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Conhecimento indígena é preservado em livro de papel sintético (Fapesp)

Obra descreve 109 espécies de plantas medicinais e seus usos. Pajé da etnia Huni Kuĩ, no Acre, é idealizador do projeto e papel é resultado de pesquisa apoiada pela FAPESP (foto:Pascale/divulgação)

25/08/2014

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Um papel sintético feito de plástico reciclado – resultado de uma pesquisa desenvolvida com apoio da FAPESP – está ajudando a preservar o conhecimento sobre plantas medicinais transmitido oralmente há séculos pelos pajés do povo Huni Kuĩ do rio Jordão, no Acre.

Descrições de 109 espécies usadas na terapêutica indígena, bem como informações sobre a região de ocorrência e as formas de tratamento, foram reunidas no livro Una Isĩ Kayawa, Livro da Cura, produzido pelo Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IJBRJ) e pela Editora Dantes.

A obra teve uma tiragem de 3 mil exemplares em papel comum, cuchê, voltada ao grande público e lançada recentemente no Rio de Janeiro e em São Paulo. Outros mil exemplares, destinados exclusivamente aos índios, foram feitos com papel sintético, que é impermeável e tem a textura de papel cuchê, com o intuito de aumentar a durabilidade no ambiente úmido da floresta. O lançamento foi realizado com uma grande festa em uma das aldeias dos Huni Kuĩ do rio Jordão.  

O trabalho de pesquisa e organização das informações durou dois anos e meio e foi coordenado pelo botânico Alexandre Quinet, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. O grande idealizador do projeto, porém, foi o pajé Agostinho Manduca Mateus Ĩka Muru, que morreu pouco tempo antes de a obra ser concluída.

“O pajé Ĩka Muru era um cientista da floresta, observador das plantas. Há mais de 20 anos ele vinha reunindo esse conhecimento até então oral em seus caderninhos. Buscando informações com os mais antigos e transmitindo para os aprendizes de pajé. Ele tinha o sonho de registrar tudo em um livro impresso, como os brancos fazem, e deixar disponível para as gerações futuras”, contou Quinet.

Também conhecidos pelos nomes de “Kaxinawá” – termo que os índios não gostam – , “gente verdadeira” ou “gente do cipó”, os Huni Kuĩ formam o grupo indígena mais numeroso do Acre. Sua presença vai até parte do Peru. No Brasil, somam mais de 7 mil indivíduos, divididos em 12 diferentes terras. O “livro da cura” retrata a terapêutica praticada nas 33 aldeias de uma dessas terras indígenas que se estende pelo rio Jordão.

Além das informações sobre as plantas, a obra apresenta, por meio de relatos e desenhos, um pouco da cultura do povo Huni Kuĩ, como seus hábitos alimentares, suas músicas e suas concepções sobre doença e espiritualidade. Todo o conteúdo está escrito em “hatxa kuĩ” – língua falada nas aldeias do rio Jordão – e traduzido para o português.

De acordo com Quinet, foram feitas cinco viagens à região acreana para a realização da pesquisa, além de quatro períodos de residência de tradutores Huni Kuĩ no Rio de Janeiro.

“Realizamos uma oficina que durou 15 dias e reuniu os 22 pajés das aldeias do rio Jordão. Os capítulos do livro são, na verdade, transcrições literais dos temas abordados por eles, organizados dentro da sistemática indígena. Apenas sofreram revisões para facilitar a compreensão”, contou Quinet.

Das 351 espécies elencadas pelos pajés como medicinais, os pesquisadores coletaram 196 amostras – resultando na seleção das 109 plantas que integram o livro. O material botânico foi identificado de acordo com as técnicas taxonômicas e depositado no herbário do Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

A partir do nome científico das espécies, os pesquisadores também levantaram na literatura científica, quando possível, o uso feito por outros povos do mundo. O trabalho contou com a colaboração de 21 taxonomistas de instituições brasileiras e internacionais.

“O objetivo inicial do pajé Ĩka Muru era criar um material de ensino para aprendizes de pajé, visando a facilitar a localização das plantas nos jardins medicinais. Mas o livro também tem o objetivo de difundir a cultura da tribo e a importância de preservar a floresta de forma ampla. Buscaram o Jardim Botânico para que esse conhecimento pudesse ser universalizado dentro de bases científicas”, disse Quinet.

Vitopaper

Para representar o conteúdo escrito em “hatxa kuĩ”, a editora Anna Dantes criou uma fonte tipográfica especial inspirada nas letras manuscritas nos cadernos indígenas. Também foi dela a ideia de produzir uma edição especial em papel sintético.

“Logo na primeira reunião feita com os pajés na floresta eu pude observar que os livros enviados para os povos indígenas sofrem muitos danos por causa da umidade e tornam-se muito perecíveis. As páginas vão entortando e grudando umas nas outras. Também são danificadas pela presença de pequenos animais, como cupins. Era um projeto muito ambicioso, que demandaria um grande esforço, e não poderíamos criar um produto que desapareceria em pouco tempo”, disse Dantes.

Dantes contou que foi a primeira vez que trabalhou com o Vitopaper, material produzido pela empresa Vitopel e originalmente desenvolvido por Sati Manrich, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar)

“Quando iniciamos o projeto, em 2003, nossa ideia era encontrar uma solução comum a dois grandes problemas: derrubada de árvores para a produção de celulose e a dificuldade de dar um destino adequado ao grande volume de lixo plástico produzido nos centros urbanos”, contou Manrich.

No processo desenvolvido por ela na universidade, o plástico oriundo de embalagens de alimentos, produtos de limpeza ou garrafas de água é higienizado e moído. Recebe, então, a adição de partículas minerais para a obtenção de propriedades ópticas – como brilho, brancura, contraste, dispersão e absorção de luz – e resistência mecânica ao rasgamento, tração e dobras.

A mistura é colocada em uma máquina extrusora a altas temperaturas, onde amolece e se funde. No final, o material transforma-se em uma folha grande fina, semelhante a um papel fabricado com celulose, que é enrolada e cortada de acordo com a aplicação.

Segundo a Vitopel, para cada tonelada de Vitopaper produzido são retiradas das ruas e lixões 750 quilos de resíduos plásticos. Além disso, segundo Manrich, cerca de 30 árvores deixam de ser derrubadas.

“Gostaria que esse exemplo fosse adotado não apenas para imortalizar o conhecimento dos índios como também na produção de livros didáticos, pois eles teriam uma durabilidade muito maior”, afirmou Manrich.

Una Isĩ Kayawa, Livro da Cura
Organizadores: Agostinho Manduca Mateus Ĩka Muru e Alexandre Quinet
Lançamento: 2014
Preço: R$ 120,00
Páginas: 260

Mais informações: www.facebook.com/UnaIsiKayawa?fref=ts.

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‘Livro da cura’ reúne conhecimento sobre plantas medicinais da tribo Huni Kuin, do Acre (O Globo)

Parque Lage, no Rio, recebe este fim de semana evento para divulgar a obra

POR FLÁVIA MILHORANCE

Chegada. Canto e prece para agradecer a vinda ao Rio e pedir proteção dos espíritos na oca montada no Parque Lage Foto: Agência O Globo
Chegada. Canto e prece para agradecer a vinda ao Rio e pedir proteção dos espíritos na oca montada no Parque Lage – Agência O Globo

RIO – Na entrada da oca de dez metros de altura feita de madeira e palha, uma placa tem os dizeres hanlishli kayanai. É um “espaço de cura” esse lugar erguido em pleno Parque Lage, no Jardim Botânico, Zona Sul do Rio, para abrigar uma série de eventos que começa hoje e gira em torno do lançamento de “Una Isi Kayawa — Livro da cura” (Dantes Editora), uma publicação que apresenta informações detalhadas sobre o poder medicinal de plantas usadas há gerações pelo povo indígena Huni Kuin, do Acre.

São 32 tribos com cerca de 7.500 pessoas da etnia em torno do rio Jordão. Ontem, chegaram alguns de seus representantes e integrantes do projeto. Com rostos pintados, colares de miçangas e trajes de linhas coloridas, eles se reuniram para um canto de chegada. De mãos dadas, o pajé José Matus Itsairu puxava um rito, seguido pelos demais.

— É um canto para agradecer pela nossa vinda, além de chamar as forças dos espíritos para proteger esse lugar — explicou.

Itsairu é filho do pajé Agostinho Ïka Muru, o idealizador do projeto, que morreu em 2011 ainda durante a fase de pesquisa. Ele tinha cadernos de anotações cheios de desenhos de plantas, e seu sonho, conta Itsairu, era sistematizar e difundir o conhecimento ancestral não só para seus pares, mas abri-lo à sociedade.

— Agostinho era um cientista da floresta. Ele vinha há mais de 30 anos registrando informações e tinha medo de que o saber fosse perdido — comentou o taxonomista Alexandre Quinet, que se incumbiu da difícil tarefa de fazer a ponte entre o conhecimento indígena oral e a ciência tradicional. — São lógicas diferentes, por isso o que fizemos foram transcrições literais das palestras gravadas. Até porque o livro também é para eles.

Pintura. O casal Maria e Adelino Kaxinawá se prepara para o início dos eventos. Eles estão pela primeira vez no Rio e aproveitaram para conhecer o mar, – Agência O Globo

Não à toa, os primeiros mil exemplares foram produzidos com papel feito de garrafas PET para resistir à umidade das florestas. Foram necessárias várias viagens e oficinas, além de registros fotográficos e audiovisuais. Das 351 amostras dos cadernos do pajé, 109 estão descritas no livro, com informações catalogadas por taxonomistas do Instituto de Pesquisas Jardim Botânico.

REGISTRO DA TRADIÇÃO MILENAR

Há um mês, a presidente Dilma Rousseff encaminhou ao Congresso um anteprojeto de lei obrigando empresas interessadas nos conhecimentos de povos indígenas a obter a autorização deles. Esse livro, diz Quinet, dá poder às etnias e registra oficialmente sua sabedoria.

A programação intensa se estende de hoje ao dia 27 e inclui conversas, cantos, exposição fotográfica e exibição de vídeos de Zezinho Yube, ativista indígena:

— Eles contam a história do nosso povo, que vivia em malocas, teve contato com seringueiros no início do século XX, começou a trabalhar com isso e, depois, recuperou seu território e está revitalizando sua cultura.

Até o final da estada, o grupo aproveitará para conhecer o Rio. A primeira atividade do casal Adelino e Maria Kaxinawá (outro nome dado à tribo) foi ver o mar pela primeira vez:

— Era exatamente o que imaginava: o som, o movimento. Ficamos gratos com a experiência.

Read more: http://oglobo.globo.com/sociedade/saude/livro-da-cura-reune-conhecimento-sobre-plantas-medicinais-da-tribo-huni-kuin-do-acre-13294753#ixzz37ql7zqpF

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Jardim Botânico do Rio lança livro de plantas medicinais em tribo no Acre (EFE)

sáb, 17 de mai de 2014

Janaína Quinet.

Rio de Janeiro, 17 mai (EFE).- O Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IJBRJ) e a Editora Dantes lançaram nesta semana o livro “Una Isi Kayawa, Livro da Cura”, que documenta o conhecimento medicinal do povo Huni Kuin do Rio Jordão, no Acre.

O trabalho que durou cerca de dois anos e meio foi realizado através de pesquisas e oficinas com os pajés das 33 aldeias das três terras indígenas Kaxinawá, que, que se estendem pelo Rio Jordão.

Comandado pelo pesquisador do JBRJ, Alexandre Quinet, e com o apoio do Coordenador do Centro Nacional da Conservação da Flora Brasileira do Instituto de Pesquisa do Jardim Botânico, Gustavo Martinelli, o livro conta com 109 espécies de plantas com a descrição de seus usos medicinais em português e em “hatxa kuin”, língua falada na tribo.

A identificação do material botânico foi feita com a colaboração de 21 taxonomistas de instituições brasileiras e internacionais. A obra apresenta, além do conhecimento científico das plantas, a cultura do povo Huni Kuin por meio de relatos e desenhos, desde seus hábitos alimentares e artesanato como também as suas concepções espirituais.

Por conta do lançamento, foi organizada na Aldeia São Joaquim uma grande festa, reunindo a maior parte dos pajés das 33 aldeias, que realizaram seus rituais com a “nixi pae” (ayhausca) e rapé de tabaco. Todos vestiram suas roupas tradicionais, enfeitaram-se com seus cocares e, com urucum e jenipapo, desenharam em seus corpos os “kenes”, representações gráficas de conceitos sagrados.

Durante a entrega dos livros aos pajés de cada aldeia, Quinet declarou que o livro “é um registro fiel do que foi dito pelos pajés.

“Esse foi um processo todo participativo. Nós fomos apenas os costureiros. Essas palavras são de vocês, vocês são os autores e protagonistas deste livro feito por vocês e para vocês”, disse.

Já Martinelli afirmou que o acolhimento que o povo lhe proporcionou foi o melhor que ele recebeu em todas as suas viagens.

“Desde a primeira vez que eu vim aqui, nunca tinha me sentido tão bem acolhido. As pessoas estavam aqui me saudando, e nunca vou esquecer esse momento. Por isso eu quis retribuir, colaborando ao máximo para concretização desse projeto”, explicou.

Anna Dantes, que editou o livro acompanhando sua realização desde as oficinas, coordenando a tradução dos textos em “hatxa kuin” e selecionando com eles os desenhos, exaltou a iniciativa.

“Trabalho com a edição de livros há mais de 20 anos, para mim isso é pegar um sonho e fazer com que ele alcance outras pessoas. O livro vai durar mais tempo que a gente, o livro fica na história”, argumentou.

Ela ainda explicou que, para apresentar um conteúdo tão rico, foi criada uma fonte tipográfica a partir das letras manuscritas em cadernos, placas dos parques e quadros negros.

A fonte foi usada para a escrita do “hatxa kuin” e para todas as informações de autoria Huni Kuin no livro. Além disso, o papel utilizado na impressão é resistente e pode ser molhado, já que é feito de garrafas de plástico recicladas. O objetivo é que ele possa resistir às condições úmidas e permeáveis da floresta.

A realização deste livro é a concretização do sonho do pajé Agostinho Manduca Mateus Inka Muru.

Durante 20 anos, ele realizou a missão de reunir seu povo que estava disperso, de resgatar sua cultura, com seus cânticos, rituais, pinturas, tecelagem, desenhos, alimentos, histórias e lendas. Ele desejava perpetuar todo esse conhecimento em um livro, “como os brancos”, dizia ele, para que os mais jovens não esquecessem e pudessem passar adiante as tradições e a cultura Huni Kuin.

Dias após a realização da última oficina, tendo encaminhado sua missão de transmissão de conhecimento, enquanto terminava suas recomendações para o livro, o Pajé Ika Muru morreu nos braços de seus filhos. EFE