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Admirável mundo novo animal (Canal Ibase)

29/10/2013

Renzo Taddei

Colunista do Canal Ibase

Se avaliada pela repercussão que obteve na imprensa, a libertação dos 178 beagles do Instituto Royal foi um marco histórico. Nem na época do debate sobre a regulamentação do uso de células-tronco tanta gente graduada veio a público defender suas práticas profissionais. O tema está na capa das principais revistas semanais do país. A análise dos argumentos apresentados na defesa do uso de animais como cobaias de laboratório é, no entanto, desanimadora. E o é porque expõe o quanto nossos cientistas estão despreparados para avaliar, de forma ampla, as implicações éticas e morais do que fazem.

Vejamos: no debate aprendemos que há pesquisas para as quais as alternativas ao uso de animais não são adequadas. Aprendemos que muitas das doenças que são hoje de fácil tratamento não o seriam sem os testes feitos em animais; desta forma, muitas vidas humanas foram salvas. (Exemplificando como a razão pode sucumbir à emoção – até mesmo entre os mais aguerridos racionalistas -, um pesquisador da Fiocruz chegou ao desatino de afirmar que os “animais experimentais são grandes responsáveis pela sobrevivência da raça humana no planeta”). Adicionalmente, o fato de cientistas importantes do passado, como Albert Sabin, Carlos Chagas ou Louis Pasteur, terem usado animais como cobaias de laboratório em suas pesquisas mostra que os cientistas, por sua contribuição à humanidade, não podem ser tratados como criminosos. Ainda pior que isso tudo, se o Brasil proibir testes com animais, a ciência brasileira perderá autonomia e competitividade, porque dependerá de resultados de pesquisas feitas em outros países para o seu avanço.

Além do mais, há que se levar o animal em consideração: é consenso entre cientistas de que os animais de laboratório não devem sofrer. Providências foram tomadas nesse sentido, como a criação do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal, e da obrigatoriedade das instituições terem cada uma sua Comissão de Ética no Uso de Animais, com assento para representante de sociedades protetoras de animais legalmente constituídas. E, finalmente, os “próprios animais” são beneficiados, em razão de como as experiências de laboratório supostamente contribuem com o desenvolvimento da ciência veterinária.

De forma geral, o que temos aí resumido é o seguinte: os animais são coisas, e devem ser usados como tais; ou os animais não são coisas, mas infelizmente devem ser usados como tais. Há algo maior que se impõe (e sobre a qual falarei mais adiante), de forma determinante, de modo que se os animais são ou não são coisas, isso é um detalhe menor, que os cientistas logo aprendem a desprezar em seu treinamento profissional.

Foto: Ruth Elison/Flickr

A ideia de que os animais são coisas é antiga: Aristóteles, em seu livro Política, escrito há dois mil e trezentos anos, afirmou que os animais não são capazes de uso da linguagem e, por essa razão, não são capazes de uma existência ética. Sendo assim, conclui o filósofo, os animais foram criados para servir os humanos. Ideia semelhante está no Gênesis bíblico: “E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra” (Gênesis 1:26). Santo Agostinho e São Tomás de Aquino reafirmam a desconexão entre os animais e Deus. (São Francisco é, na história cristã, claramente um ponto fora da curva). A ideia chegou aos nossos dias praticamente intacta. O Catecismo Católico afirma, em seu parágrafo 2415, que “Os animais, tal como as plantas e os seres inanimados, são naturalmente destinados ao bem comum da humanidade, passada, presente e futura”. A ciência renascentista, através de Descartes e outros autores, fundou o humanismo que a caracteriza sobre essa distinção entre humanos e animais, exacerbando-a: o animal (supostamente) irracional passa a ser entendido como a antítese do humano (supostamente) racional. O tratamento de animais como coisas pela ciência contemporânea tem, desta forma, raízes históricas antigas.

Ocorre, no entanto, que essa ideia se contrapõe à existência cotidiana da maioria da humanidade, em todas as épocas. Em sociedades e culturas não-ocidentais, é comum que se atribua alguma forma de consciência e personalidade “humana” aos animais. Nas sociedades ocidentais, quem tem animal de estimação sabe que estes têm muito mais do que a simples capacidade de sentir dor: são capazes de fazer planos; de interagir entre si e com humanos em tarefas complexas, tomando decisões autônomas; integram-se na ecologia emocional das famílias humanas de forma significativa, construindo maneiras inteligentes de comunicar suas emoções. (Isso sem mencionar como animais humanizados são onipresentes em nosso imaginário cultural, dos desenhos animados infantis aos símbolos de times de futebol, de personagens do folclore popular a blockbusters hollywoodianos). De fato, o contraste entre essa percepção cotidiana e o que sugerem os pensamentos teológico e teórico mencionados acima faz parecer que há racionalização em excesso em tais argumentos. E onde há racionalização demais, ao invés de uma descrição do mundo, o mais provável é que haja uma tentativa de controle da realidade. Ou seja, trata-se mais de um discurso político, que tenta estabilizar relações desiguais de poder, do que qualquer outra coisa (nada de novo, aqui, para as ciências sociais ou para a filosofia da ciência).

É da própria atividade científica, no entanto, que vêm as evidências mais contundentes de que os animais são muito mais do que seres sencientes. No dia 7 de julho de 2012, um grupo de neurocientistas, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e cientistas da neurocomputação, reunidos na Universidade de Cambridge, produziu o documento intitulado Manifesto de Cambridge sobre a Consciência, onde se afirma o seguinte: “a ausência de neocortex não parece impedir um organismo de experimentar estados afetivos. Evidências convergentes indicam que animais não-humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos necessários para a geração de estados conscientes, aliados à capacidade de exibir comportamento intencional. Consequentemente, as evidências indicam que os humanos não são únicos em possuir substratos neurológicos que geram consciência. Animais não-humanos, incluindo todos os mamíferos e aves, e muitas outras criaturas, como os polvos, também possuem tais substratos neurológicos” (tradução livre). O manifesto foi assinado em jantar que contou com a presença de Stephen Hawking. Phillip Low, um dos neurocientistas que redigiu o manifesto, disse em entrevista à revista Veja (edição 2278, 18 jul. 2012): “É uma verdade inconveniente: sempre foi fácil afirmar que animais não têm consciência. Agora, temos um grupo de neurocientistas respeitados que estudam o fenômeno da consciência, o comportamento dos animais, a rede neural, a anatomia e a genética do cérebro. Não é mais possível dizer que não sabíamos”.

Outro grupo de pesquisas com resultados problemáticos para a manutenção de mamíferos em laboratórios vem das ciências que estudam a vida social dos animais, em seus ambientes selvagens. Animais são seres sociais; alguns, como os estudos em primatologia nos mostram, têm sua vida social pautada por dinâmicas políticas complexas, onde os indivíduos não apenas entendem suas relações de parentesco de forma sofisticada, mas também ocupam postos específicos em hierarquias sociais que podem ter quatro níveis de diferenciação. Estudos da Universidade de Princeton  com babuínos mostraram que fêmeas são capazes de induzir uma ruptura política no bando, o que resulta na formação de um novo grupo social. Há muitos outros animais que vivem em sociedades hierárquicas complexas, como os elefantes, por exemplo. Cães, gatos, coelhos e ratos são também, naturalmente, animais sociais, ainda que a complexidade de seus grupos não seja equiparável ao que se vê entre babuínos e elefantes.

Além disso tudo, está amplamente documentado que muitos primatas são capazes de inventar soluções tecnológicas para seus problemas cotidianos – criando ferramentas para quebrar cascas de sementes, por exemplo – e de transmitir o que foi inventado aos demais membros dos grupos; inclusive aos filhotes. Tecnicamente, isso significa que possuem cultura, isto é, vida simbólica. As baleias mudam o “estilo” de seu canto de um ano para o outro, sem que isso tenha causas estritamente biológicas. Segundo o filósofo e músico Bernd M. Scherer, não há como explicar a razão pela qual o canto de um pássaro seja estruturado pela repetição de uma sequência de sons de 1 ou 2 segundos, enquanto outros pássaros cantam em sequências muito mais longas, usando apenas as ideias de marcação de território e atração de fêmeas. Scherer, através de suas pesquisas (que incluem a interação musical, em estilo jazzístico, com pássaros e baleias), está convencido de que há uma dimensão estética presente no canto dos pássaros. Ele afirma, também, que grande parte dos pássaros precisa aprender a cantar, e não nasce com o canto completamente pré-definido geneticamente.

Não há razão para pensar que isso tudo não se aplique também às vacas, porcos e galinhas. Annie Potts, da Universidade de Canterbury, descreve no livro Animals and Society, de Margo DeMello (2012), sua observação da amizade de duas galinhas, Buffy e Mecki, no santuário de galinhas mantido pela pesquisadora. Em determinado momento, Buffy adoeceu, e sua saúde deteriorou-se a ponto de ela não poder mais sair de debaixo de um arbusto. Sua amiga Mecki manteve-se sentada ao seu lado, a despeito de toda a atividade das demais galinhas do santuário, bicando-a suavemente ao redor da face e em suas costas, enquanto emitia sons suaves. Quando Buffy finalmente morreu, Mecki retirou-se para dentro do galinheiro, e por determinado período recusou-se a comer e a acompanhar as outras galinhas em suas atividades. As galinhas são susceptíveis ao luto, conclui Potts.

Quanto mais se pesquisa a existência dos animais – especialmente aves e mamíferos -, mais se conclui que entre eles e nós há apenas diferenças de grau, e não de qualidade. Ambos temos consciência, inteligência, intencionalidade, inventividade, capacidade de improvisação e habilidade no uso de símbolos para a comunicação; ao que parece, os animais não-humanos fazem uso de tais capacidades de forma menos complexa que os humanos, e essa é toda a diferença. Vivemos o momento da descoberta de um admirável mundo novo animal. Nosso mundo tem muito mais subjetividades do que imaginávamos; talvez devêssemos parar de procurar inteligência em outros planetas e começar a olhar mais cuidadosamente ao nosso redor. O problema é que, quando o fazemos, o que vemos não é agradável. Se os animais têm a capacidade de serem sujeitos de suas próprias vidas, como apontam as evidências, ao impedir que o façam os humanos incorrem em ações, no mínimo, eticamente condenáveis.

Voltemos aos argumentos de defesa do uso de animais em laboratórios, citados no início desse texto. A maior parte das razões listadas se funda em razões utilitárias: “assim é mais eficaz; se fizermos de outra forma, perderemos eficiência”. Não se pode fundamentar uma discussão ética sobre pressupostos utilitaristas. Se assim não o fosse, seria aceitável matar um indivíduo saudável para salvar (através da doação de seus órgãos, por exemplo) outros cinco indivíduos doentes. O que boa parte dos cientistas não consegue enxergar é que se trata de um problema que não se resume à dimensão da técnica; trata-se de uma questão política (no sentido filosófico do termo, ou seja, que diz respeito ao problema existencial de seres vivos que coexistem em conflito de interesses).

Mas há outro elemento a pautar, silenciosamente, a lógica da produção científica: a competitividade mercadológica. Na academia, isso se manifesta através do produtivismo exacerbado, onde qualquer alteração metodológica que implique em redução de eficiência no ritmo de pesquisas e publicações encontra resistência. Em laboratórios privados, além da pressa imposta pela concorrência, há a pressão pela redução dos custos de pesquisa. É preciso avançar, a todo custo. Essa percepção do ritmo das coisas parece “natural”, mas não o é: os argumentos falam da colocação em risco das pesquisas que levarão à cura da AIDS ou da criação da vacina para a dengue, como se essas coisas já pré-existissem em algum lugar, e o seu tempo de “descoberta” fosse definido. Isso é uma ficção: não apenas científica, mas também política. As coisas não pré-existem, e o ritmo das coisas não tem nada de “natural”. O tempo é parte da política: é a sociedade quem deve escolher em qual ritmo deve seguir, e é absolutamente legítimo reduzir o ritmo dos avanços técnico-científicos, se as implicações morais para tais avanços forem inaceitáveis.

De todos os cientistas que se pronunciaram nos últimos dias, foi Sidarta Ribeiro, no Estadão do último domingo, o único que colocou, abertamente, o problema de os animais não serem coisas. Mas, para desânimo do leitor, e decepção dos que o admiram, como eu, suas conclusões caíram na vala comum do simplismo burocrático: o problema se resolveu com a criação do aparato burocrático de regulamentação do uso de animais, já mencionado anteriormente, no início desse texto. Ora, se os animais são seres dotados de intencionalidade, inteligência e afeto, e se a plenitude da sua existência depende de vida social complexa, a simples manutenção do seu organismo vivo e (supostamente) sem dor é suficiente para fazer com que eles “não sofram”? Sidarta coloca, de forma acertada, que é preciso atentar para o fato de que coisas muito piores ocorrem na indústria da carne, e também em muitas áreas da existência humana. Mas erra ao criar a impressão de que uma coisa existe em contraposição à outra (algo como “lutem pela humanização dos humanos desumanizados e deixem a ciência em paz”). Todas elas são parte do mesmo problema: a negação do direito a ser sujeito da própria vida. Uma atitude ética coerente implica a não diferenciação de espécie, considerando todos aqueles que efetivamente podem ser sujeitos da própria vida. O resto é escravidão, de animais humanos e não humanos.

Os protocolos de ética em pesquisa com sujeitos humanos foram desenvolvidos após a constatação dos horrores da experimentação médica nazista em judeus. Parece-me inevitável que, em algumas décadas, venhamos a pensar na experimentação com sujeitos-animais em laboratórios com o mesmo sentimento de indignação e horror.

Renzo Taddei é doutor em antropologia pela Universidade de Columbia. É professor da Universidade Federal de São Paulo.

 

An interview with Alan Greenspan (FT)

October 25, 2013 10:41 am

By Gillian Tett

Six years on from the start of the credit crisis, the former US Federal Reserve chairman is prepared to admit that he got it wrong – at least in part

Alan Greenspan©Stefan Ruiz

Acouple of years ago I bumped into Alan Greenspan, the former chairman of the US Federal Reserve, in the lofty surroundings of the Aspen Institute Ideas Festival. As we chatted, the sprightly octogenarian declared that he was becoming interested in social anthropology – and wanted to know what books to read.

“Anthropology?” I retorted, in utter amazement. It appeared to overturn everything I knew (and criticised) about the man. Greenspan, after all, was somebody who had trained as an ultraorthodox, free-market economist and was close to Ayn Rand, the radical libertarian novelist. He was (in) famous for his belief that the best way to run an economy was to rely on rational actors competing in open markets. As Fed chair, he seemed to worship mathematical models and disdain “soft” issues such as human culture.

But Greenspan was serious; he wanted to venture into new intellectual territory, he explained. And that reflected a far bigger personal quest. Between 1987 and 2006, when he led the Fed, Greenspan was highly respected. Such was his apparent mastery over markets – and success in delivering stable growth and low inflation – that Bob Woodward, the Washington pundit, famously described him as a “maestro”. Then the credit crisis erupted in 2007 and his reputation crumbled, with critics blaming him for the bubble. Greenspan denied any culpability. But in late 2008, he admitted to Congress that the crisis had exposed a “flaw” in his world view. He had always assumed that bankers would act in ways that would protect shareholders – in accordance with free-market capitalist theory – but this presumption turned out to be wrong.

In the months that followed, Greenspan started to question and explore many things – including the unfamiliar world of anthropology and psychology. Hence our encounter in Aspen.

Was this just a brief intellectual wobble, I wondered? A bid for sympathy from a man who had gone from hero to zero in investors’ eyes? Or was it possible that a former “maestro” of free markets could change his mind about how the world worked? And if so, what does that imply for the discipline of economics, let alone Greenspan’s successors in the policy making world – such as Janet Yellen, nominated as the new head of the Fed?

Earlier this month I finally got a chance to seek some answers when I stepped into a set of bland, wood-panelled offices in the heart of Washington. Ever since Greenspan left the imposing, marble-pillared Fed, this suite has been his nerve centre. He works out of a room dubbed the “Oval Office” due to its shape. It is surprisingly soulless: piles of paper sit on the windowsill next to a bust of Abraham Lincoln. One flash of colour comes from a lurid tropical beach scene that he has – somewhat surprisingly – installed as a screen saver.

“If you are not going to have numbers on your screen, you might as well have something nice to look at,” he laughs, spreading his large hands expansively in the air. Then, just in case I might think that he is tempted to slack off at the age of 87, he stresses that “I do play tennis twice a week – but my golf game is in the soup. I haven’t had time to get out.” Or, it seems, daydream on a beach. “I get so engaged when I have a problem you cannot solve, that I just cannot break away from what I am doing – I keep thinking and thinking and cannot stop.”

The task that has kept him so busy is his new book, The Map and the Territory,published this month and a successor to an earlier memoir, The Age of Turbulence.To the untrained eye, this title might seem baffling. But to Greenspan, the phrase is highly significant. For what his new manuscript essentially does is explain his intellectual journey since 2007. Most notably it shows why he now thinks that the “map” that he (and many others) once used to analyse finance is incomplete – and what this means for anyone wanting to navigate today’s economic “territory”.

Greenspan in the 'Oval Office' of his Washington workplace©Stefan RuizGreenspan in the ‘Oval Office’ of his Washington workplace

This is not quite the mea culpa that some people who are angry about the credit bubble would like to see. Greenspan is a man who built his career by convincing people that he was correct. Born in New York to a family of east European Jewish ancestry, he trained as an economist and, before he was appointed by Ronald Reagan to run the Fed, was an economic consultant on Wall Street (interspersed with a brief spell working for the Nixon administration). This background once made him lauded; today it seems more of a liability, at least in the eyes of the political left. “Before [2007] I was embarrassed by the adulation – they made me a rock star,” he says. “But I knew then that I was being praised for something I didn’t really do. So after, when I got hammered, it kind of balanced out, since I don’t think I deserved the criticism either … I am a human so I feel it but not as much as some.”

Yet in one respect, at least, Greenspan has had a change of heart: he no longer thinks that classic orthodox economics and mathematical models can explain everything. During the first six decades of his career, he thought – or hoped – that Homo economicus was a rational being and that algorithms could forecast behaviour. When he worked on Wall Street he loved creating models and when he subsequently joined the Fed he believed the US central bank was brilliantly good at this. “The Fed model was as advanced as you could possibly get it,” he recalls. “All the new concepts with every theoretical advance was embodied in that model – rational expectations, monetarism, all sorts of sophisticated means of thinking about how the economy worked. The Fed has 250 [economic] PhDs in that division and they are all very smart.”

And yet in September 2008, this pride was shattered when those venerated models suddenly stopped working. “The whole period upset my view of how the world worked – the models failed at a time when we needed them most … and the failure was uniform,” he recalls, shaking his head. “JPMorgan had the American economy accelerating three days before [the collapse of Lehman Brothers] – their model failed. The Fed model failed. The IMF model failed. I am sure the Goldman model also missed it too.

“So that left me asking myself what has happened? Are we living in an unreal world which has a model which is supposed to replicate the economy but gets caught out by one of the most extraordinary events in history?”

Shocked, Greenspan spent the subsequent months trying to answer his own question. He crunched and re-crunched his beloved algorithms, scoured the data and tested his ideas. It was not the first time he had engaged in intellectual soul-searching: in his youth he had once ascribed to intellectual positivism, until Rand, the libertarian, persuaded him those ideas were wrong. However, this was more radical. Greenspan was losing faith in “the presumption of neoclassical economics that people act in rational self-interest”. “To me it suddenly seemed that the whole idea of taking the maths as the basis of pricing that system failed. The whole structure of risk evaluation – what they call the ‘Harry Markowitz approach’ – failed,” he observes, referring to the influential US economist who is the father of modern portfolio management. “The rating agency failed completely and financial services regulation failed too.”

But if classic models were no longer infallible, were there alternative ways to forecast an economy? Greenspan delved into behavioural economics, anthropology and psychology, and the work of academics such as Daniel Kahneman. But those fields did not offer a magic wand. “Behavioural economics by itself gets you nowhere and the reason is that you cannot create a macro model based on just [that]. To their credit, behavioural economists don’t [even] claim they can,” he points out.

Alan Greenspan with Ayn Rand©GettyIn 1974 with friend and inspiration, the writer Ayn Rand

But as the months turned into years, Greenspan slowly developed a new intellectual framework. This essentially has two parts. The first half asserts that economic models still work in terms of predicting behaviour in the “real” economy: his reading of past data leaves him convinced that algorithms can capture trends in tangible items like inventories. “In the non-financial part of the system [rational economic theory] works very well,” he says. But money is another matter: “Finance is wholly different from the rest the economy.” More specifically, while markets sometimes behave in ways that models might predict, they can also become “irrational”, driven by animal spirits that defy maths.

Greenspan partly blames that on the human propensity to panic. “Fear is a far more dominant force in human behaviour than euphoria – I would never have expected that or given it a moment’s thought before but it shows up in the data in so many ways,” he says. “Once you get that skewing in [statistics from panic] it creates the fat tail.” The other crucial issue is what economists call “leverage” (more commonly dubbed “debt”). When debt in an economy is low, then finance is “neutral” in economic terms and can be explained by models, Greenspan believes. But when debt explodes, this creates fragility – and that panic. “The very nature of finance is that it cannot be profitable unless it is significantly leveraged … and as long as there is debt there can be failure and contagion.”

A cynic might complain that it is a pity Greenspan did not spot that “flaw” when he was running the Fed and leverage was exploding. He admits that he first saw how irrational finance could become as long ago as the 1950s and 1960s when he briefly tried, as a young New York economist, to trade commodity markets. Back then he thought he could predict cotton values “from the outside, looking at supply-demand forces”. But when he actually “bought a seat in the market and did a lot of trading” he discovered that rational logic did not always rule. “There were a couple of guys in that exchange who couldn’t tell a hide from copper sheeting but they made a lot of money. Why? They weren’t trading a commodity but human nature … and there is something about human nature which is not rational.”

Half-a-century later, when Greenspan was running the Fed, he had seemingly come to assume that markets would always “self-correct”, in a logical manner. Thus he did not see any reason to prick bubbles or control excessive exuberance by government fiat. “If bubbles are not leveraged, they can be highly disruptive to the wealth of people who own assets but there are not really any secondary consequences,” he explains, pointing out that the stock market bubble of the late 1980s and tech bubble of the late 1990s both deflated – without real economic damage. “It is only when you have leverage that a collapse in values becomes so contagious.”

Of course, the tragedy of the noughties credit bubble was that this bout of exuberance – unlike 1987 or 2001 – did involve leverage on a massive scale. Greenspan, for his part, denies any direct culpability for this. Though critics have carped that he cut rates in 2001, and thus created easy money, he points out that from 2003 onwards the Fed, and other central banks, were diligently raising interest rates. But even “when we raised [official] rates, long-term rates went down – bond prices were very high”, he argues, blaming this “conundrum” on the fact that countries such as China were experiencing “a huge increase in savings, all of which spilled into the developed world and the global bond market at that time”. But whatever the source of this leverage, one thing is clear: Greenspan, like his critics, now agrees that this tidal wave of debt meant that classic economic theory became impotent to forecast how finance would behave. “We have a system of finance which is far too leveraged – [the models] cannot work in this context.”

So what does that mean for institutions such as the Fed? When I arrived to interview Greenspan, the television screens were filled with the face of Yellen. What advice would he give her? Should she rip up all the Fed’s sophisticated models? Hire psychologists or anthropologists instead?

Alan Greenspan with former US President George W. Bush©Chuck KennedyMay 2004. Greenspan is nominated as Fed chairman for an unprecedented fifth term by President George W. Bush

For the first time during our two-hour conversation, Greenspan looks nonplussed. “It never entered my mind – it’s almost too presumptuous of me to say. I haven’t thought about it.” Really? I press him. He shakes his head vigorously. And then he slides into diplomatic niceties. One unspoken, albeit binding, rule of central banking is that the current and former incumbents of the top jobs never criticise each other in public. “Yellen is a great economist, a wonderful person,” he insists.

But tact cannot entirely mask Greenspan’s deep concern that six years after the leverage-fuelled crisis, there is even more debt in the global financial system and even easier money due to quantitative easing. And later he admits that the Fed faces a “brutal” challenge in finding a smooth exit path. “I have preferences for rates which are significantly above where they are,” he observes, admitting that he would “hardly” be tempted to buy long-term bonds at their current rates. “I run my own portfolio and I am not long [ie holding] 30-year bonds.”

But even if Greenspan is wary of criticising quantitative easing, he is more articulate about banking. Most notably, he is increasingly alarmed about the monstrous size of the debt-fuelled western money machine. “There is a very tricky problem we don’t know how to solve or even talk about, which is an inexorable rise in the ratio of finance and financial insurance as a ratio of gross domestic income,” he says. “In the 1940s it was 2 per cent of GDP – now it is up to 8 per cent. But it is a phenomenon not indigenous to the US – it is everywhere.

“You would expect that with the 2008 crisis, the share of finance in the economy would go down – and it did go down for a while. But then it bounced back despite the fact that finance was held in such terrible repute! So you have to ask: why are the non-financial parts of the economy buying these services? Honestly, I don’t know the answer.”

What also worries Greenspan is that this swelling size has gone hand in hand with rising complexity – and opacity. He now admits that even (or especially) when he was Fed chairman, he struggled to track the development of complex instruments during the credit bubble. “I am not a neophyte – I have been trading derivatives and things and I am a fairly good mathematician,” he observes. “But when I was sitting there at the Fed, I would say, ‘Does anyone know what is going on?’ And the answer was, ‘Only in part’. I would ask someone about synthetic derivatives, say, and I would get detailed analysis. But I couldn’t tell what was really happening.”

This last admission will undoubtedly infuriate critics. Back in 2005 and 2006, Greenspan never acknowledged this uncertainty. On the contrary, he kept insisting that financial innovation was beneficial and fought efforts by other regulators to rein in the more creative credit products emerging from Wall Street. Even today he remains wary of government control; he does not want to impose excessive controls on derivatives, for example.

But what has changed is that he now believes banks should be forced to hold much thicker capital cushions. More surprising, he has come to the conclusion that banks need to be smaller. “I am not in favour of breaking up the banks but if we now have such trouble liquidating them I would very reluctantly say we would be better off breaking up the banks.” He also thinks that finance as a whole needs to be cut down in size. “Is it essential that the division of labour [in our economy] requires an ever increasing amount of financial insight? We need to make sure that the services that non-financial services buy are not just ersatz or waste,” he observes with a wry chuckle.

Alan Greenspan with wife Andrea Mitchell©GettyIn 2004 with wife Andrea Mitchell

There is a profound irony here. In some senses, Greenspan remains an orthodox pillar of ultraconservative American thought: The Map and the Territory rails against fiscal irresponsibility, the swelling social security budget and the entitlement culture. And yet he, like his leftwing critics, now seems utterly disenchanted with Wall Street and the extremities of free-market finance – never mind that he championed them for so many years.

Perhaps this just reflects an 87-year-old man who is trying to make sense of the extreme swings in his reputation. I prefer to think, though, that it reflects a mind that – to his credit – remains profoundly curious, even after suffering this rollercoaster ride. When I say to him that I greatly admire his spirit of inquiry – even though I disagree with some conclusions – he immediately peppers me with questions. “Tell me what you disagree with – please. I really want to hear,” he insists, with a smile that creases his craggy face. As someone who never had children, his books now appear to be his real babies; the only other subject which inspires as much passion is when I mention his adored second wife, Andrea Mitchell, the television journalist.

But later, after I have left, it occurs to me that the real key to explaining the ironies and contradictions that hang over Greenspan is that he has – once again – unwittingly become a potent symbol of an age. Back in the days of the “Great Moderation” – the period of reduced economic volatility starting in the 1980s – most policy makers shared his sunny confidence in 20th-century progress. There was a widespread assumption that a mixture of free market capitalism, innovation and globalisation had made the world a better place. Indeed, it was this very confidence that laid the seeds of disaster. Today, however, that certainty has crumbled; the modern political and economic ecosystem is marked by a culture of doubt and cynicism. Nobody would dare call Yellen “maestro” today; not when the Fed (and others) are tipping into such uncharted territory. This delivers some benefits: Greenspan himself now admits this pre-2007 confidence was an Achilles heel. “Beware of success in policy,” he observes, laughing. “A stable, moderately growing, non-inflationary environment will create a bubble 100 per cent of the time.”

But a world marked by profound uncertainty is also a deeply disconcerting and humbling place. Today there are no easy answers or straightforward heroes or villains, be that among economists, anthropologists or anyone else. Perhaps the biggest moral of The Map and the Territory is that in a shifting landscape, we all need to keep challenging our assumptions and prejudices. And not just at the age of 87.

gillian.tett@ft.com; ‘The Map and the Territory: Risk, Human Nature, and the Future of Forecasting‘ by Alan Greenspan is published by Penguin.

 

Secretária-executiva de painel da ONU chora ao falar sobre mudanças climáticas (O Globo)

23 de outubro de 2013

Christiana Figueres, chefe do IPCC, ficou emocionada ao falar sobre impacto das alterações nas futuras gerações em conferência em Londres

Secretária-executiva do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC), a costa-riquenha Christiana Figueres fez uma defesa apaixonada das negociações em torno de um novo acordo global para combater o problema em conferência nesta segunda-feira em Londres. Em seu discurso durante o evento, Figueres reclamou da lentidão nas conversas, mas mostrou-se otimista quanto à possibilidade de em 2015 ser assinado um acerto que obrigue o cumprimento de metas de redução da emissão de gases do efeito estufa pelos principais países poluidores do mundo a partir de 2020.

– Sempre fico frustrada com o ritmo das negociações, nasci impaciente – disse Figueres. – Estamos avançando muito, muito devagar, mas estamos indo na direção certa e é isso que me dá coragem e esperança.

E Figueres manteve o tom apaixonado depois do discurso. Abordada por um repórter da rede britânica de TV BBC, que lhe perguntou sobre o impacto das mudanças climáticas, ela ficou emocionada e chegou a chorar.

– Estou comprometida com (a luta contra) as mudanças climáticas por causa das futuras gerações e não por nós, certo? Nós estamos partindo daqui – disse. – Simplesmente sinto que é totalmente injusto e imoral o que estamos fazendo com as futuras gerações. Estamos condenando elas antes mesmo de elas nascerem. Mas temos uma escolha sobre isso, esta é a questão, temos uma escolha. Se (as mudanças climáticas) forem inevitáveis, então que sejam, mas temos a escolha de tentar mudar o futuro que vamos dar às nossas crianças.

(O Globo)

http://oglobo.globo.com/ciencia/secretaria-executiva-de-painel-da-onu-chora-ao-falar-sobre-mudancas-climaticas-10488256#ixzz2iYDyHz8N

Explosive Dynamic Behavior On Twitter and in the Financial Market (Science Daily)

Oct. 7, 2013 — Over the past 10 years, social media has changed the way that people influence each other. By analysing data from the social networking service, Twitter, and stock trading in the financial market, researchers from the Niels Bohr Institute have shown that events in society bring rise to common behaviour among large groups of people who do not otherwise know each other The analysis shows that there are common features in user activity on Twitter and in stock market transactions in the financial market.

The results are published in the scientific journal, PNAS, Proceedings of the National Academy of Sciences.

The figure shows how often the international brands IBM, Pepsi and Toyota have been mentioned during a five-week period on Twitter. The activity is during long periods relatively steady and is then interrupted by sudden activity spikes. The research from NBI shows that there are common features in user activity on Twitter and in stock market transactions in the financial market. (Credit: Niels Bohr Institute)

“The whole idea of the study is to understand how social networks function. The strength of using the popular social media, Twitter, is that they are more than 200 million users worldwide, who write short messages about immediate experiences and impressions. This means that you can directly study human behaviour in crowds on the web. Twitter can be seen as a global social sensor,” explains Joachim Mathiesen, Associate Professor of physics at the Niels Bohr Institute at the University of Copenhagen.

Dynamic Twitter behaviour

Joachim Mathiesen developed a programme that could follow the use of Twitter constantly. He could see that there were periods with relatively steady activity and then there would be a very abrupt and intense upswing in activity. Suddenly there was an event that everyone had to respond to and there was an explosion in the amount of online activity.

“There arises a collective behaviour between people who otherwise do not know each other, but who are coupled together via events in society,” explains Joachim Mathiesen.

The analysis also took into account how frequently approximately 100 international brands, like Pepsi, IBM, Apple, Nokia, Toyota, etc. occurred in messages on Twitter. Here too, the level is characterised by days of steady activity, which is interrupted by sudden, but brief explosions of activity.

“Something happens that encourages people to write on Twitter, and suddenly the activity explodes. This is a kind of horde behaviour that is driven by an external even and gets crowds to react,” says Joachim Mathiesen.

But why is a physicist concerning himself with social behaviour?

“As physicists, we are good at understanding large amounts of complex data and we can create systems in this sea of coincidences. Complex systems are seen in many contexts and are simply learning about human behaviour in large social groups,” he explains.

The model calculations shed light on the statistical properties of large-scale user activity on Twitter and the underlying contexts. Similarly, he analysed the fluctuations in the activity of trading shares on the financial market.

“We saw prolonged intervals with steady activity, after which there was sudden and almost earthquake like activity. An even starts an avalanche in the trading. Statistically, we see the same characteristic horde behaviour in the financial markets as we do on Twitter, so the two social systems are not that different,” concludes Joachim Mathiesen.

Journal Reference:

  1. J. Mathiesen, L. Angheluta, P. T. H. Ahlgren, M. H. Jensen.Excitable human dynamics driven by extrinsic events in massive communitiesProceedings of the National Academy of Sciences, 2013; DOI: 10.1073/pnas.1304179110

Politics and Perceptions: Social Media, Politics Collide in New Study (Science Daily)

Oct. 8, 2013 — It bothered Lindsay Hoffman and colleagues to see other researchers making broad yet vague claims about the role social media plays in political participation.

So they decided to study it.

In a paper to be published in November in the journal Computers in Human Behavior, the University of Delaware associate professor in the departments of Communication and of Political Science and International Relations and her co-authors explored how people perceive their own political behaviors online. It is part of a larger goal to better understand why people engage in politics both on- and offline.

The study is titled “Does My Comment Count? Perceptions of Political Participation in an Online Environment.” Dannagal Young, associate professor of communication, and Philip Jones, associate professor of political science and international relations, teamed up with Hoffman for the study.

It was built around the question of whether, when people engage in political behavior online — “liking” a candidate’s Facebook page, tweeting their thoughts about a political platform, signing a virtual petition — they see their activities as having influence on the functions of government (participation) or as communication with others.

“A lot of people in the 2008 elections were participating on Facebook and on blogs,” Hoffman said (Twitter didn’t play as strong a role then). .” .. We were interested in which is participatory and which is seen as communication.”

Hoffman said many claims had been made about the substantial role social media has played in mobilizing people to become more politically active. Some also believe online political engagement is replacing traditional, offline forms of political behavior, prompting people to play a less active role when it comes to activities like voting.

But without a way to define how people perceived what they were doing when they engaged in politics online, Hoffman and her co-authors were skeptical.

The UD researchers relied on a survey of roughly 1,000 randomly selected American adults to assess what people were doing politically on- and offline, what they had done in the past, to what extent they thought their activities were a good way to influence the government and to what extent they thought their actions were a good way to communicate with others.

The survey, which was completed in the summer of 2010, focused on 11 political behaviors, including voting in an election, communicating online about politics, signing up for online political information, friending or “liking” a candidate or politician and putting up a yard sign or wearing a political shirt.

The work led the researchers to conclude people have a realistic notion of what they are doing when they engage in politics online.

“People are more savvy than we think they are,” Hoffman said. “They viewed every type of behavior mentioned except voting as communication.”

People in the study perceived their on- and offline behaviors as playing different political roles. They seemed not to be replacing traditional, offline political engagement with online behaviors, Hoffman and her co-authors found.

“They are not duped into thinking they can influence government or take a hands-off approach” just by being involved online, she said.

Those in the study who reported being more confident in government and their ability to have an impact were even more motivated to engage in online political activities when they perceived it as communication, the study also found.

“If people see it as communication, they are more likely to participate,” Hoffman said. “Communication is a key cornerstone in political involvement.”

This study was one of the first funded through a $50,000 Innovations through Collaborations Grant awarded by the College of Arts and Sciences’ Interdisciplinary Humanities Research Center, which supports cross-disciplinary work.

Hoffman first met Jones in 2009, when he joined the University. They discovered they shared academic interests, and the grant helped bring their ideas together. The collaboration between the three researchers also resulted in a second publication examining the impact of candidate emotion on political participation. That studied was published online in the journal New Media and Society in December 2012.

“It was the summer of 2010 when we did the online survey asking about how people participate in politics online,” said Hoffman. “There were a lot of high emotions, the tea party was forming, and we wondered how that might impact certain types of political behaviors.”

The study worked toward filling a void in the literature, where few have looked at the effect a candidate’s emotions — like anger, anxiety and hopefulness — have on how people engage in politics. It also challenged the notion that emotional candidates sway voters, particularly those least involved or least knowledgeable about politics.

The researchers found that the online emotional appeal of a candidate did not influence a person’s likelihood of participating on that candidate’s behalf, unless that person was already highly engaged and knowledgeable. The particular emotion expressed was unimportant.

Hoffman is pleased the collaboration with Young and Jones proved so fruitful.

“You hope for the best: to have good data and results that are interesting and compelling,” said Hoffman. “I am really proud of our collaborations.”

Journal Reference:

  1. Lindsay H. Hoffman, Philip Edward Jones, Dannagal Goldthwaite Young. Does my comment count? Perceptions of political participation in an online environmentComputers in Human Behavior, 2013; 29 (6): 2248 DOI: 10.1016/j.chb.2013.05.010

Contra o mugido das vacas, por José Ribamar Bessa Freire (Racismo Ambiental)

Por , 06/10/2013 06:26

Guarani no monumento SP

Em Taqui Pra Ti

No momento em que a Constituição Federal comemora 25 anos de existência, se ouve o mugido das vacas, o relincho dos cavalos e o trote das mulas que invadem o plenário do Congresso Nacional e se misturam ao zumbido estridente da moto serra. É possível sentir o bufo agressivo que sai em jatos de ar pelas narinas de parlamentares. Essa é a voz da bancada ruralista formada por 214 deputados e 14 senadores, que querem anular os direitos constitucionais dos índios. Seus “argumentos” são relinchos, bater de cascos, coices no ar e, por isso, não conseguem convencer os brasileiros.

Nas principais cidades do país ocorreram manifestações contra esta ofensiva do agronegócio. Nesta semana, a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) organizou Mobilização Nacional em defesa dos direitos indígenas. A parte sadia do país disse um rotundo “não” ao pacote de dezenas de Projetos de Emenda Constitucional (PEC) ou Projetos de Lei Complementar (PLP) que tramitam no Congresso apresentados pela bancada ruralista e pela bancada da mineração.

Esses parlamentares querem exterminar as culturas indígenas não por serem gratuitamente malvados, perversos e cruéis, mas porque pretendem abocanhar as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios. Para ampliar a oferta de terras ao agronegócio, lançam ofensiva destinada a mudar até cláusulas pétreas da Constituição. Exibem despudoradamente seus planos em discursos e através da mídia como os artigos na Folha de São Paulo da senadora Kátia Abreu (PSD-TO vixe, vixe), a muuuusa da bancada ruralista e do deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS vixe vixe).

Causa inconfessável

Quase todos os parlamentares da bancada ruralista tiveram suas campanhas financiadas por empresas de capital estrangeiro como Monsanto, Cargill e Syngente, além da indústria de armas e frigorífico, conforme dados da Transparência Brasil. Afinal, é disso que eles vivem, dessa promiscuidade com o capital estrangeiro, sem o qual não poderiam exportar e comprar produtos. Querem agora liberar as terras indígenas para grandes empresas brasileiras e estrangeiras plantarem monoculturas com agrotóxicos, construir barragens no rios e extrair minérios para a exportação.

No entanto, os ruralistas não podem confessar aos eleitores que seu objetivo é o lucro, apenas o lucro, nada mais que o lucro. Inventam, então, que estão defendendo “os interesses nacionais” e classificam como “anti-Brasil” os que não concordam com eles. Essa é uma velha tática, usada no século XIX, quando o agronegócio da época acusava os que defendiam a abolição dos escravos de representarem interesses estrangeiros. Trata-se de ganhar para uma causa indefensável os brasileiros crédulos que amam sua Pátria. Aí exploram o nacionalismo e apostam na desinformação.

No artigo com título sugestivo – “Causa Inconfessável” – a senadora Kátia Abreu tenta desqualificar os índios e seus aliados com uma argumentação esdrúxula. Sem citar fontes, sem dizer de onde tirou a informação, ela jura que “são mais de 100 mil ONGs, a maioria estrangeira, associadas a dois organismos ligados à Igreja Católica: o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra)”.

E por que cargas d’água milhares de ONGs estrangeiras defenderiam as terras indígenas? Na maior cara de pau, ofendendo a inteligência do leitor, a senadora Kátia Abreu, ousa dizer que elas querem destruir a agricultura brasileira. Comete um erro vergonhoso para uma parlamentar ao confundir nação com estado. Exibe sua ignorância deixando no chinelo o Tiririca:

Os financiadores são países que competem com a agricultura brasileira e que cobiçam nossas riquezas minerais e vegetais. São os mesmos que, reiteradamente, defendem que essa parte do território nacional deve ser cedida, e os brasileiros índios, transformados em nações independentes da ONU”.

Tudo nebuloso, deseducativo, desinformativo. A senadora não dá nomes nem aos bois nem às vacas, não diz quais são esses países, não diz quem quer decepar os territórios indígenas do Brasil e omite que as terras indígenas pertencem, constitucionalmente, à União e não aos índios. A “causa” dos ruralistas é, realmente, “inconfessável”: cada vez que uma medida prejudica seus lucros, dizem que “é ruim para o Brasil”, quando favorece “é bom para o Brasil”. O Brasil é a conta bancária deles. Sem confessar a origem dos recursos que financiam os ruralistas, a senadora faz dos índios um tábua de tiro ao alvo:

“É do mais alto interesse nacional – sobretudo do interesse dos próprios índios – saber quando, de onde vêm e como são gastos os millhões de dólares que sustentam a ação deletéria dessas organizações, que fazem dos índios escudos humanos de uma causa inconfessável”.

Cavaleira da desesperança

“É hora de defender o Brasil” berra o deputado Luis Carlos Heinze no título de seu artigo (3/10), que reproduz o mesmo papo furado, a mesma lenga-lenga, excluindo os índios da comunhão nacional. Ataca a FUNAI – Fundação Nacional do Índio – por identificar “pretensas terras indígenas” contra os ruralistas que ele diz serem “os legítimos detentores de terras”. E faz eternas juras de que está defendendo a pátria ameaçada por índios e por ONGs.

Nunca foi tão apropriada a conhecida frase do escritor inglês do século XVIII, Samuel Johnson, aclimatada por Millor Fernandes, no século XX, ao nosso contexto: “O patriotismo é o último refúgio dos canalhas” – escreveu Johnson. “No Brasil, é o primeiro”, acrescentou Millor.

A senadora, que se diz católica, bate na mesma tecla. Escreve que os defensores dos direitos indígenas “exercem notória militância política, de cunho ideológico, sob a inspiração da Teologia da Libertação, de fundo marxista”. Está zangada com a Igreja, que ela quer defendendo os interesses dos ruralistas e não dos despossuídos, dos injustiçados, dos espoliados. Esculhamba ainda com a FUNAI “aparelhada por antropólogos que compartilham a mesma ideologia“.

Mas não se limita aí a cavaleira da desesperança. De arma em riste, ataca outros “inimigos”. Ela está convencida de que “além das ONGs e das instituições como o CIMI e a CPT, há dois órgãos voltados para a defesa dos índios: a já citada Funai e a FUNASA, incumbida da saúde e da ação sanitária nas tribos”. Kátia é do tempo em que ainda se dizia que índios vivem em tribos.

“Seriam as terras destinadas à agricultura a causa do sofrimento dos índios?” – pergunta em seu artigo. E ela mesma responde: “Quem quiser que tire suas conclusões: os índios brasileiros dispõem de extensão de terra de dar inveja a muitos países”. Se um país que é um país sente inveja, imaginem os ruralistas. Por isso, a voz dela, que é a mais estridente  no Senado clama:

– Os índios não precisam de terra e sim de assistência social.

Ela chama de “invasão” a resistência dos índios em não permitir que seus territórios sejam apropriados pelo agronegócio e anuncia:

“Para reagir ao avanço dessas invasões, apresentei ao Senado projeto de lei que suspende processos demarcatórios de terras indígenas sobre propriedades invadidas pelos dois anos seguintes à sua desocupação”.

Guarani na paulista

Foi contra essas medidas do agronegócio e contra esses argumentos preconceituosos e retrógrados que manifestantes se insurgiram em manifestações pacíficas realizadas em Brasília, no Rio, em Belo Horizonte e nas principais cidades brasileiras.  Em São Paulo, a manifestação foi aberta pelos txondaro guarani e contou com a adesão de muitos antropólogos, estudantes, professores.

As imagens da manifestação em São Paulo foram registradas e editadas por Marcos Wesley de Oliveira para o Instituto Socioambiental. Em plena Avenida Paulista, ele entrevistou lideranças indígenas – Megaron Txucarramãe (kayapó), Renato Silva (guarani), Natan Gacán (xokleng), antropólogos – Manuela Carneiro da Cunha e Márcio Silva (USP), Maria Elisa Ladeira (CTI), Lúcia Helena Rangel (PUC/SP), Beto Ricardo (ISA) e os líderes quilombolas do Vale da Ribeira – Nilce Pereira e Ditão.

– Vocês não estão sozinhos – disse a mestranda em Antropologia, Ana Maria Antunes Machado, se dirigindo aos Yanomami, enquanto apontava os manifestantes da Avenida Paulista. Ela falou com bastante fluência em língua Yanomami, pois viveu com eles, com quem trabalhou mais de cinco anos como assessora pedagógica, antes de atuar no Observatório de Educação Indígena coordenado pela pesquisadora Ana Gomes (UFMG). O fato tem forte carga simbólica, por se tratar de alguém tão brasileira quanto a Katia Abreu, mas que, para ouvir os índios e com eles dialogar, aprendeu a língua Yanomami e foi capaz de reverenciá-los.

Exploração de gás de xisto no Oeste baiano pode causar desastre ambiental sem precedentes (O Expresso)

01/09/2013 

Se confirmada a ocorrência de gás de xisto na grande área do Aquífero Urucuia e usada técnica norte-americana de extração, poderemos contaminar para sempre a água que bebemos e que usamos para irrigar alimentos. Seremos ricos em petróleo e gás e importaremos água para beber de outros estados. A população das chapadas e, de quase toda a Bahia onde existem reservas de xisto, precisa se engajar nesta luta para obstruir o possível uso da técnica de fratura hidráulica na extração do gás. O poço de prospecção instalado na Fazenda Vitória ( veja a foto abaixo), a apenas 10 km de Luís Eduardo Magalhães, é apenas o início do grande licenciamento que a ANP quer realizar, em outubro, em todo o País.

poço

Conforme o Expresso adiantou em 15 de maio está começando, na Fazenda Vitória, a 10 km do centro de Luís Eduardo Magalhães, a instalação de um poço exploratório de gás e petróleo em Luís Eduardo Magalhães. Na internet, ambientalistas já começam a se manifestar sobre o desastre eminente, caso venha a ser encontrado o gás de xisto e usado o processo de hidro-fragmentação, fratura hidráulica ou fracking para a coleta do gás, técnica desenvolvida nos Estados Unidos, que já causa um enorme passivo ambiental. Segundo relatórios de ambientalistas americanos, o processo leva à poluição de lençóis freáticos profundos e a água utilizada para o processo de retirada do gás retorna ao solo altamente poluída, com resquícios de petróleo. Tanto que a maioria dos estados americanos hesita em liberar a exploração do xisto betuminoso pelo processo de fragmentação.

O gás de xisto, também conhecido como shale gás ou gás não convencional, é encontrado em formações sedimentares de baixa permeabilidade e fica aprisionado, característica que por muito tempo inviabilizou sua extração, visto que não havia tecnologia capaz de retirá-lo de dentro das formações de xisto.

Esse paradigma foi quebrado com a técnica de perfuração horizontal dos poços e o advento do fraturamento hidráulico. Processo esse que consiste em bombear, sob alta pressão, uma mistura de água e areia junto com outros produtos químicos no poço a fim de fraturar as formações de xisto, permitindo a liberação do gás.

Nesta sexta, procuramos a assessoria de Comunicação da Petrobrás, no Rio de Janeiro, que indicou a assessoria de Salvador. Que depois de umas 3 horas de silêncio indicou a assessoria de comunicação da ANP, “por ser área exploratória”. A assessoria da ANP não respondeu aos nossos questionamentos, via email, e certamente não irá responder nos próximos dias.

O Aquífero Urucuia em perigo

O Aquífero Urucuia, sobre o qual está sendo montado o poço exploratório de Luís Eduardo Magalhães, distribui-se pelos estados da Bahia, Tocantins, Minas Gerais, Piauí, Maranhão e Goiás, onde ocupa uma área estimada de 120.000 km2. Deste total, cerca de 75-80% estão encravados na região oeste do Estado da Bahia. Em alguns locais, o grande mar subterrâneo de água doce e pura, tem espessura ou altura de até 400 metros. Se a exploração usar efetivamente o processo de hidro-fragmentação, o Aquífero estará definitivamente comprometido.

Em palavras mais sérias: em pouco tempo estaremos bebendo água com acentuado gosto de petróleo. E as águas das veredas, em ponto de afloramento de gás, se incendiarão ao contato de uma chama.

Veja o que diz o site Carbono Brasil 

A fratura hidráulica, ou fracking, processo que consiste na utilização de água sob altíssima pressão para extração de gás xisto, está trazendo diversos problemas ambientais para os Estados Unidos, obtendo a oposição de diversos grupos ambientalistas e da sociedade civil.

Nesta terça-feira (28), foi publicado um estudo do Serviço Geológico dos EUA e do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA que afirma que os fluidos que vazam do processo estão causando a morte de diversas espécies aquáticas na região de Acorn Fork, no estado do Kentucky.

Segundo a pesquisa, os fluidos da fratura hidráulica prejudicam a qualidade da água a ponto de os peixes desenvolverem lesões nas guelras e sofrerem danos no fígado e no baço. O fracking também fez com que o pH da água diminuísse de 7,5 para 5,6, o que significa que água se tornou mais ácida.

Além disso, o processo aumentou a condutividade da água de 200 para 35 mil microsiemens por centímetro, devido aos níveis elevados de metais como ferro, alumínio e outros elementos dissolvidos na água.

Na Califórnia, um desastre

No estado da Califórnia, o fracking também está trazendo transtorno à população. Tanto que uma coalizão de 100 grupos ambientalistas e da sociedade civil acusa a legislação do processo, recém aprovada pelo Senado norte-americano, de ser muito fraca, e pede para que o governador californiano Jerry Brown suspenda a prática imediatamente.“

A verdade é que não há forma comprovada de proteger a Califórnia do fracking além de proibir essa prática inerentemente perigosa”, escreveram os grupos em uma carta enviada a Brown. De acordo com eles, o conjunto de leis “permitiria que as operações de fracking poluíssem permanentemente grandes quantidades da preciosa água da Califórnia.”

Contudo, o governador acredita que, se feito com segurança, o processo pode trazer grandes ganhos econômicos para o estado. “Tenho que equilibrar meu forte compromisso de lidar com as mudanças climáticas e as energias renováveis com o que pode ser uma oportunidade econômica fabulosa”, colocou ele. Ainda assim, Brown não tomou uma posição pública sobre o projeto de lei.

Uma visão gráfica de como se procede a fratura do solo. Na verdade, os lagos subterrâneos não são como aparecem na imagem. A água está diluída dentro do arenito, que a absorve como uma esponja.

Uma visão gráfica de como se procede a fratura do solo. Na verdade, os lagos subterrâneos não são como aparecem na imagem. A água está diluída dentro do arenito, que a absorve como uma esponja.

Blairo Maggi e ANP

O senador Blairo Maggi, em audiência pública, realizada nesta terça-feira, 27, na Comissão de Meio Ambiente do Senado, já interpelou a ANP sobre a exploração do gás de xisto.

Diz o Senador:

“Acreditando nessas novas tecnologias, o Brasil está prestes a começar a exploração do gás de xisto. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) marcou para novembro o primeiro leilão de blocos de gás. No entanto, no país a tal exploração ainda está longe de ser consenso no que diz respeito a custo benefício”

“Primeiro é preciso ter certeza da viabilidade econômica da exploração do gás de xisto, já que o sucesso nos Estados Unidos foi resultado de um forte programa governamental, com muitos incentivos. As condições objetivas, incluindo tecnologia, infraestrutura de transporte, mercado consumidor e impactos ambientais, para exploração e consumo no Brasil, recomendam cautela”, alertou o senador.

O Chefe de Gabinete da ANP, Sílvio Jablonski, explicou que o gás não convencional não é uma realidade imediata para o Brasil, mas sim, uma perspectiva para os próximos 10 anos, isso caso se confirmem as possíveis reservas de xisto.

Pontos de divergências

Impactos ambientais e contaminação de lençóis freáticos são fontes constantes de atritos entre ambientalistas, governos e empresas de exploração de gás e petróleo. Blairo Maggi lembrou que no Brasil duas das maiores concentrações do xisto estão sob grandes reservas de água. Uma na Bacia do Parecis onde se formam as bacias hidrográficas Amazônica e Platina, e outra, sob o Aquífero do Guarani.

Para o secretário-executivo de exploração e produção do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Antônio Guimarães, não há risco de contaminação das águas, uma vez que os poços de exploração devem ser feitos a uma profundidade de três mil metros e que seria quase impossível os fluídos do gás escaparem para a superfície.

“A engenharia é fundamental na construção dos poços para a proteção dos lençóis freáticos. As normas da ANP são bastante restritivas, a fiscalização é rígida e as multas são pesadas para qualquer descumprimentoPreservação, engajamento e apoio das comunidades devem ser o foco para o sucesso dessa exploração”, afirmou o secretário.

No entanto, o senador Blairo Maggi frisou que, apesar do Brasil não poder desconsiderar uma fonte de energia dessa magnitude, não se pode da mesma forma ignorar a inexistência de estudos científicos que comprovem a segurança dessa exploração. E, lembrou que o mundo, hoje, está voltado para a busca de energia limpa.

“É preciso antes comprovar que a exploração do gás de xisto será satisfatória principalmente à população, ao meio ambiente e ao Brasil como um todo. Por isso, estamos trazendo à Comissão, técnicos especializados no assunto para dirimir todas as dúvidas e debater o tema. Na próxima rodada vamos convidar os órgãos ambientais e ONG’s que atuam nessa área”, informou o senador.

O mapa do Aquífero Urucuia, 120 mil km² de água subterrânea contínua, ao lado de outros grandes aquíferos do Oeste baiano

O mapa do Aquífero Urucuia, 120 mil km² de água subterrânea contínua, ao lado de outros grandes aquíferos do Oeste baiano

Ahead of IPCC report, fossil-fuel groups organize climate denial campaign (Grist)

By , 20 Sep 2013 11:38 AM

tiny man, huge megaphone
Shutterstock
If only they would shut up.

Watch out: A tsunami of stupidity is due to crash over the world next Friday.

That’s when the Intergovernmental Panel on Climate Change will release a summary of its big new climate assessment report, the first since 2007. But that’s not the stupid part.

A global campaign funded by fossil-fuel interests has been steadily building to discredit the report. That’s where the stupidity comes in. From The Guardian:

Organisations that dismiss the science behind climate change and oppose curbs on greenhouse gas pollution have made a big push to cloud the release of the IPCC report, the result of six years of work by hundreds of scientists.

Those efforts this week extended to promoting the fiction of a recovery in the decline of Arctic sea ice.

The IPCC assessments, produced every six or seven years, are seen as the definitive report on climate change, incorporating the key findings from some 9,000 articles published in scientific journals.

Climate deniers are pushing their messages out through blogs as well as old-fashioned outlets like the Daily MailFrom Skeptical Science:

Like the way a picnic on a sunny afternoon in August tends to attract lots of annoying wasps, major events on the climate change timeline tend to see certain contrarian figures and organisations dialling up the rhetorical output.

This is frustrating yet it has over the years become quite predictable: arguing with some climate change contrarians is similar to attempting debate with a well-trained parrot. Imagine: the parrot has memorised some twenty statements that it can squawk out at random. Thus it will follow up on ‘no warming since 1997′ with ‘in the 1970s they said there’d be an ice-age’ and so on. Another piece in the UK-based Daily Mail’s Sunday edition of September 8th 2013, written by a figure familiar to Skeptical Science readers, Mail and Vanity Fair journalist David Rose, gives a classic example of such parroting. There’s another in the UK’s Daily Telegraph along remarkably similar lines (it could even be the same parrot).

Meanwhile, the Koch-funded Heartland Institute has already published a compilation of lies in its own preemptive report. Its “experts” are so desperate to get their climate-denying messages out that they would probably turn up at your kid’s birthday party if you asked them nicely enough.

The news here is predictable but not terrible. Scientists and activists are doing better jobs of organizing communication strategies in the face of anti-science blather. From Inside Climate News:

Dozens of prominent scientists involved with drafting IPCC reports formed a Climate Science Rapid Response Team that punches back against misleading claims about climate research.

Kevin Trenberth is part of that team as well as a climate scientist at the National Center for Atmospheric Research and an author and editor on the forthcoming IPCC report. He explained that nearly every time there is a scientific paper linking man-made carbon dioxide emissions to climate change, the “denial-sphere” immediately responds with accusations that the research is wrong.

“The scientists get nasty emails. Certain websites comment. … So a bunch of us formed this rapid response team to deflate these arguments.” The group has been very busy in recent weeks.

Although those who make a living by denying climate science are screaming as loudly as ever, most people are getting better at tuning out their histrionics. Again from the Inside Climate News article:

Cindy Baxter, a longtime climate campaigner, said she thinks climate skeptics “are getting more shrill, but getting less notice,” because Americans are more convinced that global warming is real.

“Hurricane Sandy. Droughts. Flooding. Wildfires. People are feeling the effects of climate change. That makes it harder to deny,” said Baxter, who is also a co-author of Greenpeace’s new report Dealing in Doubt, which chronicles the history of climate skeptic campaigns. Polls say a larger majority of Americans from both parties see recent waves of deadly weather as a sign of climate change.

Unfortunately, this denier campaign will be around for a while. The IPCC report due out next Friday is just the first of four scheduled to be released over the coming year. Maybe after the final one comes out, the denial pushers will finally potter off to find new work, perhaps as baby-seal clubbers, orphan poisoners, or textbook reviewers for the Texas State Board of Education.

John Upton is a science fan and green news boffin who tweets, posts articles to Facebook, and blogs about ecology. He welcomes reader questions, tips, and incoherent rants: johnupton@gmail.com.

Para especialistas, novo código de mineração é omisso na questão ambiental (Agência Câmara)

JC e-mail 4822, de 27 de Setembro de 2013.

Consultor do Ibase afirmou que, na última década, a exploração mineral no Brasil triplicou e isso trouxe reflexos ambientais irreversíveis

Participantes da audiência pública sobre o projeto do novo Código de Mineração (PL 5807/13, do Executivo, apensado ao PL 37/11), realizada nesta quinta-feira (26) pela Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, afirmaram que o texto é omisso em relação à questão ambiental.

O consultor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), Carlos Bittencourt, afirmou que, na última década, a exploração mineral no Brasil triplicou e isso trouxe reflexos ambientais irreversíveis. Ele deu exemplos desse impacto: a atividade mineral usou cinco quatrilhões de litros de água em 2012, o equivalente ao consumo de oito cidades do porte do Rio de Janeiro.

A quantidade de energia elétrica utilizada para produzir 432 mil toneladas de alumínio é maior do que a necessária para atender as cidades de Belém (PA) e Manaus (AM). “O principal problema que a gente tem apontado é o completo silêncio em relação aos aspectos socioambientais”, afirmou Bittencourt.

Zoneamento
O advogado do Instituto Socioambiental (ISA), Raul do Valle, defendeu que a proposta crie o zoneamento de áreas de mineração e a criação de um seguro ambiental. Ele afirma que a proposta será votada sem o devido aprofundamento do debate.

“O projeto foi feito durante quatro anos a portas fechadas no Executivo e agora veio para o Congresso com 90 dias para ser aprovado. Ele precisa ter debate aprofundado e, sobretudo, incluir a dimensão socioambiental, que é a grande ausente nesse projeto”, afirmou.

O coordenador de Mineração e Obras Civis do Ibama, Jonatas Souza da Trindade, apresentou um estudo técnico, ainda não aprovado pelo órgão, que aponta a necessidade de o projeto do código seguir o modelo de outras formas de licenciamento, como as dos setores hidrelétrico e rodoviário, em que o planejamento ambiental é feito antes do licenciamento ambiental.

“Tecnicamente isso melhora e qualifica o processo de licenciamento ambiental. Esse é um entendimento técnico que ainda não foi aprovado, mas é um possível encaminhamento”, afirmou Trindade.

Questão tratada
O assessor da Secretaria de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia, Marcel Stenner, afirmou o contrário dos especialistas em meio ambiente. Segundo ele, a legislação atual dá pouco tratamento para a questão ambiental, diferente do projeto do governo.

“A legislação proposta pelo governo aborda várias das questões, dá tratamento, cria a questão da responsabilidade do agente minerador sobre eventuais danos e impactos ambientais e estabelece condições para que a gente venha a garantir o cumprimento dessas áreas”, disse.

Emendas
O coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, deputado Sarney Filho (PV-MA), afirma que existem mais de 20 emendas ao novo código tratando de aspectos socioambientais. “O sentido geral desse código, do jeito que veio, não é favor da sociedade, é a favor das empresas. Isso que temos que inverter”, disse. Sarney Filho defende condicionantes para que os lucros das empresas sejam limitados pela segurança ambiental.

Ao todo, a proposta recebeu 372 emendas. Elas serão analisadas pelo relator, deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG). O projeto vai ser votado na comissão especial em outubro e depois segue para o Plenário da Câmara.

Íntegra da proposta:
PL-37/2011
PL-5807/2013
(Agência Câmara – 26/09)

Climate Change’s Silver Bullet? Our Interview With One Of The World’s Top Geoengineering Scholars (Climate Progress)

BY ARI PHILLIPS ON SEPTEMBER 6, 2013 AT 1:10 PM

Clive HamiltonMELBOURNE, Australia — Since coming to Australia almost two months ago I’ve heard about Clive Hamilton in the process of reporting just about every story I’ve done. Then I picked up his new book Earthmasters: The Dawn of the Age of Climate Engineeringand now I see what all the fuss is about.

In all of the debates over how to address climate change, climate engineering — or geoengineering — is among the most contentious. It involves large-scale manipulation of the Earth’s climate using grand technological interventions, such as fertilizing the oceans with iron to absorb carbon dioxide or releasing sulfur into the atmosphere to reduce radiation. While its proponents call geoengineering a silver bullet for our climate woes, its skeptics are far more critical. Joe Romm, for one, likens geoengineering to a dangerous course of chemotherapy and radiation to treat a condition curable through diet and exercise — or, in this case, emissions reduction.

According to the cover of Hamilton’s new book, “The potential risks are enormous. It is messing with nature on a scale we’ve never seen before, and it’s attracting a flood of interest from scientists, venture capitalists and oil companies.”

Hamilton is an Australian author and public intellectual. Until 2008 he was the Executive Director of The Australia Institute, a progressive think tank that he founded in 1993. Now he’s Professor of Public Ethics at the Centre for Applied Philosophy and Public Ethics, a joint center of Charles Stuart University and the University of Melbourne.

His books include Requiem for a Species: Why we resist the truth about climate changeScorcher: The dirty truth about climate change and Growth Fetishamongst others.

Hamilton’s next book will be about the anthropocene — a new geologic era in which human activities have had a significant impact on the Earth’s ecosystems. He took some time to talk with me about this new era, the future of geoengineering and what it all means for humanity. This interview has been edited for clarity and length.

How has the environmental community responded to your book on geoengineering?

Cover-image-Yale-UP3

I remember back in late 1990s around Kyoto there was a great deal of resistance amongst environmentalists and climate activists, including myself, against any talk of adaptation. It was seen to be a capitulation to a kind of defeatism that we ought not to be talking about adaptation because that means that mitigation has failed. Eventually I think we all came around to view that some climate change is going to happen and therefore adaptation has to be considered. It’s better to have seat at the table, as it were, when adaptation is being discussed.

I think we’re in the same stage now with geoengineering. Most environmentalists don’t want to know about it. Most climate activists don’t want to talk about it. There is a sense that in doing so you are conceding that it could well be possible that geoengineering will be necessary because the world community will continue to fail, perhaps even more egregiously, at responding to scientific warnings.

But I wrote the book because I became aware in writing my previous book that the genie was out of the bottle: geoengineering was going to grow in importance. Therefore, climate campaigners and environmental groups sooner or later are going to have to engage in the issue. It’s a question of whether they start now or leave it for another five years, at which point the lobby backing geoengineering will be much more powerful and will have had an opportunity to frame it more inflexibly in the media and in broader public mind.

Did you come across any big surprises while writing the book?

There were a couple of big surprises. One was the extent of the geoengineering lobby and the links between the scientists and the investors. I developed a much stronger sense of the likelihood of a powerful geoengineering constituency emerging, which would — if it were not countered by a skeptical community of thinkers and campaigners — essentially take control of whole agenda. Plotting those links and laying them out was something that I go into quite a lot of detail over. At the same time it stimulated me to think about the military-industrial complex, the famous lobby group that help such sway in the U.S. in the middle of the 20th century.

One thing I noticed while doing this research and looking at scientists involved was the density of the linkages with the Lawrence Livermore National Laboratory. So I investigated further and thought it’s really quite astonishing the extent to which many, if not most, prominent scientific researchers in geoengineering in the U.S. worked at Livermore or have close links with people there now or those who used to work there.

Then when I read Hugh Gusterson’s book on Livermore and it’s role in the cold war and nuclear weapons development, I started to think much more carefully about the type of mindset that is especially drawn to geoengineering as a technological response to global warming. I think it’s quite alarming in its implications. That lead me to further think about the geostrategic implications of climate engineering, which is something that’s received almost no attention, but we do know that people in the military and related strategic communities are starting to think about geoengineering and what it would mean for international relations and conflict.

What about the potential for financial gain?

A noble desire to save the world from climate change will attract less noble intentions. That’s just the way of the world. Never let a good crisis go to waste. Already we’re seeing it with Canadian oil sands billionaire Murray Edwards investing in geoengineering technologies.

I spend quite a bit of time talking about Bill Gates in the book. Earlier this year, I was talking about the scientific entrepreneurial lobby group that was emerging during a debate with Peter Singer (another Australian philosopher) and I mentioned Bill Gates. Singer said, “Well what’s wrong with Bill Gates? He’s well motivated. He does a lot of good charity work. If you’re going to have millionaires investing in geoengineering then Bill Gates would be one of the first.”

I made the point that yes, Bill Gates is now in philanthropic mode, and The Bill and Melinda Gates Foundation does praiseworthy work, but it’s not Bill Gates’ motives I’m worried about; it’s his worldview. That Silicon Valley, ‘we’ve-got-an-app-for-that’ kind of understanding. Joe Romm (Editor of Climate Progress) has been very critical of Gates for his dissing of renewable energy technology. Gates described solar energy as cute.

So Gates is drawn to big, new, shiny technological responses that clever people dream up. You know, brainstorming over pizza and coke. That’s where he comes from and that’s how he thinks. It’s one thing to think about computers and software that way, but it’s a completely different matter to think about the earth as a whole as in need of a snazzy new app that will solve the problem. I think that’s an extremely dangerous way to understand it for all sorts of reasons.

Perhaps the most important of which is that the climate change problem is not a technological one. It’s a social and political one. The more people focus on techno-fixes, the more they distract us from the real problems, which are the social and political difficulties of responding to climate change. We have the technology and have had it for many years. So arguing that the blockage is the absence of technology is extremely unhelpful and plays into the hands of the fossil fuel lobby.

In the book you say the slippery slope to a techno-fix promises a substitute for the slippery slope to revolution.

Revolutions take all different forms of course, from the industrial revolution to Tahrir Square to the cultural revolution of the 60s and 70s, and it’s more along the lines of the latter that I was thinking of, and into which new forms of climate activism can feed. There’s often a sort of terror in environmental groups that if they do something radical or outrageous, they’ll alienate mom and dad in the suburbs.

But social movements that have radically changed the way our world works — think of the woman’s movement — have frequently started out being rancorous and difficult and attracting the derision of the conservative press and politicians. And indeed, mystifying and often alienating people living in the suburbs or high-rises. If people have to be shocked and outraged before they come around to seeing that some fundamental transformation is necessary, then so be it. I think that there’s a level of fear and complacency and unwillingness to shift to change on the part of our societies, and some kind of circuit breaker is necessary.

You talk about the acceptance of the “solution” of geoengineering even by people who don’t seem to think climate change is a problem in the first place.

That’s one of the, on the face of it, mystifying aspects of the geoengineering debate. Why conservative think tanks like The American Enterprise Institute, The Cato Institute and even The Heartland Institute, which have for years worked hard to deny climate science and block all measures to reduce carbon emissions, have come out in favor of geoengineering.

What it shows us is that the debate over climate change and the role of the deniers is not about the science. They want to make it about the science because that gives it an air of legitimacy, but it’s really about fundamental cultural and political values. So if geoengineering is the solution then they’re happy to concede that there’s a problem because geoengineering is a big, technological, macho, system-justifying response to climate change. And that’s the kind of response that fits with their political orientation.

How does the “American Way of Life” factor into all of this?

Already we’re seeing what authorities in the U.S. need to do in order to protect people from massive hurricanes and monster wildfires and frequent floods. As the effects of climate change become even more severe we’ll see nations like the U.S. that are in a position to adapt start spending billions of dollars dong so.

And of course, the more the climate deniers persuade politicians that hurricanes and wildfires aren’t due to climate change, the less responsive authorities are likely to be and the more people will die, in effect. Eventually it will be impossible to continue to pretend that mitigation is not the first best option. It might take five years, it might take ten, let’s hope it doesn’t take twenty.

The sort of tragedy of all this is that if the world had become serious ten or so years ago that cost would have been vastly smaller than it’s going to be. But you know that’s in a perfect world where human beings are rational and take reasonable measures to protect themselves from the warnings of scientists. But we now know that the enlightenment conception of human beings as rational creatures who assess the evidence and take measures to protect themselves from harm, that has now collapsed before us. We can no longer maintain that belief.

That feeds into this idea of the anthropocene and the ethical implications of living in a world with climate change.

I am writing a book about the anthropocene because it seems to me that when human beings become so powerful that they transform the fundamental cycles and processes that govern the evolution of the earth itself that we’re entering into an era, or we’ve reached an event, that’s as significant as the industrial revolution, or even the process of civilization itself.

It causes us to rethink pretty much everything. It certainly causes us to rethink what the relationship of human beings is to the planet, but in a harder way, what is a human being. The sort of modern conception of what a human being is is an isolated ego existing inside a body. And most of us think that’s just what we are. But in fact that’s a very recent and culturally specific understanding of what a human being is. And it’s the conception of a human being that’s consistent with an advanced consumer society.

Collectively though, we are the kind of creatures, like certain types of microbes, that can completely transform the nature of the planet on which we live. If this is so, then it causes us to rethink who we are and what the place of this strange, clever creature is on planet earth.

We can no longer think of the Earth as the passive and unresponsive backdrop to the human drama where we play out our parts in a kind of Shakespearean play and not worry about the backdrop. We now find that the backdrop, the stage scenery, has entered into the play and is disrupting the whole proceedings.

Something very profound has happened. Human history, which we think of as only being a few thousand years old and is the history of human actions, has converged with geologic history, which we always thought of as operating in a very distinct domain having nothing to do with us. But now we find that our history affects the history of the earth.

If there is no more human history distinct from earth history, then what does that mean?

Can weather swing an election? (Discover)

By Seriously Science | May 22, 2013 10:30 am

Photo: flickr/hjl

It’s pretty obvious that weather can affect overall voter turnout; many people just don’t want to go out in the rain, even if it’s to exercise their civic duty. But does weather affect some political parties more than others? Are right-wing voters more likely to skip the polls on a rainy day? Do Democrats forget to vote when the surf’s up? Well, not many people go surfing in the Netherlands, but they do have elections and weather, and this study describes the relationship between the two.

Weather conditions and political party vote share in Dutch national parliament elections, 1971-2010.

“Inclement weather on election day is widely seen to benefit certain political parties at the expense of others. Empirical evidence for this weather-vote share hypothesis is sparse however. We examine the effects of rainfall and temperature on share of the votes of eight political parties that participated in 13 national parliament elections, held in the Netherlands from 1971 to 2010.This paper merges the election results for all Dutch municipalities with election-day weather observations drawn from all official weather stations well distributed over the country. We find that the weather parameters affect the election results in a statistically and politically significant way. Whereas the Christian Democratic party benefits from substantial rain (10 mm) on voting day by gaining one extra seat in the 150-seat Dutch national parliament, the left-wing Social Democratic (Labor) and the Socialist parties are found to suffer from cold and wet conditions. Cold (5°C) and rainy (10 mm) election day weather causes the latter parties to lose one or two parliamentary seats.”

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Global warming survey shows support for civil disobedience (Climate Connections)

20 August, 2013. Source: Climate Nexus

Photo: David Suzuki Foundation

Photo: David Suzuki Foundation

national survey finds that many Americans (24%) would support an organization that engaged in non-violent civil disobedience against corporate or government activities that make global warming worse.

Moreover, 13% say they would be willing to personally engage in non-violent civil disobedience for the same reason.

“Many Americans want action on climate change by government, business, and each other,” said lead researcher Anthony Leiserowitz, PhD, of Yale University. “The fact that so many Americans would support organizations engaging in civil disobedience to stop global warming  – or would be willing to do so personally – is a sign that many see climate change as a clear and present danger and are frustrated with the slow pace of action.”

Another key finding of the survey is that, in the past year, Americans were more likely to discuss global warming with family and friends (33% did so often or occasionally) than to communicate about it using social media (e.g., 7% shared something about global warming on Facebook or Twitter, 6% posted a comment online in response to a news story or blog about the topic, etc.).

“Our findings are in line with other research demonstrating that person-to-person conversations – about a wide variety of topics, not just global warming – are still the most common form of communication,” said Dr. Leiserowitz. “The notion that social media have completely ‘taken over’ most of our social interactions is incorrect. For example, we find that Americans are much more likely to talk about extreme weather face-to-face or over the phone than through social media.”

Furthermore, Americans are most likely to identify their own friends and family, such as a significant other (27%), son or daughter (21%), or close friend (17%), as the people who could motivate them to take action to reduce global warming.

“Our findings show that people are most willing to listen to those personally close to them when it comes to taking action against global warming,” said researcher Ed Maibach, PhD, of George Mason University. “In fact, if someone they ‘like and respect’ asks them to take action about global warming, a third say they would attend a public meeting about global warming or sign a pledge to vote only for political candidates that share their views about global warming, among other things.”

These findings come from a nationally representative survey – Climate Change in the American Mind – conducted by the Yale Project on Climate Change Communication and the George Mason University Center for Climate Change Communication.

A espionagem da Vale (Cartas da Amazônia)

Por Lúcio Flávio Pinto | Cartas da Amazônia – dom, 7 de jul de 2013

É legal ou legítimo que uma empresa privada tenha nos seus arquivos prontuários de pessoas que lhe interessam, incomodam ou são seus inimigos? Pois a Vale, a segunda maior mineradora do mundo, tem. Não se tratam de fichas, anotações ou clippings. A designação que a empresa deu a esses registros personalizados é mesmo de prontuários, consagrados pelo aparelho policial e tingidos de negro pelo aparato de repressão.

O batismo não deixa de ser um ato falhado, psicanaliticamente falando. O serviço de informações e inteligência da maior empresa privada do Brasil, da qual o país depende como nunca antes, é conduzido também por ex-agentes do serviço de informações do governo, novos ou mais antigos, remanescentes da era do SNI e integrantes da Abin, hibridismo da época da ditadura com a democracia.

A coordenadoria de serviços especiais corporativos, ligada à auditoria interna, subordinada, por sua vez, ao conselho de administração, foi criada em 2003. Seu objetivo era prevenir perdas e combater fraudes dentro da empresa. Parece que a princípio ela se circunscreveu a essa missão, mas logo deu início a atividades ilegais de espionagem, recorrendo a grampos telefônicos, quebra de sigilo bancário e invasão de privacidade. Além do pessoal próprio, utilizou consultorias privadas.

Em abril de 2010, a “atualização do prontuário do jornalista Lúcio Flávio de Farias Pinto” custou 10 reais à Vale. Não sei o que esse prontuário contém, mas já há um mau indício: colocaram um “s” excedente no meu sobrenome Faria.
Uma empresa do porte da Vale precisa ter o seu setor de inteligência. Ele cuida de informações e contrainformações para melhor atender a corporação na sua guerra de mercado, que envolve espionagem. Boicote e sabotagem, e nas relações com o mundo externo.

Mas desde que um ex-integrante desse serviço, o gerente de inteligência André Almeida, demitido em março deste ano por justa causa, repassou documentos que permitiram à revista Veja revelar os intestinos da mineradora, a questão é saber se a Vale atua dentro de limites legais ou os extrapola e viola, agindo como se fora uma entidade pública, com direito de exercer o poder de polícia.

Quando o Serviço Nacional de Informações, concebido pelo general Golbery do Couto e Silva, foi criado, logo depois do golpe militar de 1964, que derrubou o presidente João Goulart, Carlos Lacerda observou com maldade certeira que o SNI não funcionava às segundas-feiras. Nesse dia poucos jornais circulavam – e não os mais importantes. Os arapongas de então não podiam se armar de cola, papel e recortes de jornais para preparar seus relatórios e informes. Não havia o que cortar e colar.

Lacerda já estava avinagrado com seus ex-colegas de golpe, preocupado com a perspectiva de jamais se candidatar a presidente da república, a maior das suas aspirações, mas boa parte do trabalho de inteligência é feito assim mesmo, através de análises de informações correntes, sobretudo da imprensa.

Por sua própria razão de ser, o Estado vai muito além desse ponto, com seus agentes nas ruas, infiltrações e informantes, exercendo o poder de polícia que a sociedade lhe delega formalmente. Mas uma empresa privada pode agir assim? O regime democrático é compatível com esse procedimento?

A leitura de vários dos documentos vazados pelo informante da revista Veja não surpreende. Os arapongas da Vale também se baseiam em material da imprensa. Mas outros documentos dão a nítida sensação de que são produzidos por órgãos oficiais, não com o propósito legítimo de bem informar as autoridades públicas.

Estão contaminados pelo interesse de bisbilhotar, de invadir a privacidade alheia e de colocar etiquetas que definem e julgam os personagens visados, atribuindo-lhe carga de ilicitude e ilegalidade. Não é uma observação olímpica: o olhar discrimina o que vê como inimigos, merecedores, portanto, de punição. E assim eles são tratados.

A relação dos entes que estão sob a mira da inteligência da Vale compreende o MAB (que defende os atingidos por barragens), MST, Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Fase, Rede Brasileira de Justiça Ambiental, Instituto Rosa Luxemburgo, Forum Carajás, Campanha Justiça nos Trilhos, Conlutas, Movimento dos Atingidos pela Vale, CUT e Assembleia Popular, dentre outros.

A Vale não se restringe a acompanhar a movimentação dessas entidades: manda espiões se infiltrarem em suas atividades, com a missão de gravar, fotografar e anotar o que acontece. Foi assim que agiu em relação ao 1º Encontro dos Atingidos pela Vale, que acompanhou o lançamento da Caravana Minas, no Rio de Janeiro, em 2010.

Os líderes, identificados, foram acompanhados pelo olheiro, que também esteve ao lado dos participantes do encontro quando eles fizeram uma manifestação diante do condomínio de luxo em que morava o então presidente da Vale, Roger Agnelli, na rua mais famosa de Ipanema, a Vieira Souto.

As despesas com esse serviço custaram à Vale, em abril de 2010, 184 mil reais. Parte desse dinheiro foi gasto na inspeção de andares da sede da empresa, no Rio de Janeiro. O escritório Norte absorveu R$ 25 mil. Uma equipe básica II precisou de R$ 859 para cobrir o seminário “O Maranhão de volta ao século XIX: grandes projetos e seus impactos socioambientais”, em São Luiz. Um informante quilombola em Barcarena saiu por quase R$ 4,4 mil. Naturalmente, esse informante é um espião. Já os dois que atuam em Carajás e Parauapebas têm carteira assinada, cada um deles recebendo R$3,7 mil.

Um ano depois, em abril de 2011, o mesmo serviço pulou para R$ 230 mil, com itens semelhantes. Mas a presença na região norte, entre Pará e Maranhão, se tornou ainda mais forte: além do informante quilombola de Barcarena e dos dois agentes de Carajás/Parauapebas, surgiu um “colaborador e agente” em Marabá (a R$3,4 mil) e uma rede em Açailândia (R$ 1,6 mil).

Ao que tudo indica, o frenesi pela espionagem, interna e externa, abrangendo tanto aqueles considerados inimigos da empresa quanto seus funcionários, dirigentes e até acionistas, foi uma das marcas da gestão de uma década de Agnelli. Em março de 2012 as despesas do setor diminuíram ligeiramente, para R$ 224 mil, embora mantendo a mesma estrutura e reajustando os rendimentos das equipes.

Em setembro caíram mais, para R$ 197 mil. Talvez, quem sabe, desinflem para um patamar saudável – e, mais do que isso, legal. Mas para isso certamente é preciso iluminar as dependências sombrias da antiga Companhia Vale do Rio Doce, que permanece estatal nas suas estranhas impenetráveis.

Para dar consequência às denúncias, o MST e a Justiça nos Trilhos entregaram um pedido formal de investigação a várias instituições públicas. Mais recentemente, outra grande empresa, o consórcio que arrematou a hidrelétrica de Belo Monte, no Xingu, a maior obra em andamento no país, também foi flagrado em atividade de espionagem junto a grupos que se opõem à obra.

Esses dois são os exemplos mais graves. Quantos, porém, existem no desconhecimento público? A crescente promiscuidade entre os aparatos de segurança do governo e os das grandes corporações econômicas parece ser crescente, talvez tão acentuado quanto no período da ditadura, embora sem os mesmos objetivos, já que não há a repressão política aberta, estatizada.

Mas há uma circulação de pessoas entre os dois níveis de poder, desempenhando funções semelhantes ou, em muitas situações, numa distinção que inexiste, embora formalmente devessem ser separadas. O setor de segurança pública fornece quadros para a inteligência corporativa e vice-versa. Essa circulação é perigosa. As dependências desse aparato devem ser iluminadas e higienizadas.

Peter Pál Pelbart: “Anota aí: eu sou ninguém” (Folha de S.Paulo)

19/07/2013 – 03h30

Slavoj Zizek reconheceu no “Roda Viva” que é mais fácil saber o que quer uma mulher, brincando com a “boutade” freudiana, do que entender o Occupy Wall Street.

Não é diferente conosco. Em vez de perguntar o que “eles”, os manifestantes brasileiros, querem, talvez fosse o caso de perguntar o que a nova cena política pode desencadear. Pois não se trata apenas de um deslocamento de palco –do palácio para a rua–, mas de afeto, de contaminação, de potência coletiva. A imaginação política se destravou e produziu um corte no tempo político.

A melhor maneira de matar um acontecimento que provocou inflexão na sensibilidade coletiva é reinseri-lo no cálculo das causas e efeitos. Tudo será tachado de ingenuidade ou espontaneismo, a menos que dê “resultados concretos”.

Como se a vivência de milhões de pessoas ocupando as ruas, afetadas no corpo a corpo por outros milhões, atravessados todos pela energia multitudinária, enfrentando embates concretos com a truculência policial e militar, inventando uma nova coreografia, recusando os carros de som, os líderes, mas ao mesmo tempo acuando o Congresso, colocando de joelhos as prefeituras, embaralhando o roteiro dos partidos –como se tudo isso não fosse “concreto” e não pudesse incitar processos inauditos, instituintes!

Como supor que tal movimentação não reata a multidão com sua capacidade de sondar possibilidades? É um fenômeno de vidência coletiva –enxerga-se o que antes parecia opaco ou impossível.

E a pergunta retorna: afinal, o que quer a multidão? Mais saúde e educação? Ou isso e algo ainda mais radical: um outro modo de pensar a própria relação entre a libido social e o poder, numa chave da horizontalidade, em consonância com a forma mesma dos protestos?

O Movimento Passe Livre, com sua pauta restrita, teve uma sabedoria política inigualável. Soube até como driblar as ciladas policialescas de repórteres que queriam escarafunchar a identidade pessoal de seus membros (“Anota aí: eu sou ninguém”, dizia uma militante, com a malícia de Odisseu, mostrando como certa dessubjetivação é condição para a política hoje. Agamben já o dizia, os poderes não sabem o que fazer com a “singularidade qualquer”).

Mas quando arrombaram a porteira da rua, muitos outros desejos se manifestaram. Falamos de desejos e não de reivindicações, porque estas podem ser satisfeitas. O desejo coletivo implica imenso prazer em descer à rua, sentir a pulsação multitudinária, cruzar a diversidade de vozes e corpos, sexos e tipos e apreender um “comum” que tem a ver com as redes, com as redes sociais, com a inteligência coletiva.

Tem a ver com a certeza de que o transporte deveria ser um bem comum, assim como o verde da praça Taksim, assim como a água, a terra, a internet, os códigos, os saberes, a cidade, e de que toda espécie de “enclosure” é um atentado às condições da produção contemporânea, que requer cada vez mais o livre compartilhamento do comum.

Tornar cada vez mais comum o que é comum –outrora chamaram isso de comunismo. Um comunismo do desejo. A expressão soa hoje como um atentado ao pudor. Mas é a expropriação do comum pelos mecanismos de poder que ataca e depaupera capilarmente aquilo que é a fonte e a matéria mesma do contemporâneo –a vida (em) comum.

Talvez uma outra subjetividade política e coletiva esteja (re)nascendo, aqui e em outros pontos do planeta, para a qual carecemos de categorias. Mais insurreta, de movimento mais do que de partido, de fluxo mais do que de disciplina, de impulso mais do que de finalidades, com um poder de convocação incomum, sem que isso garanta nada, muito menos que ela se torne o novo sujeito da história.

Mas não se deve subestimar a potência psicopolítica da multidão, que se dá o direito de não saber de antemão tudo o que quer, mesmo quando enxameia o país e ocupa os jardins do palácio, pois suspeita que não temos fórmulas para saciar nosso desejo ou apaziguar nossa aflição.

Como diz Deleuze, falam sempre do futuro da revolução, mas ignoram o devir revolucionário das pessoas.

PETER PÁL PELBART, 57, filósofo húngaro, é professor titular de filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, tradutor de Deleuze e autor de “Vida Capital”

Armadilhas para Dilma (Folha de S.Paulo)

JC e-mail 4768, de 15 de Julho de 2013.

Folha publica artigo assinado pela professora Maria Sylvia Carvalho Franco

Os atuais movimentos de massa no Brasil não se devem apenas a recentes demandas sociais, econômicas ou políticas. Essa atribuição toma o resultado pela gênese dos eventos. Estes determinam-se no interior de um arraigado sistema produzido em nossa história.

Destaca-se na origem da sociedade brasileira a ex­ploração de riquezas baseadas na escravidão moderna, instituição constitutiva do capitalismo, articulada às mudanças socioeconômicas, inclusive o trabalho livre, em curso na Europa. Não por acaso, J. Locke deu forma teórica às práticas capitalistas, fundamentou o pensamento liberal e legitimou a escravidão moderna, alicerçando-os no direito natural e individual à propriedade: só o proprietário pertence ao gênero humano. Os sem posses convertem-se em inferiores, justificando-se o seu jugo e a pena de morte para quem atenta contra a propriedade, “ipso facto”, contra a vida e a liberdade.

A violência do estado de natureza permeia a sociedade civil, garantindo –pela recusa de sua humanidade– a exploração do trabalhador livre e do escravo. Na vertente moderna e cristã exposta por Locke, o escravo está expulso do estado de natureza, segregado da religião, excluído da sociedade civil.

Entre nós, esse elenco articulou-se ao absolutismo português gerando, em nossa concretização do capitalismo, ampla rede de controle social arbitrário e economia espoliativa. Por séculos, mudanças decisivas ocorreram entre dominantes e dominados, mas subsiste a essência dessa ordem: a produção de lucro. Distraída desse fato, Dilma caiu em ciladas, algumas embutidas em sua própria ideologia.

A primeira delas foi acatar o esquema de poder construído por seu antecessor, que esbanjou ardis retribuindo os provedores de suas campanhas políticas e produziu, com astuciosa propaganda, o mito do herói em um país próspero e venturoso. Com essa herança, Dilma caminhou para o inferno ao cortar benesses. Perturbou o setor financeiro ao baixar juros e introduzir impostos para o capital externo, provocando fuga desses bens, elevação do câmbio, desequilíbrio no mercado.

Crente no “papel histórico da burguesia nacional”, cortou impostos, concedeu crédito copioso, subsidiou o consumo, supondo que os ganhos acrescidos se transformariam em produtividade. E veio a desaceleração industrial, o “pibinho”, as aventuras com recursos do BNDES e a volumosa remessa de lucros. Jogou com a inflação visando lastrear o desenvolvimento, mas conseguiu carestia e queda no consumo, suposto lastro para a ascensão social, produtor de nova classe média, na verdade inexistente.

Classes não se formam com artifícios de propaganda e participação rapsódica no mercado. Exemplar dessa falácia é o Minha Casa, Minha Vida. O banco oficial não empresta os recursos iniciais para construção, apenas ressarce o montante previamente aplicado pelo candidato, quantia que lhe é impossível amealhar; as prestações excedem os bolsos da família e é exorbitante o preço final do imóvel. Diante do impasse, o bancário aconselha o cliente a procurar um construtor “acostumado a trabalhar com a Caixa”, vale dizer, com a empreiteira favorecida pelo governo.

Dilma tropeçou no rijo sistema de privilégios e troca de favores. Nessa faina, o empresariado conta com lobbies operando no Congresso, influenciando os partidos oligarquizados e a burocracia estatal, com apropriação privilegiada e uso irresponsável dos dinheiros públicos.

Contra esses interesses destrutivos da imensa riqueza nacional, ergue-se a massa dela despojada. A revolta contra as tarifas de transporte não é a gota d’água, o estopim que acendeu o povo, mas parte importante da experiência diuturna de pessoas roubadas de seus direitos. Elas têm consciência de que preços maiores visam favorecer os concessionários que financiam eleições e ocupam cargos chaves na administração pública.

Aqui, é nulo o perigo de populismo tarifário e é inválida a alegação de que a estabilidade dos preços possa bloquear investimentos e, “ipso facto”, piorar o serviço. Esse automatismo não existe; o alvo é o lucro fácil, isento de contrapartida.

O peso desse arcabouço torna irrisória a assertiva de que a atual rebelião seria difusa, alheia a partidos, carente de alvos precisos. Nebulosa apolítica, seria a expressão do fortalecimento (“empowerment”) do indivíduo, sujeito da consciência e dos atos sociais, gerado no bojo da internet.

Trata-se de versão requentada da secular ideologia liberal, em que o indivíduo é constitutivo do universo. O poder de seres isolados –hoje como antes– anula-se diante dos monopólios estatais da força física, da norma jurídica e dos impostos. As massas assustam e um recurso para aplacá-las seria dissolvê-las em seus átomos. Mais vale compreender o sentido desses movimentos.

Eles não poderiam conjugar-se a partidos, por serem fonte da corrupção que recusam; a liderança não poderia ser hierárquica, pois são contra a oligarquização da política; suas demandas são exatas, referentes a direitos que lhes são roubados e pelos quais pagam tributos; não querem “mais”, como reza a propaganda, querem o imprescin­­dível. Nem são amorfos: as redes sociais ensejam a organização dos grupos e atividades.

Como toda técnica, ela é meio para ações cujo sentido define-se por seus atores e por seus fins.

Maria Sylvia Carvalho Franco é professora titular aposentada de filosofia da USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2013/07/1311127-maria-sylvia-carvalho-franco-armadilhas-para-dilma.shtml

Muito além de uma resposta do poder público (Canal Ibase)

Renzo Taddei, Colunista do Canal Ibase

Link original: http://www.canalibase.org.br/muito-alem-de-uma-resposta-do-poder-publico/

15/07/2013

Na quarta-feira, dia 10 de julho, o Juca Kfouri afirmou em entrevista à Agência Pública que “se não houver respostas, as manifestações serão maiores em 2014”. Na sexta (12) a Deutsche Welle publicou entrevista com Marina Silva, onde ela afirma que a reação do Congresso Nacional e da Presidência da República está “aquém da grandeza dos protestos”. Acredito que a imensa maioria dos analistas concorda com esse ponto: o governo não foi capaz, até o momento, de dar respostas à altura do que pede a ocasião. Nesse texto, no entanto, eu gostaria de discutir dimensões dos acontecimentos que estamos vivenciando que transcendem a resposta do estado.

Inicialmente, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido último do que estamos vivendo. Isso me parece redutor, porque coloca o estado no centro de tudo. Sou da opinião de que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é o fortalecimento de redes de organização, de articulação social, cultural e política; redes essas que existem de forma independente ao estado. A assembleia popular horizontal que ocorreu sábado (13) em Belo Horizonte, transmitida ao vivo na Internet pela PósTV/mídia NINJA, é um exemplo disso. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador perpétuo de tudo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional, no Palácio do Planalto ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. Em uma palavra, o que esses movimentos têm como fundamento de ação é a afirmação de que o mundo é maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Foto: Mídia Ninja

É em função disso que a tentativa de encontrar uma causa fundamental ou mais urgente, que dê uma identidade ao movimento das ruas, é tarefa vã. Trata-se da tentativa de negar a dimensão múltipla das manifestações, e, ao mesmo tempo, de não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo.

Que dimensão é essa? Em sua última coluna na Carta Capital, Vladimir Safatle afirma que além da crise de representação política, há o esgotamento do ciclo de desenvolvimento com distribuição de renda da época de Lula. A solução para isso é impossível no governo Dilma, diz Safatle, porque requer uma reforma fiscal que seja verdadeiramente de esquerda, algo impossibilitado pelo modelo de alianças partidárias que caracteriza o lulismo. Safatle tem razão, mas essa é apenas metade da história. A outra metade é exógena ao sistema político; está ligada a uma transformação maior em curso, que nos afasta das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis.

Ou seja, Safatle faz referência a um modelo de governabilidade em crise; eu diria que essa é apenas a ponta do iceberg: o que está em crise é o sistema todo; mais que o governo, é o próprio estado que se mostra incapaz de responder às demandas políticas da população. Isso se dá no contexto da crise do modelo republicano francês – crise que afeta a França há décadas e que se faz visível agora no Brasil. Aqui estou fazendo referência a como nosso sistema político, como o francês, depende do esforço do estado na criação de uma certa subjetividade política nos cidadãos; subjetividade essa que, em escala populacional, faz com que o país seja administrável à distância, quase que por controle remoto. Falando em bom português: há um esforço do estado e das instituições (escolas, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de forma que estes sejam politicamente passivos; o Brasil é mais administrável se todo mundo pensar de forma semelhante, e mais ainda se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV, anestesiados. Esse é o contexto da democracia representativa no Brasil, aquele que reduz a participação política da população às eleições, e onde grande parte das pessoas sequer consegue lembrar em quem votou para os cargos legislativos.

É esse modelo de estado que está em crise, e que nem a reforma política, nem a tributária, irá resolver. A crise da representatividade não se resume à falta de confiança na classe política; há também, e fundamentalmente, uma nova consciência do direito à diferença; para além de ser ineficiente e corrupto, o estado é entendido como fascista porque cala (com o apoio da FIFA, do COB e de empresários do petróleo) qualquer forma de diferença que se mostre inadministrável. Os ataques à imprensa corporativa, e em especial à Rede Globo, tem essa questão como pano de fundo, e não a questão da corrupção. A emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, são parte desse movimento. Resulta disso tudo a recusa a qualquer forma de representação, e a participação direta, nas ruas e na Internet, é seu principal sintoma.

Sendo assim, não vejo possibilidade de avanço no país que não passe pela transformação das instituições políticas, algumas vezes de forma radical (como a desmilitarização das polícias), de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir. Nesse contexto, não se trata do povo pedir e do governo atender. Ao invés disso, povo e governo tem a difícil missão de transformarem, juntos ou não, o estado em outra coisa, diferente do que ele é na atualidade.

A disputa dos sentidos associados à violência

Existe uma clara disputa pelos sentidos do que está ocorrendo, envolvendo governos, mídias, partidos, movimentos sociais. É importante notar que nem sempre essa disputa tem como objetivo o fazer-se ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Como resposta possível a essa questão, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não constando nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A polícia mostra que tem consciência de que está numa guerra de imagens: um sem número de policiais tem atuado na repressão às manifestações sem suas identificações; quando convém, no entanto, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa.

pm Manifestações– continuação

Foto: Movimento Passe Livre

O que não se pode ignorar, no entanto, é que existe uma dimensão pedagógica na violência policial. Para um bocado de gente, as balas de borracha e o gás lacrimogêneo estão servido como uma espécie de rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. Um jornalista gastronômico inglês que participou das manifestações de ontem (11 de julho) no Rio de Janeiro, e sofreu na pele a brutalidade policial, escreveu em seu site: “agora entendo como eventos como esse podem radicalizar as pessoas”. Tais acontecimentos estão ensinando a população a respeito do fascismo do estado; está fazendo parte da classe média experimentar o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Ou as duas coisas. Eu tenho a impressão de que essa repolitização está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

E o que é que pode dar errado? Há um outro lado dessa dimensão constitutiva da violência: a ação policial, não mediada por lideranças políticas responsáveis e capazes (e está claro a ausência disso em cidades como o Rio de Janeiro), pode criar uma realidade política inexistente no Brasil: grupos organizados de guerrilha urbana, que se armam para enfrentar a polícia. Recentemente, em debate sobre as manifestações no Instituto de Estudos Avançados da USP, Massimo Canevacci, antropólogo italiano, mencionou o conceito de mimese como algo importante na compreensão do que está ocorrendo no Brasil, em sua relação com eventos internacionais, como o que ocorre na Turquia, por exemplo. Isso imediatamente me trouxe à mente algo que vi em minha pesquisa de campo na periferia de Buenos Aires, junto a torcidas organizadas de futebol. Encontrei uma correlação entre o momento em que a polícia militar instalou delegacias nos bairros de periferia e começou uma história de conflito com as torcidas locais, e o início do uso de armas de fogo pelas mesmas torcidas (coisa que anteriormente era vista como sinal de covardia). Obviamente é difícil afirmar que existe uma relação causal entre uma coisa e outra; de qualquer forma, a ideia de equilíbrio de forças é parte fundamental do discurso dos líderes de torcidas mais velhos. Minha hipótese é que a polícia, que obviamente não tem qualquer interesse em igualar forças, mas sim de subjugar o outro, ao inserir uma desigualdade nesse panorama de busca do equilíbrio de forças, acabou fazendo com que as torcidas buscassem as mesmas armas de combate, o que resultou na adoção de armas de fogo pelas mesmas. Novamente, trata-se apenas de uma hipótese. Mas vejamos o que está ocorrendo no Brasil: nas primeiras manifestações de junho, não havia qualquer intenção, por parte dos manifestantes, de entrar em combate com a polícia. Foram brutalizados; e a brutalização tem se repetido, por várias semanas consecutivas, no país todo. Como resultado, o que temos visto é a disposição crescente, por parte de grupos específicos (e cada vez maiores), em preparar-se para o combate com a polícia: do uso de vinagre como instrumento de resistência, nas manifestações de junho, passamos a ver o uso de rojões e coquetéis molotov, como na última quinta (11), no Rio de Janeiro. Esses grupos estão mimetizando a ação da polícia, e isso se dá porque as lideranças políticas estão com suas cabeças enterradas, como avestruzes, e deixaram à polícia a responsabilidade de fazer política pública de segurança. Ou seja, não há interlocução; a polícia impõe a violência como única forma de comunicação. O Brasil pode estar a caminho de criar o seu Weather Underground, e isso é tudo o que a polícia precisa para justificar níveis ainda mais altos de violência contra a população civil, em razão do fortalecimento de agendas da direita. É essencial que as novas lideranças políticas, dos movimentos sociais, busquem atuar para desarticular essa guerrilha urbana nascente, de modo que o movimento todo não caia nisso que é, claramente, uma armadilha.

Foto: Manifestações Brasil 24h (Facebook)

Dilma cede à pressão dos ruralistas e rifa os direitos indígenas, diz antropóloga da USP (Folha de S.Paulo)

14/07/2013 – 00h45

RICARDO MENDONÇA
DE SÃO PAULO

A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, uma das mais influentes estudiosas da questão indígena no país, acusa a gestão Dilma Rousseff de promover um desenvolvimentismo de “caráter selvagem”, sem “barreiras que atendam a imperativos de justiça, direitos humanos e conservação”.

Para ela, Dilma “parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos”.

Após citar “uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios”, ela chama a atenção para um projeto de lei –alçado ao status de urgência “com o beneplácito do líder do governo”– que permitiria o uso de terras indígenas para diversas finalidades, da construção de hidrelétricas à reforma agrária. “Se passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas”, diz.

Outro alerta é para a proposta que tenta tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações, passando atribuições ao Congresso. Isso, diz, fará com que a demarcação “deixe de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico e passe a ser exclusivamente político”.

Professora titular aposentada da USP e emérita da Universidade de Chicago, Cunha também tem críticas ao Judiciário. Ela fala numa “tendência crescente e preocupante” de paralisar processos de demarcação em seu início. E estima que, hoje, 90% das terras em fase de demarcação estão judicializadas.

Marcelo Justo-12.jul.13/Folhapress
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, em sua casa, em São Paulo

Folha – O que distingue o governo Dilma dos anteriores na questão indígena?

Manuela Carneiro da Cunha – Já disse em outra ocasião que neste governo a mão direita e a mão esquerda parecem se ignorar. A esquerda promove uma maior justiça social; a direita promove um chamado desenvolvimento sem qualquer limite.

O problema não é o desenvolvimentismo em si, mas seu caráter selvagem: a ausência de barreiras que atendam a imperativos de justiça, de direitos humanos, de conservação. Custos humanos e ambientais não estão sendo considerados.

Assiste-se agora a uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios. São vários projetos que destroem garantias que a Constituição de 1988 assegurou. E a União, que é a tutora, portanto a protetora dos direitos indígenas, não se ergue contra isso.

A própria AGU (Advocacia-Geral da União), que se pautava por uma tradição de defesa dos direitos indígenas, se aliou à bancada ruralista quando editou a infeliz portaria 303 (norma que estende para todas as demarcações as 19 condicionantes criadas pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso Raposa Serra do Sol, de Roraima).

Como interpretar as recentes ações do governo?

Adotando uma interpretação caridosa, eu diria que o governo cede a pressões dos ruralistas, e rifa os direitos indígenas em troca de apoio.

Assim, na última quarta deu-se uma manobra escandalosa na Câmara: aprovou-se colocar em votação por acordo de líderes, e com o beneplácito do líder do governo, o regime de urgência para o Projeto de Lei Complementar 227/2012, que regulamentaria o parágrafo 6 do artigo 231 da Constituição, aquele que trata das terras indígenas.

O que significa?

Esse parágrafo abre uma exceção nos direitos de posse e usufruto exclusivo dos índios quando se tratar de relevante interesse da União.

O projeto, de autoria do vice-presidente da Confederação Nacional da Agricultura, pretende definir o que seria relevante interesse público da União. É assombrosa essa definição: praticamente tudo nela cabe. Permitiria que em terras indígenas passassem estradas, oleodutos, linhas de transmissão, hidrelétricas, ferrovias.

Permitiria que se concedessem áreas a terceiros em faixas de fronteira, que se mantivessem posseiros, agrupamentos urbanos, assentamentos de reforma agrária e até novos assentamentos. Permitiria que se mantivessem todas as terras sob domínio privado quando da promulgação da Constituição de 1988.

Permitiria tudo?

Esta cláusula seria o equivalente da anistia que os ruralistas conseguiram no Código Florestal. Mas dessa vez não se trataria de escapar de multas e de ter de recompor paisagens degradadas. Seria legalizar e perpetuar o esbulho. Se uma lei como essa passar, será a destruição dos direitos territoriais indígenas.

As condicionantes do STF e a portaria da AGU que a senhora citou foram muito criticadas por indígenas e antropólogos. Quais são os problemas?

Várias dessas condicionantes surgiram como uma forma de permitir um consenso entre os ministros do STF em relação ao caso Raposa Serra do Sol. Quando a Advocacia-Geral da União quis estender a outros casos essas condicionantes, que ainda dependem de uma análise mais aprofundada do próprio Supremo, e que foram estabelecidas para aquele caso concreto, ela tentou consolidar abusivamente uma interpretação desfavorável aos índios.

Cite um exemplo

Um exemplo é a alegada proibição de ampliação de terras indígenas. Essa condicionante se referia ao caso da Raposa, cuja demarcação havia sido validada pelo tribunal: não caberia ampliação de uma área recém demarcada. Quando se aplica essa mesma condição às terras guaranis, demarcadas em outro contexto, décadas atrás, fica evidente o absurdo. Nesse sentido, a portaria 303 é muito grave, pois denota uma intenção evidente de prejudicar os direitos indígenas em favor de interesses econômicos, contrariando toda a história da própria AGU, que sempre se destacou na defesa desses direitos.

O governo quer envolver a Embrapa, entre outros órgãos, nos processos de demarcação. Para alguns, há uma tentativa de enfraquecer a Funai. Qual a opinião da senhora?

A presidenta parece estar cada vez mais refém do PMDB e do agronegócio, que se aliou aos evangélicos. Esse bloco se opõe ferozmente à demarcação e à desintrusão (retirada de invasores) das áreas indígenas.

Marta Azevedo (presidente da Funai que deixou o cargo em junho) anunciou desde sua posse que daria prioridade à situação nas regiões onde se concentram os interesses dos fazendeiros. Foi um feito no ano passado conseguir a desintrusão, após 20 anos, da área Xavante Marãiwatsede. Com isso, cutucou-se a onça com vara curta.

Há vários modos da mão direita do governo enfraquecer a causa dos índios. Uma é retirando atribuições da Funai. Outra é deixando-a sem dinheiro. E outra ainda é colocando como presidente alguém a serviço de outras agendas.
Corre o boato de que o senador Romero Jucá (PMDB-RR), que firmou sua carreira política como presidente da Funai e cuja atuação foi muito criticada, gostaria de colocar no posto uma pessoa sua.

Ganha força no Congresso a ideia de tirar do Executivo a responsabilidade exclusiva pelas demarcações. Que tal?

Se a PEC 215 (Proposta de Emenda à Constituição) for aprovada, acabarão os processos de demarcação de terras indígenas, pois os direitos dessas minorias serão submetidos aos jogos de poder de todos os grupos de interesse representados no Congresso Nacional, sobretudo à poderosa bancada ruralista.

Seria colocar a raposa para cuidar do galinheiro. A demarcação deixa de ser uma atividade de caráter eminentemente técnico, como é hoje, e passa ser exclusivamente política.

Mas o Projeto de Lei Complementar 227/2012 (que define bens de interesse da União para fins de demarcação) é muito mais grave. É um rolo compressor esmagando a Constituição Federal.

Em que medida o Poder Judiciário é corresponsável pela demora nas demarcações e pelos conflitos?

Estima-se que que pelo menos 90% das terras em processo de demarcação estão judicializadas. As demoras são às vezes absurdas. No sul da Bahia, o caso Pataxó levou quase 100 anos para ser julgado pelo STF. No Mato Grosso do Sul existem casos que estão há mais de 30 anos em processos judiciais.

Há uma tendência crescente e preocupante do Judiciário de paralisar processos de demarcação administrativa logo em seu início, com base na simples apresentação de títulos de propriedade dos fazendeiros. Teses que há alguns anos atrás não vingavam, por não serem condizentes com a Constituição, começam a ganhar espaço no Judiciário.

Isso tem atrasado muitos processos demarcatórios, em todas as regiões do país, e contribuído para aumentar o grau de conflito em muitos casos. É o que vem ocorrendo no Mato Grosso do Sul.

Justiça que tarda não é justiça. No caso dos guaranis e caiovás do Mato Grosso do Sul, há gerações inteiras que nunca puderam viver sua cultura. A organização social tradicional não tinha como ser mantida, costumes e rituais ligados à cultura do milho não puderam ser realizados. Isso não seria etnocídio?

Há relação entre a morte de um terena no Mato Grosso do Sul por forças policiais numa reintegração de posse de uma área já declarada indígena e os protestos de mundurucus em Belo Monte, no Pará?

Nos dois casos, a Polícia Federal atuou contra os índios, e isso é inédito. Mas a relação é mais profunda.

No Mato Grosso do Sul consumou-se um esbulho de terras que vitimou em particular os terenas e os caiovás. Estes, aliás, em situação muito pior do que a dos terenas. Esse mesmo processo, que já estava em vigor no chamado arco do desmatamento, no norte de Mato Grosso e sudeste do Pará, está agora atingindo o sudoeste do Pará e do Amazonas, ou seja, o Tapajós, onde vivem os mundurucus.

Em suma: os mundurucus podem bem ser os caiovás e terenas de amanhã. E os caiovás têm uma média de 0,5 hectare por família (índice considerado abaixo do mínimo necessário para a própria subsistência).

O governo anunciou que vai indenizar fazendeiros em Sidrolândia (MS) que estão em área já declarada de terenas. Antes, as autoridades diziam que não havia respaldo legal para esse tipo de solução. O que mudou?

Não se trata de comprar terras, mas de indenizar os detentores de títulos de propriedade que, décadas atrás, foram irregularmente emitidos pela União.

Os títulos eram irregulares na medida em que incidiam sobre terras indígenas. Portanto, não se aplica a todas as áreas onde exista conflito com particulares, mas só naquelas onde a União está na origem do conflito, repassando terras indígenas a terceiros.

Para isso não é necessário mudar uma vírgula da legislação vigente. Depende apenas da consolidação de um entendimento jurídico pela AGU e de vontade política de desembolsar os recursos.

O que o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria Geral) anunciou é a possibilidade de usar recursos do Tesouro para compensar por títulos de boa fé que alguns fazendeiros possuem em terras que estão judicializadas no Mato Grosso do Sul.

Os Estados também emitiram títulos sobre terras indígenas, e muito. No Mato Grosso do Sul, a Assembleia Legislativa aprovou por unanimidade a criação de um fundo para compensar em dinheiro títulos de boa fé em terras indígenas. É uma solução semelhante à que o governo federal está propondo. Mas o fundo do Mato Grosso do Sul não tem um tostão. No caso da União, já há uma emenda parlamentar aprovada que destina R$ 50 milhões para acordos.

O importante agora é priorizar os casos mais dramáticos que envolvem os caiovás. E impedir o favorecimento de grandes fazendeiros e a abertura de uma nova indústria de indenizações, que já sangrou o Tesouro na década de 80.

Gilberto Carvalho também disse que o Brasil está prestes a deixar a lista dos países acusados de desrespeitar a Convenção 169 da OIT, documento que prevê consulta prévia aos indígenas antes de decisões que possam afetar seus direitos, como a construção de hidrelétricas. Há motivo para comemorar?

A Secretaria Geral da Presidência vem fazendo um trabalho admirável dentro do governo, tentando promover a regulamentação da consulta prévia aos povos indígenas, como determina a Convenção 169. Mas falta combinar com o restante do governo, que age em sentido contrário.

Veja o caso da implantação de hidrelétricas goela abaixo dos povos indígenas no Tapajós: o governo diz que quer consultá-los sobre o complexo de hidrelétricas, mas ao mesmo tempo já marca data para o leilão e inclusive para a emissão da licença ambiental das que ele considera principais. Que consulta é essa?

Uma verdadeira consulta se dá nas comunidades -e não só com as lideranças ou organizações indígenas-, no tempo delas e em língua que elas entendam e possam se expressar. E não pode ser uma atividade pontual, e sim um processo que acompanhe todas as fases do projeto.

Se está tudo decidido de antemão, vai-se consultar os índios sobre o que? Se querem bolsa-pescado ou tanques de piscicultura depois que os peixes do rio sumirem? A cor da parede da barragem?

Houve um aumento significativo da população indígena entre 1991 e 2000, conforme os Censos desses anos. Mas de 2000 a 2010, o crescimento foi proporcionalmente menor do que na população em geral. Alguma hipótese para essa “volatilidade demográfica”?

Os demógrafos explicam esse fenômeno. A categoria “indígena” surgiu no Censo de 1991. Até então a maioria dos índios se declaravam pardos, e muitas vezes também negros ou brancos. Em 1991 e em 2000, houve uma grande migração: muitos que se declaravam anteriormente pardos passaram a se declarar indígenas.

Isso provavelmente incluía o que (o antropólogo) Darcy Ribeiro chamou de “índios genéricos”, aqueles que, sendo descendentes de índios, não viviam em aldeias nem conheciam os povos a que pertenciam seus pais ou avós. É o que explicaria 60 mil pessoas que se declararam indígenas em São Paulo no Censo de 2000.

Já no Censo de 2010, é possível que o fato de se perguntar também a etnia e a língua indígena que se falava tenha inibido a auto-declaração desses descendentes de índios. Uma parte da variação resultou, portanto, do próprio Censo.
Mas, desde 1991, observa-se um crescimento demográfico maior da população indígena do que aquele da população não indígena.

O crescimento entre 1991 e 2000 foi da ordem de 3,5% ao ano em média, e o ocorrido entre 2000 e 2010 foi também dessa mesma ordem. Mas mantem-se um diferencial na mortalidade infantil: os indígenas ainda possuem uma taxa de mortalidade infantil muito maior do que aquela verificada entre os negros e brancos e amarelos.

A ideia, como princípio, de que o índio tem direito à terra nunca foi muito questionada no Brasil, conforme a senhora mesmo já disse. A Constituição não só consolidou esse entendimento como estabeleceu prazo de cinco anos para todas as demarcações. Por que isso não foi resolvido até hoje?

A legislação colonial e todas as constituições do Brasil sempre reconheceram os direitos dos índios a suas terras. Mas uma coisa é o princípio, outra sua aplicação. Na fábula clássica, o lobo encontra justificações sucessivas para devorar o carneiro. É que, como diz La Fontaine (escritor francês do século 17), “a razão do mais forte é sempre a melhor”.

Estamos assistindo a um remake do Brasil passado, como se o século 20 nunca houvesse existido. Voltamos a ser exportadores de commodities, voltamos a explorar riquezas sem consideração pelos custos humanos e ambientais. E voltamos também ao expediente dos séculos 16 e 17: afirma-se o princípio, mas abrem-se exceções que o tornam inócuo.

É o que tenta fazer o Projeto de Lei 227/2012: define o relevante interesse da União com tal latitude que as garantias constitucionais dos índios se tornam letra morta.

Protestos podem voltar mais fortes e incontroláveis, diz sociólogo (Deutsche Welle)

Boaventura de Sousa Santos aponta a insatisfação popular como fruto da expansão da classe média brasileira, que ficou mais exigente. Para ele, só uma reforma política profunda pode evitar que povo volte às ruas.

Data 09.07.2013

Autoria Fernando Caulyt

Edição Renate Krieger / Rafael Plaisant

Os protestos no Brasil perderam intensidade, mas, se o governo não der uma resposta rápida às reivindicações do povo, podem voltar ainda mais fortes – e de forma incontrolável. O alerta é do português Boaventura de Sousa Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Yale (EUA) e diretor do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (Portugal).

Autor de estudos sobre emancipação social, direitos coletivos e democracia participativa, ele vê a onda de indignação que tomou as ruas do país como fruto das mudanças vividas pela sociedade brasileira nas últimas décadas. A classe média, afirma, cresceu e com ela as demandas dos cidadãos por melhores serviços públicos ganharam força.

Para Boaventura, o Congresso está “divorciado das prioridades dos cidadãos” e, por isso, uma reforma política se faz necessária. “Há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda. Neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades”, afirma em entrevista à DW Brasil.

Deutsche Welle: Como o senhor avalia a onda de protestos?

Boaventura de Sousa Santos: As manifestações foram uma surpresa tanto no plano interno como no plano internacional. Tudo levava a crer que tudo no Brasil estava indo bem. Internamente, os próprios partidos, especialmente o do governo, foram apanhados de surpresa. O que foi surpresa foi o motivo para que a explosão ocorresse. Havia um mal-estar, e ele resulta do êxito das políticas que foram instituídas no Brasil a partir de 2003 [quando Lula assumiu o poder] e que fizeram com que 40 milhões de pessoas entrassem para a classe média.

Protestos foram realizados em cidades brasileiras e no exterior

Elas criaram expectativas não só no que diz respeito à sua vida, mas também ao modo como se posicionam na sociedade, ao modo como usam os serviços públicos. E esses 40 milhões começaram a ver que, nos últimos tempos, pelo menos, havia uma certa estagnação dessas políticas. Os serviços públicos não acompanharam as transformações sociais.

A chamada “classe C” ficou mais exigente?

Eu penso que sim, pois as políticas de inclusão realizadas nos últimos dez anos atingiram seu limite e as formas de participação não são hoje tão eficazes quanto eram. Além disso, o serviço público não se desenvolveu como deveria. O caso da saúde é significativo. Por outro lado, num país que tem uma tradição de movimentos sociais fortes, eles viram suas atividades nos últimos tempos se tornarem bastante restringidas. Por isso começou a haver uma certa frustração quanto às prioridades do governo e, naturalmente, um desgaste.

Que medidas o governo Dilma deveria tomar para atender às exigências da população?

A medida fundamental é uma reforma política. Fica evidente que há medidas de emergência que têm de ser tomadas, mas nada disso é possível se não houver uma reforma política profunda, porque neste momento todo o sistema político tende a perverter e a inverter as suas prioridades. Dilma tomou essa medida corajosa, de propor uma revisão constitucional, mas o Congresso não tem grande vontade política para uma reforma política profunda.

As respostas que o governo e o Congresso deram até agora não são satisfatórias?

Como é que o Congresso é capaz de aprovar num prazo de uma semana tantas leis e questões importantes, como a [tipificação da] corrupção como crime hediondo? Essa correria tem um lado positivo e um lado negativo. Isso mostra que o Congresso só se move se houver pressão popular. Portanto, esse é o lado negativo: o Congresso está divorciado das prioridades dos cidadãos e só acorda quando os cidadãos o obrigam a acordar. É por isso que é necessária uma reforma política.

Sousa Santos diz que existe uma crise de representatividade no sistema político brasileiro e de outros países

Para o senhor, quem são os manifestantes?

As manifestações são muito importantes para pressionar as instituições, os partidos e os governos, mas elas não fazem propriamente uma formulação política. O que elas fazem é pressão para que haja formulação política. Vimos no Brasil como as agendas eram tão diversas quanto a composição das classes presentes nos protestos. Houve uma forte presença da juventude. As manifestações têm uma composição e, misturadas nelas, há forças aproveitadoras que tentaram tirar dividendos contra o PT. Mas elas são uma minoria. É uma insatisfação popular, sobretudo das camadas mais jovens, contra uma política que não responde aos seus anseios.

É possível manter uma mobilização de massa a longo prazo?

Mesmo nos casos dos países que ela se mantém durante mais tempo, como durante o Occupy, nos EUA, e agora no Egito, tudo acontece por etapas. Portanto, há momentos de refluxo. E eu penso que, no caso brasileiro, ela não se aguenta neste momento, embora possa vir a explodir mais tarde. Neste momento há uma certa espera, uma espera com esperança de que alguma coisa se faça. Se ela não se fizer, a situação pode voltar, pode até, aliás, ser mais incontrolável. Se não houver uma reposta rápida a estas reivindicações, o refluxo atual voltará eventualmente mais incontrolável e mais forte.

Muitos manifestantes nas ruas levantaram uma bandeira antipartidarista. Existe atualmente uma crise de representatividade no sistema político brasileiro?

Acho que sim. E neste momento não só no [sistema político] brasileiro, mas também no europeu. E ocorre fundamentalmente do fato de que os governos hoje estão capturados pelo capital financeiro internacional, se ver bem, em função das exigências do capital financeiro. O próprio Brasil compromete uma parte significativa de sua arrecadação para o pagamento do serviço da dívida. E este também é o caso da Europa. No fundo, é isso que está criando essa crise de representação, na medida em que os cidadãos não se sentem representados pelos seus representantes e é isso que faz com que as pessoas venham para a rua.

Para Sousa Santos, o Congresso Nacional está divorciado das prioridades dos cidadãos

As manifestações foram, de certa forma, uma demonstração de decepção com o governo. Esse governo do PT, apesar das medidas de inclusão social, perdeu a credibilidade?

Não. O problema é que, enfim, é um governo de esquerda que, no entanto, tem uma coligação problemática, dada a organização partidária no Brasil. O problema é que os brasileiros conhecem muito bem o que foram as políticas de direita [dos governos] anteriores, nenhum deles realizou as políticas de inclusão social que agora têm lugar. E, portanto, há um certo descrédito na política em seu conjunto. O PT e o governo da presidente Dilma têm uma crise de legitimidade a resolver. E só podem resolver com mais democracia, com mais políticas de inclusão, com mais dinheiro para os cidadãos e menos para as grandes empreiteiras e para o grande capital financeiro internacional.

Levante Popular da Juventude quer renovar práticas da esquerda (Carta Maior)

Fonte: Carta Maior, 22 de outubro de 2012

Porto Alegre – O ano de 2012 viu nascer uma novidade no cenário político brasileiro. Um grupo de jovens, organizado em torno do Levante Popular da Juventude, realizou uma série de atos denominados “escrachos” em frente às residências ou locais de trabalho de acusados de praticar crimes durante a ditadura. Em várias cidades do país, centenas de jovens saíram às ruas para denunciar esses crimes e defender a instalação da Comissão Nacional da Verdade para restaurar a memória, a verdade e a justiça desse período. Os atos contra os agentes da ditadura deram visibilidade nacional a esse movimento cujas origens remontam a 2005, no Rio Grande do Sul, a partir de militantes ligados à Via Campesina e à Consulta Popular. Em entrevista à Carta Maior, concedida na sede da organização em Porto Alegre, Lucio Centeno, Janaita Hartmann e Lauro Almeida Duvoisin falam sobre esse novo movimento social que tem como objetivo estratégico maior a construção de um projeto popular para o Brasil numa perspectiva socialista.

O marco da nacionalização do movimento ocorreu em fevereiro de 2012, durante um acampamento nacional em Santa Cruz do Sul (RS) que reuniu em torno de mil jovens de dezessete estados. Reunindo estudantes universitários e secundaristas, jovens das periferias das cidades e também do campo, o Levante se propõe a resgatar práticas relegadas a um segundo plano pela esquerda partidária, como o trabalho de base organizado a partir de células de militância, e defende a unidade dos movimentos sociais e dos partidos de esquerda em torno de alguns objetivos comuns: derrotar a direita e o projeto neoliberal no Brasil e conquistar uma ampla maioria na sociedade para um processo de transformação social, política e econômica no país.

O que é o Levante Popular da Juventude? Quando nasceu?

Lucio Centeno: Nenhum de nós aqui iniciou essa construção do Levante. Ela foi fruto de um trabalho de mobilização e da iniciativa que alguns companheiros tiveram no final de 2005, quando movimentos ligados à Via Campesina, incentivados pela Consulta Popular, identificaram que era necessário naquele momento fortalecer o processo de organização da juventude, em especial da juventude urbana. No campo já havia um processo relativo de organização com os movimentos da Via, mas muito pouco no meio urbano. A partir dessa leitura, alguns companheiros assumiram a tarefa de construir o que viria a ser o Levante Popular da Juventude. E o Levante nasce com a característica de ser uma ferramenta da juventude e não apenas de um segmento desse setor. Desde o início, se tinha a leitura da necessidade de se organizar não apenas os jovens estudantes universitários, mas também os jovens das periferias urbanas e, principalmente, articular essa juventude que não tinha um referencial de organização como tinha a juventude camponesa, organizada em torno da Via. O Levante nasce, então, com essa característica de aglutinar diferentes segmentos da juventude a partir de diferentes meios de inserção.

Neste sentido, é um movimento original. Normalmente o que há são movimentos de juventude ligados a partidos e a alguns segmentos específicos, como é o caso do movimento estudantil…

Lucio Centeno: Sim, o Levante nasce com esse referencial da esquerda social, do campo dos movimentos sociais. Ele se propõe a ser um movimento social e não uma juventude partidária, com esse recorte de querer articular jovens estudantes universitários, secundaristas e jovens da periferia urbana.

Lauro Duvoisin: Essa iniciativa surgiu também com base numa leitura que identifica, nos anos 2000, uma mudança nos setores mais dinâmicos da luta social. Embora exista ainda uma dinâmica grande lutas do MST, por exemplo, que foi uma referência nos anos 90, já ficava claro neste período que, sozinho, o MST não conseguiria seguir adiante. Neste período havia também uma crítica muito grande ao trabalho urbano sindical mais clássico da esquerda. Então, o Levante surge nesse contexto com o objetivo de renovar as práticas da esquerda e de resgatar uma prática que foi sendo negligenciada, que é o trabalho de base, aquilo que as CEBs (Comunidades Eclesiais de Base) faziam nos anos 70 e 80 e que sustentou boa parte do acúmulo que a esquerda teve neste período.

A ideia é que a juventude pode ser o setor dinâmico para voltar a impulsionar a luta. Daí a decisão de não segmentar a juventude como uma categoria no sentido econômico-corporativo, e fazer com que ela irradie sua força e sua prática para outros setores da sociedade, seja da classe trabalhadora urbana, do meio camponês ou do meio popular urbano. O objetivo é que ela forme novas referências e novos militantes para que o movimento cresça em todas essas frentes.

Qual é o horizonte estratégico do trabalho do Levante que transita em um espaço comum ao dos partidos de esquerda e ao dos movimentos sociais? Qual é o objetivo das lutas e das mobilizações?

Lucio Centeno: Esse é outro aspecto diferencial do Levante na medida em que ele não tem uma bandeira econômica setorial definida. O MST, por exemplo, tem claramente um horizonte que é a construção de uma reforma agrária popular. Já o Levante, por aglutinar diferentes setores da juventude e, principalmente, por ter uma perspectiva de luta política por um projeto de sociedade, e não só por demandas específicas, desenvolve um conjunto de lutas a partir daquilo que entendemos como um projeto popular para o Brasil. Então, embora não tenhamos uma bandeira claramente definida, pretendemos fortalecer e contribuir para a construção de um conjunto de bandeiras que apontam para esse projeto popular para o Brasil, para o fortalecimento de um projeto democrático e popular, que passa pela reforma agrária, pela descentralização dos meios de comunicação, pela garantia dos direitos básicos de educação, saúde, moradia, transporte.

Dentro desse guarda-chuva maior do projeto popular, os militantes do Levante, conforme sua inserção em um meio específico, trabalham contradições que envolvem esses jovens, relacionando esses problemas com a construção de um projeto maior para o país.

Lauro Duvoisin: A gente fala muitas vezes que o Levante não nasceu para dar conta de uma demanda específica, mas para buscar qual é a pauta capaz de levantar a juventude. E como o Lúcio afirmou, o Levante também se insere em uma estratégia que é maior do que ele, que é a construção, pelo campo da esquerda popular, de um projeto para o Brasil. Temos clareza que esse projeto não será construído só pela juventude. O Levante é uma parte de todo esse movimento. Sua tarefa é organizar a juventude por demandas específicas e por um projeto político maior, procurando também formar militantes para todas as outras frentes que compõem essa estratégia.

Nos últimos meses, o Levante ganhou maior visibilidade nacional com os escrachos contra agentes da ditadura realizados em várias cidades do país. Como surgiu essa ideia e qual o lugar desse tema na agenda da organização, no momento em que a Comissão da Verdade investiga crimes praticados por agentes do Estado naquele período?

Lucio Centeno: O Levante nasceu no Rio Grande do Sul em 2006, como um movimento estadual. Em outros estados, já havia mobilizações com a juventude que eram chamadas de juventude do campo com a cidade, mas ainda não havia uma proposta organizativa. Aqui no Rio Grande do Sul conseguimos transformar essa mobilização em um movimento social autônomo da juventude. Passaram-se cerca de cinco anos até que, em 2011, iniciou um processo de nacionalização do Levante, juntando experiências parecidas do mesmo campo político. Assim, o Levante se constituiu em dezessete estados. O marco de lançamento dessa nacionalização ocorreu agora em fevereiro de 2012, quando realizamos um acampamento nacional em Santa Cruz do Sul que reuniu em torno de mil jovens desses dezessete estados.

A partir dessa nacionalização, se constituiu uma organicidade nacional, com uma coordenação representativa desses estados e desses movimentos. Essa coordenação nacional começou a elaborar a estratégia da organização e, naquele momento, se identificou na conjuntura que essa bandeira da memória, verdade e justiça não estava sendo efetivamente empunhada com a devida importância por praticamente nenhum setor, para fazer um contraponto a movimentação que os militares vinham fazendo para tentar desconstituir a Comissão Nacional da Verdade. Então, naquele momento tínhamos os militares atuando nos bastidores, o governo acuado e a imprensa de alguma forma sendo conivente com esse processo de ocultação dos crimes da ditadura. Concluímos então que seria necessário uma mobilização da sociedade para que a Comissão da Verdade fosse efetivada.

Vimos, a partir da experiência de organizações parceiras da América Latina, a metodologia dos escrachos como a melhor forma de fazer ecoar essa bandeira. Mapeamos então quais Estados poderiam fazer essa ação e trabalhamos de forma coordenada nacionalmente para que tivéssemos um dia de ação nacional denunciando os torturadores e a impunidade dos crimes da ditadura. A partir disso, conseguimos uma grande adesão de vários setores da sociedade que impulsionaram o governo para garantir a instalação da Comissão da Verdade.

Lauro Duvoisin: Foi a junção de um momento, de uma oportunidade, com a condição que tínhamos alcançado. Se não tivéssemos uma organização de âmbito nacional naquele momento, talvez não conseguíssemos fazer uma intervenção daquela dimensão. A oportunidade estava ali. Conseguimos fazer uma leitura que se demonstrou correta no sentido de que aquela pauta (Comissão da Verdade) atingia o centro da conjuntura nacional. Pela primeira vez, o Levante conseguiu influenciar a conjuntura nacional efetivamente, embora já estivéssemos envolvidos em outras lutas locais.

Outra coisa importante nessas ações tem a ver com a questão do método que empregamos, que diz um pouco do que o Levante quer fazer, que é renovar os métodos de luta. Acreditamos que a luta que precisamos fazer é uma luta de massas. No entanto, no atual período, uma forma de luta como os escrachos se mostrou de grande valia para criar um impacto público sobre o tema da ditadura. É isso que queremos fazer, renovar os métodos de luta. A gente carece disso na esquerda.

Uma coisa que chamou muita atenção com os escrachos foi a grande participação da juventude nesses atos, algo que até bem pouco tempo não acontecia. Até então, o tema da ditadura não mobilizava a juventude. O que mudou?

Janaita Hartmann: Acho que isso tem muito a ver com a recuperação que o Levante faz da tradição de agitação e propaganda da esquerda. Desde 2008, a gente faz intervenções para lembrar os mortos do massacre de Eldorado de Carajás, com um teatro em lugar público. Então já temos uma história de ações desse tipo. Nós acertamos ao juntar esse trabalho de agitação que a gente já vinha fazendo com um tema da conjuntura que há muito tempo não era resgatado dessa forma, e por uma geração que não passou pela ditadura.

Lauro Duvoisin: Parece que houve uma quebra de continuidade geracional no Brasil. Na Argentina, desde muito tempo há a luta das Madres que se tornou um símbolo continental. No Brasil, embora exista a luta dos familiares, essa luta teve muito menos projeção social do que no caso da Argentina ou do próprio Chile. Então, parece que houve um atraso um pouco maior no Brasil. Mas essa pauta está viva na sociedade e não se esconde a história dessa forma. Isso mostra também que a questão da anistia, tal como foi conduzida pelos militares no final da ditadura, não está resolvida no Brasil.

Lucio Centeno: As intervenções do Levante conseguiram gerar adesões em diferentes setores da sociedade, que até então não estavam se posicionando muito sobre esse tema. A partir dos nossos atos, todo um campo se configurou em defesa dessa bandeira e isolou quem defendia a ocultação da verdade e a manutenção da impunidade. Essa é uma questão muito importante para nós: desenvolver lutas que dê sustentação para um projeto popular para o país.

Esse projeto popular a que vocês se referem é um projeto de poder? Se é, em algum momento, o Levante terá que se colocar a questão do partido. Vocês fazem esse debate, tem a pretensão de, em algum momento, se constituir como partido?

Lauro Duvoisin: A gente acredita que o projeto popular passa, sim, por um projeto de poder. Mas o grande desafio no momento é conseguir retomar as grandes lutas de massa no Brasil para que esse projeto se torne uma necessidade da sociedade. Um projeto de poder não é um projeto de um pequeno grupo ou de uma vanguarda isolada. Ele tem que se precedido de um processo que questione a organização social e a estrutura econômica da sociedade. É com esse espírito que o Levante entra na história. É evidente que os partidos e outras organizações têm uma grande contribuição a dar nesse processo. Mas sem a retomada das mobilizações de massa nenhuma organização conseguirá levar adiante esse projeto.

Considerando a grande participação nos escrachos promovidos pelo Levante e outras mobilizações de juventude, como essa que ocorreu em Porto Alegre recentemente contra a privatização de espaços públicos, parece haver uma ebulição de demandas na juventude que não está encontrando expressão nos partidos de esquerda…

Lucio Centeno: Quando começamos a fazer os escrachos fomos questionados sobre as mobilizações espontâneas da juventude na Europa e nos Estados Unidos. É evidente que são protestos importantes e que expressam uma inconformidade com o sistema, mas, enquanto movimento social, acreditamos que esses processos de mobilização requerem organização. Existe um certo fetiche em torno dessa ideia da capacidade das redes sociais e de novas ferramentas tecnológicas serem grandes atores mobilizadores no próximo período. Consideramos esses atores importantes, mas é imprescindível o processo organizativo na sociedade, que as pessoas tenham uma referência de organização, que não fiquem refém de vontades individuais ou de ativistas que atuam pontualmente.

Lauro Duvoisin: É por isso também que a gente preza a unidade tanto dos movimentos sociais como dos partidos de esquerda. Acreditamos que todas as organizações que tenham referência num projeto de democratização, de ampliação dos direitos, de resgate da liberdade na sociedade e na perspectiva do socialismo, devem fazer um esforço de unidade que hoje, muitas vezes, parece ser um esforço de fragmentação, seja no campo eleitoral, seja em torno de disputas menores e elementos táticos secundários que não são estratégicos. Para isso, é preciso também dar exemplos de unidade. O Levante procura dar esse exemplo.

Como é que o Levante se posiciona frente a períodos eleitorais. Qual foi a posição nestas eleições municipais?

Lauro Duvoisin: A nossa linha é de combate à direita, não só nas eleições, mas em todos os espaços da sociedade.

O que é a direita hoje no Brasil?

Lauro Duvoisin: Existe mais ou menos um consenso sobre o que é a direita no Brasil. Há um bloco político-partidário formado por PSDB, DEM e alguns partidos menores, que aglutina as forças defensoras do projeto neoliberal. Para nós, quem se opõem ao neoliberalismo não é direita. Mas o Levante é um movimento social autônomo que não tem vinculação partidária.

Janaita Hartmann: O Levante nasce da Via Campesina e da Consulta Popular, como uma organização autônoma de jovens. Essas organizações ajudaram a criar o Levante, mas ele é autônomo e passou a ter vida própria, tem uma organicidade própria. Ele permite a presença de militantes que tenham vinculação partidária desde que se respeite a autonomia do movimento.

Quais são os planos do Levante para os próximos meses. O tema da ditadura e da Comissão da Verdade seguirá ocupando um lugar central na agenda do movimento?

Lucio Centeno: O Levante se engaja num conjunto bastante diverso de lutas. Nós nos organizamos a partir de células, grupos de jovens militantes que estão inseridos em algum território, seja uma universidade, um assentamento, um bairro ou uma comunidade. Essa célula tem a tarefa de fazer trabalho de base e estimular as lutas nestes locais procurando mobilizar os jovens destes espaços. Temos uma célula, por exemplo, na região da Cruzeiro, aqui em Porto Alegre, que está sendo atingida pela duplicação da avenida Tronco, que é uma das chamadas obras da Copa.
Nesta região, temos uma atuação prioritariamente voltada para organizar os jovens e suas famílias e pressionar a prefeitura para que garanta o direito à moradia dessas pessoas. É uma luta local, específica, mas que está associada a um projeto mais amplo. Assim, cada célula está envolvida em alguma luta específica. Mas entendemos que há a necessidade de convergência dessas lutas específicas para lutas mais gerais, como essa em defesa da memória, da verdade e da justiça, que terá continuidade, agora juntamente com os comitês populares que se multiplicaram em vários Estados. O Levante não vai atuar isolado neste processo.

Uma segunda pauta que estamos começando a desenvolver é a defesa da construção de um projeto popular de educação. O Brasil sofreu durante muitos anos a implementação de uma educação neoliberal. A partir das gestões do PT tivemos um relativo avanço nesta área, com a criação de novas universidades e escolas técnicas. Em comparação ao paradigma neoliberal foi um avanço, mas em comparação com as demandas históricas da juventude em termos de acesso à educação, ainda há muito que avançar.

The Real War on Reality (New York Time)

THE STONE June 14, 2013, 12:00 pm

By PETER LUDLOW

If there is one thing we can take away from the news of recent weeks it is this: the modern American surveillance state is not really the stuff of paranoid fantasies; it has arrived.

The revelations about the National Security Agency’s PRISM data collection program have raised awareness — and understandably, concern and fears — among American and those abroad, about the reach and power of secret intelligence gatherers operating behind the facades of government and business.

Surveillance and deception are not just fodder for the next “Matrix” movie, but a real sort of epistemic warfare.

But those revelations, captivating as they are, have been partial —they primarily focus on one government agency and on the surveillance end of intelligence work, purportedly done in the interest of national security. What has received less attention is the fact that most intelligence work today is not carried out by government agencies but by private intelligence firms and that much of that work involves another common aspect of intelligence work: deception. That is, it is involved not just with the concealment of reality, but with the manufacture of it.

The realm of secrecy and deception among shadowy yet powerful forces may sound like the province of investigative reporters, thriller novelists and Hollywood moviemakers — and it is — but it is also a matter for philosophers. More accurately, understanding deception and and how it can be exposed has been a principle project of philosophy for the last 2500 years. And it is a place where the work of journalists, philosophers and other truth-seekers can meet.

In one of the most referenced allegories in the Western intellectual tradition, Plato describes a group of individuals shackled inside a cave with a fire behind them. They are able to see only shadows cast upon a wall by the people walking behind them. They mistake shadows for reality. To see things as they truly are, they need to be unshackled and make their way outside the cave. Reporting on the world as it truly is outside the cave is one of the foundational duties of philosophers.

In a more contemporary sense, we should also think of the efforts to operate in total secrecy and engage in the creation of false impressions and realities as a problem area in epistemology — the branch of philosophy concerned with the nature of knowledge. And philosophers interested in optimizing our knowledge should consider such surveillance and deception not just fodder for the next “Matrix” movie, but as real sort of epistemic warfare.


To get some perspective on the manipulative role that private intelligence agencies play in our society, it is worth examining information that has been revealed by some significant hacks in the past few years of previously secret data.

Important insight into the world these companies came from a 2010 hack by a group best known as LulzSec  (at the time the group was called Internet Feds), which targeted the private intelligence firm HBGary Federal.  That hack yielded 75,000 e-mails.  It revealed, for example, that Bank of America approached the Department of Justice over concerns about information that WikiLeaks had about it.  The Department of Justice in turn referred Bank of America to the lobbying firm Hunton and Willliams, which in turn connected the bank with a group of information security firms collectively known as Team Themis.

Team Themis (a group that included HBGary and the private intelligence and security firms Palantir Technologies, Berico Technologies and Endgame Systems) was effectively brought in to find a way to undermine the credibility of WikiLeaks and the journalist Glenn Greenwald (who recently broke the story of Edward Snowden’s leak of the N.S.A.’s Prism program),  because of Greenwald’s support for WikiLeaks. Specifically, the plan called for actions to “sabotage or discredit the opposing organization” including a plan to submit fake documents and then call out the error. As for Greenwald, it was argued that he would cave “if pushed” because he would “choose professional preservation over cause.” That evidently wasn’t the case.

Team Themis also developed a proposal for the Chamber of Commerce to undermine the credibility of one of its critics, a group called Chamber Watch. The proposal called for first creating a “false document, perhaps highlighting periodical financial information,” giving it to a progressive group opposing the Chamber, and then subsequently exposing the document as a fake to “prove that U.S. Chamber Watch cannot be trusted with information and/or tell the truth.”

(A photocopy of the proposal can be found here.)

In addition, the group proposed creating a “fake insider persona” to infiltrate Chamber Watch.  They would “create two fake insider personas, using one as leverage to discredit the other while confirming the legitimacy of the second.”

Psyops need not be conducted by nation states; they can be undertaken by anyone with the capabilities and the incentive to conduct them.

The hack also revealed evidence that Team Themis was developing a “persona management” system — a program, developed at the specific request of the United States Air Force, that allowed one user to control multiple online identities (“sock puppets”) for commenting in social media spaces, thus giving the appearance of grass roots support.  The contract was eventually awarded to another private intelligence firm.

This may sound like nothing so much as a “Matrix”-like fantasy, but it is distinctly real, and resembles in some ways the employment of “Psyops” (psychological operations), which as most students of recent American history know, have been part of the nation’s military strategy for decades. The military’s “Unconventional Warfare Training Manual” defines Psyops as “planned operations to convey selected information and indicators to foreign audiences to influence their emotions, motives, objective reasoning, and ultimately the behavior of foreign governments, organizations, groups, and individuals.” In other words, it is sometimes more effective to deceive a population into a false reality than it is to impose its will with force or conventional weapons.  Of course this could also apply to one’s own population if you chose to view it as an “enemy” whose “motives, reasoning, and behavior” needed to be controlled.

Psyops need not be conducted by nation states; they can be undertaken by anyone with the capabilities and the incentive to conduct them, and in the case of private intelligence contractors, there are both incentives (billions of dollars in contracts) and capabilities.


Several months after the hack of HBGary, a Chicago area activist and hacker named Jeremy Hammond successfully hacked into another private intelligence firm — Strategic Forcasting Inc., or Stratfor), and released approximately five million e-mails. This hack provided a remarkable insight into how the private security and intelligence companies view themselves vis a vis government security agencies like the C.I.A. In a 2004 e-mail to Stratfor employees, the firm’s founder and chairman George Friedman was downright dismissive of the C.I.A.’s capabilities relative to their own:  “Everyone in Langley [the C.I.A.] knows that we do things they have never been able to do with a small fraction of their resources. They have always asked how we did it. We can now show them and maybe they can learn.”

The Stratfor e-mails provided us just one more narrow glimpse into the world of the private security firms, but the view was frightening.  The leaked e-mails revealed surveillance activities to monitor protestors in Occupy Austin as well as Occupy’s relation to the environmental group Deep Green Resistance.  Staffers discussed how one of their own men went undercover (“U/C”) and inquired about an Occupy Austin General Assembly meeting to gain insight into how the group operates.

Stratfor was also involved inmonitoring activists who were seeking reparations for victims of a chemical plant disaster in Bhopal, India, including a group called Bophal Medical Appeal. But the targets also included The Yes Men, a satirical group that had humiliated Dow Chemical with a fake news conference announcing reparations for the victims.  Stratfor regularly copied several Dow officers on the minutia of activities by the two members of the Yes Men.

One intriguing e-mail revealed that the Coca-Cola company was asking Stratfor for intelligence on PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) with Stratfor vice president for Intelligence claiming that “The F.B.I. has a classified investigation on PETA operatives. I’ll see what I can uncover.” From this one could get the impression that the F.B.I. was in effect working as a private detective Stratfor and its corporate clients.

Stratfor also had a broad-ranging public relations campaign.  The e-mails revealed numerous media companies on its payroll. While one motivation for the partnerships was presumably to have sources of intelligence, Stratfor worked hard to have soap boxes from which to project its interests. In one 2007 e-mail, it seemed that Stratfor was close to securing a regular show on NPR: “[the producer] agreed that she wants to not just get George or Stratfor on one time on NPR but help us figure the right way to have a relationship between ‘Morning Edition’ and Stratfor.”

On May 28 Jeremy Hammond pled guilty to the Stratfor hack, noting that even if he could successfully defend himself against the charges he was facing, the Department of Justice promised him that he would face the same charges in eight different districts and he would be shipped to all of them in turn.  He would become a defendant for life.  He had no choice but to plea to a deal in which he may be sentenced to 10 years in prison.  But even as he made the plea he issued a statement, saying “I did this because I believe people have a right to know what governments and corporations are doing behind closed doors. I did what I believe is right.”  (In a video interview conducted by Glenn Greenwald with Edward Snowden in Hong Kong this week, Snowden expressed a similar ethical stance regarding his actions.)

Given the scope and content of what Hammond’s hacks exposed, his supporters agree that what he did was right. In their view, the private intelligence industry is effectively engaged in Psyops against American public., engaging in “planned operations to convey selected information to [us] to influence [our] emotions, motives, objective reasoning and, ultimately, [our] behavior”? Or as the philosopher might put it, they are engaged in epistemic warfare.

The Greek word deployed by Plato in “The Cave” — aletheia — is typically translated as truth, but is more aptly translated as “disclosure” or “uncovering” —   literally, “the state of not being hidden.”   Martin Heidegger, in an essay on the allegory of the cave, suggested that the process of uncovering was actually a precondition for having truth.  It would then follow that the goal of the truth-seeker is to help people in this disclosure — it is to defeat the illusory representations that prevent us from seeing the world the way it is.  There is no propositional truth to be had until this first task is complete.

This is the key to understanding why hackers like Jeremy Hammond are held in such high regard by their supporters.  They aren’t just fellow activists or fellow hackers — they are defending us from epistemic attack.  Their actions help lift the hood that is periodically pulled over our eyes to blind us from the truth.

Peter Ludlow is a professor of philosophy at Northwestern University and is currently co-producing (with Vivien Weisman) a documentary on Hacktivist actions against private intelligence firms and the surveillance state.

O sentido das manifestações não se resume à demanda por uma resposta do Estado. O mundo é muito maior que o sistema político.

Entrevista com Renzo Taddei, professor de sociologia da Universidade Federal de São Paulo, sobre as manifestações no Brasil.

Por Marcos Nepomuceno, do blog do Templo.

Como os protestos brasileiros se relacionam com as manifestações turcas, a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street nos EUA, o movimento 15M na Espanha e as revoltas das periferias em Paris e Londres, em 2005 e 2011? Há uma interseção comum de causas entre eles?

Em minha opinião, há três pontos de interseção que vale a pena mencionar. Em primeiro lugar, as instituições políticas formais sofrem de uma aguda crise de legitimidade, e em todos os contextos mencionados, ainda que por razões estruturais e conjunturais diferentes em cada um dos casos, essa crise cruzou a fronteira da estabilidade do convívio social cotidiano; as sociedades entraram em uma espécie de ebulição. Em segundo lugar, há a existência da Internet, da telefonia celular e das redes sociais como uma dimensão da vida coletiva que possibilita formas novas de relação entre pessoas, entre pessoas e ideias, e em especial entre as pessoas e a política. E, em terceiro lugar, o grande ator social em todos esses casos é a juventude. Essas são três coisas inter-relacionadas, e a relação entre elas está em franca transformação. O que vejo nas redes sociais, e o que escuto dos jovens sobre sua relação com a política, é diferente hoje do que era há apenas um mês.

Mas, ainda que pareça haver alguns pontos de interseção, é preciso ter cuidado para que não se esvazie as coisas que cada um destes eventos tem de peculiar. Há muitas e importantes diferenças entre eles. O Occupy Wall Street tem um foco muito claro na crítica à concentração de renda promovida pelo capitalismo liberal norte-americano, com o consequente empobrecimento de grande parte da população, e no fato de que o governo trabalha para a manutenção desse sistema concentrador. Não há referências à corrupção, como aqui – pelo menos não na forma como nós comumente entendemos corrupção. A agenda coletiva era bastante mais clara, e não houve destruição de equipamentos públicos; o caráter da manifestação foi, em geral, mais pacífico. Essa diferença de agendas pode explicar porque, por exemplo, uma coisa ocorreu em Wall Street, no coração financeiro do capitalismo mundial, e outra resultou na depredação de edifícios do governo, como ocorreu em Brasília há duas semanas.

Por outro lado, em Nova York, na Espanha, na Turquia e no Brasil há a participação de gente de todas as classes sociais, com especial participação das classes médias urbanas, enquanto os eventos de Paris e Londres são caracterizados pela presença majoritária de jovens oriundos de comunidades de imigrantes e de minorias étnicas empobrecidas. A questão da exclusão social é relevante aqui, porque enquanto isso parece ser um elemento claro dos eventos de Paris e Londres, há analistas que sugerem que parte do que está ocorrendo no Brasil está relacionado com a ascensão social de segmentos da população brasileira; estes, ao sentirem-se economicamente integrados, agora demandam integração política. Ou seja, o problema da exclusão estaria relacionado às manifestações de forma inversa em cada um dos casos. Essa hipótese, no entanto, me parece algo extravagante, carente de embasamento sociológico.

De todas as causas apresentadas, ou não, qual a mais urgente no caso brasileiro?

O Brasil é um país heterogêneo, com muita diversidade social e cultural, e o sentido de urgência está ligado ao lugar de onde se fala e se vive. Não se pode apresentar uma perspectiva como sendo universalmente mais urgente. Veja, por exemplo, a forma como Davi Kopenawa, líder yanomami, pensa as manifestações e as demandas sociais a elas vinculadas. Ainda que existam pontos de convergência com as demandas que vemos nas ruas, elas não se resumem à mesma coisa. Não há razão pra pensar que a causa é a mesma, nos diversos cantos do Brasil.

Além disso, as manifestações são fenômenos complexos, com diversos níveis de ação e interpretação possíveis. Há coisas não ditas verbalmente, mas materializadas na ação da multidão, que geralmente não são levadas em consideração. Por exemplo, na minha percepção, uma coisa não dita explicitamente nos cartazes e gritos da multidão, mas que é variável fundamental nisso tudo, é a emergência de novas formas de associação política, frente à incapacidade das instituições políticas em dar conta de novas formas de participação e novas demandas sociais. Os problemas causados pela natureza das polícias, e sua péssima relação com a população, é um sintoma disso. Trata-se de colocar em pauta as relações entre a população e o estado, relações que estão em franca transformação. Este é um processo que o estado tenta, sem sucesso, conter. São necessárias mudanças não apenas nas práticas de governo, mas no próprio desenho institucional do estado, e a desmilitarização das polícias é parte fundamental disso.

Desta forma, tentar encontrar uma causa fundamental ou mais urgente é negar a dimensão múltipla das manifestações, e é, ao mesmo tempo, não enxergar as transformações estruturais, de fundo, que estão ocorrendo. Isso se dá porque falar em “demandas” sugere que o problema é conjuntural, enquanto há uma dimensão estrutural em jogo. Essa transformação maior que está em curso está nos afastando das práticas de organização da sociedade ao redor de hierarquias verticais, onde há um esforço de homogeneização da população em pensamento e ação, de modo que seja mais fácil impor a todos uma visão daquilo que é “mais importante”. A nova realidade social parece estar se configurando de modo que grupos distintos, cada qual com suas agendas específicas, se juntam e separam o tempo todo, formando redes de colaboração que, apesar de eficazes, são mais ou menos instáveis. Nosso sistema político formal, ainda que fruto de mudanças recentes, de algumas décadas apenas, se mostra demasiado engessado para dar conta do dinamismo das transformações sociais que estão em curso. Há uma marcada assincronia entre estado e setores mais dinâmicos da população, e essa assincronia só parece crescer com o tempo.

Sendo assim, se há algo urgente no Brasil, esse algo é a transformação das instituições políticas de modo que estas sejam mais participativas, mais transparentes e mais flexíveis, para que o bom funcionamento do sistema não seja dependente da homogeneização e da alienação das massas, mas que o sistema possa, ao invés disso, se alimentar da energia e da sinergia produzida pela diversidade de formas de existir.

A horizontalidade na liderança dos movimentos abre espaço para sua descaracterização?

Para que ocorra uma descaracterização, é preciso que exista o reconhecimento de características previamente percebidas e entendidas. Mas isso não existe no momento atual. Muitas reuniões estão sendo organizadas, no meio acadêmico e no âmbito dos movimentos sociais, para que se construa um diagnóstico a respeito do que está ocorrendo. E esse diagnóstico é difícil porque o que está se passando não é uma coisa, mas muitas ao mesmo tempo, algumas vezes de forma inter-relacionada, outras de forma independente. Qualquer diagnóstico é parcial, e desconfio que a maioria tenha – em especial os que a mídia e o poder público se apressam em produzir -, na verdade, o objetivo de tentar colocar as coisas sob controle, de forma conservadora, mais do que efetivamente produzir uma descrição das coisas como estas estão ocorrendo. Os fenômenos que estamos observando desafiam nossos recursos linguísticos e narrativos. Isso sempre foi assim no que diz respeito aos fenômenos de multidão, e por isso mesmo é que há tanta ansiedade, tanto naqueles que tem no controle público seu trabalho, os gestores públicos, como naqueles que tem como trabalho o controle das ideias, dentre os quais estão os acadêmicos.

Como são muitas coisas ocorrendo ao mesmo tempo, e não uma massa homogênea de gente demandando a mesma coisa, não se pode esperar que exista apenas uma liderança, definida claramente. Isso faz o trabalho da mídia mais difícil, porque não se enquadra nos seus modelos limitados de análise da ação política. No entanto, devido ao fato de que a energia da multidão é, ao mesmo tempo, algo perigoso e também um recurso valioso para a transformação política, muitos tentam apoderar-se dela de alguma forma. Ou seja, é de se esperar que existam disputas pelo controle dessa energia. Em minha opinião, no entanto, a emergência de uma liderança é que descaracterizaria o movimento, porque seria a negação de sua multiplicidade, e o sinal de que essa multiplicidade foi sequestrada.

Isso não significa a ausência de liderança, mas essa liderança se constrói de outras formas, num padrão de redes de associações dinâmicas. São muitos líderes, com protagonismos variáveis, em função das formas como as redes se configuram a cada momento. Certamente se dirá que a ausência de liderança claramente identificável fará com que as manifestações se enfraqueçam, ou que uma parte da coisa toda descambe para o caos destrutivo. Ainda que existam riscos nisso tudo que estamos vivendo, grande parte dos analistas da mídia e do poder público não entende os novos padrões de liderança desses processos de associação e ação em rede. As manifestações vão cessar em algum momento, mas não em função de falta de liderança, nem porque a energia do movimento tenha deixado de existir. As associações em rede parecem ser capazes de manter essa energia em estado “latente” por tempo indeterminado, e então de provocar uma ação rápida e explosiva, através de padrões virais de comunicação distribuída. Líderes políticos (e jornalistas) que não dedicam parte do seu tempo a monitorar as redes sociais, e a Internet, de forma mais ampla, mostram não terem entendido esse aspecto das transformações sociais em curso.

Muitos grupos surgiram na disputa de sentidos do movimento após a emergência dos protestos. Como essa vontade social de se fazer ouvir pode ser aproveitada? Os conflitos internos e cisões fazem parte do amadurecimento do processo para mudanças efetivas?

Inicialmente, é preciso que se diga que as ações na disputa pelos sentidos nem sempre têm como objetivo vontades específicas de se fazer ouvir. Muitas vezes, é fruto de uma vontade de fazer com que o outro não seja ouvido. O uso de adjetivos como “vândalos” e “baderneiros”, por exemplo, é uma tentativa de sequestrar os sentidos associados a algumas das ações de grupos participantes nas manifestações, esvaziando a sua dimensão política. Infelizmente, os governos, e em maior escala a grande imprensa nacional, tem feito um uso estúpido e estupidificante destes adjetivos. As ações violentas, de ataque a automóveis e edifícios, não são aleatórias, como a imprensa faz crer. Podem ser reprováveis, mas não são aleatórias, e em não o sendo comunicam algo. Na Argentina em 2001, depredaram-se os bancos. Porque não houve ataque a bancos aqui? Houve manifestações em outros países onde lojas do McDonalds foram depredadas. Novamente, aqui no Brasil, neste momento, há certa constância em ataque a edifícios e automóveis ligados ao poder público e às corporações de imprensa. Isso é, obviamente, uma forma de comunicação. A questão então é: o que faz com que setores da população adotem esse tipo de prática como estratégia comunicativa?

Por outro lado, não faltam evidências, tanto na produção das ciências sociais como no discurso de ativistas dos movimentos sociais, de que a comunicação através da violência é um padrão usado pelo próprio estado na sua relação com setores marginalizados da população. Ou seja, há certas arenas da vida social em que o contexto se organiza em torno de práticas violentas, e impõe a violência como estratégia de ação comunicativa. Não é por acaso que os grupos que se envolvem em ações violentas são aqueles que não se reconhecem no discurso do estado ou da imprensa, acham que sua voz nunca é ouvida. Em minhas próprias pesquisas, vi muito isso entre lideranças de torcidas organizadas. Quando é que a imprensa dá espaço a tais lideranças? Nunca.

Como dizem alguns autores, a violência não é um fato, mas uma acusação: a polícia tem o poder autorizado de dizer o que e quem é violento, e fazer com que a sua própria violência fique invisível, não conste nos relatórios oficiais, nem em grande parte da cobertura da imprensa, que tem na própria polícia uma de suas mais importantes fontes de informação. Infelizmente, muitos dos nossos jornalistas são ventríloquos da polícia. Por isso a violência policial que temos visto é tão chocante e assustadora para a classe média, em especial para quem aprendeu a pensar o mundo através da televisão. A circulação livre e intensa de imagens e vídeos, e a ação de mídias alternativas, comprometidas com as causas dos movimentos sociais, estão rompendo esse regime visual ao qual estávamos submetidos. A polícia e o poder público não são mais capazes de regimentar a visualidade das violências e só mostrar a violência dos outros. A própria polícia percebeu isso: quando convém, a polícia filma as próprias ações e distribui o vídeo à imprensa; nas ações de repressão violenta às manifestações, por outro lado, um sem número de policiais escondeu suas identificações.

Há também os casos de violência entre manifestantes, o que tem assustado muitos analistas. Nas grandes manifestações em São Paulo, havia gente de todo o espectro político, da extrema direita (neonazistas) à extrema esquerda. O convívio entre esses grupos é muito difícil; não se pode esperar grandes alianças que consigam costurar todas as incompatibilidades; a lógica agora é mais molecular. O rechaço às bandeiras acabou tomando uma dimensão maior do que era de se imaginar, e minha opinião a esse respeito é que isso se dá em função dos níveis alarmantes de analfabetismo político no Brasil. Uma amiga, declaradamente anarquista, foi agredida por manifestantes porque caminhava ao lado de pessoas com camisetas do PT; segundo ela, qualquer um que usasse roupas vermelhas corria o risco de apanhar na Avenida Paulista. Pessoas dos movimentos sociais e das centrais sindicais também foram hostilizadas. O clima é de rejeição ao sistema político, mas a classe média politicamente analfabeta (ou politicamente analfabetizada) não consegue identificar com clareza quem é ou não integrante da parte podre do sistema, e acaba hostilizando tudo que seja minimamente institucionalizado. O próprio governo é agora vítima do conservadorismo dessa classe média politicamente analfabeta. No entanto, a atual situação de analfabetismo político é sistêmica e estrutural, e não apenas mérito ou culpa de alguém especificamente.

O que não se pode ignorar, no entanto, é a dimensão pedagógica disso tudo. Pra um bocado de gente que saiu às ruas, as balas de borracha ou gás lacrimogêneo serviram como rito de passagem de retorno, com muita energia, ao mundo da política. A classe média vive por experiência própria o fascismo do estado, experimenta o gosto da repressão policial que só as classes mais baixas vivem cotidianamente. Enfim, isso pode dar muito errado; mas pode ser também o início de um processo de repolitização da juventude. Eu tenho a impressão de que é isso que está acontecendo. Por isso as eleições do ano que vem serão extraordinariamente interessantes.

Por fim, a questão indaga sobre a vontade de se fazer ouvir. Antes de responder a isso, eu gostaria de colocar em questão até que ponto o fazer-se ouvir é o sentido disso tudo. Isso me parece redutor e perigoso, porque coloca o estado novamente no centro de tudo, e me parece que uma das coisas que está ocorrendo é exatamente o oposto disso. Ou seja, o que eu estou dizendo é que não se deve medir o que está ocorrendo, em seu sucesso ou fracasso, apenas em função da resposta do poder público. Não me parece que as pessoas saem às ruas apenas para provocar uma resposta do poder público. Talvez muitos o façam, ou seja essa a forma que dão sentido ao fato de saírem às ruas. No entanto, o que está ocorrendo é a formação de redes de organização, de articulação social, cultural e política, de forma independente do estado. Não estou aqui dizendo que as manifestações são anti-estado – ainda que certos grupos certamente o sejam, estes parecem ser uma minoria. O que estou dizendo é que, para que sejam capazes de organizar suas ações e veicular suas mensagens, novas formas de associação entre grupos surgem, inclusive novas formas de pensamento sobre a vida coletiva e sobre o mundo, que não tem o estado como mediador de tudo, o tempo todo. A política das redes sociais e das ruas é a política que não se resume a fazer referência direta ao que ocorre no Congresso Nacional ou nos muitos palácios-sedes de governo estadual. O mundo é muito maior do que o sistema político; o sistema político deve trabalhar para a plenitude da vida no mundo, e não o contrário.

Os protestos que se alastraram pelo país, e no resto do mundo, tem na internet seu epicentro de força e disseminação. Lá também reside sua fraqueza? Qual seria ela?

Não se sabe exatamente, de antemão, quais são as forças e fraquezas dos protestos. Essas coisas, força e fraqueza, se constroem à medida que os protestos ocorrem, que a coisa toda vai se desenrolando, nos tempos e nos espaços, físicos e virtuais. O que estamos vivendo mostra que a Internet é uma plataforma poderosíssima, em sua capacidade de coagular energia política em ações materiais; no entanto, ainda é possível que corporações e governos exerçam controle censor sobre ela, como vemos no Facebook e na China. O fato de que tanta atividade política ocorra dentro do Facebook faz com que esta atividade seja vulnerável a censura, em geral justificada em função das normas obscuras e obtusas da corporação. Me parece fundamental que uma versão aberta e colaborativa do Facebook seja criada. Outra vulnerabilidade é que a existência da Internet exige investimentos em infraestrutura muito altos, o que tende a colocar o controle físico do funcionamento da rede na mão dos governos. De qualquer forma, me parece que a tendência inexorável de desenvolvimento tecnológico aponta para padrões descentralizados de comunicação, o que tende a dificultar essas ações de censura.

Como você vê a emergência de novas formas de narrativa e cobertura de mídias alternativas, como a NINJA, no contexto virtual?

Em certo sentido, trata-se de uma das novidades mais revolucionárias dentro de tudo o que está ocorrendo, porque pode gerar transformações reais nas comunidades imaginadas nas quais nos encontramos. Ninguém nasce brasileiro ou paulista; nós aprendemos a nos sentirmos essas coisas e a agir no mundo em função disso. Há um esforço do estado e das instituições (escola, mídia, tribunais, hospitais) no sentido de produzirem os brasileiros de formas específicas. De maneira geral, o brasileiro é produzido para ser politicamente passivo: o Brasil é mais administrável se todo mundo ficar em casa, vendo o mundo pela TV – em especial se for futebol -, anestesiados. Vivemos a cidadania como zumbis do capitalismo: vivemos para trabalhar, trabalhamos para pagar contas, educamos nossos filhos para que eles trabalhem, como se isso fosse um fim em si. O sucesso é o sucesso no trabalho, o valor de cada um se reduz ao seu potencial de produtor de bens econômicos.

As manifestações, a multidão, operam em outra lógica; a emergência de mídias abertas, descentralizadas, como a NINJA e a PósTV, também. Isso é um pesadelo para o status quo. Há uma ansiedade geral, hoje, no sentido de entender o que está acontecendo. Para grande parte da população, isso é sintoma da passividade mental à qual somos induzidos: imaginamos o mundo como estando fora dele. A lógica das manifestações é diferente: as coisas não estão acontecendo, nós é que as estamos fazendo acontecer. E mídias como a NINJA e a PósTV são capazes de traduzir isso em novas formas de linguagem midiática.

A explosão do ódio (Carta Capital)

Antropóloga detecta aumento de sites neonazistas brasileiros. E o índice de arquivos baixados com estas características cresce a uma taxa média de 6% ao ano

Por Márcio Sampaio de Castro — publicado 06/07/2013 06:47, última modificação 06/07/2013 06:54
NeonazistaNeonazista em manifestação na Alemanha. Wikimedia Commons.

Durante a última grande manifestação organizada pelo Movimento Passe Livre (MPL), para comemorar a revogação do aumento das tarifas do transporte coletivo em São Paulo, integrantes de partidos políticos e movimentos sociais foram atacados por jovens trajando toucas ninjas, roupas pretas e coturnos. Enquanto agrediam seus alvos, a multidão ao redor aplaudia e gritava “fora partidos, fora partidos”. Para a antropóloga Adriana Dias, que pesquisa há mais de 10 anos a atuação dos movimentos neonazistas no Brasil e já foi diversas vezes ameaçada de morte por seus integrantes, não resta a menor dúvida sobre quem eram esses jovens violentos e quais eram suas motivações.

A partir da análise de blogs, sites e fóruns de relacionamento, muitos deles com domínio no exterior, a pesquisadora documentou, ao longo de sete anos, que mais de 150 mil downloads de arquivos de teor nazista, superiores a 100 megabites cada, foram baixados por um número equivalente de computadores com endereços eletrônicos localizados no Brasil no mesmo período. De 2009 para cá, o índice de arquivos baixados com estas características tem crescido a uma taxa média de 6% ao ano e até postagens de crianças já foram detectadas por ela.

Para Adriana, um misto de despolitização da sociedade no período pós-ditadura e a transformação da política em escândalo por boa parte da mídia são o ovo da serpente para a expansão de manifestações crescentes de caráter nazifascista na sociedade brasileira. A omissão sistemática das autoridades às agressões perpetradas contra homossexuais, negros, judeus, nordestinos, moradores de rua e imigrantes bolivianos nas ruas de grandes centros urbanos completa o ciclo de terror, que silenciosamente avança junto a um número nada desprezível de jovens brasileiros.

Carta Capital: Nas manifestações populares das últimas semanas em São Paulo, um momento que chamou a atenção foi quando jovens, aparentemente ligados a esses movimentos, atacaram militantes partidários e militantes do movimento negro, destruindo suas bandeiras. Enquanto isso ocorria, a multidão à sua volta gritava “fora partido, fora partido”. Como explicar esses dois fenômenos simultâneos?

Adriana Dias: Desde a ditadura militar nós avançamos por um processo de despolitização espantoso em todas as camadas sociais. Os cursos de sociologia e filosofia foram retirados do currículo escolar. Em segundo lugar, há no Brasil uma proliferação da teologia da prosperidade. Na Alemanha, ela foi fundamental para a ascensão do nazismo. A ideia aqui é que não são as ações do governo que auxiliam nessa prosperidade. Por exemplo, o indivíduo consegue comprar uma casa pelo programa Minha Casa, Minha Vida e vai a um culto religioso e acredita que conseguiu por sua própria conta. Esse afastamento gradual do Brasil de um estado laico torna tudo mais difícil. Tanto na Igreja Católica, em sua linha carismática, quanto em certas igrejas protestantes. Por fim, a política de escândalos, patrocinada pela mídia, criou uma personalização da política como um eterno escândalo. Eu chamo isso de um carnaval às avessas. Se no carnaval o povo vai pras ruas para expor sua alegria, nessas manifestações as pessoas têm ido às ruas para expor suas insatisfações, fazendo reivindicações que não são mensuráveis e de um fundo conservador muito forte.

CC: Quais as alternativas para isso?

AD: A alternativa é a volta para o diálogo com os movimentos sociais. Nas elites políticas, em um sentido mais geral, há um movimento totalitário, dentro do que analisa Hannah Arendt. Particularmente na direita brasileira. Em São Paulo, por exemplo, muitas práticas do Estado são totalitárias. Veja a atuação da polícia. Já em um campo mais específico, entram esses movimentos neonazistas e suas ações, como essa verificada nas manifestações.

CC: Como esses jovens neonazistas são cooptados?

AD: Há um proselitismo muito forte no Brasil. Os grandes líderes têm entre 35 e 50 anos e normalmente são pequenos empresários e profissionais liberais. Estes não vão para as ruas. Em um segundo grupo, temos os mais jovens, que vão para as ruas e não se importam por que sabem que, se forem presos, serão soltos. E temos também as mulheres neonazistas, que são vistas somente como reprodutoras, dentro de um ideal paternalista e machista. Os grandes líderes atuam dentro de universidades, por exemplo, distribuindo material de divulgação do movimento e, principalmente, nas redes sociais.

CC: Como surgiu a ideia de pesquisar o movimento neonazista no Brasil?

Adriana Dias: A partir de uma disciplina que cursei na Unicamp, em 2002, na graduação, onde se discutia a negação do holocausto, tive a ideia de fazer um trabalho para conhecer um pouco os grupos neonazistas brasileiros. Como sou programadora, criei uma aranha de busca e percebi que estava entrando em um mundo muito grande. No início, eram apenas 7500 sites, em 2009 já eram mais de 20 mil. Existem também os blogs, que cresceram 450% nesse período, e as redes sociais.

CC: Quais as características desses sites?

AD: São compostos por páginas profundas, com diretórios dentro de diretórios. Nos diretórios mais profundos encontramos incentivos ao genocídio e assassinatos. Muitos deles são de origem norte-americana. Fazem apologia ao número 88, já que o H é a oitava letra do alfabeto e duplicado faz referência ao Heil Hitler. Uma frase muito comum de ser encontrada é o “nós devemos assegurar um futuro para as crianças brancas”, o slogan de 14 palavras inspirado em uma passagem do Mein Kampf, livro escrito por Hitler. Da combinação desses dois números, temos o 14/88, que é uma saudação. Muitos membros nos fóruns de internet se utilizam desses números como nicknames associados a nomes nórdicos. Coisas como Odin88 ou Thor 14/88.

CC: Por que esta forte influência dos sites norte-americanos?

AD: Eu fiz a minha pesquisa em inglês, espanhol e português. Os grandes pensadores do movimento estão nos EUA e um dos principais deles foi o David Lane, que morreu na prisão em 2007. O movimento surge muito forte lá por que a questão racial é muito dura entre eles. Esse lado mais duro permite a expansão desses pensamentos, ao lado do conceito de liberdade de expressão. Nos Estados Unidos, esses sites são legais. É um discurso público e consequentemente é mais fácil de reproduzi-lo. Só que para mim, a liberdade de expressão se interrompe quando chega à dignidade humana. Representar outro ser humano como animal ou como um demônio está muito além da liberdade de expressão.

CC: A ligação com movimentos estrangeiros tem crescido?

AD: Já houve casos de grupos brasileiros serem rejeitados por serem sul-americanos, mas nos últimos tempos esta visão tem mudado e o ideário da raça branca tem aproximado esses grupos ao redor do mundo.

CC: O jornalista espanhol Antonio Salas, autor de O Diário de Um Skinhead, se infiltrou em grupos neonazistas. A senhora chegou perto de ter alguma experiência deste tipo?

AD: Antonio Salas produziu um trabalho heroico, se fazendo passar por um neonazista para conhecer estes grupos a fundo. Atualmente, ele tem que se manter oculto, pois é ameaçado de morte em 16 países. Eu pesquiso os sites e fóruns. Conheço perto de 500 desses fóruns e muitos funcionam como páginas de relacionamentos, mas os mais representativos chegam a um número de 12. Eles se dividem por temáticas, como o Fórum Verde, sobre ecologia, o Solar General, sobre religiosidade e o Movimento Cristão Identitário, que é protestante radical de direita e que tem a plataforma de criar um estado branco dentro dos EUA.

CC: Em sua pesquisa, o que mais chamou a atenção?

AD: A quantidade de ódio, a idolatria ao ódio. A ideia de achar que ele estrutura a personalidade. Eu, que tenho uma formação humanista, posso dizer que fiquei chocada com isso. Outro aspecto é a crença na noção de sangue que ultrapassaria a substancialidade. Ou seja, o sangue não seria material, estaria na alma. Isto explica por que entre eles a nação, tal qual nós a concebemos, não existe. O que existe é a nação racial. Por isto, é preciso destruir os movimentos populares, que estão associados a outra concepção de nação. Por fim, me chamou a atenção a facilidade para encontrar inimigos. Eu, como antropóloga, não acredito em raças, somente na raça humana, mas para eles, o casamento chamado de inter-racial, por exemplo, é considerado um genocídio.

CC: E no Brasil?

AD: No Brasil, existe o discurso separatista, que traz elementos complicadores.

CC: Como assim?

AD: Cada um quer uma coisa. Veja o caso do (Ricardo) Barollo, que mandou matar o (Bernardo) Dayrell, em 2009, no Paraná. Eles estavam lutando pela liderança do movimento no país, mas o que cada grupo defende a seu modo é a separação de São Paulo ou dos estados do sul do restante do Brasil. Nessas explosões de ódio, que mencionei há pouco, é exigido que eles ataquem os inimigos. Aliás, um dos critérios para aceitar um novo membro é que ele cometa uma violência contra um inimigo. Os grupos neonazistas têm matado e agredido gays em São Paulo, na região da rua Augusta, e ninguém fala nada. A polícia não faz nada. Já conversei com policiais que não consideram crime um indivíduo portar uma suástica bordada na blusa.

CC: Somente os gays?

AD: Não. Atacam bolivianos, negros, gays, nordestinos, judeus e depois relatam nos fóruns. Eles são organizados. Possuem inclusive estratégias de defesa. Muitos, quando são pegos, alegam loucura. São estratégias previamente montadas e as autoridades, por sua vez, não dão importância.

CC: Isto seria em função da cultura brasileira de deixar as coisas acontecerem para depois tomar uma atitude?

AD: Não, não acho. Acontece que no Brasil as minorias não têm importância e é por isso que ninguém faz nada.

Climate Change Deniers Using Dirty Tricks from ‘Tobacco Wars’ (Science Daily)

July 4, 2013 — Fossil fuel companies have been funding smear campaigns that raise doubts about climate change, writes John Sauven in the latest issue of Index on Censorship magazine.

Environmental campaigner Sauven argues: “Some of the characters involved have previously worked to deny the reality of the hole in the ozone layer, acid rain and the link between tobacco and lung cancer. And the tactics they are applying are largely the same as those they used in the tobacco wars. Doubt is still their product.”

Governments around the world have also attempted to silence scientists who have raised concerns about climate change. Tactics used have included: the UK government spending millions infiltrating peaceful environmental organisations; Canadian government scientists barred from communicating with journalists without media officers; and US federal scientists pressured to remove words ‘global warming’ and ‘climate change’ from reports under the Bush administration.

Writing about government corruption in the Indian mining industry, Sauven says: “It will be in these expanding economies that the battle over the Earth’s future will be won or lost. And as in the tobacco wars, the fight over clean energy is likely to be a dirty one.”

Journal Reference:

  1. J. Sauven. Why can’t we tell the truth about climate change? Index on Censorship, 2013; 42 (2): 55 DOI:10.1177/0306422013494282

As manifestações populares e as músicas de protesto (Áudio Ativo/UFRJ)

Enviado por  on 28/6/13  

37429a8f3c840dd9f821dc9033e6282cd5e09f8dNa História recente do Brasil, muitas vezes a população  foi às ruas para reivindicar mudanças, denunciar e se manifestar. Através das letras de certas músicas, nos sentimos representados. Há, inclusive, canções que se eternizaram a fim de se tornarem hinos de várias gerações.  Há outras que retratam um momento específico da nossa história. A proposta então desse programa especial é apresentar para os ouvintes uma historiografia do Brasil  diferente…. através das canções de protesto, vamos contar a história das manifestações populares. Para tanto escolhemos quatro datas marcantes do nosso país: 1968, 1985, 1992 e 2013. Entenda o contexto, ouça as principais canções, relembre as palavras de ordem e depoimentos de várias personalidades e especialistas.

Apuração e Reportagem: Rafael Amêndola, Yuri Brito, Marlon Câmara, Antonella Zugliani, Amanda Duarte, Marilise Mortágua, Ana Clara Veloso, Lucas Drummond, Elisa Ferreira, Patricia Valle, Mariana Bria, Gonçalo Luiz. Produção executiva: Taís Carvalho.

Edição de áudio: Sergio Muniz

Coordenação de Jornalismo: Prof. Gabriel Collares Barbosa

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