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Pesquisa sobre portuários é questionada pela Câmara de Santos (Diário do Litoral)

Levantamento aponta uso de drogas pela categoria. Intenção dos vereadores era redigir uma moção de apoio aos trabalhadores

Da Reportagem

Atualizado em 22 de setembro de 2015 às 11h45

Dois presidentes de sindicatos ligados ao Porto de Santos protestaram, na sessão de ontem da Câmara, contra a divulgação de uma pesquisa feita pela Universidade Federal Paulista (Unifesp) apontando o consumo de entorpecentes e ingestão de álcool entre os trabalhadores avulsos do cais.

As críticas partiram do presidente do Sindicato dos Operários Portuários (Sintraport), Claudiomiro Machado, o Miro, e do presidente do Sindicato dos Estivadores, Rodnei Oliveira, o Nei da Estiva. Eles afirmaram que o levantamento feito pela universidade feriu a honra da “família portuária”.

Quase todos os vereadores apoiaram a fala dos sindicalistas e questionaram o método de como a pesquisa foi feita. A pesquisa apontaria que 25% dos trabalhadores avulsos usam crack ou cocaína e 80% fazem ingestão de bebida alcoólica.

Miro questionou, por exemplo, o local onde o levantamento foi feito. “Dentro do Porto o acesso é liberado apenas ao trabalhador. Não foram lá entrevistar trabalhador portuário”.

O presidente do Sintraport relatou o drama vivido por um associado, cujo filho foi questionado na escola sobre a profissão do  pai. “Falaram para o garoto: teu pai é portuário? Então ele usa cocaína, usa crack”.

Já Nei da Estiva se mostrou indignado pelo fato de nenhum sindicato ter sido procurado para comentar os dados da pesquisa.

Intenção dos vereadores era redigir uma moção de apoio aos trabalhadores ( Foto: Matheus Tagé/DL)Intenção dos vereadores era redigir uma moção de apoio aos trabalhadores ( Foto: Matheus Tagé/DL)

O vereador Antônio Carlos Banha Joaquim (PMDB) lembrou que a Unifesp já foi alvo de uma investigação de uma Comissão de Inquérito aberta na casa, que apurou contratos da universidade com a Prefeitura. “Um trabalho científico tem de ser feito com metodologia”, comentou.

Banha também se disse atingido com o resultado da pesquisa. “Meu avô era trabalhador portuário. Ele deve estar rolando no caixão”, comentou, antes de sugerir que a Unifesp seja questionada judicialmente sobre o levantamento.

Para o vereador Benedito Furtado (PSB), o resultado da pesquisa “dá a entender que 80% dos portuários são alcoólatras”. Ele também atacou ferozmente a universidade. “Essa tal de Unifesp não cumpre lei municipal”.

Ressaltando ser filho de estivador, Geonísio Pereira de Aguiar, o Boquinha (PSDB), além de questionar a seriedade da pesquisa, disse que quase todos os alunos da instituição não são de Santos e, por isso,  devem conhecer pouco o cais.

Igor Martins de Melo, o Professor Igor (PSB), foi outro a lembrar que os pesquisadores precisam ter autorização para entrar na área portuária. “Quer dizer, então, que o maior porto da América Latina é tocado por um bando de irresponsáveis? O que é isso?”

Vereador e professor de Matemática, José Lascane (PSDB) disse que é preciso tomar extremo cuidado ao se fazer um levantamento feito pela Unifesp. “A amostra precisa ser bem avaliada, bem como a formulação da pergunta, que precisa ser bem clara”.

Cobrou posição

Marcelo Del Bosco (PPS) deu uma sugestão ao líder do Governo na Câmara, Sadao Nakai (PSDB): o secretário municipal de Assuntos Portuários e Marítimos, José Eduardo Lopes, deve se manifestar sobre o levantamento.

Roberto Oliveira Teixeira, o Pastor Roberto (PMDB), disse que as esposas dos trabalhadores portuários “se sentiram humilhadas com o resultado dessa pesquisa”.

Nível do mar avança e deve aumentar os custos no cais (A Tribuna)

Quinta-feira, 13 de Novembro de 2014 – 14h19

Leopoldo Figueiredo

O aumento do nível do mar previsto para as próximas décadas aumentará os custos do Porto de Santos, pontualmente seus gastos com dragagem e a manutenção de sua faixa de cais. Tais impactos reforçam a tese de que a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário, na região da costa, alternativa que já está em análise pela Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp),a administradora do porto.

A análise foi apresentada pelo professor universitário e pesquisador Paolo Alfredini na manhã de quarta-feira (12), durante sua palestra Adaptação das operações náuticas portuárias às mudanças climáticas em curso, parte da programação da 6ª edição do Seminário e Workshop em Engenharia Oceânica (Semengo), realizada em Rio Grande (RS).

Organizado a cada dois anos pela Universidade Federal de Rio Grande (RS) e considerado um dos principais eventos do setor, o Semengo tem como tema desta edição Engenharia Costeira e Portuária. Para debater os avanços e desafios nessas duas áreas, participam pesquisadores, consultores e empresários de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e de países como Portugal e Canadá.

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Gastos com dragagem e a manutenção da faixa de cais estão entre os investimentos previstos

SITUAÇÃO CRÍTICA

Doutor em Engenharia Civil e professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Alfredini disse que o nível do mar na costa brasileira, inclusive na região de Santos, está aumentando. E a situação é ainda mais crítica. De acordo com o pesquisador, a taxa desse crescimento é cada vez maior.

Levantamento realizado por ele e pela professora Emília Arasaki aponta que o nível médio do mar subiu 25,4 centímetros por século no período de 1952 a 2007. Mas se forem analisados os 37 últimos anos (de 1970 a 2007),essa taxa sobe para 39,1 centímetros por século.

“Percebemos que o nível do mar já vinha aumentando, mas se nos concentrarmos nos últimos anos, esse aumento é ainda maior. Conforme os registros bibliográficos, a partir dos anos 70, essa velocidade tem aumentando no mundo todo”, afirmou o engenheiro.

Para as áreas urbanas da Baixada Santista, isso significa que cada vez mais, nas próximas décadas, o mar deve avançar sobre suas “terras baixas”, afetando áreas residenciais e ruas e avenidas próximas à costa (como no caso do bairro da Ponta da Praia).

No Porto de Santos, o aumento do nível do mar acaba por aumentar o transporte de sedimentos pelas correntes e pela costa, intensificando o assoreamento (a deposição de areia, entre outros materiais, em um leito, tornando-o mais raso) do estuário santista e da região da barra (onde os navios ficam fundeados, à espera de uma vaga ou do momento de atracar).

Para contrabalançar esse fenômeno e manter a profundidade, será necessário reforçar a dragagem na região, ou seja, um custo a mais para o complexo marítimo.

MANUTENÇÃO

Outro reflexo destacado por Alfredini é o maior gasto com as obras de manutenção da infraestrutura portuária, pontualmente com a faixa de cais. Isso ocorrerá pois um maior nível do mar amplia a altura das ondas e consequentemente sua energia – de acordo com o professor, a energia de uma onda é proporcional ao quadrado de sua altura. Nesse cenário, ondas mais altas vão se chocar com uma força ainda maior contra o cais, tendo mais chances de danificá-lo e reduzindo sua vida útil.

“E custo com manutenção é custo para a vida toda”, enfatizou. Segundo o pesquisador, recentemente o Governo Federal decidiu acompanhar os efeitos do aumento do nível do mar na costa brasileira. Os dados apresentados ontem integram um trabalho que Paolo Alfredini realiza para a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República.

SANTOSVLAKTE É A SAÍDA PARA EXPANSÃO

Ao comentar o aumento do assoreamento do canal do Porto e a necessidade cada vez maior de dragá-lo, o pesquisador Paolo Alfredini lembrou que “a dragagem de Santos está em um nível crítico, tanto que é cada vez mais difícil e trabalhoso manter a cota de ao menos 15 metros de profundidade”.

Por isso, para ele, a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário. Alfredini explica que a profundidade natural do canal (se nunca tivesse sido dragado) seria de 8 ou 9 metros. Em seus 122 anos de história como porto organizado, o complexo ampliou essa medida, chegando hoje a valores entre 13 e 15 metros em toda a sua extensão.

Ecada vez que há um aprofundamento, sua manutenção envolve maiores esforços. Para o engenheiro, esse fato e os reflexos previstos com o aumento do nível do mar mostram que a expansão do complexo marítimo deve ocorrer fora da área do estuário. E citou que a Codesp já estuda ampliar o porto com a construção de terminais offshore. “Nesse sentido, Santos terá de seguir o caminho de Roterdã e Le Havre e crescer para o mar”, afirmou, referindo-se aos projetos de Maasvlaktee Port 2000.

No primeiro, o Porto de Roterdã, na Holanda, aterrou uma área do Mar do Norte para a construção de novas instalações. No segundo, a Autoridade Portuária de Le Havre, na França, utilizou espaços aterrados na foz do Rio Sena.

Conforme reportagem exclusiva publicada em A Tribuna em 14 de setembro passado, a Codesp estuda ampliar as instalações do complexo santista com a implantação de terminais na costa. Essa pesquisa, iniciada no último ano e que está em seu estágio inicial, é desenvolvida em parceria com o Instituto de Oceanografia da USP. Devido à semelhança com a iniciativa holandesa, o projeto foi batizado como Santosvlakte.