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Carlos Fausto e Luiz Costa: Estupro e assassinato de indígenas atestam nosso fracasso civilizacional (Folha de S.Paulo)

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Povos da Amazônia viraram alvo de garimpeiros e facções que querem roubar suas terras e seus direitos

Carlos Fausto

21 de maio de 2022


[RESUMO] Em abril, mês em que se comemora o Dia do Índio, inúmeros relatos de assassinato, intimidação e estupro de indígenas ganharam repercussão na imprensa, exemplos trágicos que se repetem em um quadro de falta de fiscalização, investigações superficiais e normalização da violência por parte da sociedade.

“A Marca da Maldade”, filme de Orson Welles de 1958, começa com um plano-sequência no qual um homem arma uma bomba e a coloca no porta-malas de um carro. O plano dura mais de três minutos, nos quais a vida flui normalmente. A tragédia, porém, está anunciada. Sabemos o que vai acontecer, apesar de não sabermos quando.

Nos últimos anos, bombas vêm sendo colocadas em muitas partes da Amazônia, visando especialmente as terras indígenas. Como são múltiplas e plantadas por vários atores em diferentes lugares, acabam por minar nossa capacidade de reação. O excesso desorienta, e a violência se vê normalizada.

No mês de abril, quando se comemora o Dia do Índio, várias más notícias ocuparam as páginas dos jornais. Eis alguns dos títulos: “Garimpeiros abusam sexualmente de indígenas durante invasão e obrigam ingestão de gasolina com água, denunciam entidades” (O Globo, 21.abr), “Menina ianomâmi de 12 anos foi estuprada e morta por garimpeiros, diz líder indígena” (Estado de S. Paulo, 27.abr), “Justiça determina segurança da Força Nacional na terra dos Parakanã” (Amazônia Real, 1º.mai).

A ampla divulgação desses episódios é um fato positivo, que resulta, sobretudo, do acesso dos indígenas à internet. Contudo, sempre que são noticiados, logo surge uma reação para desacreditar os relatos.

Os órgãos responsáveis fazem uma investigação superficial e concluem que não há evidências de crime –como se crime não houvesse na própria invasão de terras protegidas, na derrubada da cobertura florestal, na contaminação de cursos d’água e nas ameaças à população indígena local.

Já assistimos a isso na história da Amazônia. O caso mais célebre é o do genocídio perpetrado pelos barões da borracha, no Peru e na Colômbia, nas primeiras décadas do século 20.

O sistema extrativista ali funcionava à base de assassinatos, tortura e estupros, mas poucos queriam acreditar nisso, mesmo quando testemunhas oculares davam conta de que se “matava a sangue frio”, que “os corpos eram devorados por cães”, que “as crianças eram desmembradas e jogadas ao fogo” (conforme registros do “Libro Azul Británico: Informes de Roger Casement y Otras Cartas sobre las Atrocida­des en el Putumayo”).

Há algumas semanas, os parakanãs da bacia do Tocantins veem-se ameaçados pela população de Novo Repartimento (PA). Em 24 de abril, três jovens invadiram a terra indígena para caçar e desapareceram. Vários áudios logo começaram a circular na região: “Vamos entrar na aldeia e vamos começar a matar índio” ou “vamos reunir 200 homens armados para botar os índios para correr”.

Esses áudios desenterraram fantasmas que pareciam sepultados. Em 1930, o então diretor da Estrada de Ferro do Tocantins reuniu um grupo armado para atacar os asurinis, que, junto com os parakanãs, “atrapalhavam” a construção da ferrovia. O grupo alcançou um acampamento asurini e matou vários indígenas, incluindo mulheres e crianças.

No retorno da expedição, o chefe de polícia segredou ao funcionário local do Serviço de Proteção aos Índios: “O meu galão é o refrigério de minha família, mas eu prefiro perdê-lo a fazer outra viagem com o mesmo fim desta feita agora; nunca vi tanta barbaridade” (trecho do inquérito da Inspetoria do Pará e Maranhão sobre massacre sofrido por índios bravios em Tocantins, julho de 1930).

Quarenta anos depois do massacre, a Transamazônica cortaria o território dos parakanãs, levando à sua “pacificação”, como se costuma chamar o desastroso processo que, no caso, causou a morte de um terço da população. Desde então, as relações com a população local foram se acomodando, mas agora parecem ter azedado de vez.

Em 30 de abril, os corpos dos caçadores foram encontrados dentro da Terra Indígena Parakanã, levando a novas ameaças nas redes sociais, inclusive uma que propunha “leis de extermínio a toda essa raça e seus defensores”.

No dia 2 de maio, os parakanãs responderam, divulgando uma nota dirigida aos “Prezados amigos(as) e irmãos(ãs) toria (não indígena) de Novo Repartimento e familiares”, na qual afirmam: “Sempre nós vivemos aqui. Vocês chegaram depois, nasceram depois. Por isso nós queremos dizer para que não nos ameace, não digam que não nos querem na cidade, pois esse lugar é nosso também. Nós desejamos viver em paz. Não lancem o seu ódio contra os awaete, pois isso não é justo” (Grupo de Maroxewara –awaete parakanã).

Alguns dias antes desse episódio, a 2.000 quilômetros dali, os kanamaris da aldeia Jarinal, na Terra Indígena Vale do Javari, no sudoeste da Amazônia, tiveram suas casas invadidas por garimpeiros.

Eles chegaram exigindo tratamento médico pela equipe da Secretaria Especial de Saúde Indígena. Uma vez atendidos, não partiram. Fizeram festa até o amanhecer, obrigando os kanamaris a beber uma mistura de gasolina e água.

Situada no médio curso do rio Jutaí, Jarinal é uma aldeia bastante remota. No alto curso do rio, vivem povos em isolamento voluntário, tornando a área ainda mais sensível. Apesar das promessas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) jamais implantou uma base avançada na região.

De início, aliás, o próprio órgão duvidou dos relatos dos kanamaris. Foi preciso que um representante do Conselho Indígena Kanamari do Juruá e Jutaí (Cikaju) enviasse áudios e fotos por WhatsApp para que se pudesse embasar a denúncia oferecida ao MPF (Ministério Público Federal).

Uma semana depois, o cacique de Jarinal comunicou que estava sendo ameaçado de morte, dessa vez por caçadores de uma fazenda contígua à terra indígena, que se utilizam regularmente de trilhas dentro da área.

Ainda no mesmo mês de abril, outra tragédia atingiu os povos indígenas, dessa vez em Roraima. Em 25 de abril, Júnior Hekurari Yanomami, presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena local, denunciou que uma menina yanomami de 12 anos havia sido estuprada e morta por garimpeiros na comunidade de Aracaçá, na região de Waikás. Após ampla divulgação pela imprensa, uma equipe com agentes da Polícia Federal se deslocou para lá.

No dia seguinte, já se noticiava que não havia indícios de crime. Lançavam-se, assim, dúvidas sobre a veracidade da denúncia. A maquinaria para desacreditar os “relatos” indígenas fora novamente posta em ação.

Em nota de 29 de abril, Júnior Hekurari afirma que, ao chegarem à comunidade de Aracaçá, dois dias antes, encontraram a aldeia vazia e em chamas. Após certo tempo, alguns moradores apareceram, mas afirmaram que nada podiam dizer, pois haviam recebido 5 gramas de ouro para ficarem em silêncio. A cultura da sedução e do terror, tão bem-conhecida na história da Amazônia, impera na região.

Estupro e morte se tornaram fatos corriqueiros nas áreas invadidas da Terra Indígena Yanomami. No relatório “Yanomami sob ataque” (2022), da Hutukara Associação Yanomami, encontram-se vários depoimentos na língua indígena, acompanhados de tradução, que deixam isso nítido.

Eis um trecho ilustrativo de um depoimento de uma mulher: “Estão transando muito com as mulheres. É tanto assim que, em 2020, três moças, que tinham apenas por volta de 13 anos, morreram. Os garimpeiros transaram muito com essas moças, embriagadas de cachaça. Elas eram novas, tendo apenas tido a primeira menstruação”.

Bebida, estupro, violência, intimidação, morte. Os indígenas são violados, o ambiente é violado, e você que nos lê, também é (ainda que pense nada ter a ver com isso).

A exploração mineral no Brasil, mesmo fora de áreas indígenas, não é fiscalizada. Os recursos da Amazônia são drenados sem qualquer benefício coletivo, alimentando a engrenagem que, há séculos, gera riqueza para poucos e pobreza para muitos em nosso país.

Não é de surpreender que facções criminosas estejam atuando nos garimpos da região. Afinal, é um negócio lucrativo, sem fiscalização, que conta com o beneplácito de várias instâncias de governo.

Os povos indígenas resistem, mas hoje viraram alvos do ódio de uma facção política que lhes quer roubar os direitos e as terras garantidos pela Constituição de 1988. Não se enganem: o que temos diante de nós não é uma derrota política, mas uma regressão civilizacional.

Segredo de polichinelo: ao final do magistral plano-sequência de Orson Welles, a bomba explode e o carro, lançado aos ares, é consumido pelas chamas. É urgente desarmar as bombas e, como costumam dizer os indígenas, “pacificar os brancos”.

Brasil devastou quase 90% da mata atlântica e 20% da Amazônia depois da Independência (Folha de S.Paulo)

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País dilapida patrimônio natural único e ignora urgências da crise do clima

Marcelo Leite

21 de maio de 2022


[RESUMO] A preocupação com o desmatamento é tão antiga quanto a Independência, mas José Bonifácio foi derrotado por oligarquias escravistas em suas tentativas de disciplinar a exploração e a derrubada de florestas. Dois séculos depois, o Brasil de Bolsonaro retrocede à versão mais primitiva do mito do berço esplêndido e trata o ambiente, na contramão da emergência climática, como se fosse fonte inesgotável de riquezas para pilhar.

Em 1822, o patrimônio ambiental do território que se tornava o Império do Brasil não diferia muito do que portugueses haviam encontrado três séculos antes. A devastação da mata atlântica, primeira vítima natural da colonização, prosseguia a ferro e fogo, mas concentrada no entorno de poucos centros urbanos, muitos canaviais, áreas de pecuária e a lavoura incipiente de café.

O mesmo não se pode dizer dos povos indígenas, vários já extintos naquela altura. No século 16, eles contavam algo entre 2 e 8 milhões de indivíduos, calcula-se. Sobreviveram à frente colonial os que se internaram nos sertões da caatinga, do cerrado e da floresta amazônica, deixando a costa para o domínio do branco e a labuta dos escravizados da África.

São hoje 305 povos indígenas remanescentes, segundo o IBGE. No Censo de 2010, somavam 897 mil pessoas, menos de 0,5% da população, das quais 572 mil em áreas rurais (sobretudo aldeias) e 325 mil em cidades.

No mesmo recenseamento, mais de 82 milhões de habitantes se declararam pardos (43,1% do total). Outros 15 milhões se identificaram como pretos (7,6%), perfazendo assim uma maioria de brasileiros descendentes dos 4,8 milhões de negros sequestrados na África.

Essa deriva populacional é indissociável da história do meio ambiente no Brasil. A dizimação de povos indígenas acompanhou a marcha predatória para oeste no século 20, com meios técnicos bem mais poderosos que a limitada força produtiva da legião de escravizados.

Na virada do século 19 para o 20, logo após a Abolição (1888), estima-se que a mata atlântica ainda tinha cerca de 90% da cobertura original de pé, mesmo após quatro séculos de predação. Hoje, 130 anos depois, restam apenas 12,4% da vegetação do bioma. No início do século passado, Amazônia, cerrado e caatinga estavam quase intocados.

A tríade genocídio, escravização e desmatamento compõe a matriz da exploração do território forjada no período colonial, com reflexos até os dias de hoje. A crítica à forma peculiar de atraso, embora atual, não emergiu com a consciência ambiental nos anos 1970, mas já com a própria nação brasileira.

Na proa do ambientalismo precoce esteve José Bonifácio de Andrada e Silva, alcunhado patriarca da Independência, como detalha o historiador José Augusto Pádua no livro “Um Sopro de Destruição: Pensamento Político e Crítica Ambiental no Brasil Escravista, 1786-1888“.

Andrada passou a maior parte da vida adulta em Portugal, para onde partiu aos 20 anos. Formou-se na Universidade de Coimbra sob influência do Iluminismo e do naturalista italiano Domenico Vandelli, professor da universidade e crítico da destruição ambiental no país e em suas colônias. Só em 1819, aos 56, retornou ao Brasil, onde se tornaria ministro do Império.

Pádua destaca no livro quatro elementos essenciais da obra de Andrada: visão de mundo fundada na economia da natureza, defesa do progresso econômico como instrumento civilizatório, apologia da racionalização das técnicas produtivas pela aplicação pragmática do conhecimento científico, crítica da exploração destrutiva dos recursos naturais.

Antes mesmo da Independência, ele foi chamado pelo príncipe regente, futuro Pedro 1º, para chefiar o gabinete de ministros. Passou a defender ideias avançadas para a época, como emancipação gradual de escravizados, assimilação de indígenas, educação popular e imigração estrangeira.

Propunha a superação do modelo agrícola colonial calcado no latifúndio, na monocultura e na destruição florestal. Tal prática deveria ser transformada com reforma agrária, difusão de métodos agronômicos modernos e ambientalmente equilibrados, relata Pádua.

Para o visionário, florestas eram fundamentais para manter a fertilidade da terra e a abundância de água. A venda ou a distribuição de terras pela Coroa deveria ficar subordinada à condição de manter um sexto da área com matas originais ou plantadas.

A carreira política de Andrada foi curta. Já em 1823, deixou o ministério, em julho; em novembro, foi preso e exilado na França, onde ficaria até 1829. Retoma os projetos em 1831, como tutor dos filhos do imperador, mas é deposto em 1833. Refugiou-se em Paquetá até a morte, cinco anos depois.

Oligarquias regionais, latifundiárias e escravistas jamais aceitaram o programa de Andrada. Sua derrota, assim como a consagração como estadista, da qual a historiografia omitiu, entretanto, o ideário ambiental, dizem muito sobre a indisposição da elite nacional, desde sempre, para tirar o país do atraso.

Pádua traça um paralelo com os Estados Unidos, outra nação jovem com vastos recursos naturais, mas não tropical, que também dizimou indígenas e explorou negros escravizados. As terras a oeste foram ocupadas cedo com levas de imigrantes, enquanto o Brasil permanecia dependente da escravidão.

Em 1822, a população brasileira era de 4,6 milhões de habitantes, contra 9,6 milhões de norte-americanos. Em 1900, éramos ainda 17,4 milhões, ao passo que, nos EUA, já viviam 76,3 milhões.

“A permanência desse olhar para um horizonte dotado de gigantescas formações naturais e aberto para um avanço futuro praticamente ilimitado, parecendo tornar desnecessários os esforços e os custos envolvidos na conservação e no uso cuidadoso das áreas já abertas, é possivelmente a marca central da história ambiental do Brasil”, diagnostica Pádua.

É o que ele chama de mito do berço esplêndido, expressão tirada do primeiro verso da segunda parte do hino nacional, a menos cantada. Um mito ambíguo, que pôs a natureza exuberante no centro da autoimagem da nação que surgia, motivando as missões científicas de naturalistas patrocinadas pelo Império, mas também a pintava como recurso em aparência infinito a ser explorado.

“Somos definidos pela confluência de abundâncias, abusos e ganâncias”, afirma Natalie Unterstell, do centro de estudos climáticos Talanoa e do Monitor da Política Ambiental, uma parceria com a Folha.

“O mito do berço esplêndido inscreveu uma perspectiva linear e cumulativa de expansão territorial progressiva”, diz.

“O algoritmo original da nação brasileira, que foi infelizmente tão bem demonstrado na devastação da mata atlântica, nos impulsionou a acelerar a destruição ambiental, partindo do pressuposto de que nossa base de recursos é infindável e que o custo da conversão de biodiversidade é nulo.”

Se o algoritmo já estava pronto e, por assim dizer, testado em 1,1 milhão de quilômetros quadrados da mata atlântica (13% do território nacional), demorou a ser aplicado em outros dois biomas florestais muito mais vastos: floresta amazônica(4,2 milhões de km2,ou 49%) e cerrado (2 milhões de km2, 24%).

O sopro de destruição de que fala Pádua só varreria o restante do território no século 20. O ímpeto modernizador que levou à Revolução de 1930 criou a noção de que era preciso ocupar o interior e levar o desenvolvimento para os sertões.

“Governar é povoar”, dizia o presidente Afonso Pena (1906-1909). Washington Luís(1926-1930) aproveitou o mote e o ampliou quando ainda era governador de São Paulo: “Governar é abrir estradas”.

Um século depois dos Estados Unidos, o Brasil iniciava sua Marcha para Oeste, que culminaria com a inauguração de Brasília em 1960. Em lugar de cavalos e carroções, seguiam caminhões, ônibus, tratores e automóveis da nascente indústria automobilística. O petróleo era nosso.

Dos anos 1880, década da Abolição e da República, até 1940, quase 5 milhões de imigrantes chegaram ao país. A população se multiplicou por dez ao longo do século passado, mas em 1950 o Brasil ainda era um país atrasado: apenas 36% da população de 52 milhões vivendo em cidades, 51% de analfabetismo, expectativa de vida de meros 43 anos.

Do ponto de vista ambiental, entretanto, o atraso e o gigantismo legaram ao país uma situação única: 99% da maior floresta tropical do mundo estava de pé na Amazônia, alimentando algumas das maiores bacias hidrográficas do planeta, a garantir água para a nascente potência agropecuária.

Aí sobreveio a ditadura militar (1964-1985), com o ímpeto do chamado milagre econômico e um novo lema territorial: “Integrar para não entregar”. O mito do berço esplêndido passou a alicerçar a paranoia militar da cobiça internacional sobre a Amazônia.

O que era, até aí, uma vocação para destruir, apesar do ufanismo naturalista dos tempos do Império, ganhou escala e impacto com a grande aceleração do pós-guerra, como assinala o historiador José Augusto Pádua.

A população cresceu para mais de 214 milhões de pessoas. A produção de ferro pulou de 9 milhões de toneladas em 1950 para cerca de 400 milhões atualmente. A produção de grãos saltou de 39 milhões, em 1975, para cerca de 210 milhões de toneladas. A taxa de urbanização avançou a 85%.

Esse crescimento teve um lado muito positivo. Com a criação da Embrapa em 1973, na pior fase da ditadura, a agricultura mudou de patamar, ganhou produtividade e conquistou o planalto central para a soja, o milho e o gado bovino.

A produtividade agrícola brasileira subiu à taxa de 3,6% ao ano entre 1975 e 2010, segundo o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) –o dobro da velocidade observada nos Estados Unidos no mesmo período.

O Brasil chegou em ótima posição ao boom de commodities dos anos 2000. Surfando na abundância de recursos, o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criou o Bolsa Família e o ProUni e turbinou o Fies. Cotas raciais foram implementadas. A pobreza diminuiu, e a escolaridade aumentou.

Em contrapartida, o ambiente sofreu. Na euforia do pré-sal, cresceu a produção de petróleo e gás (para não falar da corrupção associada), combustíveis fósseis que agravam o aquecimento global.

A usina de Belo Monte desfigurou para sempre o emblemático Xingu. O rio dá vida e nome ao parque indígena (1961) dos irmãos Villas-Bôas, continuadores do indigenismo benigno do marechal Cândido Rondon. Ali vivem 16 etnias, algumas atraídas para a área para abrir espaço às companhias colonizadoras.

Aliada à incúria do poder público, a mineração de metais, outro setor impulsionado pelo apetite voraz da economia chinesa, desencadeou as hecatombes de Mariana (2015) e Brumadinho (2019). Ao todo, 289 mortos.

O crescimento da população urbana se deu de maneira desorganizada. As cidades incharam, sem saneamento básico, com muito trânsito, favelas e poluição atmosférica.

Quase metade (45%) dos brasileiros não tem acesso à rede de esgoto, e só metade do que se coleta passa por tratamento —o restante chega in natura aos rios, volume de dejetos equivalente a 5,3 milhões de piscinas olímpicas por ano, segundo o Instituto Trata Brasil. É mais que improvável cumprir a meta de universalizar água e esgoto até 2033.

A derrubada do cerrado avançou, e a devastação dessa savana brasileira com enorme biodiversidade ultrapassou metade da cobertura original. A floresta amazônica, que viu as taxas de desmatamento recuarem de 27.779 km2 a 4.571 km2 entre 2004 e 2012, voltou a crescer até alcançar 13.235 km2 em 2021, acumulando 20% de perda da vegetação ainda intacta na época da Independência.

“Na economia, usa-se o termo ‘voo de galinha’ para descrever os ciclos de desenvolvimento, e na área ambiental pode-se usar a mesma analogia”, diz Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa.

“Depois de recordes de descaso, reduzimos drasticamente o desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012, a maior ação de mitigação de emissão de gases de efeito estufa da história contemporânea, mostrando do que o Brasil é capaz quando trabalha sério para implementar uma política pública.”

Em paralelo, avançavam no mundo negociações para mitigar o aquecimento global e o pior da mudança climática. O governo brasileiro evoluiu de posições refratárias para algum protagonismo, a partir da Cúpula da Terra no Rio (1992) e do Protocolo de Kyoto (1997), o que se esboroaria de vez com Jair Bolsonaro (PL).

A destruição da Amazônia se tornou tema mundial em 1988, no governo de José Sarney (PMDB, 1985-1990), poucos anos após o fim da ditadura que cortou a região Norte com a rodovia Transamazônica. Queimadas se multiplicavam nos sensores de satélites, chamando a atenção da opinião pública mundial para a frente de ocupação predatória que resultaria na morte do líder seringueiro Chico Mendes.

Demorou uma década para a diplomacia e a Presidência da República se darem conta da oportunidade do país valorizar seu patrimônio florestal ímpar como capital político (soft power). E, também, para auferir créditos de carbono e pagamentos por serviço ambiental de matas que absorviam gases do efeito estufa da atmosfera.

O governo de Dilma Rousseff (PT) assumiu compromissos voluntários relativamente ambiciosos de diminuição de emissões de carbono para o Acordo de Paris (2015). O Brasil se prontificou a reduzir em 43%, até 2030, o lançamento de gases-estufa gerados, principalmente, pelo desmatamento.

Apesar de pequenos repiques nas cifras de devastação amazônica de 2013 a 2015, a média anual nesse triênio ainda estava em 5.700 km2. À luz da experiência na década anterior, não parecia assim tão difícil cumprir a meta assumida.

Tudo mudou após o impeachment da presidente, em 2016, que contou com amplo apoio da bancada ruralista no Congresso. Já naquele ano o desmate subiu para 7.893 km2 na Amazônia —e não parou mais.

A eleição de Jair Bolsonaro disseminou o retrocesso por todas as frentes. O presidente de extrema direita está cumprindo a promessa de não demarcar um centímetro das 265 terras indígenas ainda em estudos (do total de 725 identificadas).

Bolsonaro diz que não vai acatar eventual decisão do Supremo Tribunal Federal contra o chamado marco temporal, tese de que só têm direito ao reconhecimento de territórios povos que os ocupavam em 1988. Ou seja, os esbulhados antes da Constituição assim permaneceriam.

Políticas para prevenir desmatamento e mudanças climáticas também foram desmontadas, assim como se manietaram os órgãos de fiscalização Ibama e ICMBio. O Planalto inviabilizou o Fundo Amazônia e congelou R$ 3 bilhões para projetos de preservação e desenvolvimento sustentável, doados por Noruega e Alemanha.

“A falta de inteligência e criatividade, assim como a ganância de curto prazo e a preguiça política, podem gerar um cenário cada vez mais trágico no país, ao invés de aproveitar as oportunidades que a conjuntura histórica possa estar apresentando”, lamenta Pádua.

“É claro que o crescimento da grande exportação primária tem peso essencial, mas creio que não explica tudo. O sinal verde para os interesses de curto prazo de agentes econômicos locais, como garimpeiros e madeireiros, também é fundamental. O que espanta é o grau de atraso e a falta de inteligência estratégica na visão ambiental do atual governo. É como se décadas de debate sobre o imperativo da sustentabilidade fossem simplesmente ignoradas.”

A ideia de que repousamos como potência verde em um berço esplêndido de carbono, sem nada precisar fazer para gerar créditos, também é uma ilusão bolsonarista, aponta Natalie Unterstell. “Não somos uma Arábia Saudita do carbono: é preciso muito esforço para acabar com o desmatamento e, assim, conseguir gerar redução de emissões.”

Só depois da Constituição de 1988, mais de 743 mil km2 de floresta amazônica foram ao chão (quase 18% do bioma), ou o triplo da área do estado de São Paulo. Em meros 34 anos, os habitantes do berço esplêndido destruíram na Amazônia quase o mesmo tanto de mata atlântica que levaram cinco séculos para dizimar.

Só essa derrubada na Amazônia contribuiu com cerca de 32 bilhões de toneladas equivalentes de dióxido de carbono (GtCO2e), principal gás do efeito estufa, para agravar o aquecimento global. Para comparação: em um ano (2020), todas as atividades humanas no Brasil geram um total de 2,16 GtCO2e.

Incluindo tudo que se desmatou antes de 1988, um quinto da floresta amazônica já virou fumaça. O restante vai sendo degradado por garimpo, madeireiros ilegais e estradas clandestinas, além do aumento de temperatura e do ressecamento impostos pelo aquecimento global.

Chegando a um quarto de perda, o bioma deve entrar em colapso, prevê a ciência. A tragédia viria com a interrupção da maior célula terrestre de produção de chuvas no planeta, gerando impacto negativo na agricultura do país todo.

Se depender de Bolsonaro e da bancada ruralista incrustada no centrão, é o futuro que nos espera —para o qual fomos alertados há 200 anos pelo patriarca da Independência.

João Moreira Salles: Nota sobre três presidentes, duas bombas e o fim do mundo (Piauí)

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João Moreira Salles | 25 mar 2022_10h37


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E aqui estamos nós, cidadãos do mundo, diante de Vladimir Putin como gregos diante da Esfinge: O que você quer, o que pensa, qual o seu enigma, quantos e o quão ferozes são os seus demônios? Qual a sua visão mística da História, o seu sonho imperial, a dimensão purificadora que a violência tem para você? Até onde está disposto a ir? Existem limites? Se existirem, será mais fácil respeitá-los no triunfo ou na derrota? Você é mais perigoso encurralado ou vitorioso?

Ninguém sabe. Numa entrevista ao jornalista Ezra Klein, o analista político e apresentador da CNN Fareed Zakaria diz que hoje no mundo não existe país mais instável do que a Rússia. Mesmo nos regimes totalitários mais fechados, alguma institucionalidade costuma sustentar os processos políticos; protocolos e trâmites burocráticos fazem saber como serão tomadas as decisões. Na antiga União Soviética, quando morria o secretário-geral do Partido Comunista, o Presidium do Soviete Supremo se reunia e era certo que de lá sairia o novo líder do país. Se amanhã o presidente chinês Xi Jinping falecer, a notícia será planetária, mas não traumática, pois virá desacompanhada do temor de abalos institucionais – um membro da alta tecnocracia política logo o substituirá. O mesmo vale para totalitarismos dinásticos, a exemplo da Arábia Saudita e da Coreia do Norte. Morre um Saud, entra um Saud; morre um Kim, entra um Kim.

Não é assim na Rússia de Putin, onde não existem sistemas claros de sucessão nem sucessores presumidos. E isso é um problema. A impressão é que a frase apócrifa de Luiz XIV, O Estado sou eu, dita supostamente por um monarca com herdeiros definidos, conselheiros numerosos e uma vasta entourage burocrática a seu serviço, caberia melhor na boca do atual Rei Sol do Kremlin: A Rússia sou eu.

De fato, é o que parece. As autocracias tradicionais tomam a forma de uma pirâmide, com o líder no vértice e, abaixo dele, por ordem de importância hierárquica, as diferentes camadas da burocracia do Estado. Na Rússia contemporânea, a pirâmide colapsou. Como um tripé que se fecha, os lados foram trazidos para o centro e se juntaram numa linha vertical. Um cajado é a nova forma do Estado, um báculo sobre cujo castão pesa exclusivamente a mão de Putin. A única, é claro, que pesa também sobre aquele botão.

Putin é o homem solitário que, isolado de tudo e de todos, usa quem sabe a suspeita de sua irracionalidade como arma política. Ou talvez, como especulam outros, já tenha se desprendido da realidade. A essa altura, não se desconta nenhuma hipótese. De fevereiro para cá, a possibilidade de um evento fatal entrou nos nossos cálculos. Se esse cenário ainda não é provável, hoje se tornou possível. Muito mais do que há um mês, incomparavelmente mais do que há um ano ou há uma década.

A Europa está assustada. Na Itália, uma empresa de abrigos nucleares que construiu cinquenta dessas estruturas nos últimos 22 anos, só nas duas primeiras semanas da guerra processou quinhentos pedidos. O governo da Bélgica está distribuindo pílulas de iodo a quem apresentar um passaporte belga. Tomado corretamente, o iodo ajuda a absorver a radiação que se aloja na tireoide. Na segunda semana de março, as farmácias do país distribuíram num único dia 30 mil caixas do comprimido.

Embora nem todos se deem conta, tamanha angústia aproxima povos que nunca imaginaram ter alguma afinidade. Gente que vive nas cidades europeias ou norte-americanas não sabe que, desde a invasão da Ucrânia, é nas florestas brasileiras que estão os interlocutores capazes de lhes ensinar como viver diariamente com o medo entranhado no corpo feito bicho. De acordo com uma observação precisa do antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro, se queremos compreender o que é o fim do mundo, basta perguntar aos habitantes originários das Américas. Eles são especialistas no tema. Dos guaranis no Brasil aos maias no México, muitos deles já experimentaram a destruição dos seus mundos.

Estima-se que no século XVI, quando os primeiros exploradores europeus chegaram à Amazônia, de 8 a 10 milhões de pessoas ocupavam a floresta. Passadas as primeiras décadas do contato, 90% dessa população desapareceria, um extermínio tão radical que seriam necessários quase cinco séculos para que o bioma voltasse ao patamar demográfico do mundo pré-cabralino, o que aconteceu na década de 1960. Os descendentes dessa hecatombe a guardam na memória. Corre pelo corpo deles o que foi vivido por seus ancestrais no passado remoto, por seus avós e pais no passado recente e, para vergonha de todos nós, brasileiros, corre pelo corpo deles o que significa vivê-la no presente. Hoje, mais ainda. No próximo mês, mais do que nunca, como se verá adiante.

O Brasil sempre foi mais lento (a ver, mais relaxado), menos eficiente do que as nações solidamente integradas à lógica industrial. Apesar disso, seria um erro supor que o mundo não tem razões para nos temer. Nossa arma verde-amarela de destruição em massa não produz efeitos tão instantâneos quanto as das nações nucleares, mas é igualmente letal. Trata-se, é claro, da destruição da Amazônia, a nossa bomba ecológica.

O bioma amazônico é um dos sistemas vitais para o funcionamento do planeta. Controla pelo menos três fluxos essenciais à manutenção da vida: o do carbono, o da biodiversidade e o dos ciclos hidrológicos. Esses fluxos vitais, “sistemas de suporte da vida”, na expressão de cientistas, não passam de nove,  o que nos torna responsáveis por pelo menos um terço deles.

Não temos exercido essa responsabilidade, mas já o fizemos, ainda que por apenas uma década. O cenário se agravou a partir de 2015 e entrou em fase crítica em 2019. A Amazônia está prestes a se inviabilizar como floresta tropical. As evidências científicas desse caminho sem volta se acumularam a grande velocidade, tanto que respeitados cientistas anteriormente céticos agora reconhecem: estamos a poucas casas da virada fatal. A continuar nesse ritmo a escalada do desmatamento, não muitos anos – poucos.

Nesse cenário de catástrofe iminente, o governo e sua base de apoio fazem correr em regime de urgência um projeto de lei que licencia a mineração, a exploração de óleo e a construção de hidrelétricas em terras indígenas. Em certas circunstâncias, o texto em discussão prevê autorização provisória de atividades mineradoras enquanto não houver autorização legislativa. Em terras ainda não homologadas, serão dispensados quaisquer estudos de impacto ambiental.

Isso é redação de quem tem pressa para destruir. Significa pilhagem de territórios ancestrais, da morada de povos que, desde o primeiro encontro com brancos, perderam muito, perderam sempre, perderam seu lugar no mundo, adoeceram, empobreceram, entristeceram, foram mendigar nos cruzamentos das cidades e se mataram de melancolia.

Apesar dessa violência histórica constante, são eles, os indígenas, os grandes responsáveis por proteger a maior selva tropical do planeta. Não existe melhor guarda florestal no mundo. Sem cobrar um tostão, eles preservam um sistema sem o qual o equilíbrio do planeta não se manteria. É em terras indígenas que se constata o menor índice de desmatamento. Elas são o último bastião da floresta.

Agora, o governo quer invadir o principal esteio da nossa quase inexistente responsabilidade ambiental. É instrutivo saber quem pretende avançar para dentro dessas terras. Grandes empresas que precisem prestar contas à sociedade hesitarão em entrar nesses territórios até então protegidos. Entre 2020 e 2021, por exemplo, a Vale desistiu de todos os processos minerários em terras indígenas do Brasil – eram 89 –, cancelando requerimentos de pesquisa e lavra. Entende-se: seria comprometer a reputação de uma companhia que, nos últimos anos, viu-se envolvida em dois dos maiores desastres ambientais da história brasileira.

Difícil crer que corporações do porte da Vale tomem caminho diferente. Equivaleria a suicídio corporativo. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), entidade cujos associados respondem por 85% da produção mineral brasileira, publicou uma nota contrária ao projeto de lei, considerando-o inadequado “para os fins a que se destina”. É uma decisão tóxica, essa de avançar sobre terras indígenas incrustadas no maior bioma tropical do planeta, de tomar as últimas áreas em que uma floresta sob ataque ainda resiste, de ferir territórios em que os menores distúrbios ambientais são hoje registrados em tempo real pelos milhares de satélites que cruzam os seus céus. As mineradoras que eventualmente morderem a isca virão de países sem sociedade civil forte e, portanto, não sujeitas à obrigação de transparência. Virão da China, de países do Oriente Médio ou da Ásia Central. Não por coincidência, serão corporações que atuam de preferência em regiões pouco desenvolvidas para se valer de sistemas políticos maleáveis, legislação ambiental frágil e presença débil do Estado.

Se essas empresas periféricas vierem, é certo que bons negócios serão feitos, parte deles tão secreta quanto as emendas do relator ao Orçamento da União. O projeto, contudo, não se destina a atrair chineses ou cazaques. Nas palavras do presidente da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa Mineral (ABPM), Luis Mauricio Ferraiuoli Azevedo, não propriamente um ambientalista: “Da forma como está, tem uma veia muito mais voltada ao garimpo do que à mineração.”

Conhecemos bem o garimpo. Como mostram vários estudos recentes, ele se tornou um braço das facções criminosas, a começar pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), que hoje domina a atividade em terras yanomamis. O garimpeiro de bateia na beira do rio, brasileiro pobre atrás do seu pão, é um personagem extemporâneo sem outra serventia a não ser mascarar com tinturas sociais uma atividade cada vez mais violenta e capitalizada. Os meios de produção do garimpo atual são balsas que custam 2 milhões de reais, mercúrio de comercialização ilegal no Brasil, condições de trabalho degradantes e fuzis AR-15, agora municiados com projéteis não rastreáveis graças à bonomia presidencial.

Uma novidade dos últimos quatro anos é a expansão vertiginosa do crime organizado para o interior do bioma amazônico. Hoje a floresta é o grande palco da disputa entre o PCC e o Comando Vermelho (CV). As facções estão fazendo a gestão da ilegalidade na Amazônia, seja no garimpo, seja na grilagem, seja no corte de madeira, seja no controle das rotas do tráfico de drogas para a Europa. Comunidades ribeirinhas e indígenas estão sendo cooptadas. O dia a dia de inúmeras cidades pequenas já depende do crime.

Não deixa de ser um projeto de desenvolvimento, o modelo político-administrativo da Baixada Fluminense transplantado para a Amazônia. Tudo considerado – do apoio a grileiros, desmatadores e garimpeiros ao desmonte das agências de vigilância como o Ibama –, não seria errado chamá-lo Programa de Aceleração do Crime. Aproveita-se assim a sigla consagrada.

Dizer que o que está sendo gestado na Amazônia é bem conhecido da primeira família da nação não passa de redundância. Trata-se, afinal, da expansão do esquema das milícias e das facções, precisamente o mundo do qual brotou a engrenagem política que hoje se espraia por todo o país. Há um sentido pedagógico em jamais esquecer que o filho mais velho do presidente, hoje senador da República, condecorou um dos maiores matadores do Rio de Janeiro, o miliciano Adriano da Nóbrega; preso, acusado de homicídio, Nóbrega recebeu na cadeia a mais alta condecoração do Poder Legislativo fluminense, a Medalha Tiradentes.

E aqui estamos nós, brasileiros, diante de Jair Bolsonaro, mas não como se diante da Esfinge, pois o homem não tem enigmas. Sabemos o que ele é e o que ele quer. Conhecemos o seu compêndio de iniquidades.

Conhecemos a sua obscenidade quando se diz solidário com a Rússia, solidário, portanto, com os responsáveis por cenas como a registrada na dolorosa foto de uma família estirada no chão, a mãe de 43 anos, o filho de 18, a filha de 9, mochilas ainda às costas, mortos os três ao tentar fugir da artilharia russa numa ponte nos arredores de Kiev (há um quarto morto na foto, um voluntário de 26 anos que ajudava a família na fuga). Não é uma solidariedade que surpreenda. O presidente, sabemos faz tempo, não é indiferente ao espetáculo da morte violenta. Ao contrário, ela o excita.

Família morta ao tentar fugir da artilharia russa nos arredores de Kiev: a mãe, o filho e a filha, além de um voluntário que os ajudava – Foto: Lynsey Addario/The New York Times/Fotoarena

Conhecemos a sua covardia, o patético dela, quando chama de comediante o presidente da Ucrânia.

Conhecemos a sua corrupção, que começou pequena e vagabunda, miúda como ele à época, e hoje é imensa, do tamanho dos seus meios atuais, que lhe permitem franquear a farra do dinheiro público distribuído sem fiscalização ou vigilância. Corridos três anos e meio de mandato, seria interessante perguntar aos arautos da moralidade se estão satisfeitos com o Orçamento da União entregue a Arthur Lira. Se apaziguados com o sistema que produz parlamentares como Josimar Maranhãozinho (PL-MA), deputado do partido do presidente, investigado pela PF por usar grupos armados para extorquir a sua parte do dinheiro que prefeitos haviam recebido por meio das emendas nebulosas do relator. Se animados com a entrega do Ministério da Educação a pastores evangélicos que cobram os seus bons serviços em barras de ouro. Se reconfortados com o círculo mais íntimo do poder, irmãos de fé e aconselhadores eventuais tais como Fabrício Queiroz e Frederick Wassef – o primeiro, ocupando seus dias pós-cadeia com exegeses no YouTube em que justifica com perspicácia geopolítica a ação russa contra a Ucrânia, país amaldiçoado por “esse governo frouxo, esse governo comédia, que desarmou o povo e entregou as armas”, essa fraqueza típica de “governo de esquerda”; o segundo, réu por injúria racial e racismo, protagonista do triste espetáculo de se recusar a ser atendido por uma garçonete de 18 anos numa pizzaria de Brasília: “Porque você é negra e tem cara de sonsa.” São esses os habitantes do mundo cultivado pelo homem escolhido para restaurar a honra do Brasil.

Sabíamos de tudo isso, e foi com esse catálogo de imoralidades que chegamos a essa versão toda nossa do fim do mundo que agora corre pelo Congresso com a pressa de um bandido.

A floresta será transformada em terra miliciana, numa dinâmica já iniciada. O projeto será votado em abril, sem qualquer debate qualificado. Se passar, o Brasil terá cometido o crime perfeito contra o futuro – o seu próprio e o do planeta. A tristeza disso é infinita. Teremos de viver confrontados cotidianamente pela injustiça cometida no decorrer de nossas vidas, sob os nossos olhos, contra aqueles que, antes de nós, não só fizeram da floresta a sua casa, mas a manipularam e a construíram, num trabalho de milênios em consórcio com outras criaturas. A Amazônia não é apenas um bem natural, é um bem cultural, o legado de uma civilização orgânica que erigiu sua obra não com pedras ou metais, mas com solo e plantas, com madeiras e fungos – essas florestas que, na linda formulação do arqueólogo Eduardo Neves, “são as nossas pirâmides”. São essas pirâmides que agora serão oficialmente entregues à pirataria.

Portanto, aqui estamos, nós brasileiros, a poucos meses de uma escolha que há muito deixou de ser questão apenas política para se tornar questão de civilização.

A Ucrânia “confiou a um comediante o destino de uma nação”, declarou o presidente do Brasil, como quem diz: E deu nisso. De fato, deu em um povo que se uniu numa batalha de vida ou morte pela autodeterminação, pela liberdade e pelo direito de dizer aos pósteros que, na hora terrível, eles se apresentaram e foram honrados. Não é um mau legado.

O Brasil elegeu Bolsonaro e deu nisso. O anjo da História diria: Olhem em volta e contemplem as ruínas. Elas nos cercam e envergonham bem mais do que as de Mariupol ou Kiev. Estas são obra do agressor; aquelas, de brasileiros. A ruína da educação, a ruína da fome, a ruína sanitária, a ruína do desemprego, a ruína política, a ruína ambiental, a ruína moral de bem-pensantes, de liberais com bons diplomas universitários e empregos bem pagos que referendaram um projeto que nunca disfarçou suas tintas.

Historiadores rejeitam o conceito de “homem providencial”, mas em certos momentos é difícil duvidar de sua existência. Gerados pelas circunstâncias históricas, ao chegar ao poder os homens providenciais as radicalizam a tal ponto que desencadeiam mudanças não de intensidade, mas de qualidade. Churchill é um homem providencial, Fidel, Mandela, Gandhi, talvez Volodymyr Zelensky (ainda é cedo). E com certeza Putin, ainda que sua providência seja sinistra.

Em outubro, estaremos diante do nosso grande enigma: Quem somos nós, os brasileiros? Aqueles que dizem não à terra barbarizada ou os que reafirmam a escolha de 2018? Seremos Zelensky ou Putin? Escolheremos vida ou morte?

É preciso interromper a tragédia humanitária na terra ianomâmi (O Globo)


Malu Gaspar

Por Editorial 15/04/2022 00:00

Ianomâmis (Reuter) Ianomâmis (Reuter) | Reuters

São contundentes as conclusões do relatório da Hutukara Associação Yanomami sobre os efeitos nocivos do garimpo ilegal na maior reserva do país, que reúne cerca de 30 mil indígenas numa área de 9 milhões de hectares entre Amazonas e Roraima. Como mostrou O GLOBO, em apenas um ano (de 2020 a 2021), a devastação cresceu 46%, maior taxa desde a demarcação das terras ianomâmis em 1992. A destruição, evidenciada pelas crateras no meio da floresta e pelos rios contaminados com mercúrio, pode ser a ponta mais visível, mas não é a única tragédia. Com o desmatamento, forasteiros levam doenças, violência, drogas e terror.

Segundo o relatório, as aldeias enfrentam uma explosão de casos de malária — em algumas regiões, o aumento foi de mais de 1.000% em dois anos. Comida é outro problema crônico. Estudos mostram que 60% das crianças estão desnutridas. No fim do ano passado, imagens de crianças ianomâmis com as costelas à mostra chocaram o mundo. A situação é agravada pela estrutura precária de saúde e pelas grandes distâncias que separam as aldeias dos postos de atendimento médico.

Estima-se que existam 20 mil garimpeiros ilegais nas terras ianomâmis, sob vista grossa dos órgãos ambientais. Nesse cenário sem lei, os indígenas se tornam presas fáceis de esquemas criminosos. Há relatos de aliciamento de menores, abuso sexual de mulheres e crianças e oferecimento de drogas e bebidas alcoólicas aos indígenas. De acordo com a Hutukara, ao menos três crianças já foram mortas depois de ser abusadas por garimpeiros ilegais.

Não surpreende que a violência impere nesse ambiente de anomia. Na segunda-feira, um conflito entre indígenas numa área de garimpo dentro da terra ianomâmi deixou dois mortos (um indígena e um garimpeiro) e cinco feridos. Segundo relatos, índios tireis, apoiados por garimpeiros, invadiram a aldeia pixanehabi, contrária à exploração mineral na reserva.

Seria incorreto dizer que o Ibama e a Polícia Federal não agem. Na terça-feira, foi deflagrada a Operação Escudo de Palha, para combater o desmatamento ilegal numa comunidade indígena de Mato Grosso. Mas essas ações esporádicas são insuficientes. Além disso, são notórios o desmonte da fiscalização ambiental e a falta de empenho do governo para enfrentar madeireiros, grileiros e garimpeiros ilegais. Infelizmente, a sinalização que emana do Palácio do Planalto é outra.

Durante uma pajelança no Ministério da Justiça no mês passado, o presidente Jair Bolsonaro foi condecorado com a Medalha do Mérito Indigenista, concedida pela Funai “pelos serviços relevantes relacionados com o bem-estar, a proteção e a defesa das comunidades indígenas”. Bolsonaro foi um dos 26 agraciados, entre os quais estavam dez integrantes do primeiro escalão do governo. Para fazer jus à homenagem, presidente e ministros poderiam se esforçar para interromper a tragédia humanitária que se abate sobre os ianomâmis e envergonha o país.

Marcelo Leite: Virada Psicodélica – Artigo aponta injustiça psicodélica contra saber indígena (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Marcelo Leite

7 de março de 2022


A cena tem algo de surreal: pesquisador europeu com o corpo tomado por grafismos indígenas tem na cabeça um gorro com dezenas de eletrodos para eletroencefalografia (EEG). Um membro do povo Huni Kuin sopra rapé na narina do branco, que traz nas costas mochila com aparelhos portáteis para registrar suas ondas cerebrais.

A Expedition Neuron aconteceu em abril de 2019, em Santa Rosa do Purus (AC). No programa, uma tentativa de diminuir o fosso entre saberes tradicionais sobre uso da ayahuasca e a consagração do chá pelo chamado renascimento psicodélico para a ciência.

O resultado mais palpável da iniciativa, até aqui, apareceu num controverso texto sobre ética, e não dados, de pesquisa.

O título do artigo no periódico Transcultural Psychiatry prometia: “Superando Injustiças Epistêmicas no Estudo Biomédico da Ayahuasca – No Rumo de Regulamentação Ética e Sustentável”. Desde a publicação, em 6 de janeiro, o texto gerou mais calor que luz –mesmo porque tem sido criticado fora das vistas do público, não às claras.

Os autores Eduardo Ekman Schenberg, do Instituto Phaneros, e Konstantin Gerber, da PUC-SP, questionam a autoridade da ciência com base na dificuldade de empregar placebo em experimentos com psicodélicos, na ênfase dada a aspectos moleculares e no mal avaliado peso do contexto (setting) para a segurança do uso, quesito em que cientistas teriam muito a aprender com indígenas.

Entre os alvos das críticas figuram pesquisas empreendidas na última década pelos grupos de Jaime Hallak na USP de Ribeirão Preto e de Dráulio de Araújo no Instituto do Cérebro da UFRN, em particular sobre efeito da ayahuasca na depressão. Procurados, cientistas e colaboradores desses grupos não responderam ou preferiram não se pronunciar.

O potencial antidepressivo da dimetiltriptamina (DMT), principal composto psicoativo do chá, está no foco também de pesquisadores de outros países. Mas outras substâncias psicodélicas, como MDMA e psilocibina, estão mais próximas de obter reconhecimento de reguladores como medicamentos psiquiátricos.

Dado o efeito óbvio de substâncias como a ayahuasca na mente e no comportamento da pessoa, argumentam Schenberg e Gerber, o sistema duplo-cego (padrão ouro de ensaios biomédicos) ficaria inviabilizado: tanto o voluntário quanto o experimentador quase sempre sabem se o primeiro tomou um composto ativo ou não. Isso aniquilaria o valor supremo atribuído a estudos desse tipo no campo psicodélico e na biomedicina em geral.

Outro ponto criticado por eles está na descontextualização e no reducionismo de experimentos realizados em hospitais ou laboratórios, com o paciente cercado de aparelhos e submetido a doses fixadas em miligramas por quilo de peso. A precisão é ilusória, afirmam, com base no erro de um artigo que cita concentração de 0,8 mg/ml de DMT e depois fala em 0,08 mg/ml.

A sanitização cultural do setting, por seu lado, faria pouco caso dos elementos contextuais (floresta, cânticos, cosmologia, rapé, danças, xamãs) que para povos como os Huni Kuin são indissociáveis do que a ayahuasca tem a oferecer e ensinar. Ao ignorá-los, cientistas estariam desprezando tudo o que os indígenas sabem sobre uso seguro e coletivo da substância.

Mais ainda, estariam ao mesmo tempo se apropriando e desrespeitando esse conhecimento tradicional. Uma atitude mais ética de pesquisadores implicaria reconhecer essa contribuição, desenvolver protocolos de pesquisa com participação indígena, registrar coautoria em publicações científicas, reconhecer propriedade intelectual e repartir eventuais lucros com tratamentos e patentes.

“A complementaridade entre antropologia, psicanálise e psiquiatria é um dos desafios da etnopsiquiatria”, escrevem Schenberg e Gerber. “A iniciativa de levar ciência biomédica à floresta pode ser criticada como uma tentativa de medicalizar o xamanismo, mas também pode constituir uma possibilidade de diálogo intercultural centrado na inovação e na resolução de ‘redes de problemas’.”

“É particularmente notável que a biomedicina se aventure agora em conceitos como ‘conexão’ e ‘identificação com a natureza’ [nature-relatedness] como efeito de psicodélicos, mais uma vez, portanto, se aproximando de conclusões epistêmicas derivadas de práticas xamânicas. O desafio final seria, assim, entender a relação entre bem-estar da comunidade e ecologia e como isso pode ser traduzido num conceito ocidental de saúde integrada.”

As reações dos poucos a criticar abertamente o texto e suas ideias grandiosas podem ser resumidas num velho dito maldoso da academia: há coisas boas e novas no artigo, mas as coisas boas não são novas e as coisas novas não são boas. Levar EEG para a floresta do Acre, por exemplo, não resolveria todos os problemas.

Schenberg é o elo de ligação entre o artigo na Transcultural Psychiatry e a Expedition Neuron, pois integrou a incursão ao Acre em 2019 e colabora nesse estudo de EEG com o pesquisador Tomas Palenicek, do Instituto Nacional de Saúde Mental da República Checa. Eis um vídeo de apresentação, em inglês:

“Estamos engajados, Konstantin e eu, em projeto inovador com os Huni Kuin e pesquisadores europeus, buscando construir uma parceria epistemicamente justa, há mais de três anos”, respondeu Schenberg quando questionado sobre o cumprimento, pelo estudo com EEG, das exigências éticas apresentadas no artigo.

Na apresentação da Expedition Neuron, ele afirma: “Nessa primeira expedição curta e exploratória [de 2019], confirmamos que há interesse mútuo de cientistas e uma cultura indígena tradicional da Amazônia em explorar conjuntamente a natureza da consciência e como sua cura tradicional funciona, incluindo –pela primeira vez– registros de atividade cerebral num cenário que muitos considerariam demasiado desafiador tecnicamente”.

“Consideramos de supremo valor investigar conjuntamente como os rituais e medicinas dos Huni Kuin afetam a cognição humana, as emoções e os vínculos de grupo e analisar a base neural desses estados alterados de consciência, incluindo possivelmente experiências místicas na floresta.”

Schenberg e seus colaboradores planejam nova expedição aos Huni Kuin para promover registros de EEG múltiplos e simultâneos com até sete indígenas durante cerimônias com ayahuasca. A ideia é testar a “possibilidade muito intrigante” de sincronia entre cérebros:

“Interpretada pelos Huni Kuin e outros povos ameríndios como um tipo de portal para o mundo espiritual, a ayahuasca é conhecida por fortalecer intensa e rapidamente vínculos comunitários e sentimentos de empatia e proximidade com os outros.”

Os propósitos de Schenberg e Gerber não convenceram a antropóloga brasileira Bia Labate, diretora do Instituto Chacruna em São Francisco (EUA). “Indígenas não parecem ter sido consultados para a produção do texto, não há vozes nativas, não são coautores, e não temos propostas específicas do que seria uma pesquisa verdadeiramente interétnica e intercultural.”

Para a antropóloga, ainda que a Expedition Neuron tenha conseguido autorização para a pesquisa, algo positivo, não configura “epistemologia alternativa à abordagem cientificista e etnocêntrica”. Uma pesquisa interétnica, em sua maneira de ver, implicaria promover uma etnografia que levasse a sério a noção indígena de que plantas são espíritos, têm agência própria, e que o mundo natural também é cultural, tem subjetividade, intencionalidade.

“Todos sabemos que a bebida ayahuasca não é a mesma coisa que ayahuasca freeze dried [liofilizada]; que o contexto importa; que os rituais e coletivos que participam fazem diferença. Coisas iguais ou análogas já haviam sido apontadas pela literatura antropológica, cujas referências foram deixadas de lado pelos autores.”

Labate também discorda de que os estudos com ayahuasca no Brasil negligenciem o reconhecimento de quem chegou antes a ela: “Do ponto de vista global, é justamente uma marca e um diferencial da pesquisa científica brasileira o fato de que houve, sim, diálogo com participantes das religiões ayahuasqueiras. Estes também são sujeitos legítimos de pesquisa, e não apenas os povos originários”.

Schenberg e Palenicek participaram em 2020 de um encontro com outra antropóloga, a franco-colombiana Emilia Sanabria, líder no projeto Encontros de Cura, do Conselho Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS). Ao lado do indígena Leopardo Yawa Bane, o trio debateu o estudo com EEG no painel virtual “Levando o Laboratório até a Ayahuasca”, da Conferência Interdisciplinar sobre Pesquisa Psicodélica (ICPR). Há vídeo disponível, em inglês:

Sanabria, que fala português e conhece os Huni Kuin, chegou a ser convidada por Schenberg para integrar a expedição, mas declinou, por avaliar que não se resolveria a “incomensurabilidade epistemológica” entre o pensamento indígena e o que a biomedicina quer provar. Entende que a discussão proposta na Transcultural Psychiatry é importante, apesar de complexa e não exatamente nova.

Em entrevista ao blog, afirmou que o artigo parece reinventar a roda, ao desconsiderar um longo debate sobre a assimilação de plantas e práticas tradicionais (como a medicina chinesa) pela ciência ocidental: “Não citam a reflexão anterior. É bom que ponham a discussão na mesa, mas há bibliografia de mais de um século”.

A antropóloga declarou ver problema na postura do artigo, ao apresentar-se como salvador dos nativos. “Não tem interlocutor indígena citado como autor”, pondera, corroborando a crítica de Labate, como se os povos originários precisassem ser representados por não índios. “A gente te dá um espacinho aqui no nosso mundo.”

A questão central de uma colaboração respeitosa, para Sanabria, é haver prioridade e utilidade no estudo também para os Huni Kuin, e não só para os cientistas.

Ao apresentar esse questionamento no painel, recebeu respostas genéricas de Schenberg e Palenicek, não direta e concretamente benéficas para os Huni Kuin –por exemplo, que a ciência pode ajudar na rejeição de patentes sobre ayahuasca.

Na visão da antropóloga, “é linda a ideia de levar o laboratório para condições naturalistas”, mas não fica claro como aquela maquinaria toda se enquadraria na lógica indígena. No fundo, trata-se de um argumento simétrico ao brandido pelos autores do artigo contra a pesquisa psicodélica em ambiente hospitalar: num caso se descontextualiza a experiência psicodélica total, socializada; no outro, é a descontextualização tecnológica que viaja e invade a aldeia.

Sanabria vê um dilema quase insolúvel, para povos indígenas, na pactuação de protocolos de pesquisa com a renascida ciência psicodélica. O que em 2014 parecia para muitos uma nova maneira de fazer ciência, com outros referenciais de avaliação e prova, sofreu uma “virada capitalista” desde 2018 e terminou dominado pela lógica bioquímica e de propriedade intelectual.

“Os povos indígenas não podem cair fora porque perdem seus direitos. Mas também não podem entrar [nessa lógica], porque aí perdem sua perspectiva identitária.”

“Molecularizar na floresta ou no laboratório dá no mesmo”, diz Sanabria. “Não vejo como reparação de qualquer injustiça epistêmica. Não vejo diferença radical entre essa pesquisa e o estudo da Fernanda [Palhano-Fontes]”, referindo-se à crítica “agressiva” de Schenberg e Gerber ao teste clínico de ayahuasca para depressão no Instituto do Cérebro da UFRN, extensiva aos trabalhos da USP de Ribeirão Preto.

A dupla destacou, por exemplo, o fato de autores do estudo da UFRN indicarem no artigo de 2019 que 4 dos 29 voluntários no experimento ficaram pelo menos uma semana internados no Hospital Universitário Onofre Lopes, em Natal. Lançaram, com isso, a suspeita de que a segurança na administração de ayahuasca tivesse sido inadequadamente tratada.

“Nenhum desses estudos tentou formalmente comparar a segurança no ambiente de laboratório com qualquer um dos contextos culturais em que ayahuasca é comumente usada”, pontificaram Schenberg e Gerber. “Porém, segundo nosso melhor conhecimento, nunca se relatou que 14% das pessoas participantes de um ritual de ayahuasca tenham requerido uma semana de hospitalização.”

O motivo de internação, contudo, foi trivial: pacientes portadores de depressão resistente a medicamentos convencionais, eles já estavam hospitalizados devido à gravidade de seu transtorno mental e permaneceram internados após a intervenção. Ou seja, a internação não teve a ver com terem tomado ayahuasca.

Este blog também questionou Schenberg sobre o possível exagero em pinçar um erro que poderia ser de digitação (0,8 mg/ml ou 0,08 mg/ml), no artigo de 2015 da USP de Ribeirão, como flagrante de imprecisão que poria em dúvida a superioridade epistêmica da biomedicina psicodélica.

“Se dessem mais atenção aos relatos dos voluntários/pacientes, talvez tivessem se percebido do fato”, retorquiu o pesquisador do Instituto Phaneros. “Além da injustiça epistêmica com os indígenas, existe a injustiça epistêmica com os voluntários/pacientes, que também discutimos brevemente no artigo.”

Schenberg tem vários trabalhos publicados que se encaixariam no paradigma biomédico agora em sua mira. Seria seu artigo com Gerber uma autocrítica sobre a atividade pregressa?

“Sempre fui crítico de certas limitações biomédicas e foi somente com muito esforço que consegui fazer meu pós-doc sem, por exemplo, usar um grupo placebo, apesar de a maioria dos colegas insistirem que assim eu deveria fazer, caso contrário ‘não seria científico’…”.

“No fundo, o argumento é circular, usando a biomedicina como critério último para dar respostas à crítica à biomedicina”, contesta Bia Labate. “O texto não resolve o que se propõe a resolver, mas aprofunda o gap [desvão] entre epistemologias originárias e biomédicas ao advogar por novas maneiras de produzir biomedicina a partir de critérios de validação… biomédicos.”

Ethnobotanist Mark Plotkin: Indigenous knowledge serves as a ‘connective tissue’ between nature and human well-being (Mongabay)

news.mongabay.com

by Rhett A. Butler on 31 January 2022


  • As a best-selling author, the co-founder of the award-winning Amazon Conservation Team, and an acclaimed public speaker, Mark Plotkin is one of the world’s most prominent rainforest ethnobotanists and conservationists.
  • His experiences in Amazonian communities led Plotkin, along with Costa Rican conservationist Liliana Madrigal, to establish the Amazon Conservation Team (ACT) in 1995. ACT took a distinctly different approach than most Western conservation groups at the time: It placed Indigenous communities at the center of its strategy.
  • ACT’s approach has since been widely adopted by other organizations, and its philosophy as a whole is now more relevant than ever as the conservation sector wrestles with its colonial roots.
  • Plotkin spoke of his work, trends in conservation, and a range of other topics in a January 2022 interview with Mongabay founder Rhett A. Butler.

As a best-selling author, the co-founder of the award-winning Amazon Conservation Team, and an acclaimed public speaker, Mark Plotkin is one of the world’s most prominent rainforest ethnobotanists and conservationists. Plotkin has worked closely with Indigenous communities–including traditional healers or shamans–since the 1980s, first as an academic, then as a member of a large conservation organization.

His experiences in Amazonian communities led Plotkin, along with Costa Rican conservationist Liliana Madrigal, to establish the Amazon Conservation Team (ACT) in 1995. ACT took a distinctly different approach than most Western conservation groups at the time: It placed Indigenous communities at the center of its strategy, working in deep and sustained partnerships with Indigenous elders and leaders to strengthen recognition of their rights through a combination of traditional knowledge and mapping technologies. These efforts have resulted in vast swathes of Indigenous territories across rainforests in Colombia, Suriname, and Brazil securing better protection, both functionally and legally. They have also helped elevate the public’s consciousness about the value and importance of traditional Indigenous knowledge.

Mark Plotkin with Captain Kapai (middle) and Captain Aretina, members of the Tiriyo tribe.
Mark Plotkin with Captain Kapai (middle) and Captain Aretina, members of the Tiriyo tribe.

ACT’s approach has since been widely adopted by other organizations, and its philosophy as a whole is now more relevant than ever as the conservation sector wrestles with its colonial roots and the associated issues around discrimination, inclusion, and representation. Put another way, ACT’s longtime model has gone from being seen as fringe to being mainstream.

Plotkin welcomes these developments, but cautions that it will take more than lip-service and money to drive meaningful shifts in how conservation groups work with Indigenous communities.

“Claiming you are going to do something difficult and then carrying it out successfully are not the same thing,” Plotkin told Mongabay during a January 2022 interview. “In my experience, partnering effectively with tribal colleagues and communities does not happen on a western timeline and is certainly not expedited by simply throwing lots of money at the process.”

Jonathan, head of the indigenous park guard program for Kwamalasamutu, on patrol in the Amazon rainforest.
An Indigenous park guard on patrol near Kwamalasamutu, Suriname in the Amazon rainforest. Photo credit: Rhett A. Butler

Plotkin has been working to broaden public interest in Indigenous cultures and knowledge through a variety of platforms, from books to speeches to films, as a way to create a stronger constituency for Indigenous-led conservation. Last year he launched a podcast, “Plants of the Gods: Hallucinogens, Healing, Culture and Conservation”, to reach new audiences with this message.

Plotkin says that the podcast’s emphasis on medicinal plants, especially hallucinogenic plants, serves a purpose.

“I believe that hallucinogens and shamanism represent some of the most important ‘connective tissue’ between tropical nature and human well-being,” Plotkin told Mongabay.

Mark Plotkin podcasting. Photo credit: Mark Plotkin
Mark Plotkin podcasting. Photo credit: Mark Plotkin

As with his books, Plotkin leverages his storytelling abilities to engage his audience. These skills, he says, are critical to maximizing your effectiveness, whether that’s as a conservationist or something else.

“I have spent much of my career working with Indigenous peoples where… storytelling represents an essential craft,” he said. 

“Our industrialized society and our educational system have long undervalued the importance of telling an effective story. Whether you are a prosecutor trying to convince a jury, or a fundraiser trying to convince a donor, or a conservationist trying to convince a government official, you must be able to convey the information in a clear and compelling manner.”

Plotkin spoke of his work, trends in conservation, and a range of other topics in a January 2022 exchange with Mongabay founder Rhett A. Butler.

Mark Plotkin conversing with Yaloeefuh, a Trio shaman. Plotkin has worked with  Yaloeefuh since 1984. Image credit: Amazon Conservation Team
Mark Plotkin conversing with Yaloeefuh, a Trio shaman. Plotkin has worked with Yaloeefuh since 1984. Image credit: Amazon Conservation Team

AN INTERVIEW WITH MARK PLOTKIN

Mongabay: You launched a very popular podcast last year. As a biologist and a successful author, what moved you to start podcasting?

Mark Plotkin: When I was a kid, there were only three channels of television, meaning an important message that appeared on any one of these channels would be seen by tens of millions of people. Such is no longer the case. If you want to disseminate a message widely, you have to work in a variety of media. I launched “Plants of the Gods: Hallucinogens, Healing, Culture and Conservation” with the intent of reaching a new and broad audience beyond just the folks who visit the Amazon Conservation Team website or have read my books.

Mongabay: Why the focus on hallucinogens and shamanism?

Mark Plotkin: First and foremost, because I am an ethnobotanist, and these are topics that I have found endlessly fascinating since I first wandered into a night school class taught my mentor Richard Schultes, the so-called “Father of Ethnobotany,” in September of 1974.

Secondly, because I believe that hallucinogens and shamanism represent some of the most important “connective tissue” between tropical nature and human well-being.

Mark Plotkin with Akoi, Sikiyana medicine man. Photo credit: ACT
Mark Plotkin with Akoi, Sikiyana medicine man. Photo credit: ACT

Thirdly, because of timing: Every week brings more news about how tropical hallucinogens like psilocybin and ayahuasca (both covered in episodes of “Plants of the Gods”) offer new hope in the treatment—and, sometimes, the cure—of intractable mental ailments ranging from depression to addiction.

Mongabay: Is this why ayahuasca tourism seems so out of control in places like Peru?

Mark Plotkin: This question brings to mind more than one cliché: “It is the best of times; it is the worst of times.” “When God wants to punish you, she answers your prayers.” “When it rains, it pours.”

Look, every biologist as far back as Linnaeus noted the expertise of Indigenous peoples regarding use of local flora and fauna. And most ethnobiologists as far back as Schultes in the late 1930s observed that these cultures used these species to heal in ways we could not understand, that – in the cases of hallucinogenic plants and fungi – shamans were employing psychoactive plants and fungi as biological scalpels to diagnose, analyze, treat and sometimes cure ailments that our own physicians or psychiatrists could not.

It therefore comes as no surprise that people whose medical, spiritual and/or emotional needs are not being met by western medicine or organized religion are traveling to places like Iquitos in the Peruvian Amazon to be treated by “indigenous shamans” – some of whom are not Indigenous and many of whom are not shamans.

Sunrise over the Amazon rainforest
Sunrise over the Amazon rainforest. Photo by Rhett A. Butler

The combination of remote areas, linguistic challenges, emotionally unstable people, altered states and money is a combustible one, and resulted in many problems and some fatalities. In my pal Michael Pollan’s book, “How to Change Your Mind: What the New Science of Psychedelics Teaches Us About Consciousness, Dying, Addiction, Depression, and Transcendence,” he makes a compelling case as to how and why emotionally fragile people are the ones most at risk in these ceremonies purchased via websites.

Of course, there is a win-win scenario here in which shamanism remains an honored profession, Indigenous people are compensated fairly for their healing knowledge and practices, the rainforest is better protected and cherished, and sick people are cured. Yet achieving these goals have proven more difficult than many had anticipated.

Mongabay: Which brings to mind my next question: The Amazon Conservation Team has put Indigenous communities at the center of its work since inception. Now the conservation sector as a whole is putting much more emphasis on the role Indigenous peoples play in achieving conservation and climate objectives. In your view, what has driven this shift?

Mark Plotkin: It is all too easy to say that the only news that is coming out of the environment in general – and the rainforest in particular – is bad. That people in general and large conservation organizations are now realizing the central role local societies must be empowered to assume is highly encouraging. That the Indigenous peoples themselves are pointing out that they are the best stewards of their ancestral ecosystems is likewise long overdue and to be celebrated.

Nonetheless, claiming you are going to do something difficult and then carrying it out successfully are not the same thing. In my experience, partnering effectively with tribal colleagues and communities does not happen on a western timeline and is certainly not expedited by simply throwing lots of money at the process. For example, for almost four decades, I have been working with the great shaman Amasina – who has been interviewed by Mongabay – and he is still showing me new treatments. Trying to learn information like this in a hurry would have failed.

Amasina in 1982. Photo credit: Mark Plotkin.
Amasina in 1982. Photo credit: Mark Plotkin.
Mark Plotkin with Amasina in Suriname. Photo credit: ACT
Mark Plotkin with Amasina in Suriname. Photo credit: ACT

Another personal example: about five years ago, I was invited (as an observer) to attend a gathering of Indigenous leaders in northeastern Brazil. On the first afternoon, I was approached by Captain Aretina of the Tiriyo people. He said, “I have not seen you in over 30 years. You were my father’s friend. When I heard you were going to be here, I traveled five days from my village to attend. May I give you a hug?” And we embraced, warmly and tearfully.

You cannot create this type of bond when you land at a small rainforest airstrip, tell the pilot to wait for you, have a brief meeting with the village chief, offer him lots of money and then get back on the plane and fly off.

Mongabay: The Amazon Conservation Team’s work in Colombia has significantly expanded over the past decade. What is the impact you’re most proud about in Colombia?

Mark Plotkin: The Amazon Conservation Team just celebrated its 25th Anniversary and Colombia was our first program and remains our largest. The accomplishments there are legion: Gaining title to more than two million acres (an area larger than Yellowstone) for the Indigenous peoples themselves, creation of the first Indigenous women’s reserve (“Mamakunapa”) in the northwest Amazon (with the assistance of my friend Tim Ferriss), and helping craft and pass legislation to protect uncontacted tribes and their ancestral rainforests.

One of the most meaningful achievements for me personally involves the expansion of Chiribiquete National Park where Schultes worked and collected. So stunned was he by this spectacular landscape after he first visited in 1943 that he began lobbying to have the region declared a protected area as soon as he returned to the capital city of Bogotá. In close collaboration with Colombian colleagues in both academia and government, this first came to fruition in 1989.

During the past decade, under the leadership of Northwest Amazon Program Director Carolina Gil and ACT co-founder Liliana Madrigal, we have partnered with local Colombians, (including Indigenous colleagues), to expand Chiribiquete to become the largest rainforest protect area in the Amazon (if not the world). At more than 17,000 square miles, it is twice the size of Massachusetts and protects a multitude of flora and fauna, the worlds’ largest assemblage of Indigenous painting, and at least three uncontacted tribes.

Meseta de Pyramides, Chiribiquete, Colombia. Photo credit: Mark Plotkin

Mongabay: And what about beyond Colombia?

Of course, there are other signature projects elsewhere. In the northeast Amazon, we have successfully partnered with local Indigenous peoples to help them bring no fewer than five non-timber products to market, with more in the pipeline. As far as I know, our Indigenous Ranger Program in the same region is the one of the first and longest running programs of this type in lowland South America. And our Shamans and Apprentices Program – facilitating the transfer of intragenerational healing wisdom within the tribe has been similarly effective.

And mapping: We are extremely proud of the fact that ACT – under the leadership of our ace cartographer Brian Hettler – has partnered with over 90 Indigenous groups to train them to map their own lands.

Furthermore, we have created highly innovative “Story Maps” for a variety of purposes. My two favorites are “The Life and Times of Richard Schultes” and “Lands of Freedom focusing on the oral history and history of the Matawai Maroons of Suriname, a landmark in documenting the African American diaspora.

Mongabay: Returning to the subject of Colombia, despite relatively progressive policies around Indigenous rights and conservation, Colombia’s deforestation rate has been climbing. What do you see as the key elements to reversing this trend?

Mark Plotkin: Apparently, the Presidents of both Colombia and Costa Rica were hailed as heroes at the recent COP meetings, based largely on programs and projects largely enacted by predecessors.

Tree cover loss and primary forest loss in Colombia from 2002 to 2020 according to data from Hansen et al 2021.
Tree cover loss and primary forest loss in Colombia from 2002 to 2020 according to data from Hansen et al 2021.

We need both the carrot and the stick to move forward in the sense that positive moves need to be celebrated while destructive moves are punished by economic responses, not just in the tropics but here in the industrialized world as well.

The concentration of wealth also needs to be called out: That more and more of the world’s wealth is the hands of the few, especially those few who have little connection to nature, bodes ill for the future. It is encouraging to see more billionaires writing checks for progressive causes but — with some very noteworthy exceptions — they are not giving their support to the most effective grassroots organizations, despite a lot of blather about “impact investing.”

The bottom line: We need to more effectively celebrate or criticize politicians and businesspeople for their actions. We also need to make sure much more training, opportunity and support are reaching communities at the grassroots level. And we need to do what we can to reorient our society and our economy to stop glorifying profits at all costs and promoting short-term gratification planning, thinking and operations which is fouling our global nest at an ever more frantic pace.

Mongabay: Beyond what you’ve mentioned so far, what do you see as the biggest gaps in the conservation sector? What is holding conservation back from having greater impact?

Mark Plotkin: One need is better analysis: What is the cost of pouring mercury into the Amazon in terms of human suffering and increased cancers? Of course, presenting the cost-benefit equation alone as a simple solution is far too reductionist. Throughout the course of human prehistory (e.g., the overhunting and extinction of animals as varied as the American mammoth and the Steller’s sea cow) and history (deforestation of the Mediterranean countries, DDT as a pesticide, voting against one’s economic self-interest, etc.), people have always carried out self-destructive practices.

Gold mining in the Peruvian Amazon. Photo by Rhett A. Butler.
Gold mining in the Peruvian Amazon. Photo by Rhett A. Butler.

Yet better explanation of costs and benefits, better elucidation of the spiritual components of environmental stewardship and better prosecution of environmental destroyers would bode well for the future. Many environmentalists forget: It was evangelicals who spoke in support of and fought to protect the Endangered Species Act when it was threatened in the 1980s. Better bridge-building in our ever more politically polarized world in the U.S. could conceivably bring many benefits.

Mongabay: Do you think the pandemic will teach us anything about how to do conservation better?

Mark Plotkin: I penned an editorial for the Los Angeles Review of Books, titled “Conservation and Coronavirus,” that described the link between the rise of the novel coronavirus and the abuse of nature in general and the wildlife trade in particular, and asserted that the best way to head off the next pandemic was to reset and rethink much of the unethical and needlessly cruel exploitation of Mother Nature, from deforestation to cramming animals into fetid cages. Many, many others have spoken to the same issues. Time will tell if there were lessons learned from the pandemic. In the short term, I am not seeing the changes necessary.

Mongabay: You’re the author of several acclaimed books, have appeared in numerous documentaries, and host a successful podcast. What would you tell younger colleagues about the importance of storytelling?

Mark Plotkin: I start with two advantages. First, I hail from New Orleans, where good storytelling is a highly celebrated practice. Not only is it a city where many great writers and storytellers were born, but even some of our most celebrated authors who weren’t raised there, like Twain and Faulkner, had their careers and abilities turbocharged by spending time in New Orleans. I have also spent much of the past four decades working with traditional storytellers in Indigenous cultures where being able to make a point through a tale well told is of paramount importance.

Secondly, I have spent much of my career working with Indigenous peoples where (once again) storytelling represents an essential craft.

The single best book I have every read about learning how to tell a story – whether it is while sitting around a campfire in the wilderness or composing a script for Netflix – is “The Writer’s Journey,” by Chris Vogler. The author explains Joseph Campbell’s “Hero’s Journey” through the prism of Hollywood films and explains why and how “The Wizard of Oz,” “Star Wars” and “Harry Potter” are the same basic story. Every storyteller should read this book!

Mark Plotkin with Amasina and other medicine men. Photo credit: ACT
Mark Plotkin with Amasina and other medicine men. Photo credit: ACT

Finally, I would say that our industrialized society and our educational system have long undervalued the importance of telling an effective story. Whether you are a prosecutor trying to convince a jury, or a fundraiser trying to convince a donor, or a conservationist trying to convince a government official, you must be able to convey the information in a clear and compelling manner.

Mongabay: What advice would you give to a young person considering a career in conservation?

Mark Plotkin: It is very easy for everyone – not just young people – to be discouraged by the global environmental situation: deforestation, wildfires, pollution, climate change, etc. – the list is long and seemingly endless. However, nothing is worse than doing nothing because you can’t do everything.

Monumental change IS possible, although you do not often see it featured in the media. Just look at Mongabay: even with the all the heartbreaking stories, there are always accounts of new ideas, initiatives, and successes. I concluded my most recent book as follows: “When I was growing up in the 1950’s and 1960’s, people habitually threw litter out their car windows, smoked cigarettes in offices and on airplanes, shunned seatbelts and assumed the Berlin Wall would never come down. With enough changed minds come changed policies and realities.”

Rainforest creek in the Colombian Amazon. Image by Rhett A. Butler.

So to modify a much quoted aphorism: be and create the change to want to see. The shamans with whom I have had the honor and privilege to learn from for almost four decades insist on the interconnectedness of all things, be it deforestation or racism or elephant poaching or poverty or climate change. I certainly believe the world needs more ethnobotanists and other boundary walkers who can straddle different cultures and belief systems, but I also know that we need more lawyers and politicians and spiritual leaders and politicians and artists and businesspeople to join the cause. Environmental justice and stewardship are way too important to be left solely to environmentalists!

Gente do campo: descubra quais são os 28 povos e comunidades tradicionais do Brasil (G1)

Indígenas, quilombolas, caatingueiros e quebradeiras de coco babaçu são alguns dos que integram o grupo. Direito à terra está no centro das lutas destas populações.

Artigo original

Por Vivian Souza, G1

29/01/2022 07h00

Quebradeiras de coco da região de São João do Arraial. — Foto: Divulgação

Você sabe quais são povos e comunidades tradicionais brasileiros? Talvez indígenas e quilombolas sejam os primeiros que passam pela cabeça, mas, na verdade, existem, além deles, 26 reconhecidos oficialmente e muitos outros ainda não foram incluídos na legislação, explicam especialistas do tema.

“Os povos indígenas são os primeiros do Brasil, considerados os donos da terra e fazem parte do arcabouço dos povos tradicionais. A partir da colonização, outros povos vão sendo agregados. Em 1574, tem o registro da entrada do primeiro cigano”, narra Kátia Favilla, antropóloga especialista no assunto e secretária-executiva da Rede Cerrado.

“A gente tem um processo, então, já de uns 400 anos de formação de povos e comunidades tradicionais, que não é um processo finalizado”, completa.

São pescadores artesanais, quebradeiras de coco babaçu, apanhadores de flores sempre-vivas, caatingueiros, extrativistas, para citar alguns (veja lista completa ao fim da reportagem). Todos considerados culturalmente diferenciados, capazes de se reconhecerem entre si.

Essas comunidades fazem uso dos recursos naturais, não apenas para seu sustento, mas também para reprodução cultural, social e religiosa, define Cristina Adams, uma das coordenadoras do livro “Povos tradicionais e biodiversidade no Brasil – contribuições dos povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais para a biodiversidade, políticas e ameaças”.

Parceria com a natureza

Cada uma das comunidades tem uma prática de sistema tradicional de uso, que, de forma generalizada, é conhecida como Sistema Agrícola de Produção (Sat).

“Essas práticas são muito importantes no modo como esses povos se autoidentificam. Muitas dessas comunidades tradicionais se identificam pelas práticas econômicas que são estruturantes do seu modo de vida”, explica Ana Tereza da Silva, professora do Mestrado Profissional em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais da Universidade de Brasília (MESPT/UNB).

Contudo nem todos os povos mantêm apenas um modo de produção. Uma comunidade pesqueira, por exemplo, pode também realizar o extrativismo sustentável, exemplifica Ana. Ou, como acrescenta Kátia, uma comunidade extrativista pode ter uma pequena roça.

Ainda assim, o Sat é fundamental para a manutenção dos povos em seus territórios.

Reportagem do Globo Rural de 2021 mostra quilombo que produz rapadura artesanal e aumenta renda com projeto Pró-Semiárido.
Reportagem do Globo Rural de 2021 mostra quilombo que produz rapadura artesanal e aumenta renda com projeto Pró-Semiárido.

Para Ana, essas populações, essas populações não veem o agro como um negócio. A terra é considerada uma mãe e há uma relação de reciprocidade com a natureza.

Nesta troca, a natureza fornece “alimento, um lugar saudável para habitar, para ter água. E eles se responsabilizam em cuidar dela, a tirar dela apenas o suficiente para viver bem e a respeitar os tempos de auto-organização, de regeneração da própria natureza”, diz.

Na prática, essas populações dependem, muitas vezes, de uma agricultura e tecnologia simples e intensiva mão de obra, ainda que, dentro do território, a densidade populacional seja baixa, descreve Cristina.

Além de terem pouco impacto ambiental, suas atividades contribuem para a manutenção e para a geração de biodiversidade, tanto da natureza quanto da “agrobiodiversidade”, ou seja, de variedade de espécies dentro da atividade agrícola, fundamental para a segurança alimentar.

Chega até sua mesa

As produções dessas populações não ficam apenas para a subsistência. Elas já foram abrangidas por algumas políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), voltado para ajudá-las a escoar os cultivos para as escolas próximas às comunidades.

Atualmente, as feiras locais são importantes para que esses alimentos sejam comercializados.

Algumas comunidades organizadas de maneira mais coletiva, através de associações, por exemplo, conseguem expandir a venda para outros estados e para o exterior.

Kátia, antropóloga especialista no assunto, mora em Lisboa e conta que o açaí é um grande exemplo disso. Boa parte vem de comunidades tradicionais e se tornou comum na capital portuguesa.

No Brasil, o umbu, a castanha do Brasil e o pequi são exemplos de comidas que vêm desses povos e chegam até as cidades.

Reconhecimento

O primeiro passo para um grupo ser considerado tradicional é a autoidentificação, que ele se declare como tal.

Depois vem a etapa dos processos judiciais, quando são feitos laudos que comprovem a historicidade da comunidade, há quanto tempo ela ocupa determinada área, suas produções sociais, políticas e econômicas, por exemplo.

“O que faz uma comunidade se autoidentificar como tradicional, normalmente, são as ameaças”, diz Ana.

Esses povos, que sempre estiveram em suas terras, quando sentem que podem perdê-las, seja para o grande agronegócio ou para grileiros, buscam esse reconhecimento para tentar manter o seu direito de permanecer no local.

Existem situações, inclusive, em que as vidas das lideranças são ameaçadas ou tiradas por quem visa tomar essas áreas.

Em relação aos indígenas e quilombolas, esse direito à terra está resguardado pela Constituição de 1988, resultado da mobilização dos movimentos sociais.

Com isso, essas pessoas contam com órgãos federais, como a Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Fundação Cultural Palmares. Ambas têm função institucional e constitucional de reconhecer e demarcar as terras, explica Ana.

Os demais povos têm que recorrer a outros dispositivos jurídicos, como ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

Eles também podem recorrer ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e solicitar que a área se torne uma reserva de desenvolvimento sustentável, diz a professora do MESPT.

Há ainda o Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais (CONPCT) – composto majoritariamente por representantes desses povos -, que além de fazer parte deste processo de reconhecimento, também auxilia no diálogo entre comunidades e o Estado brasileiro.

Apesar disso, Kátia diz que, atualmente, esses órgãos estão enfraquecidos e o que realmente tem defendido esses povos são os movimentos sociais, caso da Rede de Comunidades Tradicionais, formada por mais de 30 segmentos, que atua em diálogo com o governo buscando uma legislação mais representativa.

demarcação de terras indígenas é alvo de discussão no Supremo Tribunal Federal (STF), visando decidir se é preciso seguir o chamado “marco temporal”. Por esse critério, indígenas só podem reivindicar a demarcação de terras que já eram ocupadas por eles antes da data de promulgação da Constituição de 1988.

Saiba mais sobre a demarcação de terras indígenas com o vídeo:

Joenia Wapichana comenta sobre a demarcação das terras indígenas
Joenia Wapichana comenta sobre a demarcação das terras indígenas

Busca por direitos

A terra, de acordo com as especialistas, é a maior questão para essas comunidades.

“Muitas vezes eles estão em território de interesse para grandes fazendeiros, para mineração ou para madeireiras, de modo que eles são o elo mais fraco da corrente”, explica Cristina.

De acordo com a pesquisadora, há ainda o agravante de que existem comunidades cujo território acabou sendo sobreposto por unidades de conservação, o que também pode gerar muitos conflitos e impedimentos no uso tradicional dos recursos naturais.

Isso porque, nessas situações, a população deveria ser retirada da área e indenizada, mas a escritora disse que nunca soube de um caso em que isso aconteceu.

Porém essa não é a única luta dessas pessoas, há a busca por políticas públicas. Esses povos enfrentam, por exemplo, a dificuldade para acessar créditos agrícolas e para melhoria de moradias, diz Kátia.

Há também obstáculos para a comercialização dos produtos, com estradas em condições ruins para o escoamento ou mesmo sobrando apenas os rios para fazer isso, relata a antropóloga.

Para além do setor agrícola, há falta de acesso a educação e a saúde de qualidade.

“A modernidade chegou a elas (comunidades), mas isso não faz com que elas percam a sua ancestralidade, mas é claro que elas foram se adaptando ao mundo. Elas querem acesso, por exemplo, a educação e a universidades”, diz Kátia.

Veja a lista de povos e comunidades tradicionais:

  • Andirobeiras
  • Apanhadores de Sempre-vivas
  • Caatingueiros
  • Caiçaras
  • Castanheiras
  • Catadores de Mangaba
  • Ciganos
  • Cipozeiros
  • Extrativistas
  • Faxinalenses
  • Fundo e Fecho de Pasto
  • Geraizeiros
  • Ilhéus
  • Indígenas
  • Isqueiros
  • Morroquianos
  • Pantaneiros
  • Pescadores Artesanais
  • Piaçaveiros
  • Pomeranos
  • Povos de Terreiro
  • Quebradeiras de Coco Babaçu
  • Quilombolas
  • Retireiros
  • Ribeirinhos
  • Seringueiros
  • Vazanteiros
  • Veredeiros

Lideranças indígenas estão sob ataque em grupos de WhatsApp (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Monitoramento mostra que desinformação e mentiras servem como estratégia para enfraquecer pautas como a demarcação de terras

Fernanda Bassette – 26 de janeiro de 2022


Embaixo de uma das tendas instaladas em Brasília, no maior acampamento indígena da história da democracia brasileira, em setembro de 2021, o cacique Agnelo Xavante, 52, da Terra Indígena Etewawe (MT), assumiu o microfone e, por um momento, parou a mobilização.

Visivelmente consternado, o líder pediu a atenção dos quase 6.000 indígenas presentes. Ele precisava desmentir um vídeo compartilhado em grupos de WhatsApp que prejudicava todos ali.

A postagem tinha alcançado grupos indígenas de todo o país no aplicativo, disse Agnelo. Mas não só. O conteúdo já circulava em outros grupos públicos no Amazonas no WhatsApp, cujos interesses vão de política à religião, monitorados desde agosto pelo projeto Amazonas – Mentira tem Preço, do InfoAmazonia e da produtora FALA.

“O vídeo chegou em muitos grupos de WhatsApp. Aquilo doeu na gente. Você sabe o que são 320 aldeias xavantes irritadas? Isso nunca tinha acontecido. Eu, guerreiro do povo Xavante, não podia ouvir e ficar calado”, lembra.

Agnelo disparou um novo vídeo em suas redes de contato, desmentindo o anterior, que acusava, sem provas, a Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil) e a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) de usar recursos do acampamento para outros fins.

A mobilização aconteceu durante a apreciação do marco temporal no STF (Supremo Tribunal Federal), uma tese jurídica que defende que indígenas só têm direito à terra se nela estivessem em 1988.

“A demarcação de terras indígenas não interessa a muitos, por isso gravam esses vídeos mentirosos. Nosso confronto e a nossa divisão é tudo o que eles querem”, diz Agnelo. O julgamento foi suspenso após um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes, que queria mais tempo para analisar o caso.

Enquanto Agnelo gravava o vídeo, a cacica Eronilde Fermin Omágua, do povo Kambeba de São Paulo de Olivença (AM), que também estava na mobilização nacional, precisou se defender de mensagens de ódio compartilhadas pelas redes.

“Uma pessoa jogou dois áudios contra mim num grupo de WhatsApp que possui mais de 300 mulheres do Amazonas, dizendo que eu não estava lutando pelos direitos coletivos, que não era comprometida com a causa e que não representava o meu povo”, recorda.

“Deixei de ser vista como uma lutadora e virei uma vilã. Sou atacada dia e noite e isso já adoeceu minha família.” Eronilde diz não conhecer a mulher indígena que a acusou.

Quem não estava em Brasília também foi alvo de ataques. Enquanto Milena Mura, liderança do povo Mura (Amazonas), e outras 400 pessoas, de 17 comunidades, protestavam contra a tese do marco temporal na rodovia estadual M254, que liga Manaus a Porto Velho, histórias distorcidas foram compartilhadas.

“Começaram a espalhar que estávamos em busca de briga política, que queríamos causar arruaça e que estávamos prejudicando o comércio e a saúde, por causa da pandemia de Covid-19”, diz.

“Com isso, até mesmo outras aldeias começaram a atacar nossa organização, questionando os objetivos do nosso movimento.”

Segundo Milena, o Conselho Indígena Mura teve de convocar uma reunião extraordinária e reunir lideranças de 34 aldeias para desmentir as notícias falsas.

Para Denise Dora, diretora-executiva da organização Artigo 19 no Brasil e na América do Sul, “a desinformação é uma estratégia”.

“No caso dos povos indígenas, ocorre para ter acesso à terra, aos recursos naturais e às áreas que são constitucionalmente protegidas por serem públicas e por respeitarem a histórica presença dos indígenas”, afirma.

Nos onze grupos públicos do Amazonas monitorados pela reportagem, histórias atacando a mobilização contra a tese do marco temporal também foram compartilhadas. Uma delas, por exemplo, creditava genericamente os protestos a ONGs e partidos de esquerda.

Leda Gitahy, professora do Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e uma das coordenadoras do Grupo de Estudo da Desinformação em Redes Sociais, diz que existe um ecossistema que cuidadosamente organiza estratégias de desinformação e de propaganda política para dividir as comunidades.

“O problema é o mesmo no país inteiro. A lógica que está por trás disso é soltar mensagens de difusão rápida e articulada para causar confusão e dúvida”, afirma.

“A estratégia das mentiras compartilhadas em grupos de WhatsApp é fazer os indígenas brigarem dentro do seu povo para desestruturar o movimento.”

Relatórios do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da Apib destacam que 2020 ficou marcado pelo alto número de mortes de indígenas ocorridas em decorrência da má gestão do enfrentamento à pandemia no Brasil, pautada pela desinformação e pela negligência do governo.

“O governo federal é o principal agente transmissor do vírus entre os povos indígenas”, diz o documento da Apib.

“As fake news diziam que a vacina era do diabo, que vem com um chip implantado, de um tudo que era para que as pessoas não tomassem. E tivemos resistência dentro do território: em uma calha [área no rio] onde há mais de mil pessoas só 160 quiseram tomar a vacina naquele momento”, contou o presidente da Foirn (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro), no Amazonas, Marivaldo Baré.

Segundo ele, o governo federal não promoveu nenhuma campanha de informação sobre a vacina para combater a estratégia de desinformação que atingiu as aldeias do Alto Rio Negro. Pelo contrário, a descrença pública do presidente sobre as vacinas ajudou a piorar a situação.

“Tivemos que trabalhar muito para produzir, por nossa conta, áudios e cartilhas falando sobre a importância da vacinação e da prevenção para evitar contaminação.”

O Ministério da Saúde foi procurado, via assessoria de imprensa, para comentar os aspectos mencionados pela Apib e pela Foirn, mas não se manifestou até a publicação da reportagem.

A auxiliar de enfermagem indígena Vanda Ortega Witoto foi vítima de difamação e racismo em grupos públicos de WhatsApp e nas redes sociais após ser a primeira pessoa do Amazonas a ser vacinada contra a Covid, em janeiro de 2021.

“Diziam que eu era uma ‘índia fake’ por não vestir roupas tradicionais e por morar na cidade e não na aldeia. Diziam que deveriam vacinar índios de verdade e não eu”, conta. “Passei a receber inúmeras mensagens de ódio, foi horrível.”

Os conteúdos falsos, afirma Francesc Comelles, coordenador regional do Cimi, começaram a ter um impacto maior nas comunidades indígenas à medida que o acesso à internet chegou dentro dos territórios.

Se por um lado a tecnologia conectou lideranças e permitiu que denunciassem violações com agilidade, por outro expôs todos às fake news.

“Essa mistura de informação verdadeira com informação distorcida e mal-intencionada foi potencializada com as fake news em torno da pandemia, o que teve um impacto direto na saúde dos indígenas”, afirma.

Quem é alvo de conteúdos inverídicos distribuídos pelas mídias sociais deve buscar suporte. Segundo Denise Dora, a busca de ajuda deve ser feita sempre por meio da organização indígena majoritária da região ou da Defensoria Pública da União, do Ministério Público Federal e das organizações da sociedade civil. “É preciso buscar ajuda para reverter. E existem mecanismos para isso”, afirma.

Em nota, a Coiab afirmou que os indígenas vítimas de mentiras devem avaliar se o alcance da ação pode causar um mal injusto e dano direto à sua pessoa.

Em caso positivo, devem procurar a autoridade policial e “a sua organização regional com a finalidade de dar publicidade sobre o acontecido e buscar suporte.”

Procurada para comentar sobre ações de suporte aos indígenas, a Funai (Fundação Nacional do Índio) disse que “em vez de trabalhar com assertivas falsas, tem atuado, efetivamente, com medidas práticas de apoio à população indígena, a exemplo do investimento de cerca de R$ 34 milhões em ações de fiscalização em Terras Indígenas de todo o país em 2021”.

A reportagem integra o projeto Amazonas – Mentira tem preço, publicado em parceria pelo InfoAmazonia e pela produtora FALA.

Weaving Indigenous knowledge into the scientific method (Nature)

nature.com

Saima May Sidik

11 January 2022; Correction 24 January 2022


Dominique David-Chavez working with Randal Alicea, a Caribbean Indigenous farmer, in his tobacco drying shed in Cidra, Borikén.
Dominique David-Chavez works with Randal Alicea, an Indigenous farmer, in his tobacco-drying shed in Cidra, Borikén (Puerto Rico).Credit: Norma Ortiz

Many scientists rely on Indigenous people to guide their work — by helping them to find wildlife, navigate rugged terrain or understand changing weather trends, for example. But these relationships have often felt colonial, extractive and unequal. Researchers drop into communities, gather data and leave — never contacting the locals again, and excluding them from the publication process.

Today, many scientists acknowledge the troubling attitudes that have long plagued research projects in Indigenous communities. But finding a path to better relationships has proved challenging. Tensions surfaced last year, for example, when seven University of Auckland academics argued that planned changes to New Zealand’s secondary school curriculum, to “ensure parity between mātauranga Māori”, or Maori knowledge, and “other bodies of knowledge”, could undermine trust in science.

Last month, the University of Auckland’s vice-chancellor, Dawn Freshwater, announced a symposium to be held early this year, at which different viewpoints can be discussed. In 2016, the US National Science Foundation (NSF) launched Navigating the New Arctic — a programme that encouraged scientists to explore the wide-reaching consequences of climate change in the north. A key sentence in the programme description reflected a shift in perspective: “Given the deep knowledge held by local and Indigenous residents in the Arctic, NSF encourages scientists and Arctic residents to collaborate on Arctic research projects.” The Natural Sciences and Engineering Research Council of Canada and New Zealand’s Ministry of Business, Innovation and Employment have made similar statements. So, too, have the United Nations cultural organization UNESCO and the Intergovernmental Science-Policy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services.

But some Indigenous groups feel that despite such well-intentioned initiatives, their inclusion in research is only a token gesture to satisfy a funding agency.

There’s no road map out of science’s painful past. Nature asked three researchers who belong to Indigenous communities in the Americas and New Zealand, plus two funders who work closely with Northern Indigenous communities, how far we’ve come toward decolonizing science — and how researchers can work more respectfully with Indigenous groups.

DANIEL HIKUROA: Weave folklore into modern science

Daniel Hikuroa is an Earth systems and environmental humanities researcher at Te Wānanga o Waipapa, University of Auckland, New Zealand, and a member of the Māori community.

We all have a world view. Pūrākau, or traditional stories, are a part of Māori culture with great potential for informing science. But what you need to understand is that they’re codified according to an Indigenous world view.

For example, in Māori tradition, we have these things called taniwha that are like water serpents. When you think of taniwha, you think, danger, risk, be on your guard! Taniwha as physical entities do not exist. Taniwha are a mechanism for describing how rivers behave and change through time. For example, pūrākau say that taniwha live in a certain part of the Waikato River, New Zealand’s longest, running for 425 kilometres through the North Island. That’s the part of the river that tends to flood. Fortunately, officials took knowledge of taniwha into account when they were designing a road near the Waikato river in 2002. Because of this, we’ve averted disasters.

Sometimes, it takes a bit of explanation to convince non-Indigenous scientists that pūrākau are a variation on the scientific method. They’re built on observations and interpretations of the natural world, and they allow us to predict how the world will function in the future. They’re repeatable, reliable, they have rigour, and they’re accurate. Once scientists see this, they have that ‘Aha!’ moment where they realize how well Western science and pūrākau complement each other.

We’re very lucky in New Zealand because our funding agencies help us to disseminate this idea. In 2005, the Ministry of Research, Science and Technology (which has since been incorporated into the Ministry of Business, Innovation and Employment) developed a framework called Vision Mātauranga. Mātauranga is the Māori word for knowledge, but it also includes the culture, values and world view of Māori people. Whenever a scientist applies for funding, they’re asked whether their proposal addresses a Māori need or can draw on Māori knowledge. The intent of Vision Mātauranga is to broaden the science sector by unlocking the potential of Māori mātauranga.

In the early days of Vision Mātauranga, some Indigenous groups found themselves inundated with last-minute requests from researchers who just wanted Indigenous people to sign off on their proposals to make their grant applications more competitive. It was enormously frustrating. These days, most researchers are using the policy with a higher degree of sophistication.

Vision Mātauranga is at its best when researchers develop long-term relationships with Indigenous groups so that they know about those groups’ dreams and aspirations and challenges, and also about their skill sets. Then the conversation can coalesce around where those things overlap with the researchers’ own goals. The University of Waikato in Hamilton has done a great job with this, establishing a chief-to-chief relationship in which the university’s senior management meets maybe twice a year with the chiefs of the Indigenous groups in the surrounding area. This ongoing relationship lets the university and the Indigenous groups have high-level discussions that build trust and can inform projects led by individual labs.

We’ve made great progress towards bridging Māori culture and scientific culture, but attitudes are still evolving — including my own. In 2011, I published my first foray into using Māori knowledge in science, and I used the word ‘integrate’ to describe the process of combining the two. I no longer use that word, because I think weaving is a more apt description. When you weave two strands together, the integrity of the individual components can remain, but you end up with something that’s ultimately stronger than what you started with.

DOMINIQUE DAVID-CHAVEZ: Listen and learn with humility

Dominique David-Chavez is an Indigenous land and data stewardship researcher at Colorado State University in Fort Collins, and a member of the Arawak Taíno community.

People often ask how can we integrate Indigenous knowledge into Western science. But framing the question in this way upholds the unhealthy power dynamic between Western and Indigenous scientists. It makes it sound as though there are two singular bodies of knowledge, when in fact Indigenous knowledge — unlike Western science — is drawn from thousands of different communities, each with its own knowledge systems.

At school, I was taught this myth that it was European and American white men who discovered all these different physical systems on Earth — on land, in the skies and in the water. But Indigenous people have been observing those same systems for hundreds or thousands of years. When Western scientists claim credit for discoveries that Indigenous people made first, they’re stealing Indigenous people’s contributions to science. This theft made me angry, but it also drove me. I decided to undertake graduate studies so that I could look critically at how we validate who creates knowledge, who creates science and who are the scientists.

To avoid perpetuating harmful power dynamics, researchers who want to work in an Indigenous people’s homeland should first introduce themselves to the community, explain their skills and convey how their research could serve the community. And they should begin the work only if the community invites them to. That invitation might take time to come! The researchers should also build in time to spend in the community to listen, be humbled and learn.

If you don’t have that built-in relational accountability, then maybe you’re better off in a supporting role.

Overall, my advice to Western researchers is this: always be questioning your assumptions about where science came from, where it’s going and what part you should be playing in its development.

MARY TURNIPSEED: Fund relationship building and follow-ups

Mary Turnipseed is an ecologist and grantmaker at the Gordon and Betty Moore Foundation, Palo Alto, California.

I’ve been awarding grants in the Arctic since 2015, when I became a marine-conservation programme officer at the Gordon and Betty Moore Foundation. A lesson I learnt early on about knowledge co-production — the term used for collaborations between academics and non-academics — is to listen. In the non-Indigenous parts of North America, we’re used to talking, but flipping that on its end helps us to work better with Indigenous communities.

Listening to our Indigenous Alaskan Native partners is often how I know whether a collaboration is working well or not. If the community is supportive of a particular effort, that means they’ve been able to develop a healthy relationship with the researchers. We have quarterly check-ins with our partners about how projects are going; and, in non-pandemic times, I frequently travelled to Alaska to talk directly with our partners.

One way in which we help to spur productive relationships is by giving research teams a year of preliminary funding — before they even start their research — so that they can work with Indigenous groups to identify the questions their research will address and decide how they’re going to tackle them. We really need more funding agencies to set aside money for this type of early relationship-building, so that everyone goes into a project with the same expectations, and with a level of trust for one another.

People working on the Ikaaġvik Sikukun collaboration in the snow cutting on ice core samples.
Members of the Ikaaġvik Sikukun collaboration at the Native Village of Kotzebue, Alaska.Credit: Sarah Betcher/Farthest North Films

Developing relationships takes time, so it’s easiest when Indigenous communities have a research coordinator, such as Alex Whiting (environmental programme director for the Native Village of Kotzebue), to handle all their collaborations. I think the number of such positions could easily be increased tenfold, and I’d love to see the US federal government offer more funding for these types of position.

Funding agencies should provide incentives for researchers to go back to the communities that they’ve worked with and share what they’ve found. There’s always talk among Indigenous groups about researchers who come in, collect data, get their PhDs and never show up again. Every time that happens, it hurts the community, and it hurts the next researchers to come. I think it’s essential for funding agencies to prevent this from happening.

ALEX WHITING: Develop a toolkit to decolonize relationships

Alex Whiting is an environmental specialist in Kotzebue, Alaska, and a formally adopted member of the Qikiktagrukmiut community.

A lot of the time, researchers who operate in a colonial way aren’t aware of the harm they’re doing. But many people are realizing that taking knowledge without involving local people is not only unethical, but inefficient. In 1997, the Native Village of Kotzebue — a federally recognized seat of tribal government representing the Qikiktagrukmiut, northwest Alaska’s original inhabitants — hired me as its environmental programme director. I helped the community to develop a research protocol that lays out our expectations of scientists who work in our community, and an accompanying questionnaire.

By filling in the one-page questionnaire, researchers give us a quick overview of what they plan to do; its relevance and potential benefit to our community; the need for local involvement; and how we’ll be compensated financially. This provides us with a tool through which to develop relationships with researchers, make sure that our priorities and rights are addressed, and hold researchers accountable. Making scientists think about how they’ll engage with us has helped to make research a more equitable, less extractive activity.

We cannot force scientists to deal with us. It’s a free country. But the Qikiktagrukmiut are skilled at activities such as boating, travelling on snow and capturing animals — and those skills are extremely useful for fieldwork, as is our deep historical knowledge of the local environment. It’s a lot harder for scientists to accomplish their work without our involvement. Many scientists realize this, so these days we get 6–12 research proposals per year. We say yes to most of them.

The NSF’s Navigating the New Arctic programme has definitely increased the number of last-minute proposals that communities such as ours get swamped with a couple of weeks before the application deadline. Throwing an Indigenous component into a research proposal at the last minute is definitely not an ideal way to go about things, because it doesn’t give us time to fully consider the research before deciding whether we want to participate. But at least the NSF has recognized that working with Indigenous people is a thing! They’re just in the growing-pains phase.

Not all Indigenous groups have had as much success as we have, and some are still experiencing the extractive side of science. But incorporating Indigenous knowledge into science can create rapid growths in understanding, and we’re happy we’ve helped some researchers do this in a respectful way.

NATAN OBED: Fund research on Indigenous priorities

Natan Obed is president of Inuit Tapiriit Kanatami, and a member of the Inuit community.

Every year, funding agencies devote hundreds of millions of dollars to work that occurs in the Inuit homeland in northern Canada. Until very recently, almost none of those agencies considered Inuit peoples’ priorities.

These Indigenous communities face massive social and economic challenges. More than 60% of Inuit households are food insecure, meaning they don’t always have enough food to maintain an active, healthy life. On average, one-quarter as many doctors serve Inuit communities as serve urban Canadian communities. Our life expectancy is ten years less than the average non-Indigenous Canadian’s. The list goes on. And yet, very little research is devoted to addressing these inequities.

Last year, the Inuit advocacy organization Inuit Tapiriit Kanatami (the name means ‘Inuit are united in Canada’) collaborated with the research network ArcticNet to start its own funding programme, which is called the Inuit Nunangat Research Program (INRP). Funding decisions are led entirely by Inuit people to ensure that all grants support research on Inuit priorities. Even in the programme’s first year, we got more requests than we could fund. We selected 11 proposals that all relate directly to the day-to-day lives of Inuit people. For example, one study that we’re funding aims to characterize a type of goose that has newly arrived in northern Labrador; another focuses on how social interactions spread disease in Inuit communities.

Our goal with the INRP is twofold: first, we want to generate knowledge that addresses Inuit concerns, and second, we want to create an example of how other granting agencies can change so that they respect the priorities of all groups. We’ve been moderately successful in getting some of the main Canadian granting agencies, such as the Canadian Institutes of Health Research, to allocate more resources to things that matter to Inuit people. I’d like to think that the INRP gives them a model for how to become even more inclusive.

We hope that, over the next ten years, it will become normal for granting agencies to consider the needs of Indigenous communities. But we also know that institutions change slowly. Looking back at where we’ve been, we have a lot to be proud of, but we still have a huge task ahead of us.

These interviews have been edited for length and clarity.

For better science, increase Indigenous participation in publishing (Nature)

10 January 2022

Amending long-established processes to include fresh perspectives is challenging, but journal editor Lisa Loseto is trying to find a path forward.

Saima May Sidik

Lisa Loseto at a campfire, where she is shutting down a research site at a traditional whaling camp.
Lisa Loseto stands by a campfire.Credit: Oksana Schimnowski

Lisa Loseto is a research scientist at Fisheries and Oceans Canada, a federal government department whose regional offices include one in Winnipeg, where she is based. Some of Northern Canada’s Indigenous people have shaped her research into how beluga whales (Delphinapterus leucas) interact with their environments, and have taught her to rethink her own part in the scientific method. As co-editor-in-chief of the journal Arctic Science since 2017, she is looking at ways to increase Indigenous representation in scientific publishing, including the editorial and peer-review processes.

What got you thinking about the role of Indigenous people in scientific publishing?

In 2020, Arctic Science published a special issue centred on knowledge co-produced by Western scientists and Indigenous people. As production of that issue progressed, the peer-review and editorial processes stuck out as aspects lacking Indigenous representation. We were soliciting papers to highlight the contributions of Indigenous knowledge — but the peer-review process was led by non-Indigenous editors like myself, and academics to review the articles. A few members of the editorial board thought, ‘Let’s talk about this and think about ways to provide more balance.’ We discussed the issue in a workshop that included representatives from several groups that are indigenous to Canada’s Arctic.

What did the workshop reveal about the Indigenous participants’ perceptions of scientific publishing?

For a lot of people, publishing seemed like a distant concept, so we explained how the editorial and peer-review processes work. We described peer review as a method for validating knowledge before it’s published, and many Indigenous participants recognized similarities between that process and one in their own lives: in the Arctic, each generation passes down knowledge of how to live in a harsh environment, and over time this knowledge is tested and refined. The Indigenous workshop participants said, “We would die if we didn’t have the peer-review process.”

The scientific method used by Westerners is colonial: it emphasizes objectivity and performing experiments in the absence of outside influences. This mindset can feel alienating for many Indigenous people, who see themselves as integral parts of nature. This makes me think scientific publishing doesn’t fit an Indigenous framework.

The dense jargon and idiosyncratic structures of scientific publications make them difficult for people without a formal scientific education to jump into. Even people training to become scientists often don’t get involved in publishing until they’re in graduate school because there’s so much background knowledge that they need to have first.

If a journal article draws on Indigenous knowledge, should it include an Indigenous peer reviewer?

Perhaps, but trying to force Indigenous perspectives into a process that was created to advance Western priorities can come with its own problems. Scientific publications serve the dual purposes of disseminating information and acting as a tool of measure for scientists’ careers. Most members of Indigenous groups aren’t concerned with building up their academic CVs; in fact, some are uncomfortable with being named as authors because they see their knowledge as part of a collective body, rather than belonging solely to themselves. So do publications have the same weight for Indigenous people? Maybe not. In light of this, is participating in this system really the best use of time for Indigenous people who aren’t in academia — especially when their communities are already overtaxed with researchers’ requests for guidance through prepublication aspects of performing research in remote areas?

In Arviat, Nunavut, Canada, a local woman demonstrates historic tools used by Inuit, with a polar tent in background.
Indigenous communities hold a wealth of knowledge that can advance science.Credit: Galaxiid/Alamy

As an alternative to contributing to research articles, we’re considering starting a commentary section of Arctic Science. This could give more Indigenous people a venue to publish their views on the scientific process, and their observations of natural trends, in a less technical format.

Can Indigenous journal editors help to bridge the divide between Indigenous people and academic publications?

Yes, but there are very few Indigenous journal editors. Historically, editor positions have been reserved for senior scientists, and many senior scientists are white men. I’m trying to bring on more early-career scientists as editors, as this group is often more diverse. By moving away from offering these positions to only the most senior scientists, I think we’ll see a shift in demographics. At the same time, I don’t want to put the burden of bridging current divides entirely on Indigenous people. That job is for all of us.

What is Arctic Science planning to do moving forward?

My hope is to build an Indigenous advisory group that can advise Arctic Science on the peer-review process generally and consider, on a case-by-case basis, whether articles could benefit from an Indigenous peer reviewer. Beyond that, we’re still figuring out how to engage more people without being prescriptive about how they’re engaged.

What do you hope these actions will achieve?

Publications are power. Policy decisions are based on things that are written down and tangible: peer-reviewed papers and reports. Not only do scientific publications guide policy decisions, they also determine who gets money. The more you publish, and the better the journals you publish in, the more power you have.

Indigenous communities have tremendous knowledge, but much of it is passed down orally rather than published in written form. I think the fact that Indigenous representation is weak in academia, including in publishing, upholds the power imbalance that exists between Indigenous people and settlers. I want to find a better balance.

doi: https://doi.org/10.1038/d41586-022-00058-x

This interview has been edited for length and clarity.

Genomes Show the History and Travels of Indigenous Peoples (Scientific American)

Scientific American

A new study demonstrates “I ka wā mamua, ka wā ma hope,” or “the future is in the past”

October 13, 2021 – DNASocial Justice

Keolu Fox is an assistant professor at the University of California, San Diego, where he is affiliated with the department of anthropology, the Global Health Program, the Halıcıoğlu Data Science Institute, the Climate Action Lab, the Design Lab and the Indigenous Futures Institute. His work focuses on designing and engineering genome sequencing and editing technologies to advance precision medicine for Indigenous communities.

Genomes Show the History and Travels of Indigenous Peoples
Wa’a Kiakahi in Keaukaha, Hawaii. Credit: Keolu Fox

I am the proud descendant of people who, at least 1,000 years ago, made one of the riskiest decisions in human history: to leave behind their homeland and set sail into the world’s largest ocean. As the first Native Hawaiian to be awarded a Ph.D. in genome sciences, I realized in graduate school that there is another possible line of evidence that can give insights into my ancestors’ voyaging history: our moʻokuʻauhau, our genome. Our ancestors’ genomes were shaped by evolutionary and cultural factors, including our migration and the ebb and flow of the Pacific Ocean. They were also shaped by the devastating history of colonialism.

Through analyzing genomes from present-day peoples, we can do incredible things like determine the approximate number of wa‘a (voyaging canoes) that arrived when my ancestors landed on the island of Hawaii or even reconstruct the genomes of some of the legendary chiefs and navigators that discovered the islands of the Pacific. And beyond these scientific and historical discoveries, genomics research can also help us understand and rectify the injustices of the past. For instance, genomics might clarify how colonialism affected things like genetic susceptibility to illness—information crucial for developing population-specific medical interventions. It can also help us reconstruct the history of land use, which might offer new evidence in court cases over disputed territories and land repatriation.

First, let’s examine what we already know from oral tradition and experimental archeology about our incredible voyaging history in the Pacific. Using complex observational science and nature as their guide, my ancestors drew on bird migration patterns, wind and weather systems, ocean currents, the turquoise glint on the bottom of a cloud reflecting a lagoon, and a complex understanding of stars, constellations and physics to find the most remote places in the world. These intrepid voyagers were the first people to launch what Kanaka Maoli (Hawaiian) master navigator Nainoa Thompson refers to as the original “moonshot.”

This unbelievably risky adventure paid off: In less than 50 generations (1,000 years), my ancestors mastered the art of sailing in both hemispheres. Traveling back and forth along an oceanic superhighway the space of Eurasia in double-hulled catamarans filled to the brim with taro, sweet potatoes, pigs and chickens, using the stars at night to navigate and other advanced techniques and technologies, iteratively perfected over time. This would be humankind’s most impressive migratory feat—no other culture in human history has covered so much distance in such a short amount of time.

The history of my voyaging ancestors and their legacy has been passed to us traditionally through our ʻōlelo (language), mo‘olelo (oral history) and hula. As a Kanaka Maoli, I have grown up knowing them: of how Maui pulled the Hawaiian Islands from the sea and how Herb Kāne, Ben Finney, Tommy Holmes, Mau Piailug and many other members of the Polynesian Voyaging Society enabled the first noninstrumental voyage from Tahiti to Hawaii in over 600 years onboard the wa‘a Hōkūle‘a.

Genomes from modern Pacific Islanders have enabled us to reconstruct precise timings, paths and branching patterns, or bifurcations, of these ancient voyages, giving a refined understanding of the order in which many archipelagoes in the Pacific were settled. By working collaboratively with communities, our approach has directly challenged colonial science’s legacy of taking artifacts and genetic materials without consent. Similar tools to the new genomics have no doubt been misused in the past to justify racist and social Darwinist ends. Yet by using genetic data graciously provided by multiple communities across the Pacific, and by allowing them to shape research priorities, my colleagues and I have been able to “I ka wā mamua, ka ma hope,” or “walk backward into the future.”

So how can our knowledge of the genomic past allow us to walk toward this better future? Genome sequence data are not just helpful in providing refined historical information, they also help us understand and treat important contemporary matters such as population-specific disease. The time frame of these ancestors’ arrival in the Pacific, and the order in which the most remote islands in the world were settled, matters for understanding the incidence and severity among Islander populations of many complex diseases today.

Think of our genetic history as a tree, with present-day populations at the tips of branches and older ones closer to the trunk. Moving backward in time—or from the tips to the trunk—you encounter places where two branches, or populations, were descended from the same ancestor. The places where the branches split represent events in settlement histories in which two populations split, often because of a migration to a new place.

These events provide key insights into what geneticists call “founder effects” and “population bottlenecks,” which are extremely important for understanding disease susceptibility. For example, if there is a specific condition in a population at the trunk of a branching event, then populations on islands that are settled later will have a higher chance of presenting that same health condition as well. Founder populations have provided key insights into rare population-specific diseases. Some examples include Ashkenazi Jews and susceptibility to Tay-Sachs disease and Mennonite communities and susceptibility to maple syrup urine disease (MSUD).

This research also sheds important light on colonialism. As European settlers arrived in the Pacific in places such as Hawaii, Tahiti, and Aotearoa (New Zealand), they didn’t just bring the printing press, the Bible and gunpowder, they brought deadly pathogens. In the case of many Indigenous peoples, historical contact with Europeans resulted in a population collapse (a loss of approximately 80 percent of an Indigenous population’s size), mostly as a result of virgin-soilepidemics of diseases such as smallpox. From Hernán Cortés to James Cook, these bottlenecks have shaped the contemporary genetics of Indigenous peoples in ways that directly impact our susceptibility to disease.

By integrating digital sequence information (DSI) from both modern and ancient Indigenous genomes in genetic regions such as the human leukocyte antigen (HLA) system, we can observe a reduction in human genetic variation in contemporary populations, as compared with ancient ones. In this way, we can observe empirically how colonialism has shaped the genomes of modern Indigenous populations.

Today fewer than 1 percent of genome-wide association studies, which identify associations between diseases and genetic variants, and less than 5 percent of clinical trials include Indigenous peoples. We have just begun to develop mRNA vaccine-based therapies that have already shown their ability to “save the world.” Given their success and potential, why not design treatments, such as gene therapies, that are population specific and reflect the local complexity that speaks to Indigenous peoples’ unique migratory histories and experiences with colonialism?

Finally, genomics also has the potential to impact the politics of Indigenous rights and specifically how we think about the history of land stewardship and belonging. For instance, emerging genomics evidence can empirically verify who first lived on contested territories—e.g., indigenous groups could prove how many generations they arrived before colonists—which could be used in a court of law to settle land and resource repatriation claims.

Genetics gives us insights into the impact of both our peoples’ proud history of migration and the shameful legacy of colonialism. We need to encourage the use of these data to design treatments for the least, the last, the looked over and the left out, and to generate policies and legal decisions that can rectify the history of injustice. In this way, genomics can connect where we come from to where we will go. Once used to make claims about Indigenous peoples’ inferiority, today the science of the genome can be part of an Indigenous future we can all believe in.

A notável atualidade do Animismo (Outras Palavras)

Ele foi visto pela velha antropologia como “forma mais primitiva” de religião. Mas, surpresa: sugere respostas a questões cruciais de hoje: o divórcio entre cultura e natureza e a tendência da ciência a tratar como objeto tudo o que não é “humano”

Publicado 02/09/2021 às 17:46 – Atualizado 02/09/2021 às 18:00

Por Renato Sztutman, na Revista Cult, parceira editorial de Outras Palavras

Muito se tem falado hoje em dia sobre o animismo. E mais, muito se tem falado sobre uma necessidade de retomar o animismo – uma forma de responder ao projeto racionalista da modernidade, que transformou o ambiente em algo inerte, opaco, sinônimo de recurso, mercadoria. Em tempos de pandemia, constatamos que algo muito importante se perdeu na relação entre os sujeitos humanos e o mundo que eles habitam, e isso estaria na origem da profunda crise que vivemos.

Animismo é, em princípio, um conceito antropológico, proposto por Edward Tylor, em Primitive Culture (1871), para se referir à forma mais “primitiva” de religião, aquela que atribui “alma” a todos os habitantes do cosmos e que precederia o politeísmo e o monoteísmo. O termo “alma” provém do latim anima – sopro, princípio vital. Seria a causa mesma da vida, bem como algo capaz de se desprender do corpo, viajar para outros planos e tempos. O raciocínio evolucionista de autores como Tylor foi refutado por diferentes correntes da antropologia ao longo do século 20, embora possamos dizer que ainda seja visto entranhado no senso comum da modernidade. A ideia de uma religião embrionária, fundada em crenças desprovidas de lógica, perdeu lugar no discurso dos antropólogos, que passaram a buscar racionalidades por trás de diferentes práticas mágico-religiosas.

Uma reabilitação importante do conceito antropológico de animismo aparece com Philippe Descola, em sua monografia “La nature domestique” (1986), sobre os Achuar da Amazônia equatoriana. Descola demonstrou que, quando os Achuar dizem que animais e plantas têm wakan (“alma” ou, mais precisamente, intencionalidade, faculdade de comunicação ou inteligência), isso não deve ser interpretado de maneira metafórica ou como simbolismo. Isso quer dizer que o modo de os Achuar descreverem o mundo é diverso do modo como o fazem os naturalistas (baseados nos ditames da Ciência moderna), por não pressuporem uma linha intransponível entre o que costumamos chamar Natureza e Cultura. O animismo não seria mera crença, representação simbólica ou forma primitiva de religião, mas, antes de tudo, uma ontologia, modo de descrever tudo o que existe, associada a práticas. Os Achuar engajam-se em relações efetivas com outras espécies, o que faz com que, por exemplo, mulheres sejam tidas como mães das plantas que cultivam, e homens como cunhados dos animais de caça.

Para Descola, a ontologia naturalista não pode ser tomada como único modo de descrever o mundo, como fonte última de verdade. Outros três regimes ontológicos deveriam ser considerados de maneira simétrica, entre eles o animismo. Esse ponto foi desenvolvido de maneira exaustiva em Par-delà nature et culture (2005), no qual o autor se lança em uma aventura comparatista cruzando etnografias de todo o globo. O animismo inverte o quadro do naturalismo: se neste último caso a identificação entre humanos e não humanos passa pelo plano da fisicalidade (o que chamamos corpo, organismo ou biologia), no animismo essa mesma identificação se dá no plano da interioridade (o que chamamos alma, espírito ou subjetividade). Para os naturalistas, a alma seria privilégio da espécie humana, já para os animistas é uma mesma “alma humana” que se distribui entre todos os seres do cosmos.

A ideia de perspectivismo, que autores como Eduardo Viveiros de Castro e Tânia Stolze Lima atribuem a cosmologias ameríndias, estende e transforma a de animismo. O perspectivismo seria, grosso modo, uma teoria ou metafísica indígena que afirma que (idealmente) diferentes espécies se têm como humanas, mas têm as demais como não humanas. Tudo o que existe no cosmos pode ser sujeito, mas todos não podem ser sujeitos ao mesmo tempo, o que implica uma disputa. Diz-se, por exemplo, que onças veem-se como humanas e veem humanos como presas. O que os humanos veem como sangue é, para elas, cerveja de mandioca, bebida de festa. Onças e outros animais (mas também plantas, astros, fenômenos meteorológicos) são, em suma, humanos “para si mesmos”. Um xamã ameríndio seria capaz de mudar de perspectiva, de se colocar no lugar de outrem e ver como ele o vê, portanto de compreender que a condição humana é partilhada por outras criaturas.

Como insiste Viveiros de Castro em A inconstância da alma selvagem (2002), a perspectiva está nos corpos, conjuntos de afecções mais do que organismos. A mudança de perspectiva seria, assim, uma metamorfose somática e se ancoraria na ideia de um fundo comum de humanidade, numa potencialidade anímica distribuída horizontalmente no cosmos. Se o perspectivismo é o avesso do antropocentrismo, ele não se separa de certo antropomorfismo, fazendo com que prerrogativas humanas deixem de ser exclusividade da espécie humana, assumindo formas as mais diversas.

O livro de Davi Kopenawa e Bruce Albert, A queda do céu (2010), traz exemplos luminosos desses animismos e perspectivismos amazônicos. Toda a narrativa de Kopenawa está baseada em sua formação como xamã yanomami, que se define pelo trato com os espíritos xapiripë, seres antropomórficos que nada mais são que “almas” ou “imagens” (tradução que Albert prefere dar para o termo utupë) dos “ancestrais animais” (yaroripë). Segundo a mitologia yanomami, os animais eram humanos em tempos primordiais, mas se metamorfosearam em seus corpos atuais. O que uniria humanos e animais seria justamente utupë, e é como utupë que seus ancestrais aparecem aos xamãs. Quando os xamãs yanomami inalam a yãkoana (pó psicoativo), seus olhos “morrem” e – mudando de perspectiva – eles acessam a realidade invisível dos xapiripë, que se apresentam em uma grande festa, dançando e cantando, adornados e brilhosos. O xamanismo yanomami – apoiando-se em experiências de transe e sonho – é um modo de conhecer e descrever o mundo. É nesse sentido que Kopenawa diz dos brancos, “povo da mercadoria”, que eles não conhecem a terra-floresta (urihi), pois não sabem ver. Onde eles identificam uma natureza inerte, os Yanomami apreendem um emaranhado de relações. O conhecimento dessa realidade oculta é o que permitiria a esses xamãs impedir a queda do céu, catalisada pela ação destrutiva dos brancos. E assim, insiste Kopenawa, esse conhecimento passa a dizer respeito não apenas aos Yanomami, mas a todos os habitantes do planeta.

Embora distintas, as propostas de Descola e de Ingold buscam na experiência animista um contraponto às visões naturalistas e racionalistas, que impõem uma barreira entre o sujeito (humano) e o mundo. Como propõe Viveiros de Castro, essa crítica consiste na “descolonização do pensamento”, pondo em xeque o excepcionalismo humano e a pretensão de uma ontologia exclusiva detida pelos modernos. Contraponto e descolonização que não desembocam de modo algum na negação das ciências modernas, mas que exigem imaginar que é possível outra ciência ou que é possível reencontrar o animismo nas ciências. Tal tem sido o esforço de autores como Bruno Latour e Isabelle Stengers, expoentes mais expressivos dos science studies: mostrar que a ciência em ação desmente o discurso oficial, para o qual conhecer é desanimar (dessubjetivar) o mundo, reduzi-lo a seu caráter imutável, objetivo.

No livro Sobre o culto moderno dos deuses “fatiches” (1996), Latour aproxima a ideia de fetiche nas religiões africanas à ideia de fato nas ciências modernas. Um fetiche é um objeto de culto (ou mesmo uma divindade) feito por humanos e que, ao mesmo tempo, age sobre eles. Com seu trabalho etnográfico em laboratórios, Latour sugeriu que os fatos científicos não são meramente “dados”, mas dependem de interações e articulações em rede. Num laboratório, moléculas e células não seriam simplesmente objetos, mas actantes imprevisíveis, constantemente interrogados pelo pesquisador. Em seu pioneiro Jamais fomos modernos (1991), Latour assume que fatos científicos são em certo sentido feitos, e só serão aceitos como fatos quando submetidos à prova das controvérsias, isto é, quando conseguirem ser estabilizados como verdades.

Isabelle Stengers vai além da analogia entre fatos (“fatiches”) e fetiches para buscar na história das ciências modernas a tensão constitutiva com as práticas ditas mágicas. Segundo ela, as ciências modernas se estabelecem a partir da desqualificação de outras práticas, acusadas de equívoco ou charlatanismo. Ela acompanha, por exemplo, como a química se divorciou da alquimia, e a psicanálise, do magnetismo e da hipnose. Em suma, as ciências modernas desqualificam aquilo que está na sua origem. E isso, segundo Stengers, não pode ser dissociado do lastro entre a história das ciências e a do capitalismo. Em La sorcellerie capitaliste (A feitiçaria do capitalismo, 2005), no diálogo com a ativista neopagã Starhawk, Stengers e Philippe Pignarre lembram que o advento da ciência moderna e do capitalismo nos séculos 17 e 18 não se separa da perseguição às práticas de bruxaria lideradas por mulheres. Se o capitalismo, ancorado na propriedade privada e no patriarcado, emergia com a política dos cercamentos (expulsão dos camponeses das terras comuns), a revolução científica se fazia às custas da destruição de práticas mágicas. Stengers e Pignarre encontram no ativismo de Starhawk e de seu grupo Reclaim, que despontou na Califórnia no final dos anos 1980, um exemplo de resistência anticapitalista. Para Starhawk, resistir ao capitalismo é justamente retomar (reclaim) práticas – no caso, a tradição wicca, de origem europeia – que foram sacrificadas para que ele florescesse.

Retomar a magia, retomar o animismo seria, para Stengers, uma forma de existência e de resistência. Como escreveu em Cosmopolíticas (1997), quando falamos de práticas desqualificadas pelas ciências modernas, não deveríamos apenas incorrer em um ato de tolerância. Não se trata de considerar a magia uma crença ou “cultura”, como fez-se na antropologia da época de Tylor e até pouco tempo atrás. Ir além da “maldição da tolerância” é levar a sério asserções indígenas, por exemplo, de que uma rocha tem vida ou uma árvore pensa. Stengers não está interessada no animismo como “outra” ontologia: isso o tornaria inteiramente exterior à experiência moderna. Ela tampouco se interessa em tomar o animismo como verdade única, nova ontologia que viria desbancar as demais. Mais importante seria experimentá-lo, seria fazê-lo funcionar no mundo moderno.

Que outra ciência seria capaz de retomar o animismo hoje? Eis uma questão propriamente stengersiana. Hoje vivemos mundialmente uma crise sanitária em proporções jamais vistas, que não pode ser dissociada da devastação ambiental e do compromisso estabelecido entre as ciências e o mercado. A outra ciência, diriam Latour e Stengers, seria a do sistema terra e do clima, que tem como marco a teoria de Gaia, elaborada por James Lovelock e Lynn Margulis nos anos 1970. Gaia é para esses cientistas a Terra como um organismo senciente, a Terra como resultante de um emaranhado de relações entre seres vivos e não vivos. Poderíamos dizer que Gaia é um conceito propriamente animista que irrompe no seio das ciências modernas, causando desconfortos e ceticismos. O que Stengers chama de “intrusão de Gaia”, em sua obra No tempo das catástrofes (2009), é uma reação ou resposta do planeta aos efeitos destruidores do capitalismo, é a ocorrência cada vez mais frequente de catástrofes ambientais e o alerta para um eventual colapso do globo. Mas é também, ou sobretudo, um chamado para a conexão entre práticas não hegemônicas – científicas, artísticas, políticas – e a possibilidade de recriar uma inteligência coletiva e imaginar novos mundos.

O chamado de Stengers nos obriga a pensar a urgência de uma conexão efetiva entre as ciências modernas e as ciências indígenas, uma conexão que retoma o animismo, reconhecendo nele um modo de engajar humanos ao mundo, contribuindo assim para evitar ou adiar a destruição do planeta. Como escreve Ailton Krenak, profeta de nosso tempo, em Ideias para adiar o fim do mundo (2019), “quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo de humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista”. Em outras palavras, quando desanimamos o mundo, o deixamos à mercê de um poder mortífero. Retomar o animismo surge como um chamado de sobrevivência, como uma chance para reconstruir a vida e o sentido no tempo pós-pandêmico que há de vir.

Entenda o que é o “Parecer Antidemarcação” e o que está em jogo no STF (CIMI)

20/05/2020

Após liminar, o STF decide se mantém a suspensão do Parecer 001/2017 da AGU, que vem sendo usado para barrar demarcações de terras indígenas

Indígenas manifestam-se em frente ao STF. Foto: Guilherme Cavalli/Cimi Por Mobilização Nacional Indígena

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) realizarão um importante julgamento, que terá consequências para todos os povos indígenas do Brasil. Em data ainda indefinida, eles avaliarão no plenário, confirmando ou não, a decisão liminar que suspendeu o Parecer 001/2017 da Advocacia-Geral da União (AGU), que trata da demarcação de terras indígenas.

O pedido de suspensão foi deferido pelo relator, ministro Edson Fachin, no dia 7 de maio. O Parecer da AGU foi emitido em julho de 2017 e traz graves consequências para os povos indígenas: ele vem sendo usado para barrar e anular demarcações de terras.

O julgamento chegou a iniciar, no dia 22 de maio, em plenário virtual, mas acabou sendo interrompido após pedido de destaque do ministro Alexandre de Moraes. Agora, a votação deverá ser retomada, ainda sem data definida, por meio de videoconferência.

Entenda o que é o Parecer 001/2017 e porque é tão importante que o STF mantenha sua suspensão.

O que é o Parecer 001/2017 da AGU?
Qual a origem do Parecer 001?
Que consequências o Parecer tem para os povos indígenas?
O que é a tese do marco temporal?
Por que a tese do marco temporal é tão ruim para os povos indígenas?
O que é o caso de repercussão geral no STF?
Qual a participação dos povos indígenas neste processo?
Qual a participação da sociedade civil no processo?
Qual a relação entre o Parecer da AGU e o caso de repercussão geral?
E o que está em jogo agora?

O que é o Parecer 001/2017 da AGU?

O Parecer Normativo 001/2017, publicado pela AGU em 20 de julho de 2017, determina que toda a administração pública federal adote uma série de restrições à demarcação de TIs. Entre elas, estão as condicionantes do caso da TI Raposa Serra do Sol (RR), de 2009, e a tese do chamado “marco temporal”, segundo a qual os povos indígenas só teriam direito à demarcação das terras que estivessem comprovadamente sob sua posse em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição.

Na prática, o Parecer 001/2017 serve para inviabilizar e rever demarcações, mesmo aquelas já  concluídas ou em estágio avançado. A tese legitima as invasões, expulsões e a violência que vitimaram os povos indígenas antes da promulgação da Constituição Federal, quando eram tutelados pelo Estado e sequer podiam reclamar seus direitos na Justiça.

Por esse motivo, muitos povos indígenas referem-se a ele como o “Parecer Antidemarcação” ou o “Parecer do Genocídio”. Esta medida é considerada inconstitucional inclusive pelo Ministério Público Federal (MPF).

Qual a origem do Parecer 001?

O Parecer foi publicado pela AGU no governo de Michel Temer, em meio às negociações do então presidente para evitar que as denúncias de corrupção contra ele, feitas pela Procuradoria-Geral da República (PGR), fossem aceitas pela Câmara dos Deputados. As negociações envolveram a liberação de emendas a parlamentares e também o atendimento à pauta de setores e bancadas, como a ruralista.

Dias antes da publicação do Parecer 001/2017, a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) publicou em suas redes um vídeo em que o deputado Luís Carlos Heinze (PP-RS) afirmou ter conversado sobre a medida com diversos ministros e “acertado um parecer vinculante” com os então ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, da Justiça, Osmar Serraglio, e a advogada-geral da União, Grace Mendonça.

O vídeo de comemoração de Heinze e a publicação do Parecer 001/2017 da AGU ocorreram pouco antes da votação da primeira denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Michel Temer na Câmara dos Deputados, ocorrida no dia 2 de agosto. A Câmara negou  a autorização para a investigação, e 134 dos 251 votos a favor de Temer vieram da bancada ruralista. Heinze é o deputado que, também em 2014, afirmou em um vídeo que quilombolas, índios, gays e lésbicas eram “tudo o que não presta”.

Desde então, os povos indígenas vêm lutando para barrar a medida, com diversas manifestações na AGU, inúmeros pedidos feitos ao órgão e diversas reuniões nas quais expuseram as contradições da medida.

Que consequências o Parecer tem para os povos indígenas?

Desde a sua publicação, ainda sob o governo de Michel Temer, o Parecer 001/2017 vem sendo utilizado para inviabilizar, retardar e até reverter demarcações de terras indígenas. Em 2018, o próprio ministro da Justiça de Temer, Torquato Jardim, admitiu ter “dificuldades” para trabalhar com a norma.

Em janeiro de 2020, uma reportagem apurou que pelo menos 17 processos de demarcação foram devolvidos pelo Ministério da Justiça para análise da Funai. Segundo o MPF, há pelo menos 27 processos que hoje estão sendo revistos com base na medida.

Além disso, desde 2019, a Funai também já vinha abandonando a defesa de comunidades indígenas em diversos processos judiciais com base na norma, deixando os indígenas à mercê de despejos e da anulação da demarcação de suas terras. O órgão fez isso em, pelo menos, quatro processos. Conforme a  legislação, os indígenas devem ser defendidos pela Procuradoria da Funai quando não constituem advogados próprios.

O potencial destrutivo do Parecer 001/2017 e do marco temporal, portanto, é enorme: ele pode afetar todas as terras indígenas com o processo de demarcação ainda não concluído e, inclusive, as terras com a demarcação concluída após 1988 e questionadas judicialmente.

O que é a tese do marco temporal?

O marco temporal é uma tese que pretende reduzir o alcance do direito constitucional dos povos indígenas à terra. De caráter restritivo, o marco temporal estabelece que estes povos só têm direito à demarcação de suas terras tradicionais caso comprovem que as ocupavam, ou estavam as reivindicando na Justiça Federal, na data da promulgação da Constituição Federal de 1988, 5 de outubro.

Como argumento em ações judiciais contra a demarcação de terras indígenas, a tese restritiva do marco temporal teve as primeiras abordagens em processos envolvendo a posse da Fazenda Caipe, território tradicional que faz parte da TI Xukuru do Ororubá, em Pernambuco, e da TI Buriti, do povo Terena, no Mato Grosso do Sul.

A atual conformação da tese, que estabelece a promulgação da Constituição de 1988 como marco, é formulada pela primeira vez no âmbito do STF, quando aparece junto a 19 condicionantes para a demarcação de terras indígenas, em 2009, no julgamento da TI Raposa Serra do Sol no voto do ministro-relator Carlos Ayres Britto, favorável à homologação de Raposa.

Essa decisão não teve efeitos vinculantes, ou seja, não obriga juízes, tribunais ou a administração pública a aplicar o mesmo entendimento. Entretanto, a tese do “marco temporal” e as condicionantes do caso Raposa Serra do Sol passaram a ser usadas para orientar outras demarcações de terras indígenas. Essa utilização indevida e questionável teve início ainda no governo Dilma Rousseff, pela AGU, com a Portaria 303/2012.

Por que a tese do marco temporal é tão ruim para os povos indígenas?

Condicionar as demarcações à presença dos povos indígenas nas terras em uma data específica, junto das 19 condicionantes, passou a ser a estratégia anti-indígena usada em processos de reintegração de posse e anulação de demarcações.

A tese restritiva do marco temporal nega a histórica vulnerabilidade dos indígenas ante as violências que permearam o processo pós-colonial, a abertura das frentes de expansão pelo Brasil e as violações de direitos durante o período da ditadura civil militar, conforme denunciou, recentemente, o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Conforme a tese do marco temporal, o direito indígena à terra se converte em crime: a ocupação tradicional, respaldada pela Constituição, torna-se mera invasão de propriedade privada e sujeita a responsabilizações criminais e repressão policial.

A partir de 1988, o verdadeiro marco é o consenso jurídico, científico e social de que a sobrevivência física e cultural dos indígenas depende necessariamente da posse de suas terras tradicionais, tal como estabelece a própria Constituição. Anular processos de demarcação com base no “marco temporal”, além de se mostrar juridicamente questionável, tem como efeito direto condenar os indígenas ao relento da assimilação forçada, paradigma que a Constituição pretende superar.

O que é o caso de repercussão geral no STF?

Em abril de 2019, o STF reconheceu por unanimidade a “repercussão geral” do Recurso Extraordinário (RE) 1.017.365. O processo servirá como referência, segundo a corte, para a “definição do estatuto jurídico-constitucional das relações de posse das áreas de tradicional ocupação indígena à luz das regras dispostas no artigo 231 do texto constitucional”.

Em outras palavras, neste processo o tribunal definirá qual a sua interpretação do artigo 231 da Constituição Federal, que trata dos direitos dos povos indígenas, inclusive ao reconhecimento de suas terras (mais informações aqui).

Em disputa, basicamente, estão as teses do indigenato, que trata o direito dos povos indígenas à demarcação de suas terras como um direito “originário”, anterior ao próprio Estado, e a tese do marco temporal, defendida pela bancada ruralista e outros setores econômicos interessados na exploração das terras indígenas.

O processo trata, no mérito, de uma reintegração de posse movida contra o povo Xokleng, em Santa Catarina. A repercussão geral, entretanto, faz com que esse julgamento extrapole o caso específico e tenha consequências para todos os povos e terras indígenas do Brasil, já que o que fica decidido vincula obrigatoriamente as demais instâncias do Poder Judiciário e a administração pública

Qual a participação dos povos indígenas neste processo?

A disputa que deu origem ao processo se dá em torno da revisão de limites da TI Ibirama La-Klãnô (SC) e está diretamente relacionada à história do povo Xokleng. Ainda em meados do século XX, os Xokleng eram perseguidos pelos chamados “bugreiros”, caçadores de índios responsáveis por limpar as terras de “bugres”, expressão pejorativa para designar os povos indígenas na época, e liberá-las para a ocupação de não indígenas.

Em maio de 2019, o povo Xokleng foi admitido como parte no processo de repercussão geral do STF. Esse é um direito previsto no artigo 232 da Constituição Federal e seu reconhecimento ainda é uma luta das comunidades indígenas em todo o país.

Em função da tutela a que os povos indígenas estiveram submetidos até a Constituição de 1988, contudo, a maioria dos processos ainda é julgada – muitas vezes com decisões extremamente negativas às comunidades – sem que os povos indígenas participem ou sequer tomem conhecimento das ações.

Além dos Xokleng, admitidos como parte do processo porque a ação trata, no mérito, da demarcação de sua terra tradicional, diversos outros povos indígenas, por meio de suas organizações, participam do caso de repercussão geral como amicus curiae ou “amigos da corte”, fornecendo informações e subsídios ao julgamento.

Qual a participação da sociedade civil no processo?

Diversas outras organizações da sociedade civil, como as de defesa dos direitos indígenas ou humanos, também pediram habilitação no processo como “amigos da corte”. Várias dessas organizações apresentaram fundamentos que justificam a inconstitucionalidade do Parecer 001 e seus prejuízos para a garantia dos direitos indígenas previstos na Constituição Federal.

Qual a relação entre o Parecer da AGU e o caso de repercussão geral?

O principal argumento da AGU para a publicação do Parecer 001/2017 foi a de que o órgão estava apenas aplicando as definições que o STF já tinha estabelecido acerca da demarcação de terras indígenas. Isso contraria a orientação do próprio STF, que já decidiu, em alguns processos, que essas definições não se aplicam automaticamente a outros casos.

O MPF também elenca uma série de decisões que demonstram que as teses assumidas pela AGU estão muito longe de ser uma “jurisprudência consolidada” sobre a demarcação de terras indígenas.

Pelo contrário: a decisão unânime do STF, ao reconhecer a repercussão geral do caso Xokleng, indica que os 11 ministros entendem que este assunto ainda carece de definições. Esta é a prova cabal de que o tema não está pacificado no Judiciário brasileiro e que, portanto o fundamento do parecer 001 (jurisprudência consolidada do STF sobre o marco temporal e as 19 condicionantes) é inexistente.

E o que está em jogo agora?

Considerando todo este contexto, em março de 2020, os Xokleng e um conjunto de organizações que atuam como amici curiae no processo de repercussão geral ingressaram com um pedido de tutela provisória incidental, solicitando ao relator, Edson Fachin, que suspendesse os efeitos do Parecer 001/2017 da AGU sobre todas as terras indígenas do Brasil até que o julgamento do caso fosse concluído.

O povo Xokleng e as organizações indígenas, indigenistas e de direitos humanos também pediram que ações de reintegração de posse contra indígenas fossem suspensas em meio à pandemia, para evitar expor povos e comunidades à contaminação por covid-19.

Em decisão monocrática do dia 6 de maio, Fachin suspendeu todas as ações de reintegração de posse contra indígenas e as que visavam anular demarcações de terras tradicionais. No dia 7 de maio, em decisão liminar, o ministro também suspendeu os efeitos do Parecer 001/2017 da AGU, e determinou que o pleno do STF decida se referenda ou não esta última decisão.

É esta a importante decisão que será tomada pelo STF, em julgamento ainda sem data definida.

Indigenous People Advance a Dramatic Goal: Reversing Colonialism (New York Times)

nytimes.com

Max Fisher


The Interpreter

Fifty years of patient advocacy, including the shocking discovery of mass graves at Kamloops, have secured once-unthinkable gains.

A makeshift memorial to honor the 215 children whose remains have been discovered near the Kamloops Indian Residential School in British Columbia, earlier this month.
Credit: Darryl Dyck/The Canadian Press, via Associated Press

June 17, 2021

When an Indigenous community in Canada announced recently that it had discovered a mass burial site with the remains of 215 children, the location rang with significance.

Not just because it was on the grounds of a now-shuttered Indian Residential School, whose forcible assimilation of Indigenous children a 2015 truth and reconciliation report called “a key component of a Canadian government policy of cultural genocide.”

That school is in Kamloops, a city in British Columbia from which, 52 years ago, Indigenous leaders started a global campaign to reverse centuries of colonial eradication and reclaim their status as sovereign nations.

Their effort, waged predominantly in courts and international institutions, has accumulated steady gains ever since, coming further than many realize.

It has brought together groups from the Arctic to Australia. Those from British Columbia, in Canada’s mountainous west, have been at the forefront throughout.

Only two years ago, the provincial government there became the world’s first to adopt into law United Nations guidelines for heightened Indigenous sovereignty. On Wednesday, Canada’s Parliament passed a law, now awaiting a final rubber stamp, to extend those measures nationwide.

It was a stunning victory, decades in the making, that activists are working to repeat in New Zealand — and, perhaps one day, in more recalcitrant Australia, Latin America and even the United States.

“There’s been a lot of movement in the field. It’s happening with different layers of courts, with different legislatures,” said John Borrows, a prominent Canadian legal scholar and a member of the Chippewa of the Nawash Unceded First Nation.

The decades-long push for sovereignty has come with a rise in activism, legal campaigning and historical reckonings like the discovery at Kamloops. All serve the movement’s ultimate aim, which is nothing less than overturning colonial conquests that the world has long accepted as foregone.

A classroom at All Saints Residential School in Lac la Ronge, Saskatchewan, circa 1950.
Credit: Shingwauk Residential Schools Center, via Reuters

No one is sure precisely what that will look like or how long it might take. But advances once considered impossible “are happening now,” Dr. Borrows said, “and in an accelerating way.”

The Indigenous leaders who gathered in 1969 had been galvanized by an array of global changes.

The harshest assimilation policies were rolled back in most countries, but their effects remained visible in everyday life. Extractive and infrastructure megaprojects were provoking whole communities in opposition. The civil rights era was energizing a generation.

But two of the greatest motivators were gestures of ostensible reconciliation.

In 1960, world governments near-unanimously backed a United Nations declaration calling to roll back colonialism. European nations began withdrawing overseas, often under pressure from the Cold War powers.

But the declaration excluded the Americas, Australia and New Zealand, where colonization was seen as too deep-rooted to reverse. It was taken as effectively announcing that there would be no place in the modern world for Indigenous peoples.

Then, at the end of the decade, Canada’s progressive government issued a fateful “white paper” announcing that it would dissolve colonial-era policies, including reserves, and integrate Indigenous peoples as equal citizens. It was offered as emancipation.

A statue in Toronto of Egerton Ryerson, considered an architect of Canada’s residential indigenous school system, was toppled and defaced during a protest this month.
Credit: Chris Helgren/Reuters

Other countries were pursuing similar measures, with the United States’ inauspiciously named “termination policy.”

To the government’s shock, Indigenous groups angrily rejected the proposal. Like the United Nations declaration, it implied that colonial-era conquests were to be accepted as forgone.

Indigenous leaders gathered in Kamloops to organize a response. British Columbia was a logical choice. Colonial governments had never signed treaties with its original inhabitants, unlike in other parts of Canada, giving special weight to their claim to live under illegal foreign occupation.

“It’s really Quebec and British Columbia that have been the two epicenters, going back to the ’70s,” said Jérémie Gilbert, a human rights lawyer who works with Indigenous groups. Traditions of civil resistance run deep in both.

The Kamloops group began what became a campaign to impress upon the world that they were sovereign peoples with the rights of any nation, often by working through the law.

They linked up with others around the world, holding the first meeting of The World Council of Indigenous Peoples on Vancouver Island. Its first leader, George Manuel, had passed through the Kamloops residential school as a child.

The council’s charter implicitly treated countries like Canada and Australia as foreign powers. It began lobbying the United Nations to recognize Indigenous rights.

It was nearly a decade before the United Nations so much as established a working group. Court systems were little faster. But the group’s ambitions were sweeping.

Legal principles like terra nullius — “nobody’s land” — had long served to justify colonialism. The activists sought to overturn these while, in parallel, establishing a body of Indigenous law.

“The courts are very important because it’s part of trying to develop our jurisprudence,” Dr. Borrows said.

The movement secured a series of court victories that, over decades, stitched together a legal claim to the land, not just as its owners but as sovereign nations. One, in Canada, established that the government had an obligation to settle Indigenous claims to territory. In Australia, the high court backed a man who argued that his family’s centuries-long use of their land superseded the government’s colonial-era conquest.

Activists focused especially on Canada, Australia and New Zealand, which each draw on a legal system inherited from Britain. Laws and rulings in one can become precedent in the others, making them easier to present to the broader world as a global norm.

Irene Watson, an Australian scholar of international Indigenous law and First Nations member, described this effort, in a 2016 book, as “the development of international standards” that would pressure governments to address “the intergenerational impact of colonialism, which is a phenomenon that has never ended.”

It might even establish a legal claim to nationhood. But it is the international arena that ultimately confers acceptance on any sovereign state.

By the mid-1990s, the campaign was building momentum.

The United Nations began drafting a declaration of Indigenous rights. Several countries formally apologized, often alongside promises to settle old claims.

This period of truth and reconciliation was meant to address the past and, by educating the broader public, create support for further advances.

A sweeping 1996 report, chronicling many of Canada’s darkest moments, was followed by a second investigation, focused on residential schools. Completed 19 years after the first, the Truth and Reconciliation Commission spurred yet more federal policy recommendations and activism, including last month’s discovery at Kamloops.

Prime Minister Justin Trudeau visited a makeshift memorial near Canada’s Parliament honoring the children whose remains were found near the school in Kamloops.
Credit: Dave Chan/Agence France-Presse — Getty Images

Judicial advances have followed a similar process: yearslong efforts that bring incremental gains. But these add up. Governments face growing legal obligations to defer to Indigenous autonomy.

The United States has lagged. Major court rulings have been fewer. The government apologized only in 2010 for “past ill-conceived policies” against Indigenous people and did not acknowledge direct responsibility. Public pressure for reconciliation has been lighter.

Still, efforts are growing. In 2016, activists physically impeded construction of a North Dakota pipeline whose environmental impact, they said, would infringe on Sioux sovereignty. They later persuaded a federal judge to pause the project.

Native Americans marching against the Dakota Access oil pipeline near Cannon Ball, North Dakota, in 2017.
Credit: Terray Sylvester/Reuters

Latin America has often lagged as well, despite growing activism. Militaries in several countries have targeted Indigenous communities in living memory, leaving governments reluctant to self-incriminate.

In 2007, after 40 years of maneuvering, the United Nations adopted the declaration on Indigenous rights. Only the United States, Australia, New Zealand and Canada opposed, saying it elevated some Indigenous claims above those of other citizens. All four later reversed their positions.

“The Declaration’s right to self-determination is not a unilateral right to secede,” Dr. Claire Charters, a New Zealand Māori legal expert, wrote in a legal journal. However, its recognition of “Indigenous peoples’ collective land rights” could be “persuasive” in court systems, which often treat such documents as proof of an international legal principle.

Few have sought formal independence. But an Australian group’s 2013 declaration, brought to the United Nations and the International Court of Justice, inspired several others to follow. All failed. But, by demonstrating widening legal precedent and grass roots support, they highlighted that full nationhood is not as unthinkable as it once was.

It may not have seemed like a step in that direction when, in 2019, British Columbia enshrined the U.N. declaration’s terms into provincial law.

But Dr. Borrows called its provisions “quite significant,” including one requiring that the government win affirmative consent from Indigenous communities for policies that affect them. Conservatives and legal scholars have argued it would amount to an Indigenous veto, though Justin Trudeau, Canada’s prime minister, and his liberal government dispute this.

Mr. Trudeau promised to pass a similar law nationally in 2015, but faced objections from energy and resource industries that it would allow Indigenous communities to block projects. He continued trying, and Wednesday’s passage in Parliament all but ensures that Canada will fully adopt the U.N. terms.

Mr. Gilbert said that activists’ current focus is “getting this into the national systems.” Though hardly Indigenous independence, it would bring them closer than any step in generations.

Near the grounds of the former Kamloops Indian Residential School.
Credit: Jennifer Gauthier/Reuters

As the past 50 years show, this could help pressure others to follow (New Zealand is considered a prime candidate), paving the way for the next round of gradual but quietly historical advances.

It is why, Mr. Gilbert said, “All the eyes are on Canada.”

Um parlamento para dar voz aos indígenas do Brasil (Sete Margens)

setemargens.com


Manifestação em Brasília durante o Acampamento Terra Livre de 2017. Foto © Guilherme Cavalli/Cimi.

Um parlamento indígena aberto, para dar voz e visibilidade política aos 305 povos originários do país, é o objectivo do Parlaíndio, fundado este mês no Brasil, anunciado nesta quarta-feira, 26 de Maio, e que terá assembleias mensais.

O Parlaíndio integra as lideranças indígenas brasileiras e tem já um portal com fotos dos seus líderes e notícias de assembleias ou de acontecimentos directa ou indirectamente relacionados com os povos indígenas.  

O cacique Raoni Metuktire, um importante líder indígena brasileiro, conhecido em todo o mundo pela sua luta pela preservação da Amazónia e dos povos nativos, é o seu presidente de honra, enquanto a coordenação executiva é da responsabilidade do cacique Almir Narayamoga Suruí, principal liderança do povo Paiter Suruí, da Rondónia, reconhecido internacionalmente pelos seus projectos de sustentabilidade em terras indígenas.

A primeira assembleia do Parlaíndio Brasil, noticia a Lusa citada pela TSF, decorreu virtualmente na última quinta-feira, 20 de Maio. Nessa altura, as lideranças indígenas discutiram os objectivos do movimento, bem como a sua estruturação e o modo como decorrerão as assembleias mensais.  

Entre as principais questões que o movimento abordará, ainda de acordo com a Lusa, estão a desflorestação e invasões das terras indígenas, projectos de mineração e hidroeléctricas em terras dos povos nativos, garimpo ilegal, poluição dos rios por mercúrio e contaminação das populações originárias e ribeirinhas.

O Parlaíndio tomou já uma primeira decisão política: a entrada com uma acção na justiça pedindo a exoneração do presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), órgão tutelado pelo Governo brasileiro, cuja missão deveria ser coordenar e pôr em prática políticas de protecção dos povos nativos.

“Foi aprovado, por unanimidade, o Parlaíndio Brasil entrar com uma acção na justiça pedindo a exoneração do presidente da Funai, delegado Marcelo Xavier, que à frente do órgão não tem cumprido a missão institucional de proteger e promover os direitos dos povos indígenas do país”, indicou o movimentou o em comunicado.

Em causa, refere a mesma fonte, está um pedido feito recentemente pelo presidente da Funai à Polícia Federal (PF), para a abertura de um inquérito contra lideranças indígenas, sob o pretexto de difamação do Governo de Jair Bolsonaro. 

“A Funai é um órgão que deveria promover assistência, protecção e garantias dos direitos dos povos indígenas brasileiros e, actualmente, faz o inverso. O inquérito teve carácter de intimidação e criminalização a partir de uma determinação do presidente da Funai”, explicou Almir Suruí, coordenador executivo do Parlaíndio Brasil.

Assembleia de indígenas. Foto da página do Parlaíndio.

O mesmo responsável considera que esta estrutura será importante para construir uma política de defesa dos povos indígenas, depois de a Constituição de 1988 ter consagrado um conjunto de políticas públicas e direitos para os indígenas brasileiros. “Um dos nossos objectivos é debater a construção do presente e do futuro a partir de uma cuidadosa avaliação do passado. Vamos discutir também as políticas públicas e fornecer subsídios para as organizações que integram o movimento indígena”, acrescentou o responsável na sessão de lançamento do movimento.

A ideia de criar o Parlamento Indígena do Brasil, como se pode ler no portal do Parlaíndio, surgiu numa reunião de lideranças indígenas realizada em Outubro de 2017, no Conselho Indigenista Missionário, uma organização da Igreja Católica de apoio aos povos indígenas. 

De acordo com a mesma informação, há actualmente no Brasil mais de 900 mil indígenas no Brasil, membros de 305 povos distintos, que falam mais de 180 línguas, segundo dados do Parlaíndio (a propósito do qual se pode ouvir aqui a crónica Outros Sinais, de Fernando Alves, na TSF, nesta quinta, 27). 

Cada vez mais pobres e indígenas em Manaus

Paolo Maria Braghini, franciscano em Manaus a ajudar famílias pobres. Foto © ACN Portugal.

Esta notícia surge em simultâneo com a denúncia de um frade católico franciscano, segundo o qual muitos indígenas e outras pessoas do interior do Amazonas estão a chegar a Manaus, a capital do Estado, sem nada para viver. 

“Temos famílias nos subúrbios que não têm nada para viver. Muitos vieram do interior do país e chegaram aqui na esperança de encontrar comida na cidade. Mas aqui só encontram fome e desemprego. Para cúmulo, agora nem sequer têm uma horta para cultivar ou o rio para pescar”, diz o padre Paolo Maria Braghini, franciscano capuchinho italiano, citado pela Ajuda à Igreja que Sofre

“No meio de tanta pobreza, escolhemos certas localidades na periferia e, com a ajuda de líderes comunitários locais, identificámos as famílias mais carenciadas”, explica frei Paolo, sobre o modo como a comunidade de franciscanos está a procurar minorar a situação. 

Manaus, um dos principais centros financeiros, industriais e económicos de toda a região norte, tem mais de dois milhões de habitantes e continua a atrair as populações da região. A cidade, que já tinha muitas bolsas de pobreza, viu a situação agravar-se com a pandemia do novo coronavírus e o colapso dos serviços de saúde.

As populações pobres e indígenas do Amazonas foram alguns dos sectores mais atingidos pela falta de estruturas. Em Janeiro, num dos picos da crise, o bispo de Manaus chegou mesmo a pedir ajuda para que fosse enviado oxigénio para os hospitais.

Ancient Indigenous forest gardens promote a healthy ecosystem, says study (Native News Post)

nativenewspost.com


An aerial view of a forest garden. Credit: SFU

A new study by Simon Fraser University historical ecologists finds that Indigenous-managed forests—cared for as “forest gardens”—contain more biologically and functionally diverse species than surrounding conifer-dominated forests and create important habitat for animals and pollinators. The findings are published today in Ecology and Society.

According to researchers, ancient forests were once tended by Ts’msyen and Coast Salish peoples living along the north and south Pacific coast. These forest gardens continue to grow at remote archeological villages on Canada’s northwest coast and are composed of native fruit and nut trees and shrubs such as crabapple, hazelnut, cranberry, wild plum, and wild cherries. Important medicinal plants and root foods like wild ginger and wild rice root grow in the understory layers.

“These plants never grow together in the wild,” says Chelsey Geralda Armstrong, an SFU Indigenous Studies assistant professor and the study lead researcher. “It seemed obvious that people put them there to grow all in one spot—like a garden. Elders and knowledge holders talk about perennial management all the time.”

“It’s no surprise these forest gardens continue to grow at archeological village sites that haven’t yet been too severely disrupted by settler-colonial land-use.”

Ts’msyen and Coast Salish peoples’ management practices challenge the assumption that humans tend to overturn or exhaust the ecosystems they inhabit. This research highlights how Indigenous peoples not only improved the inhabited landscape, but were also keystone builders, facilitating the creation of habitat in some cases. The findings provide strong evidence that Indigenous management practices are tied to ecosystem health and resilience.

“Human activities are often considered detrimental to biodiversity, and indeed, industrial land management has had devastating consequences for biodiversity,” says Jesse Miller, study co-author, ecologist and lecturer at Stanford University. “Our research, however, shows that human activities can also have substantial benefits for biodiversity and ecosystem function. Our findings highlight that there continues to be an important role for human activities in restoring and managing ecosystems in the present and future.”

Forest gardens are a common management regime identified in Indigenous communities around the world, especially in tropical regions. Armstrong says the study is the first time forest gardens have been studied in North America—showing how important Indigenous peoples are in the maintenance and defense of some of the most functionally diverse ecosystems on the Northwest Coast.

“The forest gardens of Kitselas Canyon are a testament to the long-standing practice of Kitselas people shaping the landscape through stewardship and management,” says Chris Apps, director, Kitselas Lands & Resources Department. “Studies such as this reconnect the community with historic resources and support integration of traditional approaches with contemporary land-use management while promoting exciting initiatives for food sovereignty and cultural reflection.”



More information:
Chelsey Geralda Armstrong et al, Historical Indigenous Land-Use Explains Plant Functional Trait Diversity, Ecology and Society (2021). DOI: 10.5751/ES-12322-260206

Citation:
Ancient Indigenous forest gardens promote a healthy ecosystem, says study (2021, April 22)
retrieved 22 April 2021
from https://phys.org/news/2021-04-ancient-indigenous-forest-gardens-healthy.html

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Source link

Ancient Indigenous forest gardens promote a healthy ecosystem (Science Daily)

Date: April 22, 2021

Source: Simon Fraser University

Summary: A new study by historical ecologists finds that Indigenous-managed forests — cared for as ‘forest gardens’ — contain more biologically and functionally diverse species than surrounding conifer-dominated forests and create important habitat for animals and pollinators.


A new study by Simon Fraser University historical ecologists finds that Indigenous-managed forests — cared for as “forest gardens” — contain more biologically and functionally diverse species than surrounding conifer-dominated forests and create important habitat for animals and pollinators. The findings are published today in Ecology and Society.

According to researchers, ancient forests were once tended by Ts’msyen and Coast Salish peoples living along the north and south Pacific coast. These forest gardens continue to grow at remote archaeological villages on Canada’s northwest coast and are composed of native fruit and nut trees and shrubs such as crabapple, hazelnut, cranberry, wild plum, and wild cherries. Important medicinal plants and root foods like wild ginger and wild rice root grow in the understory layers.

“These plants never grow together in the wild,” says Chelsey Geralda Armstrong, an SFU Indigenous Studies assistant professor and the study lead researcher. “It seemed obvious that people put them there to grow all in one spot — like a garden. Elders and knowledge holders talk about perennial management all the time.”

“It’s no surprise these forest gardens continue to grow at archaeological village sites that haven’t yet been too severely disrupted by settler-colonial land-use.”

Ts’msyen and Coast Salish peoples’ management practices challenge the assumption that humans tend to overturn or exhaust the ecosystems they inhabit. This research highlights how Indigenous peoples not only improved the inhabited landscape, but were also keystone builders, facilitating the creation of habitat in some cases. The findings provide strong evidence that Indigenous management practices are tied to ecosystem health and resilience.

“Human activities are often considered detrimental to biodiversity, and indeed, industrial land management has had devastating consequences for biodiversity,” says Jesse Miller, study co-author, ecologist and lecturer at Stanford University. “Our research, however, shows that human activities can also have substantial benefits for biodiversity and ecosystem function. Our findings highlight that there continues to be an important role for human activities in restoring and managing ecosystems in the present and future.”

Forest gardens are a common management regime identified in Indigenous communities around the world, especially in tropical regions. Armstrong says the study is the first time forest gardens have been studied in North America — showing how important Indigenous peoples are in the maintenance and defence of some of the most functionally diverse ecosystems on the Northwest Coast.

“The forest gardens of Kitselas Canyon are a testament to the long-standing practice of Kitselas people shaping the landscape through stewardship and management,” says Chris Apps, director, Kitselas Lands & Resources Department. “Studies such as this reconnect the community with historic resources and support integration of traditional approaches with contemporary land-use management while promoting exciting initiatives for food sovereignty and cultural reflection.”



Journal Reference:

  1. Chelsey Geralda Armstrong, Jesse E. D. Miller, Alex C. McAlvay, Patrick Morgan Ritchie, Dana Lepofsky. Historical Indigenous Land-Use Explains Plant Functional Trait Diversity. Ecology and Society, 2021; 26 (2) DOI: 10.5751/ES-12322-260206

Sonia Guajajara: Todo brasileiro hoje sente o que é ser tratado como indígena (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Sonia Guajajara, Coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil e ex-candidata do PSOL à Vice-Presidência da República (2018)

19 de abril de 2021


Nem sempre deixamos de sentir a dor do outro por falta de empatia; às vezes, isso acontece por puro desconhecimento. A história do Brasil sempre foi muito mal contada. Não desejamos o que passamos a ninguém, nem mesmo aos nossos algozes. São 520 anos de perseguição praticamente ininterrupta. Mas, neste Dia do Índio (19.abr), estamos enfrentando a maior ameaça de nossa existência. E agora não me refiro somente a nós, indígenas. O governo federal atual fez do coronavírus um aliado e põe em risco a vida da população em geral. Hoje, todos sentem como é ser acuado por uma doença que vem de fora, contra a qual não há defesa. Todos mesmo; agora, falo do mundo inteiro.

Nós, indígenas, somos perseguidos em nosso próprio país; neste momento, por causa da Covid-19. Todos nós, brasileiros, corremos o sério risco de sermos marginalizados globalmente. Ninguém em sã consciência nega a importância da Amazônia para a saúde do planeta —e hoje a ciência atesta que a destruição da natureza e as mudanças climáticas podem causar novas pandemias. Mas, além de abusar da caneta para atacar o meio ambiente e os nossos direitos, como de costume, o presidente Jair Bolsonaro vem tentado aliciar e constranger lideranças indígenas. Até Funai e Ibama estão jogando no time rival. Não é apenas um vírus.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) foi criada em 2005 no primeiro Acampamento Terra Livre (ATL), evento que reunia milhares de pessoas de todo o país em Brasília —por causa da pandemia, ele foi realizado virtualmente em 2020 e, neste ano, terá encontros online durante todo o o mês de abril. É fruto da união e auto-organização dos povos, que são as raízes que sustentam esse país e que durante a pandemia recebeu o reconhecimento do Supremo Tribunal Federal (STF) como entidade que pode entrar com ações diretas na principal corte do país.

Com organizações regionais, nossa rede está presente em todas as regiões do país: a Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme), o Conselho do Povo Terena, a Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste (Arpinsudeste), a Articulação dos Povos Indígenas do Sul (Arpinsul), a Grande Assembleia do Povo Guarani (Aty Guasu), a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a Comissão Guarani Yvyrupa.

No ano passado, a Apib ganhou o Prêmio Internacional Letelier-Moffitt de Direitos Humanos, concedido pelo Instituto de Estudos Políticos de Washington. A organização tem sido chamada a falar em conferências da ONU. Há décadas tem voz ativa em conferências internacionais, junto a organismos como a ONU e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Enquanto o governo negligencia criminosamente o atendimento aos povos tradicionais durante a pandemia, com seu projeto integracionista, estamos garantindo segurança alimentar, barreiras sanitárias e equipamentos de proteção por meio do Plano Emergência Indígena, construído de forma participativa com todas as organizações de base que compõem nossa grande articulação.

Estamos nas redes, aldeias, universidades, cidades, prefeituras, Câmaras Legislativas federal, estaduais e municipais e seguiremos lutando contra o racismo e a violência. Em um mundo doente e enfrentando um projeto de morte, nossa luta ainda é pela vida, contra todos os vírus que nos matam! Nosso maior objetivo é garantir a posse de nossas terras para preservá-las e manter nossas identidades culturais.

Terras indígenas são bens da União; ou seja, pertencem ao Brasil, a todos os brasileiros. Temos direito a seu usufruto, mas para manter nossos modos de vida tradicionais. Está tudo na Constituição. Conhecemos as mentiras, que agora são as famosas fake news, desde 1500, quando os portugueses chegaram aqui oferecendo amizade e, assim que dávamos as costas, nos apunhalavam. Não trocamos Pindorama por espelhos, conforme ensinavam erroneamente os livros de história de antigamente. Sabemos o real valor das coisas e das pessoas.

No dia 6 de abril, quando 4.195 compatriotas foram levados pela Covid-19 no país, a revista “Forbes” publicou duas notícias que dizem muito: mais 11 brasileiros entraram para a lista de bilionários do mundo durante a pandemia —dentre eles, ironicamente, nomes ligados à saúde privada— e que todo dia 116,8 milhões de pessoas não sabem se terão o que comer no país.

O abismo social se aprofunda; a quem isso interessa? Quem acredita que vai ver a cor do dinheiro que será arrancado das ruínas de nossas terras? “Decidimos não morrer”: esta resolução, tomada por nós há mais de cinco séculos, foi reafirmada no Acampamento Terra Livre. Nem todos sabem, mas zelar pelo meio ambiente é um dever constitucional de todo cidadão —é só consultar o artigo 225.

Convidamos todos os brasileiros a firmar esse acordo conosco.

This river in Canada is now a ‘legal person’ (Al Jazeera)

aljazeera.com

Indigenous communities are leading worldwide push to recognise legal ‘personhood’ rights of rivers, lakes and mountains.
The Magpie River, a 300km waterway in the Cote Nord region of the Canadian province of Quebec, was recognised as a 'legal person' in February [Courtesy Uapukun Metokosho/International Observatory on the Rights of Nature]
The Magpie River, a 300km waterway in the Cote Nord region of the Canadian province of Quebec, was recognised as a ‘legal person’ in February [Courtesy Uapukun Metokosho/International Observatory on the Rights of Nature]

Jillian Kestler-D’Amours, 3 Apr 2021


Montreal, Canada – Jean-Charles Pietacho says the belief that nature is a living thing that must be respected, has been at the heart of the Innu people’s way of life for generations.

But now, that idea has been applied in a new way as the Innu Council of Ekuanitshit in February recognised the Magpie River, a 300km (186 miles) waterway in the Cote Nord region of the Canadian province of Quebec, as a “legal person”.

The designation – a first in Canada – aims to give the Indigenous community an added tool to defend the river, known as Muteshekau Shipu in the Innu language, from potential environmental harms.

“The Creator put us on this piece of territory called Nitassinan, which encompasses all these rivers, all these mountains, all these trees,” Pietacho, chief of the Innu Council of Ekuanitshit, told Al Jazeera in a phone interview. “The Innu people always believed that you had to protect the earth. It’s water – it’s life.”

The Magpie River, which sits on the north shore of the St Lawrence River and is known for its strong rapids, currently has one hydroelectric dam on it, but the provincial energy authority has said it has no plans for further development on the waterway.

“Despite that, we didn’t feel secure, we didn’t have total confidence,” Pietacho said.

“It’s very, very important for us to have arrived at this protection. It might be tested, but at least we have a majority – if not the entire region – that supports us.”

Indigenous stewardship

The Magpie is the first river in Canada to be granted legal personhood rights – through twin resolutions adopted by the Innu Council of Ekuanitshit and a local body, the Minganie Regional County Municipality – but it is unclear what would happen if the designation is tested in a Canadian court.

Among other things, the resolution affirms the river’s “right to live, exist and flow”, to evolve naturally, to be protected from pollution, to maintain its integrity, and to take legal action. It says “river guardians” will soon be appointed to ensure that those rights are respected.

The decision comes as a movement called “rights of nature” gains global attention.

Proponents of the idea, put forward in a 1972 paper by Christopher D Stone called Should Trees Have Standing? Toward Legal Rights for Natural Objects, say current legal systems often fall short on protecting the environment.

The Magpie River is known for its strong rapids [Courtesy Uapukun Metokosho/International Observatory on the Rights of Nature]

Instead of treating nature as property under the law, they want it to hold legal standing on its own – in other words, legally enforceable rights akin to those of humans or corporations. Depending on how a specific case is framed, the obligation then falls to specific actors to ensure the legal rights of nature are not infringed upon.

Courts, various levels of government, and other decision-making bodies in countries around the world have recognised the personhood rights of ecosystems in different ways over the past few years: In 2017, a court in India ruled that the Ganges and Yamuna rivers should be granted the same legal rights as people. Colombia’s Constitutional Court declared in 2016 that the Atrato River in the country’s northwest was a “subject of rights”.

Over a decade earlier, Ecuador in its 2008 constitution recognised the right of nature to exist, maintain and regenerate. “All persons, communities, peoples and nations can call upon public authorities to enforce the rights of nature,” the constitution reads.

Experts say Indigenous communities around the world – where the idea that nature has inherent rights is longstanding – have emerged at the forefront of many of the campaigns to grant personhood status to bodies of water and other ecosystems.

“The rights of nature, in the Ecuadorian context, is very much tied to the worldviews of various Indigenous groups … of emphasing the interconnectedness of ecosystems and the social world,” said Maria Akchurin, assistant professor of sociology at Loyola University in Chicago, who has studied the Ecuador case.

Akchurin told Al Jazeera that while Ecuador is one of the region’s major oil exporters and has a growing mining sector, it is also extremely biodiverse – and the constitutional recognition came amidst underlying tensions between economic development, environmental protection and Indigenous rights in the country.

Indigenous people in Ecuador hold a banner which reads, ‘Vote Yes’, during a rally in support of a referendum to approve the country’s 2008 constitution [File: Guillermo Granja/Reuters]

Legal personhood for nature has been largely symbolic so far, she added, though it can give social groups and communities a new way to frame their opposition to extractive projects, especially as the rights of nature have begun to be applied by the courts. “But in terms of actually stopping projects it’s difficult to say if it’s been really effective,” Akchurin said.

“I think it’s a great conversation to have, I think it’s extremely valuable and I think it can work in particular settings; but we should also be mindful that just having rights on paper doesn’t necessarily translate into concrete change on the ground immediately.”

New Zealand

Perhaps the most prominent cases have been in New Zealand, where the Whanganui River – the country’s third-longest river, located on the North Island – was recognised as a “legal entity” in 2017 as part of a negotiated settlement between the government and the Maori people. The legal entity, called Te Awa Tupua, “has all the rights, powers, duties and liabilities of a legal person”, the agreement reads.

Three years earlier, also in negotiations with Maori leaders, New Zealand similarly recognised Te Urewera, a former national park, as a “legal entity”. It also reached an agreement in 2017 with Maori tribes to recognise the Taranaki Mountain on the North Island as a person. Negotiations for the implementation of the latter deal are ongoing.

The Whanganui River is New Zealand’s third longest river [Courtesy: Creative Commons]

Jacinta Ruru, professor of law at University of Otago and co-director of Nga Pae o te Maramatanga, New Zealand’s Maori Centre of Research Excellence, said she does not consider these examples part of the environmentally driven “rights of nature” movement, however.

“In the New Zealand context, the legal personality arose from a hopeful reconciliation with the Indigenous peoples, Maori, not from a rights to nature [perspective],” Ruru told Al Jazeera.

Both the Te Awa Tupua and Te Urewera agreements clearly outline the legal rights, obligations and decision-making bodies tasked with monitoring the legal personhood status of the ecosystems. In the case of the river, the government of New Zealand and the Maori tribal federation each chose one person to speak on its behalf.

“From a Maori perspective, that comes very naturally,” Ruru said, explaining that Maori people have always spoken about rivers or mountains “as being their ancestors and that we must be respecting them, that their health and wellbeing is totally interrelated to the health and wellbeing of us as people and our community”.

Ruru added that the New Zealand agreements demonstrate that countries can better enable Indigenous participation in the management of lands and waters. “This is not Indigenous peoples necessarily saying anything new, it’s just that other peoples are now listening.”

A general view of a mountain range near Wanganui on New Zealand’s North Island [File: David Brookes/AFP]

Pushback

In other countries, some have raised concerns about how legal personhood for nature is being applied. In Bangladesh, where the country’s top court in 2019 granted all rivers the same legal rights as people, some say without a clear framework for implementation, the decision could make it easier to evict poor communities living off the waterways.

“The New Zealand ruling recognised communities as stakeholders, and that is key,” Himanshu Thakkar, coordinator of South Asia Network on Dams, Rivers and People, told the Reuters news agency at the time.

Meanwhile, in the United States, legal personhood cases have been met with staunch opposition. A court in the US state of Ohio last year ruled as unconstitutional the Lake Erie Bill of Rights, passed by the city of Toledo in 2019, which recognised the lake’s “right to exist, flourish, and naturally evolve”. A farmer had sued, saying the move was an “unconstitutional and unlawful assault” on family farms.

A view of a power plant and frozen Lake Erie in Avon Lake, Ohio [Aaron Josefczyk/Reuters]

Another lawsuit seeking to have a court recognise the Colorado River ecosystem as “capable of possessing rights similar to a ‘person’” as well as “rights to exist, flourish, regenerate, and naturally evolve” was withdrawn in 2017 after pressure from state authorities.

“At the time, the Attorney General was run by a Republican, so they threatened me with sanctions and disbarment,” Jason Flores-Williams, the lawyer who brought the case, told Al Jazeera. He said officials had argued “that it was ridiculous to make an argument on behalf of the rights of nature and personhood of nature”.

Nevertheless, the push to grant legal personhood to nature is gaining attention.

Back in Montreal, Yenny Vega Cardenas, president of the International Observatory on the Rights of Nature, said the Magpie River recognition drew interest from people across Canada and abroad, who have since called to ask if their local rivers could also get personhood rights.

She said a shift in thinking is under way – and with each successful case, more communities are considering the idea. “We’ve become aware of the weaknesses of our system,” she told Al Jazeera. “And if we don’t change now, when? We cannot wait any longer.”

Indigenous peoples by far the best guardians of forests – UN report (The Guardian)

Preserving Latin America’s forests is vital to fight the climate crisis and deforestation is lower in indigenous territories

Damian Carrington Environment editor @dpcarrington

Thu 25 Mar 2021 14.00 GMT Last modified on Thu 25 Mar 2021 16.44 GMT

A Waiapi boy climbs up a Geninapo tree to pick fruits to make body paint at the Waiapi indigenous reserve in Amapa state, Brazil.
A Waiapi boy climbs up a Geninapo tree to pick fruits to make body paint at the Waiapi indigenous reserve in Amapa state, Brazil. Photograph: AFP Contributor/AFP/Getty Images

The embattled indigenous peoples of Latin America are by far the best guardians of the regions’ forests, according to a UN report, with deforestation rates up to 50% lower in their territories than elsewhere.

Protecting the vast forests is vital to tackling the climate crisis and plummeting populations of wildlife, and the report found that recognising the rights of indigenous and tribal peoples to their land is one of the most cost-effective actions. The report also calls for the peoples to be paid for the environmental benefits their stewardship provides, and for funding for the revitalisation of their ancestral knowledge of living in harmony with nature.

However, the demand for beef, soy, timber, oil and minerals means the threats to indigenous peoples and their forest homes are rising. Hundreds of community leaders have been killed because of disputes over land in recent years and the Covid-19 pandemic has added to the dangers forest peoples face.

Sateré-Mawé men collect medicinal herbs to treat people showing Covid symptoms, in a rural area west of Manaus, Brazil.
Sateré-Mawé men collect medicinal herbs to treat people showing Covid symptoms, in a rural area west of Manaus, Brazil. Photograph: Ricardo Oliveira/AFP/Getty Images

Demands by indigenous peoples for their rights have become increasingly visible in recent years, the report said, but this has come with increasing persecution, racism, and assassinations. Supporting these peoples to protect the forests is particularly crucial now with scientists warning that the Amazon is nearing a tipping point where it switches from rainforest to savannah, risking the release of billions of tonnes of carbon into the atmosphere.

The report was produced by the UN Food and Agriculture Organization and the Fund for the Development of Indigenous Peoples of Latin America and the Caribbean (Filac), based on a review of more than 300 studies.

“Almost half of the intact forests in the Amazon basin are in indigenous territories and the evidence of their vital role in forest protection is crystal clear,” said the president of Filac, Myrna Cunningham, an indigenous woman from Nicaragua. “While the area of intact forest declined by only 5% between 2000 and 2016 in the region’s indigenous areas, in the non-indigenous areas it fell by 11%. This is why [indigenous peoples’] voice and vision should be taken into account in all global initiatives relating to climate change, biodiversity and forestry.”

“Indigenous peoples have a different concept of forests,” she said. “They are not seen as a place where you take out resources to increase your money – they are seen as a space where we live and that is given to us to protect for the next generations.”

Indigenous and tribal territories contain about a third of all the carbon stored in the forests of Latin America, said Julio Berdegué, the FAO’s Regional Representative: “These peoples are rich when it comes to culture, knowledge, and natural resources, but some of the poorest when it comes to incomes and access to services.” Supporting them would also help avoid new pandemics, he said, as these are most often the result of the destruction of nature.

Cattle graze on land recently burned and deforested by farmers near Novo Progresso, Pará state, Brazil.
Cattle graze on land recently burned and deforested by farmers near Novo Progresso, Pará state, Brazil. Photograph: André Penner/AP

“Even under siege from Covid-19 and a frightening rise in invasions from outsiders, we remain the ones who can stop the destruction of our forests and their biodiverse treasures,” said José Gregorio Diaz Mirabal, indigenous leader of an umbrella group, the Coordinator of the Indigenous Organizations of the Amazon Basin. He said the report’s evidence supports his call for climate funds to go directly to indigenous peoples and not governments vulnerable to corruption. Advertisement

The report found the best forest protection was provided by peoples with collective legal titles to their lands. A 12-year study in the Bolivian, Brazilian, and Colombian Amazon found deforestation rates in such territories were only one half to one-third of those in other similar forests. Even though indigenous territories cover 28% of the Amazon Basin, they only generated 2.6% of the region’s carbon emissions, the report said.

Indigenous peoples occupy 400m hectares of land in the region, but there is no legal recognition of their property rights in a third of this area. “While the impact of guaranteeing tenure security is great, the cost is very low,” the report said, needing less than $45 per hectare for the mapping, negotiation and legal work required.

The report said it would cost many times more to prevent carbon emissions from fossil fuel burning using carbon capture and storage technology on power plants. The granting of land rights to indigenous people has increased over the last 20 years, Cunningham said, but has slowed down in recent years.

Paying indigenous and tribal communities for the environmental services of their territories has reduced deforestation in countries including Ecuador, Mexico, and Peru. Berdegué said such programmes could attract hundreds of millions of dollars per year from international sources.

The need for protection is urgent, the report said, with annual deforestation rates in Brazil’s indigenous territories rising from 10,000 hectares in 2017 to 43,000 hectares in 2019. In January, indigenous leaders urged the international criminal court to investigate Brazil’s president, Jair Bolsonaro, over his dismantling of environmental policies and violations of indigenous rights.

Elsewhere, the area of large intact forests in indigenous territories has fallen between 2000 and 2016, with 59% lost in Paraguay, 42% in Nicaragua, 30% in Honduras and 20% in Bolivia. Mining and oil concessions now overlay almost a quarter of the land in Amazon basin indigenous and tribal territories, the report said.

Arqueólogos identificam 48 ilhas construídas por indígenas na Amazônia da era pré-colonial (G1)

g1.globo.com

Pesquisadores do Instituto Mamirauá trabalham na identificação de estruturas encontradas em áreas de várzea no Amazonas; levantamento foi feito em 4 anos. Segundo o IPHAN, quase 400 sítios arqueológicos achados no estado estão registrados no cadastro nacional.

Por Lucas Faria e Mayara Subtil, Rede Amazônica

20/02/2021 09h46


As longas distâncias percorridas em voadeiras e as conversas informais com ribeirinhos resultaram no registro de 48 ilhas criadas artificialmente por indígenas no período anterior à era-colonial na floresta amazônica.

Entre 2015 e 2019, arqueólogos do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá trabalharam na identificação dessas estruturas, localizadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.

“Um dos principais pontos de importância (da identificação das ilhas) é a engenhosidade humana frente às adversidades, pois na Amazônia se tem uma ideia vaga e pensa que populações que viveram aqui não conseguiram desenvolver estratégias e evoluir. É uma resposta positiva de como se integrar à natureza e como aproveitar recursos de uma maneira mais ordenada e se ter segurança, alimento, fatura. É um legado que a gente precisa passar das populações que viveram na floresta amazônica”, declarou Márcio Amaral, pesquisador do instituto que encontrou as ilhas.

Ilustração de indivíduo da população indígena Omágua, atual Kambeba.  — Foto: Alexandre Rodrigues Ferreira/Arquivo pessoal
Ilustração de indivíduo da população indígena Omágua, atual Kambeba. — Foto: Alexandre Rodrigues Ferreira/Arquivo pessoal

Uma das hipóteses dos arqueólogos envolvidos no levantamento aponta que essas ilhas podem ter sido construídas por indígenas Omáguas, ancestrais dos Kambeba, população composta atualmente por cerca de 1,5 mil indivíduos, segundo o Instituto Socioambiental (ISA).

Os pesquisadores acreditam também que há chances dessas áreas terem sido ocupadas ainda entre os séculos XV e XVI, época em que os europeus começaram a passar pela Amazônia – principalmente no entorno do rio Solimões. O indício reforça a teoria de que o bioma possivelmente já era ocupado nesse período por grupos organizados e complexos.

“Essas ilhas foram encontradas meio que por acaso. Por acaso por nós, pesquisadores. Na verdade, a gente estava fazendo trabalho de levantamento de sítio. Eram áreas que a gente não conhecia nada, não sabia nem como eles eram. Isso é interessante porque todas essas informações já vieram dos moradores. Só vamos incorporando essas informações”, complementou Eduardo Kazuo, coordenador do grupo de pesquisa em arqueologia do Instituto Mamirauá.

Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas.  — Foto: Earth Studio/Reprodução
Ilhas artificiais foram identificadas em áreas de várzea do Médio e Alto Solimões, no Amazonas. — Foto: Earth Studio/Reprodução

Mas os dados ainda são preliminares. Segundo os arqueólogos, ainda não se tem conhecimento, por exemplo, sobre o período de ocupação das ilhas ou quais as culturas indígenas que estavam ali.

Os “aterrados”, como são chamados pelas pessoas que moram nas proximidades, medem pelo menos de um a três hectares por sete metros de altura. Márcio Amaral cita que somente na última expedição, ocorrida em novembro de 2019 e com duração de 12 dias, encontrou 13 ilhas. Todo o trabalho dos pesquisadores abrange uma área de 180 mil km² e 350 sítios arqueológicos já foram mapeados.

Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia.  — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá
Resquícios de materiais foram encontrados nas ilhas artificiais identificadas na Amazônia. — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

“O primeiro traço diagnóstico dessas ilhas é a forma singular na paisagem. Há um microbioma nessas ilhas que tem relação com plantas úteis, árvores frutíferas, algumas plantas medicinais. Se tem uma floresta antropogênica, que tem um fundo de criação humana, com árvores e espécies úteis aos seres humanos que é diferenciado do entorno imediato da várzea. A cobertura florestal é diferente”, acrescentou.

Márcio também conta ter encontrado resquícios de material cerâmico nas ilhas. Segundo o arqueólogo, cacos, potes, panelas e tigelas achados eram usados, principalmente, para preparar os alimentos e armazená-los, “além de várias outras coisas de origem orgânica, como ossos, carvões, até o chamado ‘pão de índio’, que pode ser mandioca ou milho, processado e armazenado de maneiras que poderiam ser estocado de um ano para o outro”, acrescentou.

No Médio e Alto Solimões, ilhas artificiais oferecem proteção durante as cheias
No Médio e Alto Solimões, ilhas artificiais oferecem proteção durante as cheias

Próximos passos

O material encontrado pelos pesquisadores ainda precisa ser registrado junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) para que possam, então, conseguir recursos e retornar a campo. O objetivo é seguir com o trabalho de escavação para futuras análises. Conforme Eduardo Kazuo, um relatório sobre as identificações está sendo preparado para ser encaminhado ao instituto.

Somente no Amazonas, 395 sítios arqueológicos estão registrados no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA) e mais de mil já foram identificados, conforme o IPHAN. Todos são protegidos pela Lei Federal 3.924, de julho de 1961. Ainda conforme o IPHAN, o tipo de sítio mais conhecido no estado do Amazonas são os que estão relacionados com as ocupações ceramistas.

“Contudo, na minha visão, os agentes de preservação mais importantes dos sítios arqueológicos, sobretudo na Amazônia, são as comunidades que ali vivem no entorno e muitas vezes sobre os sítios arqueológicos, que conhecem esses sítios, auxiliam os pesquisadores a identificarem esses lugares, registrarem e pesquisarem. Eu vejo os moradores dos sítios arqueológicos como os principais agentes de conservação”, declarou a arqueóloga Helena Lima, pesquisadora titular do Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG).

“Na Amazônia, a gente não tem muita pedra como material construtivo. Não tem muita rocha. Então, o que que era utilizado por esses povos como material construtivo que viviam ali? Era a própria terra, o solo que era movimentado, coisas de madeira e de palha que se apodrecem muito rapidamente ao longo do tempo. Então normalmente um sítio arqueológico na Amazônia vai ter muita cerâmica fragmentada na superfície, vai ter restos de plantas e ossos de animais, vai ter solos escuros, que são as terras pretas, mas em alguns lugares vamos encontrar aterros artificiais, que são como ilhas”, explicou o arqueólogo e professor da USP Eduardo Neves.

Materiais encontrados pelos pesquisadores serão registrados no IPHAN.  — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá
Materiais encontrados pelos pesquisadores serão registrados no IPHAN. — Foto: Márcio Amaral/Instituto Mamirauá

Ainda de acordo com o professor Eduardo Neves, tais registros revelam informações sobre uma Amazônia ocidental que é “absolutamente desconhecida”.

“E segundo que mostra uma variabilidade, pois se a gente olhar para os povos indígenas hoje no Brasil e na Amazônia, a gente percebe que tem uma diversidade cultural muito grande que pode ser aferida das diferentes, centenas, dezenas de línguas indígenas faladas na Amazônia, na América do Sul, mas na Amazônia em particular”, reforçou.

The Catholic Church Is Responding to Indigenous Protest With Exorcisms (Truthout)

truthout.org

Charles Sepulveda, November 26, 2020

LaRazaUnida cover the Fray Junípero Serra Statue in protest at the Brand Park Memory Garden across from the San Fernando Mission in San Fernando on June 28, 2020.
Keith Birmingham, Pasadena Star-News / SCNG


On this day, Indigenous activists in New England and beyond are observing a National Day of Mourning to mark the theft of land, cultural assault and genocide that followed after the anchoring of the Mayflower on Wampanoag land in 1620 — a genocide that is erased within conventional “Thanksgiving Day” narratives.

The acts of mourning and resistance taking place today build on the energy of Indigenous People’s Day 2020, which was also a day of uprising. On October 11, 2020, also called “Indigenous People’s Day of Rage,” participants around the country took part in actions such as de-monumenting — the toppling of statues of individuals dedicated to racial nation-building.

In response to Indigenous-led efforts that demanded land back and the toppling of statues, Catholic Church leaders in Oregon and California deemed it necessary to perform exorcisms, thereby casting Indigenous protest as demonic.

The toppled statues included President Abraham Lincoln, President Theodore Roosevelt and Father Junípero Serra, who founded California’s mission system (1769-1834) and was canonized into sainthood by the Catholic Church and Pope Francis in 2015.

What do these leaders whose statues were toppled have in common? They perpetrated and promoted devastating violence against Native peoples.

Abraham Lincoln was responsible for the largest mass execution in United States history when 38 Dakota were hanged in 1862 after being found guilty for their involvement in what is known as the “Minnesota Uprising.”

Theodore Roosevelt gave a speech in 1886 in New York that would have made today’s white supremacists blush when he declared: “I don’t go as far as to think that the only good Indian is the dead Indian, but I believe nine out of every ten are…” This was not his only foray in promoting racial genocide.

Junípero Serra is known for having committed cruel punishments against the Indians of California and enslaved them as part of Spain’s genocidal conquest.

Last month, “Land Back” and “Dakota 38” were scrawled on the base of the now-toppled Lincoln statue in Portland, Oregon. The political statements and demands for land return reveal a Native decolonial spirit based in resistance continuing through multiple generations

The “Indigenous People’s Day of Rage” came after months of protests in Portland in support of Black Lives Matter. The resistance enacted in Portland coincides with demands for both abolition (the end of racialized policing and imprisonment) and decolonization (the return of land and regeneration of life outside of colonialism). Both of these notions encompass a multifaceted imagining of life beyond white supremacy.

In San Rafael, California, Native activists gathered at the Spanish mission that had been the site of California Indian enslavement. Activists, who included members of the Coast Miwok of Marin, first poured red paint on the statue of Serra and then pulled it down with ropes, while other protesters held signs that read: “Land Back Now” and “We Stand on Unceded Land – Decolonization means #LandBack.” The statue broke at the ankles, leaving only the feet on the base.

What was even more provocative than the toppling of the statues by Native activists and their accomplices, was the response by the Catholic Church, which not only condemned the actions of the Native activists, but also spiritually chastised them. In both Portland and San Rafael, the reaction by the Church was to perform exorcisms.

The purpose of an exorcism, according to the Catechism of the Catholic Church, is to expel demons or “the liberation from demonic possession through the spiritual authority which Jesus entrusted to his Church.”

In other words, Native activism and demands for land back were deemed blasphemous and evil by two archbishops and were determined to require exorcism.

In Portland, Archbishop Alexander K. Sample led 225 members of his congregation to a city park where he prayed a rosary for peace and conducted an exorcism on October 17, six days after the “Indigenous People’s Day of Rage.” Archbishop Sample stated that there was no better time to come together to pray for peace than in the wake of social unrest and on the eve of the elections. His exorcism was a direct response to Indigenous-led efforts that demanded land back.

San Francisco Archbishop Salvatore Cordileone held an exorcism on the same day as the one performed in Portland and after the toppling of Saint Junipero Serra’s statue in San Rafael. In his performance of the exorcism, he prayed that God would purify the mission of evil spirits as well as the hearts of those who perpetrated blasphemy. Was he responding to a “demonic possession” or was he exorcising the political motivations of those he did not agree with? Perhaps both, as he also stated that the toppling of the statue was an attack on the Catholic faith that took place on their own property. However, the mission is only Church property because of Native dispossession through conquest and missionization.

The conquest of the Americas by European nations was, as Saint Serra had deemed his own work, a “spiritual conquest.” From the doctrine of discovery to manifest destiny, the possession of Native land was rationalized as divine – from God. Those who threaten colonial possession are attacking the theological rationalization of possession, not their faith.

Demands for land back interfere with the doctrine that enabled Native land to be exorcised from them. Archbishop Cordileone’s exorcism was in the maintenance of property that had been stolen from Indigenous people long ago, and Archbishop Sample’s was in the maintenance of peace and the status quo of Native dispossession.

With a majority-Christian population in the United States and other nations in the Americas, demands for the return of land and decolonization have more to reckon with than racial injustice and white supremacy. Christians must also consider how dominant strains of Christian theology rationalized conquest and its ongoing structures of dispossession. Can a religion, made up of many sects, shift its framework to help end continued Native dispossession and its rationalization? Can we come together to overturn a racialized theological doctrine that functioned through violence and was adopted into a nation’s legal system? Can we imagine life beyond rage and the racialized spiritual possession of stolen land?

The Doctrine of Discovery was the primary international law developed in the 15th and 16th centuries through a series of papal bulls (Catholic decrees) that divided the Americas for white European conquest and authorized the enslavement of non-Christians. In 1823 the Doctrine of Discovery was cited in the U.S. Supreme Court case Johnson v. M’Intosh. Chief Justice John Marshall declared in his ruling that Indians only held occupancy rights to land — ownership belonged to the European nation that discovered it. This case further legalized the theft of Native lands. It continues to be a foundational principal of U.S. property law and has been cited as recently as 2005 by the U.S. Supreme Court (City of Sherrill v. Oneida Nation of Indians) to diminish Native American land rights.

In 2009 the Episcopal Church passed a resolution that repudiated the Doctrine of Discovery. It was the first Christian denomination to do so and has since been followed by several other denominations, including the Anglican Church of Canada (2010), the Religious Society of Friends/Quakers (2009 and 2012), the World Council of Churches (2012), the United Methodist Church (2012), the United Church of Christ (2013) and the Mennonite Church (2014).

Decolonization and land return are as possible as repudiating the legal justification of land theft. Social, cultural, governmental and economic systems are constantly changing, but the land remains — in the hands of the dispossessors. When our faith is held above what we know is true — we will prolong doing what is right.

Native peoples are not ancient peoples of the past only remembered on days such as Thanksgiving, just as our mourning is not all that we are. Native peoples are a myriad of things, including activists who demand land back — which is not a demonic request. Our land can be returned, and we can work together to heal and imagine a future beyond white supremacy and dispossession.

Ailton Krenak: Receber sonhos (Teoria e Debate)

teoriaedebate.org.br

EDIÇÃO 07 – 06/07/1989 – Alipio Freire e Eugênio Bucci


Remanescentes de uma guerra de extermínio que quase os dizimou ao longo de cinco séculos, os índios brasileiros agora comparecem à sociedade civil brasileira representados por uma nova geração. Ailton Krenak é dessa geração. Com habilidade, inteligência, é capaz de articular alianças e desenvolver políticas inéditas. Ao mesmo tempo, é um ser humano como poucos, que conversa com sua tradição por meio dos sonhos e que sonha com o futuro dos seus netos

Entrevistar Ailton, índio da tribo krenak, 35 anos, é uma experiência definitiva. Ele é um sábio, e há poucos sábios entre nós. Parece que Ailton Krenak conhece, de tempos imemoriais, os segredos mais ancestrais que a cultura dos brancos depois sistematizou, dissecou, ordenou à guisa de interpretação. “Eu não interpreto sonhos, eu recebo sonhos”, diz o índio para quem os sonhos não carecem ser “decifrados”, não precisam passar por leituras que a razão da modernidade precisou de tanta ciência para estruturar.

A sabedoria de Ailton Krenak exerce o fascínio que a natureza pode exercer e que nada tem a ver com a tentação do exótico que é a única atração que, em geral, as pessoas de boa vontade sentem em relação aos índios. É um fascínio necessário do curso natural da vida, um fascínio que encontra ressonância no íntimo de cada ser humano. A sabedoria de Ailton Krenak está contida na atuação política da UNI (União das Nações Indígenas), que ele dirige, cuja intervenção política é hoje decisiva não apenas para os povos indígenas mas para o conjunto da sociedade civil brasileira. No bairro das Perdizes, na cidade de São Paulo, ele falou, ao longo de três horas, para Teoria & Debate, instalado em sua mesa no escritório da UNI, sediado no prédio da Sedes Sapientiae. A leitura desta entrevista, é nossa intenção, deve passar a mesma sensação que nos captou ao fazê-la: uma experiência definitiva. Isso vale tanto para a política que se pense para os índios brasileiros, que deve ser imaginada a partir da formulação de Ailton Krenak – “o ser humano não se preserva, o ser humano se respeita”-, como vale para o que se espera do futuro, para o que se guarda da memória, para o que se vive da vida.

Então, Krenak, quem é você?
Eu sou Ailton Krenak. Sou filho de uma pequena tribo originária da região do Vale do Rio Doce. Nosso território tradicional se estende do litoral do Espírito Santo até entrar um pouco no sertão de Minas. Neste século XX, nós tivemos uma reserva delimitada pelo governo brasileiro. Os vários grupos do povo Krenak foram presos nessa reserva em 1922. Eu nasci em 1953; então, já sou filho da geração dos Krenak do cativeiro. Os Krenak livres viveram até 1922.

Como você saiu da tribo?
Eu saí da minha região com dezessete para dezoito anos, com meu grupo familiar. Nós atravessamos o Vale do Rio Doce inicialmente com destino à divisa do Paraná com o Paraguai, região do Iguaçu. Partimos no final de 68 para fazer a viagem e paramos na saída de São Paulo. E vários jovens arrumaram serviço na indústria.

Vocês já tinham sido alfabetizados?
Não. Eu só fui alfabetizado depois de adulto. Fiz o que corresponde hoje ao primeiro grau, quando já estava com vinte anos.

Então você não chegou à fronteira com o Paraguai e ficou em São Paulo…
Eu cheguei. Meu povo, o grupo familiar todo é que não foi. Eu continuei a viagem e morei com meus tios, que já estavam lá. Fiquei até o verão de 75, quando voltei para São Paulo. Aí eu fiz aqueles cursos de madureza de primeiro e segundo graus.

Você é uma das pessoas mais importantes da atualidade, no que diz respeito à autonomia dos índios, à questão ecológica, à questão da vida no planeta. Você é considerado uma pessoa que está na linha de frente disso tudo. Como se dá esse seu engajamento? Como você passou a manipular todo o código dos brancos?
E tem o Raoni, né? O Raoni não sabe ler, não sabe escrever; ele fala só algumas palavras em português. No início deste ano, ele foi recebido pelo príncipe Charles em Londres, pelo rei da Espanha em Madri, pelos ministros da Alemanha, do Japão e da Itália, pelo papa no Vaticano, por Mitterrand na França. Discutiu com eles a política de proteção da Amazônia; o Raoni é um sábio do povo indígena. É um sábio caiapó. Eu sou membro de uma geração nova das populações indígenas, que está dando continuidade ao que pessoas como Raoni fizeram. Há uma centena de índios da minha geração que são tão atualizados com relação ao mundo em que vivemos quanto eu. Então, essa minha maneira de intervir na realidade do nosso povo é uma experiência em parte pessoal, mas ela não está se dando, de maneira nenhuma, de forma individual. Eu não assumiria nenhuma dessas atividades que assumo, não estaria realizando esse avanço na minha compreensão do mundo, se não tivesse junto comigo desde os xamãs, os pajés mais tradicionais que nunca saíram da aldeia, até pessoas como Marcos Terena, que é piloto de avião. Entre nós existe muito mais coisas em comum, porque somos da mesma geração e somos índios. Nós sentimos que temos uma responsabilidade muito grande com relação aos novos moradores daqui da América. Eles vieram para cá – em alguns casos – fugidos, escorraçados das suas regiões de origem, desprezando essa terra, e agiram aqui – na maioria das vezes – como estrangeiros. Nós queremos conversar com os novos brasileiros para ver se eles conseguem entender os sinais dessa terra, amar esse lugar, protegê-lo, viver aqui não como quem vive num acampamento.

Gostaria que você resumisse as suas atividades. Quais são?
Hoje, eu coordeno um conselho que reúne 180 tribos: a UNI (União das Nações Indígenas). Esse conselho de tribos é uma aliança entre as várias etnias que falam língua diferente, que estão em regiões diferentes do país, que têm uma aliança comum para tratar com os não-índios; não se limita a fazer o tratamento administrativo de política com o Estado. A minha atividade hoje poderia – ser entendida como a de um embaixador. Eu represento uma embaixada indígena junto a instituições e organizações não-indígenas. Agora, eu tomo outras iniciativas no campo da aproximação mesmo e divulgação do pensamento do nosso povo, da articulação de alianças políticas com outros movimentos e outros setores da população regional e nacional que vão até a aliança com os ambientalistas que no mundo inteiro lutam no sentido de preservar o ambiente.

Qual é a sua religião?
A minha religião é a dos meus avós, dos meus antigos.

Você pratica a sua religião?
Eu pratico. Eu acho que a nossa tradição é muito diferente, por exemplo, da dos cristãos, para quem a idéia de praticar uma tradição ou uma religião está vinculada a um conjunto de normas e condutas. Para nós isso não existe. Eu não tenho que ir a um templo, não tenho que ir a uma missa. Eu me relaciono com o meu criador; me relaciono com a natureza e com os fundamentos da tradição do meu povo.

Existe essa natureza aqui em São Paulo?
Ela existe em cada uma das células do meu corpo. Ela existe em cada um dos pequenos, no ar que eu respiro, naquelas plantinhas que estão ali no quintal, na chuva que cai, nos raios de sol que atravessam todos esses concretos e cimentos e passam por este buraquinho da janela aqui. E ela bate com a mesma força e intensidade com que faz uma cachoeira lá no meio do Amazonas ou uma geleira lá no Alaska. Porque a natureza é a vida mesmo. Não há natureza apenas num parque, num jardim.

Você é um cidadão brasileiro, que deve ter cédula de identidade. Você não é um índio que tenha responsabilidade relativa.
A responsabilidade relativa não tem a ver comigo. Ela tem a ver com os outros. Meu avô viveu até 96 anos. Meu avô criou meu pai, todos os meus tios e os netos. E para o governo ele continuava sendo alguém com responsabilidade relativa. Para o meu povo, meu avô foi um sábio, um guerreiro. Para o governo brasileiro ele foi um menino, um sujeito que devia ser vigiado, tutelado. Mas nós podemos observar também que a sociedade brasileira, apesar de já ter aí uns duzentos ou trezentos anos de vida institucional, continua sendo considerada pelo Estado algo parecido. Uma espécie de deficiente mental. Então acho que podemos concluir que isso diz menos respeito ao nosso espírito e ao nosso propósito no mundo e muito mais a uma visão que os outros têm de nós mesmos.

Mas você é um cidadão comum hoje… Você vota, por exemplo?
Eu voto. Pratico vários atos jurídicos que os brasileiros têm o prazer de fazer. E meus parentes, que não exercitam esses chamados direitos civis, são também cidadãos, porque ninguém é mais cidadão na América do que os nossos antigos. Se cidadania se mede por gestos cívicos como votar, tirar cédula de identidade e coisas assim, nós não somos cidadãos. Mas se ser cidadão é você estar instalado numa região, num lugar onde você participa, onde você vive, nós somos os primeiros cidadãos aqui da América. Acho que a maioria das pessoas tem dificuldade de nos considerar remanescentes de uma guerra de colonização. Todos os meus parentes são sobreviventes de uma guerra de ocupação. Quando os seus parentes vieram para cá, involuntariamente se instalaram como forças de ocupação da minha terra. Acredito que a grande maioria veio sem saber o que estava fazendo. Os que vieram sabendo o que estavam fazendo e os que vieram sem saber estavam realizando a ocupação dos nossos territórios. Hoje, se a minha tribo está reduzida a quase uma centena de indivíduos, sendo que no começo do século nós éramos mais de 5 mil pessoas, e se o nosso território atual é uma reserva miserável de 4 mil hectares, isso tem que ser compreendido como parte de minha história, muito mais do que uma cédula de identidade. A minha história é a experiência coletiva do meu povo. A minha história, de maneira nenhuma, se resume ao conjunto de documentos públicos que o governo me deu.

Por que o governo nega esses documentos para os índios e os mantém tutelados e oprimidos?
Acho que você conhece a história das potências que colonizaram outras regiões do mundo e que tratam os nativos como cidadãos de segunda ou terceira categoria. Se você observar, a Inglaterra e a França até recentemente mantinham colônias na África e na Ásia, onde os nativos tinham o status aproximado da mula ou do cavalo. Aqui, no Brasil, os índios continuam tendo um status parecido com o de animais silvestres. Nós somos objeto da atenção do Estado enquanto seres que precisam ser preservados como fauna. Também temos a atenção do Estado como pessoas e indivíduos que precisam ser vigiados para que não entrem num processo de contestação do poder do Estado, de contestação da ordem estabelecida e de questionamento dos crimes que foram praticados contra o nosso povo. Nós somos a memória viva e um testemunho sempre muito explícito da história recente da ocupação desta região do mundo. Cada um dos nossos meninos sabe como foi que os brancos se tornaram senhores desta terra e quando nós deixamos de ser os donos.

Como se dá essa passagem de memória entre os índios?
Você me perguntou há pouco sobre minha educação e alfabetização. Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa. Acredito que quando uma cultura elege essas atividades como coisas que têm valor em si mesmas está excluindo da cidadania milhares de pessoas para as quais a atividade de escrever e ler não tem nada a ver. Como elas não escrevem e não lêem, também nunca serão parte das pessoas que decidem, que resolvem. E quando aceitei aprender a ler e escrever, encarei a alfabetização como quem compra um peixe que tem espinha. Tirei as espinhas e escolhi o que eu queria. Acho que a maioria das crianças que vão hoje para a escola e que são alfabetizadas é obrigada a engolir o peixe com espinha e tudo. É uma formação que não atende à expectativa delas como seres humanos e que violenta sua memória. Na nossa tradição, um menino bebe o conhecimento do seu povo nas práticas de convivência, nos cantos, nas narrativas. Os cantos narram a criação do mundo, sua fundação e seus eventos. Então, a criança está ali crescendo, aprendendo os cantos e ouvindo as narrativas. Quando ela cresce mais um pouquinho, quando já está aproximadamente com seis ou oito anos, aí então ela é separada para um processo de formação especial, orientado, em que os velhos, os guerreiros, vão iniciar essa criança na tradição. Então, acontecem as cerimônias que compõem essa formação e os vários ritos, que incluem gestos e manifestações externas. Por exemplo, você fura a orelha. Fura o lábio para colocar o botoque. Dependendo de qual povo a que você pertence, você ganha sua pintura corporal, seu paramento, que vai identificar sua faixa etária, seu clã e seu grupo de guerreiros. Esses são os sinais externos da formação. Os sinais internos, os sinais subjetivos, são a essência mesma daquele coletivo. Então você passa a compartilhar o conhecimento, os compromissos e o sonho do seu povo. As grandes festas se constituem em instantes de renovação permanente do compromisso de andar junto, de celebrar a vida, de conquistar as suas aventuras. Então a nossa tradição consiste, de maneira resumida, nesses eventos. A formação é isso.

Você acha que houve conquistas importantes da UNI e do trabalho de vocês aqui?
Acho que sim. Eu disse para um amigo meu outro dia que a UNI só tem sentido porque existem os brancos. Se não existissem brancos aqui, a UNI não existiria, e eu estaria lá na minha aldeia, com o meu povo, com a minha tribo, caçando, guerreando, namorando. Mas como os brancos existem, tive que trocar toda essa vida paradisíaca por uma vida chata de ficar aqui conversando com as pessoas, negociando politicamente, sendo transigente ou intransigente, sendo tolerante e, às vezes, sendo duro. Muito poucas pessoas indígenas fazem isso, ou estão dispostas a pagar esse preço. Nesse sentido, foram positivos esses quase dez anos. A UNI iniciou a sua articulação mais permanente em 1979. Hoje, o Brasil sabe que existe o povo indígena. Acho que vocês sabem que na década de 60 e até o começo da década de 70, mesmo as pessoas mais bem informadas do Brasil se perguntassem a elas sobre índios, iam dizer: “Não, índio não. Não tem. Bem, talvez tenha um ou outro aí guardado em alguma reserva pelos irmãos Vilas Boas”. “Quem são os irmãos Vilas Boas?”, outro diria. “São heróis que têm lutado para guardar como relíquia alguns índios sobreviventes de 1500.” Raoni trouxe para o povo brasileiro e para o mundo cheiro de índio, cara de índio, impressão sobre o índio, expectativa. Em alguns casos, irritação, ódio, carinho, solidariedade. Nós provocamos sentimentos nas pessoas quando mostramos que éramos gente de verdade. Nós provocamos os fazendeiros. Nós provocamos o Conselho de Segurança Nacional, que botou os militares para nos vigiar mais de perto. Mas, em compensação, nós lembramos a milhares de pessoas que ainda estamos vivos e que queremos ser amigos dessas pessoas. E isso é solidariedade. É uma palavra que nós não conhecíamos, mas uma idéia que praticamos há milhares de anos.

De onde vem a sustentação financeira de vocês?
Bem, a UNI praticamente não tem infra-estrutura. Nós temos a cooperação de organizações da sociedade civil, de movimentos que estão junto com a gente, que são solidários para com o povo indígena. Há, por exemplo, o Sedes Sapientiae, que nos oferece este local e a infra-estrutura de serviços, para a gente trabalhar juntos. Contamos com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, aberto o tempo inteiro para um trabalho conjunto. A universidade estabelece com a gente um tipo de cooperação. E, mais recentemente, temos conseguido coisas como uma empresa que quer fazer uma política de proteção do meio ambiente e que se dirige assim à gente: “Olha, queremos apoiar algum trabalho de vocês; nós temos interesse nisso”.

Onde estão as alianças das nações indígenas com as diversas camadas do povo brasileiro? Onde estão seus aliados?
Durante esses últimos cinqüenta anos, o povo indígena fez um esforço através de uma ou outra liderança para dialogar com o que a gente chama de sociedade brasileira. Esse diálogo foi bloqueado de todas as formas. Os nossos interlocutores mais permanentes têm sido gente do Estado. O marechal Rondon é como lenda, inclusive para a maioria das tribos indígenas. Porque foi o marechal que criou o SPI (Serviço de Proteção ao Índio) no final do século passado. Toda a política que ele imprimiu ia no sentido de preservar os índios do contato com o Brasil. Então, toda a orientação que o Estado aplicou no seu contato com os povos indígenas procurava segregar as tribos indígenas da nação brasileira. O marechal Rondon, baseado no positivismo, defendia a idéia de que, se nós fôssemos preservados do contato negativo com a nação brasileira, poderíamos evoluir e gradualmente alcançar um estágio de sabedoria, de civilização, que nos habilitasse à convivência civilizada, social. É uma idéia generosa porque o marechal Rondon acreditava que os índios estavam muito expostos a aprender aquilo que havia de mais espúrio no comportamento dos brasileiros. Daí ele fundou aquela máxima: “Morrer se preciso for; matar, nunca”. E esse lema derivava do seguinte princípio: “Nós estamos chegando junto de um povo. Esse povo tem um pensamento e costumes diferentes. Nós somos os invasores; vamos fazer com que esse povo tenha o tempo necessário para nos interpretar. Aí ele se incorpora a nós como parte integrante da nacionalidade”. No começo do século XX, convenhamos que esse pensamento era muito louvável, porque um contemporâneo dele, o general Custer, achava que “índio bom era índio morto”. O que acontece é que não apareceram mais na história do Brasil figuras da grandeza do marechal Rondon, para avançar historicamente esse processo de respeito, conhecimento e reconhecimento da existência de culturas diferentes. Ele foi substituído e toda a sua orientação, contrariada por uma outra leitura, que passou a vigorar a partir da Segunda Guerra Mundial. A leitura de que os índios, enquanto seres estranhos à nacionalidade, precisavam ser rigorosamente vigiados, porque eram potenciais inimigos internos. Quando surge a doutrina da segurança nacional, aquela visão do marechal Rondon é substituída por outra preconceituosa e integracionista, que supõe o seguinte: para eles serem brasileiros, têm que estar integrados às forças de trabalho, ao comportamento, a todas as manifestações culturais, a todos os signos desta pátria. Então, para que garantir terras para eles, se isso pode ser exatamente a base de uma cultura e de uma prática tradicional que só vai reforçar a sua identidade? Teve início um trabalho sistemático de diluição da identidade das tribos indígenas… E aí eles começam a trabalhar com a idéia do índio aculturado. Índio aculturado é um índio sem terra. Ele tem que cooperar como mão-de-obra nos canaviais, nas lavouras, nos garimpos, etc. Aí o povo indígena responde a essa iniciativa do Estado: “Não. Nós achamos que podemos ser, sem deixar de ser quem somos”.

E dos irmãos Vilas Boas, o que você diria?
Os irmãos Vilas Boas são os últimos herdeiros do pensamento de Rondon. Eu os respeito e os coloco num lugar na história da relação do Estado com as sociedades indígenas. Estão situados num tempo histórico que vai de 1940 a 1980.

Eles não se coadunavam com essa política de preconceitos?
É claro que eles traziam na sua formação os equívocos que todos os jovens brasileiros tiveram e receberam na escola. Mas, no contato e na convivência com as comunidades indígenas, fizeram a revisão do que receberam na escola.

Mas eles deixaram algum saldo positivo?
Acredito que a história não se fez de fatos positivos ou de fatos negativos. Na tradição do nosso povo, essa coisa de bem, de mal, de positivo, de negativo não existe de maneira tão simples assim. Nós temos eventos na nossa história antiga que podem ser considerados, numa narrativa, uma catástrofe. Mas nós sabemos que toda catástrofe era o prenúncio de um novo tempo. E quando o Estado, quando o Brasil, na sua relação com o povo indígena, nos possibilitou o contato ou a convivência com personalidades como Rondon, os irmãos Vilas Boas, provavelmente o país deu as melhores personalidades que tinha para tratar com o povo indígena. Então, não cabe a nós fazer o julgamento. Seria a mesma coisa que perguntar se foi positivo ou negativo o Mário Juruna ter sido eleito deputado. Eu já ouvi essa pergunta centenas de vezes.

É uma pergunta que eu queria mesmo fazer.
Acho que essa pergunta está sempre engatilhada na cabeça do repórter, porque a cultura dele é assim. Juruna foi um parlamentar indígena, que teve um primeiro mandato na Câmara Federal; esse fato em si é que tem valor. E ele não se travestiu de branco para ser um parlamentar índio. Ele foi um parlamentar índio com todas as suas dificuldades, com todas as suas deficiências e virtudes. Com todas as suas contradições. E ele revelou muito mais do Brasil do que milhares de parlamentares que passaram por aquela casa desde a instalação da República. A história do Brasil não pode negar esse fato. Na nossa tradição, na tradição indígena, nós temos uma história – a história da fundação do mundo – que nos integra no que poderia ser considerado o Universo. Os fatos dessa história se aproximariam muito dos eventos religiosos. Nós temos uma história que poderíamos chamar de história objetiva, história do mundo, sobre a qual agimos. Nós agimos no mundo, mas somos filhos de uma tradição em que o nosso poder é limitado. Quando comecei a ler a literatura universal, descobri um pensamento nos homens de outra tradição que me assustou – o pensamento de que o homem é total, de que ele pode submeter a natureza e a história. Na minha tradição, isso não existe. Somos parte de eventos importantes. Nós podemos estar ou não nos lugares em determinados momentos. Apesar de estar há muito tempo já convivendo e me relacionando com os fatos marcados pelo calendário do relógio, tenho buscado preservar dentro de mim essa memória. A minha apreciação da história tem que ser cuidadosa e seguir a visão do meu povo. Nós entendemos que somos capazes de mover uma pedra que está na beira do igarapé represando tronquinhos e folhas, mas sabemos que não podemos mover o destino das águas. Nós somos parte dos eventos. Interferimos neles a partir da nossa virtude e do nosso conhecimento, da nossa interação com aquele lugar, mas não podemos agir como seres externos aos eventos.

Mas, por outro lado, quando vocês constroem a UNI, também estão manipulando leis gerais da política, fazendo alguma coisa comparável a uma embaixada e atuando nesse mundo. Vocês também estão lutando e subordinando os acontecimentos a seus objetivos. Então há uma contradição.
Vou contar uma coisa. Se eu for dormir hoje e meus parentes antigos me vierem num sonho para dizer: “Vá pro mato!”, vou embora. Você pode vir aqui amanhã e não verá mais este escritório. Isso significa que dizer que eu estou irremediavelmente no meio disso é só aparência. E as aparências enganam… Por exemplo, existem muitos truques e muitas armadilhas que são postos em nosso espírito para nos testar. Você pode estar seguindo por um caminho, e um ser sobrenatural aparece sugerindo uma situação. Se você acreditar que tudo que está vendo é exato, pode sofrer por isso. Se tiver no espírito a generosidade de aceitar que aquilo não existe, exatamente nesse momento você pode ter decifrado o enigma que o espírito lhe pôs. É nesse sentido que aquilo que aparenta ser pode não ser realmente. Assim, eu não estou aqui em caráter indefinido. Vai chegar o momento em que eu não vou estar mais aqui, e que outros parentes poderão ou não estar realizando isso. Essa é uma atitude em relação à vida um pouco diferente da maioria das atividades que as outras pessoas executam. Alguém, por exemplo, inicia um projeto pessoal, vai ser jornalista ou deputado; isso se torna a vida dessa pessoa. Ela faz todos os julgamentos das oportunidades e conveniências dessa escolha. Para nós, é diferente. Quando eu estou aqui, assumindo uma determinada atividade, e esse círculo se completa, tenho que me assegurar de que o universo das minhas relações esteja preservado. Não posso comprometer minha integridade e o pensamento de meu povo com um simples gesto.

Sendo o sábio que é, você dialoga com outras categorias além daquelas com que o nosso conhecimento consciente consegue dialogar. Você falou há pouco de um sonho em que um antepassado seu pode aparecer. Como o sonho atua na composição dessa sua sabedoria?
O sonho é o instante em que nós estamos conversando e ouvindo os nossos motivos, os nossos sábios, que não transitam aqui nesta realidade. E um instante de conhecimento que não coexiste com este tempo aqui.

Mas o sonho acontece com você, e as pessoas falam coisas no sonho?
Não as pessoas propriamente.

Uma cultura fala no sonho?
É, uma tradição.

Há alguma decisão importante da sua vida que tenha sido tomada no sonho?
A minha vida toda. Eu falei com vocês no começo da nossa conversa sobre os fundamentos da tradição. Nos fundamentos da tradição não há a palavra vazia. Os fundamentos da tradição são como o esteio do Universo. A memória desses fundamentos não é uma coisa decifrável. É como a água do rio: você olha de um determinado ponto a água correndo; quando voltar na manhã seguinte, não verá a mesma água, mas o rio é o mesmo. Ele está ali. Você não distingue. Você só sabe que não é a mesma água porque vê que ela corre, mas é o mesmo rio. O que o meu tataravô e todos os nossos antigos puderam experimentar passa pelo sonho para a minha geração. Tenho o compromisso de manter o leito do sonho preservado para os meus netos. E os meus netos terão que fazer isso para as gerações futuras. Isso é a memória da criação do mundo. Então, não decifro sonhos. Eu recebo sonhos. O leito de um rio não decifra a água, ele recebe a água do rio. Existe uma fronteira que eu procuro não romper, uma fronteira cultural. Quando nós decidimos que queríamos dialogar com o Brasil, tivemos em primeiro lugar que olhá-lo. Nós olhamos durante décadas, durante séculos; ficamos observando essas pessoas indo pro Norte pro Sul, atravessando rios e montanhas, devastando florestas e fazendo guerras. Depois, pensamos: “Eles não são todos iguais. Eles têm diferenças muito grandes entre eles mesmos. Eles precisam ver e entender essas diferenças Para a Partir delas poder construir alguma coisa juntos”. E aí nós começamos a conversar com as pessoas, preservando essa diferença e fazendo um esforço muito grande de aproximação. Há muitas coisas que eu busco entender que para mim significam um esforço terrível. Quando nós preparamos um movimento, temos que pensar muito sobre que tipo de sentimento vamos provocar nas pessoas. Se incitarmos em alguns milhões de pessoas um sentimento contra o nosso povo, estaremos fazendo uma coisa muito perigosa. Se nós criarmos uma imagem irreal de nós mesmos para as pessoas, estaremos fazendo também algo perigoso. Então, tratamos com o Brasil sabendo que ele não é único; ele é diverso. Dialogamos com essas diferenças, fazendo amizades e alianças, inclusive com nossos inimigos. Porque com os amigos você pode viver em paz. Com os inimigos você só sobrevive através das alianças. Os maiores conflitos da nação brasileira não são com os de fora mas com ela mesma. Assim nós levamos raspões e recebemos as fagulhas. Como somos populações com mecanismos de defesa muito frágeis em relação a esse conflito, quando os estilhaços nos atingem, causam grandes estragos. Existe uma tribo que foi contatada agora, lá no Pará, na região do rio Cuminapanema. Quinze dias depois que a rede Globo mostrou o contato com eles, uma equipe de reportagem encontrou a população toda doente, alguns já com risco de morte, porque pegaram uma epidemia naquele contato. Numa tribo, nossa visita pode ser fatal. Estou dando esse exemplo para mostrar que os conflitos mais violentos que ocorrem na sociedade brasileira causam menos estragos que as fagulhas que atingem as nossas comunidades. Então eu acho que esse limite do contato é intenso. Acho que o Mário Juruna quando saiu deputado trincou essa fronteira. Quando Raoni viaja pelo mundo, ele dá um passo naquela linha de limite. Quando a UNI faz um movimento mais organizado, de caráter mais permanente, esboçando um leque de articulações mais amplas, ela clareia a zona da fronteira para o diálogo. Porque provocamos um posicionamento de vários setores da sociedade em relação ao índio. O desenvolvimento desse questionamento implica uma outra coisa importante: o posicionamento das pessoas em relação ao Brasil. Pensar o que vão fazer com o Brasil obriga esse povo a pensar o que vai fazer de si mesmo. Na semana passada, um empresário me perguntou se eu achava positivo o fato de o mundo inteiro estar tendo uma imagem exótica do Brasil na figura de Raoni com o botoque na boca e um cocar na cabeça. O que eu achava disso? Eu disse: “O mundo está vendo o Brasil como quer ver e como sempre acreditou que ele é”. O que eu acho é que muitas pessoas aqui estão incomodadas com que o mundo veja o Brasil na cara do Raoni. Porque o sinhozinho estava reunido na sala tomando café, quando soube que alguém fugiu da senzala e foi fazer fuzarca. Ficou apavorado, chamou o capataz e perguntou: “Mas o que é isso? Fugiu um negro da senzala; foi fazer confusão aí no mundo”. Quem pode mostrar a cara lá fora é o sinhozinho. Ele sai da sala com gravata e paletó e vai se exibir no paraíso. Agora, pessoal da senzala, das malocas, não pode sair por aí se exibindo de tanga, botoque e cocar. O incômodo é tão grande para uma parte da elite brasileira que é mais ou menos como se vocês estivessem exibindo um segredo da família para o público. O Brasil está vendendo o retrato do branco para o mundo há quinhentos anos. De repente, quando ele mostra o pessoal que não é branco…

Agora, você diz que quer passar esse rio do sonho, da tradição e do conhecimento para os seus netos. Você acha possível que isso se passe aqui na cidade?
As pessoas que vivem na cidade estão experimentando uma cultura urbana. Isso atinge a pessoa na sua formação, na sua essência mesmo. Quando falo da minha confiança de passar para os meus filhos a tradição do meu povo, estou reconhecendo a dificuldade a mais que enfrento por ter que fazer isso num lugar inadequado, numa cidade. Mas é possível você preservar e manter uma memória e uma tradição, independentemente do lugar em que se vive. O habitat em que se está é essencial para a formação e mesmo para a experiência permanente de vida, mas ele não é assim determinante. Acredito que passamos para as pessoas, e muito mais para os nossos parentes, algo que não é só resultado do nosso esforço e da nossa virtude. Nesse sentido, acho que as nossas experiências de conhecimento são diferentes. No Ocidente, se o menino nasce, cresce e não é colocado numa escola, ele vai ser um pária. Na nossa tradição, não existe o pária, porque cada pessoa é beneficiária da experiência coletiva. Na nossa sociedade não existe o menor abandonado. O menor abandonado foi uma das figuras mais fantásticas que eu conheci na tradição ocidental. Se uma criança não tem pai nem mãe, ela tem a sociedade. Se a sociedade não tem pai nem Mãe, aí há o caos. Outra coisa que me deixou muito preocupado: quando comecei a ver o tanto de pessoas que não têm acesso às coisas mínimas dessa sociedade aparentemente tão vigorosa. Ela é muito exibicionista: seus prédios monstruosos podem competir com as montanhas; as grandes avenidas querem ser mais largas que os rios; um amontoado de casas pretende competir com as florestas e oculta uma hipocrisia muito grande. Ela tenta esconder milhares de pessoas que ficam encostadas nos prédios, nas calçadas, sem comida, sem alento, sem sonho, sem alegria, tangidas pelo medo, escorraçadas. Isso me tocou profundamente. Como uma sociedade cruel assim pode pretender o bem, o bem estar, o estar bem? Ela está fazendo como um louco que joga bombas para cima, pensando que vão flutuar, sem perceber que irão explodir na sua cabeça. Esses milhões de crianças, de miseráveis, de excluídos da sociedade, vão se constituir em exércitos poderosos, que devorarão os privilégios das pessoas. Eu consigo entender como isso acontece, mas não compreendo por que acontece. Entendo que quando um homem é dono de prédios de apartamentos e dono de fazendas num país como o Brasil, é natural que existam, por exemplo, milhares de favelas. Vejo que isso acontece. Mas não entendo por quê. Aquele homem que faz isso, se está querendo o poder, pratica aquele gesto de louco: está jogando as bombas para cima. Podem não cair na cabeça da primeira geração, nem da segunda, nem da terceira. Mas haverá uma geração deles em cuja cabeça vai explodir essa bomba humana.

Nessa sociedade que tem esses escorraçados, esses excluídos, como é o caso do Brasil, quais as alianças que as nações indígenas fazem? Você começou a falar dos contatos com o Estado. E fora do Estado?
Quando o Estado esgotou o repertório de contato com a gente, também esgotou a nossa paciência. Nesse momento as comunidades indígenas começaram a ver que existia alguém além daquele representante do Estado que ia contatar a tribo. Mas uma coisa interessante aconteceu com nossos parentes, as pessoas que eles conheciam eram do Exército, quando não, enfermeira ou médico. Me lembro de um rapaz que foi comigo visitar esses parentes; eles olharam e perguntaram: Enfermeiro?”. “Não, não sou enfermeiro.” “Médico?” “Não.” Ele não era nem a entidade enfermeiro nem médico. Do Exército ele não era porque não estava fardado. “Quem é você?” “Eu sou um amigo de vocês.” “FUNAI?” “Não. Eu não sou da FUNAI.” “Você não é da FUNAI, não é do Exército, então é médico, não é enfermeiro. Quem é você? Fazendeiro?” “Não. Eu sou amigo. Gosto muito dos índios.” “De qual?” “Assim, de vocês.” “Mas você não conhece a gente.” “Mas vim conhecer. Escutei notícias de vocês e quero ser amigo.” Esse episódio revela muito do que é a sociedade brasileira para a maioria de nossas tribos. Quando o Estado esgotou o repertório de médicos, enfermeiros e pilotos de avião, começamos a descobrir os brasileiros. De repente tinha um parente que um cara virou amigo dele. E a pessoa gostava dele. Foi lá, pescou na aldeia, fez amizade com o povo e, vai ver, é um grande empresário, que tem uma fazenda vizinha da aldeia. Quando aquele parente começa a ampliar a visão que tem do país, observa que aquele cara que está instalado ali perto da reserva é um beneficiário da política estatal de redução do seu território. Aí a amizade começa a esfriar, porque algo que era de coração de um lado, do outro era de intenção. A aproximação daquele vizinho não era uma coisa carinhosa. Não estou dizendo que todo empresário toma a iniciativa de um gesto de aproximação com uma tribo para cooptá-la. Mas isso acontece permanentemente; muitas vezes em grupos de contato recente. Aí, os parentes começam a observar que naquela mesma fazenda ali perto explode um conflito. Os parentes verão que aquele cara simpático tem um monte de homens armados, que matam seringueiro para evacuar a área. Daí um parente olha e fala: “O seringueiro está mais perto de mim. Tem um conjunto de situações que fazem do seringueiro meu vizinho em meu universo muito mais do que o fazendeiro”. Então, você começa esse aprendizado da realidade. Isso vai avançando o questionamento. Observa que o empresário não é seu aliado. Ele no máximo é seu vizinho. Em alguns casos, quanto mais perto dos olhos, mais longe do coração. Aquele seringueirinho que vai lá no caixa-pregos e é escorraçado está mais perto de você do que o fazendeirão que exibe os títulos do Estado. Você observou como as nossas relações com o Estado passam por um conjunto de ritos hereditários, em que o Estado monopoliza o contato e depois começa a preservar a bola para outra classe de gente; o Estado de certa maneira controla o tempo inteiro, porque nós não saímos da relação com ele para conversar com a sociedade civil. Quando se tem uma década de contato com os brancos, ele fica praticamente restrito aos agentes do Estado, porque você não fala a língua portuguesa, ainda está sob controle de endemias. Há os surtos de gripe e de malária; a área ainda está isolada. Passa-se uma década em alguns casos, e você avança esses contatos. Começa sua percepção de Brasil. Hoje existe uma organização indígena que antecipa articulações com a sociedade civil. Já se formou uma visão crítica dessa sociedade civil em relação àquele contato e há a disposição de aliança, mesmo que os parentes arredios não tenham ainda conhecimento disso. Essa novidade coloca a organização indígena como a vanguarda da defesa do nosso interesse e do nosso povo. Porque o processo administrativo de titulação das terras e de distribuição de benefícios na região vai acontecer depois que a FUNAI tiver identificado e demarcado a área, começando os procedimentos administrativos. Nessa época o movimento indígena tem que estar adiantado na sua aliança com a sociedade civil, para criar um cinturão de segurança e não expor seus parentes à brutalidade que a minha tribo sofreu na década de 20. O que nós queremos é que os mais de vinte grupos indígenas que estão sem contato na floresta amazônica posam ser os aliados do futuro e não os seus remanescentes. Queremos que aqueles parentes vítimas do contato possam ser beneficiários dessa articulação do movimento indígena para respeitar seu território, sua pessoa, sua cultura, sua tradição, e não para preservar. Você não preserva seres humanos, você os respeita.

E quais os mecanismos de defesa que vocês têm para chegar lá e atuar?
Quando o “Fantástico” hipocritamente jogou para o Brasil inteiro a imagem daqueles parentes de botoque longo e disse: “FUNAI contata uma tribo arredia no meio da Amazônia. Veja que fantástico; existem lá uns índios da idade da pedra!”, naquela semana eu fui para o ar num programa de rádio. Eu disse o seguinte: “Hoje, engraçado, o ‘Programa de Índio’ vai falar de uns parentes lá do Cuminapanema, um povo da língua tupi muito contemplativo. Eles habitaram a região que vai do paralelo tal ao paralelo tal; os seus vizinhos são a mineradora tal, a madeireira tal e o grande empreendimento tal, que jogam mercúrio na cabeceira do rio. Diante desse assédio, esses parentes formaram uma expedição e avançaram para uma frente de contato, aceitando logo o primeiro. Este não foi na semana passada como o ‘Fantástico’ disse. O primeiro contato deles aconteceu em 1976 com a missão evangélica americana. Até, agora não ocorreu nenhum episódio de conflito, mas a maioria deles está vitimada devido ao contato com os garimpeiros. Estão sofrendo com o envenenamento e buscam socorro médico”. A gente está botando isso na consciência deles. Quando a besta do “Fantástico” vier de novo dizer ‘descobrimos gente da idade da pedra’, quem ouvir essa porcaria muda de canal ou questiona. Quer dizer, estamos colocando a informação à disposição das pessoas para que elas questionem. Outra coisa que eu fiz foi mandar um telex para a procuradoria do Ministério Público, pro Congresso, para a FUNAI, e dei entrevista para a imprensa internacional. Disse a todos o seguinte: ‘Estou responsabilizando a União pelas conseqüências do contato com esses meus parentes. O movimento indígena vai entrar com uma ação no Supremo Tribunal. Índios arredios do Cuminapanema versus União. Queremos comprometer a União, pela primeira vez “na história, por todas as seqüelas do contato. O Estado brasileiro abordou uma nação indígena. Eu quero que haja observadores vigiando em abordagem e exijo uma avaliação das conseqüências do contato. Nós não vamos aceitar um inventário unilateral do território desse povo”. Porque hoje quem fixa o território de um povo tradicional e sua população é a FUNAI. É ela que tem o poder de polícia. Chega na área e faz um inquérito, uma espécie de boletim de ocorrência do contato. Nós não admitimos isso. O movimento indígena quer que as conquistas que conseguimos na Constituição sejam aplicadas na prática. Por exemplo, o Ministério Público tem a função de assistir a sociedade civil. Se o Estado desrespeitar alguém, essa pessoa pode pedir a guarda do Ministério Público para contestar o Executivo. Nós estamos agora buscando a participação do Ministério Público para vigiar a abordagem que o Executivo está fazendo junto a esses parentes. Isso era exclusivo da FUNAI. Antes da Constituinte, somente a FUNAI podia entrar em juízo, em nome dos índios. Nem os índios tinham esse direito em seu próprio nome. Agora, nós podemos convocar o Ministério Público para nos assistir e interpelar o Estado. Isso para nós foi um progresso, um avanço muito grande.

Como foi o trabalho da UNI na elaboração dessa nova Constituição?
Na ocasião em que estávamos discutindo a Assembléia Nacional Constituinte, formulamos uma proposta que eu continuo achando muito interessante. A idéia em que as nações indígenas não concorressem às eleições gerais, mas que apresentassem à Assembléia Nacional Constituinte uma bancada própria. Reivindicávamos que, devido à diversidade das nossas tribos, pudéssemos indicar representantes por região do Brasil. Então, nós teríamos um número de representantes indígenas que participaria da Assembléia Nacional Constituinte, realizando o processo constituinte do povo indígena. Concluída essa etapa, nossas lideranças voltariam para suas regiões de origem e cessariam a intervenção política. Isso não foi aceito e virou outra coisa.

Mas aí não saiu a Assembléia Nacional Constituinte mas o Congresso Constituinte. E como ficou a situação da UNI e das nações indígenas?
Nós definimos um programa mínimo que queríamos levar ao Congresso. São pontos que tratam do reconhecimento dos direitos territoriais, da superação da tutela, e que buscam assegurar no texto da Constituição o caráter de permanência de nossas populações, em lugar da transitoriedade que estava fixada em todos os textos de leis do Brasil. Nós somos índios hoje; amanhã, seremos brasileiros, como se estivéssemos num processo evolutivo, né? O Brasil tem que entender que nós somos populações nacionais, que estamos aqui para ficar. Nós não vamos para lugar nenhum, nem sob o ponto de vista da assimilação ou da integração nem sob o da migração. Nossas populações têm apego às nossas regiões, e o Brasil precisa estabelecer um diálogo com a gente a partir desse dado. Fomos para o Congresso mobilizando a opinião pública e com a participação intensa das lideranças indígenas do país inteiro, o que possibilitou a aprovação do nosso texto. Nada do que botamos no nosso texto foi suprimido. É óbvio que houve uma campanha intensa por parte da ala conservadora, que queria inclusive que não existisse no texto da Constituição uma referência específica aos índios. E nós conseguimos assegurar um capítulo de populações indígenas na Constituição, até mesmo com esse título: “Das Populações Indígenas”.

Qual a relação da UNI e das nações indígenas com os partidos políticos do Brasil?
A relação do movimento indígena e, mais precisamente, da UNI é cautelosa, com respeito à aproximação com qualquer partido político. Se você, pegar o conjunto de todos os partidos, eles não somam vinte anos de existência. Aqueles que se poderia considerar mais críticos e até mais atuantes em relação à realidade econômica que vivemos são partidos que têm cinco ou seis anos de idade. Os partidos não conseguiram ainda expressar uma maturidade compatível com a história, por exemplo, que o povo indígena tem nesse país. Em segundo lugar, não acreditamos que os partidos políticos estão determinados. Eles têm um perfil que responde a uma realidade de sociedade de classes, de interesses, das alianças que na maioria das vezes são estritamente políticas. As populações indígenas não lidam com esse tipo de alianças. Nós estabelecemos alianças tradicionais, que eu costumo chamar de afetivas. As alianças políticas possibilitam coisas constrangedoras, como um presidente da República que gostaria de matar seu vice-presidente ou um vice-presidente que adoraria explodir uma bomba no avião do presidente. As alianças afetivas são feitas com base em outros princípios: identidade, conhecimento, respeito mútuo, amizade e uma profunda compreensão do outro. Isso é a aliança para nós. Não vemos ainda, no Brasil, qualquer partido que esboce esse tipo de respeito.

Enfim, vocês colocam uma ética rígida como base das relações?
Sim. E ela não basta como princípio, tem que estar fundamentada numa prática. Se você elabora hoje um princípio ético e o anuncia, isso para nós é pouco. Levará mais mil ou dois mil anos praticando essa ética para a gente decidir se vale a pena ou não estar junto. Eu sei que o PT, por exemplo, tem pautado a sua prática e seu conjunto de alianças por princípios bastante claros e éticos, mas ele vai ter ainda que caminhar alguns séculos fazendo a depuração dessa sua ética para eu poder dizer quem é.

Ailton, com os outros movimentos da sociedade brasileira, como a UNI e as nações indígenas vêm se relacionando? Por exemplo, com os ambientalistas e os que costumamos chamar de ecologistas?
Os ambientalistas, os ecologistas, assim como os partidos, não têm ainda uma identidade clara. Existe muita declaração de intenção e muito pouca história. Nós nos aproximamos com cuidado dos tais ambientalistas e ecologistas, não com preconceitos, mas com cautela, porque nós queremos ver quem está fazendo declaração de intenção e quem sabe realmente o que está fazendo e tem propósitos de ir além da conversa fiada.

E o que é o movimento, a aliança dos povos da floresta?
A aliança dos povos da floresta é o contraponto disso tudo que nós estamos falando. A aliança dos povos da floresta se dá quando o povo indígena vê o seringueiro – que também está no seu habitat -, a sua prática, a sua vida, a sua luta e junta a sua luta para proteger aquela região. É quando índios e seringueiros vão para uma região onde uma grande empresa como a Bordon está fazendo um desmatamento com incentivos fiscais do governo. Vão acabar com as castanheiras, com as seringueiras. Os índios e os seringueiros se juntam e bloqueiam esse processo, interditando o desmatamento… Os índios, os ribeirinhos e os seringueiros, estão acolhendo, adotando, os colonos como alguém que tem que ser educado. Uma parte deles já está preparada. Mas a grande maioria dos colonos é rebelde, porque foi educada pelo pensamento predatório. Eles estão imitando os grandes fazendeiros. Quando conseguem um lote ou uma gleba do INCRA, eles desmatam a metade – a lei permite – e vendem toda a madeira. Com esse dinheirinho, eles operam um, dois ou três anos. O colono degrada o solo e não tem mais dinheiro para continuar fazendo uma agricultura intensiva. Ele não pode tomar empréstimos do banco, nem receber os incentivos do governo. Então, ele vende a gleba depois do quarto ou quinto ano de titulação para um outro cara, que assim pode desmatar a outra metade. Na terceira venda do lote, a terra está pelada. O terceiro cara vende a terra para um grande proprietário, que a reincorpora ao latifúndio. Eu sei que tem muita gente que analisa e estuda o problema fundiário no Brasil, mas parece que ainda não conseguiram enxergar como a terra fica sempre na mão do latifundiário, mesmo quando se tenta fazer uma reforma agrária. O colono não está preparado para ter terra; ele a entrega para o patrão de novo. Quando a UDR fala isso, todo mundo fica nervoso e declara que a UDR manipula e é mentirosa. Nós estamos falando isso de experiência pró. Alguns vizinhos de áreas indígenas eram beneficiados com a reforma agrária, e cinco anos depois entregaram as terras para grandes proprietários, que incorporaram dezenas de glebas.

E como vocês se aproximam dos colonos nesse trabalho? Qual é a alternativa de tratamento da questão que vocês sugerem? E para a própria questão fundiária?
Bem, se observarmos a própria aliança que envolve índios e seringueiros, poderemos dar um exemplo muito concreto de como isso avança. Os seringueiros que foram colonizar a Amazônia eram os colonos do final do século passado. Eles eram levados pelo governo para expulsar os índios e instalar os seringais. Os patrões que tinham os barracões e incorporaram os seringueiros como trabalhadores patrocinavam as “correrias”, que eram as grandes blitze nas áreas indígenas. Expulsavam, matavam índios e incorporavam os sobreviventes como mão-de-obra do seringal, que anteriormente era território indígena. O patrão se estabelecia ali, abastecia os seringueiros, e criava o regime de barracão, no qual a produção do seringal se afinava com a atividade econômica, recebendo incentivos fiscais, infra-estrutura e financiamento. O governo federal chegou a criar vários programas de caráter nacional como incentivo a essa atividade de produção de borracha. Quando o povo indígena, em especial no Acre e no sul do Amazonas, iniciou a retomada dos territórios, principalmente no início da década de 70, isso provocou conflitos com os seringalistas – aqueles caras que não botam a mão na massa, mas manipulam os seringueiros. Nossas comunidades não foram para um conflito aberto com os seringueiros. Houve um primeiro período de coexistência pacífica, que evoluiu para atividades conjuntas, mandando delegações de índios e seringueiros para Brasília para discutir com o governo federal o reconhecimento dessas áreas indígenas e dos seringais. Até então os seringueiros não sabiam como resolver a questão da posse da terra. Antes eles tinham um patrão que era dono do seringal inteiro, onde dezenas de famílias de seringueiros operavam. Quando eles suprimiram o patrão, apareceu a tendência de cada um deles ter um lote. As lideranças indígenas começaram a mostrar que, se cada um deles tivesse um lote, dali a dez anos estaria tudo na mão dos patrões de novo. Porque eles não iam der comercializar os seus produtos. Eles não tinham uma experiência produtiva construída. As comunidades indígenas começaram a fazer trabalhos conjuntos com os seringueiros, mostrando como se pode viver na floresta. Parte desse aprendizado eles tinham realizado, porque muitas daquelas famílias já estavam lá há mais de um século e incorporaram muitos valores da tradição indígena. Os seus hábitos alimentares incorporaram enorme quantidade de alimentos indígenas. Sua prática de coleta e de caça já está sendo determinada por ciclos culturais e não mais por necessidade econômica. Nós fomos identificando que aquele povo estava migrando para uma prática cultural muito próxima da nossa e que podia ser nosso aliado. Foi quando os seringueiros perceberam que não queriam lotes mas reservas extrativistas. Por que reservas? Porque a reserva extrativista era a maneira de dezenas de famílias de seringueiros terem assegurado seu acesso à terra, dispensando a propriedade. Os seringueiros não são proprietários das reservas extrativistas, e sim seus habitantes. Mas não era simples coletivização. Se você pegar um monte de gente que está nas favelas em torno de São Paulo, dez milhões de hectares de terra, e colocar todos lá, eles não só vão vender todos os lotes como se matar em poucos meses.

Ao nível da estrutura da propriedade, seria uma visão mais de coletivização da terra do que de apropriação e coletivização de espaços?
Está mais próximo disso. É respeito ao planeta Terra. Porque se os homens não conseguirem entender que o lugar em que nós vivemos não pode ser tomado como propriedade, eles vão continuar quebrando a cara. Nossas tribos nunca aceitaram ser proprietárias de seus territórios. Você habita aquele lugar, o defende e protege. Mas você não o defende como propriedade, e sim como habitat. Quando nós fazemos a defesa dos nossos territórios, estamos utilizando o sentido mais completo da palavra “territorialidade”, que envolve um povo, uma tradição, uma cultura, um ecossistema.

Agora, Ailton, e esses grandes grupos econômicos, essas grandes empresas que estão se instalando por aí, qual vai ser o fim deles?
Essas grandes empresas, esses grandes grupos econômicos estão manipulando isso de forma muito astuta. Quando fazem um investimento fantástico, eles o mantêm por um período determinado. Nenhum desses grandes grupos se instala em regiões como o Centro-Oeste ou a Amazônia em caráter permanente. Eles especulam com a ocupação territorial em períodos claramente determinados. Tanto que existem grupos que se instalam nessas regiões considerando que o filé mignon de sua atividade será o desmatamento. Imediatamente após o desmatamento – com o qual ele irá faturar bilhões de dólares vendendo madeira – fará uma monocultura intensiva com maquinário, equipamentos e incentivos fiscais. Quando a terra finalmente entra no estoque de terras que o Estado pode colocar à disposição dos trabalhadores, ela já virou um bagaço. É assim que é feita a história da teria.

O ponto de partida é a predação.
Isso mesmo. Os grandes investimentos são como grandes abutres, porque têm um procedimento predatório horrível.

Agora, dá para dar exemplos de empresas que estão fazendo isso em regiões aqui do Brasil, no Centro-Oeste, no Norte?
Há vários. São grupos empresariais daqui do Sul, especialmente do Paraná, que estão investindo hoje na Amazônia com a seguinte estratégia: escolhem uma região de floresta tropical preservada, com muitos recursos naturais e terra fértil. Depois, montam um programa cuja fachada é de industrialização, de montar um parque industrial. Como uma fábrica para o preparo do papel. O projeto dele supõe infra-estrutura industrial, mão-de-obra. Vai haver empregos. Esse aspecto social do projeto da empresa é o primeiro critério para tomar grana; então, ele toma grana dos incentivos fiscais. Ele não tem um centavo na mão, mas pega bilhões de cruzados para o projeto que ainda está no papel. O governo, além dos incentivos fiscais, dá a facilidade para ele obter grandes extensões de terra para se instalar. A primeira condição para poder implantar o projeto é devastar aquele lugar, ou seja, desmatar. O primeiro proveito que ele tem quando desmata: não gasta um centavo, mas já toma os produtos que havia na floresta como mercadoria. Ele já acumulou os incentivos fiscais e o lucro que teve com o desmatamento. Não investiu um centavo ainda, mas já está com bilhões de cruzados aplicados no mercado financeiro. Esses grupos do Paraná estão agindo especialmente no vale do Jaguari. Agora, estão entrando no Purus e no Juruá e no sul do Amazonas. E ainda conseguem recursos do governo para a infra-estrutura dos projetos. A infra-estrutura pode ser estradas, hidroelétricas e projetos de núcleos habitacionais para instalar a mão-de-obra. Então, esse conjunto de necessidades inventadas em torno do projeto significa investimentos que geram subsídios. Muitas vezes, quando aquele grupo está com a estrutura semimontada, o jogo político de Brasília se altera, o cara entra em desgraça e o projeto vai à falência. Só que aquela experiência redundou na destruição de sua área, na expulsão de várias famílias e na morte de índios, de seringueiros, de ribeirinhos, bem como na expulsão de animais da região e no deslocamento de famílias inteiras que foram para lá. Isso provoca uma clareira no meio da floresta. Esse procedimento acontece e se repete com um descaramento e uma permanência terríveis.

A aliança dos povos da floresta discute essas questões?
Nós tratamos essas questões como prioridade. Nós devemos ter alternativas gerais para as nossas populações diante dessas ameaças. Quando vamos discutir com o governo, não estamos discutindo apenas no sentido de que ele cesse o favorecimento a esses grandes grupos, mas de que respeite o modelo de ocupação diferenciada que estamos imprimindo nessas regiões.

Existem outros segmentos que participam dessa aliança? E no que consiste a aliança propriamente: ela tem um conselho de representação, é um movimento?
A aliança dos povos da florestal uma iniciativa da UNI e do Conselho Nacional dos Seringueiros, que inclui as populações ribeirinhas e comunidades de colonos, mas que não têm ainda uma presença tão expressiva quanto a dos índios e seringueiros. A coordenação da aliança dos povos da floresta é constituída por representantes indígenas, seringueiros e ribeirinhos. É um conselho de representantes. Nós temos pontos em que andamos juntos, mas cada uma das nossas populações tem a sua identidade própria.

Gostaria que você falasse um pouco de como as nações indígenas têm visto o Calha Norte. Como isso tem funcionado?
Eu acredito que o projeto Calha Norte foi uma das primeiras ideias efetivas do governo brasileiro, no sentido de dar um novo tratamento para a questão das populações indígenas, mas foi seguido de outras medidas como o programa Nossa Natureza, que desenvolve e avança alguns conceitos que estão no Calha Norte e outros projetos setoriais do governo. Esse conjunto de medidas configura um novo quadro de relação do Estado com as populações indígenas, no qual as medidas e as providências do Estado são determinadas por um diagnóstico definitivo. Segundo esse diagnóstico, as comunidades indígenas são de interesse da segurança nacional. O Estado nunca havia declarado isso. Agora ele o faz. Em segundo lugar, afirma que as comunidades indígenas têm bloqueado o processo de desenvolvimento e criado dificuldades para a plena implementação das políticas de consolidação da soberania nacional. Esse é o diagnóstico. Então o governo vai tomando providências. A providência que o Calha Norte indicava era a necessidade de trabalhar com as populações indígenas que estão na faixa de fronteira norte do Brasil, na faixa de fronteira da Amazônia com os países vizinhos, no sentido de criar um amortecedor de choque entre essas comunidades indígenas. Criar núcleos populacionais que absorvessem a atenção dos indíos, para que eles não ficassem migrando para regiões vizinhas. Diminuir a intensidade de contato dos índios que estão na fronteira do Brasil com os do lado de lá das fronteiras da Colômbia, da Venezuela, da Bolívia, do Peru, das Guianas. Esses países vivem intensa atividade política e, em alguns casos, mencionam até atividades subversivas, que poderiam contaminar a convivência dos índios com o governo brasileiro. Então, as providências são no sentido de instalar núcleos populacionais com brancos, com brasileiros confiáveis. Instalar regimentos militares próximos dessas áreas, para ir fazendo a retificação da fronteira. Instalar núcleos comerciais e linhas de abastecimento para essas regiões, através da Cobal, Caixa Econômica, bancos, serviço telefônico. Estender a malha viária a essas regiões isoladas do país, para que elas se integrem no mercado. Essas são providências de caráter prático. Existem outras de caráter mais político e até social: iniciar a incorporação dessas comunidades ao processo de desenvolvimento nacional; alfabetizar as crianças em língua portuguesa, já que há uma centena de línguas estranhas que são faladas ali; e levar a televisão. Hoje, se você chegar lá na fronteira do Brasil com a Colômbia, em São Gabriel da Cachoeira, lá no alto rio Negro, os índios já podem receber as emissoras de TV daqui do Sul. Tudo isso com o fim de incorporar essas comunidades ao ideário nacional. O programa Nossa Natureza vem atualizar as providências do governo com relação àquela região, prevendo medidas que seriam de caráter administrativo, no sentido de fazer o real ordenamento territorial da Amazônia. Dentro desse programa, estaria um levantamento ou um estudo eco-agro-ecológico que analisaria a compatibilidade dessas regiões com determinadas práticas econômicas – por exemplo, inventariar as regiões de províncias minerais e direcionar para ali, de forma organizada e racional, segundo o governo, a atividade de exploração mineral. Expandir as fronteiras da exploração mineral da atividade de metalúrgica; levar para lá, por exemplo, o parque siderúrgico: alumínio, ferro etc. A partir do momento em que esses lugares estiverem ocupados, começa o chamamento ao capital para investir. Descobrir as áreas aptas para a agricultura, para que também os grandes investimentos do setor possam ser direcionados; retificar as áreas de preservação ambiental para que também as preocupações planetárias com o meio ambiente possam direcionar os investimentos para a preservação daquelas regiões. Hoje, o governo brasileiro sabe que da mesma maneira que ele pode captar recursos para o setor mineral ou para o setor de investimentos em pecuária, em agricultura, é possível captar também grandes volumes de recursos a pretexto de proteção ambiental. Junto a organismos institucionais o governo consegue grandes empréstimos e até investimentos a fundo perdido, para preservar o meio ambiente.

Alípio Freire é membro do Conselho de Redação de Teoria & Debate.

Eugenio Bucci é editor de Teoria & Debate.

How Inuit Parents Teach Kids To Control Their Anger (NPR)

Goats and Soda STORIES OF LIFE IN A CHANGING WORLD

The Other Side of Anger

March 13, 20199:01 AM ET

Michaeleen Doucleff and Jane Greenhalgh

For more than 30 years, the Inuit welcomed anthropologist Jean Briggs into their lives so she could study how they raise their children. Briggs is pictured during a 1974 visit to Baffin Island. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

For more than 30 years, the Inuit welcomed anthropologist Jean Briggs into their lives so she could study how they raise their children. Briggs is pictured during a 1974 visit to Baffin Island. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Back in the 1960s, a Harvard graduate student made a landmark discovery about the nature of human anger.

At age 34, Jean Briggs traveled above the Arctic Circle and lived out on the tundra for 17 months. There were no roads, no heating systems, no grocery stores. Winter temperatures could easily dip below minus 40 degrees Fahrenheit.

Briggs persuaded an Inuit family to “adopt” her and “try to keep her alive,” as the anthropologist wrote in 1970.

At the time, many Inuit families lived similar to the way their ancestors had for thousands of years. They built igloos in the winter and tents in the summer. “And we ate only what the animals provided, such as fish, seal and caribou,” says Myna Ishulutak, a film producer and language teacher who lived a similar lifestyle as a young girl.

Briggs quickly realized something remarkable was going on in these families: The adults had an extraordinary ability to control their anger.

“They never acted in anger toward me, although they were angry with me an awful lot,” Briggs told the Canadian Broadcasting Corp. in an interview.

Myna Ishulutak (upper right, in blue jacket) lived a seminomadic life as a child. Above: photos of the girl and her family in the hunting camp of Qipisa during the summer of 1974. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Even just showing a smidgen of frustration or irritation was considered weak and childlike, Briggs observed.

For instance, one time someone knocked a boiling pot of tea across the igloo, damaging the ice floor. No one changed their expression. “Too bad,” the offender said calmly and went to refill the teapot.

In another instance, a fishing line — which had taken days to braid — immediately broke on the first use. No one flinched in anger. “Sew it together,” someone said quietly.

By contrast, Briggs seemed like a wild child, even though she was trying very hard to control her anger. “My ways were so much cruder, less considerate and more impulsive,” she told the CBC. “[I was] often impulsive in an antisocial sort of way. I would sulk or I would snap or I would do something that they never did.”

Briggs, who died in 2016, wrote up her observations in her first book, Never in Anger. But she was left with a lingering question: How do Inuit parents instill this ability in their children? How do Inuit take tantrum-prone toddlers and turn them into cool-headed adults?

Then in 1971, Briggs found a clue.

She was walking on a stony beach in the Arctic when she saw a young mother playing with her toddler — a little boy about 2 years old. The mom picked up a pebble and said, “‘Hit me! Go on. Hit me harder,'” Briggs remembered.

The boy threw the rock at his mother, and she exclaimed, “Ooooww. That hurts!”

Briggs was completely befuddled. The mom seemed to be teaching the child the opposite of what parents want. And her actions seemed to contradict everything Briggs knew about Inuit culture.

“I thought, ‘What is going on here?’ ” Briggs said in the radio interview.

Turns out, the mom was executing a powerful parenting tool to teach her child how to control his anger — and one of the most intriguing parenting strategies I’ve come across.

Iqaluit, pictured in winter, is the capital of the Canadian territory of Nunavut. Johan Hallberg-Campbell for NPR

No scolding, no timeouts

It’s early December in the Arctic town of Iqaluit, Canada. And at 2 p.m., the sun is already calling it a day. Outside, the temperature is a balmy minus 10 degrees Fahrenheit. A light snow is swirling.

I’ve come to this seaside town, after reading Briggs’ book, in search of parenting wisdom, especially when it comes to teaching children to control their emotions. Right off the plane, I start collecting data.

I sit with elders in their 80s and 90s while they lunch on “country food” —stewed seal, frozen beluga whale and raw caribou. I talk with moms selling hand-sewn sealskin jackets at a high school craft fair. And I attend a parenting class, where day care instructors learn how their ancestors raised small children hundreds — perhaps even thousands — of years ago.

The elders of Iqaluit have lunch at the local senior center. On Thursdays, what they call “country food” is on the menu, things like caribou, seal and ptarmigan. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Across the board, all the moms mention one golden rule: Don’t shout or yell at small children.

Traditional Inuit parenting is incredibly nurturing and tender. If you took all the parenting styles around the world and ranked them by their gentleness, the Inuit approach would likely rank near the top.(They even have a special kiss for babies, where you put your nose against the cheek and sniff the skin.)

The culture views scolding — or even speaking to children in an angry voice — as inappropriate, says Lisa Ipeelie, a radio producer and mom who grew up with 12 siblings. “When they’re little, it doesn’t help to raise your voice,” she says. “It will just make your own heart rate go up.”

Even if the child hits you or bites you, there’s no raising your voice?

“No,” Ipeelie says with a giggle that seems to emphasize how silly my question is. “With little kids, you often think they’re pushing your buttons, but that’s not what’s going on. They’re upset about something, and you have to figure out what it is.”

Traditionally, the women and children in the community eat with an ulu knife. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Traditionally, the Inuit saw yelling at a small child as demeaning. It’s as if the adult is having a tantrum; it’s basically stooping to the level of the child, Briggs documented.

Elders I spoke with say intense colonization over the past century is damaging these traditions. And, so, the community is working hard to keep the parenting approach intact.

Goota Jaw is at the front line of this effort. She teaches the parenting class at the Arctic College. Her own parenting style is so gentle that she doesn’t even believe in giving a child a timeout for misbehaving.

“Shouting, ‘Think about what you just did. Go to your room!’ ” Jaw says. “I disagree with that. That’s not how we teach our children. Instead you are just teaching children to run away.”

And you are teaching them to be angry, says clinical psychologist and author Laura Markham. “When we yell at a child — or even threaten with something like ‘I’m starting to get angry,’ we’re training the child to yell,” says Markham. “We’re training them to yell when they get upset and that yelling solves problems.”

In contrast, parents who control their own anger are helping their children learn to do the same, Markham says. “Kids learn emotional regulation from us.”

I asked Markham if the Inuit’s no-yelling policy might be their first secret of raising cool-headed kids. “Absolutely,” she says.

Playing soccer with your head

Now at some level, all moms and dads know they shouldn’t yell at kids. But if you don’t scold or talk in an angry tone, how do you discipline? How do you keep your 3-year-old from running into the road? Or punching her big brother?

For thousands of years, the Inuit have relied on an ancient tool with an ingenious twist: “We use storytelling to discipline,” Jaw says.

Jaw isn’t talking about fairy tales, where a child needs to decipher the moral. These are oral stories passed down from one generation of Inuit to the next, designed to sculpt kids’ behaviors in the moment.Sometimes even save their lives.

For example, how do you teach kids to stay away from the ocean, where they could easily drown? Instead of yelling, “Don’t go near the water!” Jaw says Inuit parents take a pre-emptive approach and tell kids a special story about what’s inside the water. “It’s the sea monster,” Jaw says, with a giant pouch on its back just for little kids.

“If a child walks too close to the water, the monster will put you in his pouch, drag you down to the ocean and adopt you out to another family,” Jaw says.

“Then we don’t need to yell at a child,” Jaw says, “because she is already getting the message.”

Inuit parents have an array of stories to help children learn respectful behavior, too. For example, to get kids to listen to their parents, there is a story about ear wax, says film producer Myna Ishulutak.

“My parents would check inside our ears, and if there was too much wax in there, it meant we were not listening,” she says.

And parents tell their kids: If you don’t ask before taking food, long fingers could reach out and grab you, Ishulutak says.

Inuit parents tell their children to beware of the northern lights. If you don’t wear your hat in the winter, they’ll say, the lights will come, take your head and use it as a soccer ball! Johan Hallberg-Campbell for NPR

Then there’s the story of northern lights, which helps kids learn to keep their hats on in the winter.

“Our parents told us that if we went out without a hat, the northern lights are going to take your head off and use it as a soccer ball,” Ishulutak says. “We used to be so scared!” she exclaims and then erupts in laughter.

At first, these stories seemed to me a bit too scary for little children. And my knee-jerk reaction was to dismiss them. But my opinion flipped 180 degrees after I watched my own daughter’s response to similar tales — and after I learned more about humanity’s intricate relationship with storytelling.

Oral storytelling is what’s known as a human universal. For tens of thousands of years, it has been a key way that parents teach children about values and how to behave.

Modern hunter-gatherer groups use stories to teach sharing, respect for both genders and conflict avoidance, a recent study reported, after analyzing 89 stories from nine different tribes in Southeast Asia and Africa. With the Agta, a hunter-gatherer population of the Philippines, good storytelling skills are prized more than hunting skills or medicinal knowledge, the study found.

Today many American parents outsource their oral storytelling to screens. And in doing so, I wonder if we’re missing out on an easy — and effective — way of disciplining and changing behavior. Could small children be somehow “wired” to learn through stories?

Inuit parenting is gentle and tender. They even have a special kiss for kids called kunik. (Above) Maata Jaw gives her daughter the nose-to-cheek Inuit sniff. Johan Hallberg-Campbell for NPR

“Well, I’d say kids learn well through narrative and explanations,” says psychologist Deena Weisberg at Villanova University, who studies how small children interpret fiction. “We learn best through things that are interesting to us. And stories, by their nature, can have lots of things in them that are much more interesting in a way that barestatements don’t.”

Stories with a dash of danger pull in kids like magnets, Weisberg says. And they turn a tension-ridden activity like disciplining into a playful interaction that’s — dare, I say it — fun.

“Don’t discount the playfulness of storytelling,” Weisberg says. “With stories, kids get to see stuff happen that doesn’t really happen in real life. Kids think that’s fun. Adults think it’s fun, too.”

Why don’t you hit me?

Inuit filmmaker and language teacher Myna Ishulutak as a little girl. Anthropologist Jean Briggs spent six months with the family in the 1970s documenting the child’s upbringing. Jean Briggs Collection / American Philosophical Society

Back up in Iqaluit, Myna Ishulutak is reminiscing about her childhood out on the land. She and her family lived in a hunting camp with about 60 other people. When she was a teenager, her family settled in a town.

“I miss living on the land so much,” she says as we eat a dinner of baked Arctic char. “We lived in a sod house. And when we woke up in the morning, everything would be frozen until we lit the oil lamp.”

I ask her if she’s familiar with the work of Jean Briggs. Her answer leaves me speechless.

Ishulutak reaches into her purse and brings out Briggs’ second book, Inuit Morality Play, which details the life of a 3-year-old girl dubbed Chubby Maata.

“This book is about me and my family,” Ishulutak says. “I am Chubby Maata.”

In the early 1970s, when Ishulutak was about 3 years old, her family welcomed Briggs into their home for six months and allowed her to study the intimate details of their child’s day-to-day life.

Myna Ishulutak today in Iqaluit, Canada. As the mother of two grown boys, she says, “When you’re shouting at them all the time they tend to kind of block you. So there’s a saying: ‘Never shout at them.’ ” Johan Hallberg-Campbell for NPR

What Briggs documented is a central component to raising cool-headed kids.

When a child in the camp acted in anger — hit someone or had a tantrum — there was no punishment. Instead, the parents waited for the child to calm down and then, in a peaceful moment, did something that Shakespeare would understand all too well: They put on a drama. (As the Bard once wrote, “the play’s the thing wherein I’ll catch the conscience of the king.”)

“The idea is to give the child experiences that will lead the child to develop rational thinking,” Briggs told the CBC in 2011.

In a nutshell, the parent would act out what happened when the child misbehaved, including the real-life consequences of that behavior.

The parent always had a playful, fun tone. And typically the performance starts with a question, tempting the child to misbehave.

For example, if the child is hitting others, the mom may start a drama by asking: “Why don’t you hit me?”

Then the child has to think: “What should I do?” If the child takes the bait and hits the mom, she doesn’t scold or yell but instead acts out the consequences. “Ow, that hurts!” she might exclaim.

The mom continues to emphasize the consequences by asking a follow-up question. For example: “Don’t you like me?” or “Are you a baby?” She is getting across the idea that hitting hurts people’s feelings, and “big girls” wouldn’t hit. But, again, all questions are asked with a hint of playfulness.

The parent repeats the drama from time to time until the child stops hitting the mom during the dramas and the misbehavior ends.

Ishulutak says these dramas teach children not to be provoked easily. “They teach you to be strong emotionally,” she says, “to not take everything so seriously or to be scared of teasing.”

Psychologist Peggy Miller, at the University of Illinois, agrees: “When you’re little, you learn that people will provoke you, and these dramas teach you to think and maintain some equilibrium.”

In other words, the dramas offer kids a chance to practice controlling their anger, Miller says, during times when they’re not actually angry.

This practice is likely critical for children learning to control their anger. Because here’s the thing about anger: Once someone is already angry, it is not easy for that person to squelch it — even for adults.

“When you try to control or change your emotions in the moment, that’s a really hard thing to do,” says Lisa Feldman Barrett, a psychologist at Northeastern University who studies how emotions work.

But if you practice having a different response or a different emotion at times when you’re not angry, you’ll have a better chance of managing your anger in those hot-button moments, Feldman Barrett says.

“That practice is essentially helping to rewire your brain to be able to make a different emotion [besides anger] much more easily,” she says.

This emotional practice may be even more important for children, says psychologist Markham, because kids’ brains are still developing the circuitry needed for self-control.

“Children have all kinds of big emotions,” she says. “They don’t have much prefrontal cortex yet. So what we do in responding to our child’s emotions shapes their brain.”

A lot has changed in the Arctic since the Canadian government forced Inuit families to settle in towns. But the community is trying to preserve traditional parenting practices. Johan Hallberg-Campbell for NPR

Markham recommends an approach close to that used by Inuit parents. When the kid misbehaves, she suggests, wait until everyone is calm. Then in a peaceful moment, go over what happened with the child. You can simply tell them the story about what occurred or use two stuffed animals to act it out.

“Those approaches develop self-control,” Markham says.

Just be sure you do two things when you replay the misbehavior, she says. First, keep the child involved by asking many questions. For example, if the child has a hitting problem, you might stop midway through the puppet show and ask,”Bobby, wants to hit right now. Should he?”

Second, be sure to keep it fun. Many parents overlook play as a tool for discipline, Markham says. But fantasy play offers oodles of opportunities to teach children proper behavior.

“Play is their work,” Markham says. “That’s how they learn about the world and about their experiences.”

Which seems to be something the Inuit have known for hundreds, perhaps even, thousands of years.

Inuit parents value the playful side of kids even when disciplining them. Above: Maata Jaw and daughter. Johan Hallberg-Campbell for NPR

This story is part of a series from NPR’s Science desk called The Other Side of Anger. There’s no question we are in angry times. It’s in our politics, our schools and homes. Anger can be a destructive emotion, but it can also be a positive force.

Join NPR in our exploration of anger and what we can learn from this powerful emotion. Read and listen to stories in the series here.

Líder indígena Ailton Krenak vence prêmio Juca Pato de intelectual do ano (Folha de S.Paulo)

www1.folha.uol.com.br

Autor de “A Vida Não É Útil” foi escolhido pela União Brasileira de Escritores

27.set.2020


O líder indígena e escritor Ailton Krenak foi o vencedor da edição deste ano do prêmio Juca Pato, concedido pela União Brasileira de Escritores.

O autor de “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” e do recente “A Vida Não É Útil”, editados pela Companhia das Letras, foi escolhido como intelectual do ano por votação do grupo.

O Juca Pato premia autores que tenham publicado obras de repercussão nacional, em qualquer área do conhecimento, que contribuíram para o desenvolvimento do país e da democracia.

Nos últimos anos, condecorou nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Milton Hatoum.

Krenak concorria contra finalistas como os jornalistas Eliane Brum e Laurentino Gomes, a escritora Maria Valéria Rezende e a filósofa Djamila Ribeiro, colunista deste jornal.

O prêmio está programado para ser entregue em dezembro, em local ainda a ser definido.