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Governo Lula avalia verba extra contra El Niño e mapeia risco de eleições impulsionarem incêndios (Folha de S.Paulo)

  • Polícia Federal deve atuar com foco em cidades de maior risco de incêndios intencionais
  • Grupo interministerial debate medidas para caso fenômeno se confirme e Ibama já realiza notificação preventiva

Artigo original

3.jun.2026 às 13h16; Atualizado: 3.jun.2026 às 13h20

João Gabriel

Brasília

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda adota cautela sobre a probabilidade de um possível El Niño neste ano, mas prepara ações para mitigar os impactos do fenômeno e evitar que incêndios florestais se espalhem pelo país durante a seca —o que pode exigir a abertura de crédito extraordinário.

Segundo informações obtidas pela Folha, o tema foi debatido em uma reunião da sala de situação contra incêndios (que reúne diversos ministérios) na segunda quinzena de maio, e voltará à pauta no próximo encontro do grupo, previsto para junho.

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Brigadistas do Prevfogo combatem o incêndio em uma fazenda na região de Miranda, Mato Grosso do Sul, durante crise de queimadas no pantanal em 2024 – Lalo de Almeida – 4.ago.24/Folhapress

O ano eleitoral de 2026 preocupa. Foi elaborado um mapa identificando regiões onde há maior risco de que um clima político inflamado motive queimadas intencionais para alimentar ataques de opositores ao governo Lula.

Em geral, o plano prevê a participação das forças de segurança para apoio em operações de fiscalização e investigação, da Defesa na logística e dos Transportes no controle de rodovias, dentro outras atribuições.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) devem precisar de cerca de R$ 200 milhões em crédito extraordinário, parte para recompor perdas orçamentárias.

A AGU (Advocacia-Geral da União) prepara uma resposta formal a questionamento feito pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sobre as ações que o Executivo realiza para conter os efeitos do El Niño.

Durante a reunião ministerial desta quarta-feira (3), a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, ressaltou que o governo entregou R$ 150 milhões do Fundo Amazônia em equipamentos de combate a incêndios para seis estados do pantanal e do cerrado.

“Muito importante, a gente sabe que o El Niño está chegando ameaçadoramente, mas nós estamos nos preparando para enfrentar da melhor maneira os seus efeitos”, afirmou.

As mudanças climáticas agravaram as secas, os incêndios e as tempestades nos últimos anos em todo o planeta.

O mesmo acontece com o El Niño, fenômeno meteorológico que se configura quando as águas superficiais do oceano Pacífico aquecem acima de forma atípica e que se tornou mais constante e intenso nos últimos anos.

Sobre o Brasil, ele traz uma onda de calor que favorece incêndios florestais e causa secas no Norte e no Nordeste, enquanto traz chuvas torrenciais para o Sul —como as registradas na região de Porto Alegre (RS), em 2024.

O cenário impacta diretamente as plantações do agronegócio e impulsiona o desmatamento. O El Niño é um dos motivos pelos quais o país viveu grandes crises de queimadas em 2020 e em 2024.

O Ministério do Meio Ambiente conduz reuniões periódicas com meteorologistas de diversos órgãos —como Agência Nacional de Águas, Cemaden, UFRJ, Ibama, dentre outros— para monitorar a situação.

O panorama até aqui é descrito como um sinal amarelo: a chance de acontecer um El Niño forte ou pior é de cerca de 70%, mas as previsões atuais apresentam uma taxa de incerteza de 50% e um cenário mais preciso só será previsível em julho, quando o sinal vermelho pode ser ligado definitivamente.

Por enquanto, o governo federal adota ações preventivas, como queimas prescritas, um fogo controlado para eliminar matéria orgânica que poderia virar combustível para um incêndio maior.

Esse tipo de estratégia começou a ser aplicada em 2025 e, conforme o Ministério do Meio Ambiente, resultou em uma “queda de 39% na área queimada no território nacional” naquele ano “na comparação à média dos oito anos anteriores”.

Parte importante da estratégia é a integração com estados —os bombeiros são os responsáveis pela resposta ao fogo em propriedades privadas, que é onde começam a maioria dos incêndios. Desde 2024, o governo federal cria acordos de cooperação com entes federativos, e um plano conjunto para pantanalcerrado e amazônia é esperado ainda para este ano.

O Executivo também elabora uma nova parceria com as Polícias Militares ambientais, contingente de cerca de 8.000 agentes para atuar com policiamento ostensivo em áreas de maior risco de incêndio —o que não aconteceu em anos anteriores.

Neste ano Ibama já aplicou 574 notificações prévias. Esse instrumento permite que, caso a propriedade registre um incêndio no futuro, o seu dono seja responsabilizado, caso não tenha adotado as medidas preventivas, como formação de brigadas de incêndio.

Na última reunião da sala de situação, em maio, foram apresentadas as ações que o governo federal precisa adotar caso as previsões mais pessimistas acerca do El Niño se confirmem, e agora cada pasta irá avaliar o que já é capaz de concretizar e o que demandará novos esforços —e recursos.

A disputa eleitoral é um fator de atenção. Dentre as regiões de mais risco de incêndios por motivação política, o Pará é o principal.

Em agosto 2019, por exemplo, fazendeiros do estado realizaram o que ficou conhecido como o “dia do fogo”, ação coordenada de queimadas com intuito de demonstrar apoio às políticas antiambientais do então governo de Jair Bolsonaro (PL).

Pelo mapeamento do governo, o Pará registra os três municípios avaliados como de maior risco para este ano: Altamira, Novo Progresso e São Félix do Xingu, cidades com forte incidência de desmatamento ilegal associado a grilagem e à criação de gado, e também com tendência bolsonarista.

Outras 18 cidades foram avaliadas como um risco intermediário: quatro no Pará, seis no Amazonas, cinco no Mato Grosso e três no Tocantins. Mais cerca de cem municípios pelo país são preocupantes em um menor nível, o que inclui regiões no Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

O objetivo do governo federal é que a Polícia Federal atue com foco nestes locais, registre flagrantes, investigue e responsabilize possíveis culpados.

Até aqui, o governo já mobilizou 4.410 brigadistas no país, divididos em mais de 200 equipes do Ibama e do ICMBio, um recorde.

Pelo plano, a Força Nacional precisará destacar mais de 200 agentes para compor brigadas e atuar na segurança em operações de fiscalização, junto com outros órgãos.

O governo avalia disponibilizar aeronaves do Ministério da Defesa para auxiliar nas ações, o que deve demandar contratação de horas-voo extras, e uma cooperação com a Bolívia para ações na fronteira, por meio da pasta de Relações Exteriores.

O Executivo também planeja campanhas de conscientização de produtores rurais e da população, de preparação de brigadistas e limpeza de estradas.

El Niño começou e pode se intensificar para nível muito forte, diz agência dos EUA (Folha de S.Paulo)

  • Fenômeno pode ter recorde desde o início dos registros, segundo Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa)
  • Efeitos no Brasil podem ser menos chuva na região Norte e maiores precipitações no Sul

11.jun.2026 às 10h27Atualizado: 11.jun.2026 às 19h47

Artigo original

Phillippe Watanabe

Bogotá (Colômbia)

A Noaa (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos confirmou, nesta quinta-feira (11), o início do El Niño.

O fenômeno climático deve se desenvolver para um nível moderado ou forte durante o outono no hemisfério norte (que vai de setembro a dezembro; primavera no sul), segundo a agência americana. Foi estimada em 63% a chance de um El Niño muito forte de novembro a janeiro —a possibilidade apresentada no mês passado era de 37%—, de acordo com a Noaa, com possibilidade de figurar entre os recordes do fenômeno desde o início dos registros, em 1950.

Apesar de o El Niño ter o poder de influenciar eventos climáticos extremos, cada ano do fenômeno é diferente. Por isso, segundo a Noaa, um El Niño considerado muito forte não necessariamente resultará em eventos climáticos maiores e mais impactos. Mas essa classificação aumenta as chances desses tipos de acontecimento.

Pés enlameados de pessoa após caminhada pelo leito seco de um lago na comunidade quilombola Saracura, na área de várzea do rio Amazonas, próxima a Santarém, no Pará – Lalo de Almeida – 22.nov.24/Folhapress

Por sinal, o El Niño mais recente, ocorrido em 2023 e 2024, foi um dos grandes já registrados. No Brasil, vimos uma seca histórica na amazônia e uma enchente catastrófica no Rio Grande do Sul.

O ano de 2024 foi também o mais quente registrado no mundo desde o século 19. Dado que o fenômeno meteorológico impacta nas temperaturas, já se especula a possibilidade de um novo recorde de calor se avizinhando.

Um El Niño muito forte significa um aquecimento igual ou maior a 2°C, comparado à média histórica, das águas superficiais do oceano Pacífico em uma região próxima à linha do Equador (veja mais abaixo).

As demais classificações de intensidade do fenômeno seguem a mesma lógica da temperatura da água, variando, em linhas gerais, a cada 0,5°C.

Dessa forma, um El Niño forte representa um aquecimento de 1,5°C a 2°C acima do nível normal; um moderado, de 1°C a 1,5°C; um fraco de 0,5°C a 1°C; e um neutro de -0,5°C a 0,5°C.

Para o meteorologista Márcio Cataldi, professor do departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente da Universidade Federal Fluminense (UFF), “as previsões indicam que esse pode ser um El Niño muito forte, mais forte do que o que a gente tem registrado até hoje”. Ele lembra, porém, que só há registros confiáveis de El Niño a partir da década de 1980, quando satélites passaram a contribuir com a coleta de dados.

O climatologista Francisco Eliseu Aquino, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), disse que o apelido super El Niño, que passou a ser usado para se referir ao evento agora em curso, destaca a intensidade do fenômeno em comparação aos demais, mas não é um termo técnico.

O que é o El Niño

O El Niño é um acontecimento natural e é caracterizado pelo aquecimento, acima da média, da superfície do oceano Pacífico, perto da linha do Equador. Vale lembrar que, apesar da sua ocorrência histórica, esse fenômeno agora ocorre em um mundo alterado pela crise climática, o que muda jogo, podendo amplificar impactos —e levando, inclusive, a uma alteração na medição do El Niño.

O fenômeno tem relação com os ventos alísios, que usualmente empurram águas quentes em direção à Ásia. Em alguns anos anos, porém, que tais ventos se enfraquecem, segundo a Noaa. Esses são os anos de El Niño.

Há ainda um outro fenômeno associado, a La Niña. Ainda segundo a agência americana, esse segundo acontecimento se dá quando os alísios se tornam mais intensos do que o normal. O fenômeno se caracteriza, com isso, pela superfície da água mais fria do que a média histórica.

O El Niño costuma durar entre 9 e 12 meses, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Em geral, começa no final do inverno do hemisfério Sul e atinge o pico entre novembro e janeiro. O fenômeno começa a desaparecer a partir do primeiro mês do ano.

Como afeta o Brasil

Segundo nota técnica do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o El Niño deste ano pode reduzir o volume de chuvas na amazônia. Isso levaria a um aumento no risco de fogo no bioma.

Por esse motivo, o ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), chegou a determinar que a União e os estados parte da amazônia e do pantanal apresentassem planejamento e os preparativos frente ao aumento do risco de incêndios florestais.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou recentemente que o governo federal está preparado para enfrentar os possíveis reflexos do El Niño no país. A gestão planeja ações para mitigar os impactos do fenômeno e evitar que incêndios florestais se espalhem pelo país em um eventual período de seca.

Enquanto o Norte e Nordeste usualmente ficam com menos chuvas, anos de El Niño costumam ter maior volume de precipitação no Sul do Brasil.

A região Centro-Oeste costuma ter temperaturas mais elevadas, aumentando também o risco de fogo.

Já no Sudeste, anos de El Niño costumam registrar aumento da temperatura média, especialmente na primavera e verão, mais chuvas no sudeste de São Paulo, centro-sul do Rio de Janeiro e de Minas Gerais e redução de precipitação em áreas mais ao norte. Também podem ocorrer secas na região, o que varia de acordo com a intensidade do fenômeno.

Como afeta outras partes do mundo

O El Niño provavelmente terá um impacto negativo na produção agrícola no Sudeste Asiático e na Índia, onde o fenômeno é tipicamente associado a chuvas abaixo da média, segundo Kyle Tapley, executivo de vendas empresariais do WeatherDesk da Vaisala Xweather.

As monções fornecem quase 70% das chuvas na Índia e são vitais para o setor agrícola, que representa cerca de 18% da economia de quase US$ 4 trilhões. Chuvas abaixo da média podem significar colheitas menores de culturas como arroz, algodão e soja, além de afetar as safras de inverno.

Enquanto isso, os produtores de arroz da Indonésia estão correndo para antecipar o calendário habitual de plantio enquanto enfrentam a ameaça de um longo período de seca neste ano. O ministro da Economia da Malásia alertou que o El Niño pode causar uma queda média de 8% a 10% na produção agrícola.

“O El Niño normalmente leva a uma temporada de furacões menos ativa nos EUA, e esperamos uma temporada de furacões no Atlântico abaixo da média neste ano. No entanto, é importante lembrar que um furacão forte ainda é possível mesmo em uma temporada menos ativa”, disse Tapley.

A temporada de furacões nos EUA começou em 1º de junho e vai até 30 de novembro.

Com Reuters

Adaptação emergencial ao El Niño vai de protocolos para chuvas a centros públicos de resfriamento (Folha de S.Paulo)

  • Planos incluem definir rotas de fuga e abrigos, além de treinar população com simulados
  • Prevenção é mais barata que impactos econômicos de eventos climáticos extremos, sentidos por até cinco anos

11.jun.2026 às 10h43

Jéssica Maes

Artigo original

Com a chegada do El Niñoanunciada nesta quinta-feira (11) pela Noaa (Administração Oceânica e Atmosférica Nacional), as cidades precisarão ter mais bem definidos os planos de preparação para enfrentar o fenômeno climático.

A preocupação com os impactos chegou na mobilizar o STF (Supremo Tribunal Federal) —que não costuma se debruçar sobre debates climáticos— e, no final de maio, o ministro Flávio Dino determinou que os governos federal e estaduais apresentassem planos de preparação para a chegada do El Niño.

Bairro da cidade de Cruzeiro do Sul foi devastado pelas enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024; El Niño deve aumentar recorrência de temporais na região sul – Folhapress/Anselmo Cunha – 4.jun.2024

Mas, e as autoridades que não obedeceram Dino, que medidas podem tomar agora que o fenômeno começou?

Mesmo diante de um planeta cada vez mais instável, eventos passados e modelos climáticos são os melhores mapas para definir as estratégias para enfrentar este El Niño. O fenômeno, provocado pelo aquecimento do Pacífico Equatorial, tende a gerar chuvas acima da média na região Sul, enquanto Norte e Nordeste normalmente sofrem com secas mais intensas.

“O Pacífico corresponde a metade da Terra em longitude. É muita água. Quando essa água se move e muda de lugar, ela cutuca a atmosfera e gera ondas atmosféricas”, diz a oceanóloga Regina Rodrigues, pesquisadora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

“No Brasil, o que geralmente acontece é que essas ondas criam o que chamamos de bloqueio atmosférico —uma alta pressão que fica sobre o Sudeste. As frentes frias chegam e não conseguem passar. Então, fica chovendo no mesmo lugar”, explica.

Planos de contingenciamento

Rodrigues acrescenta que saber onde, exatamente, essas chuvas vão acontecer, se no Rio Grande do Sul ou em Santa Catarina, por exemplo, é mais difícil de prever no longo prazo. Mas as simulações climáticas usadas atualmente já conseguem fazer a previsão no médio prazo, com 10 a 15 dias de antecedência.

“Se os estados e cidades estivessem preparados, bastaria acionar os planos de contingência para atuar. Evitar tudo não é possível, mas há uma série de medidas que podem aliviar os impactos”, diz a cientista, acrescentando que essas ações de adaptação precisam ser locais.

Planos de contingência incluem, por exemplo, saber quais lugares correm risco de deslizamento de terra e comunicar a população sobre o que fazer quando começar a chover.

O meteorologista Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), afirma que as cidades precisam detalhar elementos como a rota de fuga e a definição prévia de espaços que servirão como abrigos na hora da emergência.

“E o ideal é que tudo isso seja treinado, simulado. É difícil fazer um plano de contingência para uma cidade como Porto Alegre? É muito difícil, mas tem que ser feito”, adverte o pesquisador.

Ele conta que cidades como Valparaíso, que precisa se preparar para a ocorrência de tsunamis, faz simulados regularmente com toda a população, de mais de 300 mil habitantes.

Seluchi ressalta, ainda, a importância da conscientização da população em seguir as orientações das autoridades.

“Quando a Defesa Civil chega, a pessoa fala: ‘Ah, moro aqui há 40 anos e aqui não acontece nada. O rio nunca chegou até aqui’. Até que o rio chega e as pessoas morrem afogadas. Isso é terrível. É preciso conscientizar as pessoas com certo cuidado, sem gerar pânico, mas indicando o que deve ser feito”, diz.

O mesmo vale para alertas de condições extremas que são enviadas por mensagem de texto, como é o caso da prefeitura de São Paulo. “Não adianta você ter um celular tocando se você não sabe o que tem que fazer”, afirma o meteorologista.

Estrutura física e burocrática

Além das tempestades, o El Niño também tende a aumentar a ocorrência de ondas de calor e secas, o que pode levar a problemas de saúde e incêndios florestais.

“É possível que nos meses de agosto a outubro tenhamos muitas ondas de calor, com temperaturas muito elevadas e umidade muito baixa. É necessário ter um protocolo, incluindo suspender algumas atividades, como aquelas ao ar livre”, opina Seluchi.

Entre as estratégias para evitar que as pessoas se exponham às altas temperaturas estão a definição de locais públicos para resfriamento: estabelecimentos com ar-condicionado e água à disposição da população.

No caso dos incêndios florestais, o governo federal vem fazendo há meses uma mobilização com os entes subnacionais para estruturação de brigadas e outras providências, como fazer aceiros para evitar que as chamas se espalhem.

Além disso, é possível reforçar campanhas de comunicação para que não sejam feitas fogueiras ou queimadas durante a seca e endurecer a fiscalização de crimes ambientais.

Rodrigues afirma, ainda, que algumas medidas burocráticas podem ser uma boa carta na manga para as prefeituras e governos estaduais. “A Defesa Civil de Santa Catarina, por exemplo, já tem contratos pré-licitados com empresas para casos de emergência, estrutura de liderança comunitária e contingenciamento pronto para ser acionado.”

Em caso de previsão de chuvas fortes, uma atitude simples é limpar os sistemas de drenagem das cidades, ajudando a prevenir inundações.

“Não é muito dinheiro se você pensar nos impactos”, diz a pesquisadora da UFSC. “Estudos mostram que cinco anos depois de um evento climático extremo o impacto econômico ainda é sentido. Vamos sentir até 2029 os impactos do El Niño de 2023/24 —mas já temos outro. A prevenção é muito mais barata.”

Crise do clima afeta saúde individual com mais dias de calorão e tempo seco; entenda (Folha de S.Paulo)

Aumento das inundações também está entre mudanças previstas por painel da ONU

Phillippe Watanabe – São Paulo

14.ago.2021 às 12h00

OK, você já entendeu que a crise do clima é para valer e causada pela atividade humana, como mostrou o relatório recente do IPCC (Painel Intergovernamental de Mudança do Clima). Agora, como isso pode afetar seu dia a dia?

O impacto do aumento da temperatura média na Terra é planetário, com elevação do nível do mar e alteração de ecossistemas inteiros, entre outras mudanças.

Alterações regionais do clima, com maior frequência de eventos extremos, já são percebidas e se intensificarão nos próximos anos, com consequências diretas na saúde de todos.

No Brasil, alguns estados conviverão com mais dias de calorão, que podem ser prejudiciais à saúde a ponto de provocar a morte de idosos.

Em outros, chuvas intensas se tornarão mais recorrentes, ocasionando inundações que aumentam o risco de doenças, quando não destroem bairros e cidades.

Por fim, as secas também devem ficar mais intensas, o que pode agravar problemas respiratórios.

Além disso, tanto as chuvas intensas quanto as secas prejudicam lavouras, aumentando o preço dos alimentos.

Um exemplo prático de aumento de temperatura está no Sudeste e no Sul do Brasil. Segundo o cenário mais otimista do IPCC, até 2040 os dias com termômetros acima de 35°C passarão de 26 por ano (média de 1995 a 2014) para 32. Num cenário intermediário, até o final do século esse número pode chegar a 43, um aumento de mais de 65% em relação à situação recente.

No Centro-Oeste, o aumento do calorão é ainda mais severo. No cenário intermediário, do IPCC, a média de 53 dias por ano com termômetros acima de 35°C salta para cerca de 72 até 2040 e para 108 até o fim do século, ou pouco mais de um trimestre de temperatura extrema.

​As consequências para a saúde são graves. Ondas de calor extremo podem causar hipertermia, que afeta os órgãos internos e provoca lesões no coração, nas células musculares e nos vasos sanguíneos. São danos que podem levar à morte.

Homem empurra carrinho com frutas em rua inundada em Manaus, que enfrentou, nos últimos meses, a maior cheia já registrada do rio Negro
Homem empurra carrinho com frutas em rua inundada em Manaus, que enfrentou, nos últimos meses, a maior cheia já registrada do rio Negro – Michael Dantas/AFP

Em junho, uma onda de calor nos estados de Oregon e Washington, nos Estados Unidos, custou a vida de centenas de pessoas. Segundo reportagem do jornal The New York Times, foram registrados cerca de 600 óbitos em excesso no período.

Além do calor, a crise do clima deve tornar mais frequentes os períodos de seca e os dias sem chuva em muitas regiões. É o caso da Amazônia.

Dados do IPCC apontam que, na região Norte, no período 1995-2014 eram em média 43 dias consecutivos sem chuva por ano, que podem aumentar para 51, com períodos 10% mais secos até 2040.

Situação similar deve ocorrer no Centro-Oeste, que tinha 69 dias consecutivos sem chuva por ano, que podem ir a 76, com períodos 13% mais secos.

Períodos mais secos nessas regiões preocupam por causa das queimadas. Na Amazônia, por exemplo, a época sem chuvas é associada à intensificação de processos de desmatamento e de incêndios.

As queimadas na região amazônica têm relação com piora da qualidade do ar e consequentes problemas respiratórios. A Fiocruz e a ONG WWF-Brasil estimam que estados amazônicos com índices elevados de queimadas tenham gastado, em dez anos, quase R$ 1 bilhão com hospitalizações por doenças respiratórias provavelmente relacionadas à fumaça dos incêndios.

No ano passado, o Pantanal passou por sua pior seca dos últimos 60 anos, estiagem que ainda pode continuar por até cinco anos, segundo afirmou à época a Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil. A situação fez explodir o número de queimadas na região.

O IPCC também aponta aumento da frequência e da intensidade de chuvas extremas e enchentes em diversas regiões do Brasil.

Além dos danos óbvios na infraestrutura das cidades, as inundações provocam problemas de saúde. Hepatite A (transmitida de modo oral-fecal, ou seja, por alimentos e água contaminada) e leptospirose (com transmissão a partir do contato com urina de ratos) são suspeitos conhecidos, mas há também o risco de acidentes com animais peçonhentos, já que cobras e escorpiões podem procurar abrigos dentro das casas.

Manaus tornou-se exemplo recente desse tipo de situação. A cidade enfrentou uma cheia histórica, a maior desde o início das medições, há 119 anos. As águas do rio Negro provocaram inundações com duração superior a um mês na principal capital da região amazônica. Seis das dez maiores cheias já registradas no rio ocorreram no século 21, ou seja, nas últimas duas décadas.

Ruas da região do porto de Manaus tiveram que ser interditadas e foi necessária a construção de passarelas sobre as vias alagadas. Enquanto isso, comerciantes fizeram barreiras com sacos de areia e jogaram cal na água parada para tentar neutralizar o cheiro de fezes.

Em meio à inundação em igarapés, houve acúmulo de lixo, que chegou a cobrir toda a área superficial da água. Dentro das casas, moradores usaram plataformas de madeira (chamadas de marombas) para suspender móveis e eletrodomésticos.

As enchentes não são exclusividade amazônica. Elas também ocorrem na região Sudeste, em São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo.

Pouco tempo depois da cheia em Manaus, a Europa também viu chuvas intensas concentradas em um curto espaço de tempo causarem inundações severas, principalmente na Alemanha. Além da destruição de vias públicas e imóveis, houve mais de uma centena de mortes.

Também no mesmo período, a China teve que lidar com grandes precipitações e perda de vidas humanas pelas inundações, que chegaram a encher de água o metrô, deixando pessoas presas. Foram as piores chuvas em 60 anos em Zhengzhou, capital da província de Henan.

Em termos globais, um estudo recente apontou o aumento da população exposta a inundações. De 2000 a 2015, de 255 milhoes a 290 milhões de pessoas foram diretamente afetadas por enchentes.

Atlas

Umas das novidades do novo relatório do IPCC é o espaço dedicado às emergências climáticas regionais e, relacionado a isso, o Atlas interativo, uma ferramenta que permite o acesso às informações do clima de diferentes regiões do mundo .

Segundo Lincoln Alves, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) e autor-líder do Atlas do IPCC, a ferramenta pretende facilitar o acesso a informações normalmente complexas. “É visível a mudança do clima”, afirma o pesquisador.

A partir do Atlas, diz Alves, é possível que comunidades, empresas e até esferas do governo consigam olhar de forma mais regional para os efeitos da crise do clima.

A ferramenta permite ver a história climática da Terra e observar as projeções para diferentes variáveis em diferentes cenários de emissões —e de aquecimento, como 1,5°C e 2°C— apontados pelo IPCC.


PRINCIPAIS CONCLUSÕES DO RELATÓRIO DO IPCC

  • Aumento de temperatura provocada pelo ser humano desde 1850-1900 até 2010-2019: de 0,8°C a 1,21°C
  • Os anos de 2016 a 2020 foram o período de cinco anos mais quentes de 1850 a 2020
  • De 2021 a 2040, um aumento de temperatura de 1,5°C é, no mínimo, provável de acontecer em qualquer cenário de emissões
  • A estabilização da temperatura na Terra pode levar de 20 a 30 anos se houver redução forte e sustentada de emissões
  • O oceano está esquentando mais rápido —inclusive em profundidades maiores do que 2.000 m— do que em qualquer período anterior, desde pelo menos a última transição glacial. É extremamente provável que as atividades humanas sejam o principal fator para isso
  • O oceano continuará a aquecer por todo o século 21 e provavelmente até 2300, mesmo em cenários de baixas emissões
  • O aquecimento de áreas profundas do oceano e o derretimento de massas de gelo tende a elevar o nível do mar, o que tende a se manter por milhares de anos
  • Nos próximos 2.000 anos, o nível médio global do mar deve aumentar 2 a 3 metros, se o aumento da temperatura ficar contido em 1,5°C. Se o aquecimento global ficar contido a 2°C, o nível deve aumentar de 2 a 6 metros. No caso de 5°C de aumento de temperatura, o mar subirá de 19 a 22 metros