>El Niño violento dá lugar a uma poderosa La Niña e intriga cientistas (JC)

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JC e-mail 4175, de 11 de Janeiro de 2011.

Clima de extremos

Quando o assunto é clima, o planeta tem sido regido por extremos. Ou El Niño – ocasião em que o Pacífico Equatorial se aquece acima da média – ou La Niña, quando a mesma região fica anormalmente fria. Ambos os fenômenos causam distúrbios de alcance global.

A passagem de um extremo a outro sempre ocorreu. O que preocupa é a velocidade com que ela tem acontecido. Nos últimos 60 anos, houve apenas uma vez em que um desses fenômenos foi imediatamente sucedido pelo outro, em 1972-1973. Agora, a mudança drástica voltou a ocorrer no biênio 2010-2011, intrigando especialistas.

Até o meio do ano passado, o planeta aquecia sob a influência do El Niño. O fenômeno foi o responsável por 2010 ter chegado ao fim como o ano mais quente desde o início dos registros meteorológicos, em 1850. Logo depois, para a surpresa dos pesquisadores, o clima esfriou sob a La Niña, cuja duração deve se estender até abril.

– Não há uma explicação definitiva para uma flutuação tão grande das temperaturas no Pacífico – admite Paulo Cesar Rosman, professor de Engenharia Oceânica e Costeira da Coppe. – Alguns pesquisadores atribuem este fenômeno a problemas geológicos, de vulcanismo, mas nenhuma hipótese foi comprovada até agora.

Transição no ano passado foi anormal

A resposta deverá vir da Organização Meteorológica Mundial (OMM), num relatório com lançamento previsto para as próximas semanas. Pesquisadores da instituição passaram os últimos meses na América do Sul, analisando as mudanças climáticas e eventos extremos do continente. Também foi revisado o histórico de medições de temperatura do Pacífico da última década.

– A transição de um desses fenômenos para outro não é normal; não de uma forma tão rápida – ressalta Ghassem Asrar, codiretor do Departamento de Pesquisas da OMM e diretor do Programa Mundial de Pesquisa Climática. – Normalmente El Niño e La Niña estão separados por períodos significativos de situações neutras, ou seja, anos em que a temperatura da água no Pacífico Equatorial não está muito quente ou muito fria.

De acordo com o último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), de 2007, não há indícios de que os meninos do clima terão frequência ou extensão aumentadas este século. Suas principais consequências, no entanto, podem dar as caras mais vezes.

– É possível que cresçam os eventos extremos, associados ou não ao El Niño e La Niña – alerta Asrar. – As ondas de calor e as chuvas rigorosas, por exemplo, vão se tornar cada vez mais frequentes.

Cheias devastadoras no verão da Austrália

A mais recente catástrofe do clima está associada à La Niña. Em nota divulgada na semana passada, o governo australiano culpou o fenômeno pelas enchentes do estado de Queensland, que já deixaram cinco mortos e 75 mil pessoas isoladas, devido ao alagamento de estradas, ferrovias e aeroportos. O ano passado, quando começou o atual La Niña, foi o terceiro entre aqueles com mais precipitações da história do país.

– Embora a intensidade de El Niño e La Niña seja o mais importante fator para avaliar riscos climáticos, os eventos extremos podem se desenvolver como consequência de outras interações entre os oceanos e atmosfera – ressalta Rupa Kumar Kolli, pesquisador da OMM e especialista nos dois fenômenos. – Nem tudo depende da temperatura do Pacífico Equatorial.

Por romperem os padrões normais de circulação atmosférica, El Niño e La Niña mudam modelos climáticos típicos de cada região. Sua força é ainda mais visível nas regiões tropicais. O Brasil, país de dimensões continentais, recebe sinais nítidos de ambos os fenômenos.

– O La Niña leva chuva ao Nordeste, o que é bom; em compensação, o Sul fica seco. No El Niño, ocorre o inverso – explica Rosman. – Até a ressaca do mar segue um desses modelos. Durante o El Niño, o Posto 5,
em Copacabana, desaparece. A Marina da Glória é tomada por ondas. Os fenômenos são lentos, progressivos e cumulativos. Acontece que as pessoas só notam os problemas quando eles atingem o seu ápice. Quando cai a mureta da Praia do Arpoador, por exemplo.

No Rio, a La Niña facilitará a entrada de frentes frias neste verão. Ainda assim, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a temperatura pode ficar acima da média histórica. O índice de chuvas está dentro do normal, mas haverá “grande variabilidade espacial e temporal em sua distribuição” – ou seja, as precipitações podem ocorrer mais concentradas (portanto mais rigorosas), e períodos de seca não são descartados.

Mil anos de efeito estufa

Uma pesquisa publicada ontem na revista “Nature Geoscience” revela que o acúmulo de gases-estufa na atmosfera causará efeitos ininterruptos no clima global por, no mínimo, mil anos. A longa duração do evento será suficiente para provocar o colapso da camada de gelo da
Antártica Ocidental até o ano 3000. Com isso, haverá um aumento do nível dos oceanos de, no mínimo, quatro metros.

Esta é a primeira simulação de modelo climático a fazer previsões de um período tão grande. Para trabalhar com um cenário de 1.000 anos a partir de agora, os pesquisadores basearam-se em hipóteses mais otimistas, ou seja, de emissões de gases-estufa zeradas a partir de determinado momento, que variava entre 2010 e 2100.

– Criamos uma série de cenários – explica Shawn Marshall, professor de geografia da Universidade de Calgary, do Canadá, que desenvolveu a pesquisa junto ao Centro Canadense de Modelagem e Análise Climática. – “E se interrompêssemos completamente o uso de combustíveis fósseis e não emitíssemos mais gás carbônico na atmosfera? Quanto tempo demoraríamos para reverter os padrões atuais de mudanças climáticas? Primeiro a situação ficaria pior?”.

Outra pesquisa publicada pela revista indica que as geleiras de montanha podem perder entre 15% e 27% de seu volume até o fim do século, o que afetaria fortemente a disponibilidade de água para os centros urbanos. Entre as regiões mais afetadas estão a Nova Zelândia, que pode perder 72% de suas geleiras, e os Alpes (75%). O degelo provocaria um aumento médio do nível do mar em 12 centímetros.
(Renato Grandelle)
(O Globo, 11/1)

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