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‘Na África, indaguei rei da minha etnia por que nos venderam como escravos’ (BBC Brasil)

14 janeiro 2016

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Image captionA convite de produtora, arquiteto fez exame genético e foi até Camarões para conhecer seus ancestrais

“Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem”, queixa-se o arquiteto baiano Zulu Araújo, de 63 anos, em referência à população negra descendente dos 4,8 milhões de africanos escravizados recebidos pelo país entre os séculos 16 e 19.

Araújo foi um dos 150 brasileiros convidados pela produtora Cine Group para fazer um exame de DNA e identificar suas origens africanas.

Ele descobriu ser descendente do povo tikar, de Camarões, e, como parte da série televisiva Brasil: DNA África, visitou o local para conhecer a terra de seus antepassados.

“A viagem me completou enquanto cidadão”, diz Araújo. Leia, abaixo, seu depoimento à BBC Brasil:

“Sempre tive a consciência de que um dos maiores crimes contra a população negra não foi nem a tortura, nem a violência: foi retirar a possibilidade de que conhecêssemos nossas origens. Somos o único grupo populacional no Brasil que não sabe de onde vem.

Meu sobrenome, Mendes de Araújo, é português. Carrego o nome da família que escravizou meus ancestrais, pois o ‘de’ indica posse. Também carrego o nome de um povo africano, Zulu.

 

Momento em que o Zulu confronta o rei tikar sobre a venda de seus antepassados

Ganhei o apelido porque meus amigos me acharam parecido com um rei zulu retratado num documentário. Virou meu nome.

Nasci no Solar do Unhão, uma colônia de pescadores no centro de Salvador, local de desembarque e leilão de escravos até o final do século 19. Comecei a trabalhar clandestinamente aos 9 anos numa gráfica da Igreja Católica. Trabalhava de forma profana para produzir livros sagrados.

Bom aluno, consegui passar no vestibular para arquitetura. Éramos dois negros numa turma de 600 estudantes – isso numa cidade onde 85% da população tem origem africana. Salvador é uma das cidades mais racistas que eu conheço no mundo.

Ao participar do projeto Brasil: DNA África e descobrir que era do grupo étnico tikar, fiquei surpreso. Na Bahia, todos nós especulamos que temos ou origem angolana ou iorubá. Eu imaginava que era iorubano. Mas os exames de DNA mostram que vieram ao Brasil muito mais etnias do que sabemos.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo”, diz Zulu sobre chegada a Camarões

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

Pergunta sobre escravidão a rei camaronense foi tratada como “assunto delicado” e foi respondida apenas no dia seguinte

Quando cheguei ao centro do reino tikar, a eletricidade tinha caído, e o pessoal usava candeeiros e faróis dos carros para a iluminação. Mais de 2 mil pessoas me aguardavam. O que senti naquele momento não dá para descrever, de tão chocante e singular.

As pessoas gritavam. Eu não entendia uma palavra do que diziam, mas entendia tudo. Era como se eu estivesse no meu bairro, na Bahia, e ao mesmo tempo tivesse voltado 500 anos no tempo.

O povão me encarava como uma novidade: eu era o primeiro brasileiro de origem tikar a pisar ali. Mas também fiquei chocado com a pobreza. As pessoas me faziam inúmeros pedidos nas ruas, de camisetas de futebol a ajuda para gravar um disco. Não por acaso, ali perto o grupo fundamentalista Boko Haram (originário da vizinha Nigéria) tem uma de suas bases e conta com grande apoio popular.

De manhã, fui me encontrar com o rei, um homem alto e forte de 56 anos, casado com 20 mulheres e pai de mais de 40 filhos. Ele se vestia como um muçulmano do deserto, com uma túnica com estamparias e tecidos belíssimos.

Depois do café da manhã, tive uma audiência com ele numa das salas do palácio. Ele estava emocionado e curioso, pois sabia que muitos do povo Tikar haviam ido para as Américas, mas não para o Brasil.

Fiz uma pergunta que me angustiava: perguntei por que eles tinham permitido ou participado da venda dos meus ancestrais para o Brasil. O tradutor conferiu duas vezes se eu queria mesmo fazer aquela pergunta e disse que o assunto era muito sensível. Eu insisti.

Ficou um silêncio total na sala. Então o rei cochichou no ouvido de um conselheiro, que me disse que ele pedia desculpas, mas que o assunto era muito delicado e só poderia me responder no dia seguinte. O tema da escravidão é um tabu no continente africano, porque é evidente que houve um conluio da elite africana com a europeia para que o processo durasse tanto tempo e alcançasse tanta gente.

No dia seguinte, o rei finalmente me respondeu. Ele pediu desculpas e disse que foi melhor terem nos vendido, caso contrário todos teríamos sido mortos. E disse que, por termos sobrevivido, nós, da diáspora, agora poderíamos ajudá-los. Disse ainda que me adotaria como seu primeiro filho, o que me daria o direito a regalias e o acesso a bens materiais.

Foi uma resposta política, mas acho que foi sincera. Sei que eles não imaginavam que a escravidão ganharia a dimensão que ganhou, nem que a Europa a transformaria no maior negócio de todos os tempos. Houve um momento em que os africanos perderam o controle.

Zulu Araújo | Foto: Divulgação

“Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.”

Um intelectual senegalês me disse que, enquanto não superarmos a escravidão, não teremos paz – nem os escravizados, nem os escravizadores. É a pura verdade. Não dá para tratar uma questão de 500 anos com um sentimento de ódio ou vingança.

A viagem me completou enquanto cidadão. Se qualquer pessoa me perguntar de onde sou, agora já sei responder. Só quem é negro pode entender a dimensão que isso possui.

Acho que os exames de DNA deveriam ser reconhecidos pelo governo, pelas instituições acadêmicas brasileiras como um caminho para que possamos refazer e recontar a história dos 52% dos brasileiros que têm raízes africanas. Só conhecendo nossas origens poderemos entender quem somos de verdade.”

‘Não somos ratos de laboratório’, diz diretor da Sangamo Biosciences (O Globo)

Aparelho para sequenciamento genético. Para Lanphier, pesquisas com células-tronco não-reprodutivas são as únicas aceitáveis – David Paul Morris BLOOMBERG

Edward Lanphier comanda entidade ligada à medicina regenerativa e pede um freio nas pesquisas de manipulação do DNA com células reprodutivas

POR FABIO TEIXEIRA

RIO – Edward Lanphier comanda a Sangamo Biosciences, uma das entidades que formam a Aliança para a Medicina Regenerativa (ARM, na sigla em inglês), organização que reúne mais de 200 empresas no mundo da área de biotecnologia e instituições de pesquisa. A Aliança pediu uma moratória de prazo indefinido para pesquisas e prática de manipulação do DNA de células reprodutivas.

O debate sobre o tema, que já dura anos, esquentou com o desenvolvimento de técnicas que permitem que a edição de genes ocorra na prática, o que abre a possibilidade de gerar bebês sob medida.

Lanphier anunciou o pedido de interrupção nas pesquisas em um documento assinado por ele e outros membros da aliança. O texto, publicado na “Nature”, revista científica de renome internacional, declara que este tipo de pesquisa não deve ser levada adiante.

Edward Lanphier, diretor-presidente da Sangamo Biosciences – Divulgação

Enquanto nos Estados Unidos e em países europeus ainda não há uma definição prática sobre se é permitida ou não a manipulação genética de células reprodutivas, no Brasil, estudos deste tipo já foram proibidos. A resolução foi publicada em 2004 pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), órgão do Ministério da Saúde. Ela diz: “As pesquisas com intervenção para modificação do genoma humano só poderão ser realizadas em células somáticas (não-reprodutivas).” Agora a questão seria o uso ilícito de técnicas desenvolvidas no exterior.

Em entrevista publicada esta segunda-feira na revista digital O GLOBO a Mais, Lanphier explica por que considera que até mesmo a pesquisa básica deve ser banida.

A moratória é geral?

Sim. O pedido de moratória é para que tenhamos um tempo para que todas as partes discutam o assunto. É um pedido. Mas a premissa da qual partimos é que mesmo com essa discussão existe uma linha que não pode ser ultrapassada.

Qual é o principal risco de editar o genoma de células reprodutivas (espermatozoides e óvulos)?

O grande problema é ético, apesar de haver também riscos de segurança e técnicos, que limitam o uso prático. A questão ética ultrapassa a barreira da legislação e políticas de cada país. Ela é fundamental.

Se é possível alterar o genoma, é possível escolher a cor do cabelo, dos olhos ou até da pele de um bebê?

Vai além disso. O problema é não só poder alterar as características de um indivíduo, mas também de todas as futuras gerações. Não somos ratos de laboratório, muito menos algo como um milho transgênico. Como espécie, nós humanos decidimos que somos únicos. Por décadas, os países desenvolvidos debateram a modificação de genes em células reprodutivas e se posicionaram contra isso.

É possível alterar genes que ditam características como inteligência ou até comportamento?

Essa é a nossa preocupação. Pois o indivíduo alterado passará as mudanças para as gerações futuras. Aberta a oportunidade deste tipo de pesquisa, ela pode ser usada para objetivos que não têm valor terapêutico, de tratamento de doenças. É um caminho sem volta. Nós, como sociedade, precisamos pensar no que nos torna humanos. No passado já nos posicionamos contra ações deste tipo, que podem nos levar a uma sociedade pautada pela eugenia.

O senhor poderia explicar a diferença entre a manipulação de células somáticas (não-reprodutivas) e a de óvulos e espermatozoides?

Existe uma diferença fundamental. É preto e branco. Na manipulação de células somáticas, você busca alterar um gene para criar uma resistência no indivíduo contra uma doença específica. Você não altera os genes de futuras gerações, caso a pessoa tenha filhos. A única coisa que se tenta fazer é curar doenças. Existe, porém, uma linha que não deve ser ultrapassada. E ela é alterar óvulos e espermatozoides, pois eles conferem hereditariedade para as características manipuladas.

Se o senhor muda uma única característica e ela é passada para gerações futuras, não é possível que outras mutações inesperadas aconteçam?

Isso é perfeitamente possível. É uma das questões que levantamos. Atualmente a natureza disto e suas possíveis consequências são completamente desconhecidas. Há muitas questões sem respostas. Precisamos responder a todas antes de sequer considerar a questão maior, que é a ética do processo. Ainda é muito cedo. Por isso, pedimos uma moratória.

Quais limites o senhor sente que é necessário criar a longo prazo?

Propusemos a moratória justamente para discutir o assunto. Não existe justificativa para realizar alterações genéticas em células reprodutivas.

O senhor cita uma possibilidade de rejeição da sociedade contra este tipo de pesquisa. O temor é de que isso atinja também a pesquisa com as demais células?

Seria uma rejeição motivada por falta de conhecimento.

Que linhas de estudo são consideradas promissoras?

As doenças com mais chances de serem curadas por este tipo de pesquisa são aquelas que têm um gene específico associado. É o caso de hemofilia, anemia falciforme e vários tipos de câncer. Essas são as oportunidades mais imediatas que se abrem com a pesquisa. Tecnicamente e teoricamente é possível ainda usar a tecnologia para alterar mais de um gene, para curar doenças relacionadas a múltiplos genes.

Há algum argumento a favor da alteração de genes em óvulos e espermatozoides?

Não. Mesmo em situações onde pais tenham genes com falhas ligadas a doenças hereditárias, não se justifica. Há exames pré-natais e tratamentos de fertilização in vitro para contornar estes problemas. Não há justificativa para editar o genoma humano em células reprodutivas.

Se é possível alterar o genoma humano, não é necessário questionar o que nos torna humanos? Não estaríamos criando uma nova espécie?

A grande questão é que, se mudarmos o DNA, mudamos a espécie.