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Para estudioso do clima, “sorte” explica pandemia não começar pelo Brasil (ECOA/UOL)

Artigo original

Rodrigo Bertolotto De Ecoa, em São Paulo 14/04/2020 18h04

“A Amazônia tem a maior quantidade de microorganismos do mundo. E estamos perturbando o sistema o tempo todo, com populações urbanas se aproximando, desmatamento e comércio de animais silvestres. Então, talvez tenha sido sorte que a pandemia não tenha começado no Brasil”, disse Carlos Nobre, presidente do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas e pesquisador sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP (Universidade de São Paulo).

O cientista Carlos Nobre, referência brasileira em estudos sobre aquecimento global e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) - Reinaldo Canato/Folhapress
O cientista Carlos Nobre, referência brasileira em estudos sobre aquecimento global e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) Imagem: Reinaldo Canato/Folhapress

Nobre participou nesta terça de um seminário “Covid-19 e Clima: Como Estão Conectados?” promovido pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU (Organização das Nações Unidas) em parceria com Ecoa, que retransmitiu sua palestra, no formato webinar, ou seja, um seminário pela web.

“Pandemia mostra impacto do desequilíbrio do sistema na nossa vida”

Ele lembrou do caso da leishmaniose, endemia típica da Amazônia que tem como causador um protozoário e o vetor é o mosquito palha. A doença se espalhou pelo mundo, devido à aproximação dos homens dos ambientes silvestres, mas agora está controlada, tendo cura e remédio. O problema agora é outro por lá. “Agora, Manaus está entrando em colapso com o coronavírus, e a doença está chegando às aldeias. Temos que lembrar que os indígenas têm menos resistência imunológica a essas contaminações.”

Nobre também falou como a poluição debilita quem tem contado agora com o vírus surgido na China no final de 2019. “A poluição e o vírus atacam o sistema respiratório. Essa combinação é muito perversa”, afirmou o estudioso.

Ele recordou das queimadas na floresta amazônica em 2019, a que ponto isso afetou os ares até da região Sudeste do Brasil e como esse cenário pode se repetir agora em 2020, quando se está verificando novos recordes de desmatamento.

O ar de São Paulo e outras cidades está mais limpo com menos carros em circulação nesses dias de quarentena, mas, se as queimadas recomeçarem, esse cenário vai mudar e criar novas vulnerabilidades. No ano passado, os postos de saúde da Amazônia estavam cheios pela fumaça das queimadas. Agora estão com a Covid-19.

Aprendizados da crise

O cientista discutiu os vários pontos que aproximam o atual surto biológico com os problemas climáticos, sua especialidade.

“Dá para fazer um paralelo entre essas crises globais. Essa pandemia nos mostra o que pode acontecer quando há um desequilíbrio do sistema. Ela é um alerta e um guia para evitarmos grandes riscos, como os que as mudanças climáticas poderão trazer para a vida na Terra. Se a temperatura do planeta subir cinco graus, os humanos vão ter de viver confinados, como agora, porque em determinados horários todos os dias o termômetro vai estar além do limite fisiológico do corpo nas áreas tropicais como o Brasil.”

Nobre falou das lições que podem ficar desta crise global e das possíveis soluções quando o planeta sair das urgências do coronavírus. Para ele, um dos aprendizados é que a economia caminhe para a sustentabilidade.

“Os países europeus estão discutindo agora uma economia mais verde. E a China também está sinalizando nesse mesmo caminho. Se isso acontecer, o pêndulo mundial vai mudar, e o Brasil vai ter de ir atrás. Os EUA são contra, mas isso pode mudar se em janeiro de 2021 não estiver mais o Donald Trump na Casa Branca”, afirmou Nobre, projetando as dificuldades de reeleição do político republicano com a possível recessão provocada pelo afastamento social durante a crise.

O pesquisador também salientou que é importante mudar a matriz energética, e essa crise pode ser o momento de acelerar esse processo. “Precisamos eletrificar os transportes, e criar mais energia solar e eólica, diminuindo o consumo de combustíveis fósseis.”

Para ele, as mudanças climáticas vão trazer riscos maiores que os atuais com o coronavírus se não forem tomadas providências. “É uma catástrofe com um tempo e uma magnitude muito maior. Por isso, é difícil dimensionar. Mas a atual pandemia é uma amostra disso. E um risco maior também, afinal, todo o planeta vai ser afetado, não só o homem, como agora.”

Veja íntegra do seminário: https://video.uol/18QVJ

How the Amazon’s Cashews and Cacao Point to Cultivation by the Ancients (New York Times)

Scientists studying the Amazon rain forest are tangled in a debate of nature versus nurture.

Many ecologists tend to think that before Europeans arrived in the Americas, the vast wilderness was pristine and untouched by humans. But several archaeologists argue that ancient civilizations once thrived in its thickets and played a role in its development.

Now, researchers have found evidence that indigenous people may have domesticated and cultivated Amazonian plants and trees thousands of years ago, further supporting the idea that ancient humans helped shape the forest.

“Large areas of the Amazon are less pristine than we may think,” said Hans ter Steege, a tropical ecologist at the Naturalis Biodiversity Center in the Netherlands, and an author of a paper published in Science on Thursday. “The people who lived there before Columbus left serious footprints that still persist in the composition as we see today.”

He was one of more than a hundred researchers who found that domesticated tree and palm species — like cacao, cashews, the açaí palm, the Brazil nut and rubber — were five times more likely to dominate the modern Amazonian forest than nondomesticated plants.

Carolina Levis, a doctoral student at the National Institute for Amazonian Research in Brazil and Wageningen University and Research Center in the Netherlands, was the lead author on the study. She and her team looked at a database from the Amazon Tree Diversity Network containing 1,170 plots of forest. Most plots measured approximately 2.5 acres each and had previously been investigated on foot by ecologists who counted and identified the plant species in the plots. Ms. Levis then identified 85 domestic plants to analyze.

One way the team determined that a plant had been domesticated was a look at its fruit. They found, for example, some peach palms that bore fruit weighing 200 grams, or 0.44 pounds, when the fruit grown in the wild matured to about one gram. Several of the domesticated plants they identified are still grown by South Americans.

The harvesting of peach palm in the Amazon. Credit: Tinde van Andel 

Ms. Levis compared her list of 85 plants to another database of more than 3,000 archaeological sites, including ceramics, dirt mounds and rock paintings, dating back before the Spaniards and Portuguese arrived in the Americas 500 years ago. The domesticated plants flourished near the archaeological sites, far more so than nondomesticated ones.

“It’s the first time that we show these correlations between plant species in the forest today and archaeological finds,” she said.

The findings suggest that either the ancient civilizations grew and cultivated the plants, or that they purposely settled in areas that had plants they could eat and use. Ms. Levis said she suspected that people were domesticating the plants, although the study did not definitively pinpoint how settlements were chosen. In some plots, more than half of the plant life consisted of domesticated trees and palms.

Jennifer Watling, an archaeologist at the University of São Paulo, Brazil, who was not involved with the study, said in an email that “the large number of data points sampled by these authors gives good reason to believe that the distribution of domesticated species in many areas of Amazonia is strongly linked to the actions of pre-Columbian societies.”

But Crystal McMichael, a paleoecologist from the University of Amsterdam, said the database comparisons were not convincing. New direct evidence, like fossils of domesticated plants at the archaeological sites, would help advance such theories, she said. While the study shows a potential association between ancient people and modern forest composition, it does not preclude the possibility that the domesticated plant patterns occurred with more modern settlements, she said in an email.

Dr. ter Steege disagreed. The study “changed my view of the forest,” he said. “It’s not only the ecology or the environment that created this forest, but also the people who lived there before.”

Corte seletivo e fogo fazem Floresta Amazônica perder 54 milhões de toneladas de carbono por ano (Agência Fapesp)

JC e-mail 4973, de 16 de junho de 2014

A perda de carbono corresponde a 40% daquela causada pelo desmatamento total

Uma pesquisa conduzida por cientistas no Brasil e no Reino Unido quantificou o impacto causado na Floresta Amazônica por corte seletivo de árvores, destruição parcial pelo fogo e fragmentação decorrente de pastagens e plantações. Em conjunto, esses fatores podem estar subtraindo da floresta cerca de 54 milhões de toneladas de carbono por ano, lançados à atmosfera na forma de gases de efeito estufa. Esta perda de carbono corresponde a 40% daquela causada pelo desmatamento total.

O estudo, desenvolvido por 10 pesquisadores de 11 instituições do Brasil e do Reino Unido, foi publicado em maio na revista Global ChangeBiology.

“Os impactos da extração madeireira, do fogo e da fragmentação têm sido pouco percebidos, pois todos os esforços estão concentrados em evitar mais desmatamento. Essa postura deu grandes resultados na conservação da Amazônia brasileira, cuja taxa de desmatamento caiu em mais de 70% nos últimos 10 anos. No entanto, nosso estudo mostrou que esse outro tipo de degradação impacta severamente a floresta, com enormes quantidades de carbono antes armazenadas sendo perdidas para a atmosfera”, disse a brasileira Erika Berenguer, pesquisadora do Lancaster Environment Centre, da Lancaster University, no Reino Unido, primeira autora do estudo.

Segundo Joice Ferreira, pesquisadora da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Amazônia Oriental), em Belém (PA), e segunda autora do estudo, um dos motivos dessa degradação ser menos percebida é a dificuldade de monitoramento. “As imagens de satélite permitem detectar com muito mais facilidade as áreas totalmente desmatadas”, afirmou.

“Nossa pesquisa combinou imagens de satélite com estudo de campo. Fizemos uma avaliação, pixel a pixel [cada pixel na imagem corresponde a uma área de 900 metros quadrados], sobre o que aconteceu nos últimos 20 anos. Na pesquisa de campo, estudamos 225 parcelas (de 3 mil metros quadrados cada) em duas grandes regiões, com 3 milhões de hectares [30 mil quilômetros quadrados], utilizadas como modelo para estimar o que ocorre no conjunto da Amazônia”, explicou Ferreira.

As imagens de satélite, comparadas de dois em dois anos, possibilitaram que os pesquisadores construíssem um grande painel da degradação da floresta ao longo da linha do tempo, em uma escala de 20 anos. Na pesquisa de campo foram avaliadas as cicatrizes de fogo, de exploração madeireira e outras agressões. A combinação das duas investigações resultou na estimativa de estoque de carbono que se tem hoje.

Duas regiões foram estudadas in loco: Santarém e Paragominas, na porção leste da Amazônia, ambas submetidas a fortes pressões de degradação. Nessas duas regiões foram investigadas as 225 áreas.

“Coletamos dados de mais de 70 mil árvores e de mais de 5 mil amostras de solo, madeira morta e outros componentes dos chamados estoques de carbono. Foi o maior estudo já realizado até o momento sobre a perda de carbono de florestas tropicais devido à extração de madeira e fogos acidentais”, disse Ferreira.

Segundo ela, a pesquisa contemplou quatro dos cinco compartimentos de carbono cujo estudo é recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), da Organização das Nações Unidas (ONU): biomassa acima do solo (plantas vivas), matéria orgânica morta, serapilheira (camada que mistura fragmentos de folhas, galhos e outros materiais orgânicos em decomposição) e solos (até 30 centímetros de profundidade). “Só não medimos o estoque de carbono nas raízes”, disse.

Para efeito de comparação, foram consideradas cinco categorias de florestas: primária (totalmente intacta); com exploração de madeira; queimada; com exploração de madeira e queimada; e secundária (aquela que foi completamente cortada e cresceu novamente).

As florestas que sofreram perturbação, por corte ou queimada, apresentaram de 18% a 57% menos carbono do que as florestas primárias. Uma área de floresta primária chegou a ter mais de 300 toneladas de carbono por hectare, enquanto as áreas de floresta queimada e explorada para madeira tiveram, no máximo, 200 toneladas por hectare, e, em média, menos de 100 toneladas de carbono por hectare.

Corte seletivo tradicional
O roteiro da degradação foi bem estabelecido pelos pesquisadores. O ponto de partida é, frequentemente, a extração de madeiras de alto valor comercial, como o mogno e o ipê; essas árvores são cortadas de forma seletiva, mas sua retirada impacta dezenas de árvores vizinhas.

Deflagrada a exploração, formam-se várias aberturas na cobertura vegetal, o que torna a floresta muito mais exposta ao sol e ao vento, e, portanto, muito mais seca e suscetível à propagação de fogos acidentais. O efeito é fortemente acentuado pela fragmentação da floresta em decorrência de pastagens e plantações.

A combinação dos efeitos pode, então, transformar a floresta em um mato denso, cheio de árvores e cipós de pequeno porte, mas com um estoque de carbono 40% menor do que o da floresta não perturbada.

“Existem, hoje, vários sistemas de corte seletivo, alguns um pouco menos impactantes do que outros. O sistema predominante, que foi aquele detectado em nosso estudo, associado ao diâmetro das árvores retiradas e à sua idade, pode subtrair da floresta uma enorme quantidade de carbono”, disse Plínio Barbosa de Camargo, diretor da Divisão de Funcionamento de Ecossistemas Tropicais do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) e membro da coordenação da área de Biologia da FAPESP, que também assinou o artigo publicado na Global ChangeBiology.

“Por mais que recomendemos no sentido contrário, na hora do manejo efetivo acabam sendo retiradas as árvores com diâmetros muito grandes, em menor quantidade. Em outra pesquisa, medimos a idade das árvores com carbono 14. Uma árvore cujo tronco apresente o diâmetro de um metro com certeza tem mais de 300 ou 400 anos. Não adianta retirar essa árvore e imaginar que ela possa ser substituída em 30, 40 ou 50 anos”, comentou Camargo.

A degradação em curso torna-se ainda mais preocupante no contexto da mudança climática global. “O próximo passo é entender melhor como essas florestas degradadas responderão a outras formas de distúrbios causados pelo homem, como períodos de seca mais severos e estações de chuva com maiores níveis de precipitação devido às mudanças climáticas”, afirmou o pesquisador britânico Jos Barlow, da Lancaster University, um dos coordenadores desse estudo e um dos responsáveis pelo Projeto Temático ECOFOR: Biodiversidade e funcionamento de ecossistemas em áreas alteradas pelo homem nas Florestas Amazônica e Atlântica.

Além dos pesquisadores já citados, assinaram também o artigo da Global ChangeBiologyToby Alan Gardner (Universityof Cambridge e Stockholm EnvironmentInstitute), Carlos Eduardo Cerri e Mariana Durigan (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz/USP), Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e UniversityofExeter), Raimundo Cosme de Oliveira Junior (Embrapa Amazônia Oriental) e Ima Célia Guimarães Vieira (Museu Paraense Emílio Goeldi).

O artigo A large-scalefieldassessmentofcarbon stocks in human-modified tropical forests (doi: 10.1111/gcb.12627), de Erika Berenguer e outros, pode ser lido em http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/gcb.12627/full.

(Agência Fapesp)

Líder indígena brasileiro ganha prêmio ‘Herói da Floresta’ da ONU (G1;Globo Natureza)

JC e-mail 4703, de 11 de Abril de 2013.

Almir Suruí, de Rondônia, fez parceria com Google para monitorar floresta. Ele está na Turquia para receber o título internacional

Almir Suruí, líder indígena de Rondônia, é um dos vencedores do prêmio “Herói da Floresta” este ano. O título é concedido pelas Nações Unidas.

A cerimônia oficial de entrega estava prevista para acontecer na noite desta quarta-feira (10) em Istambul (hora local), onde acontece o Fórum sobre Florestas da ONU, que congrega representantes de 197 país.

Os outros quatro “Heróis da Floresta” deste ano são dos Estados Unidos, Ruanda, Tailândia e Turquia. Almir é o vencedor pela América Latina e o Caribe. Líder dos índios paiter suruí, Almir criou diferentes iniciativas para proteger e desenvolver a Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia, onde mora.

O projeto mais conhecido usa a internet para valorizar a cultura de seu povo e combater o desmatamento ilegal. A partir de uma parceria com o Google e algumas ONGs, os suruí colocaram à disposição dos usuários da rede um “mapa cultural” que dá informações sobre sua cultura e história.

Eles também usam telefones celulares para tirar fotos da derrubada ilegal de floresta, determinando com o GPS o local exato do crime ambiental e enviando denúncias a autoridades competentes.

No ano passado, outros brasileiros já haviam sido premiados como “Heróis da Floresta” pela ONU: Paulo Adário, diretor do Greenpeace para a Amazônia, e o casal de ativistas José Cláudio Ribeiro e Maria do Espírito Santo, assassinado no Pará em maio de 2011, que foi nomeado como uma homenagem póstuma.