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1952: Uma Odisséia no Sertão (Folha de S.Paulo)

1 Jun 2016

QUARTA-FEIRA, 1° DE JUNHO DE 2016

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Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, que viajou com Guimarães Rosa em 1952

Último vaqueiro relembra expedição que inspirou ‘Grande Sertão: Veredas’

Na viagem que fez pelo sertão de Minas Gerais em 1952, João Guimarães Rosa era conhecido pelos vaqueiros apenas como Joãozito. Hoje, ainda é assim que o último remanescente da expedição se refere ao diplomata e escritor.

“Joãozito era meio caladão, mas engraçado. Contava casos e gostava também de ouvir a gente contar para ele. Sempre [estava] com uma cadernetinha pendurada no pescoço. E nela, escrevia as coisas de qualquer jeito”, relembra Francisco Guimarães Moreira Filho, 81, mais conhecido como Criolo.

A viagem é histórica porque serviu de subsídio para parte da obra de Guimarães Rosa: o conjunto de sete novelas “Corpo de Baile” e para o romance e obra-prima “Grande Sertão: Veredas” –que seria inicialmente uma das histórias de “Corpo de Baile”. Ambos os livros foram lançados em 1956, há 60 anos.

Alexandre Rezende – 24.mai.2016/Folhapress
SETE LAGOAS, MG, BRASIL, 24-05-2016, 12:30h. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo", na empresa de sua familia em Sete Lagoas. No mês em que "Grande Sertão: Veredas" completa 60 anos, apenas um remanescente da expedição que levou Guimarães Rosa ao sertão de Minas Gerais ainda vive. Francisco Guimarães Moreira Filho, o "Criolo" (apelido irônico por ele ser branco demais), acompanhou Guimarães Rosa na viagem feita em 1952 que inspirou o autor a escrever o romance e ainda guarda imagens e lembranças da época, aos 81 anos.(Alexandre Rezende/Folhapress ILUSTRADA) *** EXCLUSIVO FOLHA *** ORG XMIT: Alexandre Rezende
Francisco Guimarães Moreira Filho, o “Criolo”, na empresa de sua familia em Sete Lagoas

Criolo tinha 17 anos quando participou da travessia de dez dias do escritor pelo interior de Minas Gerais. A comitiva foi organizada pelo pai de Criolo, Chico Moreira, e saiu da fazenda Sirga, onde hoje é o município de Três Marias, para levar 180 cabeças de gado até a fazenda São Francisco, em Araçaí, a 240 km de distância.

Guimarães Rosa (1908-1967) era primo de Chico e foi junto para conhecer o dia a dia do sertanejo. Aprendeu a andar de cavalo, a tocar boiada e, quando voltou para casa, no Rio de Janeiro, levou um papagaio.

Quatro anos depois, publicou os dois livros. Em “Corpo de Baile” (1956), um personagem inspirado no capataz Manuelzão (Manuel Nardi, morto em 1997) está no título de uma das novelas.

“O sucesso dele como escritor foi ‘Grande Sertão’, e saiu dessa viagem da boiada”, diz à Folha Criolo, que ganhou o apelido ainda na infância –uma ironia por ser branco demais.

Numa sala de sua pequena empresa em Sete Lagoas (MG), onde aluga guinchos, Criolo espalhou fotos da expedição nas paredes, que foram registradas pela revista “O Cruzeiro”. Uma placa diz: “A origem do Grande Sertão: Veredas”.

Mas, do livro mesmo, Criolo conhece apenas o título. “Não consegui ler, nem papai. Apesar de ser pessoa estudada, ele não conseguiu entender o palavreado.”

Em 2007, para iniciar a comemoração do centenário do nascimento do escritor, Criolo refez a viagem, que também durou dez dias, acompanhado de mais 40 pessoas.

‘SAUDADES DAÍ’

“Chico, saudades daí tenho sempre”, diz a carta de Guimarães Rosa emoldurada na parede onde fica o acervo de Criolo. Assinada em 6 de outubro de 1952, ela foi enviada para seu pai.

“O papagaio está gordo e alegre, magnífico. Aprendeu muita conversa carioca, mas não se esqueceu do repertório sertanejo: (…) sabe chamar as vacas, com notável entusiasmo”, escreveu Guimarães Rosa.

Da comitiva de nove vaqueiros que acompanhou o escritor, Manuelzão se tornou o mais conhecido e morreu como uma figura mítica do sertão de Minas Gerais.

Já Chico Moreira, que era o dono da fazenda e foi quem viabilizou a expedição, é pouco lembrado. De acordo com o filho, ele tentou ajudar ao máximo Guimarães Rosa a se adaptar à viagem.

Mandou, inclusive, um funcionário ir antecipadamente de uma fazenda a outra com uma mula mansa para o diplomata cavalgar. Mas foi Manuelzão quem ensinou Guimarães Rosa a montar.

Criolo reclama que as fotos da expedição foram retiradas de exposição no museu Casa de Guimarães Rosa, que fica em Cordisburgo (MG), onde o escritor nasceu. Para ele, só querem que o escritor apareça em fotos usando smoking.

“Não querem que fale que ele foi peão, que andou a cavalo, que tocou boiada. Querem que ele só seja alta sociedade”, queixa-se.

Procurada, a coordenação do museu informou que as exposições são temporárias e trocadas constantemente. Também informa que as fotos da expedição continuam, sim, a fazer parte do acervo do museu.

As veredas de Guimarães já são escassas, e antenas se impõem

Paulo Peixoto, 01/06/2016

É difícil lidar com a obra de João Guimarães Rosa e não se sentir provocado a ir esmiuçar o “sertão roseano”, conhecer a gente daquele lugar, o bioma de buritis e veredas, as cidades, as roças, as mínimas coisas tão caprichosamente eternizadas nas histórias e contos desse clássico escritor parido naquele cerrado brasileiro.

Nada melhor do que um período sabático para ler e reler toda a obra de Rosa e pôr os pés naquele pedaço de Minas Gerais que ele muito bem nos apresentou. Foi isso o que eu pude fazer durante cinco meses em 2011.

As duas únicas imposições que fiz a mim mesmo foram: não deixar nunca faltar gasolina no carro e agir sempre de acordo com o tempo do sertão, que passa sem pressa e com prosa. Isso não é lenda!

ORG XMIT: 390901_0.tif O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Guimarães Rosa viaja entre Cordisburgo e Três Marias, no sertão mineiro, colhendo material para o livro "Grande Sertão: Veredas", acompanhado por Álvares da Silva e Eugênio Silva, repórter e fotógrafo, respectivamente, da revista "O Cruzeiro" que publicou, na edição de 21 de junho de 1952, a reportagem sobre a viagem. (Minas Gerais, maio de 1952. Foto de Eugênio Silva/O Cruzeiro) O escritor João Guimarães Rosa (de óculos) e sertanejos em maio de 1952. Eugênio Silva – 1º.mai.1952/O Cruzeiro. 

O silêncio é uma marca no sertão. Viajar por ele deu sentido a uma frase de Rosa em “Grande Sertão: Veredas”. “O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais”. Era preciso, então, ouvir esse silêncio.

Velhos vaqueiros e tropeiros cruzaram o meu caminho, caso do vivaz, lúcido e já quase cego homem de Beltrão, um lugarejo de Corinto, Feliciano Tavares de Souza, então com 94 anos. Personagem marcante.

Já velho, ele virou benzedor, um homem da “fé curativa”. Ao longo da vida, teve 15 filhos com duas mulheres e uma companhia inseparável: uma arma calibre 38. ”

“[Naquele tempo] Se não estivesse armado, eu não tinha vida [hoje]. Respeitava[-se] era a arma, não a pessoa. O governo deveria ter uma lei de desarmar todo mundo”, dizia ele.

Novos personagens se apresentaram. Foram benzedeiros e benzedeiras vocacionados “”é, eles dizem que é preciso ter vocação para herdar os ensinamentos, a religiosidade e a bondade dos seus parentes mais velhos.

As doceiras do sertão e seus inseparáveis tachos de cobre, os produtores e vendedores de minhocuçu foram outros que conheci.

E não poderiam ter faltado os companheiros de botequim que contavam causos do vaqueiro Manuel Nardi (1904-1997), o Manuelzão, em Andrequicé.

MUDANÇAS

Muita coisa mudou no sertão. A paisagem mudou bastante. As veredas já são escassas.

Para ver de perto o “porto” do rio de Janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontraram, foi preciso atravessar quilômetros de estrada de terra batida em meio a plantações de eucalipto, que viram carvão para siderúrgicas. Uma tragédia ambiental.

Muito da vida rural se tornou urbana no sertão mineiro. O desenvolvimento a partir da segunda metade do século passado levou a isso.

O “brega” anima as festas nas cidades. O marketing americanizado no comércio urbano chamou bastante minha atenção: “Lan House New Emotions”, “Look da Moda”, “Marly Free Modas”.

Outros nomes também me pareceram um tanto estranhos: “Moda Nua Confecções” e “Zeus – A Arte de Vestir Bem”. Haja criatividade!

Mas nas pequenas cidades do sertão prevalece a tranquilidade, a vida pacata. Chegar em Morro da Garça (2.630 habitantes) e ver de perto a colina solitária em forma de pirâmide que inspirou Rosa no conto “O Recado do Morro” foi mais um mergulho no universo do escritor.

Uma antena de telefonia na crista do local agora se impõe. Mas eu a saudei quando precisei usar o celular para enviar um S.O.S. para a retirada do carro atolado.

Nessa viagem dos livros para a realidade do sertão de hoje, foram muitas descobertas. Somos apresentados a um mundo em que as pessoas, embora simples, nos contam histórias cheias de valor, vindas de um tempo em extinção.

Retornar a Cordisburgo e rever o Museu Casa de Guimarães Rosa, conhecer o Memorial Manuelzão, em Andrequicé, descobrir o Memorial Carlos Chagas, em Lassance, me proporcionaram experiências memoráveis. Revi grutas e os tantos rios que demarcam o “sertão roseano”. Nadei em vários deles.

É uma viagem que vale a pena. “Aprender a viver é que é o viver mesmo”, ensinou Rosa.

The world’s greatest literature reveals multi fractals and cascades of consciousness (Science Daily)

Date: January 21, 2016

Source: The Henryk Niewodniczanski Institute of Nuclear Physics Polish Academy of Sciences

Summary: James Joyce, Julio Cortazar, Marcel Proust, Henryk Sienkiewicz and Umberto Eco. Regardless of the language they were working in, some of the world’s greatest writers appear to be, in some respects, constructing fractals. Statistical analysis, however, revealed something even more intriguing. The composition of works from within a particular genre was characterized by the exceptional dynamics of a cascading (avalanche) narrative structure.


Sequences of sentence lengths (as measured by number of words) in four literary works representative of various degree of cascading character. Credit: Source: IFJ PAN 

James Joyce, Julio Cortazar, Marcel Proust, Henryk Sienkiewicz and Umberto Eco. Regardless of the language they were working in, some of the world’s greatest writers appear to be, in some respects, constructing fractals. Statistical analysis carried out at the Institute of Nuclear Physics of the Polish Academy of Sciences, however, revealed something even more intriguing. The composition of works from within a particular genre was characterized by the exceptional dynamics of a cascading (avalanche) narrative structure. This type of narrative turns out to be multifractal. That is, fractals of fractals are created.

As far as many bookworms are concerned, advanced equations and graphs are the last things which would hold their interest, but there’s no escape from the math. Physicists from the Institute of Nuclear Physics of the Polish Academy of Sciences (IFJ PAN) in Cracow, Poland, performed a detailed statistical analysis of more than one hundred famous works of world literature, written in several languages and representing various literary genres. The books, tested for revealing correlations in variations of sentence length, proved to be governed by the dynamics of a cascade. This means that the construction of these books is in fact a fractal. In the case of several works their mathematical complexity proved to be exceptional, comparable to the structure of complex mathematical objects considered to be multifractal. Interestingly, in the analyzed pool of all the works, one genre turned out to be exceptionally multifractal in nature.

Fractals are self-similar mathematical objects: when we begin to expand one fragment or another, what eventually emerges is a structure that resembles the original object. Typical fractals, especially those widely known as the Sierpinski triangle and the Mandelbrot set, are monofractals, meaning that the pace of enlargement in any place of a fractal is the same, linear: if they at some point were rescaled x number of times to reveal a structure similar to the original, the same increase in another place would also reveal a similar structure.

Multifractals are more highly advanced mathematical structures: fractals of fractals. They arise from fractals ‘interwoven’ with each other in an appropriate manner and in appropriate proportions. Multifractals are not simply the sum of fractals and cannot be divided to return back to their original components, because the way they weave is fractal in nature. The result is that in order to see a structure similar to the original, different portions of a multifractal need to expand at different rates. A multifractal is therefore non-linear in nature.

“Analyses on multiple scales, carried out using fractals, allow us to neatly grasp information on correlations among data at various levels of complexity of tested systems. As a result, they point to the hierarchical organization of phenomena and structures found in nature. So we can expect natural language, which represents a major evolutionary leap of the natural world, to show such correlations as well. Their existence in literary works, however, had not yet been convincingly documented. Meanwhile, it turned out that when you look at these works from the proper perspective, these correlations appear to be not only common, but in some works they take on a particularly sophisticated mathematical complexity,” says Prof. Stanislaw Drozdz (IFJ PAN, Cracow University of Technology).

The study involved 113 literary works written in English, French, German, Italian, Polish, Russian and Spanish by such famous figures as Honore de Balzac, Arthur Conan Doyle, Julio Cortazar, Charles Dickens, Fyodor Dostoevsky, Alexandre Dumas, Umberto Eco, George Elliot, Victor Hugo, James Joyce, Thomas Mann, Marcel Proust, Wladyslaw Reymont, William Shakespeare, Henryk Sienkiewicz, JRR Tolkien, Leo Tolstoy and Virginia Woolf, among others. The selected works were no less than 5,000 sentences long, in order to ensure statistical reliability.

To convert the texts to numerical sequences, sentence length was measured by the number of words (an alternative method of counting characters in the sentence turned out to have no major impact on the conclusions). The dependences were then searched for in the data — beginning with the simplest, i.e. linear. This is the posited question: if a sentence of a given length is x times longer than the sentences of different lengths, is the same aspect ratio preserved when looking at sentences respectively longer or shorter?

“All of the examined works showed self-similarity in terms of organization of the lengths of sentences. Some were more expressive — here The Ambassadors by Henry James stood out — while others to far less of an extreme, as in the case of the French seventeenth-century romance Artamene ou le Grand Cyrus. However, correlations were evident, and therefore these texts were the construction of a fractal,” comments Dr. Pawel Oswiecimka (IFJ PAN), who also noted that fractality of a literary text will in practice never be as perfect as in the world of mathematics. It is possible to magnify mathematical fractals up to infinity, while the number of sentences in each book is finite, and at a certain stage of scaling there will always be a cut-off in the form of the end of the dataset.

Things took a particularly interesting turn when physicists from the IFJ PAN began tracking non-linear dependence, which in most of the studied works was present to a slight or moderate degree. However, more than a dozen works revealed a very clear multifractal structure, and almost all of these proved to be representative of one genre, that of stream of consciousness. The only exception was the Bible, specifically the Old Testament, which has so far never been associated with this literary genre.

“The absolute record in terms of multifractality turned out to be Finnegan’s Wake by James Joyce. The results of our analysis of this text are virtually indistinguishable from ideal, purely mathematical multifractals,” says Prof. Drozdz.

The most multifractal works also included A Heartbreaking Work of Staggering Genius by Dave Eggers, Rayuela by Julio Cortazar, The US Trilogy by John Dos Passos, The Waves by Virginia Woolf, 2666 by Roberto Bolano, and Joyce’s Ulysses. At the same time a lot of works usually regarded as stream of consciousness turned out to show little correlation to multifractality, as it was hardly noticeable in books such as Atlas Shrugged by Ayn Rand and A la recherche du temps perdu by Marcel Proust.

“It is not entirely clear whether stream of consciousness writing actually reveals the deeper qualities of our consciousness, or rather the imagination of the writers. It is hardly surprising that ascribing a work to a particular genre is, for whatever reason, sometimes subjective. We see, moreover, the possibility of an interesting application of our methodology: it may someday help in a more objective assignment of books to one genre or another,” notes Prof. Drozdz.

Multifractal analyses of literary texts carried out by the IFJ PAN have been published in Information Sciences, a journal of computer science. The publication has undergone rigorous verification: given the interdisciplinary nature of the subject, editors immediately appointed up to six reviewers.


Journal Reference:

  1. Stanisław Drożdż, Paweł Oświȩcimka, Andrzej Kulig, Jarosław Kwapień, Katarzyna Bazarnik, Iwona Grabska-Gradzińska, Jan Rybicki, Marek Stanuszek. Quantifying origin and character of long-range correlations in narrative textsInformation Sciences, 2016; 331: 32 DOI: 10.1016/j.ins.2015.10.023

Preternatural machines (AEON)

by 

Robots came to Europe before the dawn of the mechanical age. To a medieval world, they were indistinguishable from magic

E R Truitt is a medieval historian at Bryn Mawr College in Pennsylvania. Her book, Medieval Robots: Mechanism, Magic, Nature, and Art, is out in June.

Edited by Ed Lake

In 807 the Abbasid caliph in Baghdad, Harun al-Rashid, sent Charlemagne a gift the like of which had never been seen in the Christian empire: a brass water clock. It chimed the hours by dropping small metal balls into a bowl. Instead of a numbered dial, the clock displayed the time with 12 mechanical horsemen that popped out of small windows, rather like an Advent calendar. It was a thing of beauty and ingenuity, and the Frankish chronicler who recorded the gift marvelled how it had been ‘wondrously wrought by mechanical art’. But given the earliness of the date, what’s not clear is quite what he might have meant by that.

Certain technologies are so characteristic of their historical milieux that they serve as a kind of shorthand. The arresting title credit sequence to the TV series Game of Thrones (2011-) proclaims the show’s medieval setting with an assortment of clockpunk gears, waterwheels, winches and pulleys. In fact, despite the existence of working models such as Harun al-Rashid’s gift, it was another 500 years before similar contraptions started to emerge in Europe. That was at the turn of the 14th century, towards the end of the medieval period – the very era, in fact, whose political machinations reportedly inspired the plot of Game of Thrones.

When mechanical clockwork finally took off, it spread fast. In the first decades of the 14th century, it became so ubiquitous that, in 1324, the treasurer of Lincoln Cathedral offered a substantial donation to build a new clock, to address the embarrassing problem that ‘the cathedral was destitute of what other cathedrals, churches, and convents almost everywhere in the world are generally known to possess’. It’s tempting, then, to see the rise of the mechanical clock as a kind of overnight success.

But technological ages rarely have neat boundaries. Throughout the Latin Middle Ages we find references to many apparent anachronisms, many confounding examples of mechanical art. Musical fountains. Robotic servants. Mechanical beasts and artificial songbirds. Most were designed and built beyond the boundaries of Latin Christendom, in the cosmopolitan courts of Baghdad, Damascus, Constantinople and Karakorum. Such automata came to medieval Europe as gifts from foreign rulers, or were reported in texts by travellers to these faraway places.

In the mid-10th century, for instance, the Italian diplomat Liudprand of Cremona described the ceremonial throne room in the Byzantine emperor’s palace in Constantinople. In a building adjacent to the Great Palace complex, Emperor Constantine VII received foreign guests while seated on a throne flanked by golden lions that ‘gave a dreadful roar with open mouth and quivering tongue’ and switched their tails back and forth. Next to the throne stood a life-sized golden tree, on whose branches perched dozens of gilt birds, each singing the song of its particular species. When Liudprand performed the customary prostration before the emperor, the throne rose up to the ceiling, potentate still perched on top. At length, the emperor returned to earth in a different robe, having effected a costume change during his journey into the rafters.

The throne and its automata disappeared long ago, but Liudprand’s account echoes a description of the same marvel that appears in a Byzantine manual of courtly etiquette, written – by the Byzantine emperor himself, no less – at around the same time. The contrast between the two accounts is telling. The Byzantine one is preoccupied with how the special effects slotted into certain rigid courtly rituals. It was during the formal introduction of an ambassador, the manual explains, that ‘the lions begin to roar, and the birds on the throne and likewise those in the trees begin to sing harmoniously, and the animals on the throne stand upright on their bases’. A nice refinement of royal protocol. Liudprand, however, marvelled at the spectacle. He hazarded a guess that a machine similar to a winepress might account for the rising throne; as for the birds and lions, he admitted: ‘I could not imagine how it was done.’

Other Latin Christians, confronted with similarly exotic wonders, were more forthcoming with theories. Engineers in the West might have lacked the knowledge to copy these complex machines or invent new ones, but thanks to gifts such as Harun al-Rashid’s clock and travel accounts such as Liudprand’s, different kinds of automata became known throughout the Christian world. In time, scholars and philosophers used their own scientific ideas to account for them. Their framework did not rely on a thorough understanding of mechanics. How could it? The kind of mechanical knowledge that had flourished since antiquity in the East had been lost to Europe following the decline of the western Roman Empire.

Instead, they talked about what they knew: the hidden powers of Nature, the fundamental sympathies between celestial bodies and earthly things, and the certainty that demons existed and intervened in human affairs. Arthur C Clarke’s dictum that any sufficiently advanced technology is indistinguishable from magic was rarely more apposite. Yet the very blurriness of that boundary made it fertile territory for the medieval Christian mind. In time, the mechanical age might have disenchanted the world – but its eventual victory was much slower than the clock craze might suggest. And in the meantime, there were centuries of magical machines.

In the medieval Latin world, Nature could – and often did – act predictably. But some phenomena were sufficiently weird and rare that they could not be considered of a piece with the rest of the natural world. They therefore were classified as preternatural: literally, praeter naturalis or ‘beyond nature’.

What might fall into this category? Pretty much any freak occurrence or deviation from the ordinary course of things: a two-headed sheep, for example. Then again, some phenomena qualified as preternatural because their causes were not readily apparent and were thus difficult to know. Take certain hidden – but essential – characteristics of objects, such as the supposedly fire-retardant skin of the salamander, or the way that certain gems were thought to detect or counteract poison. Magnets were, of course, a clear case of the preternatural at work.

If the manifestations of the preternatural were various, so were its causes. Nature herself might be responsible – just because she often behaved predictably did not mean that she was required to do so – but so, equally, might demons and angels. People of great ability and learning could use their knowledge, acquired from ancient texts, to predict preternatural events such as eclipses. Or they might harness the secret properties of plants or natural laws to bring about certain desired outcomes. Magic was largely a matter of manipulating this preternatural domain: summoning demons, interpreting the stars, and preparing a physic could all fall under the same capacious heading.

All of which is to say, there were several possible explanations for the technological marvels that were arriving from the east and south. Robert of Clari, a French knight during the disastrous Fourth Crusade of 1204, described copper statues on the Hippodrome that moved ‘by enchantment’. Several decades later, Franciscan missionaries to the Mongol Empire reported on the lifelike artificial birds at the Khan’s palace and speculated that demons might be the cause (though they didn’t rule out superior engineering as an alternative theory).

Does a talking statue owe its powers to celestial influence or demonic intervention?

Moving, speaking statues might also be the result of a particular alignment of planets. While he taught at the cathedral school in Reims, Gerbert of Aurillac, later Pope Sylvester II (999-1003), introduced tools for celestial observation (the armillary sphere and the star sphere) and calculation (the abacus and Arabic numerals) to the educated elites of northern Europe. His reputation for learning was so great that, more than 100 years after his death, he was also credited with making a talking head that foretold the future. According to some accounts, he accomplished this through demonic magic, which he had learnt alongside the legitimate subjects of science and mathematics; according to others, he used his superior knowledge of planetary motion to cast the head at the precise moment of celestial conjunction so that it would reveal the future. (No doubt he did his calculations with an armillary sphere.)

Because the category of the preternatural encompassed so many objects and phenomena, and because there were competing, rationalised explanations for preternatural things, it could be difficult to discern the correct cause. Does a talking statue owe its powers to celestial influence or demonic intervention? According to one legend, Albert the Great – a 13th-century German theologian, university professor, bishop, and saint – used his knowledge to make a prophetic robot. One of Albert’s brothers in the Dominican Order went to visit him in his cell, knocked on the door, and was told to enter. When the friar went inside he saw that it was not Brother Albert who had answered his knock, but a strange, life-like android. Thinking that the creature must be some kind of demon, the monk promptly destroyed it, only to be scolded for his rashness by a weary and frustrated Albert, who explained that he had been able to create his robot because of a very rare planetary conjunction that happened only once every 30,000 years.

In legend, fiction and philosophy, writers offered explanations for the moving statues, artificial animals and musical figures that they knew were part of the world beyond Latin Christendom. Like us, they used technology to evoke particular places or cultures. The golden tree with artificial singing birds that confounded Liudprand on his visit to Constantinople appears to have been a fairly common type of automaton: it appears in the palaces of Samarra and Baghdad and, later, in the courts of central India. In the early 13th century, the sultan of Damascus sent a metal tree with mechanical songbirds as a gift to the Holy Roman Emperor Frederick II. But this same object also took root in the Western imagination: we find writers of fiction in medieval Europe including golden trees with eerily lifelike artificial birds in many descriptions of courts in Babylon and India.

In one romance from the early 13th century, sorcerers use gemstones with hidden powers combined with necromancy to make the birds hop and chirp. In another, from the late 12th century, the king harnesses the winds to make the golden branches sway and the gilt birds sing. There were several different species of birds represented on the king’s fabulous tree, each with its own birdsong, so exact that real birds flocked to the tree in hopes of finding a mate. ‘Thus the blackbirds, skylarks, jaybirds, starlings, nightingales, finches, orioles and others which flocked to the park in high spirits on hearing the beautiful birdsong, were quite unhappy if they did not find their partner!’

Of course, the Latin West did not retain its innocence of mechanical explanations forever. Three centuries after Gerbert taught his students how to understand the heavens with an armillary sphere, the enthusiasm for mechanical clocks began to sweep northern Europe. These giant timepieces could model the cosmos, chime the hour, predict eclipses and represent the totality of human history, from the fall of humankind in the Garden of Eden to the birth and death of Jesus, and his promised return.

Astronomical instruments, like astrolabes and armillary spheres, oriented the viewer in the cosmos by showing the phases of the moon, the signs of the zodiac and the movements of the planets. Carillons, programmed with melodies, audibly marked the passage of time. Large moving figures of people, weighted with Christian symbolism, appear as monks, Jesus, the Virgin Mary. They offered a master narrative that fused past, present and future (including salvation). The monumental clocks of the late medieval period employed cutting-edge technology to represent secular and sacred chronology in one single timeline.

Secular powers were no slower to embrace the new technologies. Like their counterparts in distant capitals, European rulers incorporated mechanical marvels into their courtly pageantry. The day before his official coronation in Westminster Abbey in 1377, Richard II of England was ‘crowned’ by a golden mechanical angel – made by the goldsmiths’ guild – during his coronation pageant in Cheapside.

And yet, although medieval Europeans had figured out how to build the same kinds of complex automata that people in other places had been designing and constructing for centuries, they did not stop believing in preternatural causes. They merely added ‘mechanical’ to the list of possible explanations. Just as one person’s ecstatic visions might equally be attributed to divine inspiration or diabolical trickery, a talking or moving statue could be ascribed to artisanal or engineering know-how, the science of the stars, or demonic art. Certainly the London goldsmiths in 1377 were in no doubt about how the marvellous angel worked. But because a range of possible causes could animate automata, reactions to them in this late medieval period tended to depend heavily on the perspective of the individual.

At a coronation feast for the queen at the court of Ferdinand I of Aragon in 1414, theatrical machinery – of the kind used in religious Mystery Plays – was used for part of the entertainment. A mechanical device called a cloud, used for the arrival of any celestial being (gods, angels and the like), swept down from the ceiling. The figure of Death, probably also mechanical, appeared above the audience and claimed a courtier and jester named Borra for his own. Other guests at the feast had been forewarned, but nobody told Borra. A chronicler reported on this marvel with dry exactitude:
Death threw down a rope, they [fellow guests] tied it around Borra, and Death hanged him. You would not believe the racket that he made, weeping and expressing his terror, and he urinated into his underclothes, and urine fell on the heads of the people below. He was quite convinced he was being carried off to Hell. The king marvelled at this and was greatly amused.

Such theatrical tricks sound a little gimcrack to us, but if the very stage machinery might partake of uncanny forces, no wonder Borra was afraid.

Nevertheless, as mechanical technology spread throughout Europe, mechanical explanations of automata (and machines in general) gradually prevailed over magical alternatives. By the end of the 17th century, the realm of the preternatural had largely vanished. Technological marvels were understood to operate within the boundaries of natural laws rather than at the margins of them. Nature went from being a powerful, even capricious entity to an abstract noun denoted with a lower-case ‘n’: predictable, regular, and subject to unvarying law, like the movements of a mechanical clock.

This new mechanistic world-view prevailed for centuries. But the preternatural lingered, in hidden and surprising ways. In the 19th century, scientists and artists offered a vision of the natural world that was alive with hidden powers and sympathies. Machines such as the galvanometer – to measure electricity – placed scientists in communication with invisible forces. Perhaps the very spark of life was electrical.

Even today, we find traces of belief in the preternatural, though it is found more often in conjunction with natural, rather than artificial, phenomena: the idea that one can balance an egg on end more easily at the vernal equinox, for example, or a belief in ley lines and other Earth mysteries. Yet our ongoing fascination with machines that escape our control or bridge the human-machine divide, played out countless times in books and on screen, suggest that a touch of that old medieval wonder still adheres to the mechanical realm.

30 March 2015

Imagining the Anthropocene (AEON)

The Anthropocene idea has been embraced by Earth scientists and English professors alike. But how useful is it?

Jedediah Purdy is Professor of Law at Duke University in North Carolina. His forthcoming book is After Nature: A Politics for the Anthropocene.

Edited by Ross Andersen

Officially, for the past 11,700 years we have been living in the Holocene epoch. From the Greek for ‘totally new’, the Holocene is an eyeblink in geological time. In its nearly 12,000 years, plate tectonics has driven the continents a little more than half a mile: a reasonably fit person could cover the scale of planetary change in a brisk eight-minute walk. It has been a warm time, when temperature has mattered as much as tectonics. Sea levels rose 115 feet from ice melt, and northern landscapes rose almost 600 feet, as they shrugged off the weight of their glaciers.

But the real news in the Holocene has been people. Estimates put the global human population between 1 million and 10 million at the start of the Holocene, and keep it in that range until after the agricultural revolution, some 5,000 years ago. Since then, we have made the world our anthill: the geological layers we are now laying down on the Earth’s surface are marked by our chemicals and industrial waste, the pollens of our crops, and the absence of the many species we have driven to extinction. Rising sea levels are now our doing. As a driver of global change, humanity has outstripped geology.

This is why, from the earth sciences to English departments, there’s a veritable academic stampede to declare that we live in a new era, the Anthropocene – the age of humans. Coined by the ecologist Eugene Stoermer in the 1980s and brought to public attention in 2000 by the Nobel Prize-winning atmospheric scientist Paul Crutzen, the term remains officially under consideration at the Stratigraphy Commission of the Geological Society of London.

The lack of an official decision has set up the Anthropocene as a Rorschach blot for discerning what commentators think is the epochal change in the human/nature relationship. The rise of agriculture in China and the Middle East? The industrial revolution and worldwide spread of farming in the Age of Empire? The Atomic bomb? From methane levels to carbon concentration, from pollen residue to fallout, each of these changes leaves its mark in the Earth’s geological record. Each is also a symbol of a new set of human powers and a new way of living on Earth.

The most radical thought identified with the Anthropocene is this: the familiar contrast between people and the natural world no longer holds. There is no more nature that stands apart from human beings. There is no place or living thing that we haven’t changed. Our mark is on the cycle of weather and seasons, the global map of bioregions, and the DNA that organises matter into life. The question is no longer how to preserve a wild world from human intrusion; it is what shape we will give to a world we can’t help changing.

The discovery that nature is henceforth partly a human creation makes the Anthropocene the latest of three great revolutions: three kinds of order once thought to be given and self-sustaining have proved instead to be fragile human creations. The first to fall was politics. Long seen as part of divine design, with kings serving as the human equivalents of eagles in the sky and oaks in the forest, politics proved instead a dangerous but inescapable form of architecture – a blueprint for peaceful co‑existence, built with crooked materials. Second came economics. Once presented as a gift of providence or an outgrowth of human nature, economic life, like politics, turned out to be a deliberate and artificial achievement. (We are still debating the range of shapes it can take, from Washington to Greece to China.) Now, in the Anthropocene, nature itself has joined the list of those things that are not natural. The world we inhabit will henceforth be the world we have made.

The revolution in ideas that the Anthropocene represents is rooted in hundreds of eminently practical problems. The conversation about climate change has shifted from whether we can keep greenhouse-gas concentrations below key thresholds to how we are going to adapt when they cross those thresholds. Geo‑engineering, deliberately intervening in planetary systems, used to be the unspeakable proposal in climate policy. Now it is in the mix and almost sure to grow more prominent. As climate change shifts ecological boundaries, issues such as habitat preservation come to resemble landscape architecture. We can’t just pen in animals to save them; they need landscape-scale corridors and other help in migrating as their habitats move. There is open talk in law-and-policy circles about triage in species preservation – asking what we can save, and what we most want to save.

What work is this idea of the Anthropocene doing in culture and politics? As much as a scientific concept, the Anthropocene is a political and ethical gambit. Saying that we live in the Anthropocene is a way of saying that we cannot avoid responsibility for the world we are making. So far so good. The trouble starts when this charismatic, all-encompassing idea of the Anthropocene becomes an all-purpose projection screen and amplifier for one’s preferred version of ‘taking responsibility for the planet’.

Peter Kareiva, the controversial chief scientist of the Nature Conservancy, uses the theme ‘Conservation in the Anthropocene’ to trash environmentalism as philosophically naïve and politically backward. Kareiva urges conservationists to give up on wilderness and embrace what the writer Emma Marris calls the ‘rambunctious garden’. Specifically, Kareiva wants to rank ecosystems by the quality of ‘ecosystem services’ they provide for human beings instead of ‘pursuing the protection of biodiversity for biodiversity’s sake’. He wants a pro‑development stance that assumes that ‘nature is resilient rather than fragile’. He insists that: ‘Instead of scolding capitalism, conservationists should partner with corporations in a science-based effort to integrate the value of nature’s benefits into their operations and cultures.’ In other words, the end of nature is the signal to carry on with green-branded business as usual, and the business of business is business, as the Nature Conservancy’s partnerships with Dow, Monsanto, Coca-Cola, Pepsi, J P Morgan, Goldman Sachs and the mining giant Rio Tinto remind us.

Kareiva is a favourite of Andrew Revkin, the roving environmental maven of The New York Times Magazine, who touts him as a paragon of responsibility-taking, a leader among ‘scholars and doers who see that new models for thinking and acting are required in this time of the Anthropocene’. This pair and their friends at the Breakthrough Institute in California can be read as making a persistent effort to ‘rebrand’ environmentalism as humanitarian and development-friendly (and capture speaking and consultancy fees, which often seem to be the major ecosystem services of the Anthropocene). This is itself a branding strategy, an opportunity to slosh around old plonk in an ostentatiously shiny bottle.

Elsewhere in The New York Times Magazine, you can enjoy the other end of the Anthropocene projection screen, from business-as-usual to this-changes-everything. In his essay ‘Learning How to Die in the Anthropocene’ (2013), the Princeton scholar and former soldier Roy Scranton writes: ‘this civilisation is already dead’ (emphasis original) and insists that the only way forward is ‘to realise there’s nothing we can do to save ourselves’ and therefore ‘get down to the hard work … without attachment or fear’. He concludes: ‘If we want to learn to live in the Anthropocene, we must first learn how to die.’

Other humanists bring their own preoccupations to a sense of gathering apocalypse. In his influential essay ‘The Climate of History’ (2008), Dipesh Chakrabarty, a theory-minded historian at the University of Chicago, proposes that the Anthropocene throws into question all received accounts of human history, from Whiggish optimism to his own post-colonial postmodernism. He asks anxiously: ‘Has the period from 1750 to the present been one of freedom or that of the Anthropocene?’ and concludes that the age requires a new paradigm of thought, a ‘negative universal history’.

In their introduction to Ecocriticism (2012), a special issue of American Literature, the English scholars Monique Allewaert of the University of Wisconsin-Madison and Michael Ziser of the University of California Davis describe the Anthropocene as best captured in ‘a snapshot of the anxious affect of the modern world as it destroys itself – and denies even its own traces’.

The Anthropocene does not seem to change many minds. But it does turn them up to 11

All of these people (except for the branding opportunists) are trying, with more or less success, to ask how the Anthropocene changes the projects to which they’ve given chunks of their lives. Some far-ranging speculation and sweeping summaries are to be expected, and forgiven. Nonetheless, something in the Anthropocene idea seems to provoke heroic thinking, a mood and rhetoric of high stakes, of the human mind pressed up against the wall of apocalypse or arrived at the end of nature and history.

In this provocative defect, Anthropocene talk is a discourse of responsibility, to borrow a term from Mark Greif’s study of mid-20th-century American thought, The Age of the Crisis of Man (2015). Greif argues that a high-minded (but often middle-brow) strain of rhetoric responded to the horrors of the world wars and the global struggles thereafter with a blend of urgent language and sweeping concepts (or pseudo-concepts): responsibility, the fate of man, the urgency of now. Greif describes discourses of responsibility as attempts to turn words and thoughts, uttered in tones of utmost seriousness, into a high form of action. All of this is recognisable in Anthropocene talk. The Anthropocene does not seem to change many minds, strictly speaking, on point of their cherished convictions. But it does turn them up to 11.

On the whole, this is the inevitable and often productive messiness that accompanies a new way of seeing, one that unites many disparate events into a single pattern. As an offer to unify what might seem unrelated, ‘the Anthropocene’ is an attempt to do the same work that ‘the environment’ did in the 1960s and early ’70s: meld problems as far-flung as extinction, sprawl, litter, national parks policy, and the atom bomb into a single phenomenon called ‘the ecological crisis’. Such a classification is always somewhat arbitrary, though often only in the trivial sense that there are many ways to carve up the world. However arbitrary, it becomes real if people treat it as real, by forming movements, proposing changes, and passing laws aimed at ‘the environment’.

We know what the concept ‘the environment’ has wrought but what will the Anthropocene be like? To put this over-dramatised idea in the least heroic garb possible, what will the weather be like in the Anthropocene? And how will we talk about the weather there?

For all the talk of crisis that swirls around the Anthropocene, it is unlikely that a changing Earth will feel catastrophic or apocalyptic. Some environmentalists still warn of apocalypse to motivate could-be, should-be activists; but geologic time remains far slower than political time, even when human powers add a wobble to the planet. Instead, the Anthropocene will be like today, only more so: many systems, from weather to soil to your local ecosystem, will be in a slow-perennial crisis. And where apocalyptic change is a rupture in time, a slow crisis feels normal. It feels, in fact, natural.

So the Anthropocene will feel natural. I say this not so much because of the controversial empirics-cum-mathematics of the climate-forecasting models as because of a basic insight of modernity that goes back to Rousseau: humanity is the adaptable species. What would have been unimaginable or seemed all but unintelligible 100 years ago, let alone 500 (a sliver of time in the evolutionary life of a species), can become ordinary in a generation. That is how long it took to produce ‘digital natives’, to accustom people to electricity and television, and so on for each revolution in our material and technological world. It takes a great deal of change to break through this kind of adaptability.

This is all the more so because rich-country humanity already lives in a constant technological wrestling match with exogenous shocks, which are going to get more frequent and more intense in the Anthropocene. Large parts of North America regularly experience droughts and heat waves that would devastate a simpler society than today’s US. Because the continent is thoroughly engineered, from the water canals of the West to the irrigation systems of the Great Plains to air conditioning nearly everywhere, these are experienced as inconvenience, as mere ‘news’. The same events, in poorer places, are catastrophes.

Planetary changes will amplify the inequalities that sort out those who get news from those who get catastrophes; but these inequalities, arising as they do from a post-natural nature, will feel as if they were built into the world itself. Indeed, nature has always served to launder the inequalities that humans produce. Are enslaved people kept illiterate and punished brutally when they are not servile? Then ignorance and servility must be in their nature, an idea that goes back in a continuous line to Aristotle. The same goes for women, with some edits to their nature: docile, nurturing, delicate, hysterical, etc. It was not until Harriet Taylor and John Stuart Mill worked together on The Subjection of Women (published under his name alone in 1869), that English-language philosophy produced a basic challenge to millennia of nature-talk about sexual difference.

The expulsion of Native Americans was ‘justified’ on several versions of nature. Maybe they were racially different. Maybe their climate made them weak and irrational, unable to cultivate the land or resist European settlement. (Colonists briefly embraced this idea, then grew uneasy when they realised that the North American climate was now theirs; by the time of American independence, they raced to reject climatic theories of racial character.) Maybe Native Americans had simply failed to fulfil the natural duty of all mankind, to clear and plant the wilderness and make it bloom like an English garden, an idea that many theorists of natural law advanced in the 17th and 18th centuries. One way or another, nature was a kind of ontological insurance policy for human injustice.

And now? Well, it’s common wisdom that rising sea levels will first affect some of the world’s poorest people, notably in Bangladesh and coastal India. But it’s much worse than that grim geographic coincidence. Wealth has always meant some protection from nature’s cruel measures. In fact, that is the first spur to technology and development of all kinds: not to be killed. Tropical diseases with changing range will find some populations well-equipped with vaccination and medicine, others struggling with bad government and derelict health systems. When seas rise fast, even the feckless but rich US will begin adapting fast, and coastal flooding will be classified in the rich-world mind as a catastrophe of the poor.

So will starvation. A legal regime of unequal Anthropocene vulnerability is well underway. Take the vast, long-term leases that Chinese companies have entered into for some of Africa’s richest farmland. When drought, soil exhaustion or crop crisis puts a pinch on global food supply, contracts and commerce will pull trillions of calories to fat-and-happy Beijing. This is, of course, only the latest chapter in centuries of imperialism and post-imperial, officially voluntary global inequality. But it is the chapter that we the living are writing.

Neoliberal environmentalism aims to bring nature fully into the market, merging ecology and economy

For the moment, Anthropocene inequality has a special affinity with neoliberalism, the global extension of a dogmatic market logic and increasingly homogenous market forms, along with an accompanying ideology insisting that, if the market is not beyond reproach, it is at least beyond reform: there is no alternative. Where previous episodes of global ecological inequality took place under direct imperial administration – witness the Indian famines of the late 19th century, suffered under British rule – ours is emerging under the sign of free contract. Anthropocene inequality is thus being doubly laundered: first as natural, second as the voluntary (and presumptively efficient) product of markets. Because human activity now shapes the ‘natural’ world at every point, it is especially convenient for that world-shaping activity to proceed in its own pseudo-natural market.

But Anthropocene problems also put pressure on the authority of economics. Much of environmental economics has been built on the concept of the externality, economist-speak for a side-effect, a harm or benefit that has no price tag, and so is ignored in market decisions. Air pollution – free to the polluter – is the classic bad side-effect, or ‘negative externality’. Wetlands – not valued on the real-estate market, but great sources of filtration, purification and fertility, which would otherwise cost a lot to replicate – are the model positive externality. So neoliberal environmentalism, which Kareiva’s Nature Conservancy has been cultivating, aims to bring nature fully into the market, finding a place in the bottom line for all former side-effects, and fully merging ecology and economy.

In a climate-changed Anthropocene, the side-effects overwhelm the ‘regular’ market in scale and consequence. And there is no ‘neutral’, purely market-based way to put a value on side-effects. Take the example of carbon emissions. It is possible to create a market for emissions, as Europe, California and other jurisdictions have done; but at the base of that market is a political decision about how to value the economic activity that emits carbon against all the (uncertain and even speculative) effects of the emissions. The same point holds for every (post-)natural system on an Anthropocene planet. Ultimately, the question is the value of life, and ways of life. There is no correct technocratic answer.

The shape of the Anthropocene is a political, ethical and aesthetic question. It will answer questions about what life is worth, what people owe one another, and what in the world is awesome or beautiful enough to preserve or (re)create. Either the answers will reproduce and amplify existing inequality or they will set in motion a different logic of power. Either the Anthropocene will be democratic or it will be horrible.

A democratic Anthropocene would start from a famous observation of the economics Nobel Prize laureate Amartya Sen: no minimally democratic society has ever suffered a famine. Natural catastrophes are the joint products of natural and human systems. Your vulnerability to disaster is often a direct expression of your standing in a political (and economic) order. The Anthropocene stands for the intensifying merger of ecology, economics and politics, and one’s standing in those systems will increasingly be a single question.

But talk of democracy here is – like much about the Anthropocene – in danger of becoming abstract and moralising. Reflecting on a democratic Anthropocene becomes an inadvertent meditation on the devastating absence of any agent – a state, or even a movement – that could act on the scale of the problem. Indeed, it reveals that there is no agent that could even define the problem. If the Anthropocene is about the relationship between humanity and the planet, well, there is no ‘humanity’ that agrees on any particular meaning and imperative of climate change, extinction, toxification, etc. To think about the Anthropocene is to think about being able to do nothing about everything. No wonder the topic inspires compensatory fantasies that the solution lies in refining the bottom line or honing personal enlightenment – always, to be sure, in the name of some fictive ‘we’.

This returns us to the basic problem that the Anthropocene drives home: as Hannah Arendt observed in The Origins of Totalitarianism (1951), the idea of human rights – such as the right to democratic standing in planetary change – is a chimera and a cruel taunt without a political community that can make it good through robust institutions and practices. The Anthropocene shows how far the world is from being such a polity, or a federation of such polities, and how much is at stake in that absence. The world is too much with us. Worse, there is no ‘we’ to be with it.

In the face of all these barriers, what could all this talk about the Anthropocene possibly accomplish? Ironically, a useful comparison lies in Arendt’s target, the mere idea of human rights. While mere ideas are in fact sorry comforts in an unmanageable situation, they can be the beginning of demands, projects, even utopias, that enable people to organise in new ways to pursue them. The idea of human rights has gained much of its force this way, as a prism through which many efforts are focused and/or refracted.

A democratic Anthropocene is just a thought for now, but it can also be a tool that activists, thinkers and leaders use to craft challenges and invitations that bring some of us a little closer to a better possible world, or a worse one. The idea that the world people get to inhabit will only be the one they make is, in fact, imperative to the development of a political and institutional programme, even if the idea itself does not tell anyone how to do that. There might not be a world to win, or even save, but there is a humanity to be shaped and reshaped, freely and always in partial and provisional ways, that can begin intending the world it shapes.

31 March 2015

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Michael Lewis: Our Appetite for Apocalypse (Radio Open Source)

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m lewis redoMichael Lewis is the non-fiction novelist of our apocalyptic American mindset in 2010. The heroes of The Big Short, as he puts it in conversation “were betting on the end of the world… The only characters you can really trust are the people who are delivering a very, very dark message.”

Michael Lewis, remember, was never really a sportswriter, despite MoneyballCoach and The Blind Side. Nor was he ever a finance guy, despite the prescience of Liar’s Poker and his sure touch now with the Wall Street collapse of 2007-2008. Michael Lewis’s real business and his genius instinct is for resonant social fables that just happen to play out on ballfields and bond markets.

The Big Short is a high literary feat, complete with a real-life “unreliable narrator,” a particularly despised contrarian bond dealer, Greg Lippmann, who was betting brazenly against his own market. “The guy selling the best ideas is a completely untrustworthy character,” the author remarks. The true center of The Big Short is an atmosphere of anxiety that has developed a taste for the catastrophic. Lewis’s short-selling characters resonate because they’re acting out our common sense of “the probability of extreme change” in financial markets and in real life. It’s an anxiety that envelops Tea Baggers and Greenpeaceniks in the same cloud of anger.

ML: The broader thing about all these characters to me is that their attitudes, their approach to life, their ability to hear the data, was something that was marginalized in the system itself. They didn’t belong, none of them belonged, and they should have belonged. What is it about the system that doesn’t want them as a part of it? And it’s terrifying when all the people who were wrong are in charge, and all the people who are right are on the outside.

CL: It sure is. To me there’s a direct analogy to be drawn with the war in Iraq. The Congress signed off “oh well, he must know something.” Tony Blair embraced it. The media by and large encouraged it. A very, very few people said “are you kidding?” And yet the ones that warned against the war in Iraq got the same prize that your guys got for warning of the meltdown.

ML: Yes. Ostracism.

CL: Exactly, and they’re still ostracized.

ML: It’s funny. There is an analogy. And the analogy is there’s a kind of a blind faith in leadership that is the result in both cases of ordinary people feeling they can’t evaluate the situation because it’s too complicated. The financial system got so complicated, and the complexity became opacity. When Alan Greenspan stands up and says something, no one understands what he’s saying. But they think that’s a good thing, because it’s all so complicated they shouldn’t understand what he’s saying. And the fact is they should. The fact is, if things aren’t being explained in a way you and I can understand them, it should be a bad sign, not a good sign. But the complexity was turned on its head. It was used as a way to mask bad things that were happening.

There’s a joke in it all. The joke is that the financial system, and there are analogies to the political system, but the financial system wanted to do something it really shouldn’t do. It wanted to make lots of loans that it shouldn’t make. They created all this risk that was going to blow up the system. In order to do that they needed to disguise the risk. So to disguise the risk it used all this complexity, which served as a smokescreen. And the joke is that it ended up disguising the risk from itself. That the very people who created the smokescreen were engulfed in it, and they couldn’t parse the system they created.

Michael Lewis with Chris Lydon in Boston, April 7, 2010.

Kurt Vonnegut graphed the world’s most popular stories (The Washington Post)

 February 9

This post comes via Know More, Wonkblog’s social media site.

Kurt Vonnegut claimed that his prettiest contribution to culture wasn’t a popular novel like “Cat’s Cradle” or “Slaughterhouse-Five,” but a largely forgotten master’s thesis he wrote while studying anthropology at the University of Chicago. The thesis argued that a main character has ups and downs that can be graphed to reveal the taxonomy of a story, as well as something about the culture it comes from. “The fundamental idea is that stories have shapes which can be drawn on graph paper, and that the shape of a given society’s stories is at least as interesting as the shape of its pots or spearheads,” Vonnegut said.

In addition to churning out novels, Vonnegut was deeply interested in the practice of writing. The tips he wrote for other writers – including “How to write with style” and “Eight rules for writing fiction” — are concise, funny, and still very useful. The thesis shows that Vonnegut’s preoccupation with the nuts and bolts of writing started early in his career.

Vonnegut spelled out the main argument of his thesis in a hilarious lecture, where he also graphed some of the more common story types. (Vonnegut was famously funny and irreverent, and you can hear the audience losing it throughout.) He published the transcript of this talk in his memoir, “A Man Without a Country,” which includes his own drawings of the graphs.

Vonnegut plotted stories on a vertical “G-I axis,” representing the good or ill fortunes of the main character, and a horizontal “B-E” axis that represented the course of the story from beginning to end.

One of the most popular story types is what Vonnegut called “Man in Hole,” graphed here by designer Maya Eilam. Somebody gets in trouble, gets out of it again, and ends up better off than where they started. “You see this story again and again. People love it, and it is not copyrighted,” Vonnegut says in his lecture. A close variant is “Boy Loses Girl,” in which a person gets something amazing, loses it, and then gets it back again.

Creation and religious stories follow a different arc, one that feels unfamiliar to modern readers. In most creation stories, a deity delivers incremental gifts that build to form the world. The Old Testament features the same pattern, except it ends with humans getting the rug pulled out from under them.

The New Testament follows a more modern story path, according to Vonnegut. He was delighted by the similarity of that story arc with Cinderella, which he called, “The most popular story in our civilization. Every time it’s retold, someone makes a million dollars.”

Some of the most notable works of literature are more ambiguous – like Kafka’s “The Metamorphosis,” which starts off bad and gets infinitely worse, and “Hamlet,” in which story developments are deeply ambiguous.

In his lecture, Vonnegut explains why we consider Hamlet, with this ambiguous and uncomfortable story type, to be a masterpiece:

“Cinderella or Kafka’s cockroach? I don’t think Shakespeare believed in a heaven or hell any more than I do. And so we don’t know whether it’s good news or bad news.

“I have just demonstrated to you that Shakespeare was as poor a storyteller as any Arapaho.

“But there’s a reason we recognize Hamlet as a masterpiece: it’s that Shakespeare told us the truth, and people so rarely tell us the truth in this rise and fall here [indicates blackboard]. The truth is, we know so little about life, we don’t really know what the good news is and what the bad news is.

“And if I die — God forbid — I would like to go to heaven to ask somebody in charge up there, ‘Hey, what was the good news and what was the bad news?’”

Climate change has created a new literary genre (Washington Post)

 July 11

Dan Bloom is a climate activist who graduated from Tufts University in 1971 and now blogs about cli-fi issues.

The Jet Star roller coaster is seen in the ocean at dawn as it was left by Hurricane Sandy, in Seaside Heights, New Jersey (Michael Reynolds/EPA)

Is climate change due for an “Uncle Tom’s Cabin” moment? The 1852 bestseller helped transform abolitionism into a mainstream cause. Now, “cli-fi” is trying to do the same for environmentalism.

The emerging genre is a cousin of sci-fi. But its books are set, NPR writes, “in worlds, not unlike our own, where the Earth’s systems are noticeably off-kilter.” And it’s gaining both fans and writers.

The climate-change canon dates back to the 1962 novel ”The Drowned World” by British writer J. G. Ballard. In it, polar ice-caps have melted and global temperatures have soared. Presciently, some coastal American and European cities are under water.

But Ballard’s work didn’t pinpoint humans as the cause of Earth’s precipitous decline. It wasn’t until the mid-2000′s that authors started grappling seriously with our role in impending environmental catastrophe.

In 2004, Michael Crichton released “State of Fear,” a novel about eco-terrorists. Ian McEwan followed up in 2010 with “Solar,” a story about a jaded physicist who tries to solve global warming. And in 2012, Barbara Kingsolver’s “Flight Behavior” gracefully explored how one town is reshaped by a changing ecosystem. As ‘The New York Times wrote in its review of the book:

How do we live, Kingsolver asks, and with what consequences, as we hurtle toward the abyss in these times of epic planetary transformation?

Perhaps the best-known “cli-fi” work is Nathaniel Rich’s “Odds Against Tomorrow,” released in 2013. That book sold more than 100,000 copies and drew major media attention.

In it, a near-future New York is submerged when a Category 3 hurricane hits. As Rich was editing the final proofs, Sandy submerged much of the East Coast, a strange moment of life imitating art.

*   *   *

Rich and others say that fiction can stir emotion and action in a way scientific reports and newscasts don’t.

“You know, scientists and other people are trying to get their message across about various aspects of the climate change issue,” Georgia Institute of Technology professor Judith Curry told NPR. She went on:

“And it seems like fiction is an untapped way of doing this — a way of smuggling some serious topics into the consciousness” of readers who may not be following the science.

That means finding characters or stories that resonate. And it also means getting rid of jargon and cliches. In Rich’s 300-page book, for example, the word “climate change” doesn’t appear once.

“I think the language around climate change is horribly bankrupt and, for the most part, are examples of bad writing, really,” Rich told NPR last year. “I think we need a new type of novel to address a new type of reality … which is that we’re headed toward something terrifying and large and transformative. And it’s the novelist’s job to try to understand, what is that doing to us?”

A growing number of YA books also attack this topic, including Mindy McGinnis’s “Not a Drop to Drink,” Staci Lloyd’s “The Carbon Diaries 2015″ and Joshua David Bellin’s “Survival Colony 9″. Even the post-apocalyptic  “Hunger Games” trilogy hints at a climate-ravaged earth.

Academia has begun paying attention to the trend, too. Several U.S. and British universities are now offering literature courses on cli-fi novels and movies. And the professors who teach those classes say students are moved by the literature they read. According to the ‘New York Times’:

Stephen Siperstein … recalled showing the documentary “Chasing Ice,” about disappearing glaciers, to a class of undergraduates, leaving several of them in tears. Em Jackson talked of leading groups on glacier tours, and the profound effect they had on people. Another student, Shane Hall, noted that people experience the weather, while the notion of climate is a more abstract concept that can often be communicated only through media — from photography to sober scientific articles to futuristic fiction.

“In this sense,” he said, “climate change itself is a form of story we have to tell.”

Ficção climática, um gênero literário que vai além da ficção científica (IPS) 

16/4/2014 – 11h40

por Dan Bloom*

mudancasclimaticas1 300x230 Ficção climática, um gênero literário que vai além da ficção científica

Taipé, Taiwan, abril/2014 – Quando lemos romances ou ficções curtas em qualquer idioma o fazemos para entender a história, para aprender algo novo ou, com sorte, para conseguir algum tipo de elevação emocional graças às palavras impressas nas páginas e às habilidades do narrador.

Então, como contar a “história” da mudança climática e do aquecimento global?

Um novo gênero literário chamado “ficção climática”, abreviado em inglês como cli-fi, vem evoluindo nos últimos anos e, embora ainda empreste seu nome da ficção científica, se centra em relatos sobre a mudança climática e seus impactos atuais e futuros sobre a vida humana.

Alguns insistem em que é apenas um subgênero da ficção científica, e isso tem sentido em certo aspecto. Mas, em outros, trata-se de um gênero em si mesmo que está ganhando impulso em todo o mundo, não como mero escapismo ou entretenimento – embora frequentemente inclua esses elementos –, mas como um modo sério de abordar os assuntos complexos e universais existentes em torno da mudança climática.

Sei algo sobre ficção climática porque nos últimos anos trabalhei para popularizá-la, não só no mundo de idioma inglês, mas também entre milhões de pessoas que leem em espanhol, chinês, alemão ou francês, para citar alguns. Em minha opinião, é um gênero internacional, com leitores internacionais, que deveria ser abordado por escritores de qualquer nação e em qualquer idioma.

Cada vez mais novelas de ficção climática se dirigem a uma audiência jovem – “adultos jovens”, no jargão editorial –, como Not a Drop to Drink (Nem Uma Gota Para Beber), de Mindy McGinnis, The Carbon Diaries 2015 (Os Diários do Carbono 2015), de Saci Lloyd, e Floodland (Terra Inundável), de Marcus Sedgwick. Na verdade, são as crianças e os adolescentes que sofrerão as consequências dos estilos de vida escolhidos pelas gerações anteriores.

Em um mundo que enfrenta os impactos potencialmente catastróficos da mudança climática, esse novo gênero literário se incorpora à nossa cultura em narrativa comum, divulgando ideias e pontos de vista sobre o futuro que a humanidade pode enfrentar em dez, cem ou 500 anos.

É aí que entra em cena a ficção climática, que pode desempenhar um papel importante para plasmar as emoções e os sentimentos das personagens, em um relato ou romance bem escrito para conscientizar leitores em todo o mundo.

Imaginem um romance de ficção climática, que não só chegue a milhares de leitores, mas que também os emocione e, talvez, os motive a se converterem em uma voz mais forte no debate político internacional sobre as emissões de carbono.

Esse é o potencial da ficção climática.

Uma universidade dos Estados Unidos oferece um curso sobre romances e filmes de ficção climática para estudantes de ciências ambientais e literatura.

Para Stephanie LeMenager, que este ano dá aulas na Universidade de Oregon, o curso constitui uma oportunidade, para ela e seus alunos, de explorar o poder da literatura e do cinema, em um momento em que escritores e cineastas tentam abordar alguns dos assuntos mais difíceis que a humanidade enfrenta no século 21.

O curso de LeMenager se chama As Culturas da Mudança Climática. É o primeiro na América do Norte, e inclusive no mundo, que se dedica dessa maneira às artes e à mudança climática. Estou seguro de que outras universidades seguirão esse esforço pioneiro, agregando novos cursos sobre ficção climática para seus estudantes.

Nathaniel Rich é um escritor de 34 anos, autor do aclamado romance Odds Against Tomorrow (Prognósticos Contra o Amanhã), uma história ambientada em um futuro próximo em Manhattan, que mergulha na “matemática da catástrofe”. Residente em Nova Orleans, Rich acredita que serão publicados mais livros como o seu, não só em inglês e não só do ponto de vista das nações ricas do Ocidente.

Escritores de todo o mundo devem se animar a incursionar no gênero da ficção climática e a usar a literatura de suas próprias culturas para tentar despertar a população sobre o futuro que pode esperar a todos em um planeta que esquenta sem um fim à vista.

As tramas podem ser aterradoras, mas as novelas de ficção climática dão a oportunidade de explorar esses assuntos com emoção e prosa. Os livros têm importância. A literatura tem um papel a desempenhar em nossos debates sobre os impactos do aquecimento global em todo o mundo.

Se poderá dizer que o cânon do gênero remonta ao romance O Mundo Submerso, escrito em 1962 pelo britânico J. G. Ballard. Outro dos primeiros livros sobre esse fenômeno foi escrito em 1987 pelo australiano George Turner: As Torres do Esquecimento.

A norte-americana Barbara Kingsolver publicou há alguns anos um romance muito poderoso de ficção climática intitulada Flight Behavior (Comportamento de Voo). Me impressionou muito quando o li no verão passado, e o recomendo.

A canadense Mary Woodbury criou o site Cli-Fi Books, que lista romances atuais e passados de ficção climática.

Como vejo o futuro? Prevejo um mundo onde os seres humanos se aferrem à esperança e ao otimismo. E sou otimista. E creio que quanto mais nos apegarmos à ciência da mudança climática no plano cultural mais efetivamente poderemos nos unir para evitar o pior. Envolverde/IPS

Dan Bloom é jornalista independente de Boston que vive em Taiwan. Em 1971, se formou na Tufts University, onde se especializou em literatura francesa. É ativista climático e literário desde 2006. Para segui-lo no Twitter o endereço é @polarcityman.

The Original “Occupy”: Novel Was Written 100 Years Before Zuccotti Park (Truthout)

Sunday, 10 November 2013 00:00By John de GraafTruthout

Occupy.

Zuccotti Park. (Photo: Dan Nguyen / Flickr)

Affluenza author John de Graaf investigates the origins of the slogan “Bread and Roses” and discovers a little-known American classic and a history that should repeat itself.

I still remember how inspired I was when I first took home folksinger Judy Collins’ 1976 album, Bread and Roses, and played the title song. It was a stirring anthem, a triumphal march almost, the words of an old poem set to music by another folksinger, Mimi Farina.

As we go marching, marching
In the beauty of the day
A million darkened kitchens
A thousand mill lofts grey
Are touched with all the radiance
That a sudden sun discloses
For the people hear us singing
Bread and roses, bread and roses

As we go marching, marching
We battle too for men
For they are women’s children
And we mother them again
Our lives shall not be sweated
From birth until life closes
Hearts starve as well as bodies
Give us bread, but give us roses

As we go marching, marching
Unnumbered women dead
Go crying through our singing
Their ancient call for bread
Small art and love and beauty
Their drudging spirits knew
Yes, it is bread we fight for
But we fight for roses too.

As we go marching, marching
We bring the greater days
The rising of the women
Means the rising of the race
No more the drudge and idler
Ten that toil where one reposes
But a sharing of life’s glories
Bread and roses, bread and roses

For me, the message of Bread and Roses was that money is never enough. We need the non-material things of life – the “art and love and beauty,” friends and nature – and the time to appreciate them, smelling the roses, if you will. Hearts starve as well as bodies.

The Lawrence Textile Strike

I loved the traditional story [see, for example, Meredith Tax’s The Rising of the Women] connected with the poem, how it was written to honor the women of Lawrence, Massachusetts, who walked out of their textile mills on a wintry day in 1912, demanding higher pay and shorter hours. Thousands of mill workers, most of them immigrants speaking a babble of more than 20 languages, filled the streets of Lawrence in January and February of that winter, facing bayonet-carrying national guardsmen, trigger-hungry local police and even a contingent of Harvard students, given extra credit to come to Lawrence as strikebreakers.

One of the strikers, a young woman named Annie Lo Pizzo, was killed by a policeman’s bullets. Many were jailed and beaten for protesting. They sent their children away from Lawrence for safety’s sake. The odds against them were overwhelming, but they persisted, aided by labor organizers sent to Lawrence by the Industrial Workers of the World and eventually by an outpouring of national public concern over their treatment and living conditions. In March, the mill owners capitulated, granting the essence of the strikers’ demands.

It was an inspiring story, made even more so by the reports that some of the women carried a banner as they marched, inscribed with the words WE WANT BREAD, AND ROSES, TOO. As poor as they were, they knew that they did not live by bread alone. Hearts starve as well as bodies.

So the poem inspiring Collins’ song, I was told, honored these women and those banners they bore. It sounded so plausible, so natural. Hearing the song, and thinking about the noble women of Lawrence moved me deeply. I believed it, talked about it, wrote about it. It was a great story – art honoring courage and struggle.

There was just one problem. It couldn’t possibly have been true.

The main difficulty with the idea that the poem was written to honor the Lawrence strikers came in the fact that it was published in a New York magazine called The American Monthly in December 1911, a month before the Lawrence strike began. Then too, there was that reference to “a million darkened kitchens.” Lawrence only had about 80,000 residents at the time of the strike.

James Oppenheim’s Novels

Was the poem just a work of imagination, or was it based on a real event? No one seemed to know. I found the question on the Internet; plenty of people had pointed out that the poem was published before the strike. But there was no answer. Cryptically, the poet himself, James Oppenheim, referred to “bread and roses” as “a slogan of the women of the West.”

But which women? And where in the West? A couple of people weighing in on the web thought the reference was to the Women’s Trade Union League, founded in Chicago in 1903. But there seems to be no reference at all anywhere else to the slogan before Oppenheim’s 1911 verse. And there is no reference to it in the annals of the Lawrence strike. Not until about 1915 does the anecdote emerge about the “bread and roses” banner the strikers allegedly carried.

Just what really lay behind this story about phalanxes of marching women? I started by looking into the life of the author. Who was this James Oppenheim, and what had he done? What had he experienced that might have provided the basis for his poem? The surprising answer to my search came in a novel published precisely 100 years before “Occupy” protesters camped out in New York’s Zuccotti Park. And, luckily, since my research skills leave much to be desired, the answer actually came rather easily.

Born in St. Paul in 1882, Oppenheim was the son of the first Jewish member of the Minnesota Legislature. But his family moved to New York City in his childhood. He attended Columbia University at the turn of the century and soon after became a teacher and settlement house worker in Greenwich Village, where he came to sympathize with the plight of poor industrial workers.

Between 1909 and 1911, he wrote three novels whose themes all resonate in the present day. His first, Dr. Rast, is a collection of stories about a Jewish physician with a mission to provide health care for the poor, who often died because they could not pay for treatment. Remarkably, it was written almost exactly 100 before the passage of President Obama’s national health insurance plan. His second, Wild Oats(1910), took on venereal disease and the sexual double-standard for men and women.

But it was the title of the third novel, published in the fall of 1911, that caught my attention. It was called The Nine-Tenths. Hadn’t I been hearing a similar term being used widely since “Occupy” protesters took over Zuccotti Park, near Wall Street in September 2011. Did the “Nine-Tenths” refer to roughly the same segment of America’s population that Occupy sought to represent exactly 100 years later?

The novel is readily obtained; free online versions are available, because its copyright ran out long ago. I ordered a print-on-demand copy, which arrived in two days. Unable to put the volume down once I started reading, I nearly inhaled its words.The Nine-Tenths, published by Harper Brothers, is the most compelling of Oppenheim’s novels. The reviews of the day acclaimed the book as a powerful portrait of the lives of the poor, despite some complaints about Oppenheim’s penchant for the sentimental.

Sentimental, yet Powerful

Indeed, Oppenheim writes with great passion, sometimes-overwrought emotion and an idealism that no longer plays well in our detached and cynical times. His characters wear their feelings on their sleeves, as a recent National Public Radio story (“Mining Books to Map Emotions Through a Century”) points out was far more common 100 years ago:

We think of modern culture – and often ourselves – as more emotionally open than people in the past. We live in a world of reality television and blogs and Facebook – it feels like feelings are everywhere, displayed to a degree that they never were before. But according to this research, that’s not so.

Generally speaking, the usage of these commonly known emotion words has been in decline over the 20th century. … We used words that expressed our emotions less in the year 2000 than we did 100 years earlier – words about sadness and joy and anger and disgust and surprise.

Although sentimental, Oppenheim’s novel does not oversimplify its characters and their emotions or the reality they seek to change. The Nine-Tenths is a fictionalization of two actual events, but with their chronological order reversed, an artistic device employed with great skill by Oppenheim. The first of these events was the Triangle Shirtwaist Fire, a well-known disaster that resulted in the deaths of 146 young women on March 24, 1911.

Oppenheim must have written The Nine-Tenths in great haste, although that is not apparent to the reader. Indeed, the book was published only six months after the Triangle Fire actually occurred, surely unusual even today, and surely more so in an era of hand-set type.

The Transformation of Joe Blaine

In the novel, The Triangle Fire becomes “The East Eighty-First Street Fire.” It starts with a carelessly tossed cigarette in a print shop and results in the death of dozens of very young women, who work making hats one floor higher in the same building. When the fire occurs, the print shop owner (I envision him looking and sounding exactly like Jimmy Stewart in It’s a Wonderful Life), a humble chap named Joe Blaine, is on a tryst with Myra, a teacher he has fallen in love with. In an instant, a moment of joy turns for Joe into one of horror.

Overcome with grief and guilt – because the fire began in his shop – Joe attends a memorial for the dead girls. Here, Oppenheim uses the exact words from a famous speech given by labor organizer Rose Schneiderman at the actual Triangle Fire memorial:

I would be a traitor to these poor burned bodies if I came here to talk good fellowship. We have tried you good people of the public and we have found you wanting. … This is not the first time girls have been burned alive in the city. Every week I must learn of the untimely death of one of my sister workers. Every year thousands of us are maimed. The life of men and women is so cheap and property is so sacred. … 

Oppenheim changes her name to Sally Heffer, but the character, who appears throughout the novel, is clearly Schneiderman. It seems that Oppenheim wants to Americanize the Russian-born Schneiderman, a Jew like himself, to give his novel wider appeal at a time when anti-immigrant and anti-Semitic sentiments were still strong.

Triangle was a life-changing event for many, including Frances Perkins, later FDR’s secretary of labor but then a New York social worker, who was actually having tea across Washington Park Square from the factory when the fire broke out. As Kirstin Downey explains in her powerful biography of Perkins,The Woman Behind the New Deal, she rushed to the site only to watch helplessly as women plunged to their deaths.

In The Nine-Tenths, Heffer’s speech rocks Joe Blaine’s world. He has been tried and found wanting. The souls of the deceased call out for justice and solidarity through action, not charity. Joe knows that the only way to expiate his guilt is to join their fight.

From now on I belong to those dead girls – yes, and to their fellow workers.

A Newspaper in Greenwich Village

He sells his shop, bids adieu to a broken-hearted Myra during a tension-filled winter walk in Central Park, and moves, together with his mother, from his Upper East Side home to a flat in the Village, where he begins to immerse himself in the lives of working-class immigrants. He uses the money he has made from selling the printery, a heady $20,000, big cash in those times, to start a newspaper for the workers – the 90 percent of society slowly being ground up in the wheels of the industrial system.

Blaine calls his paper The Nine-Tenths. He signs up Sally Heffer and other workers to write its content and drum up an audience. While there are men and women on the team, it is the women who lead it; indeed, “the rising of the women,” is Joe’s new dream, as clearly it was for Oppenheim.

Sally was of the new breed; she represented the new emancipation; the exodus of woman from the home to the battle-fields of the world; the willingness to fight in the open, shoulder to shoulder with men; the advance of a sex that now demanded a broader, freer life, a new health, a home built up on comradeship and economic freedom. In all of these things she contrasted sharply with Myra, and Joe always thought of the two together.

The Nine-Tenths seems an honest appraisal of the social strata of those times. Ninety-nine percent is a great exaggeration today, when the upper-middle classes live as royalty did then. The use of the term “99%” seems more strategic than accurate, designed to isolate the biggest winners in new war of all against all, although the gap between rich and poor is even wider now than it was in 1911.

In one of the paper’s first issues, Joe writes a powerful editorial laying out the misery of the poor working women whose cause he has chosen to champion. He describes their sacrifices, the agony of seeing their children grow sick and die, of seeing their husbands show up daily to compete with other men for a bare minimum of jobs and, failing to maintain their incomes and their dignity, turn to the anesthesia of the barroom or domestic violence and crime.

Possibly then the husband will come home and beat his wife, drag her about the floor, blacken her eyes, break a rib. … Very often he ceases to be a wage-earner and loafs about saloons. From then on the woman wrestles with world of trouble – unimaginable difficulties. Truly, running a state may be easier than running a family. And yet the woman toils on. … She keeps her head; she takes charge; she toils late into the night; she goes without food, without sleep. Somehow she manages. … 

He tells of how the mothers take in the laundry of the rich to survive, how the poor immigrant girls prematurely lose their beauty and laughter, how they are left only with love and, eventually, nothing at all.

It is a powerful section of the novel; reading the book takes one fully into the homes, factories and streets of industrial New York at the beginning of the last century. There is little black and white here; the laborers, particularly the men, have their own foibles. Some are bought off and turn traitor to their co-workers, while among the comfortable, there are those who come to the workers’ aid. A group of workers, egged on by their boss, turns angry mob, violently attacking Blaine and trashing his home and office.

The Uprising of the Thirty Thousand

The conversations Joe has with Sally and others are much the same as those we still must have: How do you reach people? How do you maintain democratic principles? How do win allies among the businesspeople? How do you avoid violence? What are the repercussions of courage?

In time, Joe’s Nine-Tenths newspaper has thousands of readers. Its stories embolden the women. They begin to walk away from their factories in protest. They rally at Cooper Union and vote for a general strike, raising the roof with their vows of solidarity, shouted in Yiddish. At this point, Oppenheim describes the other historical event on which the novel is based.

In the fall and winter of 1909 and 1910, in what was deemed “The Uprising of the Thirty Thousand,” masses of factory workers shut down their machines and took to the streets, supported by the Women’s Trade Union League. In this, they were joined by prominent women of the upper class, including banking magnate J.P. Morgan’s daughter, Anne. Their demands center on safe working conditions, shorter hours and an increase in pay. The fictional Nine-Tenths is the organ of solidarity that holds them together and publicizes their cause when the mainstream press will not.

Here, in the Uprising of the Thirty Thousand, we find the real events that inspiredBread and Roses, the women marching, the “million darkened kitchens” that actually existed in New York, then a city of 5 million people. Here in the novel is the meaning of that phrase from the poem, “Our lives shall not be sweated. … ” Sweating (in the “sweat shops”) was a practice of speeding up the line to increase production. Here also are the “ten that toil where one reposes,” the nine-tenths for which Joe Blaine published his paper.

And here, too, is the mass protest of the original Occupy.

In the midst of this, Joe’s girlfriend, Myra, returns home from a retreat in the country and is swept into the maelstrom of the strike. Originally unsympathetic to Joe (reminding him that the Bible says the poor will always be with us), she watches helplessly as Rhona, a teenage picket, is roughed up by police, taken to jail and sent to the “work-house” without reason.

After a few months, in the novel as in reality, the Uprising of the Thirty Thousand peters out, as many employers give in to the women’s key demands and, in places where they do not, the women slowly return to work. The most prominent of the real holdouts was the Triangle Shirtwaist Company, which refused to improve safety conditions. A year later, its belligerence produced tragedy.

Joe Blaine’s Vision – Time for Life

After the strike, a reunited Joe and Myra get married and go on a honeymoon. On their return to New York, it is full spring. Oppenheim describes the city reborn, in language reminiscent of Walt Whitman:

Over the city the spring cast its subtle spell. The skies had a more fleeting blue and softer clouds and more golden sun. Here and there on a window-sill a new red geranium plant was set out to touch the stone walls with the green earth’s glory. The salt breath of the sea, wandering up the dusty avenues, called the children of men to new adventures – hinted of far countries across the world, of men going down to the sea in ships, of traffic and merchandise in fairer climes, of dripping forest gloom and glittering peaks, of liquid-lisping brooks and the green scenery of the open earth.

There is a wild magic to Oppenheim’s words that stirs all but the most cynical and hardened of heart.

Restlessness seized the hearts of men and the works of men. From the almshouses and the jails emerged the vagrants, stopped overnight to meet their cronies in dives and saloons, and next day took the freight to the blooming West, or tramped by foot the dust of the roads that leave the city and go ribboning over the shoulder and horizon of the world. Windows were flung open, and the fresh sweet air came in to make the babies laugh and the women wistful and the men lazy. Factories droned with machines that seemed to grate against their iron fate. And of a night, now, the parks, the byways, and the waterside were the haunts of young lovers – stealing out together, arms round each other’s waists – the future of the world in their trembling hands.

From the green leaves, blossoms and buds of the new spring, Oppenheim draws lessons about the resilience of the human spirit.

Anything was possible. Did not earth set an example, showing how out of a hard dead crust and a forlorn and dry breast she could pour her new oceans of million-glorious life? If the dead tree could blossom and put forth green leaves, what dead soul need despair?

There is no mention of “bread and roses” in the novel at all, and no mention in the files of history about any of the women of the uprising using the term. Clearly, the idea that the women were “singing Bread and Roses,” came only from Oppenheim’s imagination; he put the words in their mouths. But while he refrains from using the phrase in his novel, there can be little doubt what he meant by it in the poem.

Bread, here, is a reference to higher pay, to money and the material needs of life. But Oppenheim understood that even as poor as these women were, they did not live on bread alone. They needed the non-material joys of life – art, beauty, nature, play, learning, friendship and love – and for all of these things, they needed time. The needed shorter hours of labor, time to smell the roses.

As they look upon the city from a ship in the East River, Joe tells Myra his vision for the future of New York, “the city of five million comrades.”

“They toil all day with one another; they create all of beauty and use that men may need; they exchange these things with each other; they go home at night to gardens and simple houses, they find happy women there and sunburnt, laughing children. Their evenings are given over to the best play – play with others, play with masses, or play at home. They have time for study, time for art, yet time for one another. Each loosens in himself and gives to the world his sublime possibilities. A city of toiling comrades, of sparkling homes, of wondrous art, and joyous festival. That is the city I see before me!” He paused. “And to the coming of that city I dedicate my life”

Oppenheim’s vision of the good life, while still infused by the gender bias of his day, is an enlightened one of modest homes, modest comfort and, most of all, time to appreciate the things that are not things, but are the best things in life.

A Novel Pregnant With Possibility

As I read The Nine-Tenths, I thought about how a novel like this one could be the basis of an entire semester’s course in a university. It starts with an original source rather than textbook commentary. It raises so many questions about values, takes readers into long-ago lives as nonfiction never can, and stirs heart as well as head.

For today’s students, mostly passive in the face of constantly rising costs, diminishing employment prospects, a society that seems to value only wealth and profit, art and media that wallows in hatred and ever-more-graphic and senseless violence, the story of Joe Blaine and his transformation contains enough subject matter to stir a hundred theses and even a hundred new outbreaks of Occupy.

It wasn’t surprising that the edition of The Nine-Tenths I now possess was the last one, a reissuing of the book in 1968, the high-water mark of student protests in the post-World War II era. That was a time when the idealism of Joe Blaine and the underlying optimism of the novel still held sway, just before the leading activists turned despairingly from the novel’s belief in nonviolent protest to the bombs of the Weather Underground.

The first recorded reference to the use of the phrase “bread and roses” in an actual historical event comes nearly a year after Oppenheim’s poem was published, when Rose Schneiderman used the term in a women’s suffrage rally – “The worker must have bread, but she must have roses, too.” On this the Wikipedia entry for Rose Schneiderman, has the events backward, suggesting that her 1912 speech inspired the poem!

But I think it more than likely that the story of the banners in Lawrence is true, despite the lack of documented evidence. The Lawrence strike came in January 1912, barely a month after Oppenheim’s poem was published in a popular magazine. And while it was undoubtedly still fresh in people’s minds. Many of the IWW leaders at Lawrence lived in New York City, including the fabled orator Elizabeth Gurley Flynn. They were active in the broader labor and cultural circles of their day. It seems almost impossible that they were unaware of the poem Bread and Roses and highly unlikely that they wouldn’t have talked about it, at least privately, with the strikers. So I suspect there is truth to the anecdotal reports about the banners that surfaced a few years after the strike. But we will probably never know for sure.

What we do know for sure is that there was a “nine-tenths” 100 years before the 99%, and an original Occupy in lower Manhattan 100 years before Zuccotti Park.

In those turbulent days that began the 20th century, masses of people, led by liberals, socialists, and anarchists and joined even by a contingent of the ten percent, were challenging the privilege, greed and rampant inequality of the Gilded Age. They took to the streets as the Occupy protesters did. But they also took to the ballot box, armed with a political program of concrete demands for radical reform. They were not scornful of leadership as the Occupy protesters were, nor unwilling to draft a blueprint for change. Like the Occupy protesters, they mourned the power of the wealthy and the corporations and the lack of democracy. They had no Citizens United to challenge, but an even greater battle for influence; remember that women could not even vote then.

From the Uprising to Political Action

In August 1912, many of them came together to form the Progressive Party and to present a program they called A Contract with the People, calling for:

  • A National Health Service.

  • Social insurance to provide for the elderly, the unemployed and the disabled.

  • A federalsecurities commission.

  • Relief for small farmers.

  • Compensation for workplace injuries.

  • The vote for women.

  • Direct election of senators.

  • Recall, referendum and initiative.

  • Strict limits on political campaign contributions.

The issues that animated the original occupiers were much the same as those that challenge us today. Almost all of them were won in the quarter century following the founding of the Progressive Party, many in next few years, others in the early days of the New Deal. They reduced the gap between rich and poor, vastly increased the size of the middle class, and offered “bread, and roses, too.”

But in the past three decades many of these important gains that came at the cost of the original occupiers’ blood and tears, have been eroded by the forces of greed that carry out the bidding of the 1%. Occupy has risen up against the new priorities of dog eat dog. But unlike its predecessors of a century ago, today’s Occupy seems to me inchoate and without clear plans or focused vision. In the past three decades, our modern Nine-Tenths have lost both bread and roses. They have been quick to notice the loss of bread, although sadly unable to prevent it. But they seem to have forgotten the roses, whose watering seems most urgent.

The philosopher George Santayana once observed that failing to remember the past dooms us to repeat it. But the reverse is also true; sometimes it’s important to remember history so we can repeat it. This is surely one of those times.

Copyright, Truthout. May not be reprinted without permission.

Lully & nós (Valor)

23/11/2012 às 00h00

Por Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo

Daryan Dornelles/FolhapressCosta Lima ou Bruno Negri, que homenageia sua shitzu branca e preta: livro traz as reflexões filosófico-caninas capturadas por uma máquina inventada para traduzir “auês”

A obra podia entrar na prateleira reservada aos livros fofos, se tal existisse. O que existe, de verdade, é a chance de parar na lista de best-sellers como um “Marley & Eu” à brasileira. “Confesso minha ignorância: não sei que livro é esse, ‘Marley & Eu'”, responde o ficcionista novato Bruno Negri sobre uma possível influência ao escrever “Me chamo Lully”, seu relato de uma vidinha de cachorro que chega agora às livrarias – o lançamento, pela Book Makers, será no dia 5, na Livraria Argumento, no Leblon, no Rio. Vai ter jazz, MPB e coquetel para gente e bichos.

A ignorância confessada, que seria fatal em alguém que pretendesse fazer sucesso no metier dos livros comerciais – afinal, “Marley & Eu” foi lido por milhões no mundo inteiro -, pode ser vista como um divertido alheamento intencional ou uma saudável distância técnica, quando se conhece enfim a identidade de quem está disfarçado pelo pseudônimo. Bruno Negri é Luiz Costa Lima, de 75 anos, um dos críticos literários mais importantes do país, há quatro décadas em atividade, mais de 20 títulos publicados, obra premiada aqui e no exterior.

De parecido com o livro do jornalista americano John Grogan, que narrou as peripécias de seu Marley, há, além do tema, uma capa com seu apelo emotivo: em close, um cãozinho se apresenta com olhar sedutor. Aí param as semelhanças. A grande diferença se configura pelo ponto de vista. Marley teve a história contada por Grogan, seu dono. Lully, ao contrário, é autora da própria história. Pois um laboratório nos Estados Unidos desenvolveu equipamento ainda em fase de testes que captura o pensamento de animais e o decodifica em linguagem de humanos. Aparentemente, só com alguns o experimento parece funcionar, com outros o resultado não é o mesmo. Com Lully, cachorra filósofa, funciona. Não com Benjy, seu filho e companheiro, incapaz da concentração necessária, muito menos raciocínio organizado para ter o pensamento capturado ou decodificado. Benjy é, por assim dizer, um cão atávico – uma de suas raras preocupações é impedir que Lully brinque com uma bolinha, enquanto ele mesmo não parece saber o motivo de cultivar tal hábito, já que nunca aproveita o objeto furtado.

O grau de autoconsciência de Lully é evidente desde o título, retirado da primeira frase que diz à máquina, “Me chamo”, e não “Me chamam”. Lully sobretudo compreende que os fios que a conectam da cabeça ao computador transmitem seu “auês”, a língua que domina. A seu jeito canino – filosófico, mas ainda canino -, ela narra dos primeiros dias no canil até os oito anos na casa de Pedro, Joana e o filho, Dani. Lully pensa não só sobre as coisas que observa como também as coisas que sente: medo, um tipo de afeição que não sabe dar nome (seria amor? paixão? decerto não é cio), a maternidade e a finitude. O que ela nunca consegue compreender é a passagem do tempo – o que são mesmo os dias, semanas, passado e futuro – e a divisão de classe social – o que se nota pela dificuldade de entender o que é uma princesa, título que lhe atribuem, e o que são os mendigos catadores no pós-Carnaval do Rio.

Cachorrinha que inspirou o crítico é “faceira e sedutora como uma teenager”, apesar de já ter oito anos; sugestão para livro foi da mulher dele

As perguntas ao crítico se encaminham com a devida vênia. Das fábulas de La Fontaine às de Orwell, os livros protagonizados por bichos, o “Flush” de Virginia Woolf ou o “Timbuktu” de Paul Auster, o que um crítico conhecido pelo rigor e exigência pensou em fazer ao publicar um livro fofo? Algum experimento? “Não pensei em coisa alguma, senão em dar alguma verossimilhança à história que queria fosse de minha querida Lully.”

Eis que Lully existe mesmo. É a shitzu de oito anos da família. “Não pense que é brincadeira ou fingimento. Embora saiba de ficções sobre animais de estimação, nunca li nenhuma delas”, prossegue Costa Lima. “Só lhe garanto que não quis brincar com Lully. Ela nos é muito querida para sujeitá-la a uma brincadeira. Seria explorar sua admirável ingenuidade canina.”

O campo dos estudos animais, da animalidade, dos limites do humano tem crescido nas universidades: trata-se de área multidisciplinar, que combina filosofia, literatura, ciências sociais. Uma nova pergunta quer identificar se houve, da parte do professor emérito da PUC-SP, uma tentativa de se aproximar desse tipo de reflexão a partir da própria experiência. “Sei disso, de livros escritos há décadas por Günter Lorenz. Mas lhe confesso que nunca li nada a respeito.” O processo da escrita? A resposta não dá mais margem para teorizações previsíveis: “Simplesmente não houve”.

A sugestão veio da mulher, a psicanalista Rebeca Schwartz. Então ele se sentou à mesa e, como diz, escreveu como sempre faz: primeiro à mão, depois no computador. “Creio que as emendas foram mínimas. Era como se a história estivesse amadurecida dentro de mim.” De que modo o crítico agiu no escritor, desmontando e remontando a maquinaria ficcional? “Alguém já disse que a crítica que se limite a ser o julgamento de um livro é algo bastante chato. O crítico seria uma espécie semelhante aos juízes do nosso STF que têm seu instante de glória à custa do que outros fizeram”, pondera. Temos algo diferente, portanto. “Embora a crítica não seja e não deva ser ficção, ela só presta quando traz consigo um ‘impulso ficcional’. No “Me chamo Lully”, a máquina ficcional pôde se mostrar explicitamente, sem disfarces ou transformações.”

É aqui, leitor, nessa parte da conversa, que você se lembra que o tal aparelho recém-inventado nos Estados Unidos, aquele que captura e decodifica as reflexões filosófico-caninas de Lully, é pura ficção. Não por outra, críticos costumam ser vistos pelos leitores como “desmancha-prazeres”, como nota Costa Lima. As engrenagens se expõem para quem quiser ver.

A perspectiva de atrair um leitor quase oposto ao seu parece animadora, horrorosa ou engraçada? “Alguns por certo me dizem que o livro atrairá muitos leitores, algo bem diferente do que conheço com meus livros de teoria e crítica literária. Se isso se der, ficarei muito contente. Em vez de engraçada, a hipótese me parece surpreendente. Mas não creio que seja possível.”

Lully tem longuíssimos pelos lisos – por sua pelagem, a raça é identificada no nome original em chinês como o “cão leão” -, é pequenina – a espécie nunca ultrapassa os 25 cm – e, na descrição de seu dono, “faceira e sedutora como uma teenager”, apesar dos oito anos, idade da maturidade em sua categoria. “Melhor, mais do que a maioria das que vejo frequentar a PUC.”

Benjy, que também existe, tem no livro um nome falso. O verdadeiro é Billy. O cão é “meio bobão, manhoso e longe do charme de Lully”, descreve-o o dono bastante crítico (a palavra “crítico” no sentido comezinho), para mais à frente reconhecer a possibilidade de ter sido injusto no relato que faz do cão macho por uma inconsciente competição pela fêmea.

Se escrever o primeiro manuscrito lhe custou duas horas, foi só depois da leitura de Rebeca, mais minuciosa e atenta aos acréscimos, que vicissitudes da vidinha de cachorro puderam ser registradas – desde a ração antialergênica às bolinhas homeopáticas – e muitos episódios, recordados com exatidão, do treinamento avançado de artes marciais para cachorro às crises de pânico de Billy ao entrar num carro, o que fez o casal ter de se desfazer de uma casa de praia. Quase tudo o que é contado Lully de fato viveu, à exceção de um sequestro, este completamente fictício. E há mais uma coisa ou outra recriada. “A cena da paixão pelo vira-lata tem um fundo de verdade, mas é um tanto estilizada”, diz Costa Lima. De fato, esta já dava para notar.

Resta saber por que escolheu o nome de Bruno Negri. “Eu mesmo não sei!”, diz. “Talvez porque de imediato pensei o título como ‘Me Chiamo Lully’. Sei apenas que tanto Bruno como Negri pretendiam acentuar, direta ou indiretamente, a cor da ‘autobiografada’: branca com manchas negras. Mas, no fundo, o nome não tem maiores razões.” Existe razão, essa sim, para adotar um pseudônimo, como explica: “Temia que o nome do crítico prejudicasse a circulação do livro”.

A trajetória de crítico não se interrompe. Meses atrás, saiu o recente “A Ficção e o Poema”, pela Companhia das Letras, desdobramento de dois anteriores, “História. Ficção. Literatura” e “O Controle do Imaginário e o Romance”. Costa Lima conclui agora um novo volume, que se chamará “Frestas” e deve sair apenas em 2014. Outra notícia recente vem de fora: um dos seus livros clássicos, “Mímesis: Desafio ao Pensamento”, acaba de ter tradução para o mercado de língua alemã. E para Bruno Negri, há futuro literário? John Grogan fez vários na linha do “Marley & Eu”. “Não, não creio. Pode parecer louco. Mas tenho muitos projetos de livros longos e trabalhosos. ‘Me Chamo Lully’ foi um felicíssimo acidente. Ainda que não fosse difícil continuar a aventura ficcional, suponho que minha opção de vida é outra.”

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Hermann Hesse: “Escritor, Terapeuta, Curioso” (swissinfo.ch)

09. Agosto 2012 – 10:55

Elisabeth Goller, Budweis, 1908, de Hermann Hesse: uma das milhares de cartas recebidas pelo escritor.

Elisabeth Goller, Budweis, 1908, de Hermann Hesse: uma das milhares de cartas recebidas pelo escritor. (nb.admin.ch)

Por Gaby Ochsenbein, swissinfo.ch

Hermann Hesse é um dos maiores “escrevedores de cartas” dos século XX. Ao longo de sua vida ele recebeu milhares de cartas do mundo inteiro e normalmente respondia a todas de próprio punho. Uma parte desta correspondência está guardada no Arquivo Suíço de Literatura, em Berna.

“Recebemos esta doação dos Estados Unidos em julho. Ela foi feita pelo bisneto da família Ullmann, uma família de Zurique que nas décadas de 1920 e 1930 regularmente sublocava um quarto para Hermann Hesse“, relata Lukas Dettwiler, funcionário do Arquivo Suíço de Literatura desde 2003. Os cerca de 50 cartões postais e cartas desta recente doação tratam de temas práticos, como compras, envio de correspondência ou até mesmo de meias de lã.

Volta e meia são enviados ao Arquivo cartões postais ou cartas encontradas em antigos baús ou nos sótãos de famílias cujos antepassados mantiveram contato com o famoso escritor. O próprio Hesse guardou 40.000 cartas endereçadas a ele. Uma boa parte desta correspondência está arquivada no Arquivo Suíço de Literatura, e outra parte no Arquivo Alemão de Literatura, em Marbach.

No 6° subsolo da Biblioteca Nacional Suíça a temperatura é bastante fresca, um alívio num dia de verão quente como hoje. Aqui estão arquivados o espólio de Hermann Hesse e de outros autores. Do espólio de Hesse constam cerca de 6.000 livros da biblioteca pessoal que o autor montou durante os anos em que residiu no vilarejo tessinês de Montagnola, na Suíça. “Ele tocou em todos estes livros, é impressionante”, surpreende-se o funcionário do arquivo responsável pela coleção.

“Hesse não só escreveu inúmeros livros e poemas, mas também leu muito e escreveu aproximadamente 3.000 resenhas de livros.”

Correspondência de famosos e de desconhecidos

“E aqui estão as caixas com as cartas que Hesse recebeu”, aponta Dettwiler. Entre elas há cartas do autor suíço Robert Walser, do escritor austríaco Stefan Zweig, a correspondência de Hesse com seu psicanalista J. B. Lang e com muitas outras pessoas famosas.

Ao todo, são mais de 100 caixas com mais de 20.000 cartas vindas de cerca de 100 países, mais de 6.000 remetentes diversos, tudo criteriosamente selecionado e catalogado.

Hesse manteve contato por correspondência não apenas com colegas escritores, pintores e músicos. Muitas cartas provêm de pessoas comuns, de leitores e admiradores do mundo inteiro: de Tel Aviv, Santiago do Chile, Nova Delhi, Tóquio, dos EUA e de muitos países da Europa.

“Veja esta preciosidade”, diz Dettwiler orgulhoso, abrindo uma das caixas. As cartas estão embaladas uma a uma em um papel especial que as protege contra a deterioração.

“Esta carta aqui é de 1908 e foi escrita por Elisabeth Goller, uma designer de moda e grande admiradora de Hesse.” O papel é finíssimo e todo decorado com delicados bordados e, após mais de 100 anos, permanece liso e sem nenhum rasgão.  “É sensacional!”, entusiasma-se Dettwiler.

Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1946, era conhecido por manter correspondência com inúmeras pessoas. Segundo Volker Michels, que durante anos editou e organizou a obra de Hesse para a editora Suhrkamp, mais de um terço de suas horas de trabalho Hesse usava para responder as milhares de cartas e perguntas que recebia.

Hesse como Conselheiro

“Estas respostas são uma fonte inesgotável de elementos sobre a sua biografia, sua obra e sua época e uma leitura cativante e agradável. Praticamente não há temas fundamentais da vida que o poeta não tenha abordado”, escreveu Michels este ano, nos 50 anos da morte de Hesse.

As pessoas se dirigiam a ele com questões existenciais sobre o amor, o casamento, a vida em comum, a morte, o luto ou a religião – todos temas que ele abordou intensamente em seus livros e que eram incomuns para a sua época.

O inventariante Lukas Dettwiller se recorda de uma carta de uma mulher sul-americana que diz: “Sou casada com um homem rico, mas sou infeliz. O senhor poderia me dar um conselho de como eu poderia mudar a minha vida?” Se ela já havia experimentado fazer yoga foi a resposta do poeta. “Ele escreveu uma longa carta para esta mulher, embora provavelmente isso fosse desagradável para ele. Mas ele se sentia responsável.”

Autor de muitas facetas

Se Hermann Hesse tirou algum proveito desta intensa e incomum correspondência com tantos desconhecidos, seu inventariante não sabe dizer. Seria uma forma de compensação para uma pessoa que vivia muito isolada em sua residência e que não gostava de visitas? “Pelo menos ele tinha um grande senso de responsabilidade com seus leitores. Ele não era indiferente às pessoas.”

De certa forma, Hesse também foi usado por estes correspondentes, afirma Lukas Dettwiler. “Eles o viam como um consultor espiritual, como terapeuta. Para outros ele era uma espécie de guru, uma figura mística.” Ele não se via desta forma. “Ele próprio estava também em busca de algo e não sabia o caminho. É o que se vê em obras comoO Lobo da Estepe e Sidarta.”

Segundo Dettwiler, pode-se conhecer e descobrir Hesse não apenas através de sua obra, mas também através de suas cartas. “As cartas dão uma idéia extraordinária e mostram seu autor de vários ângulos. Muitos se identificavam com ele. Ele transmitia a impressão de que eles não estavam sós com seus sofrimentos e entusiasmos.”

Recato e Respeito

Começa a ficar fresco demais no subssolo da biblioteca, onde todas as caixas com as cartas estão guardadas. Lukas Dettwiler leu apenas uma pequena parte das cartas. Por um lado, falta-lhe tempo para ler tudo, por outro, ele considera as cartas “algo muito íntimo, pessoal, particular”.

“Às vezes leio coisas muito tristes e difíceis. Não acho correto ter acesso a isso. Os conteúdos não foram dirigidos a nós, nem a mim, que sou hoje o inventariante do espólio, nem àqueles que há 50 anos doaram a correspondência ao Arquivo. “Saber que estas cartas existem e que estão bem guardadas aqui” é suficiente para este “secretário particular póstumo de Hesse”, como ele se define.

Dettwiler fecha as caixas, recoloca-as na estante e retorna de seu reino subterrâneo para o aqui e agora.

Gaby Ochsenbein, swissinfo.ch
Adaptação: Fabiana Macchi

Os embaixadores do sertão (Fapesp)

HUMANIDADES

A diplomacia influenciou a literatura de Vinicius de Moraes, Guimarães Rosa e João Cabral

CARLOS HAAG | Edição 195 – Maio de 2012

Brasília em construção (1959), metáfora da divisão entre modernidade e a realidade do país. © ARQUIVO / AGÊNCIA ESTADO / AE

Em 1956, quando o presidente Juscelino Kubitschek lançou o seu Plano de Metas, destinado a modernizar o país, Guimarães Rosa (1908-1967) publicou as novelas de Corpo de baile e Grande sertão: veredas. Era embaixador e trabalhava no Itamaraty, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, João Cabral de Melo Neto (1920-1999) publicou Duas águas e os inéditos Morte e vida SeverinaPaisagens com figuras Uma faca só lâmina. O diplomata foi transferido para Barcelona, como cônsul-adjunto. Ainda em 1956, Vinicius de Moraes (1913-1980), voltava de Paris, após ocupar o cargo de segundo secretário de embaixada. Escreve o poema Um operário em construção para o primeiro número da revista Para Todos, convidado por Jorge Amado. Também inicia a parceria com Tom Jobim, a quem convida para musicar Orfeu da Conceição, encenada no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro naquele ano. Na contramão do otimismo geral do Brasil novo, nas obras do trio transita uma multidão pelo sertão e pelas favelas, estrangeiros na sua terra.

“O ano de 1956 foi emblemático, porque nesses textos nota-se uma não integração à verdade alardeada pela produção da modernidade. Há, nos autores, um deslocamento da percepção para lugares mais recônditos da estrutura social, dos sujeitos menos favorecidos pela escala social. Cabral, Rosa e Vinicius questionam os lugares hierárquicos tradicionais, impostos como naturais à ordem coletiva”, explica o crítico literário Roniere Menezes, professor do Centro Federal de Educação de Minas Gerais (Cefet-MG) e autor da pesquisa O traço, a letra e a bossa: literatura e diplomacia em Cabral, Rosa e Vinicius (Editora UFMG). Os três, além de se destacarem do otimismo nacional, também apresentavam um “sertão” (ou, no caso de Vinicius, as favelas, análogas ao sertão) muito diverso do sertão exótico, saudosista e contrário ao moderno – muitas vezes tratado com tintas da política representativa tradicional –, como ocorre na obra de alguns colegas de letras. Os autores, ao construírem suas imagens do povo brasileiro, interessaram-se mais pela questão ética que pelo viés político partidário.

Se há diferenças entre os autores, eles apresentam um ponto semelhante: eram diplomatas.  “Mais do que uma coincidência, o trabalho diplomático, ou seja, a aproximação com a exterioridade de um sistema, abertura para o jogo de diferenças existentes na vida social, cultural e política, permite articular os projetos tão heterogêneos dos três, com caminhos estéticos diversos, mas uma mesma preocupação: a tensão entre o discurso do Brasil desenvolvimentista das elites e o discurso do Brasil arcaico, carente, rural ou urbano”, observa Menezes. “Esses escritores-diplomatas corroeram a ideia de um regionalismo fechado, enrijecido, alheio às conexões com o mundo exterior. Ao mesmo tempo, caminham na contramão das pretensões de um Estado desenvolvimentista focado na ideia de unidade nacional. Seus textos enfatizam as identidades diversas do país, a multiplicidade de culturas e demandas sociais do Brasil”, analisa. Da mesma forma que o movimento da escrita diplomática se pauta pela “desterritorialização”.

Guimarães Rosa em seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, em 1967. © FOLHAPRESS

Os escritores diplomatas são viajantes de um Brasil perdido nos labirintos da modernização. “A tensão criada no espírito ao mesmo tempo burocrata (eram funcionários do Estado) e ‘turista’ desses autores traz um olhar agudo para aqueles ‘estrangeiros’ nativos que perambulam pelo seu país, como as massas de refugiados do pós-guerra, buscando uma moradia. O deslocamento, o exílio, a adaptação complexa a outras terras, parte vida diplomática, contribui para a desterritorialização do pensamento”, avalia o pesquisador. A realidade social que seus textos revelam é abordada por uma ótica de exterioridade.

“A escritura diplomática desconfia do vínculo limitado com os lugares. Cabral, Rosa e Vinicius sabem que não podem escrever ‘de dentro’, não têm o discurso do sertanejo ou do favelado. Por isso criam ‘espaços do fora’, onde fazem ressoar as vozes do ‘dentro’. Essa perspectiva de fronteira, nem dentro nem fora, busca o constante diálogo entre diversas proposições, gerando novas reflexões, novas configurações estéticas”, nota Menezes.

No itinerário dos escritores-diplomatas surgem ressonâncias, aproximações, traduções entre as produções culturais de várias partes do mundo, exatamente num momento em que o país experimenta sua modernidade tardia, em que a produção local se articula com a estrangeira e os conceitos de dependência começam a sofrer interferência dos conceitos de simultaneidade cultural. Ainda que, no Brasil, a ideia de modernidade tenha surgido antes do processo de modernização. Brasília é o símbolo disso, como capital de um Estado de “vanguarda” numa nação em que muitos valores da modernidade não foram sequer assimilados. “Nisso, os três escritores foram sábios em lançar mão da escritura diplomática, em especial na utilização do afeto em relação ao outro no reconhecimento do exterior aos lugares estabelecidos”, analisa o pesquisador.

O trabalho com a diplomacia funciona como alegoria do processo de criação literária de se pensar a escritura como uma relação com a alteridade. Daí a imagem da simpatia que os autores desenvolvem pelos “estrangeiros” da modernidade que circulam em território brasileiro.

“Os autores desenvolveram o pensamento da ‘estrangeiridade’, a abertura para outros modos de saber e de expressão. Ao mesmo tempo em que atuam no campo burocrático ou literário, buscam a convivência com diversidade social, estética e cultural nativa, subjetiva ou concreta, ligada à grande arte ou à tradição popular”, avalia Menezes. Rosa, em suas experiências na Europa, durante a guerra, viveu a perda de certezas na própria humanidade e fez da insegurança diante da ordem estrangeira a possibilidade de criação de linhas de fuga pela literatura. “O enfrentamento das fragilidades humanas em terras inóspitas liga-se intimamente à formulação artística. O trabalho estético, então, ganha força política restauradora, pois se relaciona à vontade de transformação individual e coletiva.

Dualista
Para o pesquisador, a transdisciplinaridade possibilita a criação de espaços de estrangeiridade mesmo em relação aos pensamentos mais íntimos. “Rompe-se com o pensamento estanque, dualista, aprende-se a olhar com as lentes do outro, a sentir um pouco da insegurança das terras desconhecidas. A experiência com a terra estrangeira, com os espaços diferentes cria no viajante o interesse pelo novo de forma aguçada. Isso faz com que eles reconheçam suas limitações, fiquem mais abertos e mais tolerantes aos diversos modos de existência”, observa.

Vinicius de Moraes, em 1965. © FOLHAPRESS

Há a constatação de que é preciso sair da interioridade e ir em direção a outras formas de pensamento e o conceito de diplomacia é fundamental como a busca de um diálogo com uma exterioridade em relação ao sistema instituído. “A diplomacia oferece à escritura a capacidade de pensar o outro não por regras consolidadas, mas pela capacidade de ser olhado por esse outro, de deixá-lo invadir o discurso e dar novo significado ao pensamento e ao próprio ato de criação”, fala Menezes.

A isso se junta o apuro da escrita, já que os diplomatas sabem o quanto há de construção linguística, de técnica retórica, de jogos de poder em cada trecho de um argumento. “A atenção e o cuidado com as minúcias da linguagem, as estratégias de convencimento, o preparo intelectual, o controle para que aspectos sentimentais ou irrefletidos não interfiram nas negociações refletem a ‘prudência’ diplomática presente na produção artística dos três.” Mas, ao contrário da diplomacia oficial, com regras e dogmas, a “diplomacia literária” ou “diplomacia menor” tem como força maior o questionamento. Não se quer fechar acordos definitivos, mas revelar novos olhares políticos sobre o mundo. Não destruir a ideia de modernidade em propor um retorno saudosista ao passado, mas revelar as incongruências da modernização forçada e propor formas alternativas de se pensar o país. “Se o diplomata às vezes mente, ou esconde conhecimento para conseguir acordos melhores, o escritor inventa mentiras que nos possibilitam enxergar verdades maiores que as certezas aparentes”, analisa o pesquisador.

O trio, porém, destoava de muitos colegas diplomatas. Como, por exemplo, se vê no ofício de Aluízio de Magalhães, cônsul-geral do Brasil em Marselha, em 1958, em que critica a cantora Marlene,  e grupos brasileiros de balé negro e frevo na Europa. “A brasileira se desmancha em movimentos epiléticos, enquanto uns negros, sem compostura, batendo tambores, saracoteavam ao derredor que nem macacos à orla da mata”, escreve o cônsul-geral.

“Os escritores-diplomatas, quando lidam com a política da escritura, sabem que o trabalho político mais importante não se liga às fronteiras físicas visíveis, mas com as formas de separação das linhas invisíveis do preconceito, da discriminação”, afirma Menezes. É nesse “lugar menor” que buscam corroer a separação e a exclusão. “Na diplomacia oficial, o trabalho é feito por meio das instituições políticas, jurídicas e econômicas. Na ‘diplomacia menor’ ele se realiza, por exemplo, pela representação do povo simples, exposto à crueza da realidade, no seu modo de lidar com a biopolítica, com os limites que devem atravessar todo dia para sobreviver”, observa.  “Traduzir necessidades internas em possibilidades externas para ampliar o poder de controle de uma sociedade sobre seu destino é, no meu entender, a tarefa da política externa”, escreve o diplomata e professor da Universidade de São Paulo Celso Lafer em O Itamaraty na cultura brasileira (Instituto Rio Branco, 2001).

João Cabral em seu apartamento no Rio de Janeiro, em 1997. © EDER CHIODETTO / FOLHAPRESS

“A capacidade de Rosa de usar registros linguísticos diversos era, no plano literário, o correlato perfeito do primeiro item de qualquer agenda diplomática: a fixação das fronteiras, base da política externa que pressupõe uma diferença entre o ‘interno’ (o espaço nacional) e o ‘externo’ (o mundo)”, analisa Lafer. “Ele traduzia na sua literatura um dos princípios básicos da diplomacia brasileira, uma linha de ação voltada para transformar nossas fronteiras de clássicas fronteiras-separação em modernas fronteiras-cooperação”, avalia. Ao contrário de Rosa e de Cabral, que tiveram essa experiência do sertão na infância, Vinicius só vai conhecer o Nordeste e o Norte aos 29 anos, em 1942. Seu ingresso no Itamaraty ocorre no momento em que está descobrindo o país e assumindo a sua nova brasilidade e, com isso, sua produção artística começa a ser influenciada pela realidade social do Brasil e dos saberes populares.

No lugar do sertão, Vinicius insere em sua obra imagens da favela e das zonas boê-mias do Rio de Janeiro. Sua permanência diplomática nos EUA o fez conhecer melhor o jazz e o cinema. Mas, ao contrário dos colegas de letras, foi o único a ser desligado do Itamaraty. Cabral havia enfrentado um processo de cassação em 1952, por Vargas, mas retornou ao ministério. O “poetinha”, não. Durante um show em Portugal, em 1968, ataca o regime militar. Contra esta e outras ações do poeta, o regime reage com uma aposentadoria compulsória. Em nota grosseira, o então presidente Costa e Silva fez questão de anotar: “Demita-se esse vagabundo”. A diplomacia libera definitivamente seu talento para a música popular.

“O texto do trio não está pautado pela luta de classes, partidos ou poder, mas pelas mediações, negociações”, observa Menezes. Nos textos dos três diplomatas aparecem imagens incômodas, dissonantes em relação ao discurso da nação desenvolvimentista simbolizada por Brasília, que o trio, cada um a seu modo, soube admirar e criticar.

“Num período em que o país quis ingressar no concerto das nações, com investimentos na modernização e no progresso, eles tinham confiança no futuro, mas desconfiavam dos processos com que se conduzia o país a esse novo estágio político e econômico”, nota o pesquisador. Então, enveredam-se pelos sertões, morros e periferias buscando valorizar os saberes e as criações populares. “A ‘diplomacia menor’ e as ‘poéticas de fronteiras’ mostram a necessidade do encontro com alguma coisa que force o pensamento a sair da sua interioridade. “O movimento rumo ao exterior dos lugares convencionais contribuiu para o desenvolvimento da imaginação e do olhar crítico dos autores”, diz Menezes.

Bob Stein vem ao Brasil para congresso em que analisa uma mudança nas narrativas a partir da revolução digital (O Globo, JC)

JC e-mail 4307, de 25 de Julho de 2011.

Formas completamente novas de narrativa surgirão a partir da revolução tecnológica. A previsão é de Bob Stein, editor de 65 anos que desde os anos 1980, bem antes do advento da internet, dedica-se à produção de conteúdo eletrônico.

Foi pioneiro ao lançar uma enciclopédia para computadores pessoais e como criador de CD-ROMs interativos e multimídias. Fundador do Institute for the Future of the Book, com pesquisadores sediados em Nova York e Londres, Stein promete abalar as convicções da plateia de editores do 2º Congresso Internacional do Livro Digital da Câmara Brasileira do Livro, que acontece amanhã e quarta-feira em São Paulo.

O futuro do livro, prevê o especialista, é se tornar uma praça pública virtual, um mundo no qual leitores se reúnem e criam suas próprias histórias, uma forma de contar histórias bem parecida com a dos games. A leitura como uma experiência solitária e silenciosa está com os dias contados, assim como o livro impresso, cujo futuro é sobreviver apenas como objeto de arte para consumo dos mais afortunados.

Como surgiu e qual foi a função do Institute for the Future of the Book?
BOB STEIN: Há sete anos, fui convidado pela MacArthur Foundation a voltar a ser editor. Mas naquela época, com a internet, eu acreditava que já não havia mais lugar para um editor, não entendia qual seria sua função. Relutei em aceitar o convite. Tive então a ideia de propor à fundação que financiasse uma pesquisa sobre o papel do editor nesta nova era. Eles foram extremamente generosos, doaram US$ 1 milhão para a criação do instituto. O instituto foi criado em 2004. A princípio, era um projeto de cinco anos de duração cujo objetivo era entender como as narrativas, o discurso, mudam ao deixar as páginas impressas rumo às mídias eletrônicas e à internet. Acredito que conseguimos entender como o mercado editorial vai evoluir. O livro será uma praça, um ponto de encontro e reunião de leitores. Não é algo que acontecerá da noite para o dia, mas chegaremos lá. Fundei recentemente uma nova empresa, a Social Books, e estamos criando plataformas para publicações eletrônicas e sociais.

A geração digital será capaz de ler um livro impresso como fazemos, sozinhos, concentrados, em silêncio por horas a fio ou ela não terá mais as habilidades cognitivas para tanto?
Ler da maneira que você descreveu é algo recente, não é uma prática tão tradicional e arraigada assim. No século XIX, o normal era as pessoas lerem em voz alta, em grupo. Uma biblioteca pessoal com estantes cheias de livros era raríssimo, privilégio dos ricos até depois da Segunda Guerra Mundial. Os comportamentos que envolvem a leitura solitária são recentes. Temos medo de perder algo se estes hábitos mudarem. Mas a Humanidade evoluiu durante muito tempo sem isso. As novas gerações encontrarão algo novo que será tão valioso quanto este tipo de leitura foi para nós.

Como a revolução digital está transformando o mercado editorial?
O mercado editorial sabia há muito tempo da iminência dos livros digitais. Mas, em vez de investir, permitiu que Amazon e Apple pilotassem o navio. Foi um erro grave. As editoras perderam a dianteira e agora têm de correr atrás do prejuízo. O problema é que estão acostumadas e se agarram a um modelo de negócios no qual vendem objetos impressos por uma quantidade justa de dinheiro. Agora todas estão convertendo e lançando seus livros em formatos eletrônicos e acreditam que assim será possível manter a mesma margem de lucro. Isto nunca vai acontecer. A verdadeira energia de transformação vem de fora do mercado editorial, principalmente do mundo dos games. As editoras terão de seguir este exemplo para aprender como integrar diferentes formas de mídia – não apenas adicionar fotos, vídeos e áudios aos textos -, e como lidar com comunidades de leitores. A indústria dos games já sabe muito bem como fazer isso. Um exemplo é “World of warcraft”, espécie de role-playing game on-line, com mais de 12 milhões de assinaturas por mês. É um conceito a ser estudado. Talvez o futuro da literatura esteja em autores que criam um mundo a ser habitado pelos leitores, que dentro deste universo escrevem suas próprias histórias. Não me surpreenderá se uma empresa de game comprar uma grande editora em algum momento dos próximos dez anos.

O mercado editorial vai passar pela mesma crise da indústria fonográfica?
Sim, é bem parecido. As editoras acreditam que o que aconteceu com as gravadoras e a indústria do cinema não acontecerá com elas. Infelizmente não é verdade. No Pirate Bay é possível encontrar milhares de livros, muito mais do que seremos capazes de ler a vida inteira.

Houve um momento em que o futuro parecia estar nos enhanced books (o primeiro foi uma adaptação interativa, com áudio e vídeo de “Alice no País das Maravilhas, lançada em 2010 como um aplicativo para iPad). Este formato já está ultrapassado?
Sim. Embora muito do meu trabalho seja aprimorar livros, filmes ou músicas adicionando conteúdo para que eles sejam mais bem compreendidos e apreciados, no fim do dia isto jamais será tão importante quanto criar uma maneira completamente nova de se consumir conteúdo. A revolução tecnológica propicia a criação de novas formas de narrativas. Algo como a invenção de um novo gênero literário, adequado aos novos tempos, a exemplo do que aconteceu quando Miguel de Cervantes inventou, com “Dom Quixote” o romance moderno.

Livros impressos vão sobreviver?
Sim. Mas irão se tornar uma espécie de objeto de arte. Só quem é muito rico será capaz de comprá-los. Algo como os livros para mesas de centro que compramos hoje em dia porque são bonitos, decorativos. No futuro, o livro como uma forma de transmitir ideias será eletrônico.

“O socialismo é uma doutrina triunfante” (Brasil de Fato)

Aos 93 anos, Antonio Candido explica a sua concepção de socialismo, fala sobre literatura e revela não se interessar por novas obras

12/07/2011

Joana Tavares

da Redação

Crítico literário, professor, sociólogo, militante. Um adjetivo sozinho não consegue definir a importância de Antonio Candido para o Brasil. Considerado um dos principais intelectuais do país, ele mantém a postura socialista, a cordialidade, a elegância, o senso de humor, o otimismo. Antes de começar nossa entrevista, ele diz que viveu praticamente todo o conturbado século 20. E participou ativamente dele, escrevendo, debatendo, indo a manifestações, ajudando a dar lucidez, clareza e humanidade a toda uma geração de alunos, militantes sociais, leitores e escritores.

Tão bom de prosa como de escrita, ele fala sobre seu método de análise literária, dos livros de que gosta, da sua infância, do começo da sua militância, da televisão, do MST, da sua crença profunda no socialismo como uma doutrina triunfante. “O que se pensa que é a face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele”, afirma.

Brasil de Fato – Nos seus textos é perceptível a intenção de ser entendido. Apesar de muito erudito, sua escrita é simples. Por que esse esforço de ser sempre claro?

Antonio Candido – Acho que a clareza é um respeito pelo próximo, um respeito pelo leitor. Sempre achei, eu e alguns colegas, que, quando se trata de ciências humanas, apesar de serem chamadas de ciências, são ligadas à nossa humanidade, de maneira que não deve haver jargão científico. Posso dizer o que tenho para dizer nas humanidades com a linguagem comum. Já no estudo das ciências humanas eu preconizava isso. Qualquer atividade que não seja estritamente técnica, acho que a clareza é necessária inclusive para pode divulgar a mensagem, a mensagem deixar de ser um privilégio e se tornar um bem comum.

O seu método de análise da literatura parte da cultura para a realidade social e volta para a cultura e para o texto. Como o senhor explicaria esse método?

Uma coisa que sempre me preocupou muito é que os teóricos da literatura dizem: é preciso fazer isso, mas não fazem. Tenho muita influência marxista – não me considero marxista – mas tenho muita influência marxista na minha formação e também muita influência da chamada escola sociológica francesa, que geralmente era formada por socialistas. Parti do seguinte princípio: quero aproveitar meu conhecimento sociológico para ver como isso poderia contribuir para conhecer o íntimo de uma obra literária. No começo eu era um pouco sectário, politizava um pouco demais minha atividade. Depois entrei em contato com um movimento literário norte-americano, a nova crítica, conhecido como new criticism. E aí foi um ovo de colombo: a obra de arte pode depender do que for, da personalidade do autor, da classe social dele, da situação econômica, do momento histórico, mas quando ela é realizada, ela é ela. Ela tem sua própria individualidade. Então a primeira coisa que é preciso fazer é estudar a própria obra. Isso ficou na minha cabeça. Mas eu também não queria abrir mão, dada a minha formação, do social. Importante então é o seguinte: reconhecer que a obra é autônoma, mas que foi formada por coisas que vieram de fora dela, por influências da sociedade, da ideologia do tempo, do autor. Não é dizer: a sociedade é assim, portanto a obra é assim. O importante é: quais são os elementos da realidade social que se transformaram em estrutura estética. Me dediquei muito a isso, tenho um livro chamado “Literatura e sociedade” que analisa isso. Fiz um esforço grande para respeitar a realidade estética da obra e sua ligação com a realidade. Há certas obras em que não faz sentido pesquisar o vínculo social porque ela é pura estrutura verbal. Há outras em que o social é tão presente – como “O cortiço” [de Aluísio Azevedo] – que é impossível analisar a obra sem a carga social. Depois de mais maduro minha conclusão foi muito óbvia: o crítico tem que proceder conforme a natureza de cada obra que ele analisa. Há obras que pedem um método psicológico, eu uso; outras pedem estudo do vocabulário, a classe social do autor; uso. Talvez eu seja aquilo que os marxistas xingam muito que é ser eclético. Talvez eu seja um pouco eclético, confesso. Isso me permite tratar de um número muito variado de obras.

Teria um tipo de abordagem estética que seria melhor?

Não privilegio. Já privilegiei. Primeiro o social, cheguei a privilegiar mesmo o político. Quando eu era um jovem crítico eu queria que meus artigos demonstrassem que era um socialista escrevendo com posição crítica frente à sociedade. Depois vi que havia poemas, por exemplo, em que não podia fazer isso. Então passei a outra fase em que passei a priorizar a autonomia da obra, os valores estéticos. Depois vi que depende da obra. Mas tenho muito interesse pelo estudo das obras que permitem uma abordagem ao mesmo tempo interna e externa. A minha fórmula é a seguinte: estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio.

O que é mais importante ler na literatura brasileira?

Machado de Assis. Ele é um escritor completo.

É o que senhor mais gosta?

Não, mas acho que é o que mais se aproveita.

E de qual o senhor mais gosta?

Gosto muito do Eça de Queiroz, muitos estrangeiros. De brasileiros, gosto muito de Graciliano Ramos… Acho que já li “São Bernardo” umas 20 vezes, com mentira e tudo. Leio o Graciliano muito, sempre. Mas Machado de Assis é um autor extraordinário. Comecei a ler com 9 anos livros de adulto. E ninguém sabia quem era Machado de Assis, só o Brasil e, mesmo assim, nem todo mundo. Mas hoje ele está ficando um autor universal. Ele tinha a prova do grande escritor. Quando se escreve um livro, ele é traduzido, e uma crítica fala que a tradução estragou a obra, é porque não era uma grande obra. Machado de Assis, mesmo mal traduzido, continua grande. A prova de um bom escritor é que mesmo mal traduzido ele é grande. Se dizem: “a tradução matou a obra”, então a obra era boa, mas não era grande.

Como levar a grande literatura para quem não está habituado com a leitura?

É perfeitamente possível, sobretudo Machado de Assis. A Maria Vitória Benevides me contou de uma pesquisa que foi feita na Itália há uns 30 anos. Aqueles magnatas italianos, com uma visão já avançada do capitalismo, decidiram diminuir as horas de trabalho para que os trabalhadores pudessem ter cursos, se dedicar à cultura. Então perguntaram: cursos de que vocês querem? Pensaram que iam pedir cursos técnicos, e eles pediram curso de italiano para poder ler bem os clássicos. “A divina comédia” é um livro com 100 cantos, cada canto com dezenas de estrofes. Na Itália, não sou capaz de repetir direito, mas algo como 200 mil pessoas sabem a primeira parte inteira, 50 mil sabem a segunda, e de 3 a 4 mil pessoas sabem o livro inteiro de cor. Quer dizer, o povo tem direito à literatura e entende a literatura. O doutor Agostinho da Silva, um escritor português anarquista que ficou muito tempo no Brasil, explicava para os operários os diálogos de Platão, e eles adoravam. Tem que saber explicar, usar a linguagem normal.

O senhor acha que o brasileiro gosta de ler?

Não sei. O Brasil pra mim é um mistério. Tem editora para toda parte, tem livro para todo lado. Vi uma reportagem que dizia que a cidade de Buenos Aires tem mais livrarias que em todo o Brasil. Lê-se muito pouco no Brasil. Parece que o povo que lê mais é o finlandês, que lê 30 volumes por ano. Agora dizem que o livro vai acabar, né?

O senhor acha que vai?

Não sei. Eu não tenho nem computador… as pessoas me perguntam: qual é o seu… como chama?

E-mail?

Isso! Olha, eu parei no telefone e máquina de escrever. Não entendo dessas coisas… Estou afastado de todas as novidades há cerca de 30 anos. Não me interesso por literatura atual. Sou um velho caturra. Já doei quase toda minha biblioteca, 14 ou 15 mil volumes. O que tem aqui é livro para visita ver. Mas pretendo dar tudo. Não vendo livro, eu dou. Sempre fiz escola pública, inclusive universidade pública, então é o que posso dar para devolver um pouco. Tenho impressão que a literatura brasileira está fraca, mas isso todo velho acha. Meus antigos alunos que me visitam muito dizem que está fraca no Brasil, na Inglaterra, na França, na Rússia, nos Estados Unidos… que a literatura está por baixo hoje em dia. Mas eu não me interesso por novidades.

E o que o senhor lê hoje em dia?

Eu releio. História, um pouco de política… mesmo meus livros de socialismo eu dei tudo. Agora estou querendo reler alguns mestres socialistas, sobretudo Eduard Bernstein, aquele que os comunistas tinham ódio. Ele era marxista, mas dizia que o marxismo tem um defeito, achar que a gente pode chegar no paraíso terrestre. Então ele partiu da ideia do filósofo Immanuel Kant da finalidade sem fim. O socialismo é uma finalidade sem fim. Você tem que agir todos os dias como se fosse possível chegar no paraíso, mas você não chegará. Mas se não fizer essa luta, você cai no inferno.

O senhor é socialista?

Ah, claro, inteiramente. Aliás, eu acho que o socialismo é uma doutrina totalmente triunfante no mundo. E não é paradoxo. O que é o socialismo? É o irmão-gêmeo do capitalismo, nasceram juntos, na revolução industrial. É indescritível o que era a indústria no começo. Os operários ingleses dormiam debaixo da máquina e eram acordados de madrugada com o chicote do contramestre. Isso era a indústria. Aí começou a aparecer o socialismo. Chamo de socialismo todas as tendências que dizem que o homem tem que caminhar para a igualdade e ele é o criador de riquezas e não pode ser explorado. Comunismo, socialismo democrático, anarquismo, solidarismo, cristianismo social, cooperativismo… tudo isso. Esse pessoal começou a lutar, para o operário não ser mais chicoteado, depois para não trabalhar mais que doze horas, depois para não trabalhar mais que dez, oito; para a mulher grávida não ter que trabalhar, para os trabalhadores terem férias, para ter escola para as crianças. Coisas que hoje são banais. Conversando com um antigo aluno meu, que é um rapaz rico, industrial, ele disse: “o senhor não pode negar que o capitalismo tem uma face humana”. O capitalismo não tem face humana nenhuma. O capitalismo é baseado na mais-valia e no exército de reserva, como Marx definiu. É preciso ter sempre miseráveis para tirar o excesso que o capital precisar. E a mais-valia não tem limite. Marx diz na “Ideologia Alemã”: as necessidades humanas são cumulativas e irreversíveis. Quando você anda descalço, você anda descalço. Quando você descobre a sandália, não quer mais andar descalço. Quando descobre o sapato, não quer mais a sandália. Quando descobre a meia, quer sapato com meia e por aí não tem mais fim. E o capitalismo está baseado nisso. O que se pensa que é face humana do capitalismo é o que o socialismo arrancou dele com suor, lágrimas e sangue. Hoje é normal o operário trabalhar oito horas, ter férias… tudo é conquista do socialismo. O socialismo só não deu certo na Rússia.

Por quê?

Virou capitalismo. A revolução russa serviu para formar o capitalismo. O socialismo deu certo onde não foi ao poder. O socialismo hoje está infiltrado em todo lugar.

O socialismo como luta dos trabalhadores?

O socialismo como caminho para a igualdade. Não é a luta, é por causa da luta. O grau de igualdade de hoje foi obtido pelas lutas do socialismo. Portanto ele é uma doutrina triunfante. Os países que passaram pela etapa das revoluções burguesas têm o nível de vida do trabalhador que o socialismo lutou para ter, o que quer. Não vou dizer que países como França e Alemanha são socialistas, mas têm um nível de vida melhor para o trabalhador.

Para o senhor é possível o socialismo existir triunfando sobre o capitalismo?

Estou pensando mais na técnica de esponja. Se daqui a 50 anos no Brasil não houver diferença maior que dez do maior ao menor salário, se todos tiverem escola… não importa que seja com a monarquia, pode ser o regime com o nome que for, não precisa ser o socialismo! Digo que o socialismo é uma doutrina triunfante porque suas reivindicações estão sendo cada vez mais adotadas. Não tenho cabeça teórica, não sei como resolver essa questão: o socialismo foi extraordinário para pensar a distribuição econômica, mas não foi tão eficiente para efetivamente fazer a produção. O capitalismo foi mais eficiente, porque tem o lucro. Quando se suprime o lucro, a coisa fica mais complicada. É preciso conciliar a ambição econômica – que o homem civilizado tem, assim como tem ambição de sexo, de alimentação, tem ambição de possuir bens materiais – com a igualdade. Quem pode resolver melhor essa equação é o socialismo, disso não tenho a menor dúvida. Acho que o mundo marcha para o socialismo. Não o socialismo acadêmico típico, a gente não sabe o que vai ser… o que é o socialismo? É o máximo de igualdade econômica. Por exemplo, sou um professor aposentado da Universidade de São Paulo e ganho muito bem, ganho provavelmente 50, 100 vezes mais que um trabalhador rural. Isso não pode. No dia em que, no Brasil, o trabalhador de enxada ganhar apenas 10 ou 15 vezes menos que o banqueiro, está bom, é o socialismo.

O que o socialismo conseguiu no mundo de avanços?

O socialismo é o cavalo de Troia dentro do capitalismo. Se você tira os rótulos e vê as realidades, vê como o socialismo humanizou o mundo. Em Cuba eu vi o socialismo mais próximo do socialismo. Cuba é uma coisa formidável, o mais próximo da justiça social. Não a Rússia, a China, o Camboja. No comunismo tem muito fanatismo, enquanto o socialismo democrático é moderado, é humano. E não há verdade final fora da moderação, isso Aristóteles já dizia, a verdade está no meio. Quando eu era militante do PT – deixei de ser militante em 2002, quando o Lula foi eleito – era da ala do Lula, da Articulação, mas só votava nos candidatos da extrema esquerda, para cutucar o centro. É preciso ter esquerda e direita para formar a média. Estou convencido disso: o socialismo é a grande visão do homem, que não foi ainda superada, de tratar o homem realmente como ser humano. Podem dizer: a religião faz isso. Mas faz isso para o que são adeptos dela, o socialismo faz isso para todos. O socialismo funciona como esponja: hoje o capitalismo está embebido de socialismo. No tempo que meu irmão Roberto – que era católico de esquerda – começou a trabalhar, eu era moço, ele era tido como comunista, por dizer que no Brasil tinha miséria. Dizer isso era ser comunista, não estou falando em metáforas. Hoje, a Federação das Indústrias, Paulo Maluf, eles dizem que a miséria é intolerável. O socialismo está andando… não com o nome, mas aquilo que o socialismo quer, a igualdade, está andando. Não aquela igualdade que alguns socialistas e os anarquistas pregavam, igualdade absoluta é impossível. Os homens são muito diferentes, há uma certa justiça em remunerar mais aquele que serve mais à comunidade. Mas a desigualdade tem que ser mínima, não máxima. Sou muito otimista. (pausa). O Brasil é um país pobre, mas há uma certa tendência igualitária no brasileiro – apesar da escravidão – e isso é bom. Tive uma sorte muito grande, fui criado numa cidade pequena, em Minas Gerais, não tinha nem 5 mil habitantes quando eu morava lá. Numa cidade assim, todo mundo é parente. Meu bisavô era proprietário de terras, mas a terra foi sendo dividida entre os filhos… então na minha cidade o barbeiro era meu parente, o chofer de praça era meu parente, até uma prostituta, que foi uma moça deflorada expulsa de casa, era minha prima. Então me acostumei a ser igual a todo mundo. Fui criado com os antigos escravos do meu avô. Quando eu tinha 10 anos de idade, toda pessoa com mais de 40 anos tinha sido escrava. Conheci inclusive uma escrava, tia Vitória, que liderou uma rebelião contra o senhor. Não tenho senso de desigualdade social. Digo sempre, tenho temperamento conservador. Tenho temperamento conservador, atitudes liberais e ideias socialistas. Minha grande sorte foi não ter nascido em família nem importante nem rica, senão ia ser um reacionário. (risos).

A Teresina, que inspirou um livro com seu nome, o senhor conheceu depois?

Conheci em Poços de Caldas… essa era uma mulher extraordinária, uma anarquista, maior amiga da minha mãe. Tenho um livrinho sobre ela. Uma mulher formidável. Mas eu me politizei muito tarde, com 23, 24 anos de idade com o Paulo Emílio. Ele dizia: “é melhor ser fascista do que não ter ideologia”. Ele que me levou para a militância. Ele dizia com razão: cada geração tem o seu dever. O nosso dever era político.

E o dever da atual geração?

Ter saudade. Vocês pegaram um rabo de foguete danado.

No seu livro “Os parceiros do Rio Bonito” o senhor diz que é importante defender a reforma agrária não apenas por motivos econômicos, mas culturalmente. O que o senhor acha disso hoje?

Isso é uma coisa muito bonita do MST. No movimento das Ligas Camponesas não havia essa preocupação cultural, era mais econômica. Acho bonito isso que o MST faz: formar em curso superior quem trabalha na enxada. Essa preocupação cultural do MST já é um avanço extraordinário no caminho do socialismo. É preciso cultura. Não é só o livro, é conhecimento, informação, notícia… Minha tese de doutorado em ciências sociais foi sobre o camponês pobre de São Paulo – aquele que precisa arrendar terra, o parceiro. Em 1948, estava fazendo minha pesquisa num bairro rural de Bofete e tinha um informante muito bom, Nhô Samuel Antônio de Camargos. Ele dizia que tinha mais de 90 anos, mas não sabia quantos. Um dia ele me perguntou: “ô seu Antonio, o imperador vai indo bem? Não é mais aquele de barba branca, né?”. Eu disse pra ele: “não, agora é outro chamado Eurico Gaspar Dutra”. Quer dizer, ele está fora da cultura, para ele o imperador existe. Ele não sabe ler, não sabe escrever, não lê jornal. A humanização moderna depende da comunicação em grande parte. No dia em que o trabalhador tem o rádio em casa ele é outra pessoa. O problema é que os meios modernos de comunicação são muito venenosos. A televisão é uma praga. Eu adoro, hein? Moro sozinho, sozinho, sou viúvo e assisto televisão. Mas é uma praga. A coisa mais pérfida do capitalismo – por causa da necessidade cumulativa irreversível – é a sociedade de consumo. Marx não conheceu, não sei como ele veria. A televisão faz um inculcamento sublimar de dez em dez minutos, na cabeça de todos – na sua, na minha, do Sílvio Santos, do dono do Bradesco, do pobre diabo que não tem o que comer – imagens de whisky, automóvel, casa, roupa, viagem à Europa – cria necessidades. E claro que não dá condições para concretizá-las. A sociedade de consumo está criando necessidades artificiais e está levando os que não têm ao desespero, à droga, miséria… Esse desejo da coisa nova é uma coisa poderosa. O capitalismo descobriu isso graças ao Henry Ford. O Ford tirou o automóvel da granfinagem e fez carro popular, vendia a 500 dólares. Estados Unidos inteiro começou a comprar automóvel, e o Ford foi ficando milionário. De repente o carro não vendia mais. Ele ficou desesperado, chamou os economistas, que estudaram e disseram: “mas é claro que não vende, o carro não acaba”. O produto industrial não pode ser eterno. O produto artesanal é feito para durar, mas o industrial não, ele tem que ser feito para acabar, essa é coisa mais diabólica do capitalismo. E o Ford entendeu isso, passou a mudar o modelo do carro a cada ano. Em um regime que fosse mais socialista seria preciso encontrar uma maneira de não falir as empresas, mas tornar os produtos duráveis, acabar com essa loucura da renovação. Hoje um automóvel é feito para acabar, a moda é feita para mudar. Essa ideia tem como miragem o lucro infinito. Enquanto a verdadeira miragem não é a do lucro infinito, é do bem-estar infinito.

Antonio Candido de Mello e Souza nasceu no Rio de Janeiro em 24 de julho de 1918, concluiu seus estudos secundários em Poços de Caldas (MG) e ingressou na recém-fundada Universidade de São Paulo em 1937, no curso de Ciências Sociais. Com os amigos Paulo Emílio Salles Gomes, Décio de Almeida Prado e outros fundou a revista Clima. Com Gilda de Mello e Souza, colega de revista e do intenso ambiente de debates sobre a cultura, foi casado por 60 anos. Defendeu sua tese de doutorado, publicada depois como o livro “Os Parceiros do Rio Bonito”, em 1954. De 1958 a 1960 foi professor de literatura na Faculdade de Filosofia de Assis. Em 1961, passou a dar aulas de teoria literária e literatura comparada na USP, onde foi professor e orientou trabalhos até se aposentar, em 1992. Na década de 1940, militou no Partido Socialista Brasileiro, fazendo oposição à ditadura Vargas. Em 1980, foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores. Colaborou nos jornais Folha da Manhã e Diário de São Paulo, resenhando obras literárias. É autor de inúmeros livros, atualmente reeditados pela editora Ouro sobre Azul, coordenada por sua filha, Ana Luisa Escorel.

Publicado originalmente na edição 435 do Brasil de Fato.

O futuro do presente no pretérito (Fapesp)

HUMANIDADES | LITERATURA
A ficção científica brasileira e a relação do país com a ciência e a tecnologia

Carlos Haag
Edição Impressa 184 – Junho 2011

A Presidência da República dos Estados Unidos do Brasil estava confiada a uma mulher. O país estava mais forte, mais belo e rico. Para aqui convergiam povos de todos os recantos da Terra. A Amazônia está urbanizada, o analfabetismo foi abolido e, na roça, os trabalhadores cantam trechos da última ópera a que assistiram ou recitam, de cor, os poemas mais lindos.” Aviso: isso não é um texto institucional desvairado do governo atual. A autora, Adalzira Bittencourt (1904-1976), descreveu essa “previsão” em 1929 em Sua Excia. a presidente da República. Mas esse “paraíso” de ficção científica tem um porém: tudo isso foi conseguido graças à ascensão na política das mulheres, que implementam um rígido programa de eugenia e higiene social. Por uma ironia do destino, a presidente, dra. Mariangela de Albuquerque, apaixona-se pelo pintor Jorge, que só conhece por cartas amorosas. Cansada de esperar o amante, a primeira mandatária ordena que seja trazido, algemado, em sua presença. “Era lindo de rosto, mas tinha não mais do que 90 cm de altura e tinha nas costas uma corcunda enorme.” A presidente eugenista ordena, implacável, a eutanásia profilática no amado. “Era mulher”, encerra-se, em tom vitorioso, a novela.

O tom “ideológico” da novela percorreu, e ainda se mantém, a produção de ficção científica brasileira, infelizmente pouco estudada e vista, em geral, como “produto de segunda ordem” e indigno do cânone literário. “Desde o século XIX o gênero provou ser um veículo ideal para registrar tensões na definição da identidade nacional e do processo de modernização. Essas tensões são exacerbadas na América Latina e, por isso, a produção da ficção em países como Brasil, Argentina e México, grandes representantes desse gênero no continente, é muito mais politizada do que a escrita nos países do Norte. No Brasil, o gênero ajudou a refletir uma agenda política mais concreta e os escritores, ontem e hoje, estão mais intimamente envolvidos com os rumos futuros de seu país e usaram o gênero nascente não apenas para circular suas idéias na arena pública, mas também para mostrar aos seus compatriotas suas opiniões sobre a realidade presente e suas visões sobre um tempo futuro, melhor e mais moderno”, explica a historiadora Rachel Haywood Ferreira, da Universidade do Estado de Iowa, autora de The emergence of Latin American science fiction, que acaba de ser lançado nos EUA pela Wesleyan University Press. “A ficção científica brasileira permite traçar a crise de identidade que acompanhou a modernização, juntamente com o senso de perda que a persegue, e que é parte da entrada do Brasil na condição pós-moderna. A ficção nacional em parte exemplifica a erosão da narrativa latino-americana de identidade nacional, porque ela se torna cada vez mais influenciada pela troca cultural inerente à globalização iniciada nos anos 1990”, concorda a professora de literatura Mary Ginway, da Universidade da Flórida, autora de Ficção científica brasileira: mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Devir Livraria). Apesar disso, o gênero continua considerado como “menor”. “É uma pena, porque o deslocamento da tradição da ficção para o contexto de um país em desenvolvimento nos permite revelar certas assunções sobre como se dá esse desenvolvimento e determinar a função desse gênero nesse tipo de sociedade. A ficção científica fornece um barômetro para medir atitudes diante da tecnologia, ao mesmo tempo que reflete as implicações sociais da modernização da sociedade brasileira”, avalia Mary. “Há mesmo uma variação gradual de um clima de otimismo para outro, de pessimismo: a ciência parece não mais ser a garantia da verdade, como se pensava, e o impacto da tecnologia pode nem sempre ser positivo, o que dificulta que se alcance o potencial nacional. Tudo isso se pode ver na ficção científica latino-americana: a definição da identidade nacional; as tensões entre ciência e religião e entre campo e cidade; a pseudociência”, nota Rachel.

Para a pesquisadora, a literatura especulativa é importante em paí-ses como o Brasil, onde “ciência e tecnologia têm um papel-chave na vida intelectual, já que a tecnologia é vista como a solução possível para que o país possa superar o atraso histórico do desenvolvimento econômico com a esperança de se criar uma sociedade melhor e mais utópica”. Infelizmente, foi justamente essa ligação com o nacional que representou a glória e o desprezo da ficção científica no Brasil, apesar de termos acompanhado com certa rapidez a expansão do gênero na Europa. A primeira ficção científica nacional data de 1868 (foi publicada no jornal O Jequitinhonha até 1872), Páginas da história do Brasil, escrita no ano 2000, de Joaquim Felício dos Santos, uma obra satírica sobre a monarquia que leva dom Pedro II numa viagem pelo tempo até o futuro, onde descobre como seu regime de governo era pernicioso ao país. “Obras como essas que adentram o século XX, até os anos 1920, mostram que havia interesse dos brasileiros em desenvolver narrativas utópicas, fantasias moralizadoras e até o romance científico, um corpo de ficção especulativa que poderia ter sustentado uma produção maior nas décadas seguintes. Infelizmente, como viria a acontecer nos anos 1970, os exercícios nacionais não resistiram à pressão estrangeira, à pressão da crítica, que não criou um nicho para o gênero no Brasil, e ao relativo desinteresse do público leitor”, analisa Roberto de Sousa Causo, autor de Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950 (Editora da UFMG). “A separação rígida entre a literatura sancionada e a não sancionada redundou na quase total ausência de uma pulp era no contexto brasileiro. A ficção especulativa perdeu esse espaço de inventividade desregrada, de abertura de novas possibilidades, de constituição de uma tradição mais empreendedora”, avalia.

Como observa Antonio Candido, em sua Formação da literatura brasileira, há uma posição fechada no país de considerar a literatura como prática constitutiva de nacionalidade, um pragmatismo que implica até hoje a diminuição da imaginação, pelo interesse de se usar politicamente as letras como forma de representar a experiência social e humana. Nesse movimento, avalia Causo, os usos da literatura como instrumento de formação da nacionalidade teriam preferido a documentação realista e naturalista orientada pelo progresso e pelo determinismo. “A versão brasileira sofre duplamente por causa de suas associações com ‘arte baixa’, fruto de uma tradição autoritária nacional que abomina a cultura de massas e a arte popular, e por ser um gênero imaginativo num país que dá alto valor ao realismo literário”, concorda a brasilianista Mary Gingway. Num conto de Jorge Calife, um dos mais conhecidos autores contemporâneos de ficção científica, Brasil, país do futuro, um jovem, em 1969, durante a ditadura, tem como dever de casa escrever um ensaio sobre o Brasil do ano 2000. Ele, de fato, consegue viajar no tempo e ver o Rio do futuro, uma dolorosa decepção ao descobrir que nada mudara e a vida dos brasileiros continuava miserável. De volta ao quarto, escreve o texto descrevendo uma cidade imaginária sob um domo, com medo de ser reprovado pelo professor se falasse a verdade. “Essa história é um lembrete de que, a despeito da modernização global, o Brasil pode enfrentar uma longa espera antes de receber os benefícios da tecnologia”, afirma a pesquisadora americana.

Os inícios da ficção científica foi o chamado romance científico, desenvolvido entre 1875 e 1939, que tomava como modelos europeus os livros de Jules Verne e Wells. “Embora as contribuições científicas latino-americanas desse período fossem pequenas em comparação com o resto do mundo, os cientistas desses países estavam em sintonia com o que fazia na Europa e a adoção da eugenia é um sinal da aprovação generalizada da ciência como prova de modernidade cultural. Os textos criados nesse espírito não se revelam como imitações de modelos literários imperialistas que mostravam sociedades imaginárias baseadas em tecnologias inviáveis, mas em obras que descreviam o presente com a autoridade do discurso científico e almejavam o futuro brilhante que viria com certeza. São textos utópicos que acontecem em lugares remotos ou tempos distantes, descrevendo sociedades inexistentes em detalhes”, analisa Rachel. A eugenia dessas obras, porém, vem embalada numa versão mais soft, um ramo alternativo das noções hereditárias de Lamarck, em que havia espaço para a reforma das deformações humanas, algo que entusiasmava os brasileiros, já que ofereciam soluções científicas viáveis para os “problemas” nacionais. “Era um neolamarckismo tingido com cores otimistas em que reformas do meio social poderiam resultar em melhoras permanentes e que o progresso, mesmo nos trópicos, era possível. Mais tarde, o darwinismo social se juntaria ao caldo que produziria a ficção”, conta a pesquisadora. Um bom exemplo é o romance pioneiro no gênero, Dr. Benignus (1875), de Augusto Zaluar, uma expedição científica ao interior do Brasil, com direito a seres vindos do Sol, muita conversa e pouca aventura. Para Benignus, a ciência serviria para dar valor ao cidadão importante ou resgataria a nação “bárbara” e abandonada.

Outro tema característico aparece em O presidente negro ou O choque das raças (1926), de Monteiro Lobato, que mostra como a divisão do eleitorado branco em 2228 permite a eleição nos EUA de um presidente negro, o que faz os brancos se unirem novamente para colocar os negros “sob controle”. Para o escritor, a mestiçagem era justamente o fator responsável pelo atraso econômico e cultural. A solução era seduzir os negros com um alisador de cabelos, os “raios Ômega”, que provocavam a esterilização do usuário. De forma menos agressiva, o tom eugenista transparece nas obras do jornalista Berilo Neves, autor da coletânea A costela de Adão (1930) e O século XXI (1934), histórias satíricas passadas no futuro cujo alvo preferencial eram o feminismo e as frivolidades femininas. Em geral suas narrativas misóginas envolvem a criação de máquinas de reprodução humana que fazem as mulheres obsoletas ou um mundo futuro em que os gêneros aparecem trocados. Em A liga dos planetas (1923), de Albino José Coutinho, o primeiro romance nacional a mostrar uma viagem espacial, o narrador constrói seu “aeroplano” e finca a bandeira brasileira na Lua. Mas não foge do pensamento corrente: a missão espacial tinha como justificativa um pedido presidencial para que o herói encontrasse, em outros mundos, gente de qualidade, porque aqui isso não acontecia.

Mas houve exceções honrosas ao darwinismo social, como A Amazônia misteriosa (1925), de Gustavo Cruls, inspirado em A ilha do Dr. Moureau, de Wells, com uma solução nacional: o protagonista perdido pela Amazônia se encontra com um cientista alemão, o professor Hartmann, que faz experiências em crianças do sexo masculino desprezadas pelas amazonas. Como se isso não bastasse, o médico, após tomar uma droga alucinógena, topa com Atahualpa, que descreve a ele os abusos feitos pelos europeus. O protagonista vê que esses foram mantidos pelo cientista tedesco e rejeita as explorações colonialistas e o abuso da ciência. Em A república 3.000 ou A filha do inca (1930), o modernista Menotti Del Picchia descreve uma expedição que se depara com uma civilização de grande tecnologia em pleno Brasil Central, isolada sob uma cúpula invisível. Os protagonistas rejeitam os postulados positivistas, fogem com a princesa inca e tudo se encerra com uma elegia à vida simples. Jerônymo Monteiro, o futuro autor do personagem Dick Peter, usa seu romance Três meses no século 81 (1947) para mostrar o seu protagonista Campos confrontando o próprio Wells sobre a viagem do tempo, usando o recurso da “transmigração da alma”, provocada por médiuns. “O herói de Monteiro não apenas viaja no tempo, mas lidera uma rebelião de humanistas contra a elite massificadora da Terra futura, aliando-se aos marcianos com quem o nosso planeta está em guerra”, diz Causo. “Por um lado, a nossa ficção científica vai se imbuindo da realidade trágica do subdesenvolvimento e ilumina a compreensão do leitor sobre a conjuntura particular em que vive, o que nos diferenciava da ficção científica do Primeiro Mundo. Ao mesmo tempo, reconhecer isso nos fez rejeitar conceitos importados, como o darwinismo social. Não havia mais razão na convivência entre esse discurso e uma conjuntura de neocolonialismo, como se vê na ficção científica brasileira do final do século XIX e início do XX, salvo dentro de uma postura elitista interna ao país”, analisa o pesquisador.

Enquanto isso, florescia nos EUA, em revistas populares, as pulp magazines, uma ficção científica tecnófila, pouco preocupada com o estilo ou com a caracterização de personagens, mais interessada no engajamento do leitor na ação, na aventura e na extravagância das ideias, as pulp fictions. Apesar dos esforços pulps de Berilo Neves e em particular de Jerônymo Monteiro (considerado o “pai da ficção científica brasileira”), essa forma popular não vingou no país. “O Brasil perdeu ao não ter acesso a esse material ou por não ter criado a sua versão de uma era de revistas populares, em que a inventividade estava presente e o público reagia, criando um forte vínculo entre produtores e consumidores de ficção científica”, lembra Causo. Ao lado dessa golden age anglo–americana, a ficção nacional, também em função dos efeitos do pós-guerra, passa a apresentar uma desconfiança básica da ciência e da tecnologia nas mãos dos humanos por conta do poder da razão em face dos excessos da emoção. “Em razão da aguda divisão de classes da sociedade brasileira, com forte concentração de renda nas mãos da elite, a tecnologia é vista como um elemento divisor, e não unificador. Para os brasileiros, a tecnologia é mais um problema político e econômico, e não uma forma de resolvê-lo”, analisa Mary Ginway. Apesar disso, os anos 1960 presenciam uma explosão do gênero graças aos esforços do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, criador das Edições GRD, que passam a batizar e abrigar uma nova geração de escritores, incluindo-se criadores do mainstream convidados a criar ficção como Dinah Silveira de Queiroz, Rachel de Queiroz, Fausto Cunha, entre outros.

Entre EUA e Brasil passam a acontecer descompassos ficcionais. “Se a ficção científica americana abraça a tecnologia e a mudança, mas teme rebeliões ou invasões por robôs e alienígenas, a ficção brasileira tende a rejeitar a tecnologia, mas abraça os robôs e acha os alienígenas como sendo indiferentes ou exóticos, mas pouco ameaçadores, quando não portadores de uma mensagem de paz ao mundo”, afirma Mary. Tampouco as visões americanas de megalópoles plenas de mecanismos futuristas agradavam aos brasileiros. “A sociedade brasileira, por seu passado rural e patriarcal, valoriza o personalismo nas relações, colocando valo no contato humano. Assim, essa rejeição pode ser lida como a negação de uma nova ordem baseada na uniformização e na obediência cega a uma cultura organizacional”, continua a pesquisadora. A ficção científica nacional começa a colocar o seu sabor sobre os arroubos do futuro. “A tecnologia só pode ser solução, nessas obras, quando é reduzida e humanizada. Os alienígenas, comparados aos estrangeiros, são descritos como indiferentes aos humanos e seus destinos, tomando recursos e abandonando os humanos à sua sorte. A Amazônia, por exemplo, passa a ser alvo desses invasores, que pousam ali. Já os robôs são vistos com grande simpatia, talvez em função do passado escravista em que havia uma promiscuidade entre servos e senhores. Assim, os ícones da ficção são transformados pelas relações sociais brasileiras tradicionais e suas possibilidades como agentes de mudança social, enquanto possibilidades utópicas são geralmente negadas.” Os autores nacionais se apropriam de um gênero do Primeiro Mundo que lida com ciência e tecnologia e, ao transformarem seus paradigmas, tornam-no antitecnológico e nacional, segundo a pesquisadora, um gesto compreensível de resistência ante o temor da modernização que ameaçava destruir a cultura e as tradições humanistas do Brasil, como se verá com o golpe de 1964.

Esse período da ditadura marca o início da ficção científica distópica, ou seja, usar elementos familiares e fazê-los estranhos para discutir ideias e fazer denúncias. “Ao usar um mundo futurista imaginário, as distopias se concentram em temas políticos e satirizam tendências presentes na sociedade. Daí as distopias nacionais serem todas representações alegóricas de um Brasil sob regime militar, com alusões à censura, tortura, controle etc. Os enredos são sempre sobre rebeliões contra uma tecnocracia perversa e arbitrária”, nota Mary. É um abrasileiramento da tendência da new age da ficção científica internacional, sob os auspícios de Ray Bradbury, em que a tecnologia aparece como vilã ao roubar dos brasileiros a sua identidade (uma questão recorrente desde o século XIX), em especial quando em mãos de um governo autoritário. “No lado oposto está o mito da identidade, visto como natural e imutável, assumindo a forma da natureza, da mulher, da sexualidade, da terra”, nota Causo. Com o fim da ditadura, a ficção científica volta ao seu padrão em formas mais sofisticadas como o cyberpunk, a ficção hard e as histórias alternativas, muitas escritas por mulheres.

Em 1988, Ivan Carlos Regina lança o manifesto antropofágico da ficção científica brasileira, que como o manifesto de Oswald de Andrade, propõe uma “canabalização” do gênero pelos escritores brasileiros. “Precisamos deglutir, após o bispo Sardinha, a pistola de raios laser, o cientista maluco, o alienígena bonzinho, o herói invencível, a dobra espacial, a mocinha com pernas perfeitas e cérebro de noz e o disco voador, que estão tão distantes da realidade brasileira quanto a mais longínqua das estrelas.” “Ao combinar formas altas e baixas de literatura, ao unir mito, mídia, tecnologia moderna e ao abordar questões como raça e gênero sexual, a ficção nacional da pós-ditadura desconstrói a noção de Brasil como uma nação tropical exótica, cheia de gente feliz, oferecendo um mosaico pós-moderno dos conflitos brasileiros para lutar com a sua própria história e com a crescente globalização”, nota Mary. Nesse momento há mesmo quem advogue o gênero como terreno fértil para os escritores do mainstream. “Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Faz pelo menos 20 anos que a sua rotina não muda”, avisa o escritor Nelson de Oliveira, autor de Os transgressores, em seu “Convite ao mainstream”. “Nossa sorte é que na literatura brasileira existem outras correntes além da principal. A mais vigorosa, brutal e vulgar é a ficção científica. Ela é como os bárbaros que puseram abaixo Roma. Os bárbaros são a solução para uma civilização decadente. Os temas da ficção científica são a semente desses guerreiros que, ao fecundarem a prosa cansada e decadente do mainstream, ajudarão a gerar contos e romances mais consistentes e menos artificiais.”

Contra a tirania da norma culta

É mais importante ensinar os alunos a navegar o universo linguístico do Brasil e valorizar as falar regionais, do que impor a norma culta como única manifestação linguística legítima. A norma culta é importante como espécie de língua franca, e nada mais. Os estudantes têm que sabê-la, mas com maior consciência política a respeito do que ela é (como diria Paulo Freire). Palmas para o MEC. Abaixo as estúpidas reformas ortográficas.

MEC não vai recolher livro que aceita erro de português (O Globo)

JC e-mail 4258, de 16 de Maio de 2011

O Ministério da Educação informou que não se envolverá na polêmica sobre o livro com erros gramaticais distribuído pelo Programa Nacional do Livro Didático, do próprio MEC, a 485 mil estudantes jovens e adultos. O livro “Por uma vida melhor”, da professora Heloísa Ramos, defende uma suposta supremacia da linguagem oral sobre a linguagem escrita, admitindo a troca dos conceitos “certo e errado” por “adequado ou inadequado”. A partir daí, frases com erros de português como “nós pega o peixe” poderiam ser consideradas corretas em certos contextos.

– Não somos o Ministério da Verdade. O ministro não faz análise dos livros didáticos, não interfere no conteúdo. Já pensou se tivéssemos que dizer o que é certo ou errado?
Aí, sim, o ministro seria um tirano – afirmou ontem um auxiliar do ministro Fernando Haddad, pedindo para não ser identificado.

Escritores e educadores criticaram ontem a decisão de distribuir o livro, tomada pelos responsáveis pelo Programa Nacional do Livro Didático. Para Mírian Paura, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uerj, as obras distribuídas pelo MEC deveriam conter a norma culta:

-Não tem que se fazer livros com erros. O professor pode falar na sala de aula que temos outra linguagem, a popular, não erudita, como se fosse um dialeto. Os livros servem para os alunos aprenderem o conhecimento erudito. Na obra “Por uma vida melhor”, da coleção “Viver, aprender”, a autora afirma num trecho: “Posso falar ‘os livro?’ Claro que pode, mas, dependendo da situação, a pessoa pode ser vítima de preconceito linguístico.” Em outro, cita como válidas asfrases: “nós pega o peixe” e “os menino pega o peixe”. Autor de dezenas de livros infantis e sobre Machado de Assis, o escritor Luiz Antônio Aguiar também é contra a novidade:

– Está valendo tudo. Mais uma vez, no lugar de ensinar, vão rebaixar tudo à ignorância. Estão jogando a toalha. Isso demonstra falta de competência para ensinar. Segundo ele, o que estabelece as regras é a gramática.

– Imagina um jogo de futebol sem as linhas do campo. Como vão jogar futebol sem saber se a bola vai sair ou não? O que determina as regras é a gramática. Faltam critérios. É um decréscimo da capacidade de comunicação – observou Aguiar , também professor do curso “Formação de leitores e jovens leitores”, da Secretaria municipal de Educação do Rio.

Literatura da fome: projeto promove encontro inusitado (Faperj)

Danielle Kiffer

Para Ana Paula, Glauber Rocha tem estilo similar ao de Artaud, por vincular a escrita ao traço pictórico e reinventar a gramática.

Você tem fome de quê?”. A música Comida, da banda Titãs, já colocava há algum tempo o questionamento sobre as inúmeras fomes que sentimos, que vão desde o desejo de consumir arte à necessidade da própria comida. Porém, é a abordagem do sentido literal da palavra que dá forma a um encontro que parecia improvável: entre os escritores brasileiros Josué de Castro e Graciliano Ramos, o cineasta Glauber Rocha e o poeta, ator e diretor teatral francês Antonin Artaud. O projeto “O corpo extremo: da escrita limite ao limite da escrita”, desenvolvido pela professora Ana Paula Veiga Kiffer, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), analisa a questão da fome e da loucura de Antonin Artaud, usando como referência a fundamentação crítica e teórica dos três autores brasileiros.

Para a professora, que é Jovem Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ, poucas semelhanças unem os quatro escritores, além do foco no tema que os reúne. “Todos retrataram a fome, mas de maneiras diversas. Em termos de estilo, acredito que Glauber Rocha é o que mais se aproxima de Artaud, pois ambos extrapolam a escrita e a vinculam ao traço pictórico, reinventando a gramática em suas obras, o que mostra a necessidade de criar um modo de dizer o que sentiam que ia além das palavras”, detalha. Dos quatro pensadores, por exemplo, o único que realmente vivenciou a fome foi o poeta francês, como explica Ana Paula: “Apesar de vir de uma família com boas condições financeiras, Artaud experimentou a pobreza e a fome em diferentes fases da vida. Ele viveu a decadência e a carência material do período entre a primeira e a segunda guerras mundiais na Europa e durante sua internação em instituições psiquiátricas, onde a alimentação era escassa. Durante a Segunda Guerra, época de sua internação, a fome foi utilizada como forma de extermínio nessas instituições.”

Com o romance Homens e Caranguejos, Josué de Castro foi inspiração para o
movimento conhecido como mangue beat.

Uma das primeiras teorias de Artaud que tem relação com a fome é o manifesto Teatro da Crueldade, de 1934. Nele, o autor clama por um teatro e uma cultura cujas forças vivas fossem idênticas às da fome. Ainda nos anos 1930, ele escreveu o poema intitulado A fome não espera, em que denuncia a decadência político-econômica da Europa da época. No poema, Artaud incita o leitor a transformar sua fome em seu próprio tesouro. Como destaca Ana Paula, há, no texto, uma grande semelhança com a Estétyka da Fome, de Glauber Rocha, na qual ele também nos desafia a fazer da nossa precariedade a nossa força. “Artaud é um autor radical como Glauber também é radical. O discurso de ambos não tem nada de vitimização, muito pelo contrário. É, sim, transformador, um estímulo à potência, à afirmação de uma diferença e às características que o povo brasileiro possui. Muitas vezes, de onde muito pouco se espera, há grandes movimentos de superação. Um exemplo que podemos citar, aqui mesmo no Rio de Janeiro, é o caso da Coopa-Roca, uma cooperativa de mulheres da favela da Rocinha, que fez do fuxico sua arte, sua forma de sobrevivência. E tudo com muito sucesso.”

Apesar de não ser mais um assunto discutido na intelectualidade, a literatura sobre a fome, no Brasil, gerou frutos que rendem até hoje. Um grande exemplo vem do escritor e médico Josué de Castro. Uma de suas principais obras e seu único romance, Homens e Caranguejos, publicado em 1967, influenciou, quase trinta anos mais tarde, a formulação do movimento musical mangue beat, liderado por Chico Science e Fred Zero Quatro, na década de 1990,  em Recife. Se Josué de Castro compara os homens, catadores de caranguejo, aos próprios crustáceos, ambos famintos e mergulhados na lama, Chico Science fala do mangue e sua sociedade marginal de homens-caranguejo, juntando na mesma panela musical, funk, hip hop e influências regionais.

Durante suas pesquisas em obras literárias, Ana Paula observou que a relação entre a loucura e a fome é estreita. Em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, por exemplo, os personagens centrais da trama que se passa no sertão nordestino brasileiro, sentem tanta fome que passam a delirar. “Pode-se dizer que a fome leva à loucura e a loucura pode levar a um tal estado de abandono e indigência, em que a fome certamente estará presente. Estas duas características estão muito próximas.”

Também a experiência do francês Artaud, durante o período em que ficou internado, tanto no asilo de Rodez quanto em Ivry-Sur-Seine, na França, foi registrada, de forma original e única, em cadernos escolares. “Nestes cadernos, podemos perceber a materialização da fome vivida, que transforma essa experiência em um discurso que traz um novo modo de dizer, que parece tratar a linguagem como algo concreto e material.” Para Ana Paula, a discussão sobre a fome deve ser retomada sob outro ângulo, encarando-a e a outros problemas da nossa sociedade, mas substituindo a vitimização pela superação.