Cientistas exploram microbiota de formigas em busca de novos fármacos (Fapesp)

Projeto reúne pesquisadores da USP e de Harvard e foi aprovado na primeira chamada conjunta lançada pela FAPESP e pelo NIH (foto: Michael Poulsen/capa: Eduardo Afonso da Silva Jr.)

11/07/2014

Por Karina Toledo

Agência FAPESP – Como os moradores de grandes cidades bem sabem, ambientes com grande aglomeração de indivíduos são favoráveis à disseminação de patógenos e, portanto, requerem cuidados para evitar doenças.

Se nós humanos podemos contar com vacinas, remédios e desinfetantes para nos proteger, os insetos sociais – como abelhas, formigas e cupins – também desenvolveram ao longo de milhares de anos de evolução suas próprias “armas químicas”, que agora começam a ser exploradas pela ciência.

“Uma das estratégias usadas por insetos que vivem em colônias é a associação com microrganismos simbiontes – na maioria das vezes bactérias – capazes de produzir compostos químicos com ação antibiótica e antifúngica”, contou Monica Tallarico Pupo, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da Universidade de São Paulo (USP).

Em um projeto recentemente aprovado na primeira chamada de propostas conjunta lançada pela FAPESP e pelo National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, a equipe de Pupo vai se unir ao grupo de Jon Clardy, da Harvard University, para explorar a microbiota existente nos corpos de formigas brasileiras em busca de moléculas naturais que possam dar origem a novos fármacos.

“Vamos nos concentrar inicialmente nas espécies de formigas cortadeiras, como a saúva, pois são as que têm essa relação de simbiose mais bem descrita na literatura científica”, disse Pupo.

De acordo com a pesquisadora, as formigas cortadeiras se comportam como verdadeiras agricultoras, carregando pedaços de planta para o interior do ninho com o intuito de nutrir as culturas de fungos das quais se alimentam. “Isso cria um ambiente rico em nutrientes e suscetível ao ataque de microrganismos oportunistas. Para manter a saúde do formigueiro, é importante que tenham os simbiontes associados”, explicou Pupo.

Os pesquisadores sairão à caça de formigas em parques nacionais localizados em diferentes biomas brasileiros, como Cerrado, Mata Atlântica, Amazônia e Caatinga. Também fará parte da área de coleta o Parque Estadual Vassununga, no município de Santa Rita do Passa Quatro (SP).

A meta do grupo é isolar cerca de 500 linhagens de bactérias por ano o que, estima-se, dê origem a cerca de 1.500 diferentes extratos. “O primeiro passo será coletar os insetos e fragmentos do ninho para análise em laboratório. Em seguida, vamos isolar as linhagens de bactérias existentes e usar métodos de morfologia e de sequenciamento de DNA para caracterizar os microrganismos”, contou Pupo.

Depois que as bactérias estiverem bem preservadas e catalogadas, acrescentou a pesquisadora, será possível cultivar as linhagens para, então, extrair o caldo de cultivo. “Nossa estimativa é que cada linhagem dê origem a três diferentes extratos, de acordo com o nutriente usado no cultivo e a técnica de extração escolhida”, disse.

Esses extratos serão testados in vitro para avaliar se são capazes de inibir o crescimento de fungos, células cancerígenas e de parasitas causadores de leishmanioses e doença de Chagas. Os mais promissores terão os princípios ativos isolados e estudados mais profundamente.

“Nesse tipo de pesquisa é comum ter redundância, ou seja, isolar compostos já conhecidos na literatura. Para agilizar a descoberta de novas substâncias ativas vamos usar ferramentas de desreplicação e de sequenciamento genômico”, disse Pupo.

Também farão parte da equipe o bacteriologista Cameron Currie (University of Wisconsin-Madison), Fabio Santos do Nascimento (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP), André Rodrigues (Universidade Estadual Paulista em Rio Claro), Adriano Defini Andricopulo (Instituto de Física de São Carlos, da USP), James E. Bradner (Harvard Medical School), Dana-Farber (Cancer Institute), Timothy Bugni (University of Wisconsin – Madison) e David Andes (University of Wisconsin – Madison).

A chamada Fapesp/NIH está vinculada ao programa International Biodiversity Cooperative Groups (ICBG), do qual o Brasil participa pela primeira vez.

Início

Segundo Pupo, o projeto colaborativo é uma ampliação do trabalho que vem sendo realizado no âmbito de um Auxílio Regular aprovado em meados de 2013, que também conta com a colaboração de Clardy e de Currie.

“Estamos estudando uma espécie de abelha [ Scaptotrigona depilis] e uma espécie de formiga [Atta sexdens] encontradas no campus da USP em Ribeirão Preto. Nesse caso, exploramos toda a microbiota dos insetos, tanto bactérias quanto fungos, e alguns compostos isolados estão apresentando potencial antibacteriano e antifúngico bastante acentuado”, contou.

O trabalho está sendo desenvolvido durante o doutorado de Eduardo Afonso da Silva Júnior eCamila Raquel Paludo – ambos com Bolsa da FAPESP. Também tem a participação da bolsista de Iniciação Científica Taise Tomie Hebihara Fukuda.

Unindo ciências humanas à neurociência (Faperj)

10/07/2014

Vilma Homero

4O filósofo Carlos Eduardo Batista de Sousa: estudos sobre o pensamento humano

O homem é um animal puramente biológico ou um ser sociocultural? A pergunta vem dividindo especialistas das neurociências e das ciências humanas. Especialmente depois que estudos recentes visam identificar as bases neurais que possibilitam ou estão correlacionadas com o pensamento consciente. “A intencionalidade, o conteúdo do pensamento consciente, está associada às nossas ações. E este assunto se relaciona diretamente com o nosso contexto cultural e a nossa época, e com o entendimento sobre nós mesmos. O que significa dizer que a neurociência agora estuda um objeto típico das ciências humanas?”, pergunta o filósofo da ciência Carlos Eduardo Batista de Sousa, que contou com o apoio de um Auxílio à Pesquisa (APQ 1) para estudar as dimensões que compõem a humanidade em projeto intitulado “Intencionalidade e Comportamento: Definindo a Natureza Humana”. Como ele mesmo pondera, é possível formular uma resposta plausível, integrando o conhecimento das duas ciências.  

“Tento acomodar os estudos nesses dois campos, das humanidades e dasneurociências, vendo como a questão da intencionalidade está vinculada à neurobiologia humana e ao aspecto sociocultural”, acrescenta o pesquisador. Ele explica que o tipo de pensamento que o ser humano tem acontece também em virtude de nossa história evolutiva. Ou seja, tanto a nossa neurobiologia quanto as interações sociais, nosso contexto cultural e a época, devem ser considerados na tentativa de entender a natureza humana. Diferentemente dos animais, o ser humano conta com uma estrutura intencional específica: “Pensar implica pensar em alguma coisa, é preciso ter um objeto em mente, ter uma representação desse objeto no pensamento que é sobre algo. De modo bem direto, isso é o que os filósofos descobriram há certo tempo. Esse conteúdo intencional emerge da neurobiologia e da interação social, influenciando nosso comportamento.”

Descobertas recentes das neurociências indicam que o pensamento consciente está associado a certas regiões no cérebro, como o lobo  frontal, que se divide em córtex frontal e pré-frontal. A partir de tecnologias, como neuroimageamento e eletrofisiologia, que nos permitem identificar as áreas e mapear o que acontece durante o pensamento consciente, novos estudos estão se tornando possíveis de ser implementados, como por exemplo, investigar o cérebro em ação. “Mas ainda é prematuro dizer que partes do cérebro são responsáveis por cada coisa”, admite o pesquisador.

Para De Sousa, estudar a natureza humana também implica estudar sua natureza biológica e sociocultural, por meio do trabalho científico e do trabalho crítico de tentar unificar as duas vertentes. “Entender tanto a biologia quanto a cultura a partir do problema da intencionalidade pode unir essas duas áreas aparentemente opostas, e isso significa reconhecer que o pensamento consciente-intencional se baseia na neurobiologia e na interação social, dando origem às nossas ações.

Mas nosso cérebro precisa estar em condições favoráveis, sob a ação de certos hormônios, como a dopamina – relacionada, por exemplo, com à tomada de decisão, cálculo de riscos, etc. Caso haja alguma anomalia no cérebro, a ação será diferente. Isso significa que a biologia precisa ser reconhecida como condição primeira, porém ela não determina o conteúdo, isto é, como vou formar meus pensamentos…”, diz De Sousa.

Como De Sousa faz questão de frisar, apenas uma ciência, seja a neurociência ou a sociologia, não pode garantir explicações plausíveis sobre o comportamento humano. “Em vez de uma briga de conhecimento, como vem sendo vivenciado hoje, é preciso conciliar ciências humanas e neurociências num contexto mais amplo pela integração dos estudos”, destaca De Sousa, que tem formação em filosofia e doutorado na Universidade de Constança, Alemanha. “Em vez de fornecer respostas, a filosofia aponta problema e possíveis caminhos. Minha proposta consiste em acomodar ambas as explicações de forma a dar conta dos vários fatores e aspectos que influenciam o conteúdo do pensamento humano, as intenções que levam o sujeito a agir de determinado modo e não de outro.”

O próximo passo para De Sousa é dar continuidade a seu trabalho, procurando unificar os estudos sobre a natureza humana numa área transdisciplinar, já que o homem é um animal complexo. “Foi na Alemanha que dei início a essa pesquisa, durante o doutorado em neurofilosofia. Lá, esse tipo de pensamento integrador estava começando. Hoje, o assunto já avançou, permitindo um maior entendimento sobre o que nós somos a partir das neurociências e da perspectiva das ciências humanas que tem longa tradição de estudos na área. Sabendo como o cérebro aprende, se organiza e se deteriora, podemos entender por que agimos como agimos e encarar a realidade de outra forma, repensando inclusive o processo de educação. Assim, futuramente, poderemos até propor novas estratégias educacionais levando em consideração esse novo conhecimento. Com isso, poderemos também estabelecer uma nova visão de humanidade, mais completa, que inclua não apenas a neurobiologia, mas também a dimensão sociocultural”, conclui.

Projeto avalia os impactos de mudanças climáticas nos manguezais fluminenses (Faperj)

Débora Motta

10/07/2014

                                        Acervo Nema/Uerj
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 Árvores de raízes aéreas se destacam nos
mangues: agentes na captura do carbono
 do ar

O Brasil possui a segunda maior extensão territorial de manguezais, perdendo apenas para a Indonésia. Eles estão presentes em todo o litoral brasileiro, desde o Amapá até o município de Laguna, em Santa Catarina. Esses ecossistemas, com árvores de raízes aéreas e retorcidas, equilibradas na lama e na água salobra, são fundamentais para o equilíbrio ambiental. Afinal, são verdadeiros berçários naturais de diversas espécies, como peixes, moluscos e crustáceos, que neles encontram condições ideais para reprodução e abrigo. “Os manguezais protegem a costa contra os ventos e a inundação do mar, sendo fontes de subsistência de populações, pela pesca e turismo”, disse o oceanógrafo Mário Luiz Gomes Soares, coordenador do Núcleo de Estudos em Manguezais (Nema) e do programa de pós-graduação em Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Essa riqueza natural, contudo, pode ser comprometida pelas mudanças climáticas em curso no planeta. Para avaliar como o aquecimento global e outros fatores ambientais vêm afetando esses ecossistemas, Soares coordena pesquisas sobre o nível de vulnerabilidade dos manguezais, que tiveram início no estado do Rio de Janeiro, com apoio da FAPERJ, e se ampliaram para outros estados brasileiros, em projetos desenvolvidos com a rede de pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia sobre Ambientes Marinhos (INCT-AmbTropic), coordenado por pesquisador vinculado à Universidade Federal da Bahia e destinado ao estudo das respostas do litoral brasileiro às mudanças climáticas.

O estudo, considerado como o marco inicial das pesquisas de Soares, vem sendo realizado desde o final da década de 1990, no manguezal de Guaratiba, localizado a cerca de 70 quilômetros a oeste da capital fluminense, na Baía de Sepetiba. Contemplado pela Fundação por meio dos editais Apoio à Pesquisa Básica (APQ 1), Apoio a Programas de Pós-Graduação Estaduais, Prioridade Rio e Apoio ao estudo de soluções para problemas relativos ao meio ambiente, o oceanógrafo foi também bolsista da FAPERJ pelo programa Jovem Cientista do Nosso Estado. O trabalho vem sendo financiado ainda pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

O manguezal de Guaratiba é o único no Brasil acompanhado em detalhes por pesquisadores durante um período tão extenso. “Em Guaratiba, nosso primeiro laboratório a céu aberto, observamos o impacto da elevação do nível médio do mar e dos ciclos climáticos sobre os manguezais. A partir desse modelo de estudo, a pesquisa foi ampliada para áreas de monitoramento em todo o Brasil, desde Santa Catarina até o Pará, e outras localidades no estado do Rio de Janeiro, incluindo os manguezais da Baía de Guanabara”, disse.

Em outras palavras, os ciclos climáticos regulam a vida nos manguezais. Durante os períodos mais úmidos, a chuva lava o solo, dilui o sal e as árvores conseguem se estabelecer nas planícies hipersalinas, conhecidas como apicuns – uma área descampada que lembra um deserto, extremamente salina, com solo duas a quatro vezes mais salgado do que a lama do manguezal, e sem a presença de vegetação arbórea. Já durante os períodos mais secos, ocorre o inverso e a vegetação do mangue fica prejudicada. “As mudanças climáticas podem alterar o regime de chuvas, fazendo com que elas fiquem mais escassas em algumas regiões e mais frequentes em outras. Em Guaratiba, por exemplo, observamos as respostas da floresta aos ciclos de clima. Nos anos mais úmidos ela cresce, e nos mais secos retrai”, destacou Soares. “Em algumas regiões sem aporte de rio, os manguezais dependem apenas da água da chuva. Quando chove menos que o normal, a vegetação do mangue fica prejudicada, e até morre”, completou.

Durante todos esses anos de pesquisa de campo, em que o oceanógrafo e a equipe do Nema deixa o conforto do Rio para fazer medições na lama e na mata fechada de Guaratiba, foi observada uma tendência comum em outros manguezais. “Ao longo dos anos, as espécies de vegetais do mangue e, consequentemente, de animais, começaram a colonizar uma área diferente, avançando em direção ao continente. Essa migração é uma resposta da floresta à elevação do nível médio do mar, devido a fatores como o aquecimento global. Para sobreviver, o manguezal precisa ir se adaptando conforme a subida das águas”, resumiu Soares.

Assim, as florestas de mangue vêm avançando continente adentro sobre os apicuns. Quando a maré sobe, o mar inunda essas planícies. A água empoçada, após sua evaporação, deposita sal em excesso no solo, o que inviabiliza a sobrevivência das espécies típicas do mangue. Apesar das condições de sobrevivência adversas, aos poucos as plantas se instalam ali, devido à inundação dessa área, cada vez mais frequente com o aumento do nível do mar. “Em Guaratiba, a floresta avançou rumo ao continente quase 80 metros, desde 1998”, detalhou Soares.

 Acervo Nema/Uerj
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Mário Soares, da Uerj, ressalta a importância
de políticas públicas para conservar manguezais   

Diante dessa observação, o desafio é avaliar se há espaço físico nos territórios que devem ser ocupados pelos manguezais, vizinhos a esses ecossistemas. “Prevendo esse movimento de migração dos manguezais, que vai se intensificar nos próximos anos, temos que ter políticas públicas, a longo prazo, para a gestão adequada da zona costeira. É preciso saber se essas áreas atrás dos manguezais, perto do continente, estão disponíveis. Muitas delas já foram ocupadas por empreendimentos imobiliários, o que deve ser uma fonte de preocupação”, explicou. E prosseguiu: “Em Sepetiba, a Companhia Siderúrgica do Atlântico foi construída exatamente na área onde o mangue deveria migrar. Daí a importância do planejamento urbano de ocupação territorial.”

Na Baía de Guanabara, há um problema de planejamento similar. Entre os manguezais estudados ao longo desse período pela equipe do Nema, os da região metropolitana do Rio apresentam, na maioria, alta vulnerabilidade à subida do nível do mar. “Em um estudo comandado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fizemos uma análise dos sistemas costeiros, mapeamos todos os manguezais dos municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro e analisamos a vulnerabilidade deles no caso de elevação do nível do mar”, resumiu Soares. “As únicas áreas de vulnerabilidade intermediária na Baía de Guanabara são aquelas protegidas pela APA de Guapimirim e a Estação Ecológica Guanabara”, completou. (Veja o mapa da vulnerabilidade dos manguezais à elevação do nível do mar na região metropolitana do Rio de Janeiro, sendo que as áreas representadas em vermelho apresentam alta vulnerabilidade, as áreas em amarelo, média vulnerabilidade, e as áreas em verde, baixa vulnerabilidade, segundo as pesquisas do Nema:http://www.faperj.br/images/Mapeamento_manguezais_RJ.jpg).

Outra característica dos manguezais monitorados por Soares, de extrema relevância ambiental, é a sua importante capacidade de absorver carbono da atmosfera. Para estudar como os manguezais “sequestram” o carbono do ar, o grupo do Nema desenvolveu alguns modelos matemáticos para estimar a quantidade de carbono armazenada em cada espécie vegetal do mangue, ou mesmo na lama. O manguezal tem uma capacidade de armazenamento de carbono pouco menor que a de outras florestas tropicais. Em relação à Amazônia, o valor total só não é maior porque a área do ecossistema costeiro é muito menor (pouco mais de 1 milhão de hectares) do que a da Amazônia (aproximadamente 500 vezes maior) ou da mata atlântica.

Acervo Nema/Uerj
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 Equipe do Nema em trabalho de campo: estudo do manguezal
de Guaratiba foi a base para entender mangues em outros estados

“No entanto, se considerarmos a soma da quantidade de carbono aprisionado na biomassa aérea (a parte das árvores acima do solo), com a biomassa subterrânea (as raízes) e o sedimento (a lama), o manguezal ganha da Amazônia no armazenamento de carbono por unidade de área”, avaliou Soares. E prosseguiu: “É importante conservar os manguezais, que têm grande potencial para aprisionar o carbono e, quando um sistema com tanto carbono é destruído, libera esse carbono na atmosfera, o que aumenta os gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global”, alertou.

Com o aumento da temperatura do planeta, os manguezais também devem ampliar sua distribuição geográfica. A vegetação dos manguezais não cresce em baixas temperaturas, e por isso mais da metade desses ecossistemas do mundo está entre as latitudes 10°N e 10°S. “Como o sul do Brasil deve se tornar mais quente até o fim do século XXI, conforme as previsões climáticas, os manguezais devem ocupar latitudes mais altas e se expandir para regiões onde não existem hoje, ao sul do limite deles em Laguna”, disse Soares. Até o momento, conforme artigo do Nema publicado na renomada revista científica britânicaEstuarine, Coastal and Shelf Sciencenão houve expansão dos manguezais além dos limites latitudinais, nos últimos 30 anos.

Assim, pela importância ecológica, econômica e social, e pela vulnerabilidade das áreas costeiras onde preferencialmente ocorrem os adensamentos urbanos, empreendimentos portuários e industriais, e o cultivo de camarões, os manguezais merecem atenção especial. “Esperamos, dessa forma, contribuir, através da elaboração de um estudo aplicado, para a estruturação de políticas de conservação, restauração e monitoramento dos remanescentes de manguezal do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil e, por conseguinte, dos bens e serviços vinculados a esses sistemas”, justificou o oceanógrafo.

Ao lado de Soares, participam do projeto os professores Felipe de Oliveira Chaves e Gustavo Calderucio Duque Estrada, ambos do Nema/Uerj; as professoras Cláudia Hamacher e Cássia Farias, do Laboratório de Geoquímica Orgânica Marinha da Uerj; e a professora Carla Madureira, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), além de diversos alunos de pós-graduação do Nema/Uerj, como os doutorandos Viviane Fernandez, Paula Almeida, Daniel Medina, Michelle Passos e Marciel Estevam, além dos mestrandos Mayne Assunção, Brunna Tomaino, Carolina Cardoso e Ana Carolina Teixeira.

© FAPERJ – Todas as matérias poderão ser reproduzidas, desde que citada a fonte.

Negócio arriscado (Folha de São Paulo)

JC e-mail 4987, de 11 de julho de 2014

Em editorial, a Folha de São Paulo faz uma leitura sobre as mudanças climáticas no Planeta

O ano de 2015 poderá assistir a uma mudança de sinal na questão da mudança climática planetária. Há indícios de que ela já deixa o terreno estéril das polêmicas ao estilo Fla-Flu para se tornar, cada vez mais, uma preocupação crescente entre empresários e governantes de todos os matizes.

Não têm faltado manifestações nesse sentido. Elas aparecem bem sumarizadas na entrevista de Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) ao jornal “Valor Econômico”.

Steiner aposta num bom acordo internacional em Paris, no final de 2015, decisiva reunião de cúpula sobre o clima. Um tratado abrangente e ambicioso reverteria o fiasco de Copenhague (2009), que deveria ter produzido um documento para substituir o Protocolo de Kyoto (1997), extinto em 2012.

Para o diretor do Pnuma, a poluição do carbono –que agrava o efeito estufa e leva ao aquecimento global– não é o preço inevitável do desenvolvimento. Seus argumentos são essencialmente econômicos, e não ideológicos.

Ele aponta a distorção dos subsídios concedidos mundialmente aos combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural), principal fonte do carbono lançado na atmosfera por atividades humanas. A conta fica entre US$ 600 bilhões e US$ 700 bilhões anuais e correspondente a cerca de dez vezes os incentivos para energias renováveis, como a eólica (ventos).

Seu exemplo é o Quênia, país que planeja incluir em cinco anos os 75% da população hoje sem acesso à eletricidade –e o fará com 95% de fontes limpas. Poderia ter citado o Brasil, que tem 80% de sua matriz com geração renovável e, nos últimos anos, descobriu os atrativos da energia eólica.

E Achim Steiner não está só. No contexto da opinião pública dos EUA, talvez a mais refratária ao tema do aquecimento global, líderes da política e da economia –democratas e republicanos– também vieram a público para defender que a inação diante dos problemas do clima, hoje, custará caro no futuro cada vez menos distante.

A manifestação apareceu no relatório “Risky Business” (negócio arriscado), com o endosso de pesos pesados como os ex-secretários do Tesouro dos EUA Henry Paulson, Robert Rubin e George Shultz, além de Michael Bloomberg, ex-prefeito de Nova York.

Seu raciocínio é cristalino: por remoto que seja o perigo, faz-se seguro contra incêndio; que sentido haveria, então, em ignorar os riscos do aquecimento global? A resposta será dada, ou não, em Paris.

(Folha de São Paulo)
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/175354-negocio-arriscado.shtml

Amazon rainforest grew after climate change 2,000 years ago -study (Reuters)

BY ALISTER DOYLE, ENVIRONMENT CORRESPONDENT

OSLO, July 8 Mon Jul 7, 2014 11:58pm BST

(Reuters) – Swathes of the Amazon may have been grassland until a natural shift to a wetter climate about 2,000 years ago let the rainforests form, according to a study that challenges common belief that the world’s biggest tropical forest is far older.

The arrival of European diseases after Columbus crossed the Atlantic in 1492 may also have hastened the growth of forests by killing indigenous people farming the region, the scientists wrote in the U.S. journal Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

“The dominant ecosystem was more like a savannah than the rainforest we see today,” John Carson, lead author at the University of Reading in England, said of the findings about the southern Amazon.

The scientists said that a shift toward wetter conditions, perhaps caused by natural shifts in the Earth’s orbit around the sun, led to growth of more trees starting about 2,000 years ago.

The scientists studied man-made earthworks – uncovered by recent logging in Bolivia – that included ditches up to about a kilometre (1,100 yards) long and up to 3 metres deep and 4 metres wide.

They found large amounts of grass pollen in ancient sediments of nearby lakes, suggesting the region had been covered by savannah. They also found evidence of plantings of maize, pointing to farming.

PRISTINE

The Amazon has traditionally been seen as a pristine, dense rainforest, populated by hunter-gatherers. In recent years, however, archaeologists have found hints that indigenous peoples lived in the thick forest, but managed to clear tracts of land for farming.

The PNAS study suggests a new idea – that the forest simply did not exist in some regions.

The “findings suggest that rather than being rainforest hunter-gatherers, or large-scale forest clearers, the people of the Amazon from 2,500 to 500 years ago were farmers,” the University of Reading said in a statement.

Carson said that perhaps a fifth of the Amazon basin, in the south, may have been savannah until the shift, with forests covering the rest.

In one lake, Laguna Granja, rainforest plants only took over from grass as the main sources of pollen in sediments about 500 years old, suggesting a link to the arrival of Europeans.

The purpose of the earthworks is unknown – they could have been defensive or for drainage or religious purposes.

And understanding the forest could help solve puzzles about climate change.

The Amazon rainforest affects climate change because trees soak up heat-trapping carbon dioxide as they grow and release it when they rot or are burnt. Brazil has sharply slowed deforestation rates in recent years.

Carson said that the growth of Amazonian forests could, for instance, have contributed to the Little Ice Age, from about 1350 to 1850 by absorbing heat-trapping gases from the air.

Michael Heckenberger, an expert on the Amazon at the University of Florida, said the study added to evidence that people living in the Amazon managed nature.

“These indigenous systems were highly sophisticated…There are over 80 domesticated or semi-domesticated crops in the Amazon,” he said. “In Europe at the time they were working with about six.” (Reporting by Alister Doyle; Editing by Lisa Shumaker)

 

Climate change: IPCC must consider alternate policy views, researchers say (Science Daily)

Date: July 7, 2014

Source: Princeton University, Woodrow Wilson School of Public and International Affairs

Summary: The Summary for Policymakers recently produced by the Intergovernmental Panel on Climate Change has triggered a public debate about excessive governmental intrusion in the IPCC process. The IPCC cannot avoid alternative political interpretations of data and must involve policy makers in finding out how to address these implications, according to a team of researchers.

 In addition to providing regular assessments of scientific literature, the Intergovernmental Panel on Climate Change Process (IPCC) also produces a “Summary for Policymakers” intended to highlight relevant policy issues through data.

While the summary presents powerful scientific evidence, it goes through an approval process in which governments can question wording and the selection of findings but not alter scientific facts or introduce statements at odds with the science. In particular, during this process, the most recent summary on mitigation policies was stripped of several important figures and paragraphs that were in the scientists’ draft, leading some IPCC scientists to express concerns about excessive political intrusion.

Delicate issues of political interpretation cannot be avoided, wrote three IPCC authors in the journalScience. In their analysis, the team — which includes Marc Fleurbaey from Princeton University’s Woodrow Wilson School of Public and International Affairs — uses global emissions data to show how multiple political interpretations can be made from the same dataset. They argue that the IPCC should consider a writing process that better connects scientific findings with multiple political outcomes.

“The IPCC should consider opening up more channels for dialogue in which salient political discussions are connected to relevant scientific material,” said the article’s co-author Marc Fleurbaey, the Robert E. Kuenne Professor in Economics, Humanistic Studies and Public Affairs. “Such a collaboration or coproduction is what lends the IPCC its credibility as the voice of scientists — but with more weight for policy.”

While the IPCC undoubtedly produces the most up-to-date, comprehensive scientific reports on climate change, its approval process has become tediously extensive. As the panel embarks upon its sixth assessment, those involved have been working toward streamlining the process.

In their review, Fleurbaey and his co-authors — Navroz Dubash from the Centre for Policy Research in India and Sivan Kartha from the Stockholm Environment Institute — write that this approval process sets the IPCC apart from other technical reports. Instead of changing the approval process, they suggest an alternate vision for articulating science and policy at the IPCC.

To illustrate their vision, the researchers analyzed global emissions by reviewing income growth across countries, a key driver of emissions growth. When looking at income, countries are sometimes grouped into such categories as lower-income, lower-middle income, upper-middle income and high-income. The trouble, however, is that some countries are rapidly changing in terms of income, which elides relevant information. Likewise, a few big countries can dominate the statistics, and the time reference used for grouping them also can lead to large differences.

When global emissions are analyzed according to groupings based on current income figures, upper-middle income countries account for 75 percent of the rise in global emissions from 2000 to 2010. This presentation of data was deleted from the recent summary report. A political interpretation of this, Fleurbaey and his collaborators write, may be that country groupings should reflect the increasing role of upper-middle income countries and perhaps impose commensurate emission limits.

However, when grouping countries according to their income in the middle of the decade (2005), global emissions rose three quarters in lower-middle income countries, a change due in part to the fact that China joined the upper-middle income group in 2010 only. This presentation highlighting lower-middle income countries may suggest supporting these countries financially and technologically in developing lower carbon economies.

“As you can see, both representations would be equally faithful to the underlying data, but they are also equally synthetic and incomplete, and they differ markedly in their political extrapolations,” said Fleurbaey. “It’s hard to accurately group these countries without imposing political perceptions, and analysis by country groups is highly sensitive in the current context of the renegotiation of the groups defined in the Kyoto protocol.”

As an illustration that more positive outcomes can be obtained from governmental dealings, the authors report that some sections benefited from the approval process, as they were eventually expanded and clarified by additional explanations. For example, the framing section of the summary, which was taken up for discussion early in the approval process, achieved a smooth convergence between the authors and country delegates.

On the flip side, the international cooperation section was much shortened, simplified and seemingly stripped of controversy. This section had much less time allowed for discussion and was examined in a contentious atmosphere after the removal of several figures involving country groupings.

Fellow IPCC author Michael Oppenheimer, the Albert G. Milbank Professor of Geosciences and International Affairs in the Woodrow Wilson School and Department of Geosciences, who was not an author of the Science article, fully supported its position.

“IPCC, and attempts to solve the climate problem, would benefit immensely from a strengthening of the science-policy interface,” Oppenheimer said. “Proposals to completely separate the science and policy functions are simply wrong-headed and self-defeating. This collaboration is what makes IPCC unique and uniquely effective”

“Seemingly technical choices can crystallize into value-laden political conclusions, particularly given tight word and time limits,” said Fleurbaey. “It is more productive for authors to be aware of the varying political implications and factor these into their representations of data.”

Journal Reference:
  1. N. K. Dubash, M. Fleurbaey, S. Kartha. Political implications of data presentationScience, 2014; 345 (6192): 36 DOI: 10.1126/science.1255734

Neandertal trait in early human skull suggests that modern humans emerged from complex labyrinth of biology and peoples (Science Daily)

Date: July 7, 2014

Source: Washington University in St. Louis

Summary: Re-examination of a circa 100,000-year-old archaic early human skull found 35 years ago in Northern China has revealed the surprising presence of an inner-ear formation long thought to occur only in Neandertals.

The Xujiayao 15 late archaic human temporal bone from northern China with the extracted temporal labyrinth superimposed on a view of the Xujiayao site. Credit: Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology, Chinese Academy of Science

Re-examination of a circa 100,000-year-old archaic early human skull found 35 years ago in Northern China has revealed the surprising presence of an inner-ear formation long thought to occur only in Neandertals.

“The discovery places into question a whole suite of scenarios of later Pleistocene human population dispersals and interconnections based on tracing isolated anatomical or genetic features in fragmentary fossils,” said study co-author Erik Trinkaus, PhD, a physical anthropology professor at Washington University in St. Louis.

“It suggests, instead, that the later phases of human evolution were more of a labyrinth of biology and peoples than simple lines on maps would suggest.”

The study, forthcoming in the Proceedings of the National Academy of Sciences, is based on recent micro-CT scans revealing the interior configuration of a temporal bone in a fossilized human skull found during 1970s excavations at the Xujiayao site in China’s Nihewan Basin.

Trinkaus, the Mary Tileston Hemenway Professor in Arts & Sciences, is a leading authority on early human evolution and among the first to offer compelling evidence for interbreeding and gene transfer between Neandertals and modern human ancestors.

His co-authors on this study are Xiu-Jie Wu, Wu Liu and Song Xing of the Institute of Vertebrate Paleontology and Paleoanthropology, Beijing, and Isabelle Crevecoeur of PACEA, Université de Bordeaux.

“We were completely surprised,” Trinkaus said. “We fully expected the scan to reveal a temporal labyrinth that looked much like a modern human one, but what we saw was clearly typical of a Neandertal. This discovery places into question whether this arrangement of the semicircular canals is truly unique to the Neandertals.”

Often well-preserved in mammal skull fossils, the semicircular canals are remnants of a fluid-filled sensing system that helps humans maintain balance when they change their spatial orientations, such as when running, bending over or turning the head from side-to-side.

Since the mid-1990s, when early CT-scan research confirmed its existence, the presence of a particular arrangement of the semicircular canals in the temporal labyrinth has been considered enough to securely identify fossilized skull fragments as being from a Neandertal. This pattern is present in almost all of the known Neandertal labyrinths. It has been widely used as a marker to set them apart from both earlier and modern humans.

The skull at the center of this study, known as Xujiayao 15, was found along with an assortment of other human teeth and bone fragments, all of which seemed to have characteristics typical of an early non-Neandertal form of late archaic humans.

Trinkaus, who has studied Neandertal and early human fossils from around the globe, said this discovery only adds to the rich confusion of theories that attempt to explain human origins, migrations patterns and possible interbreedings.

While it’s tempting to use the finding of a Neandertal-shaped labyrinth in an otherwise distinctly “non-Neandertal” sample as evidence of population contact (gene flow) between central and western Eurasian Neandertals and eastern archaic humans in China, Trinkaus and colleagues argue that broader implications of the Xujiayao discovery remain unclear.

“The study of human evolution has always been messy, and these findings just make it all the messier,” Trinkaus said. “It shows that human populations in the real world don’t act in nice simple patterns.

“Eastern Asia and Western Europe are a long way apart, and these migration patterns took thousands of years to play out,” he said. “This study shows that you can’t rely on one anatomical feature or one piece of DNA as the basis for sweeping assumptions about the migrations of hominid species from one place to another.”

Journal Reference:

  1. Xiu-Jie Wu, Isabelle Crevecoeur, Wu Liu, Song Xing, and Erik Trinkaus. Temporal labyrinths of eastern Eurasian Pleistocene humansPNAS, July 7, 2014 DOI:10.1073/pnas.1410735111

Crise de água em SP: quanto mais grave, mais ocultada (Outras Palavras)

08/7/2014 – 12h55

por Fernando Brito*

reservatorios Crise de água em SP: quanto mais grave, mais ocultada

Reservatórios baixam novamente. Governo Alckmin e mídia insistem em evitar racionamento e debate antes das eleições. Abastecimento pode sofrer colapso

No último sábado (5/7), ao longo do dia, entraram só 125 milhões de litros de água no Sistema Cantareira. E saíram, mesmo sendo um sábado, dia de menor consumo, 2 bilhões de litros. São dados oficiais da própria Sabesp. A vazão afluente foi de 1,45 metros cúbicos por segundo, a segunda menor do ano. Mas, o “saldo” hídrico foi o pior desde o início do bombeamento, porque, no dia da menor afluência (0,8 m³/s, em 22 de maio), a liberação de água para os rios de sua bacia estava um metro cúbico por segundo abaixo da atual.

A saída de água pelo Túnel 5, por onde a água do Cantareira se junta ao reservatório de Paiva Castro (onde estão entrando cerca de 2 m³/s), registrou uma vazão de 19,19 m³ que, somada aos 4 m³/s liberados para os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí, dá 23,19 m³/s de vazão defluente total.

vazao Crise de água em SP: quanto mais grave, mais ocultadaA diferença entre o que entra e o que sai de água voltou aos dias terríveis de fevereiro, como você pode ver no gráfico, mesmo com muito menos água liberada. Basta fazer as contas com os 180 bilhões de litros que remanescem no Cantareira, aí incluído todo o volume que se espera bombear para o abastecimento da Grande São Paulo.

Até o final da semana que se inicia, metade do volume previsto para bombeamento do maior reservatório, o Jaguari-Jacareí, já terá sido retirado. Um pouco menos de dois meses depois de ser iniciado. Mantido o ritmo atual e se todas as previsões otimistas da Sabesp estiverem certas, a segunda metade durará menos de um mês: em torno de 15 de agosto. Com otimismo, porque os reservatórios, neste momento, se assemelham mais a um conjunto de canais do que a represas.

Restarão então dois meses da água abaixo da tomada d’água do reservatório Atibainha.

chuva Crise de água em SP: quanto mais grave, mais ocultadaIsso se todas as “gambiarras” funcionarem plenamente e as afluências melhorarem um pouco. Nos seis primeiros dias de julho, a água afluente chegou a meros 2,3 m³/s, pouco mais de 20% da mínima mensal já registrada desde 1930, que é de 11,7 m³/s. Novamente, os dados estão disponíveis e é só nossa imprensa querer tratar o assunto com a gravidade que ele tem.

A necessidade de racionamento de água, que era dramática, tornou-se desesperadora e esconder isso é tão grave que não é possível que um governante o faça, por razões eleitorais.

Não é possível sustentar a retirada de água no volume em que está sendo feita.

Nem mesmo o remanejamento de parte dos consumidores do cantareira para o sistema Alto Tietê pode ser mantido, porque o ritmo de esvaziamento deste que é o segundo maior fornecedor de água para os paulistanos também aponta pouco mais de 100 dias de consumo: tem 24,8% de seu volume útil e cai a 0,2% ao dia.

Manter o ritmo atual de consumo é loucura. Pode ser a sobrevivência eleitoral de Alckmin. Mas é o suicídio de nossa maior metrópole.

* Publicado originalmente no blog Tijolaçõ e retirado do site Outras Palavras.

Os céticos estão perdendo espaço (Valor Econômico)

JC e-mail 4985, de 09 de julho de 2014

Artigo de Martin Wolf publicado no Valor Econômico

Não temos uma atmosfera chinesa ou americana. Temos uma atmosfera planetária. Não podemos fazer experimentos independentes com ela. Mas temos feito um experimento conjunto. Não foi uma decisão consciente: ocorreu em consequência da Revolução Industrial. Mas estamos decidindo conscientemente não suspendê-lo.

Realizar experimentos irreversíveis com o único planeta que temos é irresponsável. Só seria racional se recusar a fazer alguma coisa para mitigar os riscos se tivéssemos certeza de que a ciência da mudança climática provocada pelo homem é um embuste.

Qualquer leitor razoavelmente aberto a novas ideias do “Summary for Policymakers” do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática chegaria à conclusão que qualquer certeza desse tipo sobre a ciência seria absurda. É racional perguntar se os benefícios da mitigação superam os custos. É irracional negar que é plausível a mudança climática provocada pelo homem.

Nessas discussões e, aliás, na política climática, os Estados Unidos desempenham papel central, por quatro motivos. Em primeiro lugar, os EUA ainda são o segundo maior emissor mundial de dióxido de carbono, embora sua participação de 14% do total mundial em 2012 o situe bem atrás dos 27% da China. Em segundo lugar, as emissões americanas per capita correspondem aproximadamente ao dobro das emissões das principais economias da Europa ocidental ou do Japão. Seria impossível convencer as economias emergentes a reduzir as emissões se os EUA não aderissem. Em terceiro lugar, os EUA dispõem de recursos científicos e tecnológicos insuperáveis, que serão necessários para que o mundo possa enfrentar o desafio de associar baixas emissões à prosperidade para todos. Finalmente, os EUA abrigam o maior número de opositores ativistas apaixonados e engajados.

Diante desse quadro, dois acontecimentos recentes são estimulantes para os que (como eu) acreditam que o senso comum mais elementar nos obriga a agir. Um deles foi a publicação do “President’s Climate Action Plan” no mês passado. Esse plano abrange a mitigação, a adaptação e a cooperação mundial. Seu objetivo é reduzir até 2020 as emissões de gases-estufa para níveis 17% inferiores aos de 2005.

O outro acontecimento, também ocorrido no mês passado, foi a publicação de um relatório – o “Risky Business” – por um poderoso grupo bipartidário que incluía o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, os ex-secretários do Tesouro dos EUA, Hank Paulson e Robert Rubin, e o ex-secretário de Estado George Shultz.

Mas precisamos moderar nossa alegria. Mesmo se o governo implementar seu plano com êxito, ao explorar sua autoridade reguladora, será um começo apenas modesto. As concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso subiram para níveis sem precedentes do último período de pelo menos 800 mil anos, muito antes do surgimento do “Homo sapiens”. Pelo nosso ritmo atual, o aumento será muito maior até o fim do século, e os impactos sobre o clima tenderão a ser grandes, irreversíveis e talvez catastróficos. Aumentos da média da temperatura de 5° C acima dos níveis pré-industriais são concebíveis à luz do nosso ritmo atual. O planeta seria diferente do que é hoje.

“Risky Business” revela o que isso poderia significar para os EUA. O documento se concentra nos danos aos imóveis e à infraestrutura litorâneos decorrentes da elevação dos níveis do mar. Examina os riscos de tempestades mais fortes e mais frequentes. Considera possíveis mudanças na agricultura e na demanda por energia, bem como o impacto da alta das temperaturas sobre a produtividade e a saúde pública. algumas áreas do país poderão se tornar quase inabitáveis.

O que faz do relatório um documento importante é que ele expõe a questão, corretamente, como um problema de gestão de risco. O objetivo tem de ser eliminar os riscos localizados na extremidade da distribuição das possíveis consequências. A maneira de fazer isso é mudar o comportamento. Ninguém pode nos vender seguros contra mudanças planetárias. Já vimos o que o risco remoto, localizado na extremidade da distribuição de riscos, significa em finanças. No âmbito do clima, as extremidades são mais encorpadas e tendentes a ser muito mais prejudiciais.

A questão é se uma coisa real e importante pode derivar desses novos começos modestos. Pode sim, embora deter o aumento das concentrações de gases-estufa é coisa que exige muito esforço.

Sempre pensei que a maneira de avançar seria por meio de um acordo mundial de limitação das emissões, à base de alguma combinação entre impostos e cotas. Atualmente considero esse enfoque inútil, como demonstra o fracasso do Protocolo de Kyoto de 1997 em promover qualquer verdadeira mudança na nossa trajetória de emissões. O debate político em favor de políticas públicas substanciais terá sucesso se, e somente se, duas coisas acontecerem: em primeiro lugar, as pessoas precisam acreditar que o impacto da mudança climática pode ser ao mesmo tempo grande e caro; em segundo lugar, elas precisam acreditar que os custos da mitigação serão toleráveis. Esse último fator, por sua vez, exige o desenvolvimento de tecnologias confiáveis e exequíveis para um futuro de baixos teores de carbono. Assim que ficar demonstrada a viabilidade de um futuro desse tipo, a adoção das políticas necessárias será mais fácil.

Nesse contexto, os dois novos documentos se corroboram mutuamente. “Risky Business” documenta os custos potenciais para os americanos da mudança climática não mitigada. O foco do governo em padrões reguladores é, portanto, uma grande parte da resposta, principalmente porque os padrões certamente obrigarão a uma aceleração da inovação na produção e no uso da energia. Ao reforçar o apoio à pesquisa fundamental, o governo americano poderá desencadear ondas de inovação benéficas em nossos sistemas de energia e de transportes marcados pelo desperdício. Se promovida com urgência suficiente, essa medida também poderá transformar o contexto das negociações mundiais. Além disso, em vista da falta de mitigação até esta altura, uma grande parte da reação deverá consistir em adaptação. Mais uma vez, o engajamento dos EUA deverá fornecer mais exemplos de medidas que funcionam.

Secretamente esperava que o tempo desse razão aos opositores. Só assim a ausência de resposta a esse desafio se revelaria sem custo. Mas é pouco provável que tenhamos essa sorte.

Continuar no nosso caminho atual deverá gerar danos irreversíveis e onerosos. Existe uma possibilidade mais alvissareira. Talvez se mostre possível reduzir o custo da mitigação em tal medida que ele se torne politicamente palatável. Talvez, também, nos conscientizemos muito mais dos riscos. Nenhuma das duas hipóteses parece provável. Mas, se esses dois relatórios efetivamente motivarem uma mudança na postura dos EUA, as probabilidades de escapar do perigo terão aumentado, embora talvez tarde demais. Isso não merece dois, muito menos três vivas. Mas poderíamos tentar um. (Tradução de Rachel Warszawski)

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT.

(Valor Econômico)
http://www.valor.com.br/opiniao/3607960/os-ceticos-estao-perdendo-espaco#ixzz36yVZ5PEw

Does That Cat Have O.C.D.? (New York Times)

It was love at first pet when Laurel Braitman and her husband adopted a 4-year-old Bernese mountain dog, a 120-pound bundle of fur named Oliver.

The first few months were blissful. But over time, Oliver’s troubled mind slowly began to reveal itself. He snapped at invisible flies. He licked his tail until it was wounded and raw. He fell to pieces when he spied a suitcase. And once, while home alone, he ripped a hole in a screen and jumped out of a fourth-floor window. To everyone’s astonishment, he survived.

Oliver’s anguish devastated Dr. Braitman, a historian of science, but it also awakened her curiosity and sent her on an investigation deep into the minds of animals. The result is the lovely, big-hearted book “Animal Madness,” in which Dr. Braitman makes a compelling case that nonhuman creatures can also be afflicted with mental illness and that their suffering is not so different from our own.

In the 17th century, Descartes described animals as automatons, a view that held sway for centuries. Today, however, a large and growing body of research makes it clear that animals have never been unthinking machines.

ANIMAL MADNESS How Anxious Dogs, Compulsive Parrots and Elephants in Recovery Help Us Understand Ourselves. By Laurel Braitman. Simon & Schuster. 384 pages. $28.CreditSonny Figueroa/The New York Times

We now know that species from magpies to elephants can recognize themselves in the mirror, which some scientists consider a sign of self-awareness. Rats emit a form of laughter when they’re tickled. And dolphins, parrots and dogs show clear signs of distress when their companions die. Together, these and many other findings demonstrate what any devoted pet owner has probably already concluded: that animals have complex minds and rich emotional lives.

Unfortunately, as Dr. Braitman notes, “every animal with a mind has the capacity to lose hold of it from time to time.”

Take Gigi, a female gorilla who developed what looked like panic attacks after being terrorized by a younger male. Whenever she saw her tormentor, she “seemed to shut down, rocking and trembling,” Dr. Braitman writes. Many other beasts round out the miserable menagerie, including Sunita, a tiger with stress-induced facial tics; Charlie, a macaw who plucked out all her feathers; and Gus, a polar bear who swam endless figure eights — for as many as 12 hours a day — in his pool at the Central Park Zoo.

Dr. Braitman and the experts she consults are careful about how they interpret this behavior. For example, although a dog’s nonstop tail-licking may resemble the endless hand-washing of a human with obsessive-compulsive disorder, one veterinary behaviorist points out that because she cannot prove that dogs are having obsessive thoughts, she prefers a diagnosis of “compulsive disorder” instead.

Still, it’s clear that the animals are suffering, and the triggers are often the same sorts of stress and trauma that can cause breakdowns in humans: a natural disaster, abuse, the loss of a loved one. And we’re not the only species that bears the burden of war; some of the military dogs that served in Iraq and Afghanistan display the same PTSD-like symptoms that afflict their human colleagues.

Dr. Braitman does not shy away from controversial topics — most notably, the question of whether animals can commit suicide. Charlie, the feather-plucking macaw, died when she fell out of a tree and onto a metal stake in the ground, prompting her owner to wonder if the bird had deliberately brought about her own demise. “Suicide” is a loaded word, and Charlie’s story is unconvincing, but animals can certainly engage in self-harming behaviors, from repeatedly banging their heads against walls to simply refusing to eat.

Animals “may have fewer tools available to them to inflict mortal wounds and also lack humanity’s sophisticated cognitive abilities to plan their own ends, but they can and do harm themselves,” Dr. Braitman writes. “Sometimes they die.”

Throughout the book, she argues that anthropomorphism — or the assignment of human traits to other species — can serve a useful purpose, especially if we “anthropomorphize well.” She writes, “Instead of self-centered projection, anthropomorphism can be a recognition of bits and pieces of our human selves in other animals and vice versa.”

Though we may never know for sure what parrots or polar bears are feeling, “making educated guesses about animal emotions” is often the first step in alleviating their pain. Healing troubled animal minds is now a bona fide industry, populated with dog behaviorists, cat whisperers, elephant monks and horse massagers.

For some animals, behavioral therapy, environmental enrichment or companionship is enough to ease the agony. Others may need a pharmaceutical assist — from Prozac, Valium, Thorazine or one of the many psychiatric drugs now available to creatures throughout the animal kingdom.

“Prozac Nation has been offering citizenship to nonhumans for decades,” Dr. Braitman writes. Gigi, the terrorized gorilla, received a round of Xanax and Paxil and eventually recovered (mostly) with the help of a psychiatrist and a zookeeper who never gave up on her.

Though humans are a leading cause of animal unhappiness — captivity alone causes many problems, even in the absence of outright neglect or abuse — “Animal Madness” is also brimming with compassion and the tales of the many, many humans who devote their days to making animals well.

No hay extitución sino modos de extitucionalización (Networks & Matters)

07.08.14

por 

A mediados del 2000, Francisco Tirado y Miquel Domènech empezaron a utilizar el concepto de extitución (ver Extituciones: del poder y sus anatomías), acuñado por Michel Serres (1995), para analizar los cambios que las innovaciones tecnológicas desencadenaban en las instituciones contemporáneas: por ejemplo, en los programas de desinstitucionalización de las personas con trastornos mentales severos (Vitores, 2002). En mi caso, la noción de extitución sirvió para orientar mi tesis sobre la ‘virtualización’ del cuidado en los servicios de teleasistencia domiciliaria (López, 2006).

Tanto para mi como para el resto, el concepto operó como una suerte de marco teórico con el que interpretar los datos. Así, los rasgos más distintivos de la teleasistencia domiciliaria adquirieron sentido a la luz de un proceso más amplio: la emergencia de formas sociales alternativas a las clásicas instituciones de cuidado, todas ellas basadas en el internamiento (residencial, hospitalario e incluso domiciliario).

En todos los casos, tomamos la extitución como lo ‘otro’ material de la institución. Así lo expresé en mi capítulo de Lo social y lo virtual (2006),

“las instituciones están basadas en un geometría social compuesta de líneas de fractura, donde el sistema de proximidades y lejanías es sustituido por una partición espacial en dos términos: como dice Serres (1996), “de un lado, la región de las razones y todas las victorias; de otro, el país desde donde estoy seguro de no ir jamás, por mi ánimo y mi energía espiritual, más allá de cualquier tentación que pueda tener” (Serres, 1996, p. 46). Manicomios, hospitales, cuarteles, conventos, talleres, prisiones y hogares modernos responden al juego de distinciones y divisiones propias de la racionalidad cartesiana. Las instituciones fragmentan, disgregan y separan para hacer visible la distinción. Construir una institución es constituir un espacio cartesiano, claro y distinto, donde “como el otro está allá y estoy seguro de ser diferente a él, entonces pienso correctamente”. En contraposición, la extitución es una ordenación social que no necesita constituir un “dentro” y un “a fuera” sino únicamente una superficie en la que se conectan y se desconectan multitud de agentes (Tirado y Domènech, 2001). Por lo tanto, las líneas de ruptura (Lefebvre, 1974) que definen el espacio abstracto de las instituciones disciplinares se convierten, en la extitución, en líneas de conexión. En ella, tomando a Bachelard (1965), podemos decir que no encontramos una topoanalítica sino una topofilia””

Sin embargo, fue Francisco Tirado (2001) quien sintetizó de manera más clara las características propias de la extitución en contraposición a las de la institución.

“La institución se asienta en una materialidad dura, lo hemos visto, cuerpos y edificios; la extitución se asienta sobre una materialidad blanda y mezclada, encontramos cuerpos pero también móviles inmutables que cruzan los diferentes edificios conectando los distintos actores. (…) La institución se define a través del plano, está planificada. La extitución solapa planos geométricos en una trama topológica (…) La materialidad dura permite que la institución instaure relaciones espesas, repetitivas y bien definidas. Las instauradas en las extituciones son variables y flotantes. La primera, de este modo, crea rutinas que conducen a una socialidad constante y perdurable. La segunda por el contrario crea movimiento. (…) La institución despliega algún tipo de encierro, ya sea físico o simbólico. La extitución es como un gran aparato de captura, incorpora, conecta. (…) La primera se asienta en una realidad local. Está claramente definida y el problema es alcanzar lo global. La segunda presenta un retrato local y parcial de una globalidad.” (Tirado, 2001, p. 590)

La noción de extitución representaba, por tanto, un intento por señalar las diferencias operativas en los mecanismos de poder contemporáneos. Sin embargo, esto trajo consigo nuevos problemas. Al menos para el trabajo que estaba haciendo en ese momento. A medida que el concepto ganaba peso y se convertía en una forma con la que filtrar el caso empírico, las diferencias ya tipificadas entre extitución e institución resultaron ser demasiado gruesas y rígidas para dar cuenta del caso con el nivel de detalle necesario. Sencillamente había cosas de la teleasistencia domiciliaria que desbordaban las fronteras que habíamos trazado entre extitución e institución.

Esto me hizo pensar que quizás era necesario volver sobre el concepto, reflexionar sobre los problemas que tuvimos con dicha noción y quizás restaurar un uso del término que eventualmente pudiera llevarnos por nuevos caminos. Quedó ahí, en un “quizás algún día”, hasta que me tope recientemente con un par de trabajos delVivero de Iniciativas Ciudadanas (VIC). En estos trabajos VIC utiliza el término extitución para señalar por un lado el funcionamiento de iniciativas ciudadanas urbanas derivadas del 15M, claramente opuesto a las instituciones tradicionales (verExtituciones: nuevas instituciones ciudadanas); y por otro lado, para guiar el diseño de espacios de cuidado para personas mayores no institucionales (ver Senior Urban Extitution).

Si tomamos estos trabajos y los que hicimos en su momento, es posible establecer una continuidad clara. El término se utiliza fundamentalmente para identificar una realidad, para agrupar y dar sentido a las características de funcionamiento de un dispositivo. El resultado es una suerte de: «Ah, claro, esto es una extitución!» Esto puede vivirse como una suerte de descubrimiento, un hallazgo. Sin embargo, cuando esto conduce a una clausura interpretativa, como ocurrió en mi caso, el hallazgo puede convertirse con demasiada rapidez en un simple reconocimiento. La culpa, de todos modos, no creo que sea del término, más bien de una suerte de ímpetu por sustantivizar difícil de aplacar cuando la palabreja tiene tanto gancho.

Así, y a riesgo de parece aguafiestas y aburrido, creo que puede ser terapéutico desandar el camino para tratar de desustantivizar la noción y re-instalar el uso topológico y materialista que tenía para Serres.

Si volvemos a Atlas (Serres, 1995) veremos que el concepto de extitución no designa tanto un tipo de entidad como una lógica que afecta a dicha entidad, una suerte de proceso. La pregunta que nos invita a hacer Serres es: ¿cuál es el vector de extitucionalización que defina una determinada entidad? En este uso, la noción de extitución no designa una entidad opuesta a la institución sino un determinado proceso que podemos encontrar en organizaciones tanto institucionales como extitucionales. “La institución puede definirse como una lógica centrípeta de establecimiento de geometrías claras, mientras la extitución define una lógica topológica centrífuga” (Serres, 1995, p. 124). Lo importante es el modo. En el fondo, una señala el plano de lo actual y el otro el plano de lo virtual (Lévy, 1999), independientemente de la entidad que consideremos. Ambas lógicas operan tanto en plataformas de organización online como en instituciones de carne y ladrillo de toda la vida. De hecho, el entuerto con el término extitución se asemeja mucho al que encontramos cuando asimilamos la disciplina foucaultiana a la clausura de las instituciones. Foucault nos explica en Vigilar y Castigar que el encierro es recreado por las disciplinas normativas de un modo diferente porque éstas operan en los márgenes e incluso al margen de dicho encierro (de ahí por ejemplo la escolarización de la familia y la familiarización de la escuela).

Entender la extitución como una lógica o manera, en vez de como una realidad positiva, nos permite interrogar a las organizaciones sociales sin necesidad de identificarla con tipologías pre-establecidas. De hecho, si revisamos los conceptos de espacio liso y espacio estriado que proponen Deleuze y Guattari en Mil Mesetas, es posible entender la distinción entre institución y extitución como tendencias en un determinado terreno de juego, como dos conceptos que designan las potencias de organización y disolución que componen un espacio concreto y no como conceptos contradictorios que operan a partir de una relación dialéctica. Como dicen Deleuze y Guattari (1988):

“Los dos espacios sólo existen de hecho gracias a las combinaciones entre ambos: el espacio liso no cesa de ser traducido, transvasado a un espacio estriado; y el espacio estriado es constantemente restituido, devuelto a un espacio liso” (Deleuze y Guattari, 1988, p. 484).

Por lo tanto, lo importante no es tanto por afirmar que estamos ante una extitución o ante una institución.  El reto, y es un reto bien complicado, es encontrar y describir los mecanismos específicos de institucionalización (territorialización) y extitucionalización (desterritorialización) que configuran un determinado dispositivo. Un reto que se vuelve si cabe aún más relevante cuando lo que buscamos al pensar o diseñar estos dispositivos es deliberadamente desplazar el binomio moral y espacial moderno.

Daniel López

http://dlopezgo.net


–  Deleuze, G., & Guattari, F. (1988). Mil mesetas : Capitalismo y esquizofrenia. Valencia: Pre-Textos.
–  Lévy, Pierre. (1999). ¿Qué es lo virtual? Barcelona; Buenos Aires; México: Paidós
–  López, D. (2006). La teleasistencia domiciliaria como extitución. Análisis de las nuevas formas espaciales del cuidado. In F. J. Tirado & M. Domènech (Eds.), Lo social y lo virtual : Nuevas formas de control y transformación social (pp. 60-78). Barcelona: Editorial UOC
–  Serres, M. (1995). Atlas. Madrid: Cátedra
–  Serres, M. (1996). La comunicación : Hermes I. Barcelona: Anthropos Editorial del hombre.
–  Tirado, F. J., & Domènech, M. (2001). Extituciones: Del poder y sus anatomías.Politica y Sociedad, 36, 183-196
–  Vitores, A. (2002). From hospital to community: Case management and the virtualization of institutions. Athenea Digital, 1(6)

Stengers: Ciencia y Valores (Networks & Matter)

07.04.14

por 

Ando dándole vueltas a cómo Stengers pudiera ayudarnos a pensar las “colaboraciones experimentales“. Por ello, me he embarcado en una traducción apócrifa de algunos pasajes de Stengers, I. (2013). Science et valeurs : comment ralentir?. In Une autre science est possible ! Manifeste pour un ralentissement des sciences suivi de Le poulpe du doctorat (pp. 51-82). Paris: La Découverte/Les Empêcheurs de Penser en Rond.

https://i0.wp.com/ecx.images-amazon.com/images/I/510rHJZQm3L._SY300_.jpg

Están divididos por bloques… Cualquier sugerencia de mejora con la traducción será más que bienvenida.

Carácter exigente del experimento / expansión a otros dominios más allá de las ciencias experimentales / diferencia entre logro en ciencias experimentales y sociales

“[…] Subrayar el carácter extremadamente exigente de lo que supone el éxito de un experimento [réussite expérimentale] no es confirmar el privilegio del que ya se benefician las ciencias experimentales, ‘duras’ por definición, sino liberar el espacio para otros tipos de éxito que prolonguen el éxito de un experimento, pero reinventándolo, asociándolo a otro tipo de condiciones. Esas otras condiciones no debieran ser ‘blandas’, sino tan exigentes como las experimentales –aunque exigiendo otra cosa-” (pp.65-66)

“[…] Una perspectiva que llamaremos ‘pragmática’ pudiera, por tanto, sustituir a la noción de ‘visión científica’ del mundo, de un mundo concebido bajo el modelo de lo que exige el éxito de un experimento: en el fondo indiferente, en efecto complicado, pero no proponiendo más que un sólo tipo de éxito, a saber, el descubrimiento del ‘buen punto de vista’ que permite hacerse ‘buenas preguntas’ a partir de las cuales el follón de las observaciones empíricas pueda devenir inteligible […] Una aproximación pragmática prestará, sin embargo, la mayor de las atenciones a esta diferencia que supone que las condiciones del éxito de un experimento puedan ser puestas en duda [mettre en cause].” (p. 66)

“[…] Pragma significa ‘asunto’ [affaire], y el asunto de los científicos es siempre el de la puesta en relación, en de la creación de una relación con otros seres, que busca obtener una respuesta a una pregunta de esos otros seres. Pero hay muchos tipos de puestas en relación de ese género –relaciones por ejemplo bajo la insignia de la seducción, de la tortura, de la investigación estadísticas…–. Si, como propongo, llamamos ‘ciencias modernas’ a las prácticas colectivas que reunen a ‘colegas competentes’ en torno a ponerse en relación con éxito con quien es interrogado, esa relación debiera ser tal que permitiera a los colegas aprender acerca de lo que estudian. En otros términos, esa relación, para tener un valor ‘científico’ que prolongue los valores del éxito de un experimento, debería solicitar que quien es interrogado tenga la capacidad de poner en riesgo [mettre en risque] la pregunta que se le ha lanzado” (pp. 66-67)

“[…] Es únicamente a través de protagonistas ‘recalcitrantes’, que exigen que aquello que les importa sea reconocido y tomado en consideración en la manera de dirigirse a ellos, como se puede crear una relación susceptible de reivindicar un valor científico” (p.67)

“Pero mientras que la puesta en riesgo [mise en risque] en las ciencias experimentales exige la indiferencia de quien es interrogado por la pregunta, las ciencias sociales exigirían sin embargo su no-indiferencia –no desde luego su derecho a dictar a los científicos cómo quieren ser descritos, sino su capacidad de evaluar la pertinencia de la puesta en relación propuesta. Así, está claro que lo que el ‘sociólogo latouriano’ relatará a sus colegas será diferente de lo que relate un experimentador en al menos tres puntos. Para empezar, no podrá tratarse de hechos de los que pretenda tener el poder de imponer su propia interpretación, siendo los colegas sus verificadores […] Asimismo, los colegas no serán convocados a reunirse en una dinámica colectiva en la que cada puesta en relación lograda abra o cierre nuevas posibilidades de puesta en relación. Y estarán, por último, tan poco unidos que la publicación de quien lo ha logrado no les tendrá como únicos destinatarios. De hecho, un logro de este tipo es susceptible de interesar a mucha gente y, si falla, de transformar la manera en que los sociólogos serán acogidos y puestos a prueba por otros grupos” (p.68)

Del “saber sobre” al “saber entre” / Descolonización del pensamiento como ocasión de aprendizaje y no sólo de culpa-heroismo

“La ‘ralentización’ de las ciencias no es una respuesta a los contrastes que debemos introducir entre ciencias, sino que es la condición sine qua non para una respuesta, esto es, también para las prácticas de evaluación que reúnen a los colegas en torno a un modo liberado del modelo acumulativo que trata el mundo considerándolo como dado. Nuestros mundos requieren de otro tipo de imaginación que el ‘pero entonces eso debiera…’ o el ‘y por tanto eso podría…’. Y la pluralidad de estas demandas podría bien responder a una pluralidad de dinámicas de aprendizaje colectivo, poniendo en juego lo que significa, para cada ciencia, una puesta en relación arriesgada”. (pp. 69-70)

“Tomaría como caso prometedor la manera en que ciertos etnólogos han aprendido a desplegar lo que tal puesta en relación supondría, en tanto se han arriesgado a cortar amarras con el anclaje que aseguraba la diferencia estable entre el etnólogo y aquellos a los que interroga. Lo que han relatado es menos un saber ‘sobre’ que un saber ‘entre’, un saber indisociable de la transformación misma del investigador cuyas cuestiones han sido puestas a prueba por otras maneras de dotar de importancia a las cosas, los seres y las relaciones. Y es en la medida en que esa transformación les concierne a todos, con sus riesgos y peligros que los colegas son ‘competentes’, es decir, interesados en primer lugar por lo que uno de ellos ha aprendido, los límites con los que ha tropezado, la manera en que ha podido negociar o reconocer el sentido, pero también la manera en que ha sido forzado a posicionarse, a aceptar que su manera de pensar, de escuchar y de anticipar le sitúa. Es eso que Eduardo Viveiros de Castro denomina un proceso de ‘descolonización del pensamiento’; pero mi aproximación me lleva a pensar este proceso no con connotación de culpa ni de heroísmo, sino en términos de aprendizaje –el etnólogo puede tener viva la memoria del denso vínculo entre la etnología y la colonización, pero no es esto lo que le hará capaz de aprender de aquellos que acepten acogerle” (p.70)

Permitir que cada uno se exprese en sus términos y evalúe desde sus términos / Las ciencias sociales no serán nunca amigas del estado / Extensión de la democracia

“[…] Imaginemos unas ciencias sociales ‘desamalgamadas’ de las ciencias camerales, afirmando el carácter altamente selectivo de sus logros, la necesidad de que aquellos a los que se dirigen, a propósito de quienes tratan de aprender, estén habilitados para evaluar la manera en que se dirigen a ellos y que eso ocurra, sin embargo, sin ‘capturar’ al investigador, convirtiéndolo en un portavoz. Esta doble condición responde a un agenciamiento simbiótico. Tanto el investigador ‘de visita’ como aquellos que lo acogen deben ser capaces de aceptar no capturar al otro y, gracias a esta condición, serán susceptibles de aprender, pero de un modo diferente, en función de lo que les es relevante. Pero lo que requieren las ciencias sociales es también lo que requiere eso que llamamos democracia, si por ella entendemos una dinámica colectiva que permita a aquellos concernidos por una cuestión hacerse capaces de no aceptar o defender una formulación precocinada” (p.76)

“La gobernanza [la gouvernance] en sí misma, y sus ciencias camerales, no tienen los medios de plantearse la cuestión de qué sería una evaluación pertinente, puesto que la pertinencia no es su propósito. Dejadas a ellas mismas, percibirán toda situación con sus propias categorías: ‘debe poder ser evaluado’. La posibilidad de una respuesta que no sea defensiva (¡nada de evaluación!) exige la negociación de convenciones y estas negociaciones exigen la ‘recalcitrancia’, la capacidad para los grupos concernidos de formular lo que cuenta para ellos, lo que deberá tomar en consideración la evaluación –lo que constituirá una ‘convención’ aceptable.

No nos equivoquemos, la cuestión ‘¿cómo queremos ser evaluados?’ no es una verdadera prueba que exija la dinámica colectiva de habilitación que he asociado con la democracia. Y es ahí, evidentemente, donde las ciencias sociales podrían a la vez aprender y valorizar sus saberes en un entorno donde no serían una autoridad sino un recurso. No ‘contra’ la gobernanza, sino en un modo que active las posibilidades de resistir a la captura cameral. Entre las ciencias sociales y el Estado no debiera haber antagonismo, pero tampoco colaboración únicamente. Sólo un vínculo que tuviera la misma precariedad que la definición misma del ‘Estado democrático’, uniendo dos maneras de hacer importar que serían cada una la pesadilla de la otra. Las ciencias sociales no serán jamás las amigas del Estado, puesto que sus logros están destinados a complicarle la vida. Pero la manera en que el Estado escucha y anticipa, o al contrario sufre o a lo mejor tolera esta complicación es una medida de la efectividad de su relación con eso que llamamos democracia.” (pp. 77-78)

“[…] Las ciencias funcionan por extracción, y si hay procesos de aprendizaje, éstos suelen apoyarse en la extracción de aquello que, situado aquí, es susceptible de ser relatado en otro lado. Es la manera en que se han ligado extracción y modernización donde se plantea el problema, lo que transforma la pregunta ‘¿qué podemos aprender aquí?’ en un principio de juicio que identifica lo que ha sido extraído con lo que importa verdaderamente y el resto con un caparazón de creencias y hábitos parásitos. Disolver este vínculo requiere de una verdadera prohibición: que nadie pueda estar autorizado a definir ‘lo que importa verdaderamente’. Esta prohibición no es moral, sino la condición de una cultura de la simbiosis, de una cultura en que cada protagonista tenga la capacidad de presentarse con lo que le importa y de saber que lo que aprenderá del otro quedará comprendido entre las respuestas a las cuestiones que para él importan. Cuestiones cuyo valor remite, entonces, pertinencia, condición para que la respuesta no sea arrebatada, puesto que es precisamente la pertinencia la que prohíbe el sueño de la extracción de aquello que es ‘verdaderamente importante’ Uno no se adueña de aquello de lo que depende. Si aquello que hace existir al otro con su consistencia propia es lo que le permite su recalcitrancia, y si ésta es la condición del aprendizaje de lo pertinente, el sueño en cuestión no remite a la aventura de las ciencias modernas, sino a los felices tiempos de las colonias, cuando los pueblos eran, junto a todo lo otro, aquello de lo que se debía extraer aquello que nos permitiría ‘progresar’, con la ocurrencia de decir ‘ellos creen / nosotros sabemos’.” (p. 80)

“[…] ralentizar es volver a ser capaces de aprender, de conocer con, de reconocer eso que nos sostiene y permite tener, pensar e imaginar. Y, en ese mismo proceso, de crear con los otros relaciones que no sean de captura; es, por tanto, crear entre nosotros y con los otros el tipo de relación que conviene a los enfermos, que tienen necesidad unos de otros para reaprender los unos con los otros, gracias a los otros, lo que supone una vida digna de ser vivida, saberes dignos de ser cultivados” (p.82)

Plantas podem ‘ouvir’ seus predadores e emitir repelentes (O Globo)

JC e-mail 4981, de 03 de julho de 2014

Estudo conseguiu provar capacidade de reação dos vegetais a vibrações sonoras

Apesar do que muitos pensam, as plantas também podem ouvir e reagir a determinados sons. Essa foi a principal conclusão de um estudo da Universidade de Missouri, publicado na revista Oecologia.

Os pesquisadores descobriram que determinados tipos de vegetais têm a capacidade de ouvir lagartas que comem folhas e responder através da emissão de produtos químicos para repelir o predador. Até então, já se sabia que algumas plantas respondem às vibrações emitidas pelo ambiente a sua volta, mas o que não se compreendia era o motivo das respostas.

O experimento observou o comportamento de um conjunto de plantas ao ser exposto à gravação de lagartas comendo folhas. O resultado mostrou que os vegetais emitiram maior quantidade de produto químico repelente, e fez isso mais rapidamente do que as plantas que não foram expostas ao som. Além disso, ruídos de fundo como vento ou insetos não tiveram impacto sobre as plantas, indicando que elas poderiam distinguir o som de seus predadores.

O próximo passo dos pesquisadores será agora procurar as “orelhas” das plantas. Até o momento, a principal hipótese é os canais auditivos tomam a forma de proteínas conhecidas como “mecanorreceptores”, encontradas em vegetais e animais que respondem à pressão.

(O Globo, com Agências)
http://oglobo.globo.com/sociedade/ciencia/plantas-podem-ouvir-seus-predadores-emitir-repelentes-13117320#ixzz36PnetUb1

Mudança do clima e ação humana alteram litoral no Brasil (Fapesp)

Barreira de proteção para proteger a praia da força das ondas. Estudo realizado por pesquisadores de São Paulo e de Pernambuco detalhou a vulnerabilidade da costa nos dois estados (foto: Eduardo Siegle)
04/07/2014

Por Fabio Reynol

Agência FAPESP – As zonas costeiras costumam sofrer alterações provocadas por elementos naturais, como elevação do nível do mar e o regime de ondas a que são submetidas. Com as mudanças climáticas, os elementos naturais que influenciam nas alterações das praias, chamados de condições forçantes, devem se intensificar e modificar o desenho das terras costeiras.

Pesquisa conduzida em São Paulo e Pernambuco, que investigou os impactos sofridos por quatro praias nos dois estados, concluiu, no entanto, que os efeitos da ação humana podem ser ainda mais fortes do que os da natureza.

Executado com apoio da FAPESP e da Fundação de Amparo à Ciência e Tecnologia do Estado de Pernambuco (Facepe), o trabalho é resultado de uma chamada de propostas lançada no âmbito de um acordo de cooperação entre as instituições.

A pesquisa “Vulnerabilidade da zona costeira dos estados de São Paulo e Pernambuco: situação atual e projeções para cenários de mudanças climáticas” durou três anos, período em que foram estudadas as praias paulistas de Ilha Comprida, no município de mesmo nome, e de Massaguaçu, em Caraguatatuba, e as pernambucanas praia da Piedade, em Jaboatão dos Guararapes, e praia do Paiva, em Cabo de Santo Agostinho.

“Escolhemos praias com características diferentes para fazer as comparações. Massaguaçu, no litoral norte paulista, e Jaboatão, na região metropolitana do Recife, são praias urbanas, enquanto Ilha Comprida e Paiva ficam em regiões menos habitadas”, disse o coordenador do projeto, Eduardo Siegle, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO/USP), que dividiu a liderança dos trabalhos com a professora Tereza Araújo, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

A pesquisa analisou como as mudanças climáticas globais provocam alterações na costa. Uma das condições forçantes é o clima de ondas. Segundo Siegle, as mudanças climáticas provocam alterações nos regimes de ventos, principais influenciadores na formação das ondas. Com direção e força alteradas, as ondas podem redesenhar o contorno das praias, refazendo sua morfologia.

“As ondas redefinem os depósitos de sedimentos e as praias atingem um equilíbrio dinâmico mediante as condições a que estão sujeitas; pode ocorrer erosão em alguns pontos e deposição de material em outros”, disse Siegle, acrescentando que uma praia pode encolher, mudar de formato e até aumentar de tamanho.

Outro fator decorrente das mudanças climáticas é a elevação do nível do mar, que leva as ondas a ter maior alcance e atingir novos pontos da costa. Essa condição costuma aumentar erosões e provocar inundações de áreas próximas à costa.

Um ponto confirmado pelos resultados obtidos foi o fato de que, em algumas regiões, as ações antrópicas no litoral exerceram mais influência nessas alterações que as forças da natureza. “Acompanhamos imagens de décadas. Nesse período, os impactos de uma ocupação mal feita do litoral podem ser muito maiores do que aqueles provocados por mudanças climáticas”, disse.

Processos de urbanização que impermeabilizam áreas praianas necessárias ao movimento de sedimentos, por exemplo, costumam provocar erosões de forma mais acentuada. No estudo, a ação humana figurou entre os principais influenciadores da vulnerabilidade costeira.

Observação dos processos costeiros

O trabalho também se debruçou sobre as mudanças históricas nas condições forçantes naturais. Para isso, a equipe lançou mão de modelos computacionais que simularam essas forças e seus efeitos ao longo das últimas décadas. Outro método de investigação foi a coleta de dados em campo. Os pesquisadores fizeram levantamentos morfológicos, que analisam o formato das praias e mediram parâmetros de suas ondas.

A medição de variáveis físicas na região costeira exigiu a aplicação de métodos inovadores para colocar instrumentos nas zonas de arrebentação, relatou Siegle. A equipe acoplou um perfilador acústico de correntes marinhas Doppler (ADCP) em uma moto aquática com um trenó.

O equipamento fornece parâmetros como velocidade das correntes na coluna d’água, altura, direção e período das ondas. A moto aquática foi usada para levantamentos batimétricos e hidrodinâmicos em áreas rasas sujeitas à arrebentação de ondas, nas quais embarcações convencionais não conseguem navegar.

Uma série de imagens aéreas registradas ao longo de aproximadamente 40 anos foi outra importante fonte de dados para a pesquisa. Foram acessados arquivos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e do próprio Instituto Oceanográfico da USP. Por meio de pontos georreferenciados marcados sobre as imagens, foi possível acompanhar as alterações na faixa costeira ao longo do tempo.

Com os dados coletados pelos diferentes métodos, o grupo estabeleceu nove indicadores de vulnerabilidade: posição da linha de costa, largura da praia, elevação do terreno, obras de engenharia costeira, permeabilidade do solo, vegetação, presença de rios ou desembocaduras, taxa de ocupação e configurações ao largo. Este último diz respeito à área de mar aberto adjacente à região costeira em estudo.

Sistemas praiais mais largos tendem a ser mais estáveis que faixas estreitas, portanto menos vulneráveis. A presença de vegetação bem desenvolvida na zona pós-praia sugere um cenário de baixa erosão e rara intrusão de água salina.

A vulnerabilidade à inundação pode ser estimada, entre outros fatores, pela permeabilidade do solo. Quanto menos permeável for o solo, mais sujeita à inundação será a área. E por alterar simultaneamente vários desses fatores, a taxa de ocupação da costa é um dos mais preponderantes indicadores de vulnerabilidade de uma área costeira.

Os indicadores foram depois tabulados e classificados de acordo com três graus de vulnerabilidade: alta, média ou baixa, para cada ano analisado. Registrou-se a evolução da vulnerabilidade de cada praia estudada e os pesquisadores chegaram a várias conclusões.

“Entre elas eu destacaria a importância da ocupação humana no litoral na elevação da vulnerabilidade da praia”, disse Siegle. As praias urbanas nos dois estados apresentaram situação de vulnerabilidade maior que aquelas com taxa de ocupação menor.

A aplicação desse método foi detalhada na tese de doutorado de Paulo Henrique Gomes de Oliveira Sousa, intitulada “Vulnerabilidade à erosão costeira no litoral de São Paulo: interação entre processos costeiros e atividades antrópicas”, defendida em 2013 no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia do IOUSP.

O projeto de pesquisa resultou em cinco trabalhos de iniciação científica, quatro dissertações de mestrado e duas teses de doutorado, uma com bolsa FAPESP – Cássia Pianca Barroso desenvolveu o trabalho “Uso de imagens de vídeo para a extração de variáveis costeiras: processos de curto a médio termo”.

De acordo com Siegle, vários artigos estão em fase de redação e quatro já foram publicados, entre elesEvolução da vulnerabilidade à erosão costeira na Praia de Massaguaçú (SP), Brasil noJournal of Integrated Coastal Management e Vulnerability assessment of Massaguaçú Beach (SE Brazil) na Ocean & Coastal Management.

Parceria São Paulo-Pernambuco

Além dos resultados científicos, o projeto apresentou como fruto a aproximação entre instituições de pesquisa paulistas e pernambucanas. “A interação foi muito grande e pesquisadores pernambucanos participaram das pesquisas em campo em São Paulo e vice-versa”, contou Siegle.

A aproximação dos grupos levou a outro trabalho conjunto FAPESP-FACEPE, o projeto “Suscetibilidade e resistência de sistemas estuarinos urbanos a mudanças globais: balanço hidro-sedimentar, elevação do nível do mar, resposta a eventos extremos”, coordenado pelos professores Carlos Schettini (UFPE) e Rubens Cesar Lopes Ferreira (IO/USP).

A execução do projeto coordenado por Siegle e Tereza Araújo ainda levou à formação do Grupo de Trabalho “Respostas da Linha de Costa” que incorpora o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Ambientes Tropicais Marinhos (AmbTropic) , sediado no Instituto de Geociências da Universidade Federal da Bahia e apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb).

Declassified Documents Given By Biden to Rousseff Detail Secret Dictatorship-Era Executions, “Psychophysical” Torture in Brazil (Unredacted)

JULY 3, 2014

"Allegations of Torture in Brazil."

The Brazilian military regime employed a “sophisticated and elaborate psychophysical duress system” to “intimidate and terrify” suspected leftist militants in the early 1970s, according to a State Department report dated in April 1973 and made public yesterday. Among the torture techniques used during the military era, the report detailed “special effects” rooms at Brazilian military detention centers in which suspects would be “placed nude” on a metal floor “through which electric current is pulsated.” Some suspects were “eliminated” but the press was told they died in “shoot outs” while trying to escape police custody. “The shoot-out technique is being used increasingly,” the cable sent by the U.S. Consul General in Rio de Janeiro noted, “in order to deal with the public relations aspect of eliminating subversives,” and to “obviate ‘death-by-torture’ charges in the international press.”

Because of the document’s unredacted precision, it is one of the most detailed reports on torture techniques ever declassified by the U.S. government.

"****"

Titled “Widespread Arrests and Psychophysical Interrogation of Suspected Subversives,” it was among 43 State Department cables and reports that Vice President Joseph Biden turned over to President Dilma Rousseff during his trip to Brazil for the World Cup competition on June 17, for use by the Brazilian National Truth Commission (CNV). The Commission is in the final phase of a two-year investigation of human rights atrocities during the military dictatorship which lasted from 1964 to 1985.  On July 2, 2014, the Commission posted all 43 documents on its website. “The CNV greatly appreciates the initiative of the U.S. government to make these records available to Brazilian society and hopes that this collaboration will continue to progress,” reads a statement on the Commission’s website.

The records range in date from 1967 to 1977. They report on a wide range of human rights-related issues, among them: secret torture detention centers in Sao Paulo, the military’s counter-subversion operations, and Brazil’s hostile reaction in 1977 to the first State Department human rights report on abuses. Some of the documents had been previously declassified; others, including the April 1973 report from Rio, were reviewed for declassification as recently as June 5, 2014, in preparation for Biden’s trip.

***

During his meeting with President Rousseff, Biden announced that the Obama administration would undertake a broader review of still highly classified U.S. records on Brazil, among them CIA and Defense Department documents, to assist the Commission in finalizing its report.  “I hope that in taking steps to come to grips with our past we can find a way to focus on the immense promise of the future,” he noted.

Since the inception of the Truth Commission in May 2012, the National Security Archive has been assisting the Commissioners in obtaining U.S. records for their investigation, and pressing the Obama administration to fulfill its commitment to a new standard of global transparency and the right-to-know by conducting a special, Brazil declassification project on the military era.

Advancing truth, justice and openness is precisely the way classified U.S. historical records should be used.  Biden’s declassified diplomacy will not only assist the Truth Commission in shedding light on the dark past of Brazil’s military era, but also create a foundation for a better and more transparent future in U.S.-Brazilian relations.

To call attention to the records and the Truth Commission’s work, the Archive is highlighting five key documents from Biden’s timely donation:

1)  Widespread arrests and psychophysical interrogation of suspect subversives

2) Political arrests and torture in São Paulo

3) Allegation of torture in Brazil

4) Conditions in DEOPS Prison as told by Detained American Citizen

5) Esquadrão da Morte

 

For more information contact Peter Kornbluh (peter.kornbluh@gmail.com202 374-7281) who directs the National Security Archive’s Brazil Documentation Project.

David Harvey: “As contradições do capitalismo” (Rede Castor Photo)

11/4/2014, [*] David Harvey entrevistado por Jonathan Derbyshire, Prospect Magazine, UK

The contradictions of capitalism: an interview with David Harvey

Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

David Harvey é professor de antropologia e geografia do Centro de Graduação da City University of New York (CUNY). Dá aulas sobre “O Capital” de Karl Marx há mais de 40 anos e é autor de um “guia de leitura”, em dois volumes, para ler a grande obra de Marx. Essa leitura microscópica de “O Capital” é fruto de uma série de 13 conferências, cujos vídeos Harvey distribuiu online.

Seu livro mais recente é 17 Contradições e o Fim do Capitalismo. O livro começa com uminsight de Marx – que crises periódicas são endêmicas nas economias capitalistas – e oferece uma análise da atual conjuntura histórica. Conversei com o professor Harvey em Londres, semana passada.

Prospect Magazine: No início do livro, o senhor observa, como outros também observaram, que há algo de diferente na mais recente crise do capitalismo, a crise financeira global de 2008:

Seria de esperar que todos – o senhor escreveu lá – tivessem diagnósticos concorrentes a oferecer sobre o que está errado, e que houvesse uma proliferação de propostas de o que fazer para corrigir tudo. O que mais surpreende hoje é a miséria de pensamento novo e de novas políticas.

Por que não há nem diagnósticos nem propostas nem ideias novas?

David Harvey: Uma hipótese é que a concentração de poder de classe que se vê hoje é de tal modo gigantesca, que não há por que a classe capitalista precise ou queira ver qualquer tipo de pensamento novo. A situação, por mais que seja disruptiva para a economia, não é necessariamente disruptiva para a capacidade de os ricos acumularem mais riqueza e mais poder. Assim sendo, há bem claro interesse em manter as coisas como estão. O que é curioso é que havia também, é claro, muito interesse em manter as coisas como estavam nos anos 1930s, mas aquele interesse foi atropelado por Roosevelt, pelo pensamento Keynesiano etc..

O problema da demanda agregada, que era o centro do pensamento nos anos 1930s, é problema de realização, em termos marxistas. As pessoas respondiam a pergunta e, na sequência, entraram num problema de produção, que foi respondido pelo monetarismo e pela economia de oferta. E exatamente hoje, o mundo está dividido entre os que se põem do lado da oferta e querem mais austeridade, e outros – China, Turquia e quase todas as economias em desenvolvimento – que assumem a linha keynesiana.

Mas parece que só há duas respostas – não há “terceira via”. No âmbito do capitalismo, as possibilidades são limitadas. O único modo pelo qual você pode encontrar outra resposta é pôr-se fora do capitalismo, mas ninguém quer nem ouvir falar disso!

Prospect MagazineIsso posto, o senhor aceita, no livro, que há elementos na classe capitalista, na classe intelectual, que reconhecem a ameaça que o senhor identifica e chama de “contradições” do capitalismo. Exemplo notável aí é a discussão do problema da desigualdade.

David Harvey: Credito ao movimento Occupy ter lançado e posto em circulação essa nova conversa. O fato de que temos em New York um prefeito completamente diferente do que havia antes e que disse que vai fazer tudo que puder para reduzir a desigualdade, toda a possibilidade dessa discussão é coisa que brotou diretamente do movimento Occupy. É interessante que todos sabem do que você está falando, sempre que se fala do “1%”. A questão do 1% foi afinal posta na agenda e se tornou objeto de estudos em profundidade, como, por exemplo, o livro de Thomas Piketty, O Capital no século 21 (fr. [1]). Joseph Stiglitz também tem um livro sobre desigualdade e vários outros economistas estão falando do assunto. Até o FMI já está dizendo que há um perigo específico que surge quando a desigualdade alcança determinado nível.

Prospect Magazine: Até Obama já anda dizendo isso!

David Harvey: Mas Obama nada diria sobre isso se o movimento Occupy não tivesse aberto a trilha. Mas quem está fazendo alguma coisa sobre o problema e de que modo alguma coisa estaria sendo realmente mudada? Se se consideram as políticas reais, vê-se que as desigualdades continuam a aprofundar-se. Há reconhecimento apenas retórico do problema, mas não há reconhecimento político, em termos de políticas ativas e redistribuição ativa.

Prospect MagazineO senhor falou de Occupy. No livro, o senhor critica muito duramente o que o senhor chama de “restos da esquerda radical” – a qual hoje, para o senhor, é predominantemente liberal, libertarista e anti-estado.

David Harvey: Tenho uma regra que por definição nunca falha: o modo de produção dominante, seja qual for, e sua articulação política, criam a forma de oposição contra eles. Assim, as grandes fábricas e grandes corporações – General Motors, Ford etc. – criaram uma oposição baseada no movimento trabalhista e nos partidos da social-democracia; o rompimento dessa ordem – e vivemos hoje precisamente o momento desse rompimento – criou esse tipo de oposição dispersa e dispersiva que só sabe usar algumas específicas linguagens para suas reivindicações.

A esquerda não dá sinais de estar percebendo que muito do que diz é consistente com a ética neoliberal, em vez de lhe fazer oposição… Parte do anti-estatismo que se encontra hoje na esquerda casa-se perfeitamente com o anti-estatismo do capital empresarial corporativista.

Preocupa-me muito que não se ouça pensamento da esquerda que diga “Vamos nos afastar dessas conversas e observar o quadro completo”. Espero que meu livro contribua para que tenhamos essa nova conversa.

Prospect MagazineO livro conclui num lugar interessante – com algo como um programa, 17 “ideias para a prática política”. Mas não aparece a pergunta, embora, sim, possa estar implícita no que o senhor acabou de dizer, sobre qual é o veículo apropriado para realizar aquele programa. Não se sabe onde encontrá-lo. Não é óbvio que o encontraremos.

David Harvey: Uma das coisas que temos de aceitar é que está emergindo um  novo modo de fazer política. No presente, ainda é muito espontaneísta, efêmero, voluntarista, com alguma relutância a deixar-se institucionalizar. Como poderá ser institucionalizado é, creio eu, questão aberta. E não tenho resposta para isso. Mas é claro que, de algum modo, terá de institucionalizar-se ou ser institucionalizado. Há novos partidos começando a emergir – o Syrizana Grécia, por exemplo. O que me preocupa é o que comento no livro como um estado de alienação em massa, que está sendo capitalizado amplamente pela direita. Há portanto, sim, alguma urgência em a esquerda tratar da questão de como nós nos institucionalizaremos como força política, para resistir contra uma virada de direita e capturar parte significativa do descontentamento que está nas ruas e empurrá-lo numa direção progressista, não em direção neofascista.

Prospect MagazineO senhor descreve seu livro como tentativa para expor as contradições, não do “capitalismo”, mas do “capital”. O senhor pode explicar essa diferença?

David Harvey: Essa diferença vem de minha leitura de Marx. Pensa-se quase sempre que Marx teria criado alguma espécie de compreensão totalista do capitalismo, mas Marx não fez nada disso. Marx não arredou pé da economia política e manteve seus argumentos sempre na linha de como opera o motor econômico de uma economia capitalista. Se você isola o motor econômico, você consegue ver quais serão os problemas daquela economia.

Não implica dizer que não haverá outros tipos de problemas numa sociedade capitalista – é claro que há racismo, discriminação por gênero, problemas geopolíticos. Mas a questão que me preocupava ao escrever esse livro era outra, mais limitada: como funciona o motor da acumulação de capital?

Já estava bem claro desde o estouro de 2007/8 que havia alguma coisa errada com o próprio motor. E dissecar o que esteja errado com o motor já será um passo na direção de política mais ampla. Esse motor econômico é muito complicado. E Marx criou um meio para compreender o motor econômico, servindo-se de ideias como “contradição” e “formação-de-crises”.

Prospect MagazineMais uma questão de definição: o que é capital?

David Harvey: Capital é o processo pelo qual o dinheiro é posto em ação para que se obtenha mais dinheiro. Mas é preciso muito cuidado, se só se fala de dinheiro, porque em Marx há uma relação muito complexa, como aponto no livro, entre “valor” e “dinheiro”. O processo é de busca de valor para criar e apropriar-se de mais valor. Mas esse processo assume diferentes formas – a forma dinheiro, de bens e mercadorias, processos de produção, terra… Ele tem manifestações físicas, forma-de-coisa, mas, no fundamento, não é coisa: é um processo.

Prospect MagazineVoltemos à noção de “contradição”, que é a categoria analítica central no livro. O senhor fez uma distinção entre os choques externos pelos quais pode passar uma economia capitalista (guerras, por exemplo) e contradições, no seu sentido da palavra. Assim, por definição, contradições são internas ao sistema capitalista?

David Harvey: Sim. Se você quiser redesenhar o modo de produção, é preciso, então, responder as questões postas pelas contradições internas.

Prospect MagazineO senhor identifica três classes de contradições, que o senhor chama de “fundacionais”, as “mutantes” e as “perigosas”. Comecemos pela primeira categoria: o que faz as contradições fundacionais serem fundacionais?

David Harvey: Não importa onde esteja o capitalismo e o modo de produção capitalista, você sempre encontrará essas contradições em operação. Em qualquer economia – seja a China contemporânea, o Chile ou os EUA – a questão do valor de uso e do valor de troca, por exemplo, lá estará, sempre. Há algumas contradições que são traços permanentes de como o motor econômico está montado. E há outras que mudam constantemente ao longo do tempo. Então, eu quis distinguir as que são relativamente permanentes e as outras, que são muito mais dinâmicas.

Prospect MagazineAlgumas contradições fundacionais são mais fundacionais que outras? Um dos traços que mais chamam a atenção no livro é que tudo, no seu modelo analítico, parece derivar, no fundo, da diferença entre valor de troca e valor de uso.

David Harvey: Ora… esse é o ponto inicial da análise. Sempre me chamou a atenção que Marx dedicou muito tempo para demarcar o ponto no qual sua análise começaria; e decidiu começar por aí, porque é o ponto de partida mais universal. Mas o que mais me impressiona – e trabalho com Marx há muito, muito tempo – é o quanto as suas contradições são intimamente interligadas. Você percebe que essa distinção entre valor de uso e valor de troca pressupõe alguma coisa sobre propriedade privada e o Estado, por exemplo.

Prospect MagazineOutra das suas contradições fundacionais é entre “propriedade privada e o Estado capitalista”. Quer dizer: a tensão ou a contradição entre os direitos individuais de propriedade e o poder coercivo do Estado. Agora, imaginemos alguém como Robert Nozick, criado na tradição liberal, Lockeana, que chega e diz que não há aí qualquer contradição. Ao contrário: o papel do estado “mínimo” é proteger a propriedade privada.

David Harvey: Uma das coisas que digo sobre contradições é que elas estão sempre latentes. Por isso, a existência de uma contradição não gera, necessariamente, uma crise. Gerará, sob algumas dadas circunstâncias. Portanto, é possível construir teoricamente a ideia de que tudo que um estado “guarda-noturno” faz é proteger a propriedade privada. Mas nos sabemos que esse estado “guarda-noturno” tem muito mais a fazer, além disso. Há externalidades no mercado que têm de ser controladas; já bens públicos que têm de ser fornecidos – e assim, muito rapidamente, o estado acaba por se envolver em todos os tipos de atividades, muito além de apenas cuidar do quadro legal dos contratos e dos direitos à propriedade privada.

Prospect MagazineO senhor nega que haja qualquer conexão necessária entre capitalismo e democracia. Pode explicar por quê?

David Harvey: A questão da democracia depende muito de definições. Supostamente haveria democracia nos EUA, mas é claro que não há, é uma espécie de farsa, de engodo – é a democracia do poder do dinheiro, não do poder do povo. E minha avaliação, desde os anos 1970s, a Suprema Corte legalizou o processo pelo qual o poder do dinheiro corrompe o processo político.

Prospect MagazineHá um aspecto do poder do estado que avançou para o centro do palco na crise recente e imediatamente depois, sobretudo durante a crise da dívida na Eurozona: falo do poder dos bancos centrais. O senhor acha que a função dos bancos centrais mudou de modo significativo durante a era dos “resgates”?

David Harvey: Evidentemente mudou. A história dos bancos centrais é, ela própria, terrivelmente interessante. Não tenho certeza de que o que o Federal Reserve fez durante a crise tenha tido qualquer base legal. O Banco Central Europeu, por sua vez, é caso clássico do que Marx disse, quando comentou a Lei dos Bancos de 1844, a qual, para ele, teve o efeito de estender e aprofundar a crise de 1847-8 na Grã-Bretanha. Mas nos dois casos, do Fed e do Banco Central Europeu, o que vimos é uma espécie de ajuste no traseiro – como alfaiates fazem com calças apertadas – de grandes instituições e a emergência de políticas que só seriam justificáveis depois do fato. Quero dizer: não há dúvida alguma de que, sim, houve mudanças no front do banco central.

Prospect MagazineHá um conceito ao qual o senhor volta várias vezes no livro: o conceito de “conversão em mercadoria” [também “mercadorização”, ing. commodification (NTs)].

David Harvey: O capital trata, sempre, da produção de mercadorias. Se há terreno não-mercadorizado, ali o capital não entra nem circula. Um dos meios mais fáceis para o capital conseguir penetrar aquele espaço é o estado impor ali um sistema de privatização – ainda que privatize algo que é só ficcional. Os créditos de carbono, por exemplo – trocar direitos de poluir é excelente exemplo de mercadoria criada por processo ficcional, que tem efeitos muito reais sobre o volume de dióxido de carbono na atmosfera, e assim por diante. Criar mercados onde antes não havia mercados é um dos meios pelos quais, historicamente, o capital expandiu-se.

Prospect MagazineO senhor foi pesadamente influenciado pelo trabalho de Karl Polanyi nessa área, não? Especificamente a obra prima dele, A Grande Transformação.

David Harvey: Polanyi não era marxista, mas compreendia, como Marx também compreendeu, que as ideias de terra, trabalho e capital não são mercadorias no sentido ordinário, mas que assumem uma forma de mercadoria.

Prospect Magazine: Um dos aspectos mais impressionantes do livro, pode-se dizer, mesmo, mobilizadores, emocionantes, é o relato que o senhor faz dos custos humanos da conversão em mercadoria – especificamente a conversão em mercadoria daquelas áreas da experiência humana que antes não eram parte do “nexo dinheiro”[orig. cash nexus, exp. de Marx]. Há aí uma conexão com o que o senhor chama de “alienação universal”. O que é isso?

David Harvey: Vivemos há tempos num mundo no qual o capital lutou sem parar para diminuir o trabalho, o poder do trabalho, aumentando a produtividade, removendo o aspecto mental dos serviços e empregos. Quando você vive em sociedade desse tipo, surge a questão de como alguém pode encontrar algum significado na própria vida, dado o que se faz como trabalho, no local de trabalho. Por exemplo, 70% da população dos EUA ou odeia trabalhar ou é totalmente indiferente ao trabalho que faz. Em mundo desse tipo, as pessoas têm de encontrar alguma identidade para elas mesmas que não seja baseada na experiência do trabalho.

Sendo assim, surge a questão do tipo de identidade que as pessoas podem assumir. Uma das respostas é o consumo. E temos um tipo de consumismo irrefletido que tenta compensar a falta de significação de um mundo no qual há bem poucos trabalhos com algum significado. Irrita-me muito ouvir políticos dizer que “vamos criar mais empregos”… Mas que tipo de empregos?

A alienação brota, entendo eu, de um sentimento de que temos capacidade e poder para ser alguém muito diferente do que é definido por nossas possibilidades. Daí surge a questão de até que ponto o poder político é sensível à criação de outras possibilidades? As pessoas olham os partidos políticos e dizem “Aqui, não há nada que preste”. Há, pois, a alienação para longe do processo político, que se manifesta em comparecimento declinante nas eleições; há a alienação para longe da cultura da mercadoria, também, que cria uma carência e o correspondente desejo por um outro tipo de liberdade. As irrupções periódicas que foram vistas pelo mundo – Parque Gezi em Istambul, “manifestações” no Brasil, quebra-quebra em Londres em 2011 – obrigam a perguntar se a alienação pode vir a ser uma força política positiva. E a resposta é sim, pode, mas não se vê nada parecido nos partidos ou movimentos políticos. Viram-se alguns elementos disso no modo como o movimento Occupy ou os Indignados na Espanha tentaram mobilizar pessoas, mas foi coisa efêmera e não amadureceu em ação mais substancial. Mesmo assim, há muito fermento nos campos da dissidência cultural; há algo em movimento, e é fonte de alguma esperança.

Prospect MagazineQuando o senhor discute as contradições “perigosas”, o senhor oferece o que me parece ser uma versão do materialismo histórico de Marx. Quero dizer: o senhor pensa, como Marx, que o presente está grávido de futuro, embora o senhor não pense de modo inevitabilista… Acho também que o senhor não vê nada de inevitabilismo, tampouco, no próprio Marx. Estou certo?

David Harvey: Não vejo, não, nada de inevitabilismo em Marx. Há quem diga que Marx teria dito que o capital desabará sob o peso de suas próprias contradições, e que Marx teria uma teoria mecanicista das crises das crises capitalistas. Mas jamais encontrei uma linha em que Marx tenha escrito coisa semelhante! O que Marx, sim, disse é que as contradições estão no coração das crises e que crises são momentos de oportunidade.

Marx também disse que os seres humanos podem criar a própria história, mas que não escolhem as condições sob as quais criarão a própria história. Para mim, portanto, há um Marx que, se não é libertarista, diz que os seres humanos são capazes de decidir coletivamente, de empurrar as coisas mais para uma direção, que para outra. Marx criticou o socialismo utópico, porque entendia que o socialismo utópico não lidava com o onde estamos. Marx disse que é preciso analisar onde se está, ver o que é viável para nós e, na sequência, tentar construir algo radicalmente diferente.

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Nota dos tradutores

[1] “A Editora Intrínseca comprou os direitos de tradução para o português do Brasil de O Capital no Século XXI, do francês Thomas Piketty. Está em tradução, esperado nas livrarias no segundo semestre de 2014” (deve ser tudo mentira, mas é o que escreveu o Lauro Jardim).

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[*] David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um geógrafo britânico, formado na Universidade de Cambridge. É professor daCity University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana. Seu primeiro livro, Explanation in Geography, publicado em 1969, versa sobre a epistemologia da geografia, ainda no paradigma da chamada geografia quantitativa. Posteriormente, Harvey muda o foco de sua atenção para a problemática urbana, a partir de uma perspectiva materialista-dialética. Publica então Social Justice and the City no início da década de 1970, onde confronta o paradigma liberal e o paradigma marxista na análise dos problemas urbanos.

Busca de novas metodologias direciona conservação biológica (Fapesp)

Pesquisadores avaliam fatores limitantes atuais na área em livro sobre ecologia aplicada e dimensões humanas na governança da biodiversidade (foto: Wikimedia)
03/07/2014

Por Elton Alisson

Agência FAPESP – A necessidade de ampliação da base conceitual e de inovações metodológicas e tecnológicas, além do aprimoramento da gestão, tem limitado a identificação e a solução de problemas relacionados à conservação biológica no planeta.

A avaliação é feita no livro Applied Ecology and Human Dimensions in Biological Conservation, recém-lançado pela editora Springer. A publicação é resultado de dois workshops internacionais realizados pelo Programa FAPESP de Pesquisas em Caracterização, Conservação, Restauração e Uso Sustentável da Biodiversidade (BIOTA-FAPESP), respectivamente, em 2009 e 2010, e dos avanços propiciados por esses eventos.

No workshop de 2009, o tema tratado foi ecologia aplicada e dimensões humanas na conservação biológica. Em 2010, foram abordados programas de estudos de longa duração em biodiversidade relacionados principalmente a monitoramento de padrões de diversidade biológica.

“Uma das novidades desses dois workshops foi abordar a conservação biológica do ponto de vista dos fatores que a limitam, como a necessidade de ampliação de sua base conceitual”, disse Luciano Martins Verdade, professor do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da Universidade de São Paulo (USP) e um dos editores do livro, à Agência FAPESP.

“Muitas vezes não se sabe como identificar e solucionar os problemas porque faltam conceitos sobre o tema”, afirmou Verdade, que coordenou os dois workshops e é membro da coordenação do Programa BIOTA-FAPESP.

Segundo Verdade, um conceito que precisa ser aprimorado é o da própria diversidade biológica. Ao tratar as espécies como unidades da diversidade biológica – pressupondo que, quanto mais espécies, maior a diversidade biológica de um determinado grupo –, corre-se o risco de subestimar o valor de linhagens mais antigas em termos evolutivos, mas que foram mais conservativas e tiveram menor especiação do que grupos mais recentes.

“Mesmo tendo originado menos espécies, o patrimônio gênico dessas linhagens mais antigas pode ter um valor maior do ponto de vista evolutivo do que o de grupos mais recentes”, avaliou.

Outro conceito que tem sido revisto, segundo o pesquisador, é o do papel histórico da ação humana na montagem dos padrões de diversidade biológica observados atualmente.

Há uma tendência de achar que biomas, como a Floresta Amazônica e até mesmo a Mata Atlântica, tenham áreas intocadas (prístinas) que reflitam padrões de diversidade biológica não influenciados pelo homem.

Ao estudar a história desses biomas, contudo, é possível observar que neles há registros da presença humana de forma significativa nos últimos milênios.

Mesmo antes da chegada dos europeus, no século XVI, já havia um uso da terra expressivo que pode ter se refletido nos atuais padrões de diversidade biológica de biomas como a Floresta Amazônica, apontou Verdade.

“Há registros de que índios caiapós plantavam pomares na Floresta Amazônica em intervalos mais ou menos regulares, contribuindo para aumentar a diversidade florística e, consequentemente, faunística do bioma, uma vez que animais se aproximavam dos pomares atraídos pelas árvores frutíferas e tornavam-se alvo de caça”, disse.

Dessa forma, o papel do ser humano no passado e no presente na montagem dos padrões de biodiversidade é um fator crucial que não pode ser ignorado, ressaltou Verdade.

“A pressão humana associada à expansão da agricultura hoje é tão forte que provavelmente tem causado mudanças genéticas nas espécies que fazem com que, do ponto de vista do patrimônio gênico, elas sejam diferentes daquelas que existiam no passado”, exemplificou.

Monitoramento da biodiversidade

Segundo Verdade, outro fator limitante para a tomada de decisão em conservação biológica é a falta de uma política de monitoramento que permita a detecção de problemas de mudança na biodiversidade dos biomas em tempo de serem solucionados.

Ainda não há um conjunto de indicadores que permita realizar medições da biodiversidade de modo a indicar se uma determinada espécie está em declínio, se virou uma praga ou se o uso que está sendo feito dela é sustentável ou não, segundo Verdade.

Por isso, os autores do livro defendem a necessidade de se estabelecer uma rede mundial de estações de monitoramento da biodiversidade em longo prazo a fim de contribuir efetivamente para os processos de tomada de decisão em matéria de conservação, uso e controle da biodiversidade do planeta.

“A implementação de uma política de monitoramento da biodiversidade necessita de instituições bem estruturadas, que saibam como, quando e o que deve ser monitorado”, avaliou Verdade. “Além disso, também exige a estruturação de programas de pesquisa de longo prazo, como o BIOTA-FAPESP, para ampliar os conceitos e possibilitar a detecção dos problemas relacionados à conservação da biodiversidade.”

Os pesquisadores também apontam no livro a necessidade de desenvolvimento e aprimoramento de métodos de levantamento populacional e de tecnologias que auxiliem na detecção e identificação de espécies em campo e na avaliação de processos ecológicos e evolutivos, especialmente em ambientes já alterados pela ação humana.

“O uso de marcadores moleculares em fezes de animais que normalmente não são fáceis de serem observados em campo, por exemplo, pode auxiliar a estimar a população da espécie de forma menos invasiva e até mesmo mais acurada e precisa do que a observação direta”, avaliou Verdade.

Divisão por seções

O livro Applied Ecology and Human Dimensions in Biological Conservation tem 14 capítulos, escritos por 38 especialistas do Brasil e do exterior, e é dividido em três seções.

Na primeira seção é enfatizada a importância de uma rede ampla de monitoramento de padrões de biodiversidade e o papel dos processos ecológicos, evolutivos e históricos condicionantes dos padrões atuais de biodiversidade.

Já na segunda seção são apresentadas as inovações metodológicas e tecnológicas que permitem o desenvolvimento da conservação biológica. E a terceira seção apresenta exemplos de governança da biodiversidade.

“Os autores dos capítulos trazem informações de ponta em relação a conceitos, inovação e gestão da conservação biológica do ponto de vista da aplicação da Ciência da Ecologia, que chamamos de Ecologia Aplicada, e das dimensões humanas associadas a ela”, disse Verdade.

Applied Ecology and Human Dimensions in Biological Conservation
Lançamento: 2014
Preço: US$ 189 (impresso) e US$ 149 (e-book)
Páginas: 228
Mais informações: www.springer.com/life+sciences/ecology/book/978-3-642-54750-8 .

NASA launches carbon mission to watch Earth breathe (Science Daily)

Date: July 2, 2014

Source: NASA/Jet Propulsion Laboratory

Summary: NASA successfully launched its first spacecraft dedicated to studying atmospheric carbon dioxide on July 1, 2014. OCO-2 soon will begin a minimum two-year mission to locate Earth’s sources of and storage places for atmospheric carbon dioxide, the leading human-produced greenhouse gas responsible for warming our world, and a critical component of the planet’s carbon cycle.

The Orbiting Carbon Observatory-2, NASA’s first mission dedicated to studying carbon dioxide in Earth’s atmosphere, lifts off from Vandenberg Air Force Base, California, at 2:56 a.m. Pacific Time, July 2, 2014. The two-year mission will help scientists unravel key mysteries about carbon dioxide.

Credit: NASA/Bill Ingalls

NASA successfully launched its first spacecraft dedicated to studying atmospheric carbon dioxide at 2:56 a.m. PDT (5:56 a.m. EDT) Tuesday (July 1, 2014).

The Orbiting Carbon Observatory-2 (OCO-2) raced skyward from Vandenberg Air Force Base, California, on a United Launch Alliance Delta II rocket. Approximately 56 minutes after the launch, the observatory separated from the rocket’s second stage into an initial 429-mile (690-kilometer) orbit. The spacecraft then performed a series of activation procedures, established communications with ground controllers and unfurled its twin sets of solar arrays. Initial telemetry shows the spacecraft is in excellent condition.

OCO-2 soon will begin a minimum two-year mission to locate Earth’s sources of and storage places for atmospheric carbon dioxide, the leading human-produced greenhouse gas responsible for warming our world, and a critical component of the planet’s carbon cycle.

“Climate change is the challenge of our generation,” said NASA Administrator Charles Bolden. “With OCO-2 and our existing fleet of satellites, NASA is uniquely qualified to take on the challenge of documenting and understanding these changes, predicting the ramifications, and sharing information about these changes for the benefit of society.”

OCO-2 will take NASA’s studies of carbon dioxide and the global carbon cycle to new heights. The mission will produce the most detailed picture to date of natural sources of carbon dioxide, as well as their “sinks” — places on Earth’s surface where carbon dioxide is removed from the atmosphere. The observatory will study how these sources and sinks are distributed around the globe and how they change over time.

“This challenging mission is both timely and important,” said Michael Freilich, director of the Earth Science Division of NASA’s Science Mission Directorate in Washington. “OCO-2 will produce exquisitely precise measurements of atmospheric carbon dioxide concentrations near Earth’s surface, laying the foundation for informed policy decisions on how to adapt to and reduce future climate change.”

Carbon dioxide sinks are at the heart of a longstanding scientific puzzle that has made it difficult for scientists to accurately predict how carbon dioxide levels will change in the future and how those changing concentrations will affect Earth’s climate.

“Scientists currently don’t know exactly where and how Earth’s oceans and plants have absorbed more than half the carbon dioxide that human activities have emitted into our atmosphere since the beginning of the industrial era,” said David Crisp, OCO-2 science team leader at NASA’s Jet Propulsion Laboratory in Pasadena, California. “Because of this, we cannot predict precisely how these processes will operate in the future as climate changes. For society to better manage carbon dioxide levels in our atmosphere, we need to be able to measure the natural source and sink processes.”

Precise measurements of the concentration of atmospheric carbon dioxide are needed because background levels vary by less than two percent on regional to continental scales. Typical changes can be as small as one-third of one percent. OCO-2 measurements are designed to measure these small changes clearly.

During the next 10 days, the spacecraft will go through a checkout process and then begin three weeks of maneuvers that will place it in its final 438-mile (705-kilometer), near-polar operational orbit at the head of the international Afternoon Constellation, or “A-Train,” of Earth-observing satellites. The A-Train, the first multi-satellite, formation flying “super observatory” to record the health of Earth’s atmosphere and surface environment, collects an unprecedented quantity of nearly simultaneous climate and weather measurements.

OCO-2 science operations will begin about 45 days after launch. Scientists expect to begin archiving calibrated mission data in about six months and plan to release their first initial estimates of atmospheric carbon dioxide concentrations in early 2015.

The observatory will uniformly sample the atmosphere above Earth’s land and waters, collecting more than 100,000 precise individual measurements of carbon dioxide over Earth’s entire sunlit hemisphere every day. Scientists will use these data in computer models to generate maps of carbon dioxide emission and uptake at Earth’s surface on scales comparable in size to the state of Colorado. These regional-scale maps will provide new tools for locating and identifying carbon dioxide sources and sinks.

OCO-2 also will measure a phenomenon called solar-induced fluorescence, an indicator of plant growth and health. As plants photosynthesize and take up carbon dioxide, they fluoresce and give off a tiny amount of light that is invisible to the naked eye. Because more photosynthesis translates into more fluorescence, fluorescence data from OCO-2 will help shed new light on the uptake of carbon dioxide by plants

OCO-2 is a NASA Earth System Science Pathfinder Program mission managed by JPL for NASA’s Science Mission Directorate in Washington. Orbital Sciences Corporation in Dulles, Virginia, built the spacecraft bus and provides mission operations under JPL’s leadership. The science instrument was built by JPL, based on the instrument design co-developed for the original OCO mission by Hamilton Sundstrand in Pomona, California. NASA’s Launch Services Program at NASA’s Kennedy Space Center in Florida is responsible for launch management. JPL is managed for NASA by the California Institute of Technology in Pasadena.

For more information about OCO-2, visit: http://oco.jpl.nasa.gov

OCO-2 is the second of five NASA Earth science missions scheduled to launch into space this year, the most new Earth-observing mission launches in one year in more than a decade. NASA monitors Earth’s vital signs from land, air and space with a fleet of satellites and ambitious airborne and ground-based observation campaigns. NASA develops new ways to observe and study Earth’s interconnected natural systems with long-term data records and computer analysis tools to better see how our planet is changing. The agency shares this unique knowledge with the global community and works with institutions in the United States and around the world that contribute to understanding and protecting our home planet.

For more information about NASA’s Earth science activities in 2014, visit:http://www.nasa.gov/earthrightnow

Follow OCO-2 on Twitter at: https://twitter.com/IamOCO2

Story Source:

The above story is based on materials provided by NASA/Jet Propulsion LaboratoryNote: Materials may be edited for content and length.

São Paulo: o que muda com novo Plano Diretor (Outras Palavras)

2/7/2014 – 12h10

por Nabil Bonduki, para o Outras Palavras

SaoPauloplanodiretor São Paulo: o que muda com novo Plano Diretor

Área para habitação social dobrou. Mercado imobiliário submetido a regulamentações importantes. Aberto espaço para agricultura orgânica. Pressões do MTST foram essenciais.

Quando a Câmara dos Vereadores de São Paulo aprovou ontem, depois de nove meses, o novo Plano Diretor Estratégico da Cidade (PDE), centenas de sem-teto, que haviam acampado em frente ao Legislativo, soltaram fogos de artifício. O novo PDE, que vigorará por dezesseis anos, não converte a maior cidade do país num exemplo de igualdade; nem a reconciliará, a curto prazo, com a Mata Atlântica, sua vasta rede de rios, os vales e montanhas em meio aos quais se ergueu. Mas demonstra que a especulação imobiliária não é invencível. Ela pode ser revertida progressivamente, com políticas corajosas e, em especial, com mobilização da sociedade.

Proposto pela prefeitura em agosto de 2013, o PDE suscitou um amplo processo de audiências públicas, às quais a mídia tradicional fechou os olhos. Era previsível. Basta observar, a cada dia, o vasto espaço ocupado nos jornais pela publicidade de lançamentos imobiliários para constatar: a cidade, para as construtoras e a velha imprensa, não é um espaço de convívio e debate democrático, mas um território a ser colonizado pela lógica da acumulação e do lucro. O boicote, porém, não vingou. As audiências ocorreram e — ainda mais importante — algo imprevisto sucedeu, ao longo de seu transcurso. Um setor historicamente empurrado para as margens da cidade e da política tradicional irrompeu no centro da cena. No período decisivo de tramitação do Plano Diretor, os sem-teto ocuparam dois imensos terrenos, nas periferias Sul e Leste de S.Paulo. Mas não se confinaram a estes redutos. Fizeram exigências à Prefeitura. Manifestaram-se (sempre dezenas de milhares de pessoas) diante da Câmara. Ocuparam avenidas, às vésperas da Copa do Mundo. Se o país pode gastar bilhões com a construção de estádios moderníssimos – avisaram — tem de ser possível aprovar leis que tornem as cidades menos arcaicas.

Urbanista ligado aos movimentos pelo Direito à Cidade, o vereador Nabil Bonduki (PT) foi o relator do Plano Diretor. No texto abaixo, publicado originalmente no site “Cidade Aberta” ele expõe em detalhes o que muda, a partir de agora, nos parâmetros legais que definem a expansão de São Paulo. Dois pontos destacam-se. A moradia social ganha importante espaço. As Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), onde pode haver desapropriações para habitação popular, passam a ocupar 33 km² — contra 17 km², no PDE anterior. Ai, 60% das construções deverão ser destinadas a famílias cuja renda está abaixo de 3 salários-minimos. Elas não ficarão confinadas aos rincões da periferia. Agora, as ZEIS expandem-se por bairros centrais e históricos, como Bela Vista, Brás, Santa Ifigênia, Campos Elísios e Pari. Se a pressão dos movimentos populares se mantiver, e a letra da lei virar realidade, estará aberta uma brecha na muralha de segregação social que separa as “zonas nobres” do subúrbio.

Além disso, uma norma inteligente permitirá contrabalançar, em parte, a marcha desumanizante da especulação imobiliária. Para erguer novas construções, será preciso levar em conta a dinâmica do transporte coletivo. Prédios mais altos, só em torno das linhas do metrô ou dos corredores de ônibus — o que valoriza estas artérias. No miolo dos bairros, edifícios de no máximo 28 metros. Ou seja: embora mantenha sua força, o mercado será forçado a colocá-la em sintonia com políticas públicas.

Há outras inovações importantes. A cidade reconhece que tem uma Zona Rural (situada na periferia Sul, ocupando 25% do território) — o que permite estabelecer estímulos fiscais à agricultura orgânica e ao turismo ecológico. Para refrear a ditadura do automóvel, punem-se, com impostos mais altos, prédios com mais de uma vaga de garagem por apartamento. Para aproveitar melhor o escasso espaço urbano (e evitar seu encarecimento incessante), estimulam-se prédios residenciais que reservem seu andar térreo para comércio. Instituem-se Zonas Especiais de Proteção Ambiental (ZEPAms), visando dobrar a área do município ocupada por parques. Cria-se um Corredor Cultural, tendo como eixo o antigo Cine Belas Artes — cuja reinauguração, após intensa luta, ocorrerá logo após a Copa do Mundo.

Adensamento populacional nos eixos/cidade compacta

A construção de prédios altos na cidade, hoje dispersa, será reordenada, concentrando o adensamento construtivo e populacional ao longo dos eixos de transporte de massa. O plano propõe tornar a cidade mais “compacta”, com mais pessoas morando em áreas já urbanizadas, reduzindo desse modo, os deslocamentos, e aproximando moradia e emprego. Ao mesmo tempo, áreas mais periféricas receberão maior infraestrutura e emprego, com a implantação dos Polos de Desenvolvimento Econômico, o que também contribuirá para melhorar a ofertas de serviços nessas regiões e reduzir os deslocamentos.

O processo de adensamento ao longo dos eixos somado ao desenho da malha de corredores de ônibus estruturados na cidade, que foram propostos pela prefeitura, e da construção de ciclovias, contribuirá para a racionalização do uso do automóvel.

Por outro lado, as zonas estritamente residenciais serão preservadas e haverá um limite de altura de 28 metros nos miolos dos bairros, evitando os espigões. Dessa forma, o Plano regulará a atuação do mercado imobiliário levando-o para a onde a cidade deve crescer e restringindo onde não deve mais.

Recriação da zona rural

Após 12 anos de extinção, a zona rural, no extremo-sul da cidade, será recriada e abrangerá 25% do território paulistano. O objetivo é conter a expansão horizontal da cidade, proteger o que resta do cinturão verde, aliando à ideia de cidade compacta, e fazer essas áreas serem melhor utilizadas, criando emprego e renda com atividades que garantam a preservação do meio ambiente, como a agricultura orgânica e o ecoturismo.

Limite de vagas de garagens

Na construção de novos prédios, será permitida sem cobrança extra a construção de uma vaga por unidade residencial e uma vaga para cada 100m2 de área construída em empreendimentos não residenciais. Será cobrada a outorga onerosa para vagas além do estabelecido.

Fachadas ativas

Os prédios que tiverem “fachada ativa”, ou seja, que oferecerem o térreo para estabelecimentos comerciais, receberão incentivos para construção. O objetivo é promover usos mais dinâmicos dos passeios públicos em interação com atividades instaladas nos térreos dos prédios, fortalecendo a vida urbana nos espaços públicos.

Redução do déficit habitacional

Com o novo Plano Diretor, o número de Zeis (Zonas Especiais de Interesse Social), destinadas à produção de moradia para famílias de baixa renda, serão ampliadas em 117% em relação ao Plano vigente, reduzindo significativamente o déficit habitacional da cidade.

No Plano em vigor atualmente, 40% das Zeis são destinadas a famílias de 6 salários mínimos e outros 40% a famílias de até 16 salários mínimos.

Com o novo Plano, famílias que mais necessitam terão maior possibilidade de acesso à moradia. As Zeis foram reformuladas, de modo que 60% delas serão destinadas à população de até 3 salários mínimos, garantindo, assim, que um número maior de moradias sejam destinadas à população mais pobre da cidade.

Zeis na periferia e no centro

Com o novo Plano Diretor, Zeis serão demarcadas em áreas com assentamentos precários e informais, como favelas localizadas nas periferias, que precisam ser urbanizadas e regularizadas do ponto de vista fundiário.

Assim, essas áreas irão garantir moradia com qualidade para aqueles que vivem nessas regiões, que poderão ter um endereço, documento, receber infraestrutura e ser, enfim, parte da cidade.

Novas Zeis também foram demarcadas em áreas centrais, como nos bairros da Santa Efigênia, Pari, Brás, Campus Elíseos, e Bela Vista, e também, em bairros como o Jabaquara, na zona sul, regiões bem localizadas da cidade, que ficarão reservadas para a população de até 3 salários mínimos.

A outorga onerosa, contrapartida na qual o proprietário paga para construir entre o gratuito e o máximo permitido pela lei, será mais cara no centro, desestimulando a construção de imóveis comerciais, enquanto os residenciais serão barateados, principalmente para famílias com renda de 6 a 10 salários.

Recursos para habitação e mobilidade

Ao menos 30% dos recursos do Fundurb (Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano), que possui repasses da outorga onerosa, contrapartida no qual os empreendimentos pagam para construir entre o gratuito e o máximo permitido pela lei, será destinado ao sistema de mobilidade (transporte coletivo, cicloviário e de pedestres), enquanto ao menos 30% serão destinados à aquisição de errenos bem localizados para a construção de moradia popular.

Zeis e proteção ambiental

Algumas dessas áreas demarcadas como Zeis se localizam em área de proteção aos mananciais, protegida por legislação estadual. Lá existem áreas indevidamente ocupadas, que precisam ser reordenadas, para isso é preciso grafar Zeis: tanto para reurbanizar e regularizar o que for possível, tanto quanto para reassentar as famílias que estão precariamente assentadas nas áreas onde isso não é permitido. Apesar de definir restrições ao uso e ocupação do solo, a legislação estadual não proíbe a construção de moradias nem a regularização fundiária e urbanização de assentamentos precários, mas estabelece locais e parâmetros para isso. As Zeis grafadas em área de proteção aos mananciais seguem estritamente a legislação estadual.

Preservação ambiental

Para preservar o que resta de áreas verdes serão ampliadas as Zepams (Zonas Especiais de Proteção Ambiental). Nas novas Zepams há projetos para construção de 164 novos parques públicos, que se somarão aos 105 existentes. Serão 82 km² de áreas verdes, quase o dobro dos 42 km² de área dos parques atuais na cidade. A proposta é criar editais semestrais para que sejam remuneradas as empresas que preservarem, por exemplo, áreas remanescentes de mata atlântica, por meio do pagamento por serviços ambientais.

Fundo para novos parques

O Plano Diretor propõe a criação do Fundo Municipal dos Parques, destinado exclusivamente à aquisição de áreas e viabilizar a implantação de parques na cidade. O objetivo é captar recursos tanto da prefeitura quanto do setor privado e de cidadãos, numa espécie de financiamento coletivo. O fundo terá contas específicas para cada parque e para cada real doado a prefeitura destinará o mesmo valor, que sairá do Fema, Fundo Municipal do Meio Ambiente.

Cota de solidariedade

Outro instrumento de planejamento urbano e habitacional para estimular produção de habitação para baixa renda no município é a Cota de Solidariedade. Já utilizada em grandes metrópoles como Nova York, a cota cria mecanismos de contrapartida na construção de empreendimentos de grande porte. A proposta é que imóveis acima de 20.000 m², destinem 10% do próprio imóvel ou de uma área na mesma região para a implantação de moradias de interesse social, visando cumprir a função social da propriedade e da cidade.

Evitar imóveis ociosos

Imóveis desocupados próximos às zonas destinadas a moradias populares e nos eixos de mobilidade, como nas Marginais e nos corredores de trem, ônibus e metrô, terão IPTU mais caro. Isso é para forçar que um terreno não fique ocioso ou subutilizado e que o proprietário o utilize apenas para especulação imobiliária. Com isso, queremos baixar o preço dos terrenos, aumentar a produção habitacional e estimular mais a economia da cidade.

Território cultural

Será criado um território cultural que liga o centro, à Avenida Paulista. A área demarcada como território cultural concentra um grande número de espaços culturais que podem ser enquadrados com ZEPEC APC (zonas especiais de preservação cultural), cujo objetivo é resguardar locais com importância para a cultura da cidade, evitando seu fechamento, como aconteceu com o Cine Belas Artes, na Rua da Consolação, que será reaberto em maio. Saiba mais

Discussão de outras leis de planejamento urbano

O Plano Diretor vai orientar a elaboração de outras leis voltadas ao planejamento urbano municipal, como a Lei de Parcelamento, Uso e Ocupação do Solo, os Planos Regionais, o código de Obras e Edificações e Leis Urbanísticas Específicas, por isso sua rápida aprovação é tão importante. Saiba mais

Tramitação do projeto

O projeto de lei do Plano Diretor foi enviado pelo prefeito Fernando Haddad à Câmara Municipal em 26 de setembro de 2013. A proposta foi, então, submetida a debate e, após 45 audiências públicas, entre temáticas e regionais, o vereador Nabil Bonduki e sua equipe técnica analisaram o projeto do Executivo e elaboraram um substitutivo, acrescentando novas temáticas e aperfeiçoando outras.

O texto final da proposta de substitutivo do Plano Diretor foi apresentado à Câmara pelo vereador Nabil Bonduki, em 26 de março, e submetido a sete novas audiências públicas temáticas e regionais.

Em 23 de abril, a proposta foi aprovada pelos sete vereadores da Comissão de Política Urbana, Metropolitana e Meio Ambiente, da Câmara Municipal, foi aprovada em primeira em 30 de abril, e seguiu para novas audiências e segunda votação.

* Publicado originalmente no site Outras Palavras.

(Outras Palavras)

Rachel Biderman: Agropecuária está se tornando a principal fonte de emissões brasileiras (Carbono Brasil)

02/7/2014 – 10h03

por Maura Campanili, do IPAM

Rachel Rachel Biderman: Agropecuária está se tornando a principal fonte de emissões brasileiras

A produção agropecuária de baixo carbono é importante para que o Brasil cumpra suas metas de redução de emissões e colabora para que o produtor consiga adequação ambiental, mas pode ser também um caminho para abrir portas e aumentar a competitividade no mercado internacional, principalmente na Europa e nos Estados Unidos.

Uma ferramenta que pode ajudar o produtor brasileiro a acessar esses benefícios é o Greenhouse Gas Protocol (GHG Protocol) Agropecuária, primeiro instrumento voluntário para medir emissões em propriedades rurais, cuja primeira versão foi lançada em primeira mão no Brasil, no final de maio.

O instrumento foi desenvolvido por meio de uma parceria entre o WRI, a Empresa de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), levando em consideração as condições brasileiras. Segundo Rachel Biderman, diretora Executiva do WRI Brasil, “ações desse tipo também ajudam a criar uma cultura de gestão, contribuindo para a solução do problema das mudanças climáticas”.

Em entrevista para a Clima e Floresta, Rachel, que também é professora responsável por módulo de meio ambiente do MBA em Gestão da Sustentabilidade e coordenadora do curso de extensão da Fundação Getúlio Vargas de “Gestão para o Baixo Carbono”, explica porque é importante reduzir as emissões da agricultura no Brasil.

Clima e Floresta – Qual a importância do combate às emissões de gases de efeito estufa na agricultura brasileira?

Rachel Biderman – O Brasil cada vez mais se consolida como grande fonte de alimentos para o mundo. Ao mesmo tempo, estamos entre os maiores emissores de gases de efeito estufa (GEE) do planeta. Considerando a redução das emissões em mudanças do uso da terra, devido à queda dos desmatamentos, a agropecuária está se tornando a principal fonte de emissões brasileiras e já representa 29,7% das emissões brutas brasileiras em CO2e.

Clima e Floresta – Como a agricultura emite GEE?

Biderman – O setor agropecuário gera emissões em função da fermentação entérica dos animais criados; do manejo de dejetos animais; do cultivo de arroz; da queima de resíduos agrícolas e dos solos agrícolas, estas decorrentes da fertilização nitrogenada e de organossolos cultivados. Há também emissões relativas a atividades associadas ao setor, que incluem a conversão de uso do solo – por exemplo, de florestas para pastagens ou de um tipo de lavoura em outro -, e outras relacionadas à produção de energia.

Clima e Floresta – O que é o GHG Protocol Agrícola e como ele pode colaborar para diminuir as emissões?

Biderman – Trata-se de um conjunto de dois instrumentos principais: as Diretrizes e a Ferramenta de Cálculo de Emissões de GEE no setor Agropecuário. Esses instrumentos permitem aos produtores rurais conhecer melhor o perfil das suas emissões de gases de efeito estufa e desenvolver planos de redução mitigando seus impactos sobre o clima. Esses instrumentos permitirão aos produtores rurais contribuir diretamente para o cumprimento dos objetivos do Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) e para que mecanismos financeiros adequados sejam alocados para essa atividade sustentável.

Clima e Floresta – A quem o GHG Protocol é destinado?

Biderman – Produtores rurais de qualquer porte.

Clima e Floresta – Pequenos agricultores, assentamentos rurais, populações tradicionais podem participar? Como?

Biderman – Os instrumentos se aplicam a qualquer tipo de produção agropecuária. O WRI Brasil organizará projeto para treinar empresas e interessados para o uso dessas ferramentas.

Clima e Floresta – Além da questão das emissões, há outros benefícios na adoção de uma agricultura de baixo carbono?

Biderman – As empresas que adotarem as diretrizes e ferramenta de cálculo do GHG Protocol terão algumas vantagens competitivas. Entre elas podemos citar: Entender riscos operacionais e de reputação; identificar oportunidades de redução de emissões; implantar metas de redução e monitorar a performance; melhorar a reputação e transparência através da divulgação pública de suas emissões de GEE; colher os frutos dos benefícios associados à redução de emissões, como conservação de energia, ampliação de produtividade, melhora na qualidade do solo e da água; preparar-se para regime de quotas e cumprimento legal; antecipar-se para um potencial mercado de carbono.

* Publicado originalmente no site CarbonoBrasil.

(CarbonoBrasil)

Key to adaptation limits of ocean dwellers: Simpler organisms better suited for climate change (Science Daily)

Date: July 1, 2014

Source: Alfred Wegener Institute, Helmholtz Centre for Polar and Marine Research

Summary: The simpler a marine organism is structured, the better it is suited for survival during climate change, researchers have discovered this in a new meta-study. For the first time biologists studied the relationship between the complexity of life forms and the ultimate limits of their adaptation to a warmer climate.

The temperature windows of some ocean dwellers as a comparison: the figures for green algae, seaweed and thermophilic bacteria were determined in the laboratory. The fish data stem from investigations in the ocean. Credit: Sina Löschke, Alfred Wegener Institute

The simpler a marine organism is structured, the better it is suited for survival during climate change. Scientists of the Alfred Wegener Institute, Helmholtz Centre for Polar and Marine Research, discovered this in a new meta-study, which appears today in the research journal Global Change Biology. For the first time biologists studied the relationship between the complexity of life forms and the ultimate limits of their adaptation to a warmer climate. While unicellular bacteria and archaea are able to live even in hot, oxygen-deficient water, marine creatures with a more complex structure, such as animals and plants, reach their growth limits at a water temperature of 41 degrees Celsius. This temperature threshold seems to be insurmountable for their highly developed metabolic systems.

The current IPCC Assessment Report shows that marine life forms respond very differently to the increasing water temperature and the decreasing oxygen content of the ocean. “We now asked ourselves why this is so. Why do bacteria, for example, still grow at temperatures of up to 90 degrees Celsius, while animals and plants reach their limits at the latest at a temperature of 41 degrees Celsius,” says Dr. Daniela Storch, biologist in the Ecophysiology Department at the Alfred Wegener Institute (AWI) and first author of the current study.

Since years Storch and her colleagues have been investigating the processes that result in animals having a certain temperature threshold up to which they can develop and reproduce. The scientists found that the reason for this is their cardiovascular system. They were able to show in laboratory experiments that this transport system is the first to fail in warmer water. Blood circulation supplies all cells and organs of a living organism with oxygen, but can only do so up to a certain maximum temperature. Beyond this threshold, the transport capacity of this system is no longer sufficient; the animal can then only sustain performance for a short time. Based on this, the biologists had suspected at an early date that there is a relationship between the complex structure of an organism and its limited ability to continue to function in increasingly warm water.

“In our study, therefore, we examined the hypothesis that the complexity could be the key that determines the ultimate adaptability of diverse life forms, from marine archaea to animals, to different living conditions in the course of evolutionary history. That means: the simpler the structure of an organism, the more resistant it should be,” explains the biologist. If this assumption is true, life forms consisting of a single simply structured cell would be much more resistant to high temperatures than life forms whose cell is very complex, such as algae, or whose bodies consist of millions of cells. Hence, the tolerance and adaptability thresholds of an organism type would always be found at its highest level of complexity. Among the smallest organisms, unicellular algae are the least resistant because they have highly complex cell organelles such as chloroplasts for photosynthesis. Unicellular protozoans also have cell organelles, but they are simpler in their structure. Bacteria and archaea entirely lack these organelles.

To test this assumption, the scientists evaluated over 1000 studies on the adaptability of marine life forms. Starting with simple archaea lacking a nucleus, bacteria and unicellular algae right through to animals and plants, they found the species in each case with the highest temperature tolerance within their group and determined their complexity. In the end, it became apparent that the assumed functional principle seems to apply: the simpler the structure, the more heat-tolerant the organism type.

But: “The adaptation limit of an organism is not only dependent on its upper temperature threshold, but also on its ability to cope with small amounts of oxygen. While many of the bacteria and archaea can survive at low oxygen concentrations or even without oxygen, most animals and plants require a higher minimum concentration,” explains Dr. Daniela Storch. The majority of the studies examined show that if the oxygen concentration in the water drops below a certain value, the oxygen supply for cells and tissues collapses after a short time.

The new research results also provide evidence that the body size of an organism plays a decisive role concerning adaptation limits. Smaller animal species or smaller individuals of an animal species can survive at lower oxygen concentration levels and higher temperatures than the larger animals.

“We observe among fish in the North Sea that larger individuals of a species are affected first at extreme temperatures. In connection with climate warming, there is generally a trend that smaller species replace larger species in a region. Today, however, plants and animals in the warmest marine environments already live at their tolerance limit and will probably not be able to adapt. If warming continues, they will migrate to cooler areas and there are no other tolerant animal and plant species that could repopulate the deserted habitats,” says Prof. Dr. Hans-Otto Pörtner of the Alfred Wegener Institute. The biologist initiated the current study and is the coordinating lead author of the chapter “Ocean systems” in the Fifth Assessment Report.

The new meta-study shows that their complex structure sets tighter limits for multicellular organisms, i.e. animals and plants, within which they can adapt to new living conditions. Individual animal species can reduce their body size, reduce their metabolism or generate more haemoglobin in order to survive in warmer, oxygen-deficient water. However, marine animals and plants are fundamentally not able to survive in conditions exceeding the temperature threshold of 41 degrees Celsius.

In contrast, simple unicellular organisms like bacteria benefit from warmer sea water. They reproduce and spread. “Communities of species in the ocean change as a result of this shift in living conditions. In the future animals and plants will have problems to survive in the warmest marine regions and archaea, bacteria as well as protozoa will spread in these areas. There are already studies showing that unicellular algae will be replaced by other unicellular organisms in the warmest regions of the ocean,” says Prof. Dr. Hans-Otto Pörtner. The next step for the authors is addressing the question regarding the role the complexity of species plays for tolerance and adaptation to the third climatic factor in the ocean, i.e. acidification, which is caused by rising carbon dioxide emissions and deposition of this greenhouse gas in seawater.

Living at the limit

For generations ocean dwellers have adapted to the conditions in their home waters: to the prevailing temperature, the oxygen concentration and the degree of water acidity. They grow best and live longest under these living conditions. However, not all creatures that live together in an ecosystem have the same preferences. The Antarctic eelpout, for instance, lives at its lower temperature limit and has to remain in warmer water layers of the Southern Ocean. If it enters cold water, the temperature quickly becomes too cold for it. The Atlantic cod in the North Sea, by contrast, would enjoy colder water as large specimens do not feel comfortable in temperatures over ten degrees Celsius. At such threshold values scientists refer to a temperature window: every poikilothermic ocean dweller has an upper and lower temperature limit at which it can live and grow. These “windows” vary in scope. Species in temperate zones like the North Sea generally have a broader temperature window. This is due to the extensively pronounced seasons in these regions. That means the animals have to withstand both warm summers and cold winters.

The temperature window of living creatures in the tropics or polar regions, in comparison, is two to four times smaller than that of North Sea dwellers. On the other hand, they have adjusted to extreme living conditions. Antarctic icefish species, for example, can live in water as cold as minus 1.8 degrees Celsius. Their blood contains antifreeze proteins. In addition, they can do without haemoglobin because their metabolism is low and a surplus of oxygen is available. For this reason their blood is thinner and the fish need less energy to pump it through the body — a perfect survival strategy. But: icefish live at the limit. If the temperature rises by a few degrees Celsius, the animals quickly reach their limits.

Journal Reference:

  1. Daniela Storch, Lena Menzel, Stephan Frickenhaus, Hans-O. Pörtner. Climate sensitivity across marine domains of life: limits to evolutionary adaptation shape species interactionsGlobal Change Biology, 2014; DOI:10.1111/gcb.12645

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Starting With the Oceans, Single-Celled Organisms Will Re-Inherit the Earth (Motherboard)

Written by BEN RICHMOND

July 1, 2014 // 07:41 PM CET

I’ll be the first to cop to being guilty of multi-celled chauvinism: Having complex cells with organelles, which form complex systems allowing you to breathe, achieve consciousness, play volleyball, etc, is pretty much as good as it gets. While we enjoy all these advantages now, though, single-celled, simple organisms are just biding their time. More readily adaptable than us multi-celled organisms, it’s really a simple, single-celled world, and we’re just passing through.

Case in point: the oceans. A team of German researchers just published a paper in the journal Global Change Biology that found that the more simple an organism is, the better off it’s going to be as the oceans warm. Trout will die out, whales will fail, but unicellular bacteria and archaea (a type of microorganism) are going to flourish.

Animals can only develop and reproduce up to a temperature threshold in the water of about 41 degrees Celsius, or 105 degrees Fahrenheit. Beyond this, the cardiovascular system can’t deliver necessary oxygen throughout the body. Even as individual animal species can develop smaller bodies or generate more hemoglobin to survive in warmer and oxygen deficient water, the highly developed metabolic systems that allow for things like eyeballs can’t get over the temperature threshold and the other hurdles it brings, like decreasing oxygen.

Image: Sina Löschke, Alfred Wegener Institute

“The adaptation limit of an organism is not only dependent on its upper temperature threshold, but also on its ability to cope with small amounts of oxygen,”said Daniela Storch, the study’s lead author . “While many of the bacteria and archaea can survive at low oxygen concentrations or even without oxygen, most animals and plants require a higher minimum concentration.”

That’s part of the reason that unicellular organisms are found in the most dramatic settings that Earth has to offer: from Antarctic lakes that were buried under glaciers for 100,000 years, to super-hot hydrothermal vents on the ocean floor, acidic pools in Yellowstone, and the Atacama desert in Chile. When we look around the solar system, we see environments that can’t support complex, multicellular life, but still hold out hope that unicellular life has found a way in Europa’s unseen seas, or below the surface of Mars.

But as the Earth’s climate changes, and the ocean gets warmer and more acidic, complexity goes from an asset to a liability, and simplicity reigns.

“Communities of species in the ocean change as a result of this shift in living conditions. In the future animals and plants will have problems to survive in the warmest marine regions and archaea, bacteria as well as protozoa will spread in these areas,” said Dr. Hans-Otto Pörtner, one of the study’s co-authors. “There are already studies showing that unicellular algae will be replaced by other unicellular organisms in the warmest regions of the ocean.”

The story of life on Earth is, if nothing else, symmetrical. Three and a half billion years ago, prokaryotic cells showed up, without a nucleus or other organelles. Complex, multicellular life emerged with an increase in biomass and decrease in global surface temperature half a billion years ago. In another billion and a half years that complex multicellular life died back out, leaving the planet to the so-called simpler forms of life, as they basked in the light of a much brighter Sun. The best-case scenario is that life lasts until the Sun runs out of fuel, swells into a red giant,and vaporizes whatever is left of our planet in 7.6 billion years.

Multicellular life will have just been a two billion year flicker against a backdrop of adaptable single-celled life. But hey, we had a good run.

Insect diet helped early humans build bigger brains: Quest for elusive bugs spurred primate tool use, problem-solving skills (Science Daily)

Date: July 1, 2014

Source: Washington University in St. Louis

Summary: Figuring out how to survive on a lean-season diet of hard-to-reach ants, slugs and other bugs may have spurred the development of bigger brains and higher-level cognitive functions in the ancestors of humans and other primates, suggests new research.

An adult female tufted capuchin monkey of the Sapajus lineage using a stone tool and a sandstone anvil to crack a palm nut as her infant hangs on. Credit: E. Visalberghi

Figuring out how to survive on a lean-season diet of hard-to-reach ants, slugs and other bugs may have spurred the development of bigger brains and higher-level cognitive functions in the ancestors of humans and other primates, suggests research from Washington University in St. Louis.

“Challenges associated with finding food have long been recognized as important in shaping evolution of the brain and cognition in primates, including humans,” said Amanda D. Melin, PhD, assistant professor of anthropology in Arts & Sciences and lead author of the study.

“Our work suggests that digging for insects when food was scarce may have contributed to hominid cognitive evolution and set the stage for advanced tool use.”

Based on a five-year study of capuchin monkeys in Costa Rica, the research provides support for an evolutionary theory that links the development of sensorimotor (SMI) skills, such as increased manual dexterity, tool use, and innovative problem solving, to the creative challenges of foraging for insects and other foods that are buried, embedded or otherwise hard to procure.

Published in the June 2014 Journal of Human Evolution, the study is the first to provide detailed evidence from the field on how seasonal changes in food supplies influence the foraging patterns of wild capuchin monkeys.

The study is co-authored by biologist Hilary C. Young and anthropologists Krisztina N. Mosdossy and Linda M. Fedigan, all from the University of Calgary, Canada.

It notes that many human populations also eat embedded insects on a seasonal basis and suggests that this practice played a key role in human evolution.

“We find that capuchin monkeys eat embedded insects year-round but intensify their feeding seasonally, during the time that their preferred food — ripe fruit — is less abundant,” Melin said. “These results suggest embedded insects are an important fallback food.”

Previous research has shown that fallback foods help shape the evolution of primate body forms, including the development of strong jaws, thick teeth and specialized digestive systems in primates whose fallback diets rely mainly on vegetation.

This study suggests that fallback foods can also play an important role in shaping brain evolution among primates that fall back on insect-based diets, and that this influence is most pronounced among primates that evolve in habitats with wide seasonal variations, such as the wet-dry cycles found in some South American forests.

“Capuchin monkeys are excellent models for examining evolution of brain size and intelligence for their small body size, they have impressively large brains,” Melin said. “Accessing hidden and well-protected insects living in tree branches and under bark is a cognitively demanding task, but provides a high-quality reward: fat and protein, which is needed to fuel big brains.”

But when it comes to using tools, not all capuchin monkey strains and lineages are created equal, and Melin’s theories may explain why.

Perhaps the most notable difference between the robust (tufted, genus Sapajus) and gracile (untufted, genus Cebus) capuchin lineages is their variation in tool use. While Cebus monkeys are known for clever food-foraging tricks, such as banging snails or fruits against branches, they can’t hold a stick to their Sapajus cousins when it comes to theinnovative use and modification of sophisticated tools.

One explanation, Melin said, is that Cebus capuchins have historically and consistently occupied tropical rainforests, whereas the Sapajus lineage spread from their origins in the Atlantic rainforest into drier, more temperate and seasonal habitat types.

“Primates who extract foods in the most seasonal environments are expected to experience the strongest selection in the ‘sensorimotor intelligence’ domain, which includes cognition related to object handling,” Melin said. “This may explain the occurrence of tool use in some capuchin lineages, but not in others.”

Genetic analysis of mitochondial chromosomes suggests that the Sapajus-Cebus diversification occurred millions of years ago in the late Miocene epoch.

“We predict that the last common ancestor of Cebus and Sapajus had a level of SMI more closely resembling extant Cebus monkeys, and that further expansion of SMI evolved in the robust lineage to facilitate increased access to varied embedded fallback foods,necessitated by more intense periods of fruit shortage,” she said.

One of the more compelling modern examples of this behavior, said Melin, is the seasonal consumption of termites by chimpanzees, whose use of tools to extract this protein-rich food source is an important survival technique in harsh environments.

What does this all mean for hominids?

While it’s hard to decipher the extent of seasonal dietary variations from the fossil record, stable isotope analyses indicate seasonal variation in diet for at least one South African hominin, Paranthropus robustus. Other isotopic research suggests that early human diets may have included a range of extractable foods, such as termites, plant roots and tubers.

Modern humans frequently consume insects, which are seasonally important when other animal foods are limited.

This study suggests that the ingenuity required to survive on a diet of elusive insects has been a key factor in the development of uniquely human skills: It may well have been bugs that helped build our brains.

Journal Reference:

  1. Amanda D. Melin, Hilary C. Young, Krisztina N. Mosdossy, Linda M. Fedigan.Seasonality, extractive foraging and the evolution of primate sensorimotor intelligenceJournal of Human Evolution, 2014; 71: 77 DOI:10.1016/j.jhevol.2014.02.009

The World Cup 2014 in Brazil: better organised than the Olympics in London 2012? (FREE)

JUNE 26, 2014

Football Research in an Enlarged Europe (FREE)

Yesterday, I was quoted in a number of French newspapers as saying that the World Cup 2014 has been, so far, better organised than the London Olympics 2012. It is my duty to report that this does not in any way whatsoever misrepresent my views.
I stand by what I said.

There have been months, if not years, of negative reports on the 2014 World Cup. Before the event started, comments from all quarters (Western media, FIFA, patrons and waiters at the pub alike) promised absolute doom and gloom in Brazil. The stadia would not be ready in time, spectators would be prevented from travelling to the venues because the infrastructures would not be ready in time or because Brazilians would be protesting to no end. Most commentators were very short of saying ‘those lazy, unpatriotic and unreliable Brazilians’ – when they did not actually say it…

Unless I am mistaken, so far none of this has actually happened. All the stadia are ready and used for the Cup. Brazilians are exercising their democratic right to protest and there are isolated reports of Pelé or other football celebrities not making it to the venue. Yet, stadia are not only ready. They are full at every game! Even when South Korea is playing Algeria, in a game where the sporting stakes are not high.

Compare this with the London Olympics which were marred by a number of controversies:

We could add to the list of ‘things that went pearshaped at London 2012’: for example, the gatecrasher at the parade of nations which shocked many people in India, LOCOG displaying a South-Korean flag instead of North-Korea (logically the North-Korean team refused to warm up and play until the right flag was displayed, prompting the game to be very much delayed…) but the point is not to criticise otherwise relatively well organised Olympics. I don’t want to be unfair with the Brits either as there are often controversies surrounding the organisation of a mega event. Let’s just recall that, to my knowledge, the only international sporting event that had to change country because a stadium was not built in time, is the 2007 Athletics World Championship, planned in Wembley, London and which finally happened in Oslo. Once more, let’s be fair with Britain: construction delays are common in every country, and construction budgets almost invariably go overboard.

The point, instead, is to show the gap between reality and perception. Whenever an event is organised in a Southern country, the discourse, and the memory, is of potential fiascos, that have usually not materialised. Whenever an event is organised in a Northern country, the discourse, and the memory, is of success, even when there were actual fiascos.

Following Edward Said, we can call this ‘orientalisation’, and say that in a world where the East/West divide was replaced in the 1990s by a North-South divide,  this is the result of a distorted view that the Western/Northern media have of the Orient/South.

Let’s say things much more clearly: this is a xenophobic, or even racist, discourse.

David Ranc