica, dizem, mas não é por isso que se deve, nas palavras de Jan Esper, da Universidade Johannes Gutenberg (Alemanha), “seguir a crença comum de que civilizações estão isoladas de variações ambientais”.

Para saber como era o clima há tanto tempo, os cientistas analisaram 9.000 pedaços grandes de madeira antiga. A maioria veio de restos de construções e artefatos de madeira na Europa.

Cada ano cria um anel único no tronco da árvore. Pacientemente, os cientistas foram retrocedendo, comparando pedaços de madeira cada vez mais antigos.

O desafio era ir criando uma sequência história de troncos: quando não havia mais como retroceder nos anéis de um, ter um novo pedaço de madeira, mais antigo, para seguir.

Conforme a grossura desses anéis, é possível saber quanto choveu e se fez frio ou calor naquele ano.

Os cientistas destacam que a existência de mudanças climáticas em um período pré-Revolução Industrial não significa que o aquecimento global contemporâneo seja natural. “O que está acontecendo agora não tem precedentes, é muito mais rápido”, dizem os cientistas.

A ideia de que fatores ambientais, mais do que políticos, levam sociedades ao colapso ganhou força em 2005, quando o biogeógrafo americano Jared Diamond lançou o livro “Colapso”. Nele, Diamond mostra como coisas como a exploração excessiva da madeira ou da pesca levaram sociedades à crise.

Não existia grande material científico, em 2005, sobre como o ambiente tinha atingido Roma. Os romanos, ao menos, não tiveram culpa pelas mudanças no clima que atingiram seu Império.
(Ricardo Mioto)
(Folha de SP, 14/1)

>"La Niña" explica inundações em vários países do mundo (FSP, JC)

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JC e-mail 4178, de 14 de Janeiro de 2011

Fenômeno tem causado chuvas torrenciais desde o ano passado

Menos conhecido e menos frequente que o “El Niño”, o “La Niña” é um fenômeno natural que resfria as águas do oceano Pacífico e produz mudanças na dinâmica atmosférica. Assim como o primeiro, também pode impor um padrão distinto de comportamento climático em todo o mundo.

O último episódio do “La Niña” atinge agora seu pico e, segundo estudiosos, pode se estender até o meio deste ano. Seus primeiros efeitos, avaliados como sendo de intensidade moderada a forte, começaram a ser percebidos em meados de 2010.

O fenômeno pode ser o responsável por inundações na Austrália e nas Filipinas, onde dez pessoas morreram desde o início deste mês.

As chuvas torrenciais que mataram centenas de pessoas na Venezuela e na Colômbia, em novembro e dezembro, também são reflexos do “La Niña”.

A inundação no Paquistão, em agosto do ano passado, encaixa-se nos efeitos do fenômeno.

Naquele país, os reflexos do “La Niña” foram particularmente ruins. Na região, o “La Niña” foi imediatamente seguido pelo “El Niño”, que tende a deixar as temperaturas no oceano Índico mais altas que o normal.

O ar mais quente contém mais vapor de água e assim pode produzir mais chuva.

“Os padrões altos de precipitação do “La Niña”, aliados ao calor após o “El Niño”, ajudam a explicar por que as inundações no Paquistão foram tão devastadoras”, diz o especialista Kevin Trenberth, do Centro Americano para Pesquisa Atmosférica.

Mares mais quentes na Austrália também podem explicar a dimensão das atuais inundações.

Devido ao aquecimento das águas, as inundações, em associação ao “El Niño”, devem se agravar em breve. E esses não são os únicos danos que o fenômeno pode causar. Nos próximos meses, a corrente “La Niña” pode fazer mais vítimas em outras partes do mundo.

De acordo com um estudo da Cruz Vermelha e do Instituto Internacional de Pesquisas de Clima e Sociedade, chuvas fortes podem ser esperadas no norte da América do Sul e no sudoeste da África nos próximos dois meses.

Em fevereiro de 2000, as enchentes devastadoras em Moçambique, na África, ocorreram exatamente quando o “La Niña” estava próximo do seu pico.
(Folha de SP, 14/1)

>Clima não pode justificar falta de ação contra enchentes, diz especialista (JC)

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JC e-mail 4177, de 13 de Janeiro de 2011

Para diretora de centro de pesquisas sobre desastres, governos não podem evitar chuvas, mas devem agir para prevenir consequências

O aumento da incidência de chuvas em consequência das mudanças climáticas globais não pode servir de desculpa para os governos não agirem para evitar enchentes, na avaliação de Debarati Guha-Sapir, diretora do Centro de Pesquisas sobre a Epidemiologia de Desastres (Cred), de Bruxelas, na Bélgica.

“Não é possível fazer nada agora para que não chova mais. Mas temos que buscar os fatores não ligados à chuva para entender e prevenir desastres como esses [das enchentes no Brasil e na Austrália]”, disse ela à BBC Brasil.

“Dizer que o problema é consequência das mudanças climáticas é fugir da responsabilidade, é desculpa dos governos para não fazer nada para resolver o problema”, critica Guha-Sapir, que é também professora de Saúde Pública da Universidade de Louvain.

O Cred vem coletando dados sobre desastres no mundo todo há mais de 30 anos. Guha-Sapir diz que os dados indicam um aumento considerável no número de enchentes na última década, tanto em termos de quantidade de eventos quanto em número de vítimas.

Segundo ela, as consequências das inundações são agravadas pela urbanização caótica, pelas altas concentrações demográficas e pela falta de atuação do poder público.

“Há muitas ações de prevenção, de baixo custo, que podem ser adotadas, sem a necessidade de grandes operações de remoção de moradores de áreas de risco”, diz, citando como exemplo proteções em margens de rios e a criação de áreas para alagamento (piscinões).

Para a especialista, questões como infraestrutura, ocupação urbana, desenvolvimento das instituições públicas e nível de pobreza e de educação ajudam a explicar a disparidade no número de vítimas entre as enchentes na Austrália e no Brasil.

“A Austrália é um país com uma infraestrutura melhor, com maior capacidade de alocar recursos e equipamentos para a prevenção e o resgate, com instituições e mecanismos mais democráticos, que conseguem atender a toda a sociedade, incluindo os mais pobres, que estão em áreas de mais risco”, afirma.

Para ela, outro fator que tem impacto sobre o número de mortes é o nível de educação da população. “Pessoas mais educadas estão mais conscientes dos riscos e têm mais possibilidades de adotar ações apropriadas”, diz.

Apesar disso, ela observa que a responsabilidade sobre as enchentes não deve recair sobre a população. “Isso é um dever das autoridades. Elas não podem fugir à responsabilidade”, afirma.
(BBC Brasil, 13/1)

>El Niño violento dá lugar a uma poderosa La Niña e intriga cientistas (JC)

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JC e-mail 4175, de 11 de Janeiro de 2011.

Clima de extremos

Quando o assunto é clima, o planeta tem sido regido por extremos. Ou El Niño – ocasião em que o Pacífico Equatorial se aquece acima da média – ou La Niña, quando a mesma região fica anormalmente fria. Ambos os fenômenos causam distúrbios de alcance global.

A passagem de um extremo a outro sempre ocorreu. O que preocupa é a velocidade com que ela tem acontecido. Nos últimos 60 anos, houve apenas uma vez em que um desses fenômenos foi imediatamente sucedido pelo outro, em 1972-1973. Agora, a mudança drástica voltou a ocorrer no biênio 2010-2011, intrigando especialistas.

Até o meio do ano passado, o planeta aquecia sob a influência do El Niño. O fenômeno foi o responsável por 2010 ter chegado ao fim como o ano mais quente desde o início dos registros meteorológicos, em 1850. Logo depois, para a surpresa dos pesquisadores, o clima esfriou sob a La Niña, cuja duração deve se estender até abril.

– Não há uma explicação definitiva para uma flutuação tão grande das temperaturas no Pacífico – admite Paulo Cesar Rosman, professor de Engenharia Oceânica e Costeira da Coppe. – Alguns pesquisadores atribuem este fenômeno a problemas geológicos, de vulcanismo, mas nenhuma hipótese foi comprovada até agora.

Transição no ano passado foi anormal

A resposta deverá vir da Organização Meteorológica Mundial (OMM), num relatório com lançamento previsto para as próximas semanas. Pesquisadores da instituição passaram os últimos meses na América do Sul, analisando as mudanças climáticas e eventos extremos do continente. Também foi revisado o histórico de medições de temperatura do Pacífico da última década.

– A transição de um desses fenômenos para outro não é normal; não de uma forma tão rápida – ressalta Ghassem Asrar, codiretor do Departamento de Pesquisas da OMM e diretor do Programa Mundial de Pesquisa Climática. – Normalmente El Niño e La Niña estão separados por períodos significativos de situações neutras, ou seja, anos em que a temperatura da água no Pacífico Equatorial não está muito quente ou muito fria.

De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), de 2007, não há indícios de que os meninos do clima terão frequência ou extensão aumentadas este século. Suas principais consequências, no entanto, podem dar as caras mais vezes.

– É possível que cresçam os eventos extremos, associados ou não ao El Niño e La Niña – alerta Asrar. – As ondas de calor e as chuvas rigorosas, por exemplo, vão se tornar cada vez mais frequentes.

Cheias devastadoras no verão da Austrália

A mais recente catástrofe do clima está associada à La Niña. Em nota divulgada na semana passada, o governo australiano culpou o fenômeno pelas enchentes do estado de Queensland, que já deixaram cinco mortos e 75 mil pessoas isoladas, devido ao alagamento de estradas, ferrovias e aeroportos. O ano passado, quando começou o atual La Niña, foi o terceiro entre aqueles com mais precipitações da história do país.

– Embora a intensidade de El Niño e La Niña seja o mais importante fator para avaliar riscos climáticos, os eventos extremos podem se desenvolver como consequência de outras interações entre os oceanos e atmosfera – ressalta Rupa Kumar Kolli, pesquisador da OMM e especialista nos dois fenômenos. – Nem tudo depende da temperatura do Pacífico Equatorial.

Por romperem os padrões normais de circulação atmosférica, El Niño e La Niña mudam modelos climáticos típicos de cada região. Sua força é ainda mais visível nas regiões tropicais. O Brasil, país de dimensões continentais, recebe sinais nítidos de ambos os fenômenos.

– O La Niña leva chuva ao Nordeste, o que é bom; em compensação, o Sul fica seco. No El Niño, ocorre o inverso – explica Rosman. – Até a ressaca do mar segue um desses modelos. Durante o El Niño, o Posto 5,
em Copacabana, desaparece. A Marina da Glória é tomada por ondas. Os fenômenos são lentos, progressivos e cumulativos. Acontece que as pessoas só notam os problemas quando eles atingem o seu ápice. Quando cai a mureta da Praia do Arpoador, por exemplo.

No Rio, a La Niña facilitará a entrada de frentes frias neste verão. Ainda assim, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a temperatura pode ficar acima da média histórica. O índice de chuvas está dentro do normal, mas haverá “grande variabilidade espacial e temporal em sua distribuição” – ou seja, as precipitações podem ocorrer mais concentradas (portanto mais rigorosas), e períodos de seca não são descartados.

Mil anos de efeito estufa

Uma pesquisa publicada ontem na revista “Nature Geoscience” revela que o acúmulo de gases-estufa na atmosfera causará efeitos ininterruptos no clima global por, no mínimo, mil anos. A longa duração do evento será suficiente para provocar o colapso da camada de gelo da
Antártica Ocidental até o ano 3000. Com isso, haverá um aumento do nível dos oceanos de, no mínimo, quatro metros.

Esta é a primeira simulação de modelo climático a fazer previsões de um período tão grande. Para trabalhar com um cenário de 1.000 anos a partir de agora, os pesquisadores basearam-se em hipóteses mais otimistas, ou seja, de emissões de gases-estufa zeradas a partir de determinado momento, que variava entre 2010 e 2100.

– Criamos uma série de cenários – explica Shawn Marshall, professor de geografia da Universidade de Calgary, do Canadá, que desenvolveu a pesquisa junto ao Centro Canadense de Modelagem e Análise Climática. – “E se interrompêssemos completamente o uso de combustíveis fósseis e não emitíssemos mais gás carbônico na atmosfera? Quanto tempo demoraríamos para reverter os padrões atuais de mudanças climáticas? Primeiro a situação ficaria pior?”.

Outra pesquisa publicada pela revista indica que as geleiras de montanha podem perder entre 15% e 27% de seu volume até o fim do século, o que afetaria fortemente a disponibilidade de água para os centros urbanos. Entre as regiões mais afetadas estão a Nova Zelândia, que pode perder 72% de suas geleiras, e os Alpes (75%). O degelo provocaria um aumento médio do nível do mar em 12 centímetros.
(Renato Grandelle)
(O Globo, 11/1)

>Ciência ao alcance dos sertanejos (JC)

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JC e-mail 4175, de 11 de Janeiro de 2011.

Projeto da Ufersa levará conhecimento às escolas públicas do semiárido do Rio Grande do Norte

A Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa) irá executar, a partir de fevereiro, o Projeto Ciência para Todos no Semi-Árido Potiguar. O projeto, que tem como coordenadora a professora Celicina Maria da Silveira Borges Azevedo, foi submetido aos ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação, com colaboração da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern).

Já aprovado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o projeto objetiva despertar nos adolescentes de Escolas públicas de ensino médio do semiárido nordestino a curiosidade científica.

“A nossa proposta é treiná-los no uso da metodologia científica e realizar uma grande feira de ciências com, no mínimo, 100 projetos feitos pelos estudantes através do uso do método científico nas mais diversas áreas do conhecimento”, explica a professora Celicina Borges.

Ainda segundo a professora, a proposta foi concebida depois da experiência em projetos para a melhoria do ensino de ciências nas Escolas públicas da 12ª Diretoria Regional de Educação, Cultura e Desportos (Dired). Para possibilitar o aumento da experiência, a intenção é dar continuidade e ampliar o trabalho para outras Direds, como a 13ª, 14ª e 15ª.

Todas as 77 escolas de ensino médio dessas Direds serão contempladas. No total, 49 cidades, o que corresponde a 29% dos municípios do estado, todos na região do semiárido. O projeto tem custeio global de mais de R$ 190 mil.

A professora explica que o cronograma será dividido em cinco etapas. A primeira com a capacitação de professores, seguida de oficinas de construção de projetos e visitas de acompanhamento aos trabalhos desenvolvidos. A segunda será a realização, das Escolas, de suas próprias feiras de ciências e a escolha dos melhores projetos. A terceira etapa será a realização da feira de ciências a nível regional com os projetos selecionados na segunda etapa.

Por fim, as duas últimas etapas, em Mossoró, com a Semana de Ciência e Tecnologia, no mês de outubro, dando início a quarta etapa. A Feira Estadual terá a participação de todos os projetos selecionados nas feiras regionais das quatro Direds. A quinta e última etapa será a entrega das bolsas de Iniciação Científica Junior para os estudantes premiados, além da execução de um curso de Ciências para esses alunos.

No total, serão atribuídas 18 bolsas, onde dentre os critérios de escolha estão o uso do método científico, a criatividade e a relevância da pesquisa. A duração da bolsa será de 12 meses e, no final, os estudantes e professores premiados, bem como os coordenadores das Direds e a coordenadora geral do projeto receberão passagem aérea de ida e volta, para participação e apresentação dos projetos em Feira de Ciências de âmbito nacional.
(Diário de Natal, 9/1)

>Previsões mais acertadas (Agência Fapesp)

>Especiais

13/1/2011
Por Elton Alisson

Agência FAPESP – Apesar de estimar hoje com até 97% de acerto a probabilidade de chuvas nas próximas 24 horas, a previsão de tempo no Brasil ainda é incapaz de determinar com exatidão se temporais como os que castigaram São Paulo nesta semana voltarão a se repetir nos próximos dias com a mesma intensidade.

O problema se deve a limitações dos modelos meteorológicos (representações numéricas aproximadas do comportamento da atmosfera) utilizados até agora no País.

Mas, um supercomputador, que entrou em operação no início de janeiro no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), em Cachoeira Paulista (SP), promete possibilitar aprimorar esses modelos para que possam indicar com maior precisão e antecedência chuvas e fenômenos meteorológicos extremos, como tempestades, que estão se tornando comuns no País.

Batizado de Tupã – o deus do trovão na mitologia tupi-guarani – o supercomputador permitirá aos pesquisadores do CPTEC desenvolver e executar modelos meteorológicos mais sofisticados e com maior resolução espacial, que demandam mais memória e velocidade de processamento. E, dessa forma, melhorar gradativamente a qualidade das previsões meteorológicas de tempo e clima no Brasil.

“Fazer previsão de tempo no Brasil é bastante complicado. O País é muito grande, com clima e geografia muito variadas, o que dificulta muito fazer previsões detalhadas para sete dias, por exemplo”, disse Marcelo Enrique Seluchi, chefe de supercomputação do Inpe e coordenador substituto do CPTEC à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador, hoje a previsão diária de tempo no País, que indica apenas se ocorrerá ou não chuvas nas próximas 24 horas, tem um nível de confiabilidade equiparável à realizada pelos maiores centros meteorológicos do mundo, atingindo quase 100% de acerto. Já as previsões de longo prazo – como as de uma semana ou 15 dias – têm menores índices de acerto, atingindo 80% no prazo de uma semana e reduzindo cerca de 3% a cada dia acrescentado.

Com o supercomputador, os pesquisadores do Inpe pretendem aumentar progressivamente a margem de acerto dessas previsões para fazer com que possam prever com pelo menos dois dias de antecedência temporais como os que atingiram as cidades de São Luiz do Paraitinga (SP) e Angra dos Reis (RJ) no início de 2010.

“Nós ganhamos um dia de previsão para cada dez anos de investimento na melhoria dos modelos meteorológicos. Isso pode parecer pouco, mas representa um ganho muito grande para termos a ideia da magnitude de um evento meteorológico extremo”, disse Seluchi.

Limitações

Segundo o cientista, uma das maiores limitações na previsão do tempo no Brasil hoje é a resolução espacial e temporal relativamente baixa dos modelos meteorológicos numéricos utilizados.

A resolução espacial dos modelos usados hoje para prever tempestades, por exemplo, é de 20 quilômetros, o que impossibilita identificar nuvens de tempestade que podem ter de dois a três quilômetros de extensão. Além disso, eles fornecem previsões apenas a cada três horas, limitando a capacidade de detectar fenômenos meteorológicos extremos que surgem, desenvolvem-se e desaparecem em um menor período de tempo.

“O nível de detalhe espacial e temporal é hoje uma das maiores limitações para a melhoria da previsão do tempo no país que depende, fundamentalmente, da melhoria da resolução dos modelos meteorológicos”, disse Seluchi.

Para isso, os pesquisadores do Inpe pretendem com o novo supercomputador aumentar a resolução do modelo meteorológico regional utilizado nas previsões de tempo da instituição dos atuais 20 quilômetros para cinco quilômetros nos próximos anos. E paralelamente a essa mudança, também fazer com que possam representar de forma mais realista processos físicos que até então eram ignorados nos modelos anteriores.

De acordo com Seluchi, o supercomputador também possibilitará melhorar a geração do chamado diagnóstico ou “condição inicial” – o ponto de partida da elaboração dos modelos meteorológicos.

Qualquer erro nessa fase inicial da previsão, que se inicia com um diagnóstico preliminar da atmosfera a partir da coleta de observações de estações meteorológicas em terra, ar, oceano e espaço, pode provocar grandes falhas na previsão final.

“A geração dessa condição inicial será feita com uma metodologia muito mais cara e sofisticada do ponto de vista computacional, que incorporará uma série de novos dados”, disse.

Para diminuir a margem de erro nesse diagnóstico inicial, com o supercomputador o CPTEC, a exemplo dos principais centros meteorológicos no mundo, passará a gerar por meio de uma técnica matemática uma série de previsões climáticas paralelas.

Chamadas “previsões por conjunto”, segundo Seluchi, o grupo de previsões também permitirá aumentar a confiabilidade das previsões e indicar com maior assertividade a probabilidade de chuvas de grandes proporções.

“Ao rodar 20 previsões, das quais 18 apontam para um evento meteorológico extremo e as outras duas não, por exemplo, o meteorologista terá muito mais confiança para fazer suas previsões e decidir se é necessário enviar ou não um alerta para a Defesa Civil sobre um possível fenômeno extremo”, explicou.

Os primeiros novos modelos meteorológicos gerados pelo novo supercomputador, que foi adquirido com recursos da FAPESP e do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), serão gerados para efeito de teste este mês. O sistema também será utilizado para pesquisar as novas gerações de modelos que serão utilizados para fazer previsões de mudanças climáticas no futuro.

>Tremores recorrentes ajudaram a moldar o relevo nordestino (Agência FAPESP)

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CIÊNCIA | GEOLOGIA
Terra sacudida

Maria Guimarães
Edição Impressa 178 – Dezembro 2010

Falésias no Rio Grande do Norte. © JOÃO ALEXANDRINO.

O Nordeste brasileiro é terra de agitos, não só por causa do Carnaval e outras festividades. De acordo com pesquisadores do Rio Grande do Norte e de São Paulo, os terremotos que de vez em quando sacodem a região estão longe de ser novidade: já aconteciam muito antes de existir gente no planeta, e ocorrem até hoje. O geólogo Francisco Hilario Bezerra, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), recorre à cultura popular para ressaltar a concepção errada que impera sobre os movimentos do solo brasileiro: “Vai, vai, vai, suba aqui na minha moto/ Vem, vem, vem, aqui não tem terremoto”, diz a música Insolação do coração, de Carlinhos Brown, interpretada por Claudia Leitte. Segundo o pesquisador, não é nada disso. No Brasil, sobretudo em sua região natal, tem muito terremoto.

“O Nordeste é o lugar do Brasil onde mais acontecem terremotos”, diz Bezerra, “não se sabe bem por quê”. Os resultados do grupo da UFRN deixam claro que terremotos têm sido comuns na região nos últimos 400 mil anos. Além de explicar o relevo nordestino, esse conhecimento pode também ter utilidade prática direta, como orientar a engenharia civil. “Se determinamos que uma zona é caracterizada, há milhares de anos, por terremotos de magnitude 5, por exemplo, é preciso que as construções resistam a esses tremores”, explica o geólogo.

A caracterização tectônica da região faz parte de um projeto mais amplo coordenado pelo geólogo Reinhardt Fuck, da Universidade de Brasília, no âmbito do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Estudos Tectônicos. Parte do trabalho foi feita por Francisco Cézar Nogueira durante o doutorado sob orientação de Bezerra. Ele estudou uma falha tectônica com comprimento de 35 quilômetros por onde corre o rio Jundiaí, que corta a cidade de Natal, e viu que, mais ou menos a cada 16 mil anos, os movimentos dessa ruptura no terreno causam tremores, segundo artigo publicado este ano no Journal of Geodynamics.

A principal fonte de informações para Nogueira foi a areia que preenche as rachaduras profundas do solo. Como matéria-prima para análises geológicas, a areia pode ser desafiante. As zonas arenosas em climas áridos são pouco propensas à preservação de fósseis e por isso são difíceis de datar pela técnica mais comum, de carbono-14. A dificuldade foi resolvida por uma associação com o laboratório de Sonia Tatumi, da Faculdade de Tecnologia de São Paulo (Fatec-SP), especialista em análises de luminescência opticamente estimulada. A técnica mede a posição dos elétrons dentro dos grãos de quartzo da areia para avaliar sua idade. A luz solar atrai esses elétrons para a camada mais externa, mas eles voltam para o interior do grão quando a camada de areia é enterrada. Com esse método é possível estimar há quanto tempo o grão está no subsolo, dentro de um máximo de 1 milhão de anos. Ao pressupor que a areia infiltrada na falha Jundiaí foi soterrada em consequência da rachadura, as datações permitiram estimar que ela se formou cerca de 100 mil anos atrás. E esteve ativa desde então, o que não se podia saber observando os registros históricos. Durante os 200 anos em que há histórico sobre a atividade sísmica ­no Nordeste, não foram registrados tre­mores fortes na falha Jundiaí, o que poderia levar a crer – incorretamente – que ela não está ativa.

Solo movediço – Estudar falhas não é a única forma de investigar a sismologia de uma região. Mesmo sem ter acesso direto à falha que causa tremores em determinada área, o grupo da UFRN usa também outras alterações no solo para inferir movimentos passados. Um desses fenômenos é a liquefação, que acontece quando uma mistura de água e areia presa no subsolo é submetida a grande pressão, como a gerada por um terremoto. Bezerra ajuda a compreender fazendo uma analogia com a pressão que se cria quando uma garrafa de champanhe é sacudida. “A rolha, que no caso do solo pode ser uma rocha, impede a mistura de se expandir e a pressão aumenta até que estoura”, explica. No caso do champanhe é festivo, desde que a rolha não atinja alguém; mas quando grãos de quartzo se agitam com um terremoto e são ejetados, junto com a água, depois que a rocha se rompe, o resultado é destruição e, hoje, prédios demolidos.

As marcas desse tremor depois se solidificam e ficam registradas: é o que Elissandra Moura-Lima tem estudado durante seu trabalho de doutorado. As testemunhas providenciais aí são seixos por cima da areia. Mais uma vez, Bezerra recorre a uma imagem para deixar clara a instabilidade dessa disposição: “Imagine uma gelatina, dessas que a gente come, com um ferro de passar em cima”. Basta um tremor para acabar com o equilíbrio e fazer o ferro afundar. E provavelmente fará isso de lado, descendo pela gelatina na posição que oferece menos resistência. É o que acontece com os seixos: quando são flagrados debaixo da superfície em posição vertical, os pesquisadores podem inferir o trajeto que percorreram. E, mais uma vez com ajuda da luminescência, estimar quando aconteceram esses movimentos.

Elissandra usou também uma espécie de tomografia dos sedimentos conhecida como GPR, sigla em inglês para radar que penetra o solo (ground penetrating radar). Isso lhe permitiu caracterizar, no vale do rio Açu, parte da bacia Potiguar, as estruturas em domo formadas quando os seixos penetram solo adentro e empurram a areia para cima. Mapear essas deformações do solo no contexto da rede de falhas que percorre a região permite estimar o momento e a magnitude de tremores que ocorreram há milhares de anos. Um tremor de magnitude 5 ou 6, por exemplo, causa alterações num raio de dois quilômetros. No vale do rio Açu, o grupo mostrou que terremotos já eram recorrentes há 400 mil anos. As falhas que correm por baixo desse vale são, por isso, fortes candidatas a responsáveis por boa parte da atividade sísmica do passado na bacia Potiguar.

Mais que paisagem – Uma vantagem de ser geólogo especializado nessa região é poder trabalhar num cenário mais atraente do que pedreiras ou zonas desérticas. As falésias que caracterizam boa parte da costa nordestina são, além de deslumbrantes, uma fonte rica de informações. Naquelas paredes com até 30 metros de altura que se erguem junto ao mar coloridas com tons de vermelho, amarelo, roxo e branco está exposto um histórico sísmico e geológico que remonta a dezenas de milhares de anos. Basta a um especialista olhar para essas falésias para perceber as linhas horizontais que delimitam sedimentos com idades diferentes e reconhecer características que revelam a influência de atividades sísmicas em sua formação.

É nessa paisagem que se dá parte do trabalho de Dilce Rossetti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que também analisa faces rochosas onde for possível, como as cortadas pela abertura de estradas. “A costa nordestina é ideal para esse tipo de estudo”, explica a pesquisadora, “pela abundância de falésias que se estendem por muitos quilômetros”. Isso lhe permite comparar as deformações no terreno causadas pela liquefação em contextos diversos, como perto de uma falha e longe dela, além de ter acesso, num único ponto de uma praia paradisíaca, a uma história com dezenas de milhares de anos. Em artigo que será publicado em janeiro de 2011, junto com o de Elissandra, numa edição especial sobre paleoterremotos da Sedimentary Geology, Dilce usa essas deformações para mostrar como a ponta da Paraíba, último ponto do continente americano a se desligar da África, não é passiva como se pensava. A atividade sísmica ali é disseminada.

Para datar esses eventos ela tem usado carbono-14, quando há matéria orgânica, e luminescência, cujos resultados estão em fase final de preparação para publicação. Ela viu que por cima da formação geológica conhecida como Barreiras, formada há cerca de 20 milhões de anos, há várias camadas com sinais de perturbação sísmica. Chegou a encontrar rochas com idade de 178 mil anos numa falésia paraibana, mas o mais comum é ter registros dos últimos 67 mil anos. “Nessa época já havia sismicidade em vários locais da Paraí­ba, e em outros estados do Nordeste também”, afirma. Segundo Dilce, esses movimentos de terra foram responsáveis por modelar parte do relevo da região, como as falésias e a localização dos leitos de alguns rios.

Não é possível extrapolar os resultados obtidos no Nordeste para outras regiões do Brasil. “Cada falha tem um comportamento específico”, explica Bezerra. Por isso as falhas paulistas de Taubaté e de Santos, por exemplo, podem ter uma periodicidade e um modo de ação distintos que ainda precisam ser estudados. Para ele, a grande importância desses trabalhos, em conjunto, é mostrar que olhar os fenômenos atuais da natureza não é suficiente para entender o que acontece hoje. “O conhecimento histórico e instrumental não basta, é preciso examinar as camadas do passado distante.”

>Coreia do Sul: robô substitui professor em sala de aula

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Terra – 28 de dezembro de 2010 • 12h22

Batizado de “Engkey”, o robô sul-coreano custa cerca de R$ 12 mil. Foto: AFP.

Cerca de 30 robôs-professores foram introduzidos em salas de aula de 20 escolas primárias da Coreia do Sul. As máquinas, criadas pelo Instituto de Ciência e Tecnologia do país, tem a intenção de ensinar a língua inglesa para alunos sul-coreanos que não têm contato com o idioma.

Os robôs, chamados “Engkey”, são controlados ao vivo por professores de inglês a partir das Filipinas. Eles têm pouco mais de 1 m de altura e possuem uma tela que capta e mostra o rosto do professor que está, à distância, dando a aula. Os “Engkey” ainda conseguem ler os livros físicos dos alunos e dançar movimentos a cabeça e os braços.

Segundo Sagong Seong-Dae, cientista do Instituto, a questão financeira contou para a substituição do humano pela máquina. “Com boa formação e experiência, os professores filipinos são uma mão-de-obra mais barata do que os daqui”, contou ao site britânico Daily Mail.

Kim Mi-Young, uma oficial do departamento de educação do país, afirmou também ao site que a experiência foi bem-vinda. “As crianças parecem amar os robôs porque eles são bonitinhos. Mas alguns adultos também mostraram um interesse especial afirmando que se sentem menos nervosos de convesarem com máquinas do que com pessoas de verdade”, contou.

Mi-Young fez questão de destacar, no entanto, que os robôs não vão substituir completamente a atuação dos professores humanos, apesar do investimento governamental de cerca de US$ 1,5 milhão, algo em torno de R$ 2,5 milhões. Cada robô tem o preço de aproximadamente R$ 12 mil.

>Superprevisão do tempo? Pergunte ao Tupã (Agência FAPESP)

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Especiais

Por Elton Alisson, de Cachoeira Paulista (SP)
29/12/2010

Um dos maiores supercomputadores do mundo para previsão de tempo e de mudanças climáticas é inaugurado em Cachoeira Paulista. Equipamento permitirá fazer previsões de tempo mais confiáveis, com maior prazo de antecedência e de melhor qualidade (foto: Eduardo Cesar/Ag.FAPESP)

Agência FAPESP – O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) inaugurou terça-feira (28/12), no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), em Cachoeira Paulista (SP), o supercomputador Tupã.

Com o nome do deus do trovão na mitologia tupi-guarani, o sistema computacional é o terceiro maior do mundo em previsão operacional de tempo e clima sazonal e o oitavo em previsão de mudanças climáticas.

Não apenas isso. De acordo com a mais recente relação do Top 500 da Supercomputação, que lista os sistemas mais rápidos do mundo, divulgada em novembro, o Tupã ocupa a 29ª posição. Essa é a mais alta colocação já alcançada por uma máquina instalada no Brasil.

Ao custo de R$ 50 milhões, dos quais R$ 15 milhões foram financiados pela FAPESP e R$ 35 milhões pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), por meio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), o sistema foi fabricado pela Cray, em Wisconsin, nos Estados Unidos.

O Tupã é capaz de realizar 205 trilhões de operações de cálculos por segundo e processar em 1 minuto um conjunto de dados que um computador convencional demoraria mais de uma semana.

Com vida útil de seis anos, o equipamento permitirá ao Inpe gerar previsões de tempo mais confiáveis, com maior prazo de antecedência e de melhor qualidade, ampliando o nível de detalhamento para 5 quilômetros na América do Sul e 20 quilômetros para todo o globo.

A máquina também possibilitará melhorar as previsões ambientais e da qualidade do ar, gerando prognósticos de maior resolução – de 15 quilômetros – com até seis dias de antecedência, e prever com antecedência de pelo menos dois dias eventos climáticos extremos, como as chuvas intensas que abateram as cidades de Angra dos Reis (RJ) e São Luiz do Paraitinga (SP) no início de 2010.

“Com o novo computador, conseguiremos rodar modelos meteorológicos mais sofisticados, que possibilitarão melhorar o nível de detalhamento das previsões climáticas no país”, disse Marcelo Enrique Seluchi, chefe de supercomputação do Inpe e coodernador substituto do CPTEC, à Agência FAPESP.

Segundo o pesquisador, no início de janeiro de 2011 começarão a ser rodados no supercomputador, em nível de teste, os primeiros modelos meteorológicos para previsão de tempo e de mudanças climáticas. E até o fim de 2011 será possível ter os primeiros resultados sobre os impactos das mudanças climáticas no Brasil com dados que não são levados em conta nos modelos internacionais.

Modelo climático brasileiro

De acordo com Gilberto Câmara, diretor do Inpe, o supercomputador foi o primeiro equipamento comprado pela instituição de pesquisa que dispensou a necessidade de financiamento estrangeiro.

“Todos os outros três supercomputadores do Inpe contaram com financiamento estrangeiro, que acaba custando mais caro para o Brasil. O financiamento da FAPESP e do MCT nos permitiu realizar esse investimento sem termos que contar com recursos estrangeiros”, afirmou.

O supercomputador será utilizado, além do Inpe, por outros grupos de pesquisa, instituições e universidades integrantes do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, da Rede Brasileira de Pesquisa sobre Mudanças Climática (Rede Clima) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) para Mudanças Climáticas.

Em seu discurso na inauguração, Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP, destacou a importância do supercomputador para o avanço das pesquisas realizadas no âmbito do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, que foi concebido para durar pelo menos dez anos, e para a criação do Modelo Brasileiro do Sistema Climático Global (MBSCG).

O modelo incorporará os elementos do sistema terrestre (atmosfera, oceanos, criosfera, vegetação e ciclos biogeoquímicos, entre outros), suas interações e de que modo está sendo perturbado por ações antropogênicas, como, por exemplo, emissões de gases de efeito estudo, mudanças na vegetação e urbanização.

A construção do novo modelo envolve um grande número de pesquisadores do Brasil e do exterior, provenientes de diversas instituições. E se constitui em um projeto interdisciplinar de desenvolvimento de modelagem climática sem precedentes em países em desenvolvimento.

“Não tínhamos, no Brasil, a capacidade de criar um modelo climático global do ponto de vista brasileiro. Hoje, a FAPESP está financiando um grande programa de pesquisa para o desenvolvimento de um modelo climático brasileiro”, disse Brito Cruz.

Na avaliação dele, o supercomputador representará um avanço na pesquisa brasileira em previsão de tempo e mudanças climáticas globais, que são duas questões estratégicas para o país.

Impossibilitado de participar do evento, o ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende, gravou um vídeo, exibido na solenidade de inauguração do supercomputador, em que declarou o orgulho da instalação no Brasil do maior supercomputador do hemisfério Sul.

“Com esse supercomputador, o Brasil dá mais um passo para cumprir as metas de monitoramento do clima assumidas internacionalmente e entra no seleto grupo de países capazes de gerar cenários climáticos futuros”, disse.

>Resfriamento global para os próximos 20 anos (Jovem Pan Online)

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09/01/2010 13h36

O jornalista André Guilherme e a meteorologista Aline Ribeiro entrevistam o professor da Universidade Federal de Alagoas, Luiz Carlos Molion. Segundo o estudioso o clima não está aquecendo, ele afirma que próximos 20 anos serão de resfriamento do planeta. http://www.jovempan.com.br

http://storage.mais.uol.com.br/embed_v2.swf?mediaId=954975

Tese do resfriamento global está ganhando força – 28/10/2009 08h45

E se cientistas começassem a defender a tese de que, em vez de esquentar, a terra está ficando mais fria? É isso mesmo. Essa tese, a do resfriamento global, está ganhando força entre estudiosos de todo o mundo. Faltando dois meses para o Congresso Mundial sobre mudanças climáticas, na Dinamarca, a polêmica promete aumentar. (Band News)

http://storage.mais.uol.com.br/embed_v2.swf?mediaId=363369

>Hidropirataria na Amazônia

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Jerson Kelman[1]

Será que a enorme quantidade de água existente na Amazônia está mesmo despertando a cobiça dos países sob stress hídrico, como uma vez ou outra se lê em alguns jornais? Se a hipótese for verossímil, temos que agir para evitar que nossa riqueza seja surrupiada. Se for inverossímil, temos que parar de nos preocupar e direcionar nossa atenção para temas mais urgentes. Vamos por partes…

Se, por hipótese, todos os seis bilhões de seres humanos que habitam o planeta fossem convencidos a beber apenas água engarrafada do rio Amazonas, seria necessário utilizar o volume médio por ele despejado no mar durante apenas 1,5 minuto para atender toda a demanda diária mundial. Entretanto, como a maior parte da humanidade não consome água engarrafada, o volume despejado em menos de dois segundos seria suficiente para abastecer todas as garrafas de água de mesa consumidas no mundo, ao longo de um dia, cerca de 360 milhões de litros. Portanto, “tamanho não é documento”, pelo menos no que diz respeito à vantagem comparativa entre diversas fontes de água de mesa. O que, sim, constitui “documento” é a existência de certos elementos químicos nas águas minerais. E neste quesito a água do Amazonas não é excepcional, se comparada às fontes existentes em todo o mundo.

Água é insumo de processo produtivo, tanto na agricultura como na indústria. Cerca de 70% da água que é retirada dos rios é utilizada na irrigação porque, como regra geral, é necessária uma grande quantidade de água para produzir uma pequena quantidade do produto final. Por exemplo, são necessários cerca de mil quilos de água para produzir um quilo de grãos. Ou, para cada quilo de frango, dois mil quilos de água. Como o custo do transporte rodoviário, ferroviário ou aquaviário de dois mil quilos de água é, em geral, superior ao preço de venda de um quilo de frango, não há viabilidade econômica da exportação de água para esta finalidade, e para outras assemelhadas.

Apesar disto, já ocorre comércio de água entre países. É o caso, por exemplo, do acordo para exportação de 50 bilhões de litros por ano da Turquia para Israel, por meio de navios supertanques, cada um com capacidade de transporte de, pelo menos, 200 milhões de litros, ao preço de aproximadamente R$ 0,002 por litro. Será que poderíamos entrar na competição e vencer os turcos na venda? Afinal, levaria menos de 5 minutos de descarga do rio Amazonas para encher os 250 navios que transportariam toda a água transacionada ao longo de um ano, no valor de R$ 100 milhões. Será que poderíamos tomar partido da abundância hídrica da Amazônia para ofertar um significativo desconto já que, no caso específico, o custo de oportunidade da água é nulo?

Lamentavelmente a resposta é não. O Brasil não seria páreo para a Turquia porque o custo de transporte do Brasil para Israel supera o da Turquia em mais de R$ 0,002 por litro (ou R$ 2,00 por tonelada). Em outras palavras, mesmo que o Brasil decidisse doar a água, ainda assim seria mais vantajoso para Israel comprar da Turquia.

Não se pode dizer que Israel esteja pagando barato. Afinal, ao custo de R$ 0,002 por litro é possível transformar água do mar em água potável, por meio do processo de dessalinização. É de se supor que a opção de Israel pela importação de água, em vez da dessalinização, decorra do desejo de manter boas relações com um país de grande importância estratégica na região.

Como não temos países vizinhos carentes de água e localizados a curta distância do rio Amazonas, não é economicamente verossímil que a abundância hídrica da região venha a contribuir diretamente para reforço de nossa balança comercial, pelo menos, digamos, nos próximos vinte anos. Entretanto, não se deve descartar a hipótese da questão hídrica vir a ser utilizada como disfarce para outras cobiças sobre a região, particularmente, com relação ao uso comercial da
biodiversidade.

Existem sim navios que usam água do rio Amazonas como lastro. Neste caso temos que nos preocupar com a operação de lavagem de tanques, que pode poluir o rio, e com a eventual introdução de espécies exóticas, como o mexilhão dourado.

KELMAN, J. Hidropirataria na Amazônia. Folha do Meio Ambiente, Ponto de Vista, ano 15, n 152, Brasília, outubro de 2004.

[1] Diretor-Presidente da Agência Nacional de Águas – ANA

Rio contra o crime: o jornalismo veste a camisa (Observatório de Imprensa)

Por Sylvia Moretzsohn em 30/11/2010

Quando recebeu, no início de novembro, um prêmio de telejornalismo pelas entrevistas com os generais Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz sobre os bastidores da ditadura no Brasil, Geneton Moraes Neto escreveu uma “pequena carta aos que gastam sola de sapato fazendo jornalismo” em que afirmava: “Fazer jornalismo é produzir memória”. E concluía com a seguinte definição:

“Fazer jornalismo é desconfiar, sempre, sempre e sempre. A lição de um editor inglês vale para todos: toda vez que estiver ouvindo um personagem – seja ele um delegado de polícia, um praticante de ioga ou um astro da música – pergunte sempre a si mesmo, intimamente: por que será que estes bastardos estão mentindo para mim?”

À parte a pequena derrapagem na tradução – seguramente, “bastardos” não seria uma palavra apropriada nesse contexto –, a definição é precisa. E, se assim é – ou deveria ser –, a cobertura da ocupação militar no Complexo do Alemão, sobretudo a cobertura televisiva, é tudo menos jornalismo. Seja porque desconhece a memória, seja porque adere desavergonhadamente à versão oficial.

Como apontou Alberto Dines em artigo neste Observatório da Imprensa (ver “Mídia teve medo de falar em intervenção“), o que houve no mais recente episódio no Alemão foi uma intervenção branca do governo federal, com a participação das Forças Armadas. Antes mesmo da invasão do morro, o Exército estava nas ruas, em resposta ao clima de terror espalhado pelos incêndios a carros em variados pontos da cidade. Não custava lembrar da Operação Rio, que em 1994 também resultou de uma intervenção branca – não fosse o Rio governado por Brizola, recém-licenciado para concorrer à presidência da República – e provocou as previsíveis cenas espetaculares de tanques circulando pelo asfalto, em direção às principais favelas da cidade, eternos “lugares do mal”, apontando seus canhões para as comunidades, soldados revistando moradores e avançando com seus uniformes camuflados e seus fuzis morro acima, ou patrulhando as ruas da Zona Sul.

Alemão, três anos antes

A lembrança seria importante, no mínimo, para negar o caráter inédito da ocupação de agora e, no máximo, para questionar o sucesso de intervenções militares em conflitos sociais de enorme gravidade como os que ocorrem no cotidiano das favelas. Na época, prometia-se a “asfixia” do tráfico. Não é preciso comentar o resultado.

Mais recentemente, entre maio e julho de 2007, uma aparatosa operação reuniu 1.350 homens das polícias militar e civil e soldados da Força Nacional de Segurança para nova asfixia, desta vez restrita ao Complexo do Alemão. O pretexto foi o assassinato de dois soldados do Batalhão de Rocha Miranda, mas é claro que se tratava de “limpar” pontos explosivos da cidade para os Jogos Pan-Americanos daquele ano. Na ocasião, a operação foi apresentada como “um ataque inovador”, um “marco no combate ao crime no Brasil” (revista Época, 28/6/2007), “um marco na luta contra a criminalidade”, apesar de sangrenta e de “todos os senões e suspeitas que deixou” (O Globo, editorial, 30/7/2007). O personagem-símbolo foi um policial que tem o hábito de fumar charuto após a missão cumprida: o inspetor Leonardo da Silva Torres, conhecido como “Trovão”, com cursos na Swat americana e no Centro de Inteligência da Marinha (antigo Cenimar, de trágica lembrança dos tempos da ditadura), cujo sonho – segundo declarou aos jornais – era atuar na Faixa de Gaza ou no Iraque.

Costuma-se falar em 19 mortos durante aquela ocupação. Não é verdade: este seria o número produzido no dia mais sangrento, 27 de junho. Pela sua magnitude, acabou associado ao total de mortes, que, entretanto, foram bem mais expressivas: segundo o relatório da Comissão de Direitos Humanos da OAB, teriam sido 44 mortos e 84 feridos, muitos deles sem armas nem antecedentes criminais.

Então, como hoje, as forças policiais-militares cantavam vitória sobre o tráfico. Se fosse verdade, não teria sido necessário retornar agora.

Inexplicável reviravolta

Em fins de 2009, o governo estadual inaugurava uma nova estratégia de ação policial: as Unidades de Polícia Pacificadora, começando no Dona Marta, uma pequena favela em Botafogo que em várias ocasiões frequentou os jornais com notícias sobre guerra entre traficantes. Ali, como em quase todas as demais comunidades eleitas para receber esse aparato, a polícia entrou sem disparar um tiro.

Este detalhe surpreendente foi ressaltado – melhor diria, exaltado – no espaço noticioso de jornais que, três anos antes, afirmavam não haver alternativa para o combate ao crime a não ser o enfrentamento: “Há bandidos […] que têm de ser tratados pela mão pesada do Estado. Não há assistencialismo e ação social que os recuperem” (O Globo, 26/10/2007).

O que teria provocado a mudança de discurso é algo que apenas os editores poderiam explicar. Sobretudo porque o governo é o mesmo e o secretário de Segurança, também. Se há até dois anos antes não havia alternativas, como é que de repente se descobriu uma via tão eficaz, a ponto de o megaempresário Eike Batista – este que, aos poucos, vai abocanhando os pedaços mais lucrativos da cidade – declarar que, se soubesse que era tão fácil “acabar” com a violência, já teria investido nisso há mais tempo?

Uma socióloga sempre consultada nessa matéria argumentou que “os traficantes varejistas entenderam que há um projeto de política pública de segurança e não adianta mais resistir”. Simples assim.

A causa da “vitória definitiva”

De repente, começam os atentados: um carro incendiado aqui, outro ali, junto com arrastões (ou assaltos, assim relatados pela imprensa) em determinadas ruas de áreas nobres da cidade. Então, em fins de novembro, detona-se a operação no Alemão, mais uma vez apontado como o local de concentração dos responsáveis pela desordem. Uma operação espetacular, com blindados da polícia e da Marinha, destinada a acabar de vez – mais uma vez – com o tráfico na região.

A série de incêndios a carros e vans seria uma reação do tráfico ao sucesso das UPPs, diz o governo. Entretanto, os jornais não indagam: a quem interessa esses atentados? Traficantes tão bem armados, esses que em dezembro de 2006 metralharam cabines policiais, delegacias e atacaram ônibus interestaduais, matando pelo menos 18 pessoas, fariam agora pequenas ações na base de coquetéis molotov? Sabendo que atrairiam a atenção e o ódio da polícia? Por quê?

Às vésperas da invasão americana ao Iraque, numa reunião na ONU, o secretário de Estado Colin Powell tentou convencer os presentes da existência de armas de destruição em massa produzidas naquele país, apenas mostrando, ampliadas num telão, imagens dos galpões fechados em que, com absoluta certeza – simplesmente porque ele afirmava –, as tais armas eram fabricadas. As contestações feitas à época, os movimentos de repúdio à guerra, os esforços diplomáticos, nada foi capaz de deter a ofensiva. Hoje se sabe, como alguns sempre souberam, que o Iraque não tinha as tais armas. Mas alguns dos principais jornais americanos, notadamente o New York Times, amparou a versão oficial, empenhado que estava, como tantos outros, no esforço patriótico de resposta contundente aos atentados de 11 de setembro de 2001.

Da mesma forma, nesta operação no Alemão – como em outras vezes –, a nossa imprensa assumiu a causa da “retomada de território” e da “vitória definitiva”.

“Vencemos. Devolvemos a paz para a comunidade”, declarou o comandante do Bope. Ao mesmo tempo, outra autoridade policial afirma que a operação continuará durante o tempo que for necessário. Que vitória, então?

A “casa de luxo” do chefe do tráfico

O recurso à memória é importante como antídoto ao triunfalismo que costuma prevalecer nesse momento. “É um dia histórico para o Rio de Janeiro”, diz o apresentador da TV. “Os policiais estão vibrando”, afirma o comandante do Bope antes do início da invasão. Um correspondente estrangeiro quis saber, com seu portunhol claudicante, se aquilo era um guerra ou um operação policial. O comandante não teve dúvidas: “Em alguns locais, o combate a traficantes com armamento de guerra se assemelha a uma guerra de baixa intensidade. Mas não estou preocupado com rótulos, isso é coisa para quem vai estudar depois. Estou preocupado com a ação”.

Nada surpreende: homens de ação são adestrados para agir, pensar é coisa de intelectuais… ou de quem define as estratégias de ação. E, para isso, definir se vivemos ou não uma guerra é fundamental.

Mas questionar, quem há de? Pelo contrário, os jornalistas se congratulam com os policiais, desejam-lhes sorte, dão-lhes os parabéns. Excitam-se com a exibição de traficantes e suspeitos presos, demonstram indignação ao mostrar a “casa de luxo” onde vivia um dos chefes do tráfico no local, com banheira redonda de hidromassagem e uma cama-box (?!) na suíte, mais um pequeno terraço com piscina, piso imitando o desenho ondulado das pedras portuguesas de Copacabana (disponível em qualquer loja de material de construção) e ampla vista da… favela.

A diferença da “guerra” na área nobre

Um dos símbolos de “retomada do território”, cena destacada na cobertura ao vivo dos telejornais, foi o hasteamento da bandeira brasileira ao lado da bandeira do estado do Rio de Janeiro no alto do teleférico. Na Globonews, a apresentadora comemorou: a região “voltou a ser território do povo brasileiro”.

Esqueceu de lembrar que o hasteamento de bandeiras também foi feito na Operação Rio, imitando o gesto dos pracinhas na tomada de Monte Castelo, nos estertores da Segunda Guerra Mundial. Esqueceu, principalmente, de lembrar que o teleférico, prestes a ser inaugurado, é obra do PAC, Programa de Aceleração do Crescimento, iniciado em fins de 2008 no Alemão. Seria o PAC obra de traficantes? Como, então, falar em retomada de território, se nesse mesmo território se realizava um projeto do governo federal?

“O Alemão era o coração do mal”, diz o secretário de segurança, José Mariano Beltrame, quem sabe a sugerir uma ilação com o “coração das trevas” do clássico da literatura de Joseph Conrad. Talvez não, não importa. Importa é o verbo no passado e a perspectiva de futuro: afinal, se traficantes podem ter fugido, ainda por cima armados, a Rocinha que se cuide. “Se chegamos no Alemão, vamos chegar na Rocinha e no Vidigal.”

Chegar à Rocinha pode ser um problema. Há exatamente três anos, quando a polícia desencadeou uma operação sangrenta na favela da Coreia, em Senador Camará (Zona Oeste do Rio), deixando 12 mortos, o mesmo secretário comentou que “um tiro em Copacabana é uma coisa, na Coreia é outra”. Algum jornalista lembrará disto? Ou estarão todos imbuídos do espírito patriótico que substitui perguntas incômodas ou “inadequadas” pela pura e simples propaganda?

Sylvia Moretzsohn: Jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico(Editora Revan, 2007).

>Four in 10 Americans Believe in Strict Creationism (Gallup)

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December 17, 2010

Belief in evolutionary origins of humans slowly rising, however
by Frank Newport

PRINCETON, NJ — Four in 10 Americans, slightly fewer today than in years past, believe God created humans in their present form about 10,000 years ago. Thirty-eight percent believe God guided a process by which humans developed over millions of years from less advanced life forms, while 16%, up slightly from years past, believe humans developed over millions of years, without God’s involvement.

A small minority of Americans hold the “secular evolution” view that humans evolved with no influence from God — but the number has risen from 9% in 1982 to 16% today. At the same time, the 40% of Americans who hold the “creationist” view that God created humans as is 10,000 years ago is the lowest in Gallup’s history of asking this question, and down from a high point of 47% in 1993 and 1999. There has been little change over the years in the percentage holding the “theistic evolution” view that humans evolved under God’s guidance.

Americans’ views on human origins vary significantly by level of education and religiosity. Those who are less educated are more likely to hold a creationist view. Those with college degrees and postgraduate education are more likely to hold one of the two viewpoints involving evolution.

December 2010 Views of Human Origins (Humans Evolved, With God Guiding; Humans Evolved Without God's Involvment; God Created Humans in Present Form) -- by Education

Americans who attend church frequently are most likely to accept explanations for the origin of humans that involve God, not a surprising finding. Still, the creationist viewpoint, held by 60% of weekly churchgoers, is not universal even among the most highly religious group. Also, about a fourth of those who seldom or never attend church choose the creationist view

December 2010 Views of Human Origins (Humans Evolved, With God Guiding; Humans Evolved Without God's Involvment; God Created Humans in Present Form) -- by Frequency of Church Attendance

The significantly higher percentage of Republicans who choose a creationist view of human origins reflects in part the strong relationship between religion and politics in contemporary America. Republicans are significantly more likely to attend church weekly than are others, and, as noted, Americans who attend church weekly are most likely to select the creationist alternative for the origin of humans.

December 2010 Views of Human Origins (Humans Evolved, With God Guiding; Humans Evolved Without God's Involvment; God Created Humans in Present Form) -- by Party

Implications

Most Americans believe in God, and about 85% have a religious identity. It is not surprising as a result to find that about 8 in 10 Americans hold a view of human origins that involves actions by God — that he either created humans as depicted in the book of Genesis, or guided a process of evolution. What no doubt continues to surprise many scientists is that 4 out of 10 Americans believe in the first of these explanations.

These views have been generally stable over the last 28 years. Acceptance of the creationist viewpoint has decreased slightly over time, with a concomitant rise in acceptance of a secular evolution perspective. But these shifts have not been large, and the basic structure of beliefs about human beings’ origins is generally the same as it was in the early 1980s.

Americans’ attitudes about almost anything can and often do have political consequences. Views on the origins of humans are no exception. Debates and clashes over which explanations for human origins should be included in school textbooks have persisted for decades. With 40% of Americans continuing to hold to an anti-evolutionary belief about the origin of humans, it is highly likely that these types of debates will continue.

Survey Methods

Results for this Gallup poll are based on telephone interviews conducted Dec. 10-12, 2010, with a random sample of 1,019 adults, aged 18 and older, living in the continental U.S., selected using random-digit-dial sampling.

For results based on the total sample of national adults, one can say with 95% confidence that the maximum margin of sampling error is ±4 percentage points.

Interviews are conducted with respondents on landline telephones (for respondents with a landline telephone) and cellular phones (for respondents who are cell phone-only). Each sample includes a minimum quota of 150 cell phone-only respondents and 850 landline respondents, with additional minimum quotas among landline respondents for gender within region. Landline respondents are chosen at random within each household on the basis of which member had the most recent birthday.

Samples are weighted by gender, age, race, education, region, and phone lines. Demographic weighting targets are based on the March 2009 Current Population Survey figures for the aged 18 and older non-institutionalized population living in continental U.S. telephone households. All reported margins of sampling error include the computed design effects for weighting and sample design.

In addition to sampling error, question wording and practical difficulties in conducting surveys can introduce error or bias into the findings of public opinion polls.

View methodology, full question results, and trend data.

For more details on Gallup’s polling methodology, visit www.gallup.com.

>COP-16: Só mesmo com ajuda do céu (JC)

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JC e-mail 4147, de 30 de Novembro de 2010.

Clima mata 21 mil em 2010 e ministra pede ajuda aos deuses na Cúpula de Cancun

Desastres climáticos registrados nos primeiros nove meses deste ano foram responsáveis por 21 mil mortes – o dobro do número confirmado no mesmo período do ano passado, segundo dados divulgados pela organização humanitária Oxfam.

O relatório cita as enchentes no Paquistão, as ondas de calor na Rússia e a elevação do nível do mar em Tuvalu, como exemplos das letais conseqüências das mudanças climáticas. E o futuro não é nada promissor: um outro estudo revela que em 50 anos, o mundo estará 4 graus Celsius mais quente, o que vai impor severas alterações climáticas.

Os dados foram divulgados na segunda-feira (29/11), dia de abertura da 16ª Convenção da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP-16), em Cancún, no México. A cerimônia de abertura foi marcada por discursos para forçar um novo engajamento dos países em torno de um acordo para conter o aquecimento global.

A secretária-executiva da convenção, Christiana Figueres, chegou a apelar para os deuses, pedindo que a deusa maia da Lua, Ixchel, inspire os negociadores dos 194 países que participam do evento.

– Bem-vindos à terra da deusa maia da Lua, Ixchel, que também era deusa da razão, da criatividade e da liderança – afirmou ela. – Que ela inspire a todos vocês, porque hoje (segunda-feira) vocês estão reunidos aqui em Cancún para chegar a uma sólida resposta às mudanças climáticas, usando razão e criatividade. Estou convencida de que daqui a 20 anos vamos admirar a tapeçaria que nos tecemos juntos e lembrar com carinho de Cancún e da inspiração da deusa Ixchel.

“Bem-vindos à terra da deusa maia da Lua, Ixchel, que também era deusa da razão, da criatividade e da liderança. Que ela inspire a todos vocês, porque hoje vocês estão reunidos aqui em Cancún para chegar a uma sólida resposta às mudanças climáticas, usando razão e criatividade. Estou convencida de que daqui a 20 anos vamos admirar a tapeçaria que nos tecemos juntos e lembrar com carinho de Cancún e da inspiração da deusa Ixchel”

Segundo o documento da Oxfam, as enchentes no Paquistão inundaram um quinto do país, matando 2 mil pessoas e afetando 20 milhões em razão da destruição de casas, escolas, rodovias e cultivos e da disseminação de doenças. Um prejuízo estimado em US$ 9,7 bilhões.

Na Rússia, as temperaturas excederam a média de julho e agosto em 7,8 graus Celsius, o que fez a taxa diária de óbitos em Moscou dobrar, alcançando 700. Pelo menos 26 mil focos de incêndio destruíram um quarto das plantações de trigo, gerando um problema nas exportações.

Os moradores da nação insular Tuvalu, no Pacífico, onde a elevação do nível do mar é de 5 a 6 milímetros ao ano, enfrentam cada vez mais dificuldades para manter cultivos, uma vez que a água salobra está invadindo as plantações.

E o futuro será muito pior, como apontam dados climáticos. As crianças de hoje vão alcançar a velhice num mundo 4 graus Celsius mais quente, onde certezas climáticas que valeram para os últimos dez mil anos não serão mais referência. Secas, enchentes e migrações em massa serão parte da vida diária já a partir de 2060.

Será provavelmente a década a partir da qual, pela primeira vez desde o fim da Idade do Gelo, a Humanidade terá que lidar com um clima global bastante instável e imprevisível. As previsões fazem parte de uma série de estudos científicos publicados na segunda-feira (29/11) sobre o mundo 4 graus Celsius mais quente.

As negociações em Cancún ainda giram em torno de tentar manter a elevação das temperaturas em, no máximo, 2 graus Celsius. Segundo muitos cientistas, no entanto, as atuais tendências revelam que um aumento de 3 a 4 graus é “muito mais provável”.

A maior preocupação é que uma elevação de 4 graus Celsius na temperatura média global – uma diferença tão grande quanto a que separa o clima atual daquele registrado na última Idade do Gelo – geraria transformações dramáticas no mundo, levando a secas, colapso da agricultura em regiões semiáridas e a um catastrófico aumento do nível do mar em áreas costeiras.

O anfitrião da COP-16, o presidente mexicano Felipe Calderon, fez um apelo para que os negociadores cheguem a um acordo para mudar os rumos da crise climática.

Ele disse que as futuras gerações irão cobrar, caso eles falhem em alcançar um resultado.

– Será uma tragédia que nossa incapacidade nos leve a falhar – afirmou, citando que em seu país só este ano 60 pessoas morreram por desastres causados pelo aquecimento da Terra.

(Catarina Alencastro, O Globo, 30/11/2010)

>Scientists and Journalists on ‘Lessons Learned’ (Pts. 1 & 2 – Yale Forum on Climate Change & The Media)

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Scientists’ ‘Lessons Learned’

Scientists and Journalists on ‘Lessons Learned’ (Pt. 1)

November 18, 2010

By any account, it’s been a challenging 12 months for climate science, for climate scientists, and for the ever-changing face of journalism as its practitioners struggle, or not, to keep their audiences adequately informed and knowledgeable.

From the November 19, 2009, New York Times and Washington Post front-page initial news reports of hacked e-mails from the University of East Anglia (a place up until then unlikely to find itself on American newspaper’s front pages) … to subsequent findings of a silly factual mistake in the IPCC’s Fourth Assessment forecasting disappearing Himalayan glaciers just 25 years from now … to the disappointments of last December’s international negotiations in Copenhagen … to data pointing to growing uncertainty and confusion on the climate change issue in the minds of many Americans and their public officials ….

The list could go on, but why bother? It’s been a tough period, notwithstanding repeated subsequent independent investigations finding, by and large, no damage to the underlying science itself.

A tough year. And, no doubt, not the last one. An increasingly challenging political environment promises more interesting times ahead, both for the science and for the scientists who devote their lives to the subject. What’s more, who’s to say the hacked e-mails brouhaha (the term “climategate” only lends it a status and importance it really does not deserve) is the last controversy, or perhaps even the most serious one, to arise in the field?

So what have “they” learned from it all, those scientists who best know the climate change science disciplines and the reporters whose responsibility it is to share and help evaluate their findings? Will they, scientists and media alike, be better off next time for having had the learning experiences the past year has given them? Are they actually learning the lessons each field could and should learn from those experiences, and putting them to practice?

Those are questions Yale Forum Editor Bud Ward and regular contributor John Wihbey put to leading climate scientists and journalists covering the issue. Their responses are posted separately in a two-part series, dated November 18 and 23, 2010 (see Part 2).

What lessons has the climate science community learned from the experiences of the past year or so?

Anthony J. Broccoli – Professor, Department of Environmental Sciences. Director, Center for Environmental Prediction and Climate and Environmental Change Initiative, Rutgers University

The climate science community was reminded that the policy implications of climate science make it more than just an academic pursuit. As a consequence, higher profile climate scientists may find themselves subjected to a similar level of personal scrutiny as public figures receive. I worry that this will make some scientists more reluctant to interact with policymakers or publicly communicate their science.

Peter H. Gleick – President, Pacific Institute

… there is an improved realization of how impossible it is to keep the climate science questions and debates separate from the political and ideological debates. And I hope we’ve learned the importance of communicating accurately and constantly. Being passive in the face of political repression, ideological misuse of science, and policy ignorance moves us in the wrong direction. I would like to think the community has learned that depending on the “honesty” and “impartiality” of journalism is not enough … that without strong input from climate scientists, the wrong stories get reported, with bad information, and ideological bias.

Michael Oppenheimer – Albert G. Milbank Professor of Geosciences and International Affairs, Princeton University

I imagine that my colleagues’ views on this are rather diverse, and those I hear from are not necessarily representative. But one conclusion that seems common is the realization that climate science and scientists operate in a fishbowl, whether they stick to basic research or venture into policy applications. Like it or not, we are always “on the record.”

A second conclusion, bizarre as it may seem, is that mistakes like the Himalayan glacier episode have the potential to resemble airplane crashes: in some circumstances, almost perfect is not good enough.

Both of these realizations could have the unfortunate consequence of causing scientists, particularly younger ones, to avoid areas of research, like climate change, which are associated with public controversy due to the political process which parallels the science; or to avoid interacting with government, media, or the general public at all, even to explain the significance of their own research. I have not seen compelling evidence of such a trend but the possibility worries me.

Kerry A. Emanuel – Professor of Atmospheric Science, MIT

I do not feel I have my “ear to the wall” enough to provide a meaningful answer to this question. I would guess that at the very least everyone will be much more cautious about what they say in e-mail correspondence with other scientists, and that they will be more reluctant to interact with journalists who have behaved on the whole rather badly.

Malcolm K Hughes – Regents’ Professor, The University of Arizona

A number of climate scientists have learned that simply trying to do a good, responsible, and honest job of climate research according to established standards of professional conduct can lead to their becoming objects of suspicion, derision, disdain, and even hate. Some have already been subject to this for several years.

Many climate scientists are also learning that this surging assault on their integrity and that of their field is not a coincidence, but is the consequence of organized campaigns of disinformation. These have been originated by ideological, political and economic interests, and amplified by the technique of inciting what can only be described as mob behavior on the Internet and over the airwaves.

As a clearly intended consequence of the organized campaigns of disinformation, this “climate science is a hoax” propaganda has spread widely in the political arena. So, more of us than before fall 2009 have learned that we must work in a very different environment than existed when nobody outside the field cared much about climate science.

Benjamin D. Santer – Program for Climate Model Diagnosis and Intercomparison, Lawrence Livermore, National Laboratory

In the past year, we have seen ample evidence of the activities of powerful “forces of unreason.”

These forces of unreason seek to establish the scientific equivalent of what were once called “no-go” areas in Northern Ireland. Their actions send a clear warning to the scientific community:

This is the new reality of climate science in the 21st century.

Donald J. Wuebbles – The Harry E. Preble Professor of Atmospheric Sciences, University of Illinois

1. Be careful with what you write in emails or say over the phone. We all have a tendency to say things that can be misconstrued.

2. We have learned that data access and archival of climate observation and modeling results needs to be better communicated and more transparent. This does not mean the scientists should have to provide every single piece of interim analysis products like the deniers are currently hassling the community for — that is aimed at harassment not science transparency.

3. We acknowledge that occasional mistakes will happen (we are human), but we should aim at eliminating errors from the assessments (not a big issue when one can only find one error of any real significance in almost 3,000 pages of an assessment).

4. We need to strengthen the communication of the science.

5. We should make the expression of uncertainties more transparent.

Richard C. J. Somerville – Distinguished Professor Emeritus and Research Professor, Scripps Institution of Oceanography, University of California, San Diego

The climate science community has learned that it is in the cross-hairs of a ruthless disinformation campaign. The campaign is run by economic, political, and ideological interests opposed to many proposed policies that might deal meaningfully with the threat of climate disruption. This disinformation campaign is professional, well-funded, and highly effective. Its purpose is to destroy the credibility of mainstream climate science.

Polling data show that this campaign has already been successful in many ways. The public is confused and distrustful of reputable climate scientists. The public thinks that the science is controversial and does not understand the degree to which the expert community is in agreement on the reality and seriousness of man-made climate change.

John M. Wallace – Professor, Atmospheric Sciences, University of Washington

We’ve witnessed the lengths to which political activists will go in an effort to manipulate public opinion. Yet it seems to me that for all its notoriety, “climategate” has had only a very limited impact on public opinion. It may have served to widen the divide between climate change believers and naysayers, but it doesn’t seem to me that it has caused many believers to switch sides.

What lessons should it learn?

Kerry Emanuel

In my somewhat pessimistic view, there is very little a small community of scientists can do when up against a much larger and far better funded disinformation campaign involving a curious, symbiotic relationship between agenda-driven interests and journalists. It is clear that any mis-step, however innocent, or any less-than-tightly-worded statement can and will be used against the climate science community or to further someone’s political agenda.

There are a few concrete steps that I think scientists can and should take:

1. Campaign vigorously and unceasingly to get governments around the world to treat government-funded environmental data as a public good. This used to be the case and is still the case in some civilized countries like the United States, but other countries with a less well developed sense of public interest, such as England and France, hold environmental data as proprietary. This has caused much grief and has tangibly slowed the progress of science. It also played a role in “climategate” by forcing East Anglia scientists to withhold certain data sets that they had acquired under Europe’s unjustified and labyrinth data distribution policies.

2. Recognize that just as certain European governments view themselves more as money-making enterprises than as entities that serve the public interest, journalists are in business to make money, not to serve the public interest. If scientists would learn to speak with journalists with this in mind, rather than treating them as fellow scientists interested primarily in advancing knowledge, then many evils could be avoided. Remember that controversy sells while consensus makes extremely dull copy. Always treat maverick scientists with respect while making it clear that they are indeed mavericks.

3. Recognize that the IPCC process may be reaching the end of its useful life and may even start being counterproductive. It is not likely that the uncertainty in climate projections will be much reduced by adhering to the current paradigm of running ever more complex global climate models, and the desire to have a consensus may be discouraging new approaches.

Anthony J. Broccoli

The community should recognize that having a public face carries additional responsibilities, including the need to not only act properly, but also avoid the appearance of improper behavior. Good scientists have been defamed by having off-the-cuff remarks publicly disclosed.

To avoid future problems of this kind, perhaps scientists who are involved in international assessments should be provided with staffing to help them perform this civic duty efficiently and judiciously without compromising their effectiveness as scientists.

Peter Gleick

Climate scientists must learn that there is a committed band (both organized and unorganized) of climate deniers, with diverse often unclear motivations, determined to do and say anything to confuse the public and policymakers about science in order to avoid the policy debates. Climate scientists must learn that sticking with science and ignoring policy, when the science says something bad is going to happen, does nothing to move policymakers — there MUST be coordinated, consistent, and ongoing communication from climate scientists to the public and policymakers.

I HOPE that the climate science community has learned that we must ensure that our science is good, transparent, adequately reviewed, open source, and not based on ideology. And, of course, I hope that every climate scientist (we’re supposed to be smart, eh?) has learned that e-mails must always be assumed to be completely public!

Michael Oppenheimer

For me, the key lessons of the episodes of the past year are: Healthy skepticism in the media and the general public toward experts is easily manipulated and blown out of proportion by narrow political interests and died-in-the-wool contrarians. That’s the sea we all swim in, so scientists working on important problems that bear implications for policy can’t avoid it.

The only effective weapon against this is for scientists to increase trust by increasing transparency, not only toward their colleagues but toward the general public. Institutions like IPCC need to continually learn from past experience and remake themselves to improve their degree of openness and their overall performance, even when the latter is already exceptional.

Malcolm K. Hughes

It is always vital to improve how we work and how we communicate data, methods, and results. The artificial scandal based on the theft of material from the University of East Anglia has no bearing on this. It is essential that we not be intimidated, seduced, or diverted from doing good science in a careful and deliberative manner.

To this end we need to learn to do a better job of communicating to the public how we actually work and the “rules of the game” under which we operate. Much has been written about data availability, but misapprehensions abound among academic colleagues as well as media professionals. I have been asked the question “why will you people not release your data?” when the data have been available in the public domain for years.

Finally, true friends of science are needed to develop ways of providing support, including legal and media advice, to colleagues under attack from ideological, political, or economic forces. Just as happened with other science unwelcome to powerful interests, the attacks will continue as long as the issues of society’s response to climate change remain unresolved, and we need to learn how to better the practice of science.

Ben Santer

As climate scientists, we have to decide how to deal with this new reality. We can ignore it, and hope that it eventually goes away. We can try to find some “place of refuge,” where (if we are lucky) we may be able to isolate and insulate ourselves from these forces of unreason, and concentrate on our own research. We can remain silent, and hope that our professional societies and funding agencies will defend us, and will defend our ability to conduct research in the public and national interest. We can hope that the media will recognize the crucial importance of “getting the science right,” and will show the same assiduousness in pursuing true understanding of complex climate science issues as they did in reporting on non-existent conspiracies to fool the global population.

Or we can recognize that we have to adapt to this new reality; we can recognize that:

Our responsibility to funding agencies and society does not end with the publication of X papers in the peer-reviewed literature;

We have a larger, open-ended responsibility to speak truth to power, and to tell the public and policymakers, in plain English, why they should care about the science of climate change, and what this science tells us;

We have a responsibility to debunk myths and misconceptions about climate science. We cannot ignore ignorance;

We have a responsibility to defend friends and colleagues who are unjustly accused of serious professional misbehaviour;

Our ability to do research in the public interest is a precious privilege, not an inalienable right. If we do not fight to retain and protect this privilege, it may be in jeopardy;

We do not have the luxury of remaining silent.

Richard Somerville

The climate science community should learn that it is poorly equipped to confront this disinformation campaign. It should recognize that excellent scientific researchers are often poor science communicators. Scientists should realize that IPCC assessments, National Academy of Science reports, and statements by scientific societies often are difficult for non-scientists to read and understand. Scientists should acknowledge that the research community taken as a whole generally lacks communications skills in dealing with media, with the political world, and with the public at large.

Improving this situation will not be easy or quick. The climate science community must understand that it needs to work closely with professionals in communications, media, public relations, and many other fields. It should understand that this close collaboration must be sustained and will be expensive. It should seek financial and political support for this effort.

John M. Wallace

Surviving “climategate” is not enough. Those of us in the scientific community need to learn how to reach across that wide divide to engage our friends and neighbors who are not now and perhaps never will become deeply concerned about climate change for its own sake and convince them to support progressive policies on energy, resources, fresh water, food security, and environmental protection.

And is it moving effectively to put those lessons-learned into practice?

Anthony J. Broccoli

That remains to be seen. Most of us became scientists out of a desire to understand how the world works — and that’s what we’re good at. We’re not always as good at engaging in public discourse.

John M. Wallace

I fear that as long as we continue to use climate change as the sole (or even the main) justification for policy decisions, we never will be able to reach out across that divide to bring many of our friends and neighbors on board. To move forward effectively, I think we need to have a broader discussion of the scientific issues that will have a bearing on national and international policy over the next few decades.

Don Wuebbles

Data access and archival is the subject of a lot of discussion. I have been working with the American Geological Union to see if there should be a special committee, perhaps jointly with other science societies, on this issue. Various government agencies in the U.S. (e.g., NOAA, Department of Energy) and Europe have also been discussing this.

[In addition,] IPCC is putting even stronger attempts into the AR5 assessment [Fifth Assessment Report] to try to prevent errors.

Communication has not only received a lot of discussion, but there is an ever increasing set of analyses on how to do this (e.g., two recent papers / reports on the psychology of climate science). Also, many new efforts and several new organizations are aimed at better communication, including faster better organized, responses to the “scandals”. Several professional organizations, e.g., the American Meteorological Society, AGU, and the American Association for the Advancement of Science, are also taking this on as a special activity.

[Finally, there are] several recent papers/reports on representing confidence levels and uncertainties. I am in charge of the chapter for IPCC AR5 that will be considering how to respond for the next assessment.

Peter Gleick

I would love to see some serious effort to improve science reporting in the climate area. Even the best aren’t very good, or consistently good. But there is also growing confusion about what “reporting” actually is, and what venues for climate news still exist.

Michael Oppenheimer

Due to the relative ease of creating access to electronic data bases, a long term trend has been under way toward making data more available to colleagues since long before these episodes; and in several respects, IPCC has progressively “opened up” over time. In other ways, the jury is still out.

Malcolm K. Hughes

I’m aware of scattered efforts but I believe we need urgently to do a better job of preparing young scientists for the new conditions we face. This is a situation where powerful interests seek to discredit climate science and scientists, and where there is an internet mob ready to respond to every incitement.

We need more widespread and systematic training of young scientists on legal and ethical aspects of scientific work — intellectual property, privacy, ethics of authorship and of data exchange, and so on. There should also be widely available training in dealing with the media. Climate scientists in general do a very good job of sharing methods and data but get little credit for this. Somebody’s purported difficulties in getting data may be more newsworthy than the fact that huge volumes of data are freely available, including the great majority of those featured in the anti-climate science propaganda. A much better job needs to be done of making this known.

At the institutional level, IPCC continues to evolve to meet these challenges. One important aspect of the changes IPCC is making concerns the need to respond more flexibly and rapidly when issues of public controversy arise.

Kerry Emanuel

I have no idea.

Richard Somerville

While some individual scientists have clearly taken these lessons to heart, I see very little sign that attitudes in the broad climate science community have changed.

*   *   *

A Yale Forum Two-Part Special Feature:

Scientists and Journalists on ‘Lessons Learned’ (Pt. 2)

November 23, 2010

Climate science and climate scientists aren’t the only ones who have come under some withering scrutiny over the past 12 months. The controversies — or were they “pseudo-controversies”? — stemming from the hacked e-mails at a British university put the media also under the microscope for their handling of the breaking news and its aftermath. Why, some scientists wondered, were the media focusing on the “what” message of carefully cherry-picked “private” e-mail messages, and seemingly under-playing the “who” and “why” … as in who released the e-mails in the first place and why, if not to purposefully disrupt and derail last December’s Copenhagen climate negotiations?

For reporters, the slow and incremental ooze of the climate science news story overnight had become, with the first headlines of the e-mails release, a breaking news story. Widely criticized for injecting a “faux balance” standard in much of its earlier coverage of climate science, many news reports on climate science in recent years had moved away from that traditional news approach — too far away in the opinion of some. Climate science “skeptics,” by whatever name, had been garnering less and less of the science reporting news hole, as a critical mass of journalists increasingly came to accept basic aspects of climate science — Earth is indeed warming, and human activities play a significant part in that warming — as something approaching “settled” science. Pretty much along the lines that the sun rises in the east, tobacco smoking causes cancer, those sort of things.

For this second part of a Yale Forum special report on “lessons learned,” freelance writer John Wihbey asked respected science writers and journalism experts questions along the lines of those posed in Part I to leading climate science researchers: For the journalism community, what are the key “lessons learned” from the experiences and controversies of the past 12 months? What lessons should the media learn from those experiences? And are there any signs that those lessons learned are actually being put into practice in the newsroom?

What lessons has the climate journalism community learned from the experiences of the past year or so?

Richard Harris, NPR

We’re not really a community, but individually we strive to get to the bottom of the story — to get at the facts and present them to the public. We’ve learned that we have less and less influence on public discourse relating to climate change. The “climategate” story was not a product of journalism, but activism. The storyline was crafted by people with a desired objective; it was not an effort to weigh facts and reach a dispassionate conclusion. Many journalists made a serious effort to examine the facts and report what we found, but our voices were joined by many others who were not attempting to be dispassionate.

Curtis Brainard, Columbia Journalism Review

That’s a very difficult question to answer. I’d say that most journalists didn’t learn anything from the “climategate” and IPCC-errors pseudo-scandals. In fact, it was quite the opposite. Rather than providing a teaching moment for the climate journalism community, those events only served to confuse editors and reporters.

In the U.S., journalists didn’t seem to know what to make of the revelations, so they basically took a pass on trying to explain what was going on. When outlets such as The New York Times finally weighed in, their stories tended to confuse climate politics (the debate over what to do about GW) and climate science (that debate over what we know about the Earth and our influence upon it). That trend continued into the winter. When skeptics seized upon heavy snows in the eastern U.S. as a refutation of global warming, the Times attempted to rebut their arguments in a front-page article. Rather than quoting scientists to set the record straight, however, the story devolved into an unresolved argument between non-scientist political partisans. To its credit, the Times covered a string of reviews released in mid-summer that reaffirmed the integrity of the work of the IPCC and the scientists involved in the “climategate” affair, but most reporters ignored them, as they did the InterAcademy Council’s review of the IPCC, which was released a month or so later. The only real high point in climate journalism in the last year was the coverage of the summer’s extreme weather, including heat waves in the U.S., wildfires in Russia, and floods in Pakistan. The press actually produced quite a bit of nuanced coverage, which explained that while it’s impossible to peg any single weather event to climate change, many scientists felt that summer’s extremes would not have been possible without humanity’s influence on the climate system.

The trend seems to have been somewhat different in the U.K. press. It was British reporters that really led the charge vis-à-vis “climategate” and the IPCC-errors controversies. Clearly, reporters on the other side of the Atlantic learned not to put so much trust in scientists, which might be a somewhat valid lesson, if not for the fact that they got carried away with it. While they brought a few legitimate errors in the IPCC’s fourth assessment report to light — such as the overestimate of the melt rate of Himalayan glaciers — they often overplayed the significance of these errors and trumpeted other errors that weren’t errors at all. In July, for example, The Sunday Times was forced to retract an article that accused the IPCC of flubbing a statement about the Amazon rainforest’s sensitivity to climate change.

So, what has the climate journalism community learned from the events of the past year? Not much, unfortunately. I haven’t seen a marked improvement in the coverage. In fact, the amount of climate coverage has been in precipitous decline for the last year or so. One might be tempted to say that the events of the last year spooked editors and reporters, who are not unsure where to go with the climate story or what to make of the latest research. I’m sure that’s true to some extent, but other factors may have played a more important role. The global recession has, more than anything else, called attention away from global warming. In addition, political shortcomings such as the failure to produce an emissions-reduction treaty at COP15 in Copenhagen and the death of climate legislation in the U.S. Congress have both served to take the wind out of climate story’s sails.

Seth Borenstein, Associated Press

For science journalists — and that’s different from political and other journalists — the answer goes back to the old Russian proverb that Ronald Reagan made famous: Trust but verify. Starting with the hacked e-mails. Much of the initial coverage of the purloined e-mails was based on pre-digested e-mails leaked to the media and they looked sensational in and of themselves.

But context is key here. At the AP, we spent a week and five reporters pouring over one-million words to read them in context and found no grand conspiracy, but lots of cranky scientists (and ones who really could use a good editor themselves). On the flip side, we in the media have a tendency to read summaries and skim in a speedy manner through the main text. Some of the handful of errors in the IPCC reports, especially the Himalayan ones, on the face of them should have been noticed by reviewers and eagle-eyed science writers. In addition, reporters should have delved into the millions of details more and asked more questions. I fear the non-science journalists don’t look as much in the science details, don’t have the time or leadership that we have at AP, and thus didn’t learn the lessons that science journalists have.

Eric Pooley, Bloomberg Businessweek

Climate journalists have spent too much time preaching to the choir while there’s a riot going on outside the church. It’s important to report on, and debate, policies for mitigation, adaptation, and clean-energy acceleration, but these conversations occupy a parallel universe to the one in which the 2010 elections [were] unfolding, the elections where 19 of the top 20 Republican candidates for U.S. Senate are either climate skeptics or proud, aggressive deniers. Rep. Bob Inglis of South Carolina blames his loss in the Republican primary on his public assertions that climate change is real. Joe Manchin, a Senate candidate in West Virginia, has a TV spot in which he shoots a rifle bullet through a cap-and-trade bill — and he’s a Democrat. Can climate journalists do anything to counter this profoundly skeptical atmosphere?

We can try — and of course many of us have been trying. I saw some of my colleagues get a wake-up call last December in the big COP 15 media center in Copenhagen. I was talking with some climate journalists after Senator James Inhofe, the famously skeptical Oklahoman, came through the room. Some journalists began joking about Inhofe, so-called “climategate,” and the absurdity of those who claimed that the hacked e-mails were proof that climate scientists had cooked their data. The journalists were right — those claims were absurd — but they were also missing the point. Inhofe had just predicted that a U.S. climate bill was “not going to happen,” and he was right. While climate journalists in Copenhagen were studying the fine points of the latest REDD proposal, “climategate” was going viral on the internet and in the mainstream media. Soon CNN was hosting a debate on the validity of climate science, and I was pulling out my calendar to remind myself what year it was. Surely we couldn’t still be arguing the basic science in 2009 and 2010.

Andrew Revkin, “DotEarth“

I guess my first response is, what climate journalism community? There’s a variegated array of journalists and commentators who approached the developments of the past year or two with completely different responses and output. A batch of (mainly British) reporters and outlets did epic reportage on “climategate” that appeared to be stimulated in part out of a sense of betrayal, perhaps. Some of the overheated coverage got rolled back with corrections and apologies. American media covered the incident with far less intensity, perhaps better reflecting its marginal significance. Science blogs of all stripes dove deepest, but the incident, in the end, was notable mainly for reminding the public that science is — shocking news to some — an ugly process at times, particularly when its findings relate to very consequential issues facing society.

Media coverage of problems revealed in the workings of the Intergovernmental Panel on Climate Change was similarly variegated, with some overheated accusations not holding up but a decent learning experience for everyone on the fallibility of such vast group exercises. My guess is there’ve been few lessons learned out of coverage of the international climate treaty negotiations and the domestic battle over climate legislation.

David Biello, Scientific American

I’m not sure the climate journalism community has learned any lessons. In my view, we all continually repeat the mistakes of the past, either because of turnover that is bringing many “new” to the beat into the coverage scheme who are trained in the classic he said/she said style. Or because us old-timers are set in our ways and continue to make the same mistakes over and over again. One example, from my own magazine, is a recent profile of Judith Curry.

Elizabeth Kolbert, The New Yorker

I’m not sure there is a climate journalism community, so it’s hard for me to answer this question. There are a bunch of people who write fairly regularly about climate science and climate policy in the mainstream media, but as you point out there are many more writing about it in the blogosphere. I expect that ratio is only going to grow more lopsided as time goes on.

What lessons should it learn?

Andrew Revkin, “DotEarth”

If science media tried to sustain coverage of science (including climate science) as a process, including the ugly parts, the public might be less apt to be surprised by occasional revelations of conflict like those illuminated through the batch of hacked/liberated (pick your adjective depending on your worldview) e-mails and files.

Beware the lure of the front-page thought in gauging developments in complicated science pointing to a rising human influence on climate, lest you end up giving readers whiplash. Try rigorously to include context on the overall state of knowledge when framing stories on science around conflict, given that conflict is a constant in science.

Develop patience. The story of humanity’s entwined climate and energy challenges will outlive you. No single treaty, meeting, e-mail hack, IPCC report, or climate bill is a keystone.

Elizabeth Kolbert, The New Yorker

The obvious lesson of faux scandals like “climategate” is that they tend to be created by groups or individuals with their own agendas, and journalists ought to be very wary about covering them. The notion that there is some huge scientific conspiracy going on, involving dozens of researchers at different institutions, is pretty implausible on its face. This goes for climate science as for all other scientific disciplines. I’m not saying it can’t happen; it’s just hard to imagine how it would work. Conversely, it’s very easy to imagine why an individual or a group with an economic or political interest would want to claim that such a conspiracy existed. The burden of proof ought to be very high. Instead, it seems the bar was placed ridiculously low.

Curtis Brainard, Columbia Journalism Review

First and foremost, reporters should have learned that they need to do a better job of delineating the various questions that climate science seeks to answer. There is a tendency to treat climate science as one monolithic question — are humans heating up the world or not — rather than as a series of questions, each with its own level certainty/uncertainty. When that happens, uncertainty related to the timing, scale, and geographic distribution of impacts (advanced science) tends to be reflected as uncertainty about whether or not the world is warming and whether or not human industry is driving that warming (basic science). Or, as we saw with “climategate” and the IPCC errors, minor flaws in the research and/or minor behavioral flaws in individual scientists cast aspersions on every other area of climate science. So, following these events, reporters should have learned that they must be very careful, in each and every story, to specify what which parts of the science they are addressing and which parts they aren’t addressing.

Along these lines, the other lesson is that reporters do, in fact, need to be more aggressive and skeptical. As the various reviews and investigations of “climategate” and the IPCC have shown, the fundamental conclusions of climate science remain untarnished. However, the IPCC did make a couple legitimate errors, and these reports also found that the IPCC and some individual climate scientists need to be more transparent and open to alternative viewpoints. Reporters need to actively ferret out these problems on a weekly basis rather than waiting until climate skeptics and blogs discover them and blow their significance out of proportion. If journalists wrote more stories about where uncertainty exists in the science, and if they were more aggressive about challenging scientists on transparency issues, we wouldn’t have these pseudo-scandals erupt every time a climate scientist missteps.

The corollary to this is that, at the same time, reporters must defend those scientists that need defending because many, such as Ben Santer, have had to endure unreasonable challenges to their credibility in addition to overt threats of violence.

Delineating the various questions of climate science and being more aggressive and skeptical will help with the third lesson: the need to separate climate science from climate politics. The narrative of climate change tends to get boiled down into one of two false generalizations: it is totally certain (we have five years to save the planet!) or totally uncertain (it’s all a hoax!). When that happens, it becomes very easy for political partisans to invoke scientific disagreements in support of their own policy objectives, just as they did in media coverage following the “climategate” and the IPCC-errors controversies. In reality, however, those events had no bearing whatsoever on political debate, and therein lies the lesson for journalists. Science cannot settle all arguments about how the world should respond to global warming, because the answer to that question involves values, varying perceptions of risk, and political ideology, in addition to what we know (and don’t know) about the climate system. So, if a reporter is simply trying to cover what scientists know, or don’t know, about the climate system, politicians should be excluded. Conversely, if a reporter is trying to cover climate politics, he or she must not let sources stake their claims on oversimplified reductions of climate science.

Eric Pooley, Bloomberg Businessweek

Now climate journalists are getting back to basics — connecting climate change to people’s lives and showing how it is already affecting our weather and our economy. Instead of getting hung up on whether a particular extreme weather event was ’caused’ by climate change — an unanswerable question — we’re explaining that extreme weather events are already happening more frequently, and that the scientists say we’ll be suffering through more of these events in a warmer world. We’re connecting the dots in a careful, responsible way. Some local coverage of the Nashville flood did this, for example. The magazine and website where I work, Bloomberg Businessweek, is doing this as well, through regular reporting on how business copes with climate risk (here’s one example). A website sponsored by Environment Canada connects the dots in a different but also effective way. There are many other angles on this story, and I hope news organizations will explore all of them.

Richard Harris, NPR

I think we still need to do our best to dig into the science — as well as into allegations of misconduct. It’s still important for us to present what we find to our audiences, even knowing that there are many competing voices. The “climategate” e-mails, for example, did not undercut the science of climate change, but it did lay bare some less than noble behavior on the part of certain scientists. It’s important to air that out. Likewise it’s important to set the record straight on broadly repeated misconceptions, such as the rate of demise of the Himalayan glaciers.

David Biello, Scientific American

The lesson that should be learned is two-fold: one, we must always retain our skepticism. Don’t trust anyone. Verify everything. In cases where you can’t verify, triangulate (i.e., use multiple sources to get closer to the truth). Two, sometimes smoke doesn’t mean fire. There is a lot of politicking going on in this area, both in the academic sense and in the broader social sense. That makes for a lot of smoke, which would seem to suggest a major conflagration. Such a fire does not exist, unless it’s the one embedded in the hundreds of coal plants around the world.

And is it moving effectively to put those lessons-learned into practice?

Eric Pooley, Bloomberg Businessweek

When the next climate scandalette comes along, some news organizations will surely play to hype and get carried away with their coverage — in effect, becoming a handy transmission belt for the professional deniers. That’s why serious climate journalists need to investigate charges rapidly and communicate their findings widely — explaining what’s real and what’s not, clarifying what the scandal does and doesn’t say about climate science, and fact-checking any false claims that may be in the air. Inevitably, the multiple investigations exonerating the climategate scientists got far less attention than the wild initial allegations against them. If more experienced climate journalists jump into the fray early, they could help tip the balance toward honest reporting and away from hype.

Richard Harris, NPR

Journalism still takes its role very seriously, but of course there are fewer of us out there every day. Those of us with big platforms and credibility with our audience are putting the lessons leaned into practice — that is, we are still reporting the stories carefully and thoroughly as they emerge. But it is naïve to think that crisis management, through even the best journalism, will overwhelm deliberate efforts to color the facts in order to achieve philosophical or economic objectives.

David Biello, Scientific American

… Old-timers seem to make the same mistakes over and over (including me, darnit). Newcomers fall into the same trap of “he said, she said” that they then must laboriously climb out of over years of on-the-job training.

Curtis Brainard, Columbia Journalism Review

No, I don’t see journalists putting the lessons learned into practice because I’m not sure if they really learned them in the first place. There are a few reassuring signs, however.

The Sunday Times retracted its fallacious “Amazongate” article. Another positive development was the American Geophysical Union’s decision to award its Excellence in Science Journalism award to Pallava Bagla, an Indian journalist who broke and unraveled the story about how the IPCC overestimated the melt-rate of Himalayan glaciers. So, to some extent, the bad journalism is being condemned and the good journalism is being recognized.

There have also been a couple other good articles recently. Shortly before the midterm election, The New York Times had a great front-page story about climate denial being an “article of faith” for the Tea Party, which made it clear that the group’s climate politics are not synonymous with climate science.

There was also a long feature in Scientific American about Judith Curry, who studies hurricanes at Georgia Tech and has ruffled the feathers of her fellow climate scientists by engaging with skeptics. A lot of climate scientists were really unhappy with the piece, arguing that Curry is wrong and that the media attention should have gone to somebody who is making real progress with their research. Personally, though, I thought it was an excellent attempt to be more aggressive and skeptical with scientists and show that climate science is (as Andrew Revkin once put it) a very “herky-jerky” process. I get the feeling that if more people were exposed to that type of journalism they would begin to understand the scientists and science are not infallible.

For the most part, though, I don’t think climate coverage, on the whole, has gotten any better or any worse in the last year. In fact, I think the “climategate” and IPCC-errors controversies has had far less of an impact on public opinion and on journalism than a lot of people have assumed. What’s really plaguing coverage are the same things that have been plaguing it for years: a declining number of specialized reporters in newsrooms, less time and fewer resources for reporting, and all the “noise” created by blogs and the 24/7 cable news.

Andrew Revkin, “DotEarth”

Too soon to tell.

Seth Borenstein, Associated Press

Any signs that they are moving to put those lessons-learned into practice? This is much like natural disasters. People who have lived through a major hurricane tend to prepare better for the next one and take it more seriously. Those who haven’t, don’t. Science journalists and others who well reported the issue this past year will do a better job, those who didn’t or just skimmed the surface or parroted ideologues won’t. The trouble is — much like in disasters — the people who really need to learn are usually the ones who don’t. And those who work hard to be even better prepared next time were not the problem cases to begin with.

>Pessimismo global atinge a Conferência do Clima (JC)

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JC e-mail 4142, de 23 de Novembro de 2010

COP-16 começa no próximo dia 29, em Cancún, México

Um ano após a grande frustração que foi a Convenção das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Copenhague (COP-15), a nova edição da convenção, em Cancún (COP-16), começa no próximo dia 29 sem expectativas de grandes resultados

Prova disso é que são esperados apenas entre 20 e 30 chefes de estado no México, contra 118 que estiveram presentes em Copenhague. O presidente Lula, uma das grandes estrelas do último encontro, já confirmou sua ida, mas a delegação brasileira encolheu de 900 pessoas, no ano passado, para 250 este ano.

Não se espera o fechamento de um grande acordo vinculante com metas significativas de redução de emissão de CO2 para o segundo período de compromisso do Protocolo de Kyoto, que vence em 2012, e é uma obrigação dos países desenvolvidos que assinaram o documento. Tampouco deverá haver resultados importantes na área de financiamento, outro ponto-chave da negociação.

Este é mais um compromisso firmado pelos países desenvolvidos: prover recursos financeiros para que países em desenvolvimento possam prevenir os efeitos das mudanças climáticas (mitigação) e se adaptar àqueles que já podem ser sentidos nos países mais vulneráveis, como pequenas ilhas do pacífico e nações africanas.

– Você chega a Cancún sem aquela comoção com que se chegou em Copenhague e com as mesmas dificuldades. As expectativas agora são mais modestas – avalia o embaixador Luiz Figueiredo, negociador-chefe do Brasil na Convenção do Clima da ONU.

O Brasil tem ganhado um papel protagonista na convenção e vai levar para Cancún dois trunfos na bagagem: a apresentação do último balanço sobre o desmatamento da Amazônia e a explicação dos planos setoriais que vêm sendo elaborados para que o país cumpra as metas voluntárias de redução de emissões.

Sobre a Amazônia, deve ser anunciado um novo recorde histórico, no qual “somente” cerca de 5 mil km2 teriam sido destruídos entre 2009 e 2010. Já sobre as emissões, o governo brasileiro vai mostrar como pretende reduzir de 36% a 39% de suas emissões, com relação ao que o país calculou que vai emitir em 2020. Na prática, significaria emitir 1,7 giga toneladas de CO2 daqui a dez anos, quando o esperado era a emissão de 2,7 giga toneladas de CO2.

– Lula terá um papel muito destacado em Cancún. Com a proposta ambiciosa que apresentou em Copenhague, ele foi o chefe de Estado que mais chamou a atenção – diz o secretário-executivo do Fórum Brasilieiro de Mudanças Climáticas, Luiz Pinguelli Rosa.

O principal plano brasileiro é reduzir a derrubada da Amazônia em 80% até 2020 e do Cerrado em 40%. As duas medidas, se alcançadas, evitarão a emissão de 668 milhões de toneladas de CO2. O desmatamento responde por 61% das emissões brasileiras.

A agricultura, dona de 22% das emissões, também sofrerá alterações. Uma das ações previstas é a recuperação de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas, de um total de 60 milhões que o país possui, e a implementação de um programa de agricultura de baixo carbono. Com isso seriam cortadas pelo menos 183 milhões de toneladas de CO2.

No setor energético, que gera 15% de nossas emissões, o governo prepara um pacote para aumentar o uso de biocombustíveis, reduzindo entre 48 e 60 milhões de toneladas de CO2. E na siderurgia, setor ainda bastante dependente de carvão produzido com madeira de desmatamento, a ideia é justamente substituí-lo por carvão vegetal de florestas plantadas. A ação pode gerar o corte de entre 8 e 10 toneladas de CO2. As carvoarias emitem 31% do total registrado no setor energético.

Além desses cinco setores, o governo vai incluir outras sete áreas para as quais também serão criados planos setoriais. A principal delas é o transporte. Listado dentro da seção “energia”, o transporte rodoviário responde por 38% dessas emissões.

– O transporte será uma área decisiva para o Brasil no futuro, pois passará a contribuir cada vez mais para o nível de emissões, principalmente por conta da ineficiência do transporte de carga. O Brasil tem, há 15 anos, o pior desempenho do mundo em transporte de cargas – aponta Eduardo Viola, professor de Relações Internacionais da UnB.

Ele critica também o transporte público brasileiro que receberia incentivos para o aumento no número de carros nas ruas, quando deveria ocorrer justamente o contrário. Ele sugere que o país monte um programa para penalizar o uso de carros (como taxas para quem roda nos centros das grandes cidades), o que geraria pressão para estimular investimentos em transporte público de alta capacidade para passageiros, como trens e metrôs. No caso do transporte de suprimentos, a saída, segundo o professor, é ampliar a rede ferroviária e hidroviária.

O pacote que o Brasil apresentará vai esbarrar com a dura realidade que vigora nas negociações climáticas. Com relação às metas de redução dos países desenvolvidos, até agora apenas 15 nações manifestaram suas intenções, a maioria condicionando números mais ambiciosos a um acordo global, o que ainda não aconteceu.

Por enquanto, o que se tem é uma redução que varia de 16% a 18% com relação às emissões de 1990. Isso seria insuficiente para evitar um aumento da temperatura da Terra de mais de 2 graus Celsius, conforme concordaram os 140 países que assinaram o Acordo de Copenhague – documento fechado na COP-15, mas que não tem validade jurídica. Ou seja: é um texto de intenções.

A questão do financiamento também está em aberto. Na última reunião, os países concordaram com a criação de um Fundo de Início Rápido (Fast Track Fund), que proveria US$ 30 bilhões em três anos para que os países mais necessitados pudessem começar a agir contra o aquecimento global.

A fonte de recursos já foi identificada, mas esbarra em um problema: alguns dizem que o dinheiro de que se fala não é novo e configuraria um desvio de finalidade de recursos já comprometidos em outras áreas da cooperação internacional, como saúde e educação. O resultado é que, até agora, nenhum projeto foi contemplado com tal verba.

Um outro mecanismo acordado, mas que também não saiu do papel é o Fundo Verde Climático, para o qual seriam doados US$ 100 bilhões anuais até 2020. Esse dinheiro poderia ajudar países a criar mecanismos de eficiência energética, instalar aterros sanitários e manter florestas preservadas.

As regras são as mesmas: países ricos pagariam e países em desenvolvimento, como Brasil e África do Sul, implantariam localmente tais iniciativas. Como o aporte de dinheiro é alto, há divergências sobre de onde sairia. Dificilmente essa questão será solucionada em Cancún. Mas a ONG ambientalista WWF acredita que será possível avançar na estruturação do fundo, como o conselho que definirá prioridades a serem seguidas e os fiadores do sistema.

– Seria uma grande forma de reconstruir a confiança e demonstrar que os países industrializados estão tratando a mudança do clima com seriedade – pondera Mark Lutes, coordenador de políticas financeiras da Iniciativa Climática Global da WWF.

Para tentar solucionar o impasse sobre a fonte de recursos que abastecerá o Fundo Verde, o Grupo de Alto Nível em Financiamento de Mudanças Climáticas da ONU (AGF) elaborou um estudo apontando algumas alternativas, como a taxação de viagens internacionais no setor aéreo e de navegação, o que geraria potencialmente US$ 10 bilhões anuais. O setor, embora represente apenas 2% das emissões globais, é o que vem aumentando mais rapidamente sua fatia.

Apesar do clima de pessimismo que cerca o início da COP-16, em algumas áreas há chances reais de se chegar a algum acordo positivo. O anfitrião da convenção, o presidente mexicano Felipe Calderón, deposita todas as suas fichas na criação do REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação). Iniciativas nessa área são consideradas ações de mitigação e, portanto, podem ser contempladas com recursos do Fundo Verde e do Fast Track Fund.

– Provavelmente o avanço mais importante que se fará em Cancún será em REDD, sobre as emissões florestais reguladas. Por isso me sinto otimista sobre este lado da equação – disse Calderón durante sua participação na última reunião do G-20, na Coreia do Sul.

O mecanismo, que inicialmente previa somente ações de combate ao desmatamento, ganhou um sobrenome: plus. Isso significou a inclusão de ações de conservação (como a criação de parques e reservas naturais) e técnicas de manejo florestal (nas quais madeira pode ser explorada de forma seletiva e ao longo de várias décadas para permitir a reposição das árvores cortadas). Segundo a pesquisadora do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe) da UFRJ, Thelma Krug, as duas primeiras fases do REDD deverão ser implementadas ainda em Cancún.

A primeira fase diz respeito à preparação dos países ricos em floresta – como Brasil, Indonésia, Congo e Papua Nova Guiné – para monitorar o desmatamento. Nesta etapa, serão elaborados planos nacionais para reduzir o desflorestamento e montada uma rede para acompanhar os resultados. A capacitação de pessoal para trabalhar nessas atividades também é fundamental

A segunda fase prevê a implementação de projetos pilotos e o pagamento de serviços florestais. Em ambos os casos o Brasil dificilmente receberia recursos estrangeiros. Isso porque o país já possui um Plano Nacional para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia e monitora por satélite a destruição do bioma há duas décadas.

– Acho que o Brasil não vai ver a cor desse dinheiro. Vai ser difícil convencer doadores a colocar recursos num país que já está conseguindo reduzir significativamente o desmatamento sozinho – pondera Thelma, uma das negociadoras brasileiras na convenção.

Por outro lado, os brasileiros têm muito a contribuir com os países mais atrasados. O governo assinou um acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) para transmitir tecnologia. Doadores pagarão para que técnicos de outros países venham aprender com os profissionais do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) as ferramentas de monitoramento em tempo real. A primeira turma, de africanos, virá no início do próximo ano.

Além disso, há chances de ser criado um comitê para coordenar as ações de adaptação, aquelas voltadas para minimizar as consequências da mudança do clima. Um Fundo de Adaptação já está em vigor, com recursos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) – pelo qual os países desenvolvidos podem cumprir suas metas de redução de emissões bancando, em nações pobres, projetos que resultem em menos emissões.

Dois temas, entretanto, deverão aquecer os debates da COP-16: o primeiro é o fortalecimento do Protocolo de Kyoto, documento assinado em 1997, e que prevê a fixação, por parte dos países ricos, de cortes mensuráveis de emissões. Caso não sejam definidas metas para um segundo período do protocolo, a partir de 2013, ele pode se tornar ineficaz. Isso vai ser um problema porque a União Europeia, por exemplo, fez leis com base no protocolo.

Assim como em Copenhague, o X da questão continua sendo os Estados Unidos, que são os maiores poluidores do planeta, mas não assinaram Kyoto. Uma lei estipulando o corte de 17% das emissões americanas até 2020 com relação às de 2005 está empacada no Congresso com poucas chances de ser aprovada. A Europa também começou a recuar quanto à adoção de metas significativas de corte de emissões. Segundo negociadores brasileiros, os europeus vêm fazendo o jogo dos americanos para esticar até 2012 o impasse sobre metas.

O segundo problema são as ações de mitigação a serem adotadas pelos países em desenvolvimento, as chamadas Namas (Ações de Mitigação Nacionalmente Adequadas). Embora os emergentes não sejam obrigados a se comprometer com metas, foi estabelecido na convenção que adotarão medidas voluntárias.

O embaraço, nesse caso, se dá no acompanhamento dessas ações. A maioria dos países só aceita o monitoramento internacional das ações financiadas por dinheiro estrangeiro. A China é a principal opositora à possibilidade de outros países interferirem em medidas que estão sendo adotadas em seu território.

(Catarina Alencastro, O Globo, 23/11/2010)