Unindo ciências humanas à neurociência (Faperj)

10/07/2014

Vilma Homero

4O filósofo Carlos Eduardo Batista de Sousa: estudos sobre o pensamento humano

O homem é um animal puramente biológico ou um ser sociocultural? A pergunta vem dividindo especialistas das neurociências e das ciências humanas. Especialmente depois que estudos recentes visam identificar as bases neurais que possibilitam ou estão correlacionadas com o pensamento consciente. “A intencionalidade, o conteúdo do pensamento consciente, está associada às nossas ações. E este assunto se relaciona diretamente com o nosso contexto cultural e a nossa época, e com o entendimento sobre nós mesmos. O que significa dizer que a neurociência agora estuda um objeto típico das ciências humanas?”, pergunta o filósofo da ciência Carlos Eduardo Batista de Sousa, que contou com o apoio de um Auxílio à Pesquisa (APQ 1) para estudar as dimensões que compõem a humanidade em projeto intitulado “Intencionalidade e Comportamento: Definindo a Natureza Humana”. Como ele mesmo pondera, é possível formular uma resposta plausível, integrando o conhecimento das duas ciências.  

“Tento acomodar os estudos nesses dois campos, das humanidades e dasneurociências, vendo como a questão da intencionalidade está vinculada à neurobiologia humana e ao aspecto sociocultural”, acrescenta o pesquisador. Ele explica que o tipo de pensamento que o ser humano tem acontece também em virtude de nossa história evolutiva. Ou seja, tanto a nossa neurobiologia quanto as interações sociais, nosso contexto cultural e a época, devem ser considerados na tentativa de entender a natureza humana. Diferentemente dos animais, o ser humano conta com uma estrutura intencional específica: “Pensar implica pensar em alguma coisa, é preciso ter um objeto em mente, ter uma representação desse objeto no pensamento que é sobre algo. De modo bem direto, isso é o que os filósofos descobriram há certo tempo. Esse conteúdo intencional emerge da neurobiologia e da interação social, influenciando nosso comportamento.”

Descobertas recentes das neurociências indicam que o pensamento consciente está associado a certas regiões no cérebro, como o lobo  frontal, que se divide em córtex frontal e pré-frontal. A partir de tecnologias, como neuroimageamento e eletrofisiologia, que nos permitem identificar as áreas e mapear o que acontece durante o pensamento consciente, novos estudos estão se tornando possíveis de ser implementados, como por exemplo, investigar o cérebro em ação. “Mas ainda é prematuro dizer que partes do cérebro são responsáveis por cada coisa”, admite o pesquisador.

Para De Sousa, estudar a natureza humana também implica estudar sua natureza biológica e sociocultural, por meio do trabalho científico e do trabalho crítico de tentar unificar as duas vertentes. “Entender tanto a biologia quanto a cultura a partir do problema da intencionalidade pode unir essas duas áreas aparentemente opostas, e isso significa reconhecer que o pensamento consciente-intencional se baseia na neurobiologia e na interação social, dando origem às nossas ações.

Mas nosso cérebro precisa estar em condições favoráveis, sob a ação de certos hormônios, como a dopamina – relacionada, por exemplo, com à tomada de decisão, cálculo de riscos, etc. Caso haja alguma anomalia no cérebro, a ação será diferente. Isso significa que a biologia precisa ser reconhecida como condição primeira, porém ela não determina o conteúdo, isto é, como vou formar meus pensamentos…”, diz De Sousa.

Como De Sousa faz questão de frisar, apenas uma ciência, seja a neurociência ou a sociologia, não pode garantir explicações plausíveis sobre o comportamento humano. “Em vez de uma briga de conhecimento, como vem sendo vivenciado hoje, é preciso conciliar ciências humanas e neurociências num contexto mais amplo pela integração dos estudos”, destaca De Sousa, que tem formação em filosofia e doutorado na Universidade de Constança, Alemanha. “Em vez de fornecer respostas, a filosofia aponta problema e possíveis caminhos. Minha proposta consiste em acomodar ambas as explicações de forma a dar conta dos vários fatores e aspectos que influenciam o conteúdo do pensamento humano, as intenções que levam o sujeito a agir de determinado modo e não de outro.”

O próximo passo para De Sousa é dar continuidade a seu trabalho, procurando unificar os estudos sobre a natureza humana numa área transdisciplinar, já que o homem é um animal complexo. “Foi na Alemanha que dei início a essa pesquisa, durante o doutorado em neurofilosofia. Lá, esse tipo de pensamento integrador estava começando. Hoje, o assunto já avançou, permitindo um maior entendimento sobre o que nós somos a partir das neurociências e da perspectiva das ciências humanas que tem longa tradição de estudos na área. Sabendo como o cérebro aprende, se organiza e se deteriora, podemos entender por que agimos como agimos e encarar a realidade de outra forma, repensando inclusive o processo de educação. Assim, futuramente, poderemos até propor novas estratégias educacionais levando em consideração esse novo conhecimento. Com isso, poderemos também estabelecer uma nova visão de humanidade, mais completa, que inclua não apenas a neurobiologia, mas também a dimensão sociocultural”, conclui.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s