Kelman: ‘A solução para a crise hídrica no país passa pela iniciativa privada’ (Brasil Econômico)

17/11/2014 | 08:40 – Atualizado em: 17/11/2014 | 08:43

Responsável pela implementação da Agência Nacional de Águas (ANA), o engenheiro Jerson Kelman, hoje na UFRJ, defende as Parcerias Público-Privadas para ampliar a segurança hídrica no país

Nicola Pamplona e Octávio Costa

Com passagens pelo comando da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o engenheiro Jerson Kelman defende o modelo de Parcerias Público-Privadas para ampliar a segurança hídrica no país. Segundo ele, investimentos em saneamento e novas fontes de captação de água serão mais eficientes se forem contratados como prestação de serviços, e não como obras públicas. “Esse conceito de contratação pelo resultado, e não pela obra, é um salto qualitativo”, afirma. Para Kelman, que também passou pela presidência da Light, o poder público está amarrado pelo “excessivo” sistema de controle, pelo lobby das empreiteiras e por circunstâncias políticas, responsáveis pela falta de transparência sobre a dimensão das crises de água e de energia no período pré-eleitoral.

“Faltou, em São Paulo, dizer claramente à população que a situação era grave. Mas isso vale também para o governo federal na energia”, comenta o especialista (hoje de volta à Coppe/UFRJ), que não acredita, porém, em um cenário de desabastecimento. “A minha visão é de que, mesmo a longuíssimo prazo, tem água para todos. Mas a questão é tratada com um componente emocional muito forte”, afirma, defendendo a posição de São Paulo na briga pela captação de água do Rio Paraíba do Sul. Responsável pelo relatório que identificou as causas do racionamento de 2001, que levou seu nome, Kelman diz que o diagnóstico da crise energética atual é o mesmo da época: falta de garantias físicas das hidrelétricas.

O que nos trouxe a esse cenário de crise hídrica?

A hidrologia este ano, de fato, ali na região do Piracicaba, que abastece o Sistema Cantareira, não é só a pior da história, é disparada a pior da história. Nenhum hidrólogo poderia imaginar que isso pudesse acontecer. Se a afluência média no verão é 100, o pior ano histórico até então era metade disso. E este ano é metade da metade. É metade do pior. No São Francisco é também a pior do histórico. Não é uma seca trivial, é barra pesada.

É uma situação que costumava acontecer apenas no Nordeste…

São Paulo, em condições normais, já tem baixa disponibilidade de recursos hídricos, porque fica na cabeceira dos rios. Se dividir a disponibilidade hídrica pela população, o Nordeste terá uma taxa maior, porque a população de São Paulo é brutal, 20 milhões de habitantes. Por isso, São Paulo já depende, há muito tempo, de água das bacias vizinhas. E este ano teve uma seca tão intensa, que toda a análise hidrológica anterior terá que ser refeita, ninguém imaginava a possibilidade de ter tão pouca chuva. Quer dizer, São Paulo sempre esteve mais inseguro do que imaginávamos, porque nós não sabíamos que poderia acontecer um ano tão seco.

E como ampliar a segurança hídrica?

São Paulo já tinha feito um plano de macro metrópole, procurando fontes de abastecimento de água, porque não tem outra fonte local. E não tem também porque a água é muito poluída. Se o esgoto estivesse sendo coletado e tratado, os rios Pinheiros e Tietê seriam fontes de abastecimento. Então, antes mesmo da crise, ficou pronto um plano sobre onde buscar água para São Paulo. Mas aquilo era para ser visto a longo ou médio prazo, hoje é urgente, porque São Paulo não pode mais viver sem reforço. E aí há três possíveis locais. Uma possibilidade é tirar água do Alto Paraíba do Sul, mais especificamente da Represa de Jaguari. O problema é que se tirar dali, a água deixa de correr para cidades paulistas como São José dos Campos, Taubaté, e depois para as cidades fluminenses até Campos. E para complicar mais, em 1950, foi feita a transposição do Paraíba do Sul para o Guandu.

Mas o Rio quer impedir a retirada, alegando que pode faltar água aos cariocas…

Hoje, em uma situação crítica, a Cedae está retirando 110 metros cúbicos por segundo do Paraíba do Sul. Mas só usa 50. Abaixo do Guandu, tem umas indústrias, que tiram outros 10, mais ou menos. O Alckmin quer tirar cinco e diz que só vai afetar produção de energia. E ele tem razão. Somando a Cedae e as indústrias, mais uma projeção de crescimento, a demanda máxima no futuro seriam uns 80 metros cúbicos por segundo. Se está passando hoje 110, no mínimo sobram uns 30. O que falta dizer é que, vergonhosamente, o Rio Guandu recebe dejetos de pequenos rios que cortam a Baixada Fluminense. Então, os 110 metros cúbicos por segundo são usados para diluir a carga de poluição. Nos anos 80, fizemos um projetinho simples de desviar essa água poluída para depois da captação. A obra nunca foi feita.

Qual o investimento?

É de R$ 75 milhões. Não é nada. E até a Cedae economizaria. Mas ainda tem outro problema. Se reduzir a vazão do Guandu, lá perto de Sepetiba, o mar invade um pouco mais e tem uma intrusão salina no local de captação dessas indústrias. Esse é um problema de facílima solução, é só mudar a tomada de água das indústrias e trazer por uma tubulação. Resumindo, a ideia de captar água do Paraíba do Sul é perfeitamente exequível. Não há porque ter guerra d’água, desde que se faça o dever de casa no Guandu e no Paraíba do Sul. No fundo, é investimento em saneamento. Se tratar da qualidade da água, sobra quantidade.

Cinco metros cúbicos por segundo resolvem o problema de São Paulo?

Melhora muito, porque, com cinco metros cúbicos por segundo, São Paulo volta a ter a confiabilidade que imaginávamos ter. E pode tirar até mais. São Paulo vai crescer e não pode ficar fazendo obrinha. Mas, enquanto isso for visto como uma obra pública, vamos cair nessas armadilhas relacionadas à origem do dinheiro, e se o Estado do Rio deixa ou não deixa. Uma alternativa seria fazer desse problema uma oportunidade para uma PPP (Parceria Público-Privada). Em vez de obra pública, com dinheiro do PAC, imagine fazer uma licitação para colocar água no Cantareira, vencendo quem oferecer o menor preço por metro cúbico. Essa empresa privada teria que fazer todas as obras necessárias para viabilizar a captação, não só a adutora: resolveria o problema da poluição no Guandu e faria a nova captação de água para as indústrias. Seria uma solução em que ninguém perde. Quem oferecer o melhor preço, leva um contrato para vender água por 30 anos.

A legislação tem instrumentos para permitir isso?

Tem, é uma PPP. Esse modelo se ajusta a quase todas as obras do PAC. Algumas já são assim, como o Minha Casa Minha Vida, por exemplo. O governo paga pelo resultado, não fica pagando por ferro, tijolo. Quando eu estava na ANA, fiz um projeto piloto disso, para a construção de estações de tratamento de esgoto. É normal, no saneamento, ter dinheiro público, porque o beneficiário é o cidadão, e não o consumidor — é a comunidade. No mundo inteiro tem subsídio para saneamento. Ou faz uma obra pública, que é o que se fez aqui sempre, mas não funciona, porque toda a ênfase está na obra; ou se cria um modelo de PPP. O que se fez na ANA foi garantir o recebível. Quer dizer, não quero saber da tecnologia, qual o seu projeto. Quero saber quanto esgoto chega na estação e quanto é tratado. Se trata no padrão combinado, recebe o valor por metro cúbico. Então, o cara não tem risco. E tudo que ele tem que fazer é demonstrar que é capaz de coletar e tratar o esgoto. Esse conceito de pagamento pelo resultado, e não pela obra, é um salto qualitativo.

E as outras alternativas?

Uma é tirar água ao Sul, do Rio Juquiá, que tem várias usinas hidrelétricas. É uma obra cara, porque é longe, e o Juquiá está mais baixo que São Paulo, teria que subir uns 300 metros. Nessa alternativa também pode ser uma PPP, mas como o bombeamento é muito grande, o esquema devia ser um backup: continua tirando água do Sistema Cantareira e, em uma situação parecida com 2014, bombeia a água para lá. Nesse caso, teria que desligar as hidrelétricas, que são da CBA (Companhia Brasileira de Alumínio, do grupo Votorantim), e cuja concessão vence em 2016. Pode ser fazer uma nova licitação prevendo a parada das usinas nos anos críticos. E a terceira fonte é mais longínqua, é lá no Paranapanema, na divisa com o Paraná, na Represa Jurumirim, a 200 km da região metropolitana. Mas tem a vantagem de resolver uma série de problemas de abastecimento de cidades pelo caminho.

Qual a melhor alternativa?

Acho que o Paraíba do Sul, que custa uns R$ 500 milhões. Mas, pode ser que tirar da Votorantim seja melhor. O problema é que os projetistas sempre imaginaram obras públicas, com as restrições políticas que existem. Quer dizer, já foi uma ousadia imaginar tirar 5 m³ por segundo do Paraíba do Sul porque o Rio ia chiar. É um falso problema, que só existe porque não se resolveu o saneamento. Se resolver, o problema não existe. A minha visão é que, mesmo a longuíssimo prazo, tem água para todos. Mas a questão é tratada com um componente emocional muito forte.

São Paulo e Rio têm perdas enormes nas redes de água. Como resolver isso?

As duas empresas são estatais e a regulação e a fiscalização são muito mais tênues quando se trata de estatais. A Aneel, por exemplo, tem centenas de empresas para fiscalizar, o poder de fiscalização dela é bem maior. Em São Paulo, é uma agência para fiscalizar um monstro que é a Sabesp. E no Rio de Janeiro, a agência não tem nenhum peso, é para inglês ver. No médio prazo, precisamos fazer duas coisas diferentes. A primeira é investir em saneamento. Se compararmos os índices de saneamento básico brasileiro com países análogos, vemos que estamos atrasados. Enquanto 99,3% das casas têm energia elétrica, apenas 60% têm conexões e redes de tratamento de esgoto. E, em tratamento, é pior ainda. E temos que investir também em perdas. A Cedae trata 47 m³ por segundo, mas fatura muito menos do que isso. Deve faturar 60% disso. E essa diferença tem duas origens: uma é vazamento físico, outra são as perdas comerciais. É gato, água roubada, não medida… Tem que trabalhar nas duas frentes. Mas isso tudo são programas de décadas que não deveriam ser feitos com obras públicas, e sim no modelo PPP.

O fato de as empresas de saneamento serem estatais é um obstáculo?

Não. O problema é que o motor que move o saneamento é o lobby da construção civil; não é o lobby da operação do sistema. Quem está no Congresso fazendo emenda ao orçamento está preocupado em construir, em inaugurar obra. Aí, depois de dois anos, se a obra estiver funcionando ou não, não tem problema. Temos um sistema perverso, porque o lobby é para construção, para maximização do custo, para inauguração e para o não funcionamento. Quando ouço na campanha política o cara dizer “Gastei tanto, vou gastar tanto”, penso: e daí? Não interessa quanto gasta; interessa é quando ficará pronto, se funciona ou não. E o segredo disso é a PPP, botar a iniciativa privada na história.

No curto prazo, o Brasil corre risco de desabastecimento?

Nenhuma das obras sobre as quais falamos é para 2015. Olhando para trás, o governo fez a melhor política em relação à água? Claro que não. Porque era ano eleitoral. Não teve transparência, não teve a franqueza com a população que teve, por exemplo, o governo Fernando Henrique Cardoso em 2001. Lá, o governo disse que havia um problema grave. Fui coordenador de uma comissão em 2001 para explicar porque tinha havido o racionamento. Foi feito um relatório, que o setor elétrico chamou de relatório Kelman, que concluía que houve problema de governança. Eu fui entregar o relatório ao presidente e disse que, infelizmente, o governo não saía bem na fotografia. Mas o presidente determinou que comunicássemos à população que a situação era grave e que precisávamos adotar medidas. Uma coisa o governo de São Paulo fez: bônus para quem economizar. Mas não basta, quem usa mais água tem que levar uma pancada. Cerca de 50% da população de São Paulo diminuiu o consumo, cerca de um quarto ficou na mesma e um quarto aumentou. São os espertos. Esse pessoal tem comportamento antissocial e precisa ser penalizado. No racionamento em 2001, quem consumia mais do que a meta pagava uma multa. Em São Paulo, só teve a cenoura, não teve o tacape. Faltou também dizer claramente à população que a situação estava grave. Mas isso vale para o governo federal também na energia. Foi uma infelicidade que 2014 fosse um ano eleitoral, porque não se aplicou a mesma transparência, a mesma clareza de informações que tivemos em 2001. O Alckmin deve ter tido suas razões, porque em 2002 quem ganhou as eleições foi o Lula, e não o Serra. Esse deve ter sido o raciocínio dele. Mas sob o ponto de vista de governo, de interesse público, a atuação não foi a melhor, desperdiçou-se água e os reservatórios estão mais vazios do que deveriam.

Essa atitude ampliou o risco?

A população olha os últimos seis meses e, baseada na experiência de não ter chovido nada, entra em pânico achando que não vai chover nos próximos seis meses. É errado. As pessoas não se lembram que as chuvas são muito sazonais, elas caem no verão. Então, não tem dúvida de que vai chover no verão, e não tem dúvida de que os reservatórios vão se recuperar no verão. A dúvida é se vai chover o suficiente. Se chover a média, os reservatórios da Cantareira vão chegar em abril, no final da estação chuvosa, com 25%. O que está longe do estoque confortável, que é de 65%. Se chegarem a 65%, estamos com a vida ganha. Mas não vão chegar. O mais provável é que saiam do negativo, recuperem um pouquinho, mas de forma insuficiente para dar conforto em 2015. E tem, claro, um cenário péssimo, que não encha nada, e aí é uma tragédia, pode ter caos em São Paulo. Mas é pouco provável. Os dois extremos são improváveis. Então, 2015 será parecido com 2014. Não é o caos, mas as pessoas vão sofrer, como hoje.

Não seria melhor fazer um racionamento compulsório?

Em energia elétrica é possível fazer, já foi feito no Rio nos anos 50, porque pode programar e ter baterias nos hospitais, pode de alguma forma se organizar. Em água, é um pouco mais complicado. Porque as tubulações estão sempre sob pressão e vazando água para o terreno. Quando esvazia o tubo, o terreno está encharcado de água poluída que passa a entrar pelos buracos da tubulação. Então, tem um risco de saúde pública. Têm razão aqueles que dizem para ter cuidado com racionamento. Então o prognóstico para 2015 é preocupante. A obra que está aí na pauta, de uso de água do Paraíba do Sul, já deveria estar sendo feita em regime emergencial, o mais rápido possível. Mas o Brasil caiu em uma armadilha de excesso de controle. A cada novo escândalo, a tendência da população é clamar por mais controle. No setor público, o mecanismo de controle de corrupção, de mau gasto, não tem a medida de eficiência, de qual é o custo do controle versus o custo de eficiência. A não ser na Receita Federal, que é um exemplo positivo. Então, o que tem acontecido é cada vez mais controle, mais burocracia. Na tentativa de inibir o comportamento deletério dos desonestos ou incompetentes, cria-se um monte de regras que restringe a capacidade de operar do honesto e do capaz. Na realidade, todo o incentivo para a administração pública é para não fazer nada. Se não fizer nada, não corre o risco.

A crise energética é grave?

Não falta energia. O que acontece é que a energia está muito cara. Eu fiz uma conta grosseira: de acordo com o TCU, consumidores e contribuintes pagaram extraordinariamente, ou seja, a mais do que seria normal, R$ 60 bilhões nos últimos anos, por conta da hidrologia desfavorável. Para onde foi esse dinheiro externo ao setor elétrico brasileiro? Pagar combustível, porque nós tivemos que ligar as térmicas. Quanto se pagou? R$ 50 bilhões. Então, R$ 10 bilhões foi dinheiro que mudou de bolso dentro do setor elétrico. Geradora que estava com excesso de energia e ganhou bastante dinheiro, por exemplo. De fato, isso não é muito salutar. Em dois anos, um volume tão grande de dinheiro mudar de mãos é porque alguma coisa entre as regras está mal. Mas o fundamental é que R$ 50 bilhões de gasto com térmicas é demais.

Qual o diagnóstico?

A PSR (consultoria especializada), desde 2010, descobriu o que ela chama de fator de ficção. 2013 não foi um ano de hidrologia muito ruim. Pelo contrário, essa energia afluente no sistema, que neste ano está em 80%, foi de 98% em 2013. Foi um ano na média. No entanto, os reservatórios chegaram ao final do ano vazios. Em 2013, foram ligadas todas as térmicas, foi um ano de hidrologia normal e os reservatórios chegaram vazios. A que atribuir isso? A primeira coisa é atraso. O setor conta com a entrada de um monte de usinas e esse cronograma, sistematicamente, atrasa. E muito mais do que atribuir ao Ibama, à Funai, é atribuir às sentenças judiciais tomadas sem que o juiz tenha uma percepção das consequências — na economia, em nossa competitividade, no nível de emprego, no preço da energia.

Como resolver esse problema?

Com planejamento. No Brasil, estamos aprovando, ou desaprovando, empreendimentos individualmente. A análise dos empreendimentos é assim: “Devo construir a usina X, seja hidrelétrica termelétrica ou solar?”. Faz-se uma audiência pública. Quem vai à audiência são os que serão prejudicados localmente, um legítimo direito, e alguns que têm ideologia contrária. Agora, os beneficiários de uma resposta positiva somos todos nós espalhados pelo Brasil inteiro, que não vamos à audiência pública, nem sabemos que existe isso. Hoje, sou favorável a uma discussão política sobre a matriz elétrica que precisamos. O planejamento do país tem que sair de uma esfera puramente tecnocrata para uma esfera política, em que se faça um pacto sobre qual matriz precisamos. Isso foi feito, por exemplo, no trabalho Plataformas dos Cenários Energéticos, realizado por uma ONG, que chamou o Greenpeace, a Coppe, o pessoal de carvão e o ITA. O Greenpeace disse que queria tudo solar. É possível? É. Agora, vai precisar de bateria, porque de noite não tem sol. A energia vai custar tanto, e aí o Brasil não fica competitivo. É isso mesmo? Quem quer o Brasil competitivo ou não gosta de bateria vai se opor. Ou seja, muda de patamar a discussão, em vez de ser “não, não, não”.

Como se daria essa discussão no âmbito político?

Poderia ser no âmbito do Conselho Nacional de Política Energética. Uma discussão da matriz elétrica que passasse a ser mandatória para os órgãos. Em vez de Ibama, ICMBio, Funai examinarem item a item, você reúne o presidente desses órgãos com o ministro de Minas e Energia para chegar a um acordo sobre uma lista de empreendimentos que atenda às necessidades do país. Não será uma lista ótima do ponto de vista ambiental, econômico, energético ou social, mas será uma lista possível. Hoje, temos uma Torre de Babel.

Que nos trouxe a essa situação…

Além dos atrasos nas obras, há uma questão técnica. As decisões tomadas no setor elétrico seguem modelos matemáticos e de otimização muito sofisticados. Mas como qualquer modelo, os dados de entrada têm de estar corretos. Percebeu-se que temos garantia física de usinas que não condiz à realidade. A PSR percebeu uma divergência entre o mundo real e o que o modelo está vendo. No real, está se usando mais água para se produzir energia do que o modelo imaginava. E aí tem uma série de hipóteses que ninguém sabe ao certo o que é. A primeira é uma mudança do regime hidrológico. Outra hipótese é que a relação entre a quantidade de água que passa na turbina e a quantidade de energia produzida esteja errada. Além disso, os reservatórios são como se fossem bacias e, depois de 30 anos que aquilo foi alagado, já mudou completamente a topografia, com o acúmulo de sedimentos no fundo.

Temos um estoque de energia menor do que imaginamos?

Isso. É tão importante conhecer a real capacidade que eu até prefiro que se faça uma anistia: “Olha meus amigos, me contem a verdade, e eu não vou lhes punir”. Uma espécie de delação premiada. Permitiria fazer uma energia de reserva maior.

E as perspectivas para 2015?

Acho que a energia vai continuar cara. Vai ter um grande salto de custo de energia e o cenário mais provável é que continue acumulando isso, porque as térmicas continuarão ligadas.

Pode vir uma chuva e resolver?

Sim, eventualmente, pode chover. Mas eu prefiro esperar, porque é precoce falar de tragédia em novembro, início da estação chuvosa, seja em água, seja em energia. Mas, imaginando um verão que não chova nada, o que não é comum, nós vamos ter racionamento de energia e água em 2015. Porque vamos chegar a abril com estoque perto de zero.

No relatório Kelman, de 2001, o diagnóstico foi de governança…

(Interrompendo) Não, o problema principal é que havia energia garantida falsa na praça.

Ou seja, se houvesse um relatório Kelman agora, o diagnóstico seria o mesmo…

(Risos) É verdade, o problema é parecido.

Feliciano apresenta PL que torna obrigatório o ensino do criacionismo nas escolas (Portal Aprendiz)

TER, 18/11/2014 – 06:45

ATUALIZADO EM 18/11/2014 – 06:45

Por Pedro Ribeiro Nogueira e Raiana Ribeiro, do Portal Aprendiz

O deputado federal e pastor Marco Feliciano (PSC-SP) apresentou à Câmara dos Deputados nesta quinta-feira (13/11) um Projeto de Lei que torna obrigatório o ensino do criacionismo – doutrina religiosa que se opõe à teoria da Evolução de Darwin – nas escolas públicas e privadas do Brasil. Antes de ser discutido e votado, o PL será encaminhado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Clique aqui para acessar o PL

A proposta de lei afirma que as grades curriculares brasileiras deverão incluir “noções de que a vida tem sua origem em Deus, como criador supremo de todo universo e de todas as coisas que o compõe”. Segundo o texto, ele deverá ser ensinado “analogamente ao evolucionismo, alternância de conhecimento de fonte diversa a fim de que o estudante avalie cognitivamente ambas as disciplinas” (sic).

Os argumentos que sustentam o PL apontam que é necessário inserir o “conceito de origem divina”, pois “ensinar apenas a teoria do evolucionismo nas escolas é violar a liberdade de crença, uma vez que a maioria das religiões brasileiras acredita no criacionismo”.

Helena Nader, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), associação que congrega mais de 130 sociedades científicas, afirmou que “negar Darwin é voltar ao obscurantismo”.

“A ciência nunca quis discutir a fé. Mas parece que algumas religiões estão interessadas em discutir a ciência”, alertou.

A pesquisadora lembrou que não é a primeira vez que esse tipo de proposta tramita no legislativo brasileiro e que a SBPC manterá seu posicionamento contrário.

“É preciso esclarecer que nada na ciência elimina, para quem acredita, a presença de um ser superior. Por isso, confundir criacionismo com ciência é inadmissível”, defendeu.

Confusão

O texto descreve as crianças que frequentam as escolas públicas como “confusas”, pois estariam aprendendo noções de evolucionismo na escola e criacionismo na igreja. Para o deputado, “o ensino darwinista limita a visão cosmológica de mundo existencialista levando os estudantes a desacreditarem da existência de um criador que está acima das frágeis conjecturas humanas forjadas em tubos de ensaio laboratorial”.

Mas o próprio PL também apresenta suas confusões, ao misturar a teoria do Big Bang – que explica o surgimento do universo – com a teoria da Evolução. “Como é sabido, hoje vigora nos currículos escolares o ensino do Evolucionismo, propagando que a vida originou-se de uma  “célula primitiva que se pôs em movimento pelo ‘Big Bang’”, diz o texto.

Até o fechamento desta reportagem, o Portal Aprendiz não conseguiu contato com o deputado Marco Feliciano.

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Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)  dispõe que o ensino religioso é parte integrante da formação básica do cidadão e é uma disciplina facultativa das escolas públicas de ensino fundamental, “assegurando o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo”. Em outras palavras, é possível que comunidades escolares se organizem para ensinar história e filosofia das religiões, mas sem qualquer forma de doutrinação.

Koch brothers sought say in academic hiring in return for university donation (The Guardian)

Florida university receives $1.5m from rightwing billionaires

Kochs wanted appointment of ultra-rightwing economics faculty

theguardian.com, Friday 12 September 2014 19.56 BST

Americans for Prosperity Foundation Chairman David Koch in 2013.David Koch, above, and his brother Charles donated to 163 colleges and univerisites in 2012. Photograph: Phelan M Ebenhack/AP

The billionaire Koch brothers attempted to wield political influence over appointments and teaching at a major US university in exchange for donations, newly published documents reveal.

Internal emails and memos from the economics department of Florida State University (FSU) open a window into the kind of direct pressure the Kochs seek to exert over academic institutions in return for their largesse. The 16 pages of documents, obtained by the Center for Public Integrity, show that the energy tycoons demanded through their grant-giving arm, the Charles Koch Foundation, a role in faculty appointments and an emphasis on teaching that was in tune with their radical political views.

Charles and David Koch are major funders of the Tea Party and other ultra-rightwing movements that oppose government intervention and advocate for an unregulated free market.

A memo drawn up by the then chair of the FSU economics department, Bruce Benson, set out the Kochs’ terms for funding, noting that “the proposal is … not to just give us money to hire anyone we want and fund any graduate student that we choose. There are constraints.”

A section of the memo headlined “Constrained hiring” says: “As we all know, there are no free lunches. Everything comes with costs. In this case, the money for faculty lines and graduate students is coming from a group of funding organisations with strong libertarian views. These organisations have an explicit agenda.

“They want to expose students to what they believe are vital concepts about the benefits of the market and the dangers of government failure, and they want to support and mentor students who share their views. Therefore, they are trying to convince us to hire faculty who will provide exposure and mentoring. If we are not willing to hire such faculty, they are not willing to fund us.”

The documents date back to 2007, when the Koch deal was first being negotiated with FSU. Among the other demands made by the foundation was that Benson, a free-market libertarian who shares many of the Kochs’ beliefs, must have his term as chair of the economics department extended for three years as a requirement of the donation.

Dave Levinthal, the centre’s senior political reporter, who broke the story, said: “The documents give a blueprint of what the Kochs wanted and if ultimately they didn’t get everything they demanded it still gives a rare view into their intentions. They were saying ‘We want this, this and that, and if you don’t do it, we are not going to give you any money’.”

The Koch’s financial gift was finalised in 2009 at the sum of $1.5m (£920,000) to be spread over six years – a drop in the ocean for the brothers who own the second largest privately owned company in the US and are valued at $36bn each. The university says that as of April this year it had received $1m.

Under the initial deal with the Kochs, they had direct input into the appointment of faculty members in the economics department through a three-person advisory board set up specifically to liaise with the Charles Koch Foundation over hiring. The terms of the donation have been a running sore within FSU, prompting considerable internal opposition.

In the face of widespread criticism, the university authorities in 2013 revised the terms of the Koch funding to weaken the brothers’ grip on appointments. A statement from the university released earlier this year said that “the decision was made to eliminate any role whatsoever of the advisory group in the hiring of tenure-track faculty members in the department of economics”.

Benson did not immediately reply to questions from the Guardian. But he told the Center for Public Integrity that the documents had been intended for internal use and were written at “early stages of discussion” over the Koch grant, well before it was finalised in 2008.

Florida State University is not the only academic institution that the Kochs have financial relationships with. According to the CPI, the brothers dispensed $13m in 2012 to 163 colleges and universities.

U.S. and China Reach Climate Accord After Months of Talks (N.Y.Times)

 

President Obama and President Xi Jinping of China, with their delegations, met inside the Great Hall of the People in Beijing on Wednesday.CreditMandel Ngan/Agence France-Presse — Getty Images

BEIJING — China and the United States made common cause on Wednesday against the threat of climate change, staking out an ambitious joint plan to curb carbon emissions as a way to spur nations around the world to make their own cuts in greenhouse gases.

The landmark agreement, jointly announced here by President Obama and President Xi Jinping, includes new targets for carbon emissions reductions by the United States and a first-ever commitment by China to stop its emissions from growing by 2030.

Administration officials said the agreement, which was worked out quietly between the United States and China over nine months and included a letter from Mr. Obama to Mr. Xi proposing a joint approach, could galvanize efforts to negotiate a new global climate agreement by 2015.

It was the signature achievement of an unexpectedly productive two days of meetings between the leaders. Mr. Obama and Mr. Xi also agreed to a military accord designed to avert clashes between Chinese and American planes and warships in the tense waters off the Chinese coast, as well as an understanding to cut tariffs for technology products.

A climate deal between China and the United States, the world’s No. 1 and No. 2 carbon polluters, is viewed as essential to concluding a new global accord. Unless Beijing and Washington can resolve their differences, climate experts say, few other countries will agree to mandatory cuts in emissions, and any meaningful worldwide pact will be likely to founder.

“The United States and China have often been seen as antagonists,” said a senior official, speaking in advance of Mr. Obama’s remarks. “We hope that this announcement can usher in a new day in which China and the U.S. can act much more as partners.”

As part of the agreement, Mr. Obama announced that the United States would emit 26 percent to 28 percent less carbon in 2025 than it did in 2005. That is double the pace of reduction it targeted for the period from 2005 to 2020.

China’s pledge to reach peak carbon emissions by 2030, if not sooner, is even more remarkable. To reach that goal, Mr. Xi pledged that so-called clean energy sources, like solar power and windmills, would account for 20 percent of China’s total energy production by 2030.

Administration officials acknowledged that Mr. Obama could face opposition to his plans from a Republican-controlled Congress. While the agreement with China needs no congressional ratification, lawmakers could try to roll back Mr. Obama’s initiatives, undermining the United States’ ability to meet the new reduction targets.

Still, Mr. Obama’s visit, which came days after a setback in the midterm elections, allowed him to reclaim some of the momentum he lost at home. As the campaign was turning against the Democrats last month, Mr. Obama quietly dispatched John Podesta, a senior adviser who oversees climate policy, to Beijing to try to finalize a deal.

For all the talk of collaboration, the United States and China also displayed why they are still fierce rivals for global economic primacy, promoting competing free-trade blocs for the Asian region even as they reached climate and security deals.

The maneuvering came during a conference of Pacific Rim economies held in Beijing that has showcased China’s growing dominance in Asia, but also the determination of the United States, riding a resurgent economy, to reclaim its historical role as a Pacific power.

Adding to the historic nature of the visit, Mr. Obama and Mr. Xi were scheduled to give a joint news conference on Wednesday that will include questions from reporters — a rare concession by the Chinese leader to a visiting American president.

On Tuesday evening, Mr. Xi invited Mr. Obama to dinner at his official residence, telling his guest he hoped they had laid the foundation for a collaborative relationship — or, as he more metaphorically put it, “A pool begins with many drops of water.”

Greeting Mr. Obama at the gate of the walled leadership compound next to the Forbidden City, Mr. Xi squired him across a brightly lighted stone bridge and into the residence. Mr. Obama told the Chinese president that he wanted to take the relationship “to a new level.”

“When the U.S. and China are able to work together effectively,” he added, “the whole world benefits.”

But as the world witnessed this week, it is more complicated than that. Mr. Xi won approval Tuesday from the 21 countries of the Asia-Pacific Economic Cooperation forum to study the creation of a China-led free-trade zone that would be an alternative to Mr. Obama’s Trans-Pacific Partnership, a 12-nation trading bloc that excludes China.

On Monday, Mr. Obama met with members of that group here and claimed progress in negotiating the partnership, a centerpiece of his strategic shift to Asia.

Negotiations for the Trans-Pacific Partnership are much further along than those for the nascent Chinese plan, known as the Free Trade Area of Asia Pacific, and some analysts said the approval by the Pacific Rim nations of a two-year study was mainly a gesture to the Chinese hosts to give them something to announce at the meeting.

For all the jockeying, the biggest trade headline was a breakthrough in negotiations with China to eliminate tariffs on information technology products, from video-game consoles and computer software to medical equipment and semiconductors.

The understanding, American officials said, opens the door to expanding a World Trade Organization agreement on these products, assuming other countries can be persuaded to accept the same terms. With China on board, officials predicted a broader deal would be reached swiftly.

“We’re going to take what’s been achieved here in Beijing back to Geneva to work with our W.T.O. partners,” said Michael B. Froman, the United States trade representative. “While we don’t take anything for granted, we’re hopeful that we’ll be able to work quickly” to conclude an expansion of the agreement, known as the Information Technology Agreement.

On Wednesday morning, Mr. Xi formally welcomed Mr. Obama at a ceremony in the Great Hall of the People; they later toasted each other at a state banquet.

Administration officials said Mr. Obama had pressed Mr. Xi to resume a United States-China working group on cybersecurity issues, which abruptly stopped its discussions after the United States charged several Chinese military officers with hacking.

“We did see a chill in the cyber dialogue,” said Benjamin J. Rhodes, the deputy national security adviser. “We do believe it’s better if there’s a mechanism for dialogue.”

On Tuesday, Mr. Obama credited APEC with originating the work on reducing tariffs, saying, “The United States and China have reached an understanding that we hope will contribute to a rapid conclusion of the broader negotiations in Geneva.”

Talks with China over expanding the 1997 accord on information technology broke down last year over the scope of the products covered by the agreement. But after intensive negotiations leading up to Mr. Obama’s visit, Mr. Froman said, the Americans and the Chinese agreed Monday evening to eliminate more than 200 categories of tariffs.

While the United States still exports many high-technology goods, China is the world’s dominant exporter of electronics and has much to gain from an elimination of tariffs. Taiwan, South Korea and Japan increasingly find themselves supplying China’s huge electronics industry, deepening their dependence on decisions made in Beijing.

The administration estimated that expanding the Information Technology Agreement would create up to 60,000 jobs in the United States by eliminating tariffs on goods that generate $1 trillion in sales a year. About $100 billion of those products are American-made. The administration faces a longer path on the Trans-Pacific Partnership, including whether Mr. Obama will obtain fast-track trade authority from Congress. That could make it easier for the United States to extract concessions from other countries, since they would have more confidence that the treaty would be ratified by Congress.

While Mr. Froman conceded that sticking points remained, he said, “It’s become clearer and clearer what the landing zones are.” He said that Mr. Obama would seek fast-track authority, but that the best way for him to win congressional passage of the Trans-Pacific Partnership would be to negotiate the best deal.

Nível do mar avança e deve aumentar os custos no cais (A Tribuna)

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014 – 14h19

Leopoldo Figueiredo

O aumento do nível do mar previsto para as próximas décadas aumentará os custos do Porto de Santos, pontualmente seus gastos com dragagem e a manutenção de sua faixa de cais. Tais impactos reforçam a tese de que a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário, na região da costa, alternativa que já está em análise pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp),a administradora do porto.

A análise foi apresentada pelo professor universitário e pesquisador Paolo Alfredini na manhã de quarta-feira (12), durante sua palestra Adaptação das operações náuticas portuárias às mudanças climáticas em curso, parte da programação da 6ª edição do Seminário e Workshop em Engenharia Oceânica (Semengo), realizada em Rio Grande (RS).

Organizado a cada dois anos pela Universidade Federal de Rio Grande (RS) e considerado um dos principais eventos do setor, o Semengo tem como tema desta edição Engenharia Costeira e Portuária. Para debater os avanços e desafios nessas duas áreas, participam pesquisadores, consultores e empresários de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e de países como Portugal e Canadá.

N/A

Gastos com dragagem e a manutenção da faixa de cais estão entre os investimentos previstos

SITUAÇÃO CRÍTICA

Doutor em Engenharia Civil e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Alfredini disse que o nível do mar na costa brasileira, inclusive na região de Santos, está aumentando. E a situação é ainda mais crítica. De acordo com o pesquisador, a taxa desse crescimento é cada vez maior.

Levantamento realizado por ele e pela professora Emília Arasaki aponta que o nível médio do mar subiu 25,4 centímetros por século no período de 1952 a 2007. Mas se forem analisados os 37 últimos anos (de 1970 a 2007),essa taxa sobe para 39,1 centímetros por século.

“Percebemos que o nível do mar já vinha aumentando, mas se nos concentrarmos nos últimos anos, esse aumento é ainda maior. Conforme os registros bibliográficos, a partir dos anos 70, essa velocidade tem aumentando no mundo todo”, afirmou o engenheiro.

Para as áreas urbanas da Baixada Santista, isso significa que cada vez mais, nas próximas décadas, o mar deve avançar sobre suas “terras baixas”, afetando áreas residenciais e ruas e avenidas próximas à costa (como no caso do bairro da Ponta da Praia).

No Porto de Santos, o aumento do nível do mar acaba por aumentar o transporte de sedimentos pelas correntes e pela costa, intensificando o assoreamento (a deposição de areia, entre outros materiais, em um leito, tornando-o mais raso) do estuário santista e da região da barra (onde os navios ficam fundeados, à espera de uma vaga ou do momento de atracar).

Para contrabalançar esse fenômeno e manter a profundidade, será necessário reforçar a dragagem na região, ou seja, um custo a mais para o complexo marítimo.

MANUTENÇÃO

Outro reflexo destacado por Alfredini é o maior gasto com as obras de manutenção da infraestrutura portuária, pontualmente com a faixa de cais. Isso ocorrerá pois um maior nível do mar amplia a altura das ondas e consequentemente sua energia – de acordo com o professor, a energia de uma onda é proporcional ao quadrado de sua altura. Nesse cenário, ondas mais altas vão se chocar com uma força ainda maior contra o cais, tendo mais chances de danificá-lo e reduzindo sua vida útil.

“E custo com manutenção é custo para a vida toda”, enfatizou. Segundo o pesquisador, recentemente o Governo Federal decidiu acompanhar os efeitos do aumento do nível do mar na costa brasileira. Os dados apresentados ontem integram um trabalho que Paolo Alfredini realiza para a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

SANTOSVLAKTE É A SAÍDA PARA EXPANSÃO

Ao comentar o aumento do assoreamento do canal do Porto e a necessidade cada vez maior de dragá-lo, o pesquisador Paolo Alfredini lembrou que “a dragagem de Santos está em um nível crítico, tanto que é cada vez mais difícil e trabalhoso manter a cota de ao menos 15 metros de profundidade”.

Por isso, para ele, a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário. Alfredini explica que a profundidade natural do canal (se nunca tivesse sido dragado) seria de 8 ou 9 metros. Em seus 122 anos de história como porto organizado, o complexo ampliou essa medida, chegando hoje a valores entre 13 e 15 metros em toda a sua extensão.

Ecada vez que há um aprofundamento, sua manutenção envolve maiores esforços. Para o engenheiro, esse fato e os reflexos previstos com o aumento do nível do mar mostram que a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário. E citou que a Codesp já estuda ampliar o porto com a construção de terminais offshore. “Nesse sentido, Santos terá de seguir o caminho de Roterdã e Le Havre e crescer para o mar”, afirmou, referindo-se aos projetos de Maasvlaktee Port 2000.

No primeiro, o Porto de Roterdã, na Holanda, aterrou uma área do Mar do Norte para a construção de novas instalações. No segundo, a Autoridade Portuária de Le Havre, na França, utilizou espaços aterrados na foz do Rio Sena.

Conforme reportagem exclusiva publicada em A Tribuna em 14 de setembro passado, a Codesp estuda ampliar as instalações do complexo santista com a implantação de terminais na costa. Essa pesquisa, iniciada no último ano e que está em seu estágio inicial, é desenvolvida em parceria com o Instituto de Oceanografia da USP. Devido à semelhança com a iniciativa holandesa, o projeto foi batizado como Santosvlakte.

Manipulação do clima pode causar efeitos indesejados (N.Y.Times/FSP)

Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Olivine, a green-tinted mineral said to remove carbon dioxide from the atmosphere, in the hands of retired geochemist Olaf Schuiling in Maasland, Netherlands, Oct. 9, 2014. Once considered the stuff of wild-eyed fantasies, such ideas for countering climate change — known as geoengineering solutions — are now being discussed seriously by scientists. (Ilvy Njiokiktjien/The New York Times)
Olivina, um mineral esverdeado que ajudaria remover o dióxido de carbono da atmosfera

HENRY FOUNTAIN
DO “NEW YORK TIMES”

18/11/2014 02h01

Para Olaf Schuiling, a solução para o aquecimento global está sob nossos pés.

Schuiling, geoquímico aposentado, acredita que a salvação climática está na olivina, mineral de tonalidade verde abundante no mundo inteiro. Quando exposta aos elementos, ela extrai lentamente o gás carbônico da atmosfera.

A olivina faz isso naturalmente há bilhões de anos, mas Schuiling quer acelerar o processo espalhando-a em campos e praias e usando-a em diques, trilhas e até playgrounds. Basta polvilhar a quantidade certa de rocha moída, diz ele, e ela acabará removendo gás carbônico suficiente para retardar a elevação das temperaturas globais.

“Vamos deixar a Terra nos ajudar a salvá-la”, disse Schuiling, 82, em seu gabinete na Universidade de Utrecht.
Ideias para combater as mudanças climáticas, como essas propostas de geoengenharia, já foram consideradas meramente fantasiosas.

Todavia, os efeitos das mudanças climáticas podem se tornar tão graves que talvez tais soluções passem a ser consideradas seriamente.

A ideia de Schuiling é uma das várias que visam reduzir os níveis de gás carbônico, o principal gás responsável pelo efeito estufa, de forma que a atmosfera retenha menos calor.

Outras abordagens, potencialmente mais rápidas e viáveis, porém mais arriscadas, criariam o equivalente a um guarda-sol ao redor do planeta, dispersando gotículas reflexivas na estratosfera ou borrifando água do mar para formar mais nuvens acima dos oceanos. A menor incidência de luz solar na superfície da Terra reduziria a retenção de calor, resultando em uma rápida queda das temperaturas.

Ninguém tem certeza de que alguma técnica de geoengenharia funcionaria, e muitas abordagens nesse campo parecem pouco práticas. A abordagem de Schuiling, por exemplo, levaria décadas para ter sequer um pequeno impacto, e os próprios processos de mineração, moagem e transporte dos bilhões de toneladas de olivina necessários produziriam enormes emissões de carbono.

Jasper Juinen/The New York Times
Kids play on a playground made with Olivine, a material said to remove carbon dioxide from the atmosphere, in Arnhem, Netherlands, Oct. 9, 2014. Once considered the stuff of wild-eyed fantasies, such ideas for countering climate change — known as geoengineering solutions — are now being discussed seriously by scientists. (Jasper Juinen/The New York Times)
Crianças brincam em playground na Holanda revestido com olivina; minério esverdeado retira lentamento o gás carbônico presente na atmosfera

Muitas pessoas consideram a ideia da geoengenharia um recurso desesperado em relação à mudança climática, o qual desviaria a atenção mundial da meta de eliminar as emissões que estão na raiz do problema.

O clima é um sistema altamente complexo, portanto, manipular temperaturas também pode ter consequências, como mudanças na precipitação pluviométrica, tanto catastróficas como benéficas para uma região à custa de outra. Críticos também apontam que a geoengenharia poderia ser usada unilateralmente por um país, criando outra fonte de tensões geopolíticas.

Especialistas, porém, argumentam que a situação atual está se tornando calamitosa. “Em breve poderá nos restar apenas a opção entre geoengenharia e sofrimento”, opinou Andy Parker, do Instituto de Estudos Avançados sobre Sustentabilidade, em Potsdam, Alemanha.

Em 1991, uma erupção vulcânica nas Filipinas expeliu a maior nuvem de gás anidrido sulforoso já registrada na alta atmosfera. O gás formou gotículas de ácido sulfúrico, que refletiam os raios solares de volta para o Espaço. Durante três anos, a média das temperaturas globais teve uma queda de cerca de 0,5 grau Celsius. Uma técnica de geoengenharia imitaria essa ação borrifando gotículas de ácido sulfúrico na estratosfera.

David Keith, pesquisador na Universidade Harvard, disse que essa técnica de geoengenharia, chamada de gestão da radiação solar (SRM na sigla em inglês), só deve ser utilizada lenta e cuidadosamente, para que possa ser interrompida caso prejudique padrões climáticos ou gere outros problemas.

Certos críticos da geoengenharia duvidam que qualquer impacto possa ser equilibrado. Pessoas em países subdesenvolvidos são afetadas por mudanças climáticas em grande parte causadas pelas ações de países industrializados. Então, por que elas confiariam que espalhar gotículas no céu as ajudaria?

“Ninguém gosta de ser o rato no laboratório alheio”, disse Pablo Suarez, do Centro do Clima da Cruz Vermelha/Crescente Vermelho.

Ideias para retirar gás carbônico do ar causam menos alarme. Embora tenham questões espinhosas –a olivina, por exemplo, contém pequenas quantidades de metais que poderiam contaminar o meio ambiente–,elas funcionariam de maneira bem mais lenta e indireta, afetando o clima ao longo de décadas ao alterar a atmosfera.

Como o doutor Schuiling divulga há anos sua ideia na Holanda, o país se tornou adepto da olivina. Estando ciente disso, qualquer um pode notar a presença da rocha moída em trilhas, jardins e áreas lúdicas.

Eddy Wijnker, ex-engenheiro acústico, criou a empresa greenSand na pequena cidade de Maasland. Ela vende areia de olivina para uso doméstico ou comercial. A empresa também vende “certificados de areia verde” que financiam a colocação da areia ao longo de rodovias.

A obstinação de Schuiling também incitou pesquisas. No Instituto Real de Pesquisa Marítima da Holanda em Yerseke, o ecologista Francesc Montserrat está pesquisando a possibilidade de espalhar olivina no leito do mar. Na Bélgica, pesquisadores na Universidade de Antuérpia estudam os efeitos da olivina em culturas agrícolas como cevada e trigo.

Boa parte dos profissionais de geoengenharia aponta a necessidade de haver mais pesquisas e o fato de as simulações em computador serem limitadas.

Poucas verbas no mundo são destinadas a pesquisas de geoengenharia. No entanto, até a sugestão de realizar experimentos em campo pode causar clamor popular. “As pessoas gostam de linhas bem demarcadas, e uma bem óbvia é que não há problema em testar coisas em um computador ou em uma bancada de laboratório”, comentou Matthew Watson, da Universidade de Bristol, no Reino Unido. “Mas elas reagem mal assim que você começa a entrar no mundo real.”

Watson conhece bem essas delimitações. Ele liderou um projeto financiado pelo governo britânico, que incluía um teste relativamente inócuo de uma tecnologia. Em 2011, os pesquisadores pretendiam soltar um balão a cerca de um quilômetro de altitude e tentar bombear um pouco de água por uma mangueira até ele. A proposta desencadeou protestos no Reino Unido, foi adiada por meio ano e, finalmente, cancelada.

Hoje há poucas perspectivas de apoio governamental a qualquer tipo de teste de geoengenharia nos EUA, onde muitos políticos negam sequer que as mudanças climáticas sejam uma realidade.

“O senso comum é que a direita não quer falar sobre isso porque reconhece o problema”, disse Rafe Pomerance, que trabalhou com questões ambientais no Departamento de Estado. “E a esquerda está preocupada com o impacto das emissões.”

Portanto, seria bom discutir o assunto abertamente, afirmou Pomerance. “Isso ainda vai levar algum tempo, mas é inevitável”, acrescentou.

Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia (Deutsche Welle/Carta Capital)

14/11/2014 – 12h24

por Fernando Caulyt, da Deutsche Welle

operacaopequiacapa 1 Para especialistas, causas da seca vão além do desmatamento na Amazônia

Floresta possui função importante de levar chuvas a outras regiões do continente. No entanto, cientistas são cautelosos com associação entre redução da mata e a pior estiagem em 80 anos no Sudeste

O Sudeste passa pela pior seca dos últimos 80 anos, com mais 130 municípios de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais afetados. Um relatório recente, apoiado pela ONG WWF Brasil, apontou o desmatamento na Amazônia como uma possível causa para o fenômeno – e a conseguinte crise da água. Especialistas ouvidos pela DW, porém, dizem que os motivos vão além.

Ainda não há um estudo científico que comprove a relação direta entre desmatamento e seca. E estudiosos são céticos em fazer essa ligação, sobretudo porque a queda na precipitação em 2014 está fora da proporção na comparação com o aumento da área desmatada no último ano – em 2013 ela atingiu um total de 763 quilômetros quadrados.

Apesar de pesquisadores concordarem sobre a importância da Amazônia na regulação do clima para todo o país, a contribuição do desmatamento para a atual seca é controversa.

Devido à capacidade das árvores de absorver água do solo, a floresta amazônica possui um importante papel para a regulação do clima na América do Sul. Ela libera umidade para atmosfera, mantendo o ar em movimento e levando chuvas para o continente.

A umidade é exportada para regiões distantes pelos chamados “rios voadores” – sistemas aéreos de vapor – irrigando áreas no Sul, Sudeste, Centro-Oeste do Brasil, além de Bolívia, Paraguai e Argentina.

Esse papel já foi comprovado por diversos estudos. E foi reforçado por um relatório que reuniu artigos sobre o potencial climático da floresta divulgado no final de outubro pela Articulação Regional Amazônica (ARA), como o apoio da WWF Brasil.

O documento, porém, vai além. E aponta que o desmatamento na região pode ter um impacto significativo sobre o clima próximo e também distante da Amazônia, ao reduzir a transpiração da floresta e modificar a dinâmica de nuvens e chuvas no continente.

“Não posso colocar toda a culpa na Amazônia, mas há uma combinação de efeitos, e o desmatamento é em parte responsável. Há também uma oscilação natural e as mudanças climáticas provocadas pelos homens”, afirma Claudio Maretti, líder da Iniciativa Amazônia Viva da WWF.

Maretti diz que os efeitos do aquecimento global pioram com o desmatamento na região, que aumenta as emissões de CO2 na atmosfera.

Para Pedro Telles, coordenador de Clima e Energia do Greenpeace Brasil, a destruição da floresta é um dos fatores que contribuiu para causar a atual seca, mas não é o principal. “O principal fator da crise da água em São Paulo é a má gestão. Há anos já se sabia que o Sistema Cantareira tinha limitações e possivelmente chegaria a uma situação de crise e esgotamento. Há problemas na distribuição da água, o desperdício nessa etapa ultrapassa 30%, além da pouca preservação da área de manancial. Mas esses fatores nunca foram tratados adequadamente”, afirma Telles.

O biólogo Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), também é ponderado ao relacionar a seca ao desmatamento. Ele afirma que pode haver uma relação entre os dois, devido ao papel climático da floresta, mas evita apontá-lo como a causa principal. “Não temos dados para explicar uma queda de precipitação tão drástica somente por esse efeito. A queda na precipitação no corrente ano está muito fora da proporção em relação ao aumento da área desmatada de 2013 para 2014″, completa Fearnside.

Entre a comunidade científica é quase unânime a importância da Amazônia para as chuvas no continente. No entanto, há divergências sobre sua relação com a estiagem.

“Não dá para dizer que o desmatamento da Amazônia é responsável pela estiagem no Sudeste, porque não existe nenhum estudo científico que comprove essa relação direta”, afirma o meteorologista Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

O meteorologista da USP Tercio Ambrizzi é da mesma opinião. “É muito difícil associar a atual seca com o desmatamento. Ele causa impacto, mas numa variabilidade de mais longo prazo e contribui para as mudanças climáticas”, reforça.

Sampaio lembra que a seca foi causada pelo predomínio de uma intensa massa de ar seco sobre o estado de São Paulo durante o verão, que bloqueou as frentes frias vindas do sul trazendo as chuvas.

Além disso, as mudanças climáticas podem estar contribuindo para a situação atual. “A seca pode ser caracterizada com um desses extremos e pode ser já uma resposta às mudanças climáticas, mas não ocorre somente por isso”, completa Ambrizzi.

Com chuvas abaixo da média, o volume de água em importantes rios e represas do Sudeste, como o rio Paraíba do Sul, a nascente do São Francisco e o Sistema Cantareira, diminuiu drasticamente. O abastecimento hídrico em várias cidades está comprometido.

A estiagem também contribuiu para aumentar o número de incêndios florestais no Sudeste. Entre em janeiro e novembro deste ano, os focos de incêndios aumentaram 275% no Rio de Janeiro, 150% em São Paulo e 135% em Minas Gerais, em relação ao mesmo período de 2013.

* Publicado originalmente pela Deutsche Welle e retirado do site Carta Capital.

(Carta Capital)

Worlding Anthropologies of Technosciences? (Blog.castac.org)

October 28th, 2014, by

The past 4S meeting in Buenos Aires made visible the expansion of STS to various regions of the globe. Those of us who happened to be at the 4S meeting at University of Tokyo four years ago will remember the excitement of having the opportunity to work side-by-side with STS scholars from East and Southeast Asia. The same opportunity for worlding STS was opened again this past summer in Buenos Aires.

In order to help increase diversity of perspectives, Sharon Traweek and I organized a 4S panel on the relationships between STS and anthropology with a focus on the past, present, and future of the exchange among national traditions. The idea came out of our conversations about the intersections between science studies and the US anthropology of the late 1980’s with the work of CASTAC pioneers such as Diana Forsythe, Gary Downey, Joseph Dumit, David Hakken, David Hess, and Sharon Traweek, among several others who helped to establish the technosciences as legitimate domains of anthropological inquiry. It was not an easy battle, as Chris Furlow’s post on the history of CASTAC reminded us, but the results are undeniably all around us today. Panels on anthropology of science and technology can always be found at professional meetings. Publications on science and technology have space in various journals and the attention of university publishers these days.

For our panel this year we had the opening remarks of Gary Downey who, after reading our proposal aloud, emphasized the importance of advancing a cultural critique of science and technology through a situated, grounded stance. Quoting Marcus and Fischer’s “Anthropology as Cultural Critique” (1986) he emphasized that anthropology of science and technology could not dispense with the reflection upon the place, the situation, and the positioning of the anthropologist. Downey described his own positioning as an anthropologist and critical participant in engineering. Two decades ago Downey challenged the project of “anthropology as cultural critique” to speak widely to audiences outside anthropology and to practice anthropology as cultural critique, as suggested by the title of his early AAA paper, “Outside the Hotel”.

Yet “Anthropology as Cultural Critique” represented, he pointed out, one of the earliest reflexive calls in US anthropology for us to rethink canonical fieldwork orientations and our approach to the craft of ethnography with its representational politics. Downey and many others who invented new spaces to advance critical agendas in the context of science and technology did so by adding to the identity of the anthropologist other identities and responsibilities, such as that of former mechanical engineer, laboratory physicist, theologian, and experimenter of alternative forms of sociality, etc. These overlapping and intersecting identities opened up a whole field of possibilities for renewed modes of inquiry which, after “Anthropology as Cultural Critique”, consisted, as Downey suggested, in the juxtaposition of knowledge, forms of expertise, positionalities, and commitments. This is where we operate as STS scholars: at intersecting research areas, bridging “fault lines” (as Traweek’s felicitous expression puts it), and doing anthropology with and not without anthropologists.

The order of presentations for our panel was defined in a way to elicit contrasts and parallels between different modes of inquiry, grounded in different national anthropological traditions. The first session had Marko Monteiro (UNICAMP), Renzo Taddei (UNIFESP), Luis Felipe R. Murillo (UCLA), and Aalok Khandekar (Maastricht University) as presenters and Michael M. J. Fischer (MIT) as commentator. Marko Monteiro, an anthropologist working for an interdisciplinary program in science and technology policy in Brazil addressed questions of scientific modeling and State policy regarding the issue of deforestation in the Amazon. His paper presented the challenges of conducting multi-sited ethnography alongside multinational science collaborations, and described how scientific modeling for the Amazalert project was designed to accommodate natural and sociocultural differences with the goal of informing public policy. In the context of his ethnographic work, Monteiro soon found himself in a double position as a panelist expert and as an anthropologist interested in how different groups of scientists and policy makers negotiate the incorporation of “social life” through a “politics of associations.”

Similarly to Monteiro’s positioning, Khandekar benefited in his ethnographic work for being an active participant and serving as the organizer of expert panels involving STS scholars and scientists to design nanotechnology-based development programs in India. Drawing from Fischer’s notion of “third space”, Khandekar addressed how India could be framed productively as such for being a fertile ground for conceptual work where cross-disciplinary efforts have articulated humanities and technosciences under the rubric of innovation. Serving as a knowledge broker for an international collaboration involving India, Kenya, South Africa, and the Netherlands on nanotechnology, Khandekar had first-hand experience in promoting “third spaces” as postcolonial places for cross-disciplinary exchange through story telling.

Shifting the conversation to the context of computing and political action, Luis Felipe R. Murillo’s paper described a controversy surrounding the proposal of a “feminist programming language” and discussed the ways in which it provides access to the contemporary technopolitical dynamics of computing. The feminist programming language parody served as an entry point to analyze how language ideologies render symbolic boundaries visible, highlighting fundamental aspects of socialization in the context of computing in order to reproduce concepts and notions of the possible, logical, and desirable technical solutions. In respect to socioeconomic and political divisions, he suggested that feminist approaches in their intersectionality became highly controversial for addressing publicly systemic inequalities that are transversal to the context of computing and characterize a South that is imbricated in the North of “big computing” (an apparatus that encompasses computer science, information technology industries, infrastructures, and cultures with their reinvented peripheries within the global North and South).

Renzo Taddei recasted the debate regarding belief in magic drawing from a long lasting thread of anthropological research on logical reasoning and cultural specificity. Taddei opened up his take on our conversation with the assertion that to conduct ethnography on witchcraft assuming that it does not exist is fundamentally ethnocentric. This observation was meant to take us the core of his concerns regarding climate sciences vis-à-vis traditional Brazilian forms of forecasting from Sertão, a semi-arid and extremely impoverished area of the Northeast of Brazil. He then proceeded to discuss magical manipulation of the atmosphere from native and Afro-Brazilian perspectives in Brazil.

For the second day of our panel, we had papers by Kim Fortun (RPI), Mike Fortun (RPI), Sharon Traweek (UCLA) and the commentary of Claudia Fonseca (UFRGS) whose long-term contributions to study of adoption, popular culture, science and human rights in Brazil has been highly influential. In her paper, Kim Fortun addressed the double bind of expertise, the in-between of competence and hubris, structural risk and unpredictability of the very infrastructures experts are called upon to take responsibility. Fortun’s call was for a mode of interaction and engagement among science and humanities scholars oriented toward friendship and hospitality as well as commitment for our technoscientific futures under the aegis of late industrialism. “Ethnographic insight”, according to Fortun, “can loop back into the world” through the means of creative pedagogies which are attentive to the fact that science practitioners and STS scholars mobilize different analytic lenses while speaking through and negotiating with distinct discursive registers in the context of international collaborations. Our assumptions of what is conceptually shared should not anticipate what is to be seen or forged in the context of our international exchange, since what is foregrounded in discourse always implicates one form or another of erasure. The image Fortun suggested for us to think with is not that of a network, but that of a kaleidoscope in which the complexity of disasters can be seen across multiple dimensions and scales in their imbrication at every turn.

In his presentation, Michael Fortun questioned the so-called “ontological turn” to recast the “hauntological” dimensions of our research practices vis-à-vis those of our colleagues in the biosciences, that is, to account for the imponderables of scientific and anthropological languages and practices through the lens of a poststructural understanding of the historical functioning of language. In his study of asthma, Fortun attends to multiple perspectives and experiences with asthma across national, socioeconomic, scientific and technical scales. In the context of his project “The Asthma Files”, he suggests, alongside Kim Fortun, hospitality and friendship as frames for engaging instead of disciplining the contingency of ethnographic encounters and ethnographic projects. For future collaborations, two directions are suggested: 1) investigating and experimenting with modes of care and 2) designing collaborative digital platforms for experimental ethnography. The former is related to the scientists care for their instruments, methods, theories, intellectual reproduction, infrastructures, and problems in their particular research fields, while the latter poses the question of care among ourselves and the construction of digital platforms to facilitate and foster collaboration in anthropology.

This panel was closed with Sharon Traweek’s paper on multi-scalar complexity of contemporary scientific collaborations, based on her current research on data practices and gender imbalance in astronomy. Drawing from concepts of meshwork and excess proposed by researchers with distinct intellectual projects such as Jennifer McWeeny, Arturo Escobar, Susan Paulson, and Tim Ingold, Traweek discussed billion-dollar science projects which involve multiple research communities clustered around a few recent research devices and facilities, such as the Atacama Large Millimeter/submillimeter Array (ALMA) in Chile and the International Thermonuclear Experimental Reactor (ITER) in France. In the space of ongoing transformations of big science toward partially-global science, women and ethnic minorities are building meshworks as overlapping networks in their attempts to build careers in astronomy. Traweek proposed a revision of the notion of “enrollment” to account for the ways in which mega projects in science are sustained for decades of planning, development, construction, and operation at excessive scales which require more than support and consensus. Mega projects in the technosciences are, in Traweek’s terms, “over-determined collages that get built and used” by international teams with “glocal” structures of governance and funding.

In his concluding remarks Michael M. J. Fischer addressed the relationship between anthropology and STS through three organizing axes: time, topic, and audiences. As a question of time, a quarter century has passed for the shared history of STS and anthropology and probing questions have been asked and explored in the technosciences in respect to its apparatuses, codes, languages, life cycle of machines, educational curricula, personal and technical trajectories, which is well represented in one of the foundational texts of our field, Traweek’s “Beamtimes and Lifetimes” (1988). Traweek has helped establish a distinctive anthropological style “working alongside scientists and engineers through juxtaposition not against them.” In respect to the relationships between anthropology and STS, Fischer raised the question of pedagogies as, at once, a prominent form of engagement in the technosciences as well as an anthropological mode of engagement with the technosciences. The common thread connecting all the panel contributions was the potential for new pedagogies to emerge with the contribution of world anthropologies of sciences and technologies. That is, in the space of socialization of scientists, engineers, and the public, space of the convention, as well as invention, and knowledge-making, all the presenters addressed the question of how to advance an anthropology of science and technology with forms of participation, as Fischer suggests, as productive critique.

Along similar lines, Claudia Fonseca offered closing remarks about her own trajectory and the persistence of national anthropological traditions informing our cross-dialogs and border crossings. Known in Brazil as an “anthropologist with an accent”, an anthropologist born in the US, trained in France, and based in Brazil for the most part of her academic life, she cannot help but emphasize the style and forms of engagement that are specific to Brazilian anthropology which has a tradition of conducting ethnography at home. The panel served, in sum, for the participants to find a common thread connecting a rather disparate set of papers and for advancing a form of dialogue across national traditions and modes of engagement which is attentive to local political histories and (national) anthropological trajectories. As suggested by Michael Fortun, we are just collectively conjuring – with much more empiria than magic – a new beginning in the experimental tradition for world anthropologies of sciences and technologies.

Mundo deverá quadruplicar energias renováveis até 2050 para conter mudanças climáticas (O Globo)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

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Novo relatório do IPCC afirma também que combustíveis fósseis precisarão ser ‘extintos’ até 2100. Combustíveis fósseis deveriam ser ‘extintos’ até 2100, segundo o IPCC

Copenhague – No capítulo final de uma pesquisa iniciada 13 meses atrás, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) desfilou uma saraivada de números que refletem o caótico aquecimento global. Segundo o estudo, divulgado ontem em Copenhague, a temperatura média na superfície da Terra aumentou 0,85 grau Celsius entre 1880 e 2012. A concentração de gases-estufa na atmosfera é a maior dos últimos 800 mil anos. As ondas de calor vão se tornar cada vez mais intensas e comuns, especialmente no Hemisfério Norte.

Se o mundo quiser evitar que as mudanças climáticas se tornem irreversíveis, o uso de combustíveis fósseis — o principal motor da economia mundial — deve ser zerado em 2100. Para isso, os países precisam quadruplicar o uso de energias renováveis até 2050. Ignorar este ultimato provocará danos “graves, generalizados e irreversíveis”.

Atualmente, os governos gastam cerca de US$ 600 bilhões por ano no subsídio ao consumo de carvão. Ao mesmo tempo, menos de US$ 400 bilhões são investidos por ano no mundo em políticas de redução de emissões ou em outra forma de enfrentar as mudanças climáticas. Segundo o “New York Times”, esta quantia é menor do que a receita de apenas uma petrolífera americana.

De acordo com o presidente do IPCC, Rajendra Pachauri, os projetos de mitigação contra as mudanças climáticas custariam cerca de 0,06% do PIB mundial por ano até o fim do século. Estima-se que, no mesmo período, a economia internacional crescerá 300%.

— O custo da inércia será horrivelmente maior — assegura Rachauri. — Temos pouco tempo pela frente antes que passe a janela de oportunidade para o aumento de temperatura permanecer abaixo de 2 graus Celsius. Manter o atual modelo de crescimento não é uma opção para nós.

GOLPE NA ECONOMIA

Copresidente de um dos três grupos de trabalho do IPCC, Youba Sokona ressalta que há, no mínimo, 66% de chances de a temperatura global aumentar mais de 2 graus Celsius até 2100, caso a queima de combustíveis fósseis continue no ritmo atual.

— A transição para uma economia com baixo teor de carbono é tecnicamente viável — destaca. — Mas faltam políticas e instituições apropriadas. Quanto mais esperarmos para agir, maior será o custo para mitigação e adaptação.

A liberação de gases-estufa segue em escalada nas últimas décadas. Cerca de metade das emissões de CO2 da era industrial ocorreu nos últimos 40 anos. Com isso, o cenário mais provável é que a temperatura média global ultrapasse os 4 graus Celsius até 2100. Atingir esta marca significa “dificultar a redução da pobreza (…) e corroer a segurança alimentar”, diz o estudo.

Entre 1901 e 2010, o nível do mar aumentou 0,19 centímetro — um valor maior do que nos 2 mil anos anteriores. Se os termômetros continuarem crescendo, em 2050 o gelo do Oceano Ártico terá praticamente desaparecido nos meses de setembro. Até o fim do século, o nível do mar pode aumentar 82 centímetros. Há previsões de grandes enchentes e desaparecimento de países insulares e cidades costeiras.

A mudança do regime de chuvas, a absorção de gases-estufa pelo oceano e o derretimento de geleiras vão afetar a disponibilidade de alimentos para as espécies marinhas. Sua migração também prejudicará a indústria pesqueira.

O calor também afetará o rendimento de safras de trigo, arroz, milho e soja. Estes recursos são a base da economia de países em desenvolvimento. Suas populações, as mais atingidas por eventos extremos, devem migrar para outras regiões. A chegada dos refugiados climáticos aumentará a desigualdade social e a possibilidade de conflitos violentos.

Esta descrição foi atenuada na redação final do relatório. O documento original, editado durante a semana, afirmava que a migração em massa de populações provocaria conflitos violentos “na forma de guerra civil”.

Segundo o Banco Mundial, a comunidade internacional precisará investir entre US$ 1 trilhão e US$ 1,5 trilhão por ano para ajustar sua infraestrutura ao perigo representado pelas mudanças climáticas.

— O impacto das mudanças climáticas será muito diferente em cada país. Por isso é tão difícil estimá-lo — admite a economista Stéphane Hallegatte, coautora do relatório do IPCC. — Eles precisam de dinheiro para desenvolver a tecnologia ecológica, defesa costeira, planos de mitigação e adaptação e gestão de risco de desastres.

Pachauri lembra que as nações mais vulneráveis contribuem pouco para as emissões de gases-estufa. Por isso, atacar o problema torna-se responsabilidade de todos os governos:

— Enfrentar o aquecimento global não será possível se cada agente pensar apenas em seu plano. Precisamos de cooperação entre os países para alcançar nossos objetivos.

FALTA DE ACORDO GLOBAL

O relatório do IPCC, que está em sua quinta edição, deve servir como base para as discussões da Conferência do Clima de Lima, em dezembro deste ano. As esperanças, porém, estão concentradas na edição do ano que vem do encontro, em Paris. Espera-se que este fórum resulte em um acordo global contra as mudanças climáticas. Havia a mesma expectativa em Copenhague, em 2009, quando o debate foi pautado pelo quarto documento do IPCC.

— Tivemos uma conversa extensa há cinco anos, mas, olhando para trás, talvez os líderes mundiais não estivessem tão preparados para discutir o clima — admite o secretário-geral da ONU, Ban ki-Moon. — Eles precisam agir. O tempo não está ao nosso lado.

Não é tão simples assim. O combate às mudanças climáticas é marcado por desentendimentos. Países em desenvolvimento se recusam a aceitar metas para reduzir emissões de CO2 — exigência imposta pelas nações desenvolvidas.

Em setembro, Ban ki-Moon organizou uma Cúpula do Clima na ONU, em uma tentativa de antecipar as discussões previstas para os fóruns ambientais. No encontro foi apresentada a Declaração de Nova York, um documento que propunha a redução pela metade do corte de florestas até 2020 e zerá-lo na década seguinte. Com esta medida, entre 4,5 bilhões e 8,8 bilhões de toneladas de CO2 deixariam de ser liberadas para a atmosfera — o equivalente à remoção de um bilhão de carros das ruas até 2030. Brasil, Índia e China, que estão entre os maiores desmatadores do mundo, recusaram-se a assinar o acordo.

A China, maior poluidora do planeta, comprometeu-se apenas a divulgar quando atingirá o pico de suas emissões — o que deve ocorrer antes de 2030. Os EUA limitam-se a cobrar projetos da potência asiática. A União Europeia e o Brasil estabeleceram metas voluntárias — ou seja, sem valor legal. A Índia, que será a nação mais populosa do mundo daqui a menos de 20 anos, luta para ser definida como país em desenvolvimento, um sinal de que não pretende assumir objetivos.

DISCUSSÕES MADRUGADA ADENTRO

Pachauri, porém, acredita que o novo relatório pode virar o jogo. De acordo com ele, o documento apresentado ontem é “o mais forte e robusto” já produzido pelo IPCC. Para especialistas, o maior objetivo foi cumprido: enfatizar como a ação humana interfere na temperatura do planeta, tese muito contestada poucos anos atrás.

Vice-presidente do IPCC, Suzana Kahn avalia que o relatório final foi mais “claro e objetivo” do que os documentos escritos nos últimos meses pelos grupos de trabalho. Suzana, porém, acredita que os números do IPCC não mudarão facilmente o posicionamento dos governos nas negociações internacionais.

— Os países permanecem com suas posições históricas já consolidadas — afirma Suzana, uma das responsáveis por resumir o relatório original, que tinha 175 páginas, no divulgado ontem, com 40 páginas. — Para fazer isso, foi uma dificuldade. Imagine, então, na negociação propriamente dita. Tanto que, em vez de encerrarmos as discussões na sexta-feira, às 18h, elas só foram fechadas no sábado, às 16h, e precisamos debater todas as madrugadas. Ou seja, tudo foi marcado por pouca disposição de cooperação.

Os climatologistas ressaltam que, mesmo se todas as medidas de mitigação e adaptação forem tomadas, os estragos provocados pelo homem no clima serão visíveis no próximo século, já que as alterações feitas em biomas, geleiras e o acúmulo de carbono nos oceanos não serão remediadas imediatamente. O meio ambiente tem seu próprio tempo. E, para assegurá-lo, o ser humano corre contra o relógio.

Fonte: GVces / O Globo.

Desmatamento na Amazônia na mídia – 10 de novembro de 2014

“Estamos indo direto para o matadouro”, diz o cientista Antonio Nobre (Portal do Meio Ambiente)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

Antonio Donato Nobre é um dos melhores cientistas brasileiros, pertence ao grupo do IPCC que mede o aquecimento da Terra e é um especialista em questões amazônicas. É mundialmente conhecido como pesquisador do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).  Excerto do evento de lançamento do relatório “O Futuro Climático da Amazônia” em 30/10/2014.

Por Daniela Chiaretti, Do Valor

Eis a entrevista.

Quanto já desmatamos da Amazônia brasileira?

Só de corte raso, nos últimos 40 anos, foram três Estados de São Paulo, duas Alemanhas ou dois Japões. São 184 milhões de campos de futebol, quase um campo por brasileiro. A velocidade do desmatamento na Amazônia, em 40 anos, é de um trator com uma lâmina de três metros se deslocando a 726 km/hora – uma espécie de trator do fim do mundo. A área que foi destruída corresponde a uma estrada de 2 km de largura, da Terra até a Lua. E não estou falando de degradação florestal.

Essa é a “guilhotina de árvores” que o senhor menciona?

Foram destruídas 42 bilhões de árvores em 40 anos, cerca de 3 milhões de árvores por dia, 2.000 árvores por minuto. É o clima que sente cada árvore que é retirada da Amazônia. O desmatamento sem limite encontrou no clima um juiz que conta árvores, não esquece e não perdoa.

O sr. pode explicar?

Os cientistas que estudam a Amazônia estão preocupados com a percepção de que a floresta é potente e realmente condiciona o clima. É uma usina de serviços ambientais. Ela está sendo desmatada e o clima vai mudar.

A mudança climática…

A mudança climática já chegou. Não é mais previsão de modelo, é observação de noticiário. Os céticos do clima conseguiram uma vitória acachapante, fizeram com que governos não acreditassem mais no aquecimento global. As emissões aumentaram muito e o sistema climático planetário está entrando em falência como previsto, só que mais rápido.

No estudo o sr. relaciona destruição da floresta e clima?

A literatura é abundante, há milhares de artigos escritos, mais de duas dúzias de projetos grandes sendo feitos na Amazônia, com dezenas de cientistas. Li mais de 200 artigos em quatro meses. Nesse estudo quis esclarecer conexões, porque esta discussão é fragmentada. “Temos que desenvolver o agronegócio. Mas e a floresta? Ah, floresta não é assunto meu”. Cada um está envolvido naquilo que faz e a fragmentação tem sido mortal para os interesses da humanidade. Quando fiz a síntese destes estudos, eu me assombrei com a gravidade da situação.

Qual é a situação?

A situação é de realidade, não mais de previsões. No arco do desmatamento, por exemplo, o clima já mudou. Lá está aumentando a duração da estação seca e diminuindo a duração e volume de chuva. Agricultores do Mato Grosso tiveram que adiar o plantio da soja porque a chuva não chegou. Ano após ano, na região leste e sul da Amazônia, isso está ocorrendo. A seca de 2005 foi a mais forte em cem anos. Cinco anos depois teve a de 2010, mais forte que a de 2005. O efeito externo sobre a Amazônia já é realidade. O sistema está ficando em desarranjo.

A seca em São Paulo se relaciona com mudança do clima?

Pegue o noticiário: o que está acontecendo na Califórnia, na América Central, em partes da Colômbia? É mundial. Alguém pode dizer – é mundial, então não tem nada a ver com a Amazônia. É aí que está a incompreensão em relação à mudança climática: tem tudo a ver com o que temos feito no planeta, principalmente a destruição de florestas. A consequência não é só em relação ao CO2 que sai, mas a destruição de floresta destrói o sistema de condicionamento climático local. E isso, com as flutuações planetárias da mudança do clima, faz com que não tenhamos nenhuma almofada.

Almofada?

A floresta é um seguro, um sistema de proteção, uma poupança. Se aparece uma coisa imprevista e você tem algum dinheiro guardado, você se vira. É o que está acontecendo agora, não sentimos antes os efeitos da destruição de 500 anos da Mata Atlântica, porque tínhamos a “costa quente” da Amazônia. A sombra úmida da floresta amazônica não permitia que sentíssemos os efeitos da destruição das florestas locais.

O sr. fala em tapete tecnológico da Amazônia. O que é?

Eu queria mostrar o que significa aquela floresta. Até eucalipto tem mais valor que floresta nativa. Se olharmos no microscópio, a floresta é a hiper abundância de seres vivos e qualquer ser vivo supera toda a tecnologia humana somada. O tapete tecnológico da Amazônia é essa assembleia fantástica de seres vivos que operam no nível de átomos e moléculas, regulando o fluxo de substâncias e de energia e controlando o clima.

O sr. fala em cinco segredos da Amazônia. Quais são?

O primeiro é o transporte de umidade continente adentro. O oceano é a fonte primordial de toda a água. Evapora, o sal fica no oceano, o vento empurra o vapor que sobe e entra nos continentes. Na América do Sul, entra 3.000 km na direção dos Andes com umidade total. O segredo? Os gêiseres da floresta.

Gêiseres da floresta?

É uma metáfora. Uma árvore grande da Amazônia, com dez metros de raio de copa, coloca mais de mil litros de água em um dia, pela transpiração. Fizemos a conta para a bacia Amazônica toda, que tem 5,5 milhões de km2: saem desses gêiseres de madeira 20 bilhões de toneladas de água diárias. O rio Amazonas, o maior rio da Terra, que joga 20% de toda a água doce nos oceanos, despeja 17 bilhões de toneladas de água por dia. Esse fluxo de vapor que sai das árvores da floresta é maior que o Amazonas. Esse ar que vai progredindo para dentro do continente vai recebendo o fluxo de vapor da transpiração das árvores e se mantém úmido, e, portanto, com capacidade de fazer chover. Essa é uma característica das florestas

É o que faz falta em São Paulo?

Sim, porque aqui acabamos com a Mata Atlântica, não temos mais floresta. Qual o segundo segredo?

Chove muito na Amazônia e o ar é muito limpo, como nos oceanos, onde chove pouco. Como, se as atmosferas são muito semelhantes? A resposta veio do estudo de aromas e odores das árvores. Esses odores vão para atmosfera e quando têm radiação solar e vapor de água, reagem com o oxigênio e precipitam uma poeira finíssima, que atrai o vapor de água. É um nucleador de nuvens. Quando chove, lava a poeira, mas tem mais gás e o sistema se mantém.

E o terceiro segredo?

A floresta é um ar-condicionado e produz um rio amazônico de vapor. Essa formação maciça de nuvens abaixa a pressão da região e puxa o ar que está sobre os oceanos para dentro da floresta. É um cabo de guerra, uma bomba biótica de umidade, uma correia transportadora. E na Amazônia, as árvores são antigas e têm raízes que buscam água a mais de 20 metros de profundidade, no lençol freático. A floresta está ligada a um oceano de água doce embaixo dela. Quando cai a chuva, a água se infiltra e alimenta esses aquíferos.

Como tudo isso se relaciona à seca de São Paulo?

No quarto segredo. Estamos em um quadrilátero da sorte – uma região que vai de Cuiabá a Buenos Aires no Sul, São Paulo aos Andes e produz 70% do PIB da América do Sul. Se olharmos o mapa múndi, na mesma latitude estão o deserto do Atacama, o Kalahari, o deserto da Namíbia e o da Austrália. Mas aqui, não, essa região era para ser um deserto. E no entanto não é, é irrigada, tem umidade. De onde vem a chuva? A Amazônia exporta umidade. Durante vários meses do ano chega por aqui, através de “rios aéreos”, o vapor que é a fonte da chuva desse quadrilátero.

E o quinto segredo?

Onde tem floresta não tem furacão nem tornado. Ela tem um papel de regularização do clima, atenua os excessos, não deixa que se organizem esses eventos destrutivos. É um seguro.

Qual o impacto do desmatamento então?

O desmatamento leva ao clima inóspito, arrebenta com o sistema de condicionamento climático da floresta. É o mesmo que ter uma bomba que manda água para um prédio, mas eu a destruo, aí não tem mais água na minha torneira. É o que estamos fazendo. Ao desmatar, destruímos os mecanismos que produzem esses benefícios e ficamos expostos à violência geofísica. O clima inóspito é uma realidade, não é mais previsão. Tinha que ter parado com o desmatamento há dez anos. E parar agora não resolve mais.

Como não resolve mais?

Parar de desmatar é fundamental, mas não resolve mais. Temos que conter os danos ao máximo. Parar de desmatar é para ontem. A única reação adequada neste momento é fazer um esforço de guerra. A evidência científica diz que a única chance de recuperarmos o estrago que fizemos é zerar o desmatamento. Mas isso será insuficiente, temos que replantar florestas, refazer ecossistemas. É a nossa grande oportunidade.

E se não fizermos isso?

Veja pela janela o céu que tem em São Paulo – é de deserto. A destruição da Mata Atlântica nos deu a ilusão de que estava tudo bem, e o mesmo com a destruição da Amazônia. Mas isso é até o dia em que se rompe a capacidade de compensação, e é esse nível que estamos atingindo hoje em relação aos serviços ambientais. É muito sério, muito grave. Estamos indo direto para o matadouro.

O que o sr. está dizendo?

Agora temos que nos confrontar com o desmatamento acumulado. Não adianta mais dizer “vamos reduzir a taxa de desmatamento anual.” Temos que fazer frente ao passivo, é ele que determina o clima.

Tem quem diga que parte desses campos de futebol viraram campos de soja.

O clima não dá a mínima para a soja, para o clima importa a árvore. Soja tem raiz de pouca profundidade, não tem dossel, tem raiz curta, não é capaz de bombear água. Os sistemas agrícolas são extremamente dependentes da floresta. Se não chegar chuva ali, a plantação morre.

O que significa tudo isso? Que vai chover cada vez menos?

Significa que todos aqueles serviços ambientais estão sendo dilapidados. É a mesma coisa que arrebentar turbinas na usina de Itaipu – aí não tem mais eletricidade. É de clima que estamos falando, da umidade que vem da Amazônia. É essa a dimensão dos serviços que estamos perdendo. Estamos perdendo um serviço que era gratuito que trazia conforto, que fornecia água doce e estabilidade climática. Um estudo feito na Geórgia por uma associação do agronegócio com ONGs ambientalistas mediu os serviços de florestas privadas para áreas urbanas. Encontraram um valor de US$ 37 bilhões. É disso que estamos falando, de uma usina de serviços.

As pessoas em São Paulo estão preocupadas com a seca.

Sim, mas quantos paulistas compraram móveis e construíram casas com madeira da Amazônia e nem perguntaram sobre a procedência? Não estou responsabilizando os paulistas porque existe muita inconsciência sobre a questão. Mas o papel da ciência é trazer o conhecimento. Estamos chegando a um ponto crítico e temos que avisar.

Esse ponto crítico é ficar sem água?

Entre outras coisas. Estamos fazendo a transposição do São Francisco para resolver o problema de uma área onde não chove há três anos. Mas e se não tiver água em outros lugares? E se ocorrer de a gente destruir e desmatar de tal forma que a região que produz 70% do PIB cumpra o seu destino geográfico e vire deserto? Vamos buscar água no aquífero?

Não é uma opção?

No norte de Pequim, os poços estão já a dois quilômetros de profundidade. Não tem uso indefinido de uma água fóssil, ela tem que ter algum tipo de recarga. É um estoque, como petróleo. Usa e acaba. Só tem um lugar que não acaba, o oceano, mas é salgado.
O esforço de guerra é para acabar com o desmatamento?

Tinha que ter acabado ontem, tem que acabar hoje e temos que começar a replantar florestas. Esse é o esforço de guerra. Temos nas florestas nosso maior aliado. São uma tecnologia natural que está ao nosso alcance. Não proponho tirar as plantações de soja ou a criação de gado para plantar floresta, mas fazer o uso inteligente da paisagem, recompor as Áreas de Proteção Permanente (APPs) e replantar florestas em grande escala. Não só na Amazônia. Aqui em São Paulo, se tivesse floresta, o que eu chamo de paquiderme atmosférico…

Como é?

É a massa de ar quente que “sentou” no Sudeste e não deixa entrar nem a frente fria pelo Sul nem os rios voadores da Amazônia.

O que o governo do Estado deveria fazer?

Programas massivos de replantio de reflorestas. Já. São Paulo tem que erradicar totalmente a tolerância com relação a desmatamento. Segunda coisa: ter um esforço de guerra no replantio de florestas. Não é replantar eucalipto. Monocultura de eucalipto não tem este papel em relação a ciclo hidrológico, tem que replantar floresta e acabar com o fogo. Poderia começar reconstruindo ecossistemas em áreas degradadas para não competir com a agricultura.

Onde?

Nos morros pelados onde tem capim, nos vales, em áreas íngremes. Em vales onde só tem capim, tem que plantar árvores da Mata Atlântica. O esforço de guerra para replantar tem que juntar toda a sociedade. Precisamos reconstruir as florestas, da melhor e mais rápida forma possível.

E o desmatamento legal?

Nem pode entrar em cogitação. Uma lei que não levou em consideração a ciência e prejudica a sociedade, que tira água das torneiras, precisa ser mudada.

O que achou de Dilma não ter assinado o compromisso de desmatamento zero em 2030, na reunião da ONU, em Nova York?
Um absurdo sem paralelo. A realidade é que estamos indo para o caos. Já temos carros-pipa na zona metropolitana de São Paulo. Estamos perdendo bilhões de dólares em valores que foram destruídos. Quem é o responsável por isso? Um dia, quando a sociedade se der conta, a Justiça vai receber acusações. Imagine se as grandes áreas urbanas, que ficarem em penúria hídrica, responsabilizarem os grandes lordes do agronegócio pelo desmatamento da Amazônia. Espero que não se chegue a essa situação. Mas a realidade é que a torneira da sua casa está secando.

Quanto a floresta consegue suportar?

Temos uma floresta de mais de 50 milhões de anos. Nesse período é improvável que não tenham acontecido cataclismas, glaciação e aquecimento, e no entanto a Amazônia e a Mata Atlântica ficaram aí. Quando a floresta está intacta, tem capacidade de suportar. É a mesma capacidade do fígado do alcoólatra que, mesmo tomando vários porres, não acontece nada se está intacto. Mas o desmatamento faz com que a capacidade de resiliência que tínhamos, com a floresta, fique perdida.

Aí vem uma flutuação forte ligado à mudança climática global e nós ficamos muito expostos, como é o caso do “paquiderme atmosférico” que sentou no Sudeste. Se tivesse floresta aqui, não aconteceria, porque a floresta resfria a superfície e evapora quantidade de água que ajuda a formar chuva.

O esforço terá resultado?

Isso não é garantido, porque existem as mudanças climáticas globais, mas reconstruir ecossistemas é a melhor opção que temos. Quem sabe a gente desenvolva outra agricultura, mais harmônica, de serviços agroecossistêmicos. Não tem nenhuma razão para o antagonismo entre agricultura e conservação ambiental. Ao contrário. A agricultura consciente, que soubesse o que a comunidade científica sabe, estaria na rua, com cartazes, exigindo do governo proteção das florestas. E, por iniciativa própria, replantaria a floresta nas suas propriedades.

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10/11/2014 – 01h16

Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer (WWF Brasil)

por Redação do WWF Brasil

amazonia desmatamento peter 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer

O mais recente relatório divulgado, na última semana, pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) alertou: o planeta precisa de mudanças, caso contrário os danos ambientais e climáticos poderão ser irreversíveis. No Brasil, a situação não é diferente. Muito há que ser mudado, principalmente, no que se refere à conservação da maior floresta tropical do mundo, a Amazônia. Pelo fato de desempenhar um papel essencial no combate aos efeitos das mudanças climáticas, pesquisas recentes associam a destruição das florestas no norte do País às graves consequências para o clima, devido à sua função na estocagem do carbono e na regulação do regime das chuvas, que abastecem, por exemplo, as regiões Sudeste e Sul.

Apesar do alerta e da necessidade de mudança, o Brasil tem caminhado no sentido contrário, principalmente, no que diz respeito ao desmatamento da Amazônia. Antes mesmo da divulgação das estimativas oficiais de desmatamento em 2014, prevista para as próximas semanas, os números do sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter) apontam uma tendência de crescimento no norte do País.

Segundo o sistema, baseado em estimativas a partir de imagens de satélites e destinado a orientar a fiscalização em campo, nos últimos três anos (2012, 2013 e 2014), houve um aumento de cerca de 49% nas taxas correspondentes entre agosto de um ano a julho do ano seguinte. Na comparação de 2013 a 2014, considerando apenas os meses do início da estação seca na Amazônia (maio-julho), os quais concentram boa parte do desmatamento anual, o valor dobrou, passando de 893 km2 para 1535 km2 (veja gráfico abaixo).

grafico desmatamento 1 Alerta: desmatamento na Amazônia tende a crescer

O sistema Deter é um dos sistemas de monitoramento criado pelo governo para apontar alertas de desmatamento e demonstrar suas tendências. Por esta razão, serve também para estimar o que deve acontecer com os dados oficiais de referência para o monitoramento do desmatamento, por meio de um segundo sistema mais acurado. Este segundo sistema é o que gera os dados a serem divulgados nas próximas semanas, que terão por base os valores levantados pelo Programa de Cálculo do Desflorestamento da Amazônia (Prodes), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que registra, via satélite, áreas equivalentes a pouco mais de seis campos de futebol (6,25 hectares). Esta estimativa é divulgada sempre no final do ano, geralmente no mês de novembro. Em meados de julho do ano seguinte, as taxas são consolidadas oficialmente, após o detalhamento dos estudos. Entretanto, as estimativas de novembro contém uma imprecisão muito pequena em relação aos dados definitivos que serão divulgados no ano que vem.

“As taxas de desmatamento da Amazônia, consideradas como oficiais pelo governo brasileiro, são as do Prodes, que trabalha com imagens de melhor resolução espacial, capazes de mostrar também os pequenos desmatamentos. No entanto, os números apontados pelo Deter são importantes indicadores para os órgãos de controle e fiscalização e para nos mostrar a tendência que vem por aí”, explica Mauro Armelin, superintendente de conservação do WWF-Brasil. O Prodes, em seu último levantamento, já havia registrado um aumento em relação ao ano anterior de 29% nas taxas de desmatamento para o período de agosto de 2012 a julho de 2013, em que 5.891 km² de floresta amazônica foram perdidos. “Existe a tendência do Prodes acompanhar a tendência do Deter, ou seja, haver aumento do desmatamento registrado oficialmente em 2014. É claro que esperamos boas notícias, ou seja, que estejamos errados em nossa análise, e que as novas taxas do Prodes mostrem o recuo do desmatamento. Mas a tendência é justamente a contrária”, conclui.

Segundo Armelin, o Brasil corre o risco de fechar o ano com a pior performance ambiental dos últimos anos. “Estamos numa situação complicada. Ao mesmo tempo que o desmatamento tende a crescer, também não avançamos em alternativas energéticas de baixo carbono. Para piorar, os incentivos do governo têm aumentado para a expansão automobilística, com um forte incentivo a combustíveis fósseis, com cada vez mais subsídios para a gasolina, por exemplo”, avalia Armelin. Tais investimentos não contribuem em nada com as metas divulgadas pelo relatório do IPCC. O documento sugere que o uso, sem restrições de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás), seja suspenso até o ano de 2100 e que o uso de alternativas renováveis suba até 70% até 2050. “Acreditamos que para contribuir com essas recomendações, o Brasil precisa ter um melhor planejamento energético que considere fontes de energia de menor impacto, como solar, eólica, baseada em biomassa e em pequenas centrais hidrelétricas, as PCHs”, explica Mauro.

Sem estes investimentos, continuaremos a ir na direção contrária ao desenvolvimento sustentável. “Precisamos finalmente entender, como sociedade, que as escolhas que fizermos agora irão refletir na qualidade de vida das futuras gerações. Eventos climáticos extremos, como a escassez de chuvas no sudeste que está ocorrendo agora, serão fenômenos que se tornarão mais comuns enquanto a temperatura do planeta continuar a crescer. A Amazônia é um ativo chave para a proteção da segurança climática, hídrica e energética, não só da população brasileira, mas também mundial”, alerta Armelin.

Alternativas

O atual cenário da Amazônia clama por uma intervenção urgente. O governo precisa agir rapidamente para evitar que o desmatamento fuja do controle e aumente os riscos para a região em termos da perda de sua biodiversidade e da depreciação de seu capital natural, com fortes impactos sobre sua população. “É preciso avançar em ações estruturantes, como a implementação em larga escala do Cadastro Ambiental Rural, de iniciativas de restauração florestal dentro das propriedades privadas, de forma a assegurar cumprimento da lei ambiental, e de ações de ordenamento e de planejamento do uso do solo”, ressalta Marco Lentini, coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil.

Além disso, segundo o especialista, é preciso implementar de forma mais eficiente ações que levem ao bom uso e à valorização de florestas, principalmente em iniciativas de manejo florestal, e que apresentem alternativas econômicas contra o desmatamento. Um exemplo seria o desenvolvimento de um amplo sistema para o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) como carbono, água e biodiversidade. “A floresta amazônica, além de proporcionar serviços imensuráveis em termos de regulação do clima e do regime de chuvas, oferece uma ampla gama de produtos que podem ser aproveitados de forma racional pela sociedade. Ou seja, podemos aliar conservação e desenvolvimento. Nossa sociedade tem investido em modelos que priorizam ou um objetivo, ou o outro. É chegado o momento de sairmos desta paralisia de paradigma”, avalia Lentini.

* Publicado originalmente no site WWF Brasil.

(WWF Brasil)

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10/11/2014 – 01h08

Destamento: Má notícia pode virar pesadelo (Greenpeace)

por Redação do Greenpeace

desmatamento1 Destamento: Má notícia pode virar pesadelo

Últimos dados do sistema de alerta Deter apontam tendência de crescimento do desmatamento da Amazônia.

O que foi má notícia no ano passado se anuncia antecipadamente como pesadelo para 2015: depois de vários anos de queda, o aumento no desmatamento da Amazônia pode se confirmar como tendência em 2014 (assim que a taxa oficial anual da derrubada de árvores na região para este ano for divulgada) e como grande desafio em 2015. Segundo a Folha de S.Paulo, em nota divulgada em seu site, sexta-feira, dia 7, os alertas de desmatamento na região aumentaram 122% em agosto e setembro passados, comparados com o mesmo período do ano anterior. Dados do Deter, diz a Folha, mostram alertas de desmatamentos num total de 1.626 km² de florestas nesses dois meses.

Agosto e setembro são os dois primeiros meses que comporão a taxa oficial de desmatamento em 2015. Por razões técnicas, o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) monitora desmatamento entre agosto de um ano e julho do próximo, – o chamado “ano fiscal do desmatamento”. Os alertas são baseados em imagens de satélite que permitem análise rápida por serem mais leves, dada a baixa resolução das imagens, e compõem o Deter – o sistema de monitoramento em tempo real passado ao Ibama para auxiliar no combate a ilegalidades na floresta. Sendo assim, os meses de agosto e setembro de 2014 comporão os dois primeiros do “ano fiscal” de 2015.

Apesar de o sistema Deter ter um grau de imprecisão na medição, o crescimento nesses dois primeiros meses de apuração da taxa de desmatamento a ser considerada em 2015 é motivo para séria preocupação, explica Paulo Adario, estrategista sênior do Greenpeace para florestas. “O aumento dos números do Deter apontado pela Folha confirma uma tendência já apontada pelos dados da ONG Imazon e acende a luz vermelha. O dragão do desmatamento acordou.”

“Essa é uma má notícia para o governo, que vinha se beneficiando da imagem positiva criada pela queda no desmatamento, e para todos nós. O desmatamento da Amazônia é a principal contribuição do Brasil para a mudança climática. A floresta perde cada vez mais cobertura e nós sentimos a consequência dessa destruição para muito além das fronteiras da Amazônia, como na forte estiagem que seca as torneiras no Sudeste.”

* Publicado originalmente no site Greenpeace.

(Greenpeace)

Crise hídrica em São Paulo – 10 de novembro de 2014

Mais da metade das 54 nascentes de SP estão secas, revela pesquisa (Portal do Meio Ambiente)

PUBLICADO 04 NOVEMBRO 2014.

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Desrespeito do homem pela natureza é a principal causa. Pesquisa da Unesp foi feita no interior de São Paulo.

Uma pesquisa feita por biólogos da UNESP revela uma situação alarmante, no interior de São Paulo. Mais da metade das 54 nascentes de água que estão sendo monitoradas secaram na última década. A falta de chuva agravou o problema, mas a causa principal é o desrespeito do homem pela natureza.

Em 2003, os pesquisadores recolheram amostras de dezenas de córregos e nascentes do interior de São Paulo. Agora, eles voltaram a esses locais e constataram que a situação piorou muito. “Nesse período a gente conseguiu quantificar que 81% desses riachos anteriormente mostrados, perderam qualidade aquática de maneira geral e perderam volume de água”, fala a pesquisadora da UNESP Lilian Casatti.

Das 54 nascentes documentadas na pesquisa, 34 tem menos da metade de água que tinham há dez anos e 29 estão secas. É o caso da nascente do rio São José dos Dourados, um dos mais importantes da região noroeste de São Paulo. Até pouco tempo atrás, a área era coberta de água e agora a nascente simplesmente desapareceu e deu lugar a um caminho tomado de lixo.
Em outra nascente, a do Rio Preto, um dos mais importantes do interior paulista, quase não dá para ver água. Foto feita pelos pesquisadores há onze anos mostra uma área bem diferente. Dava para ver o curso da água bem definido. Agora ele quase não aparece. No lugar cresceu uma vegetação típica de terrenos assoreados.

“O que é o assoreamento, nada mais é que a entrada de terra dentro desses riachos. Essa vegetação só cresce em locais úmidos e locais que tem um substrato – uma terre para ela crescer porque ela é enraizada”, explica a pesquisadora da UNESP Jaquelini Zeni.
O que faltou na maior parte das nascentes que secaram são as chamadas matas ciliares. Elas impedem que terra, areia e outros sedimentos acabem bloqueando a saída da água nas nascentes.

Há dez anos, uma das nascentes quase não tinha água. Nesse período, a área foi toda reflorestada e hoje, apesar da seca recorde em São Paulo, a água está em quantidade bem razoável. “A gente tem que começar a plantar realmente árvores nesses riachos, do lado desses riachos pra gente poder daqui um tempo colher água, porque senão, a gente vai enfrentar situações extremas, como a gente está vendo”, completa Jaquelini.

Veja a matéria no site do Jornal Hoje

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10/11/2014 – 12h50

Falta d’água: não é uma crise ocasional (IHU On-Line)

por Patricia Fachin e Andriolli Costa, do IHU On-Line

Entre as razões que explicam a crise hídrica e de abastecimento no estado de São Paulo, “uma mudança climática intensa” é, “sem dúvida”, o elemento central para compreender a “maior crise de abastecimento e a maior crise hídrica nos últimos 100 anos”, diz o pesquisador José Galizia Tundisi à IHU On-Line, em entrevista concedida por telefone.

“As causas dessa crise estão relacionadas a uma seca muito intensa e à falta de precipitação. Para dar um exemplo, em outubro deste ano teríamos de ter tido 130 milímetros de chuva, como é o esperado, mas tivemos só 30”, exemplifica.

Na avaliação do especialista, a “magnitude da crise” foi uma surpresa, mas a resolução do problema não passa por “fazer mais do que já estava sendo feito”. Segundo ele, “o estado de São Paulo tem um sistema de controle de qualidade e quantidade de água bem estabelecido” e, portanto, “nem o Sistema Federal, nem o Sistema Estadual poderiam fazer muito mais, dada a magnitude da crise e a rapidez com que ela ocorreu”. Tundisi critica e alerta a politização que tem sido feita em relação ao tema. “Não poderia haver uma politização da crise, uma vez que isso não é benéfico para ninguém”, pontua.

De acordo com ele, o “Sistema da Cantareira está sofrendo uma enorme depressão de volume de água”, e se não chover nos próximos 30 dias “vamos ter de usar as últimas reservas de água do Cantareira e a partir daí tenho impressão de que deverão ser mobilizados outros tipos de transposição de águas, de outras represas, para que com isso se possa aportar mais água ao sistema e para que ele não entre em colapso”, esclarece.

Tundisi explica ainda que a crise hídrica pode ser estendida a outros estados brasileiros, pois há um “desequilíbrio hidrológico”. “Estamos passando por uma série de mudanças climáticas muito sérias, está havendo extremos hidrológicos. (…)Há um processo de desequilíbrio hidrológico em algumas áreas, por exemplo, em áreas muita secas, há excesso de chuva. Por outro lado, a seca no Nordeste esse ano foi a maior dos últimos cinquenta anos, e o excesso de chuva e de precipitações no Sul resultou que, nas Cataratas do Iguaçu, em julho deste ano, houve um excesso de 46 milhões de litros de água por segundo despejados, sendo que a média é um milhão e meio, ou seja, há desequilíbrios. Portanto, é com esses problemas regionais e continentais que o país terá de lidar”.

José Galizia Tundisi é graduado em História Natural, mestre em Oceanografia na University of Southampton e doutor em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo – USP. Atualmente é professor titular aposentado da USP e professor titular do curso de Qualidade Ambiental da Feevale. É presidente da Associação Instituto Internacional de Ecologia e Gerenciamento Ambiental – IIEGA e pesquisador do Instituto Internacional de Ecologia – IIE. Suas pesquisas são financiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq.

tundisi 905x1024 Falta dágua: não é uma crise ocasional

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as razões da crise de abastecimento de água em São Paulo?

José Tundisi – A principal razão, sem dúvida nenhuma, é uma mudança climática muito intensa que está ocorrendo, e disso temos praticamente a maior crise de abastecimento e a maior crise hídrica nos últimos 100 anos. E, portanto, as causas dessa crise estão relacionadas a uma seca muito intensa e à falta de precipitação. Para dar um exemplo, em outubro deste ano deveríamos ter tido 130 milímetros de chuva, como é o esperado, mas tivemos só 30, portanto, essa é a causa principal.

IHU On-Line – Durante a disputa eleitoral deste ano, a crise de abastecimento de água foi usada como método de acusação de um partido contra o outro. Era possível em âmbito federal e estadual ter tomado medidas que evitassem essa crise?

José Tundisi – Acredito que não. O estado de São Paulo tem um sistema de controle de qualidade e quantidade de água bem estabelecido há muito tempo e não se trata de fazer mais do que já estava sendo feito. Na verdade houve, sob certo ponto de vista, uma surpresa até na magnitude da crise, porque se esperava uma crise, mas não dessa magnitude.

A crise vem se estabelecendo já há alguns anos, mas havia uma diminuição. De todo modo, acho que nem o Sistema Federal nem o Sistema Estadual poderiam ter feito muito mais, dada a magnitude da crise e a rapidez com que ela ocorreu, porque a crise foi muito rápida, de modo que em outra entrevista, dada ao jornal Folha de S. Paulo, eu já tinha alertado que não poderia haver uma politização da crise, uma vez que isso não é benéfico para ninguém.

Continuo achando isso e continuo dizendo que deve haver uma união de esforços no sentido de procurar soluções de longo prazo e que sejam mais adequadas. Na verdade, o que está se desenhando é que a crise será muito mais longa do que parece; ela não é uma crise ocasional, é uma crise quase que permanente pelo menos por alguns anos. E evidentemente é preciso encontrar soluções que enfrentem esse problema de uma forma por um lado emergencial e, de outra, com medidas estruturais e não estruturais de longo prazo.

IHU On-Line – É possível pensar que uma crise de abastecimento, tal qual ocorre em São Paulo, se alastre por outros estados brasileiros?

José Tundisi – É possível, sim. Nós estamos passando por uma série de mudanças climáticas muito sérias, estão ocorrendo extremos hidrológicos, porque quando se fala em crise de água, quer dizer que em alguns casos no Brasil há excessos hidrológicos, que é o próprio caso do Rio Grande do Sul. Portanto, há um processo de desequilíbrio hidrológico, em algumas áreas com muitas secas, e, em outras, com excesso de chuva. Por exemplo, a seca no Nordeste este ano foi a maior dos últimos cinquenta anos, enquanto o excesso de chuva e de precipitações no Sul resultou que, nas Cataratas do Iguaçu, em julho deste ano, houve um excesso de 46 milhões de litros de água por segundo despejados, sendo que a média é um milhão e meio. Portanto, é com esses problemas regionais e continentais que o país terá de lidar.

IHU On-Line – Quais são os reservatórios de água considerados críticos hoje no país?

José Tundisi – Se você olhar as hidrelétricas de Minas Gerais, por exemplo, elas têm problemas, Furnas também, todos os reservatórios do Rio Grande do sul, do Paranapanema, do próprio Tietê, têm problemas de seca. A hidrovia Tietê-Paraná parou de funcionar por causa da seca e, portanto, a crise atinge uma área grande do Brasil, atinge também uma parte do Rio de Janeiro e uma parte do Paraíba. Portanto, todo esse conjunto deve ser considerado como uma séria ameaça à economia e à saúde pública do país e a uma grande parte da população do país, que se concentra principalmente na região Sudeste.

O que é muito significativo é que se fala muito em “quantidade de água”, mas não existe uma preocupação com “qualidade de água” e esse é outro problema. Inclusive levantei essa questão na semana passada com o presidente da Academia Brasileira de Ciências, e sugeri que a Academia faça um alerta aos governos federal, estaduais e municipais para chamar a atenção para o problema da qualidade da água e da saúde pública associada à seca ou às enchentes, porque isso também tem problemas com as enchentes.

O pessoal quer água, muito bem, mas que tipo de água? O que essa água vai causar? Hoje, em certas regiões de São Paulo, se distribui água em caminhões-pipa. De onde vem essa água e qual a sua qualidade? Então isso precisa ser considerado.

IHU On-Line – Quem é o presidente atual da Academia Brasileira de Ciências e qual a posição que a academia demonstrou?

José Tundisi – O presidente atual é o professor Jacob Palis. A Academia Brasileira de Ciências vai fazer uma reunião dias 21 e 22 de novembro em São Paulo, juntamente com a Academia de Ciências do Estado de São Paulo, para discutir a crise de abastecimento e a seca no Sudeste do estado. Aí vai ser discutido e provavelmente vamos apresentar um comunicado ao país em função da discussão dos especialistas; seguramente deveremos produzir um documento que vai incluir também a questão da qualidade e um alerta às secretarias da saúde, por exemplo, com a finalidade de que se possa chamar a atenção para o problema e pedir que as autoridades tomem medidas preventivas de extremo cuidado com relação à qualidade da água.

IHU On-Line – Qual o papel de cientistas e especialistas para chamar a atenção dos poderes públicos para as medidas mais efetivas no combate e prevenção nesse tipo de crise?

José Tundisi – Nós temos de atuar de uma forma propositiva e ao mesmo tempo de alerta, propondo medidas seguras para que se possa enfrentar a crise. Vou dar um exemplo: uma represa que é frequentada por cerca de 10 mil pessoas nos finais de semana, que não tinha nenhum problema de qualidade de água, começou a apresentar problemas severos de qualidade de água na região de São Carlos, de Pirapina e de Brotas, e isso me obrigou a escrever um laudo aos prefeitos dessas cidades, aos secretários da saúde e à promotoria pública no sentido de impedir o contato direto da população com essa água, ou seja, impedir o banho, porque as condições de balneabilidade da represa, em 43 anos, superaram e muito as condições mínimas da Organização Mundial da Saúde para a balneabilidade. Então, o que nós temos de fazer é alertar os poderes públicos e os sistemas de controle de vigilância sanitária para impedir que a população possa, por exemplo, utilizar a água de má qualidade e sofrer efeitos de saúde. Nós não temos o poder de impedir isso, mas os setores públicos têm, e a nossa função é alertá-los para que eles possam tomar as medidas necessárias.

IHU On-Line – Qual é a atual situação do Sistema da Cantareira?

José Tundisi – O Sistema da Cantareira está sofrendo uma enorme depressão de volume de água, e com isso nós estamos esperando que se não chover dentro de mais ou menos 30 dias, vamos ter de usar as últimas reservas de água da Cantareira. A partir daí tenho a impressão de que deverão ser mobilizados outros tipos de transposição de águas, de outras represas, para que com isso se possa aportar mais água ao sistema e para que ele não entre em colapso.

No caso de São Paulo especificamente, o problema não é só para abastecimento público; a hidrovia fechou, mas a hidroeletricidade é fundamental, porque, por exemplo, São Paulo é o maior produtor de suco de laranja do mundo, São Carlos é um dos maiores produtores de etanol do mundo, e tudo isso depende de água e de abastecimento. Bom, esse é um problema que deve ser considerado dentro de um contexto mais amplo, não só de abastecimento público, de modo que a questão da Cantareira entra na questão do abastecimento público, mas há outros problemas subjacentes de saúde pública, de economia, geração de emprego e renda, por exemplo, de queda na produção, os quais devem ser considerados.

IHU On-Line – Especialistas dizem que o desmatamento em bacias hidrográficas contribui para diminuir a quantidade e a qualidade das águas. Quais são as bacias hidrográficas de São Paulo mais degradadas e por quais razões elas se encontram em tal estado?

José Tundisi – São várias razões. Apesar dos esforços que têm sido feitos para a recuperação de bacias hidrográficas, com reflorestamento, etc. — e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP tem tido um papel fundamental nesse projeto de recuperação da biodiversidade terrestre através do reflorestamento, porque ela teve um grande programa que mobilizou justamente no sentido de restaurar bacias hidrográficas —, nós temos algumas bacias, especialmente nas regiões metropolitanas, que sofreram esses processos de desmatamento. No interior do estado também, por causa da urbanização, há um impacto de desmatamento dos mananciais em muitas cidades; por outro lado, algumas cidades utilizam recursos hídricos subterrâneos, que também estão sob pressão. Então, entre essas causas todas, sem dúvida nenhuma, o desmatamento é um dos problemas mais sérios da escassez de água.

IHU On-Line – Qual o nome das bacias em estado crítico?

José Tundisi – Bacia do Baixo Cotia, na região metropolitana de São Paulo; no Rio Sorocaba tem um programa de reflorestamento muito bem sucedido, no Rio Jundiaí também, no Rio Jacaré Pepira também. Já outros rios afluentes do Tietê, por exemplo, na Bacia do Tietê Jacaré, sofreram desmatamento forte por causa da plantação de cana-de-açúcar. Então, não é algo contínuo, é espalhado no estado em função dos impactos da urbanização, da industrialização e da agricultura.

IHU On-Line – Como e em que sentido a degradação dos biomas brasileiros impacta nos recursos hídricos? Nesse sentido, qual é o papel do Cerrado para garantir o abastecimento de água no país?

José Tundisi – O Cerrado tem um papel importante porque tem um milhão e meio de metros quadrados, mas o bioma foi muito impactado com o movimento da agroindústria, especialmente de soja, e evidentemente a recomposição das áreas de mananciais no Cerrado é uma das grandes prioridades. Nessa próxima etapa de governo — e eu dizia isso antes da eleição, qualquer que fosse o governo —, o grande fator de mobilização pode ser um megaprojeto de reflorestamento no Brasil todo; isso gera empregos, protege o meio ambiente, os mananciais, a qualidade da água, porque, em regiões onde há proteção a partir do manancial, se gasta muito pouco para tratar a água. Em contrapartida, num manancial degradado, sem cobertura vegetal e sem proteção, o custo do tratamento pode ser até cem vezes maior. Portanto, há uma relação muito forte entre a questão da proteção da biota terrestre, especialmente a vegetação e a biodiversidade terrestre, e a qualidade e quantidade de água. Isso é fundamental para restaurar as reservas hídricas do país; isso em nível de Brasil, não é apenas em São Paulo.

IHU On-Line – Já é possível vislumbrar os impactos do Código Florestal nos recursos hídricos? Quais são os principais equívocos do Código Florestal aprovado há pouco mais de dois anos sobre os recursos hídricos?

José Tundisi – Por enquanto, ainda não, até porque esse Código Florestal já vem sendo “estuprado” há muito tempo, não é de agora que ele tem sido alterado. Eu fui muito contra o estabelecimento de metas físicas para proteger a vegetação ao longo dos rios, porque se falou muito em cinco metros, dez metros, trinta metros. Isso não existe; o que existe é o rio e a sua calha e a área de inundação do rio. A proteção deve ir até onde o rio pode inundar as suas margens, porque aí é que está a vegetação que tolera a inundação: podem ser cinco, dez ou cem metros. Essa questão é que precisaria ser discutida, mas não foi. É o rio e a sua calha, e não a metragem fixada pelo homem. Não é o homem quem tem que fixar a metragem até onde vai a vegetação; quem tem que fixar essa metragem é a capacidade de manter o ecossistema funcionando.

IHU On-Line – Em sua opinião, quais são os outros equívocos que o Código Florestal traz?

José Tundisi – Faltou uma visão mais clara de incentivos em relação à proteção. Precisaria ser mais incisivo com relação aos incentivos que se pode dar para aqueles que protegem as áreas de vegetação e o próprio reflorestamento. A recomposição de serviços dos ecossistemas, por exemplo, e o pagamento de serviços ambientais, poderiam ter sido mais enfatizados nesse projeto.

IHU On-Line – Que medidas estão sendo desenvolvidas para resolver o problema de abastecimento em São Paulo?

José Tundisi – As medidas emergenciais são aquelas que o governo está tomando em função da transposição de água de alguns reservatórios para outros. São Paulo está fazendo também uma adutora grande que vai buscar água no Rio São Lourenço, na região sul do estado de São Paulo, e que traria mais água para o abastecimento, mas isso vai demorar mais um pouco. De todo modo, emergencialmente estão sendo efetuadas medidas de transposição de água de bacia, também estão sendo efetuados incentivos para que as pessoas utilizem menos água, ou prêmios com bônus para que as pessoas economizem água, o que também é importante nessa questão; e, também, em áreas críticas, a disponibilização de caminhões-pipa para abastecer as cidades onde há situações muito críticas. Ainda precisa mais, deve-se pensar em transposição de água de outras regiões, em dessalinização de água na Baixada Santista, o que pode ser um fator importante de produção de água doce em larga escala para a população da região metropolitana, de modo que essas medidas ainda não foram tomadas, mas seguramente nós vamos influenciar para que elas possam ser tomadas.

IHU On-Line – O que a crise hídrica de São Paulo revela sobre o sistema hídrico brasileiro?

José Tundisi – Falhas da governança, falhas na capacidade de mensuração, principalmente da qualidade da água e monitoramento integrado. Além disso, o tripé qualidade da água, quantidade de água e governança está desconectado. O principal problema é este, de todos os lados nós temos falhas. Temos uma excelente lei de recursos hídricos, mas cuja implementação é muito lenta e de difícil desenvolvimento, e, além disso, há um problema de governança: os nossos comitês e agências de bacias deveriam estar funcionando em todo território nacional, com recursos próprios gerados na bacia para recuperação dessas bacias. Então, lentidão nas execuções da lei de recursos hídricos, que eu repito, é uma das melhores do mundo, e integração muito pouco efetiva entre quantidade de água, qualidade de água e governança, e mais participação popular na economia de água.

IHU On-Line – Ainda que não possamos politicalizar a crise, não é importante cobrar dos nossos políticos que eles desenvolvam um pensamento mais sistêmico, que seja capaz de fazer ligações entre, por exemplo, o desmatamento e os incentivos a uma exploração desenfreada e a falta de água, é pensar não só as causas, mas o sistema que leva a isso?

José Tundisi – Claro, completamente de acordo. Isso precisa ser feito com urgência. O Congresso precisaria se mobilizar para poder colocar leis de incentivos mais efetivas e leis de estímulo à mobilização, e também pensar de uma forma mais ampla em todo o sistema de gestão de águas no Brasil com mais competências das agências, a capacidade de integração das agências federais com as agências estaduais e inclusive com o sistema municipal.

Na região do Sul, especialmente no Vale do Rio dos Sinos, que conheço bem — sou professor titular da Universidade Feevale —, temos trabalhado muito essa questão do Vale do Rio dos Sinos e a integração do comitê de bacias, do qual a Unisinos e a Feevale fazem parte, e outras universidades da região mais as prefeituras. Isso tem de ser integrado de uma forma mais efetiva, com o apoio do governo estadual e do governo federal, de tal forma que isso possa ser realmente um conjunto de ações efetivas.

O problema todo é que no Brasil tem bons projetos, bons planos e fraca execução. Esse é o eterno problema deste país: a execução é fraca, é falha e lenta. Esse é o problema do Brasil em todas as áreas, especialmente nos setores públicos federal, municipal e estadual. Tem bons planos, bons projetos, tem recursos, e na hora de executar existem grandes falhas, ou porque os executores não foram treinados, ou porque os executores não têm essa visão sistêmica ou então têm essa visão mais setorizada do processo, mas o principal é capacitação. Por isso nós estamos fazendo um grande esforço para capacitar gestores, para capacitar gerentes, para capacitar pesquisadores que se integrem ao sistema de gestão e com isso melhorar o processo de execução.

* Publicado originalmente no site IHU On-Line.

(IHU On-Line)

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10/11/2014 – 10h59

Nível de água volta a cair no Cantareira e em cinco mananciais de SP (Agência Brasil)

por Marli Moreira, da Agência Brasil

Sistema Cantareira atinge volume zero em 2014 mes de junho20140515 0003 406x270 Nível de água volta a cair no Cantareira e em cinco mananciais de SP

O nível do Sistema Cantareira teve nova queda ao passar de 11,4%, ontem (9), para 11,3% hoje (10), incluindo a segunda cota da reserva técnica, segundo informa a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Esse manancial e os cinco restantes no estado devem continuar caindo até quarta-feira (12), quando o tempo permanecerá seco.

De acordo com o meteorologista Marcelo Schneider, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), de hoje até quarta-feira, predominará o clima com sol entre nuvens e temperatura agradável.

“Com a passagem de uma frente fria vinda do oceano poderemos ter o ar mais úmido e alguma chance de áreas de instabilidade já na noite de quarta-feira e pancadas de chuva na quinta-feira, mas serão de curta duração”, informou.

Schneider disse que as áreas de instabilidade deverão se deslocar rumo à região central do país passando pela zona da mata, em Minas Gerais, e no Espírito Santo.

Ontem (9), com apenas garoa em pontos isolados, também ocorreram baixas nos reservatórios dos demais sistemas de abastecimento: o Sistema Alto Tietê (de 8,3% para 8,2%); o Guarapiranga (de 36,6% para 36,4%); o Alto Cotia (de 30,4% para 30,3%); o Rio Grande (de 67,1% para 66,8%) e o Rio claro (de 39,2% para 38,5%).

Na semana passada, o presidente da Agência Nacional de Águas (ANA), Vicente Andreu, defendeu a necessidade de se aumentar a produção de água em São Paulo para algo em torno de 60 metros cúbicos por segundo, até 2035. Na avaliação dele, além da construção de novos reservatórios, o ideal é minimizar as perdas na distribuição e buscar alternativas de reuso.

* Edição: Marcos Chagas.

** Publicado originalmente no site Agência Brasil.

(Agência Brasil)

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10/11/2014 – 10h08

Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira (SOS Mata Atlântica)

por Redação da SOS Mata Atlântica

restauracao centro mudas clickarvore 614x430 Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira

A Fundação SOS Mata Atlântica lançou edital para seleção de áreas prioritárias para a restauração florestal da Mata Atlântica, com propostas que colaborem para conservar e proteger os recursos hídricos do Sistema Cantareira.

Por meio do programa Clickarvore, que apoia iniciativas e projetos de restauração florestal, serão investidos até R$ 2 milhões em propostas enviadas até o dia 15 de janeiro por pessoas físicas ou jurídicas, associações, OSCIPs ou ONGs ambientalistas e por proprietários de terras.

A chamada pública, com recursos do Bradesco Cartões e Bradesco Seguros, prevê a doação de até 1 milhão de mudas de espécies florestais nativas da Mata Atlântica.

O objetivo é recuperar até 400 hectares de mata, promovendo assim a conservação de 4 milhões de litros de água por ano na área de abrangência do Sistema Cantareira. Em meio a uma crise hídrica, o conjunto de bacias há 30 anos convive com quase 80% de desmatamento de sua cobertura florestal nativa e hoje possui apenas 48,8 mil hectares de remanescentes, ou 21,5% de sua área de Mata Atlântica original.

As propostas, para áreas entre 15 e 30 hectares, deverão ter como foco principal as Áreas de Preservação Permanente da Bacia Hidrográfica e mananciais que compõem o Sistema Cantareira.

Acesse o edital aqui.

Os projetos do edital irão beneficiar até 12 municípios de São Paulo e Minas Gerais, com a respectiva porcentagem de vegetação nativa existente:

cantareira Edital prevê plantio de 1 milhão de mudas no Cantareira

Todas as propostas devem ter prazo de conclusão até 11 de dezembro de 2015.

Para mais informações, acesse o documento completo em http://bit.ly/Click-2014.

* Publicado originalmente no site SOS Mata Atlântica.

(SOS Mata Atlântica)

This Lawyer’s New Job Is Defending Climate Scientists From Political Attacks (Climate Progress)

POSTED ON NOVEMBER 10, 2014 AT 2:57 PM

This Lawyer’s New Job Is Defending Climate Scientists From Political Attacks

Lauren Kurtz, the new Executive Director of the Climate Science Legal Defense Fund.

Lauren Kurtz, the new Executive Director of the Climate Science Legal Defense Fund. CREDIT: CLIMATE SCIENCE LEGAL DEFENSE FUND

Lauren Kurtz, a once-budding biologist turned accomplished attorney, is frustrated. She thinks it’s ridiculous that climate scientists have become targets of politically motivated attacks.

“I think science is very important, and I think the increased politicization of climate science is a really horrible turn of events,” Kurtz, the new Executive Director of theClimate Science Legal Defense Fund, told ThinkProgress. “I am really excited to be able to combat that.”

On Monday, Kurtz became the first-ever Executive Director of the CSLDF, a group that works to stem and prevent harassment of climate scientists. In her new position there, Kurtz says she hopes to expand the group’s network of attorneys who will volunteer to represent embattled climate scientists in court free of charge. The end goal, she said, is to help climate scientists do their jobs without fear of politically motivated retaliation.

“One of our main goals is educating scientists on their legal rights and what they’re up against,” Kurtz said. “If and when things arise, we want to move as quickly as possible.”

The problem Kurtz hopes to address is a real one. Scientists who perform climate-related research have increasingly been the subject of personal attacks — email hacking, copiousonline abuse, a dead rat left on a scientists’ doorstep. At least one prominent scientist has been the subject of a failed lawsuit by a right-wing policy group, alleging manipulation of data, and demanding copies of personal emails and other communications under the Freedom of Information Act.

Many climate scientists say these attacks are political, perpetrated by people who can’t accept the policy solutions to the problem of human-caused global warming.

“I firmly believe that I would now be leading a different life if my research suggested that there was no human effect on climate,” said climate scientist Benjamin D. Santer during a Congressional hearing in 2010. “We need to follow the research wherever it leads us, without fear of the consequences of speaking truth to power.”

The CSLDF was founded with that goal in mind. It was created in 2011 by Professors Scott Mandia and John Abraham, after they learned that climate scientist Michael Mann was using his personal funds to defend himself against the now-infamous lawsuitbrought by the American Tradition Institute. Mandia and Abraham formed the group, and in 24 hours raised $10,000 to allow Mann to continue his research while fighting the case.

Mann, who eventually won his case, told ThinkProgress he was happy to see Kurtz in the CSLDF’s new leadership position.

“From what I have seen, she is a premier litigator,” he said. “I’m sure she’ll serve CSLDF well as their new executive director.”

Kurtz does come from a prestigious background in law. To take the new job at CSLDF, she left her job of more than four years as a litigator for Dechert LLP, a high-ranking global law firm with more than 900 attorneys. Before that, she worked at the U.S. Environmental Protection Agency, first as a policy associate and then as a law clerk.

Though her career ended up in law, it began in science. It evolved, however, when she realized how difficult it was to get anything done with the scientific results of her studies. Kurtz, who received her undergraduate degree in biology from Bryn Mawr College, remembers specifically how she felt while working on a conservation biology study of population decline of native bee populations.

“I felt really frustrated at the time that I was studying this, that there was a well-documented decline [in bee populations], but politically it didn’t seem to be going anywhere,” she said.

The feeling of wanting to change the political environment drove her to study environmental law and policy. She eventually received her Masters degree in environmental policy from the University of Pennsylvania, then went on to receive her law degree there as well.

“I have an immense amount of respect for scientists and I think it’s an interesting area to study, but ultimately what I was more passionate about was promoting science in a policy area,” she said. “This position’s got a similar thread, which is making sure policy decisions reflect what the science says, and separating people’s thoughts on science from what their political agendas are.”

Dilma tem encontro com Alckmin para buscar saída para crise hídrica (Vermelho.org)

10 de novembro de 2014 – 10h02

Reafirmando o compromisso de diálogo feito durante o discurso da vitória, após a confirmação dos resultados das eleições em 26 de outubro, a presidenta Dilma Rousseff reúne-se nesta segunda-feira (10) com o governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) para buscar uma saída para a crise hídrica em São Paulo.

Em 2011, a presidenta Dilma recebeu em audiência o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para discutir investimentos de infraestrutura e mobilidade

Em 2011, a presidenta Dilma recebeu em audiência o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para discutir investimentos de infraestrutura e mobilidade

A presidenta já determinou à sua equipe empenho total para ajudar o governador paulista. No encontro será discutida uma série de medidas estimadas em R$ 18,7 bilhões, a maioria para obras ainda não iniciadas e outra pequena parte para projetos em andamento.

A falta de água em São Paulo atingiu o seu ponto mais crítico nos últimos dois meses. O volume do Sistema Cantareira, principal represa do estado que abastece a capital paulista, atingiu 11,4%, o que representa o volume mais baixo desde que a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) decidiu incluir, no fim de outubro, a segunda cota do volume morto. A segunda cota do volume morto foi utilizada porque o nível do Cantareira estava em apenas 3%, o mais baixo já registrado na história.

Bancos públicos

“Temos um conjunto de obras [em médio prazo] a serem feitas e a participação do governo federal é importante”, disse Alckmin. A ajuda federal ao governo de São Paulo será feita por meio dos bancos públicos, tão criticados pelo guru econômico dos tucanos, Armínio Fraga durante as eleições presidenciais. As obras em curso contarão com um empréstimo da Caixa de R$ 1,8 bilhão para a construção do sistema São Lourenço, adutora para reforçar o fornecimento em zonas críticas, além de obras como a interligação dos reservatórios de Jaguari e Atibainha, no Cantareira.

Entre as obras de longo prazo estão as chamadas de “super-estruturantes”, como a transposições do rio Juquiá e do reservatório Jurumirim, no rio Paranapanema, hoje destinados ao abastecimento de energia, todas estimadas em R$ 12,4 bilhões e que responderiam por metade da vazão que São Paulo precisa cumprir até 2030.

Além da questão hídrica, o encontro também deve discutir a liberação de recursos de convênios já firmados para a construção da linha 13 da CPTM, que liga São Paulo ao aeroporto de Guarulhos, e o prolongamento da linha 9-Esmeralda até Varginha, na zona sul.

Com informações de agências

Dados que governo segurou mostram desmatamento alto (Folha de S.Paulo)

JC 5062, 10 de novembro de 2014

Perda de cobertura vegetal na Amazônia cresceu 122% em agosto e setembro, ante o mesmo período de 2013, informa a Folha de sábado

Agora é oficial: o desmatamento na Amazônia disparou em agosto e setembro. Foram devastados 1.626 km² de florestas, um crescimento de 122% sobre os mesmos dois meses de 2013.

O governo federal já conhecia esses dados antes do segundo turno da eleição presidencial, realizado no último dia 26 –a divulgação do aumento no desmatamento poderia prejudicar a votação da presidente Dilma Rousseff (PT), candidata à reeleição.

Veja a matéria completa em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/194542-dados-que-governo-segurou-mostram-desmatamento-alto.shtml

(Marcelo Leite/Folha de S.Paulo)

*   *   *

Amazônia morre e jornais não veem (Folha de S.Paulo)

A continuar nesse ritmo, só os mortos de sede vão testemunhar o fim da floresta amazônica, publica Leão Serva em artigo na Folha

A imprensa parece ter acordado para a maior tragédia ambiental em curso nesta região do planeta, a destruição acelerada da Amazônia. Mas talvez agora já seja tarde demais: há fortes sinais de falência do [http://goo.gl/G154Uk] sistema amazônico, que inclui a floresta e sua influência sobre o clima continental.

Veja a matéria completa em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/194887-amazonia-morre-e-jornais-nao-veem.shtml

(Folha de S.Paulo)

Latour on digital methods (Installing [social] order)

Capture

In a fascinating, apparently not-peer-reviewed non-article available free online here, Tommaso Venturini and Bruno Latour discuss the potential of “digital methods” for the contemporary social sciences.

The paper summarizes, and quite nicely, the split of sociological methods to the statistical aggregate using quantitative methods (capturing supposedly macro-phenomenon) and irreducibly basic interactions using qualitative methods (capturing supposedly micro-phenomenon). The problem is that neither of which aided the sociologist in capture emergent phenomenon, that is, capturing controversies and events as they happen rather than estimate them after they have emerged (quantitative macro structures) or capture them divorced from non-local influences (qualitative micro phenomenon).

The solution, they claim, is to adopt digital methods in the social sciences. The paper is not exactly a methodological outline of how to accomplish these methods, but there is something of a justification available for it, and it sounds something like this:

Thanks to digital traceability, researchers no longer need to choose between precision and scope in their observations: it is now possible to follow a multitude of interactions and, simultaneously, to distinguish the specific contribution that each one makes to the construction of social phenomena. Born in an era of scarcity, the social sciences are entering an age of abundance. In the face of the richness of these new data, nothing justifies keeping old distinctions. Endowed with a quantity of data comparable to the natural sciences, the social sciences can finally correct their lazy eyes and simultaneously maintain the focus and scope of their observations.

Colombian indigenous court convicts Farc guerrillas (BBC)

BBC

10 November 2014 Last updated at 03:22 GMT

The seven accused appeared before some 3,000 members of the Nasa community

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An indigenous court in western Colombia has convicted seven left-wing Farc guerrillas over the murder of two leaders of the Nasa tribe.

Five were sentenced to between 40 and 60 years in jail and two others will receive 20 lashes.

The two victims had been removing posters praising a Farc leader when they were killed.

Indigenous authorities in Colombia have jurisdiction in their own territories unless this contravenes national law.

The verdict and sentences were decided after several hours of debate by an assembly of about 3,000 members from the indigenous reserve in the Cauca province town of Toribio.

Gabriel Pavi, leader of the Northern Cauca indigenous councils association, said the guerrillas were captured “in uniform and with rifles” and that “all are indigenous”.

The harshest sentence – 60 years in jail – was given to a man who confessed to killing the two native leaders.

Four other defendants received 40 years each for having “fired indiscriminately” on other members of the community, said Mr Pavi.

Two teenagers also arrested – reportedly aged 14 and 17 – were sentenced to 20 lashes. They are to be held at a rehabilitation centre until they are 18, at which point a new assembly will reconsider their cases.

Following the trial, the weapons used by the guerrillas were destroyed in front of the tribal court.

The sentences will be served in the state prison at Popayan, capital of Cauca.

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The guerrillas’ guns were destroyed in front of the indigenous court

Como falar sobre a crise hídrica na sala de aula (Porvir)

24/10/2014 – 12h57

por Marina Lopes, do Porvir

A falta de água pode servir de gancho para discutir sobre gestão de recursos hídricos e consumo consciente

Nos últimos meses, as discussões sobre a água e o consumo consciente ganharam espaço em razão do período de seca nas regiões sudeste e nordeste e com a crise no abastecimento que atinge o estado de São Paulo, maior metrópole do país. Atualmente, o Sistema Cantareira, principal responsável por abastecer a região, opera com apenas 3% do volume dos seus reservatórios. Diante desse cenário, como o professor pode discutir o tema em sala de aula? O Porvir conversou com alguns especialistas e reuniu uma lista com dicas de recursos digitais que podem auxiliar os educadores.

Segundo o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, da Universidade de São Paulo, a escola precisa mudar a forma como trata sobre os recursos hídricos nacionais. “A criança e o adolescente não podem ter o mito da abundância da água reforçado.” Para ele, o Brasil tem um nível bastante elevado, mas essa água está distribuída de maneira desigual. “Ela é abundante na escala nacional, mas é muito escassa em locais como a região metropolitana de São Paulo”, apontou Wagner.

Educacaocrisehidrica Como falar sobre a crise hídrica na sala de aula

O especialista acredita que a crise vivida na cidade representa um problema de gestão, já que nos últimos anos não foram adotadas medidas voltadas para a ampliar os sistemas de captação, diminuir perdas durante o armazenamento e estimular reuso da água. “Infelizmente, nada disso foi realizado. Em um período mais seco, não temos ações de contingência”, afirmou.

O momento de crise, onde parte da população fica sem água nas torneiras durante horas ou até dias, pode servir para despertar a discussão sobre o uso da água. “A ideia é que o consumo consciente seja um hábito trabalhado desde a infância”, defendeu Denise Conselheiro, coordenadora do Edukatu, rede de aprendizagem sobre consumo consciente. Segundo ela, isso garante que as próximas gerações tenham essas práticas muito mais incorporadas ao seu dia a dia.

De acordo com a representante do Edukatu, para falar sobre esse tema na escola, o professor deve recorrer ao uso de atividades lúdicas e a uma linguagem divertida. “A abordagem precisa ser diferente”. Além disso, é preciso trazer as questões sobre o uso da água para o cotidiano do aluno, como o risco de desperdício dentro da própria escola.

Uma sugestão de atividade, apresentada por Wagner Costa Ribeiro, da USP, é de pedir para os alunos levarem a conta de água para escola. Na sala de aula, o professor pode comparar o consumo de cada família com a média geral da turma. A partir daí, ele consegue discutir maneiras de promover o uso racional dos recursos hídricos. No ensino médio, ele também pode acrescentar o debate sobre o modelo de gestão hídrica adotado na cidade.

A partir de buscas em sites como a Escola Digital, o Portal do Professor (MEC) e o Edukatu, o Porvir reuniu algumas dicas de recursos digitais que podem auxiliar os professores a falarem sobre o tema. Confira a lista:

Água em números

Com a linguagem de um infográfico animado, o vídeo apresenta dados da distribuição de água no planeta, consumo e desperdício em situações do dia a dia. A animação mostra que um buraco de três milímetros no encanamento, por exemplo, pode desperdiçar 3.200 litros de água por dia.

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Como prevenir a seca

Produzido pela equipe do site Planeta Sustentável, o infográfico apresenta alternativas para o uso racional da água. A arte também divide o consumo de acordo com o segmento – agricultura, indústrias ou uso doméstico. Segundo os dados apresentados no infográfico, o setor agrícola é responsável por 70% do consumo global.

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Quadrinhos sobre a água

A história em quadrinhos fala sobre a importância da água e como ela está distribuída no planeta. A partir dos diálogos entre os personagens, o aluno pode perceber que a água existe em abundancia no globo, mas apenas uma pequena parte dela é própria para o consumo.

Etapa: ensino fundamental
Disponível on-line
Fonte: Escola Digital

Atividades sobre o uso da água

Disponíveis para download, o conjunto de atividades reúne jogos e testes sobre o tema água. O material tenta conscientizar o aluno sobre a importância de promover o uso racional dos recursos hídricos.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Atividades sobre a importância da água

O recurso digital reúne materiais que falam sobre a importância da água no meio ambiente. Além disso, as atividades também tratam sobre a constituição hídrica do planeta e como ela é disponibilizada para o consumo humano.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Como a água chega até as nossas torneiras?

A imagem ilustra o caminho que a água percorre, desde quando é retirada da natureza, até o momento em que chega às torneiras de uma casa. Também é possível ver alguns processos de armazenamento de água nas estações de tratamento.

Etapa: ensino fundamental
Disponível offline
Fonte: Portal do Professor

Percurso da Água no Edukatu

No Edukatu o professor conta um percurso de aprendizado inteiro dedicado ao tema água. O material está disponível em duas fases: na primeira, ele apresenta recursos digitais que ampliam o conhecimento sobre a temática de forma lúdica; na segunda parta, é apresentado para o educador a proposta de desenvolver um projeto de intervenção no ambiente escolar, podendo incluir ações de conscientização sobre o uso racional da água.

(obs: para ter acesso ao material, o professor deve realizar um cadastro no site)

Etapa: ensino fundamental e médio
Disponível on-line
Fonte: Edukatu

* Publicado originalmente no site Porvir.

(Porvir)

Médicos que ‘ressuscitam mortos’ querem testar técnica em humanos (BBC)

Técnica para estender vidas por algumas horas nunca foi testada em humanos

“Quando seu corpo está com temperatura de 10 graus, sem atividade cerebral, batimento cardíaco e sangue – é um consenso que você está morto”, diz o professor Peter Rhee, da universidade do Arizona. “Mas ainda assim, nós conseguimos trazer você de volta.”

Rhee não está exagerando. Com Samuel Tisherman, da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, ele comprovou que é possível manter o corpo em estado “suspenso” por horas.

O procedimento já foi testado com animais e é o mais radical possível. Envolve retirar todo o sangue do corpo e esfriá-lo até 20 graus abaixo da sua temperatura normal.

Quando o problema no corpo do paciente é resolvido, o sangue volta a ser bombeado, reaquecendo lentamente o sistema. Quando a temperatura do sangue chega a 30 graus, o coração volta a bater.

Os animais submetidos a esse teste tiveram poucos efeitos colaterais ao despertar. “Eles ficam um pouco grogue por um tempo, mas no dia seguinte já estão bem”, diz Tisherman.

Testes com humanos

Tisherman causou um frisson internacional este ano quando anunciou que está pronto para fazer testes com humanos. As primeiras cobaias seriam vítimas de armas de fogo em Pittsburgh, na Pensilvânia.

Nesse caso, são pacientes cujos corações já pararam de bater e que não teriam mais chances de sobreviver, pelas técnicas convencionais. O médico americano teme que, por conta de manchetes imprecisas na imprensa, tenha-se criado uma ideia equivocada da sua pesquisa

Peter Rhee ajudou a criar técnica inovadora que envolve retirar o sangue do paciente

“Quando as pessoas pensam no assunto, elas pensam em viajantes espaciais sendo congelados e acordados em Júpiter, ou no [personagem] Han Solo, de Guerra nas Estrelas”, diz Tisherman.

“Isso não ajuda, porque é importante que as pessoas saibam que não se trata de ficção científica.”

Os esforços para trazer as pessoas de volta do que se acredita ser a morte já existem há décadas. Tisherman começou seus estudos com Peter Safar, que nos anos 1960 criou a técnica pioneira de reanimação cardiorrespiratória. Com uma massagem cardíaca, é possível manter o coração artificialmente ativo por um tempo.

“Sempre fomos criados para acreditar que a morte é um momento absoluto, e que quando morremos não tem mais volta”, diz Sam Parnia, da Universidade Estadual de Nova York.

“Com a descoberta básica da reanimação cardiorrespiratória nós passamos a entender que as células do corpo demoram horas para atingir uma morte irreversível. Mesmo depois que você já virou um cadáver, ainda existe como resgatá-lo.”

Recentemente, um homem de 40 anos no Texas sobreviveu por três horas e meia com a reanimação cardiorrespiratória.

Segundo os médicos de plantão, “todo mundo com dois braços foi chamado para se revezar fazendo as compressões no peito do paciente”.

Durante a massagem, ele continuava consciente e conversando com os médicos, mas caso o procedimento fosse interrompido, ele morreria. Eventualmente ele se recuperou e acabou sobrevivendo.

Esse caso de rescucitação ao longo de um grande período só funcionou porque não havia uma grande lesão no corpo do paciente. Mas isso é raro.

‘Limbo’

A técnica desenvolvida agora por Tisherman é baseada na ideia de que baixas temperaturas mantêm o corpo vivo por mais tempo – cerca de uma ou duas horas.

O sangue é retirado e no seu lugar é colocada uma solução salina que ajuda a rebaixar a temperatura do corpo para algo como 10 a 15 graus Celsius.

Em experiência com porcos, cerca de 90% deles se recuperaram quando o sangue foi bombeado de volta. Cada animal passou mais de uma hora no “limbo”.

Técnica de massagem cardíaca já ajuda a estender a vida de pessoas com paradas

“É uma das coisas mais incríveis de se observar: quando o coração começa a bater de novo”, diz Rhee.

Após a operação, foram realizados vários testes para avaliar se houve dano cerebral. Aparentemente nenhum porco apresentou problemas.

O desafio de obter permissão para testar em humanos tem sido enorme até agora. Tisherman e Rhee finalmente receberam permissão para testar sua técnica com vítimas de tiros em Pittsburgh.

Um dos problemas a ser contornado é ver como os pacientes se adaptam com o sangue de outra pessoa. Os porcos receberam o próprio sangue congelado, mas no caso dos humanos será necessário usar o estoque do banco de sangues.

Se der certo, os médicos acreditam que a técnica poderia ser aplicada não só vítimas de lesões, como tiros e facadas, mas em pessoas com ataque cardíaco.

A pesquisa também está levando a outros estudos sobre qual seria a melhor solução química para reduzir o metabolismo do corpo humano.

Leia a versão desta reportagem original em inglês no site BBC Future.

Transitions between states of matter: It’s more complicated, scientists find (Science Daily)

Date: November 6, 2014

Source: New York University

Summary: The seemingly simple process of phase changes — those transitions between states of matter — is more complex than previously known. New work reveals the need to rethink one of science’s building blocks and, with it, how some of the basic principles underlying the behavior of matter are taught in our classrooms.

Melting ice. The seemingly simple process of phase changes — those transitions between states of matter — is more complex than previously known. Credit: © shefkate / Fotolia

The seemingly simple process of phase changes — those transitions between states of matter — is more complex than previously known, according to research based at Princeton University, Peking University and New York University.

Their study, which appears in the journal Science, reveals the need to rethink one of science’s building blocks and, with it, how some of the basic principles underlying the behavior of matter are taught in our classrooms. The researchers examined the way that a phase change, specifically the melting of a solid, occurs at a microscopic level and discovered that the transition is far more involved than earlier models had accounted for.

“This research shows that phase changes can follow multiple pathways, which is counter to what we’ve previously known,” explains Mark Tuckerman, a professor of chemistry and applied mathematics at New York University and one of the study’s co-authors. “This means the simple theories about phase transitions that we teach in classes are just not right.”

According to Tuckerman, scientists will need to change the way they think of and teach on phase changes.

The work stems from a 10-year project at Princeton to develop a mathematical framework and computer algorithms to study complex behavior in systems, explained senior author Weinan E, a professor in Princeton’s Department of Mathematics and Program in Applied and Computational Mathematics. Phase changes proved to be a crucial test case for their algorithm, E said. E and Tuckerman worked with Amit Samanta, a postdoctoral researcher at Princeton now at Lawrence Livermore National Laboratory, and Tang-Qing Yu, a postdoctoral researcher at NYU’s Courant Institute of Mathematical Sciences.

“It was a test case for the rather powerful set of tools that we have developed to study hard questions about complex phenomena such as phase transitions,” E said. “The melting of a relatively simple atomic solid such as a metal, proved to be enormously rich. With the understanding we have gained from this case, we next aim to probe more complex molecular solids such as ice.”

The findings reveal that phase transition can occur via multiple and competing pathways and that the transitions involve at least two steps. The study shows that, along one of these pathways, the first step in the transition process is the formation of point defects — local defects that occur at or around a single lattice site in a crystalline solid. These defects turn out to be highly mobile. In a second step, the point defects randomly migrate and occasionally meet to form large, disordered defect clusters.

This mechanism predicts that “the disordered cluster grows from the outside in rather than from the inside out, as current explanations suggest,” Tuckerman notes. “Over time, these clusters grow and eventually become sufficiently large to cause the transition from solid to liquid.”

Along an alternative pathway, the defects grow into thin lines of disorder (called “dislocations”) that reach across the system. Small liquid regions then pool along these dislocations, these regions expand from the dislocation region, engulfing more and more of the solid, until the entire system becomes liquid.

This study modeled this process by tracing copper and aluminum metals from an atomic solid to an atomic liquid state. The researchers used advanced computer models and algorithms to reexamine the process of phase changes on a microscopic level.

“Phase transitions have always been something of a mystery because they represent such a dramatic change in the state of matter,” Tuckerman observes. “When a system changes from solid to liquid, the properties change substantially.”

He adds that this research shows the surprising incompleteness of previous models of nucleation and phase changes–and helps to fill in existing gaps in basic scientific understanding.

This work is supported by the Office of Naval Research (N00014-13-1-0338), the Army Research Office (W911NF- 11-1-0101), the Department of Energy (DE-SC0009248, DE-AC52-07NA27344), and the National Science Foundation of China (CHE-1301314).


Journal Reference:

  1. A. Samanta, M. E. Tuckerman, T.-Q. Yu, W. E. Microscopic mechanisms of equilibrium melting of a solid. Science, 2014; 346 (6210): 729 DOI:10.1126/science.1253810

Ghost illusion created in the lab (Science Daily)

Date: November 6, 2014

Source: Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne

Summary: Patients suffering from neurological or psychiatric conditions have often reported ‘feeling a presence’ watching over them. Now, researchers have succeeded in recreating these ghostly illusions in the lab.

This image depicts a person experiencing the ghost illusion in the lab. Credit: Alain Herzog/EPFL

Ghosts exist only in the mind, and scientists know just where to find them, an EPFL study suggests. Patients suffering from neurological or psychiatric conditions have often reported feeling a strange “presence.” Now, EPFL researchers in Switzerland have succeeded in recreating this so-called ghost illusion in the laboratory.

On June 29, 1970, mountaineer Reinhold Messner had an unusual experience. Recounting his descent down the virgin summit of Nanga Parbat with his brother, freezing, exhausted, and oxygen-starved in the vast barren landscape, he recalls, “Suddenly there was a third climber with us… a little to my right, a few steps behind me, just outside my field of vision.”

It was invisible, but there. Stories like this have been reported countless times by mountaineers, explorers, and survivors, as well as by people who have been widowed, but also by patients suffering from neurological or psychiatric disorders. They commonly describe a presence that is felt but unseen, akin to a guardian angel or a demon. Inexplicable, illusory, and persistent.

Olaf Blanke’s research team at EPFL has now unveiled this ghost. The team was able to recreate the illusion of a similar presence in the laboratory and provide a simple explanation. They showed that the “feeling of a presence” actually results from an alteration of sensorimotor brain signals, which are involved in generating self-awareness by integrating information from our movements and our body’s position in space.

In their experiment, Blanke’s team interfered with the sensorimotor input of participants in such a way that their brains no longer identified such signals as belonging to their own body, but instead interpreted them as those of someone else. The work is published in Current Biology.

Generating a “Ghost”

The researchers first analyzed the brains of 12 patients with neurological disorders — mostly epilepsy — who have experienced this kind of “apparition.” MRI analysis of the patients’s brains revealed interference with three cortical regions: the insular cortex, parietal-frontal cortex, and the temporo-parietal cortex. These three areas are involved in self-awareness, movement, and the sense of position in space (proprioception). Together, they contribute to multisensory signal processing, which is important for the perception of one’s own body.

The scientists then carried out a “dissonance” experiment in which blindfolded participants performed movements with their hand in front of their body. Behind them, a robotic device reproduced their movements, touching them on the back in real time. The result was a kind of spatial discrepancy, but because of the synchronized movement of the robot, the participant’s brain was able to adapt and correct for it.

Next, the neuroscientists introduced a temporal delay between the participant’s movement and the robot’s touch. Under these asynchronous conditions, distorting temporal and spatial perception, the researchers were able to recreate the ghost illusion.

An “Unbearable” Experience

The participants were unaware of the experiment’s purpose. After about three minutes of the delayed touching, the researchers asked them what they felt. Instinctively, several subjects reported a strong “feeling of a presence,” even counting up to four “ghosts” where none existed. “For some, the feeling was even so strong that they asked to stop the experiment,” said Giulio Rognini, who led the study.

“Our experiment induced the sensation of a foreign presence in the laboratory for the first time. It shows that it can arise under normal conditions, simply through conflicting sensory-motor signals,” explained Blanke. “The robotic system mimics the sensations of some patients with mental disorders or of healthy individuals under extreme circumstances. This confirms that it is caused by an altered perception of their own bodies in the brain.”

A Deeper Understanding of Schizophrenia

In addition to explaining a phenomenon that is common to many cultures, the aim of this research is to better understand some of the symptoms of patients suffering from schizophrenia. Such patients often suffer from hallucinations or delusions associated with the presence of an alien entity whose voice they may hear or whose actions they may feel. Many scientists attribute these perceptions to a malfunction of brain circuits that integrate sensory information in relation to our body’s movements.

“Our brain possesses several representations of our body in space,” added Giulio Rognini. “Under normal conditions, it is able to assemble a unified self-perception of the self from these representations. But when the system malfunctions because of disease — or, in this case, a robot — this can sometimes create a second representation of one’s own body, which is no longer perceived as ‘me’ but as someone else, a ‘presence’.”

It is unlikely that these findings will stop anyone from believing in ghosts. However, for scientists, it’s still more evidence that they only exist in our minds.

Watch the video: http://youtu.be/GnusbO8QjbE


Journal Reference:

  1. Olaf Blanke, Polona Pozeg, Masayuki Hara, Lukas Heydrich, Andrea Serino, Akio Yamamoto, Toshiro Higuchi, Roy Salomon, Margitta Seeck, Theodor Landis, Shahar Arzy, Bruno Herbelin, Hannes Bleuler, Giulio Rognini. Neurological and Robot-Controlled Induction of an Apparition. Current Biology, 2014; DOI:10.1016/j.cub.2014.09.049

A bolha global de carbono (Eco21)

06/11/2014 – 12h25

por Ricardo Abramovay*

carbono1 A bolha global de carbonoOs combustíveis fósseis são fortes candidatos a ocupar o epicentro de uma nova crise financeira global. A avaliação do jornalista Ambrose Evans-Pritchard está baseada em uma série de entrevistas com influentes protagonistas do setor de energia e em dois relatórios recentes sobre os impactos das negociações climáticas sobre estes mercados. Tendo em vista que, do trilhão de reais que, segundo o BNDES, devem ser investidos em infraestrutura no Brasil até 2017, quase metade vai para o setor de óleo e gás, o tema é de interesse estratégico para o País.

O primeiro relatório é o da Carbon Track Initiative, um grupo de trabalho dirigido pelo empresário, pesquisador e ativista Jeremy Leggett e que ganhou imenso prestígio internacional mostrando a existência de uma bolha de carbono (carbon bubble) no mercado global de energia. A expressão tem um duplo sentido, físico e financeiro. A bolha física está relacionada, evidentemente, à mudança climática. Para cumprir o objetivo de limitar a elevação da temperatura global média a, no máximo, 2°C, até o final do Século 21, a quantidade de fósseis a ser queimada pelo sistema econômico não pode ultrapassar o que corresponde à emissão de algo entre 900 e 1.000 gigatoneladas de Gases de Efeito Estufa entre 2010 e 2050. Ocorre que o patrimônio fóssil em mãos das empresas (em petróleo, carvão e gás) é quase três vezes superior a esse limite.

É nesse sentido que há uma bolha de carbono: este patrimônio só se converterá em riqueza se destruir o sistema climático. Em tese, seria possível capturar e armazenar o carbono lançado na atmosfera: mas, até hoje, os custos dessas operações são exorbitantes e não há indicações de que estejam prestes a se tornar economicamente viáveis. Portanto, não há terceiro caminho: ou se deixa sob o solo dois terços das reservas fósseis em poder dos gigantes da energia ou a elevação da temperatura global média chegará a um patamar em que consequências como a seca atual na Califórnia e os furacões Katrina e Sandy são apenas pálidas expressões.

É aí que ganha importância a dimensão financeira da bolha de carbono: apesar das evidências crescentes reunidas pelos cientistas e do acordo internacional (aprovado em 2010, em Cancún, México) de manter a elevação da temperatura aquém de 2°C, grandes empresas e seus financiadores continuam enxergando nos fósseis uma extraordinária fonte potencial de ganhos.

A Agência Internacional de Energia mostra que, globalmente, os investimentos em combustíveis fósseis dobraram entre 2000 e 2008, quando se estabilizaram em um patamar de US$ 950 bilhões por ano. Isso representa, segundo recente relatório da organização Ceres, 3,3 vezes mais do que os investimentos em renováveis realizados em 2012. Nos últimos seis anos, os gastos globais na busca de fósseis foram de US$ 5,4 trilhões. Praticamente todo esse investimento é feito em fontes não convencionais: areias betuminosas (sobretudo no Canadá), exploração no Ártico, gás de xisto e busca em águas profundas no Brasil e no Golfo do México. Essas fontes não convencionais exigem um esforço (e, portanto, têm um custo) muito maior que as convencionais. Elas só se viabilizam se o preço global do petróleo superar um patamar em torno de US$ 75 o barril.

Mas, se houver um acordo internacional para impedir a ruptura do sistema climático, a consequência será a queda na demanda e, portanto, nos preços dos fósseis. O crescimento exponencial das energias renováveis (a China dobrou sua geração solar nos primeiros seis meses de 2014, relativamente ao mesmo período do ano anterior) também deve resultar em menor demanda por fósseis. Portanto, o risco financeiro em torno dessa corrida à produção de fósseis é imenso.

O segundo relatório citado por Ambrose Evans-Pritchard e no qual se apoia a hipótese de crise financeira global, vem da consultoria Kepler Cheuvreux. Ele calcula as perdas financeiras dos gigantes da energia, caso um acordo para preservar o sistema climático seja alcançado. Nos próximos 20 anos, o prejuízo seria de US$ 28 trilhões, dos quais US$ 19,3 trilhões no setor de petróleo.

Os segmentos mais suscetíveis são justamente os não convencionais: Ártico, areias betuminosas e águas profundas. De que maneira esses números se relacionam com nosso pré-sal é um tema cuja discussão não pode ficar apenas entre especialistas.

* Ricardo Abramovay é professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP.

** Publicado originalmente no site Eco21.

(Eco21)