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Urânio contamina água na Bahia (Estadão)

JC, 5246, 24 de agosto de 2015

Há 15 anos extração em única mina explorada na América Latina é feita pela Indústrias Nucleares do Brasil, estatal federal que sempre negava problema

Uma tampa de ferro cobre a boca do poço, no sítio de Osvaldo Antônio de Jesus. A proteção enferrujada tem um furo no meio. Abaixo dela, um reservatório com 90 metros de profundidade está cheio d’água. Osvaldo ergue a tampa e aponta o líquido, um bem precioso para quem vive por esses cantos de Lagoa Real, no sertão da Bahia. Por cerca de um ano, foi esse o poço que garantiu boa parte do consumo diário de sua família. Há poucas semanas, porém, nenhuma gota pôde mais ser retirada dali. Sua água está contaminada por urânio.

Veja o texto na íntegra: http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,uranio-contamina-agua-na-bahia,1748686

(André Borges e Dida Sampaio/O Estado de S.Paulo)

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Em busca da tradição do jarê (Faperj)

Vilma Homero

06/03/2014

Um dos princípios da antropologia diz que é o engajamento pessoal numa realidade bem diferente da nossa, traduzindo-a para um público mais amplo, que faz um bom antropólogo. Foi seguindo à risca esse conceito que o catarinense Gabriel Banaggia, criado em Niterói, rumou para a Chapada Diamantina, no interior da Bahia. A viagem exploratória, pensada para durar um mês, acabou resultando em um trabalho de campo contínuo que levou um ano, possibilitando ao pesquisador vivenciar a realidade de uma das religiões de matriz africana menos conhecidas do País: o jarê. O assunto foi tema de sua tese de doutorado em Antropologia Social no Museu Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), desenvolvida como bolsista Doutorado Nota 10, da FAPERJ, e desdobrada em um livro, a ser lançado até 2015, com apoio da Fundação, por meio do Auxílio à Editoração (APQ 3).

Nas proximidades de um terreiro, a árvore onde mora um Eru; no centro, atabaque do Palácio de Ogum; e detalhe de árvore que serve de morada a um espírito no terreiro Pai Gil de Ogum. Gabriel Banaggia

A escolha do tema seguiu indicação do orientador de Banaggia, Marcio Goldman, professor do programa de pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional. E resultou no que Goldman avalia como um belo trabalho. “A tese de doutorado de Banaggia é praticamente o primeiro trabalho acadêmico de fôlego que investiga o jarê urbano da Chapada Diamantina. Essa religião de matriz africana é uma das menos conhecidas fora de sua área de abrangência. Além de analisar as características específicas dessa religião, a tese também faz uma contribuição inovadora e brilhante para o campo dos estudos afro-brasileiros”, elogia Goldman.
Mas para quem não conhece, o que é exatamente o jarê? Prática religiosa agraciada no fim de 2013 com o prêmio Culturas Populares, do Ministério da Cultura, o jarê está circunscrito à Chapada Diamantina, e intimamente ligado à história do lugar. Foi criado por escravas e libertas, vindas principalmente das cidades de Cachoeira e São Félix, e levadas àquela área de garimpo de diamantes. Muitas se fixaram nas cidades de Lençóis e Andaraí, onde deram início ao culto do chamado jarê de nagô – aquele que só cultuava as divindades africanas, os orixás. “Isso se deu nos séculos XVIII e XIX, mais ou menos na mesma época em que também tinha início o candomblé jeje-nagô em Salvador”, conta Banaggia. Mas a convivência com os descendentes de indígenas na região foi fazendo com que aos poucos suas entidades fossem sendo incluídas no jarê, dando surgimento à forma contemporânea dessa religião.

Um dos caboclos incorporado no curador; e adepta se abaixa em deferência para saudar a Iansã também incorporada. Calil Netto

“Podemos dizer que uma das características do jarê é sua capacidade de adaptação. Enquanto no interior das casas de culto se faziam rituais somente para os orixás, tal como no candomblé, do lado de fora, se cultuavam entidades indígenas. No jarê atual, ambas as práticas foram unidas e passaram a incluir também o culto ao chamado ‘povo velho’, antepassados admirados por sua sabedoria ou poder de cura, e ao ‘povo das águas’, entidades ligadas aos rios, cachoeiras e mares. Todos esses seres orientam e trabalham para a cura espiritual”, explica Banaggia. Diferentemente do que ocorre no candomblé, liderado majoritariamente por mães de santo, no jarê predominam pais de santo na iniciação de novos adeptos.

Pedro de Laura, que ficou conhecido como um dos maiores mestres do jarê da Chapada Diamantina. Associação do Jarê

As únicas referências que Banaggia tinha sobre o tema de sua pesquisa ao chegar a Lençóis eram os estudos de Ronaldo de Salles Senna, antropólogo nascido na própria Chapada, e o de Miriam Rabelo, que nos anos 1980 focou sua tese de doutorado sobre o tema. “A diferença é que procurei me concentrar na cidade diamantífera de Lençóis, considerada como o berço dessa religião. A cidade, que surgiu da corrida em busca de diamantes em meados do século XIX, chegou a ter uma população de 30 mil habitantes em seus tempos áureos. Na década de 1970, no entanto, eram 5 mil habitantes, número que, hoje, se estabilizou em 10 mil, dos quais 85% são negros. Ainda hoje dominada por uma elite branca – tal como nos tempos do apogeu do garimpo de diamantes, em que a cidade chegou a contar com um subconsulado francês –, Lençóis agora vive do turismo. Os remanescentes da antiga elite são atualmente os donos de pousadas, de restaurantes, os que comandam as atividades do setor terciário”, explica o pesquisador.
Com o fim do garimpo, uma nova configuração econômica começou a mudar a face da cidade. “Com a alta dos preços dos aluguéis e as novas atividades do turismo, as casas de jarê foram se instalando cada vez mais distantes da cidade e mais perto da mata, em locais sem luz nem água encanada. Mas o preconceito com relação às religiões de matriz africana também leva seus adeptos, especialmente em cidades pequenas, a se tornarem bastante discretos sobre suas práticas”, acrescenta. Foi esse cenário que o “carioca” Banaggia, como se tornou conhecido na cidade, encontrou em Lençóis. Nos primeiros meses da pesquisa, em que se dedicou basicamente à história do lugar e do garimpo, deu a sorte de conhecer Sandoval, filho do já falecido Pedro de Laura, um dos maiores mestres do jarê, e que se tornaria um de seus quatro guias na pesquisa. “Sandoval foi uma das pessoas que me abriram as primeiras portas. Assim como Gilson, antigo garimpeiro e filho de outro adepto de importância na religião; Elias, um brilhante jovem da região que por conta própria se aprofundava numa pesquisa informal sobre o assunto; e Áurea, tia de Sandoval, filha de santo e uma das senhoras mais empenhadas em manter vivo o jarê. É sempre um deles que me orienta ao longo de cada um dos capítulos da tese.”

Gabriel Banaggia: um ano de trabalho de campo na Chapada Diamantina. Arquivo pessoal

Seguindo à risca a frase de Pierre Verger, o antropólogo francês estudioso do candomblé de Salvador – que dizia que a qualidade da pesquisa depende da qualidade das relações pessoais com seus interlocutores –, Banaggia enfronhou-se nas casas de jarê mata adentro. “Foi um processo demorado até ser aceito. Fui conhecendo os rituais, as práticas e as pessoas.” Pelo que Banaggia observou, há uma grande comunhão do jarê com a natureza. Em certo sentido, é um tanto mais democrático do que o candomblé, já que durante os rituais não há separação entre os que realizam as práticas e a assistência. Todos podem entrar em transe. E o jarê segue igualmente uma orientação terapêutica bastante pronunciada.
“Há uma grande procura para tratar um misto de doenças físicas e espirituais. Nada que suplante recorrer à medicina tradicional para casos mais graves. Nessas situações, como a de uma cirurgia, por exemplo, é comum se pedir para que as entidades iluminem as mãos e a mente dos médicos”, conta o pesquisador. Ele também chama a atenção para a alta incidência de alcoolismo na região, o que acaba sendo um dos motivos recorrentes para os atendimentos no jarê. “Em Lençóis, costuma-se dizer que quem não bebe, já bebeu. No jarê, esse é um dos pedidos mais frequentes de tratamento espiritual. E os relatos afirmam que se alcançam bons resultados”, fala.

De sua convivência na região e com os praticantes do jarê, Banaggia pôde perceber que uma das características mais fortes do culto é a resiliência. “Vi na religião uma enorme capacidade de resistência criativa às perdas populacionais, culturais e linguísticas. Seus adeptos não se mostram resignados a essa situação, mas reagem de forma resoluta e com enorme persistência, exibindo uma tremenda vitalidade em continuar a prática do jarê”, afirma Banaggia. Entre as iniciativas para manter forte o jarê estão a associação com programas do governo, organizações não governamentais e também pesquisadores. “Hoje, essas alianças são importantes para os adeptos dessa religião”, explica. Por isso mesmo, em 2007, por iniciativa de Sandoval, e à semelhança do que já aconteceu com muitos terreiros de candomblé de Salvador, foi feito um pedido de tombamento ao Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tanto do jarê como bem cultural imaterial quanto de sua mais antiga casa de culto em Lençóis. “Conseguir esse tombamento poderá configurar novos passos importantes para manter viva a tradição do jarê”, conclui.

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

Exploração de gás de xisto no Oeste baiano pode causar desastre ambiental sem precedentes (O Expresso)

01/09/2013 

Se confirmada a ocorrência de gás de xisto na grande área do Aquífero Urucuia e usada técnica norte-americana de extração, poderemos contaminar para sempre a água que bebemos e que usamos para irrigar alimentos. Seremos ricos em petróleo e gás e importaremos água para beber de outros estados. A população das chapadas e, de quase toda a Bahia onde existem reservas de xisto, precisa se engajar nesta luta para obstruir o possível uso da técnica de fratura hidráulica na extração do gás. O poço de prospecção instalado na Fazenda Vitória ( veja a foto abaixo), a apenas 10 km de Luís Eduardo Magalhães, é apenas o início do grande licenciamento que a ANP quer realizar, em outubro, em todo o País.

poço

Conforme o Expresso adiantou em 15 de maio está começando, na Fazenda Vitória, a 10 km do centro de Luís Eduardo Magalhães, a instalação de um poço exploratório de gás e petróleo em Luís Eduardo Magalhães. Na internet, ambientalistas já começam a se manifestar sobre o desastre eminente, caso venha a ser encontrado o gás de xisto e usado o processo de hidro-fragmentação, fratura hidráulica ou fracking para a coleta do gás, técnica desenvolvida nos Estados Unidos, que já causa um enorme passivo ambiental. Segundo relatórios de ambientalistas americanos, o processo leva à poluição de lençóis freáticos profundos e a água utilizada para o processo de retirada do gás retorna ao solo altamente poluída, com resquícios de petróleo. Tanto que a maioria dos estados americanos hesita em liberar a exploração do xisto betuminoso pelo processo de fragmentação.

O gás de xisto, também conhecido como shale gás ou gás não convencional, é encontrado em formações sedimentares de baixa permeabilidade e fica aprisionado, característica que por muito tempo inviabilizou sua extração, visto que não havia tecnologia capaz de retirá-lo de dentro das formações de xisto.

Esse paradigma foi quebrado com a técnica de perfuração horizontal dos poços e o advento do fraturamento hidráulico. Processo esse que consiste em bombear, sob alta pressão, uma mistura de água e areia junto com outros produtos químicos no poço a fim de fraturar as formações de xisto, permitindo a liberação do gás.

Nesta sexta, procuramos a assessoria de Comunicação da Petrobrás, no Rio de Janeiro, que indicou a assessoria de Salvador. Que depois de umas 3 horas de silêncio indicou a assessoria de comunicação da ANP, “por ser área exploratória”. A assessoria da ANP não respondeu aos nossos questionamentos, via email, e certamente não irá responder nos próximos dias.

O Aquífero Urucuia em perigo

O Aquífero Urucuia, sobre o qual está sendo montado o poço exploratório de Luís Eduardo Magalhães, distribui-se pelos estados da Bahia, Tocantins, Minas Gerais, Piauí, Maranhão e Goiás, onde ocupa uma área estimada de 120.000 km2. Deste total, cerca de 75-80% estão encravados na região oeste do Estado da Bahia. Em alguns locais, o grande mar subterrâneo de água doce e pura, tem espessura ou altura de até 400 metros. Se a exploração usar efetivamente o processo de hidro-fragmentação, o Aquífero estará definitivamente comprometido.

Em palavras mais sérias: em pouco tempo estaremos bebendo água com acentuado gosto de petróleo. E as águas das veredas, em ponto de afloramento de gás, se incendiarão ao contato de uma chama.

Veja o que diz o site Carbono Brasil 

A fratura hidráulica, ou fracking, processo que consiste na utilização de água sob altíssima pressão para extração de gás xisto, está trazendo diversos problemas ambientais para os Estados Unidos, obtendo a oposição de diversos grupos ambientalistas e da sociedade civil.

Nesta terça-feira (28), foi publicado um estudo do Serviço Geológico dos EUA e do Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos EUA que afirma que os fluidos que vazam do processo estão causando a morte de diversas espécies aquáticas na região de Acorn Fork, no estado do Kentucky.

Segundo a pesquisa, os fluidos da fratura hidráulica prejudicam a qualidade da água a ponto de os peixes desenvolverem lesões nas guelras e sofrerem danos no fígado e no baço. O fracking também fez com que o pH da água diminuísse de 7,5 para 5,6, o que significa que água se tornou mais ácida.

Além disso, o processo aumentou a condutividade da água de 200 para 35 mil microsiemens por centímetro, devido aos níveis elevados de metais como ferro, alumínio e outros elementos dissolvidos na água.

Na Califórnia, um desastre

No estado da Califórnia, o fracking também está trazendo transtorno à população. Tanto que uma coalizão de 100 grupos ambientalistas e da sociedade civil acusa a legislação do processo, recém aprovada pelo Senado norte-americano, de ser muito fraca, e pede para que o governador californiano Jerry Brown suspenda a prática imediatamente.“

A verdade é que não há forma comprovada de proteger a Califórnia do fracking além de proibir essa prática inerentemente perigosa”, escreveram os grupos em uma carta enviada a Brown. De acordo com eles, o conjunto de leis “permitiria que as operações de fracking poluíssem permanentemente grandes quantidades da preciosa água da Califórnia.”

Contudo, o governador acredita que, se feito com segurança, o processo pode trazer grandes ganhos econômicos para o estado. “Tenho que equilibrar meu forte compromisso de lidar com as mudanças climáticas e as energias renováveis com o que pode ser uma oportunidade econômica fabulosa”, colocou ele. Ainda assim, Brown não tomou uma posição pública sobre o projeto de lei.

Uma visão gráfica de como se procede a fratura do solo. Na verdade, os lagos subterrâneos não são como aparecem na imagem. A água está diluída dentro do arenito, que a absorve como uma esponja.

Uma visão gráfica de como se procede a fratura do solo. Na verdade, os lagos subterrâneos não são como aparecem na imagem. A água está diluída dentro do arenito, que a absorve como uma esponja.

Blairo Maggi e ANP

O senador Blairo Maggi, em audiência pública, realizada nesta terça-feira, 27, na Comissão de Meio Ambiente do Senado, já interpelou a ANP sobre a exploração do gás de xisto.

Diz o Senador:

“Acreditando nessas novas tecnologias, o Brasil está prestes a começar a exploração do gás de xisto. A Agência Nacional de Petróleo (ANP) marcou para novembro o primeiro leilão de blocos de gás. No entanto, no país a tal exploração ainda está longe de ser consenso no que diz respeito a custo benefício”

“Primeiro é preciso ter certeza da viabilidade econômica da exploração do gás de xisto, já que o sucesso nos Estados Unidos foi resultado de um forte programa governamental, com muitos incentivos. As condições objetivas, incluindo tecnologia, infraestrutura de transporte, mercado consumidor e impactos ambientais, para exploração e consumo no Brasil, recomendam cautela”, alertou o senador.

O Chefe de Gabinete da ANP, Sílvio Jablonski, explicou que o gás não convencional não é uma realidade imediata para o Brasil, mas sim, uma perspectiva para os próximos 10 anos, isso caso se confirmem as possíveis reservas de xisto.

Pontos de divergências

Impactos ambientais e contaminação de lençóis freáticos são fontes constantes de atritos entre ambientalistas, governos e empresas de exploração de gás e petróleo. Blairo Maggi lembrou que no Brasil duas das maiores concentrações do xisto estão sob grandes reservas de água. Uma na Bacia do Parecis onde se formam as bacias hidrográficas Amazônica e Platina, e outra, sob o Aquífero do Guarani.

Para o secretário-executivo de exploração e produção do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Antônio Guimarães, não há risco de contaminação das águas, uma vez que os poços de exploração devem ser feitos a uma profundidade de três mil metros e que seria quase impossível os fluídos do gás escaparem para a superfície.

“A engenharia é fundamental na construção dos poços para a proteção dos lençóis freáticos. As normas da ANP são bastante restritivas, a fiscalização é rígida e as multas são pesadas para qualquer descumprimentoPreservação, engajamento e apoio das comunidades devem ser o foco para o sucesso dessa exploração”, afirmou o secretário.

No entanto, o senador Blairo Maggi frisou que, apesar do Brasil não poder desconsiderar uma fonte de energia dessa magnitude, não se pode da mesma forma ignorar a inexistência de estudos científicos que comprovem a segurança dessa exploração. E, lembrou que o mundo, hoje, está voltado para a busca de energia limpa.

“É preciso antes comprovar que a exploração do gás de xisto será satisfatória principalmente à população, ao meio ambiente e ao Brasil como um todo. Por isso, estamos trazendo à Comissão, técnicos especializados no assunto para dirimir todas as dúvidas e debater o tema. Na próxima rodada vamos convidar os órgãos ambientais e ONG’s que atuam nessa área”, informou o senador.

O mapa do Aquífero Urucuia, 120 mil km² de água subterrânea contínua, ao lado de outros grandes aquíferos do Oeste baiano

O mapa do Aquífero Urucuia, 120 mil km² de água subterrânea contínua, ao lado de outros grandes aquíferos do Oeste baiano