by Alexandre Araújo Costa on Thursday, June 7, 2012 at 9:50pm (publicado no Facebook).
O título alternativo deste artigo bem poderia conter “o IPCC é fichinha” ou, de forma mais inclusiva, “Cientistas do Clima somos fichinha”. Isto porque, de fato, o embate entre nós e os negadores está longe de ser justo.
O debate científico se dá em Conferências e Congressos e, principalmente, por meio da literatura com revisão. São necessários vários meses para um artigo científico (que às vezes sintetiza resultados de anos de trabalho), após, às vezes, múltiplas idas e vindas de revisões, finalmente ser publicado (suas conclusões sendo geralmente restritas a um pequeno aspecto da ciência e, por ter de necessariamente ser apresentada de forma técnica, acessível a um público muito restrito de especialistas da própria área). Apesar de suas imperfeições (erros em artigos científicos podem, sim, ocorrer), do olhar não raro fragmentado, e de sua aparência geralmente obscura para o grande público, são – particularmente hoje em dia – as contribuições parciais, os pequenos avanços e retrocessos, que pavimentam o caminho para sólidas conclusões científicas.
A clareza de entendimento em torno da mudança climática atual, do papel antrópico determinante e do risco envolvido foi fruto dessa acumulação de evidências. Apoiando-se em conhecimentos mais fundamentais da Física, da Química, da Astronomia, da Biologia, da Geologia e das interfaces entre elas, e sobre uma colossal quantidade de dados, análises, modelos de diversos níveis de complexidade é que a Ciência do Clima erigiu seu edifício. Nesse contexto, quando as peças se encaixam, a quantidade (as múltiplas informações parciais, mas convergentes) se transforma em qualidade (a “Big Picture”), no quebra-cabeça montado, demonstrado várias e várias vezes nos relatórios de avaliação do IPCC.
Por outro lado, os negadores não seguem as regras do debate e do método científicos. Pelo contrário, atacam-nos, sem cerimônia. É possível fazer qualquer afirmação tresloucada em um blog, em uma palestra, em um “debate” (desses que mais parecem debate eleitoral) ou em uma aparição na mídia. A liberdade para mentir, fantasiar, tergiversar nesses casos é quase infinita e para quem tem compromisso com a verdade científica, é difícil dar conta até de uma pequena parcela dessas mentiras, falsificações e tergiversações. Explicar porque determinada afirmação é falsa dá muito mais trabalho do que fazê-la. Desnudar inveracidades, desmistificar o “cherry-picking” (o ato de escolher um dado entre mil que aparentemente serve de base para uma dada afirmação), localizar sofismas não é trivial no pouco tempo ou espaço que se tem nesse terreno. É desse terreno que os negadores gostam. É por meio dele, e não de um debate verdadeiramente científico e honesto, que eles tentam envenenar a opinião pública e os tomadores de decisão. Deveriam se envergonhar. Mas não! Nesse terreno, um negador que seja um orador (ou escritor) talentoso, cujo semblante não trema, mesmo quando faz afirmações obviamente mentirosas como “o efeito estufa não existe” ou “os modelos de clima não consideram as correntes oceânicas”, deita e rola.
Poucos cientistas, portanto, terminam por entrar nessa arena de gládio, para encararem o vale-tudo dos negadores. Individualmente, nada se ganha ao fazê-lo, pelo contrário. Perde-se tempo e energia que poderia estar sendo dedicada à pesquisa e à produção científica (que infelizmente é avaliada segundo métricas quantitativas que nem sempre refletem a real contribuição à ciência). Há também os cientistas que acham que não é seu papel popularizar a ciência ou sequer combater a pseudo-ciência e a anti-ciência junto ao público. Por fim, há um fator que não se deve desprezar. Pela virulência dos ataques e pelo grau acentuado de desonestidade dos negadores, muitos dos meus pares simplesmente preferem não lutar no terreno deles. É preciso, realmente, muito estômago!
Mas felizmente, os negadores têm um adversário à altura, que não precisa, como nós, caminhar sobre ovos! Um adversário duro, bruto, que vai direto ao assunto, que não se intimida, que não faz juízo de valor, que não tem ideologia. É esse adversário, e não o IPCC e o restante da comunidade da Ciência do Clima, quem tem feito o contraponto mais cristalino aos negadores. Chama-se Natureza! Esta não tem de se preocupar em testar múltiplas vezes suas próprias hipóteses, nem em revisar, em um processo lento, uma análise sobre suas próprias leis. Ela simplesmente é. Simplesmente se comporta de acordo com suas próprias regras. Simplesmente faz! E bate duro na negação!
Chequemos, portanto, o que a Natureza nos tem afirmado. No que diz respeito às projeções do IPCC de temperatura, feitas quando da preparação do seu 4o relatório, estas têm-se confirmado de forma bastante clara, como mostra a Figura a seguir, obtida em http://www.realclimate.org/index.php/archives/2012/02/2011-updates-to-model-data-comparisons/.
Comparação das projeções de temperatura dos modelos do IPCC com observações
A região cinza nessa Figura representa a faixa de projeções do conjunto do IPCC (de tal modo que 95% das previsões se encontra dentro dela). A linha preta é a média delas. As linhas coloridas representam observações da temperatura média global, de acordo com 3 centros de pesquisa. Baixa atividade solar e ocorrência mais frequente de La Niñas (situação em que o Pacífico Equatorial esfria) nos últimos anos podem ter diminuído a velocidade do aquecimento verificada nos anos 90, mas o que assusta é que, em condições como as dos últimos anos, nós deveríamos ter observado um resfriamento do sistema terrestre! Ou seja, ficamos com o nó na garganta, esperando o que pode vir no próximo período em que uma maior atividade solar coincidir com uma maior frequência de El Niños (quando o Pacífico Equatorial se aquece)… Tudo indica que, neste caso, ao invés de aumentarem num ritmo um pouco abaixo, mas próximo ao da média do conjunto dos modelos do IPCC, as temperaturas voltem a mostrar um aumento pronunciado.
Na verdade, mesmo que tivéssemos observado uma constância nas temperaturas ou mesmo um ligeiro resfriamento nos últimos anos, isso não poderia servir de argumento para os negadores! La Niñas e sol pouco ativo deveriam ter servido para resfriar o planeta, o que obviamente não aconteceu em função da contribuição antrópica. As figuras que mostro a seguir são para explicar, de forma didática, a sobreposição dessas duas contribuições (natural e humana). Os processos naturais, a princípio, poderiam ser considerados cíclicos, ou quase cíclicos. Há muitos ciclos, de diferentes frequências e uma boa dose de “caos” (que dá um cara de aleatoriedade a alguns processos climáticos), mas por simplicidade, assumiremos uma oscilação simples, com a temperatura subindo durante alguns anos, descendo nos anos seguintes, depois voltando a subir, e assim por diante, como na figura abaixo.
Representação idealizada da variação “puramente natural” de temperatura
Mas existe a contribuição do homem, que é obviamente de aquecimento (como já discuti, acumular CO2 e outros gases de efeito estufa na atmosfera não tem como produzir outra coisa!). Isso seria representado por uma curva ascendente, isto é, com a temperatura sempre subindo. Como a contribuição antrópica tem-se acelerado, um gráfico da contribuição “puramente humana” poderia ter a aparência desta curva aqui:
Representação simplificada da contribuição antrópica para a mudança de temperatura
Somando as duas contribuições, isto é, a “natural”, representada pela primeira curva e a “antrópica”, pela segunda, o que se verifica é algo bastante interessante, ilustrando em parte o que já se viu e em parte o que se deve esperar no futuro. No começo (faixa azul), o sinal humano é muito pequeno e as oscilações naturais dominam por inteiro. No período imediatamente posterior, as oscilações naturais ainda se destacam, mas o sinal humano cresce, tornando-se discernível, mesmo sendo ainda relativamente pequeno. Em seguida (faixa laranja), temos algo como aumentos acelerados de temperatura, alternados com períodos de poucas variações. No meu ponto de vista, estamos ainda nessa fase, mas duas coisas devem ser ditas. No próximo ciclo em que o sinal humano e o sinal natural estiverem ambos contribuindo para o aquecimento (como no local indicado pela seta, em nossa caricatura abaixo), deveremos experimentar um aquecimento mais acelerado do sistema climático do que aquele verificado nos anos 90. Mais ainda! No período posterior (faixa vermelha), o sinal antrópico tende a ser dominante! Isso é representado pelo final do gráfico, em que mesmo quando tivermos condições naturais (sol menos ativo, ocorrência maior de La Niñas), o aquecimento praticamente não desacelera!
Representação do resultado da sobreposição dos efeitos natural e antrópico, indo de um estado dominado pelo fator natural até um estado dominado pelo fator antrópico
Mas são outros componentes do sistema climático terrestre que, por sofrerem menos influência de oscilações naturais de alta frequência do que a atmosfera, têm-se mostrado ainda mais veementes ao “negarem a negação”.
Comparemos primeiro as projeções de elevação do nível do mar com o que tem acontecido na realidade. É fácil verificar que apenas o modelo mais “pessimista” ou “catastrofista” (não gosto desses juízos de valor) tem acompanhado a realidade (vide http://www.global-warming-forecasts.com/resources/sea-level-increase.png , reproduzida abaixo e http://www.skepticalscience.com/images/SLR_models_obs.gif). Nessa figura, as observações (representadas pelas linhas vermelha – marégrafos – e azul – satélite) estão sistematicamente acima da faixa cinza, que contém a maioria das projeções de modelos. Outro processo que tem mostrado uma realidade pior do que a das projeções do último relatório do IPCC é a do degelo do Ártico, como mostrado em http://www.realclimate.org/images/seaice11.jpg e aqui reproduzido. O degelo real (linha vermelha) tem sido mais acelerado do que qualquer projeção dos modelos (várias outras linhas). Ainda que, nesses dois casos, outros processos que não o aquecimento global antrópico possam ter contribuído para acelerar as mudanças (elevação do nível do mar e degelo) para além das piores projeções feitas pelo IPCC, a Natureza tem falado alto. A humanidade, ridiculamente, faz ouvidos moucos.
Comparação das projeções de elevação do nível do mar dos modelos do IPCC com observações
Comparação das projeções de degelo do Ártico dos modelos do IPCC com observações
Um dos paleoclimatologistas mais respeitados do mundo e um cientista de atuação inspiradora e contangiante, o Prof. Richard Alley, da Pennsylvania State University, costuma colocar a questão de forma muito simples. A realidade pode, sim, não ser tão ruim quanto a apresentada pelo IPCC que é baseada, como mostrei em meu texto anterior (http://www.facebook.com/notes/alexandre-ara%C3%BAjo-costa/a-nega%C3%A7%C3%A3o-das-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-e-seu-desprop%C3%B3sito-versus-a-objetividade-e-ati/399810206727544), em estimativas médias de várias quantidades, processos e fenômenos. Mas é fundamental dizer que existe a mesma chance de ser ainda pior e se o que mostrei podem não ser indícios totalmente claros nesse sentido, deveriam ao menos servir de alerta! Não agir para reduzir globalmente as emissões de gases de efeito estufa é, em tais condições, uma postura de total irracionalidade, irresponsabilidade e desprezo para com os direitos e aspirações das gerações futuras!












“A exaustão dos recursos naturais não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. […] A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas […] são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas”.
Essa fissura não se limita à questão do “nordeste”, mas é ainda mais importante, ainda que menos saliente, na própria questão do clima. Somos levados a crer todo o tempo que o clima que importa está em algum outro lugar, e que só é acessível através da mediação de especialistas e equipamentos. Obviamente isso ocorre de fato, mas há efeitos deletérios nessa alienação entre os indivíduos e o meio ambiente: a questão passa a ser entendida como problema distante, vivido apenas de forma abstrata. Isso gera a atitude caracterizada pela ideia de que “eu não tenho nada com isso” – o que é exatamente o que o personagem do filme diz à avó quando percebe que esta espera que ele vingue a morte do pai. De certa forma, ele vivia a sua própria relação familiar de forma alienada, como algo abstrato, virtual, e as contingências da vida o obrigam a enfrentar a incontornável materialidade dos contextos locais. A crise ambiental atual nos confronta com esta materialidade incontornável. Se o personagem vivesse as suas relações familiares de forma mais integral, talvez o destino de todos ali fosse outro. Há responsabilidades que nos implicam, mas que não escolhemos – algo difícil de aceitar no contexto liberal em que vivemos. Mas a analogia acaba por aqui: felizmente não há morte alguma a ser vingada na questão climática (ou haverá?).
Desta forma, na imaginação artística o sertão funcionou, ao longo dos últimos dois séculos, como o “outro mundo” onde há liberdade em contraposição aos controles que marcam as sociedades urbanas, e onde há mais autenticidade, o que pode ser encarado por um viés romântico (como vemos em José de Alencar, por exemplo) ou onde coisas impensáveis podem ocorrer, numa espécie de mirada conradiana [referente a elementos da obra do escritor britânico Joseph Conrad (1857-1924), autor de Coração das trevas]. Mesmo com o Cinema Novo, onde há uma sociologização mais intensa do sertão, esse não deixa de ser espaço de liberdade e experimentação, como vemos em Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Mas é preciso que se diga que isso tudo marca uma perspectiva de quem olha de fora. O sertão não é uma coisa, são muitas.
Além disso, nossa percepção do ambiente é visceralmente marcada por nossas perspectivas contextuais. Uma pesquisa que coordenei a respeito das respostas sociais e culturais às secas do ano de 2005 – um ano em que houve secas na Amazônia, no Nordeste e no sul do Brasil – mostrou que as populações locais não pensam o meio ambiente como algo desconectado das demais dimensões da vida; como tais dimensões são variáveis, a percepção do ambiente o é também. Os resultados da pesquisa foram publicados no livroDepois que a chuva não veio, disponível em texto integral na Internet. O problema é que os governos centrais, como o federal, no Brasil, têm a tendência a homogeneizar tudo com o qual se relacionam, ignorando os contextos locais; e a ciência climática tende a pregar que o contexto local e o clima não têm relação causal direta (especialmente quando estão contestando a capacidade do conhecimento tradicional de produzir previsões climáticas válidas). No que diz respeito às relações entre sociedade e clima, vivemos uma situação verdadeiramente neurótica. O meio ambiente pode inclusive ser uma forma de eufemizar uma discussão demasiadamente sensível em termos políticos e sociais. Um manual de infoativismo editado na Inglaterra, por exemplo, sugere que personagens em forma de animais sejam usados em campanhas públicas em que questões politicas sensíveis dificultem a comunicação através de exemplos humanos.
As diferenças culturais não devem ser entendidas como obstáculo às ações relacionadas à crise ambiental. Pelo contrário, são recursos importantes. É interessante observar como a biodiversidade é hipervalorizada, ao ponto de ser fetichizada, e ao mesmo tempo a diversidade de formas humanas de ser e estar no mundo é desvalorizada – por exemplo, quando se acredita, com as melhores intenções, que é preciso “educar” as pessoas que praticam queimadas para plantio, por exemplo, para que “entendam” os efeitos deletérios de algumas de suas práticas cotidianas. Projetamos o problema sobre os outros, sem perceber que esse nosso foco em informação e no pensamento, ou seja, ao diagnosticar tudo como “falta de informação” ou diferentes “formas de pensar”, é parte fundamental do problema. Tudo ficou cibernético demais, de forma que as questões morais e éticas nos escapam muito facilmente.
No meu entender, o que sobressai nesta questão da participação social e da multiplicidade cultural é o fato de que é preciso que os ocidentais, e nós, ocidentalóides, entendamos que há dimensões do problema que transcendem a materialidade e o utilitarismo. A exaustão dos recursos naturais, por exemplo, não será resolvida enquanto os padrões de subjetividade ocidentais não forem incluídos como parte fundamental do problema. Não adianta criar esquemas institucionais para evitar a “tragédia dos comuns”, por exemplo, sem lidar com os temas da satisfação e da responsabilidade. A insatisfação crônica do cidadão ocidental, e a forma irresponsável com que se relaciona com as coisas (ao pagar os governos municipais para “sumir” com o nosso lixo, sem que nenhuma pergunta seja feita, de modo que não precisemos pensar mais nele, por exemplo), são coisas tão importantes quanto a discussão sobre matrizes energéticas.
– sustentabilidade: o que exatamente se está tentando sustentar? Precisamos pensar a “mutabilidade” tanto quanto sustentabilidade. É muito difícil mudar o (insustentável) sistema econômico em que nos encontramos, e é preciso atentar para o fato de que, sob a fachada de “sustentabilidade”, há um esforço imenso de mudar apenas o que é necessário para que nada mude no final. O mercado de carbono é o exemplo paradigmático disso. Ou seja, em geral os debates sobre sustentabilidade (e sobre adaptação, resiliência etc.) são conservadores e insuficientes.
Multilateral processes to make life on earth sustainable such as the UN talks on climate change have been moving at a snail’s pace.
“It’s one thing to have climate in the standards and assessments, and another thing altogether to make sure the teachers are well prepared, are not teaching the debate, if they teach about climate change at all, and are using effective practices,” said Mark McCaffrey, the center’s program director.
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